UNIVERSIDADE VEIGA DE ALMEIDA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU MESTRADO PROFISSIONAL EM PSICANÁLISE, SAÚDE E SOCIEDADE ADRIANA GOMES DE SOUZA O MAL-ESTAR NO TRABALHO CONTEMPORÂNEO: INTER-RELAÇÕES ENTRE O SUJEITO DO DESEJO E O SUJEITO DO TRABALHO Rio de Janeiro 2013 ADRIANA GOMES DE SOUZA O MAL-ESTAR NO TRABALHO CONTEMPORÂNEO: INTER-RELAÇÕES ENTRE O SUJEITO DO DESEJO E O SUJEITO DO TRABALHO Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação stricto sensu: Mestrado Profissional em Psicanálise, Saúde e Sociedade da Universidade Veiga de Almeida, como parte dos requisitos para obtenção de título de Mestre em Psicanálise, Saúde e Sociedade. Área de Concentração: Psicanálise e Sociedade. . Psicanálise e Sociedade. . Orientador: Prof. Dr. Auterives Maciel Júnior . Rio de Janeiro 2013 DIRETORIA DOS PROGRAMAS DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTU SENSU E DE PESQUISA Rua Ibituruna, 108 – Maracanã 20271-020 – Rio de Janeiro – RJ Tel.: (21) 2574-8871 - (21) 2574-8922 FICHA CATALOGRÁFICA FICHA CATALOGRÁFICA S729m Souza, Adriana Gomes de. O mal-estar no trabalho contemporâneo: inter-relações entre o sujeito do desejo e o sujeito do trabalho / Adriana Gomes de Souza, 2013. 85 f ; 30 cm. Dissertação (Mestrado) – Universidade Veiga de Almeida, Mestrado Profissional em Psicanálise, Saúde e Sociedade, Rio de Janeiro, 2013. Orientação: Prof. Dr. Auterives Maciel Júnior 1. Psicanálise. 2. Trabalho. 3. Subjetividade. I. Martinho, Maria Helena. II. Maciel Júnior, Auterives. III. Universidade Veiga de Almeida, Mestrado Profissional em Psicanálise, Saúde e Sociedade. IV. Título. . CDD Ficha Catalográfica elaborada pelo Sistema de Bibliotecas da UVA Decs Biblioteca Maria Anunciação Almeida de Carvalho – 616.89 ADRIANA GOMES DE SOUZA O MAL-ESTAR NO TRABALHO CONTEMPORÂNEO: INTER-RELAÇÕES ENTRE O SUJEITO DO DESEJO E O SUJEITO DO TRABALHO Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação stricto sensu: Mestrado Profissional em Psicanálise, Saúde e Sociedade da Universidade Veiga de Almeida, como parte dos requisitos para obtenção de título de Mestre em Psicanálise, Saúde e Sociedade. Área de Concentração: Psicanálise e Sociedade. . Aprovada em ______________ . BANCA EXAMINADORA ____________________________________________________ Prof. Dr. Auterives Maciel Junior ____________________________________________________ Profa. Dra. Sonia Xavier de A. Borges ___________________________________________________________ Profª. Drª. Rosane Braga de Melo RESUMO O objetivo do presente trabalho foi investigar as inter-relações entre o sujeito do desejo e o sujeito do trabalho, a partir da análise do mal-estar no trabalho contemporâneo a partir do conceito de mal-estar na teoria psicanalítica. A pesquisa teórica seguiu os fundamentos de Freud e Lacan, assim como Dejours e Negri, com vistas a repensar, no contexto social de perpetuação e desenvolvimento da cultura, o significante trabalho para a humanidade. Constatou-se que embora a Psicanálise considere o trabalho como forma de sublimação, o sujeito do desejo em uma sociedade capitalista não é levado em conta no mundo do trabalho, e as instituições intensificam ações estruturadas sob a forma de processos que visam a administrar e a organizar as instituições para um melhor desempenho, de modo a alcançar os resultados esperados para uma competitividade eficaz e eficiente. Se por um lado, o capitalismo contemporâneo apela para a produtividade, a eficácia e a eficiência dos sujeitos, sustentando-se no consumismo como garantia de produção, por outro a psicanálise demonstra como o indivíduo se constitui como sujeito do desejo, com as diversas modalidades de gozo cabíveis. Conclui-se que o trabalho vivo atua como fonte de bem-estar e prazer quando o profissional consegue se posicionar como sujeito desejante; contudo, quando o sujeito se anula em função de um mais-degozar social, abrindo mão de seu desejo, como no caso do trabalho necessário, em que os profissionais se submetem ao desejo do outro, surgem o mal-estar e o sofrimento. Palavras-chave: Psicanálise, Sujeito, Trabalho, Desejo. ABSTRACT From the analysis of the malaise in contemporary, we investigate the place of work as circumscribed in this malaise, debating in an interdisciplinary way the malaise at work and malaise in Psychoanalysis. We analyze the possible relationship between the subject's desire and work for the vision of psychoanalysis, based on Freud and Lacan, as well as Dejours and Negri, for rethinking the significant work for humanity, in the social context, the development and perpetuation of culture. Contemporary capitalism calls for productivity, effectiveness and efficiency of the subjects, supporting himself on consumerism as collateral production. Psychoanalysis understands the work as a form of sublimation, although the subject of desire is not taken into account in the work world, which intensifies actions in the form of structured processes to manage and organize institutions for better performance, to reach results expected for a competitive effective and efficient. We intend to analyze how the subject is constituted as a subject of desire, with the various forms of reasonable enjoyment. Living labor acts as a source of well-being and pleasure when the professional is able to position itself as desiring subject, yet when the subject is canceled due to a more social to enjoy giving up his desire, as in the case of the work required in professionals to be subjected for the desire of the other, arise the discomfort and suffering. Keywords: Psychoanalysis, Subject, Labor, Desire. SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO ..................................................................................................... 11 2. O MAL-ESTAR NA PSICANÁLISE ..................................................................... 17 2.1. Trabalho e cultura ....................................................................................... 18 2.2. O sujeito do desejo ..................................................................................... 28 2.3. O mais de gozar .......................................................................................... 35 2.4. O sujeito do desejo no trabalho na cultura contemporânea .................. 37 3. O MAL-ESTAR NO TRABALHO NA CONTEMPORANEIDADE ....................... 41 3.1. O capitalismo mecanicista ........................................................................ 42 3.2. O capitalismo pós-mecanicista ................................................................ 48 3.3. O capitalismo na contemporaneidade ..................................................... 54 3.4. O mal-estar na contemporaneidade ......................................................... 60 4. CONCLUSÃO .................................................................................................... 76 5. ANEXO ............................................................................................................... REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .................................................................. 85 Para Mariana e Carlos Eduardo, meus dois maiores amores: sempre me acompanharam, ajudaram e, carinhosamente, apoiaram-me em todas as jornadas. . A Floriano, pelo imensurável e constante incentivo, apoio e compreensão, divisores de água em minha vida: sem isso, com certeza, também dessa vez não teria retomado e concluído esse Mestrado, agente de meu desejo em psicanálise. AGRADECIMENTOS ... Agradeço a meu Deus, que falou de amor e desejo, opondo-se aos valores capitalistas. ... Agradeço ao meu orientador, Professor Doutor Auterives Maciel Junior, por entender e alinhavar tão bem minhas ideias, respeitando-as e incentivando discussões, formulando críticas e argumentações que ampliaram e desenvolveram esta investigação. ... Agradeço à Professora Doutora Sonia Borges e à Professora Doutora Rosane Braga de Melo, pela extrema atenção em aceitar fazer parte desta banca, e também pelo interesse e cuidadosa colaboração prestada para o aprimoramento deste trabalho. ... Agradeço à Professora Doutora Maria Anita Carneiro Ribeiro, que no início de minha carreira profissional orientou-me sobre o significado da Psicanálise, transformando minha vida e, sobretudo, incitando-me a granjear esse tão desejado grau acadêmico. ... Agradeço à Coordenadora Professora Doutora Gloria Sadalla, pela atenção, apoio e auxílio em todos os degraus escalados nesse trajeto. ... Agradeço a Elaine, pela compreensão e orientação prestada no início deste percurso. ... Agradeço aos meus queridos, compreensivos e pacientes professores do Curso de Mestrado, com os quais tive o privilégio de instruir-me para tornar possível edificar este trabalho final. ...Agradeço à Professora Doutora Nilce Del Rio, pela cuidadosa e esmerada interpretação e revisão de meus escritos. ... Agradeço particularmente aos colegas Daniele Spada, Melquíades e Bárbara, pela atenção, apoio e ajuda nos momentos de angústia durante esse caminho percorrido. ... Agradeço a todos os amigos, ressaltando, neste momento, Irene, Paulo e Marinalva, que sempre me apoiaram nos momentos que deles precisei. ... Agradeço a todos os profissionais, líderes e empresas com que trabalhei ao longo de minha vida, por terem-me mostrado verdadeiramente o significado do desejo no trabalho. ... Agradeço aos meus alunos e pacientes, pelas inúmeras vezes que me possibilitaram escutar o avesso do sujeito do trabalho. 11 1. INTRODUÇÃO O sistema econômico capitalista, que apresenta no trabalho sua principal fonte de riqueza, tem como reflexo o mal-estar, essa indisposição que cada vez mais atinge os sujeitos e, consequentemente, afeta a sociedade contemporânea como um todo. O Jornal Estadão divulgou alarmantes dados do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), demonstrando que só no primeiro semestre de 2011 foram concedidos 109 mil auxílios-doença para trabalhadores, cujas enfermidades são decorrentes de estresse. Em 2010, no mesmo período, foram detectados 85 mil casos, ou seja, constatou-se um aumento de 28% em apenas um ano (2013). Na nomenclatura recente, Freudenberger apontou que o distúrbio caracterizado como Burnout constitui uma síndrome segundo a qual o trabalhador perde o sentido de sua relação com o próprio ofício, fazendo com que as coisas já não mais tenham tanta importância, e que qualquer esforço para reverter tal situação parece-lhe inútil (1970). Em estudo realizado em 2011, a International Stress Management, Isma-BR constatou que setenta por cento da população economicamente ativa do país encontra-se estressada por problemas no trabalho (2012). Além do prejuízo à saúde e às empresas, o estresse, que conduz a outras patologias, representou um custo de R$ 147 milhões à Previdência Social até junho de 2011, verba essa gasta com trabalhadores enfermos (2011). 12 A depressão na sociedade contemporânea transparece, ainda, no alarmante aumento do número de suicídios, o que levou recentemente a Organização Mundial da Saúde (OMS) a produzir a obra Prevenção ao Suicídio: Manual Dirigido a Profissionais das Equipes de Saúde Mental, face à elevação de casos constatados, o que pode ser considerado um indicador de sofrimento na sociedade capitalista coetânea, onde o trabalho nutre e desenvolve a produção e o consumo, a reafirmar ainda mais a dor do sujeito de então. Pensou-se, pois, estudar o lugar que o trabalho ocupa no desejo do sujeito, por entender que isso pode ser uma forma de repensar as possibilidades para a promoção de um encontro entre ambos, ou seja, entre sujeito e desejo. Anos atrás, recebi um convite para implantar a área de Recursos Humanos em uma empresa de médio porte, situada em uma cidade do interior do Nordeste, onde não havia qualquer outra psicóloga ou psicanalista. Nessa época, tive a oportunidade de aprofundar-me no universo empresarial e, algumas vezes, confrontei-me com aquela realidade. Foi então que constatei a conveniência de direcionar um olhar clínico sobre ela. As inúmeras situações de depressão, estresses, abusos, dentre outros sofrimentos humanos vivenciados ali, levaram-me a pensar na importância de conceder uma atenção mais específica sobre os recursos de que se dispõe, que por serem demasiadamente humanos, precisavam verdadeiramente ser cuidados. Desde então, busquei trabalhar sempre na área de Recursos Humanos a partir de uma leitura psicanalítica, o que me levou ao questionamento acerca dos efeitos do trabalho na vida dos profissionais, sem perder de vista, é claro, a pertinência desse olhar sobre o mundo organizacional, já que o sujeito que demanda uma análise é aquele mesmo que ingressa nas empresas, à espera de um trabalho que o realize. Pretende-se, portanto, questionar aqui se seria esse um lugar de vida ou de morte para o sujeito do desejo. 13 Inúmeras vezes atuando na área de Recursos Humanos, observei que profissionais de diversos segmentos laborais igualmente se queixavam que ao ingressarem nas organizações, entusiasmados com o trabalho, após algum tempo entendiam que aquilo “não era bem o que pensavam” ou, ainda, que naquele espaço “não conseguiam mudar nada”, ou que “não se sentiam reconhecidos por aquele trabalho, apesar de todo o empenho” que a ele dispensavam. Em minha clínica, o discurso de alguns pacientes em depressão era: “não suporto colocar meu uniforme, pois é como se fosse para a forca”, ou “quando começa o Fantástico1, percebo que o final de semana acabou e começa o meu mau humor, pois sei que amanhã voltarei a trabalhar”. Embora caiba analisar caso a caso, evidencia-se a existência de um mal-estar em tais contextos. Não raro, pois, questionei-me sobre o que estaria acontecendo na esfera do trabalho para a emergência desse mal-estar, à medida que o trabalho em si só pode ter uma função sublimatória. A ideia do trabalho obrigatório visto como necessidade premente de trabalhar constitui um imperativo social que produz o mais-de-gozar da coletividade. Assim, o lugar ocupado pelo sujeito do desejo aponta-nos para a possibilidade de uma não implicação com sua satisfação pela via do trabalho. Isso porque tal satisfação manifesta-se como uma obrigação pessoal, imposta pelas necessidades incutidas pela cultura, isto é, de que não se pode (ou não se deve) desejar, posto que a sociedade pode considerar inútil a presença do desejo. Esta pesquisa tem a pretensão de repensar a relação entre o sujeito e o trabalho, partindo da análise do questionamento de ‘quem é esse sujeito’ – sujeito do desejo ou sujeito submetido aos imperativos da Cultura? Assim, o lugar ocupado pelo 1 Programa apresentado pela TV Globo aos domingos, à noite. trabalho na vida do sujeito, além de ser um significante que possibilita a cidadania e a inclusão social, permite ao sujeito articular-se de três formas com o Outro, a saber: 14 como provedor do seu próprio desejo, como um sujeito que se submete ao desejo do Outro, ou, ainda, como objeto causa de desejo do Outro. Na perspectiva psicanalítica, que orienta o meu olhar sobre o sujeito do trabalho, o sujeito do desejo surge a partir de uma falta, enquanto o sujeito social, desejável pelo mundo do trabalho, tende a ser aquele que preenche essa falta, ficando na situação de objeto do desejo do outro. Seria o profissional contemporâneo um sujeito aprisionado pelo discurso capitalista? Depressão, embora não seja propriamente um caso psicanalítico, é o diagnóstico apresentado na Classificação Internacional de Doenças - CID (1992) pela psicologia e pela psiquiatria, para justificar o afastamento do trabalhador de seu ofício. Para nós, psicanalistas, depressão é a resposta à modalidade de sofrimento que surge como uma espécie de contestação produzida por nosso século, sendo considerada como uma das doenças mais elucidativas do mal-estar no trabalho (2011). As relações de poder, garantidas a partir da remuneração proveniente do trabalho, confrontam-se com a potência criativa dos sujeitos do trabalho, a causar na civilização esse mal-estar preconizado por Freud (1930). Aqui, através de um levantamento teórico, há de se procurar examinar mais detalhadamente como as pulsões de vida e de morte interferem no desejo do sujeito social, de maneira a questionar o que os leva a transitar entre depressão e libertação. No mundo capitalista, pergunta-se, o trabalho pode se assentar como necessidade de sobrevivência para o sujeito social ou, ainda, ele pode se apresentar como fonte de prazer? Seria possível ‘necessidade’ e ‘prazer’ caminharem concomitantemente? Como propiciar tal encontro? Referente aos sujeitos, o que deles pode influenciar no lugar psíquico ocupado pelo trabalho? Qual o papel da sociedade nesse aspecto? De que mal-estar falamos? Trata-se de questionamentos para os quais tentaremos oferecer uma argumentação no decorrer deste trabalho. 15 Já não é possível ignorar que as pressões no trabalho, cada vez mais frequentes na vida de quem labuta, geram angústia e melancolia, agravadas muitas vezes por inúmeras regras organizacionais que limitam ainda mais o prazer em um lugar onde genuinamente, para alguns, se produziria uma das mais valiosas dádivas: produto nosso, criação nossa, por mais mecanizada que ela se apresente. Na área social, as organizações também se ressentem de profissionais com potencial criativo, de pessoas que possam se sustentar dessa forma no decorrer da vida laboral. Ademais, observa-se na maioria dos sujeitos um desinvestimento gradativo de desejo durante o percurso profissional, embora se encontrem, é verdade, algumas exceções. 2 Para analisar a forma como o mundo do trabalho se inter-relaciona com o sujeito do desejo, tentar-se-á compreender o modo como o sujeito se posiciona como sujeito desejante ou sujeito ‘sujeitado’ às obrigações que o conduzem aos imperativos da sociedade capitalista, perpetuando as identificações por alienação. A partir da conexão entre sujeito e trabalho no mundo contemporâneo, caberá repensar o malestar do trabalho no capitalismo, à luz da teoria psicanalítica. Em sendo assim, poder-se-ia levar ao mundo do trabalho uma reflexão sobre a singularidade do sujeito do desejo. De forma mais específica, porém, a presente investigação procurará analisar o sujeito do desejo segundo os princípios da teoria psicanalítica, problematizando a relação desejo e trabalho numa perspectiva ético-política. Para cumprir os objetivos da presente pesquisa, no Capítulo 1, partimos de uma análise do trabalho no mundo contemporâneo, através de uma pesquisa 2 Entende-se como exceções o trabalho em que o sujeito se descobre em posição participativa, pensante, criativa, produzindo um encontro dinâmico, o trabalho vivo. bibliográfica, envolvendo principalmente as obras e os textos de Negri, Sennet, Bauman, Agamben, Dejours, indo para o pensamento de Freud nos textos “O mal- 16 estar na civilização”, “Psicologia das massas e análise do ego”, “Totem e tabu” e o “Futuro de uma ilusão”; e também para os textos de Lacan, principalmente nos Seminários: Livro 5 – “As formações do inconsciente”; livro 7 – “A ética da psicanálise”; livro 10 – “A angústia”; livro 11 – “Os 4 conceitos fundamentais da psicanálise”, dentre outros autores que contribuem com o tema desta pesquisa. Para entendermos o trabalho na contemporaneidade, partindo da ótica da psicanálise, iniciaremos tomando como base uma reflexão acerca do sujeito do desejo no âmbito do próprio trabalho. Entende-se que diagnosticar o seu lugar como sujeito frente ao desejo é inseri-lo no mal-estar, fomentado pelos interesses da sociedade capitalista contemporânea. 17 2. O MAL-ESTAR NA PSICANÁLISE A maior riqueza do homem é a sua incompletude. Nesse ponto sou abastado. Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito. Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora, que aponta lápis, que vê a uva etc. etc. Perdoai Mas eu preciso ser Outros. Eu penso renovar o homem usando borboletas. Manoel de Barros Tentaremos explicar o mal-estar no trabalho à luz do mal-estar na cultura contemporânea. Pensaremos esse estado de inquietação a partir da psicanálise, para que se possam entender as formas de padecimento que afetam os sujeitos na estrutura do mundo atual. Em 1930, Freud publicou o Mal-estar na civilização, tratando “o antagonismo irremediável entre as exigências da pulsão e as restrições da civilização” ( pág. 76). O mal-estar resulta das imposições da civilização sobre as pulsões, levando os sujeitos a renunciarem ao prazer em função da sobrevivência dessa mesma civilização. O trabalho ocupa um lugar de elemento cultural, que há de possibilitar o exercício da cidadania, a permitir a inclusão social e a sensação de pertencimento ao grupo e à civilização. 18 No cenário psicanalítico, no caminho da colaboração com a cultura, o sujeito precisa ser repensado pelo desejo, indo ao seu encontro, a fim de sentir entusiasmo com as suas conquistas na vida. A bem da verdade, a produção em si não determina o lugar do trabalho em relação ao desejo, contudo podemos nos perguntar sobre a posição que o trabalho ocupa na economia libidinal do sujeito. Em realidade, como o trabalho pode ser visto como uma forma de sublimação, ele se torna uma espécie de atividade que propicia bem-estar e prazer. Entretanto, na civilização contemporânea, verifica-se cada vez mais a prevalência de um mal-estar na atividade laboral, mal-estar esse que se alinha, segundo meu olhar, com o malestar na cultura contemporânea. A sublimação foi apresentada por Freud, como uma das saídas possíveis para a canalização da pulsão sexual, através da utilização da energia libidinal para a realização de atividades culturais. Ainda ao estudar o malestar na cultura, disse-nos Freud que outra técnica para afastar o sofrimento reside no emprego dos deslocamentos de libido, que nosso aparelho mental possibilita e através dos quais sua função ganha tanta flexibilidade. A tarefa aqui consiste em reorientar os objetivos instintivos de maneira que eludam a frustração do mundo externo. Para isso, ele conta com a assistência da sublimação das pulsões. (pág. 98) 2.1. TRABALHO E CULTURA Dentre os pilares que sustentam uma sociedade, o trabalho se configura na cultura como uma atividade que torna possível a coexistência humana, facilitando a vida em grupo. A sociedade, por sua vez, se sustenta através das benesses produzidas pelo trabalho de seus sujeitos. Na nota de rodapé 1, de O Mal-estar na civilização, Freud (1930) tece considerações acerca do trabalho como forma de sublimação necessária à manutenção da civilização, assegurando a impossibilidade de, 19 [...] dentro dos limites de um levantamento sucinto, examinar adequadamente a significação do trabalho para a economia da libido. Nenhuma outra técnica para a conduta da vida prende o indivíduo tão firmemente à realidade quanto a ênfase concedida ao trabalho, pois este, pelo menos, fornece-lhe um lugar seguro numa parte da realidade, na comunidade humana. (p. 99) Esse lugar seguro numa parte da realidade, mencionada por Freud, seria para o sujeito um espaço de reconhecimento, permitindo, ainda, que ele participe e colabore com a manutenção da sociedade. Nesse momento, Freud inclui o trabalho numa atividade de sublimação, que como tal gera prazer tanto para o sujeito quanto para a sociedade. Entretanto, o desprazer, que não deve ser ignorado, coloca-se como mal-estar, já que existe um sem número de componentes oriundos da libido, direcionados tanto para o trabalho profissional quanto para os relacionamentos humanos a ele vinculados, seja pela via do narcisismo, seja pela senda da agressividade ou do erotismo, visto que seriam essas mesmas algumas das formas possíveis para a canalização da energia sexual. Freud (1905) abordou a sublimação na obra Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, em que ele trata da sexualidade infantil. Esse texto impactou o pensamento de toda uma época, porquanto desvela a importância da sexualidade em todas as relações humanas. Assim, ao colocar a sublimação como uma das formas possíveis para a canalização da libido, ele torna pertinente pensar no trabalho como uma via de investimento para o sujeito, um modo de obtenção de satisfação. Assim, referindo-se ao trabalho intelectual, declara ele que, finalmente, é fato inegável que a concentração da atenção numa esfera intelectual e o esforço intelectual em geral produzem uma excitação sexual concomitante em muitos jovens, assim como em adultos. É esta, sem dúvida, a única base justificável para o que em outros sentidos constitui o hábito questionável de atribuir os distúrbios nervosos ao “excesso de trabalho” intelectual. (pág. 210) Em 1915, Freud publicou o texto intitulado A Pulsão e suas Vicissitudes, em que fundamenta um dos principais conceitos de sua teoria psicanalítica. Nesse texto, ele define a pulsão como um estímulo que surge do interior do próprio organismo, tal uma força que imprime um impacto constante na busca da satisfação, conceito 20 esse que se situa “na fronteira entre o somático e o psíquico[...], o representante psíquico das forças orgânicas[...] o representante psíquico de uma fonte de estímulo endossomática, constantemente a fluir[...]” ( pág.130). Ainda nesse mesmo ano de 1915, mas em outro artigo, O inconsciente, disse-nos também Freud, que “ uma pulsão nunca pode se tornar objeto da consciência – só a ideia que o representa pode” ( pág. 203). Tal ideia, para realizar seu objetivo, é destinada de quatro formas diferentes: transformação em seu contrário, retorno ao próprio eu, recalque e sublimação. Laplanche & Pontalis (1985), no Vocabulário de Psicanálise, definiram a pulsão como sendo um processo dinâmico que consiste numa pressão ou força (carga energética, fator de motricidade) que faz tender o organismo para um alvo. Segundo Freud, uma pulsão tem a sua fonte numa excitação corporal (estado de tensão); o seu alvo é suprimir o estado de tensão que reina na fonte pulsional; é no objeto ou graças a ele que a pulsão pode atingir o seu alvo. (pág. 506) Desse modo, o princípio do prazer estaria vinculado ao aumento ou à redução do estímulo, donde se infere que toda pulsão é dotada de quatro componentes, ou seja: pressão, finalidade, objeto e fonte. A pressão exprime a quantidade de força ou a medida da exigência de trabalho que ela representa, isto é, uma característica motora, ativa. A finalidade, por sua vez, constitui a própria satisfação, que só acontecerá se ocorrer a eliminação da fonte da pulsão. Além disso, as pulsões possuem uma finalidade principal que permanece constante; contudo, inúmeras outras finalidades intermediárias podem surgir, a proporcionar satisfação parcial. Já o objeto expressa o elemento em relação ao qual, ou através do qual, ela pode atingir sua finalidade. Tal objeto, em geral variável e diversificado, permite que a pulsão se satisfaça, caracterizando-se muitas vezes como sendo uma parte do 21 próprio corpo do sujeito, mesmo que noutras ocasiões, eventualmente, evidencie-se como algo estranho. Por último, a fonte, que é caracterizada como o processo somático que ocorre em um órgão ou em parte do corpo, e cujo estímulo é representado na vida mental por uma pulsão. Em geral, chega-se à fonte a partir de sua finalidade. As pulsões, no entender de Freud, (1915 ) deslocam-se prontamente de objetos e são capazes de realizar funções inúmeras vezes distantes das ações intencionais que as originaram, por meio de vicissitudes que atuam como uma forma de defesa, através de reversão ao seu oposto, de retorno em direção ao próprio ‘eu’ do indivíduo, de repressão e de sublimação. Dessa forma, Freud tratou dos destinos do representante ideativo da pulsão. Para a teoria Freudiana, portanto, a pulsão só é conhecida a partir de seus representantes, caracterizados como ideativo (manifestação mental ou psíquica dos estímulos endossomáticos), e afetivo (que constitui a parte energética da força pulsional). A reversão ao seu oposto afeta a finalidade das pulsões e pode ocorrer de duas maneiras: como reversão do objetivo da pulsão, condizente com a mudança da atividade para a passividade, ou como reversão de seu conteúdo, que se transforma, em geral, no oposto ao original. O retorno em direção ao próprio ‘eu’ tem em sua essência a mudança de objeto, embora o objetivo mantenha-se constante, convergindo para a transformação de atividade para passividade do sujeito. Em contrapartida, o recalque ocorre quando a pulsão encontra resistências que a tornam inoperante e, não raro, desloca-se e aparece sob a forma de dor; noutras vezes, porém, surge por sucessões de pensamentos que são associados e ligados a uma outra direção. 22 Assim sendo, em relação ao tema proposto no presente trabalho, a sublimação traduz-se como um conceito fundamental. A sublimação é um dos destinos que compete à pulsão. Para chegar à sublimação, o homem canaliza a pulsão sexual para outro tipo de produção, direcionando seu desejo para alguma atividade valorizada socialmente, como, por exemplo, a criação artística ou a investigação intelectual. No Vocabulário de Psicanálise, Laplanche (1895), citando Freud, referese à sublimação como o processo que explica as atividades humanas sem qualquer relação aparente com a sexualidade, mas que encontrariam o seu elemento propulsor na força da pulsão sexual. Freud descreveu como atividades de sublimação principalmente a atividade artística e a investigação intelectual. A pulsão é derivada para um novo alvo não sexual ou em que visa a objetos socialmente valorizados. (pág. 638) Dessa forma, o trabalho proporciona ao sujeito um tipo de satisfação diferente da satisfação sexual, atribuindo aos objetos produzidos a possibilidade de serem socialmente valorizados. No entender de Freud (1930), a atividade profissional constitui fonte de satisfação especial, se for livremente escolhida, isto é, se, por meio da sublimação, tornar possível o uso de inclinações existentes, de moções pulsionais persistentes ou constitucionalmente reforçados. No entanto, como caminho para a felicidade, o trabalho não é altamente prezado pelos homens. Não se esforçam em relação a ele como o fazem em relação a outras possibilidades de satisfação. A grande maioria das pessoas só trabalha sobre a pressão da necessidade, e essa natural aversão humana ao trabalho suscita problemas sociais extremamente difíceis. (pág. 99) É então que Freud adverte não haver nada de natural na relação com o trabalho, pois esse tipo de ligação de investimento é uma demanda que vem do Outro, e como tal constitui uma renúncia pulsional do sujeito. O natural é contraposto aqui às exigências do processo sublimatório, fonte do mal-estar. A questão é que o sujeito ganha com esses investimentos que exigem renúncia: um lugar, um reconhecimento pelos objetos valorizados, produzidos. Ao renunciar, o sujeito sofre. Entretanto, se a energia sexual for canalizada para o trabalho, a representação do prazer tornar-se-á 23 também de suma importância para seus atores. Repensar o lugar do trabalho é, pois, repensar o lugar da produção dos sujeitos como objeto e fonte possível para o desejo, isto é, como lugar de satisfação e insatisfação, pois o desejo não pode se esgotar. Contudo, o ideal, no sentido de nossa mais alta aspiração, é inatingível, já que para preservar o grupo social, os interesses sociais precisam ser priorizados frente aos individuais, fazendo com que o desejo do grupo prevaleça sobre o desejo do sujeito. Em Psicologia das Massas e Análise do Ego, Freud (1921) sustentou que o homem da cultura tende a viver em sociedade e que isso implica renúncia pulsional. Paradoxalmente, essa tendência foi analisada por ele como motivo gerador do malestar. Todavia, não se pode esquecer de que o descentramento do sujeito da modernidade dá lugar ao desejo que o anuncia, que o ultrapassa e que o transcende, pois que ele se submete ao Outro. Se a realização do desejo se torna inalcançável porque o objeto lhe escapa, isso há de incitar o sujeito a desejar, a criar e a recomeçar ou ainda a ir se acovardando tal qual a neurose nos demonstra, como diz Freud, o tédio, o marasmo. Assim sendo, é o desejo a marca psicanalítica por excelência da modernidade, a sinalizar a incompletude e a produzir a falta, fonte primeira da produção de mal-estar psíquico. Lacan retoma Freud para tratar do objeto ‘a’, objeto radicalmente perdido, a partir da ideia freudiana de bissexualidade constitucional orgânica, mas sim da falta estrutural de inscrição do objeto do desejo no inconsciente. Tal objeto, a-sexual, Freud relacionou como fantasia ligada à bissexualidade, que vai revelar nada mais nada menos que a incompletude do sujeito. 24 Sabe-se que a cultura envolve hábitos, costumes, crenças e valores de uma sociedade composta por sujeitos que, segundo a psicanálise, são movidos pelo inconsciente. O conceito de inconsciente freudiano (1915) se estrutura a partir do reconhecimento de que existem processos mentais inconscientes. O inconsciente, do ponto de vista topográfico, abrange, por um lado, atos que são meramente latentes, temporariamente inconscientes, mas que em nenhum outro aspecto diferem dos atos conscientes, e, por um outro lado, abrange processos tais como os recalcados, que, caso se tornassem conscientes, estariam propensos a sobressair num contraste mais grosseiro com o restante dos processos conscientes. ( pág. 198) A civilização intervém na subjetividade, estabelecendo princípios, tendências, ditando normas e leis que orientam condutas, conceitos e ideias. Em texto publicado em 1930, no período de pós-guerra, Freud nos remeteu a essa sensação desagradável de insatisfação, a que ele chamou de Mal-estar na civilização, ressaltando que os interesses individuais vão de encontro às aspirações da sociedade como um todo, ou seja, às aspirações da civilização. Os homens, segundo Freud (1930), têm como propósito de vida a homeostase, daí procurarem evitar o desprazer e o sofrimento, na perspectiva de alcançarem intensos sentimentos de prazer. Assim, em O Mal-estar na Civilização, ele afirma que o que decide o propósito da vida é simplesmente o programa do princípio do prazer. [...] Não há possibilidade alguma de ele ser executado; todas as normas do universo são-lhe contrárias. Ficamos inclinados a dizer que a intenção de que o homem seja “feliz” não se acha incluída no plano da “criação”. O que chamamos de felicidade no sentido mais restrito provém da satisfação (de preferência, repentina) de necessidades represadas em alto grau, sendo, por sua natureza, possível apenas como uma manifestação episódica. (pág. 96) Esse mal-estar preconizado por Freud explica o sofrimento advindo do nosso próprio corpo que, por ser perecível, traz em seu caminhar a decadência e a dissolução, 25 emitindo o sofrimento e a angústia como alertas de que as coisas não estão como deveriam estar, ou seja, de que algo não vai bem. Assim sendo, vale a pena lembrar que aquele que estabeleceu os princípios da Psicanálise iniciou sua investigação nos sintomas conversivos de sujeitos histéricos, de sujeitos que sinalizavam esse mesmo estado de inquietação mal definido, a que se chama mal-estar. Por certo que, não raro, o mal-estar decorre do mundo externo, do qual fazemos parte, e no qual sofremos mudanças tanto sociais quanto ambientais. Aliás, é essa mesma relação social que torna possível nossa atuação no entorno, ora transformando e ora recriando a cultura. Ao viver em sociedade o homem reconstrói a mesma cultura que o construiu, à medida que, sendo expressa pelo outro, ela torna-se passível de ser entendida e, a um tempo, de poder significar, de maneira a elaborar seu papel social num exercício de cidadania que se estabelece através de sua produção. Conforme nos ensina Freud (1930), somos constituídos pelo olhar do outro que capturamos pela via do dito do outro, perpassado pela linguagem, que forma a cultura e constitui a sociedade. Contudo, a felicidade a qual os seres humanos pretendem alcançar, precisa ser abdicada em função dos objetivos de uma coletividade, tornando o trabalho de todos necessário ao bem do grupo social. Vemos, então, que para que uma sociedade aconteça, ela precisa ser construída e preservada, sendo os objetivos do grupo colocados acima dos interesses individuais. (pág. 96) Lidar com a natureza pressupõe posição ativa, porquanto cabe ao homem sujeitá-la à sua vontade, posto que todos trabalham em sociedade – ou, pelo menos, deveriam fazê-lo – para o bem de todos, criando laços sócioculturais. Freud nos apontava então na direção do trabalho para a sobrevivência da coletividade. Daí dizer-se que o sujeito social é por si só um sujeito ético, conforme argumenta Freud ao reportar-se à leitura de Psicologia de Grupo e a Análise do Eu, de Gustave Le Bon (1921), quando observava como se constituem as massas. Em sociedade, 26 porém, os cidadãos tendem a superar os princípios éticos face aos princípios daqueles que os compõem, tornando as coletividades capazes de apresentar um alto grau de desprendimento e devoção. Na verdade, o amor por si mesmo só conhece uma barreira: o amor pelos outros, o amor por objetos – já preconizara Freud (1921) como condição para a vida em comum, de modo a produzir o enlace que possibilita ao sujeito substituir o individualismo pelo altruísmo. A propósito, ele ainda ressalta: Levantar-se-á imediatamente a questão de saber se a comunidade de interesse em si própria, sem qualquer adição de libido, não deve necessariamente conduzir à tolerância das outras pessoas e à consideração para com elas. Essa objeção pode ser enfrentada pela resposta de que, não obstante, nenhuma limitação duradoura do narcisismo é efetuada dessa maneira, visto que essa tolerância não persiste por mais tempo do que o lucro imediato obtido pela colaboração de outras pessoas. (pág.129) O trabalho produz laços, inclui, adapta e colabora com a civilização, de forma que o altruísmo se transforme numa condição para a convivência em grupo e preservação da espécie. Ainda sobre o mal-estar, diz Freud (1921): [...] a experiência demonstrou que, nos casos de colaboração, se formam regularmente traços libidinais entre os companheiros de trabalho, laços que prolongam e solidificam a relação entre eles até um ponto além do que é simplesmente lucrativo. (pág.130) Seria então o trabalho por si só um investimento libidinal, sublimado pelos sujeitos e direcionado para a sociedade em prol do bem-comum? Nas relações sociais dos homens, a libido busca a satisfação das grandes necessidades vitais, ligando-se aos primeiros objetos de amor, podendo, contudo, estender-se para a humanidade, inclusive pelos laços de trabalho, a propiciar o exercício da cidadania. Ao abordar o assunto, Freud (1921) esclarece que no desenvolvimento da humanidade como um todo, do mesmo modo que nos indivíduos, só o amor atua como fator civilizador, no sentido de ocasionar a modificação do egoísmo em altruísmo. 27 E isso é verdade tanto no amor sexual pelas mulheres, com todas as obrigações que envolve de não causar dano às coisas que são caras às mulheres, quanto do amor homossexual, dessexualizado e sublimado por outros homens, que se origina do trabalho em comum. (pág.130) No meio cultural, o homem canaliza a energia libidinal por meio da sublimação, com vistas à construção de algo necessário à vida em comum, ou seja, na perspectiva de um ato de amor e de uma conduta altruística. Assim, na proposição psicanalítica, ao colocar sua produção à mercê da civilização, o homem, perpassado pela castração, promulga para além disso a ação de cada um na cultura, visto que o sujeito castrado vive a falta, tentando preenchê-la, desejando agir, partindo para a ação. Na obra Os Outros em Lacan, Antonio Quinet (2011) propõe-nos analisar a bipolaridade do “eu” através do espelhamento narcísico, construído a partir do Outro, pois “assim, o outro, como semelhante, é o objeto do amor narcísico: eu me amo no outro (que é o meu reflexo).” (pág.16) Há de se lembrar de que o inconsciente, pedra fundamental da Psicanálise, é constituído pelo discurso do Outro e instituído e marcado pela linguagem. Portanto, o Outro nos marca, com a linguagem, codificando-nos e oferecendo um tesouro de significantes, inscrevendo-nos numa linhagem, numa história, em que cabem o desejo e seus ideais. E essa cadeia de significantes é formada pela cultura que mantém a partir do Outro, como lugar dos significantes do sujeito na formação do inconsciente. O desejo, como veremos, advém do “furo” do Outro, que instaura a falta que o sujeito tenta preencher com inúmeros significantes, dentre os quais, o trabalho. Desse modo, o trabalho como laço social alimenta a cultura que é transmitida a cada geração. Daí Quinet (2012) declarar que 28 a predeterminação do laço social é estabelecida e transmitida de geração em geração aos agentes e seus outros, garantindo a manutenção dos laços em uma sociedade, pois o homem é um ser social que não prescinde do outro e cria regras e condutas de convivência com finalidades específicas. Nossa realidade social é enquadrada pelos laços sociais que Lacan chama de aparelhos de gozo, uma vez que esses vínculos promovem um esvaziamento de gozo ao estabelecer maneiras conviviais de relação com o outro. Sem esse enquadramento, que é cultural e, portanto, simbólico, a inclinação do homem é tratar o outro como seu objeto de gozo e nele saciar suas pulsões eróticas e de morte. (pág. 47) Se o capitalismo, por sua vez, baseia-se na manutenção do desejo insatisfeito, a fim de que o sujeito possa produzir incessantemente, a garantir o lucro através do consumo constante, como seria possível coexistir satisfação e trabalho? Antes de darmos conta dessa questão, torna-se necessário investigar quem é o sujeito desejante para a psicanálise? Afinal, a própria psicanálise funda o inconsciente, pensando o sujeito como sujeito movido pelo próprio inconsciente, posto constituir representações de algo que falta, só podendo, portanto, ser representado por uma linguagem que nos remete ao desejo. 2.2. O SUJEITO DO DESEJO Para designar o desejo, Freud utilizou o termo “Wunsch” ( 1895), que representa o desejo inconsciente recalcado, irrealizável, que se concretiza através dos sonhos ou da imagem fantasística, cuja experiência de prazer ou desprazer foi inscrita no aparelho psíquico, através dos próprios traços mnêmicos. Por outro lado, seguindo as indicações oferecidas por Lacan, que se baseou em Hegel, o desejo deve ser pensado como desejo do Outro. Refletindo o reconhecimento a partir de Hegel, pode-se dizer que ele se dá a partir de um outro que serve de suporte ao desejo, negando-o como consciência. Daí entender-se que 29 o sujeito quer se fazer reconhecer pelo outro na palavra que lhe é dirigida. E, em um segundo momento, o desejo não mais será simplesmente do ‘outro’, porém, será do ‘Outro significante’, por isso ele só poderá ser interpretado e/ou nomeado. Em A Descoberta do Inconsciente, Quinet (2012), propôs que o ‘cogito’ freudiano é, antes de tudo, ‘desidero ergo sum’, uma vez que lá onde se encontra o desejo está o sujeito como efeito da associação das representações. ‘Desejo, logo existo’. Desejo é o nome do sujeito de nossa era: a era freudiana. (pág.13). Na relação com o Outro, perpassada pela palavra, somos significados e é dessa forma que a cultura se sustenta, impregnando-nos de valores, de hábitos e de costumes da época, de acordo com os grupos sociais que influenciam esses ‘Outro’s’ que habitam nossas vidas. Como se vê, não é difícil entender que é através do espelhamento narcísico que o outro se constrói. Como se sabe, em A Interpretação dos Sonhos, Freud (1900) descreveu as leis do inconsciente. Nesse momento, concluiu ele que nos sonhos, além de encontrar chistes, atos falhos e esquecimento, há também a possibilidade de acesso ao inconsciente, através de sua interpretação. Com isso, ele demonstrou que o inconsciente possui uma forma de estruturação diferente, que reporta o sujeito a algo que não pode ser revivido, podendo somente ser impresso como algo que se lhe escapasse, como algo deslocado, o que influencia as pessoas em sua vida diária, fazendo-as adoecer. Da mesma forma, no texto “A instância da Letra no inconsciente ou a razão desde Freud”, que se encontra em sua obra O Seminário: livro 5, Jacques Lacan (1958) estuda as formações do inconsciente para entender como ele se estrutura, depreendendo que [...]não existe objeto a não ser metonímico, sendo o objeto do desejo objeto do desejo do Outro, e sendo o desejo sempre um desejo de Outra coisa – muito precisamente, daquilo que falta, a, o objeto perdido primordialmente, à medida que Freud mostra-o sempre, por ser reencontrado. (pág.16). 30 Sabe-se que o inconsciente é um fato, isto é, não precisa de nada mais além do discurso para se estabelecer. Lacan se refere ao discurso, como a realidade social da comunicação, que ocorre na tentativa de uma inter-relação com o Outro. Entretanto, a linguagem trata das fantasias inconscientes, elucidadas através da relação analítica, que estabelecem um saber, um conhecimento da realidade subjetiva do analisante, em função das desarticulações dos significantes, que indicavam relações simbólicas, isto é, posições sexuadas e sociais, para além do prazer. Logo, percebe-se que, em conformidade ao pensamento lacaniano, a sexualidade humana é comandada pela linguagem. Na verdade, trata-se de um fato de discurso, daí ter de existir primeiro na linguagem. Aliás, qualquer coisa só existe por estar no discurso, porquanto é a linguagem que faz o inconsciente existir. Logo, “sou” onde não “me” penso, mas “me” falo, “me” significo. Assim, os inúmeros significantes que se nos oferecem produzem a cadeia de significantes que é formada pela cultura – cultura essa que a mantém a partir do Outro, como lugar dos significantes do sujeito na formação do inconsciente. Em suas reflexões sobre Édipo, Freud (1905) nos apontou, nos “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”, a falta original, a falha estruturante da castração que, pelo viés de um vazio, provoca-nos o desejo de preenchimento que se traduz em busca incessantemente de algo que jamais dará conta de nos completar. Eis, pois, a ideia de objeto perdido, o denominado das Ding, a Coisa. Segundo Marco Antonio Coutinho Jorge, em Fundamentos da Psicanálise: de Freud a Lacan, “das Ding é o que se revela como absolutamente prevalente na estrutura, pois das Ding implica a representificação na estrutura do real sem nome originário e sem imagem.” ( pág. 140). Trata-se do termo freudiano que designa o indizível da ação humana, mas que se relaciona com a palavra, sendo por ela representado. Assim, quando examinou a essência do desejo e a natureza de seu processo, Freud destacou que a pulsão se expressa no aparelho psíquico sob a forma de seus representantes, pois é a partir da primeira experiência de satisfação, que surge de 31 uma necessidade, que o sujeito buscará retorná-la, ao perceber seus traços mnêmicos. O objeto com que o sujeito procura satisfazer as necessidades dessa primeira experiência de satisfação é caracterizado como objeto pulsional, entendido aqui como objeto do desejo, o objeto a, o objeto causa do desejo, o objeto perdido, enfim. Lacan define esse objeto como eternamente faltante, que, por conseguinte, há de marcar a presença de um furo, um vazio em que caberá qualquer outro objeto, desde que contornado pela pulsão, circundando-a, buscando satisfazê-la, mesmo que não atinja seu alvo. Ele enfatiza que o primeiro objeto de satisfação perdido jamais será reencontrado, mas que o sujeito buscará incessantemente substituí-lo por Outra coisa. Esse objeto perdido, a que Lacan denominou objeto ‘a’, é marcado pela repetição de um encontro faltoso com o real. Oportunamente, Colette Soler (2012), ao escrever O inconsciente – Que é isso?, assinalou que: O inconsciente trabalhador, Arbeiter, em alemão, produtor das formações do inconsciente, do sonho ao sintoma, tem por empreendedor, segundo ele, um desejo que se vai realizando nessas formações, isto é, que está em posição de causa do falar do inconsciente. Disse na última vez que, para Freud, o inconsciente diz a verdade, e acrescento que para ele a verdade é a verdade do desejo. O inconsciente, isso fala e, falando, transporta o desejo. Deveria dizer um desejo. (pág. 55). Sob essa perspectiva, é possível afirmar que o desejo é correlativo à falta, sendo único, específico; além do mais, ele nos identifica como sujeitos, isto é, como aquele ao qual nos sujeitamos, sendo possível apenas dizer algo a respeito dele, enunciando-o através de uma demanda ao Outro. O desejo, vale lembrar, estrutura-se sempre e fundamentalmente como “desejo do desejo do Outro”. E a corroborar essa afirmação, Joel Dör (1989) observa que “a divisão do Sujeito implica, na perspectiva lacaniana, ter de se definir uma parte de nossa subjetividade como sujeito do inconsciente, como sujeito do desejo.” (pág. 114) 32 Sabe-se que os sujeitos divididos e alienados do seu próprio desejo vivem em comunidade, escrevendo e se inscrevendo na cultura de uma civilização. A civilização incide sobre o desejo, deixa suas marcas, seus imperativos, suas exigências. O sujeito contemporâneo manifesta-se de diferentes formas, adoecendo uns aos outros, potencializando suas estruturas clínicas, criando instituições cada vez mais adoecidas e adoecedoras, como veremos adiante, ao pensar o lugar desses sujeitos no trabalho, e o lugar do trabalho para os sujeitos. Em O Seminário: livro 2, ao abordar o ‘eu’ na teoria de Freud e na técnica psicanalítica, Lacan (1985) estabeleceu que “para falar do desejo, uma noção se impôs em primeiro plano: a libido.” (pág. 279). O ser parte do desejo, diz-nos Freud, considerando que o desejo sexual encontra-se no âmago mesmo do desejo do ser humano, pois ele se constitui sob a relação de ‘ser com falta’. A falta primordial, constituinte do sujeito, é que estabelece a possibilidade de existência, pois o desejo que aí surge não pode ser nomeado, posto que toda e qualquer conceitualização parte desse mesmo desejo. O inominável causa angústia, ensina Freud, fazendo com que, para suportá-la, coloquemos, por exemplo, algo em seu lugar: um objeto. Portanto, desejo é falta que não pode ser preenchida. E essa falta, embora constituinte, não o obstrui, pois ele é, por natureza, insatisfeito. Desejo vincula-se a pensamento, o que leva Lacan (1963) a pensar o desejo entre significantes, entre representações. Em O Seminário: Livro 10, em que Lacan (1963) freudianamente esclarece que a lei faculta o desejo, ele próprio afirma que: O desejo, portanto, é a lei. Isso não é verdade apenas na doutrina analítica, onde constitui o corpo central do edifício. É claro que o que constitui a substância da lei é o desejo pela mãe, e que, inversamente, o que normatiza o próprio desejo, o que o situa como desejo, é a chamada lei da proibição do incesto. 33 [...] Sabe-se que sua manifestação edipiana, se não sadiana, é a mais exemplar. O desejo se apresenta como vontade de gozo, não importa por que vertente apareça, tanto pela vertente sadiana – eu não disse “sádica” – quanto pelo lado do que chamamos de masoquismo. Mesmo na perversão, na qual o desejo se dá como aquilo que serve de lei, ou seja, como uma subversão da lei, ele é, efetivamente, suporte de uma lei. (pág.166) Ora, como é de conhecimento geral, um dos destinos possíveis para a pulsão seria a sublimação, posto que assim ela escaparia do recalque. O trabalho, definido por Freud como atividade sublimatória, constituiria, pois, um circuito possível para contornar o desejo, já que a pulsão encontra a satisfação sem recalcamento, por mudança de objeto e de alvo sexual, na sublimação. Freud, por sua vez, já ressaltava a arte, a literatura, a atividade intelectual ou científica, como formas de sublimação da energia libidinal, e comparava, no plano psíquico, o tipo de satisfação obtida com tais práticas àquela obtida no exercício da sexualidade, mesmo que em menor intensidade. Na cultura contemporânea pode-se encontrar o mal-estar no trabalho, justamente porque muitas vezes o trabalho não permite que o sujeito ocupe um lugar de sujeito do desejo. O mal-estar faz parte de qualquer cultura, embora para cada sujeito caiba um significante, dependendo de como ele se posiciona frente aos apelos sociais, com relação ao seu próprio desejo. Apesar de a cultura necessitar que seus membros se sujeitem ao trabalho, tendo como objetivo sua própria preservação, é possível ressignificar esse lugar, pois através dele o desejo pode ser canalizado, possibilitando satisfação e prazer, e, simultaneamente, sofrimento e desprazer. Desafios, novas oportunidades, investimentos e demais questões inerentes ao mundo do trabalho precisam estar inseridas na cultura, já que, embora não consigam dar conta do mal-estar, tendem a reduzi-lo, pois permitem o deslizamento do desejo, reeditando o trabalho como fonte de bem-estar, colocando o trabalho no lugar de objeto causa de desejo. Nesse caso, o sujeito consegue se manter desejante, consegue conservar-se buscando 34 continuamente sua própria satisfação, independente das necessidades da empresa ou da sociedade em que vive. Assim sendo, o mal-estar no trabalho surge quando o sujeito desejante se anula em função de um mais-de-gozar social, que o demanda a abrir mão de seu desejo em função da exigência social capitalista de produção e eficácia. É sabido que todo neurótico tem problema com o desejo: na histeria, desejo insatisfeito e na neurose obsessiva, desejo impossível, ou seja: desinteressar-se pelo desejo é uma estratégia neurótica, defensiva. O fato é que o homem se sujeita ao desejo do Outro, seja esse outro a empresa, seja o trabalho ou mesmo a sociedade. Considerando-se a castração como o ponto comum da interseção entre a norma do desejo e a da lei, entende-se que para lidar com o interdito, a sociedade estimula no homem o poder dado pelo capital, onde, no mundo contemporâneo, a leitura é feita pela cartilha da eficácia e da produtividade. Logo, pode-se consumir tudo o que se produz. Os efeitos contemporâneos abrem caminhos para as compulsões, para a ‘medicalização’, para a ‘drogadição’ e para a violência desenfreada, como formas de encaminhamento para que a humanidade canalize sua angústia. No mundo capitalista, o objeto socialmente fomentado são os objetos a consumir, e é ele que justifica a produção, pois para que haja produção, é preciso antes existir a necessidade dela, de maneira a justificar o consumo. O objeto do desejo na cultura contemporânea esvazia-se e repõe-se sistematicamente, descartando de forma insustentável a permanência de qualquer desejo que subverta esse status. O trabalho encontra-se inserido na cultura, a fomentar mais ainda a busca pela satisfação do desejo, como ferramenta que pretende tamponar a falta essencial, tornando-se, portanto, o motivo capitalista para escravizá-lo. Entretanto, se aquilo que falta é inominável, é indizível, é insubstituível, porquanto essencial, o trabalho por si só não será suficiente para encobrir essa falta, por apontar em algum 35 momento na direção de seu significante, assim como na direção de um ser sujeitado a sua cultura. O retorno ao mal-estar, portanto, é sustentado pela cultura contemporânea, que o legitima por meio de hábitos e costumes da sociedade capitalista, sociedade essa que produz seres capazes de sublimar o próprio desejo, ao mesmo tempo em que o diluem incessantemente e se alienam em relação a ele. Desamparo e alienação constituem, pois, os slogans/clichês atuais que justificam o anonimato da produção capitalista. O trabalho do artesão ‘era’ de sua apropriação, possuía sua assinatura; porém, no sistema capitalista, o mais das vezes isso não ocorre, cabendo esse privilégio apenas a alguns – àqueles que se dedicam às atividades que requerem considerável utilização do intelecto, quero dizer, os artistas e os próprios intelectuais. Assim, pergunta-se, qual a relação do trabalho na sociedade capitalista como o mais-de-gozar prenunciado por Lacan? Talvez, a seguir, a noção de gozo em Lacan possa nos ajudar a responder. Observa-se, ademais, que Lacan construiu a teoria dos discursos como resposta ao mal-estar na civilização, abordado por Freud em 1930. 2.3. O MAIS-DE-GOZAR Freud utilizava a palavra ‘gozo’ para definir o excesso de prazer, cujo preceito regulador de funcionamento do aparelho psíquico era o princípio do prazer e o princípio de realidade. A existência de Das Ding, a Coisa, permitiu a Lacan, nos anos 60, desenvolver o conceito de ‘objeto a’, conceituado pelo desejo como aquele que o motiva, que o provoca, marcando a subjetividade do sujeito que se estrutura através da linguagem. 36 Para Lacan, (1982) o gozo é delineado pelo discurso, entretanto, ele é indizível, ele é inefável, posto que o significante que o desperta produzirá diferentes modalidades de gozo no sujeito. O discurso a que se refere Lacan equivale à fala, somatório entre enunciado e enunciação. O ‘objeto a’ é abordado pelo campo do gozo, em sua diferença em relação ao campo do significante, nesse momento em que Lacan sustenta o mais-de-gozar a partir do conceito de mais-valia, formulado por Marx. Para Lacan, a mais-valia marxista pode ser articulada como um ‘resto’, como algo impossível de simbolizar algo, uma espécie de um ‘gozo’ a mais, não passível de entrar na significação do gozo fálico. Para o trabalhador, cuja atividade só é remunerada por meio de salário, a mais-valia acarreta a falta de percepção daquilo que ultrapassa o limite do lucro, visto que ela não é concedida, mas, sim, simbolizada, já que ultrapassa a concepção do lucro retido pelo capitalista. Mesmo porque, no sistema capitalista, não é possível ao sujeito estabelecer a valia de seu labor, já que ele é intangível, restando-lhe apenas a sensação de que está sendo subtraído de algo que lhe pertence de direito, sem, contudo, poder atribuir um valor a esse algo. Dentre as formas de gozo elencadas por Lacan (1982), encontram-se o gozo do Outro, o gozo fálico, o mais-gozar e o gozo propriamente feminino. O gozo do Outro refere-se ao corpo próprio, trata-se do gozo originário, apresentado como mítico, que está na Coisa (Das Ding). Representa o pai da horda, do mito freudiano narrado em Totem e Tabu. O gozo fálico, por sua vez, está relacionado com a linguagem, como resultado de sua codificação por intermédio do significante e assumindo a sua significação fálica no Édipo. Já o mais-gozar tem sua origem no objeto pequeno ‘a’, que comporta um resto de gozo, que escapa ao processo de significância, embora produzido por ele. A verdade é que o gozo extravasa, transborda, escapa, obrigando o sujeito a enchê-lo, sem jamais conseguir completá-lo. O gozo propriamente feminino, que se encontra mais além do falo, é suplementar, enigmático, por nunca ter sido apresentado na linguagem. Daí não se saber se o 37 homem fala porque seu gozo está em falta, ou se é porque ele fala que seu gozo está em falta, portanto, o gozo é o real do ser, advindo da relação conturbada do sujeito com o seu próprio corpo. Lacan comunga com Marx a ideia de singularidade da produção dos sujeitos da ordem de um desejo velado no capitalismo. Ele aborda o campo do gozo, como operatório e conceitual, que se utiliza dos aparelhos da linguagem para tratar do gozo nos laços sociais, através dos discursos que se elucidam na realidade.3 A propósito, ainda em relação ao gozo, Patrick Valas (2001) lembra que Freud também enfatizava ser o desejo regulado pelo princípio do prazer e pelo princípio de realidade, considerando que “a realização de um desejo inconsciente respondia a outras exigências, e funcionava segundo outras leis diferentes das satisfações das necessidades vitais. Assim, ele pode afirmar que a realização do desejo tende, antes, para uma desrealização.” (pág. 19) 2.4. O SUJEITO DO DESEJO DO TRABALHO NA CULTURA CONTEMPORÂNEA Freud (1930) entende que o sofrimento humano tem como uma de suas causas o relacionamento com os outros, portanto, o mal-estar na civilização é pautado no malestar dos laços sociais. O que determina o mal-estar do homem para a psicanálise é a cisão de um ser sempre dividido e angustiado por um conflito interno não resolvido, que se encontra constantemente em dúvida entre o que ele quer e aquilo que ele pode, entre o que deseja e o que deve desejar. Tal mal-estar se repercute no trabalho, evidenciado sob a forma de sofrimento e adoecimento físico e mental. 3 A questão do aparelho de linguagem leva Lacan aos discursos pois a teoria dos discursos é uma questão de conceituar, isto é, aparelhar o gozo do outro, não mais do dito, mas do dizer. 38 Ora, não resta dúvida de que o mal-estar constitui a marca do sujeito do inconsciente, cunhado por um desejo para sempre insatisfeito, que tem no gozo sua maneira de mal estar na civilização. É esse sujeito que perpassa a cultura, pela qual ele se constitui através do dito do Outro, perpetuando-a ao desejar e ao se fazer reconhecer para um Outro, através do convívio social. Em artigo intitulado “O discurso do capitalista e o mal-estar na cultura”, em que tratou de capitalismo e mal-estar, Sônia Alberti (2000) assim questionou o sujeito frente ao mal-estar: O que vem a ser esse "social" ao qual se deveria dar importância? Como articulá-lo na teoria, senão pela noção freudiana de que o ‘eu’ é sempre outra coisa, o ‘eu’ é o ‘outro’, o ‘eu’ é dividido, ou, como o introduz Lacan, que o sujeito mantém, em relação ao Outro uma posição de alienação e de separação e onde o social tanto faz parte da realidade psíquica do sujeito quanto qualquer outra representação mais ou menos investida. (pág. 3) Por certo que não é de estranhar que o trabalho seja um dos lugares possíveis para o ser humano transformar a cultura, fomentando-a. Mesmo porque, o desejo tem, nesse espaço, a possibilidade de sublimação, deslocando-se para a produção de subjetividades que visam à manutenção da civilização, em um contexto social contemporâneo ditado pelo capital. O capitalismo dos tempos atuais preconiza a produtividade e a eficácia como pilares que sustentam a sublimação do desejo dos sujeitos. Contudo, os sujeitos se subjugam ao mal-estar, por estarem eminentemente insatisfeitos; consequentemente, esses sujeitos necessitam ser reconhecidos por aqueles Outros que insistem em não os reconhecer, sustentando, ademais, a incompletude deles próprios (dos sujeitos) para que se refaçam e possam desencadear um processo ininterrupto de produção/consumo, do qual a sociedade necessita para sua subsistência e evolução. 39 Compete-nos, então, pensar sobre a possibilidade de sustentar o desejo nesse complexo mal-estar social em que estamos inseridos, produzindo com ele de maneira suportável. Não raro, a libido que excede necessita ser canalizada, na perspectiva de sua ação se tornar mais abundante. Em contrapartida, o excesso de trabalho – ainda que afete as relações sociais, mesmo que seja um dos fatores causadores de estresse – será sempre mais interessante para as organizações, por quase sempre originar lucro, que é a premissa fundamental para os assuntos de interesse empresarial e financeiro. É possível divisar, no momento presente, neste início de século, que o sistema capitalista está passando por uma alteração de processo, a reclamar um novo espaço para o trabalho, embora sempre em prol do alcance de seus interesses. Na atualidade, o trabalho se define como uma atividade útil, coordenada, realizada por indivíduos de ambos os sexos, para enfrentar aquilo que, em uma tarefa utilitária, não pode ser obtido pela execução estrita da organização prescrita. Agora, esse fazer passa pela subjetividade do trabalhador que, numa dimensão humana, ajusta o real, rearranja-o, imagina, inventa e sempre acrescenta algo mais. Nesse sentido, Christophe Dejours (2011) desenvolve uma reflexão a respeito da noção de atividade subjetivante, em um trabalho a que denominou “Fator Humano”. Diz ele que a noção de atividade subjetivante é devida aos pesquisadores em ciências sociais, que se interessam especificamente pela atividade operária, não somente nos setores clássicos da produção, mas também nas “novas tecnologias”, na condução de processos e na utilização de máquinas de comando numérico. (pág. 43) Considerado por muitos como o único sistema vigente e dominante no mundo atual, o Capitalismo aparece hoje encoberto por uma nova face. Desse modo, ao reler o sujeito contemporâneo, é preciso situá-lo frente ao grupo ao qual se insere. Aquele capitalismo de outrora, que se baseava na produção mecânica, sequencial e 40 repetitiva do trabalho, como forma de obtenção de lucro, cedeu lugar a um outro. Agora, ele se propõe, através da produção, a oferecer novos benefícios a seus obreiros, antecedendo algumas vezes às ações de sindicatos e até mesmo a determinações governamentais, numa tentativa, talvez inconsciente ainda, de dar início a uma mudança em toda a forma de existir do homem atual. Afinal, sustentar o passado é perseverar em um mundo de dolorosa ilusão. 41 3. O MAL-ESTAR DA CONTEMPORANEIDADE NO TRABALHO Pensamos demasiadamente Sentimos muito pouco Necessitamos mais de humildade Que de máquinas. Mais de bondade e ternura Que de inteligência. Sem isso, A vida se tornará violenta e Tudo se perderá. Charles Chaplin A vida em sociedade tem sido o grande desafio da humanidade que cada vez mais enfrenta questões individuais relativas à busca da felicidade. Atualmente, o sistema capitalista é considerado por muitos como a única estrutura vigente e dominante no mundo, apesar de parecer apresentar-se-nos com uma nova face. Ao fazer uma releitura do sujeito contemporâneo, é preciso situá-lo frente à cultura e aos discursos ao qual se insere no seio mesmo do sistema socioeconômico vigente. Por certo que se vislumbra algo de novo em relação àquele capitalismo que outrora se baseava na produção mecânica, na geração sucessiva e repetitiva do trabalho como meio de obtenção de vantagens. Agora, aquela estrutura parece se dispor a alterar a feição apresentada até então, através da produção, de maneira a reorganizar toda a forma de existir do homem atual, quiçá numa perspectiva, ainda que involuntária, de oferecer recursos necessários ao bem-estar geral. Há muito que se entrevê um processo de mudança no organismo socioeconômico como um todo, a requerer um novo espaço para o trabalho, sem perder de vista, é 42 claro, seus interesses, isto é, os lucros e as vantagens. Para entender o que afeta os sujeitos e essa nova forma de interação, faz-se necessário realizar uma retrospectiva de tal mecanicismo, marco dessa transformação que é por nós vivenciada tanto no seio da clínica como no bojo das empresas. 3.1. O CAPITALISMO MECANICISTA No fim do século XVIII, com o advento da indústria e o término do feudalismo, camponeses e artesãos passaram por um processo de transformação em que o tempo empregado para a produção e os locais onde o trabalho era realizado não mais pertenciam à natureza propriamente dita, mas, sim, às empresas e às máquinas, às quais deveriam se subordinar, a fim de conseguirem operar tal engrenagem. O surgimento da indústria pautada na geração de capital e no lucro como finalidade reconhecia no trabalho sua principal fonte de produção. A esse respeito, Álvaro Roberto Crespo Merlo e Naira Lima Lapis (2007), em “A Saúde e os processos de Trabalho no Capitalismo: reflexões na interface da psicodinâmica do trabalho e da sociologia do trabalho”, texto em que dissertam sobre a saúde e os processos de trabalho, ressaltam que Taylor (1995) observou que boa parte dos problemas de baixa produtividade das fábricas se deviam à enorme variação de tempo e de rendimento no trabalho individual dos operários. Coexistiam, numa mesma empresa, diversas maneiras de executar uma idêntica atividade, e os métodos de produção eram, em geral, transmitidos oralmente de trabalhador a trabalhador ou aprendidos por intermédio da observação. Prêmios, ameaças e sanções não obtinham os resultados esperados. (pág. 62) 43 É sabido que tanto os homens quanto a sociedade passaram por um processo de mudanças, que requisitou adaptação não só no modo como o trabalho era realizado, mas também no próprio estilo de vida das pessoas, na maneira como se relacionavam e interagiam uns com os outros. As condutas sociais passaram a ser analisadas por uma medida de tempo, e esse tempo representava um custo e deveria gerar lucro para que o novo sistema funcionasse a contento, nessa nova era caracterizada como industrial. A esse respeito, citando Taylor, Merlo & Lapis (2007) assim se expressam: Taylor (1995) sabia que os empregadores desconheciam parte significativa dos conteúdos do trabalho e do tempo necessário para a execução de cada atividade e que, enquanto isso ocorresse, ou seja, enquanto os operários detivessem o conhecimento de uma parte importante do processo de trabalho, não seria possível diminuir os tempos ociosos e o “fazer cera”, tão desastrosos do ponto de vista da produtividade. A questão implicava buscar métodos objetivos de execução, os quais, além de serem uniformes, deveriam ser determinados de forma externa, prescritos pela gerência. Segundo a lógica taylorista, as atividades não mais poderiam ser realizadas ao bel-prazer dos trabalhadores. (pág. 63) Como é factível observar, teóricos da administração buscavam métodos que pudessem viabilizar a organização do trabalho, de forma que quaisquer desperdícios fossem preteridos em detrimento de ganhos possíveis para a otimização dos lucros. Merlo & Lapis (2007), aliás, ao estudarem a administração mecanicista, consideraram que a administração científica de Taylor (1995) visava a racionalizar a organização do trabalho, o que envolveu buscar normas, procedimentos sistemáticos e uniformes. Pela observação, pela descrição e pela medição, seria possível simplificar as operações, eliminar os movimentos desnecessários, lentos e ineficientes e encontrar “o modo melhor”, o movimento certo e mais rápido em todos os ofícios. Embora a cronometragem já houvesse sido utilizada para coordenar e acelerar o trabalho, com Taylor, o estudo do tempo, associado ao estudo dos movimentos, levou à busca do único e melhor método de execução como norma a ser seguida permanentemente pela empresa. Esses métodos e técnicas de trabalho não eram elaborados pelos trabalhadores – embora fosse das sugestões deles que deveriam partir as melhores ideias para 44 aprimorar o processo produtivo –, visto que a preparação do trabalho passou a ser atribuição de especialistas, como engenheiros. Estava consolidando-se, no capitalismo, uma radical separação entre o saber e o fazer; entre a concepção, o planejamento e a execução; entre o trabalho manual dos operários e o trabalho intelectual das gerências. (pág. 63 ) Os resultados dessas mudanças tiveram como consequência a decomposição do trabalho em atividades cada vez mais simplificadas, e as tarefas passaram a corresponder a um posto de trabalho que deveria ser ocupado pelo trabalhador certo. Foi, portanto, no bojo mesmo do Taylorismo que surgiu o recrutamento e a seleção de mão-de-obra apropriada para cada atividade. Assim, dever-se-ia escolher a pessoa em conformidade com o trabalho que lhe fosse oferecido, daí a necessidade de seleção. Isso porque as técnicas, cada vez mais aprimoradas, tinham como principal objetivo escolher a pessoa mais adequada para realizar cada tarefa, no local adequado de trabalho, visando a colocar “o homem certo no lugar certo”. Contudo, já no final do século XIX, surgiram novas concepções sobre o trabalho, motivadas pelas propostas de Frederick Winslow Taylor, Henry Ford, Sakichi Toyota, cujo nome de família era Toyoda e Henry Fayol. Esses teóricos muito contribuíram para a evolução do conhecimento da administração moderna de empresas, inovaram os processos para a produção industrial, que passaram a ter como premissa básica a racionalização do trabalho. Com eles, inaugurou-se um trabalho coletivo, cuja produção passou a ser controlada pela empresa, através da compra e venda da força de trabalho. Foi então que os trabalhadores passaram a ser tratados como mão-de-obra. Tais processos mecanicistas, rigidamente controlados de modo inflexível, permaneceram influenciando o desempenho do mundo do trabalho na contemporaneidade. Estudando a influência das principais teorias da administração na organização do trabalho em sociedade, Eliane Matos e Denise Pires (2006) evidenciaram a influência do modelo Taylorista positivista de organização do trabalho na economia da época. Segundo elas, 45 A Teoria da Administração Científica iniciada por Frederick W. Taylor (1856 – 1915) fundamenta-se na aplicação de métodos da ciência positiva, racional e metódica aos problemas administrativos, a fim de alcançar a máxima produtividade. Essa teoria provocou uma verdadeira revolução no pensamento administrativo e no mundo industrial. Para o aumento da produtividade, propôs métodos e sistemas de racionalização do trabalho e disciplina do conhecimento operário, colocando-o sob o comando da gerência; a seleção rigorosa dos mais aptos para realizar as tarefas; a fragmentação e hierarquização do trabalho. Investiu nos estudos de tempos e movimentos para melhorar a eficiência do trabalhador e propôs que as atividades complexas fossem divididas em partes mais simples facilitando a racionalização e a padronização. Propôs incentivos salariais e prêmios, pressupondo que as pessoas são motivadas exclusivamente por interesses salariais e materiais, de onde surge o termo “homo economicus. (pág. 509). Em 1913, Ford aplicou a teoria de Taylor na fabricação de automóveis, ampliando-a com a utilização de máquinas mais especializadas. Além dos processos organizados de trabalho, como ‘o homem certo no lugar certo’, ele acrescentou ‘a máquina certa’ para o desenvolvimento de cada tarefa. A esse respeito e com muita propriedade, Matos & Pires esclarecem que: Henry Ford, em 1913, aplica a tecnologia da linha de montagem na fabricação de automóveis. Utiliza os mesmos princípios desenvolvidos pelo taylorismo, porém trata-se de “uma estratégia mais abrangente de organização da produção, que envolve extensa mecanização, como uso de máquinas-ferramentas especializadas, linha de montagem e de esteira rolante e crescente divisão do trabalho”. O modelo taylorista/fordista difundiu-se no mundo e influenciou fortemente todos os ramos da produção. Há algumas décadas, vêm-se debatendo os efeitos negativos da organização do trabalho taylorista/fordista sobre os trabalhadores, destacando-se: a fragmentação do trabalho com separação entre concepção e execução, que associada ao controle gerencial do processo e à hierarquia rígida tem levado à desmotivação e à alienação de trabalhadores, bem como a desequilíbrios nas cargas de trabalho. (pág. 509) O engenheiro francês Jules Henri Fayol complementou tal abordagem analítica e concreta de Taylor com uma mais sintética, global e universal, propondo que a estrutura administrativa e a empresa passassem a ser percebidas como um único 46 organismo composto de estruturas. A teoria organicista de Fayol estava embasada em quatro premissas: organizar, coordenar, comandar e controlar atividades de incumbência da direção da empresa. A teoria de Taylor se constituía, então, em uma produção de mais bens e serviços com menos trabalho, caso as empresas se organizassem cientificamente. Assim, a divisão do trabalho para a eliminação do desperdício necessitava da organização de processos de execução na operação das máquinas. Tais modificações substanciais aconteceram na qualificação do trabalhador, que, até então, detinha um significativo conhecimento sobre o conteúdo do seu trabalho; a partir daí, ele foi passando, gradualmente, a ter seu saber-fazer expropriado, ao mesmo tempo em que se aprofundava a divisão do trabalho. Não se pode, contudo, afirmar que houve uma desqualificação generalizada do trabalhador. J. M. C. Ferreira (2011) ressalta, que [...] a evolução da Primeira Revolução Industrial se teria tornado difícil sem o perfil profissional e as qualificações do operariado. No que tange às estratégias de resistência dos trabalhadores, entrelaçaram-se diferentes formas para dificultar o desenvolvimento da produção, que vão desde a sabotagem, como danificação das máquinas, atrasos e absenteísmo, até a ocorrência de greves. Essa resistência operária se alicerçava, dentre outros, em dois importantes pilares: por um lado, o relativo desconhecimento do empregador quanto ao conteúdo do trabalho, o qual era transmitido oralmente de geração em geração, sendo que os métodos e as técnicas de trabalho não eram registrados ou documentados; por outro, a complexidade da maquinaria era ainda incipiente. Nesse contexto, foi possível aos trabalhadores exercerem um relativo controle sobre o processo de trabalho no que concerne às pausas, aos movimentos e aos tempos de realização das operações. (pág. 69) No primeiro momento da implantação do sistema capitalista, o controle exercido sobre os trabalhadores evidenciava-se o mais autoritário possível. As fábricas apareciam repletas de situações que envolviam agressões físicas, ameaças, castigos, multas e demissões, enfim, essa fase caracterizava-se pela intensificação 47 do trabalho, pelas longas jornadas – de 12 a 15 horas diárias –, pelas precárias condições de trabalho e pelos salários aviltantes. O movimento sindical começava a se estruturar e o Estado, como legítimo regulador das relações entre o capital e o trabalho não funcionava. Não havia um efetivo sistema de proteção social para os trabalhadores; inúmeros e graves acidentes aconteciam no próprio local onde se processava o trabalho, como perda de dedos, esmagamento de mãos, queimaduras, lesões, enfim, tudo ocasionado pelas ferramentas que caíam sobre os operários. Não raro, inúmeros trabalhadores eram acometidos por enfermidades, por doenças que, muito frequentemente, levavam à morte crianças, mulheres e homens: eram doenças pulmonares, eram enfermidades cutâneas, eram moléstias cardíacas, eram disfunções respiratórias, eram, afinal, estresses, isto é, abatimentos físicos e mentais. Em contrapartida, Henry Ford acreditava que toda a sociedade poderia se transformar em linhas de montagem, em que cada tarefa deveria ser realizada dentro de uma sequência, em um determinado espaço de tempo. Como é passível de se perceber, a sociedade industrial tinha na riqueza seu principal desígnio. Essa riqueza era gerada por meio do proveito obtido pela distribuição inumana do trabalho. Para consumir, o cidadão precisava produzir, fornecendo resultados. Por outro lado, à proporção que ia ocorrendo o aumento do número de máquinas, o número de trabalhadores empregados na construção das produções fabris ia reduzindo. A fonte de riqueza que movimentava a economia era determinada por um modelo de desenvolvimento dos trabalhadores e seus resultados. Os trabalhadores se submetiam a instruções e procedimentos, que eram planejados, organizados, direcionados, coordenados e controlados a fim de que produzissem mais e com 48 melhor qualidade, a fim de que que se obtivesse a multiplicação do capital como sustentáculo do sistema econômico em pauta. Fayol aplicou a teoria fordista de divisão do trabalho à alta gerência, e a ela acrescentou princípios tais como: autoridade, disciplina, unidade de comando e direção, subordinação dos interesses individuais ao interesse comum, remuneração, centralização, cadeia de autoridade (hierarquização), ordem, equidade, estabilidade no emprego, iniciativa e moral. Toyota, por sua vez, introduziu a produtividade e a inovação ao sistema de gestão flexível da produção em empresas japonesas, propondo alteração de toda a visão organizacional a partir dos acionistas, passando pela alta direção, pelos gerentes, pelos técnicos, chegando até aos trabalhadores operacionais. 3.2. O CAPITALISMO PÓS-MECANICISTA Ao se reestruturar, o capitalismo pós-mecanicista passou a se caracterizar pela produção de conhecimentos, representados por um trabalho vivo, que é constitutivo, intelectualizado e comunicativo. A revolução do trabalho encontra-se, pois, na criação, que é ativa e viva, em contraposição ao trabalho morto, repetitivo e técnico, em que ao sujeito só lhe competia colocar-se como mão-de-obra que complementava a máquina naquilo que ela ainda não conseguia executar. No trabalho morto, era impossível ao sujeito criar, e isso ainda pode ser constatado na atualidade, em áreas cuja composição técnica tem como objetivo a exploração da mão-de-obra. Com efeito, a sociedade que impera no mundo capitalista atual é a mesma que detém o poder. O poder, por sua vez, conduz a vida dos sujeitos, afetando-a em todos os âmbitos. O sujeito contemporâneo é representado pelo poder, que apela 49 por sua eficácia, pois se quem comanda é quem resolve o problema, a negação de tudo o que tem a ineficácia como valor básico requer um mediador para a situação. Para sufocar as insatisfações e produzir ininterruptamente, apela-se para que o sujeito goze pelo simples prazer de pertencer à sociedade, mesmo que para tal todos os valores desmoronem em prol do poder. O imperativo de gozo é pautado pelo fenômeno do não pertencimento. Ao elaborar o texto a que intitulou “Trabalho Imaterial e Subjetividade”, Negri (2001) se expressou a respeito do trabalho como plano ideológico capitalista, aconselhando que se deveria “... pensar a constituição do trabalho (e, portanto, de sua crítica) “fora” da relação de capital (que tornaria a ‘maldição’ do trabalho assalariado ‘dispensável’)”, por também haver, no seu entender, “outros ângulos ideológicos que fazem do trabalho imaterial um valor em si”. (pág. 9). Assim, ao pensar a constituição do trabalho, Negri (2001) sintetizou as interações entre a potência constituinte de que se reveste o trabalho vivo e a potência constitutiva do trabalho morto, propondo que a reestruturação industrial fizesse emergir um regime de acumulação globalizado, baseado na produção de conhecimentos e num trabalho vivo, cada vez mais intelectualizado e comunicativo, que tivesse sua oposição no presente, através das novas formas de exploração e da composição técnica do trabalho, principalmente ao que dissesse respeito ao proletariado urbano. A revolução vivida pelo trabalho teve o próprio tempo como fator primordial de uma crise, de um lado, em que se posicionava o tempo da propriedade consolidado e fechado e, de outro, assumia-se o tempo do trabalho que era liberado, indeterminado e aberto, a produzir nova riqueza e nova humanidade, ambas marcadas principalmente por dois aspectos: a centralidade do trabalho e a crítica da crítica. 50 Na atualidade, porém, o trabalho do operário constitui uma atividade que, em diversos níveis, implica sempre mais capacidade de escolha entre diversas alternativas e, portanto, representa maior responsabilidade ao assumir certas decisões. A integração do trabalho imaterial ao trabalho industrial e até mesmo ao trabalho terciário torna-se uma das principais fontes da produção e atravessa os ciclos dessa produção definidos precedentemente que, por sua vez, a organizam. Em realidade, inaugurou-se uma nova subjetividade da intelectualidade de massa. Essa subjetividade encontra-se sedimentada sobre o desenvolvimento do indivíduo social que se apresenta como o grande pilar de sustentação da produção e da riqueza. Tão logo o trabalho cessou de ser a maior fonte da riqueza, o tempo de trabalho se encerrou e deve também cessar de representar a sua medida, portanto, o valor de troca deve deixar de ser a medida do valor de uso. A produção, cujo sustentáculo era o valor de troca, cedeu lugar ao processo de produção material e ao livre desenvolvimento das individualidades. Desse modo, ela não permite a redução do tempo de trabalho necessário para criar mais trabalho, mas, sim, a redução do trabalho necessário da sociedade a um mínimo, ao qual correspondem, em seguida, à formação e ao desenvolvimento artístico, científico, isto é, ao aprimoramento cultural dos indivíduos. Assim, a contradição capitalista contemporânea consiste na proposição de uma redução de tempo de trabalho a um mínimo, ao absolutamente necessário, em contraposição a uma outra proposta, também capitalista, que coloca esse tempo como única medida e fonte de riqueza. Evoca todas as forças da ciência e da natureza, todas as condições sociais imprescindíveis à criação da riqueza, mesmo que para tal, o tempo de trabalho empregado por ela independa do restante. Consequentemente, o paradoxo consiste em reduzir, de um lado, a força de trabalho capitalista a um capital fixo, que o subordina sempre mais ao processo produtivo, enquanto que, de outro lado, propõe que o ator fundamental do processo social de 51 produção torne-se agora o saber social geral, sob a forma do trabalho científico, ou sob a forma de atividades sociais cooperativas. A relação do sujeito com sua produção, proposta por Marx, passa pela questão da subjetividade. Dois fatores são de extrema relevância nessa relação homemtrabalho: o primeiro, diz respeito ao trabalho que se compõe pela independência em relação ao tempo imposto pelo capital; o segundo refere-se à autonomia da capacidade produtiva, individual e coletiva, configurada pela capacidade de fruição. Tais fatores tornam praticamente impossível distinguir o tempo de trabalho do tempo livre, do tempo produtivo e do tempo de lazer. O trabalho imaterial é, hoje, o alicerce que sustenta a produção, subvertendo o ciclo reprodução-consumo de uma subjetividade que se acha concentrada na intelectualidade da massa capitalista. Segundo Negri (2001), “o empreendedor, hoje, deve ocupar-se mais em reunir os elementos políticos necessários para a exploração da empresa do que importar-se com as condições produtivas do processo de trabalho.” (pág. 32) A questão inerente à intelectualidade de massa encontra-se ligada não mais à expropriação de um saber, mas, sim, à potência produtiva que concentra em seu interior como reprodutora de uma realidade que tende a configurar e tornar o trabalho imaterial hegemônico. A potência do trabalho atual está na relação antagônica, alternativa e constitutiva de uma realidade social diferente, que rompe com as bases do trabalho assalariado de outrora, dissolvendo-o através da figura do não trabalho, composto de processos autônomos de constituição de subjetividade alternativa, de organização independente dos trabalhadores, de modo a afetar até mesmo a implicação política dos sujeitos. A partir de uma releitura do trabalho de Marx, Negri (2001) repensa então a concepção de poder, entendendo esse poder como “a capacidade de os sujeitos 52 livres e independentes intervirem sobre a ação de outros sujeitos igualmente livres e independentes.” (pág. 38). Dessa forma, o trabalho imaterial estabelece um novo conceito que envolve nova qualidade para o trabalho e para o prazer, bem como novas relações de poder e novos processos de subjetivação. O poder, que numa primeira época esteve restrito às formas constitucionais de uma ordem social classista e rígida, passou, em um segundo período, ao status da representação política e das técnicas disciplinares, em que o poder jurídico não só legislava, como também normatizava o trabalho. E isso permanece até o momento atual, em que a organização do poder engloba a política da comunicação, da luta pelo controle ou libertação do sujeito da comunicação. A participação ativa dos sujeitos que o trabalho requer hoje modifica as formas de poder, revolucionando toda a ideia de trabalho, a partir da proposta de imaterialidade do trabalho. Então, o trabalho adquire um novo lugar para os sujeitos e, consequentemente, para a sociedade, porquanto ele se configura como capital fixo, sujeitado à produção e ao imperativo de mudança da ordem social. Como se vê, a noção de trabalho oferecida pelo mundo capitalista faz parte de um sistema de controle que outorga aos sujeitos garantia de direitos básicos, como o direito à identidade cultural, reconhecendo os destinos do trabalhador no que diz respeito à vinculação salarial. A verdade é que passamos dos ideais produtivos do mecanicismo, do fordismo e do taylorismo à reestruturação industrial, que promove a acumulação globalizada pautada na produção de conhecimentos e saberes, por meio de um trabalho vivo, intelectualizado e comunicativo – e ainda assim explorado –, que constitui, legitima e assegura o poder e, consequentemente, o controle social. O trabalho permitia ao homem de outrora, quer dizer, da era mecanicista, ter como objetivo a realização de suas necessidades, através da obtenção de um salário que pudesse garantir sua sobrevivência. Havia, então, uma finalidade bem delineada 53 para o trabalho, que supria as necessidades pessoais de cada qual, com vistas a abastecer os sujeitos. Efetivamente, o homem-máquina morreu. Em seu lugar viu-se surgir esse novo homem, pensante, atuante, dinâmico e produtivo. Se antes era a força humana que produzia o trabalho, auxiliada pela máquina, agora cabe ao homem pensar, e à máquina, compete-lhe a execução do trabalho braçal. Antes, a empresa funcionava como um organismo vivo que se transformava a todo instante, modificando-se constantemente, comunicando-se, requisitando decisões assertivas e eficazes de seus profissionais, que foram preparados por ela para atender a essa demanda. O capitalismo pós-mecanicista entendeu que não adiantava simplesmente trabalhar, pois havia a necessidade de também produzir com eficácia. Essa percepção provocou a reestruturação das empresas e reivindicou para o operário capacidade de escolha, em diversos níveis e de forma crescente. Para tanto, ofereceu-se-lhe uma gama enorme de alternativas, assegurando-lhe decisões no trabalho. Assim, o poder aumentou na mesma medida em que a responsabilidade e a pressão foram inseridas à vida profissional. Ao trabalhador passou a ser necessário fazer interface entre diferentes funções, entre diversas equipes e níveis hierárquicos, de maneira a gerenciar a própria personalidade e subjetividade, adequando-as a uma cultura organizacional que comunica, repassa e perpetua o cabedal de conhecimentos da classe dominante que, dessa forma, acaba por assegurar seu poder no mundo capitalista contemporâneo. O trabalho operário transitou da repetição mecanicista para uma atividade mais elaborada, quase abstrata, mais ligada à subjetividade. A produtividade tornou-se de fato a ideia central, o ícone mesmo da sociedade capitalista pós-industrial, que requer dos sujeitos a comunicação nos diferentes níveis hierárquicos. As empresas passaram a ser administradas como verdadeiros organismos animados, isto é, organismos vivos, em que os diversos departamentos, a partir de seus profissionais, 54 interagem através da comunicação. A comunicação, portanto, representa a estratégia primordial da globalização da produção que constitui as bases do trabalho material. Assim, a compatibilização entre trabalhos – material e imaterial – traduz os desafios organizacionais mais frequentes. O confronto com a capacidade de organizar e orientar o próprio trabalho e suas relações com a empresa define a capacidade dos sujeitos socialmente produtivos. 3.3. O CAPITALISMO NA CONTEMPORANEIDADE Na atualidade, os requisitos sociais que visam a transformar o trabalho imaterial em força de trabalho intelectual de massa podem conduzir o sujeito social a um sujeito politicamente hegemônico, ideia essa perpetuada culturalmente, a gerar no indivíduo contemporâneo uma compulsão para o estudo e a aquisição ininterrupta de títulos, não raro abrindo mão da vida pessoal para se manter atualizado e não perder seu valor de mercado. A medida do trabalho passou a exprimir o valor de uso. O livre desenvolvimento das individualidades e a não redução do trabalho necessário para criar mais trabalho de maneira incongruente impõem aos indivíduos a redução do tempo de trabalho propriamente dito a um mínimo possível; em contrapartida, essa mesma situação estabelece o tempo de trabalho como única medida e fonte de riqueza, isto é, o tempo necessário à criação da riqueza, em detrimento das forças da ciência e da natureza, assim como das condições e das relações sociais. Trabalha-se pelo menos 12h por dia! Richard Sennett (2011) afirma que “a rotina torna-se autodestrutiva porque os seres humanos perdem o controle sobre seus próprios esforços; a falta de controle sobre o tempo de trabalho significa morte espiritual”, conclui ele. (pág. 41) 55 Diferentemente do homem mecanicista, que não estabelecia limites para as horas dedicadas ao trabalho, o que gerava fadiga física, os profissionais contemporâneos sofrem de fadiga mental, impossibilitados que são de desagregar casa e trabalho, tornando a rotina autodestrutiva. Em O Futuro do Trabalho, Domenico de Masi (1999) distingue o trabalho como um vício recente, explicando que as pessoas que trabalham, isto é, aquele bilhão que exerce encargos regularmente remunerados, estão mais garantidas do que as outras, são mais respeitadas, podem orientar a profissão no cartão de visita. Ao trabalho, de fato, são atribuídos efeitos positivos, até milagrosos. Segundo muitos sociólogos, apenas quem trabalha consegue socializar-se, amadurecer, realizar-se. Segundo algumas religiões, só quem trabalha consegue se redimir do pecado original e alcançar o paraíso. Por milhares de anos, até o advento da indústria, os que ocupavam o alto da pirâmide social – os aristocratas, os proprietários de terras, os intelectuais – na verdade não trabalhavam. Não era do trabalho que obtinham riqueza e prestígio, mas do nome de família, de proteção às artes e letras e de rendas. Hoje, entretanto, um empresário, administrador ou diretor geral trabalham muito mais horas do que um operário ou empregado. Em suma, antigamente, quanto mais rica, menos a pessoa trabalhava, podendo dedicar-se a si, à família e aos amigos; hoje, entretanto, quanto mais rico, mais o homem trabalha, descuidando de si e dos outros. O trabalho passou de castigo a privilégio. (pág. 13) No sistema capitalista vigente, a possibilidade de mudar de condição social – circunstância outrora muito remota – é o que move as pessoas a adquirir recursos e a melhorar suas condições de vida. Dessa forma, o capitalismo tem no trabalho sua configuração mais democrática de produção e manutenção do sistema, pois, simultaneamente e historicamente, consome-se o que se produz. No trabalho imaterial, a relação do sujeito com sua produção encerra uma relação global, o que torna impossível distinguir o tempo no desempenho das atividades de lazer e de trabalho. Com isso, reproduz-se uma subjetividade autônoma ao redor da intelectualidade de massa, que prescinde da organização do trabalho para impor a 56 própria força na relação com o capital. Nessa conjuntura de trabalho, a produção de subjetividade se constitui ao largo da relação de capital, organiza-se na subjetivação do trabalho, no plano do desejo e não do poder, de forma alternativa, constitutiva de uma realidade social diferente. O fato é que o produto do trabalho imaterial é revolucionário, pois não se esgota no ato mesmo do consumo, ao contrário, ele se alarga, transforma-se, cria o ambiente ideológico e cultural do consumidor, modificando as pessoas e o meio que o utiliza, a planificar o que outrora dialetizou a produção/consumo. De fato, o Capitalismo produz o trabalhador, mas é o trabalhador que produz a riqueza, o que faz com que o trabalho deixe de ser um lugar de realização pessoal, retirando o desejo desse espaço de produção, a repercutir o mal-estar na civilização contemporânea. A busca pela autorrealização, pela produção de um trabalho que acrescente algo a mais ao ser, libertando-o e, a um tempo, produzindo o que o valorize, é cerceada pelo capitalismo como um todo. Esse sistema instaura uma nova relação, agora entre trabalho e trabalho vivo, o que é mais grave, já que o tempo de trabalho foi ampliado tendo em vista o aumento do tempo de vida. Tal ocorreu em consequência do novo ponto de vista do sistema vigente. Logo, pergunta-se: onde se insere, então, a singularidade dos sujeitos? Inauguramos, sim, uma nova subjetividade com sujeitos marcados pelo assujeitamento aos dispositivos de poder que servem ao capital, mediando a inserção social na contemporaneidade. Conforme esclarece Auterives (2011), em seu texto “A morte de Deus, o homem sem pertencimento e a necessidade de um para-além”, a biopolítica que fomenta a máquina, produzindo subjetividades moduladas segundo a frequência do funcionamento de mercado, assujeitando vidas ao controle que vigora na sociedade, produz, no nosso entender, um tipo de subjetividade flexível, onde o trânsito entre as esferas efêmeras impede a consolidação de qualquer identidade fixa. Os sujeitos que daí derivam são fugazes, larvas mal esboçadas e desfeitas, seres híbridos e fluidos, sujeitos aos 57 imperativos da eficácia que definem o mercado. Homens voltados para a ação, investidos em um mundo pragmático, onde a eficácia, segundo as normas definidas pela sociedade, torna-se imperativa. Homens que fazem funcionar uma sociedade de consumo; onde o consumo é definido pelo controle, determinado pelos saberes e pelos poderes que fomentam a flexibilização e a ação desmesurada. (pág. 118) Constata-se, com isso, que o sujeito contemporâneo sofre com a extrema influência do mercado, que o demanda basicamente à eficácia e à ação a qualquer preço, pois dele o que a sociedade requisita é o lucro, a partir da eficiência de seus resultados. Examinando o problema pelo ângulo da psicanálise, poderemos pensar essa ação, sem medir esforços, como um imperativo de gozo. Nessa situação, a compulsão e a depressão aparecem como efeitos desse imperativo que ocasiona um mal-estar no mundo contemporâneo. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde - OMS, a cada cinco minutos, no Brasil, um profissional é afastado do trabalho por depressão. Oportunamente, Domenico de Masi (1999) lembra que a sociedade global induz de fora a essa mudança radical dos sistemas organizacionais, que não consegue criar internamente. Vivemos de fato uma inversão de liderança: não é mais a indústria que leva à mudança da sociedade, mas a sociedade (jovens, mulheres, artistas, desempregados, imigrantes, pensionistas e voluntários) que antecipa os valores, as necessidades e até os instrumentos operativos que a empresa (e, com ela, todas as organizações que a mantém como modelo próprio) se obstina em não compreender e não adotar. (pág. 63) Logo, a eficácia dos sujeitos funciona em busca de prazer e de gozo imediatos em um mundo transitório e incerto, onde não cabem sujeitos ineficazes, já que a compulsão ao consumo é imperativa e alimenta os interesses capitalistas. A sociedade contemporânea coloca no homem a necessidade de ação eficaz e imediata, impedindo e anulando o espaço que caberia ao desejo, dissipando os conflitos subjetivos, causando o mal-estar. Contraditoriamente, no mundo do 58 trabalho os desmotivados não são promovidos, embora dificilmente alguma análise para constatar as causas e quaisquer ações corretivas ou preventivas sejam implementadas. Seguindo esse raciocínio, em O Mal-Estar da Pós-Modernidade, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1998) faz o seguinte: O mundo está repleto de incertezas onde o ser humano troca a segurança, outrora desejada, pela liberdade, mas não uma liberdade qualquer: a liberdade individual engendrada por uma vontade suprema. Esta vontade que reduz o homem a um estado de insegurança, de medo universal, de tecnologia excludente, de ameaças constantes e desemprego crescente, tornando-o impotente. Mudanças repentinas, em que o tempo é o senhor que tudo pode. Mudanças econômicas, políticas, culturais que transformam o cotidiano em ambivalente. Extingue-se a rotina e a estabilidade das relações, o sentimento de confiança já não existe mais e o sentimento de incompletude, de vazio, se traduz como mais um fantasma a assombrar a humanidade “pós-moderna”. (pág. 9) Tais incertezas, conforme apontadas por Bauman (1998), são extensivas a todos os setores da atuação humana, e sinalizam para um suposto ideal de liberdade totalizante, representado pelo mercado consumidor, pela competitividade, pela indiferença e por aquelas verdades múltiplas que salientam diferenças, embora não respeitem as singularidades. A globalização veicula o enquadramento e a padronização, despersonaliza as diversas culturas, alimentando-as de produtos para consumo rápido. Trata-se, em verdade, daquela liberdade de escolha que não alcança a satisfação prometida, pois parece impossível alcançar o prazer nessa época de constante oferta de oportunidades de satisfação através das coisas e das pessoas. Nesse contexto, encontramos um mundo de estratégias e de guerras preventivas, como também são preventivas as ofertas de produtos que nem se sabia precisar, levando o indivíduo ao consumismo exacerbado, cujo desejo é estimulado pela tendência a um padrão de comportamento social orquestrado pelas próprias redes sociais. 59 O homem pós-moderno, cujo vazio o ‘outro’ tenta preencher incessantemente, mas que ele quer combater, esse homem, dizia-se, busca um prolongamento de sua vida através de novos formatos de comunitarismo, onde se encontram incluídos o nacionalismo e o fundamentalismo religioso e até mesmo o terrorista. Nesse mundo onde o homem sonha com o prolongamento de sua vida, tais formas de comunitarismo representam tentativas legítimas de combater os excessos da liberdade, da falta de ética, da invasão de um livre mercado internacional onde os países desenvolvidos estabelecem as regras. Em vista disso, nesse mundo ‘pós-moderno’, cabe ao homem refletir criticamente essa desapropriação do ‘ser’ em prol da apropriação do ‘ter’; compete a ele considerar o quanto devemos abrir mão de nossa individualidade em benefício de uma sociedade que nos massifica e nos enquadra, visando ao próprio prazer e ao próprio benefício, tais são questionamentos que nos demandam o tempo de que não dispomos para sequer buscar as respostas. Sennett (2011), em A corrosão do caráter, destaca o conflito provocado pelo capitalismo na identidade do homem contemporâneo como danoso ao caráter. Entende ele que questões morais ligam os seres humanos uns aos outros e oferecem a cada um deles um senso de identidade sustentável, facultando valores sociais duráveis, numa sociedade composta de episódios e fragmentos. Assim se expressa ele a respeito: Em lugar dos valores de camaleão da nova economia, a família deve enfatizar o compromisso mútuo e o senso de objetivo. Todas essas são virtudes de longo prazo. Esse conflito entre a família e o trabalho impõe algumas questões sobre a própria experiência adulta. Como se podem buscar objetivos de longo prazo numa sociedade de curto prazo? Como se podem manter relações sociais duráveis? Como pode um ser humano desenvolver uma narrativa de identidade e história de vida numa sociedade composta de episódios e fragmentos? As condições da nova economia alimentam, ao contrário, a experiência com a deriva no tempo, de lugar em lugar, de emprego em emprego. (pág. 27) 60 O que une os seres humanos, o que determina seu caráter vem sendo corroído pelo sistema capitalista a curto prazo, alterando-lhes a identidade. Embora a necessidade de um comportamento flexível seja imperativa como prática cotidiana, o capitalismo estimula-se pela dependência que, direta ou indiretamente, só a produtividade resultante do trabalho pode gerar e, com isso, deter o poder. Afinal, o sonho do trabalhador é mudar de posição, é transformar-se em empresário, e para tanto, ele precisa trabalhar com afinco e determinação, a fim de mudar de classe social. Por certo que o anseio do ‘escravo’ moderno continua persistindo no desejo de se tornar ‘senhor’. Não se deve esquecer de que Marx (2005) proclamava “a luta de classes como o motor da História, e o proletariado como o germe que deveria submeter a estrutura da sociedade moderna.” (p. 10) Ora, a modernidade é fundada pelo discurso da ciência, é demarcada pelas imagens da tecnologia e pelas metáforas da ciência. Nesse contexto, Freud descobre o inconsciente, enuncia ao mundo a Psicanálise, evidenciando uma ferida narcísica na história da humanidade. 3.4. O MAL-ESTAR NA CONTEMPORANEIDADE É inegável que a sociedade contemporânea apresenta peculiaridades importantes para entendermos o lugar social do trabalho e suas possíveis representações para os sujeitos. O filósofo italiano Giorgio Agamben (2009) trata o contemporâneo como inapreensível, influenciado intervenientes dos por processos dispositivos de estudados subjetivação, por Foucault constituintes do como poder 61 contemporâneo. Ao estabelecer duas grandes classes, a de seres viventes e a de dispositivos, ele incluiu os sujeitos entre esses seres, como resultantes da relação corpo a corpo entre os viventes e os dispositivos, declarando que: Naturalmente, as substâncias e os sujeitos, como na velha metafísica, parecem sobrepor-se, mas não completamente. Nesse sentido, por exemplo, um mesmo indivíduo, uma mesma substância, pode ser o lugar dos múltiplos processos de subjetivação: o usuário de telefones celulares, o navegador na internet, o escritor de contos, o apaixonado por tango, o não global etc. Ao ilimitado crescimento dos dispositivos no nosso tempo corresponde uma igualmente disseminada proliferação de processos de subjetivação. (pág. 41) A vida em grupo tem sido o grande desafio da humanidade, que cada vez mais tem de conviver com questões individuais relativas ao hedonismo. O homem está sempre em busca dessa felicidade tão ambicionada por todos. O ideal é, contudo, inatingível, já que para preservar o grupo social, é preciso sacrificar os interesses individuais em prol da preservação da espécie. Os interesses sociais são priorizados frente aos individuais, fazendo com que o desejo do grupo prevaleça sobre o desejo do sujeito. O que marca o mal-estar do homem contemporâneo é a cisão de um ser sempre dividido e angustiado por um conflito interno não resolvido, que se encontra constantemente em dúvida entre o que ele realmente quer e aquilo que ele pode ter, entre o que de fato deseja e o que apenas deve cobiçar. Daí o mal-estar repercutir inclusive no trabalho, a evidenciar a forma de sofrimento e adoecimento físico e mental do indivíduo. Na sociedade contemporânea, o trabalho define-se como uma atividade útil coordenada, realizada por indivíduos de ambos os sexos, na perspectiva de enfrentar aquilo que, em uma tarefa utilitária, não pode ser obtido pela execução rigorosa da organização prescrita, passando pela subjetividade do trabalhador. Numa dimensão humana, reafirma-se, esse trabalhador ajusta o real, reacomoda-o, idealiza-o, elabora-o e adiciona-lhe algo. Em O Fator Humano, Dejours (2011) fala dessa noção de atividade subjetivante, esclarecendo que: 62 A noção de atividade subjetivante é devida aos pesquisadores em ciências sociais, que se interessam especificamente pela atividade operária, não somente nos setores clássicos da produção, mas também nas “novas tecnologias”, na condução de processos e na utilização de máquinas de comando numérico. (pág. 43) Desse modo, a transformação do trabalho constitui-se a partir das interações entre o homem e seu posto de trabalho. A partir de suas habilidades tácitas, ele passa a integrar o trabalho à subjetividade humana e não mais o racionaliza. Dejours (1987), em outra obra intitulada A Loucura do Trabalho, ao pensar o sofrimento do homem em sua atividade, parte da ideia de que o sofrimento mental decorre da organização do trabalho, e argumenta: “Por organização do trabalho designamos a divisão do trabalho, o conteúdo da tarefa (à medida que ele dela deriva), o sistema hierárquico, as modalidades de comando, as relações de poder, as questões de responsabilidade etc.”. (pág. 25) Em verdade, vontade e desejo no trabalho se contrapõem maciçamente com o comando do patrão, concretizado pela organização do trabalho que é proposta, controlada e, na maioria das vezes, imposta pelo empregador. Ao efetuar uma releitura do sujeito contemporâneo, precisamos situá-lo frente ao grupo ao qual se insere, porquanto o capitalismo que outrora se baseava na produção mecânica, em série e repetitiva do trabalho, como instrumento para auferir vantagens, propõe-se agora, através da produção, a alterar toda a forma de existir do homem atual. O descentramento do sujeito da modernidade, isto é, o sujeito que emerge na era moderna, cede espaço ao desejo que o anuncia, que o ultrapassa e que o transcende. Se o desejo é inatingível, o objeto de desejo escapa-lhe, e o sujeito passa a desejar, a criar, a reincidir. O desejo é, pois, o distintivo psicanalítico da hodiernidade, a distinguir a lacunosidade, o ‘inacabamento’ do ser e a estabelecer o desamparo, gerador primeiro da produção de mal-estar psíquico. A ideia de desamparo surgiu em 1895, no Projeto para uma psicologia científica, sendo 63 abordada por Freud como fonte primordial de todos os motivos ligados à moral. Na Interpretação dos Sonhos, em 1900, ele se referiu ao desamparo como a falta de uma experiência de satisfação; em 1926, em Inibição, sintomas e angústia, ele o entendeu como produto da angústia vivida pela criança diante de uma situação traumática, ligada ao medo da perda do objeto de amor. No Futuro de uma ilusão, em 1927, o desamparo é considerado por Freud como uma condição que acompanha o sujeito por toda a sua existência. E em Mal-estar na civilização, 1930, ele o relaciona com a renúncia pulsional, a que o sujeito se submete em prol dos ditames culturais. É o desamparo, aliás, que denota a fragilidade humana no mundo capitalista, em que a morte de Deus representa uma premissa da ciência. O homem que não mais conta com a confiança na proteção do Pai, revela-se frágil e desamparado em sua subjetividade. Evitar a dor, submetendo-se às diversas formas de servidão e de “despossessão” subjetivas, indo do masoquismo à violência – eis as questões que se encontram em evidência na atualidade. Por outro lado, ao estudar a importância do fator humano nas organizações, Dejours (2011) buscou compreender como as condutas humanas encontram-se submetidas à exigência de leis, a contribuir para a própria evolução. Diz ele que [...] o fator humano é marcado pelo selo do histórico, do social, do contextual. [...] a contradição entre a pertença ao mundo da natureza e a pertença ao mundo do espírito coloca o homem em uma situação existencial difícil. Ele está constantemente dividido entre aquilo que ele quer e aquilo que ele pode, entre o que ele deseja e o que ele deve. Essa contradição reflete-se em todas as situações ordinárias, inclusive nas situações de trabalho. No trabalho, o homem não pode ser considerado unificado e coerente. Está, ao contrário, sempre dividido e angustiado por esse conflito interno jamais resolvido, o que, a rigor, implica considerar a dimensão psicoativa na teoria do fator humano. (pág. 77) O trabalho propõe um novo lugar de inserção social, onde seu produto será consumido por um Outro. Esse Outro precisa, então, de ‘minha’ existência, 64 ressignificando a dor diante da importância da manutenção da cultura, a propiciar um retorno à sensação de pertencimento. Em minha experiência de trabalho, por exemplo, um funcionário que se aposentou, entrou em depressão. Isso o levou a sair no dia seguinte à procura de um novo emprego, no qual permanece até hoje. Segundo ele, não conseguia sequer gozar férias, pois no seu entender sua vida não teria mais sentido se não produzisse algo. Colocar o pijama e ficar em casa, dia após dia, parecia-lhe extremamente assustador, mesmo que o trabalho realizado não representasse o fruto de seu desejo. À vista disso, ao compreender que há alguém dependente de si, a humanidade se considera responsável por sua ação perante o outro, unindo-se a esse outro cada vez mais. Diz Sennett (2011) que para sermos dignos de confiança, devemos nos sentir necessários; para nos sentirmos necessários, esse Outro tem de estar em necessidade. Quem precisa de mim? É uma questão de caráter que sofre um desafio radical no capitalismo moderno. O sistema irradia indiferença. Faz isso em termos dos resultados do esforço humano, como nos mercados em que o vencedor leva tudo, onde há pouca relação entre o risco e recompensa. Irradia indiferença na organização da falta de confiança, onde não há motivo para se ser necessário. [...] A falta de responsividade é uma reação lógica ao sentimento de que não somos necessários. (pág. 174) Entretanto, o sujeito oscila entre o bem-estar de se sentir impreterível ao outro e o mal-estar de abrir mão de seu prazer em prol do outro. A dúvida dá acesso à culpa, justificando processos compensatórios, tais como as compulsões e as dependências. Dentre as dependências, poder-se-ia citar a drogadição, a depressão, a ansiedade, o estresse, a medicalização de seres que tentam incessantemente dar conta de um vazio do qual a psicanálise aponta como impossível de ser preenchido. 65 Cabe relatar aqui o caso de uma paciente que recentemente iniciou análise por se encontrar em depressão, desencadeada pela venda, há cerca de cinco anos, da empresa na qual trabalhava e que passara por um processo de incorporação pela então concorrente. Afirmou a paciente ser ela extremamente apaixonada pelo ofício que desempenhava e que se sentia deveras comprometida com o trabalho. Daí desabafar que estava sendo “insuportável suportar”. Em uma das sessões, comentou, ademais, que estava habituada a uma carga horária puxada de trabalho, o que a levou ao estresse e à necessidade de medicamentação, pois não mais conseguia dormir. Foi então que procurou apoio psiquiátrico, ocasião em que foi medicada. Disse ela que após a venda da empresa onde se considerava feliz no trabalho, era bem remunerada e interagia satisfatoriamente com todos os colegas; contudo, ficou grávida de seu segundo filho, o que impossibilitou sua demissão. A atual empresa incorporara praticamente todos os funcionários da que fora comprada, e adotava a prática de demitir os empregados antigos, pois tinha por objetivo contratar sua própria equipe, porquanto, além de praticar salários mais baixos, contratava pessoas com o novo perfil profissional da empresa. Foi a partir de então que entrara em processo depressivo e acabou por sofrer um aborto espontâneo, acarretado, no seu entender, pelo excesso de esforço físico durante uma mudança de residência. Após o aborto, informou imediatamente à empresa que já poderia ser demitida, fato que veio a ocorrer no mês posterior. Porém, no processo de desligamento, descobriu que estava grávida novamente, o que mais uma vez tornou inviável sua demissão. Frente às mudanças e ao mal-estar gerado por tal situação, e agravado ainda mais pela interrupção dos medicamentos por causa da gravidez, que já se encontrava em período avançado de gestação, procurou análise, demandando ajuda para lidar com o sofrimento de uma delonga frente à realização de seu desejo: ‘Como suportar o insuportável?’ 66 O processo de medicalização, característica da sociedade contemporânea, refletese no trabalho, como possível saída para comprovar a doença e justificar o afastamento do trabalho, conforme aponta Dejours (1984): Quando o limiar coletivo de tolerância não é ultrapassado, pode acontecer que um trabalhador, isoladamente, não consiga manter os ritmos de trabalho ou manter o seu equilíbrio mental. Forçosamente, a saída será individual. Duas soluções lhe são possíveis: largar o trabalho, trocar de posto ou mudar de empresa. São as formas encobertas pela rotatividade. A segunda solução é representada pelo absenteísmo. Mesmo sabendo que não está propriamente doente, o operário esgotado e à beira da descompensação psiconeurótica não pode abandonar a fábrica sem maiores explicações. O sofrimento mental e a fadiga são proibidos de se manifestarem numa fábrica. Só a doença é admissível. Por isso, o trabalhador deverá apresentar um atestado médico, geralmente acompanhado de uma receita de psicoestimulantes e analgésicos. A consulta médica termina por disfarçar o sofrimento mental: é o processo de medicalização, que se distingue bastante do processo de psiquiatrização, na medida em que se procura não somente o deslocamente do conflito homemtrabalho para um terreno mais neutro, mas a medicalização visa, além disso, à desqualificação do sofrimento, no que este pode ter de mental. (pág. 121). A se considerar válido aquilo que se produz e aquilo que se consome, o homem contemporâneo abdica da própria satisfação e passa a trabalhar incessantemente, prejudicando inúmeras vezes os laços sociais que se veem preteridos diante do vínculo que passa a manter com o poder. Até mesmo nos momentos de lazer há produção, através do consumo desenfreado. Logo, conforme Ferreira e Mendes (2001) abordam no texto “Só de pensar em vir trabalhar, já fico de mau humor: atividade de atendimento ao público e prazersofrimento no trabalho”, [...] se todo o trabalho veicula implicitamente um custo humano que se expressa sob a forma de carga de trabalho, as vivências de prazer-sofrimento têm como um dos resultantes o confronto do sujeito com essa carga que, por conseguinte, impacta no seu bemestar psíquico.” (pág. 93) 67 Na contemporaneidade, portanto, o trabalho configura-se em um cenário de malestar. Pensar o que é o mal-estar no trabalho, quem é o sujeito social e qual o lugar do sujeito do desejo no âmbito do trabalho implica analisar o mal-estar do sujeito contemporâneo. O produto dessa nova concepção de trabalho não se esgota no ato do consumo, ao contrário, alarga-se, a produzir o sujeito que produz a riqueza; isso faz com que o trabalho deixe de ser um lugar de realização pessoal, retirando o desejo desse espaço de produção e repercutindo o mal-estar na civilização contemporânea. A cultura contemporânea tem no trabalho um aparelho propagador de suas ideias e valores, que não pode ser manifestado institucionalmente, o que torna o mal-estar latente e disfarçado. No artigo intitulado “A transformação do sofrimento em adoecimento: do nascimento da clínica à psicodinâmica do trabalho”, Luiz Carlos Brant e Carlos Minayo-Gomez (2004), assim se expressam a esse respeito: É possível observar, no interior das organizações, o quanto a tristeza é imediatamente nomeada como depressão e o medo, como paranoia, apenas para citar alguns exemplos. Esse adoecimento não se faz sem consequências, uma vez que ele discrimina, estigmatiza e exclui. O que abre espaço para a medicalização das manifestações do sofrimento nas empresas, através da prescrição indiscriminada, principalmente de antidepressivos e ansiolíticos. Portanto, evidenciar a transformação do sofrimento em adoecimento significa criticar esse conjunto de práticas que permite a enunciação de determinadas doenças. (pág. 215) O trabalho como atividade e ação humana utiliza a inteligência e a sabedoria prática para enfrentar aquilo que não é oferecido pela organização prescrita do trabalho para fins de sua concretização. A criação é o produto do sujeito com o qual ele colabora para o desenvolvimento da sociedade na qual ele se insere, indo muito além do exercício da cidadania, pois tem na sua raiz o poder, tão requisitado e valorizado pelo capitalismo contemporâneo. 68 Agamben (2009) entende que [...]os dispositivos visam, através de uma série de práticas e de discursos, de saberes e de exercícios, à criação de corpos dóceis, mas livres, que assumem a sua identidade e a sua liberdade de sujeitos no próprio processo do seu assujeitamento. Isto é, o dispositivo é, antes de tudo, uma máquina que produz subjetivações e somente enquanto tal é também uma máquina de governo. (pág. 46). Concomitantemente, pode-se dizer que o capitalismo age por meio da produção de um sujeito, à medida que o ‘dessubjetiva’, a eliminar a sua verdade, igualando uns aos outros. Um dos dispositivos que influenciam o sujeito contemporâneo é o mercado, que o demanda basicamente da eficácia e da ação a qualquer preço, pois dele, o que a sociedade requisita é o lucro, a partir de seus resultados. Ao se efetuar uma leitura desse problema pelo ângulo da psicanálise, é cabível pensar essa ação ‘a qualquer preço’ como um imperativo de gozo. A compulsão, o estresse e a depressão aparecem, então, como efeitos desse imperativo que demarca um mal-estar no mundo contemporâneo, sendo essa uma das possíveis razões para o afastamento do trabalho. A eficácia dos sujeitos funciona em busca de prazer e de gozo imediatos em um mundo transitório e incerto, onde não cabem sujeitos ineficientes. O sofrimento causado pela culpa provavelmente é passível de desencadear um quadro depressivo, o que pode levar o sujeito à somatização, fazendo com que o problema pessoal de um afete o desempenho de outros. Nesse caso, tal conjuntura pode vir a afetar inclusive a vida de muitos outros, com possível risco de defunção para ele próprio ou para os demais que o circundam. Assim, atitudes tomadas pelas empresas podem ser de extrema relevância social, sendo essa, aliás, sua principal responsabilidade: colaborar com a sociedade capitalista, em todas as suas interfaces, alimentando o sistema, mesmo que seja por meio do apelo à eficácia. 69 Dejours (1987), ao comentar que “toda doença física só pode ser prejudicial à produtividade e à rentabilidade da empresa” (pág.96), aponta o sofrimento mental como pré-condição para intermediar a submissão ao corpo. Enquanto o fato permanecer invisível aos olhos da empresa, ele pode ser contornado, mas no momento em que vier a prejudicá-la, ele precisa ser tratado e extirpado, atendendo às demandas da legislação internacional responsável pelo trabalho. A OIT, Organização Internacional do Trabalho (1984), entende que cabe às empresas implantar e avaliar medidas preventivas e corretivas que visem a melhorar as condições de promoção e proteção à saúde do trabalhador, ressaltando a relevância do ambiente psicossocial: O ambiente psicossocial no trabalho engloba a organização do trabalho e as relações sociais de trabalho. Fatores psicossociais no trabalho são aqueles que se referem à interação entre e no meio ambiente de trabalho, conteúdo do trabalho, condições organizacionais e habilidades do trabalhador, necessidades, cultura, causas extratrabalho pessoais que podem, por meio de percepções e experiência, influenciar a saúde, o desempenho no trabalho e a satisfação no trabalho (OIT, 1984). Os principais fatores psicossociais geradores de estresse que podem estar presentes no meio ambiente do trabalho envolvem aspectos de organização, administração e sistemas de trabalho e também a qualidade das relações humanas. Por isso, o clima organizacional4 de uma empresa vincula-se não somente à sua estrutura e às condições de vida da coletividade do trabalho, mas também a seu contexto histórico, com seu conjunto de problemas demográficos, econômicos e sociais. Assim, o crescimento econômico da empresa, o progresso técnico, o aumento da produtividade e a estabilidade da organização dependem também dos meios de produção, das condições de trabalho, dos estilos de vida, do nível de saúde e bem-estar de seus trabalhadores. 4 Representa a influência ambiental, interna, existente entre os membros da organização, que é percebida ou experimentada pelos mesmos, como influenciadora de seu grau de satisfação com o trabalho. 70 Por certo que o trabalho apresenta um conteúdo para o homem contemporâneo diverso daquele que oferecia para o homem feudal, pois já não existe neutralidade na produção subjetiva do trabalho. Dejours (1987), diga-se de passagem, considera que o trabalho ocupa um novo papel para o homem na atualidade, tendo em vista sua participação social pautada na produção e na manutenção cultural, isto é, “o conteúdo significativo do trabalho em relação ao Objeto, a produção como função social, econômica e política.” (pág. 51) Em verdade, o sujeito contemporâneo é aquele que não pode sofrer, é aquele que se medica ele próprio, que foge da dor e produz incessantemente, pois precisa consumir, porque caso isso não ocorra ele é que poderá vir a ser consumido pela sociedade em que sobreviver. Eis porque, ao tratar da organização do trabalho, Dejours (1987) aponta sua estrutura como possível causadora de adoecimento mental no contexto do trabalho, fato esse que já vem sendo explorado por algumas empresas na atualidade. No seu entender, as estratégias defensivas, por sua vez, podem ser utilizadas pela organização do trabalho para aumentar a produtividade. A questão é saber se a exploração do sofrimento pode ter repercussões sobre a saúde dos trabalhadores, do mesmo modo que podemos observar com a exploração da força física. Talvez o mais insólito, na abordagem psicopatológica da organização do trabalho, é que a exploração mental seja fonte de maisvalia nas tarefas desqualificadas, cuja reputação é de serem exclusivamente manuais. (pág. 120) Ora, já não é possível ignorar que o mundo globalizado, planificado numa tela de computador, veicula o enquadramento e a padronização, despersonaliza as diversas culturas, alimentando-as de produtos para consumo rápido, acenando para uma liberdade de escolha que não alcança a satisfação prometida, pois parece impossível o prazer nessa época de constante oferta de oportunidades de satisfação através das coisas e das pessoas. Nesse contexto, encontramos um mundo de estratégias e de guerras preventivas, como também são preventivas as ofertas de produtos que tampouco se tinha conhecimento deles carecer, levando o sujeito ao 71 consumismo exacerbado, cujo desejo é cada vez mais estimulado pela tendência a um padrão de comportamento social orquestrado pelas próprias redes sociais. Dessa forma, Sennett (2011) adverte que: Confiança, responsividade mútua, comunitarismo, todas são palavras que acabaram sendo apropriadas pelo movimento chamado comunitarismo. [...] O comunitarismo tem um direito de posse bastante dúbio em relação à confiança ou ao compromisso; enfatiza falsamente a unidade como fonte de força numa comunidade, e teme erroneamente que, quando surgem conflitos, os laços sociais sejam ameaçados. (pág. 171) O sofrimento suscitado pelo capitalismo contemporâneo agora se perpetua no trabalho, que nos escraviza, deslocando-se da posição de fonte de prazer para a de fonte de tanto desgaste e desprazer, ou, mais precisamente, de insatisfação e ansiedade. Analisando o sofrimento na Loucura do Trabalho, Dejours (1980) lembra que [...] o sofrimento operário é dividido em dois componentes, isso não significa que existam dois tipos distintos de sofrimento. Existe uma vivência global cuja decifração leva à descoberta em vários aspectos. Na vivência operária, no discurso dos trabalhadores, descreveremos provisoriamente dois sofrimentos fundamentais organizados atrás de dois sintomas: a insatisfação e a ansiedade. (pág. 48) Se o fruto do trabalho mecanicista permanecesse como objetivo principal da era industrial, e o braço do homem fosse uma extensão da máquina, hoje não mais verificaríamos tanto sofrimento no que diz respeito à indignidade e à falta de significação que se disfarçam através de sentimentos de inutilidade, de desqualificação, de ansiedade e depressão no trabalho, ou mesmo dele decorrente. Acredita-se que se continuarmos nesse quadro progressivo, até 2020 a depressão será a segunda causa de morte no mundo, perdendo somente para as doenças cardíacas. O trabalho que deveria ser um meio de vida passará a ser efetivamente um meio de morte. 72 A insalubridade que se verifica na atualidade refere-se também ao sentimento experimentado pelos operários que ainda se veem como uma continuação da máquina e envergonham-se, e desprezam-se por isso. Hoje, é bem verdade, os salários na área técnica das indústrias são muito maiores do que os de alguns cargos burocráticos, pois a demanda de profissionais é consideravelmente superior, visto que muito poucos se interessam por esse tipo de trabalho. Consertar máquinas não mais tem importância, menos ainda operá-las, pois isso reporta os profissionais a um sentimento de inutilidade, de incapacidade de se qualificar, o que afeta a autoestima e atinge um sentimento de finalidade do trabalho, pois não conseguem entender o significado do próprio ofício em relação ao conjunto de atividades da empresa, e tampouco da família ou da sociedade em linhas gerais. O trabalhador passa a desempenhar a simples função de provedor, quer dizer, aquele que se sacrifica para que a família consuma e progrida, colocando seu desejo em último plano, restando-lhe somente a depressão e o cansaço, não raro velados pelo alcoolismo, pela drogadição e pelo adoecimento psíquico. A psiquiatria aponta a Síndrome Subjetiva Pós-Traumática como única objetivamente vista por ela como sendo de origem bem limitada à organização do trabalho. Ao estudá-la, Dejours (1992) compreendeu que “seu sentido e seu significado não podem ser desvelados pela história passada do sujeito; residem, ao contrário, na natureza das condições e da organização do trabalho.” (pág. 125 ) Assim, o exercício de atividades consideradas inúteis, sem investimento material ou afetivo, exige muito esforço e uma negociação interna entre o desejo e a motivação, a fim de que o trabalhador consiga suportar tamanha insatisfação, mantendo-se produtivo. O mundo do trabalho requer um número cada vez maior de profissionais motivados a produzir. Na esteira dessa perspectiva, Sennett (2011) acredita que em lugar do homem motivado surge o homem irônico, pois 73 a ironia é um estado de espírito em que as pessoas jamais são exatamente capazes de se levar a sério, porque sempre sabem que os termos em que se descrevem estão sujeitos a mudança, sempre sabem da contingência e fragilidade de seus vocabulários finais, e portanto de seus eus. (pág. 138) É sabido que ao selecionar seus profissionais, as empresas analisam “o melhor profissional para o cargo” em questão; porém, talvez seja pertinente pensar, outrossim, na possibilidade de haver uma seleção de neuroses, conforme lembra Dejours (1987), ao afirmar que “a adaptação da relação homem-máquina e a boa qualidade da saúde-trabalho repousam também na seleção que só retém os sujeitos, física e psicossensorialmente, escolhidos a dedo.” (pág. 85) O profissional que tem o trabalho como necessário pode ser um excelente colaborador; contudo, aquele que deseja o que faz e com ele encontra-se transferido estabelece um vínculo de comprometimento muito maior, certamente proporcional à sua eficácia. Sem dúvida que se trata de uma definição de Negri, quando ele compreendeu que todo trabalho necessário constitui-se em um trabalho morto, por tratar-se de uma labuta que o sujeito leva a efeito por uma questão de sobrevivência, como se estivesse mecanizado, sem qualquer criatividade. Opostamente, porém, o trabalho vivo é o criativo, é aquele executado com maior satisfação; é aquele, enfim, que acaba gerando mais comprometimento e eficácia. Contudo, ainda assim é possível que o trabalhador que realiza um trabalho necessário seja também um excelente profissional e consiga experimentar prazer em sua realização. Por outro lado, embora o sujeito se inscreva institucionalmente através de seu produto, o trabalho, a gradativa desapropriação de seu desejo, em função da demanda organizacional e da consequente despersonalização de sua identidade, acarretam, com frequência, a descaracterização daquele profissional que entrou na empresa para ocupar o lugar daquele outro que saiu, sugado e esvaziado por ela. Mesmo sendo o trabalho uma forma possível de sublimação, em que a energia libidinal pode ser canalizada de forma produtiva para o sujeito, a subjetividade que concerne a essa produção precisa ser pensada, para que esse produto signifique 74 algo além do consumo e tenha a dimensão da criação do presente, através do qual nos eternizamos, presentificando-nos em relação ao outro que, nesse caso, representa a sociedade em que vivemos. Mais uma vez, é Dejour (1987) que nos ilumina, quando, retornando a Marx para investigar a alienação, retoma os manuscritos de 1844 e, a esse mesmo respeito, comenta que: (...) encontra na tolerância graduada segundo os trabalhadores de uma organização do trabalho, que vai contra seus desejos, suas necessidades e sua saúde. Alienação no sentido psiquiátrico também, de substituição da vontade própria do Sujeito pela do Objeto. Nesse caso, trata-se de uma alienação, que passa pelas ideologias defensivas, de modo que o trabalhador acaba por confundir com seus desejos próprios a injunção organizacional que substitui seu livre arbítrio. Vencido pela vontade contida na organização do trabalho, ele acaba por usar todos os seus esforços para tolerar esse enxerto contra sua natureza, ao invés de fazer triunfar sua própria vontade. Instalado o circuito, é a fadiga que assegura sua perenidade, espécie de chave, necessária para fechar o cadeado do círculo vicioso. (pág. 137) Assim, é cabível afirmar que a alienação faz com que o trabalhador confunda os próprios desejos com os desejos organizacionais, matando seu livre arbítrio e abdicando da própria vontade. Com isso, instala-se a fadiga que o mantém empregado, sendo esta a chave necessária para o seu aprisionamento. Aos poucos, o que se constata é uma alienação do próprio desejo, a deflagrar o sofrimento que marca o mal-estar do homem contemporâneo no trabalho. O profissional que ingressa na empresa, geralmente é bem diferente daquele que parte, o que esporadicamente é mapeado pelos setores de recursos humanos, através de entrevistas de desligamento, para atuar na redução do sofrimento no trabalho, embora, ainda que inabitualmente, seja levado em conta pelas empresas, que em geral não se interessam por isso, desde que tal insatisfação não altere o ritmo de trabalho da organização. Dejour (1987), ainda na Loucura do Trabalho, comenta logo depois que “a organização do trabalho aí aparece como veículo da 75 vontade de um outro, a tal ponto poderosa que, no fim, o trabalhador se sente habitado pelo estranho”. (pág. 137) A alienação é, pois, fruto do conflito entre o desejo do profissional e o desejo do empregador, representado pelo trabalhador e por esse mesmo poder ditado pelo capitalismo contemporâneo. O sujeito alienado é o sujeito que não sabe sobre a causa do seu sofrimento, desconhece as determinações inconscientes de suas ações, não havendo necessariamente conflito. A alienação é correlativa às identificações feitas pelo sujeito no seu percurso de vida. Aliás, a alienação ao Outro é constitutiva. 76 4. CONCLUSÃO A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso. Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara para a faculdade. Você vai para colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando. E termina tudo com um ótimo orgasmo! Não seria perfeito? Charles Chaplin Freud (1930) considerou a relação entre as pessoas como uma das fontes de sofrimento humano, e dessa maneira demarcou o mal-estar na civilização. Por meio do discurso, o ‘objeto a‘ é representado assinalando a falta e configurando o malestar. Frente às exigências da civilização, o sujeito precisa renunciar às exigências de satisfação da pulsão, que por sua vez são constantes, isto é, não cessam, visando a estabelecer laços sociais. Todo laço social, por sua vez, inscreve um discurso determinado pelo gozo e sobre o gozo, campo no qual o sujeito se implica. A proposta lacaniana de que todo laço social é uma estrutura discursiva do domínio do gozo ressalta a importância do discurso, que é da ordem de um dizer. Dessa forma, o que é dito pelo sujeito expressa o real, elucidando seu inconsciente. 77 Conforme vimos, ao falar, o sujeito funda um fato, atua, goza! Falar dá sentido. Logo, através dos discursos dá-se o agir humano, que Freud desdobrou em governar, educar, psicanalisar e Lacan acrescentou o ‘fazer desejar’. O sujeito é então marcado pelo significante e pelo gozo. Ao elaborar Psicose e laço social, Quinet (2009) estudou os discursos dominantes em nossa cultura, conforme propôs Lacan, considerando como resultado de tais discursos dominantes da civilização atual esse mal-estar que grassa pela população em geral, em todas as esferas, “do mestre, do universitário e do capitalista”. (pág. 36) É importante ressaltar, porém, que o discurso capitalista tem a peculiaridade de não promover laço social. Mesmo porque, sua proposta básica se circunscreve na relação dos sujeitos com um objeto de consumo curto e rápido, que ‘vende’ a ideia de uma satisfação plena e de uma completude inalcançável, a retroalimentar a cadeia, gerando mais consumo e, consequentemente, mais produção. Como aqui se mostrou, o mercado controla a oferta, regula a procura, estabelece as regras do consumo, da produção e do desejo. O trabalho, no que lhe diz respeito, é que cria a possibilidade e a condição para esse consumo; ele é intermediado pelo salário, que remarca a menos-valia do trabalho, sendo, por isso mesmo, insuficiente para cobrir o preço, no caso de se ter de renunciar à pulsão. Quanto mais se trabalha, mais se ganha e mais se gasta, e, em sendo assim, valemos menos, ou seja, seremos sempre insuficientes para o mercado. Consoante ao que foi visto, o desejo não se satisfaz nunca e a busca por objetos fantásticos que prometem preencher o vazio escravizam ainda mais os trabalhadores. Assim, as empresas buscam inovações para se manter competitivas, de modo a aguçar o consumo, e isso chega a tal ponto que o desejo passa a ser interativo, podendo o consumidor organizar ele próprio o produto que há de atender às suas necessidades, isto é, àqueles que espelham os deslizamentos dos seus desejos. 78 No capítulo intitulado “O mal-estar na Psicanálise”, examinamos os lugares onde os sujeitos podem ocupar, para que a civilização entenda a cultura como fonte de bemestar e prazer, permitindo que os sujeitos a desejem. Para tal, pensamos a relação existente entre cultura, trabalho, desejo e gozo, a fim de, na cultura contemporânea, localizar onde o sujeito do desejo se situa no trabalho. Refletimos sobre o fato de Jacques Lacan, em 1974, assim como Freud, no pósguerra, preocuparem-se com o mal-estar da civilização na modernidade. Destacamos que foi então que se produziu a obra “Televisão”, na qual incluiu o ‘malestar’ como produto de um discurso capitalista, decorrente do discurso do mestre, dominante na nossa sociedade. No discurso do capital, o sujeito se tornou consumidor, cuja verdade é o capital, á medida que ele se relaciona com os objetos de consumo são ofertados pela ciência e pela tecnologia. Trata-se de um discurso em que o sujeito se relaciona com os tais objetos oferecidos pelo mercado comandado pelo capital, de maneira a impedir os laços sociais. Na verdade, o significante que prevalece no discurso capitalista é o próprio capital, estando o sujeito reduzido à posição de um mero consumidor de objetos engendrados pela ciência e pela tecnologia. Vimos que a globalização – planificação do mundo numa tela de computador – produziu sujeitos que consomem em abundância e incessantemente, demandando um dispêndio que jamais será saciado, e cujo gozo em nenhuma ocasião será fabricado. É que os objetos de desejo produzidos necessitam de consumo, porquanto representam os objetos pulsionais e assumem o posto de representantes binários, sobre os quais o significante-mestre se desdobra. Evidenciamos que, ao produzir, o sujeito contemporâneo deseja, mantendo essa cadeia ativa, deslocada do ‘ser’ para o ‘ter’, desvinculada do capital que agora é universalizado, e onde nos tornamos meros proletários do mundo. Afinal, verificamos que trabalho produz trabalho, e assim a cadeia se mantém ativa, e o dinheiro que se ganha é o mesmo que se gasta, fazendo a economia circular e o sistema continuar 79 perpetuando-se, sob a grande ilusão de que todos lucram e se sustentam. Quanto mais trabalho, maior o ganho e como todos querem ganhar, todos se escravizam cada vez mais, sobre a égide de um senhor sem rosto, caracterizado como Capitalismo. A nação que impera é a que mais consome, e, consequentemente, a que mais produz. O discurso capitalista é imperativo, portanto, sem lei, regulado por uma lógica inacessível e segregadora, na qual quem não tem não é, ‘ex-iste’3, não deseja e não goza, é excluído da sociedade. Assim, no capítulo caracterizado como “O mal-estar da contemporaneidade no trabalho”, abordamos algumas evidências do mal-estar na saúde do trabalhador, analisando como o processo de mudança ocorreu a partir do capitalismo mecanicista e pós-mecanicista, e chegou a assumir um novo lugar para o trabalho na contemporaneidade. Demonstramos, de mais a mais, que o mal-estar na cultura se estende e reflete no trabalho, onde as organizações que prosperam são as mesmas que obtêm os melhores resultados e, inclusive, são as que melhor administram os negócios, contrabalançando seus custos com vistas a multiplicar os benefícios. Como se viu, tais empresas, em geral, buscam profissionais que abrem mão de seus desejos e dedicam a maior parte de seu tempo para servi-las. Colocando o trabalho acima de qualquer laço social, esse trabalhador passa a desejar somente as regalias que o capital lhe pode oferecer. Assim, pode-se dizer que na contemporaneidade, o trabalho não se resume apenas ao espaço das empresas, ao contrário, ele reverbera por todos os momentos da vida do sujeito, qualificado hoje como Workaholic, ou seja, o viciado em trabalho, o que leva consigo os problemas do trabalho para onde estiver. E tal ocorre não porque sente prazer ou porque seja de _________ 3 De acordo com o Diccionario Crítico Etimológico de La Lengua Castellana, de Joan Corominas (vol. II, Madrid: Ed. Gredos, 1976), o verbo existir é proveniente do latim ‘exsistěre’, cuja acepção era ‘sair’, ‘nascer’, ‘aparecer’ que, por sua vez, provinha de ‘sistěre’, que tinha a acepção de ‘colocar’, ‘sentar’, ‘deter’, ‘ter’. Logo, ex-sistere teria o significado de ‘colocar para fora’. 80 fato viciado, não, mas porque visa à possibilidade de alcançar o tão cobiçado crescimento social. Percebe-se que a tecnologia de ponta vem desenvolvendo novos mecanismos de controle, para que os profissionais se mantenham conectados com as organizações, ‘produzindo’ desde o momento que saem da empresa até o instante mesmo em que retornam. Algumas instituições, ademais, têm inovado suas práticas, trazendo ‘a casa’ de seus colaboradores para o local de trabalho. Explica-se: essas organizações permitem a seus funcionários customizar o ambiente de labor como se fora o próprio lar, estimulam os exercícios físicos, inaugurando academias e espaços para relaxamento, embora os trabalhadores mal disponham de tempo para usufruir essas benesses. Frequentemente, os profissionais que se destacam são premiados e estimulados a se tornarem cada vez mais eficientes e eficazes, já que não basta apenas agir corretamente, conforme os padrões estabelecidos pela empresa, mas também resolver todos os problemas a ela relacionados, comprometendo-se com os resultados organizacionais, administrando eles próprios a empresa, como se de fato lhes pertencesse, colocando sua produção como se o negócio fosse efetivamente propriedade sua. Compreende-se que o crescimento profissional ocorre, em geral, quando o sujeito se submete às normas, isto é, às regras e valores organizacionais. Não raro, eles passam a propagá-los como se lhes pertencessem, e de tal forma isso ocorre, que alguns trabalhadores chegam mesmo a organizar suas vidas e suas casas conforme o que aprenderam que deveria ser feito na empresa. Ao se amalgamar, o sujeito restringe a vida ao trabalho, confundindo-a com sua produção. O sofrimento decorrente de tal desalinho costumeiramente acarreta decepção e frustração, pois a empresa dificilmente dará ao trabalho por ele realizado o valor que ele atribui à própria produção. 81 No capítulo “O mal-estar da contemporaneidade no trabalho”, evidenciamos o confronto entre o bem-estar do trabalho vivo com o desejo e o mal-estar do trabalho morto na contemporaneidade, com o gozo representando uma via do capitalismo, em que o sujeito do desejo se submete ao desejo do Outro, que pode ser espelhado pela empresa, pelo trabalho ou pela própria sociedade. Com isso, tentamos concluir que o sistema capitalista passa efetivamente por um processo de mudança, a reclamar um novo espaço para o trabalho, em prol do alcance de seus interesses. E para entender o que afeta os sujeitos, assim como essa nova forma de interação, evidenciamos a necessidade de se repensar esse mal-estar que emana da cultura contemporânea. Conclui-se, pois, ser preciso buscar uma maneira de lidar com o trabalho de forma mais prazerosa. É possível, pergunta-se, coexistir na cultura contemporânea sublimação e gozo no trabalho? Além do mais, a articulação entre a canalização da energia libidinal, proposta por Freud em O mal-estar na civilização e, posteriormente, repensada por Lacan no seminário “Televisão” designam fontes de mal-estar questionadas pela psicanálise, à medida que o sujeito vê-se ameaçado pela possibilidade de exclusão social, imperativo do capitalismo para aqueles que não se adéquam aos apelos de produtividade e eficácia. Consequentemente, trabalho e consumo se entrelaçam de tal forma, que países como o Brasil enfrentaram, e até mesmo com certo êxito, crises econômicas que abalaram fortemente outros países considerados gigantes econômicos, por se acreditar que há muito mais tempo do que podíamos imaginar suas economias já estavam consolidadas. Isso porque há muito que tais nações, concebidas como de ‘primeiro mundo’, adotavam uma artimanha econômica embasada no simples estímulo ao consumo-produção-trabalho. Contudo, sabe-se hoje que para que o crescimento social seja auspicioso, é preciso que todos se submetam à chibata do capitalismo e a ele se escravizem, alienandose ao seu desejo. E os que não abrem mão da liberdade de desejar acabam se submetendo ao domínio de países mais prósperos, colocando- se à mercê de uma 82 economia invasora que passará a ditar as normas – normas essas que acabarão imperando e imprimindo uma falsa dependência mediada pelo poderio dominante. Outro aspecto interessante a ser observado nas empresas é que elas buscam colaboradores que mantêm um padrão adequado de conduta, regido pelo mercado. A uniformidade e a padronização de comportamento impostas pelo mercado de trabalho fazem com que a própria produção também se torne repetitiva, bem como a forma pela qual o trabalhador organiza e estrutura o pensamento, a argumentação e o próprio trabalho. Há profissionais que levam consigo aquilo que desenvolveram em outras organizações como modelo de trabalho para as demais, sem se darem conta das características culturais organizacionais próprias de cada qual. Procuram-se profissionais criativos para inovar a produção e causar novos desejos, mas é sabido que esses mesmos profissionais precisam manter intactos e inalterados os valores há muito tempo divulgados. Não obstante, a ciência busca o saber, surgindo então profissionais que desejam conhecer, que questionam mais e que se submetem aos ditames organizacionais por menos tempo. Ansiedade e angústia traduzem, pois, as marcas da contemporaneidade nos sujeitos que necessitam, com o menor esforço e o mais rápido possível, chegar ao topo para alcançar o sucesso. Compulsões, doenças e medicalização retratam as saídas para resolver, ou, pelo menos, para tamponar tanto mal-estar, desde que o sujeito se mantenha produtivamente contribuindo para a preservação da cultura. O mal-estar do sujeito jamais será bem-vindo ao mundo do trabalho, e sua permanência há de ser sempre indesejável e, portanto, afastada do meio – quer seja por licenciamento médico, quando justificado, quer seja por demissão – como forma de punição por qualquer tipo de inadequação profissional. Desse modo, no sistema capitalista contemporâneo, desemprego é a maior ameaça, pois obriga o sujeito a lidar com a própria falta, sem poder recorrer ao consumo para tamponá-la. 83 Vimos que o mal-estar no trabalho se aloja quando o sujeito desejante se anula em função de um mais-de-gozar social, que o demanda a abrir mão de seu desejo em função do desejo social capitalista de produção e eficácia. E ao abrir mão do desejo, o sujeito se assujeita ao desejo do Outro, seja esse ‘outro’ a empresa, o trabalho ou a sociedade propriamente dita. Entretanto, o trabalho pode, sim, ocupar um lugar de bem-estar ou de mal-estar, dependendo de como cada um se posiciona em relação ao desejo, frente aos apelos sociais do mundo do trabalho. Destacamos que o trabalho vivo que surge como objeto de desejo do sujeito encontra no mesmo sujeito a possibilidade de manter-se vivo, de permanecer ativo, ao contrário do que pressupõe a sociedade capitalista. O trabalho como bem-estar pode atuar como fonte de prazer quando o profissional consegue se manter como sujeito desejante, que busca no sujeito mesmo do desejo sua própria satisfação, independente das necessidades da empresa ou da sociedade em que vive. Dizendo de outra maneira: como o sujeito é a personagem principal de seu próprio desejo, ele se torna passível de desejar o trabalho e situá-lo em outro ponto. Assim, já não mais se trata de um sujeito subserviente àquele gozo forjado e/ou outorgado pelo sistema capitalista de produtividade e eficácia, mas, ao contrário, trata-se de um sujeito que se empenha por encontrar no trabalho uma maneira de sublimar que lhe seja prazerosa por desejar o que faz. Em vez de tamponar o desejo, e contrariamente ao que se pratica atualmente, causaria muito mais bem-estar e, consequentemente, melhores resultados para todos suscitar a criatividade dos sujeitos, possibilitando-os canalizar a energia libidinal para produzir algo que constitua valor para os demais. Precisaríamos, pois, de repensar as propostas e as práticas organizacionais, de modo a viabilizar o direcionamento pulsional para um trabalho vivo, fonte de prazer e não somente de gozo. Com isso, a sociedade ganharia imensamente, pois os caracteres antes corroídos, ditados por um capitalismo que ferozmente nos 84 engole, abdicaria de tanto mal-estar, produzindo sujeitos mais desejantes e realizadores, e, quem sabe, talvez até mais produtivos. Cabe-nos questionar, então, se interessa ao sistema capitalista incentivar e permitir a existência de sujeitos desejantes e vivos ao produzir, ou simplesmente aceitar que essa ‘pseudo escravidão’ se torne mais segura, visto que ela encarcera os sujeitos tornando-os amarrados e dependentes de suas principais premissas, ou seja: o trabalho, a produção e o consumo. Questiona-se, pois, se seria possível ao capitalismo adotar uma outra face, que se apresentaria ao sujeito pela via do desejo, visto que este nunca se esgota, eis a interrogação que, afinal, este trabalho nos suscita. 6. ANEXO SINOPSE DO CURSO CURSO: O mal-estar no trabalho contemporâneo CARGA HORÁRIA: 4 horas/aulas 1)OBJETIVO GERAL DO CURSO Desenvolver nos participantes um novo olhar sobre o trabalho, levando-os a promover o encontro do desejo dos sujeitos na realização de seus trabalhos. 2) TÉCNICAS DE ENSINO Abordagem teórica utilizando metodologia participativa através de debates. 3) CONTEÚDO PROGRAMÁTICO 1. Introdução 2. O mal-estar na psicanálise 2.1. Trabalho e cultura 2.2. O sujeito do desejo 2.3. O mais de gozar 2.4. O sujeito do desejo no trabalho na cultura contemporânea 3. O mal-estar no trabalho na contemporaneidade 3.1. O capitalismo mecanicista 3.2. O capitalismo pós-mecanicista 3.3. O capitalismo na contemporaneidade 3.4. O mal-estar na contemporaneidade 4. Conclusão 87 6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALBERTI, Sônia. O discurso do capitalista e o mal-estar na cultura [S.l.]: Virtual Books: 2000. Disponível em: http://www.berggasse19.psc.br/site/wpcontent/uploads/2012/07/19133239-Sonia-Alberti-O-Discurso-Do-Capitalist-A-e-oMal-Estar-Na-Cultura-1.pdf Acesso em: 10 fev. 2013, 18:20. BAUMAN, Z. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1998. BRANT, L. & MINAYO-GOMEZ, C. A transformação do sofrimento em adoecimento: do nascimento da clínica à psicodinâmica do trabalho. Rio de Janeiro: Escola Nacional de Saúde Pública, Fiocruz, 2003. 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