1 Saúde pública no Brasil: da perda da radicalidade democrática ao novo desenvolvimentismo Tânia Regina Krüger Professora do Curso de Serviço Social da UFSC. Assistente Social e Doutora em Serviço Social pela UFPE. [email protected] Eixo temático: 4. Saúde e Desenvolvimento Resumo Este texto apresenta uma contextualização da política de saúde no Brasil, tratando propriamente da implementação do Sistema Único de Saúde - SUS, nos anos de 1990 e 2000. Tem por objetivo fazer algumas reflexões sobre a direção que a política de saúde foi tomando a partir de sua implementação do SUS, tendo como referências as bandeiras para a saúde pública que o Movimento da Reforma Sanitária conseguiu institucionalizar na Constituição de 1988 e nas leis orgânicas da saúde. A hipótese que norteia as reflexões deste texto é que nos anos de 1990 houve uma perda da radicalidade democrática com política neoliberal e nos anos 2000 esta perda da radicalidade democrática tem continuidade e se soma a perspectiva do novo desenvolvimento. Palavra chave: SUS, política de saúde, democracia e desenvolvimento Introdução Este texto apresenta uma contextualização da política de saúde, tratando propriamente da implementação do SUS, nos anos de 1990 e 2000, com enfoque na atuação política dos governos Collor, Fernando Henrique, Lula e o início do governo de Dilma Roussef. O trabalho tem por objetivo fazer algumas reflexões sobre a direção que a política de saúde foi tomando a partir da implementação do SUS, tendo como referências as reivindicações para a saúde pública brasileira que o Movimento da Reforma Sanitária conseguiu institucionalizar na Constituição de 1988 e nas leis orgânicas da saúde. Estas reivindicações foram bandeiras de lutas que estão institucionalizadas no conceito ampliado de saúde, nas diretrizes, nos princípios e nas competências do SUS e, sobretudo na grande frase: a saúde como direito de todos e dever do Estado. Estas bandeiras são em nosso entender os fundamentos do SUS, pois além de conterem diretrizes e princípios organizacionais possui também princípios doutrinários. É neste conjunto de fundamentos que identificamos um projeto de saúde pública que ultrapassa uma dimensão de serviço e contempla uma proposta de Estado democrático e de direito, indicando um projeto para a sociedade brasileira com enfoque na saúde. A hipótese que norteia as reflexões deste texto é que nos anos de 1990 houve uma perda da radicalidade democrática com política neoliberal, pois o Movimento da Reforma Sanitária conseguiu ser apenas reativo aos grandes ataques que o SUS sofreu em sua primeira década e o projeto de reforma do Estado acabou metamorfoseando, desconsiderando ou desqualificando seus fundamentos. Nos anos 2000 esta perda da radicalidade democrática tem continuidade apesar do governo sustentado em uma proposta democrático-popular apontar para a retomada das 2 Bandeiras do Movimento Sanitário e de articular as políticas de Seguridade Social. No inicio da década havia indicações de que na tensão entre o projeto da Reforma Sanitária e o projeto privatista, haveria uma retomada da hegemonia do primeiro, mas o que se assistiu na segunda metade da década efetivamente foi a ampliação dos tentáculos do projeto privatista, em uma espécie de parceria com lideranças do primeiro projeto. Ou seja, o projeto político democrático e de direito social público e coletivo que o SUS representa foi sendo flexibilizado, pois a saúde como um direito coletivo vem se transformando em saúde e desenvolvimento. Para este desenvolvimento o mercado é um sujeito importante e a saúde passa a ser um espaço importante de investimento público e privado. É neste processo de transformismo que a saúde passa ser um campo estratégico de integração do país, compondo em escala macros projetos de desenvolvimento econômico e social do governo Lula e agora da presidente Dilma. Desse modo, recolocamos a nossa hipótese a perda da radicalidade democrática nos anos 2000 tem continuidade, mas revestida de uma retórica chamada saúde e desenvolvimento. Além desta breve introdução, nosso texto se compõe de itens que caracterizam a política de saúde nos anos de 1990, quando o país mergulha na conjuntura neoliberal e as bandeiras do SUS perdem sua vitalidade democrático-popular. A seguir caracterizamos também política de saúde nos anos de 2000, no momento em que a lógica neoliberal é questionada e nesta conjuntura que nasce a perspectiva de saúde e desenvolvimento que dará a base para o terceiro item. Buscamos rapidamente situar os fundamentos do novo desenvolvimentismo e na identificação das principais linhas de pensamento sobre o tema que vem estabelecendo entre autores brasileiros sistematizados pelo economista Lauro Mattei. Por fim, ensaiamos algumas reflexões sobre como os fundamentos do novo desenvolvimentismo estão impactando nas ações do SUS. O SUS nos anos de 1990: a perda radicalidade democrática O Brasil chegou aos anos de 1990 com um arcabouço legal que indicou algumas bases da cidadania e democracia moderna, com possibilidades na redução das taxas de exploração do trabalho e uma conquista social que só foi possível graças à mobilização dos setores populares no momento em que as forças ditatoriais agonizavam. No momento da implementação dos direitos sociais reconhecidos, entre eles, o da saúde, impõe-se uma nova conjuntura econômico-política, que influenciará significativamente a sua dinâmica. Assim a implementação do Sistema Único de Saúde se deu num contexto em que a crise do capital que se implantou com vigor em terreno brasileiro através a intensificação das práticas políticas e econômicas neoliberais e a perda substantiva do conteúdo progressista da democracia. Em relação à saúde, o conteúdo aprovado na Constituição de 1988, expressa uma perspectiva inovadora em relação aos direitos sociais e significa uma inserção política de sujeitos sociais, até o momento, excluídos na conformação das agendas públicas. O direito universal à saúde reafirma o trânsito para um Estado Institucional-Redistributivo, na medida em que apresenta indicações de rompimento com a sujeição histórica dos direitos sociais ao trabalho formal e sinaliza para a atenção às necessidades integrais de saúde de todo cidadão. As condições de saúde indicados no texto constitucional articulam os setores social e econômico, procurando, desse modo, não tratar a distribuição de bens e serviços sociais autonomizados da esfera da produção (Nogueira, 2002). Mas a conquista formal dos direitos sociais historicamente não tem sido garantia de realização. Posteriormente à restauração do padrão de governabilidade democrática, via Constituição e eleição presidencial, as elites econômicas, políticas e intelectuais 3 conservadoras, que viam a década de 1980 como a década perdida1 pela estagnação econômica e não um período marcado pela interlocução das forças democrático-populares abriram espaço para o pensamento econômico e político neoliberal que já estava se consolidando nos países centrais. Os governos Collor de Mello e Fernando Henrique Cardoso por toda a década de 1990, com diferentes modalidades, questionaram as aspirações democráticas da década de 1980 e a Constituição de 1988 e as colocaram como empecilho à governabilidade. Apesar do zelo ideológico do neoliberalismo em realizar este movimento em nome de numa suposta abertura comercial e concorrência internacional, modernização, desregulamentação e desenvolvimento de novas tecnologias, o que se evidenciou foi um amplo dogmatismo econômico, assumido pelos representantes do capital. Em relação à administração pública, os membros dos governos e também da esquerda foram dogmáticos em suas ações e propostas de manejo do déficit fiscal. As orientações contidas, no Plano Diretor da Reforma do Estado de 1995, não deixaram dúvidas quanto ao novo perfil estatal que o governo brasileiro pretendia e conseguiu construir. Em torno do tema da Reforma, construiu-se todo um consenso favorável, tendo como parceiras as elites políticas e econômicas do país. O Plano Diretor de Reforma do Estado propunha quatro pressupostos básicos para sua refuncionalização: redução de tamanho e de funções, pela via da privatização, terceirização e publicização; redução do grau de interferência estatal, repassando a função reguladora em favor de mecanismos de controle via mercado; aumento da governança e retorno da governabilidade, com o aperfeiçoamento da democracia representativa e a expansão do controle social (PEREIRA, 1997). Esta reforma se sustentou no clima de satanização do Estado (Borón, 1995), criado nos anos anteriores e o que era para ser uma questão administrativa acabou se tornando uma questão que dizia respeito aos princípios da democracia, da participação popular e da política nos espaços representativos. O processo de implementação do SUS no início dos anos de 1990 encontrou vários desafios. Os vetos à Lei 8.080 ilustram bem os parâmetros das ações do governo Collor. A partir da regulamentação do SUS (Lei 8.080 e 8.142/1990) e no enfrentamento destes desafios, houve um refluxo nas principais entidades que constituíram o Movimento Sanitário nas duas décadas anteriores. Esse refluxo tem relação direta com as novas determinações da conjuntura internacional e nacional, a ênfase ideológica do neoliberalismo e a perspectiva de nossos governos que não pouparam esforços para desqualificar e neutralizar qualquer movimento contestatório. A implementação do próprio sistema de saúde nesta década foi objeto de desfinanciamento, sucateamento e recentralização. Esta dinâmica de recentralização, comandada por José Serra, praticamente, ignorou a instância colegiada dos gestores públicos a Comissão Intergestora Tripartite - CIT - e o Conselho Nacional de Saúde. Estes elementos apontados acima são o que caracterizam em nosso entender as bases para a perda radicalidade democrática que foi decisiva na construção do SUS e provocou no processo de implantação inúmeros constrangimentos. Entre eles destacamos: vetos na regulamentação da Lei 8.080, adiamento da 9ª Conferência Nacional de Saúde de 1990 para 1992, atraso na municipalização que só foi deslanchada após o documento A ousadia de cumprir e fazer cumprir a lei que resultou da 9ª Conferência Nacional de 1 A década de 1980, chamada de década perdida do ponto de vista do capital, se deve à dificuldade de sustentação do processo de desenvolvimento que o país vinha experienciando há cinqüenta anos. Em termos de política econômica alguns dados são expressivos neste decênio: “Durante a década de 80, houve no Brasil oito planos de estabilização monetária, quatro diferentes moedas, onze índices distintos de cálculo inflacionário, cinco congelamentos de preços e salários, quatorze políticas salariais, dezoito modificações nas regras de câmbio, cinqüenta e quatro alterações nas regras de controle de preços, vinte e uma proposta de negociação da dívida externa e dezenove decretos governamentais a propósito da austeridade fiscal” (Fiori, 1995:156). 4 Saúde, o projeto do governo Cardoso de reformular os artigos da Constituição que diziam respeito ao SUS, a implementação do Programa de Saúde da Família como uma cesta básica da saúde para os pobres, as inúmeras normatizações que foram fatiando a perspectiva de uma gestão integral e o trato integral das necessidades de saúde pelo gestor municipal, a descentralização sendo realizada como desconcentração de ações e com concentração de decisões e de recursos no nível federal. Outro elemento importante da descentralização enviesada foi a aprovação da Emenda Constitucional 29 em 2000 que definiu os percentuais dos recursos a serem aplicados na saúde pelas esferas municipal e estadual e não o percentual da União. Quanto ao controle social e a gestão participativa, estes governos, apesar de manterem no espaço público um discurso de valorização da participação social, não participavam das reuniões do Conselho Nacional de Saúde e ignoravam suas deliberações. Pelo lado do Movimento da Reforma Sanitária, observou-se a perda da racionalidade político-emancipatória e da radicalidade democrática que o caracterizou nos anos de 1980. Na avaliação de Bravo e Menezes (2010, p.53) o Movimento da Reforma Sanitária “durante a década de 1990 ficou em posição defensiva apenas resistindo aos ataques do SUS”. Ficou evidente sua fragilidade e quase desativação para enfrentar o desfinanciamento, a desregulamentação, a desconcentração e recentralização da implementação do SUS. A reafirmação do SUS enquanto política pública universal e de caráter coletivo, na maioria das vezes, nos espaços dos Conselhos e Conferências, ficou subsumida a reivindicações por serviços de saúde. O SUS nos anos de 2000: a perda radicalidade democrática e a perspectiva da saúde e desenvolvimento Em 2002, a vitória política e eleitoral de Lula do Partido dos Trabalhadores - PT teve um significado real e simbólico para um país como o Brasil, dotado de enorme conservadorismo e desigualdades sociais. No entanto, foi uma vitória tardia, depois de uma década de desertificação social e econômica e dos equívocos decorrentes da aceitação acrítica das cláusulas do Consenso de Washington. Ainda assim, para poder vencer o PT fez muitas concessões, abandonou várias bandeiras que o caracterizaram desde 1979 e aliou-se a agrupamentos políticos de centro-direita e vinculados ao capital industrial. Os maiores desafios do PT se concentrariam em: responder as reivindicações imediatas do mundo do trabalho para enfrentar a degradação salarial e o desemprego; realizar reforma agrária ampla; impulsionar o patamar tecnológico para responder as carências dos trabalhadores: como alimentação, saúde, transporte coletivo e habitação; limitar a expansão da especulação do capital-dinheiro; incentivar a produção de bens socialmente úteis e recuperar o sentido público, coletivo e social das atividades estatais. Lidar com estes desafios não significava qualquer pretensão de superação da lógica predominante, pois os elementos desfavoráveis possuíam o risco do continuísmo, dado o peso social, econômico e político que suas forças exercem (ANTUNES, 2004). No governo Lula, Humberto Costa assumiu o Ministério da Saúde, levando para os quadros dirigentes pessoas reconhecidas por sua militância política e intelectual no Movimento de Reforma Sanitária e na defesa da implementação do SUS. Houve inicialmente na saúde, como nas demais políticas sociais, uma reanimação das forças progressistas. Mas o desenvolvimento desta gestão logo começou a se deparar com as pressões do grande capital, leia-se: grupos da indústria de equipamentos e medicamentos, empresas de medicina de grupo, associações de grupos hospitalares privados e filantrópicos e tecnoburocratas de dentro e fora do governo. Estas pressões se realizam basicamente com a presença de lobbystas nos espaços do parlamento, no executivo (das 5 três esferas de governo), nos consultórios dos profissionais e também pelo enfoque impactante e privatista dado pela mídia aos problemas da saúde pública. Especificamente sobre a política de saúde no início do governo Lula, pode-se destacar alguns aspectos positivos, como: o retorno da concepção de Reforma Sanitária em discursos e documentos do Ministério; escolha de profissionais comprometidos com a Reforma Sanitária para ocupar o segundo escalão do Ministério da Saúde; o tímido retorno da concepção de Seguridade Social, a participação do ministro nas reuniões do Conselho Nacional de Saúde, a coordenação da Secretaria Executiva do Conselho Nacional esteve nas mãos de uma representante de entidade trabalhista; convocação extraordinária da 12ª Conferência Nacional de Saúde em 2003 e da 13ª em 2007 (Bravo, 2007), a aprovação da política de atenção básica em 2006, a ênfase na Estratégia de Saúde da Família como serviço estruturante e porta de entrada preferencial do Sistema Único de Saúde, incentivo a formação de profissionais de saúde com perfil para trabalhar no SUS, aprovação da política nacional de medicamentos. Em paralelo aparecem pontos que são considerados negativos, alguns até se referem à forma de implementação dos aspectos tratados como positivos em sua formulação. Entre eles: a concepção de Seguridade Social quando aparece está desarticulada da Previdência e Assistência Social; continuou a proposta de Agentes Comunitários de Saúde, com a soma de Agentes de Saneamento, de Vigilância Sanitária, de Saúde Mental, refletindo a precarização do trabalho e a desumanização do próprio trabalhador e dos usuários; aumento insignificante de verbas; e, a política de educação para o SUS, que pretere as unidades de ensino (sobretudo as universidades públicas) em favor das ONGs (Bravo, 2007). A participação do Ministro nas reuniões do Conselho Nacional de Saúde aconteceram até um representante dos trabalhadores da saúde ser eleito presidente e o Conselho não aprovar os projetos de gestão dos serviços público pautados no direito privado – Fundação Estatal de Direito Privado, a não aprovação do Plano de Cargos, Carreira e Salários - PCCS - único para o SUS, a permanência das indefinições quanto a um financiamento estável para a saúde e a retirada dos cargos decisórios do Ministério de pessoas reconhecidamente vinculadas à defesa do SUS. A condução e definição das políticas de saúde na segunda metade do governo ficaram sob o comando da ala mais conservadora. O processo regressivo e conservador que marcou a era FHC e José Serra na saúde teve raros instantes de descontinuidade. Estas características positivas foram mais evidentes no início do governo. No decorrer da gestão houve um recrudescimento do conservadorismo que se tornou visível através da condução das ações e também com a troca dos técnicos dirigentes. Por esta forma de condução da política de saúde verificou-se que ora se reforçava o projeto da Reforma Sanitária e ora o projeto privatista. A tensão que Bravo (2001) identificou nos anos de 1990 entre o paradigma da Reforma Sanitária e o privatista persistiu por todo governo Lula e também no governo da presidente Dilma Rousseff iniciado em 2011, mas esta relação público e privado na saúde continuamente foi sendo refuncionalizada e adquirindo conteúdo distintos. Nos últimos anos os compromissos democrático-populares em relação aos direitos sociais e as ações do governo se revelaram estar sendo tensionadas concomitantemente, por 3 perpectivas: a) pela proposta liberal do Estado mínimo, b) pela defesa dos direitos reconhecidos, mas implementados de forma flexibilizada e com parcerias, e c) pela defesa da universalização da saúde como direito fundamentada nos princípios da Reforma Sanitária. No entanto, como pretendemos conhecer as teses do novo desenvolvimentismo e sua influencia na dinâmica do SUS, continuaremos no item final deste texto problematizar mais a conjuntura dos anos 2000 na saúde. Por hora, tratamos de recuperar os 6 fundamentos do novo desenvolvimentismo. Não é fácil delimitar o período certo em que as idéias do novo desenvolvimento começam a de manifestar. A proposta de cunho liberal e a progressista flexibilizada parecem não ter mais fronteiras claras com a incorporação das idéias do novo desenvolvimentismo. E é na adoção do ideário do novo desenvolvimentismo que as duas perspectivas parecem que se confundem e se tornam parceiras. As bases do novo desenvolvimentismo e a particularidade da perspectiva brasileira No início dos anos 2000 surgem críticas dentro do próprio sistema a lógica da política neoliberal, pois suas ações de liberalização comercial, desregulamentação financeira, desenvolvimento de novas tecnologias, restrição de direitos trabalhistas e privatizações das estatais, não tinham possibilitado crescimento econômico e desenvolvimento social. Do mesmo modo, não tinham resolvido os problemas fiscais do Estado, os níveis de acumulação do capital aumentavam numa situação de instabilidade (ou seja, não haviam conseguido a almejada estabilidade macroeconômica) e os avanços da área social não se evidenciavam. Prevaleciam políticas econômicas preocupadas apenas com controle da inflação e do orçamento. Avalia-se, então, que a programática neoliberal não promoveu desenvolvimento econômico e social, pois os indicadores da desigualdade social estavam em franca expansão, que os mecanismos da política econômica (altas taxas de juros e elevado endividamento público) promoveram uma brutal transferência monetária para os setores rentistas e impediram o aumento do emprego (MATTEI, 2011). Com estas avaliações no inicio do novo século os governos que representam os setores progressistas chegaram ao comando com posicionamentos de desenvolvimento nacional, posicionamentos anti-imperialistas e defesa de um desenvolvimento autosustentável, fazendo críticas as políticas neoliberais, ressaltando seus resultados nefastos em termos de autonomia e desenvolvimento dos Estados nacionais (MOTA, AMARAL e PERUZZO, 2010). O governo Lula é a expressão mais contundente na realidade brasileira e com reconhecimento internacional. Para chegar ao poder, Lula e o PT fizeram aliança com o capital produtivo como uma estratégia de oposição ao capital especulativo. Desta aliança que começa a emergir um novo projeto de desenvolvimento para o país que pretende substancialmente se contrapor ao período anterior. As raízes inspiradoras novo desenvolvimento não são exclusivamente nacionais e seus fundamentos não se relacionam com o período do nacional-desenvolvimentismo2. Nasce deste quadro uma perspectiva revisionista, que passa ser reconhecida como novo desenvolvimentismo. Esta proposta, incorporada pela CEPAL, mas com determinações do Banco Mundial, se organiza com vistas a minorar os impactos sociais e econômicos nos países da periferia do capitalismo causados pelo período de políticas neoliberais. Dessa forma, o novo desenvolvimentismo, propõe um novo padrão de intervenção do Estado na economia em consonância com a área social. De acordo com Mattei (2011) formou-se um consenso desenvolvimentista para resolver os problemas de 2 O desenvolvimentismo das décadas de 1940 a 1970 se desenvolveu na América Latina com apoio da Comissão Econômica para América Latina – CEPAL, tendo como objetivo alterar o cenário de subdesenvolvimento. Este projeto se sustentava em propostas de industrialização integral, por meio de planejamento, indução e financiamento estatal. Ao Estado caberia um papel de regulador para diversificar a economia, generalizar o progresso técnico entre os diferentes setores, formar recursos humanos e ordenar e realizar obras de infraestrutura na qual as indústrias pudessem se assentar e comercializar. 7 ordem econômica e social nos continentes Asiático, Africano e Latino-Americano, que recebeu apoio da ONU e de seus diversos órgãos internos. O debate do desenvolvimentismo foi reposicionado pela CEPAL segundo Mota, Amaral e Peruzzo (2010) em face das reformas do mercado e da crescente financeirização. As discussões sobre o desenvolvimento econômico e social passam a ser orientadas pelas reformas estruturais na economia, com destaque na política de privatização dos serviços públicos, reforma do Estado e focalização de programas sociais para os segmentos vulneráveis. A perspectiva do desenvolvimento econômico e desenvolvimento social, adotada pelo Banco Mundial, conta entre os seus principais formuladores o economista indiano Amartya Sen3, sendo veiculada especialmente na obra Desenvolvimento como Liberdade. Para o autor (2000) o desenvolvimento não pode ser medido apenas pelo crescimento do PIB e promoção da industrialização, mas é necessário considerar a expansão das capacidades para as pessoas levar o tipo de vida que valorizam. A expansão das capacidades tem o sentido de liberdade, e esta por sua vez é determinante da iniciativa individual, da eficácia social e permite ao individuo ser um agente da sua vida pessoal, do mercado e da esfera pública. Entre os estudiosos brasileiros que tratam dos fundamentos do novo desenvolvimento, Mattei (2011) mapeou sua gênese, identificando três escolas de pensamento econômico envolvidas, destacando a liderança da Fundação Getúlio Vargas, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e a do Instituto de Pesquisa Econômicas Aplicadas – IPEA. A fronteira entre elas nem sempre é muito clara, por vezes se sobrepõem, mas possuem em comum uma agenda de debates e um conjunto de proposições que visam apresentar uma estratégia alternativa, tanto à ortodoxia convencional como ao antigo nacional desenvolvimentismo. Para este texto apresentaremos a visão do grupo de novos desenvolvimentistas ligado ao IPEA, sob a liderança do professor Marcio Pochmann. Estes estudiosos além de tratarem de ações mais abrangentes dos Estados como a recuperação do crescimento econômico, combatem à degradação das condições de vida e enfatizam a necessidade da sustentabilidade dos sistemas ambientais. Defendem que o Estado seja parte constituinte do sistema social e econômico das nações e ator decisivo na definição e condução de estratégias de desenvolvimento. Para o Desenvolvimento Brasileiro o grupo propõe sete eixos: 1) Inserção internacional soberana; 2) Macroeconomia para o pleno emprego; 3) Infraestrutura econômica, social e urbana; 4) Estrutura tecnoprodutiva avançada e regionalmente articulada; 5) Sustentabilidade ambiental; 6) Proteção social, direitos e oportunidades; 7) Fortalecimento do Estado, das instituições e da democracia. O projeto desenvolvimentista destes pesquisadores, segundo Mattei (2011), em termos de perspectiva política resgatam o sentimento nacionalista e propõem que o Estado deve ser forte para levar o país igualmente ao desenvolvimento econômico e social. 3 “Estudioso do desenvolvimento humano e do bem-estar social, Amartya Sen virou celebridade em 1998, ao ganhar o Nobel de economia. Foi a primeira vez, em 30 anos, que o prêmio teve como alvo um trabalho voltado para a questão do bem-estar social. Amartya Sen tem procurado mudar o entendimento do mundo sobre fome e miséria. O pensamento econômico tradicional sempre colocou a falta de comida como a questão fundamental da fome. Estudando o problema nos países pobres da Ásia e da África, Amartya Sen concluiu que a falta de alimentos durante as crises de fome não era maior que em outras épocas. Na realidade, havia alimentos, mas eles não eram acessíveis a todos. [...]. No entendimento de Amartya Sen, a fome precisa ser enfrentada com políticas econômicas que ofereçam crescimento e oportunidades sociais às populações carentes de forma que mais gente possa ter melhor renda, melhor poder de compra e chance real de desenvolvimento humano. São idéias que reforçam a corrente do pensamento econômico mais humanista e contraria uma linha da engenharia econômica que olha mais para os números do que para as pessoas”. FAPESP. Entrevista Amartya Sen em 22/1/2001. Memória Roda Viva. http://www.rodaviva.fapesp.br/materia/32/entrevistados/amartya_sen_2001.htm. Acessado em 26/09/2011. 8 Em termos de política social, tanto a perspectiva adotada pelas agências internacionais como as nacionais apontam para diminuir a distância entre ricos e pobres ou a redução das desigualdades. As tendências estudadas por Mattei pelo seu caráter mais nacionalista indicam ações mais estruturantes do Estado em relação às necessidades sociais, mas sequer reafirmam os direitos sociais da Carta de 1988. Ao mesmo tempo apontam para um sistema tributário que não penalize os mais pobres, mas igualmente defendem programas focalizados e oportunidades para os segmentos mais vulneráveis. Portanto, podemos dizer o que vimos observando em termos da dinâmica do Estado brasileiro nesta última década, apesar de uma forte ênfase nacionalista, o modelo de desenvolvimento que vem se refletindo nas políticas sociais é um misto de pensamento político das agencias internacionais, como também reflete as propostas dos pesquisadores brasileiros do IPEA. Saúde e desenvolvimento Passados dois períodos de governo Soares (2010) faz uma avaliação mais crítica da política de saúde na gestão federal com o PT. Esta se estruturou como uma contrarreforma, destacando-se suas principais particularidades: tecnificação da política de saúde; ampliação restrito do sistema, ênfase numa assistência precária, fragmentada e focalizada, privatização e mercantilização da saúde pública, precarização e exploração do trabalho, promoção de saúde restrita, ênfase em ações emergenciais e assistenciais e implementação de medidas inovadoras da gestão. Dessa forma, segundo a autora, se corporificou como o SUS possível, que em nome da modernização e aperfeiçoamento flexibilizou seus princípios políticos. As idéias de desenvolvimento no âmbito da saúde serão apresentadas a partir de algumas ações que marcaram o Ministério da Saúde desde 2003 e já indicando algumas ações do governo da presidente Dilma Roussef. Destacam-se algumas ações que tinham uma perspectiva mais revisionista dos princípios do SUS, poucas com perspectivas mais progressistas, mas no geral havia combinação com os fundamentos do novo desenvolvimento: - A Política Nacional de Humanização - PNH - criada desde 2003 tem como diretriz atuar no cotidiano das práticas de atenção e gestão, qualificando a saúde pública no Brasil e incentivando trocas solidárias entre gestores, trabalhadores e usuários. A PNH atua a partir de orientações clínicas, éticas e políticas, que se traduzem em arranjos de trabalho. Alguns conceitos que norteiam o trabalho da PNH: Acolhimento, Gestão Participativa e cogestão, Ambiência, Clínica ampliada e compartilhada, Valorização do Trabalhador e Defesa dos Direitos dos Usuários; - Plano Nacional de Saúde - PNS - 2004 a 2007 foi elaborado entre os anos 2003 e 2004 ouvindo e debatendo com diferentes sujeitos em vários espaços. O PNS apresenta agenda estratégica para a melhoria da saúde no País, a qual compreende: (1) a revisão do modelo atual de financiamento; (2) uma política de investimento direcionada para a redução das desigualdades no Brasil; e (3) a efetivação de um pacto de gestão junto aos gestores das três esferas. Para a discussão das prioridades nas esferas municipal, estadual e regional, a partir dos objetivos, diretrizes e metas do Plano, são propostos os seguintes eixos de orientação: (1) a redução das desigualdades em saúde; (2) a ampliação do acesso com a qualificação e humanização da atenção; (3) a redução dos riscos e agravos; (4) a reforma do modelo de atenção; e (5) o aprimoramento dos mecanismos de gestão, financiamento e controle social. - O Pacto pela Saúde agrega o Pacto Pela Vida, o Pacto pelo SUS e o Pacto de Gestão, lançado em 2006, mas vinha sendo discutido desde o inicio do governo, em termos de 9 gestão ele representou um avanço em relação aos NOBs e NOAS. É significativa a reafirmação do SUS no Pacto pelo SUS, pois as NOBs e as NOAS apesar de tratarem das formas de operacionalizarem a gestão do SUS, praticamente ignoravam seus princípios. Ao mesmo tempo, o documento expressa o conjunto de interesses em jogo na área da saúde; - Na 13ª Conferência Nacional de Saúde em 2007 a proposta de criação das Fundações Estatais de direito privado não foi aprovada4, mas em seguida o Projeto de Lei Completar 92/2007 de criação das Fundações foi enviado ao Congresso Nacional. No entanto, o grande debate e polêmica que se instalou em várias instâncias acadêmicas, sindicais, parlamentares e governamentais fez com que em meados de 2009 o governo federal retirasse este projeto de tramitação no Congresso. Mas nas esferas subnacionais as Organizações Sociais e as Fundações continuam se estruturando - PAC da saúde - Mais Saúde: direito de todos - 2008/2011 – “ações para a saúde se inserem na política de desenvolvimento do governo Lula, voltada para aliar o crescimento econômico com o desenvolvimento e a eqüidade social” (BRASIL, 2007, p.6). “No campo econômico, a saúde pode ainda ser olhada por outro prisma. A experiência internacional mostra que a saúde configura um complexo de atividades produtivas de bens e serviços que permite alavancar segmentos-chave da sociedade contemporânea, baseada no conhecimento e na inovação. A estimativa internacional disponível, apresentada pelo Fórum Global para a Pesquisa em Saúde em 2006, indica que a saúde responde por 20% da despesa mundial, pública e privada, com as atividades de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico (P&D), representando um valor atualizado de US$ 135 bilhões, sendo claramente uma das áreas mais dinâmicas do mundo. A saúde possui, assim, duas dimensões que se associam a uma nova aposta para o desenvolvimento do Brasil. É parte da política social e do sistema de proteção social e fonte de geração de riqueza para o País. O direito à saúde articula-se com um conjunto altamente dinâmico de atividades econômicas que podem se relacionar virtuosamente num padrão de desenvolvimento que busque o crescimento econômico e a eqüidade como objetivos complementares. [...] A saúde contribui tanto para os direitos de cidadania quanto para a geração de investimentos, inovações, renda, emprego e receitas para o Estado brasileiro” (BRASIL, 2007, p.6). A estratégia adotada neste programa flexibiliza seus princípios doutrinários e articula o aprofundamento da Reforma Sanitária brasileira com um novo padrão de desenvolvimento comprometido com o crescimento, o bem-estar e a eqüidade. - o Conselho Nacional de Saúde volta a ter o ministro como seu presidente, pois desde 2006 vinha elegendo seu presidente pessoas que não representavam o executivo. Os ministros anteriores Humberto Costa e José Gomes Temporão, por esta condição e não serem mais presidentes acabaram esvaziando a participação do executivo neste espaço. No governo Dilma Roussef em 2011, para garantir a presença do ministro nas reuniões do Conselho houve algumas pressões e o Conselho em clima de muitos tensionamentos elegeu o ministro Alexandre Padilha, como seu presidente. - o Decreto Nº 7.508/2011, que regulamenta a Lei nº 8.080, de 19 de setembro de 1990, para dispor sobre a organização do SUS, o planejamento da saúde, a assistência à saúde 4 “O Ministério da Saúde continuará irredutível na busca de soluções para a gestão do Sistema Único de Saúde”, afirmou hoje (19) o ministro José Gomes Temporão (Saúde). A declaração foi dada em relação ao resultado da 13ª Conferência Nacional de Saúde que rejeitou proposta da criação de fundações estatais para a administração de hospitais públicos. [...] O governo federal se propõe a negociar alternativas dentro do projeto de lei já existente e encaminhado, mas será irredutível na busca de soluções para problemas de gestão da rede pública de saúde. “O governo respeita a opinião expressa na Conferência, mas continuará buscando, no Congresso Nacional, uma lei que permita ao SUS operar os seus hospitais com alguma eficiência”, disse Temporão. (Temporão permanecerá irredutível na defesa das fundações estatais para hospitais, 19/11/2007. In http://portal.saude.gov.br/portal/aplicacoes/noticias/noticias_detalhe.cfm?co_seq_noticia=39038). 10 e a articulação inter-federativa. Este decreto que tem um texto bastante operacional para os gestores o papel de deliberativo dos Conselhos de Saúde é substituído pelos termos ouvidos os Conselhos nos processo de planejamento e no monitoramento dos Contratos Organizativos da Ação Pública de Saúde. O decreto faz referencia que o acesso deve ser universal, igualitário e ordenado e ao Contrato Organizativo da Ação Pública de Saúde que deve ser firmado entre os entes federativos, mas não deixa claro que o serviço do SUS deva ser prestado por gestor público e trabalhador da saúde contratado pelo regime público, abrindo as portas para as chamadas inovações na gestão; - o Programa Nacional de Melhoria do Acesso e da Qualidade da Atenção Básica (PMAQ) lançado em meados de 2011, visa induzir a instituição de processos que ampliem a capacidade das gestões federal, estaduais e municipais, além das Equipes de Atenção Básica, em ofertarem serviços que assegurem maior acesso e qualidade, de acordo com as necessidades concretas da população, com garantia de um padrão de qualidade comparável nacional, regional e localmente de maneira a permitir maior transparência e efetividade das ações governamentais direcionadas à Atenção Básica em Saúde em todo o Brasil; - em 31.12.2010, último dia dos 8 anos do governo Lula, foi editada a MP 520, autorizando a instituição da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares S.A. com a finalidade de prestar serviços de saúde vinculados aos sistemas de ensino e pesquisa. O modelo adotado foi o de sociedade anônima e é uma entidade vinculada ao Ministério da Educação para efeito de supervisão. A MP 520/10 chegou a ser aprovada na Câmara dos Deputados, mas expirou o prazo e não foi aprovada no Senado até 01 de junho de 2011. O Projeto de Lei 1749 foi sancionado pela presidente em 20 de setembro de 2011 e cria a empresa pública denominada Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares S.A. – EBSERH, empresa pública sob a forma de sociedade anônima, com personalidade jurídica de direito privado e patrimônio próprio, vinculada ao Ministério da Educação, com prazo de duração indeterminado; - o governo Lula passou todos os anos de seu governo sem enfrentar o problema do financiamento da saúde, em janeiro de 2012 a presidente Dilma sancionou a nova versão da emenda constitucional número 29, pela Lei Complementar nº 141, e a saúde universal nesse país obteve mais uma grande derrota no financiamento de suas ações e serviços. A proposta que estipulava investimento de 10% das receitas correntes brutas da União para a área foi derrubada. Segundo ao artigo 5o a União aplicará, anualmente, em ações e serviços públicos de saúde, o montante correspondente ao valor empenhado no exercício financeiro anterior, apurado nos termos desta Lei Complementar, acrescido de, no mínimo, o percentual correspondente à variação nominal do Produto Interno Bruto (PIB) ocorrida no ano anterior ao da lei orçamentária anual. Devendo os estados aplicar 12% da sua receita e os municípios com 15% conforme a versão de 2000. Estas são algumas das grandes ações em relação ao SUS que podemos apontar que se caracterizam pelo caráter revisionista e flexibilizado dos princípios do SUS e se somam com a perspectiva de conciliar desenvolvimento econômico com desenvolvimento social. Por exemplo, a PNH ao pretender valorizar o trabalhador e realizar o acolhimento, não faz qualquer referência ao sucateamento da infra estrutura física e por vezes tecnológica dos serviços, a concurso público, ao plano de cargos carreira e salários único para os trabalhadores do SUS e as definições sobre o financiamento. Portanto parece uma política de humanização que se sustenta apenas na boa vontade do trabalhador, sendo dispensável qualquer base material. Por sua vez o Plano Nacional de Saúde de 2004-2007 tem entre seus eixos a redução das desigualdades e a ampliação do acesso. Usando estes temos o Plano Nacional de Saúde ignora o reconhecimento constitucional da saúde como direito universal. Os fundamentos de nossa política de saúde requerem mais que 11 ampliação do acesso, e sim acesso universal e sem desigualdade em termos de padrão técnico-profissional, tecnológico e infra-estrutura. Não se reivindica aqui o direito a saúde de acesso universal sem qualquer critério em forma de protocolos e fluxos, bem como o respeito aos próprios princípios organizacionais do sistema como a descentralização, municipalização, referência e contra referências, elaboração de Planos de Saúde Quadrienais com metas para o período. O aprimoramento das formas de gestão também é uma das metas Plano Nacional de Saúde, que não conseguiu em principio se operacionalizar no Projeto de Lei 92/2007 no nível federal, mas vem se espraiando pelo país com a criação das Fundações e Organizações Sociais para fazer a gestão dos serviços de saúde ou alguns Programas no âmbito dos estados e dos municípios e mais recentemente no nível federal com a criação da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares S.A. – EBSERH. Ou seja, o serviço público sendo gerido pelo direito privado. O tema da saúde como desenvolvimento ficou expresso no que é o Plano Nacional de Saúde 2008-2011, mas foi denominado de Programa de Aceleramento do Crescimento PAC - da Saúde - Mais Saúde: direito de todos. Neste se evidencia o potencial econômico do setor saúde, sobretudo pela sua densidade tecnológica e número de empregos, conciliando assim política social com política econômica. Desse modo todos podem ter acesso a saúde e o mercado é um meio privilegiado, seja pelo setor próprio, pelas unidades filantrópicas, pelos planos de seguro saúde e também pelas unidades públicas geridas na lógica do direito privado. Considerações finais Sem sombra de dúvida afirmamos que o SUS é a maior política social brasileira nos últimos vinte anos. E por ser uma política social universal, tem ampla dimensão em termos de rede de serviços público, filantrópico e privado que vai da atenção primária a média e alta complexidade; uma grande estrutura de gestão nas três esferas de governos; um financiamento vinculado que só é menor em relação ao da educação; envolve uma séria de indústrias para produzir seus suprimentos que vão desde o algodão, os medicamentos aos equipamentos médico-hospitalares; milhares de trabalhadores de diferentes área; uma grande rede de escolas e universidades públicas e privadas para formar os profissionais e realizar pesquisas e inúmeros institutos e laboratórios públicos de pesquisas e produção de medicamentos, vacinas e insumos. É por esta dimensão que o SUS é uma política social extremamente visada, disputada e tensionada por vários segmentos e interesses sócio-econômicos e políticos. Estes 24 anos de SUS estão marcados pelas disputas entre os projetos políticoeconômicos que orientam sua implantação. Até meados dos anos 2000 se identificava que o SUS estava marcado pela disputada entre o projeto da Reforma Sanitária e o projeto privatista, mas recentemente vimos tomar corpo uma terceira perspectiva que parece de alguma forma fazer a conciliação entre as duas primeiras. Esta terceira perspectiva nasceu de vários argumentos de que o ideário crítico não dá conta de analisar a estrutura/conjuntura contemporânea, a perda da radicalidade democrática de várias entidades e sujeitos políticos que construíram e defenderam o SUS ao constatarem que suas bandeiras haviam envelhecido, os interesses pessoais e corporativos de estar nas mesas de negociações e acessar cargos significativos no Ministério da Saúde, pressões financeiro-eleitorais por parte do setor privado da saúde e das elites nacionais, os acordos com bancos Internacionais e a própria OMS para que o sistema público se limite a atenção primária. É com base no conjunto de determinações, que apresentamos ao longo de todo o texto, que sustentamos nossa afirmação que o SUS perdeu sua radicalidade democrática, 12 não por que seus princípios deixaram de existir, mas nas interpretações e leitura que se tem feito deles. E a saúde passa a ser sinônimo de desenvolvimento na medida em que se reconhece toda a sua dimensão e o potencial de expansão e lucratividade para o mercado. O reconhecimento desta sua dimensão mercadológica permitiu colocar o setor saúde como mais um pilar no processo e desenvolvimento do país. Desenvolvimento que parece estar sendo medido não pela dimensão da saúde como direito universal da sua população e pelo avanço civilizacional para sociedade brasileira, mas pelo seu potencial mercadológico. O projeto do novo desenvolvimento representa, pela via do mercado, um conjunto de ações de governos, empresários e trabalhadores visando defender seus próprios interesses diante de um cenário global imperialista em busca de maiores taxas de lucros. Em síntese a saúde como um direito coletivo vem se transformando em saúde e desenvolvimento. Para este desenvolvimento o mercado é um sujeito importante. A integralidade vem sendo substituída por humanização, qualidade, acolhimento, vínculo, empoderamento e capital social. O importante é o acesso (seja por qualquer meio), não mais como obrigação do Estado e superação da desigualdade social que é estruturante da realidade brasileira. A participação deliberativa e propositiva (protagonismo popular) vem sendo substituído por colegiados consultivos e de monitoramento, outras inovações institucionais e mecanismos de solidariedade social sem sujeitos coletivos. Por fim, tratar deste tema ainda implicaria abordar outros aspectos, que aqui não foram apontados, mas vale mencionar que deverão ser contemplados em outros estudos: os feitos do SUS não são nada desprezíveis, ele tem sido universal na atenção básica e na alta complexidade; nesta década também houve uma rearticulação das entidades e lideranças do Movimento da Reforma Sanitária com engajamento ativo de sua lideranças na formulação do projeto saúde e desenvolvimento também conhecido como a contrarreforma da saúde ou o SUS possível; a forma de organização da 14ª Conferência Nacional de Saúde e o significado da palavra da qualidade que tem aparecido em muitos programas do governo federal como estruturante de projetos e programas. Referências ANTUNES, R. A desertificação neoliberal no Brasil. Campinas/SP: Autores Associados, 2004. BARROS, E. “Implementação do SUS: recentralizar será o caminho?”. In. Revista Ciência & saúde coletiva. Rio de Janeiro: ABRASCO, 2001, vol. 6, n. 2. 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