Trabalho 6 ANÁLISE DO DISCURSO EM FOUCAULT: UMA PERSPECTIVA METODOLÓGICA PARA PESQUISAS NA ENFERMAGEM Dulcinéia Ghizoni Schneider1; Flávia Regina Souza Ramos2; Laura Cavalcanti de Farias Brehmer3; Laurete Medeiros Borges4 INTRODUÇÃO: A Análise do Discurso (AD) surgiu na década de 60 na França e procura ver a língua não apenas como transmissão de informações ou o simples ato de fala, mas buscando a exterioridade da linguagem, como mediadora indispensável entre o homem e o meio social e natural. Assim, a AD não toma a língua como um sistema abstrato, mas a língua como método de interação 1. A AD se refere a uma variedade de enfoques no estudo de textos, desenvolvida a partir de diferentes tradições teóricas, diversificados estilos de análise e vários tratamentos. Dentre as variedades de análise de discurso destacamos a que está associada ao pós-estruturalismo, que rompeu com visões realistas da linguagem e rejeitou a noção de sujeito unificado coerente (coração da filosofia ocidental por muito tempo), com destaque para Michel Foucault. O trabalho de Foucault, em contraste com outras vertentes de AD, está interessado não nos detalhes dos textos falados e escritos, mas em olhar historicamente os discursos 2. O discurso é constituído e constitui a sociedade em várias dimensões e constitui os objetos do conhecimento, os sujeitos e as formas sociais do “Eu”, as relações sociais e as estruturas conceituais3: 64. O discurso, segundo Foucault, seria o lugar no qual saber e poder estariam articulados e articulando-se num contínuo. Este lugar de onde se fala deve ser reconhecido institucionalmente, tornando-se verdadeiro e legítimo. O discurso que nasce deste lugar reconhecido veicula saber e permite a geração de poder. A produção deste discurso gerador de poder não é aleatória, pelo contrário, ela é metodicamente controlada, escolhida, formulada, distribuída e redistribuída através de procedimentos estratégicos que assegurem a proeminência deste poder, ainda que para isso seja preciso excluir e interditar. Saber e poder estão presentes e articulando-se continuamente como prática discursiva. O saber não é um conjunto de conhecimentos, pois se fosse haveria a Enfermeira, Doutora em Enfermagem. Professora da Universidade do Sul de Santa Catarina – UNISUL. Enfermeira, Doutora em Enfermagem, Pós Doutora em Educação (Universidade de Lisboa), Professora Associada do Departamento de Enfermagem e do Programa de Pós-graduação PEN/UFSC, Pesquisadora CNPq. 3 Enfermeira. Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina/PEN/UFSC. Bolsista CNPq. [email protected] 4 Enfermeira. Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina/PEN/UFSC. Professora do Instituto Federal de Ciência e Tecnologia de Santa Catarina ,IF-SC. 1 2 85 Trabalho 6 possibilidade de dizer se são verdadeiros ou falsos, coerentes ou não. O saber é formado pelo conjunto de elementos – objetos ou referentes (que são a mesma coisa que enunciado, para Foucault). O enunciado compõe, dá forma ao discurso, estando sempre, em contato com enunciados que o precederam; podendo ser repetido, transformado ou reativado, porém, é único como qualquer outro acontecimento 4:28-90 . Uma das principais razões de se desenvolver um estudo voltado para a Análise do Discurso é o fato de a linguagem ser vista como um processo de interação social e que é por meio dela que o homem pode ter a capacidade de construir significados da realidade que o rodeia 5. O discurso é a palavra em movimento e sua construção é um acontecimento, pois quando emitimos um discurso, estamos agindo sobre o mundo, sobre o outro e marcando uma posição no processo comunicativo. Os teóricos vêm discutindo as propostas de Análise do Discurso, buscando compreendê-lo com instrumento de materialização da linguagem e seus efeitos ideológicos e manipuladores. OBJETIVO: Buscamos apresentar uma breve discussão teórica da Análise do Discurso na abordagem Foucaultiana como perspectiva metodológica para as pesquisas em enfermagem. CONCEITOS FUNDAMENTAIS NA ANÁLISE DO DISCURSO DE FOUCAULT: O discurso “é um conjunto de enunciados, na medida em que se apóie na mesma formação discursiva; ele é constituído de um número limitado de enunciados, para os quais podemos definir um conjunto de condições de existência; é, de parte a parte, histórico, fragmento de história, que coloca o problema de seus próprios limites, de seus cortes, de suas transformações, dos modos específicos de sua temporalidade” 6:136 e deve ser estudado no próprio sistema no qual foi institucionalizado, assim como se deve verificar o conjunto de condições que proporcionaram sua emergência e sua ligação com outros discursos7:708. No trabalho arqueológico de Foucault, existem duas afirmações importantes, a serem consideradas na análise do discurso: a natureza constitutiva do discurso – o discurso constitui o social, como também os objetos e os sujeitos sociais; a primazia da interdiscursividade e da intertextualidade – qualquer prática discursiva é definida por suas relações com outras e recorre a outras de forma complexa. Os três outros pontos substantivos surgem do trabalho genealógico de Foucault, constituindo-se em um rico conjunto de afirmações e hipóteses teóricas a serem incorporadas na análise do discurso (textualmente orientada): a natureza discursiva do poder, a natureza política do discurso, a natureza da mudança social 3:81-82. Na AD se estuda os discursos reais, efetivamente pronunciados, existentes como materialidade. O discurso é um conjunto de regras dado como sistema de relações e essas relações caracterizam-no como prática 86 Trabalho 6 discursiva8. A prática discursiva é “um conjunto de regras anônimas, históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço, que definiram, em uma dada época e para uma determinada área social, econômica, geográfica ou linguística, as condições de exercício da função enunciativa”9:133. O enunciado é a unidade elementar do discurso. Foucault chama de discurso um conjunto de enunciados, na medida em que se apoiem na mesma formação discursiva; ele não forma uma unidade retórica ou formal, cujo aparecimento ou utilização poderíamos assinalar na história; é constituído de um número limitado de enunciados para os quais podemos definir um conjunto de condições de existência 9:123- 133 . A formação discursiva é postulada por Foucault nos seguintes termos: no caso em que se puder descrever, entre certo número de enunciados, semelhante sistema de dispersão, e no caso em que entre os objetos, os tipos de enunciação, os conceitos, as escolhas temáticas, se puder definir uma regularidade (uma ordem, correlações, posições e funcionamentos, transformações). Foucault ,propôs chamar de arquivo “todos os sistemas de enunciados (acontecimentos de um lado, coisas de outro)” 9:146 .O arquivo é de início a lei do que pode ser dito, o sistema que rege o aparecimento dos enunciados como acontecimentos singulares 9,10. É o sistema de funcionamento, sistema geral da formação e da transformação dos enunciados11. Foucault aponta alguns mecanismos metodológicos orientados pelos seguintes princípios: Princípio da inversão, da descontinuidade; da especificidade e da exterioridade 12, 13 . A esses princípios, Foucault incluiu quatro noções reguladoras da análise: a noção de acontecimento, a de série, a de regularidade e a de condição de possibilidade, as quais se opõem termo a termo: o acontecimento à criação, a série à unidade, a regularidade à originalidade e a condição de possibilidade à significação 13. CONCLUSÃO: O uso do referencial de análise do discurso em Foucault nas pesquisas em Enfermagem pode contribuir para a identificação das práticas concretas presentes nos discursos dos(as) profissionais de Enfermagem na medida que a linguagem é constitutiva de práticas 14. Foucault , não separa teoria e prática e mostra que há antes possibilidades de discursos e que as coisas ditas são sempre históricas e funcionam em práticas muito concretas, como no caso da pesquisa em enfermagem, constituidoras de sujeitos, corpos e modos de existência, não só de pessoas, mas de instituições e formações sociais mais amplas. Na AD de Foucault investiga-se não o que está por trás dos textos e documentos, nem o que se queria dizer com aquilo, mas quais são as condições de existência de um determinado discurso, enunciado ou conjunto de enunciados. Suspendem-se as continuidades e se acolhe cada momento do discurso, tratando-o no jogo de relações em que está imerso. 87 Trabalho 6 Não existe um procedimento fixo para se fazer análise de discurso, a abordagem é feita de acordo com a natureza específica do objeto de estudo. Seu método considera experiências historicamente singulares referentes ao objeto investigado e nos defrontamos não com a s coisas em si, mas , com produtos do discurso que se transformam, pois está vivo em multiplicadas lutas e jogos de poder, como as práticas procedimentos e técnicas utilizadas na pesquisa em enfermagem. REFERÊNCIAS:1Orlandi, E.P. Análise de Discurso: princípios e procedimentos.Sao Paulo; Pontes; 2005.2- Gill, R. Análise de discurso. In: Bauer, M. W.; Gaskell, G. (Ed.). Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som - um manual prático. 2 ed. Trad. Pedrinho A. Guareschi. Petrópolis, RJ: Vozes; 2003,3- Fairclough, N. Discurso e mudança social.Brasília: UNB; 2008- p.64,4- Foucault, Michel. A Arqueologia do Saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1997, p.28,90.5- Orlandi, E.P. Análise de Discurso: princípios e procedimentos. Campinas, SP: Pontes, 2005.6 Foucault. M. A arquelogia do saber. Trad. de Luiz Felipe Baeta Neves. 2ª ed. Rio de Janeiro : Forense Universitária, 1986. P. 136.7-Foucault, Michel. Sur l'Archeologie des Sciences. Réponse au Cercle d'Epistémologie. In: Defert,Daniel et Ewald, François. (Dir.). Dits et Écrits. Paris: Gallimard, 1994. T. I.p.708.8- Machado, R. Foucault, a ciência e o saber. 4. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2009. 9-Foucault,M. A arqueologia do saber. Trad. de Luiz Felipe Baeta Neves. 7. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2009.p. 43-98-123 a 133146,10-Castro, E. Vocabulário de Foucault – um percurso pelos seus temas, conceitos e autores. Trad.Ingrid Müller Xavier. Rev. técnica Walter Omar Kohan e Alfredo VeigaNeto. Belo Horizonte: Autêntica, 2009, 11- Gregolin, M. R. V. O enunciado e o arquivo: Foucault (entre) vistas. In: Sargentini, Vanice; Navarro-Barbosa, Pedro (Org). M. Foucault e os domínios da linguagem: discurso, poder, subjetividade. São Carlos: Claraluz, 2004. p. 23-44,12- Foucault, M. A ordem do discurso. Trad. Laura Fraga de Almeida Sampaio. 18 ed. São Paulo: Loyola, 2009a.p 53,13- Fischer, R.M.B. Foucault e a análise do discurso em educação. Cadernos de Pesquisa. n. 114, p. 197-223, Nov. 2001. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/cp/n114/a09n114.pdf>. Acesso em: 06 março 2010. 14- Schneider, D.G. Discursos Profissionais e Deliberação Moral: análise a partir de processos éticos de Enfermagem [tese].Florianópolis(SC): Programa de Pósgraduação em Enfermagem/UFSC;2010. DESCRITORES: pesquisa em enfermagem, metodologia, discurso. ÁREA TEMÁTICA: 7. Fundamentos teórico-filosóficos e metodológicos 88 Trabalho 6 89