HORIZONTES Revista Semestral do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação da Universidade São Francisco Volume 30 Número 2 Julho/Dezembro de 2012 ISSN 0103-7706 A revista Horizontes é um veículo de divulgação e debate da produção científica na área de Educação e está vinculada ao Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação da Universidade São Francisco, Itatiba/SP. O propósito da revista é servir de fórum para a apresentação de pesquisas desenvolvidas, estudos teóricos e resenhas na área de Educação, em suas vertentes históricas, culturais e de práticas educativas. Com vistas a manter uma interlocução com pesquisadores nacionais e internacionais, a revista aceita publicações nas línguas portuguesa, inglesa, francesa e espanhola. Os textos publicados são submetidos a uma avaliação às cegas pelos pares, componentes do conselho editorial ou consultores ad hoc. Os conteúdos não refletem a posição, opinião ou filosofia, nem do Programa de Pós-Graduação nem da Universidade São Francisco. A revista é composta de dossiês com temática educacional coerente com a política editorial da mesma e/ou artigos de demanda espontânea encaminhados e aprovados para publicação. Os direitos autorais das publicações da Horizontes são da Universidade São Francisco, permitida apenas ao autor a reprodução do seu próprio material, previamente autorizado pelos editores da revista. As transcrições e traduções são permitidas, desde que no limite dos 500 vocábulos e mencionada a fonte. Dossiê: Currículo e práticas sociais Editores Alexandrina Monteiro Jackeline Rodrigues Mendes Paula Leonardi Conselho Editorial Ademir Donizeti Caldeira - UFScar Maria Auxiliadora Bueno Megid - Puccamp Alfredo Veiga-Neto - UFRGS Maria Carolina Galzerani Boverio - Unicamp Beatriz Maria Eckert-Hoff - Unianchieta Maria Cristina Soares Gouveia - UFMG Carlos Alberto de Oliveira - Unitau Maria Gorete Neto - UFMG Celi Espasandin Lopes - Unicsul Maria José Rodrigues Faria Coracini - Unicamp Celina Ap. Garcia de Souza Nascimento - UFMS Maria Laura Magalhães Gomes - UFMG Daniel Clark Orey - UFOP Maria Tereza Menezes Freitas - UFU Dario Fiorentini - Unicamp Maura Corsini Lopes - UNISINOS Décio Gatti Júnior - UFU Maurício Rosa - ULBRA Denise Silva Vilela - UFScar Patrick Anderson - Université de Franche-Comté Elisabeth Ramos da Silva - Unitau Rebecca Rogers - Université Paris Descartes Elizeu Clementino de Souza - UNEB Renata Prenstteter Gama - UFScar Elzira Yoko Uyeno - Unitau Rita de Cássia Galego – USP Ernesto Sérgio Bertoldo - UFU Rosana Giaretta Sguerra Miskulin - UNESP/RC Gelsa Knijnik - UNISINOS Samuel Edmundo López Bello - UFRGS Juliana Santana Cavallari - Unitau Vera Lúcia Gaspar da Silva - UDESC Maria Ângela Borges Salvadori - USP Edição Programa de Pós-graduação Stricto Sensu em Educação Revisão Enid Polachini Abreu Projeto Gráfico, Revisão e Diagramação Samanta Mazzolini Publicações: Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação Secretaria de Pós-Graduação Apoio Executivo às Comissões de Pós-Graduação Av. Alexandre Rodrigues Barbosa, 45 - Centro CEP: 13251-900 Itatiba-SP Tel: (11) 4534-8040/ 4534-8080 Fax: (11) 4524-1933 Homepage: http://www.saofrancisco.edu.br/itatiba/mestrado/educacao Editora Universitária São Francisco - EDUSF Av. Francisco de Assis, 218 CEP: 12916-900 Bragança Paulista - SP Tel: (11) 4534-8040 Fax: (11) 4524-1933 Homepage: http://www.saofrancisco.edu.br/edusf Horizontes / Universidade São Francisco. -- Vol. 14 (1996)-. -- Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 1996v. : il. Anual, 1996-2003; semestral, 2004Continuação de: Revista das Faculdades Franciscanas (1983-1985); Revista da Universidade São Francisco (1986-1989); Horizontes: revista de ciências humanas (1990-1995) Disponível on-line: http://www.usf.edu.br/revistas/horizontes ISSN 0103-7706 (versão impressa) ISSN 2317-109X (versão on-line) 1.Ciências humanas - Periódicos. 2. Linguagem - Periódicos. 3. Educação Periódicos. 4. Educação matemática - Periódicos 5. Historiografia - Periódicos. I. Universidade São Francisco. Ficha catalográfica elaborada pelas Bibliotecárias do Setor de Processamento Técnico da Universidade São Francisco. Pede-se permuta Se pide canje We ask for Exchange On demande l’échange Man bittet um Austausch Si richiede lo scambio Indexação em: Psicodoc (Espanha); Clase (México); Francis (França). 3 Sumário 5 Editorial Dossiê 7 Discursos curriculares da formação docente, projetos de trabalho e seus elos com a racionalidade neoliberal Jaqueline de Menezes Rosa Maria Isabel Edelweiss Bujes 19 As práticas curriculares em Matemática que se produzem pelo governo do IDEB Samuel Edmundo Lopez Bello 31 Currículo e gênero: produção e naturalização das diferenças na escola Julia Mayra Duarte Alves Laura Cristina Vieira Pizzi 43 Mídia e Juventudes: produzindo relações curriculares Lisandra Veiga dos Santos Elisabete Maria Garbin 59 A Concepção de Ensino Médio e de Currículo Expressa na Proposta de São Paulo Dirce Djanira Pacheco e Zan 69 Corpo, comida e cultura: Discussão e problematização os padrões contemporâneos de beleza/saúde no ensino de ciências Tatiana Souza de Camargo Nádia Geisa Silveira de Souza 81 Educação pública: currículo e formação de jovens alunas no Ensino Médio Leny Cristina Soares Souza Azevedo Ligia Karam Corrêa de Magalhães 95 Práticas sociais híbridas: contribuições para os estudos curriculares em Educação Matemática Marcio Antonio da Silva Artigos 103 IES – Uma experiência inclusiva no ensino superior Lia Scholze Iolanda Bezerra dos Santos Brandão 115 Resenha: Do governo dos Vivos – Curso no Cóllege de France, 1979-1980 (excertos) Clarice Nunes Ferreira Costa 119 Relação das dissertações defendidas no Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação da Universidade São Francisco no período de julho a dezembro de 2012 121 Normas para publicação Publishing Norms 4 5 Editorial A Revista Horizontes, iniciativa do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação da Universidade São Francisco, chega à sua trigésima edição, consolidando-se como órgão de divulgação de produções relacionadas a Linguagem, Discurso e Práticas Educativas; Matemática, Cultura e Práticas Pedagógicas, bem como História, Historiografia e Idéias Educacionais, linhas de pesquisa do programa. Igualmente, mantém seu espaço aberto a colaborações de pesquisadores do país e de outras partes do mundo, fomentando diálogos interdisciplinares, sempre necessários à pesquisa educacional. Dossiê temático e contribuições oriundas de demanda espontânea, ambos submetidos à avaliação do comitê científico, em conjunto com resenhas temáticas e os resumos das dissertações defendidas no programa formam a estrutura básica dos números da revista. Neste número, a revista Horizontes publica o dossiê Currículo e práticas sociais, composto por 8 artigos, com contribuições de diferentes pesquisadores que abordam a temática do currículo relacionada a diversos campos como os discursos curriculares sobre a formação de professores, as práticas curriculares e os índices do IDEB, as relações de gênero, a abordagem do corpo no currículo escolar, os currículos e a educação pública voltada para os jovens, a produção de identidades juvenis na mídia e o currículo de Matemática. O primeiro artigo, intitulado Discursos curriculares da formação docente, projetos de trabalho e seus elos com a racionalidade neoliberal, das autoras Jaqueline de Menezes Rosa e Maria Isabel Edelweiss Bujes apresenta uma análise discursiva que problematiza os Projetos de Trabalhos nos currículos da formação docente atual. Inspiradas em teorizações de cunho pós-estruturalista de acento foucaultiano, apresentam uma analítica que incide, inicialmente, sobre a articulação entre a discursividade pedagógica da Modernidade e os ideais liberais. Ao longo da análise as autoras ressaltam a associação dos Projetos de Trabalho a formas de governamento dirigidas a sujeitos ideais nas diversas expressões do liberalismo, potencializando a governamentalização da sociedade. O artigo de Samuel Edmundo Lopez Bello, As práticas curriculares em Matemática que se produzem pelo governo do IDEB, traz um questionamento sobre por que e de que maneira se mobilizam determinadas práticas curriculares no espaço escolar. O autor discute as ações de governo produzidas pelos números do IDEB e procura analisar de que forma e quais estratégias são utilizadas para a produção/mobilização dessas ações de governo. Para isso apresenta o conceito de numeramentalização, de inspiração foucaultiana, e ressalta sua operatividade nos índices produzidos pelo IDEB como forma lógica e sedutora da ciência de expressão de racionalidade e razão. Finalmente, sinaliza para uma postura ética na formação de professores que, de posse desta analítica, constitua uma singularidade das práticas curriculares como contraponto às ações de governo da política educacional. O terceiro artigo, intitulado Currículo e gênero: produção e naturalização das diferenças na escola, de Julia Mayra Duarte Alves e Laura Cristina Vieira Pizzi traz uma discussão sobre a produção de subjetividades em uma escola de ensino fundamental em um bairro de Maceió/AL. O artigo problematiza a demarcação de gênero constituída a partir de duas atividades econômicas e culturais presentes no lugar, a produção da renda filé e a pesca. A partir dos enunciados que circulam na escola sobre essas atividades, com base nas ferramentas teóricas fornecidas por Foucault, a análise das autoras incide sobre os discursos produtores de subjetividades que operam predominantemente na escola com base nessa divisão sexual do trabalho. O artigo Mídia e Juventudes: produzindo relações curriculares de Lisandra Veiga dos Santos e Elisabete Maria Garbin analisa como os discursos midiáticos sobre juventude podem se constituir em um currículo paralelo ao escolar na produção de identidades juvenis. Com contribuições provenientes dos Estudos Culturais, dos estudos sobre juventude e dos estudos foucaultianos na Educação, o artigo analisa 20 exemplares do Jornal Mundo Jovem dos anos de 2009 a 2010 e discute como determinadas identidades juvenis são produzidas pelos discursos midiáticos e como podem ser associadas às representações produzidas e colocadas em circulação nesse meio. O artigo de Dirce Djanira Pacheco e Zan, A Concepção de Ensino Médio e de Currículo Expressa na Proposta de São Paulo, retoma o debate sobre a identidade do Ensino do Médio nos documentos curriculares face à recente mudança no currículo para esse nível, em 2008, promovida pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo. No artigo, a autora faz uma retomada histórica desse debate, a partir dos documentos divulgados desde a década de 90, e discute as 6 noções concernentes a esse nível de ensino bem como a concepção de currículo com foco nas disciplinas de Ciências Humanas. O sexto artigo, intitulado Educação pública: currículo e formação de jovens alunas no Ensino Médio, de Leny Cristina Soares Souza Azevedo e Ligia Karam Corrêa de Magalhães, investiga a configuração do currículo no curso de formação de professores em nível médio, em uma escola pública estadual. O texto dialoga com o contexto do ensino médio modalidade normal, com as políticas de formação docente, situando a realidade específica da instituição. A discussão proposta no artigo ressalta o divórcio existente entre a formação oferecida ao futuro professor da Educação Básica e as necessidades de profissionalização da carreira docente e aponta a necessidade de que seja conferido aos egressos o protagonismo no exercício da profissão, a partir de trabalhos que sejam pensados nos contextos sócio/político/econômico/cultural em que esses cursos de formação ocorrem. O artigo CORPO, COMIDA E CULTURA: Discussão e problematização dos padrões contemporâneos de beleza/saúde no ensino de ciências, de Tatiana Souza de Camargo e Nádia Geisa Silveira de Souza, problematiza a abordagem do corpo humano nos currículos escolares como um fenômeno puramente biológico, desconsiderando os aspectos sócio/histórico/culturais que o inscrevem constantemente. O texto propõe uma discussão em torno das relações entre corpo, comida e cultura na contemporaneidade como uma possibilidade para o currículo escolar. O oitavo e último artigo que compõe o dossiê, intitulado Práticas sociais híbridas: contribuições para os estudos curriculares em Educação Matemática de Marcio Antonio da Silva, apresenta uma problematização dos currículos prescritivos no campo da Matemática, ressaltando a impossibilidade de pensar em práticas sociais universais que possam gerar prescrições curriculares centralizadoras que orientem ações a serem efetivadas nas escolas, não considerando a incerteza e a diversidade das práticas educativas, sociais e culturais. Trabalhando com o conceito de hibridação, o texto argumenta que as próprias prescrições curriculares apresentam discursos híbridos que necessitariam de uma maior investigação, pois representam misturas e construções que defendem correntes teóricas distintas, algumas até antagônicas. O artigo que finaliza o volume de Lia Scholze e Iolanda Bezerra dos Santos Brandão, com o título IES – uma experiência inclusiva no Ensino Superior, discute a importância do acolhimento, do desenvolvimento da linguagem oral e escrita e da reflexão na trajetória de alunos ingressantes no Ensino Superior, marcado, muitas vezes, por dificuldades de leitura e escrita, principalmente os oriundos de classe popular. Esse processo é discutido a partir da disciplina Introdução à Educação Superior (IES), criada com o objetivo de possibilitar uma mediação pedagógica que apóie os estudantes na construção da competência acadêmica necessária para sua formação, introduzindo-os à reflexão teórica e à compreensão da universidade como espaço de ensino, pesquisa e extensão. O volume traz uma resenha do primeiro livro organizado por Nildo Avelino com excertos do curso ministrado por Michel Foucault Do governo dos Vivos – Curso no Cóllege de France, 1979-1980, por Clarice Nunes Ferreira Costa. Finalmente, é apresentada a relação das dissertações defendidas no Programa de PósGraduação Stricto Sensu em Educação da Universidade São Francisco no período de agosto a dezembro de 2012, através da publicação de seus resumos. Esperamos que a leitura seja prazerosa e que estes artigos possam estimular o diálogo com outros grupos e pesquisadores. Alexandrina Monteiro Jackeline Rodrigues Mendes Paula Leonardi 7 Discursos curriculares da formação docente, projetos de trabalho e seus elos com a racionalidade neoliberal Jaqueline de Menezes Rosa* Maria Isabel Edelweiss Bujes** Resumo O estudo propôs-se a problematizar a centralidade dos Projetos de Trabalhos nos currículos da formação docente atual. Submetendo o material empírico – um conjunto de textos dos livros mais utilizados nos cursos de Pedagogia da região metropolitana de Porto Alegre – a uma análise discursiva, inspirada em teorizações de cunho pós-estruturalista de acento foucaultiano, faz-se inicialmente uma articulação entre a discursividade pedagógica da Modernidade e os ideais liberais. Adicionalmente tal discursividade é articulada a um conjunto de estratégias pedagógicas do presente, vistas, a partir do referencial teórico como práticas de administração das condutas, tanto de professores quanto de alunos. Ao longo da análise ressalta-se a associação dos Projetos de Trabalho a formas de governamento dirigidas a sujeitos ideais nas diversas expressões do liberalismo, potencializando a governamentalização da sociedade. Investir, nos cursos de formação, na proposta dos Projetos pode ser visto também como investimento em capital humano, prática esta que visa promover a maximização dos potenciais de cada um, sendo útil tanto para a constituição subjetiva dos docentes, quanto para o alcance das metas do projeto neoliberal. Palavras-chave: Projetos de Trabalho; currículo da formação docente; discursos; governamento; (neo)liberalismo. Teacher’s education curricular discourses, project methods and it’s links to a neoliberal rationality Abstract This investigation intends to problematize the centrality of project methods in current teacher’s education curricula. Submiting empirical material – an array of texts from books largely used in Pedagogy courses in the metropolitan region of Porto Alegre – to a discursive analysis, inspired on post-structuralist theories and Michel Foucault’s ideas, an articulation is made between Modernity’s pedagogical discursivity and liberal ideals. Aditionally such discursivity is articulated to a set of today pedagogical strategies seen, due to the investigation theoretical framework, as practices to administrate teachers and pupils conducts. Along the analysis the association of project methods to government practices is stressed showing that it is directed to diversified expressions of ideal subjects under liberalism, thus contributing to potentialize society’s governmentalization. The emphasis on project methods in teacher’s education can be seen as an investment on human capital, practice that intends to maximize each one’s potential, promoting the subjective constitution of teachers as well as the goals of the neoliberal project. Keywords: Project methods; teacher’s education curricula; discourses; government; (neo)liberalism. Apresentação As questões educacionais estão, hoje, na ordem do dia. Grande parte dos problemas sociais trazidos à discussão aparecem de alguma forma associados a discursos que pautam fragilidades dos processos educativos. Num registro que oscila da responsabilização da escola por inúmeros insucessos sociais a posicionamentos salvacionistas, que creditam a ela a superação dos descaminhos de toda ordem, pode-se inferir o papel crucial que a instituição escolar vem representando para a manutenção da ordem moderna. À inoperância dos sistemas formais de ensino tanto se atribui a responsabilidade pelas situações problemáticas atuais, as mais variadas, quanto a culpa por não preparar de modo satisfatório as crianças e jovens para ocupar * Endereço eletrônico: [email protected] ** Endereço eletrônico: [email protected] competentemente, no futuro, as posições políticas e sociais e os postos de trabalho de que o país estaria a precisar. Frente a esse quadro de mazelas, proliferam sugestões de enfrentamento para aquilo que vem sendo considerado genericamente como um déficit de qualidade da escola brasileira. Soluções que passam por reformas do sistema educacional, implantação de avaliações nacionais, projetos de formação e aperfeiçoamento de professoras/es, reorganização dos quadros docentes, recomposição de planos de carreira e de matrizes salariais, entre tantas outras que seria demasiado enumerar, são anunciadas e/ou postas em execução neste afã de reformar a educação e, por meio dela, dar conta de uma miríade de problemas sociais que lhe seriam correlatos. Sem pretender empreender uma discussão 8 Jaqueline de Menezes Rosa, Maria Isabel Edelweiss Bujes sobre o diagnóstico ou as perspectivas de enfrentamento dos problemas enunciados brevemente no parágrafo anterior, buscamos situar o trabalho aqui apresentado numa perspectiva muitissimamente mais modesta, atendo-nos ao campo curricular e pedagógico (ainda que sem desconhecer suas viscerais articulações com o sistema político e social, como se verá mais adiante). O que chama nossa atenção, e que constituirá o foco do que nos propomos a discutir, é o modo como ganha força no currículo de formação de professoras a proposição de uma estratégia pedagógica na qual parecem repousar infinitas esperanças, capaz de fazer frente às questões de aprendizagem, na busca de romper com ciclo em que a figura docente é central. O que nos instiga é a proposta amplamente disseminada de preparação das docentes para a adoção, nas instituições escolares de todos os níveis, dos chamados Projetos de Trabalho. Os Projetos de Trabalho, segundo os seus defensores, seriam representativos de uma escolha racional e de um compromisso em constituir uma sociedade de aprendizagem, de “[...] um modo de viver pelo uso da razão, como um processo contínuo de resolução de problemas, no qual o indivíduo est[aria] ligado ao bem coletivo da sociedade” (POPKEWITZ; OLSSON; PETERSSON, 2009, p.74). Desafiadas, portanto, a compreender como certas formas de intervenção pedagógica tornam-se expressão de interesses que correspondem a objetivos colocados no nível da administração das populações, propomos neste trabalho, que decorre de investigação que detalharemos mais adiante: a) analisar como determinadas propostas metodológicas/tecnologias educativas envolvem pensar e encontrar modos de agir e de intervir sobre atitudes, disposições e comportamentos dos alunos de forma a ajustar suas condutas a objetivos sociais amplos, proclamados como de interesse coletivo; b) discutir como a invenção de certas práticas pedagógicas ganha relevo ao articular-se a preocupações sociais correntes e por corresponder a uma dinâmica global que lhes dá sentido. Para dar conta de tais propósitos, vamos nos valer de algumas ferramentas teóricometodológicas oferecidas pela notável caixa de ferramentas de Michel Foucault e, orientadas por uma perspectiva pós-estruturalista, dialogaremos com teorizações de autores que vêm atualizando as análises por ele empreendidas. Nas discussões sobre temas do presente, referentes ao campo educativo, em geral, e ao da escolarização, em particular, recorreremos a Alfredo Veiga-Neto, Thomas Popkewitz, Jorge do Ó e muitos outros. As ferramentas conceituais às quais nos referimos são as noções de governamento e governamentalidade e, adicionalmente, de disciplinamento e biopoder/biopolítica. A pretensão mais geral do trabalho é, portanto, por em evidência o compromisso da instituição escolar com a gestão da vida social, tornando mais explícitos os compromissos entre escolarização e relações de poder. Para atingir tal propósito colocamos em destaque as relações entre discursos curriculares da formação docente e a racionalidade política que domina as práticas sociais de nosso presente: o neoliberalismo. O escopo da pesquisa Tomamos como ponto de partida desta seção, em que pretendemos apresentar o escopo da pesquisa que dá origem a este texto, as palavras com as quais Popkewitz problematiza a questão das relações entre poder e saber nas práticas sociais: “O poder se pratica menos pela força bruta e mais pelos sistemas de saberes e da razão, no interior dos quais os objetos da escola são modelados, a fim de serem compreensíveis e capazes de passar para a ação” (POPKEWITZ, 2008, p. 236). Michel Foucault é bastante emblemático em sua obra ao dizer que há uma relação entre essas duas instâncias, o que não significa que sejam idênticas. Distanciando-se das definições tradicionais de poder e saber, inverte a articulação de que o poder é apenas negativo. Em suas palavras: “temos de deixar de descrever sempre os efeitos de poder em termos negativos: ele ‘exclui’, ‘reprime’, ‘recalca’, ‘censura’, ‘abstrai’, ‘mascara’, ‘esconde’. Na verdade, o poder produz; ele produz realidade; produz campos de objetos e rituais de verdade” (FOUCAULT, 2008a, p.161). A partir de uma teorização de inspiração foucaultiana, para a qual saber e poder se implicam mutuamente, interessamo-nos em problematizar os jogos de verdade presentes nos discursos de formação docente, sobretudo aqueles que se referem ao fazer educativo, sem a pretensão de interpretar o que estaria subjacente a eles. Entendemos que tal material tem uma constituição histórica e que a sua linguagem dá sentido às práticas de escolarização. Ao problematizarmos as pesquisas sobre a formação docente, o enfoque dado aos saberes da prática, o vínculo entre experiência e discurso como centros do trabalho pedagógico, colocamos em questão a noção de que o professor, segundo uma visão hermenêutica, é a “[...] origem das operações de discursos e não o seu produto” Horizontes, v. 30, n. 2, p. 7-18, jul./dez.2012 Discursos curriculares da formação docente, projetos de trabalho e seus elos com a racionalidade neoliberal (DÍAZ, 1999, p.19). A partir das análises inspiradas nas leituras do filósofo francês Michel Foucault, é possível discutir essa perspectiva. Os atos discursivos individuais estão atravessados por muitas “vozes”, em uma permanente reescritura, expressão de campos discursivos institucionalizados. Em outras palavras, o discurso pedagógico não estaria relacionado a vontades ou individualidades autônomas, mas às práticas que organizam a realidade (FOUCAULT, 1996), a procedimentos que controlam e regulam o fazer pedagógico e ao que se diz sobre ele, frutos de relações de poder. Começamos, assim, a pensar os saberes da Pedagogia e seus efeitos na conduta dos professores em formação, pois é notável, entre estes, o desenvolvimento de práticas que partilham, de certa forma, um mesmo referencial a respeito da escola e da aprendizagem. Há, a partir de vocabulários profissionais compartilhados, certos modelos de raciocínio que passam a ser universalizados. Não se trata aqui apenas de uma questão terminológica, como aponta Larrosa (2002). As palavras, os vocabulários compartilhados entre os profissionais da educação exprimem “lutas em que se joga algo mais do que simplesmente palavras, algo mais que somente palavras” (p.21). Isso possibilita pensar que as palavras vão adquirindo sentidos e significados em diferentes práticas, nas quais determinados grupos buscam impor seus modos de pensar o mundo, as relações sociais, o papel da escola etc. Assim, se a formação docente passa a ser o nosso interesse primordial, os discursos em que a docência está implicada tornam-se matériaprima para esta investigação. O foco deste trabalho, portanto, direciona sua atenção para os discursos da formação, para o modo como os currículos dos cursos de Pedagogia, ao serem vertidos em programas e reinterpretados pelos seus atores, podem contribuir para nossa compreensão das dinâmicas sociais do presente. Nesse sentido, tomamos como corpus de análise os livros que aparecem de forma recorrente nas bibliografias básicas e recomendadas de cursos de Pedagogia, referenciados nas disciplinas de Didática ou similares¹, de três universidades da região metropolitana de Porto Alegre. Foi preciso, então, selecionar os livros e tomar como critério de escolha aqueles mais utilizados nas três universidades. Com essa tarefa, foi possível apontar títulos que são recorrentes na bibliografia recomendada por essas instituições. Os levantamentos iniciais apontaram como mais utilizados os seguintes livros: 1) HERNÁNDEZ, Fernando; VENTURA, Horizontes, v. 30, n. 2, p. 7-18, jul./dez.2012 9 Montsserrat. A organização do currículo por Projetos de Trabalho: o conhecimento é um caleidoscópio. Porto Alegre: Artmed, 1998; 2) HERNÁNDEZ, Fernando. Transgressão e mudança na educação: os projetos de trabalho. Porto Alegre: Artmed, 1998; 3) SACRISTÁN, J. Gimeno. O currículo: uma reflexão sobre a prática. Porto Alegre: Artmed, 2000; e 4) SANTOMÉ, Jurjo Torres. Globalização e interdisciplinaridade: o currículo integrado. Porto Alegre: Artmed, 1998. O interessante é perceber que tais obras, apesar de suas características próprias e de várias diferenças em suas proposições, permitem entrever um conjunto de enunciados que, como regras, se repetem nas teorizações dos autores. Há, ao que tudo indica na leitura dos livros aqui analisados, um tema comum que parece permear de modo bastante particular o conjunto das propostas dos autores. Trata-se do tema dos Projetos de Trabalho, centralizador do discurso da atividade docente, que aqui nos propomos a problematizar. Este tema nos ofereceu possibilidades de analisar algumas rupturas e redefinições nos discursos que vêm produzindo o sujeito professor na atualidade, bem como questionar alguns significados da docência presentes nas práticas históricas de formação não apenas direcionadas às subjetividades docentes, mas também a metas políticas mais amplas. Nas seções a seguir, passamos a tratar da densidade e da amplitude do problema, tomando a Pedagogia e os discursos pedagógicos como “produto[s] de um complexo processo de definição [...], resultado[s] de um processo de construção social [que] depende[ra]m de um conjunto de possibilidades que se conjuga[ra]m em determinado momento da história [...]” (BUJES, 2001, p. 26). Isso significa que os discursos sobre os “Projetos de Trabalho”, aqui analisados, não são naturais ou dados: são aquilo que pode ser dito dentro de certas matrizes ou modelos orientados pelos saberes de uma determinada época. E, ao adentrarmos um espaço que vem constituindo determinadas formas de ser professor, tratamos de buscamos perceber como se articularam interesses e estratégias de poder com os discursos que se servem dos ideais liberais na produção da docência contemporânea. O governamento da docência Colocar sob análise alguns dos discursos que circulam na formação de professores não envolve apenas examinar as relações de tais discursos com orientações para a prática futura, tais como noções sobre o que fazer e o que 10 Jaqueline de Menezes Rosa, Maria Isabel Edelweiss Bujes conhecer nos ambientes educativos. Envolve também as disposições, consciência e sensibilidade (POPKEWITZ, 1994) que eles pretendem forjar nos docentes em relação ao campo que está sendo descrito (atitudes apropriadas, formas particulares de agir). “A idéia do currículo corporifica uma organização particular do conhecimento pela qual os indivíduos devem regular e disciplinar a si próprios [...], é uma imposição do conhecimento do ‘eu’ e do mundo [...]” (POPKEWITZ, 1994, p.186). Como um sistema de regulação, o currículo orienta a forma como o futuro professor deve compreender o ensino, a aprendizagem e sua função social em prol da cidadania, categorizando e classificando as questões educacionais a partir de determinados enquadramentos que o docente em formação passa a ver como os melhores possíveis, sem questioná-los. Os enunciados presentes na literatura pedagógica estabelecem “[...] regras e padrões que guiam os indivíduos ao produzir conhecimento sobre o mundo” (POPKEWITZ, 1994, p.192) no que se refere à formação de professores, regras e padrões que guiam a docência, inscrevendo atributos de subjetividade (LUKE apud POPKEWITZ, 1994). Considerando isso, ao examinar algumas das formulações discursivas recorrentes na formação de professores, esta análise problematiza o vínculo de determinados discursos com práticas de governamento, isso é, com “ações calculadas para agir tanto sobre os indivíduos quanto sobre o conjunto da população com a finalidade de potencializar a capacidade de alguns para agirem sobre as condutas alheias – suas forças, suas atividades, as relações que os sujeitos constituem entre si, etc.” (BUJES, 2009, p.270). Tal vínculo foi sendo estabelecido à medida que nos interrogávamos, mais especificamente, com base em Veiga-Neto (2000), Ó (2009) e muitos outros, como o campo educativo entra em relação direta, em sintonia com o sistema social. Percebendo o notável peso dado à liberdade e à autonomia, que se expressa desde as relações econômicas até a conduta dos indivíduos particulares (Ó, 2009), entendemos que também os discursos pedagógicos estão submetidos a uma dada racionalidade política mais ampla. A fim de atingir os objetivos propostos para este estudo, utilizamos algumas das contribuições desenvolvidas por Foucault (2008b) a respeito da noção de governamento. Apesar de não ser a educação o objeto de exame do filósofo, o estudo sobre os mecanismos disciplinares que caracterizam as instituições (prisão, fábrica, escola, quartel, hospital) e suas semelhanças ajuda-nos a ampliar o campo de discussão sobre a Pedagogia, sobretudo no que se refere aos discursos sobre a formação. Porém, é preciso advertir que essa noção de governamento, mais do que se referir às instituições disciplinares, indica a proliferação de lugares a partir dos quais se exerce o poder. Nesse sentido, consideramos importante retomar algumas das discussões feitas por Foucault a respeito do Estado Moderno. VeigaNeto (2000, p. 185) afirma que é especialmente no curso Segurança, território, população que se pode “[...] compreender a Modernidade como resultado da combinação de duas superfícies de emergência: o deslocamento das práticas pastorais e o advento da Razão do Estado”. Tal combinação, segundo o autor, estabelece dois jogos antagônicos: o jogo da cidade e o jogo do pastor, que, ao se complementarem, criam condições de possibilidade para a existência do Estado Moderno. O jogo do pastor tem a disciplina como elemento individualizador – o olhar do soberano instala-se em cada indivíduo. Cada um é governado, ou seja, sua conduta é conduzida para torná-lo pessoa de certo tipo (MARSHALL, 1994). O poder do pastor não se exerce sobre um território, mas sobre um rebanho em deslocamento, sobre uma multiplicidade em movimento (FOUCAULT, 2008b). Nessa relação, são interessantes as metáforas utilizadas: pastor e rebanho. É o pastor o responsável pelo rebanho, é ele que cuida de cada ovelha em particular. “Uma forma de poder que não cuida apenas da comunidade como um todo, mas de cada indivíduo em particular, durante toda a sua vida” (FOUCAULT, 2008b, p.173). Para o autor, o poder pastoral pode ser considerado o prelúdio do que vai se desenvolver a partir do século XVI. Os movimentos da Reforma e, depois, da Contra-Reforma geraram novas relações entre o pastor e o rebanho, ocasionando a problemática da pastoral católica e protestante: “como se governar, como ser governado, como governar os outros, por quem devemos aceitar ser governados, como fazer para ser o melhor governador possível?” (FOUCAULT, 2008b, p.118). Intensificaram-se, de um lado, o pastorado em suas dimensões espirituais e, de outro, diferentes tipos de condução dos seres humanos fora do ambiente religioso. As exigências do capitalismo mercantilista, por sua vez, desafiavam a constituição de um saber sobre o Estado, Horizontes, v. 30, n. 2, p. 7-18, jul./dez.2012 Discursos curriculares da formação docente, projetos de trabalho e seus elos com a racionalidade neoliberal implicando, um pouco mais adiante, a estruturação de novos conhecimentos, referentes primeiramente à Estatística, à Economia e à Demografia, posteriormente, à Saúde Pública, à Psiquiatria, à Psicologia e à Psicanálise (VEIGANETO, 2000). Tratava-se de saberes associados à instauração do jogo da cidade, um poder totalizador voltado para o âmbito civil e da população. Novas maneiras de governar, mais precisamente a partir do século XVIII, passaram a ser instituídas em relação à população, a fim de produzir mais riqueza, fornecer meios de subsistência suficientes e favorecer o incremento populacional (FOUCAULT, 2004). O Estado passou a reorganizar a forma de utilizar o poder pastoral, assumindo nesse contexto os cuidados com a saúde, o bem-estar, a segurança e a proteção contra acidentes como formas de salvação a serem asseguradas neste mundo. Para Foucault (1995, p. 238), “isto [implicou] que o poder do tipo pastoral, que durante séculos – por mais de um milênio – foi associado a uma instituição religiosa definida, [se ampliasse] subitamente por todo o corpo social; [encontrando] apoio numa multiplicidade de instituições”. Portanto, é no âmbito das artes de governar que se passa a destacar a existência de muitas e diferentes formas de governo: de si, da família e do Estado. Diferentes formas que possuem uma continuidade essencial. Ao diferenciar essas três formas de governo e sua continuidade, Foucault problematizou: “como introduzir a economia – isto é, a maneira de administrar corretamente os indivíduos, os bens, as riquezas no seio de uma família [...] na gestão do Estado?” (2008b, p. 126). A partir dessa problemática, o autor diz que a arte de governar permaneceu bloqueada até quando se tornou possível perceber os problemas específicos da população isolados do quadro jurídico da soberania. A população passa a ser o objeto final do governo organizado, segundo uma racionalidade planejada. O gerenciamento familiar passa também a interessar ao domínio político, e o Estado assume parte das funções de manutenção da vida, antes exclusivas da família. A economia em favor dos fenômenos populacionais vai revelar pouco a pouco que a população tem suas próprias características, irredutíveis às da família (FOUCAULT, 2004). Trata-se das características próprias que passam a ser estudadas nas suas regularidades por meio da medição estatística; referem-se aos fenômenos associados com a manutenção e a promoção da vida que ensejam o Horizontes, v. 30, n. 2, p. 7-18, jul./dez.2012 11 que Foucault denominou de biopolítica. Os índices de natalidade, mortalidade, de doenças, de produção etc. são alvos dessa tecnologia de poder. Talvez seja interessante lembrar que, enquanto a disciplina exerce poder sobre o corpo, com efeitos individualizantes, o biopoder se exerce sobre o conjunto da população. Assim, nos deslocamentos pelos quais passam as formas de exercício do poder, não ocorre a substituição de uma sociedade por outra, como observou Foucault (2008b): da sociedade de soberania para a disciplinar e desta para a sociedade de governo. “Temos, de fato, um triângulo – soberania, disciplina e gestão governamental –, uma gestão governamental cujo alvo principal é a população e cujos mecanismos essenciais são os dispositivos de segurança” (p. 143). A instituição escolar não fica imune aos deslocamentos que ocorrem na sociedade, sendo importante aqui destacar que há pelo menos duas escolas modernas: uma posicionada na lógica disciplinar2 e outra na da seguridade (COUTINHO, 2008). “Ou então, melhor ainda: considerando que a incorporação de novos elementos não faz desaparecerem os anteriores, mas os desloca e re-significa seu papel, pode-se dizer que a própria escola foi também governamentalizada” (id., 2008, p. 44). Nesse deslocamento, o sentido dado à liberdade vai significar novas possibilidades de movimento, novas tecnologias, novos saberes e mecanismos de segurança. A escola, como imensa maquinaria cujas práticas sempre estiveram mais ou menos ajustadas ao funcionamento do mundo, tem uma articulação produtiva com a Modernidade (VEIGA-NETO, 2000). E é a partir dos preceitos pedagógicos que dão sustentação aos chamados Projetos de Trabalho que procuramos mostrar como a escola opera tal articulação, cujo principal intuito é “preparar as massas a viverem num Estado governamentalizado” (p. 190). Sendo o campo pedagógico o cerne da formação de professores, pensamos ser legítimo que tanto um quanto outra possam ser considerados como articulados a uma problemática de governamento3, uma vez que estão comprometidos em estruturar “o eventual campo de ação dos outros” (FOUCAULT, 1995, p. 244). Com base nessa premissa, percebemos os professores enredados em práticas que potencializam a conduta própria e alheia, práticas estas que, fazendo parte de um currículo, inscrevem nos sujeitos “certas disposições, modos de pensar, modos de classificar e hierarquizar” (BUJES, 2008, p.109). Em outras palavras, as práticas discursivas dos currículos de formação instrumentalizam a maneira como os futuros 12 Jaqueline de Menezes Rosa, Maria Isabel Edelweiss Bujes docentes conduzem o seu trabalho, mas também produzem modos de ver a si mesmos e aos demais implicados no processo de escolarização. Por tudo isso, mesmo quando os discursos curriculares da formação governam as condutas individuais dos professores, podemos pensar sua conexão com a população, pois a prática dos futuros professores estará voltada para a formação dos alunos – dos cidadãos da sociedade. A educação docente é, pois, um fenômeno de interesse coletivo, e em alguns discursos que examinamos podemos percebê-la associada à biopolítica da população, o que nos leva à discussão da noção de governamentalidade. Há enlaces dos discursos pedagógicos com as formas, os modos, as táticas de bem exercer o governamento. São discursos que, no âmbito da arte de governar, se valem da verdade produzida pela ciência para potencializar o exercício de poder (BUJES, 2008). Talvez seja bom aqui lembrar que Foucault (2004) concebe a governamentalidade como um conjunto formado por instituições, procedimentos, análises e reflexões, cálculos e táticas. Composta por arranjos técnicos (notações, computações, avaliações, etc.), por uma conjugação de forças (legais, arquiteturais, financeiras, etc.) e pela utilização de instrumentos (levantamentos, pesquisas, sistemas de treinamento, etc.), ela tem tornado possível, a diferentes autoridades – das mais diversas proveniências –, levar a efeito programas de administração social que têm por finalidade regular não só as decisões, mas as ações individuais, grupais, institucionais. A governamentalidade implicaria, assim, que o poder, para ser exercido racionalmente e tornar os sujeitos passíveis de serem governados, precisaria se valer de uma série de mecanismos/estratégias, e no seu âmbito inventaram-se o que Foucault chamou de tecnologias de poder, os meios que se valem as autoridades (de todas as ordens) para instrumentalizar e normalizar as condutas. O termo governamentalidade, é associado por Fymiar (2009) a novas formas de pensar o exercício do poder com o paulatino processo de governamentalização do Estado, correspondendo a mutações que ocorreram na forma de pensar as finalidades do Estado, o exercício do poder, a vida econômica e, em especial, a população quando esta passou a ser vista como um campo de intervenção. A ampla escolarização das crianças pode ser situada no âmbito destes deslocamentos que alteram as formas como as relações de poder atingem os indivíduos. No movimento de organização dos Estados liberais na passagem dos séc. XVIII para o XIX, estendendo-se por parte do séc. XX, segundo Rose (1999), evidencia-se a criação de uma nova matriz de racionalidade, que orientou a invenção de uma série de tecnologias, envolvendo cálculos e estratégias, para intervir em novos campos que se ofereciam ao exercício do poder: a economia, a saúde e os hábitos da população, a civilidade das massas, a educação. As tecnologias analisadas por Foucault permitem-nos tematizar a constituição subjetiva dos docentes por discursos, como os dos Projetos de Trabalho, sustentados nos ideais de liberdade, interesse e aprendizagem. Por meio de pretensões de verdade dos discursos pedagógicos, operam-se relações de poder-saber que atingem uma população sob um Estado moderno liberal. É com base em ideais como esses que a educação escolarizada tem funcionado como uma estratégia de governamento dos sujeitos. A racionalidade neoliberal na constituição do sujeito professor e a adoção dos Projetos de Trabalho De acordo com Coutinho (2008), a segunda escola moderna, aquela com a qual convivemos hoje, encontra-se numa relação imanente, com acontecimentos da sociedade, como a “revolução industrial, o Iluminismo, o transcendental kantiano, a idéia de futuro como progresso, a fisiocracia e o liberalismo”, (p.34) entre outros. O poder disciplinar continua operando em uma nova lógica, na qual a mobilidade é o elemento diferencial em relação à ordenação tipicamente disciplinar e às formas que começam a se instituir no século XVIII (ibidem.). Entre essas formas, no que se refere ao campo da educação, estão as modificações em relação aos espaços, rotinas e recursos da sala de aula. No entanto, não são apenas modificações em termos estruturais que podemos perceber nos discursos pedagógicos do século XVIII: há a problematização de alcançar a liberdade e a autonomia, antes que coação, direção e heteronomia (NOGUERA-RAMÍREZ, 2008). Nessa perspectiva, em contraposição aos métodos baseados na repetição e memorização utilizados pela escola moderna numa lógica disciplinar, destacam-se as ideias preconizadas por Rousseau, filósofo suíço que defende as experiências realizadas pelo próprio aluno. Os pressupostos rousseaunianos não se inseriram de imediato no campo da prática: foi necessária toda a ‘revolução romântica’, toda a imposição de uma visão positiva da ciência e mais um século de intervalo para que eles revivessem num núcleo ‘renovador’ da Pedagogia, no Horizontes, v. 30, n. 2, p. 7-18, jul./dez.2012 Discursos curriculares da formação docente, projetos de trabalho e seus elos com a racionalidade neoliberal alvorecer do século XX. Trata-se do Movimento da Escola Nova, que tomou proporções peculiares em diferentes localidades. Acontecimentos sociais marcados pelos efeitos da Revolução Industrial objetivavam uma sociedade mais democrática, atribuindo à escola um importante papel nessa tarefa. Isso pode ser percebido, por exemplo, quando alguns autores escolanovistas defendem a escola popular e de massas, que, além de democrática, deve estar preparada para o desenvolvimento tecnológico – “o que a nutrição e a reprodução representam para a vida fisiológica, a educação é para a vida social” (DEWEY apud LOURENÇO FILHO, 1965, p.7). As orientações didáticas, até então voltadas à constituição de um indivíduo dócil e obediente, deslocam agora o seu interesse em direção a outro tipo de sujeito, autorregulado por seu próprio interesse e desejo. Há, segundo Noguera-Ramírez (2008), “[o] deslocamento da preocupação pela instrução, o ensino, a disciplina, para a ‘formação’, a ‘educação’” (p.11), uma vez que se referem a este novo tipo de sujeito, “[...] produto da ação individual para atingir a virtude, a moralidade, no marco das novas ideias de cidadania” (p.12). Para Foucault (2008b), há uma sintonia entre variados discursos e a forma de organização política e econômica das sociedades, relacionada, na época, com o liberalismo, representado pela máxima: [...] deixar as pessoas fazerem, as coisas passarem, as coisas andarem, laisser-faire, laisser-passer e laisser-aller [...]”(p.62-63). Nos discursos pedagógicos, percebe-se o enfoque dado ao desenvolvimento das crianças, que consistiria em deixá-las seguir um caminho seu, pessoal, orientado por suas escolhas (mas, de algum modo, dirigido pela natureza). O Movimento da Escola Nova, por exemplo, desloca o eixo da reflexão educativa em direção à criança. A escola, como uma das instituições que se encarrega de controlar e disseminar novas tecnologias, vai sendo produzida no campo político de discursividade liberal. John Dewey foi o principal representante deste Movimento e vai dar sustentação ao enfoque dos Projetos, tendo em conta o aspecto inovador dado à capacidade de pensar. As teorizações desse autor articulam-se à racionalidade governamental liberal, já que tratam o indivíduo como sujeito de uma natureza em desenvolvimento que será favorecida pela contínua reorganização e reconstrução da experiência, para a qual a liberdade é condição essencial (TEIXEIRA, 1965). Nesse sentido, é possível estabelecer relações entre uma orientação curricular que Horizontes, v. 30, n. 2, p. 7-18, jul./dez.2012 13 privilegia os Projetos de Trabalho, principal objeto de análise deste estudo, a formas de governamento dirigidas aos sujeitos ideais no liberalismo e no neoliberalismo. Nos discursos dos livros dos cursos de Pedagogia aqui analisados, os Projetos de Trabalho são apresentados como a tentativa que melhor responderia às exigências de reorganização da informação no âmbito da escola para atender às demandas da realidade social, econômica e cultural contemporânea. Sua função, segundo Hernández e Ventura (1998, p.61), é favorecer a criação de estratégias de organização dos conhecimentos escolares em relação a: 1) o tratamento da informação, e 2) a relação entre os diferentes conteúdos em torno de problemas ou hipóteses que facilitem aos alunos a construção de seus conhecimentos, a transformação da informação procedentes dos diferentes saberes disciplinares em conhecimento próprio (grifos dos autores). Nessa perspectiva, os Projetos são apresentados como estratégias pedagógicas que visam a transgredir, “explorar novos caminhos que permitam que as escolas deixem de ser formadas por compartimentos fechados, horários fragmentados, arquipélagos de docentes e passem a converter-se numa comunidade de aprendizagem” (HERNÁNDEZ, 1998, contracapa). Assim, essa metodologia apresentase como diferenciada das demais, por pretender construir intercâmbios de culturas e biografias em sala de aula, “ultrapassar os limites das disciplinas” (SANTOMÉ, 1998, p.25). Os discursos pedagógicos da escola, no presente, declaram a possibilidade de cada aluno se autodesenvolver. O forte desejo de transformar o aluno em um sujeito capaz de solucionar problemas e responsável pelas suas escolhas, insere-o numa comunidade de aprendizagem onde se diz que – com o empenho necessário e a orientação pedagógica adequada – ele será capaz de exercer e cumprir seu papel de cidadão, de constituir-se como sujeito moral e intelectualmente autônomo, de preparar-se para exercer determinadas funções na sociedade e de tornar-se um trabalhador competente. Apesar de os Projetos de Trabalho darem sequência à defesa de uma prática de trabalho que valoriza o papel decisório dos alunos desde Dewey, analisar isso nos discursos vigentes não significa falar da mesma coisa, uma vez que tais discursos estiveram sujeitos a condições materiais 14 Jaqueline de Menezes Rosa, Maria Isabel Edelweiss Bujes de enunciação muito distintas. É preciso então compreender o deslocamento da produção para o consumo, da (re)significação da liberdade como algo natural e espontâneo – no liberalismo – para um objeto de consumo – no neoliberalismo. De uma lógica que reproduz passamos a uma outra lógica, que cria, inventa, inova. O trabalho ultrapassa a atividade física. É preciso utilizar diferentes estratégias, ser criativo e fazer diferença. A educação tem um papel importante na orientação dessas mudanças. E não é por acaso que na educação percebemos os efeitos de atravessamento das ideias de “consumir”, gerir informações, flexibilizar, criar e desenvolver competências. A escola moderna não dá mais conta de seu papel na formação do sujeito para uma época neoliberal e passa a reorganizar e reconfigurar seus processos educativos. A organização curricular proposta por Sacristán (2000) e Santomé (1998), bem como a retomada dos Projetos de Trabalho proposta por Hernández (1998) e Hernández e Ventura (1998), insere-se na matriz discursiva associada a uma racionalidade política neoliberal. Os Projetos de Trabalho elevam a máxima preconizada de levar o sujeito a reaprender a aprender ao longo de sua vida. Cada um descobre que tem responsabilidade na sua própria aprendizagem – o sujeito empresário de si (VEIGA-NETO; SARAIVA, 2009) –, sendo apto a desenvolver suas capacidades na tentativa de melhor solucionar os desafios e resolver problemas de seu cotidiano. Aprender, nesse contexto, significa ter cada vez mais liberdade para gerir o próprio caminho, fazer escolhas, responsabilizar-se por elas na busca de realização pessoal, mas, sobretudo, inserir-se produtivamente num mundo voltado para o consumo e para a competição. Com o objetivo de produzir capital humano, dotado de aptidões para os novos tipos de trabalho, a educação teria reforçada sua posição de grande empreendimento na produção de novos sujeitos. E aqui é preciso dar um destaque especial, diante do objeto desta análise, ao professor como figura emblemática do esforço empreendedor: “[...] ‘serão os professores aqueles que em definitivo, mudarão o mundo da escola, entendendo-a” (HERNÁNDEZ; VENTURA, 1998, p.27). Essa individualização, que implica a responsabilização do professor, estimula cada vez mais a sua procura de embasamento, de leituras na busca de legitimação. Enfatiza-se a ele, de forma significativa, um vocabulário composto de termos, tais como: flexibilidade, espírito inovador, trabalho em equipe, entusiasta, facilitador, autonomia, aprender a aprender. Essas palavras ou expressões funcionam como ideias-chave, peças de uma narrativa, conjunto da mesma natureza, para constituir a referência a partir da qual cada professor deverá se examinar e fazer a reflexão sobre os modos como exercerá a sua docência. Ser flexível, por exemplo, seria o traço que possibilitaria ao professor relacionar as questões desse tempo, os interesses dos alunos, traduzindo-os na mudança da organização dos conhecimentos escolares. Essa flexibilidade aparece, tanto em Santomé como em Hernández, de forma muito semelhante, como uma hipotética sequência, alguns passos, não fixos, “mas [que] serve[m] de fio condutor para a atuação docente em relação aos alunos” (HERNÁNDEZ, 1998, p.81): Parte-se de um tema ou de um problema negociado com a turma; inicia-se um processo de pesquisa; buscam-se e selecionam-se fontes de informação; estabelecem-se critérios de ordenação e de interpretação das fontes; recolhem-se novas dúvidas e perguntas; estabelecemse relações com outros problemas; representa-se o processo de elaboração do conhecimento que foi seguido; recapitula-se (avalia-se) o que se aprendeu; conecta-se com um novo tema ou problema (id., 1998, p.81). Há, em contrapartida à flexibilidade, prescrições que orientam o exame das ações dos professores. E, assim, arriscamo-nos a dizer que os discursos sobre os Projetos de Trabalho operam no interior das práticas de formação de professores, no sentido de criar sujeitos governáveis através da utilização de várias técnicas que têm por finalidade controlar, normalizar e moldar a conduta desses futuros profissionais. Há constante referência à relevância da atuação do professor na construção de um aluno, de um sujeito ideal capaz de analisar e interpretar o mundo em que vive. De sujeitos ideais que são levad[os] a reconstituir em narrativas e textos, as experiências vividas reconhecendo-se como ‘protagonistas’ das mesmas. Nesse tipo de experiência há um constante incitamento para que [eles] se vejam, se narrem, se julguem, mas mais do que isso, há uma recorrência tenaz e oportunidades sempre reiteradas para que ajam no sentido de transformar-se Horizontes, v. 30, n. 2, p. 7-18, jul./dez.2012 Discursos curriculares da formação docente, projetos de trabalho e seus elos com a racionalidade neoliberal (BUJES, 2009, p.280). A elaboração do índice, por exemplo, tem um forte papel nesse processo. Trata-se de um instrumento que possibilita ao aluno antecipar o desenvolvimento do Projeto, planejar as diferentes atividades a serem realizadas, prevendo ações e o envolvimento do grupo. São os alunos que realizam as escolhas e tomam as iniciativas do trabalho a ser realizado. No entanto, como apontam Veiga-Neto e Saraiva (2009, p.198), “[devem] encaixar-se dentro de um recorte estabelecido pelo professor. A vinculação dos Projetos ao currículo não permite uma escolha assim tão livre, de modo que o interesse da criança é produzido por intervenções do professor”. De certa forma, o índice gerencia e programa todas as ações feitas - a serem realizadas e as que não foram realizadas – nesse mecanismo de controle, automonitoramento e confissão. O portfólio é outra estratégia dos Projetos a ser analisada. É neste que ficam reunidos os registros das hipóteses, das construções individuais ou coletivas feitas durante todo o desenvolvimento do Projeto. É uma modalidade de avaliação vinculada à evolução do processo de aprendizagem. Trata-se de uma estratégia de governo que afeta as aspirações e desejos pessoais de forma indireta, maximizando as capacidades intelectuais: [...] acumulando registros contínuos do progresso dos estudos [...] se pode utilizar não só para manter os estudantes ativamente implicados em seu próprio progresso (e, portanto, comprometendoos em manter seus esforços para alcançar o êxito), mas sim também para “deixar frios” os estudantes que estão tendo dificuldades com seus estudos, baixando suas expectativas e tendo que assumir por si mesmos, momento a momento, fragmento a fragmento, a natureza e a extensão de seus fracassos (HERNÁNDEZ, 1998, p.98). 15 análise dos Projetos de Trabalho, central nos discursos curriculares de formação de professores, articulada à governamentalidade neoliberal, incita a constituição de novos sujeitos. É sobre estes que está o grande investimento da contemporaneidade, uma vez que empreender se associa aos processos de ensino e aprendizagem. Investir na proposta dos Projetos de Trabalho seria investir em capital humano, promover a maximização dos potenciais de cada um, não sendo apenas útil ao desenvolvimento do trabalho, mas ao crescimento pessoal ao longo da vida. Por todas essas razões, ao nos interessarmos pelos discursos curriculares da formação docente, foi possível destacar a sua estreita vinculação com as práticas de constituição do sujeito professor na atualidade. Problematizar tais discursos possibilitou que os percebêssemos atravessados por relações de poder, em diferentes momentos e contextos, e reforçou nossa convicção de que fizeram e fazem parte dos processos produtivos da sociedade, permitindonos entender sob um prisma bem menos idealista as aspirações da formação docente deste nosso tempo. E é nesse sentido que desejamos enfatizar que não tivemos a pretensão de apresentar um estudo que traçasse direções para a formação docente nem demarcar um campo de convicções ou soluções para os problemas educacionais. Substituir um modo de pensar por outro não garante a promoção de uma investigação mais comprometida e arguta (BUJES, 2008). Nossos propósitos são outros – talvez um tanto menos ambiciosos, como cremos ter explicitado ao longo deste texto –, uma vez que nos afastamos das crenças dominantes acerca da verdade e do progresso que ainda marcam o campo pedagógico. Acreditamos ser produtivo pensar em como chegamos a conceber a relevância dos Projetos na atividade docente, para depois contestá-los e até mesmo desconstruí-los, no sentido atribuído por Veiga-Neto (2007) de abrir outros espaços, espaços de liberdade, indagação e mudança. Referências Bibliográficas O portfólio possibilita indicar os momentos-chave das aprendizagens conquistadas, superadas e a superar de ambos os sujeitos escolares: alunos e professores. O anseio de que possam, juntos, reaprender a aprender vai possibilitar trajetos e aspirações de próximos desejos, traçando, segundo Rose (1998, p.44), “a distância entre aquilo que somos e aquilo que podemos nos tornar”. Nesse sentido, poderia se dizer que a Horizontes, v. 30, n. 2, p. 7-18, jul./dez.2012 BUJES, Maria Isabel E. Infância e Maquinarias. (2001). Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2001. BUJES, Maria Isabel E. Para pensar pesquisa e inserção social. Revista Eletrônica de Educação (UFScar), v.2, 2008, p.106-124. Disponível em: 16 Jaqueline de Menezes Rosa, Maria Isabel Edelweiss Bujes <http://www.reveduc.ufscar> Acesso em: 06 fev. 2010. projetos de trabalho: o conhecimento é um caleidoscópio. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998. BUJES, Maria Isabel E. Manuais Pedagógicos e Formação docente: elos de poder/saber. Currículo sem fronteiras, v.9, n.1, jan./jun.2009, p.267-288. 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Educação & Realidade, Porto Alegre, maio/ago., 2009, p.187201. 18 Jaqueline de Menezes Rosa, Maria Isabel Edelweiss Bujes Notas 1 Por similar, entendemos disciplinas que tratam dos temas didáticos, mas recebem denominações tais como: Organização do Trabalho Pedagógico, Organização Escolar, Prática Pedagógica Interdisciplinar, Ação Pedagógica na Educação Infantil e Anos Iniciais, Ação Pedagógica na Educação Básica, Projetos Educativos Interdisciplinares, etc. 2 Nessa lógica, o enfoque no ensino e na instrução reforça a importância do mestre, centro da ação pedagógica, sobre a conduta das crianças. O conjunto das ordens, da organização dos espaços, dos tempos, da estrutura dos conteúdos, irá constituir uma rotina inflexível na obtenção da obediência e disciplina. Modelo pedagógico que se sucede no ensino dos jesuítas e se generaliza a partir do século XVIII, através da consolidação das idéias propagadas na Didática Magna de Comenius. 3 A fim de evitar problemas léxicos com a palavra governo, valemo-nos do termo utilizado por Bujes (2001) e Veiga-Neto (2002): governamento. “Justifico a utilização do termo com a intenção de diferenciá-lo de governo – como uma instância de controle político, como instituição a quem cabe o exercício de autoridade –, do ato que se exerce sobre uma pessoa ou que ela exerce sobre si mesma, para controlar suas ações” (BUJES, 2001, p.73). Sobre as autoras: Jaqueline de Menezes Rosa: Mestre em Educação, professora do Curso de Pedagogia da Universidade Luterana do Brasil (Canoas/RS). Maria Isabel Edelweiss Bujes: Doutora em Educação, professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Luterana do Brasil (Canoas/RS) e pesquisadora da infância. Horizontes, v. 30, n. 2, p. 7-18, jul./dez.2012 19 As práticas curriculares em Matemática que se produzem pelo governo do IDEB Samuel Edmundo Lopez Bello* Resumo Este texto analisa por que e de que maneira se mobilizam determinadas práticas curriculares no espaço escolar. Trata-se de mostrar como e por que se dá o Governo da instituição escolar pelos números do IDEB; quais estratégias se utilizam para a produção/mobilização dessas ações de governo. A partir do conceito de numeramentalização, de inspiração foucaultiana, é que se vê a operatividade do índice numa lógica sedutora da ciência como expressão de racionalidade e razão, a qual encontra no imperativo da contextualização do ensino a sua força impulsionadora. Sugere-se, por fim, uma postura ética na formação de professores que, de posse desta analítica, constitua uma singularidade das práticas curriculares como contraponto às ações de governo da política educacional. Palavras-chave: Práticas curriculares – avaliação e desempenho em matemática – Educação Básica – Governo dos números. Curricula Practices of Mathematics and the government of IDEB Abstract This text aims to analyze why and how certain practices are mobilized in the school curriculum. Our goal is to show how and why the government of the school by the numbers of IDEB, what strategies are those that are used for the production / mobilization of these government actions. From the concept of Foucauldian inspiration so-called “numeramentality”, we can realize the operativity of the index in a seductive logic of science as an expression of rationality and reason, which takes the context of teaching as imperative of their driving force. We suggest an ethical stance in teacher education which, from our analitical point of view, institutes a singularity of curriculum practices as a counterpoint to the actions of government of education policy. Keywords: Curricula Practices – Evaluation and Performance in mathematics – Schooling – Government by numbers. Introdução Tem sido cada vez mais recorrente sentir a preocupação, nas diversas instâncias institucionais (Universidades, Escolas, Secretarias de Governo) e pelos mais diversos segmentos da sociedade (Pais de Família, professores, meios de comunicação), que o ensino na escola e o aproveitamento dos nossos estudantes não andam bem, em particular no ensino de Matemática. Esses dizeres ganham fôlego e encontram uma sustentação de caráter empírico-objetivo em índices que são produzidos para essa finalidade, a partir de avaliações em larga escala. Refiro-me, neste caso particular, ao IDEB - Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, o qual tem se tornado um dos principais indicadores de como anda a “saúde” da Educação no Brasil. Como é sabido, os índices para 2012 foram calculados com base no desempenho dos estudantes em avaliações de português e matemática combinando-se com as taxas de aprovação, reprovação e abandono escolar.1 No caso da “realidade educacional revelada” por esses índices, a situação caracterizada para o Estado do Rio Grande do Sul tem sido considerada por diversos setores da * Endereço eletrônico: [email protected] opinião pública como preocupante: 5,1 para o IDEB ao final dos anos inicias; 3,8 para os anos finais do Ensino Fundamental e 3,4 para o IDEB Ensino Médio2. Muitas críticas e ressalvas poderão ser feitas à maneira como este índice é construído, em particular, se considerarmos que: Os resultados representam uma espécie de “fotografia” do momento, não revelando a complexidade do processo de aprendizagem, em razão da qual, embora seja um indicador importante, ele por si só não explica as reais condições de aquisição do conhecimento (RIO GRANDE DO SUL, SEDUC/RS).3 Sob a questão: Por que o mau desempenho dos jovens estudantes, em particular, na disciplina de Matemática? Ou, por que 89% chegam ao final do Ensino Médio sem aprender o esperado? Tem sido muito insistente a procura, por parte da Mídia, pelas causas da situação educacional para o estado do RS que evidenciam esses índices. Certamente, não podem ser igualados os sentidos atribuídos aos termos desempenho e aprendizado. Contudo, nós, 20 Samuel Edmundo Lopez Bello professores universitários, temos uma percepção ainda que intuitiva, de que alguma coisa não está funcionando de modo adequado no processo de ensino-aprendizagem. Podemos, inclusive, dizer que cada vez mais alunos chegam ao ensino Superior sem saber mobilizar minimamente objetos matemáticos considerados básicos para “resolver” situações-problema que são propostas. De modo geral, a mídia tem apontado como causa desse insucesso nos resultados obtidos pelo IDEB ao processo de Formação de professores, particularmente à formação pedagógica dos professores em exercício na rede pública de ensino, quando não referido situações mais sistêmicas como baixos salários e falta de infraestrutura. Em se tratando do Ensino Médio, a essas causas poderiam se agregar a evasão escolar e a infrequência às aulas por parte dos estudantes, as quais, até alguns anos, eram facilmente “naturalizadas” ao olhar de professores e das equipes diretivas nas diferentes escolas públicas estaduais da cidade de Porto Alegre, ao serem visitadas quando da realização dos trabalhos de orientação nas disciplinas de Prática de Ensino do Curso de Licenciatura em Matemática da UFRGS4. No entanto, quando Poder público, Pesquisadores, Profissionais do Centros de Formação Universitária são desafiados e tensionados a oferecer respostas, os encaminhamentos podem ser outros. Poder-se-ia dizer que os problemas da Educação Básica, em geral, não respondem apenas às questões da gestão escolar, mas há uma responsabilização dos resultados no Ensino Médio a partir dos processos de ensino-aprendizagem que ocorrem no Ensino Fundamental, nos anos iniciais e, antes ainda, na educação Infantil. De modo geral, para as autoridades e profissionais da educação, o problema da falta de interesse e da indisciplina na escola Básica, quando não se vincula diretamente às “lacunas” na formação acadêmica dos estudantes, é porque ora o professor não vincula o conteúdo matemático às aplicações ou problemas do dia-adia, ou porque a escola não investe em práticas de culturização escolar. Sobre este ultimo aspecto, Xavier (2008, p. 21) nos lembra que a categoria aluno é uma categoria cultural e precisa ser produzida pela escola contemporânea; posturas devem ser ensinadas através de procedimentos que componham as rotinas escolares. Da mesma forma, “as áreas de conhecimento precisam ser vistas como instrumentos para autoconhecimento, conhecimento do outro, conhecimento do mundo social e natural” (idem, ibidem, p. 27). Do meu lugar de pesquisador e como professor do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, vinculado à linha de pesquisa das filosofias da diferença, em meio a todas essas possíveis causas do baixo desempenho, sinto-me desafiado a (re)tomar a questão pelo lado da análise curricular. Nesse sentido, tomarei o Currículo como foco de experiência, no sentido foucaultiano, isto é, como ponto de inflexão no qual se articulam e se sobrepõem, primeiro, as formas de saber possível, segundo, as matrizes normativas de comportamento para os indivíduos; para posteriormente se constituírem os modos de existência virtuais para sujeitos possíveis de um determinado tempo histórico (FOUCAULT, 2010, p. 4). Para tanto, deve-se tomar o Currículo como objeto de pensamento e de reflexão; pesquisá-lo, revisitá-lo, desconstruí-lo, reinventálo, em outras palavras, tornar o Currículo um acontecimento na pesquisa em Educação. Nesse sentido, Corazza (2004, p. 10) lembra-nos que pesquisar não quer dizer ultrapassar uma situação de desconhecimento, superar uma condição de ignorância ou uma passagem de um saber a um não saber. Fazer do currículo um acontecimento na pesquisa significa fazer “o choque com o já feito, uma experimentação dos conceitos e das imagens do pensamento que animam uma Pesquisa do acontecimento” (idem, ibidem, p. 11); suspender os modos de pensar consagrados pela instituição escolar; desarmar os modelos que prescrevem as formas em que acontece ou não o aprendizado, os princípios sobre os quais se sustenta a seleção de conteúdos, o que se consideram aprendizagens significativas, entre outros. Assim, esse pensar curricular não se refere a uma reestruturação ou (re)acomodação dos conteúdos escolares considerados esperados, e sim a uma uma analítica sobre por que e de que maneira se mobilizam determinadas práticas curriculares no espaço escolar, como se constituem os saberes que as compõem; mostrar como e por que se dá o Governo da instituição escolar pelos números do IDEB; que estratégias são aquelas que se utilizam para a produção/mobilização dessas ações de governo; como atuam os princípios que orientam e constituem as práticas curriculares com vistas à melhoria da melhoria da qualidade de ensino. É disto que trata este artigo. Do Governo das práticas curriculares escolares pelo IDEB Horizontes, v. 30, n. 2, p. 19-30, jul./dez.2012 As práticas curriculares em Matemática que se produzem pelo governo do IDEB O que impacta na reformulação de um currículo? Alunos de graduação, professores em exercício na educação básica consideram que as disciplinas escolares, em particular a Matemática, são mais ou menos as mesmas há muito tempo, dada a tradição com que tem se apresentado o seu ensino. No entanto, segundo Santos L. (1994), uma análise cuidadosa nos revela que há uma variação na forma e no conteúdo, isto é, nas formas metodológicas a serem privilegiadas no processo de ensino-aprendizagem quanto à própria seleção de conteúdos. Para a autora, a literatura mostra que na análise de tais mudanças podem ser encontrados fatores diretamente ligados ao contexto social (eventos sociais, políticos e de natureza intelectual-cultural). Da mesma forma, é importante destacar que questões relacionadas à realização de políticas curriculares envolvem poder, controle, coalisões, negociações e compromissos entre grupos e indivíduos operando dentro e fora do sistema escolar. Da mesma forma a pesquisadora sustenta que: “em decorrência disto, é importante verificar quais são as propostas de ensino na área, envolvendo conteúdo e método, bem como os eventos que estariam propiciando a hegemonia de determinada tendência em períodos e locais definidos.” (idem, ibidem, pp. 159-160). Dessa forma, a história das matérias ou disciplinas escolares deve abranger não apenas os conhecimentos incluídos em um curso de estudo, mas também os excluídos, devendo ainda analisarem-se os efeitos sociais dessa inclusão ou exclusão. Entre as causas apontadas por Santos (1994) que influenciariam a organização curricular, além dos estudos advindos da psicologia do desenvolvimento, do controle assumido por especialistas da comunicação pela elaboração dos livros didáticos e os vestibulares, aponta autora, deve se dar especial atenção aos exames nacionais e a relação dos mesmos com as políticas e os movimentos internacionais. Tomar-se-á como ponto de partida esse último aspecto apontado por Santos, isto é, o dos Exames Nacionais e sua relação com os movimentos internacionais, para tratar daquilo referente ao “Governo da escola e das práticas curriculares pelos números” para seguidamente mostrar como o currículo, nessa ação de governo; ou melhor, as práticas curriculares5 escolares em matemática sofrem impactos a partir do que denominaremos de “A Curricularização dos descritores da avaliação”. Para Sousa (2003) não se pode falar de impactos de políticas de avaliação sem levar em consideração o procedimento ou processo que é Horizontes, v. 30, n. 2, p. 19-30, jul./dez.2012 21 tomado como referência. No caso da Educação básica brasileira, o IDEB – índice de desenvolvimento da educação Básica - assume centralidade na política educacional do país, visto que apontaria ao alcance dos objetivos de uma melhoria da eficiência e da qualidade da Educação. E pelos termos eficiência e melhoria Sousa (idem, p. 177) expressa: Melhoria da eficiência refere-se ao fluxo escolar (taxas de conclusão, de evasão, de repetência, estimulando-se por exemplo, a implantação da progressão continuada, classes de aceleração, organização curricular em ciclos) [...] Quanto à concepção de qualidade do ensino adotada, será possível sua explicitação [...] sob o pressuposto de se dar visibilidade e controle público aos produtos ou resultados educacionais, disponibilizando aos usuários elementos para escolha dos serviços ou para pressão sobre as instituições ofertantes. Porém, cabe perguntar: por que o IDEB impactaria tanto nas práticas curriculares de professores e escolas em Matemática? Em princípio, poder-se-ia dizer que isso ocorre porque o índice tem como parâmetro o rendimento dos alunos na Prova Brasil nas disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática, combinando-se com indicadores de fluxo como taxas de promoção, repetência, evasão, calculados a partir do Censo Escolar6. Do ponto de vista das mobilizações produzidas, estudos empíricos como os desenvolvidos por LIMA e SILVA-NETO (2010) mostram que no momento da divulgação dos resultados do IDEB, os mesmos são assunto de reuniões, conversas e indagações, entre professores de Matemática, principalmente no sentido de se decidir o que fazer para se atingirem as metas em anos seguintes. Por enquanto, se a proposta é entender o porquê e como um índice propicia toda uma possibilidade de mobilizar uma série de condutas e procedimentos quanto à melhoria da eficiência da Educação e do desempenho escolares, a questão do poder parece ser central nessa discussão. Segundo Foucault (1988), é pela compreensão relacional do poder-saber e das formas de Governo (FOUCAULT, 2008a), ou, como nos sugere Veiga-neto (2005) 7 Governamento , que se abre a possibilidade de compreender artes, racionalidades, saberes, regimes específicos de formas de pensar e agir envolvidos na produção de práticas e tecnologias, para a produção de condutas em si mesmo e nos 22 Samuel Edmundo Lopez Bello outros. Essa definição de governo como condução da conduta é importante para se entender o funcionamento, controle ou direcionamento de comportamentos e atitudes dentro de instituições ou comunidades, na alteridade e na relação consigo mesmo. É importante destacar que, no entendimento relacional que Michel Foucault faz do poder-saber, que utiliza o termo governamentalidade (FOUCAULT, 2008b) para se referir à disposição, organização, distribuição, estudo, análise de práticas, racionalidades e técnicas de governamento8 e na produção de práticas e tecnologias específicas, ora no que se refere à relação entre as tecnologias de governamento dos outros (populações) e as tecnologias próprias de governamento de si (indivíduos). Gordon (1991) e Rose (1997), bem como o próprio Foucault (idem), discutiram como o liberalismo e o neoliberalismo se constituíram contemporaneamente como racionalidades políticas, princípios racionais de ação para a orientação das condutas, dos modos de ser e de agir. Nesse sentido, e tomando como referência a noção foucaultiana de Governamentalidade (Foucault, 2008a) e fazendo o embaralhamento de suas possibilidades (processos de governo, racionalidade, práticas, tecnologias), é que utilizar-se-á a “Numeramentalidade” (Bello, 2011)9 . Essa noção é uma entre tantas outras perspectivas analíticas para o estudo de normatividades produtoras, orientadoras e reguladoras de condutas, modos de pensar e agir na contemporaneidade baseadas fortemente na quantificação, na medição, no uso e registro de números. A noção Foucaultiana de Governamentalidade e/ou governamento, e aquilo que ele denomina de “processos de governamentalização” das artes e técnicas de governar, serviu-me de base à invenção do neologismo Numeramentalidade, em português, que poderia ser melhor expresso como: Numeramentalité, em francês, em analogia ao termo Gouvernementalité, próprio da teorização Foucaultiana10. Essa noção – a de Numeramentalidade, ora também referida em vários momentos como numeramentalização – será entendida como “a combinação entre as artes de governar e as práticas e as normatividades em torno do numerar, do medir, do contabilizar, do seriar, as quais orientam a produção enunciativa das práticas sociais, em âmbitos institucionais – como o da escola, por exemplo - e nos planos de agenciamentos comportamentais contemporâneos - como nos do currículo. Esses agenciamentos tendem posicionar a Numeramentalidade não apenas como um dispositivo, como referido por Foucault, mas como um processo, no qual se operam práticas, constituem-se discursos e identidades, regulam-se condutas, incitando-se, sempre que possível, a processos de subjetivação. Neste caso, tanto a ferramenta metodológica e conceitual da Governamentalidade como a numeramentalização são aqui consideradas não apenas como dispositivos de uma época, modos e formas de se expressar uma racionalidade de governo; elas são ferramentas para se entender a produção de tecnologias de governamento das instituições e da gestão (escolas, práticas curriculares) com impactos na tomada de decisão de caráter político. Governamentalidade e Numeramentalização são conceitos que operam como grades analíticas que auxiliam no entendimento da produtividade e da centralidade das quantidades, dos números (medições, índices, taxas), seus registros e usos como expressão da verdade nos modos de pensar e se conduzir dos indivíduos de uma sociedade. Se entendermos como tecnologia de governamento aqueles meios a que, em determinada época, autoridades de tipo diverso utilizam para moldar, instrumentalizar e normalizar as condutas de indivíduos e também parcelas da população, então a estatística11, por exemplo, pode ser considerada uma tecnologia para governar (Traversini e Bello, 2009, p. 143), principalmente se a mesma serve normativamente para o controle e a regulação de riscos sociais: A estatística pode ser entendida como um meio, composto por saberes e por procedimentos técnicos específicos que é utilizada por governos das diferentes esferas públicas, para situar comunidades […] como sendo de risco social. Analisar como se conduz a conduta desse conjunto de indivíduos para sair da condição de analfabetismo [por exemplo] é tomar a prática da gestão do risco como uma forma de governar que necessita do saber estatístico para tomar decisões (TRAVERSINI e BELLO, 2009, p. 143). Segundo Popkewitz e Lindblad (2001, p 114), as estatísticas cumprem uma função prática na governança educacional moderna. Isto porque as estatísticas participam da lógica sedutora da ciência num momento histórico de racionalidade e razão. Segundo os autores, muitas das relações entre governança, ações sociais e efeitos educacionais em relação a inclusão social são estatísticas. “A informação aparece como dados que convidam a comparações entre categorias no tempo e no espaço e podem ser utilizados em Horizontes, v. 30, n. 2, p. 19-30, jul./dez.2012 As práticas curriculares em Matemática que se produzem pelo governo do IDEB vários tipos de análises quantitativas, mais particularmente quando a pesquisa lida com política educacional” (idem, ibidem, p. 114). O IDEB, para o caso da política educacional brasileira, pode ser visto como um exemplo disso. Em princípio porque o conceito de comparação é constituinte do índice como produto estatístico, as próprias medidas obtidas a partir dos dados estatísticos são resultados de comparação com unidades ou sistemas-padrão consideradas desejáveis. Segundo Sousa (2003), a avaliação realizada na produção dos dados que comporão o IDEB predispõe a: uma ênfase nos produtos e resultados; uma atribuição de mérito tornando-se o mesmo individual para instituições e alunos; uma classificação de desempenhos escalonados; uma comparação a padrões externos não articuladas à auto-avaliação12. Vê-se também que o trabalho desenvolvido por Lima e Silvaneto (2010) conduziu a uma busca pela relação entre o resultado da avaliação expressa pelo índice com as condições socioeconômicas dos estudantes e suas concepções sobre matemática. O índice não apenas orienta políticas, mas também pesquisas. Dessa maneira, o índice torna-se propulsor de condutas e encaminhamentos a serem adotados pelas escolas, cabendo ao Estado um papel mais regulador, avaliador, fiscalizador, do que propositor. Diferente do que foi argumentado em Traversini e Bello (2009, p. 147), a figura do professor, nesse contexto, adquire centralidade tanto quanto os índices, visto que o esforço do professor estará em relação direta com o aumento do indicador. No dizer de Popkewitz e Lindbland (2001, p. 116-117), os indicadores educacionais tornam-se “a linguagem que atravessa as declarações do Estado, dos profissionais e das fundações sobre os professores e suas práticas educacionais […] nada é mais poderoso, para influenciar os ganhos de realização dos alunos, que a qualidade do professor”. Da mesma forma, continua o autor, esses indicadores também definem o problema das mudanças educacionais em relação a números: números de professores não licenciados, números de professores ensinando na área de formação, porcentagem de variância entre realização e experiência do professor, e assim por diante. Portanto, conclui, começamos nossa discussão sobre estatísticas com uma observação a respeito das funções práticas dos números; eles intervêm nos processos de governo, uma vez que moldam nossa maneira de ver as possibilidades de ação, de inovação e até a nossa visão de nós mesmos. A produção de estatísticas oficiais é, hoje, “um empreendimento rotineiro que tem uma ampla infraestrutura em Horizontes, v. 30, n. 2, p. 19-30, jul./dez.2012 23 programas de Estados e de Universidade cuja escala e sofisticação se estende a campos mais vastos da vida social e que se infiltra profundamente no funcionamento da sociedade” (Starr, apud POPKEWITZ e LINDBLAND, 2001, p. 117). Os efeitos da Curricularização dos descritores da avaliação A relação poder-saber ora constituída, poder para produzir condutas - saberes/índices estatísticos (como objetivação de uma condição, expressão de uma verdade) - incide sobre os viventes13, tornando-os indivíduos para uma determinada realidade histórica e social. Como modeladores de conduta, as estatísticas não são apenas meros sistemas lógicos, mas um campo de práticas culturais que normaliza, individualiza, divide. Os números governam não como números em si, mas pela possibilidade que oferecem de entrecruzar discursos outros que circulam traçando perfis e inventariando/inventando individualidades – daí o caráter tecnológico dos índices estatísticos como o IDEB. Ao mesmo tempo em que o uso de estatísticas é uma maneira de construir classes humanas para abrir possibilidades para o futuro, é também um modo para que a individualidade seja descrita de novo e que as pessoas possam experimentar a si mesmas. Criar novas maneiras de classificar as pessoas é também mudar a maneira do que podemos pensar de nós mesmos, mudar nosso sentido de valor próprio e, inclusive, mudar os modos de significar nossas próprias experiências (POPKEWITZ e LINDBLAND, 2001). Em Bello e Traversini (2011), ao discutirmos a inserção curricular do saber estatístico no contexto dos PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais), consideramos que essa Curricularização atendia muito mais a objetivos políticos no que se refere à formação de um tipo específico de sujeito/indivíduo aluno, do que propriamente a preocupações epistêmicas. Ao curricularizarem o saber estatístico, os PCN trazem para si a expectativa de formação de um determinado tipo de sujeito que tome esse saber e, consequentemente, a matemática numa dimensão instrumental como auxílio para suas atividades […] A conduta esperada, a nosso ver, consiste no aluno saber decidir, ter iniciativa e segurança para utilizar os conhecimentos no momento oportuno. Os conteúdos aprendidos têm efeitos, e, na racionalidade neoliberal 24 Samuel Edmundo Lopez Bello vigente, o pressuposto é que o aluno seja capaz de posicionar-se como um sujeito produtivo, a partir das diferentes situações relacionadas à sua vida (Idem, ibidem, p. 866-867). Nesse sentido - e considerando o currículo não apenas uma seleção de conteúdos, mas o conjunto de experiências que a escola dispõe para as aprendizagens escolares -, entender os descritores em Matemática - organizadores das matrizes de referência para a Prova Brasil/SAEB e o ENEM14 - como saberes normativos das práticas curriculares de professores de Matemática e em resposta aos problemas de ensino-aprendizagem supostamente revelados pelos índices do IDEB implica também significar os comportamentos docentes em termos de “boas” formas de serprofessor. Seguindo os rastos de Miguel et al (2008) e Miguel (2010), em Bello (2010), Pinho e Bello (2011) e recentemente em Bello (2012), temos mostrado que uma concepção normativa de “saber” nos possibilitaria investigar também como os sujeitos operam e se constituem seguindo regras de práticas sociais distintas. O entendimento do que seria seguir uma regra para discutirmos as práticas curriculares escolares matemáticas, poria “em suspenso” as teorizações construtivistas ou socioculturais do saber matemático, que localizam nos objetos (pela via da experimentação), nos sujeitos (pela via da abstração) ou nas relações sociais (por um viés sócio-histórico-cultural), a “construção” dos ditos conhecimentos matemáticos, bem como o convencimento sobre quais as ações que devem ser realizadas para que isso ocorra. Desse modo, as práticas curriculares, como práticas sociais regradas, no âmbito institucional da escola, conduzem-nos para um sentido normativo do próprio fazer matemático forjado por linguagens que não estão em um plano ideal ou funcionam como uma irredutível máquina lógica (como na visão platônica), mas encontram suas explicações e razões de sua existência em suas próprias ações. A referência sobre o que é seguir as regras desse fazer matemático é dada pelas suas próprias práticas e não fora delas. Não me deterei na analítica da linguagem que organiza as práticas curriculares matemáticas e nem na enumeração enunciativa de cada um dos descritores. O objetivo é mostrar como eles, ao mesmo tempo que são parâmetros de avaliação, tornam-se conteúdos escolares e constituintes normativos das práticas curriculares escolares em termos de condutas que deverão ser produzidas. Afinal, espera-se que, a partir do IDEB e da média obtida por cada escola na sua avaliação, procedase a uma análise por parte das escolas e professores, principalmente identificando-se as habilidades já conquistadas, as que estão em processo de construção e aquelas que precisam ser retomadas e trabalhadas pedagogicamente. Para isso, é preciso identificar e descrever itens acertados pelos alunos com nota no ponto que se quer interpretar. Só com a construção e a disseminação desse tipo de interpretação pedagógica, a Prova Brasil poderá influenciar mais decisivamente o ensino (BRASIL, 2010, p. 8). Em consonância com os PCN e PCNEM, os descritores da matriz de Matemática se inserem na perspectiva de um ensino-aprendizagem de qualidade sustentados principalmente no desenvolvimento de competências e habilidades necessários para o convívio social, inserção e participação do/no espaço público. Ainda sob os pressupostos da psicologia cognitiva, espera-se que o aluno alcance determinados níveis de abstração para compreender o conhecimento científico que o ajudariam nessa tarefa. A expectativa que se sobrepõe a qualquer justificativa do porquê este ou aquele descritor é de ordem epistêmica. Assim, reconhecer15 e identificar16 são verbos muito recorrentes nos descritores para vincular as ações didáticas a conceitos e procedimentos como tradicionalmente trabalhados na instituição escolar. Contudo, melhores resultados nas avaliações, na esteira da política pública educacional, são traduzidas como melhorias de desempenho não apenas dos alunos, mas da qualidade das práticas pedagógicas que realizam professores, instituições - escolas e universidades – e sistema como um todo. Nesse sentido, tomar, por exemplo, comentários, sugestões de trabalho evidenciados nos documentos oficiais das Matrizes de Referência ou, até mesmo, questões propostas nas provas sobre os temas matemáticos e seus descritores - seja para o Ensino Fundamental ou Ensino Médio - como normativas para as práticas curriculares pode significar um melhor desempenho nas avaliações. Considerando o que dizem TRAVERSINI e BELLO, 2009, (p. 147) tomar os indicadores como normativos constituintes de uma prática curricular e ensinar os estudantes a ter um bom desempenho nas provas poderia ser uma possibilidade de confronto frente aos objetivos educacionais expressos numa política de avaliação nacional. Confronto esse que assume a forma contemporânea de investimento, Horizontes, v. 30, n. 2, p. 19-30, jul./dez.2012 As práticas curriculares em Matemática que se produzem pelo governo do IDEB visto existem politicas publicas que redistribuem os recursos conforme a melhoria dos indicadores. Entretanto, o sistema em conexão com a sua racionalidade governamental neoliberal quer mais. Sob a consigna de resolver problemas, espera mudanças no tipo de respostas dadas pelos alunos, bem como nos encaminhamentos curriculares feitos pelos professores. Utilizando-se este ou aquele conteúdo com fins prático-aplicativos, deseja-se por parte do aluno uma “compreensão do que está sendo ensinado e, muitas vezes, de sua aplicação no cotidiano, [para tanto] é preciso utilizar um tipo de linguagem acessível e, também, delimitar o nível de complexidade do conhecimento que será abordado pelo professor (BELLO e TRAVERSINI, 2011, p. 864 [grifo nosso]). Para Ribeiro e Lise (2010, p. 334 - 335) os descritores das Matrizes de referencia em consonância com os PCN procuram “reconectar os diferentes blocos de conteúdos, ligar a Matemática com as situações cotidianas e as outras áreas de conhecimento; [...] o gosto pela matemática, o incentivo à pesquisa, desenvolvendo no aluno uma atitude investigativa diante das situaçõesproblema proposta em sala de aula, são alguns exemplo dessa compreensão mais ampla do que é ensinar e aprender Matemática segundo os PCNs. Nessa esteira das situações-problema e da aplicabilidade de conhecimentos, vemos os saberes ligados à contextualização do ensino constituirem-se como imperativo de boas práticas pedagógicas, consequentemente da fabricação de certas identidades-aluno, bem como de identidades “bons – professores” de Matemática. As críticas à contextualização e ao uso da realidade para o ensino de matemática não são recentes. Trabalhos como os de Bampi (1999), Santos C, (2008) e Knijnik et al (2006) e Santos S. (2009) e, de um modo mais amplo, em se tratando da Interdisciplinaridade, os trabalhos de Veiga-Neto (1995,1997) questionam, sob um viés analítico pós-estruturalista, que esses temas estão longe de se constituírem em remédios ou soluções para os problemas do ensino. Essa seria apenas uma política de verdade da Educação Matemática, na teia do poder-saber, para se produzirem determinados tipos de identidades-sujeito (BELLO, 2010). Sujeito aqui entendido não como aquele que do ponto de vista cognitivo apreende conhecimentos, mas como aquele que se assujeita, se governa, se gerencia, se analisa, se Horizontes, v. 30, n. 2, p. 19-30, jul./dez.2012 25 julga, em último caso, produz-se, segundo as relações que estabelece com as verdades do seu tempo. Se os saberes estatísticos, por exemplo, desenham e regulam os sujeitos produtivos, criativos, que buscam segurança, que se responsabilizam por si mesmos (BELLO e TRAVERSINI, 2011, p. 867); da mesma forma, vemos a contextualização tornar-se um imperativo para a constituição do EU – sujeito - bom professor, o qual produz boas práticas curriculares, visto que essa contextualização opera - para além da teoria e da cientificidade da produção acadêmica em Educação Matemática como regra de conduta. O que se quer dizer com isso é que a contextualização mobiliza e produz a busca pela sua objetivação, sua realização não pela cientificidade que a produziu, mas pela moralidade que lhe dá sustentação. Se se entende por moral um conjunto de valores e regras de ação propostas aos indivíduos e às comunidades por intermédio de aparelhos prescritivos diversos como podem ser as instituições educativas, as associações científicas, instancias públicas de gestão -, observa-se um dizer da educação matemática prescrevendo a contextualização do ensino como regra constituinte das práticas escolares. Se por moral entende-se a avaliação e medição das nossas ações pelo código prescrito, ter-se-á, pois, a contextualização como regra ou princípio de conduta desejável à constituição do bom professor. Aquele que quiser ser visto como bom professor contextualizará e incitará seu colega a fazê-lo. Afinal, a conjuntura normativa, que opera como verdade, captura esse seu sentido desde os tempos do platonismo na aproximação do homem ao que possa existir de mais puro, inteligível, virtuoso, justo. É importante destacar que esses aspectos morais são propostos e sustentados desde o engendramento da modernidade como maneiras de se dirigir não apenas a finitude do homem, sua humanização por meio da razão, mas também para que se produza o estatuto metafísico da verdade e das regras constituintes das boas ações do agir dos indivíduos acima de seus contextos e finalidades. Nessa moral moderna, da qual está muito impregnada a escola, as boas razões para agir devem valer para todos os sujeitos escolares; por isso a moralidade possui um caráter normativo: trata-se de uma lei válida para todos na exata medida da sua racionalidade. Contextualizar passa assim a ser entendido como um dever que gerará obrigação de uma determinada conduta escolar e uma culpa caso não se atinjam as finalidades educacionais, já que, o que parece, não realizamos nossa tarefa de 26 Samuel Edmundo Lopez Bello bons professores – e o IDEB está ai para revelar essa nossa falta ao dever17. A contextualização opera nessa linha de pensamento: um dever que conjugado a outras boas ações produzirá práticas pedagógicas de sucesso. Assim, tornar a contextualização um imperativo significa dotá-la de uma unidade e de um caráter verdadeiro constituinte de toda prática curricular. Algumas considerações Até o momento verificou-se que, mesmo sendo ainda muito tímidas as teorizações em torno da noção de Numeramentalização, a partir da noção foucaultiana de Governamentalidade, a ferramenta analítica proposta mostra-se bastante produtiva para se discutir o caráter normativo dos saberes em torno dos índices de desempenho para se governar e se conduzir as condutas dos sujeitos escolares, como uma questão de verdade que orienta modos de pensar e agir pelas práticas curriculares que institui e as posições identitárias que produz. Ao se trabalhar com a numeramentalização como conceito, extrapola-se o âmbito da Educação matemática, uma vez que se amplia a discussão da operatividade discursiva das formas e modos de subjetivação individuais e coletivos por diferentes espaços socialmente institucionalizados. Assim, não falamos de uma educação disciplinada ou disciplinar, mas de uma educação que diz respeito à produção de imperativos tomados mais como compromissos constitutivos de práticas e de individualidades num determinado momento histórico. A analítica em torno do IDEB, como índice contemporâneo de produção de conduta, mostra-se mais como um compromisso moral e político do que epistemológico. E nesse sentido a resposta a ser dada deverá circular antes pelo plano da ética, para não se assumirem os descritores como constituintes de currículo, mas como ponto de partida para as ressignificações das práticas curriculares. A reflexão em termos éticos não deverá desconsiderar o caráter científiconormativo dos discursos, nem os valores contemporâneos sobre o que se consideram boas práticas pedagógicas, boas práticas de ensinoaprendizagem. A ética, como sugerida por Foucault (2007, 2009), refere-se à constituição de si mesmo como sujeito moral na sua relação com o outro; isso então poderia ser lido, em se tratando da nossa discussão sobre a constituição normativa de identidades escolares e de práticas curriculares, como a maneira de ser e de conduzir-se singularmente como professores. E isso deve ter também impactos na formação. Como enunciamos no início deste trabalho, tomar o currículo ou as práticas curriculares como foco de experiência quer dizer conhecer as formas de saber construídas e constituídas, para o próprio currículo e suas práticas; para a educação; para a pedagogia; para a escola. Da mesma forma, conhecer as matrizes normativas prescritas para as formas de comportamento possíveis no espaço institucional escolar, sua gestão, seus princípios, suas estratégias, suas tecnologias de governo, sua disciplina, seu ordenamento. Nesse sentido, a formação teórico-acadêmica é importante, mas insuficiente para se fazer frente aos desafios que na contemporaneidade se oferecem no espaço institucional escolar. Não se podem ignorar os estudos do currículo e de suas práticas construídas pela história dos educadores. Porém, como nos lembra Corazza (2002, p.111-112), ao falar do que denomina de um currículo da diferença: A ética de nossa ação educacional [...] está aliançada com culturas e políticas de muitos mundos, grupos, racionalidades, línguas, inteligências, grandezas, sensibilidades, histórias, realidades. Pluraliza nossas ações, ideias, palavras, relações, sujeitos, ver e ser visto, dizer e ser dito, representar e ser representado. Coloca-nos no fluxo de educar todos os que vêm se reinventando, os que estão em metamorfose, os não-idênticos [...] Estimula diferentes formas de formular e de viver práticas educacionais alternativas ao projeto neoliberal e positiva meios de divulgar tais práticas, fazê-las circular e serem debatidas, de maneira a inspirar outras tantas. Uma prática curricular contemporânea deverá agir inventando e reinventando sujeitos escolares com base em temáticas culturais que rejeitem estrategicamente currículos, provas, avaliações, desempenhos para todos e cada um. Referências Bibliográficas BAMPI, L. Efeitos de poder e verdade do discurso da Educação Matemática. Educação e Realidade. Porto Alegre, v. 24, n. 1, p. 115-143, jan./jun. 1999. BELLO, Samuel E. L. Numeramentality: A research program in Mathematics Education. In: CIEAEM 63, 2011. 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Horizontes, v. 30, n. 2, p. 19-30, jul./dez.2012 As práticas curriculares em Matemática que se produzem pelo governo do IDEB 29 Notas 1 A Prova Brasil/Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB), cujos resultados estão sendo divulgados pelo IDEB 2012, foi realizada em novembro de 2011, de forma censitária na 4ª série/5º ano e na 8ª séries/9º ano do Ensino Fundamental das escolas públicas das redes municipais e estaduais, e por amostragem no Ensino Médio, neste caso envolvendo apenas os alunos do 3º ano que realizam o ENEM. c.f. http://www.educacao.rs.gov.br/pse/html/noticias_det.jsp?ID=9560 Acessado em 01 de outubro de 2012. 2 A meta brasileira de um IDEB nacional igual a 6,0 para 2022 tem como referência a qualidade dos sistemas em países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico. 3 Nota de esclarecimento da Secretaria de Educação do RS (SEDUC), disponível em: http://www.educacao. rs.gov.br/pse/html/noticias_det.jsp?ID=9560 Acesso em 01 de novembro de 2012. 4 Essas visitas faziam parte do trabalho que era realizado como Professor de Prática de Ensino nos anos de 2007 a 2010. 5 Não é o intuito deste artigo desenvolver ou discutir uma noção de Prática. Para tanto, será tomado o sentido do termo dado por Miguel et al (2010), como sendo um conjunto articulado de ações já produzidas, significadas, realizadas, reconhecidas, legitimadas nos processos relacionais que envolve, parcial ou totalmente, os integrantes de uma comunidade social, política ou cultural. A rigor, as práticas não precisariam ser adjetivadas, pois as mesmas, seja em qualquer um desses âmbitos envolvem sempre uma produção simbólica. Contudo, permitir-me-ei adjetivar as mesmas de curriculares para situá-las no campo de forças que incidem na instituição escolar, tendo sua forma-objeto simbólico o Currículo. 6 Essas informações referem-se basicamente ao cálculo do índice para o ensino fundamental uma vez que para o Ensino Médio é utilizado o ENEM e a coleta de outros dados é feito por amostragem e não com um caráter censitário. 7 Segundo Veiga-Neto o termo Governamento, para falar de Governo, traduziria melhor aquilo que Michel Foucault na língua francesa denominaria de Governamentalité (Governamentalidade) para falar tanto das práticas de governo, como conjunto de saberes que institui uma racionalidade própria de Estado, quanto aos saberes necessários à maneira de se dirigir a conduta dos indivíduos ou de comunidades, instituições. 8 Utilizaremos o termo Governamento, ao invés de governo, para distingui-lo do sentido capturado e atribuído pela ciência política nos séculos XVII e XVIII. 9 Trabalho apresentado no 63 CIEAEM (Barcelona, Spain) e publicado no QUADERNI DI RICERCA IN DIDATTICA / Mathematics (QRDM). Quaderno n.22, Supplemento n.1 - PALERMO 2012, p. 114-118. 10 Para uma discussão sobre o termo ver também Bello (2012) no prelo. 11 A palavra estatística tem mais de um sentido: seu emprego no plural se refere às estatísticas descritivas como os dados colecionados, mas no singular se refere à teoria estatística e ao método pelo qual os dados são analisados. Assim, o termo podemos aplicá-lo tanto à interpretação de uma série de números como aos próprios números. 12 Essa desarticulação remete ao que em Traversini e Bello (2009) referimos como a auditabilidade de políticas e processos de avaliação, isto é, ao assumirem uma forma de auditoria por se tratarem de provas elaboradas por especialistas externos ao processo escolar desencadeado, as práticas pedagógicas tornam-se comparáveis umas às outras evidenciando assim seus resultados. Desta forma, a maquinaria avaliativa institui a evidência de práticas e estilos pedagógicos de sucesso, sugerindo fortemente a sua replicação independente de situação ou contexto de produção, advertência e destinação de recursos para as instituições que muito abaixo dos índices são vistas como problemáticas. 13 De janeiro a março de 1980, M. Foucault ofereceu no Collège de France o curso intitulado: Du gouvernement des vivants, traduzido para o português como o governo dos vivos. Um curso anterior a um outro intitulado o Governo de si e dos outros, oferecido de janeiro a março de 1983, para tratar da forma de constituição dos sujeitos pelos atos e práticas do dizer-verdadeiro. Neste texto preferimos traduzir o termo Vivants por viventes, por acreditarmos dar todavia um caráter mais provisório e em constituição à existência de um ser. O termo vivo pode nos remeter a um dito ”ser vivo” e nos posicionar na grade de leitura das Ciências Biologias. 14 No que se refere à Matemática na Prova Brasil/SAEB e no ENEM, são elaboradas com base na Matriz de Referência de avaliação dessa disciplina para os Ensinos Fundamental e Médio, respectivamente. Essa Matriz é constituída a partir dos blocos de conteúdos propostos pelos PCN e pelos PCNEM e pelas habilidades e competências consideradas básicas para o final de cada um desses níveis de ensino. A relação conteúdos-habilidades/competências é expressa na matriz a partir de 37 descritores, em se tratando do ensino fundamental e 35 descritores para o Ensino Médio. Horizontes, v. 30, n. 2, p. 19-30, jul./dez.2012 30 Samuel Edmundo Lopez Bello 15 Reconhecer que as imagens de uma figura construída por uma transformação homotética são semelhantes, identificando propriedades e/ou medidas que se modificam ou não se alteram. (D7 – Espaço e forma – Matriz de referencia – EF) 16 Identificar a representação algébrica e/ou gráfica de uma função exponencial (D27 – Números e Operações – Matriz de referencia – EM) 17 Em 15 de agosto de 2012, o programa Conversas Cruzadas exibido pela TVCOM/Rio Grande do Sul do grupo RBS, trouxe como tema: RS tem os piores números da educação no sul do país, naquela ocasião insistia-se na contextualização e na aplicabilidade dos saberes escolares, bem como questionava-se a formação do professor para levar adiante este trabalho. http://mediacenter.clicrbs.com.br/tvcom-rsplayer/131/player/264251/conversas-cruzadas-15-08-2012-bloco-1/1/index.htm Sobre o autor: Samuel Edmundo Lopez Bello: Professor do Programa de Pós-graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre. Horizontes, v. 30, n. 2, p. 19-30, jul./dez.2012 31 Currículo e gênero: produção e naturalização das diferenças na escola Julia Mayra Duarte Alves* Laura Cristina Vieira Pizzi** Resumo Este artigo apresenta uma pesquisa no qual se analisou a produção de subjetividades em uma escola de ensino fundamental em um bairro de Maceió/AL. A pesquisa problematizou a demarcação de gênero constituída a partir de duas atividades econômicas e culturais presentes no lugar, a produção da renda filé e a pesca. A partir dos enunciados que circulam na escola sobre essas atividades, com base nas ferramentas teóricas fornecidas por Foucault, a pesquisa analisou os discursos produtores de subjetividades que estão operando predominantemente na escola com base nessa divisão sexual do trabalho. As estratégias metodológicas utilizadas foram observações, entrevistas e grupos de discussão com estudantes. Observamos que os modos de ser dos sujeitos são resultados de técnicas de governo das relações de gênero que objetivam determinar as possibilidades de ser e viver, estabelecendo fronteiras fortemente demarcadas entre o que é feminino e o que é masculino. Palavras-chave: Currículo; Gênero; Subjetividade; Ensino fundamental. Curriculum and gender: production and naturalization of differences in school Abstract This article presents a research intended to analyze the production of subjectivities in an elementary school in a neighburhood area of Maceió/AL. It also aimed at a discussion about the demarcation of gender formed by two economic and cultural activities taking place there, the production of lace of file and fishing. From the statements circulating in school about these activities, based on theoretical tools provided by Foucault, the research examined the discourses producing subjectivities in terms of gender, which goes on predominantly in school as to the sexual division of labor in the community. The methodological strategies used were observations, interviews and discussion groups with students. We noticed that the children’s ways of being are the result of techniques of ruling gender relations in order to determine the possibilities of being and living, establishing borders sharply demarcated between what is feminine and what is masculine. Keywords: Curriculum; Gender, Subjectivitie, Elementary School. Considerações iniciais Este artigo apresenta resultados de uma pesquisa de mestrado que buscou entender como determinadas subjetividades são produzidas a partir dos enunciados que circulam no currículo de uma escola localizada em um bairro periférico e turístico de Maceió. A pesquisa problematizou a demarcação de gênero constituída com base em duas atividades econômicas e culturais presentes nesse bairro que instituem a pesca como uma atividade masculina e a produção da renda do filé1 como feminina. No bairro, a pesca (atividade tradicionalmente considerada masculina) foi durante muito tempo a principal fonte de renda, mas desde o final da década de 1980 vem se tornando pouco lucrativa e viável devido à degradação ambiental da lagoa que margeia a comunidade. Ao mesmo tempo, a produção e comercialização do filé (realizada, tradicionalmente, pelas chamadas rendeiras), vêm se consolidando como uma interessante possibilidade de renda em decorrência da *Endereço eletrônico: [email protected] **Endereço eletrônico: [email protected] atividade turística na região. Essas reconfigurações econômicas locais chamaram nossa atenção e foram um convite para estudar as relações de gênero na única escola do bairro, a partir dos enunciados discursivos sobre essas atividades que, ao mesmo tempo em que demarcam, se constituem por uma forte divisão de gênero. O filé e a pesca se apresentam, então, como elementos estratégicos para se pensar a subjetivação dos/as meninos/as que estudam na escola pesquisada e que são moradoras do bairro. Desde o nascimento, as crianças acompanham a confecção do filé. Toda produção dessa renda acontece no ambiente doméstico. Por volta dos cinco ou seis anos de idade, as crianças começam a participar da confecção da renda, seja dentro de suas casas ou nas calçadas do bairro, à vista dos turistas e da comunidade. No cotidiano, elas começam a se interessar pela renda como atividade, observando e fazendo os primeiros pontos (MESQUITA et al, 2011). A aprendizagem do filé na infância indica que essa atividade é parte crucial do processo de 32 Julia Mayra Duarte Alves, Laura Cristina Vieira Pizzi socialização das crianças na família e no bairro. Elas aprendem a técnica observando, em geral, as mulheres adultas (mães, tias, avós e vizinhas), que se organizam para tecer em pequenos grupos ou sozinhas em casa. Mesquita et al (2011) apontam que, na fase incial da infância, pelo fato de o filé estar associado ao ambiente doméstico, todas as crianças aprendem e fazem a renda; no entanto, as meninas são mais incentivadas e cobradas pelo trabalho. Estas prosseguem na atividade por toda a sua vida, ou, pelo menos, por um período maior que os meninos, que, na maioria das vezes, abandonam a atividade em função da discriminação associada à feitura da renda por homens. Esse momento em que os meninos se afastam do filé coincide com a passagem pelo ensino fundamental, em especial nas séries finais, o que tornou esse período interessante para pesquisar os modos de subjetivação de gênero na escola do bairro. A pesquisa aqui relatada buscou destacar que, além do aspecto econômico, essas atividades são centrais na produção de subjetividades das crianças que lá moram, mais especificamente, nos modos como elas vivenciam as demarcações de gênero. Currículo e subjetividade Nas análises sobre currículo, a pesquisa baseou-se em autores pós-estruturalistas como Silva (2006) que compreende o currículo como um campo cultural, como uma instância de produção e circulação de discursos, na qual se estabelecem lutas em torno da significação sobre os sujeitos e o mundo, impregnado de valores e práticas. O currículo, nessa perspectiva, é entendido como um lugar de produção discursiva que forja subjetividades e que vai além do conjunto dos conteúdos escolares, sendo composto também pelas formas de organização do espaço, do tempo e pelos discursos que circulam na escola. Na perspectiva pós-estruturalista, o currículo constitui regulações sociais no nível do conhecimento e da subjetividade (POPKEWITZ, 1994), ou seja, quando falamos em currículo colocamos em jogo o que deve ser conhecido, qual conhecimento é válido e autorizado a circular na escola. Ademais, o currículo não apenas informa como também guia as pessoas a pensarem de determinadas formas o seu eu no mundo, moldando/ as nossas subjetividades. A perspectiva pós-estruturalista rejeita a hipótese de uma consciência centrada, unitária, coerente. Nesse sentido, não há um núcleo subjetivo pré-social no pensamento pósestruturalista (SILVA, 2005). Nossas subjetividades são forjadas a partir de processos sociais, de dispositivos de subjetivação. O currículo, desse modo, não pode mais ser visto como o “primo pobre” (SILVA, 1995) das análises pedagógicas, uma vez que ele direciona o processo educativo e a produção de subjetividades na escola. A noção de subjetividade que norteou a pesquisa é diferente daquela que se relaciona com a versão individualizada dos sujeitos. Essa perspectiva fortemente influenciada pelo projeto da Psicologia enquanto ciência sustentou vertentes teóricas que se baseavam em uma concepção de subjetividade correspondente a um sujeito psicológico universalizado, particularizado e finalizado, como se tivesse uma essência. A noção de subjetividade utilizada aqui é baseada no pensamento de Foucault (2006b) e a entende como um efeito de modos de subjetivação, como “a maneira pela qual o sujeito faz a experiência de si mesmo em um jogo de verdade, no qual ele se relaciona consigo mesmo” (FOUCAULT, 2006b, p. 236). Ao afirmar que “não é o poder, mas o sujeito, que constitui o tema geral de minha pesquisa” (1995, p. 232), Foucault procurou refutar a ideia de um sujeito transcendental, sem história, estável, centrado e individualizado. Para ele, não existe sujeito fora dos processos sociais, fora de um discurso que o produz como tal. Foucault desloca o sujeito antes relacionado a uma posição de origem para uma posição de efeito. Nesse sentido, a subjetividade pode ser entendida como resultado de modos de subjetivação, ou seja, como parte de um “processo pelo qual se obtém a constituição de um sujeito, mais precisamente de uma subjetividade, que evidentemente não passa de uma das possibilidades dadas de organização de uma consciência de si” (FOUCAULT, 2006a, p. 262). Rose (2001) traz elementos que ajudam a entender por que uma subjetividade é apenas uma possibilidade, e não a única. Ele aponta que as formas pelas quais os seres humanos atribuem sentido as suas experiências têm um sistema próprio, ou seja, “os dispositivos de produção de sentidos – grades de visualização, vocabulários, normas e sistemas de julgamento, não são produzidos pela experiência; eles produzem a experiência” (ROSE, 2001, p. 36). Existem, portanto, práticas que localizam e limitam nossas experiências e sentidos. Estas práticas, segundo Rose, são disseminadas em Horizontes, v. 30, n. 2, p. 31-41, jul./dez.2012 Currículo e gênero: produção e naturalização das diferenças na escola diferentes locais e através de diferentes formas: escolas, famílias, ruas, locais de trabalho, tribunais. Nesta direção, Rose utiliza o termo tecnologias humanas para se referir a “montagens híbridas de saberes, instrumentos, pessoas, sistemas de julgamento, edifícios e espaços, orientados no nível programático, por certos pressupostos e objetivos sobre os seres humanos” (ROSE, 2001, p.38). Para ele, a escola, assim como a prisão e o hospício, faz parte dessas tecnologias que buscam moldar os sujeitos a partir do controle de suas condutas. Larrosa (1994) aponta que a obra de Foucault é útil para questionar as concepções inertes de subjetividade antes exclusivas e válidas, sem que isto implique que o sujeito não seja capaz de refletir sobre si, mas sim “porque mostra como a pessoa humana se fabrica no interior de certos aparatos (pedagógicos, terapêuticos,...) de subjetivação” (LARROSA, 1994, p. 37). Isto implica que a subjetividade, facilmente remetida a uma interioridade ou identidade, passa a ser entendida como produto provisório das formas de experiência de si, atravessadas pelas relações de poder e de saber. A divisão pensada outrora entre o corpo e a subjetividade é desfeita uma vez que o corpo longe de ser o outro da subjetividade é o lugar onde ela se inscreve. O corpo, portanto, é um dos objetos mais importantes do controle. Para Foucault (1996), é o discurso que fornece as condições de possibilidade para a produção de determinados tipos de subjetividade. É nele que podem ser encontrados os mecanismos de subjetivação, junto às táticas das relações de poder que excluem outras possibilidades discursivas seja interditando, rejeitando ou separando o verdadeiro do falso, ou fazendo tudo isso de uma só vez. O pensamento de Foucault é o território no qual podemos pensar a subjetivação, não mergulhando e se afogando em uma suposta interioridade do sujeito. Com ele, é possível captarmos esse processo pelo discurso, pela história, pelo que, de fato, é possível acessar: a exterioridade. O currículo faz parte desta exterioridade. Mais que isso, ele está localizado em uma posição estratégica. É ele quem dá o contorno de nossas experiências, produz as nossas experiências quando cerca nosso terreno de sentidos. Ele é a condição de possibilidade de sermos o que somos, ou melhor, de estarmos como estamos. Currículo, gênero e subjetividade Na pesquisa, gênero é entendido como um “mecanismo através do qual se produzem e se Horizontes, v. 30, n. 2, p. 31-41, jul./dez.2012 33 naturalizam as noções de masculino e feminino” (BUTLER, 2006, p. 70). Para além das diferenças sexuais, compreendemos gênero como um conjunto de normas, como um efeito performático de subjetivação, que adquire estabilidade em função da repetição e reiteração de normas. Essa noção de gênero mostra que é possível pensá-lo não apenas em termos das diferenças sexuais, mas como um conjunto de normas, de discursos e de práticas, como uma tecnologia2 social que envolve relações de poder que participa diretamente no processo de subjetivação. Butler (2006) coloca que é justamente pela confirmação das normas de gênero que os corpos sexuados vão passar a ser pensados como diferentes e naturais. Ou seja, antes de ser apenas aquela categoria que dá sentido social às formas pretensamente naturais dos sexos, gênero é também responsável por reiterar este caráter natural dos sexos. A autora traz a noção de gênero como norma, que tanto pode naturalizar como subverter as noções estabelecidas de masculino e de feminino. Nesse sentido, ela aponta que gênero pode ser entendido também como mecanismo que pode desconstruir e desnaturalizar padrões. Ela afirma ainda que a generificação é construída, dentre outras coisas, pelas relações que buscam diferenciar os sujeitos. Com isso, “submetido ao gênero, mas subjetivado pelo gênero, o ‘eu’ não precede nem segue o processo dessa generificação, mas emerge apenas no interior das próprias relações de gênero e como matriz dessas relações” (BUTLER, 2007, p. 160). Conforme já pontuamos, o currículo direciona o processo educativo, produz subjetividades e, portanto, enquadra pessoas em determinados modelos. A noção de gênero aqui utilizada ajuda na compreensão e na visualização das tecnologias e normas de gênero presentes no currículo. Alambert (2008) coloca que a escola é uma instituição que “ocupa um lugar preponderante quanto à educação diferenciada, reforçando de modo formal a postura assumida pela família no processo discriminatório; filas de meninos e meninas, brincadeiras e esportes diferenciados, orientação profissional distinta para ambos os sexos” (ALAMBERT, 2008, p. 317). Sendo uma instituição moderna, a escola vem se caracterizando ainda hoje como disciplinadora (ALVES, 2010) e diferenciadora (LOURO, 2007a). Desde seus inícios, a instituição escolar exerceu uma ação distintiva. Ela se incumbiu de separar os sujeitos – tornando aqueles que nela entravam 34 Julia Mayra Duarte Alves, Laura Cristina Vieira Pizzi distintos dos outros, os que a ela não tinham acesso. Ela dividiu também, internamente, os que lá estavam, através de múltiplos mecanismos de classificação, ordenamento e hierarquização. A escola que nos foi legada pela sociedade ocidental moderna começou por separar adultos de crianças, católicos de protestantes. Ela também se fez diferente para ricos e para os pobres e ela imediatamente separou os meninos das meninas (LOURO, 2007a, p. 57). Negando esse interesse pelas questões de gênero, de maneira silenciosa, a escola normaliza e disciplina os sujeitos com padrões estabelecidos, regulamentos e legislações que separam, ordenam e normalizam os/as alunos/as. Segundo Britzman (2007), a escola tradicionalmente tem feito com que se esperem respostas estáveis, uma vez que esse lugar é povoado por modos autoritários de interação social, o que impede o desenvolvimento de uma curiosidade que poderia levar professores/as e estudantes a multiplicar as possibilidades dos modos de viver as relações de gênero e as sexualidades. Para a autora, o lugar do conhecimento mantém as problematizações de gênero e sexualidade no campo da ignorância. Nesse sentido, a escola busca normalizar as condutas, reduzindo as possibilidades das formas de ser e viver. Podemos fazer essa afirmação porque, conforme observaram Meyer e Soares (2004), “os espaços e os processos pedagógicos estão atravessados de mecanismos e estratégias de vigilância, controle, correção e moldagem dos corpos dos indivíduos – estudantes e docentes – que povoam as instituições escolares” (p. 7 - 8). É via currículo que ocorre a produção das diferenças e que meninos e meninas são interpelados, por meio de regimes de verdade que ditam modos de vidas diferenciados. Nas filas, nos desenhos, nas danças, nas vestimentas, nas cores, nos gestos, no modo de falar, nos planos em que projetam as futuras profissões, em todos esses elementos e em outros incontáveis, meninos e meninas são diferenciados e colocados em determinadas posições. Nas práticas cotidianas, os processos de subjetivação que incluem as tecnologias e as normas de gênero operam e tentam captar, padronizar, governar e produzir determinados tipos de subjetividades na escola. Para Louro (2000), mesmo que estas ações estejam mais sutis, mais refinadas, ainda há uma vigilância constante quando se trata de gênero nas escolas e no currículo, uma vez que “expectativas distintas são projetadas para o desempenho intelectual e físico; critérios implícitos de avaliação insinuam-se na apreciação de comportamentos e resultados escolares; aptidões ou tendências são ‘identificadas’ e sugerem orientações profissionais diferentes” (p. 49-50). Segundo Novelino (2008), ser homem ou ser mulher constituem traços que compõem a subjetividade, delimitando padrões apropriados de conduta. Assim como Butler, a autora entende a subjetividade não como algo particular ao sujeito relacionada apenas ao aspecto psicológico, mas sim como produto de tecnologias que operam a partir de diversos artefatos culturais. Nesse sentido, ela coloca que “A entrada nos códigos da masculinidade e feminilidade começa nos primeiros momentos de vida com roupas, cores, brinquedos, gestos adequados” (NOVELINO, 2008, p. 311) que depois, como sugere Butler (2007), são reiterados durante toda a vida a partir das relações de poder exercidas pela família, escola, televisão, cinema, especialmente, pela própria pessoa, que, devidamente subjetivada, vai atuar no governo de si. As subjetividades generificadas são efeitos dessas normas e não condições naturais. Os sujeitos estão cercados de processos de naturalização, de subjetivação que tentam demarcar diferenças de gênero e que ocorrem de maneira privilegiada na escola e no currículo. A escola e o currículo estão longe de ser meros reflexos das condições sociais. A partir de múltiplas práticas cotidianas banais, a partir de gestos e expressões pouco perceptíveis, pelo silêncio, pelo ocultamento ou pela fala, constroem-se, no espaço propriamente escolar, lugares e destinos sociais. Talvez essa dinâmica nos escape, tal a “naturalização” de que esses processos estão revestidos. Talvez sejam muito sutis os jogos de poder que tecem os currículos, os programas, as normas ou as avaliações escolares (LOURO, 2005, p. 91-92). A escola exerce uma pedagogia de gênero e coloca em ação as tecnologias de governo, processos que se completam com o autogoverno. Por outro lado, ela abre possibilidades para as resistências. Por isso, o currículo pode ser entendido como “prática subjetivadora” (CORAZZA, 2001, p. 57) que proporciona reações múltiplas, incluindo as de resistências aos padrões de gênero. Horizontes, v. 30, n. 2, p. 31-41, jul./dez.2012 Currículo e gênero: produção e naturalização das diferenças na escola Aspectos metodológicos da pesquisa A partir dos enunciados sobre o filé e a pesca veiculados na comunidade escolar, pelas/os alunas/os, pelos/as professores, pela direção e pelos/as funcionários/as, a pesquisa concentrou-se em como os meninos são interpelados por esses enunciados, ou seja, nas técnicas de subjetivação em termos de gênero que estão operando na escola. As análises se desenvolveram com base nas ferramentas teóricas fornecidas por Foucault, principalmente a noção de discurso como produtor de verdades, de normalidades e anormalidades, enfim, de formas de ser e de viver (FOUCAULT, 1996), representadas no currículo. O recorte que direcionou a realização da investigação para as turmas dos anos finais do ensino fundamental e também para os processos de subjetivação dos meninos foi sugerido pelas indicações de outra pesquisa (MESQUITA et al, 2011), onde se observou que no bairro os meninos são afastados da confecção do filé logo que vão crescendo, com aproximadamente onze, doze anos, em um momento que coincide com a passagem deles nos anos finais do ensino fundamental. Foram realizadas observações nos diversos ambientes da escola, entrevistas e grupos de discussão como meios de acesso aos enunciados sobre o filé e a pesca, que permitiram pensar os processos de subjetivação em termos de gênero na escola. Tanto as entrevistas como as discussões dos grupos foram registrados por meio de gravador de voz, após o prévio acordo com os/as participantes/responsáveis3. As observações foram registradas em diário de campo, estas quase sempre foram atravessadas por conversas informais, também registradas neste instrumento de pesquisa. Nas análises da pesquisa foram utilizadas algumas atitudes metodológicas sugeridas por Fischer (2003) com base nas contribuições de Foucault. Partimos, então, dos seguintes aspectos: a linguagem e o discurso são lugares de lutas permanentes; os enunciados são raros e não são, portanto, únicos e óbvios; é preciso atentar às práticas discursivas e não discursivas; é preciso manter uma atitude de distanciamento e de dúvida diante dos aspectos investigados. Partir da noção de que o discurso é um lugar de luta permanente é considerar, assim como Foucault, que o discurso não pode ser visto apenas como um conteúdo representado por um sistema de signos, mas sim como “práticas que formam sistematicamente os objetos de que fala” (FOUCAULT, 2012, p. 60). Para Foucault, as palavras e as coisas se relacionam de maneira Horizontes, v. 30, n. 2, p. 31-41, jul./dez.2012 35 complexa, porque essa relação é histórica, estando repleta de construções e interpretações, sendo perpassada por relações de poder, produzindo sujeitos, subjetividades e compondo modos de subjetivação. Para analisar esses modos de subjetivação, é preciso, então, descrever a dispersão dos acontecimentos discursivos “através dos quais, graças aos quais e contra os quais” (GREGOLIN, 2007) se estabelecem os regimes de verdade que atravessam e constituem os sujeitos. Considerar que os enunciados são raridades é pensá-los com base em suas condições de existência, é problematizá-los e localizar seus efeitos de verdade, é questionar sua aparição mostrando, por exemplo, como eles surgem em detrimento de outros que são excluídos, rejeitados e tidos como falsos em determinados momentos e lugares. Nesse sentido, descrever enunciados é entender como as coisas ditas são acontecimentos que ocorrem em contornos muito específicos “no interior de uma certa formação discursiva – esse feixe complexo de relações que ‘faz’ com que certas coisas possam ser ditas (e serem recebidas como verdadeiras), num certo momento e lugar” (FISCHER, 2003, p. 373). Atentar para as práticas discursivas e não discursivas é investigar e tornar visíveis os efeitos dessas práticas, que podem tanto ser exercidas a partir daquilo que é “propriamente discursivo (linguagem, discurso, enunciado) como também podem ser observadas em práticas institucionais (exercícios, rituais, definição de lugares e posições, distribuição espacial dos sujeitos, etc.) – práticas que jamais “vivem” isoladamente” (FISCHER, 2003, p. 387). É interessante, nessa perspectiva, observar essas práticas produzidas nas relações de saber/poder de determinada época e descrever os enunciados considerados verdadeiros, que estão presentes no cotidiano, interpelando os sujeitos e produzindo determinadas formas de viver. Desse modo, buscamos “ampliar o leque das práticas a descrever no que se refere a uma temática e a um problema levantado, entendendo que há uma força nas práticas institucionais e que há igualmente uma força considerável nas construções discursivas correspondentes” (FISCHER, 2003, p. 382). Nesse sentido, a noção de discurso de Foucault mostrou-se bastante interessante para as análises desta pesquisa, uma vez que o a investigação buscou entender como ocorre a produção de subjetividades na escola a partir dos enunciados sobre o filé e a pesca. 36 Julia Mayra Duarte Alves, Laura Cristina Vieira Pizzi Produção e naturalização das diferenças na escola O pensamento de Foucault vem servindo de ferramenta para diversos estudos que buscam entender como nos tornamos sujeitos, mais precisamente como se constituem nossas subjetividades, como se dão os processos de subjetivação em diferentes contextos. Determinados modos de agir, de viver, de se vestir, de se divertir, de falar, de se comportar, de se conduzir são amplamente divulgados, por exemplo, por meio do cinema (LAURETIS, 1994; GIROUX, 1996), dos programas televisivos (FISCHER, 2007), da mídia (PARAISO, 2007), dos periódicos científicos, jornais e internet (HÜNING, 2008). Neste trabalho, especificamente, buscamos analisar como nos tornamos sujeitos de gênero. Dito de outra forma, buscamos analisar as tecnologias de subjetivação que atuam na vida dos meninos a partir dos enunciados que circulam na escola em que estudam, sobre uma determinada norma de gênero, que amarra o filé ao feminino e a pesca ao masculino. Esta norma pode ser entendida como um elemento a partir do qual “certo exercício do poder se acha fundado e legitimado” (FOUCAULT, 2002, p. 62). Nesse sentido, ela atua nos processos de subjetivação na escola estudada, qualificando condutas e, principalmente, corrigindo as consideradas inadequadas. A frequência diária na escola, a convivência com os professores, com os demais colegas, com a direção, com os que ali trabalham em outras diversas funções, aliada às experiências vividas para além do espaço escolar configura-se como um campo de possibilidades de subjetivação composto por manifestações e propagação de supostas verdades. Dizer que não faz filé, nesse caso, significa mais do que dizer que não tem vontade, que não tem interesse, que não gosta dessa atividade artesanal. Significa dizer que não é mulher para fazer filé. Foucault observou, ao investigar a história da sexualidade, que existem técnicas que fazem com que os indivíduos efetuem “operações sobre os seus corpos, sobre as suas almas, sobre o seu próprio pensamento, sobre a sua própria conduta, e isso de tal maneira a transformarem-se a eles próprios, a modificarem-se” (FOUCAULT, 1993, p. 201). Essas operações foram por ele nomeadas de tecnologias ou técnicas do eu. Para Foucault, a partir daí, tornou-se interessante levar em conta as técnicas do eu além das de dominação nas análises genealógicas do sujeito nas sociedades ocidentais, Rose (2001) coloca que as formas pelas quais atribuímos sentido às nossas experiências têm um funcionamento específico, composto por dispositivos de produção de sentidos, grades de visualização, vocabulários, normas e sistemas de julgamento tidos como verdadeiros e que moldam as nossas vivências através de práticas que ditam as condições de nossas experiências e que operam em diferentes locais: escolas, famílias, ruas, ambiente de trabalho, por exemplo. Uma dessas verdades, dessas grades de visualização, dessas normas, ou seja, um desses dispositivos de produção de sentidos presente nas vidas dos sujeitos que participaram da pesquisa aqui apresentada é a de que homens pescam e mulheres fazem filé. O propósito da pesquisa foi utilizar estes dois elementos, presentes no cotidiano dos alunos, para pensar as relações de gênero e tentar captar as tecnologias de subjetivação que atuam na escola. Partimos do pressuposto de que o que falamos não está descolado das nossas experiências, do que ouvimos. As nossas palavras propagam discursos produzidos e envolvidos numa rede de supostas verdades e de relações de poder e que estamos sempre obedecendo a um conjunto de regras dadas historicamente e tidas como verdadeiras (FISCHER, 2001). Ou seja, partimos do pressuposto de que os enunciados das/os alunas/os, dos/ professores/as, dos/as funcionários/as trazem indícios dos discursos que circulam na escola. Desse modo, quando um aluno diz “Oxe, eu sou macho, professor! Eu sou espada! E eu sou mulher pra fazer filé?”4, seu enunciado põe em jogo um conjunto de elementos referente às possibilidades de aparecimento, às normas de gênero do lugar em que vive, faz parte de uma formação discursiva relacionada, principalmente, à divisão sexual do trabalho. ou seja, quando se buscar investigar as formas de constituição das subjetividades. Digamos que se tem de levar em conta a interação entre estes dois tipos de técnicas, os pontos em que as tecnologias de dominação dos indivíduos uns sobre os outros recorrem a processos pelos quais o indivíduo age sobre si próprio e, em contrapartida, os pontos em que as técnicas do eu são integradas em estruturas de coerção (FOUCAULT, 1993, p. 207). Nesse sentido, o modo como os sujeitos são conhecidos relaciona-se ao modo como se conhecem a si próprios. É nessa relação que Horizontes, v. 30, n. 2, p. 31-41, jul./dez.2012 Currículo e gênero: produção e naturalização das diferenças na escola Foucault vai colocar que o governo não é “uma maneira de forçar as pessoas a fazer o que o governador quer. O governo é sempre um difícil e versátil equilíbrio de complementaridade e conflito entre técnicas que asseguram a coerção e processos por meio dos quais o eu é construído e modificado por si próprio” (FOUCAULT, 1993, p. 207). Nos enunciados que circulam na escola sobre o filé e a pesca estão presentes algumas tecnologias de subjetivação de gênero que funcionam regulando, organizando, moldando, enfim, demarcando os modos de ser dos sujeitos que lá estudam. O principal propósito dessas tecnologias é naturalizar crenças, fazendo com que elas passem a operar como verdades para os sujeitos e produzindo, então, maneira de ser e viver. Esses discursos, essas tecnologias estão no currículo e visam ao governo das condutas, buscam subjetivar. São estabelecidos modos considerados corretos de brincar, de estudar, de falar, de se relacionar com o filé e com a pesca, modos de viver que acabam se tornando conhecidos e tidos como naturais pelos sujeitos. Um conjunto de condutas que busca parecer o mais correto, o mais viável, o mais conveniente, em última análise, o único possível para os sujeitos. Os enunciados dos próprios/as alunos/as, dos/as professores/as, dos/as funcionários/as convidam os meninos a viverem de determinadas formas, como “meninos de verdade”, “cabra macho mesmo”, a não fazer filé. As análises empreendidas na pesquisa buscaram localizar os acasos dos discursos que camuflam os processos de naturalização e que apresentam verdades como inquestionáveis. Buscaram analisar as relações de poder que fazem com que determinadas formas de ser e viver sejam contempladas nestes discursos ao mesmo tempo em que outras são desqualificadas, colocadas no campo da impossibilidade. O masculino e o feminino são divulgados nos enunciados como características inatas e universais e, portanto, são as bases para a padronização das formas de viver a feminilidade e a masculinidade. Louro (2005) aponta que “há uma obrigatoriedade de ‘preferir’ determinados interesses, de desenvolver habilidades ou saberes compatíveis com as referências socialmente admitidas para masculinidade e para feminilidade” (p. 91). Isso resulta no desconforto dos meninos, quando diante de atividades ou práticas tidas como não naturais para o gênero masculino e também quando não possuem habilidades em atividades que tidas como próprias ao masculino. Horizontes, v. 30, n. 2, p. 31-41, jul./dez.2012 37 Desse modo, observamos alguns enunciados através dos quais os meninos buscam mostrar na escola que não fazem filé e, portanto, que não se envolvem com o que é feminino: “de filé, eu não sei nada não”5, “eu não quis aprender”6, “não gosto”7. Rose (1998) coloca que, mesmo que pareça que “pensamentos, sentimentos e ações constituem o próprio tecido e constituição do mais íntimo eu, eles são socialmente organizados e administrados nos mínimos detalhes” (p. 31). Nesse sentido, esses enunciados, longe de expressarem as mais íntimas vontades dos meninos, atuam na relação do sujeito consigo, como técnicas de si que: Permitem aos indivíduos efetuarem um certo número de operações sobre seus corpos, sobre suas almas, sobre seu próprio pensamento, sobre sua própria conduta, e isso de tal maneira a transformarem-se a eles próprios, a modificarem-se, ou a agirem num certo estado de perfeição, de felicidade, de pureza, de poder sobrenatural e assim por diante (FOUCAULT, 1993, p. 207). Nesses enunciados, os meninos avaliamse e posicionam-se como aqueles que não fazem filé. Eles produzem um saber sobre si mesmo, amparados na normatividade da demarcação de gênero entre o filé e a pesca. Nesse mesmo movimento eles produzem também um saber sobre outros, que são posicionados de diferentes formas caso estejam ou não envolvidos com o filé, eles pensam e avaliam uns aos outros, conforme o enunciado a seguir “Eu acho bom, mas não sei, os meus colegas, eles acham meio esquisito homem que faz filé”8. São essas estratégias de governo de si e dos outros que dão sentido ao caráter performático de gênero, ao produzir subjetividades generificadas, uma vez que a performatividade “é sempre uma reiteração de uma norma ou conjunto de normas” (BUTLER, 2007, p. 167). As normas de gênero “expressam-se por meio de recomendações repetidas e observadas cotidianamente, que servem de referência a todos” (LOURO, 2008, p. 22). Quem aceita as sugestões é considerado “normal”, quem se posiciona fora delas é tido como “anormal”. Por meio dos enunciados e dos seus efeitos de verdade, de maneira exaustiva e contínua, os meninos produzem verdade sobre eles mesmos. Para isso, utilizam as técnicas de si que não são inventadas por eles. De acordo com Corazza (2001), essas técnicas são “esquemas que 38 Julia Mayra Duarte Alves, Laura Cristina Vieira Pizzi eles encontram em sua cultura e que lhes são propostos, sugeridos, impostos pela sociedade e grupos sociais” (p. 61). Na escola investigada, os meninos são discriminados, caso haja indícios de que participam de alguma forma do processo de confecção do filé, sendo chamados publicamente de “mulherzinhas” e “gayzinhos” quando são vistos fazendo ou vendendo filé. Sales (2010) observa que as técnicas de zuação, ou seja, aquelas que funcionam apontando publicamente os sujeitos de forma a ironizar ou ridicularizar seus comportamentos tidos como desviantes das normas atuam com fins de governo e de maneira bastante eficiente. A pesquisadora mostra que, em sua investigação, além dos alunos, os profissionais também acionam estas técnicas na escola com objetivos considerados pedagógicos. Na pesquisa realizada por Sales, a professora observada usa essa técnica quando diz publicamente na sala de aula que irá obrigar alguns alunos a usarem rosa em uma atividade com o objetivo de fazer com que eles parassem de atrapalhar a aula, ou seja, como castigo. De maneira semelhante, na escola aqui analisada, o funcionário responsável por observar os/as alunos/as no pátio também utiliza esta técnica para chamar a atenção dos meninos. Com a pergunta “E aí, já fez um filezinho hoje?” feita estrategicamente quando os meninos estão muito agitados, ele objetiva colocar estes sujeitos em uma situação constrangedora e assim deixá-los mais calmos e pensativos. A técnica da zuaçao, apontada por Sales (2010) e observada também nesta pesquisa visa governar o comportamento dos meninos, moldando uma conduta considerada adequada a um verdadeiro menino e fazendo também com que eles fiquem quietos. Há, nos enunciados que circulam na escola, um interessante processo de naturalização, uma recorrente tentativa de mostrar que é natural a mulher gostar de fazer filé, ter mais jeito, mais habilidades motoras finas, mais paciência, senso estético e que os homens são naturalmente bons pescadores porque são mais fortes fisicamente, mais corajosos: “Filé é mais pra feminino e pesca é mais pra masculino”9; “Oxe, se brincar menina já nasce sabendo fazer filé10” “Filé é mais para mulher mesmo, pesca é pro homem, todo mundo diz isso aqui, o pessoal do bairro, as mulheres também”11. Desse modo, notamos que “Nossas personalidades, subjetividades e ‘relacionamentos’ não são questões privadas, se isso significa dizer que elas não são objeto de poder. Ao contrário, elas são intensivamente governadas” (ROSE, 1998, p. 30). Considerações finais O fato de grande parte dos meninos não demonstrarem interesse pelo filé, conforme observamos nesta pesquisa, é resultado do investimento de um processo de governo das relações de gênero que objetiva determinar as possibilidades de ser e viver como um menino, estabelecendo fronteiras claras entre o que é feminino e o que é masculino. As técnicas de si e as técnicas de dominação parecem atuar conjuntamente na escola analisada, buscando desqualificar aqueles meninos que fazem filé. Estas técnicas produzem efeitos, fazem um nó cego entre ser homem e pescar e ser mulher e fazer filé, levando os sujeitos a desacreditarem na possibilidade de ser menino e ser rendeiro. Essas técnicas fazem muitos meninos desistirem de qualquer aproximação com o filé mesmo que essa seja uma possibilidade de se ganhar dinheiro, mesmo que eles gostem de fazer e achem bonito o artesanato. Estas técnicas governam, demarcam a conduta dos meninos que passam a se autogovernar e a governar os outros. As demarcações de gênero estão fortemente enraizadas na comunidade onde a escola está situada e definem como norma a divisão social e sexual do trabalho em torno do filé e da pesca. As técnicas de governo na escola propagam discursos sobre os modos de ser com base em uma política de verdade, que divulga o conhecimento sobre certas noções particulares de gênero, em especial, de que fazer filé é coisa de mulher. Referências ALAMBERT, Zuleika. Educação diferenciada: uma realidade. In: COSTA, Ana A. A.; SARDENBERG, Cecília M. B. (Orgs.) Feminismo no Brasil: reflexões teóricas e perspectivas. Salvador: UFBA / Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher, 2008, p.315-322. ALVES, Juliana Carla da Paz. Currículo, cultura escolar e disciplinamento. 2010. 93 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal de Alagoas, Maceió, 2010. BRITZMAN, Deborah P. 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A confecção do filé passa, inicialmente, pela preparação de uma rede, também chamada de malha que é esticada em um tear, Posteriormente, esta rede é preenchida com diversos pontos e formas, na maioria das vezes, bastante coloridas dando forma as peças (marcadores de páginas, toalhas de mesa, blusas, vestidos, saias, dentre outras), que ficam prontas para serem utilizadas ou comercializadas. 2 O termo tecnologia é aqui utilizado como a articulação de certas técnicas e de certos tipos de discursos acerca de gênero, de maneira semelhante à sugerida por Foucault (1993), quando ele trata da genealogia do sujeito. 3 O projeto desta pesquisa foi aprovado pelo Comitê de ética em Pesquisa do Centro Universitário Cesmac, com o nº de protocolo 1274/2012. 4 Trecho da fala de um aluno do 6º ano durante uma observação no pátio da escola ao responder a pergunta: “E aí, já fez um filezinho hoje?” feita por um funcionário, chamado de professor pelo aluno. 5 Trecho da fala de um aluno do 8º ano durante o grupo de discussão. 6 Trecho da fala de um aluno do 9º ano durante entrevista. 7 Trecho da fala de um aluno do 7º ano durante entrevista 8 Trecho da fala de um aluno do 7º ano, durante entrevista. 9 Trecho da fala de um aluno do 9º ano durante entrevista. 10 Trecho da fala de uma aluna do 8º ano durante entrevista. 11 Trecho da fala de um aluno do 8º ano durante entrevista. Sobre as autoras: Julia Mayra Duarte Alves: Universidade Federal de Alagoas (Maceió). Laura Cristina Vieira Pizzi: Universidade Federal de Alagoas (Maceió). Horizontes, v. 30, n. 2, p. 31-41, jul./dez.2012 42 43 Mídia e Juventudes: produzindo relações curriculares Lisandra Veiga dos Santos* Elisabete Maria Garbin** Resumo É objetivo deste artigo perceber como estes discursos podem operar na constituição de um currículo paralelo na escola ou como se dão suas relações no cenário escolar, bem como na construção de identidades juvenis. Com base no campo dos Estudos Culturais, Estudos sobre Juventudes e algumas ferramentas foucaultianas, bem como de discussões sobre currículo de Silva, foram analisados 20 exemplares do Jornal Mundo Jovem dos anos de 2009 a 2010. As análises permitiram inferir que há um investimento na formação do jovem voltando-se para a ênfase religiosa. Bem como prescrições sobre o modo “verdadeiro” de ministra aulas e as formas mais corretas de fazê-lo. Com este artigo pode-se pensar como determinadas identidades juvenis são produzidas por discursos midiáticos e como podem ser associadas às representações produzidas e colocadas em circulação pelo Jornal Mundo Jovem. Palavras – Chave: Juventudes – Mídia - Currículo – Práticas Pedagógicas Media and Youth: producing relations curriculum Abstract It is the aim of this article to see how these discourses can operate in the formation of a parallel curriculum in school or build their relationships in a school setting as well as in the construction of youth identities. From the field of Cultural Studies, Youth Studies and some tools Foucault, as well as discussions about curriculum Silva, were analyzed 20 copies of the Official World Youth the years 2009 to 2010. The analysis allows to infer that there is an investment in the education of youth turning to the religious emphasis. And prescriptions on how "true" minister of classes and more accurate ways of doing it. With this article can be thought of as certain juvenile identities are produced by media discourses and how they can be associated to the representations produced and put into circulation by the Official World Youth. Keywords: Youth - Media - Curriculum - Pedagogical Practices [...] em outras palavras, eu diria que a mídia "caça" o jovem principalmente naquilo que o ‘incrimina’, tornando-o visível no seu poder de juventude, sexo e beleza, resistência e agressividade, ao mesmo tem que na sua condição de miséria física e existencial. Assim, para além de objetivamente informarem sobre fatos, esses textos também afirmam e constroem um modo de diferentes vidas jovens existirem e serem expostas. (Fischer, 1996, p.249). A epígrafe que inicia este artigo visa a introduzir a forma como irei abordar o tema da mídia, das juventudes e do currículo e de como pretendo tomar a mídia como produtora e produzida nessas relações. Esse incriminar, que Fischer cita, não é no sentido pejorativo, mas no sentido de que a mídia localiza as culturas juvenis para que possa “encaixotar, enquadrar, etiquetar, categorizar a juventude” (Garbin, 2000, p.10) e utilizá-la nos processos de adequação aos comportamentos socialmente aceitos, como se a produção de uma juventude ‘normal’ partisse de aspectos das juventudes denominadas pela * Endereço eletrônico: [email protected] ** Endereço eletrônico: [email protected] sociedade como transgressoras para se instituir. Um exemplo da forma de ‘pedagogização’ das juventudes Também é intento deste artigo discutir os discursos culturais que produzem os sujeitos e suas práticas escolares, atentando para o fato de que a mídia produz os sujeitos e suas relações com o entorno. Não quero afirmar nesse artigo que a mídia apenas produz; esse efeito de produção é uma via dupla, na qual a mídia produz e é produzida por discursos localizados em uma determinada época, por determinados sujeitos e suas relações de poder. É nessa relação de processo que pretendo desenvolver a linha de discussão desse artigo, não pensando em dominados ou ‘alienados’, mas sim em sujeitos que buscam um sentimento de pertença, um sentimento de segurança frente a um tempo – pósmodernidade- em que tudo se liquefaz, e se questiona e as estruturas fixas desmoronam. Este artigo é um recorte de estudo maior pertencente a uma dissertação de mestrado, intitulada “Juventudes Contadas no Jornal Mundo Jovem: Modos de Pensar o sujeito jovem contemporâneo”, e objetiva discutir, através dos exemplares de um jornal de grande circulação no 44 Lisandra Veiga dos Santos, Elisabete Maria Garbin Brasil, a saber Jornal Mundo Jovem, as produções dos sujeitos jovens e das práticas pedagógicas ligadas a eles operando no currículos. A metodologia constitui-se na análise de 20 exemplares dos anos de 2010 e 2011 através da leitura atenta e posterior debate em grupo de pesquisa. Os conceitos utilizados, a saber: discursos (Foucault, 2009), juventudes (Feixa, 2004; Garbin, 2002), currículo (Silva, 2007) foram um forma de “iluminar” as discussões dessas análises. Na primeira seção, intitulada Inventário da mídia – percorrendo outras produções de sujeitos e espaços escolares, faço um breve levantamento de estudos que tomaram a mídia e suas relações – pedagogizantes ou não - e a juventude. Na segunda seção, Juventudes produzidas e/ou em processo de produção – dos discursos culturais que constituem os sujeitos jovens, analiso alguns discursos do jornal e suas produções de sujeitos contemporâneos jovens, bem como seus grupos culturais e o papel do pertencimento nesses grupos. Já na terceira seção, O currículo – da constituição e transversalidade das diferenças, apresento algumas discussões acerca das concepções de currículo, bem como alguns trechos de análise dos discursos do Jornal Mundo Jovens que prescrevem modos e práticas pedagógicas. E na seção Da incompletude das discussõe, apresento as conclusões ainda que breves e parciais, tendo em vista que, se fossem analisadas sob outra ótica epistemológica, teriam outros encaminhamentos possíveis. Inventário da mídia – percorrendo outras produções de sujeitos e espaços escolares Apresento estudos já realizados sobre os temas mídia e juventude, os quais foram encontrados no Banco de Teses e Dissertações da CAPES e no repositório digital da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (LUME/UFRGS). A saber: Neuman (1989) em sua dissertação de mestrado estudou a empresa que produz o Jornal Mundo Jovem, analisou como estava a situação da comunicação de massa no Brasil e no Rio Grande do Sul e a possibilidade dos indivíduos trilharem seus caminhos independentes desse meio. Fischer (1996) abordou em seu estudo a adolescência e a produção de sua subjetividade mediante a mídia. Garbin (2000) trabalhou com jovens e a sua relação com chats da internet, apontando os vários pertencimentos que estes jovens produzem e se identificam na internet. Schmidt (2006) lançou mão da Revista da MTV para explorar o termo “ter atitude” amplamente conhecida pelos jovens. Marques (2007) problematizou as culturas juvenis no Jornal Kzuka - um complemento do Jornal Zero Hora, do Rio Grande do Sul. Rossi (2007), a qual foi integrante do grupo de pesquisa do qual faço parte - investigou as culturas juvenis nas páginas do caderno Patrola, suplemento também do jornal Zero Hora. Souza (2008) analisou as formas pelas quais o Jornal Mundo Jovem comunica os paradigmas educacionais adotados no país desde a década de 1960, com o propósito de formar pessoas autônomas, criativas, críticas e solidárias, capazes de explorar o universo de suas construções intelectuais. Em outros estudos, Gobbi (1999) analisou o jornalismo para teens e os espaços disponibilizados pelos jornais do Brasil para este público específico, também inventariou o perfil dos suplementos veiculados nas regiões Centrooeste, Nordeste, Norte, Sudeste e Sul, localizados na Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e O Globo para compreender como se dá a participação dos leitores juvenis, bem como os objetivos da manutenção destas publicações pelas empresas jornalísticas nacionais. Gumes (2004) também trabalhou com o jornal Folha de São Paulo, mas analisando a identificação das culturas juvenis representadas no Folhateen, suplemento jovem e buscou também revelar como as identidades se configuram nos textos do jornal. Silva dos Santos (2005) analisou a imprensa de Fortaleza operando na construção das juventudes leitoras na década de 50. Nascimento (2008) direcionou seu olhar para a revista Veja e o jornal Folha de São Paulo dos anos de 1970 e 1980 e o modo como ela interfere nas produções da juventude e de suas estratégias. Pedrosa (2008) em seu estudo objetivou analisar o discurso da mídia, com destaque aos jornais impressos, sobre atos e fatos envolvendo jovens infratores, de forma mais específica na periferia de Natal. Oliveira (2009) analisou o discurso sobre a adolescente negra veiculado nas páginas da revista Atrevida. Stein (2011) focalizou seu trabalho na participação de jovens em um grupo religioso de orientação católica, o ONDA, pertencente a uma pastoral de paróquia da região do Vale do Rio dos Sinos. Com base na forma como vinte jovens participantes constroem o referente ONDA, em oficinas e entrevistas, a pesquisa investiga que representações os jovens constroem do trabalho realizado no grupo e quais as possíveis repercussões desse trabalho em relação à estruturação da vida em sociedade. Tais trabalhos contribuem grandemente para o desenvolvimento deste artigo. Junto a eles agregamos discussões obtidas no grupo de pesquisa do qual faço parte, com essa combinação de concepções apresentadas, as quais produzem Horizontes, v. 30, n. 2, p. 43-57, jul./dez.2012 Mídia e Juventudes: produzindo relações curriculares sujeitos jovens transitórios, com marcas culturais. Tais sujeitos se constituem de inúmeras formas e se utilizam de discursos midiáticos para comporem suas identidades. Os discursos veiculados nesses estudos operam na lógica de outros artefatos culturais (revistas, internet, televisão, etc), mostrando juventudes, conscientes, disciplinadas, enfim, identidades juvenis. Este artigo analisa a mídia escrita de um jornal de uma determinada época, com discursos próprios, mas que de forma produz a juventude e seu modo se relacionar com as práticas pedagógicas contemporâneas. Segundo Foucault (2009), as práticas são resultados dos discursos e acabam de certa forma produzindo-os, nesse caso os discursos que produzem as juventudes também acabam por produzir práticas pedagógica, midiáticas, comportamentais específicas a conter ou desenvolver as culturas juvenis. Necessita-se pensar que a mídia não é uma via de mão única e muito menos as pessoas são “coagidas” ou deixam-se levar pelos discursos, mas sim por que fora desses discursos nada faz sentido. Por anos a juventude foi vista como rebelde, soaria estranho comportamentos “adequados” ou jovens que não protestariam por nada. A barreira do adequado, do rebelde é a normalidade, ou seja, o que a sociedade espera do jovem como o seu “verdadeiro”, o seu “normal” modo de se portar. Pode-se inclusive ampliar esse pensamento ao cotidiano da sala de aula, isto é, existem práticas que são legitimadas e tornadas verdadeiras, “normais” pelo currículo. As práticas pedagógicas também são produzidas pelos discursos contidos nos currículos, os quais expressam uma forma epistemológica de se conceber o sujeito e seus processos de aprendizagem. Logo, pode-se conceber que a mídia tenha um papel de grande relevância na produção de discursos e que ela legitima modos de ser e de se conduzir o trabalho docente, seja em revistas ou programas destinados à exibir práticas pedagógicas, seja nos pareceres e diretrizes que veiculam, por meio de discursos inclusive, o modelo de sujeito que a escola Moderna busca formar. Nessa concepção precisa-se sempre considerar o tempo histórico e seus processos nas construções dos discursos. Um exemplo dessa historicidade é pensarmos que o Jornal Mundo Jovem surgiu inicialmente no Seminário1 Maior de Viamão-RS, mas ainda não com esta denominação e com tal público. Em setembro de 1963 foi lançada a Revista "S.O.S. Vocações", (editada em português e espanhol) com o objetivo Horizontes, v. 30, n. 2, p. 43-57, jul./dez.2012 45 de atrair público para os seminários católicos. Servia basicamente de subsídio para as equipes vocacionais3. Em agosto de 1964, trocou sua nomenclatura para "Lançai as Redes", ainda com objetivos especificamente vocacionais, porém ampliando a abrangência. Destinava-se também aos trabalhos vocacionais nas paróquias e escolas. Em outubro-novembro de 1967, ainda no Seminário Maior de Viamão, o Jornal deu início a sua aproximação com público jovem, abordando e refletindo “suas inquietações, suas ansiedades e esperanças” (Jornal Mundo Jovem, 20112). Foi neste período que adotou o atual nome de Jornal Mundo Jovem. Em janeiro de 1972 o Jornal Mundo Jovem passou do Seminário Maior de Viamão para a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, sob a responsabilidade da Faculdade de Teologia, onde se mantém até hoje. Vale ressaltar também nesse contexto que, em 1972, foi criado pela Igreja Católica, o primeiro Curso de Liderança Juvenil (CLJ) em Porto Alegre, organizado pela Igreja São Pedro4. Tais Cursos são pautados nos princípios do catolicismo, articulados aos discursos de liderança, autonomia, cidadania e responsabilização por decisões e escolhas. São culminados pelos chamados Retiros – espaços para reflexão e oração, organizados, em geral, locais afastados do centro urbano, para onde os jovens são levados e lá permanecem por alguns dias –, para reflexão, convidados a construir um mundo a parte, possível, ‘melhor’, dentro do cenário católico. Nesse cenário foi se constituindo o Jornal Mundo Jovem – um artefato que ensina modos de ser/estar jovem, professor, mulher, homem, cristão baseado nos preceitos da crença. O jornal é composto por 21 seções, a saber, Espiritualidade, dos Leitores, Língua e Literatura, Projetos Pedagógicos, Educação, Ciências Naturais, Geografia, Ecologia, Sociologia, Arte e Cultura, Realidade brasileira, Filosofia, Ensino Religioso, Psicologia, Juventudes, Política e Cidadania, História, Vida saudável, Sexualidade, Pais e Filhos, Curtas e dicas, têm modos de endereçamentos distintos e formas de ‘ensinamentos’ sobre diferente, modos de pensar a docência. Separei para efeitos de visualização, as seções em três grandes vieses a partir das leituras das mesas, como por exemplo, as seções Espiritualidade, Filosofia, Ensino Religioso, Bíblia5, as quais tratam do aspecto religioso tendo contribuições de padres, irmãos, estudiosos de teologia que apontam para os benefícios de se fazer parte de um grupo de jovens da Igreja, as reflexões proporcionadas pela campanha da fraternidade, passagens bíblicas, valores éticos segundo a religião católica. Já nas 46 Lisandra Veiga dos Santos, Elisabete Maria Garbin seções: Projetos Pedagógicos, Educação, Ciências Naturais, História, Geografia, Ecologia, Língua e Literatura, podem se observar modos de endereçamento a professores, com discussões e materiais de apoio ao pé da página, como perguntas sugeridas para debate em grupo. Um vocabulário mais complexo e com professores de cada área que dão contribuições de artigos àquelas seções. Para analisar este artefato cultural, do qual constitui-se o jornal Mundo Jovem, lancei mão do campo dos Estudos Culturais para analisar os discursos do referido jornal. Os Estudos Culturais propõem um conjunto de abordagens, problematizações e reflexões situadas na confluência de vários campos já estabelecidos, buscando inspiração em diferentes conceitos, rompendo com lógicas cristalizadas. Esses estudos têm início nas análises das sociedades industriais modernas (Nelson; Treichler; Grossberg, 2009), de suas práticas e de seus sujeitos. Com o passar do tempo e das rupturas político-históricas, os Estudos Culturais tiveram suas direções ampliadas para outras discussões, tais como: a educação, a tecnologia, gênero, etnia, juventudes, sociologia, etc. No entanto, sempre mantiveram seu objeto de observação: a cultura. Inicialmente a cultura foi pensada por três modos conforme Williams citado por Costa No primeiro, [modo] diz ele, há o “ideal” – a cultura como tomada como um processo de aperfeiçoamento, direção a valores universais e absolutos. O segundo se refere a cultura como “o documentário”, o conjunto da produção, do trabalho intelectual e criativo. Em terceiro lugar está uma definição social de cultura – a cultura como descrição de um modo de vida. É esta última definição que inspirou e orientou os Estudos Culturais. (WILLIAMS apud COSTA,2004, p.24). Este primeiro conceito de cultura cunhado por Williams (1965) foi se transformando ao longo de tempo, como outros autores, outras áreas de estudo envolvidas e foi inevitável o deslocamento para uma outra forma de pensar a cultura. Para os Estudos Culturais, tal deslocamento é algo importante pelo próprio campo considerar os processos de ressignificação ou até mesmo o borramento de determinadas metanarrativas. Podemos conceber a cultura e suas inúmeras relações com outros campos como formas de articulação desses estudos, como sendo a possibilidade de integração e de modos de concepção diferenciados da vida social, sem necessariamente restringi-las a classe social. A educação vista sob a perspectiva dos Estudos Culturais, por exemplo, apontam para uma parceria produtiva para discussão, É possível dizer que os estudos conduzidos na direção apontada tem facilitado a não circunscrição da pesquisa em educação, bem como das ações educativas, às tradições tomadas como prevalentes às compreensões definidas como hegemônicas, às histórias de progressos cumulativos e as análises interpretativas que buscam o sentido oculto das coisas, ou que reduzem a crítica e a denúncia” (Wortmann, 2005, p. 174). A autora aponta a elasticidade que os Estudos Culturais proporcionam ao utilizá-los em pesquisas no campo da educação, o quanto tais estudos podem contribuir para pensar sobre escola, aluno, relação professor-aluno, etc. Discutir a educação do ponto de vista dos Estudos Culturais, além de incitar outras formas de olhar, não restringe o sujeito ou suas práticas a determinismos sociais. Hall (2003) ainda destaca que os Estudos Culturais abarcam discursos com múltiplos saberes veiculados através práticas sociais cotidianas e que o campo de estudo procura não organizar o conhecimento em disciplinas, mas sim misturá-los, borrar suas fronteiras. Esse ‘borramento’ se daria de maneira que se possa entender, de múltiplos modos, questões que muitas vezes ficariam na esteira de discussões localizadas e perderiam outras possibilidades de análise se não inscritas no campo dos Estudos Culturais. Tal campo tem ressignificado e tornado dinâmicas as discussões acerca de identidade, discurso e representação (Costa, Silveira, Sommer, 2003). Nas seções Projetos Pedagógicos, Educação e Psicologia explicitam-se tais discursos acerca de como concebemos a cultura do bom aluno, como podemos observar no excerto a seguir, da edição de Março de 2009 Na escola foi possível perceber que houve melhora no desempenho dos alunos, bem como uma maior integração entre eles. Também foi possível identificar que a experiência do diálogo entre as disiciplinas [...] contribui para o aumento da responsabilidade e do interesse dos alunos pelas aulas, assim como sua Horizontes, v. 30, n. 2, p. 43-57, jul./dez.2012 Mídia e Juventudes: produzindo relações curriculares atuação como cidadãos, para além do espaço escolar. (Neves, 2009, p.21). A melhora à qual o excerto se refere tem a ver com o “aumento da responsabilidade e do interesse dos alunos pelas aulas (Neves, 2009)”, ou seja, o modo de ser aluno que contribuiria com o bom andamento das aulas seria o responsável e interessado. Não se questiona se tal excerto é adequado ou não, nem se emitem opiniões acerca da publicação, mas sim problematizam-se os tipos de discursos que percorrem, inclusive o currículo, as práticas pedagógicas. O sujeito aluno precisa ser incentivado a ter determinados comportamentos que auxiliariam na melhora da escola. No excerto da seção Educação, da edição de Maio de 2009, em uma reportagem acerca da escrita, pode-se observar algumas prescrições e modos de ser que seriam adequados a boa prática da escrita, “O texto como um espaço em que o aluno possa ser leitor e também autor, utilizando suas experiências de vida, seu conhecimento prévio como fonte de produção.” (Cargnin, 2009, p.5) Também visualizamos as mesmas prescrições no excerto retirado da Seção Educação, da edição de Abril de 2010, que “exige dos estudantes uma atitude investigativa, na qual o confronto com o que se sabe e o que deseja saber resulte no questionamento da realidade. (Jucá, 2010, p.18)”. O referido trecho faz parte de uma reportagem que trata da importância de uma postura de pesquisador cientifico. Ao longo da reportagem a autora busca atentar para a importância de se estimular a pesquisa desde cedo nas escolas. Inclusive, a pesquisa que também é um elemento que faz parte do currículo, é produzida como uma forma de se “aproximar o mercado e trabalho da formação como seu produto (Jucá, 2010, p. 18)”. Em se tratando de trabalho por projetos, pode-se observar que o comportamento sugerido ao aluno, retirado da Seção Projeto Pedagógico, da edição de Julho de 2009, é o de desenvolver “competências e habilidades como observação, trabalho em equipe, criatividade, organização, registro de situações de aprendizagens. [...] (Pereira, 2009, p.19)”. Tais habilidades estão ligadas a uma concepção de sujeito contemporâneo, o qual deve-se investir no capital cognitivo (Foucault, 2009) do sujeito como forma de desenvolvimento da sociedade do conhecimento, a qual se desenha com as tendências atuais na educação. A escola na percepção dessa sociedade não mais atua como formadora única, mas estimula o sujeito a se autogerir na perspectiva do trabalho em equipe e por projetos. Existem relatos de algumas escolas Horizontes, v. 30, n. 2, p. 43-57, jul./dez.2012 47 públicas trabalhando nessa perspectiva. Também, no sentido de produzir discursos acerca do currículo, observou-se modos de se conceber as práticas do cotidiano como sendo encaminhadas e prescritas, como no excerto retirado da seção Educação, da edição de 2009 O conselho deve ser um espaço de decisão coletiva. Desta forma permite enfrentar o desafio de construir um novo projeto para escola. Tem como um dos objetivos refletir sobre a aprendizagem, proporcionando um espaço de reflexão coletiva sobre o trabalho pedagógico. (Edição Outubro, p.12). Segundo, Steinberg (1997), a mídia produz no sujeito e em suas relações uma pedagogia cultural, na qual ensina modos de ser que são considerados aceitáveis na sociedade em que vive. Corroborando tal ideia, Foucault (2009) nos diz que a produção desse sujeito e do modo de ser é datada de cada época, a qual possui um conjunto de discursos específicos, o que o autor chama de episteme. À cada momento história as relações e os sujeitos são produzidos e produzem relações de poder através das epistemes que regem a sociedade. No excerto anterior, o jornal coloca as funcionalidades e objetivos de um Conselho de Classe, uma prática típica na escola moderna, sugerindo ao leitor outro modo de condução e concepção do mesmo. Juventudes produzidas e/ou em processo de produção – dos discursos culturais que constituem os sujeitos jovens Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo continuadamente deslocadas. Se sentimos que temos uma identidade unificada desde o nascimento é porque construímos uma cômoda estória sobre nós mesmos ou uma confortadora ‘ narrativa do eu’. (Hall citando Hall, 2006, p.13). Ao analisar o Jornal Mundo Jovem a partir do campo dos Estudos Culturais, tornou-se possível depreendê-lo como um artefato que, por meio da linguagem, dos discursos, produz compreensões sobre ser/estar jovem. Considerando as múltiplas possibilidades que se produzem na contemporaneidade, perpassando a constituição de identidades efêmeras, fluidas e, por vezes, contraditórias como afirma Hall (2006), 48 Lisandra Veiga dos Santos, Elisabete Maria Garbin analisei nesta seção os modos, os discursos nos quais o jornal procura produzir as identidades das juventudes contemporâneas. Por se tratar de um jornal que possui em sua trajetória as fortes marcas da própria história do catolicismo, passo também a ‘tensionar’ em que medida também não estaria produzindo identidades católicas. Partindo da compreensão de que as identidades podem ser múltiplas e cambiantes, essas convocam o sujeito simultaneamente a diversos pertencimentos. Nosso tempo líquido faz com que as experiências que temos sejam mais valorizadas quando em grupo, o grupo seria o porto seguro, a garantia que foi levada com a Modernidade. O jovem pode ser católico, no entanto gostar de roupas de marca, de rock n’ roll, frequentar bate-papos virtuais, andar de skate, ou vir hip-hop sem, no entanto, romper com sua identidade católica. Esta seção dará visibilidade a alguns discursos acerca das juventudes, dentre tantos que habitam a mídia e o próprio jovem de modo simultâneo. Conforme Ellsworth (2001, p.20) sugere, o filme, com seus modos de endereçamento, espera que o espectador aja “como se ele fosse aquele alguém que o filme quer que ele seja, que o filme pensa que ele é, ou ambas as coisas.”, essa é a maneira de funcionamento dos modos de endereçamento. Descrever detalhadamente um sentimento, atribuir uma característica que chame a atenção do espectador. No caso do jornal, atribui-se a juventude um caráter de dinâmica, “que sabe lidar com novos meios eletrônicos”, que devemos aprender com essa juventude. No entanto, mais do que isso o artigo que destaco a seguir chama a importância de se aprender com as gerações, tendo em vista que parece endereçado a outra geração que não a da juventude. É esse endereçamento que produz a identidade, ou os processos de identificação (Hall, 2006), pelos quais as juventudes se reconhecem no jornal e pelos quais os professores e a escola também se reconhecem como sujeitos da ação e da reflexão. O sentimento de que temos uma identidade apenas e que vivemos eternamente sob os parâmetros dela é uma visão comumente confundida com a ética e a moral, as quais pautam nossas ações desde que a aprendemos para o resto da vida. Em parte essa ética é formada pela religião e pelos discursos sobre o que é certo/errado de se agir. No jornal encontramos os modos de endereçamento aos jovens para que estes pautem suas ações pela religião, que implica a moral e ética, mas que é construída sob maneira através dos processos de identificação desses jovens com o catolicismo sob o viés dos discursos presentes no jornal, como nos mostra os excertos a seguir Para captar toda a riqueza de vida presente na Bíblia, é importante de um lado olhá-la como produto literário que pode e deve ser analisado à luz da história e da crítica textual. Essa leitura responde às nossas buscas no entendimento da palavra, pois queremos compreender o seu sentido. Isso é bom, mas não suficiente. É que a Bíblia não é um conjunto de conhecimentos teóricos como as demais ciências. Não é um livro de biologia ou de astronomia, de física ou de história, mas é um livro de teologia, um livro de fé, escrito por pessoas de fé para comunidades também de fé. (Uma palavra para a nossa vida, Edição de Fevereiro, p.15, 2009). A palavra de Deus deve ser o nosso alimento cada dia e nela precisamos buscar o sustento para nossa vida. (Bíblia (ainda não) é um livro ecumênico, Edição de Setembro, p.9, 2010). Mas atenção!Ao lado de toda a sede de poder, fama e dinheiro existe uma necessidade ou exclusão correspondentes. (Consumismo quem é vencedor?, Edição de Março,p.16, 2009). Os excertos apresentados procuram ressignificar as identidades juvenis, as quais são produzidas através dos modos de endereçamento sugeridos nos excertos. Não basta ser católico, tem que seguir uma série de práticas, de modos de se conduzir para pertencer ao grupo. Podemos transpor tais conclusões às práticas pedagógicas, as quais buscam trabalhar com o grupo ao sujeito, homogeneizar ao ver a heterogeneidade do cotidiano escolar. Esses modos de endereçamento também estão presentes no currículo, tendo em vista que eles são endereçados a certas classes sociais e modos de se produzir sujeitos na escola Moderna. Essas verdades, ao endereçar-se ao público juvenil, o Jornal produz como estratégia de interpelação a aproximação de seus temas a assuntos que a equipe editorial julga presente neste “Mundo Jovem”. Cito os seguintes exemplos pela sua recorrência Vale ressaltar o uso do graffiti em escolas e instituições como forma de socialização e expressão cultural, bem como a Horizontes, v. 30, n. 2, p. 43-57, jul./dez.2012 Mídia e Juventudes: produzindo relações curriculares abertura de espaços cada vez mais significativos em galerias de artes de arte e museus. (Graffiti: outros olhares para a escrita das ruas, Edição de Maio, p.2, 2009). Também seria legal convidar alguns grafiteiros para um debate na escola a fim de conhecer essa expressão da cultura juvenil. (Graffiti: outros olhares para a escrita das ruas, Edição de Maio, p.2,2009). Conhecer para entender (Funk: embalando as comunidades e a escola, Edição de Setembro, p.5, 2009). É possível aproveitar as culturas juvenis para enriquecer a relação entre professor e aluno? Ela (a escola) precisa compreender como se dá essa escrita e utilizá-la a favor do ensino de língua principalmente. (A (nova) escrita digital, Edição de Março, p.22, 2010). Portanto, é notório o movimento do Jornal em debater temas articulados a culturas juvenis, tanto pela sua recorrência na análise do artefato como pela sua referência conforme a narrativa da equipe editorial. As juventudes que são retratadas no Jornal Mundo Jovem não são apenas católicas ou de orientação cristã; são exibidas nas páginas do Jornal as juventudes rurais, as juventudes em condições economicamente desfavoráveis, bem como suas culturas, como podemos observar nos títulos do artigos a seguir: Graffiti: outros olhares para a escrita das ruas; Corpos jovens: espaços de comunicação de si; Sites de Relacionamento: uma mania mundial, Vida Urbana e Vida Rural desafios ao jovem agricultor; Formação Integral do Jovem; Funk embalando as comunidades e a escola; Mitos e Preconceitos em torno da homossexualidade; Hip-Hop: um grito por liberdade. As juventudes descritas no jornal são produzidas a partir de seus estilos (Feixa, 2004) musicais, artísticos, etc, assim como modos de ser. Jovens que fogem ao padrão de comportamento também são tema das publicações no sentido de servirem de exemplificação de modos de ser adequados ou não. Se pensarmos nessa lógica, a mídia também produz o aluno indisciplinado, mas não modo passivo e unilateral, e sim inserido no contexto da escola (Xavier, 2003), onde se espera desse sujeito determinados Horizontes, v. 30, n. 2, p. 43-57, jul./dez.2012 49 comportamentos, amplamente tratados na mídia. Para tanto, quando se fogem desses modos de ser, logo produz-se o sujeito indisciplinado, aquele cujo modo de ser extrapola a normalidade e “atrapalha” o andamento da aula. O jornal trabalha numa perspectiva combativista de comportamentos que vem de encontro ao que a escola preconiza, tais como bullying, violência, consumismo, relações pessoais e relações nas redes sociais. Sabe-se que o modo como a mídia conduz suas relações tem muito a ver com o que se espera do sujeito. Nesse sentido o sujeito aluno é produzido por um currículo Moderno que tem no modo contemporâneo o referencial de comportamento do alunado. Aceita-se que o sujeito aluno jovem tenha muitas distrações e mesmo assim aprenda, não aceita-se é o seu não aprendizado, sua dificuldade. Logo, problematizase na mídia e no dia-a-dia mais a incapacidade e dificuldade, que os avanços e do que tal sujeito é capaz de aprender. O currículo – da constituição e transversalidade das diferenças O currículo tem significados que vão muito além daqueles os quais as teorias tradicionais nos confinaram. O currículo é lugar, espaço, território. O currículo é relação de poder. O currículo é trajetória, viagem, percurso. O currículo é autobiografia, nossa vida, curriculum vitae: no currículo se forja nossa identidade. O currículo é texto, discurso, documento. O currículo é documento de identidade. (Silva, 2007, p.150). A partir do excerto do autor Tomaz Tadeu da Silva podemos refletir acerca do papel do currículo na escola e como este produz e é produzido através das diferenças veiculadas pela mídia. A mídia, longe de ser vilã, atua, conforme referendei anteriormente, na constituição dos sujeitos e também na constituição das práticas vividas por esses sujeitos em seu cotidiano. Além do Ministério da Educação que produz legislações, currículos e diretrizes, a mídia impressa e televisiva também expõe modelos do que uma educação “precisa”, até propõe em alguns casos “respostas à educação”6. Algumas revistas especializadas no assunto propõem conteúdos, sequências didáticas e modos de se abordar temas do currículo. Esse currículo é a vida do aluno, do professor, da escola, conforme pudemos observar na epígrafe. Seria a vida da escola também produzida? Produzida sob quais 50 Lisandra Veiga dos Santos, Elisabete Maria Garbin perspectivas na mídia? Faz-se importante pensar acerca dessa produção. Se os sujeitos e suas relações são produzidos através dos discursos midiáticos também, e tomo como assertivo o enunciado que os sujeitos também produzem os discursos, podemos pensar no Silva (2007, p.148) apresenta “através das relações sociais de currículo, as diferentes classe aprendem quais são seus respectivos papéis nas relações sociais mais amplas.”. Longe de empreendermos uma discussão materialista ou até mesmo na teoria da ideologia proposta por Althusser, o currículo tem esse papel de constituir a subjetividade dos sujeitos e os sujeitos a criarem situações de resistências7 ao currículo num jogo dinâmico de poder. O que se deve aprender e como se deve estão intimamente ligados às relações culturais e às funções que determinado público irá tomar parte na sociedade. As relações culturais implicam o currículo sob uma perspectiva de discussão do sujeito enquanto partícipe de uma determinada época, de um determinado cenário cultural e trabalhar com essas questões parecem mais fundamentais à mídia que as pessoas responsáveis pela construção do currículo. É nesse encontro de culturas e conhecimentos formais que Silva (2007, p.136) propõe pensar no “[...] conhecimento como um objeto cultural, uma concepção do currículo inspirada nos Estudos Culturais equipararia, de certa forma, o conhecimento propriamente escolar com, por exemplo, o conhecimento explicíta ou implicitamente transmitido através de anúncio publicitário.”, ou seja, a possível trégua ou vivência simultânea da mídia, das culturas e dos conhecimentos escolares poderia ser uma das possibilidades de se trabalhar a constituição do sujeito e transformar sua condição, de sujeito passivo receptor, para ativo e produtor. Propõe-se pensar na relação dialógica que o cenário contemporâneo tem na escola, ignorar o que os sujeitos fazem fora da sala de aula é ignorar sua constituição cultural. As juventudes culturais que se formam fora da escola trazem seus pertencimentos para dentro dela, continuam vivenciando-os, ainda que separadamente do que é considerado conhecimento escolar formal. A maioria dos docentes propagam a ideia de que as juventudes contemporâneas são diferentes das que eles viveram, mas o discurso para por aí. Ao invés de se pensar nessas juventudes enquanto comparativo, deveríamos mesclar os seus conhecimentos culturais ao currículo, torná-lo flexível dentro de um sistema Moderno e rígido. Desafiar os jovens a compreenderem o tempo em que vivem pelas experiências que têm, dentro e fora da escola. Desacreditar em enunciados como “essa juventude está perdida!”, “é isso que serão os adultos de amanhã?” e ajustar o foco ao dinamismo, ao convívio pacífico com as diferenças e a possibilidade infinita de adaptação. Pensando nesse modo de conceber o currículo, analisei as 21 seções do jornal e por motivos de recorrência, escolhi dois temas de duas seções: Educação e Projetos Pedagógicos, pois notei regularidades nessas duas grandes seções, as quais permeiam em grande parte o Jornal – modos de ser professor e modos de se conduzir o trabalho docente. Não podemos deixar de conceber o currículo sem as relações de docência que também estão implicados neles e também são produzidos e produtores Na seção Projetos Pedagógicos dos anos de 2009 e 2010, podemos observar o seu endereçamento aos docentes, principalmente a realização do trabalho docente. São artigos que sugerem práticas pedagógicas ao professor de acordo com assunto do mês da capa. É possível notar algumas correntes de pensamento pedagógico sobre educação, como no excerto a seguir do artigo Ensinar é aprender Os estudantes estão abastecidos por uma carga de informações cuja capacidade de assimilação nem comporta. O ser humano tem potência de semideus, com emoções de mortal. O avanço da era espacial em que vive se tornou o ser humano angustiado pela consciência de sua fragilidade para absorver e superar os desafios a sua volta. (Edição de Fevereiro, p.6, 2009). Excetuando o caráter poético do trecho anterior, podemos inferir uma concepção construtivista do aprender, que vê nos processos de assimilação um de seus principais elementos de desenvolvimento. No entanto, o excerto destaca também o sentimento que possivelmente habita os seres da pós-modernidade, a angústia pela “consciência de sua fragilidade para absorver e superar os desafios a sua volta.” (p.6, Fevereiro, 2009), mas que o excerto traz como uma característica do desenvolvimento do ser humano, numa provável referência a sua evolução. Há também presentes nos artigos do Jornal prescrições sobre como se deve empreender o projeto, o papel do professor e da escola. Poderíamos inferir que tais indicações para o desenvolvimento do trabalho docente seriam uma forma de conduzir a conduta desses docentes; seria uma forma de explicitar os modos certos, verdadeiros de ser professor. O excerto a seguir, Horizontes, v. 30, n. 2, p. 43-57, jul./dez.2012 Mídia e Juventudes: produzindo relações curriculares retirado do artigo Educar para a cidadania Educar para a cidadania é aspirar uma escola que prepare pessoas não apenas para o trabalho, mas para participar no mundo globalizado de forma crítica, reflexiva e emancipatória. (Edição de Abril,p.15, 2009). É interessante observar que conceitos complexos como participação crítica, reflexiva e emancipatória aparecem como de comum acordo sobre seus significados, e que isso levante a questão sobre que referenciais o Jornal ou a escritora do texto concebe a crítica. Por exemplo, numa perspectiva foucaultiana, a crítica vai além de se levantar os pontos negativos, interpretar possíveis relações de causa e conseqüência, mas atentar para que jogos estratégicos essa crítica põe em circulação e quais verdades ela movimenta. Também podemos observar que a estrutura da seção aparece, quase sempre, da mesma forma, apresentando um quadro abaixo do texto principal, no qual há a descrição do projeto, intitulado Acontecendo na prática ou ainda Passo a passo, com base na fala de outros docentes que já o realizaram e obtiveram sucesso. Já em uma outra coluna dentro do texto há a subseção Avaliação e Objetivos, que prescreve de que forma pode se dar a avaliação do projeto e dos sujeitos envolvidos nele. Também há uma estrutura à esquerda da página denominada Ficha Técnica, com dados dos objetivos do projeto, tais como turmas envolvidas, equipe envolvida, duração, recursos materiais, avaliação e premiação. Podemos inferir também diferentes modos de se conceber o mundo contemporâneo que acabam por permear as escritas dos artigos, por exemplo as oposições de “moderno e antigo”, ou das práticas que tínhamos com as que temos agora, como se nossa linha do tempo fosse de fato uma linha linear e que nos levasse à evolução, como no trecho a seguir extraído do artigo Atividade Física e Qualidade de Vida Convém lembrar que a vida moderna tem vantagens e desvantagens que podem levar o ser humano a se tornar inativo. Automóvel, computador, telefone, televisor e CD são excelentes instrumentos para locomoção, comunicação, educação e lazer. No entanto, toda essa tecnologia contribui para o atual estilo de vida: sedentarismo, alimentação inadequada e hábitos nocivos. Por outro lado a missão das Horizontes, v. 30, n. 2, p. 43-57, jul./dez.2012 51 pessoas é manter-se saudável. (Edição de Agosto, p.7, 2009). O provável objetivo do artigo é incentivar a prática de esportes e dar ênfase aos projetos ligados a ele; no entanto, para atender ao publico leitor, que além de professores também é composto por jovens, ou seja, aproxima-se esse artigo com o que a contemporaneidade oferece para dar maior valor a prática de esportes, isto é, com uma vida “moderna” sedentária, precisamos realizar esportes. Os artigos que estão presentes nessa seção, ao contrário da seção Projetos Pedagógicos, são escritos por especialistas em educação, psicólogos. e não por professores com seus relatos de experiência; logo, seu modo de endereçamento é diferente no que tange à legitimidade do discurso, pois são especialistas que conferem o código de verdade necessário ao texto. As temáticas abordadas são múltiplas, mas na maioria das vezes apresentando posicionamentos firmes e delineados, como podemos observar no excerto a seguir, retirado do artigo Aprendizagem para Todos Discutir a educação de alunos com necessidades especiais implica resgatar o sentido da educação especial, ainda que isso possa desagradar aos que se colocam à frente das discussões sobre educação inclusiva. Diante de necessidades educacionais especiais, a educação escolar deve promover situações de ensino e aprendizagem diferentes das organizadas para a maioria dos educandos. (Edição de Março,p.15, 2009). O autor defende que a inclusão deve ser pensada de forma mais cuidadosa, mas ainda sob a égide de incluir a todas as necessidades. Não é objetivo deste artigo discutir este posicionamento, nem fazer juízo de valor acerca dos assuntos tratados pelo Jornal, mas sim propor outros olhares a leitura desse artefato cultural, que possibilita pedagogizar as discussões acerca da educação e do trabalho docente. Os artefatos não possuem poder de influência sobre seus leitores, mas sim de sedução aos processos de subjetivação e encontram na prescrição a sua sustentabilidade. Ao oferecer modos de ser docente, de se conceber a educação, essas verdades subsidiam técnicas de si, atuam diretamente no governo de si, como podemos visualizar no trecho a seguir extraído do artigo Educação Infantil, muito mais do que 52 Lisandra Veiga dos Santos, Elisabete Maria Garbin cuidar Com o passar do tempo, a responsabilidade do educador é de desenvolver uma educação que promova o amadurecimento da autonomia, direcionando suas ações, sem esquecer-se dos limites essenciais do ambiente e o que ela tem internamente, como afetividade, conhecimento, sociabilidade entre outros fatores. (Edição de Maio, p.6, 2009). Essas concepções de educação nos dão pistas de como o trabalho docente está implicado no discurso do campo pedagógico. Apesar de ser um artigo voltado à Educação Infantil, podemos depreender daí toda uma rede discursiva que visa a produzir verdades disponíveis aos sujeitos que empreendem a carreira docente. Podemos observar nos excertos que se seguem a força desses discursos prescritivos nas concepções de educação vigentes na nossa sociedade Educar, portanto, significa propiciar situações de cuidado, brincadeiras e aprendizagem, orientadas de forma integrada visando ao desenvolvimento das capacidades de relação com o outro, atitudes de aceitação, respeito, confiança e também possibilitar o acesso ao conhecimento da realidade social e cultural. (Edição de Maio, p.6, 2009). Educar envolve, ainda, o desenvolvimento das capacidades de conhecimento e das potencialidades corporais, afetivas, emocionais, estéticas e éticas. (Edição de Maio, p.6, 2009). A Educação deve ser um instrumento que possibilite a emancipação social do ser humano, capacitando para a sua vida para a vivência coletiva e a conquista da dignidade. (Edição de Maio, p.6, 2009). Podemos inferir, ainda que parcialmente, que as prescrições não são ideológicas ou coercitivas, mas agem de tal modo que, fora dessa rede discursiva, a educação, o trabalho docente não tem sentido. Não é uma rede que age silenciosamente, mas que se tornar parte do que é considerado verdadeiro no trabalho docente. Mundo Jovem, debatendo e problematizando a produção da mídia de sujeitos e das relações desses com o currículo. A cultura, as juventudes, a mídia agem de forma cíclica no currículo evidenciando assim um sujeito totalmente contraditório e ‘silenciado’ em sua cultura. No entanto, se tomarmos o Jornal Mundo Jovem como artefato cultural, também pode significar tratá-lo como uma prática que constitui discursos sociais próprios da cultura referida, como exemplificam Costa; Silveira & Sommer um noticiário de televisão, as imagens, os gráficos, etc. de um livro didático ou as músicas de um grupo de rock, por exemplo, não são apenas manifestações culturais. Eles são artefatos produtivos, são práticas de representação, inventam sentidos que circulam e operam nas arenas culturais onde o significado é negociado e as hierarquias são estabelecidas. (Costa; Silveira & Sommer, 2003, p.38). Os artefatos são os objetos concretos, são as práticas culturais que acabam por veicular ‘ensinamentos’ a sociedade, tais como o Jornal Mundo Jovem, que busca endereçar à comunidade jovem modos de pensar a sua juventude, modos de propor pautas para o debate da condição juvenil. De um modo geral, este estudo concebe o Jornal, que será material de análise, como um artefato, o qual Bujes (2000). Refere-se a qualquer objeto que possui um conjunto de significados construídos sobre si. ‘Produtos’ de culturas que dão visibilidade a determinadas representações sobre as coisas. Tais representações atuam nos processos de significação que produzem sentidos na vida da cada sujeito. Estes significados só podem ser construídos através da linguagem. É no âmbito das práticas discursivas que se dão tais construções. Ao mesmo tempo em que um artefato cultural se caracteriza por ter sobre si determinados significados, ele é também um produtor de significados. Muitos deles criam realidades e verdades sobre as coisas, as quais são postas em circulação para serem consumidos. (Bujes, 2000, p. 205-228). Da incompletude das discussões Neste artigo busquei trabalhar com a noção de currículo aliada a discursos do Jornal Du Gay (1997) assinala que “para estudar os artefatos culturais precisamos não apenas explorar como são representados, que identidades Horizontes, v. 30, n. 2, p. 43-57, jul./dez.2012 Mídia e Juventudes: produzindo relações curriculares sociais estão a eles associadas, mas também como são produzidos, consumidos e que mecanismos regulam sua distribuição e uso”. Os artefatos são resultados de uma produção cultural específica datada historicamente e constituída por sujeitos sociais. Estudando artefatos culturais também podemos depreender inúmeros modos de pensar e de ser sujeito. Du Gay et. all,(1997), estudando o walkman, assim argumentam, [...] nós não estamos apenas tratando do modo no qual um artefato cultural é representado (como uma coisa na propaganda e nas fotografias), mas também tratando como os processos que tem produzido esse artefato tem sido representado. Nós precisamos pensar sobre como os vários processos de produção são entendidos e recebem significados ao serem rotulados e categorizados de vários modos (inovador japonês, trabalho em equipe etc..). (Du Gay et all, 1997, p.8). O presente artigo utilizou-se desse artefato cultural para problematizar os discursos que veiculam por ela sobre juventudes, currículo e práticas pedagógicas. Após as análises já apresentadas, pode-se inferir, ainda que parcialmente, que o Jornal Mundo Jovem, o qual possui artigos localizados numa racionalidade contemporânea, prescrevem modos de ser aluno, jovem, docente e de conduzir seus trabalhos por finalidades, como a de promover a autonomia do aluno, de desenvolver valores éticos cristãos aliados as suas metodologias e de estar ligado a temas que necessariamente passem pela metodologia de projetos. Podemos considerar que os discursos sugerem o consumo de determinadas culturas, que adotem seus modos de ser, que se constituam em determinadas práticas docentes. Outra forma de pensar os pertencimentos que o jornal oferece aos professores é observar que, nos artigos que seguem, ele tenta exibir a representação de juventude que está ou não presente na sala de aula. Ao interpelarmos esses discursos presentes no Jornal Mundo Jovem a fim de delinear as identidades e os trabalhos docentes que aparecem nele, podemos observar um movimento que o Jornal realiza, o de buscar conhecer a juventude e dar informações sobre ela aos professores que, em sala de aula, procuram governá-los. O currículo não é mais centro de poder, mas sim distribuição de práticas culturais, norteamento das práticas pedagógicas. A mídia teria seu espaço garantido na escola mediante a Horizontes, v. 30, n. 2, p. 43-57, jul./dez.2012 53 construção de sujeitos culturais, pergunto-me. Referências BUJES, Maria Isabel. Criança e brinquedo: feitos uma para o outro. In: ____________. Estudos Culturais em Educação: mídia, arquitetura, brinquedo, biologia, literatura, cinema... Porto Alegre: Ed Universidade/UFRGS, 2000, p.205228. CAMOZZATO, Viviane Castro. Habitantes da cibercultura: corpos 'gordos' nos contemporâneos modos de produzir a si e aos 'outros'. Dissertação de Mestrado. 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Foi criado em 1955 e é vinculado à Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul através de alguns cursos de graduação acadêmica e formações religiosas. 2 Equipe vocacional é constituída por pessoas que orientam e prestam serviços pedagógicos aos Seminários na preparação de futuros padres. 3 Esta informação foi retirada do site www.pucrs.mundojovem.br 4 Igreja Católica situada na Avenida Cristóvão Colombo, nº 1629, Bairro Floresta. Porto Alegre, Rio Grande do sul. 5 Em determinadas edições se observou a presença dessa nova seção. 6 Campanha de uma emissora de televisão do Rio Grande do Sul que visa debater o cenário da educação gaúcha apresentando, para tanto, especialistas de diversas áreas comentando sobre a educação. 7 Ver mais sobre processos de resistências em Foucault (2010). Sobre as autoras: Lisandra Veiga dos Santos: Mestra em Educação e Estudos Culturais (PPGEDU/UFRGS) e Professora Anos Iniciais da Rede Marista no Rio Grande do Sul. Elisabete Maria Garbin: Doutora em Educação e Estudos Culturais (PPGEDU/UFRGS) e Professora na Faculdade de Educação/UFRGS). Horizontes, v. 30, n. 2, p. 43-57, jul./dez.2012 58 59 A concepção de Ensino Médio e de currículo expressa na proposta de São Paulo Dirce Djanira Pacheco e Zan* Resumo Recentemente a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo promoveu mudanças no currículo para o Ensino Médio das escolas da rede pública. Esse processo teve início no ano de 2008 com a publicação dos primeiros documentos voltados para os ensinos Fundamental (II Ciclo) e Médio. Neste texto apresento - a partir de retomada histórica do debate acerca da identidade do Ensino Médio no país e dos documentos curriculares do governo federal divulgados desde os anos de 1990 - uma análise inicial dos documentos curriculares de São Paulo no que se refere à concepção deste nível de ensino e de currículo focando, em especial, as disciplinas de Ciências Humanas. Palavras-chave: currículo, Ensino Médio, Estado de São Paulo. High School and curriculum conceptions in the official document of São Paulo State Abstract Recently the Department of Education of São Paulo promoted changes in the curriculum for high school public level. This process began in 2008 with publication of the first documents to basic education (period II) and high school. This paper point out – from a historical perspective about the discussion about the school identity in the country and the federal government curriculum documents published since 1990´s – an initial analysis of the curriculum documents of São Paulo State, focusing this scholar level, particularly, the disciplines of Humanities. Key-words: curriculum, high school, São Paulo State. Durante os anos de 1980 o país viveu ampla mobilização social em território nacional na luta pela democratização e a ampliação de direitos sociais dos brasileiros. A década se encerrou com a aprovação de uma nova Constituição Federal (1988), que selou o ciclo de lutas sociais e políticas de resistência ao regime ditatorial-militar iniciado em 1964. No texto constitucional aprovado, no capítulo referente à Educação, dentre outras novidades, é explicitado o reconhecimento do Ensino Médio como direito de todo cidadão brasileiro. Alguns anos depois, na LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação) de 1996, este direito foi reafirmado. O Ensino Médio passou a ser compreendido como etapa final da Educação Básica, implicando uma expansão dos anos de escolaridade desejáveis para todo cidadão. É importante ressaltar que a ampliação da Educação Básica é uma mudança significativa que, até certo ponto, reflete também a luta histórica de setores da sociedade brasileira pela sua entrada e permanência na escola até níveis mais elevados de ensino. Mas a conquista do direito ao Ensino Médio não se deu de forma consensual. O governo brasileiro levou certo tempo para assumilo, o que, de certo modo, aponta para possíveis tensões existentes, interna ou externamente ao governo, que retardou a incorporação deste como direito dos brasileiros. Exemplo de possíveis dificuldades pode ser percebido quando da * Endereço eletrônico: [email protected] participação do Brasil em seminário promovido pela UNICEF (Fundo das Nações Unidas para Infância) na cidade de Buenos Aires em setembro de 2008. Naquele evento o governo brasileiro foi cobrado para adotar o Ensino Médio como etapa final de escolarização obrigatória no país. Frente à pressão de lideranças políticas, a secretária de Educação Básica do MEC, profa. Maria do Pilar Lacerda, manifestou-se da seguinte forma: “Não existe mais possibilidade de inserção no mercado de trabalho sem o ensino médio. Isso força essa discussão e não podemos fugir dela. Mas será um tema polêmico.” (Disponível em http//eeducador.com, acessado em 20/02/2009). Mas no que consiste o Ensino Médio no Brasil? Segundo a legislação vigente esse nível de ensino tem como finalidades o aprofundamento dos conhecimentos adquiridos no Ensino Fundamental, a possibilidade de articulação entre os conhecimentos teóricos e práticos de cada uma das disciplinas, o aprimoramento do educando como pessoa humana e a preparação básica para o trabalho. Pode-se, até certo ponto, afirmar que a LDB de 1996 definiu o Ensino Médio como etapa final da Educação Básica, cujo objetivo maior seria a formação geral dos estudantes. Durante os últimos anos, foram elaborados e divulgados diferentes documentos curriculares e em 2006, sob a orientação do governo Lula, o MEC novamente se manifestou lançando as Orientações Curriculares Nacionais para o Ensino Médio. Algo que era cobrado desde 60 Dirce Djanira Pacheco e Zan o início do primeiro mandato do então presidente. Em artigo publicado no ano de 2004, Lopes (2004) posiciona-se veemente neste sentido. A autora reconhece as dificuldades enfrentadas pelo governo em desmontar dispositivos de regulação das práticas curriculares estabelecidas em oito anos (p. 109) do governo anterior, mas cobra a necessidade de nova orientação da política educacional de forma mais ampla. É possível notarmos que o olhar para o Ensino Médio vem se modificando nas últimas décadas e que essa mudança pode ser entendida como ressonância no âmbito do Estado das lutas e reivindicações de diferentes setores. Se por um lado existe a demanda por ampliação da escolarização enquanto direito social, por outro surgem mudanças no processo produtivo que apontam para a necessidade de um trabalhador mais flexível e com habilidades e competências até então pouco exigidas. A expansão do Ensino Médio, associada à sua reorganização curricular, passou a ser vista desde a última década, como fundamental para a integração e a “sustentabilidade” do país no mercado global. Em parte esse argumento é reforçado por documentos de organismos internacionais voltados para a política educacional na América Latina e que, até certo ponto, inspiraram os documentos curriculares brasileiros. A preocupação em oferecer um Ensino Médio que também promova a adaptação do aluno às novas formas de organização do trabalho está presente nos documentos curriculares nacionais desde os anos de 1990. O documento de 19981, por exemplo, expressa a orientação política fundamentada nos princípios do neoliberalismo e a preocupação com a constituição de um modelo de Ensino Médio que proporcione a adaptação dos jovens às atuais condições de trabalho. Segundo o referido texto ...nas condições contemporâneas de produção de bens, serviços e conhecimentos, a preparação de recursos humanos para um desenvolvimento sustentável supõe desenvolver capacidade de assimilar mudanças tecnológicas e adaptar-se a novas formas de organização do trabalho... (p. 18). Nesse mesmo período, criou-se no país o nível da Educação Profissional, que ocorreria concomitante ou posteriormente ao Ensino Médio e que teria por objetivo maior a profissionalização, podendo ser oferecido em instituições de ensino regular ou por diferentes modalidades de educação continuada tanto em instituições especializadas como no próprio local de trabalho (LDB 1996, art. 40). Cerca de uma década depois, o debate sobre a finalidade formativa do Ensino Médio está posta novamente. Em julho de 2008, o governo federal divulgou documento intitulado Reestruturação e Expansão do Ensino Médio no Brasil que objetiva viabilizar a concretização de um Ensino Médio integrado. Busca-se no texto explicitar a identidade deste nível de ensino, ou seja, ...configurar uma identidade do ensino médio, como etapa da educação básica, construída com base em uma concepção curricular unitária, com diversidade de formas, cujo princípio é a unidade entre trabalho, cultura, ciência e tecnologia (BRASIL, 2008, p. 8). É evidente, nos últimos anos, a ampliação do interesse por parte de governos, seja federal ou estadual, para com o nível médio de ensino. Os jovens passaram a ser uma preocupação recorrente nas políticas públicas mais recentes. Podemos afirmar que desde a LDB de 1996 iniciou-se uma corrida com a finalidade de ampliação e até mesmo universalização desse nível de ensino. Junto a esse processo de expansão, novas diretrizes e orientações curriculares são divulgadas, reafirmando o que Arroyo (1999) apontava em outro momento, ou seja, o sentido estratégico de se rever currículos e centrar neles o foco em tempos de mudanças educacionais. Neste contexto de retomada do debate acerca da identidade do Ensino Médio e da necessária articulação entre formação para o trabalho e formação geral, o estado de São Paulo dá início a uma nova empreitada na formulação de documentos curriculares que passaram a nortear o trabalho nas escolas públicas paulistas. O Movimento em São Paulo O ano letivo de 2008 iniciou com a chegada nas escolas estaduais do que se tornou conhecido como o Jornalzinho do Estado. Sob o título São Paulo faz Escola, foi distribuído nas escolas estaduais um Jornal impresso que trazia notícias, curiosidades e sugestões de atividades2 a serem desenvolvidas pelos professores de cada uma das disciplinas do II ciclo do Ensino Fundamental (5ª a 8ª séries) e do Ensino Médio durante os 42 primeiros dias de trabalho. O Jornal, escrito em uma linguagem direta e focada no aluno, apresenta o conteúdo das diferentes disciplinas, distribuído pela quantidade de aulas de cada uma e destinado às várias séries. Com temas atuais e partindo de questões contemporâneas, estabelece, nos textos curtos que apresenta, uma relação com conceitos e temas que Horizontes, v. 30, n. 2, p. 59-68, jul./dez.2012 A Concepção de Ensino Médio e de Currículo Expressa na Proposta de São Paulo deverão ser ampliados pelo professor em sala de aula. Sugere ainda atividades a serem realizadas pelos alunos individual ou coletivamente. A opção pela centralidade do texto como foco do trabalho em sala de aula é enfatizada durante o material. Segundo a Revista do Professor, distribuída na rede posteriormente, o Jornal foi construído levando em consideração os resultados do SARESP3 (Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo) de 2005. Para o Ensino Médio foram produzidas cinco revistas contemplando as disciplinas: Língua Portuguesa; Matemática; Física/Química/Biologia; Geografia/História/Filosofia e Arte/Língua Estrangeira Moderna/Educação Física. Os textos nelas apresentados são dirigidos aos professores de cada uma das disciplinas e em cada uma das três séries do Ensino Médio, com o objetivo de detalhar as possibilidades de “aplicação” e de avaliação das atividades propostas para o aluno no Jornal (São Paulo, 2008, p. 11). Além desse material impresso, Jornal e Revista para o professor, a equipe gestora e os professores receberam orientações por meio de vídeos tutoriais que apresentavam princípios da organização do material. Nessa estratégia do governo paulista é possível vislumbrarmos uma concepção de divisão do trabalho pedagógico, já analisada por outros autores e presente em diferentes momentos de nossa história, ou seja, cabe à burocracia estatal pensar e planejar o trabalho que será “aplicado” pelo professor em sala de aula4. De certo modo, essa concepção curricular, expressa no material divulgado pela Secretaria de Educação de São Paulo, reafirma o que Hypólito (1991) sinaliza ao analisar o contexto das reformas curriculares do final do século XX: a opção por um modelo técnico-burocrático, caracterizado pela redução da autonomia do professor em relação ao ensino e à organização da escola. São anunciadas, nessas Revistas, as habilidades e competências que necessitam ser recuperadas ou consolidadas pelos alunos em cada uma das disciplinas durante o período de 42 dias. São habilidades voltadas principalmente para o raciocínio lógico-matemático, além de leitura e escrita. A Revista do Professor reconhece o grave problema enfrentado nos ensinos Fundamental e Médio do estado que conta com a presença de alunos que ainda não dominam a base alfabética da escrita – entendida no referido documento como a capacidade de compreender como se representa a escrita no sistema alfabético, realizando uma ação de ordem cognitiva - e que, portanto, não conseguirão de forma plena Horizontes, v. 30, n. 2, p. 59-68, jul./dez.2012 61 acompanhar as ações propostas. (2008, p. 17) O documento define ainda como meta para o final do ano de 2008 a alfabetização de todos esses alunos. No caso específico das disciplinas de Ciências Humanas, revelou-se naquele momento uma preocupação em iniciar o trabalho em cada uma delas a partir da reflexão acerca das suas respectivas “utilidades” na formação do jovem estudante. Por que estudar História? Mas, afinal, por que e para que estudar História? E o que você tem com isso? São essas, por exemplo, algumas das indagações iniciais do texto referente à disciplina de História. Na Revista do Professor, há orientações para que o ensino dessa disciplina suscite em classe discussões sobre as questões, procurando aprofundar a reflexão e superar respostas superficiais e repetitivas. O material propõe que o aluno entre em contato com uma História que representa a própria identidade das formações sociais (Jornal do Aluno, p. 19). A disciplina é considerada importante para a formação de cidadãos críticos por promover a percepção da identidade social e da necessidade de preservação da memória individual e coletiva. Na Revista das disciplinas de Ciências Humanas, ficam mais claras as habilidades que se espera que os alunos adquiram. Elas estão divididas entre aquelas voltadas para a leitura e produção de texto e as relacionadas especificamente com os conhecimentos disciplinares. Para a disciplina de Geografia, destaca-se a importância de garantir, ao longo da Educação Básica, que o aluno saiba interpretar e fazer uso de conhecimentos geográficos tais como o da cartografia. Diz a Revista do Professor: considerando a leitura de mapas e gráficos, instrumento indispensável para a compreensão do espaço em todas as suas dimensões, as atividades deste caderno foram elaboradas retomando, inicialmente, os referenciais de orientação e localização, para posteriormente se trabalhar com as formas de representação do espaço em sua dimensão gráfica e cartográfica. Os conteúdos aqui trabalhados estão a serviço da habilidade e, portanto, também devem ser recolocados de forma a fazer com que os alunos retomem conceitos significativos para a sua formação geral (SÃO PAULO, 2008, p. 18). Tecendo críticas a um ensino de Geografia centrado na descrição de paisagens ou 62 Dirce Djanira Pacheco e Zan no manuseio de uma cartografia obsoleta que não leva em consideração os novos recursos tecnológicos, representativos de uma Geografia descritiva e mnemônica (p. 29), propõem-se ensinar aos alunos os procedimentos que lhes possibilite tirar informações e sensações dessas novas expressões de comunicação resultantes da junção dos diversos saberes e da disponibilidade de novas formas de expressão do conhecimento. (p. 29) Tal orientação para o ensino de Geografia visa não apenas a garantia da aprendizagem de habilidades importantes para a disciplina como também contribuir para desenvolver habilidades de síntese e ordenamento de informações além de ampliar a capacidade do estudante de argumentar e aprimorar o seu senso crítico (p. 29). Ao final das orientações, enfatiza-se a preocupação dos autores em garantir a oportunidade aos alunos do Ensino Médio de reverem conteúdos conceituais, procedimentais e atitudinais indispensáveis à sua formação. É possível notar aqui uma retomada do discurso presente nos primeiros documentos curriculares lançados pelo governo federal nos anos de 1990. Segundo documento introdutório dos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Fundamental (BRASIL, 1997), os conteúdos conceituais referem-se à construção ativa das capacidades intelectuais dos indivíduos para operar com símbolos, idéias, imagens e representações que permitem organizar a realidade (p. 74), enquanto que os conteúdos procedimentais referem-se, de certo modo, à capacidade de continuar aprendendo, de buscar informações e de investigar. Nesse sentido, está implícito que, ao se ensinar procedimentos, também se ensina um certo modo de pensar e produzir conhecimento. Os conteúdos atitudinais permeiam todo o conhecimento escolar (p. 76) e se referem às atitudes aprendidas pelos alunos durante sua vida escolar, isto é, atitudes em relação ao conhecimento, ao professor, aos colegas, às disciplinas e à sociedade. Essa forma de conceber os conteúdos está fortemente marcada pela teoria cognitivista, que, como já analisado por diferentes autores, fundamentou os documentos nacionais naquele momento, principalmente sob a influência do pensamento de César Coll. Para Moreira (1997), por exemplo, a perspectiva psicológica defendida por esse autor manifesta-se de forma contundente nos documentos de 1990. Nessa perspectiva, qualidade de ensino é compreendida de forma restrita às necessidade e interesses individualmente considerados (p. 96). Há, segundo Moreira (1997), uma desconsideração do caráter político inerente a essa discussão. Da mesma forma, a análise dos documentos paulistas nos remete a essa compreensão individualizada da aprendizagem e da qualidade de ensino. De uma forma ampliada foi publicada, alguns meses depois, a Proposta Curricular do Estado de São Paulo com orientações curriculares explícitas para cada uma das disciplinas. É importante ressaltar a opção do Estado em publicar cadernos organizados por disciplinas e não pelas três grandes áreas definidas desde os primeiros documentos curriculares nacionais voltados para o Ensino Médio e divulgados pelo MEC, ou seja: Linguagem, Código e suas tecnologias; Ciências da Natureza, Matemática e suas tecnológicas e Ciências Humanas e suas tecnologias. Mas, diferentemente dos documentos federais, parece haver uma estratégia de valorização dos conteúdos, pois, apesar de centrar-se no desenvolvimento de competências e habilidades, enfatiza-se a necessária garantia de conteúdos disciplinares que serão definidos nos documentos específicos das disciplinas. O documento de apresentação da proposta5 afirma que esta é resultado de conhecimentos e práticas acumuladas, de síntese, revisão e recuperação de documentos já publicados sobre currículo no Ensino Médio, bem como de diagnósticos feitos acerca da condição das escolas. Afirma que a Secretaria de Educação do Estado atuará a partir de amplo levantamento do acervo documental e técnico pedagógico existente e consultará escolas e professores, visando a identificar, sistematizar e divulgar “boas práticas existentes nas escolas”. De acordo com o texto, essa proposta visa a proporcionar a todos os estudantes da rede pública estadual paulista uma base comum de conhecimentos e competências para que as escolas funcionem como rede, e elege como prioridade desta reforma a garantia da competência da leitura e escrita na formação desses alunos. A partir de então, é possível observarmos algumas concepções que são elucidadas no documento curricular introdutório. A escola é definida como espaço de cultura e de articulação de competências e conteúdos disciplinares. Nesse sentido, o documento anuncia uma compreensão no mínimo ambígua ao afirmar que é possível e desejável um currículo padrão para toda a rede, uma vez que “alunos e professores são únicos”. Dessa forma, explicita uma noção a-crítica acerca da cultura ao não considerar os conflitos e interesses distintos que permeiam os processos culturais e a diversidade cultural que se manifesta nas diferentes regiões do estado de São Paulo. O adolescente, aluno por excelência dessa etapa da Educação Básica, é entendido como Horizontes, v. 30, n. 2, p. 59-68, jul./dez.2012 A Concepção de Ensino Médio e de Currículo Expressa na Proposta de São Paulo aquele que deixou de ser criança e se prepara para a vida adulta, ou seja, um sujeito em transformação. Ao assumir a adolescência nessa perspectiva, o documento desconsidera o adolescente enquanto sujeito no processo educacional e social. Segundo Calligaris (2000), essa concepção do adolescente tem criado uma situação problemática para os jovens na contemporaneidade, pois, ao mesmo tempo em que são reconhecidos como aqueles que necessitam ainda da tutela dos adultos, eles são instigados a se tornarem indivíduos independentes. Isso torna ainda mais penoso o hiato que a adolescência instaura entre aparente maturação dos corpos e ingresso na vida adulta. Apesar da maturação dos corpos, a autonomia reverenciada, idealizada por todos como valor supremo, é reprimida, deixada para mais tarde (p. 17). Como parte ainda do diagnóstico relatado no documento, discorre-se sobre uma precocidade da adolescência articulada com uma inserção tardia no mercado de trabalho. Neste momento não há nenhuma discussão mais aprofundada acerca da afirmação feita, ou seja, pesquisas na área do trabalho têm apontado para a expressiva presença dos jovens entre os desempregados no país. Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), em 2005, época próxima à produção e divulgação da referida proposta, o desemprego da população entre 15 e 24 anos era 3,5 vezes maior do que o medido entre os trabalhadores que haviam ultrapassado essa faixa etária6. Nesse sentido, torna-se superficial a afirmação acerca da tardia inserção no mercado de trabalho, pois ela parece resultar muito mais de questões estruturais vividas pelo país naquele momento do que de uma opção dos jovens estudantes. Além disso, pesquisadores como Dayrell, têm apontado em seus estudos que, para muitos jovens brasileiros, trabalhar é condição imprescindível para viver sua condição juvenil. O Governo do Estado apresenta, a partir desta proposta curricular, sua concepção acerca da educação que julga necessária para o contexto atual, ou seja, uma educação geral, articuladora, que transite entre o local e o mundial (São Paulo, 2008). Construir identidade, agir com autonomia e em relação com o outro, e incorporar a diversidade são as bases para a construção de valores de pertencimento e responsabilidade, essenciais para a inserção cidadã nas dimensões sociais e produtivas. Preparar indivíduos para manter o equilíbrio da produção cultural, num tempo em que a duração se caracteriza não pela permanência, mas pela constante mudança – Horizontes, v. 30, n. 2, p. 59-68, jul./dez.2012 63 quando o inusitado, o incerto e o urgente constituem a regra e não a exceção -, é mais um desafio contemporâneo para a educação escolar (p. 6). O documento defende princípios que norteiem um currículo comprometido em garantir uma formação que atenda às demandas e modificações do mundo contemporâneo. Aponta para a necessidade de se compreender a escola como espaço de aprendizagem e no qual a convivência passa a ser encarada de forma intencional, ou seja, como situação de aprendizagem. Fundamentando-se na LDB 9394/96, o texto afirma que foi a partir da referida lei que se passou a conceber a aprendizagem enquanto direito (p. 9). O currículo é definido como espaço de cultura. Currículo, diz o texto oficial, é a expressão de tudo o que existe na cultura científica, artística e humanista, transposto para uma situação de ensino e aprendizagem (p. 8). Essa afirmação desconsidera o caráter seletivo do currículo, ignora a ampla produção acadêmica que tem se intensificado desde os anos de 1990 no país e que apresenta o currículo como espaço de luta e embates sociais, culturais e políticos. Ao defender que se parta das competências como referência, isto é, ao aceitar o desafio de promover os conhecimentos próprios de cada disciplina articuladamente às competências e habilidades do aluno... (p. 8), assume-as como aquelas que caracterizam os modos de ser, raciocinar e interagir que podem ser depreendidos das ações e das tomadas de decisão em contextos de problemas, tarefas ou atividades... (p. 9). Essa opção do currículo por competência está relacionada, segundo o próprio documento, com o compromisso por uma escola democrática. No momento em que se conclui o processo de universalização do Ensino Fundamental e se incorpora toda a heterogeneidade que caracteriza o povo brasileiro – afirma o documento – a escola, para ser democrática, tem de ser igualmente acessível a todos, diversa no tratamento de cada um e unitária nos resultados. (p. 10). Para a construção da unidade, é portanto necessário se enfatizar o que é indispensável: que todos tenham aprendido no final do processo, visando a ...garantir igualdade de oportunidades, diversidade de tratamento e unidade de resultados... (p. 10). A justificativa para um currículo centrado nas competências aparece posteriormente no documento ao afirmar-se que as competências são mais gerais e constantes, e os conteúdos, mais específicos e variáveis... (p. 13). As competências adotadas pela proposta 64 Dirce Djanira Pacheco e Zan curricular são definidas a partir do referencial teórico do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM): dominar a norma culta da Língua Portuguesa e fazer uso da Linguagem Matemática; construir e aplicar conceitos das várias áreas do conhecimento para a compreensão de fenômenos naturais, de processos histórico-geográficos, da produção tecnológica e das manifestações artísticas; selecionar, organizar, relacionar, interpretar dados e informações representadas de diferentes formas, para tomar decisões e enfrentar situações-problema; relacionar informações, representadas em diferentes formas, e conhecimentos disponíveis em situações concretas, para construir argumentação consistente; e recorrer aos conhecimentos desenvolvidos na escola para elaborar propostas e intervenção solidária na realidade, respeitando os valores humanos e considerando a diversidade sociocultural - todas elas convergindo para a competência maior da leitura e escrita, que deve ser assumida como objetivo da formação no Ensino Médio, pois é na adolescência que a linguagem adquire essa qualidade de instrumento para compreender e agir sobre o mundo real (p. 11) (grifos da autora), afirma o texto oficial. A proposta compreende a leitura como a capacidade do estudante de interpretar, atribuir sentido ou significado; compreender, assimilar experiências ou conteúdos disciplinares; antecipar ação para intervir no fenômeno e resolver problemas dele decorrentes; sintetizar a capacidade de escutar, supor, informar-se, relacionar, comparar, etc; e descrever, compreender, argumentar a respeito de um fenômeno. Da mesma forma a escrita tem seu sentido ampliado e é assim definida pelo documento: assumir autoria individual ou coletiva; expressar sua construção ou reconstrução com sentido, aluno por aluno; dominar os muitos formatos que a solução do problema comporta; dominar os códigos que expressam a defesa ou reconstrução de argumentos, além de construir um plano para essa intervenção. Diferentes autores têm se posicionado criticamente acerca do currículo por competências, que ganha destaque desde os primeiros documentos brasileiros dos anos de 1990. Segundo Zibas (2005), as primeiras críticas a essa concepção “apontaram a origem do conceito no modelo de competências desenvolvido na área empresarial para a seleção e treinamento de trabalhadores (p. 27). Posteriormente, o aporte psicológico da pedagogia das competências foi criticado por visar à construção do novo profissionalismo” (p. 28), ou seja, é um modelo que enfatiza os aspectos subjetivos dos alunos e que, de certo modo, está em sintonia com as mudanças do processo produtivo atual, que visa a uma melhor adequação do trabalhador às novas formas de organização do mundo do trabalho. A proposta curricular visa a atingir também a gestão da escola. Chama à responsabilidade os gestores - considerados no documento de apresentação da proposta como os responsáveis pela formação continuada dos professores para proporcionarem o desenvolvimento das capacidades de leitura e escrita também nos professores, ou seja, criar oportunidades para que os docentes desenvolvam essas competências. A proposta retoma, de certo modo, a orientação presente nos documentos de uma década atrás, ou seja, a necessidade de se garantir a relação entre o que se aprende na escola com a vida cotidiana dos estudantes. Defendendo que se a educação básica é para a vida, a quantidade e a qualidade do conhecimento têm de ser determinadas por sua relevância para a vida de hoje e do futuro, além dos limites da escola. (p. 13) Porém, como naqueles primeiros documentos, apresenta uma compreensão acrítica da vida contemporânea, há uma nítida intenção de que a escola instrumentalize seus alunos para se adaptarem a realidade atual sem levantar qualquer tipo de questionamento acerca desta realidade. É no contexto do trabalho que se pretende efetivar a contextualização desta reforma curricular. Retomando os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio e assumindo-os como também balisadores para o Ciclo II do Ensino Fundamental. O trabalho é assumido como tema e como valor na proposta aqui apresentada. Segundo o documento de apresentação da proposta, as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio abriram a possibilidade para que os sistemas de ensino ou as escolas tenham ênfases curriculares diferentes, ...com autonomia para eleger as disciplinas específicas e suas respectivas cargas horárias dentro das 3 grandes áreas instituídas pelas DCN´s, desde que garantida a presença das três áreas...(p. 19). No entendimento da Secretaria de Educação de São Paulo, isto permite que escolas de Ensino Médio articulem seu projeto pedagógico a cursos de educação profissional de nível técnico e/ou que possam oferecer disciplinas que depois serão aproveitadas no curso profissionalizante. Apontase, portanto, que o currículo do Ensino Médio seja definido com base em conteúdos disciplinares constituintes de competências básicas que sejam também pré-requisitos de formação profissional. Talvez este seja o caso, por exemplo, da ênfase na Horizontes, v. 30, n. 2, p. 59-68, jul./dez.2012 A Concepção de Ensino Médio e de Currículo Expressa na Proposta de São Paulo tecnologia. A presença da tecnologia como norteador desta proposta é então compreendida como educação tecnológica básica e como fundamento necessário à compreensão do desenvolvimento científico e tecnológico da produção. Aponta-se para a necessidade de se garantir durante a Educação Básica a alfabetização tecnológica básica, ou seja, entender as tecnologias da história humana como elementos da cultura. Posteriormente, num processo de educação tecnológica básica, visa à preparação dos estudantes para viverem neste mundo tecnologizado. Há a defesa da diversificação do Ensino Médio, que, até certo ponto, materializa-se na flexibilização do currículo e na ênfase cada vez maior em proporcionar uma formação profissionalizante dos jovens estudantes desse nível de ensino. Várias têm sido as iniciativas do Estado neste sentido7 que merecem ser estudadas e acompanhadas por pesquisadores da área. Essa concepção de certo modo mostra-se inspirada em documentos de organismos internacionais divulgados no início dos anos 2000. Documento publicado pela UNESCO em 20028 apontava para a necessidade de que os países latinos oferecessem a cada jovem entre 16 e 18 anos uma educação básica de 12 anos, além de diversificar a oferta do que é ali chamado de “Educação Secundária”. Tal diversificação possibilitaria atender às necessidades de uma população estudantil muito exigente, segundo o referido documento, permitindo assim que cada um pudesse explorar seus interesses e aptidões visando a uma inserção positiva e criativa no mundo dos adultos. ...O mais importante (hoje) – afirmam Caillods e Hutchinson – é dispor de uma força de trabalho formada competitiva e flexível (p. 24). Desse modo se justifica, até certo ponto, a ênfase dos documentos curriculares dos últimos anos, na garantia do desenvolvimento de competências e habilidades. Segundo Caillods e Hutchinson (2002), as novas tecnologias transformaram profundamente a organização do trabalho e, portanto, são necessárias agora competências transversais, como capacidade de ser criativo, solucionar problemas concretos, tomar decisões de maneira autônoma, trabalhar em equipe e saber aprender... (p. 26). No caso específico das Ciências Humanas, o documento de apresentação da proposta curricular paulista reconhece como disciplinas que compõem essa área as de História, Geografia, Filosofia, Sociologia e Psicologia, além de outras como Política, Antropologia e Horizontes, v. 30, n. 2, p. 59-68, jul./dez.2012 65 Economia. Enfatiza-se o caráter interdisciplinar da área e a importância da mesma no auxílio dos jovens para a compreensão de questões que os afetam, além de contribuir para as tomadas de decisões diante dos problemas que se apresentam no início do século XXI. Aparentemente poderíamos entender que há uma preocupação e se atribui papel relevante para esta área, mesmo em um currículo comprometido com a formação para o mercado de trabalho. Entretanto, ao analisarmos, por exemplo, o caso da disciplina de Sociologia, fica evidente a contradição no discurso expresso no documento. Vejamos o caso dessa disciplina no currículo paulista. O retorno da Sociologia ao currículo do Ensino Médio no estado se deu a partir do ano de 2009. Apesar de resolução do Conselho Nacional de Educação (CNE) datada de 2006, que tornava as disciplinas de Filosofia e Sociologia obrigatórias no currículo do Ensino Médio, esta última não foi incorporada à matriz curricular das escolas paulistas naquele momento. Com a aprovação da Lei 11.684/2008 pelo MEC, que torna obrigatória a presença das duas disciplinas, o Governo de São Paulo anunciou a inserção da Sociologia a partir do ano letivo de 2009. No entanto, a forma como ela retorna ao currículo tem causado discussões e debates. Segundo o jornal Folha de São Paulo9, a entrada da disciplina de Sociologia representaria a supressão de aulas de História no currículo do Ensino Médio. Em matéria intitulada Aluno de Escola Estadual terá 80 aulas de História a menos, a reportagem diz que o governo estadual afirma não ser possível ampliar a jornada diária de estudantes e professores do Ensino Médio, sendo assim, para acatar a lei federal que inclui a disciplina de Sociologia e amplia a carga horária da disciplina de Filosofia, a única saída foi reduzir aulas das disciplinas de História, Educação Física e Geografia no período diurno, além da disciplina de língua estrangeira (em geral, inglês ou espanhol) no período noturno. Tal opção do governo para inclusão da disciplina possivelmente provocou resistência de colegas no interior da escola, que viram suas disciplinas terem a carga horária reduzida ou assumiram, mesmo sem formação específica, as aulas de Sociologia como forma de não perderem aulas e terem seus salários reduzidos. Reações Iniciais Em matéria intitulada “Reforma Curricular em São Paulo: a contra-mão do progresso”, disponível no site “professor temporario.wordpress.com”, um grupo de 66 Dirce Djanira Pacheco e Zan professores se manifesta contrário à proposta curricular do estado, principalmente no que se refere ao que chamam de semi-profissionalização do Ensino Médio. Além disso, criticam a proposta por restringir o conteúdo a ser disponibilizado aos alunos paulistas, limitando-os ao conhecimento básico da leitura e dos fundamentos da Matemática. Em maio de 2008, o Fórum da Graduação promovido pela ANPUH (Associação Nacional de História) – Seção São Paulo teve como objetivo discutir a proposta curricular da disciplina de História do Estado de São Paulo, implantada na rede pública paulista a partir do ano letivo de 2008. Nessa reunião, ocorrida na USP, estiveram presentes representante da Secretaria Estadual da Educação - professor Paulo Miceli, autor do documento de História - professores das Universidades paulistas, públicas e particulares, membros do GT (Grupo de Trabalho) de Ensino da referida Associação, do Conselho Consultivo e da Diretoria da Seção São Paulo da Anpuh, além de professores dos ensinos fundamental e médio. Dessa reunião resultou uma moção publicada no site da entidade com o objetivo de registrar contradições e inconsistências relativas a esta Proposta Curricular de História. São destacadas principalmente a concepção de currículo implícita na proposta e o seu processo de implantação, que reduz o professor a mero executor de propostas elaboradas a priori, de maneira unidimensional, desconsiderando projetos em desenvolvimento nas escolas, bem como as discussões acumuladas nos últimos trinta anos, envolvendo pesquisas sobre a história das disciplinas escolares, saberes históricos escolares, culturas escolares e saberes docentes, dentre outras. O documento aponta para a dubiedade do texto curricular, pois, apesar de nas proposições mais gerais e nos princípios da Proposta Curricular ser mencionada concepção curricular e educacional pautadas por uma perspectiva sóciohistórica, esta não é de fato incorporada. Pelo contrário, o conjunto de documentos apresentados, apesar de referir-se à autonomia, ao pensar crítico, como metas educacionais a serem colocadas em práticas por docentes e discentes, acaba, ambiguamente, negando-os. A lógica que prevalece é a de um sistema interessado numa produtividade mensurável, politicamente controlada, por meio de procedimentos avaliativos padronizados e mecanicamente colocados em ação. Outra reação organizada foi a da APEOESP (Associação de Professores do Ensino Oficial de São Paulo), que, após reunião com pesquisadores, manifestou-se no Boletim intitulado “Proposta Curricular do Estado de São Paulo: uma análise crítica”. Dentre as principais críticas estão a maneira como a proposta foi inserida na rede, ou seja, sem a necessária participação de todos os envolvidos direta ou indiretamente no processo educacional escolar; a desconsideração acerca da diversidade cultural do estado presente na proposta e a posição de “aplicador de currículo” que é atribuída aos professores da rede. O documento afirma que o currículo apresentado no documento é restrito e retira a autoria do trabalho didático e a autonomia docente. Nesse sentido, a entidade analisa que essa proposta está alinhada com as diretrizes sociais e econômicas do chamado capitalismo globalizado. E aponta que esta concepção social e econômica tem demonstrado não ser eficiente na resposta às necessidades da sociedade em relação ao trabalho, saúde, educação, lazer... Na análise apresentada pela entidade há uma confluência no que tenho apresentado neste texto, ou seja, uma compreensão de que a proposta curricular paulista se aproxima das orientações curriculares difundidas pelos organismos internacionais a partir dos anos de 1990. Da forma como estão organizados, os Cadernos podem ser vinculados aos famosos guias didáticos expressamente orientados pelas políticas educacionais do Banco Mundial, afirma o Boletim. O documento termina por conclamar os professores a se organizarem e posicionarem criticamente frente a esta proposta no momento do planejamento que se iniciava no ano de 2009. A forma como os professores têm se manifestado acerca destes documentos carece ainda de estudos. Algumas Considerações É possível observarmos uma aproximação do discurso curricular da proposta paulista com o presente nos documentos curriculares publicados nos anos de 1990, tendo como ênfase o objetivo de promover o desenvolvimento de competências e habilidades, principalmente aquelas voltadas para a leitura e escrita. Apresenta-se uma concepção do professor como “aplicador da proposta”. É também retomada uma noção de padronização da aprendizagem, desconsiderando tantas pesquisas que apontam para esta como uma atividade de apropriação do conhecimento que é cultural, histórica, social e singular. Na busca de garantir a implementação da proposta curricular, há um envolvimento da equipe gestora que passa a ser estratégica no Horizontes, v. 30, n. 2, p. 59-68, jul./dez.2012 A Concepção de Ensino Médio e de Currículo Expressa na Proposta de São Paulo processo atual. São necessários estudos que aprofundem a análise sobre os documentos apresentados pelo estudo, bem como aqueles que se voltem para o cotidiano escolar com o objetivo de analisar esse processo. 67 Formação de Professores, in ALVES, Nilda (org) Formação de Professores: pensar e fazer. SP: Ed. Cortez, 1992. HYPÓLITO, Álvaro Moreira. Processo de Trabalho na Escola: algumas categorias para análise. Teoria & Educação, n. 4. Porto Alegre: Pannonica Editora Ltda, 1991. Referências Bibliográficas BRASIL. Ministério da Educação. Reestruturação e Expansão do Ensino Médio no Brasil. Julho de 2008. Disponível em www.mec.gov.br BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: introdução aos parâmetros curriculares nacionais. Brasília: MEC/SEF, 1997. KUENZER, Acácia (org.) Ensino Médio: construindo uma proposta para os que vivem do trabalho. SP: Ed. Cortez, 2000. LOPES, Alice Casimiro. Políticas Curriculares: continuidade ou mudança de rumos? Revista Brasileira de Educação, n. 26, mai/jun/jul 2004. MOREIRA, Antônio Flávio. A Psicologia... e o Resto: o currículo segundo César Coll, in Cadernos de Pesquisa Carlos Chagas, n. 100, mar/1997. CAILLODS, Françoise e HUTCHINSON, Francis. Aumentar a Participação na Educação Secundária na América Latina? Diversificação e Equidade, in BRASLAVSKY, Cecília (org.) Educação Secundária: mudança ou imutabilidade? Brasília: UNESCO, 2002. SÃO PAULO. Governo do Estado de São Paulo. Revista São Paulo faz Escola: Edição Especial da Proposta Curricular. Disciplinas Geografia, História e Filosofia, 2008. CALLIGARIS, Contardo. A Adolescência. SP: PubliFolha, 2000. ZIBAS, Dagmar. A Reforma do Ensino Médios nos anos de 1990: o parto da montanha e as novas perspectivas, in Revista Brasileira de Educação, n. 28, jan/fev/mar/abr 2005. FREITAS, Luiz Carlos de. Neotecnicismo e Horizontes, v. 30, n. 2, p. 59-68, jul./dez.2012 68 Dirce Djanira Pacheco e Zan Notas 1 Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (PCNEM). 2 Texto que compõe a apresentação escrita pela Coordenadora do Projeto, profa. Maria Inês Fini. 3 Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (SARESP) tem por objetivo avaliar o Ensino Básico nas escolas públicas do estado. Desde 1996 é aplicado anualmente. 4 Uma leitura importante sobre o tema é a do artigo Neotecnicismo e Formação de Professores de Luiz Carlos de Freitas, publicado no livro Formação de Professores: pensar e fazer organizado por Nilda Alves e editado pela Cortez em 1992. 5 SÃO PAULO. Proposta Curricular para Ensino Fundamental (Ciclo II) e Ensino Médio. Documento de Apresentação. 2008. Disponível em www.fazendoescola.sp.gov.br 6 www.ipea.gov.br 7 Quanto à diversificação do Ensino Médio, em conferência proferida pela profa. Maria Inês Fini – coordenadora da proposta curricular do estado de São Paulo - no Seminário Os Desafios do Ensino Médio, ocorrido na Unicamp em 07 de novembro de 2008, se informou que o estado em parceria com o município de Indaiatuba, por exemplo, ofereceu naquele ano 2.600 vagas para estudantes matriculados no ensino médio estadual frequentarem gratuitamente um dos cursos técnicos oferecidos pela Fundação Indaiatubana de Educação e Cultura (Fiec). 8 BRASLAVSKY, Cecília (org.) Educação Secundária: mudança ou imutabilidade? Brasília: UNESCO, 2002. 9 Matéria publicada em 06 de dezembro de 2008 no Caderno Cotidiano. Sobre a autora: Dirce Djanira Pacheco e Zan: Docente do Programa de Pós Graduação em Educação da Faculdade de Educação- Unicamp. Horizontes, v. 30, n. 2, p. 59-68, jul./dez.2012 69 Corpo, comida e cultura: Discussão e problematização os padrões contemporâneos de beleza/saúde no ensino de ciências1 Tatiana Souza de Camargo* Nádia Geisa Silveira de Souza** Resumo A educação escolarizada tem abordado o corpo humano como fenômeno puramente biológico, um conjunto de sistemas e órgãos do qual se estudam características e funcionamentos, sem abordar aspectos sócio/histórico/culturais que o inscrevem constantemente. Atualmente, os meios de comunicação divulgam muitas informações a respeito do corpo. Elas propõem padrões de aparência que investem na magreza e juventude como sinônimos de saúde, responsabilizando o indivíduo pela administração de seu corpo. Entendendo a escola como um espaço privilegiado no aprendizado de conhecimentos sobre o corpo e seus cuidados, discutimos a necessidade de nela pensarmos o corpo em contínua construção, trazendo neste artigo o relato da experiência realizada em oficinas para estudantes de Pedagogia, cujo objetivo foi desenvolver abordagens complexas à temática da alimentação. Sem a intenção de prescrever novos modelos para o ensino de ciências, acreditamos que com esse tipo de estudo, talvez, possamos contribuir com outras formas de compreensão do corpo, não como acontecimento inevitável e estabilizado na história, mas como efeito das circunstâncias vividas e que pode, portanto, ser criticado e recriado de outras maneiras. Palavras-chave: ensino de ciências – corpo – alimentação. Body, food and culture: Discussion and problematization of the contemporary beauty/health standards in science education Abstract School education has been teaching the human body as purely biological phenomenon, a set of systems and organs, concerning about its characteristics and functioning, without addressing its socio/historical/cultural. Currently, the media shows a lot of information about the body. Its propose standards of appearance that invest in thinness and youth as synonymous of health, blaming the individual for the administration of his/her body. Understanding the school as a privileged space of learning of knowledges about the body and its care, we discussed the need to consider the continuous body construction, bringing in this article the story of experience held in workshops for students of pedagogy, whose goal was to develop complex thematic approaches to food. Without the intent to prescribe new models for the science education, we believe that this type of study may be able to contribute with other forms of understanding the body, not as an event inevitable and stabilized in history, but the effect of circumstances lived and which can, therefore, be criticized and recreated in other ways. Keywords: science education – body – alimentation. *Endereço eletrônico: [email protected] ** Endereço eletrônico: [email protected] 70 Tatiana Souza de Camargo, Nádia Geisa Silveira de Souza Introdução Exageros à parte, o humor desta história em quadrinhos se constrói com base num conjunto de valores e sentimentos partilhados por muitas pessoas, na atualidade – especialmente as mulheres. Nas sociedades como a brasileira contemporânea, os conceitos de saúde e de cuidados com o corpo tornaram-se centrais no processo de construção das subjetividades (CAMARGO, 2012). Nesse sentido, o corpo ideal passou a ser o corpo civilizado, controlado racionalmente; na mesma medida em que os seus cuidados passaram a ter o objetivo de manter a boa saúde e aumentar a longevidade, sem muitos questionamentos sobre as condições e demandas dessa manutenção. Dessa forma, os cuidados de si despendidos a esse corpo passaram a estruturar-se a partir da tríplice “exercício = boa forma = saúde” (LUPTON, 1995: 71). E possuir esta saúde – espécie de bem cuja posse necessita ser constantemente reafirmada; que é tornada visível através do corpo magro, firme e exercitado – parece ser uma questão de bom gosto, de autonomia, de desenvolvimento pessoal. Tal modelo de cuidados corporais contribuíram /para que, em 2006, o Brasil fosse considerado o maior consumidor per capita de medicamentos para emagrecer (9,1 doses diárias por mil habitantes), sendo seguido pelos Estados Unidos (7,7) e a Argentina (6,7), de acordo com um relatório elaborado pela Organização Mundial da Saúde, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (IBOPE, 2007). Ainda nesse sentido, na pesquisa global realizada pela Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica, relativa aos dados do ano de 2009, o Brasil ficou em segundo lugar no número de procedimentos cosméticos cirúrgicos e não cirúrgicos, e foi o país que realizou o maior número de lipoaspirações (ISAPS, 2010). Nesta direção, um estudo realizado em Porto Alegre, com mulheres de 12 a 29 anos, mostrou que somente um terço das que desejavam emagrecer apresentavam IMC2 compatível com excesso de peso (NUNES et al, 2003). Por outro lado, pesquisas realizadas em diferentes cidades brasileiras, incluindo capitais e cidades do interior, com crianças e adolescentes em idade escolar, apresentaram altos percentuais de entrevistados insatisfeitos com seu corpo (FERNANDES, 2007; TRICHES, GIUGLIANI, 2007; PINHEIRO, GIUGLIANI, 2006; Horizontes, v. 30, n. 2, p. 69-79, jul./dez.2012 Corpo, comida e cultura: Discussão e problematização os padrões contemporâneos de beleza/saúde no ensino de ciências PINHEIRO, GIUGLIANI, 2006b). Com base nestes dados, entendemos que, mais do que a supervalorização da magreza, o que acontece na sociedade brasileira atual é a aversão à gordura, ao gordo – uma lipofobia. Em meus trabalhos venho utilizando o conceito de lipofobia como a atitude de busca incessante pela magreza e, ao mesmo tempo, de rejeição quase maníaca à obesidade e ao obeso, num sentido próximo ao proposto por Fischler (1995). Diante disso, acreditamos que a problematização de tais padrões de beleza/saúde/magreza aliada a discussão dos modelos de cuidados corporais da atualidade apresentam-se como um assunto de relevância política para a área da educação e da promoção da saúde no Brasil, considerando que discursos contemporâneos em torno de um corpo padrão de beleza/saúde vêm gerando, de modo crescente, sentimentos de insatisfação das pessoas em relação ao próprio corpo. A escola, como um espaço privilegiado no aprendizado de conhecimentos sobre o corpo e seus cuidados, pode contribuir bastante para que se estabeleça tal espaço de problematização e discussão, desde que sejam incorporadas outras abordagens e temáticas ao currículo escolar tradicional. No sentido de se pensar um ensino de ciências que trabalhe com uma noção mais complexa deste fenômeno biossocial que é o corpo, trazemos, nesse artigo, um relato e algumas discussões relevantes acerca de um conjunto de atividades, organizadas em uma oficina, que temos realizado com alunos do curso de graduação em Pedagogia, da Faculdade de Educação da UFRGS, voltada à problematização e desnaturalização dos modelos e prescrições de cuidados com a alimentação e com o corpo na atualidade – o que passamos a narrar e discutir. O corpo como uma construção biossocial: discutindo algumas estratégias para o ensino escolar Esse foi o título atribuído a atividade, na modalidade de oficina, que realizamos com os alunos do curso de Pedagogia, sendo que alguns deles já atuavam como professores. Nessa oficina, a temática da alimentação, compreendida como uma atividade cotidiana, contínua e universal, que alia aspectos biológicos da nutrição a componentes culturais e simbólicos, ao atuar na constituição dos corpos (FISCHLER, 1990; MACIEL, 1996), foi escolhida como eixo orientador de diferentes atividades. Tínhamos como principais propósitos pensar sobre a possibilidade de outras abordagens para a Horizontes, v. 30, n. 2, p. 69-79, jul./dez.2012 71 temática da alimentação, que tratem dos hábitos alimentares como construção, dos gostos como aprendizagens e suas influências nos processos fisiológicos da digestão, dos cuidados com a alimentação e o corpo, presentes na mídia, como práticas a serem debatidas e questionadas. O ponto de partida foi uma discussão breve de como os temas alimentação e corpo são mostrados nos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Fundamental (Ciências Naturais, Meio Ambiente e Saúde Séries Iniciais e Finais), com o propósito de analisar os discursos presentes nessas proposições curriculares e apontar as possíveis e necessárias articulações com as culturas, as sociedades e o consumo. Discutimos que, especialmente nos Parâmetros Curriculares voltados ao ensino nas Séries Iniciais, a abordagem feita ao tema da alimentação restringe-se aos seus aspectos nutricionais (componentes nutricionais, dieta saudável, etc.), às suas ligações com a higiene e prevenção de doenças, e ao seu significado ecológico (teia alimentar). Nos Parâmetros Curriculares voltados para as Séries Finais, apesar de a abordagem concentrar-se nos mesmo temas indicados para as Séries Iniciais, são traçadas algumas relações com aspectos sócio-culturais da alimentação, chamando a atenção principalmente para as questões de consumo e a influência do marketing no desenvolvimento de hábitos alimentares considerados “inadequados”. Dessa forma, os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Fundamental, sejam os das Séries Iniciais ou os das Finais, ao trabalharem as relações entre alimentação e corpo, ainda centram-se na idéia do organismo biológico e deixam de problematizar as múltiplas e cotidianas interpelações sofridas pelos corpos dos estudantes, dos professores, dos pais, como os enunciados de corpo magro/jovem/saudável mostrados em revistas, rótulos de alimentos, propagandas, e que propõem uma gama de práticas das quais os indivíduos devem lançar mão na busca por sua adequação corporal e identitária; o que supostamente o levaria à integração ao grupo socialmente mais valorizado e feliz; a constituir-se como o sujeito que tem consigo próprio o cuidado adequado; que gosta de si mesmo, que se cuida e que está sempre alerta (MISKOLCI, 2006). Após essas discussões passamos à realização de atividades em grupos. As oficinas foram filmadas, e os materiais produzidos pelos participantes foram fotocopiados ou fotografados. Gostar dos alimentos 72 Tatiana Souza de Camargo, Nádia Geisa Silveira de Souza Esse foi o nome dado à primeira atividade. Nela o grupo deveria discutir por que comemos. Após a discussão, cada componente do grupo, individualmente, fecharia os olhos e procuraria lembrar-se de um alimento de que gosta, anotando o alimento, as lembranças e as sensações que teve. A seguir, ao olhar para os alimentos oferecidos – chocolate, barra de cereais, copo de água e fruta – cada componente do grupo prestaria atenção em alterações ocorridas em seu corpo, anotando as percepções. Em seguida, cada um/a morderia e mastigaria os alimentos e tomaria água, prestando atenção ao que ocorre e deveria contar aos demais componentes do grupo o que percebeu daquilo que ocorreu na boca e no trajeto dos alimentos ao serem deglutidos, anotando o que estava sendo dito. O grupo deveria, ainda, discutir sobre o trajeto que os alimentos fazem no corpo para serem utilizados na nutrição e depois eliminados. Por fim, deveriam produzir um cartaz mostrando o trajeto do alimento para ser utilizado e eliminado pelo corpo, para posterior explicação no grande grupo. Nas discussões sobre por que comemos, os integrantes do grupo enfatizaram o aspecto da comensalidade, da convivialidade. Reportaram memórias de família, as lembrança do gosto inesquecível da comida da avó. Além disso, ressaltaram a refeição como uma oportunidade de reunião com a família. Alguns integrantes comentaram que podemos comer também por ansiedade e para suprir “carências emocionais” – neste caso, dando preferência para comidas específicas que parecem oferecer uma sensação de conforto, como o chocolate. O prazer também foi apontado como um dos motivos pelos quais comemos, mas estando sempre ligado com uma idéia de culpa – caso do leite condensado, narrado como um alimento bastante calórico, que na infância era uma comida muito prazerosa e que, para os integrantes do grupo, tem agora um sentido de “pecado”. Cabe destacar que, embora todos os participantes tivessem escolarização em nível superior e atuassem como professores, a maioria teve dificuldades em dizer o que acontece com o alimento até o nível do estômago, poucos falaram sobre os processos acontecidos nos intestinos e menos ainda foram os que conseguiram relacionar a absorção de nutrientes com circulação e respiração celular. Isso mostra, em certa medida, que as abordagens escolarizadas do corpo pouco contribuem para que as pessoas conheçam tanto os processos que ocorrem nos seus corpos, quanto as relações existentes entre eles e também com o meio. Horizontes, v. 30, n. 2, p. 69-79, jul./dez.2012 Corpo, comida e cultura: Discussão e problematização os padrões contemporâneos de beleza/saúde no ensino de ciências 73 Figuras 1-4: Atividade “Gostar dos alimentos" Figuras 1 e 2 (acima): Consumindo os alimentos oferecidos. Figuras 3 e 4: Cartazes produzidos na atividade. Essa atividade visava gerar discussões a respeito da construção do hábito alimentar, dos gostos (por exemplo, não gostar de verduras associado a seu uso na alimentação de animais), os comportamentos, os horários, os modelos, os motivos – nos âmbitos da cultura, da família, da mídia, da tradição regional, enfim, num processo histórico-social. A alimentação geralmente abordada na sala de aula a partir do discurso biomédico da nutrição e da saúde considera apenas aspectos da dieta equilibrada e da anatomo-fisiologia do sistema digestivo, megligenciando esses outros saberes construídos em outras vivências sociais. Outro aspecto tratado nesta atividade refere-se às percepções de que as manifestações fisiológicas do corpo - por exemplo, as modificações no sistema digestivo - encontram-se em interrelação com o meio e outros órgãos – os olhos (o visual), o nariz (o olfato), o cérebro (a memória, as lembranças, a identificação de sensações). Ou seja, as modificações no sistema digestivo iniciam antes de comermos os alimentos, integrando não só o funcionamento do corpo, mas também elementos aprendidos nas práticas culturais. Essa atividade visava, ainda, a discutir as noções dos participantes sobre os motivos pelos quais comemos: saciar a fome, prazer, ansiedade, suprir necessidades energéticas e funcionais, crescimento, entre outros citados. Escolhas alimentares Este foi o nome dado à segunda atividade, que se dividia em três etapas. Em uma primeira etapa, os integrantes do grupo deveriam imaginar que estavam na hora do almoço. Deveriam então, montar um prato (desenho, figuras, palavras) com aqueles alimentos que geralmente compõem o almoço de cada um deles durante a semana. Após a montagem do prato, eles deveriam explicar as escolhas dos alimentos a serem ingeridos. Na segunda etapa, os integrantes do grupo deveriam imaginar que estavam encarregados da organização de uma festa, em que cada um/a ficaria responsável por levar um prato. Deveriam, então, imaginar qual prato cada um dos Horizontes, v. 30, n. 2, p. 69-79, jul./dez.2012 integrantes do grupo levaria. Em seguida, montariam um cardápio para a festa a ser apresentado no grande grupo, explicando os motivos da escolha desses pratos. Na terceira etapa, o grupo deveria examinar rótulos de alimentos, buscando observar como essas produções midiáticas abordam os temas da alimentação e do corpo. Na discussão sobre a montagem dos pratos cotidianos, o critério saúde foi ressaltado pelos integrantes do grupo como o principal definidor de suas escolhas alimentares. Cabe salientar que, no entanto, nenhum dos pratos por eles montados seguia as normas de prescrição nutricional – tinham, por exemplo, carboidratos em excesso e poucos incluíam legumes e/ou verduras. Na definição do cardápio da festa, a lógica da escolha dos alimentos pareceu modificar-se. Se na alimentação diária a saúde é narrada como principal preocupação, na festa o prazer é o critério privilegiado. Ao analisarem as embalagens, os integrantes do grupo apontaram o discurso apelativo presente em embalagens de salgadinhos, biscoitos recheados (as ditas “porcarias”), que incitaria, principalmente as crianças e adolescentes, ao seu consumo. No entanto, não reconheceram que nos rótulos de alimentos ditos “saudáveis” – como cereal matinal light, pão integral – está presente outro tipo de discurso que, apelando para a exigência da saúde/beleza do corpo, busca construir o alimento como uma espécie de “remédio”. Nessa atividade nosso propósito era discutir os aspectos sociais implicados nas nossas escolhas alimentares, tais como as rotinas de trabalho – que em alguns casos (estudantes que moravam e trabalhavam em uma cidade pequena) ofereciam a possibilidade de realizar um almoço do tipo refeição, até mesmo em casa, e em outros casos só possibilitavam a realização de um almoço do tipo fast-food (estudantes que moravam e trabalhavam em cidades grandes); a necessidade da praticidade; a disponibilidade da região, da estação do ano e de poder aquisitivo; os gostos aprendidos no âmbito da família. 74 Tatiana Souza de Camargo, Nádia Geisa Silveira de Souza Figuras 5 – 10: Atividade “Escolhas alimentares” Figuras 5, 6, 7 e 8 (acima): Montagem do prato de almoço. Figuras 9 e 10: Observação e discussão dos rótulos de alimentos. Olhando o corpo Esse foi o nome dado à terceira atividade, composta também por três etapas. Na primeira etapa, os integrantes do grupo deveriam observar as imagens de corpo veiculadas em revistas feminina – Boa Forma, Corpo e Beleza, Celulite, Saúde da Mulher, Capricho – e em seguida discutir como tais imagens levam cada um/a a pensar sobre seu corpo e a se sentir . Deveriam anotar pensamentos e sentimentos que lhes ocorreram ao olhar as imagens de corpo e as “receitas” de saúde e beleza presentes nestas revistas. Em seguida, na segunda etapa, deveriam dizer se, caso pudessem, gostariam de modificar algo no seu corpo ou no modo de cuidar de si. Cada um deveria anotar o que mudaria no seu corpo. Na terceira etapa, deveriam discutir sobre qual seria a idéia de corpo “ideal” para o grupo. Em seguida, deveriam produzir um cartaz construindo o modelo de corpo ideal com recortes de revistas que mostrem partes do corpo que atendam a tal modelo. Neste grupo, todas as integrantes eram mulheres. Todas elas disseram não se identificar de nenhuma forma com as figuras femininas mostradas nas revistas. Disseram sentir-se enganadas ao olhar as promessas de dietas e Horizontes, v. 30, n. 2, p. 69-79, jul./dez.2012 Corpo, comida e cultura: Discussão e problematização os padrões contemporâneos de beleza/saúde no ensino de ciências relatos presentes nas revistas. Além disso, relataram não ter vontade e condições financeiras para buscar o “corpo perfeito”, e que para elas isso não representava um objeto de preocupação. Apesar disso, quando questionadas a respeito das modificações que fariam em seus 75 corpos e nos cuidados consigo, elas buscam aproximar-se do padrão de saudável/belo. Relatam que gostariam de ter hábitos alimentares mais saudáveis, que gostariam de poder comer de tudo sem engordar e de que gostariam de ter mais disciplina para praticar atividades físicas. Figuras 11 – 13: Atividade “Olhando o corpo” Figura 12: Observação, leitura e discussão das revistas. Figuras 11 (acima à esquerda) e 13 (abaixo): Cartazes “Corpo Ideal” produzidos na atividade. Nosso principal objetivo com essa atividade era o de tornar visíveis os padrões veiculados pela mídia, especialmente em revistas femininas, que cotidianamente nos interpelam produzindo sentimentos, atitudes, valores, modos de pensar acerca do nosso corpo, direcionando em certa medida o modo como pensamos e agimos Horizontes, v. 30, n. 2, p. 69-79, jul./dez.2012 em relação ao nosso corpo. Além disso, ao mostrar as implicações dos padrões de beleza e saúde relacionados ao cuidado do corpo, pretendíamos chamar a atenção para e problematizar os efeitos de tais discursos, os quais muitas vezes geram excessos de exercícios físicos, de cirurgias plásticas, de 76 Tatiana Souza de Camargo, Nádia Geisa Silveira de Souza consumo de medicamentos emagrecedores, de restrições alimentares, e de sentimentos de insatisfação consigo, que também acarretam efeitos de âmbito biológico. Nesse sentido, cabe citar que existem autores da área da Medicina e Bioquímica cujas pesquisas apontam que boa parte dos efeitos comumente associados ao excesso de peso, como a hipertensão e o diabetes, podem ter relações causais com o estresse gerado pela insatisfação corporal – que ativa no organismo uma cadeia de reações prejudiciais (MUENNIG et al, 2008). Essa atividade nos permitiu, ainda, discutir sobre como a beleza, velhice, juventude, saúde, feminino/masculino, estilo de vida, estética (Cosmetologia, Medicina Estética) aparecem nesses materiais pedagógicos. Dessa forma, tal atividade visou a mostrar as profundas relações entre as práticas sociais e a constituição e funcionamento do corpo, assim como trazer a necessidade de serem realizadas leituras críticas de imagens e anúncios publicitários e reportagens nas práticas escolares, uma vez que tais materiais interpelam e ensinam modos de pensar, agir e sentir com relação ao corpo e a si mesmo. Considerações Finais Nesse artigo buscamos problematizar a maneira tradicional como o corpo é ensinado na educação escolarizada – como um organismo biológico. Nele relatamos nossa experiência na realização de oficinas para estudantes de pedagogia, nas quais buscamos mostrar a importância de trabalhar o corpo como uma construção biossocial em constante transformação. As atividades desenvolvidas nestas oficinas tinham como temáticas a alimentação e suas relações com a constituição dos corpos, discutidas sob vários aspectos, como a construção dos gostos, o aprendizado de hábitos alimentares, as dietas emagrecedoras, entre outros. Salientamos que, apesar de desapercebida, a insatisfação corporal é experimentada desde a infância; e, na escola, parece ter efeitos amplificados (CAMARGO, 2012). Neste sentido, Wann (2009) cita que, segundo um relatório da Associação Educacional Nacional norteamericana, a vida escolar para os estudantes com excesso de peso é uma experiência de preconceito contínuo, de discriminação desapercebida, e de assédio quase constante. Desde o jardim de infância até o colégio, os estudantes com excesso de peso experienciam o ostracismo, o desencorajamento e às vezes a violência. “Frequentemente ridicularizados por seus pares e desencorajados até mesmo por bem intencionados profissionais da educação, os estudantes com excesso de peso desenvolvem baixa autoestima e têm horizontes limitados.” (WANN, 2009: XIX). Ainda neste sentido, Weinstock e Krehbiel (2009: 124), afirmam que, “apesar de muitos sistemas de discriminação terem sido elucidados e desafiados nas últimas décadas, a aceitação social da discriminação com relação ao excesso de peso continua forte”. Sendo assim, entendemos que a educação escolarizada é um espaço privilegiado no aprendizado de conhecimentos sobre o corpo e os cuidados de si. No entanto, as práticas escolares, especialmente aquelas relacionadas ao ensino de ciências e de biologia, ao centrarem suas abordagens na visão biológica de corpo – presente nos livros didáticos e nos Programas escolares, regida pelas disciplinas acadêmicas –, deixam de incluir em suas discussões os saberes e “conteúdos” produzidos por pedagogias que ensinam “fora” do ambiente escolar. Essa tradição escolar vem impedindo a produção de um outro saber crítico e relevante para a vida das pessoas, capaz de fazer frente às múltiplas “verdades” que inscrevem e regulam os seus corpos. Em virtude disso, percebemos a necessidade de problematizar as noções biologicistas de corpo e de contribuir para que se pensem outras práticas escolares, capazes de dar voz aos estudantes e de olhar criticamente os efeitos das práticas sociais no modo de pensar das pessoas. Para tanto, entendemos que se torna necessário introduzir na sala de aula a concepção de um corpo marcado pelas práticas, visto que é nelas se adquirimos os sentidos atribuídos aos gestos, aos sentimentos, aos objetos, às pessoas e a si mesmos. Todavia, isso exige o movimento de interrogarmos sobre a possibilidade de produzir outras formas de nos relacionarmos com os alunos, os saberes, as matérias escolares. O que talvez crie condições para construirmos outras estratégias de ensino relacionadas às vidas das pessoas, ou seja, o que se apresenta como uma questão política para nós, professores. Referências Bibliográficas CAMARGO, Tatiana Souza. 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Horizontes, v. 30, n. 2, p. 69-79, jul./dez.2012 Corpo, comida e cultura: Discussão e problematização os padrões contemporâneos de beleza/saúde no ensino de ciências 79 Notas 1 Agradecemos aos professores e alunos que, gentilmente, participaram das oficinas e cederam suas imagens para a construção deste artigo. 2 Índice de Massa Corporal (IMC), eleito em 1994, pela Força-Tarefa Internacional sobre Obesidade, como o índice mais adequado para o diagnóstico de sobrepeso e obesidade entre adultos, tendo seus valores posteriormente adaptados para o uso em indivíduos a partir dos dois anos de idade. O IMC é calculado dividindo o peso do indivíduo (em quilogramas) por sua altura ao quadrado (em metros). A partir do resultado numérico obtido com esse cálculo, são definidas as seguintes categorias: IMC < 18.5 = baixopeso; 18, 5,< IMC < 24,9 = peso normal; 25 < IMC < 29,9 = sobrepeso; 30 < IMC< 34,9 = obesidade grau I; 35 < IMC < 39,9 = obesidade grau II; 40 < IMC = obesidade grau III, a chamada obesidade mórbida. Tais categorias foram definidas a partir dos resultados numéricos obtidos do estudo de uma população referência internacional (DUNCAN et al, 2004). Sobre as autoras: Tatiana Souza de Camargo: Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre. Nádia Geisa Silveira de Souza: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre. Horizontes, v. 30, n. 2, p. 69-79, jul./dez.2012 80 81 Educação pública: currículo e formação de jovens alunas no Ensino Médio1 Leny Cristina Soares Souza Azevedo* Ligia Karam Corrêa de Magalhães** Resumo Este artigo investiga a configuração do currículo no curso de formação de professores em nível médio, em uma escola pública estadual. Os dados foram coletados em 2010, 2011 e 2012, por meio de questionários e entrevistas, com 52 jovens. A partir dos depoimentos, foi possível identificar as expectativas em relação à ampliação dos estudos, a introdução no mundo do trabalho, a cultura escolar vivenciada e as lacunas e impasses desse processo de formação. O texto dialoga com o contexto do ensino médio modalidade normal, com as políticas de formação docente, situando a realidade específica da instituição. Evidencia o divórcio entre a formação oferecida ao futuro professor da Educação Básica e as necessidades de profissionalização da carreira docente, em que seja conferido aos egressos o propalado protagonismo no exercício da profissão, onde os trabalhos sejam pensados em contextos sócio/político/econômico/cultural em que acontecem. Palavras-chave: currículo; ensino médio; formação de professores, trabalho docente. Public Education: curriculum and female students education in the high school Abstract This article discusses research conducted with female students in the city of Rio de Janeiro about the way the mid-level curriculum has been setting a public school in a training course for teachers. The data were collected in 2010, 2011 and 2012, through questionnaires and interviews with 52 young people. From the interviews, it was possible to identify and engage with the expectations for expansion studies, introducing at work, school culture experienced and gaps and bottlenecks in this process. The text speaks to the high school level normal mode, with training policies, locating the specific reality of the institution, highlighting the divorce between the needs of the school and the professionalization of youth and an educational system that does not offer the possibilities that enable the young, of fully, to cope with life's concrete work in public schools. Keywords: curriculum, high school, teacher training, teaching work. Introdução Este texto tem como objeto de estudo a formação de professores no Ensino Médio Normal no Rio de Janeiro. Acreditamos que a discussão acerca do trabalho seja uma das grandes preocupações no campo das políticas públicas para a juventude, mostrando a necessidade de que haja projetos e ações concretas, no presente, tendo em vista a diminuição da exclusão desse grupo social e da limitada oferta de oportunidades no mundo do trabalho. Assim, a proposta de formar professores no Ensino Médio (EM), Modalidade Normal, configura-se questão polêmica. A Resolução do CNE/CEB n.1, de 20/08/2003, que, de acordo com Brzezinski (2008), dispõe sobre os direitos dos profissionais da educação com formação de nível médio, é instrumento que reafirma e complementa o prescrito no art. 62 da LDB, que admite “como formação mínima para o exercício do magistério na educação infantil e nas quatro séries iniciais do ensino fundamental, a oferecida em nível médio, na Modalidade Normal”. A autora discute que, sob a ótica do *Endereço eletrônico: [email protected]. **Endereço eletrônico: [email protected]. direito pessoal e intransferível, a resolução representa avanço, considerando que resguarda, por toda a vida, o direito do professor de ser formado em curso profissionalizante do EM. Sob a perspectiva do movimento que defende a formação em nível superior do professor nas séries iniciais do ensino, isso representa um retrocesso. Esse nível de formação serve como obstáculo à busca, pelos jovens, do curso de Pedagogia. Diante dessas análises, interessa-nos aprofundar as aspirações da juventude que escolhe esse curso profissionalizante para apreendermos o sentido dessa profissionalização. Para isso, faz-se necessário recorrer aos elementos que determinam as políticas de formação, entre estas as condições históricas de sua produção, as correlações de força em presença e as perspectivas teóricas partilhadas. Moraes e Alavarse (2011) analisam a importância do EM como uma “etapa da educação básica que, de acordo com a Emenda Constitucional (2009), tem sido objeto de um amplo conjunto de trabalhos que revelam, [...] toda a complexidade social, política e pedagógica” (p.808). Para empreender a discussão dessa 82 Leny Cristina Soares Souza Azevedo, Ligia Karam Corrêa de Magalhães modalidade de ensino, analisamos os depoimentos recolhidos em 2010, 2011 e 2012, em uma pesquisa realizada numa instituição pública estadual, envolvendo cinquenta e duas entrevistadas. A discussão norteou as escolhas feitas por um curso profissionalizante, as políticas para o Ensino Médio, a cultura escolar vivenciada através da organização curricular e as expectativas e perspectivas das jovens alunas para se desenvolverem no mundo do trabalho e dos estudos. Destacam-se estudos realizados sobre “ser jovem”, a legislação, a cultura escolar e a formação das alunas na escola. Ressaltamos, assim, que a opção de realizar esse estudo com alunas concluintes do Ensino Médio Modalidade Normal, nesta instituição de ensino do Rio de Janeiro, situada na região central, justifica-se por alguns motivos. O primeiro pelo fato de esse momento se configurar historicamente como profícuo para as discussões acerca da retomada, no Estado do Rio de Janeiro, do ensino médio para a formação de professores, trazendo suas “velhas” limitações e perspectivas. Outro motivo diz respeito às razões que levam jovens alunas a optarem por realizar um curso de profissionalização docente, pois é pertinente conhecer algumas das expectativas e projetos que direcionam essas jovens para o curso de formação docente, e não o de EM regular. Quanto à opção por jovens alunas do terceiro ano do curso, explica-se como tentativa de verificar as aspirações mais latejantes no que tange à inserção no mundo do trabalho. Também nos parece relevante trazer as observações, as entrevistas e discussões feitas pelas alunas do EM, no qual se registrou o contexto educacional da instituição e a busca de compreensão do complexo universo da cultura escolar, que abrange a formação dos futuros profissionais da educação articulada às analises sobre a necessidade de construir alternativas pedagógicas para os primeiros anos da Educação Básica, tendo em vista a continuidade e as mudanças na carreira docente. Diante dessas ponderações, desenvolvemos a análise dessa temática, apontando para elementos constitutivos do cenário sociopolítico e econômico no qual se desenvolve a educação para jovens das camadas mais pobres da população. Com esse entendimento, organizamos o texto em partes que se integram e dão organicidade à reflexão, enfocando alguns movimentos: (1) a retomada das discussões, a respeito de “ser jovem” reportando-se, aos estudos no atual processo de debates sobre a necessidade de procurar conhecer as realidades, práticas, questões políticas sobre jovens que frequentam a escola de EM; (2) o questionamento das políticas para a formação dos professores, focando a cultura escolar e a organização curricular para o ensino médio na modalidade normal; e, (3) as considerações finais: aproximações e distanciamentos entre as contribuições oferecidas pela instituição investigada e as expectativas das jovens. Impõe-se, assim, a necessidade de políticas educacionais consoantes com os princípios democráticos constituintes das práticas sociais emancipatórias e que ofereçam formação docente de forma a potencializar a influência da escola nas trajetórias sociais de pessoas jovens. Jovens Alunas: escola, continuidade dos estudos e trabalho Que significa ser jovem no Brasil, hoje? Quem são os jovens brasileiros? Quais são seus modos de vida, gostos, projetos, sonhos? Que esperam do futuro? Falar e escrever sobre os jovens na atualidade é tarefa desafiante. Em primeiro lugar, porque estamos diante de uma população composta por aproximadamente 54 milhões de brasileiros2. Em segunda instância, caminhando para além do contingente populacional, deparamonos com uma enorme diversidade existente em torno da juventude brasileira, diversidade que se concretiza nas condições sociais e econômicas, nas diferenças geográficas, de gênero, culturais, religiosas, dentre inúmeras outras. Para dar conta dessas discussões, esse texto procura analisar as representações sociais de jovens alunas que estudam numa escola pública estadual, discutindo as trajetórias sociais e escolares associadas à escolha de um curso profissionalizante e as perspectivas de introdução no mundo do trabalho, explorando os sentidos atribuídos a educação, ao trabalho e a formação As múltiplas transformações existentes nos cenários econômico, político e social a partir da década de 1970, intensificando-se nos anos de 1980 e 1990 até os dias atuais, vêm eclodir de forma incisiva. Tais processos provocam inúmeras mudanças no mundo do trabalho e repercutem diretamente no âmbito educacional, especificamente no Ensino Médio, visto que é nessa etapa que diversos segmentos juvenis concluem a chamada Educação Básica. A educação, assim, volta-se às demandas do mundo do trabalho, com a árdua tarefa de propiciar a aproximação dos seus sistemas de ensino às necessidades do mundo produtivo. No que concerne as jovens do sexo feminino, observamos a preocupação das mães com a escolarização de suas filhas, o que se traduz Horizontes, v. 30, n. 2, p. 81-93, jul./dez.2012 Educação pública: currículo e formação de jovens alunas no Ensino Médio na mobilização para efetivar a matrícula numa escola que tenha boa visibilidade, qualidade do ensino ministrado e a segurança de seu público. De acordo com as jovens entrevistadas essas são as razões principais dos familiares que justificam a opção pela “escola boa” como uma estratégia de investimento futuro, na busca da “empregabilidade”. Para Moscovici (2009), pessoas e grupos criam representações no decurso da comunicação e da cooperação. Representações não são criadas por um indivíduo isoladamente. Uma vez criadas, elas “adquirem vida própria, circulam, se encontram, se atraem e se repelem e dão oportunidade ao nascimento de novas representações, enquanto velhas representações morrem” (p. 41). É nesse movimento que é possível estudar as representações, suas propriedades, suas origens e seu impacto. A proposta epistemológica que aqui se constrói entende a realidade como constructo social, e a temática do trabalho docente se constitui como objeto de diálogo entre pesquisadoras e jovens que escolheram a escola normal para completarem sua formação no Ensino Médio. A partir dessas considerações, surgem alguns questionamentos: Como se delineou a trajetória e as vivências de jovens alunas no espaço escolar? Qual têm sido a influência e a contribuição da instituição escolar para as jovens alunas em relação à entrada no mundo do trabalho? Acredita-se que a discussão acerca do trabalho seja uma das grandes preocupações no campo das políticas públicas para a juventude, mostrando a necessidade de que haja projetos e ações concretas no presente, tendo em vista a diminuição da exclusão desse grupo social e da limitada oferta de oportunidades no mundo do trabalho. Os estudos realizados sobre a formação do professor, de acordo com Gatti e Barreto (2009), sugerem que, [...] de um lado, a representação do magistério como vocação, quando evocada como substituta dos saberes especializados que informam a profissionalidade docente, tende a minimizar a importância do avanço dos conhecimentos e da pesquisa sobre os saberes dos professores e sobre os próprios conhecimentos das áreas de referência do currículo da educação Horizontes, v. 30, n. 2, p. 81-93, jul./dez.2012 83 básica. De outro, a persistência da representação do trabalho docente como vocação pode ser um indicativo de recontextualização dos atributos que acompanham o conceito, como a afetividade, a intuição e a criatividade do ato educativo (p.291). Compreende-se, assim, a importância de discutirmos as representações que ainda permanecem subjacentes aos modelos de formação com forte herança histórica: por exemplo, as representações como “professora primária” e como “professora polivalente”. Certamente, formar significa articular identidade pessoal e profissional, e é pertinente procurar compreender os significados dos projetos de vida dos jovens alunos em relação às representações que vão sendo construídas a respeito de ser jovem, ser estudante e o lugar do trabalho na sua vida pessoal e profissional. As pesquisas realizadas nos anos de 2010 a 2012 registram a criação e recriação das representações que seguem desempenhando um papel de reprodução social e cultural, o que pode ser observado em dias de comemorações escolares em que os alunos se vestem de saia azul marinho com pregas, meias brancas, camisa branca e sapato preto. Ao observar essas jovens vestidas com uniforme, rememoramos as normalistas, que marcaram com suas vestimentas o inicio do século XX. Muitas dessas jovens eram provenientes das classes médias e buscavam a formação de “professoras primárias”, que foi objeto de sonhos e de orgulho nas capitais importantes do país. Assim, no imaginário da época foi-se construindo a protagonização da escola como lugar digno da instauração de uma nova ordem para efetuar o Progresso – educar as crianças brasileiras. Visualizamos a complexidade que envolve as relações políticas, materiais e educacionais no passado e que deixou vestígios nas propostas, discursos, interesses, sonhos e sociabilidades na concretização da formação docente. Com toda a carga histórica, que motivos desencadearam a escolha pela escola de magistério na atualidade? As jovens entrevistadas têm de 17 a 24 anos de idade e desenvolvem sua formação, como já mencionado anteriormente, em escola pública estadual que oferece o EM modalidade normal. Nesta parte do texto, consideraremos três dimensões para análise: a influência da família e vizinhança na escolha da escola; os sentidos atribuídos ao trabalho e a formação pedagógica na escola. Em entrevistas recolhidas no período 84 Leny Cristina Soares Souza Azevedo, Ligia Karam Corrêa de Magalhães investigado constatamos que a escolha pela escola teve como fator determinante as ponderações feitas pelas mães que defenderam a continuidade dos estudos, a terminalidade do EM e a possibilidade de serem introduzidas num ambiente de trabalho com maiores vantagens que nas atividades que as jovens desenvolvem atualmente. Nas entrevistas, constatamos que 21% das jovens acreditam que será possível conciliar a vida doméstica, a criação de filhos no futuro e a carreira docente. Os exemplos mais comuns dessa perspectiva de vida são da vizinhança ou dos depoimentos das professoras durante as aulas. Para essas jovens a vizinhança teve um papel importante na escolha da escola por já terem tido suas filhas estudado nessa instituição. A escola está localizada no centro da cidade, onde ônibus, trem, metrô facilitam o deslocamento. A segurança é outro ponto importante mencionado. Não existe registro de violência na instituição, e as professoras trabalham há bastante tempo na escola. Quanto aos gestores, apontam que eles se comunicam com os alunos e famílias de forma eficiente, pois são recebidos e ouvidos. Também foi registrado que há poucas faltas de professores e se prioriza o estudo e disciplina na escola. Todos esses fatores motivam as famílias e evidenciam o envolvimento da comunidade escolar na instituição. As famílias participam das festividades, formaturas e existe representação de mães nos conselhos escolares. Com base nesses dados, percebemos a atuação e influência das mães e vizinhança no acompanhamento da escolaridade das alunas. Segundo Ribeiro e Koslinki (2010), adolescentes que residem em vizinhanças em que a maior parte das pessoas termina o EM e alcança o ensino superior se sentirão compelidos a fazer o mesmo (p.126). Outro dado importante diz respeito ao sentido atribuído ao trabalho e a formação pelas jovens, pelas famílias e escola. Os relatos abaixo mostram esse reconhecimento: como professora poderá garantir eu ter folgas no sábado e domingo (Aluna 3ª serie C/ 2010). (...) gosto de comprar roupas, sapatos, maquiagem e só consigo isso trabalhando. Estar estudando é porque quero melhorar de vida, ter casa própria, pode viajar? (Aluna 3ª série A/2011). De acordo com Spósito (2003), haveria nos dias atuais uma maior atração dos símbolos juvenis – marcas, roupas, músicas etc, o que corresponde ao primeiro “depoimento da aluna da 3ª serie A”. Também está presente a representação de crescimento pessoal, de melhoria de vida e de acesso aos bens de consumo por meio do trabalho, nos demais registros. Ao mesmo tempo haveria uma certa decepção em relação ao universo escolar. Nos estudos de Madeira (1986) são citados a importância do trabalho entre as camadas populares como um valor cultural e das famílias como transmissoras de uma ideologia do trabalho, sendo este um provedor de status na Todos na minha casa trabalham. Minha mãe trabalha na zona sul do Rio há muito tempo numa casa de família. Eu trabalhei por lá um tempo ajudando a tomar conta das crianças, mas hoje eu estou numa loja vendendo roupas femininas. É puxado porque tenho que trabalhar aos sábados, então o estudo e o trabalho no futuro Minha mãe e meu pai estudaram pouco e por isso repetem muito a importância de eu estar estudando. A escola me cansa um pouco, mas eu posso ter mais liberdade, viajar, comprar o que quero com o trabalho (Aluna 3ª serie B/ 2011). Eu não sei se quero ser professora, mas quem sabe consigo depois ir para uma faculdade e vou melhorando e ter um trabalho mais remunerado? (Aluna 3ª série A/ 2010). Não desejo seguir a carreira de magistério. Vim para essa escola por insistência dos meus pais, mas quero fazer enfermagem. Na minha classe poucas colegas pensam em ser professoras. Vão fazer vestibular para direito, administração de empresas, psicologia (Aluna 3ª serie B/ 2011). Para concluir o ensino médio é mais fácil aqui porque as disciplinas matemática, química, física e outras não fazem parte do currículo do magistério. Essas disciplinas eu e minhas colegas temos mais dificuldades e nossas famílias acham importante fazermos o ensino médio. Eu quero arrumar um lugar melhor para trabalhar e fazer faculdade de turismo (Aluna 3ª serie B/ 2011). Cheguei no colégio com duas amigas e já formamos um grupo que se mantem até hoje. O trabalho em grupo facilita para quem trabalha e estuda (Aluna da 3ª serie C/ 2012). Horizontes, v. 30, n. 2, p. 81-93, jul./dez.2012 Educação pública: currículo e formação de jovens alunas no Ensino Médio hierarquia familiar. O trabalho estaria no centro dos projetos de vida e das estratégias de socialização e reprodução das camadas mais pobres. Reconhecemos que o trabalho é importante, e não apenas sob a perspectiva da sobrevivência mas também por possibilitar outras vivências da condição juvenil, tais como acesso ao lazer, ao consumo e a realização pessoal em muitas outras áreas. Assim, é necessário haver pleno reconhecimento de que o trabalho é um direito dos (as) jovens e um componente essencial à sua formação como indivíduo e cidadão. Mas as contradições e dilemas dessa oportunidade educacional no EM precisam ser investigadas, visando a ampliar a reflexão sobre as relações entre juventude, trabalho e educação e, sobretudo, sobre os princípios e fundamentos da formação (FREITAS, 2007, p.150-152). Na última década, constatamos a importância da escola média em propiciar opções para os estudantes, abrindo-se para a diversidade, construindo uma escola que incorpore a cultura própria da juventude que a compõe, quer pelas possibilidades de “formação ética e profissional, quer por ser idealizada como lócus especializado de transmissão de conhecimentos, vale ouvir e conhecer os jovens e saber o que pensam dela” (ABRAMOVAY; CASTRO, 2003). A escola pesquisada atende a 730 jovens do ensino médio, sendo no turno da manhã 6 turmas de 1ª série e 6 turmas de 2ª serie e, no turno da tarde, 6 turmas de 3ª serie e 6 turmas de 4ª serie. Cada classe de 3ª série têm em media 30 alunos, e em entrevistas feitas com os professores e os coordenadores da instituição foi declarado que boa parte das alunas são encaminhadas para a escola pelas mães, por acreditarem que a frequência ao ensino médio relacionada a uma formação profissional representa uma possibilidade concreta de inserir-se no mercado de trabalho. O quadro de funcionários trabalhando entre 2010 e 2012 constava de 99 professores, 3 funcionários de apoio, 13 funcionários terceirizados para a limpeza, 1 diretora geral, 2 diretoras adjuntas e 2 coordenadores pedagógicos. Quanto ao desenvolvimento de uma profissionalização, entrevistamos 52 alunas. destas, 26% revelam insegurança e desconhecimento sobre os cursos oferecidos no ensino superior e dizem “não gostar e não querer ser professor”. Enquanto que, para 32% dos jovens na 3ª serie, estudar no colégio pode ser uma garantia para o ensino superior; 16% revelam que pensam em investir no trabalho docente; 12% querem investir num emprego melhor; 14% estão no mercado de trabalho e esperam melhorias com Horizontes, v. 30, n. 2, p. 81-93, jul./dez.2012 85 a conclusão do EM. Nos depoimentos aparece de forma constante a crença de que poderão entrar numa universidade e conseguir desenvolver uma profissão. Outros revelam baixa autoestima e não acreditam que o diploma do EM poderá contribuir para o ingresso numa universidade ou profissão. Os depoimentos abaixo ilustram esse contexto. Eu vejo que toda minha formação na escola pública não foi boa. Faltavam professores e eu gostava mesmo era de ficar conversando com meus amigos. Aqui também tem professores que procuram estimular, mas ainda sinto que não estou pronta para um concurso, um vestibular. Não me sinto capaz (Aluna 3ª série A/2012). Trabalho numa loja no meu bairro e minha mãe quer que eu consiga um trabalho melhor e ate consiga ir para uma faculdade. Sempre estudei na escola publica e o ensino é muito fraco, os professores faltam muito e essa escola tem uma preocupação com as notas, o estudo. Eu não me interesso por ser professora porque é um trabalho muito desvalorizado e cansativo, mas posso depois tentar fazer turismo, administração, sei lá... menos ser professora (Aluna da 3ª serie A/2010). Eu estudo um pouco e quero ser professora da educação infantil. Gosto de crianças e no estagio me saio bem nas atividades e brincadeiras com as crianças (Aluna da 3ª serie C/2011). Os depoimentos sintetizam que, no geral, existe uma perspectiva dessas jovens em finalizar o EM, conseguir ingressar no universo do trabalho e dar continuidade aos estudos na universidade. Também revela reconhecimento da precariedade da escolaridade na sua trajetória escolar. Essas expectativas vão ao encontro das pesquisas e estudos realizados por Leão et al. (2011), ao analisar os depoimentos de jovens pesquisados no Estado do Pará que parecem indicar [...] que a constituição da condição juvenil vem ocorrendo de forma mais complexa, com o jovem vivendo experiências variadas e, às vezes, contraditórias, expostos que estão a universos sociais diferenciados, a laços fragmentados, a espaços de socialização múltiplos, heterogêneos e concorrentes. 86 Leny Cristina Soares Souza Azevedo, Ligia Karam Corrêa de Magalhães Constitui-se como um ator plural, produto de experiências de socialização em contextos sociais múltiplos, expressando os mais diferentes modos de ser jovem (p.1079). Seja como for, cabe a pergunta: Como a escola responde a formação e expectativas desses jovens? Em que medida a organização curricular está comprometida com o ensino crítico? O que foi possível perceber na pesquisa realizada nessa Instituição é que parece ter-se constituído um consenso entre os gestores e professores quanto à ênfase excessiva as notas dos alunos e o lugar alcançado pela escola nas provas nacionais. Os murais em locais diversos da instituição mostram os resultados alcançados e os incentivos à melhoria nas avaliações internas e externas. As propostas da gestão são sempre de recomendações quanto ao estudo, elaboração dos exercícios. e isso acaba acirrando a competição entre as classes. Os alunos são incentivados pelos professores e coordenadores a elaborar murais dentro e fora da sala de aula para exposição dos trabalhos nas disciplinas e as medias alcançadas nos exames. Essa confecção de murais ocorre durante o período de aulas, o que causa dispersão, pois os alunos conversam enquanto os professores estão ministrando as aulas ou dedicam um número grande de horas ao trabalho extra classe na montagem dos murais, não participando das atividades desenvolvidas tanto nas salas de aula, quanto do estudo e atividades extraclasse. De outro lado, o incentivo ao estudo e à manutenção das médias foram consideradas como um reforço na reprodução dos conteúdos e na manutenção do status da escola, por ser reconhecida, principalmente pelos pais, como uma “escola forte quanto ao ensino e a tradição”, preservando o controle e a disciplina entre os alunos. Nos murais da escola estão grandes painéis e são exibidas faixas na entrada, mostrando o resultado de vestibulares anteriores e o número de alunos que ingressaram em universidades públicas da cidade do Rio de Janeiro. Nos relatórios dos pesquisadores foram registrados o excessivo valor aos prêmios recebidos pela Secretaria Estadual, exibindo e reafirmado uma qualidade que é estimulada pela gestão publica. A qualidade vai se legitimando pelo horizonte restrito da competitividade, cuja medida é a colocação no ranking das avaliações externas. A avaliação da qualidade por indicadores de desempenho constitui-se em uma das estratégias gerenciais de controle dos resultados e obriga estados e municípios a estabelecerem contratos de gestão, pelos quais será analisada a sua performance em relação aos objetivos pretendidos no campo educacional (Castro, 2009,p.32). Com base em Castro (2009), é possível constatar a lógica gerencialista adotada pela Instituição, cuja perspectiva empresarial aponta resultados para a educação, onde há o deslocamento do foco da qualidade educacional para o foco da eficácia do processo, ou seja, obter o máximo de resultado com o mínimo de custo. A exposição dos resultados, assim como as atividades comemorativas para realçar as metas alcançadas tem a ver com estratégias de gestão, na qual os gestores divulgam os serviços do colégio. Também de acordo com Castro (2009) essa responsabilização dos gestores mostram os resultados da logica gerencial de prestar contas sobre os serviços prestados. Esse modelo de gerenciamento está em consonância com o modelo Estado- empresário, que tem como meta promover condições adequadas para a eficiência pública, sendo possível perceber que há um modelo de competências, Foi possível perceber que há um modelo de competências, que insere dentro do processo de aprendizagem “alguns conhecimentos e habilidades que propiciem a formação de alunas adaptadas às “imprevisões e pretensos desafios do processo produtivo” que, de acordo com Gabriel (2008), reforçam dimensões cognitivo – comportamentais, capazes de adequar as subjetividades às características, tais como a implicação, iniciativa, a concorrência. Para fazer circular esse conhecimento que está previsto no currículo, a escola organiza-se em dois turnos, e cada um deles têm um coordenador responsável pelas orientações pedagógicas e administrativas aos alunos, professores e funcionários. Nas pesquisas, foram registradas a falta de comunicação entre os coordenadores dos diferentes turnos, o que dificulta a coesão das ações. Nesse cenário, a busca da “qualidade educacional” pode ser identificada com a permanência do aluno na escola e, as medidas tomadas quanto ao processo de ensino aprendizagem apontam para a preocupação com a melhoria da eficiência e eficácia do sistema de ensino (COSTA, 2009, p.47). Há um grande investimento da escola nas atividades esportivas, e os professores incentivam Horizontes, v. 30, n. 2, p. 81-93, jul./dez.2012 Educação pública: currículo e formação de jovens alunas no Ensino Médio a participação das alunas, apesar de os materiais nem sempre estarem disponíveis no momento das aulas, o que acarreta atrasos para o seu início. Uma quadra poliesportiva aberta é utilizada para as aulas, e outra quadra fechada, chamada de “Multimeios”, é onde se realizam as festas, apresentações dos discentes planejadas pelos professores de artes como teatros, recitais ou de outros projetos desenvolvidos durante o ano de forma interdisciplinar ou não. Algumas peças teatrais são ensaiadas pelos alunos sem a mediação dos professores, e esses alunos elaboram as coreografias e divulgam as apresentações nos murais. Observa-se, assim, que em geral as práticas pedagógicas desenvolvidas na escola de ensino médio se apresentam eivadas por um certo pragmatismo, o que implica repensar a lógica de organização e participação na escola, pois evidencia-se a ampliação de “eventos” esporádicos em detrimento de projetos com práticas educacionais mais críticas. Cultura escolar e organização curricular: pendências políticas e pedagógicas Reformas educacionais e especialmente as relativas à formação de professores vêm sofrendo profundas transformações desde a década de 1990, impulsionadas pelas recomendações dos organismos internacionais aos países periféricos, estabelecendo uma reestruturação em consonância com o processo de um “novo capitalismo”, que, por sua vez, institui a necessidade de um novo perfil de trabalhador, a partir do qual se generaliza o movimento de implantação de um novo modelo de formação. A concepção de educação é a de um “novo homem”, cujo mote de sua formação será a de ser capaz de: flexibilidade, empregabilidade, multifuncionalidade e polivalência, bases para a capacidade de adaptação do indivíduo à nova morfologia do trabalho” (ANTUNES, 2005, p.13), da abertura das economias, da mundialização do capital. Nesse sentido, a educação profissional promove a individualização da formação do trabalhador, pelo qual se indica que cada um é responsável na busca de competências a serem alcançadas com o desenvolvimento de habilidades básicas e específicas, na procura de inserção no mercado de trabalho. Nesse sentido, as mudanças educacionais têm sido as palavras de ordem para o mundo vivido, e um dos exemplos disso pode ser constatado com o previsto na Lei n. 11.274/2006, que é motivo de preocupação e perplexidade, em face do despreparo do professor para atender às Horizontes, v. 30, n. 2, p. 81-93, jul./dez.2012 87 exigências da reestruturação do ensino fundamental para nove anos e das mudanças na educação infantil instituídas formalmente em 2006 (BRZEZINSKI, 2008p. 180). Cabe alargar a abordagem, considerando os problemas concretos vivenciados pelas jovens que frequentam o ensino médio e as reais possibilidades de inserção profissional que estes podem vislumbrar. Ainda que a Lei 11.274/2006 retrate a intenção do MEC/SEB/DPE/COEF de construir políticas indutoras de transformações significativas na estrutura da escola, na reorganização dos tempos e dos espaços escolares, nas formas de ensinar, de aprender, de avaliar, implicando a disseminação das novas concepções de currículo, conhecimento, desenvolvimento humano e aprendizado (BRASIL, 2006), é preciso termos presente que a democratização do ensino não se dá somente pela garantia do acesso, pois a desigualdade e a exclusão ainda permanecem, principalmente a exclusão gerada pelo não aprendizado ou pelo aprendizado insuficiente. Portanto a busca pela qualidade da educação requer medidas para além do campo do ingresso e da permanência, e ações capazes de reverter a situação de baixa qualidade da aprendizagem na educação básica. Quando a Lei 11.274/2006 é promulgada, instituindo o Ensino Fundamental com nove anos de duração para atender crianças a partir dos seis anos de idade, fica estabelecida uma política pública afirmativa de equidade social implementada pelo Governo Federal, com intenção de: “oferecer maiores oportunidades de aprendizagem no período da escolarização obrigatória e assegurar que, ingressando mais cedo no sistema de ensino, as crianças prossigam nos estudos, alcançando maior nível de escolaridade”. Essa política, que altera o Ensino Fundamental de oito para nove anos, acirrou os debates sobre o desenvolvimento dos currículos e a defesa de se privilegiar as vivências das crianças e sua cultura, criando condições para a potencialização de valores democráticos. Brzezinski (2008) aponta que há uma crise na função da escola, uma vez que, ao longo do século XX, estiveram presentes duas funções: promover a apropriação do conhecimento considerado socialmente relevante e formar para a cidadania. Para a autora, as duas estão em crise, seja pela dificuldade em realizá-las, seja pelo anacronismo em relação aos tempos presentes. Dessa forma, coloca-se em questão o direito à educação e o posicionamento do Estado frente à função da escola e a materialização de políticas educacionais que garantam às jovens alunas das camadas populares a ampliação, com 88 Leny Cristina Soares Souza Azevedo, Ligia Karam Corrêa de Magalhães qualidade, da escolarização básica. Muitas indagações emergem no que tange às jovens que frequentam o Ensino Médio, modalidade Normal, tais como: Quais seriam os interesses do Estado em manter as jovens na escola? A quem interessam as discussões sobre a escolarização juvenil no Brasil? Não seria, até hoje, uma das funções da escola ocupar o tempo livre dessas jovens, para que não gerem problemas sociais, como está presente no imaginário de muitos? Para Mogarro (2005), a cultura escolar apresenta uma natureza profunda e naturalmente histórica. É constituída por um conjunto de teorias, ideais e princípios, normas, regras, rituais, rotinas, hábitos e práticas que nos remetem às formas de fazer e pensar os comportamentos sedimentados ao longo do tempo e que se apresentam como tradições, regularidades e regras partilhadas pelos atores educativos no seio das instituições. (p. 105) A produção dessa cultura e sua compreensão exigem não só um trabalho de elaboração e procura de fontes como também segundo Felgueiras (2005) o recolhimento junto às pessoas das simbolizações construídas, que assumem processos dinâmicos de conflito e mudança. Refletir e propor uma cultura escolar mais qualitativa exigirá adequação: na proposta pedagógica, no material didático, na formação do professor, bem como nas concepções de espaçotempo escolar, currículo, avaliação, infância, aluno, professor, metodologias. Santos (2007), contribui para o esclarecimento quanto ao papel da cultura e do cotidiano frente aos compromissos que a escola deve assumir. Assim, reflete a autora “falar de currículo escolar coloca-nos diante de um grande desafio. Como abordar essa temática sem parecer um burocrata do sistema, disposto a criar mais normas e regras, sem prestar atenção em como elas funcionam ou não [...]” (p. 296). Para a autora a participação dos estudos culturais na alteração das políticas e das práticas curriculares têm crescido no Brasil, pois questiona-se a natureza dos currículos tradicionais e cognitivistas, alertando para uma postura acrítica que ocasiona o empobrecimento curricular. Para Dias e Lopes (2003), “a recontextualização do currículo da formação de professores baseada nas competências modifica o foco da aprendizagem escolar, na qual os conteúdos e as disciplinas passam a ter valor apenas como meios para a constituição de competências”. Essa formação baseada em competências traz consequências no/para o exercício do trabalho docente, na medida em que são favorecidas e reguladas as ações dos professores, através de modelos de ensino e de avaliação a serem seguidos. O centro do ensino deixa de ser o saber do professor, que constitui a base para o desenvolvimento de seu trabalho no processo de ensino-aprendizagem, restringindo-se ao domínio de competências. A esse respeito, Ramos (2001) assinala que A ideia que se difunde quanto à pertinência do uso da noção de competência pela escola é que tal noção seria capaz de promover o encontro entre trabalho e formação. No plano do trabalho, verifica-se o deslocamento do conceito de qualificação em direção à noção de competência. No plano pedagógico, testemunha-se a organização e a legitimação da passagem de um ensino centrado em saberes disciplinares a um ensino definido pela produção de competências verificáveis em situações concretas e específicas. Essas competências são definidas em relação aos processos de trabalho que os sujeitos deverão ser capazes de compreender e dominar. A organização pedagógica, as instituições de ensino e formação têm-se organizado com base em uma estrutura nuclear – classe, entendida como um grupo de alunos que recebe em conjunto e de forma simultânea o mesmo ensino. Trata-se de um modo de organização que se consubstancia no princípio de ensinar a muitos como se fosso a um só (BARROSO, 2003). Essa solução organizacional foi sendo naturalizada, e essas contradições e dilemas marcam os antigos e novos arranjos sociais e educacionais, que necessitam ser observados e analisados para a contribuição não somente do debate político, mas também para dirigir algumas interrogações e reflexões, para pensar os jovens e sua inserção no mundo do trabalho docente. Sob a perspectiva do movimento que defende a formação em nível superior do professor nas séries iniciais do ensino, trata-se de um retrocesso. Observa-se que a organização curricular, para o ensino médio modalidade normal, compreende uma base comum e outra diversificada, na qual a primeira busca a formação geral, construindo competências e habilidades básicas para a continuidade dos estudos e preparação para o trabalho. A parte diversificada está orientada para o atendimento as metodologias do ensino, estágios e práticas didáticas bem como Horizontes, v. 30, n. 2, p. 81-93, jul./dez.2012 Educação pública: currículo e formação de jovens alunas no Ensino Médio procura atender as características regionais e locais, permeando a cultura, a economia e a política onde esta se insere, conforme recomendações dos PCNs para o ensino médio. Quanto ao Projeto Político Pedagógico, é de responsabilidade da escola a construção. De acordo com a pesquisa feita com os gestores da instituição, o trabalho educativo tem como objetivos desenvolver estratégias político pedagógicas para a organização do ensino, garantir a qualidade educativa e promover praticas de gestão que visem estruturar a capacidade de decisão quanto aos serviços essenciais da educação. Esses propósitos estão registrados no Projeto Politico Pedagógico construído em 2005 por parte dos professores e coordenadores e tem sido avaliado e ampliado no inicio de cada ano segundo depoimento da diretora. Esse PPP em construção não permitiu uma consulta. Com base nessas análises, interessa-nos aprofundar as aspirações da juventude que escolhe esse curso profissionalizante para apreendermos o sentido dessa profissionalização e as políticas que assinalam uma lógica que ambiciona promover mudanças sociais através da educação, vinculando expansão do ensino a discursos de valorização na formação inicial docente. Para isso, faz-se necessário recorrer aos elementos que determinam as políticas de formação, entre estas as condições históricas de sua produção, as correlações de força em presença e as perspectivas teóricas partilhadas. Consultando a Resolução SEEDUC n. 4.376 (18/12/2009), verifica-se que no corpo do texto é mencionada a apreciação e aprovação da adequação da Matriz Curricular do Curso para as escolas de ensino médio da Rede Pública Estadual de Ensino. Informa, ainda, que a Matriz Curricular apresentada é o resultado do trabalho do Centro de Estudos instituído em 2008 nas unidades escolares, e que, durante a realização de encontros na Secretaria de Educação, foram debatidos temas voltados para a formação profissional do professor, as tendências neste campo, a organização do currículo, a base nacional comum, a parte diversificada, a prática como espaço formativo. Acreditamos ser pertinente trazer o trabalho educativo dessa instituição de Ensino Médio modalidade Normal, no momento em que se debate a formação e se questionam os saberes dessa prática pedagógica. A implementação da escola está amparada em um conjunto de providências legais para a ampliação da proposta para o Ensino Médio Normal, de acordo com o Parecer n. 122, de 10 de novembro de 2009, a Resolução SEEDUC (Secretaria de Educação do Estado do Rio de Horizontes, v. 30, n. 2, p. 81-93, jul./dez.2012 89 Janeiro) nº 4.376, de 18 de dezembro de 2009, e a Portaria SEEDUC n. 91, de 29 de março de 2010. Extinto o curso normal, em atendimento à LDBEN n. 9.394 de 1996, tentativas pela reafirmação de seu reconhecimento e permanência foram assumidas, colocando em discussão as contribuições da escola de ensino médio na formação de parcela significativa de jovens. O Rio de Janeiro é único estado da região sudeste que oferece o curso de formação em Magistério – Escola Normal, em Escolas de Ensino Médio. Assim, ao focalizarmos a expansão, no Rio de Janeiro, de cursos em nível médio normal, para a formação de professores para a educação infantil e para as primeiras séries do ensino fundamental, pretendemos discutir a consolidação da formação nesse nível de ensino como política pública, não transitória. Nesse contexto, buscamos explicitar os sentidos do acesso e permanência nos cursos e a incorporação desses jovens alunos na luta permanente pelas novas oportunidades à educação. Visamos, também, analisar a ação do Estado nas políticas de formação que vêm se caracterizando, de acordo com Freitas (2007), pela fragmentação, consequentemente assegurando diferenciadas dimensões de profissionalização. Isso pode ser evidenciado quanto ao oferecimento do ensino médio normal, já que a pressão da juventude pela profissionalização após o ensino fundamental coloca imenso contingente de jovens no exercício do magistério e na expectativa de se profissionalizarem. Essas iniciativas ocultam a oferta diferenciada de cursos e programas, apontando para a desigualdade da formação oferecida nas instituições de ensino e nas instituições de pesquisa, na formação de jovens alunos que estudam e pesquisam e daqueles que trabalham, produzindo condições diferentes de exercício profissional e desigualdade educacional (p.146). São necessários mais de 230 mil professores no ensino médio e cerca de 500 mil no ensino fundamental, para atender ao número de estudantes hoje existentes na rede pública. Brzezinski (2008) ressalta que ações pontuais de formação de professores pouco resolverão a falta de docentes qualificados para a educação básica, principalmente para o desenvolvimento educacional nas séries iniciais do ensino. Simultaneamente, a história comprovará o alcance de indicadores de qualidade, já que os resultados qualitativos divulgados nos dados oficiais sobre a escola pública, infelizmente, apontam para a desqualificação no ensino fundamental e, mais ainda, a falência do ensino médio. (BRZEZINSKI, 2008, p.169). 90 Leny Cristina Soares Souza Azevedo, Ligia Karam Corrêa de Magalhães Considerações Finais Diante desse breve panorama acerca da situação de pessoas jovens frente ao mundo do trabalho, é inegável que este se configura como de suma importância para os segmentos juvenis. Coloca-se em debate o fato de que a manutenção do nível médio normal reafirma-se como política, desconsiderando o Plano Nacional de Educação, que estabelece metas para a formação superior dos professores da educação básica. Para Freitas (2007), com o oferecimento desse curso evidencia-se o divórcio entre as necessidades atuais da educação infantil e ensino fundamental com a proposta de formação da juventude no ensino médio para a docência. Daí a relevância de discutir o trabalho que vem sendo realizado para fazer frente ao trabalho concreto para as séries iniciais do ensino. Considerando os registros feitos pelas jovens alunas, podemos questionar os elementos que apontam substantivamente para o significado do trabalho e da formação. As representações acerca do trabalho para essas jovens direcionamse para a necessidade, fonte de independência, crescimento e auto realização. Quanto à formação, existe o forte ideal de continuar os estudos numa universidade. Consultando as professoras e os registros da escola dos egressos, as alunas ingressam ao sair da escola de ensino médio normal em instituições públicas e privadas de ensino superior e a maioria acaba fazendo a opção pelo ensino privado e conseguem bolsas de estudo para esse fim. Seja como for, ao examinarmos os depoimentos das jovens alunas, destacados ao longo do texto, identificamos: a) A escola precisa, de acordo com Moreira (2010), “ampliar-se, abrir-se, aumentar as oportunidades de acesso às ciências, às artes, a novos e diferentes saberes, a novas linguagens, a novas interações, a outras lógicas, à capacidade de buscar conhecimentos, ao aprofundamento, à sistematização e ao rigor” (p.110); b) A vida escolar representa para as famílias como um lugar de crescimento pessoal e profissional, podendo ter maiores chances de ocupação no mercado de trabalho, diferente da condição paterna que, de acordo com os depoimentos, tiveram a escolaridade inconclusa; c) O entendimento de que o trabalho relaciona-se a uma “fonte de independência”, pois este significado é praticamente universal e transparece em todo o tipo de jovem, de acordo com as d) e) f) g) análises de Branco (2008), que reflete acerca da atração que o trabalho exerce sobre o jovem. O trabalho expressa-se pela metáfora “crescimento” e “auto-realização”, que envolvem as “transformações no aparato produtivo e seus elos com a dinâmica do mercado de trabalho” (GUIMARAES, 2008, p.169). São fatores que explicam oportunidades preenchidas e percursos desenvolvidos nos diversos ambientes de trabalho. O curso de formação docente no EM é concebido com base nas “facilidades curriculares”, seja pelas disciplinas consideradas como de exigências menores para a conclusão da escolaridade de nível médio, seja pelas metodologias de trabalho pedagógico que privilegiam atividades em grupo. “As práticas partem do pressuposto de que as alunas necessitam de um currículo que as leve a algo mais que a simples memorização (...) assim, as contribuições dos estudos culturais e das aplicações do conceito de cultura no desenvolvimento curricular vem sendo positiva e indicam uma reivindicação antiga de segmentos e setores da sociedade” (Santos, 2007, p. 301); Pelas falas, podemos depreender que essas experiências em grupo não têm sido sólidas e reforçam a fragmentação, na medida em que há o entendimento de cada um possa cumprir tão somente a “tarefa” solicitada pelo professor a cada componente do grupo, ou seja, a distribuição de diferentes funções entre os componentes de cada grupo, permite que uma das alunas digite o trabalho, a outra faça a apresentação, uma terceira realize a pesquisa e assim por diante. Essas atitudes revelam pouco investimento na autonomia intelectual e aprendizado coletivo. Retomando a questão da execução de “tarefas”, cabe lembrar a discussão empreendida por Kuenzer (1999), ao discutir que no processo de formação docente tem sido privilegiado o treinamento do professor, como se fosse esperado o simples cumprimento de atividades já “dadas” em modelos. Assim, ao professor “compete realizar um conjunto de procedimentos preestabelecidos” (p. 182), retirando de seu trabalho a dimensão de cientista e pesquisador de educação, e transformando-o em um profissional Horizontes, v. 30, n. 2, p. 81-93, jul./dez.2012 Educação pública: currículo e formação de jovens alunas no Ensino Médio que a autora denomina como “professor tarefeiro”. Em outras palavras, é necessário que a escola vislumbre constituir-se em possibilidade de autonomia, de expansão dos horizontes, de novas perspectivas, de novas condutas e conhecimentos (MOREIRA; CANDAU, 2008). Para De Rossi (2005), pensar sobre o cotidiano das escolas, pela via da organização da cultura escolar, significa reconhecer como o Estado utiliza a escola como recurso de convencimento e de emotividade bastante mobilizadores para banir individualidades e para fazer a conversão pela subjetividade, sem alterar as condições materiais dos sujeitos envolvidos. Dessa forma, a pesquisa realizada na instituição revela a priorização do produto em detrimento do processo. Referências Bibliográficas ABRAMOVAY, M., CASTRO, M. G. Juventude, juventudes: o que une e o que separa. Brasília: UNESCO, 2003. ANTUNES, Ricardo. O caracol e sua concha: ensaios sobre a nova morfologia do trabalho. São Paulo: Boitempo, 2005. BARROSO, J. Organização e Regulação dos ensinos básico e secundário em Portugal: sentidos de uma evolução. Educ. e Soc. Campinas, v. 24, n. 82, p. 63-92, 2003. BRASIL/PR. Lei n.11.274, de 6 de fevereiro de 2006. 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Horizontes, v. 30, n. 2, p. 81-93, jul./dez.2012 94 95 Práticas sociais híbridas: contribuições para os estudos curriculares em Educação Matemática Marcio Antonio da Silva* Resumo Neste artigo, discute-se, na perspectiva teórica curricular pós-crítica, a impossibilidade de pensar em práticas sociais universais que possam gerar prescrições curriculares centralizadoras que orientem ações a serem efetivadas nas escolas, não considerando a incerteza e a diversidade das práticas educativas, sociais e culturais. Utiliza-se o conceito de hibridação para argumentar que as próprias prescrições curriculares apresentam discursos híbridos que necessitariam de uma maior investigação, pois representam misturas e construções que defendem correntes teóricas distintas, algumas até antagônicas. Por fim, são encaminhadas considerações no sentido de buscar formas de atenuar esse imenso hiato entre as teorias contemporâneas e a “prática” curricular. Palavras-chave: Educação Matemática; Currículo de Matemática; Hibridação. Hybrid social practices: contributions to curriculum studies in Mathematics Education Abstract In this paper, we discuss in theoretical perspective post-critical curricular theory, inability to think in universal social practices that generate prescriptions centralized curriculum to guide actions to be effected in schools, not considering the uncertainty and diversity of educational practices, socials and culturals. We use the concept of hybridization to argue that curricular prescriptions have hybrid discourses that would require further investigation because they represent mixtures and buildings that advocate different theoretical currents, some even antagonistic. Finally, considerations are directed towards finding ways to mitigate this huge gap between contemporary theories and "practical" curriculum. Keywords: Mathematics Education; Mathematics Curriculum; Hybridization. Introdução O objetivo deste artigo é discutir, na perspectiva teórica curricular pós-crítica, a impossibilidade de pensar em práticas sociais universais que possam ser descritas e, consequentemente, possam gerar prescrições curriculares centralizadoras que orientem ações a serem efetivadas nas escolas. Queremos contribuir para a reflexão acerca da contradição existente entre as teorias curriculares contemporâneas que apontam para a direção da diversidade, do hibridismo e da valorização da incerteza e as políticas curriculares nacionais que determinam orientações e avaliações universais e padronizadas. No entanto, mostraremos que, tanto as teorias pós-críticas, quanto os currículos prescritos apresentam, ao menos, uma característica comum: a presença de um discurso híbrido. Para finalizar o artigo, encaminharemos nossas considerações no sentido de buscar formas de atenuar esse imenso hiato entre as teorias contemporâneas e a “prática” curricular. A centralização curricular no Brasil No dia quinze de setembro deste ano, a Folha de São Paulo, em seu painel Tendências e * Endereço eletrônico: [email protected] Debates, propôs o debate em torno da seguinte questão: o Brasil deve adotar um currículo nacional único para a educação básica? Respondendo afirmativamente à pergunta proposta, Priscila Cruz, diretora-executiva do movimento Todos Pela Educação, apresentou o discurso meritocrático cristalizado das atuais políticas neoliberais: é preciso padronizar os processos educacionais para facilitar a avaliação de alunos, professores e gestores. Em oposição à perspectiva defendida por Priscila, a professora Dalila Andrade Oliveira, atual presidente da Associação Nacional de PósGraduação e Pesquisa em Educação (ANPEd), afirmou que a defesa de um currículo uniforme representa a volta de um discurso da elite republicana do início do século XX e que o currículo deve levar em conta as diferenças sociais, econômicas e culturais entre os estudantes. Portanto, no cenário delineado por Dalila, o currículo deveria necessariamente ser (re)formulado no âmbito de cada escola e até de cada sala de aula, considerando as especificidades, as necessidades, os valores, as culturas e as práticas sociais da comunidade na qual a escola está inserida. Essa breve exposição das oposições de 96 Marcio Antonio da Silva opiniões sobre a centralização curricular revela o antagonismo existente nas diferentes visões sobre a valorização do reconhecimento das diferentes práticas sociais presentes em um território com dimensões continentais, como é o caso brasileiro. desses três nomes para designar um indivíduo desprovido de inteligência não é uma coincidência, mas sim uma direta vinculação com a esterilidade desse animal, condição resultante dessa hibridação. Hibridação Do Modernismo ao Pós-Modernismo A partir daqui, faremos referência ao conceito de hibridação, difundido pelo antropólogo argentino Néstor García Canclini, e que ganha diferentes interpretações, entre elas, a defesa do reconhecimento da diversidade de práticas sociais e a construção de discursos híbridos para atender aos vários públicos para os quais as prescrições curriculares são escritas, ou seja, com a finalidade de agradar a muitos. A obra Culturas Híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade, de García Canclini, foi publicada em 1989. Nela o pesquisador argentino realçou os processos de hibridação cultural ocorridos nos países latinoamericanos, sobretudo no período pós-colonial. O autor se refere à mestiçagem, ao sincretismo e à crioulização como hibridações que se restringiam, respectivamente, ao processo de combinação de raças, religiões (crenças) e línguas. O que García Canclini argumenta é que esses três tipos de “misturas culturais” são muito restritos para levar em conta as inúmeras fusões culturais que ocorrem entre estilos musicais, nas fronteiras entre países, nos meios de difusão de informação e, especialmente ligado ao nosso interesse principal, nas teorias curriculares e nos significados atribuídos ao currículo. Por isso, García Canclini (2008) traz uma primeira aproximação do conceito de hibridação no prefácio da edição de 2001: “entendo por hibridação processos socioculturais nos quais estruturas ou práticas discretas, que existiam de forma separada, se combinam para gerar novas estruturas, objetos e práticas” (p. XIX). É importante ressaltar que o conceito de hibridação não é novo, não só pelos usos antropológicos e linguísticos, para citar apenas dois, mas também por seu uso original relativo à Biologia, mais especificamente na genética, botânica e zoologia. Como exemplo, podemos citar a hibridação entre espécies. No entanto, essas “misturas” são frequentemente vinculadas à esterilidade e ao exótico, provocando no imaginário popular a sensação de algo que está fora dos padrões. O asno ou burro ou jumento é um resultado de cruzamento de espécies (cavalo com jumenta ou égua com jumento). O uso popular Para compreender parte dessa intolerância ao que é híbrido, é importante contextualizar os embates teóricos entre as visões modernas e pósmodernas. O período histórico ou os movimentos teóricos ligados ao modernismo valorizam a estrutura hierárquica bem delimitada, as definições rígidas e os binarismos classificatórios antagônicos: bem versus mal, certo versus errado, alta cultura versus baixa cultura, currículo prescrito versus currículo em ação, branco versus negro, entre outros. Essa configuração teórica enaltece o purismo e considera a hibridação como uma aberração. Já o pós-modernismo surge, entre várias outras críticas ao movimento antecedente, questionando e rompendo os binarismos, por intermédio da exposição de uma matiz de possibilidades existentes entre polos opostos, considerados como únicos pelo modernismo. Como exemplos culturais de hibridismos, podemos citar a banda californiana Linkin Park que, não coincidentemente, deu o nome de Teoria Híbrida (Hybrid Theory) ao seu primeiro álbum e à própria banda, no final da década de 1990, revelando a concepção dos integrantes da banda possuem a respeito do cruzamento de gêneros que envolvem a composição do seu repertório: hiphop, música eletrônica e rock pesado alternativo (DUSSEL, 2010). Outro retrato dessa hibridação musical pode ser visto na produção do grupo de rap Brô MC’s, formado por índios sul-mato-grossenses da etnia Guarani-Kaiowá. Índios cantando rap em Tupi e usando vestimentas como bonés, camisa de seleções e times de futebol e cobrindo os rostos com lenços que lembram os antigos caubóis de filmes de faroeste, parece algo inusitado, mas é a realidade desses jovens que já ganharam notoriedade ao participarem de programas de televisão transmitidos nacionalmente. A partir desses exemplos, é quase impossível imaginar algo que não seja híbrido. A pureza é que ganha caráter exótico e gera profunda desconfiança. Até o conceito de fronteira, que na perspectiva modernista está muito mais ligado à ideia de fronteira geográfica e, portanto, matematicamente definida por uma lógica aristotélica (pertence ou não pertence), Horizontes, v. 30, n. 2, p. 95-102, jul./dez.2012 Práticas sociais híbridas: contribuições para os estudos curriculares em Educação Matemática ganha nova configuração nas visões pós-modernas ou pós-coloniais. Para Bhabha (1998), Hall (2003) e García Canclini (1998), a análise das fronteiras se dá na dimensão cultural e, nesta perspectiva, não faz sentido pensar em pertencimento ou não pertencimento a uma ou a outra nação, mas sim aos significados construídos, desconstruídos e reconstruídos (não necessariamente seguindo esta ordem) em espaços-tempos de fronteiras: Penso nos currículos escolares como espaço-tempo de fronteira e, portanto, como híbridos culturais, ou seja, como práticas ambivalentes que incluem o mesmo e o outro num jogo em que nem a vitória nem a derrota jamais serão completas. Entendo-os como um espaçotempo em que estão mesclados os discursos da ciência, da nação, do mercado, os “saberes comuns”, as religiosidades e tantos outros, todos também híbridos em suas próprias constituições. É um espaço-tempo em que os bens simbólicos são “descolecionados”, “desterritorializados”, “impurificados”, num processo que explicita a fluidez das fronteiras entre as culturas do eu e do outro e torna menos óbvias e estáticas as relações de poder (García Canclini, 1998). Defendo que, nesse híbrido que é o currículo, tramas oblíquas de poder tanto fortalecem certos grupos como potencializam resistências. Em um e outro movimento, que são parte do mesmo, permitem que a diferença apareça na negociação “com as estruturas de violência e violação que (as) produziram” (Spivak, 1994, p. 199). (MACEDO, 2006, p. 289-290). Os comentários levantados por Macedo no excerto supracitado, com os quais concordamos, nos remetem a novas compreensões para as questões de relações de poder, identidades e diferenças. No panorama vislumbrado a partir da perspectiva pós-crítica, nunca será possível obter um estado ideal de igualdade social, econômica e política. Por isso, o discurso que objetiva qualquer tipo de igualdade é ingênuo e idealista. O conceito de classe social é desconstruído em detrimento das relações entre os subalternos marginalizados e a hegemonia cultural dominante. O movimento e as tensões direcionam-se das lutas pela igualdade social e Horizontes, v. 30, n. 2, p. 95-102, jul./dez.2012 97 econômica, notadamente reivindicando igualdade, para a valorização das diferenças e para o reconhecimento de identidades culturais híbridas. Nas atuais pesquisas que levam em conta os estudos culturais não faz sentido investigar oposições binárias, como Matemática do cotidiano versus Matemática escolar, ou Matemática do índio versus Matemática do branco, mas sim o conjunto de identidades, subjetivações e significados atribuídos por diferentes participantes da pesquisa a um objeto prévia ou posteriormente definido pelo pesquisador. As definições e categorizações rigorosamente descritas perdem sentido nesse cenário “pós”. A lógica clássica e a consequente adoção do “terceiro excluído” dá lugar a lógicas heterodoxas que vão além dos binarismos, permitindo múltiplas classificações. A palavra “laranja” pode tanto significar uma cor resultante de mistura das cores amarela e vermelha, quanto um fruto híbrido obtido a partir do cruzamento do pomelo com a tangerina. Para uma criança pode representar o entardecer. Para um político corrupto, um indivíduo cujo nome foi usado por ele para fraudes financeiras e comerciais. Usamos esse exemplo simplesmente para ilustrar o quanto uma palavra pode expressar múltiplos significados, híbridos ou não. Outro ponto a se destacar é que o híbrido não é sinônimo de mistura, mas sim de algo que cria sua própria identidade. Portanto, além de mistura, é ele próprio. O fato de quase ninguém saber que o fruto da laranjeira é um híbrido do pomelo e da tangerina, revela o quanto esta identidade está constituída e reconhecida. Analogamente, a Matemática escolar pode ser compreendida tanto como uma Matemática própria e totalmente desvinculada da ciência de referência, como André Chervel defendia, quanto uma Matemática transposta do saber científico que o originou, como na concepção de Yves Chevallard. Pode ser uma coisa e outra, tanto identidade construída, quanto mistura ou adaptação. A nosso ver, a relevância das pesquisas curriculares sobre a Matemática escolar não está na origem da mesma, se é construída no contexto escolar ou transposta de um saber sábio, mas sim as identidades que são valorizadas e omitidas por esta Matemática, bem como quais são as Matemáticas hegemônicas e as subalternas. Hegemonia e Subalternidade Não usamos as palavras “hegemonia” e “subalternidade” no sentido de Gramsci, o qual 98 Marcio Antonio da Silva ligava esses conceitos à ideia de oposição de classes sociais e a consequente disputa pelo poder: [...] a ênfase de Gramsci foi na hegemonia. Também nisso residia seu maior interesse. Seus conceitos de “guerra de posições” e “guerra de movimento” compõem o cerne de uma conceituação da estratégia que implica o deslocamento das classes, segundo uma analogia com a guerra de trincheiras, para melhores pontos de observação e “posições”: daí a “guerra de posições” ser a batalha pela conquista da hegemonia política, pela obtenção do consentimento, a luta pelos “corações e mentes” do povo, e não meramente sua obediência transitória ou seu apoio eleitoral. A “guerra de movimento” (em oposição direta à tradição leninista de pensamento político) só pode ocorrer numa situação em que a hegemonia já tenha sido assegurada (BARRETT, 1996, p. 239). Várias oposições a essa teoria marxista de hegemonia ganharam força após o reconhecimento que a mesma ignorava questões sociais ligadas às diferenças de gêneros, etnias, raças, entre outras. Entre essas críticas, está a de Ernesto Laclau (1978) que rejeita essa ligação exclusiva entre as ideologias políticas e as de classe, nomeando essa simplificação, feita por Gramsci, de “reducionismo” (BARRET, 1996). Nos referimos à hegemonia e à subalternidade como relações essencialmente culturais que estão em constante movimento, catalisadas pelos avanços tecnológicos e, sobretudo, pela difusão midiática global. Para García Canclini: Uma visão mais ampla permite ver outras transformações econômicas e políticas, apoiadas em transformações culturais de longa duração, que estão dando uma estrutura diferente aos conflitos. Os cruzamentos entre o culto e o popular tornam obsoleta a representação polar entre ambas as modalidades de desenvolvimento simbólico e relativizam, portanto, a oposição política entre hegemônicos e subalternos, concebida como se se tratasse de conjuntos totalmente diferentes e sempre confrontados. O que sabemos hoje sobre as operações interculturais dos meios massivos e as novas tecnologias, sobre a reapropriação que diversos receptores fazem deles, afasta-nos das teses sobre a manipulação onipotente dos grandes conglomerados metropolitanos. Os paradigmas clássicos segundo os quais foi explicada a dominação são incapazes de dar conta da disseminação dos centros, da multipolaridade das iniciativas sociais, da pluralidade de referências – tomadas de diversos territórios – com que os artistas, os artesãos e os meios massivos montam suas obras (GARCÍA CANCLINI, 2008, p. 346). Além das características das relações hegemônico-subalternas, explicitadas no excerto supracitado, é fundamental acrescentar a isso o fato de que esses vínculos são estabelecidos de maneira múltipla e complexa, formando redes de significações. Algo ou alguém pode, em determinado instante, agir tanto como hegemônico, quanto como subalterno. Não há, portanto, classificação única, pois os múltiplos olhares dependem das “lentes” que utilizamos para examinar tal relação: O incremento de processos de hibridação torna evidente que captamos muito pouco do poder se só registramos os confrontos e as ações verticais. O poder não funcionaria se fosse exercido unicamente por burgueses sobre proletários, por brancos sobre indígenas, por pais sobre filhos, pela mídia sobre os receptores. Porque todas essas relações se entrelaçam umas com as outras, cada uma consegue uma eficácia que sozinha nunca alcançaria. Mas não se trata simplesmente de que, ao se superpor umas formas de dominação sobre as outras, elas se potenciem. O que lhes dá sua eficácia é a obliquidade que se estabelece na trama. Como discernir onde acaba o poder étnico e onde começa o familiar ou as fronteiras entre o poder político e o econômico? Às vezes é possível, mas o que mais conta é a astúcia com que os fios se mesclam, com que se passam ordens secretas e são respondidas afirmativamente (GARCÍA CANCLINI, 2008, p. 346). Portanto, não faz sentido compreender os currículos de Matemática na perspectiva das classes sociais hegemônicas e subalternas, nem como essas últimas podem ser consideradas e Horizontes, v. 30, n. 2, p. 95-102, jul./dez.2012 Práticas sociais híbridas: contribuições para os estudos curriculares em Educação Matemática conduzidas a uma posição de igualdade em relação às primeiras, mas sim compreender os significados, as relações estabelecidas, as modificações ocorridas e os interesses que emergem nessa teia complexa costurada culturalmente, por intermédio da (re)construção de identidades que são, simultaneamente, expressivas e efêmeras. Identidades Culturais Temos como hipótese que a identidade da Matemática hegemônica é masculina, europeia, heterossexual e branca. Nossa hipótese é reforçada a cada livro de História da Matemática que lemos e a cada filme que assistimos, os quais possuem personagens que têm a Matemática como profissão ou como preferência de estudo. Mesquita (2004) traz uma convergência nos padrões identitários de professores de Matemática, a partir da análise de quatro filmes hollywoodianos. Como resultado, afirma que: [...] Hollywod conduz os espectadores de seus filmes para uma abreviação identitária do professor de matemática – homens, tímidos, obsessivos, arrogantes, competitivos, indiferentes frente às relações interpessoais, racionais, patéticos, desajeitados, isolados, problemáticos, exibicionistas perante o conhecimento matemático, disciplinados e reservados. (p. 6). Provavelmente as conclusões não seriam muito diferentes se analisássemos os matemáticos mais citados em livros de História da Matemática de autores tradicionais, como Eric Bell, Dirk Struik, Carl Boyer, Howard Eves, Florian Cajori e Victor Katz. Quando o matemático escocês Eric Temple Bell publicou os seus dois volumes de Men of Mathematics, em 1937, ele não imaginava (ou talvez imaginasse) o quanto sua infindável lista de homens que contribuíram para o desenvolvimento da Matemática, ao longo de séculos, contribuiu para desenhar uma identidade masculina a essa ciência. Paulatinamente, esse cenário vem se alterando, em parte devido à publicação de obras que revelam o trabalho determinante de algumas mulheres para a evolução da Matemática. Dentre essas mulheres, podemos citar a russa Sofia Kovalevskaya, que viveu no século XIX, foi aluna de Weierstrass e trouxe várias contribuições para a Matemática, notadamente para as funções abelianas e equações diferenciais Horizontes, v. 30, n. 2, p. 95-102, jul./dez.2012 99 parciais, incluindo a demonstração do Teorema Cauchy–Kovalevskaya (AUDIN, 2011). Interessante e curioso notar que Kovalevskaya é a única mulher na lista dos “homens da Matemática” de Bell. Emmy Noether é outra grande matemática do início do século passado, considerada a mãe da Álgebra Moderna (TENT, 2008). Essas duas mulheres e muitas outras também são citadas na clássica obra de Olsen (1974) que provoca Bell com o título Women in Mathematics. Deslocando-se da tradição matemática europeia, autores como Selati & Bangura (2011), Plofker (2009) e Martzloff (1997) enaltecem, respectivamente, a matemática africana, indiana e chinesa. A partir dessas hipóteses, defendemos a tese de que a diversidade de práticas sociais, incluindo as hegemônicas, deve ser valorizada no contexto escolar, rompendo paradigmas da excessiva valorização de alguns poucos estereótipos culturais em detrimento de outros. O que está em jogo é o reconhecimento, no contexto escolar, de identidades sociais e culturais que são tradicionalmente subjugadas. Aliás, talvez não seja mais o caso de se pesquisar as identidades, mas de “deslocar o objeto de estudo da identidade para a heterogeneidade e a hibridação interculturais (Goldberg)” (GARCÍA CANCLINI, 2008, p. XXIII). Esses processos de hibridações interculturais são estimulados pelo crescente uso de recursos tecnológicos para difusão de informações, ideias e culturas: A hibridação, de certo modo, tornou-se mais fácil e multiplicou-se quando não depende dos tempos longos, da paciência artesanal ou erudita e, sim, da habilidade para gerar hipertextos e rápidas edições audiovisuais ou eletrônicas. Conhecer as inovações de diferentes países e a possibilidade de misturá-las requeria, há dez anos [o autor escreveu este excerto em 2001], viagens freqüentes, assinaturas de revistas estrangeiras e pagar avultadas contas telefônicas; agora se trata de renovar periodicamente o equipamento de computador e ter um bom servidor de internet. (GARCÍA CANCLINI, 2008, p. XXXVI). No campo curricular, como veremos a seguir, a facilidade de se propagar informações por intermédio de novas mídias, também possibilitou recontextualizações de discursos diversos. 100 Marcio Antonio da Silva Híbridos Curriculares Atualmente, há uma relativa concordância sobre a impossibilidade de se definir currículo, dada a multiplicidade de elementos que envolvem esse conceito, bem como uma gama complexa de contextos abrangidos por ele. Uma possibilidade, a nosso ver mais coerente, é se referir ao próprio currículo como um híbrido: A própria noção de currículo pode ser considerada como um híbrido, se a pensamos como o resultado de uma alquimia que seleciona a cultura e a traduz a um ambiente e uma audiência particulares (Bernstein, 1990; Popkewitz, 1998). Os discursos curriculares também têm sido estudados como híbridos que combinam distintas tradições e movimentos disciplinares, construindo coalizões que dão lugar a consensos particulares (DUSSEL, 2010, p. 70). As políticas curriculares, por sua vez, também não estão imunes a essas influências culturais caracterizadas pelas hibridações. Nos textos que definem as diretrizes curriculares pelo mundo afora, notamos aparentes contradições em vários discursos possíveis: Discursos como os de valorização das competências, do currículo integrado, da gestão escolar descentralizada, da avaliação como garantia de qualidade podem ser encontrados em diferentes políticas no mundo e sua presença é justificada pela ação do contexto de influência (LOPES, 2004, p. 112). Essas teorias supostamente divergentes acabam por produzir um discurso híbrido que, assim como todos os outros discursos curriculares, não é neutro. Em Silva (2009) identificamos, na análise da Proposta Curricular de Matemática do Estado de São Paulo de 2008, dois discursos curriculares aparentemente antagônicos: o currículo por competências e o currículo crítico. Salientamos, na época, “o hibridismo existente no próprio conceito de competências, pois ora se utiliza o aspecto cognitivoconstrutivista da tradição francesa, ora se faz uso da configuração comportamental, advinda da tradição americana” (p. ??). Lopes (2002) encontrou um discurso curricular híbrido nos Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio. Por intermédio da análise do conceito de contextualização que aparece em tal documento oficial, a autora defende: [...] que o discurso dos PCNEM apresenta ambigüidades de forma a se legitimar junto a diferentes grupos sociais, sejam aqueles que trabalharam em sua produção ou aqueles que trabalham na sua implementação e análise. Para produção de uma proposta curricular como a dos PCNEM, são apropriados e hibridizados discursos acadêmicos, ressignificando-os de forma a atender às finalidades educacionais previstas no momento atual. Defendo, igualmente, que as finalidades educacionais dos PCNEM visam especialmente formar para a inserção social no mundo produtivo globalizado. Em decorrência dessas finalidades é que defendo uma postura crítica em relação a esses parâmetros (LOPES, 2002, p. 389). Essas ressignificações ou recontextualizações, na expressão usada por Bernstein (1996), hibridizam discursos curriculares internacionais na tentativa de obter, entre outras coisas, ampla legitimação discursiva. Essa grande amplitude pode ser justificada, em parte, pela empatia induzida ao se ler algo que se defende, mesmo estando presente em meio a várias outras teorias antagônicas a esta. Assim, orientações curriculares geralmente são genéricas e misturam discursos defendidos por escolas teóricas distintas: o desenvolvimento de competências, a eficiência, a valorização dos objetivos, a educação para a igualdade e para a justiça social, a celebração da diversidade, entre outras. Cabe aos pesquisadores de currículos não mais apenas identificar ou “desmascarar” esses discursos híbridos, mas também compreender suas intenções ocultas. Para Lopes (2005): Na investigação das políticas de currículo, cabe entender os processos materiais e discursivos que favorecem tais consensos e finalidades, bem como as zonas de escape que são favorecidas. Do ponto de vista material, há investimentos em certas linhas e não em outras, discursivamente há a legitimação de certos discursos e não outros, muitas vezes favorecida pela associação desses textos com matrizes de pensamento que Horizontes, v. 30, n. 2, p. 95-102, jul./dez.2012 Práticas sociais híbridas: contribuições para os estudos curriculares em Educação Matemática circulam em diferentes grupos sociais e mesmo nos meios educacionais. Assim como é necessário considerar como as dimensões discursiva e material também se associam (LOPES, 2005, p. 60). Todas essas possibilidades de pesquisa revelam uma crescente valorização de procedimentos metodológicos relacionados à análise de discurso e à bricolagem em detrimento daqueles que utilizam categorizações definidas a priori e análise de conteúdo. Considerações finais Como anunciado no início deste artigo, nossa intenção foi elaborar uma construção argumentativa contra a ideia de práticas sociais universais. Ao contrário, podemos pensar em práticas sociais híbridas, vivenciadas e produzidas em contextos culturais plurais, nos quais os conceitos de hegemonia, de nação com fronteiras bem delimitadas e de ideologia são relativizados e atenuados por tendências culturais contemporâneas. Nesse quadro que se delineia atualmente, não é apropriado pensar em orientações curriculares centralizadoras, as quais são constituídas, em sua maioria, por listas infindáveis de conteúdos rigidamente sequenciados e com suas respectivas expectativas de aprendizagem esperadas dos estudantes bem definidas, tudo meticulosamente engendrado em função de avaliações em larga escala. Por outro lado, pela experiência que obtivemos com o trabalho na formação inicial e continuada de professores de Matemática, sabemos que os docentes, muitas vezes, anseiam por essas listas e por instruções diretivas. Então, o que fazer? É fundamental que haja uma aproximação entre pesquisadores e professores, estreitando relações e diminuindo as distâncias que separam as “academias” das escolas. Essa distância não é só física, mas também teórica. O hiato que há entre a teoria curricular valorizada no campo cientifico e as práticas educativas é enorme. Há que se buscar meios para que cheguem até os professores discussões como as feitas neste artigo, valorizando a pluralidade social e cultural, não como mera celebração das diferenças, mas sim com uma visão crítica sobre a necessidade de desenredar os fios que constituem essa complexa e rica teia de significações que o currículo possui. A nosso ver, o conceito de hibridação dos estudos culturais, trazido para os estudos curriculares, é uma possibilidade de compreender Horizontes, v. 30, n. 2, p. 95-102, jul./dez.2012 101 criticamente os discursos subjacentes, descortinando intenções ocultas, relações de poder e planejamentos que valorizam excessivamente a performance em detrimento do enaltecimento da construção de valores humanos, os quais são incomensuráveis. O professor deve conhecer, debater, questionar, e, porque não dizer, hibridizar essas e outras perspectivas que podem enriquecer suas práticas. As teorias curriculares se desenvolveram com rapidez exponencial no último século, porém a escola continua reproduzindo padrões fabris da época da Revolução Industrial. É recomendável que aceleremos o ritmo de formação de formadores de professores, pois só assim poderemos democratizar o conhecimento científico curricular, que hoje parece estar reduzido a um grupo pequeno de pesquisadores que avançam rapidamente sem olhar para trás, ignorando a possibilidade de, um dia, ficarem sozinhos e serem compreendidos apenas por seus pares. Será que esse dia já chegou? Talvez. Referências Bibliográficas AUDIN, Michèle. Remembering Kovalevskaya. Londres: Springer, 2011. Sofia BARRET, Michèle. Ideologia, Política e Hegemonia: de Gramsci a Laclau e Mouffe. In: ZIZEK, Slavoj (Org.). Um Mapa da Ideologia. Tradução de: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996. BERNSTEIN, Basil. A Estruturação do Discurso Pedagógico: Classe, Códigos e Controle. Petrópolis: Vozes, 1996. BHABHA, Homi. 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Também é líder do GP100 (GPCEM – Grupo de Pesquisa Currículo e Educação Matemática), criado em agosto de 2012. Horizontes, v. 30, n. 2, p. 95-102, jul./dez.2012 103 IES – Uma experiência inclusiva no ensino superior1 Lia Scholze* Iolanda Bezerra dos Santos Brandão** Resumo O presente artigo discute a importância do acolhimento, do desenvolvimento da linguagem oral e escrita e da reflexão na trajetória de alunos ingressantes no Ensino Superior, marcado, muitas vezes, por dificuldades de leitura e escrita, principalmente os oriundos de classe popular. Como uma das iniciativas de acolhimento aos calouros, a Universidade Católica de Brasília instituiu a disciplina Introdução a Educação Superior (IES), cujo paradigma metodológico se traduz em uma mediação pedagógica que apóia os estudantes na construção da competência acadêmica necessária para uma eficiente formação, introduzindo-os na reflexão teórica e na compreensão da universidade como espaço de ensino, pesquisa e extensão. A pesquisa2 desenvolvida ouviu dos estudantes em que medida e como a disciplina foi percebida como importante na sua inclusão e permanência no Ensino Superior e preparação de sua formação acadêmica. Aponta para o desafio das instituições de Ensino Superior em oferecer condições de permanência e sucesso aos estudantes. Palavras chave: Linguagem; Reflexão; Inclusão; Ensino Superior. IUSE - An inclusive experience in the higher education Abstract The article discusses the importance of welcoming, of developing oral and written skills and of reflecting for undergraduate students as they are admitted to College, often related to reading and writing skills, mostly for those who belong to unprivileged social classes. A welcoming initiative devised by the Catholic University of Brasilia consists of a subject named Introduction to Undergraduate Students Education (IUSE), consisting of a pedagogical mediation to assist undergraduate students in their process of constructing the appropriate academic competence they need to accomplish their goals. The subject offers the opportunity to develop theoretical reflections that promote the understanding of the University as a learning, research and extension institution. The research carried out with these students intended to listen to their evaluation in terms of their perception of the importance of the IUSE for their inclusion and for not dropping out, as well as for an efficient preparation to academic education. The article also points out to the challenge faced by College Institutions in terms of offering the necessary conditions for these students to remain in the institutions and have a successful outcome. Keywords: language; reflection; inclusion; higher education; IUSE Na educação superior do Brasil está ocorrendo um novo fenômeno, que vem democratizando o acesso de estudantes oriundos da classe popular, geralmente provenientes de escolas públicas. Na última década, a educação superior cresceu mais que em 200 anos, atingindo hoje seis milhões de alunos. Essa ampliação deve ser comemorada, ainda que represente menos de 15% dos jovens entre 18 e 24 anos nesse nível de ensino. Entretanto, a admissão não assegura a inclusão efetiva desses estudantes no nível superior e tampouco sua permanência. Este é um objetivo ainda em construção. Com a preocupação de atender aos novos desafios impostos pela expansão do acesso à Universidade e aos pressupostos institucionais, a Universidade Católica de Brasília (UCB) criou no primeiro semestre do ano de 2010 a disciplina Introdução à Educação Superior (IES). Seu principal objetivo é contribuir para o desenvolvimento das condições necessárias ao * Endereço eletrônico: [email protected] ** Endereço eletrônico: [email protected] percurso acadêmico do estudante, especialmente dos que, historicamente, tiveram sua trajetória escolar caracterizada pela precariedade da escolaridade das classes populares, e prepará-los para enfrentar de forma ética e humana os desafios profissionais. Espera-se que os alunos desenvolvam de forma integral tanto sua condição de sujeito, ou seja, sua capacidade de reflexão, quanto a sua inserção no universo científico e produzam conhecimentos contendo visão crítica da realidade e da comunidade científica, bem como postura ética frente à sua aplicação em suas atividades profissionais e cívicas. A disciplina IES oferece aos estudantes estratégias de ensino-aprendizagem, com especial cuidado na acolhida, com base em propostas metodológicas inovadoras de tratamento da linguagem, prática de escrita e registro discente, a partir da reflexão de conceitos relacionados à comunidade científica e questões da 104 Lia Scholze, Iolanda Bezerra dos Santos Brandão contemporaneidade. Apresenta-se como pressuposto que a formação dos estudantes da classe popular não lhes permitiu desenvolver suas capacidades cognitivas em nível suficiente para enfrentar e vencer os diferentes tipos de desafios do ensino superior. Um dos empecilhos reais no acesso ao conhecimento científico está relacionado à falta de domínio da linguagem oral e escrita. A par disso, preconceitos e processos de exclusão perpetuamse no ensino superior quando não se acredita na capacidade do estudante, e quando a sua situação econômica é compreendida como definidora de desempenho. As recentes políticas públicas de inclusão possibilitaram o ingresso de estudantes que há bem pouco tempo não se permitiam se imaginar na Universidade, principalmente em decorrência de sua condição socioeconômica. Este ‘novo’ (Brito, 2008) aluno exige maior cuidado, principalmente os beneficiários do Programa Universidade para Todos - PROUNI e dos Programas Sociais oferecidos pelos Institutos de Educação Superior, uma vez que sua trajetória cultural está em descompasso do ideal de aluno esperado pela Universidade que, historicamente, no Brasil, teve em seus bancos os filhos da elite. Muitos deles também sofrem um processo de ansiedade constituída da dualidade entre o luto das perdas oriundas do seu passado e a expectativa do novo que os aguarda. Percebe-se que os primeiros contatos desses jovens com a Universidade muitas vezes estão carregados de um forte componente emocional, variando entre entristecimento e euforia pelas perdas e ganhos de sua nova condição. Um estudante relata que “tudo aqui causa medo e entusiasmo [...]”. Sua fala é ressonância do sentimento de muitos, sustentada na quebra de paradigmas entre o passado escolar por eles conhecido e que os reconhecia e a nova realidade vivenciada. A ansiedade instala-se. Eles também sofrem com a dúvida em relação a sua capacidade, como atesta a fala de um jovem após a exibição do filme Escritores da Liberdade (2006): Este filme, diz respeito a minha própria trajetória em uma escola pública [...] quando eu disse que havia passado no vestibular da Universidade Católica a diretora da minha escola não acreditou [...] na verdade apenas dois estudantes neste ano passaram para o curso superior eu na Católica e uma amiga na UNB. O medo do não pertencimento eleva significativamente a ansiedade provocada pelo novo ambiente e os novos grupos sociais que serão ou estão sendo estabelecidos, aumentando o desejo de retornar ao ponto de conforto vivenciado no passado recente, apesar das condições da escola pública, cuja estrutura, na maioria dos casos, apresenta diferentes níveis de precariedade. Conforme relata Gardner (2000), quando os indivíduos não conseguem alterar o que está lhes trazendo ansiedade, tendem a evitar o contato com os grupos que lhes provocam tais emoções, ficando isolados e perdendo a possibilidade de desenvolver sua linguagem, que depende dessa interação, conforme o conceito de mit-sein - ser com o outro, de Heidegger (1967). Enfrentando desafios O cuidado com a acolhida se faz necessário, tendo-se em vista que parte considerável dos estudantes manifesta experiência de encanto e, ao mesmo tempo, intimidação nos primeiros dias na Universidade. Tudo é novo, diferente e, para muitos, grandioso demais. No mínimo assustador. A obrigação de compreender este momento e, principalmente, de propiciar dentre as ações pedagógicas um trabalho de acolhida é imprescindível, como forma de ajudar a minimizar os impactos nocivos desses primeiros contatos, considerando as expectativas dos estudantes que acessam o espaço acadêmico oriundos das mais diversas vertentes sociais, econômicas e culturais. A disciplina IES pretende propiciar um olhar específico e, ao mesmo tempo, abrangente do papel social do indivíduo-estudante, na perspectiva de ele vir a se tornar transformador de sua própria história e da sociedade. A importância do processo de acolhida por parte da Universidade reside em devolver-lhes a palavra, desafiando sua autoria e autonomia (FREIRE, 1978, 1996), ampliando sua habilidade no uso da linguagem, provocando a linguagem reflexiva. Pensar na transição do texto escolar para a elaboração de um texto argumentativo/reflexivo, com perspectiva de iniciação na produção do texto científico, é um desafio que precisa ser encarado. Na Universidade, o esforço a ser feito é o de preparar o estudante, independente de sua origem escolar, para o uso da linguagem elaborada (FOUREZ, 1995). Porém, esse caminho exige estratégias a serem seguidas, e a escrita de si, histórias de vida ou autonarrativas (diferentes denominações para o mesmo processo) se mostra como um bom começo. De acordo com Arendt (1995), pela escrita, o homem representa a vida, cria Horizontes, v. 30, n. 2, p. 103-114, jul./dez.2012 IES – Uma experiência inclusiva no ensino superior narrativas, interroga as ações dos outros homens; dá sentido à sua própria vida através das histórias que conta. O sujeito estabelece a reflexão consigo mesmo, sobre sua relação com os outros sujeitos e também com o mundo, criando novas possibilidades para sua existência, numa permanente recriação da mesma. Como diz Larrosa (1995), é transformado pela experiência. O sujeito não só passa pela experiência, mas, também a experiência passa por ele, provocando uma mudança na sua sensibilidade, no seu nível de conhecimento e na sua visão de mundo, alargando sua experiência de sujeito (SCHOLZE, 2005). Com base nas concepções heideggerianas sobre a condição humana, passa-se a entender que ela é atravessada pela compreensão da linguagem como elemento fundamental e necessário, pois, segundo o autor, somos “ser de linguagem”. A reflexão e a escrita caminham juntas e fazem parte da condição humana, ligando o ser humano à vida como experiência vivida que irá se concretizar no registro dos pensamentos e das reflexões (ARENDT, 1995). Para Arfuch (2002), ao se colocar ordem nas idéias, coloca-se também, ordem no caos da existência. A escrita como exercício constante, abordando diferentes temas de interesse atual, provocando reflexões sobre conceitos da contemporaneidade, considerados fundamentais para quem ingressa no ensino superior, traz consigo desafios, como a cada vez maior competência do estudante na produção de textos; garantia de exposição clara, progressão de idéias, proximidade com a norma culta, proximidade com o texto acadêmico e/ou científico, uso das normas da escrita científica. Porém, esse esforço pode produzir efeito contrário, pode parecer assustador. Refletir sobre questões abstratas, ler, interpretar autores reconhecidos academicamente, ser capaz de utilizar os conceitos na sua própria escrita, é um desafio que nem sempre é encarado com tranquilidade. Foucault (1994) afirma que o ato de escrever serve para mudar a nós mesmos, e a não pensar mais o mesmo que se pensava antes de ter passado pela experiência da escrita. É necessário compreender que os sentidos do discurso (texto) são construídos tanto na relação subjetiva do sujeito consigo mesmo, como intersubjetiva do sujeito com outros sujeitos - mit-sein (HEIDEGGER, 1967) ou dialogismo (BAKTHIN, 1995). Para tanto, é preciso que as relações no grupo sejam amistosas e cooperativas; que haja respeito pela trajetória do estudante, Horizontes, v. 30, n. 2, p. 103-114, jul./dez.2012 105 compreendendo que ao longo da sua vida estudantil ele foi instado a fazer silêncio. É preciso criar estratégias significativas, que façam sentido para eles e que não promovam a auto-exclusão, resultante do sentimento de incapacidade ou da certeza antecipada de fracasso que tem o poder de imobilizar a ação. Ao professor cabe a responsabilidade de ajudar o estudante a vivenciar este novo universo. O desafio proposto é de construir uma nova narrativa de si através da certeza na capacidade de alcançar um novo patamar de relação com o conhecimento. Ao serem introduzidos na Universidade e terem acesso a atividades que requeiram autonomia, visão crítica e autoria, rompem-se os paradigmas construídos por mais ou menos dez anos de vida escolar. É compreensível que haja resistência. Porém, se não for explorada a prática da reflexão oral e escrita, sonega-se ao estudante o caminho seguro de sua autonomia intelectual. Estamos diante de um desafio: as turmas estão cada vez menos homogêneas. Nossos planos de ensino precisam ser revistos, o que não significa rebaixamento de qualidade, como pensam alguns, e sim o delineamento de uma nova abordagem. O desejo é que o trabalho desenvolvido contribua para a formação integral do estudante; aumente suas chances de sucesso na vida acadêmica; diminua os índices de evasão resultantes da auto-exclusão diante da descrença na possibilidade de vencer os desafios naturais desta etapa de formação; que o estudante sinta-se acolhido e apoiado no enfrentamento de eventuais dificuldades e confiante na sua possibilidade de superação; que esteja mais bem preparado para seguir em frente, aceitando sempre novos desafios. Motivação da pesquisa O desenvolvimento da disciplina IES tornou-se objeto de interesse de um grupo de pesquisadores da UCB interessados no desenvolvimento pedagógico e, principalmente, em como os estudantes percebem a proposta da disciplina. Após definição do marco teórico e da metodologia, foram analisadas as avaliações institucionais referentes ao primeiro ano da disciplina, em 2010, constituídas de cartas (relatos de estudantes, em linguagem coloquial, de suas vivências na disciplina IES, a um amigo, familiar ou estudante candidato a ingressar na UCB) e memoriais (por meio dos quais, os estudantes relatavam suas experiências de 106 Lia Scholze, Iolanda Bezerra dos Santos Brandão aprendizagens acadêmicas focando, especialmente, os conteúdos trabalhados no semestre). A disciplina é organizada através de dois encontros semanais de quatro horas cada perfazendo 120h/aula. A pesquisa foi intitulada: Contribuições da disciplina Introdução à Educação Superior no processo de inclusão efetiva dos estudantes. A principal questão que orienta o projeto de pesquisareside na análise dos recursos e métodos necessários ao esforço de superação do que Bourdieu e Passeron (2008) chamaram de “exclusão adiada”. As classes populares têm menos oportunidades materiais e educacionais a oferecer aos seus membros e lidam com dificuldades incessantes; por força desses fatores, os estudantes, em sua maioria, oriundos de escolas públicas, demonstram propensão maior à eliminação; o sistema assim se reproduz, legitimado pela escola. Mesmo os ‘casos de sucesso’ de estudantes provindos de classes populares não testemunham o contrário dessa constatação, uma vez que servem ao intuito ideológico de retirar ao sistema toda culpabilidade – sua retórica insiste em que basta as pessoas se esforçarem, e é certo que todos podem ser bemsucedidos” (Justificativa do Projeto de Pesquisa, UCB, 2010). O resultado da investigação desses pensadores franceses auxilia-nos no melhor entendimento da especificidade do caso brasileiro, mormente no que tange a um risco em que pode incorrer a nossa educação superior: o de haver no crescimento do acesso ao ensino superior uma possível dissimulação da exclusão mediante uma inclusão aparente. Juntamente com o desafio e necessidade do aumento de vagas no ensino superior, faz-se necessária a busca por uma inclusão efetiva desses estudantes, garantida por políticas pedagógicas de permanência. Assim, o projeto de pesquisa desenvolvido procurou identificar em que medida o conteúdo da disciplina IES contribui com o engajamento dos estudantes ingressantes na Universidade aos propósitos institucionais, através da análise dos registros acadêmicos. A pesquisa consiste na análise, investigação e compreensão das falas dos estudantes quanto à percepção das estratégias pedagógicas envolvendo a acolhida, o cuidado com a linguagem e a reflexão desenvolvidas no interior da disciplina e o esforço da Direção do Curso de Filosofia, Coordenação da disciplina e do grupo de professores envolvidos em garantir a efetiva inclusão e permanência dos estudantes na Instituição e desenvolver neles o sentimento de pertença ao mundo acadêmico, indo ao encontro dos propósitos Institucionais apresentados na missão pedagógica da UCB. Assim, procedeu-se ao exame da produção escrita, a forma como foram percebidas as ações de recepção aos estudantes, escuta sensível (BARBIER, 2002) das histórias de vida, impacto da relação docente-estudante e estudanteestudante, entendimento da Universidade como espaço que privilegia a crítica, sedimentada a partir do diálogo; atividades de aprimoramento da reflexão dos estudantes com uma rotina preocupada com registros e acompanhamento, reescritura/reflexão crítica; a perspectiva dialógica dada à linguagem na disciplina, aprimoramento da competência linguística, capacidade de reflexão e desenvolvimento de autoria. Constituem-se como universo da pesquisa, 115 estudantes, do total dos quase 3.000 ingressantes na Universidade em 2010, maiores de 18 anos, selecionados de forma aleatória nas diversas turmas. Foram coletados os Termos de Consentimento e Livre Esclarecido, com assinatura de forma voluntária, conforme exigência do Comitê de Ética em Pesquisa, devidamente protocolados. A pesquisa tem em sua natureza a dimensão da compreensão do contexto sóciohistórico, onde todos os sujeitos envolvidos no processo são participantes ativos, ou seja, são sujeitos do processo. Cabe, pois, a abordagem metodológica a partir da hermenêutica. A racionalidade hermenêutica trabalha com a pertença do sujeito à história e a constituição de sentido como obra de subjetividade não isolada e separada da história. Baseada na premissa de que somente é possível compreender no horizonte do ser, justifica-se o esforço em retomar a história do sujeito como elemento chave do processo de acolhida e de inclusão no lugar denominado mundo acadêmico, ou ensino superior. A hermenêutica argumenta que há outras formas de conhecer a realidade, a partir, inclusive, de outras experiências tais como as proporcionadas pela arte e pela consciência histórica (HERMANN, 2002). Ela é a arte de compreender, derivada de nosso modo de estar no mundo. Segundo Gadamer, Compreender significa que eu posso pensar e ponderar o que o outro pensa. Horizontes, v. 30, n. 2, p. 103-114, jul./dez.2012 IES – Uma experiência inclusiva no ensino superior [...]. Compreender é, portanto, uma dominação do que nos está a frente, do outro e, em geral, do mundo objetivo (2000, p. 23). Na perspectiva da investigação hermenêutica (GADAMER, 2000) nas ciências humanas e na filosofia, tudo se converte em texto. O método de análise dos dados parte da hermenêutica, que está diretamente ligada à linguagem. É uma relação reflexiva entre o objeto, os dados e o pesquisador. A atitude de abertura do pesquisador é fundamental, visto que a própria consciência hermenêutica aponta para a experiência constante de construção. Não há, portanto, certezas, mas a construção a partir da interpretação da linguagem, dos símbolos, do dito e do não-dito. Gadamer (2000) sugere sete princípios para a condução da pesquisa: compreensão através de uma reflexão dialógica (os pesquisadores dialogaram com os textos em análise, procurando extrair deles as pistas que o conduziram à compreensão dos elementos presentes); contextualização – fundo social e histórico (compreensão de que o texto foi produzido em um determinado momento e em determinadas circunstâncias); interação entre pesquisador e participantes (os pesquisadores se colocaram como elemento integrante, no caso, são todos membros atuantes da disciplina); abstração e generalização – as conclusões gerais são abstraídas de seus detalhes ideográficos (individuais) e aplicadas (os textos dos estudantes formam o corpus, porém procurou-se resguardar as especificidades de cada um dos discursos analisados); raciocínio dialógico – diante das contradições entre os preconceitos teóricos e as conclusões emergentes dos dados (na primeira leitura foi feito um esforço de percepção do que os dados tinham a dizer, evitando uma visão préformada a partir de eventuais expectativas que tenham sido criadas); múltiplas interpretações – múltiplas vozes oferecem diferentes e novas Horizontes, v. 30, n. 2, p. 103-114, jul./dez.2012 107 interpretações (procurou-se perceber as recorrências mas também as singularidades, o dito e o não-dito, os silenciamentos, e o novo, o diferente); suspeita e sensibilidade – em relação aos preconceitos do próprio pesquisador (o esforço foi feito no sentido de não dar ênfase à nossa própria expectativa, e manter a postura de abertura em relação ao que o texto nos mostra, procurou-se prestar atenção aos nosso próprios preconceitos, evitando deixar que eles orientassem a leitura). Em uma análise textual, procura-se sistematizar respostas para as questões formuladas, confirmar ou não as elaboradas para a pesquisa. A outra função diz respeito à descoberta do que está além da superfície do texto. Pelos escritos dos estudantes, objetiva-se compreender se os propósitos da disciplina estão sendo alcançados, numa perspectiva de compreensão dessas falas no contexto do ensino superior, hoje. Análise preliminar de dados A expectativa inicial dos pesquisadores é que as escritas dos estudantes possam ajudar na reflexão a respeito das condutas pedagógicas dos professores da IES e os demais cursos da Instituição. O enfrentamento das condições acadêmicas dos estudantes pesquisados pode ser observado nos escritos. Das 115 cartas analisadas, 50 relatam o importante processo de acolhimento da IES, citando seu passado escolar, muitas vezes carregado de dificuldades na leitura e na escrita e, ao mesmo tempo, relatando o quanto a disciplina favoreceu em sua inserção no ensino superior. A apreciação das cartas foi realizada à luz dos objetivos da disciplina: Cuidado com a Acolhida; Cuidado com a Reflexão e Cuidado com a Linguagem, tendo como basea metodologia, os conteúdos e a rotina em sala de aula desenvolvida pela IES. 108 Lia Scholze, Iolanda Bezerra dos Santos Brandão Fonte das tabelas e gráficos: Relatório de Pesquisa 2011: Contribuições da disciplina Introdução à Educação Superior no processo de inclusão efetiva dos estudantes. Algumas falas chamam a atenção: “Aprendi a me comportar como universitário e como utilizar as ferramentas certas nessa nova realidade que é a Universidade”, o que contribui para a construção de um espaço pedagógico que favoreça a pertença ao grupo. Outra fala chama a atenção para os “[...] vários debates e várias reflexões para desenvolver o senso crítico [...] e o professor está sempre disposto a ajudar, aberto a opiniões e ideias”3. A recorrência deste aspecto deve-se à própria natureza de acolhida da disciplina que compreende o estudante como sujeito do processo de construção do conhecimento na ressignificação de tempos e espaços escolares e das relações e tensões constitutivas da sala de aula. Fonte das tabelas e gráficos: Relatório de Pesquisa 2011: Contribuições da disciplina Introdução à Educação Superior no processo de inclusão efetiva dos estudantes. Destacam-se citações positivas de 68 estudantes sobre a relação construída entre eles e seus professores. Este item apresentou maior número de ocorrências. Percebe-se que essa relação é considerada como um elemento importante do aprendizado. “A professora se esforça em suas aulas, sempre montando aulas dinâmicas com temas interessantes. Nas chamadas ela tem seu ritual, conversa com cada um, uma forma de testar o humor e ver como os alunos estão presentes”. Pode-se dizer que é algo que os surpreende, tanto pela proximidade, pela abertura ao diálogo, quanto pela atenção recebida. Percebem, também, que as exigências têm como finalidade garantir o aprendizado. [...] quero te agradecer desde o momento da chamada em que você sempre nos perguntava como estávamos nos sentindo naquele dia [...]. Com os registros estimulei uma capacidade maior de escrever, sua relação comigo e com os outros estudantes foi muito agradável, Horizontes, v. 30, n. 2, p. 103-114, jul./dez.2012 IES – Uma experiência inclusiva no ensino superior quanto aos outros colegas, agora amigos. A respeito das relações entre os estudantes, considerando-se a diversidade de alunos provenientes de vários cursos nas turmas de IES, 60 alunos atribuem muitaimportância aos laços de amizade e companheirismo entre os colegas de turma. A troca nos debates e os trabalhos em grupo são apontados como de grande validade no crescimento das relações interpessoais 109 que são fortalecidas dentro da IES. “Meus colegas de sala são participativos, gostam de debate, falam o que acham sobre determinado assunto [...] posso falar que aproveitei muito essa matéria aprendi com as pessoas que caminharam comigo [...]”. Também “Aqui como todos os lugares existem aquelas “Panelinhas” mas qualquer pessoa pode interagir com esses grupos, pois aqui existem pessoas acolhedoras [...] elas, não vão te deixar sozinho”. Fonte das tabelas e gráficos: Relatório de Pesquisa 2011: Contribuições da disciplina Introdução à Educação Superior no processo de inclusão efetiva dos estudantes. Os estudantes reconhecem suas limitações e admitem que a disciplina os auxilia no aumento da qualificação de sua produção oral e escrita bem como no aprofundamento dos níveis de leitura. Apresentam ponderações a respeito da reorganização do modo de pensar sobre os conteúdos, metodologia de apresentação, discussão, debate e reflexão. “[...] Eu aprendi fazer resenha, lembra que o professor [...] passou dois anos para tentar me ensinar, pois é, em menos de seis meses eu aprendi a fazer resenha, resumo, fichamento, registros e entre outros”. Refletem sobre as exigências na leitura e na escrita como forma de garantir o aprendizado. Leitura e escrita é um fator muito importante porque abre novos horizontes. A leitura para nós é de grande valor quem não lê, não fala, não escreve e não pensa. [...] Escrever é transpor seus pensamentos, suas opiniões para um papel e aperfeiçoar a cada instante, a Horizontes, v. 30, n. 2, p. 103-114, jul./dez.2012 cada dia [...]. Nessa disciplina deu para perceber que tudo que estudamos faz parte do nosso cotidiano, que forma nossa maneira de viver e de pensar. [...] Então podemos concluir que através de nossa linguagem e nosso pensamento podemos construir o mundo que somos e o mundo que sonhamos. As dificuldades advindas do baixo rendimento escolar na rede pública de ensino também são registradas pelos estudantes: “[...] quando decidi fazer minha faculdade pensava eu que seria muito difícil encarar essa nova experiência, devido o ensino que tive em algumas escolas públicas que estudei [...]”. Outro estudante relata “O Senhor sabe que como sempre estudei em escola pública, deixei de aprender muitas coisas, só que aqui eu estou recuperando o tempo perdido e aprendendo pra valer [...]”. 110 Lia Scholze, Iolanda Bezerra dos Santos Brandão Fonte das tabelas e gráficos: Relatório de Pesquisa 2011: Contribuições da disciplina Introdução à Educação Superior no processo de inclusão efetiva dos estudantes. Análise dos memoriais A leitura dos memoriais foi realizada de forma livre, seguindo a perspectiva hermenêutica de ouvir a voz do sujeito partindo da escuta livre dos discursos produzidos pelos sujeitos envolvidos na pesquisa. Os memoriais mencionam a importância de elementos como: metodologia (proposta da disciplina permite relacionar diferentes temas e conceitos); conteúdos (materiais diversificados/atividades/temas – assuntos variados/habilidades desenvolvidas) e o trabalho com a leitura e escrita. O aspecto mais importante a destacar é o fato de que quase 100% dos estudantes expressam uma percepção positiva – dos 115 memoriais analisados, apenas três fazem algum tipo de restrição à disciplina. Um deles apresenta um texto contraditório pois afirma no final a importância da IES para seu curso. Com relação a sua vivência no espaço universitário, os estudantes, na mesma perspectiva já apresentada nas cartas, demonstram percepção positiva e, ao mesmo tempo, grande expectativa com relação ao seu ingresso na Universidade. Para eles, a disciplina IES facilita o processo de integração ao mundo acadêmico. As abordagens desenvolvidas na disciplina sobre Ética/Conhecimento e Ciência foram destacadas pelos estudantes, quanto a sua relevância na compreensão do sujeito crítico frente à realidade de sua vida pessoal e profissional. Permite pensar o futuro, ressignificar seus sonhos e projetos. Sei que a universidade será de grande valia na minha formação, na concretização de meus sonhos [...] quero ser um profissional de sucesso, e sei que a universidade vai me abrir caminhos, e vai me capacitar para alcançar meus objetivos e realizar meus sonhos. A superação pessoal e familiar é um tema abordado pelos estudantes, principalmente os oriundos de escolas públicas. “outro fator importante é que meus pais não tiveram a oportunidade de cursar o ensino superior e isto me dá razão para eu estar na universidade hoje [...]”. Destaca-se a possibilidade encontrada na disciplina de ampliação das relações de amizade construídas além de seu próprio curso, uma vez que as turmas da IES são constituídas de estudantes de diversos cursos. “Aprendi a aceitar [...] as outras pessoas como seres humanos [...] com histórias e sonhos diferentes”. E, “[...] podemos compartilhar experiências, ter contato com pessoas de outros cursos”. A relação estudante/docente, também, é um dos elementos apontados como fator preponderante no processo de aprendizagem dos estudantes. “Concluo que o professor me introduziu em mundo novo, nos proporcionou novas experiências podendo assim, ter melhor visão da realidade”. A respeito dos conteúdos da IES, alguns aparecem com mais evidência: o trabalho com filmes; as Normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT; a produção de resumos, sínteses. Os temas abordados são considerados atuais, variados e diversificados. Os diferentes ambientes de aprendizagem, as palestras, a visita à biblioteca, a apresentação de filmes e documentários, as atividades ao ar livre, compõe um conjunto de ações, visto como favorável à motivação e ao envolvimento dos estudantes. Pode-se constatar a partir das falas: “[...] os textos lidos, os vídeos assistidos e todas as Horizontes, v. 30, n. 2, p. 103-114, jul./dez.2012 IES – Uma experiência inclusiva no ensino superior dinâmicas feitas em sala de aula, podendo ter comunicação com todos os colegas, tudo isto me fez ter um reconhecimento diferente da disciplina e tenho vivido isto a cada aula”. E “Na IES aprendi outras questões além do meu curso, aprender sobre políticas públicas. Aprender sobre a universidade foi fundamental para me sentir parte do espaço da universidade e deu segurança”. Ou ainda,“[...] a minha evolução foi superior em relação ao que eu esperava [...], hoje a minha visão é outra, o interesse pela leitura de mundo aumentou e tenho tido experiências a partir do que eu tenho visto e vivido em sala a disciplina me trouxe um despertamento [...]”. A dificuldade de compreender e, inicialmente, fazer uma correlação positiva da IES com sua trajetória acadêmica é claramente demonstrada pelos estudantes. A superação dessa primeira percepção vai ser construída à medida que compreendem o processo pedagógico da disciplina e sua importância na sua formação profissional. Como podemos constatar nos excertos abaixo: A IES no primeiro momento parece uma pressão, porem é possível perceber que é uma qualificação para o preparo para a pesquisa e dedicação ao estudo. Aprender a se desprender do senso comum foi um ganho na IES e também aprender a colocar o que a prendo no curso dentro do contexto pesquisa e extensão. Ou ainda, “[...] essa disciplina foi se mostrando bem diferente com aulas mais dinâmicas onde podemos expressar nosso ponto de vista sobre os fatos e temas apresentados pelo professor em sala de aula”. A IES ensinou a enfrentar os desafios e a melhorar as deficiências de conhecimentos. A IES é o inicio de um grande caminho de aprendizagem e de conquistas. São muitos os desafios. Tem cansaço, correria, desafios, desânimo, mas a universidade é a oportunidade de mudar de vida. O mercado de trabalho precisa de pessoas boas, que busquem soluções para os problemas sociais que assolam o país. Os assuntos estudados em IES tem tudo a ver com a realidade vivenciada. A universidade nos possibilita ver o mundo de forma diferente. Como também, “[...] a IES foi bastante importante na minha caminhada até aqui, contribuindo sim para consolidar minha escolha, Horizontes, v. 30, n. 2, p. 103-114, jul./dez.2012 111 posso dizer que tenho certeza do curso em que quero me formar”. E,“IES, é desafio de que a construção do conhecimento é gradativa e constante [...]”. Ainda, “A IES ajudou na construção do texto e na interpretação assim como na exposição em público. IES colabora na abertura das ideias e da visão de mundo”. Bem como,“IES é uma matéria aparentemente sem importância, mas que vai conquistando e mostrando seu valor ao longo do semestre. Hoje vejo que melhorei muito graças a essa matéria, e sei que todos que passarem por ela também crescerão muito com ela”. Também,“Esta caminhada pela disciplina IES também vai ajudar na minha carreira profissional [...] esse senso crítico adquirido na graduação será de grande valia [...]”. Três aspectos também compõem os escritos dos memoriais dos estudantes: o processo de acolhida que recebem, desde os primeiros encontros da IES, por parte dos docentes; o processo de transição entre Ensino Médio e o Ensino Superior e a utilização de materiais diversificados como componente didático pedagógico. “[...] pude perceber a importância da sensibilidade, a atenção as relações humanas fatos todos apresentados pelo professor [...] e que é essencial para o convívio na sociedade, o respeito”. E, [...] ansiosos por conhecer o novo mundo universitário, somados a vontade de ensinar da professora que ministrou a disciplina, me fizeram olhar para trás e perceber o que havia de certo e errado na minha trajetória, bem como auxilio a planejar o caminho que ainda virá que, com conhecimento já adquirido pode ser de sucesso. Ainda, “Sempre estudei em escola pública, na cidade onde vivo não existe recursos que possam ajudar com êxito na formação de grandes profissionais, com muito esforço consegui chegar aonde estou”. Bem como,“IES apresenta o papel da universidade para o estudante. O papel da ciência e do conhecimento para o desenvolvimento da sociedade. Conhecer sobre as comunidades científicas e modelos de estudos”. Ou ainda, “Universidade é SONHO”. Sinto-me privilegiada por ter tido a oportunidade de cursar a disciplina de IES porque muito me acrescentou para seguir minha carreira com disposição de ajudar aos próximos. Sem contar que 112 Lia Scholze, Iolanda Bezerra dos Santos Brandão superei o meu medo e receio de falar em publico por me sentir tranquila nas aulas devido a maneira como as mátrias foram dadas (meio de diálogo, deixando aberto espaço para reflexão de outras possibilidades de pensamento). “IES ajuda na argumentação e manter ideias para a construção de pensamentos diferenciados. IES ajuda no contraponto da média que relata uma parte da realidade. Vários textos utilizados foram importantes para a mudança e construção de argumentos”. E, “[...] as aulas de IES não contribuíram apenas na minha formação de um ser humano melhor, mas flexível, mas solidário, mas compreensível, mas humano. A importância dessa matéria vai muito além da formação de um profissional competente, mas petiço e batalhador.” Não há dúvida de que o processo de construção e ressignificação da leitura, escrita e oralidade por intermédio dos registros são observados como positivos no desenvolvimento acadêmico dos estudantes - firmar conteúdos ressaltados na importância da escrita; textos lidos e debates; importância da palavra; universo simbólico; leitura, escrita e oralidade. Exemplificamos com algumas falas dos estudantes: “Não tinha tanta habilidade em seminários, com a disciplina eu melhorei. Não só neste aspecto mas também na escrita, na oralidade do dia-a-dia e na defesa dos meus ideais [...]”. Ou,“[...] a escrita nos diários nos proporciona uma melhor escrita e a fixação do que temos estudado desde o começo”. Também, “[...] quero ressaltar o fato de que a leitura é sempre mencionada e muito trabalhada em sala [...] o que proporciona maiores chances de expor e debater com mais argumento e consciência”. Por fim, a importância de se discutir ciência e as diversas compreensões dialógicas entre globalização; comunidade científica; construção do conhecimento científico; filosofia da ciência; ciência moderna; paradigmas; universidade e sociedade; realidade; globalização; história de vida. Os estudantes fizeram ponderações como: “[...] tenho tido a oportunidade de ler de forma mais detalhada e aprofundada várias questões relacionadas à política, ao social, ao cultural que me fazem refletir e criar minhas próprias críticas e reflexões”. E, “[...] é muito bacana o fato de termos estudado o consumo, a política, a comunidade científica entre outros assuntos que não fazem parte diretamente ao curso que escolhi”. Ou ainda, “[...] formei um novo paradigma com a minha nova realidade: sempre se é preciso quebrar uma velha verdade absoluta e estar aberto a uma nova; para se mudar a vida ao mudar a nossa percepção de mundo”. Considerações finais As análises preliminares das cartas e dos memoriais dos estudantes demonstram o quanto é oportuna a proposta desenvolvida pela UCB. Os estudantes reconhecem, de modo geral, os diferentes níveis de crescimento que a disciplina proporciona. Em relação aos docentes, houve um trabalho fecundo de interação e aprimoramento a partir da escuta dos seus alunos, oportunizando que o processo, como um todo, sofresse um contínuo aprimoramento, tanto em nível metodológico, de seleção de materiais; de aprofundamento das abordagens e de enriquecimento das atividades; como atividades de recepção inicial ou dos encontros temáticos. De outro modo, nos ajuda a perceber o quanto ainda se faz necessário trabalhar para termos a compreensão de todo o processo que envolve a construção e desenvolvimento desta jovem disciplina em seus aspectos teórico, prático e metodológico. Pela sua própria natureza, muitas outras questões ainda estão emergindo. Diversos materiais produzidos pelos professores e estudantes poderão ser objeto de análise nessa ou em uma futura pesquisa. Hoje, após cinco semestres de oferta da disciplina cabe uma nova investigação para avaliar em que medida este crescimento se deu. Entretanto, uma constatação é claramente observada nessas primeiras análises: a grande responsabilidade social das instituições de ensino superior que, alicerçadas nos diversos programas do Governo Federal, acolhem este novo público. O grande desafio destas instituições é oferecer um ensino de qualidade com vista à formação teórica, humana e social garantindo a permanência e o sucesso dos estudantes que acessam o espaço acadêmico, de modo que possam, como profissionais, contribuir com a construção de uma sociedade mais justa e igualitária, utopia possível a partir da formação de novos quadros nas diferentes áreas oriundos de estratos sociais que trarão novas experiências para suas futuras áreas de trabalho, lançando quem sabe soluções mais éticas e mais socialmente preocupadas com a maioria da população, mudando, quiçá, o perfil dos profissionais em diferentes áreas. No cotejamento entre as Cartas e os Memoriais observam-se manifestações positivas em relação ao espaço universitário; as diversas Horizontes, v. 30, n. 2, p. 103-114, jul./dez.2012 IES – Uma experiência inclusiva no ensino superior vivências experimentadas e o desempenho acadêmico dos estudantes, além das relações interpessoais desenvolvidas em ambos os materiais. Em que pese os documentos terem sido escritos pelos estudantes em situação de avaliação em final de semestre, a recorrência em quase sua totalidade de manifestações positivas em relação a diferentes aspectos da disciplina nos permite concluir que houve aceitação e compreensão da proposta pedagógica da disciplina IES junto aos estudantes. A apresentação dos dados coletados em reunião interna com o grupo de professores (entre 30 a 40 docentes por semestre, dependendo do número de matrículas) junto com a Coordenação da disciplina e direção do Curso de Filosofia, permitiu a reflexão sobre a trajetória da disciplina até o presente momento, que completa cinco semestres desde a sua implantação, no primeiro semestre de 2010. O detalhamento de cada um dos aspectos analisados oportuniza que o trabalho seja constantemente ressignificado e aprimorado, buscando cada vez garantir melhores condições de aprendizado aos estudantes, em coerência com a missão institucional da Universidade Católica de Brasília. 113 FOUREZ, G.. A construção das ciências: Introdução à filosofia e a ética das ciências. SP: UNESP, 1995. FOUCAULT, M. Entretien avec Michel Foucault. In: _____. Dits et écrits.V. IV. Paris: Gallimard, 1994, pp. 41-95. ________. A ordem do discurso. Trad. Laura Fraga de Almeida Sampaio. 5 ed. São Paulo: Loyola, 1999. FREIRE, P.. 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Projeto de Pesquisa – PAGE - UCB, 2010. 114 Lia Scholze, Iolanda Bezerra dos Santos Brandão Notas 1 O trabalho foi apresentado no XVI ENDIPE – Encontro Nacional de Didática e Práticas Pedagógicas. Campinas, São Paulo, 2012. 2 A presente pesquisa é financiada pela Universidade Católica de Brasília. 3 As autoras optaram por manter os escritos dos alunos de acordo com o original. Sobre as autoras: Lia Scholze: Doutora em Educação (UFRGS), professora da Universidade Católica de Brasília (UCB), coordenadora da pesquisa Contribuições da disciplina Introdução à Educação Superior no processo de inclusão efetiva dos estudantes. Iolanda Bezerra dos Santos Brandão: Doutora em Psicologia Social (PUC/SP), professora da Universidade Católica de Brasília (UCB), membro do grupo de pesquisa Contribuições da disciplina Introdução à Educação Superior no processo de inclusão efetiva dos estudantes. Horizontes, v. 30, n. 2, p. 103-114, jul./dez.2012 115 Para além da relação poder-saber: governo-verdade Clarice Nunes Ferreira Costa* FOUCAULT, Michel. Do governo dos Vivos – Curso no Cóllege de France, 1979-1980 (excertos). Tradução, transcrição, notas e apresentação de Nildo Avelino, Rio de Janeiro Achiamé, 2010. O livro ora resenhado é constituído por um curso ministrado por Michel Foucault entre 1979 e 1980, sem edição ou verificação acadêmica, mas que traz ao leitor a circulação de ideias propostas pelo filósofo. Os editores do livro afirmam que a edição oficial do curso virá a público o mais breve possível e que por enquanto podemos nos aventurar em excertos de Do governo dos vivos. Michel Foucault (1926 – 1984) é um dos filósofos mais aclamados de seu tempo. Ao longo de sua carreira desenvolveu o que para alguns autores são chamadas de fases, para Veiga-Neto são domínios foucaultianos. Levando em consideração que a questão central da obra de Foucault é o sujeito, o primeiro domínio é chamado de Arqueologia, que se dedica a descoberta do sujeito e do saber. O segundo domínio, o filósofo desenvolve sobre o sujeito e o poder, chamado, então, de Genealogia. No terceiro domínio, Foucault dedica seu trabalho a estudar o sujeito consigo mesmo. Esta é a fase da ética, da estética e da história da sexualidade. Do governo dos vivos é um curso dado entre um domínio e outro; segundo Pasquale Pasquino, colaborador de Foucault no Collège de France, foi o inconveniente da guerra que levou o filósofo perceber a dicotomia entre soberania, entendida como forma jurídica, e um poder disciplinador e normalizador, emergindo daí a questão do governo. Por se tratar de um curso, a leitura desta obra destoa da leitura dos livros do autor, pois ele não se preocupa com a coerência das palavras como ele o faz em seus livros. A partir de 1980, Michel Foucault introduz uma nova problematização nos seus estudos sobre a relação de poder através da qual ele renovou consideravelmente seu “método” de análise: trata-se da anarqueologia dos saberes que consiste no deslocamento analítico do eixo Poder-Saber para o eixo “governo dos homens pela Verdade sob a forma de Subjetividade” (AVELINO, 2010, p. 11-12). O movimento que leva o autor ao cerne de seu curso, ora resenhado, parte do abandono do discurso da guerra como operador analítico de poder e passa para um novo conceito de governo, da analítica do poder à ética do sujeito. Precisamos assim, partir do conceito de govenamentalidade, pois Foucault tom(a) por objeto de estudo os modos de conceitualização das práticas de governo com a finalidade de apreender a maneira para qual essa conceitualizaçao estabeleceu os objetos, as regras gerais e os objetivos de conjunto que são próprios ao seu domínio. Trata-se em suma, de um estudo da racionalização da prática governamental no exercício da soberania política (AVELINO, 2010, p. 17). Sendo assim, Foucault aborda a constituição histórica das nossas formas atuais de obediência. Com sua genialidade, o autor conduz suas aulas passando pela Antiguidade, a Idade Média e a Era Moderna. Ainda, a verdade é a desencadeadora da racionalidade neste percurso. Na aula 1, Foucault conta a história do Sétimo Severo, em que seu exercício de poder se dá pela manifestação de uma verdade, revelando que o Imperador Romano pronuncia uma sentença de ordem num mundo estabelecido, isto é, ele impõe uma sentença pela verdade já posta. O poder não se manifesta sem a verdade. “(...) Sétimo Severo rendia sua justiça e pronunciava suas sentenças de maneira a inscrevê-las numa ordem do mundo absolutamente visível fundada em direito, fundada em necessidade, fundada em verdade” (FOUCAULT, 2010, P. 31). Foucault explica que a natureza entre o ritual da manifestação da verdade e o exercício de poder encontra-se [n]um conjunto de procedimentos verbais ou não, através dos quais é atualizada a consciência individual do soberano e o saber de seus conselheiros; um conjunto de procedimentos verbais ou não através dos quais atualiza-se qualquer coisa que é afirmada, ou melhor, colocada como verdadeiro, seja por oposição a um falso que foi eliminado, discutido, refutado etc., 116 mas que é também colocado como verdadeiro por revelação ou ocultação, por dissipação disso que é esquecido, por conjuração do imprevisível (FOUCAULT, 2010, p.35). Sétimo Severo acreditava nos astros para o exercício de seu poder e o exercia sob o céu astral desenhado em sua cúpula que o conduzia; esse céu presidia “sua justiça, seu destino, sua fortuna; se ele quis que os homens lessem como verdade aquilo que ele fazia como política, aquilo que ele fazia em termos de poder, tudo isso não passava do jogo de um imperador (...)” (FOUCAULT, 2010, p. 32). Para, além disso, no céu estrelado “(...) vê-se uma espécie de manifestação pura do verdadeiro, manifestação pura da ordem do mundo em sua verdade, manifestação pura do destino do imperador e da necessidade que lhe preside, manifestação pura da verdade sobre a qual, em última instância, se fundam as sentenças do Príncipe” (FOUCAULT, 2010, p. 34). A respeito do Príncipe da Renascença, Foucault explicita que há em torno dele certo número de atividades, saberes, conhecimentos, práticas e, ainda, afirma que (...) o fenômeno das cortes representa também outra coisa e que havia nas cortes, e nessa extraordinária concentração de atividades culturais, uma forma de dispêndio puro de verdade, uma forma de manifestação da pura verdade: lá existe poder, lá onde é preciso que exista poder, lá onde se quer mostrar que efetivamente reside o poder, e bem, é preciso que exista o verdadeiro; (...) A força do poder não é independente de qualquer coisa como a manifestação do verdadeiro entendido para além disso que é simplesmente útil e necessário para bem governar (FOUCAULT, 2010, p. 39). Nos séculos XVI e XVII o poder principesco se fortalece, constituindo-se de uma série de conhecimentos que possibilitam a arte de governar. As manifestações de saber se dão através de bruxas, astrólogos, adivinhos etc. Mas o caminho para a constituição da razão do Estado faz com que essas figuras façam um movimento que foi evidentemente a sua contrapartida negativa, neste momento “(...) é preciso caçar o adivinho do rei, é preciso substituir o astrólogo por essa espécie de conselheiro que foi ao mesmo tempo o detentor e o invocador da verdade e substituí-lo por um verdadeiro ministro que seja capaz de fornecer ao Príncipe um conhecimento útil.” (FOUCAULT, 2010, p. 40). Esse movimento foi marcado principalmente pela caça às bruxas que, como resultado da Reforma e da Contra-Reforma, mostrou que a cristianização havia sido muito fraca durante o século precedente. A partir do termo aleturgia, que é a expressão para o verdadeiro, Foucault nos leva a entender que a exclusão do adivinho e a caça às bruxas nas camadas populares é um fenômeno que tem duas vertentes: na direção do Príncipe e na direção popular. “Era preciso eliminar aquele tipo de saber, aquele tipo de manifestação do verdadeiro, aquele tipo de produção da verdade, aquele tipo de aleturgia, tanto nas camadas populares quanto, e com mais razão, do entorno do Príncipe e da corte”. (FOUCAULT, 2010, p. 41). Portanto, a razão de Estado deveria tomar o lugar daquilo que fazia presidir no governo, a bruxaria, a astrologia e a adivinhação. A Idade Média é regulada pela Bíblia, portanto deve-se obediência ao Papa. Na Era Moderna o Papa é substituído pelo Príncipe e o povo deve obediência ao Rei. Foucault dedica-se na aula IV a falar sobre os Regimes de Verdade, pois é a partir daí que ele propõe estudar o cristianismo. Nas palavras do filósofo: Por regimes de verdade eu gostaria de entender aquilo que constrange os indivíduos a um certo número de atos de verdade (...) é, portanto, aquilo constrange os indivíduos a esses atos de verdade, aquilo que define, que determina a forma desses atos; é aquilo que estabelece para esses atos condições, efetuações e efeitos específicos. (...) um regime de verdade é aquilo que determina as obrigações dos indivíduos quanto ao procedimento de manifestação do verdadeiro. Obrigação dos indivíduos quanto ao procedimento de manifestação do verdadeiro, quer dizer a junção dessa noção de obrigação com relação à noção de manifestação da verdade em que a verdade obriga pelo fato dela ser manifestada (FOUCAULT, 2010, p. 67). A verdade só se dá em relação ao outro e, portanto, só é verdade se o sujeito se declina a ela. Para Foucault (2010, p. 71) a frase “É verdade, portanto, eu estou vinculado”, carrega o sentido de - você deve se inclinar - que é imanente à manifestação da verdade e que “é um problema histórico-cultural” (2010, p. 72). 117 Para levantar as questões “Como tornar-se o outro? Como, sendo o que é, tornar-se inteiramente o outro? Como, estando, nesse mundo, passar a um outro? Como, estando no erro, passar à verdade etc?” Foucault faz uma reflexão sobre o batismo, a ressurreição, a mortificação e nos revela que o problema da ruptura da identidade “gerou-se para nós o problema da relação entre a subjetividade e a verdade.” Ele, ainda, afirma que no cristianismo a relação entre subjetividade e verdade “foi pensada a partir da morte” (FOUCAULT, 2010, p. 82). Se um ato de verdade são os rituais e os procedimentos para entrar no regime de verdade, então o batismo é um ato de verdade. Segundo Foucault, é a mortificação o essencial sentido do batismo. “É preciso morrer para poder viver, e imediatamente as provas da verdade vão tomar sentido nisso que trata de autenticar a mortificação na qual deve constituir o caminho para a verdade (...) ir à verdade que é a vida e vida eterna por um caminho que é a mortificação” (p. 80). A culpa também é um aspecto do batismo, pois no cristianismo essa culpa manifesta desde Adão até os dias de hoje. A culpa é o triunfo de Satã. Foucault ressalta que no cristianismo há uma luta incessante contra o outro que está em nós, no fundo da alma e o caminho para a verdade é o combate por essa expulsão do outro. Então, nos submetemos aos rituais, aos atos de verdade para a salvação. Passamos por provações e somos tentados o tempo todo. “(...) a verdade não pode produzir seus efeitos na subjetividade a não ser com a condição de que exista a mortificação, na condição de que ocorra luta e combate com o outro, na condição de que se manifeste sem cessar a si e aos outros a verdade disso que se é” (p.83). Na aula VI, Foucault apresenta o bem e o mal como um sistema de lei, pois pelo princípio da separação “(...) incide sobre a ação e sobre os elementos característicos da ação (...) por definição a culpa como ação ruim é indefinidamente repetível; é uma forma de ação possível e a repetitividade da culpa está inscrita ela mesma no funcionamento da lei” (p. 85). Em função disso, o autor assegura que “o esquema da salvação, o esquema da perfeição é completamente diferente” (p.86). A qualidade do sujeito determina a qualidade da ação; se o sujeito é o do conhecimento, então implica irreversibilidade, se o sujeito é o da vontade, ele pode querer cessar tanto o bem quanto o mal, novamente. Essa vontade, assim como a submissão se faz num jogo na direção dos indivíduos. Foucault assegura que “existe alguém que guia a minha vontade, (...) mas querendo a cada instante aquilo que o outro quer que eu queira” (p. 88). Na direção dos indivíduos não existe estrutura, mas sim técnicas criando a relação de uma vontade com outra, assim, conforme Foucault “A fórmula da direção no fundo é: ‘Eu obedeço livremente isso que tu queres para mim, (...) que tu queres que eu queira, de maneira que eu possa estabelecer uma certa relação de mim comigo mesmo’.” Nesse sentido de direção dos indivíduos de Foucault, encontramos na aula VIII de seu curso, o que a direção deve produzir: a obediência. Foucault declara que “a obediência produz obediência” e segue complementando que “(...) obedece-se para poder tornar-se obediente, para produzir um estado de obediência” (p. 99). O autor, ainda, utiliza-se da obediência monástica para exemplificar a estrutura da obediência citando três características: “(...) a submissão que diz ‘eu quero isso que quer o outro’; (...) a paciência que diz ‘eu quero não querer outra coisa do que quer o outro’; e humildade que consiste em dizer ‘eu não quero querer’” (p. 102). Observamos que o processo de obediência é no fundo um processo de disciplinar a verdade. Dessa maneira, podemos dizer que a noção podersaber desloca-se para a noção governo-verdade. Outro pensamento a que este texto me conduz é que na democracia que vivemos na contemporaneidade devemos obediência a nós mesmos, uma vez que o governo regulado pelo povo deve obedecer a si mesmo, obedecendo às suas regras e cumprindo suas obrigações de cidadão. Termino esta resenha destacando a pergunta, lançada por Foucault, que me intrigou durante a leitura de Do governo dos vivos e que a cada vez que eu a leio abre-se um novo leque de inquietações. Por quê e como o exercício do poder como governo dos homens, exige não somente atos de obediência e de submissão, mas atos de verdade nos quais os indivíduos são sujeitos numa relação de poder e o são igualmente sujeitos como ator, espectador-testemunha, ou como objeto no procedimento de manifestação da verdade? (...) (FOUCAULT, 2010, p. 66) 118 Sobre a autora: Clarice Nunes Ferreira Costa: Professora da Faculdade Anhanguera e mestre em Educação pelo Programa de Pós Graduação em Educação da Universidade São Francisco, Itatiba, São Paulo. 119 Relação das dissertações defendidas no Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação da Universidade São Francisco no período de julho a dezembro de 2012 GALLEGO, Eduardo Manuel Bartalini. Investigando as práticas de ensinar e aprender matemática nos anos iniciais do ensino Fundamental em um grupo do PIBID. 2012. Dissertação (Mestrado em Educação), Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação. Universidade São Francisco, Itatiba/SP. Orientadora: Regina Célia Grando. A presente pesquisa foi desenvolvida em um grupo constituído por estudantes do curso de Pedagogia de uma universidade em uma cidade do interior do estado de São Paulo e professoras que atuam nos anos iniciais do ensino fundamental em uma escola municipal dessa mesma cidade e que fazem parte do Programa de Bolsas de Iniciação à Docência - PIBID. A pesquisa foi desenvolvida em uma abordagem qualitativa, a partir da constituição de um grupo que, em alguns momentos, assumiu dimensões colaborativas. Buscamos responder à seguinte questão: “Quais são as contribuições de uma parceria entre universidade e escola para as práticas de ensino de matemática nos anos iniciais?”. Nosso objetivo é (1) “conhecer o movimento de resistências e transformações nas culturas escolares de uma escola, decorrentes do trabalho compartilhado no grupo”; e (2) “identificar as reflexões produzidas pelas professoras sobre os processos de aprender a ensinar matemática quando compartilham suas práticas no grupo”. Para tanto, houve o acompanhamento do grupo em encontros quinzenais nas oficinas de educação matemática, que foram audiogravadas e transcritas. Também foram realizadas entrevistas individuais com as professoras que atuam nos anos iniciais e com os estudantes de Pedagogia, futuros professores. Essas entrevistas foram textualizadas para que fossem apresentadas as “vozes” dos atores envolvidos na pesquisa. Além das transcrições das audiogravações e das entrevistas, foram utilizados como fonte de dados os relatórios anuais do projeto PIBID dos participantes do grupo As análises e as sistematizações dos resultados foram discutidas em dois capítulos, um dedicado à discussão da cultura escolar e cultura de aula de matemática, destacando as tensões e desafios enfrentados pelo grupo, e outro com as reflexões das professoras, estudantes e as produzidas na interação do grupo. Como resultados identificamos os processos reflexivos propiciados pelo grupo de discussão, bem como a carência dos professores de um bom conhecimento epistemológico dos conceitos matemáticos. Também se evidenciou que o PIBID proporcionou uma modificação nas metodologias utilizadas nas salas de aula em que o grupo atuou, embora não se evidencie mudança de concepção enquanto à matemática e seu ensino nos anos iniciais do ensino fundamental. Em relação às políticas públicas em formação de professores, o PIBID se destaca como um espaço que contribui, em potencial, para a inserção do futuro professor nas práticas de ensinar e aprender, nesse caso, a matemática, bem como possibilita reflexões às professoras da escola sobre suas práticas pedagógicas. Com base nesse e em outros resultados, foram produzidas nossas considerações finais, destacando a possibilidade do grupo como um espaço reflexivo e as apropriações dos conceitos matemáticos pelas professoras. Palavras-chave: Formação de professores, Estratégias formativas, PIBID, Educação Matemática. 120 121 Normas para publicação I. Tipos de colaborações aceitas pela revista Horizontes Trabalhos originais relacionados à Educação em suas vertentes históricas, culturais e práticas educativas que se enquadrem nas seguintes categorias: 1. Relatos de pesquisa, entre 20-25 laudas padrão, especificadas no item IV; 2. Estudos teóricos, entre 15-20 laudas padrão; 3. Entrevistas e/ou depoimentos de pesquisadores e estudiosos de reconhecida relevância no meio acadêmico nacional e internacional, entre 10-15 laudas padrão; 4. Revisão crítica da literatura: análise de um corpo abrangente de investigação, relativa a assuntos de interesse para o desenvolvimento da Educação nas vertentes assinaladas anteriormente, limitada a 15-20 laudas padrão; 5. Resenha: revisão crítica de obra recém-publicada, orientando o leitor quanto a suas características e usos potenciais, até 5 laudas padrão. 1. Seleção de artigos: originais que se enquadrem nas categorias 1 a 5 acima descritas serão avaliados quanto à originalidade, relevância do tema, qualidade da produção, além da adequação às normas editoriais adotadas pela revista. Serão aceitos para análise pressupondo-se que todas as pessoas listadas como autores aprovaram o seu encaminhamento com vistas à publicação. 2. Critérios relevantes para publicação a) Ineditismo do material: o conteúdo do material enviado para publicação não deverá ter sido publicado anteriormente. Os conteúdos e declarações contidos nos trabalhos são de total responsabilidade dos autores. b) Revisão por pareceristas: os trabalhos enviados serão apreciados pelo Conselho Editorial, que poderá fazer uso de consultores ad hoc, a seu critério. Os pareceres dos consultores comportam três possibilidades: a) aceitação integral; b) aceitação com reformulação; c) recusa integral. Os autores serão notificados da aceitação ou recusa de seus artigos, sempre que possível. Os originais, mesmo quando recusados, não serão devolvidos. Revisão de linguagem poderá ser feita pelo Conselho Editorial da revista. Quando este julgar necessárias modificações substanciais que possam alterar a idéia do autor, este será notificado e encarregado de fazê-las, devolvendo o trabalho reformulado no prazo máximo de um mês. 3. Direitos autorais: os direitos autorais dos artigos publicados pertencem à revista Horizontes. A reprodução total dos artigos desta revista em outras publicações, ou para qualquer outra utilidade, está condicionada à autorização escrita do(s) editor(es). Pessoas interessadas em reproduzir parcialmente os artigos desta revista (partes do texto que excederem 500 palavras, tabelas, figuras e outras ilustrações) deverão ter a permissão escrita do(s) autor(es). Manuscritos submetidos que contiverem partes de texto extraídas de outras publicações deverão obedecer aos limites especificados para garantir originalidade do trabalho submetido. Recomenda-se evitar a reprodução de figuras, tabelas e desenhos extraídos de outras publicações e, se não for possível, o manuscrito só será encaminhado para análise se vier acompanhado de permissão escrita do detentor do direito autoral do trabalho original para a reprodução. Em nenhuma circunstância os autores citados nos trabalhos publicados nesta revista repassarão direitos assim obtidos. 4. Língua: Os trabalhos serão aceitos em língua portuguesa, espanhola, francesa e inglesa. 5. Exemplares: Será oferecido 1 (um) exemplar da revista para cada autor ou co-autor da revista. 6. Notas sobre o(s) autor(es): incluir uma breve descrição (30-40 palavras) sobre as atividades atuais do(s) autor(es) e sobre a sua formação. II. Como enviar artigo aos editores 122 O trabalho para publicação deverá ser enviado aos editores da Horizontes nos seguintes endereços eletrônicos: História, Historiografia e Idéias Educacionais Profa. Dra. Paula Leonardi: [email protected] Linguagem, Discurso e Práticas Educativas Profa. Dra. Jackeline Rodrigues Mendes: [email protected] Matemática, Cultura e Práticas Pedagógicas Profa. Dra. Profª. Dra. Alexandrina Monteiro: [email protected] III. Forma de apresentação dos manuscritos Os manuscritos serão aceitos em língua portuguesa, espanhola, francesa e inglesa. Normas de publicação: a revista adota normas de publicação da ABNT. Formatação: os artigos devem ser digitados em espaço duplo em fonte tipo Times New Roman ou Arial, tamanho 12. 3.1 Título completo na língua em que o manuscrito foi preparado. 3.2.Título completo em inglês, compatível com o título na língua em que o manuscrito foi preparado. 3.3. Nome de cada um dos autores. 3.4. Afiliação institucional de cada um dos autores (incluir apenas o nome da universidade e a cidade). 3.5. Nota de rodapé com agradecimentos dos autores e informação sobre apoio institucional ao projeto, se necessário. 3.6. Nota de rodapé com endereço eletrônico. 3.7. Resumo na língua em que o manuscrito foi preparado e que deve ter no máximo 150 palavras. 3.8. Após o resumo, fornecer de 3 a 5 palavras-chave na língua do manuscrito, em letras iniciais minúsculas e separadas com ponto-e-vírgula. 3.9. Resumo em inglês (abstract). 3.10. Keywords compatíveis com as palavras-chave. Observação: A Horizontes tem, como procedimento padrão, fazer revisão final do abstract, reservando-se o direito de corrigi-lo, se necessário. No entanto, recomenda-se que os autores solicitem a um colega bilíngüe que revise o abstract, antes de submeter o manuscrito. Este é um item muito importante do trabalho, pois em caso de publicação será disponibilizado em todos os indexadores da revista. IV. Estrutura do texto 4.1. Notas. Devem ser evitadas sempre que possível. No entanto, se não houver outra possibilidade, devem ser indicadas por algarismos arábicos no texto e listadas, após as referências, em página separada e intitulada de Notas. 4.2 Citações dos autores. As citações de autores deverão ser feitas de acordo com as normas da ABNT 123 Summary of the Instructions Subscription of papers Original papers related to Education in the following perspectives: historical, cultural and educative practices. Papers can be written in Portuguese, English, French or Spanish. 1. Format: · Title; · Name of the author(s) and affiliation; · Abstract in the first language – around 150 words; · Key-word; · Abstract in another language – around 150 words; · key-words in another language; · The text should include: Introduction, Development, Conclusion, Endnotes, and References (according to ABNT); · Include at the end the author’s bio-data. 2. The length of the paper should be around 20 pages. 3. Double-spaced typewritten copy (12-point font, Times new Roman, Courier New or Arial). Papers should be sent to: Profa. Dra. Paula Leonardi: [email protected] Profa. Dra. Jackeline Rodrigues Mendes: [email protected] Profa. Dra. Alexandrina Monteiro: [email protected] 124