TRABALHO, EDUCAÇÃO E PODER: ANÁLISE DE ALGUNS PRESSUPOSTOS E IMPLICAÇÕES DO PÓS-ESTRUTURALISMO NA EDUCAÇÃO PITHAN DA SILVA, Sidinei - UFPR/PR [email protected] KLEIN, Lígia Regina – UFPR/PR –[email protected] eixo: Educação e Trabalho / 8 Agência Financiadora: Sem Financiamento RESUMO: O presente texto discute as relações entre trabalho, educação e poder na contemporaneidade. Enfoca, de forma particular, a partir da concepção dialética, a emergência do pensamento pós-estruturalista no contexto epistemológico e educacional contemporâneo. Mostra as perspectivas diferenciadas de conceber a educação, o poder e o conhecimento na leitura pós-estruturalista, destacando suas vicissitudes, mas também limitações para pensar a modernidade educacional e social. Analisa, textos que vinculam o pós-estruturalismo com a educação, mostrando a riqueza e a pobreza do método arquegenealógico (Foucault), e a necessidade do “materialismo histórico” (marxiano). Com isso, aponta novas possibilidades para pensar o trabalho, o poder e a educação, vinculando as micro-relações de poder (gênero, etnia, raça, linguagem), com as macro-relações de poder (classe, estado, ideologia, capital). Palavras-chave: Trabalho. Poder. Educação. 1. INTRODUÇÃO: O presente texto analisa, desde uma perspectiva dialética (marxiana), alguns escritos que envolvem as relações entre o pós-estruturalismo, o poder e a educação. A explicitação de alguns pressupostos e intencionalidades contidos nos escritos pósestruturalistas sobre educação permite compreender “mediatamente” suas claras rejeições às formas tradicionais de análise típicas da modernidade (SILVA, 2002). A postura pós-estruturalista, de forma geral, procura realizar um movimento que não seja o de “superação” da modernidade, mas sim o de “dissolução” (VATTIMO, 2002). Isto acarreta na opção de outros referenciais teóricos e metodológicos, bem como de posturas filosóficas diferenciadas no processo de compreender a educação, as relações de poder e a pedagogia. Uma postura mais micro-física (Foucault) parece surgir desta analítica do poder, em detrimento de uma perspectiva macro-física (MARX), ocasionando olhares diferenciados em relação ao fazer pedagógico e a teorização crítica. 2 Há, sobretudo, de forma geral, nestas perspectivas, uma rejeição do método dialético marxiano (teoria crítica) em favor do método arque-genealógico foucaltiano (teoria pós-crítica). O mais interessante nisso é que qualquer perspectiva que se pretenda histórica, política e social, ou seja, que apele a uma dimensão não imediata e contingente do discurso, é considerada altamente totalitária (WOOD, 1999). Assim, as condições econômicas, demográficas e políticas, no método arque-genealógico, “funcionam como uma moldura ou, talvez melhor, como um pano de fundo meio difuso e não determinante” (VEIGA NETO, 2002). Neste sentido, o presente texto tenta compreender e responder às seguintes questões: a) Quais leituras / interpretações as perspectivas pós-estruturalistas tem possibilitado fazer em relação à educação? b) Quais as implicações práticas destas leituras? c) Em que medida estas interpretações afetam as leituras críticas tradicionais que se faziam a partir das perspectivas marxianas? Nossa intenção, com isso é a de analisar as “condições de possibilidade do método marxiano” interpretar e fornecer caminhos para pensar a educação e a pedagogia na sociedade contemporânea. Esperamos fazer isso apontando novas dimensões destacadas pelas teorias pósestruturalistas, e analisando o seu alcance para pensar a totalidade do fenômeno educativo e a teoria pedagógica crítica. A tese que unifica este estudo e, que o justifica, parte da premissa que muitos dos elementos que originados da análise pós-estruturalista da educação adquirem um contorno mais nítido e definido quando se toma o método dialético marxiano. Assim, a perspectiva que orienta este texto encontra-se fundamentada na perspectiva, no “método”, formulado por Marx e Engels na sua crítica ao idealismo hegeliano e ao materialismo vulgar de Feuerbach, que compreende basicamente que não é a consciência que determina o processo histórico, mas antes, “a atividade concreta dos homens que constitui a consciência” (MARX e ENGELS, 2006, p.44). Por isso, torna-se importante analisar as teorias educacionais pós-críticas e suas formulações atuais não como “verdades” que tem sua gênese na “consciência pura”, ou mesmo nos “jogos de linguagem”, mas como “produtos reflexos” das relações contraditórias do mesmo movimento material da “crise do capitalismo real”. Isso significa um convite a revisitar Marx, tendo em vista que o marxismo (de Marx), (embora rejeitado pelos pósmodernistas conservadores), enquanto “ciência do capitalismo” (JAMESON, 1999), não se esgotou, como assinalou Hobsbawm, uma vez que o seu objeto de estudo ainda não desapareceu (FRIGOTTO, 2000). 3 Assim, compreender, a emergência dos estudos pós-estruturalistas na educação faz-se importante no sentido de: a) apontar suas insuficiências para dar conta das relações entre a infra-estrutura e a superestrutura da sociedade capitalista; b) serem entendidos como expressões em nível epistêmico (superestrutural) enquanto uma dimensão da crise do mundo material (infraestrutural), e, com isso, fornecerem informações em nível micro-estrutural que podem ajudar a entender a capilaridade do capitalismo, e das formas manifestas da educação. Para tanto, o presente texto analisa, num primeiro momento, as categorias utilizadas nos estudos pós-estruturalistas que enfocam as relações de poder na educação, tentando mostrar que elas são insuficientes para compreender as relações entre o mundo da produção e a educação, sendo seu conceito de cultura incapaz de tematizar a realidade educacional contemporânea. De forma particular, são explicitadas nesta fase da pesquisa, as análises feitas por Alfredo Veiga Neto (2002) da obra Sentimental Education, de James Donald. Num segundo momento, destaca-se a possibilidade de tomar a leitura foucaultiana da educação (pós-estruturalista) e seus resultados enquanto uma leitura que expressa, sobretudo, um sintoma da crise do capitalismo real em nível da educação. Adota-se como material de estudo, nesta fase, a leitura realizada por Alfredo Veiga Netto (2002) dos escritos de James Marshall em sua obra Foucault and Education. Realizar a crítica destes dois estudos constitui a tarefa deste trabalho. 2. Pós-Estruturalismo e Educação: uma análise acerca da insuficiência do método arque-genealógico para compreender a dinâmica das relações entre trabalho, poder e educação Veiga Neto (2002, p.228), ao comentar e expor alguns escritos sobre as potencialidades e possibilidades das leituras e análises foucaultinas na educação materializa os pressupostos e intencionalidades do pós-estruturalismo. Rastrear e investigar estes pressupostos pode constituir-se em “material concreto” que permite perceber os limites e as contradições do pós-estruturalismo (KOZIK, 002) E, de outra forma, mapear e incorporar algumas análises pontuais acerca das “relações de poder” feitas pelo pós-estruturalismo, numa leitura de conjunto, que só o materialismo histórico 4 pode fornecer, pode favorecer para a construção de outros entendimentos acerca da construção das modernas formas de subjetividade e objetividade (KUENZER, 2005). Neste sentido, em relação à obra de James Donald Sentimental Education (DONALD, 1992), Veiga Neto (2002, p.228), comenta que este autor “não tem nenhum compromisso com uma pretensa “natureza humana”, com um “social transcendente” ou com uma eventual dialética entre repressão e liberação”. A intenção dos escritos pósestruturalistas, nesta obra de James Donald, situa-se antes na compreensão discursiva das práticas educativas e suas relações com a “biopolítica” (FOUCAULT, 2001). Ao mesmo tempo em que nos revela as diferentes práticas discursivas que fizeram da educação popular uma técnica de governamentalidade – o que se articula à noção de biopolítica, em Foucault – James Donald nos mostra que as subjetividades não resultam direta e mecanicamente dessas práticas, mas, antes, se estabelecem nos embates entre, de um lado, as normas pedagógicas e culturais (estabelecidas por aqueles discursos) e, de outro lado, as estratégias de resistência, transgressão, rejeição, reinterpretação e adaptação que se dão no dia-a dia das pessoas (VEIGA NETO, 2002, p.228). A relação pedagógica passa a ser analisada, na obra de James Donald, não em relação aos fins ou aos pressupostos implicados na construção de subjetividades históricas, mas antes em relação aos embates que se dão no cotidiano das relações educativas. A opção analítica, como se percebe, desloca-se do âmbito das análises que se fundamentavam nas categorias sociológicas e psicológicas tradicionais críticas da educação (MANACORDA, 1990) para as “análises dos discursos” implicados nas relações cotidianas (SILVA, 2000, 2002, 2003). Em outras palavras, percebe-se que ao invés de optar pelas análises teóricas que permitiam compreender a educação e a construção de subjetividades num contexto (macro) social, político e histórico, permeado pela luta de classes, pela luta pela sobrevivência, pelo poder, o pósestruturalismo opta por focar a educação no contexto das (micro) relações pedagógicas de poder (SILVA, 2002). Quais as implicações desta formas de análise das práticas educativas? Qual o pano de fundo destas análises? A tentativa de James Donald, como explicita Veiga Neto (2002, p.228), é a de traçar, a partir das interpretações da obra - Vigiar e Punir de Michel Foucault (1987), uma análise arquegenealógica das principais transformações que ocorreram na educação e nas instituições escolares a partir do séc. XVIII. O foco centra-se nas transformações: a) das práticas pedagógicas implicadas no processo de construção das subjetividades (“repressivas para auto-reguladas”); b) na arquitetura das escolas – na alteração dos 5 espaços das salas de aula (“de uma ampla sala-escolar para uma área interna para a qual se abrem salas de aula relativamente pequenas”); c) na forma de percepção das crianças a partir das ciências (“de ser anônimo para categoria científica passível de estudo”); d) nos currículos e nas suas formas de construção e organização (de elenco dos conhecimentos (ainda hoje geralmente visto como inocente), para elemento que diferencia, discrimina e categoriza”) (VEIGA NETO, 2002, p.228). A análise pós-estruturalista de James Donald, explicitada por Veiga Neto (2002), para além de tornar explícita a “maquinaria moderna de produção de subjetividades”, mostra os “mecanismos de poder” utilizados no interior, não somente da escola, mas da sociedade moderna como um todo (FOUCAULT, 1987). Embora se pretenda centrar nas instituições escolares em particular, na imanência do discurso escolar, e não seguir nenhum pano fundo histórico, transcedental e totalizante, não consegue fugir das categorias que sustentam a retórica do próprio “método” pós-estruturalista – a concepção de que a sociedade moderna instituiu formas de auto-governo que estão centradas nas idéias de “Razão, Verdade, Ciência” (CARDOSO, 2001). Noções que precisam, na leitura de Peters (2000), ser rejeitadas e “dissolvidas”, a fim de que se compreendam as diversas facetas da “episteme” moderna na constituição das modernas práticas pedagógicas. Não é difícil compreender o quanto essas transformações contribuíram, num sentido mais restrito, para o estabelecimento de nossas atuais práticas pedagógicas, no que se refere, por exemplo, ao planejamento e à avaliação e à própria vida cotidiana nas escolas. Num sentido bem mais amplo, análises como as desenvolvidas por James Donald nos permitem compreender a profundidade e a firmeza com que nossas instituições e nossas práticas educacionais se enraízam na episteme moderna (VEIGA NETO, 2002, p.228). A dimensão fundante desta análise da educação mostra uma faceta importante para se compreender os fenômenos educativos na modernidade (GIROUX, 1993). Seu vínculo com as modernas formas de organização, planejamento e avaliação da educação, no entanto, centram-se exclusivamente numa perspectiva que as considera internamente desde uma perspectiva cultural opressora. Há uma tentativa de focar o poder e as suas formas de manifestação e materialização nas relações entre sujeitos “culturais”, em que a dominação e a resistência, ocorrem discursivamente nos diferentes contextos cotidianos. 6 A explicitação das transformações das relações de poder no interior da escola, ao modelo das técnicas de vigilância e punição do presídio, dos manicômios, como fora feita por Michel Foucault (1987), parece se “deter” na descrição das “práticas discursivas” típicas que legitimam a modernidade e o seu movimento. Com isso, a análise pós-estruturalista da modernidade educacional fica no meio do caminho, negligenciando algo de fundamental para compreender estas práticas - o modo de produção capitalista e a forma de organização da sociedade burguesa como um todo (JAMESON, 1999, 2004). Na análise de James Donald, a “infra-estrutura” da sociedade capitalista (GRAMSCI, 1988) permanece misteriosa e oculta, e com isso, ele não consegue tematizar os vínculos entre as formas modernas de produção da subjetividade (“superestrutura”) e as novas características das relações sociais e produtivas típicas do capitalismo industrial da Inglaterra. As novas formas de “governamentalidade”, como nos ensinou Gramsci (1988) acerca do fordismo, assumem de fato os critérios da racionalidade moderna, estabelecendo novos padrões para o autocontrole, para a educação do homem moderno, mas isto não encontra explicação per si, mas sim nos novos modos de “disciplinamento” da “classe trabalhadora” requeridos para a expansão do “modo de produção capitalista” (além de serem estes novos métodos as alternativas para a construção da hegemonia da classe burguesa e para a consolidação do estado moderno) (GRAMSCI, 1988). Assim, o pós-estruturalismo toma o “sintoma”, a expressão das contradições das relações sociais capitalistas no interior das relações escolares, como se fossem produtos de uma razão fora da dinâmica de classes, do mundo do trabalho e, portanto, fora da história (JAMESON, 2004). A razão em si é totalitária (os próprios discursos emancipatórios expressam isso), ela produz as modernas formas de subjetivação, poder, objetivação e governamentalidade dos sujeitos (SILVA, 1993). O resultado desta forma de análise é a construção de um conhecimento acerca das práticas pedagógicas desvinculado das relações produtivas, sociais e políticas em sua totalidade. Desta forma, penso que o discurso pós-estruturalista precisa ser considerado não como um diagnóstico profundo e verdadeiro da crise da modernidade, ou mesmo do ideário iluminista, mas antes como um “sintoma” das contradições do capitalismo real. No sentido que mostra uma face importante da realidade contemporânea, representando “ideologicamente” um conjunto de perspectivas que não se apresentam como um grande perigo para o movimento do capital, mas antes celebra o fracasso das perspectivas que 7 tentam superá-lo. É o que podemos constatar nos escritos de Veiga Neto, que enfocaremos a seguir. 3. Pós-Estruturalismo e Educação: o discurso pós-modernista como um sintoma da crise do capitalismo real Em outro momento Veiga Neto (2002, p.229), enfoca a obra Foucault and Education (1989), do neo-zelandês James Marshall, caracterizando que os seus escritos têm um tremendo poder para examinar o trabalho do professor e a educação escolar de hoje, inclusive no caso brasileiro. Os conceitos que iluminam os escritos de Marschall, tematizam, sobretudo, as questões do poder/saber, disciplina e governamentalidade nas práticas escolares. A educação moderna, mais uma vez aparece como “um imenso aparato que se construiu, durante os últimos trezentos anos, para garantir a governamentalidade” (VEIGA NETO, 2002, p.229). Sob essa ótica, a escola não é vista como um dos aparelhos ideológicos de reprodução social – o que nos abriria espaços para modificar as relações sociais, desde que conseguíssemos mexer adequadamente na vida escolar – mas é vista como lócus de produção, moldagem e objetivação de sujeitos dóceis a uma nova dominação política (quase invisível) que garante a governamentalidade em termos modernos (VEIGA NETO, 2002, p.229). A trajetória pós-estruturalista de Marschall, embasada nos escritos de Foucault, não apenas ataca os modelos liberais de educação iluminista, mas também todas as perspectivas críticas de educação. A escola é compreendida enquanto um aparato moderno de poder/saber que teria a tarefa de tornar os sujeitos mais racionais e autônomos, e isto, em última instância, aproximaria os sujeitos da Razão e da Liberdade, afastando-os da ignorância e dos mitos do Estado e da Igreja, etc. A noção de liberdade calcada no liberalismo explicita Marschall (VEIGA NETO, 2002), permeia toda a educação moderna, e o conceito de autonomia dele correspondente orienta não apenas a concepção liberal de educação, como também a concepção crítica de educação. Mas, ao desenvolver sua crítica, Marschall analisa a genealogia do conceito (de autonomia), o que “significa que perseguir a autonomia do sujeito envolve a construção social de algo que está destinado a falhar” (MARSCHALL apud VEIGA NETO, 2002, p.230). 8 O ataque à modernidade se faz agora não apenas às práticas escolares consubstanciadas nas relações professor-aluno, no currículo, na estrutura do espaço, na concepção das crianças, mas também às finalidades constitutivas das práticas escolares (pedagógicas) como um todo no interior da sociedade moderna. A busca da autonomia do sujeito, através da educação, serve, na leitura pós-estruturalista, dentre outras coisas, aos mesmos interesses da razão dominadora, consubstanciada no estado liberal (PETERS, 2000). “E, dada a atuação a longo termo da educação escolar sobre a vida de (quase...) todos nós, ela é o aparelho social que mais bem e uniformemente executa a construção do sujeito moderno” (VEIGA NETO, 2002, p.230) Nesta leitura a educação escolar tem a tarefa de tornar os sujeitos dóceis. O método de trabalho e subjetivação escolar se assemelha assim com o método de subjetivação praticado nos presídios, diferenciando-se deste porque seus mecanismos são “produtivos” ao invés de “repressivos” (VEIGA NETO, 2002, p.230). O aspecto potencial da análise de James Marschall, categorizado por Veiga Neto (2002), é mostrar algumas formas de “dominação moderna” que tomaram forma nas práticas escolares e que ajudaram a constituir a moderna sociedade burguesa e liberal. De outra forma, a análise também tem um ponto alto mostrando as relações das técnicas utilizadas tanto nos presídios quanto nos manicômios, conventos e prisões com o uso dos modernos conhecimentos das ciências. No entanto, estas relações de poder/saber, de controle social através das diferentes instituições são de certa forma, “mistificadas” e “reificadas” pelo pós-estruturalismo, não explicando seus vínculos com as novas demandas do capital na “sociedade contemporânea”: a produtividade, a eficiência e a competitividade (DUARTE, 2003). O resultado disto é localizar no interior das práticas institucionais (modernas) formas de dominação que parecem ser insubstituíveis a não ser pela dissolução destas mesmas instituições (MÈZSÁROS, 2002, 2005). O pós-estruturalismo fornece uma leitura da dominação que a teoria crítica já fazia, principalmente com Gramsci (1995), com o diferencial de acrescentar algo em relação à produção de técnicas de controle novas. Isto parece importante, não fosse o fato de que o pós-estruturalismo (foucaultiano) perde a noção e intenção contextual de captar esta realidade com vistas a transformá-la (JAMESON, 2004). Com isso, ele só visualiza negatividade e dominação no processo histórico, ficando numa perspectiva pessimista, idealista e decadente do mundo (HARVEY, 2006). O pós-estruturalismo é fragmentário, superficial e caótico, 9 descrevendo a “superfície discursiva” como sendo o pano de fundo da realidade, uma vez que percebe nela a única forma de “episteme” válida. Começo com o que parece ser o fato mais espantoso sobre o pós-modenismo: sua total aceitação do efêmero, do fragmentário, do descontínuo e do caótico que formavam uma metade do conceito baudeleriano de modernidade. Mas o pós-modernismo responde a isso de uma maneira bem particular; ele não tenta transcendê-lo, opor-se a ele e sequer definir os “elementos eternos e imutáveis” que poderiam estar contidos nele. O pós-modernismo nada, e até se despoja, nas fragmentárias e caóticas correntes da mudança, como se isso fosse tudo que existisse (HARVEY, 2006, p. 49). Em última instância, a história moderna, no pós-estruturalismo, não é concebida como um processo vivo e dinâmico, único, contínuo, de luta concreta entre sujeitos, que tentam estabelecer seus projetos sociais, culturais e lingüísticos, mas antes como a história descontínua e caótica da idéia de progresso, de razão, de ciência, de verdade e de sujeito. É no ataque a estes entes coisificados, a estas idéias, a estes discursos imanentes que o marxismo pode apropriar-se enquanto diagnóstico da modernidade, mas nunca como alternativa real concreta e histórica de enfrentamento; uma vez que o pós-estruturalismo não oferece qualquer base real para enfrentar os diferentes mecanismos de dominação. 4. Considerações Finais Desta forma, penso que a “análise” pós-estruturalista, ao enfocar a dinâmica do poder/saber, do disciplinamento, da governamentalidade, das tecnologias produtoras do eu, serve apenas para percebermos uma outra face do domínio que a racionalidade moderna e capitalista estabeleceu para aumentar sua eficiência, controle e produtividade. Mas, de forma alguma suas categorias devem nos possibilitar conceber a própria “racionalidade” como responsável por todos os males que a “humanidade vive”. Este não seria o problema que incorrem os pós-estruturalistas e os teóricos da Escola de Frankfurt (impulsionados por Weber, Nietzsche, Freud e Heidegeer)? Será, que no processo de crítica da modernidade, eles conseguiram jogar fora “apenas a água suja”, sem jogar fora o nenê junto”? Com isso, compreende-se que as análises pós-estruturalistas explicitam, de certa forma, em nível teórico, a contradição do capitalismo tardio imposto às classes trabalhadoras, isto é, expressam, na teoria, o niilismo, o pessimismo, a tristeza, a 10 melancolia aparente e fragmentária do domínio do capital sobre o trabalho, e de suas formas de dominação ad eternum - que não mobilizam e articulam saídas “para além do capital”. Assim, compreende-se que, se há alguma racionalidade em crise, esta, com certeza, é de uma forma particular (e não geral) - a “racionalidade burguesa”. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BERMAN, Marshal. Tudo que é sólido se desmancha no ar: a aventura da modernidade. 2.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. CARDOSO, C.F. Epistemologia pós-moderna: a visão de um historiador. In: FRIGOTTO, G, CIAVATTA, M. Teoria e Educação no Labirinto do Capital. Petrópolis, Vozes, 2001. DUARTE, N. Sociedade do Conhecimento ou Sociedade das Ilusões?: quatro ensaios crítico dialéticos em filosofia da educação. Campinas, SP: autores Associados, 2003. FRIGOTTO, G. Educação e a Crise do Capitalismo Real. 4.ed. São Paulo, Cortez, 2000. _____, G, CIAVATTA, M. Teoria e Educação no Labirinto do Capital. Petrópolis, Vozes, 2001. FOUCAULT, M. Microfísica do Poder. 16.ed. Rio de Janeiro: Edições GRAAL, 2001. ______. M. Vigiar e Punir: o nascimento da prisão. 5.ed. Petrópolis, Vozes, 1987. GRAMSCI, A. Concepção Dialética da História.10.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. ______, A. Maquiavel, a Política e o Estado Moderno. 6. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1988. KOSIK, K. Dialética do Concreto. 7. ed. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2002. KUENZER, A. Z. Desafios Teórico - Metodológicos da Relação Trabalho- Educação e o Papel Social da Escola. In: FRIGOTTO, G (org). Educação e Crise do Trabalho: perspectivas de final de século. 7. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2005. JAMESON, F. O Pós- Modernismo e o Mercado. In: ZIZEK, S. Um Mapa da Ideologia. Rio de Janeiro: contraponto, 1999. _______. Cinco Teses sobro o marxismo atualmente existente. In: WOOD, E. FOSTER, J. B (orgs). Em Defesa da História: marxismo e pós-modernismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999. _______. Pós-Modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. 2.ed São Paulo: Gráfica Palas Athena, 2004. GIROUX, H. O pós-modernismo e o discurso da crítica educacional. In: SILVA, T. T. da (Org). Teoria Educacional Crítica em Tempos Pós-Modernos. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993, p. 41-69. 11 LUKÁCS, G. História e Consciência de Classe: estudos sobre a dialética marxista. Martins Fontes, 2003. MARX, K. Manuscritos econômico-filosóficos e outros textos escolhidos. São Paulo: Abril Cultural, 1985. ______. A Ideologia Alemã. São Paulo: Martin Claret, 2006. MANACORDA, M. O Princípio Educativo em Gramsci. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990. MÉSZÁROS, I. Para Além do Capital. São Paulo: Boitempo Editorial; Campinas: Editora da Unicamp, 2002. ______. A Educação Para Além do Capital. São Paulo: Boitempo, 2005. PETERS, M. Pós-Estruturalismo e Filosofia da Diferença: uma introdução. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. SILVA, T. T. da. Identidades Terminais. Petrópolis: Vozes, 1996. ______. O Currículo como fetiche: a poética e a política do texto curricular. Belo Horizonte: Autêntica, 2003. ______. Documentos de Identidade: uma introdução às teorias do currículo. 2.ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2002a. ______ T.T da (org). O Sujeito da Educação: estudos foucaultianos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002. ______. (Org). Identidade e Diferença: a perspectiva dos Estudos Culturais. Petrópolis, RJ, Vozes, 2000. VATTIMO, Gianni. O Fim da Modernidade: Niilismo e hermenêutica na cultura pós-moderna; tradução Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2002. VEIGA NETO, A. Pós-Modernismo: Foucault e a Educação. SILVA, T.T da (org). O Sujeito da Educação: estudos foucaultianos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002. WOOD, E. FOSTER, J. B (orgs). Em Defesa da História: marxismo e pósmodernismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.