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São Paulo, 8 a 12 de setembro de 2014.
ISBN: 978-85-7506-232-6
ESTUDO COMPARADO ACERCA DA IMPLANTAÇÃO DE
HIPERMERCADOS E SHOPPING CENTERS EM
METRÓPOLES REGIONAIS: CURITIBA (BRASIL) E SAN
MIGUEL DE TUCUMÁN (ARGENTINA)
Ana Caroline de Oliveira Chimenez
Graduanda do curso de Geografia da Universidade Federal do Paraná
[email protected]
Anna Paula Scherer Lino
Graduanda do curso de Geografia da Universidade Federal do Paraná
[email protected]
INTRODUÇÃO
Os anos de 1970 são apontados por Harvey (1992) como ponto de inflexão e
reestruturação da economia mundial. A partir desse período houve notória transformação
nas formas de produção e gestão de cidades, a medida que o sistema econômico inseria-se
no modelo de acumulação flexível. Tais mudanças culminaram no viés empreendedorista de
conceber a cidade e as políticas urbanas. Logo, o empreendedorismo urbano assumiu a
centralidade na formulação da política urbana e nas estratégias de desenvolvimento
contribuindo para que as governanças urbanas passassem a ter ações mais empresarialistas
do que administrativas, devido às dificuldades enfrentadas pelas economias capitalistas e à
capacidade declinante do Estado-Nação (HARVEY, 2006).
Assim, apesar de tais estratégias funcionarem sob a mesma lógica neoliberal, a
diferenciação entre as mesmas se dá pelo fato de as relações interurbanas instigarem à
concorrência já que as cidades passam a disputar a atração de negócios e indústrias,
mão-de-obra qualificada, bem como qualidade de serviços a fim de enquadrarem nos
padrões impostos por estas novas demandas das empresas.
Na atualidade, a dinâmica da economia urbana se caracteriza pela implantação
de equipamentos urbanos de capital ou de lógica internacional. Anteriormente, os capitais
internacionais voltavam-se mais às atividades industriais – porém contemporaneamente
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estes estão relacionados à implantação de equipamentos de consumo voltados ao setor
terciário, como shopping centers, hipermercados, rede hoteleira, entre outros. Assim,
transformações no espaço urbano decorrentes dessa inserção, como o reforço e/ou criação
de novas centralidades, o enfraquecimento de dinâmicas comerciais de menor porte e
tendência à homogeneização de valores culturais e hábitos de consumo, adquirem destaque
na dimensão intra-urbana (FERREIRA, et al., 2011). Há ainda a conversão das relações de
caráter interurbano, que remodelam a ação das cidades na rede urbana nacional e mundial
e destacam mercados não totalmente explorados, que se tornam alvos de investimentos.
Em
confluência
internacionalização,
aqui
com
entendido
tais
reflexões,
como
um
relaciona-se
processo
capaz
o
de
conceito
de
desencadear
reestruturações socioeconômicas e urbanas, tendo em vista que permite a rápida conexão
entre os interesses globais e locais. Com a influência da internacionalização, o papel das
cidades se altera e, dentre elas o das metrópoles regionais, que passam a apresentar
características cada vez mais próximas àquelas da reestruturação capitalista mundial:
articulam mudanças locacionais e inovações tecnológicas por meio da reconstrução
tecnoprodutiva do capital à escala global e as políticas de ajuste neoliberal para ampliar
seus mercados (CÓRDOBA, 2008, p.20).
Desse modo, o poder público e os instrumentos de gestão e planejamento
urbano, portam-se como reguladores do ritmo dessa transformação às novas realidades,
culminando na promoção de estratégias como o city marketing para atração de capitais e
fomentando as atividades ligadas às funções metropolitanas, destinando-as ao atendimento
das demandas das empresas e do consumo da população nelas envolvidas, em detrimento
do “pensar” a cidade em sua totalidade.
A inserção de objetos de lógica internacional em centros urbanos também
promove a homogeneização de lugares. Assim, grandes cidades passam a ser cada vez mais
parecidas entre si quando se observa elementos de sua vida cotidiana, na medida em que
são, em sua maior parte, as mesmas empresas e/ou grupos que produzem seus espaços no
que tange à equipamentos urbanos de consumo.
Todavia, o vislumbrar, em um primeiro momento, de relativa homogeneização
está presente apenas em determinadas áreas, já que de acordo com a reflexão de Corrêa
(2013, p. 7): “O espaço da cidade capitalista, particularmente da grande cidade,
caracteriza-se entre outros aspectos, por ser fragmentado, o que dá origem a um mosaico
irregular, com áreas de diferentes tamanhos, formas e conteúdos e assim geradas por
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distintos processos espaciais e agentes sociais”. Tal mosaico irregular, fruto da produção
capitalista do espaço, também possui particularidades sendo, uma delas, a divisão por áreas
sociais. Estas, no entanto, caracterizam-se por ter relativa homogeneidade interna, mas
heterogeneidade entre elas.
Desse modo, no atual contexto urbano, a partir, do crescente processo de
internacionalização de cidades somado entre outros fatores, a forma empreendedorista de
gestão das cidades,– que toma o lugar do planejamento urbano mais abrangente,
procrastinado – produz-se cidades fragmentadas e desiguais, reflexos de intervenções
pontuais e de gestões que favorecem os interesses do grande capital em detrimento de
problemáticas urbanas conjunturais que primem por equidade social.
A partir das reflexões do presente trabalho, espera-se elucidar algumas questões
referentes ao processo de internacionalização em metrópoles regionais como Curitiba
(Brasil) e San Miguel do Tucumán (Argentina) a partir da implantação de shopping centers e
redes de hipermercados de origem estrangeira. Nesse sentido, a elaboração do estado da
arte do presente trabalho caracterizou-se por privilegiar conceitos como de mundialização,
internacionalização, metrópoles regionais, entre outras categorias relevantes.
MUNDIALIZAÇÃO, INTERNACIONALIZAÇÃO E METRÓPOLES REGIONAIS
Abordar os estudos urbanos a partir da análise multiescalar clássica na
Geografia (Lacoste, 1977) é imprescindível quando pretende-se analisar fenômenos
respeitando suas complexidades. O presente trabalho dialoga com as escalas local e global,
atribuindo principalmente ao processo de internacionalização a responsabilidade por
fortalecer esta lógica cada vez mais inserida nas grandes cidades e, neste caso, nas
metrópoles regionais. Justamente por considerar tal complexidade, entende-se que não é
possível o esgotamento das discussões a respeito das metrópoles regionais no contexto sul
americano a partir deste trabalho. Todavia, priorizar-se-á nesta parte a breve interligação de
conceitos já conhecidos e que cabem na presente reflexão, como a categoria de
mundialização, internacionalização, a atribuição da cidade como “negócio” e, por fim, o
acúmulo teórico a respeito das chamadas metrópoles regionais.
Carlos (2012) analisa o processo de mundialização a partir de duas escalas
principais que juntas reproduzem uma nova dinâmica espacial. A primeira escala é referente
às transformações internas da metrópole, como mudanças de seus setores produtivos
desencadeando em novas divisões espaciais do trabalho e também do próprio espaço. A
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substituição e fragmentação do setor industrial para dar lugar às atividades de serviços e
comércio, abarcando o maior viés empresarial da metrópole. A segunda escala refere-se ao
território, tendo em vista a redefinição da centralidade da metrópole. Resume-se,
principalmente, a importância do Estado enquanto interventor e regulador do espaço
urbano, criando possibilidades, flexibilizações, entre outras ações.
Nesse sentido, o processo de mundialização expressa a maleabilidade do
capitalismo, que se profere em planos cada vez maiores espacialmente Carlos (2012), sem
dissolver, no entanto, contradições, a medida que com a multiplicação de mercados e
integração de espaço, há a desintegração e declínios de outros. Desse modo, Carlos e
Carreras (2012) destacam que “sob o prisma da valorização do espaço, a mundialização,
como processo de extensão e aprofundamento da formação social capitalista, ocorre
desencadeando contradições novas as quais, via de regra, se sobrepõem as contradições
preexistentes, implicando metamorfoses do espaço” (CARLOS e CARRERAS, 2012, p.8). É
possível relacionar tais contradições como sendo provenientes de um sistema de ações
Santos (2009), atribuindo ao mesmo a ideia de escala de realização das ações e escala de
comando das ações. Estas estão cada vez mais distantes e incoerentes com a lógica do
lugar.
Assim, “muitas das ações que se exercem num lugar são o produto das
necessidades alheias, de funções cuja geração é distante e das quais apenas a resposta é
localizada naquele ponto específico da superfície da Terra” (SANTOS, 2009, p. 80).
Ressalta-se, portanto, a partir desse distanciamento e “esquizofrenia no processo criador
dos eventos”, (Santos, 2009, p. 62), uma alienação local (pensamento próximo dos chamados
atores decididores e o homem comum).
O
processo
de
urbanização
contemporâneo
é,
sobretudo
nos
países
subdesenvolvidos e naqueles considerados em desenvolvimento, conhecido como gerador
de diferentes contradições. Carlos (2012) analisa uma das mais preponderantes
problemáticas, em que a metrópole, mesmo contendo alto grau de integração –
considerando o viés econômico -, também apresenta a desintegração das particularidades
da vida cotidiana, dos lugares, do comércio local que muitas vezes se apresenta como
territorialidade e local de encontro e o “empobrecimento das relações sociais (como aquelas
de vizinhança)” (CARLOS, 2012, p.31).
A segunda e não menos importante problemática que a autora aborda refere-se
a metrópoles que se erguem cada vez mais “sinalizando a importância do espaço enquanto
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valor de troca” (Carlos, 2012, p.31), ou seja, a concepção da cidade enquanto um “negócio”.
Tal percepção, advinda da globalização econômica e reestabelecida com processos como de
mundialização e internacionalização da cidade, relega o espaço do cotidiano a um segundo
plano, ao caráter de “improdutivo”, não submetido nem a troca, nem a valorização. Nesse
sentido:
Os processos de globalização não ocultam a fragmentação do espaço,
fundamento da segregação da metrópole tendo como pano de fundo o processo
de desconcentração industrial-centralização financeira. Neste sentido, o
processo urbana não sinaliza um movimento que irá do local ao global, mas uma
articulação de níveis justapostos, tendo a metrópole como mediação entre eles
(CARLOS, 2012, p. 31).
Atribui-se ao processo de internacionalização como sendo uma das expressões
da
previamente
citada
mundialização.
Advindo
da
relação
entre
a
dimensão
político-econômica de uma dada região com o interesse de mercados multinacionais,
internacionais, transnacionais em absorver os mercados emergidos nesses espaços. Deste
modo, no processo de internacionalização:
[...] encontramos o planeta transformando-se em uma grande empresa global,
onde se identifica e se generaliza o processo produtivo, subordinando o
mercado, a força do trabalho, o planejamento governamental e toda a
ordenação do território a essa nova ordem de expansão das grandes empresas
capitalistas pelo planeta (CAMARGO, 2005, p. 127).
Assim, a partir das reflexões de Carreras (2012), é importante considerar os
efeitos da internacionalização do mercado e do consumo. Além do viés já privilegiado neste
trabalho, a inclusão de equipamentos do setor terciário advindos de lógica internacional
como shopping centers e redes de hipermercados, destaca-se a internacionalização do solo
urbano. Tradicionalmente inserida no âmbito local, regional e nacional, hoje o solo urbano
tem sua lógica de mercado também ampliada para um mercado global. Considerando a
cidade como lugar de expressões da sociedade, inclui-se que “as contradições entre o local e
o global aparecem assim como um dos temas de estudo mais relevantes nas grandes
metrópoles e na maior parte das cidades e territórios, levando à necessidade de
investigação das estratégias das companhias imobiliárias internacionais e da concorrência
entre cidades” (CARLOS, 2012, p.27).
Nesse sentido, destaca-se as ponderações a respeito do conceito de “metrópole
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corporativa” feitas por Santos (2009), que se aproxima lucidamente da dialética a respeito
das
metrópoles
e
metrópoles
regionais
que
adquirem
feições
de
ideologias
desenvolvimentistas, atentas quanto a subtração das chamadas “deseconomias urbanas”,
aqui consideradas como o comércio local, informal, relações de troca e demais práticas que
não condizem com a reprodução macro do capitalismo. Desse modo, elucida-se quanto a
este conceito de metrópole:
Na
cidade
corporativa,
o
essencial
do
esforço
de
equipamento
é
primordialmente feito para o serviço das empresas hegemônicas; o que
porventura interessa às demais empresas e ao grosso da população é
praticamente o residual na elaboração dos orçamentos públicos. (SANTOS, 2009,
p.109).
Quanto às metrópoles regionais, as mesmas podem ser consideradas, para o
caso brasileiro, como cidades com mais de 1 milhão de habitantes que abrigam atividades
econômicas diversificadas, mas possuem uma área influência menor que a das metrópoles
nacionais. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística classificou em 12 as metrópoles
brasileiras, ou seja, os principais centros urbanos do país, que, por sua vez, possuem fortes
relacionamentos entre si e grande área de influência direta. Dentro da definição de
“Metrópoles” há ainda três subgrupos.
O grupo “Grande metrópole nacional” (que tem São Paulo como representante
absoluta), “Metrópole nacional” (Rio de Janeiro e Brasília) e, por fim, a categoria de
“Metrópole” formada por Curitiba, Manaus, Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo
Horizonte, Goiânia e Porto Alegre. Cada cidade exerce uma centralidade e possui uma rede
de alcance específica.
No caso de Curitiba, de acordo com o IBGE (2008), sua rede reúne 8,8% da
população do País e 9,9% do PIB nacional. Nesta cidade concentram-se 18,6% da população
e 23,5% do PIB da rede.
Em relação à Argentina, San Miguel do Tucumán está inserida em uma
organização espacial diferenciada, a partir de províncias. Todavia, a mesma exerce papel
influente, sendo o centro da região denominada como noroeste argentino. A cidade conta
com mais de 79% de seu território urbanizado, segundos dados do Censo Nacional
Argentino de 2001. Ainda segundo o Censo, Tucumán tem por volta de 527.607 habitantes
(39.4% da população total da província), número que aumenta durante o dia em mais de
600.000 pessoas devido a população que se encontra em trânsito.
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CURITIBA E SAN MIGUEL DO TUCUMÁN: PLANEJAMENTO URBANO E
ASPECTOS SOCIOECONÔMICOS
Considerando-se as metrópoles de Curitiba (Brasil) e de San Miguel do Tucumán
(Argentina), deve-se destacar que o planejamento urbano da primeira caracterizou-se,
sobretudo a partir da década de 1990, como um exemplo do planejamento estratégico
fundamentado no empreendedorismo urbano. A partir deste período, Curitiba passou a
aproximar os interesses locais aos globais e inseriu-se no contexto de cidades
contemporâneas apoiada no discurso de vanguarda envolvendo o planejamento urbano
derivado de propostas do Plano Preliminar de Urbanismo de 1965 (BRANDENBURG e
CHIMENEZ, 2013).
Segundo Oliveira (2000), o período entre 1971 e 1983 ficou conhecido pela
eficiência técnica devido à materialização das estratégias do plano de 1965 (também
conhecido como Plano Serete) e da implementação do Sistema Trinário, do Plano Massa e
da Rede Integrada de Transporte. Entre 1988 e 1992 Curitiba passou a ser reconhecida pela
ênfase das intervenções de ordem estética e pelas políticas ambientais. Sendo assim, no
contexto da competitividade, o diferencial da cidade enquanto mercadoria passa a ser
atribuído à solução de problemas urbanos frequentes em países em desenvolvimento,
como o caso do transporte público e da qualidade de vida.
Sendo assim, apesar de se acentuarem os conflitos urbanos principalmente a
partir da década de 1990, “a despeito do esgotamento do Plano Diretor, persiste a mística de
uma cidade planejada” (OLIVEIRA, 2000, p.61), proveniente principalmente da construção de
equipamentos urbanos simbólicos como parques, praças, equipamentos de infraestrutura
para mobilidade como as estações-tubo aliados a estratégia de city marketing, que exaltam
sempre a imagem de e bem planejada que Curitiba possui.
Já quanto aos aspectos estruturais de San Miguel do Tucumán, o código de
planejamento urbano da cidade está organizado em nove capítulos sendo, em resumo: Área
de atuação da legislação e da aplicação, definição de termos técnicos, zoneamento e
delimitação dos Distritos, disposições gerais e específicas para o uso do solo urbano em
cada distrito, disposições gerais referentes a edificação em todos os Distritos, disposições
específicas referentes a edificação para cada Distrito, disposição urbanística e de edificação
para casos especiais, penalidades e, por fim, revogação de normas.
Ainda quanto ao planejamento urbano de San Miguel de Tucumán, destaca-se
que a cidade é composta por três zonas claramente diferenciadas. A primeira delas é a área
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central, caracterizada como o centro histórico da cidade. É uma área importante do ponto
de vista funcional e simbólica, centro de dinamismo, vitalidade e concentração de serviços.
A área central está rodeada por um anel central, constituída pelas vizinhanças
que surgiram independentemente da estrutura original, mas com a expansão da cidade esta
parte foi totalmente integrada a feição urbana. Esta área permanece e amplia a estrutura da
área urbana central e perdurou com as suas características em tempo de baixa densidade
residencial mista, tendo incorporado apenas em isolamento próprios novos modelos
formais da evolução histórica. Tal zona continuou com a estrutura urbana da área central e
manteve com o passar do tempo suas características de abrigar residências mistas de baixa
densidade, incorporando bem pouco os novos modelos formais de estrutura urbana.
A terceira faixa, caracterizada por ser a área periférica, é o limite da formação
urbana de San Miguel do Tucumán. É assinalada por ser a área de maiores contrastes
devido a coexistência de níveis extremos tanto econômicos quanto sociais. Tal fator reflete
visivelmente na paisagem urbana que apresenta-se bastante desigual. A estrutura urbana
predominante se diferencia dos demais setores por conter também vazios urbanos
consideráveis.
A INFLUÊNCIA DA INTERNACIONALIZAÇÃO DOS EQUIPAMENTOS
URBANOS DE COMÉRCIO E CONSUMO EM CURITIBA E SAN MIGUEL
DE TUCUMAN
A partir dos anos de 1970 e, sobretudo, da década de 1990, pode-se afirmar que
dinâmicas decorrentes da globalização intensificaram processos de reestruturação da
economia mundial. De acordo com Harvey (1992), diante do tenro período de novas formas
de produção além da transição do regime fordista-keynesiano para o modelo de
acumulação flexível, promoveram-se modificações no paradigma da gestão das cidades,
passando do administrativismo para o empreendedorismo urbano. Para o autor, este novo
tipo de gestão urbana visualiza a cidade como uma mercadoria, onde ocorre a promulgação
e construção de uma imagem de cidade “atrativa” e favorável para a instalação de empresas
e consumidores estrangeiros. Conforme Sánchez (2010) apud Harvey (1993):
A condução das políticas para a preservação e a ampliação de um “bom
ambiente de negócios” está orientada não apenas para a atração de
investimentos ligados à esfera da produção, mas também para a atração de
consumidores externos e para a ampliação dos níveis de consumo interno
(SÁNCHEZ, 2010, p.59).
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Destarte, apesar de tais paradigmas conterem a mesma lógica neoliberal, no
entanto, divergem-se pelo fato das relações interurbanas passarem a fomentar a
concorrência, fazendo com que as cidades disputem entre si pela atração de negócios e
indústrias, mão-de-obra qualificada, bem como qualidade de serviços com a finalidade de
adequação aos padrões impostos pelas demandas vigentes das empresas.
Partindo deste pressuposto, Córdoba (2008) indaga que a emergência desses
recentes modelos de gestão e política urbana, aliado a entrada das cidades na competição
por investimentos mostra-se como uma estratégia de modernização urbana, provocando
relevantes transformações na lógica das cidades. Portanto, com o recebimento e
implantação de novos serviços, decorre-se a criação de novas funções metropolitanas, cujas
são, conforme Firkowski (2004):
Destinadas ao atendimento da demanda das empresas e ao consumo da parcela
da população a elas associadas, que exigem produtos e serviços diferenciados,
de oferta mundial. Para se adequar a essa realidade a cidade passa por uma
reformulação nas atividades existentes. Trata-se, portanto, da possibilidade de
expansão para muitas empresas, de atuação internacional, atraídas pela
potencialidade de novos mercados (FIRKOWSKI, 2004, p.95).
Nesse contexto, Santos (1996, p.258-261) adverte para o sentido de que a
modernização contemporânea incide na mundialização dos lugares, havendo lugares
globais simples e lugares globais complexos, cujos, divididos em dois setores de produção –
o de cima e o de baixo – produzem e constroem as relações de trabalho. Dessarte, nos locais
simples, implantam-se pontuais objetos da modernidade atual. Nos locais complexos,
coincidentes com as metrópoles, dissipam-se os vetores que representam e até mesmo
contradizem as lógicas hegemônicas.
Sendo assim, na medida em que são realizadas tais reformulações nos tipos de
serviços, atribuições e modos de produção das cidades, as dinâmicas internacionalizadas
fortalecem-se ainda mais. Todavia, o desenvolvimento dos serviços é determinado pelo grau
de representação da cidade na rede urbana nacional. Por consequência, alguns serviços são
destinados a atender os mercados regionais, enquanto outros são voltados para as escalas
mais amplas de atuação. Desse modo, Firkowski (2004) afirma que:
Os altos preços e níveis de lucro mais elevados dos setores internacionalizados
acabam fazendo com que seja difícil a permanência e competição de outros
setores que não sejam internacionais (SASSEN, 1998). Foi assim que se
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processaram importantes transformações em setores como o hoteleiro, o
comércio varejista (ora representado pelos hipermercados e shopping centers) e
os serviços corporativos (FIRKOWSKI, 2004, p.95).
Neste contexto, Santos (1996) afirma que o Estado contém importante papel no
que se refere á estruturação e implantação desses novos equipamentos e serviços, pois em
busca da modernidade e voltado á estratégias que priorizam e privilegiam determinados
atores, há a relegação dos agentes (pequenas empresas, instituições com pouca
infraestrutura, entre outros) que não se enquadraram nas novas dinâmicas econômicas e
demandas do mercado. De acordo com Firkowski (2004), o resultado destas seccionadas
escolhas
produzem
transformações
na
escala
intra-urbana
e
interurbana,
pois
respectivamente, estimula ainda mais as contradições sociais e econômicas existentes e
altera o papel das cidades na dimensão da rede urbana mundial e local (FIRKOWSKI, 2004,
p.95).
Aliado a isto, implica-se também o fato das legislações, no que tange a
implantação dos equipamentos comerciais que exigem a utilização de grandes espaços,
além do controle da monopolização do comércio, tanto em Curitiba – conforme Ferreira et
al. (2012) – como na Argentina, e isto inclui San Miguél de Tucumán – segundo Di Nucci
(2009) – apresentam falhas e pouca rigorosidade em determinar as áreas de instalação e o
controle do monopólio do capital no mercado varejista.
Portanto, infere-se que as mudanças referentes ao novo caráter dado á lógica
das cidades no âmbito local e mundial, implicam-se como coroário dos processos de ajuste
as políticas neoliberais, reconstrução tecnoprodutiva do capital e globalização, descrito
segundo Di Nucci (2009, p.3) apud Ortega (1993, p.3) caracterizadas “por la excessiva
concentración de los medios de producción y comercialización así como la de los medios
financieros y de servicios en el plano mundial y nacional” (DI NUCCI, 2009, p.3).
Partindo deste pressuposto, a globalização das cidades torna-as lócus da
implantação de serviços modernizados, concentrando além do mais, atividades que
necessitam maiores serviços e níveis de infraestrutura. Consequentemente, tais atividades
geram mudanças locacionais e padronização dos equipamentos urbanos, localizados
diversamente pelas cidades do mundo.
Por conseguinte, pressupõe-se a centralização de serviços e equipamentos em
determinados espaços do território, onde há a priorização de certas áreas em detrimento de
outras. Deste modo, tal processo aliado á estratégias de caráter neoliberal e governança
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urbana empreendedorista com direcionamento á segmentados públicos – com maior poder
aquisitivo e de consumo – produzem, o que Milton Santos (2002) denomina de espaços
opacos e espaços luminosos. Ou seja, para o autor, tais espaços, de luminosidade e
opacidade seriam aqueles que:
Acumulam densidades técnicas e informacionais, ficando assim mais aptos a
atrair atividades com maior conteúdo em capital tecnologia e organização. Por
oposição, os subespaços onde tais características estão ausentes seriam os
espaços opacos. Os espaços luminosos, pela sua consistência técnica e política,
seriam os mais suscetíveis de participar de regularidades e de uma lógica
obediente aos interesses das maiores empresas (SANTOS, 2002, p. 264).
Trazendo para a análise da presente pesquisa, os espaços luminosos
constituem-se em aqueles que dentro da escala intra-urbana, englobam as áreas
geralmente mais próximas ao centro, que contém infraestruturas mais completas e
eficientes, além de diversificados tipos de serviços – neste estudo aos voltados às redes de
varejo – para atender á uma seccionada população consumidora, de maior poder aquisitivo.
Em suma, os espaços luminosos seriam os que conseguem suprir as necessidades técnicas,
de infraestrutura e os que contém equipamentos que promovam a atração de capitais e
investimentos externos, reforçando as centralidades existentes. Em contrapartida, os
espaços opacos são carentes de infraestrutura e de serviços que supram as necessidades da
população residente, restando á estas, deslocarem-se para os espaços luminosos a fim de
utilizar os serviços ofertados.
À vista disto, objetivando-se elucidar alterações decorridas no papel das cidades
dado reestruturação da economia mundial, utiliza-se no presente estudo de caso os
hipermercados e shoppings com capital de origem internacional entre os equipamentos
comerciais do setor varejista e de consumo. Objetiva-se analisar de que maneira tais
empreendimentos produziram e vem produzindo modificações no âmbito da paisagem
urbana de Curitiba (Brasil) e San Miguel del Tucumán (Argentina), visto que, cada vez mais,
ambas cidades caracterizam-se por “dinâmicas internacionalizadas e mundializadas, que
podem modificar significativamente a lógica das atividades existentes e constituir novas
centralidades, criando espaços homogêneos a partir de valores culturais e hábitos de
consumo” (FERREIRA et al. 2011, p.18). Identificar-se-á assim – tendo em vista que a pesquisa
encontra-se em estágio inicial – se há atuação dos mesmos equipamentos comerciais nas
respectivas cidades e de que forma estas ocorrem, no que se refere aos mecanismos e
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estratégias de comércio, implantação das lojas e venda dos produtos.
HIPERMERCADOS
A implantação das grandes redes de varejo de origem estrangeira nas
metrópoles de Curitiba e San Miguel de Tucumán pode ser denotada como um exemplo
caracterizador das dinâmicas de internacionalização nas cidades pós década de 1970. Estas
vêm utilizando como principais estratégias: a aquisição de redes de menor atuação e de
redes internacionais que não obtiveram êxito em suas implantações 1, ampliação do horário
de funcionamento, implantação do modelo de auto-serviço, diversos tipos de lojas com
variados produtos (importados ou não) de acordo com a demanda e poder aquisitivo de
cada clientela.
Consequentemente, promove-se então a monopolização do setor varejista pelas
grandes redes internacionais, no que se refere à aquisição e número de lojas, à distribuição
de mercadorias, preços e ordem de demanda aos fornecedores (FIRKOWSKI, 2004).
Conforme o quadro abaixo, torna-se evidente, sobretudo em Curitiba, o vasto número de
lojas e filiais que as mesmas empresas contêm nas respectivas cidades, com diversos
formatos e público-alvo.
Quadro 1: Análise comparativa referente à atual composição de redes varejistas transnacionais nos
municípios de Curitiba (CTBA) e San Miguel del Tucumán (SMT) e o ano de instalação das mesmas
nos seus respectivos países.
REDES
1
ANO DE
INSTALAÇÃO
CAPITAL DE
ORIGEM
NÚMERO DE
LOJAS EM CURITIBA
UNIDADES
LOJAS EM SAN
MIGUEL DEL
TUCUMÁN
Referente ao caso brasileiro da aquisição, na década de 2000 das lojas do Grupo Sonae (Big e Mercadorama) pelo
Grupo Walt Mart.
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BRA: 1987
ARG: 1982
Casino Guichard BRA: 1999
Perrachon
ARG: 1998
BRA: ----------Cencosud
ARG: 1982
BRA: 1972
Grupo SHV
ARG: 1988
Carrefour
BRA:1998
ARG: 1995
Walt Mart
CTBA: 2
Francês
SMT: 4
Francês
Chileno/Argentino
Holândes
CTBA: 6
SMT: 2
CTBA: 0
SMT: 11
CTBA: 1
SMT: 1
Carrefour e Market
Hipermercados
Supermercados
Pão de Açucar e Extra
Libertad
CTBA: 33
SMT: 4
Norte-americano
Carrefour
Hipermercado
Super Vea e Jumbo
Supermercados
Sem Lojas
Makro Atacado
Walt Mart
Mercadorama Big,
Todo Dia Maxxi
Sam's Club
Makro Atacado
Walt Mart Hiper e
Changomas
Fonte: Pesquisa direta, 2014. Organizado por: Anna Paula S. Lino.
Salienta-se ainda, mais duas premissas: a primeira é o fato de que as estratégias
citadas anteriormente não são utilizadas em exclusividade pelos grandes empreendimentos
internacionais e a segunda refere-se ao caráter centralizador de tais negócios.
Respectivamente, as grandes redes varejistas nacionais de hipermercados como no caso da
rede Condor, Muffato e Angeloni em Curitiba e da rede Emilio Luque em San Miguel del
Tucumán visando se enquadrarem nas demandas do mercado e permaneceram em
igualável nível de competitividade aderiram as novas formas de organização, produção e
vendas do comércio varejista. Ademais, inferindo-se à segunda premissa decorre-se que,
nas duas metrópoles os hipermercados e também shoppings (como será visto
posteriormente) localizam-se principalmente em suas áreas centrais e em bairros
valorizados das cidades.
SHOPPING CENTERS
Assim como no caso dos hipermercados, os primeiros shopping centers a serem
implantados nas cidades referentes ao estudo instalaram-se a partir de 1980. Ademais, os
agentes atuantes em cada município demonstraram-se divergentes, conforme o quadro 02.
Em Curitiba destacaram-se shoppings administrados por empresas do segmento
nacional, cujas, segundo Ferreira et al. (2011) possuem grande percentual de capital
internacional em suas organizações. Em San Miguel del Tucumán, até o atual andamento da
presente pesquisa, não encontraram-se dados ou informações dos grupos atuantes no setor
de administração dos shoppings.
Quadro 2: Análise comparativa dos empreendimentos de shoppings centers atuantes em Curitiba e
em San Miguel del Tucumán.
SHOPPING
INAUGURAÇÃO
GRUPO PERTENCENTE
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ATUA EM:
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Barigui
Curitiba
Crystal Plaza
Estação
Mueller
Palladium
Patio Batel
Portal Tucumán
Solar del Cerro
Yerba Buena
2003
1996
1996
1997
1983
2008
2013
S.I.
S.I.
S.I.
Multiplan (Nacional)
BRMALLS (Nacional)
BRMALLS (Nacional)
BR MALLS (Nacional)
Soifer (Nacional)
Tacla (Nacional)
Soifer (Nacional)
S.I.
S.I.
S.I.
Curitiba
Curitiba
Curitiba
Curitiba
Curitiba
Curitiba
Curitiba
San Miguel del Tucumán
San Miguel del Tucumán
San Miguel del Tucumán
S.I: Sem informações. Fonte: sites institucionais dos shoppings, 2014.
Em busca de se realizar uma breve e inicial comparação, destoaram-se
importantes características quanto a forma de organização e administração dos shoppings
nas respectivas metrópoles: os instalados na cidade de Curitiba marcam-se pelo elevado
número de lojas estrangeiras de alto e médio padrão no interior de seus empreendimentos,
cada um de acordo com a localização e público atendido. Tais shopping centers são
destinados à população de maior poder aquisitivo. Em contrapartida, os localizados em San
Miguel del Tucumán, de acordo com as informações fornecidas pelos sites institucionais dos
shoppings, possuem apenas algumas poucas lojas de atuação internacional, todavia, isto
não significa que o público-alvo dos empreendimentos tenham um poder-aquisitivo menor.
Vale destacar, que em alguns casos há a presença de grandes redes de hipermercados
dentro dos shoppings, como no caso do Yerba Buena e Portal Tucumán que contêm as
redes Jumbo e Supervea pertencentes ao Grupo Cencosud. Este aparente padrão não se
repete nos shoppings da cidade de Curitiba.
CONSIDERAÇÕES FINAIS E PERSPECTIVA DE CONTINUIDADE
A metrópole inserida na rede urbana mundial apresenta uma alteração no
controle dos empreendimentos, passando do local/regional para o internacional/global.
Com isso, verificou-se uma completa descaracterização das empresas de atuação local e
regional, que passaram a ser controladas por importantes grupos externos, revelando o
fortalecimento dos setores internacionalizados e seu peso no contexto da dinâmica
econômica recente. É importante sublinhar que as mudanças não se deram apenas no
âmbito da troca de controle, mas se irradiaram por toda a cadeia de fornecedores, na
medida em que os novos grupos trouxeram não só a modificação física das lojas, novos
métodos de trabalho, ampliação do horário de funcionamento, mas também significativas
alterações na composição do mix de produtos disponíveis, em que cada vez mais as grandes
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marcas de atuação global sobressaem, em detrimento daquelas de caráter local e regional,
tanto no âmbito dos produtos industrializados como no dos hortifrutigranjeiros (FIRKOWSKI,
2004).
Deve-se ressaltar que é inegável o percentual de empregos diretos e indiretos
que os dois ramos de atuação do setor terciário priorizados no presente trabalho
proporcionam às cidades que os abrigam. Contudo, esta breve reflexão objetivou atentar-se
às tensões identificadas, advindas da implantação destes equipamentos urbanos
relacionados muitas vezes à inação do estado, frente as problemáticas da cidade como um
todo. Nesse sentido, ressalta-se a importância das empresas como líderes de dominação e
expansão do capital no território, constituindo-se em importantes atores hegemônicos na
escala global.
Quanto à localização, as unidades distribuem-se em quase sua totalidade pelo
município de Curitiba e San Miguel del Tucumán, fortalecendo o caráter centralizador destes
municípios. Porém, muitos elementos ainda estão por ser estudados, necessitando-se voltar
o olhar para as dinâmicas recorrentes do setor terciário no interior e exterior da economia
urbana das cidades e entre as cidades.
Cabe assinalar que nesta etapa de capitalismo global, a diversificação e a
fragmentação territorial e social são inerentes aos processos de reestruturação econômica e
globalização pelo qual apresenta uma tendência de homogeneização de pautas, criando ao
mesmo tempo uma grande quantidade de fraturas e heterogeneização do espaço social. É
possível inferir que há o reforço de centralidades existentes, promovendo nas metrópoles
regionais analisadas certa concentração dos equipamentos urbanos aqui destacados dentro
dos limites do município onde está a cidade-polo.
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ISBN: 978-85-7506-232-6
ESTUDO COMPARADO ACERCA DA IMPLANTAÇÃO DE
HIPERMERCADOS E SHOPPING CENTERS EM METRÓPOLES
REGIONAIS: CURITIBA (BRASIL) E SAN MIGUEL DE TUCUMÁN
(ARGENTINA)
EIXO 1 – Transformações territoriais em perspectiva histórica: processos, escalas e contradições
RESUMO
Na atualidade, a dinâmica da economia urbana potencializa-se a partir da implantação de
equipamentos urbanos de capital ou de lógica internacional. Anteriormente, tais capitais se
restringiam às atividades industriais, porém no contexto contemporâneo, estes estão relacionados
à implantação de equipamentos de consumo voltados ao setor terciário, como shopping centers e
hipermercados. Transformações no espaço urbano decorrentes dessa inserção, como o reforço
e/ou criação de novas centralidades, o enfraquecimento de dinâmicas comerciais de menor porte
e tendência à homogeneização de valores culturais e hábitos de consumo, adquirem espaço na
dimensão intra-urbana. Há ainda a conversão das relações de caráter interurbano, que remodelam
a ação das cidades na rede urbana nacional e mundial e destacam mercados não totalmente
explorados, que se tornam alvos de investimentos.
O papel das cidades se altera e dentre elas estão as metrópoles regionais, que passam a
apresentar características cada vez mais próximas àquelas de reestruturação capitalista mundial:
articulam mudanças locacionais e inovações tecnológicas por meio da reconstrução
tecnoprodutiva do capital à escala global e as políticas de ajuste neoliberal para ampliar seus
mercados. Desse modo, o poder público e instrumentos de gestão e planejamento urbano,
portam-se como reguladores do ritmo dessa transformação às novas realidades, culminando na
promoção de estratégias como o city marketing para atração de capitais e fomentando as
atividades ligadas às funções metropolitanas, destinando-as ao atendimento das demandas das
empresas e do consumo da população nelas envolvidas, em detrimento do “pensar” a cidade em
sua totalidade.
A partir disso, o presente trabalho tem por objetivo estabelecer uma comparação entre Curitiba
(Brasil) e San Miguel de Tucumán (Argentina), classificadas como metrópoles secundárias,
regionais ou subnacionais, no âmbito das transformações que ocorreram e ocorrem em seus
espaços urbanos. Este se justifica na esfera de pesquisa mais ampla, que propõe um estudo das
dinâmicas globais recorrentes na América Latina e que reorganizam cidades classificadas como
metrópoles regionais. Entre os objetivos específicos, buscou-se estabelecer a comparação da
implantação dos shoppings centers e hipermercados, em ambas as cidades, identificando os
agentes econômicos envolvidos e suas estratégias de implantação. A elaboração de sínteses
cartográficas dos equipamentos de consumo instalados, enfatizando aqueles relacionados ao
comércio varejista pertencentes a grupos externos, abarcou a metodologia deste trabalho.
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Como resultados preliminares, destaca-se o reforço de centralidades existentes, promovendo nas
metrópoles regionais analisadas certa concentração desses equipamentos dentro dos limites do
município onde está a cidade principal. Assim, a partir da década de 1990, grupos como o
Multiplan, BR Malls, Tacla, Soifer, La Fonte, Ecisa, Ancar, Brascan/Embrascenter - no caso dos
shoppings – e Walmart, Cenconsud, Steen Handels Vereeniging, no caso dos hipermercados,
mostram-se presentes modificando e reestruturando o espaço intra-urbano de San Miguel de
Tucumán e Curitiba, além de alterações em suas relações interurbanas. Em menor escala, há a
inserção de novos produtos considerando o caráter internacional destas redes, ampliação do
quadro do horário de funcionários, bem como grande segmentação social em seus
empreendimentos, entre outros aspectos.
Palavras-chave: internacionalização; metrópoles regionais; centralidades urbanas
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Ana Caroline de Oliveira Chimenez, Anna Paula Scherer Lino