UNIVERSIDADE VEIGA DE ALMEIDA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU
MESTRADO PROFISSIONAL EM PSICANÁLISE, SAÚDE E SOCIEDADE
ADRIANA GOMES DE SOUZA
O MAL-ESTAR NO TRABALHO CONTEMPORÂNEO: INTER-RELAÇÕES
ENTRE O SUJEITO DO DESEJO E O SUJEITO DO TRABALHO
Rio de Janeiro
2013
ADRIANA GOMES DE SOUZA
O MAL-ESTAR NO TRABALHO CONTEMPORÂNEO: INTER-RELAÇÕES
ENTRE O SUJEITO DO DESEJO E O SUJEITO DO TRABALHO
Dissertação apresentada ao Programa
de Pós-Graduação stricto sensu:
Mestrado Profissional em Psicanálise,
Saúde e Sociedade da Universidade
Veiga de Almeida, como parte dos
requisitos para obtenção de título de
Mestre em Psicanálise, Saúde e
Sociedade. Área de Concentração:
Psicanálise e Sociedade.
.
Psicanálise e Sociedade.
.
Orientador: Prof. Dr. Auterives Maciel Júnior
.
Rio de Janeiro
2013
DIRETORIA DOS PROGRAMAS DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTU SENSU
E DE PESQUISA
Rua Ibituruna, 108 – Maracanã
20271-020 – Rio de Janeiro – RJ
Tel.: (21) 2574-8871 - (21) 2574-8922
FICHA CATALOGRÁFICA
FICHA CATALOGRÁFICA
S729m
Souza, Adriana Gomes de.
O mal-estar no trabalho contemporâneo: inter-relações entre o sujeito do
desejo e o sujeito do trabalho / Adriana Gomes de Souza, 2013.
85 f ; 30 cm.
Dissertação (Mestrado) – Universidade Veiga de Almeida,
Mestrado Profissional em Psicanálise, Saúde e Sociedade, Rio de
Janeiro, 2013.
Orientação: Prof. Dr. Auterives Maciel Júnior
1.
Psicanálise. 2. Trabalho. 3. Subjetividade. I. Martinho, Maria
Helena. II. Maciel Júnior, Auterives. III. Universidade Veiga de Almeida,
Mestrado Profissional em Psicanálise, Saúde e Sociedade. IV. Título.
.
CDD
Ficha Catalográfica elaborada pelo Sistema de Bibliotecas da UVA
Decs
Biblioteca Maria Anunciação Almeida de Carvalho
– 616.89
ADRIANA GOMES DE SOUZA
O MAL-ESTAR NO TRABALHO CONTEMPORÂNEO: INTER-RELAÇÕES
ENTRE O SUJEITO DO DESEJO E O SUJEITO DO TRABALHO
Dissertação apresentada ao Programa
de Pós-Graduação stricto sensu:
Mestrado Profissional em Psicanálise,
Saúde e Sociedade da Universidade
Veiga de Almeida, como parte dos
requisitos para obtenção de título de
Mestre em Psicanálise, Saúde e
Sociedade. Área de Concentração:
Psicanálise e Sociedade.
.
Aprovada em ______________
.
BANCA EXAMINADORA
____________________________________________________
Prof. Dr. Auterives Maciel Junior
____________________________________________________
Profa. Dra. Sonia Xavier de A. Borges
___________________________________________________________
Profª. Drª. Rosane Braga de Melo
RESUMO
O objetivo do presente trabalho foi investigar as inter-relações entre o sujeito do
desejo e o sujeito do trabalho, a partir da análise do mal-estar no trabalho
contemporâneo a partir do conceito de mal-estar na teoria psicanalítica. A pesquisa
teórica seguiu os fundamentos de Freud e Lacan, assim como Dejours e Negri, com
vistas a repensar, no contexto social de perpetuação e desenvolvimento da cultura,
o significante trabalho para a humanidade. Constatou-se que embora a Psicanálise
considere o trabalho como forma de sublimação, o sujeito do desejo em uma
sociedade capitalista não é levado em conta no mundo do trabalho, e as instituições
intensificam ações estruturadas sob a forma de processos que visam a administrar e
a organizar as instituições para um melhor desempenho, de modo a alcançar os
resultados esperados para uma competitividade eficaz e eficiente. Se por um lado, o
capitalismo contemporâneo apela para a produtividade, a eficácia e a eficiência dos
sujeitos, sustentando-se no consumismo como garantia de produção, por outro a
psicanálise demonstra como o indivíduo se constitui como sujeito do desejo, com as
diversas modalidades de gozo cabíveis. Conclui-se que o trabalho vivo atua como
fonte de bem-estar e prazer quando o profissional consegue se posicionar como
sujeito desejante; contudo, quando o sujeito se anula em função de um mais-degozar social, abrindo mão de seu desejo, como no caso do trabalho necessário, em
que os profissionais se submetem ao desejo do outro, surgem o mal-estar e o
sofrimento.
Palavras-chave: Psicanálise, Sujeito, Trabalho, Desejo.
ABSTRACT
From the analysis of the malaise in contemporary, we investigate the place of work
as circumscribed in this malaise, debating in an interdisciplinary way the malaise at
work and malaise in Psychoanalysis. We analyze the possible relationship between
the subject's desire and work for the vision of psychoanalysis, based on Freud and
Lacan, as well as Dejours and Negri, for rethinking the significant work for humanity,
in the social context, the development and perpetuation of culture. Contemporary
capitalism calls for productivity, effectiveness and efficiency of the subjects,
supporting himself on consumerism as collateral production. Psychoanalysis
understands the work as a form of sublimation, although the subject of desire is not
taken into account in the work world, which intensifies actions in the form of
structured processes to manage and organize institutions for better performance, to
reach results expected for a competitive effective and efficient. We intend to analyze
how the subject is constituted as a subject of desire, with the various forms of
reasonable enjoyment. Living labor acts as a source of well-being and pleasure when
the professional is able to position itself as desiring subject, yet when the subject is
canceled due to a more social to enjoy giving up his desire, as in the case of the
work required in professionals to be subjected for the desire of the other, arise the
discomfort and suffering.
Keywords: Psychoanalysis, Subject, Labor, Desire.
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO ..................................................................................................... 11
2. O MAL-ESTAR NA PSICANÁLISE ..................................................................... 17
2.1. Trabalho e cultura ....................................................................................... 18
2.2. O sujeito do desejo ..................................................................................... 28
2.3. O mais de gozar .......................................................................................... 35
2.4. O sujeito do desejo no trabalho na cultura contemporânea .................. 37
3. O MAL-ESTAR NO TRABALHO NA CONTEMPORANEIDADE ....................... 41
3.1. O capitalismo mecanicista ........................................................................ 42
3.2. O capitalismo pós-mecanicista ................................................................ 48
3.3. O capitalismo na contemporaneidade ..................................................... 54
3.4. O mal-estar na contemporaneidade ......................................................... 60
4. CONCLUSÃO .................................................................................................... 76
5. ANEXO ...............................................................................................................
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .................................................................. 85
Para Mariana e Carlos Eduardo, meus dois maiores amores:
sempre me acompanharam, ajudaram e, carinhosamente,
apoiaram-me em todas as jornadas.
.
A Floriano, pelo imensurável e constante incentivo, apoio e
compreensão, divisores de água em minha vida: sem isso, com
certeza, também dessa vez não teria retomado e concluído
esse Mestrado, agente de meu desejo em psicanálise.
AGRADECIMENTOS
... Agradeço a meu Deus, que falou de amor e desejo, opondo-se aos valores
capitalistas.
... Agradeço ao meu orientador, Professor Doutor Auterives Maciel Junior, por
entender e alinhavar tão bem minhas ideias, respeitando-as e incentivando
discussões, formulando críticas e argumentações que ampliaram e desenvolveram
esta investigação.
... Agradeço à Professora Doutora Sonia Borges e à Professora Doutora Rosane
Braga de Melo, pela extrema atenção em aceitar fazer parte desta banca, e também
pelo interesse e cuidadosa colaboração prestada para o aprimoramento deste
trabalho.
... Agradeço à Professora Doutora Maria Anita Carneiro Ribeiro, que no início de
minha carreira profissional orientou-me sobre o significado da Psicanálise,
transformando minha vida e, sobretudo, incitando-me a granjear esse tão desejado
grau acadêmico.
... Agradeço à Coordenadora Professora Doutora Gloria Sadalla, pela atenção, apoio
e auxílio em todos os degraus escalados nesse trajeto.
... Agradeço a Elaine, pela compreensão e orientação prestada no início deste
percurso.
... Agradeço aos meus queridos, compreensivos e pacientes professores do Curso
de Mestrado, com os quais tive o privilégio de instruir-me para tornar possível
edificar este trabalho final.
...Agradeço à Professora Doutora Nilce Del Rio, pela cuidadosa e esmerada
interpretação e revisão de meus escritos.
... Agradeço particularmente aos colegas Daniele Spada, Melquíades e Bárbara,
pela atenção, apoio e ajuda nos momentos de angústia durante esse caminho
percorrido.
... Agradeço a todos os amigos, ressaltando, neste momento, Irene, Paulo e
Marinalva, que sempre me apoiaram nos momentos que deles precisei.
... Agradeço a todos os profissionais, líderes e empresas com que trabalhei ao longo
de minha vida, por terem-me mostrado verdadeiramente o significado do desejo no
trabalho.
... Agradeço aos meus alunos e pacientes, pelas inúmeras vezes que me
possibilitaram escutar o avesso do sujeito do trabalho.
11
1. INTRODUÇÃO
O sistema econômico capitalista, que apresenta no trabalho sua principal fonte de
riqueza, tem como reflexo o mal-estar, essa indisposição que cada vez mais atinge
os sujeitos e, consequentemente, afeta a sociedade contemporânea como um todo.
O Jornal Estadão divulgou alarmantes dados do Instituto Nacional de Seguridade
Social (INSS), demonstrando que só no primeiro semestre de 2011 foram
concedidos 109 mil auxílios-doença para trabalhadores, cujas enfermidades são
decorrentes de estresse. Em 2010, no mesmo período, foram detectados 85 mil
casos, ou seja, constatou-se um aumento de 28% em apenas um ano (2013).
Na nomenclatura recente, Freudenberger apontou que o distúrbio caracterizado
como Burnout constitui uma síndrome segundo a qual o trabalhador perde o sentido
de sua relação com o próprio ofício, fazendo com que as coisas já não mais tenham
tanta importância, e que qualquer esforço para reverter tal situação parece-lhe inútil
(1970).
Em estudo realizado em 2011, a International Stress Management, Isma-BR
constatou que setenta por cento da população economicamente ativa do país
encontra-se estressada por problemas no trabalho (2012).
Além do prejuízo à saúde e às empresas, o estresse, que conduz a outras
patologias, representou um custo de R$ 147 milhões à Previdência Social até junho
de 2011, verba essa gasta com trabalhadores enfermos (2011).
12
A depressão na sociedade contemporânea transparece, ainda, no alarmante
aumento do número de suicídios, o que levou recentemente a Organização Mundial
da Saúde (OMS) a produzir a obra Prevenção ao Suicídio: Manual Dirigido a
Profissionais das Equipes de Saúde Mental, face à elevação de casos constatados,
o que pode ser considerado um indicador de sofrimento na sociedade capitalista
coetânea, onde o trabalho nutre e desenvolve a produção e o consumo, a reafirmar
ainda mais a dor do sujeito de então.
Pensou-se, pois, estudar o lugar que o trabalho ocupa no desejo do sujeito, por
entender que isso pode ser uma forma de repensar as possibilidades para a
promoção de um encontro entre ambos, ou seja, entre sujeito e desejo.
Anos atrás, recebi um convite para implantar a área de Recursos Humanos em uma
empresa de médio porte, situada em uma cidade do interior do Nordeste, onde não
havia qualquer outra psicóloga ou psicanalista. Nessa época, tive a oportunidade de
aprofundar-me no universo empresarial e, algumas vezes, confrontei-me com aquela
realidade. Foi então que constatei a conveniência de direcionar um olhar clínico
sobre ela. As inúmeras situações de depressão, estresses, abusos, dentre outros
sofrimentos humanos vivenciados ali, levaram-me a pensar na importância de
conceder uma atenção mais específica sobre os recursos de que se dispõe, que por
serem demasiadamente humanos, precisavam verdadeiramente ser cuidados.
Desde então, busquei trabalhar sempre na área de Recursos Humanos a partir de
uma leitura psicanalítica, o que me levou ao questionamento acerca dos efeitos do
trabalho na vida dos profissionais, sem perder de vista, é claro, a pertinência desse
olhar sobre o mundo organizacional, já que o sujeito que demanda uma análise é
aquele mesmo que ingressa nas empresas, à espera de um trabalho que o realize.
Pretende-se, portanto, questionar aqui se seria esse um lugar de vida ou de morte
para o sujeito do desejo.
13
Inúmeras vezes atuando na área de Recursos Humanos, observei que profissionais
de diversos segmentos laborais igualmente se queixavam que ao ingressarem nas
organizações, entusiasmados com o trabalho, após algum tempo entendiam que
aquilo “não era bem o que pensavam” ou, ainda, que naquele espaço “não
conseguiam mudar nada”, ou que “não se sentiam reconhecidos por aquele
trabalho, apesar de todo o empenho” que a ele dispensavam.
Em minha clínica, o discurso de alguns pacientes em depressão era: “não suporto
colocar meu uniforme, pois é como se fosse para a forca”, ou “quando começa
o Fantástico1, percebo que o final de semana acabou e começa o meu mau
humor, pois sei que amanhã voltarei a trabalhar”. Embora caiba analisar caso a
caso, evidencia-se a existência de um mal-estar em tais contextos. Não raro, pois,
questionei-me sobre o que estaria acontecendo na esfera do trabalho para a
emergência desse mal-estar, à medida que o trabalho em si só pode ter uma função
sublimatória.
A ideia do trabalho obrigatório visto como necessidade premente de trabalhar
constitui um imperativo social que produz o mais-de-gozar da coletividade. Assim, o
lugar ocupado pelo sujeito do desejo aponta-nos para a possibilidade de uma não
implicação com sua satisfação pela via do trabalho. Isso porque tal satisfação
manifesta-se como uma obrigação pessoal, imposta pelas necessidades incutidas
pela cultura, isto é, de que não se pode (ou não se deve) desejar, posto que a
sociedade pode considerar inútil a presença do desejo.
Esta pesquisa tem a pretensão de repensar a relação entre o sujeito e o trabalho,
partindo da análise do questionamento de ‘quem é esse sujeito’ – sujeito do desejo
ou sujeito submetido aos imperativos da Cultura? Assim, o lugar ocupado pelo
1
Programa apresentado pela TV Globo aos domingos, à noite.
trabalho na vida do sujeito, além de ser um significante que possibilita a cidadania e
a inclusão social, permite ao sujeito articular-se de três formas com o Outro, a saber:
14
como provedor do seu próprio desejo, como um sujeito que se submete ao desejo
do Outro, ou, ainda, como objeto causa de desejo do Outro.
Na perspectiva psicanalítica, que orienta o meu olhar sobre o sujeito do trabalho, o
sujeito do desejo surge a partir de uma falta, enquanto o sujeito social, desejável
pelo mundo do trabalho, tende a ser aquele que preenche essa falta, ficando na
situação de objeto do desejo do outro. Seria o profissional contemporâneo um
sujeito aprisionado pelo discurso capitalista?
Depressão, embora não seja propriamente um caso psicanalítico, é o diagnóstico
apresentado na Classificação Internacional de Doenças - CID (1992) pela psicologia
e pela psiquiatria, para justificar o afastamento do trabalhador de seu ofício. Para
nós, psicanalistas, depressão é a resposta à modalidade de sofrimento que surge
como uma espécie de contestação produzida por nosso século, sendo considerada
como uma das doenças mais elucidativas do mal-estar no trabalho (2011). As
relações de poder, garantidas a partir da remuneração proveniente do trabalho,
confrontam-se com a potência criativa dos sujeitos do trabalho, a causar na
civilização esse mal-estar preconizado por Freud (1930).
Aqui, através de um levantamento teórico, há de se procurar examinar mais
detalhadamente como as pulsões de vida e de morte interferem no desejo do sujeito
social, de maneira a questionar o que os leva a transitar entre depressão e
libertação.
No mundo capitalista, pergunta-se, o trabalho pode se assentar como necessidade
de sobrevivência para o sujeito social ou, ainda, ele pode se apresentar como fonte
de prazer? Seria possível ‘necessidade’ e ‘prazer’ caminharem concomitantemente?
Como propiciar tal encontro? Referente aos sujeitos, o que deles pode influenciar no
lugar psíquico ocupado pelo trabalho? Qual o papel da sociedade nesse aspecto?
De que mal-estar falamos? Trata-se de questionamentos para os quais tentaremos
oferecer uma argumentação no decorrer deste trabalho.
15
Já não é possível ignorar que as pressões no trabalho, cada vez mais frequentes na
vida de quem labuta, geram angústia e melancolia, agravadas muitas vezes por
inúmeras regras organizacionais que limitam ainda mais o prazer em um lugar onde
genuinamente, para alguns, se produziria uma das mais valiosas dádivas: produto
nosso, criação nossa, por mais mecanizada que ela se apresente.
Na área social, as organizações também se ressentem de profissionais com
potencial criativo, de pessoas que possam se sustentar dessa forma no decorrer da
vida laboral. Ademais, observa-se na maioria dos sujeitos um desinvestimento
gradativo de desejo durante o percurso profissional, embora se encontrem, é
verdade, algumas exceções. 2
Para analisar a forma como o mundo do trabalho se inter-relaciona com o sujeito do
desejo, tentar-se-á compreender o modo como o sujeito se posiciona como sujeito
desejante ou sujeito ‘sujeitado’ às obrigações que o conduzem aos imperativos da
sociedade capitalista, perpetuando as identificações por alienação. A partir da
conexão entre sujeito e trabalho no mundo contemporâneo, caberá repensar o malestar do trabalho no capitalismo, à luz da teoria psicanalítica. Em sendo assim,
poder-se-ia levar ao mundo do trabalho uma reflexão sobre a singularidade do
sujeito do desejo.
De forma mais específica, porém, a presente investigação procurará analisar o
sujeito do desejo segundo os princípios da teoria psicanalítica, problematizando a
relação desejo e trabalho numa perspectiva ético-política.
Para cumprir os objetivos da presente pesquisa, no Capítulo 1, partimos de uma
análise do trabalho no mundo contemporâneo, através de uma pesquisa
2
Entende-se como exceções o trabalho em que o sujeito se descobre em posição participativa, pensante,
criativa, produzindo um encontro dinâmico, o trabalho vivo.
bibliográfica, envolvendo principalmente as obras e os textos de Negri, Sennet,
Bauman, Agamben, Dejours, indo para o pensamento de Freud nos textos “O mal-
16
estar na civilização”, “Psicologia das massas e análise do ego”, “Totem e tabu” e
o “Futuro de uma ilusão”; e também para os textos de Lacan, principalmente nos
Seminários: Livro 5 – “As formações do inconsciente”;
livro 7 – “A ética da
psicanálise”; livro 10 – “A angústia”; livro 11 – “Os 4 conceitos fundamentais da
psicanálise”, dentre outros autores que contribuem com o tema desta pesquisa.
Para entendermos o trabalho na contemporaneidade, partindo da ótica da
psicanálise, iniciaremos tomando como base uma reflexão acerca do sujeito do
desejo no âmbito do próprio trabalho. Entende-se que diagnosticar o seu lugar como
sujeito frente ao desejo é inseri-lo no mal-estar, fomentado pelos interesses da
sociedade capitalista contemporânea.
17
2. O MAL-ESTAR NA PSICANÁLISE
A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como
sou - eu não aceito.
Não aguento ser apenas um
sujeito que abre
portas, que puxa válvulas,
que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da
tarde,
que vai lá fora,
que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem
usando borboletas.
Manoel de Barros
Tentaremos explicar o mal-estar no trabalho à luz do mal-estar na cultura
contemporânea. Pensaremos esse estado de inquietação a partir da psicanálise,
para que se possam entender as formas de padecimento que afetam os sujeitos na
estrutura do mundo atual.
Em 1930, Freud publicou o Mal-estar na civilização, tratando “o antagonismo
irremediável entre as exigências da pulsão e as restrições da civilização” ( pág. 76).
O mal-estar resulta das imposições da civilização sobre as pulsões, levando os
sujeitos a renunciarem ao prazer em função da sobrevivência dessa mesma
civilização. O trabalho ocupa um lugar de elemento cultural, que há de possibilitar o
exercício da cidadania, a permitir a inclusão social e a sensação de pertencimento
ao grupo e à civilização.
18
No cenário psicanalítico, no caminho da colaboração com a cultura, o sujeito precisa
ser repensado pelo desejo, indo ao seu encontro, a fim de sentir entusiasmo com as
suas conquistas na vida. A bem da verdade, a produção em si não determina o lugar
do trabalho em relação ao desejo, contudo podemos nos perguntar sobre a posição
que o trabalho ocupa na economia libidinal do sujeito.
Em realidade, como o trabalho pode ser visto como uma forma de sublimação, ele
se torna uma espécie de atividade que propicia bem-estar e prazer. Entretanto, na
civilização contemporânea, verifica-se cada vez mais a prevalência de um mal-estar
na atividade laboral, mal-estar esse que se alinha, segundo meu olhar, com o malestar na cultura contemporânea. A sublimação foi apresentada por Freud, como uma
das saídas possíveis para a canalização da pulsão sexual, através da utilização da
energia libidinal para a realização de atividades culturais. Ainda ao estudar o malestar na cultura, disse-nos Freud que
outra técnica para afastar o sofrimento reside no emprego dos
deslocamentos de libido, que nosso aparelho mental possibilita e
através dos quais sua função ganha tanta flexibilidade. A tarefa aqui
consiste em reorientar os objetivos instintivos de maneira que eludam
a frustração do mundo externo. Para isso, ele conta com a
assistência da sublimação das pulsões. (pág. 98)
2.1. TRABALHO E CULTURA
Dentre os pilares que sustentam uma sociedade, o trabalho se configura na cultura
como uma atividade que torna possível a coexistência humana, facilitando a vida em
grupo. A sociedade, por sua vez, se sustenta através das benesses produzidas pelo
trabalho de seus sujeitos.
Na nota de rodapé 1, de O Mal-estar na civilização, Freud (1930) tece considerações
acerca do trabalho como forma de sublimação necessária à manutenção da
civilização, assegurando a impossibilidade de,
19
[...] dentro dos limites de um levantamento sucinto, examinar
adequadamente a significação do trabalho para a economia da libido.
Nenhuma outra técnica para a conduta da vida prende o indivíduo
tão firmemente à realidade quanto a ênfase concedida ao trabalho,
pois este, pelo menos, fornece-lhe um lugar seguro numa parte da
realidade, na comunidade humana. (p. 99)
Esse lugar seguro numa parte da realidade, mencionada por Freud, seria para o
sujeito um espaço de reconhecimento, permitindo, ainda, que ele participe e
colabore com a manutenção da sociedade. Nesse momento, Freud inclui o trabalho
numa atividade de sublimação, que como tal gera prazer tanto para o sujeito quanto
para a sociedade. Entretanto, o desprazer, que não deve ser ignorado, coloca-se
como mal-estar, já que existe um sem número de componentes oriundos da libido,
direcionados tanto para o trabalho profissional quanto para os relacionamentos
humanos a ele vinculados, seja pela via do narcisismo, seja pela senda da
agressividade ou do erotismo, visto que seriam essas mesmas algumas das formas
possíveis para a canalização da energia sexual.
Freud (1905) abordou a sublimação na obra Três ensaios sobre a teoria da
sexualidade, em que ele trata da sexualidade infantil. Esse texto impactou o
pensamento de toda uma época, porquanto desvela a importância da sexualidade
em todas as relações humanas. Assim, ao colocar a sublimação como uma das
formas possíveis para a canalização da libido, ele torna pertinente pensar no
trabalho como uma via de investimento para o sujeito, um modo de obtenção de
satisfação. Assim, referindo-se ao trabalho intelectual, declara ele que,
finalmente, é fato inegável que a concentração da atenção numa
esfera intelectual e o esforço intelectual em geral produzem uma
excitação sexual concomitante em muitos jovens, assim como em
adultos. É esta, sem dúvida, a única base justificável para o que em
outros sentidos constitui o hábito questionável de atribuir os
distúrbios nervosos ao “excesso de trabalho” intelectual. (pág. 210)
Em 1915, Freud publicou o texto intitulado A Pulsão e suas Vicissitudes, em que
fundamenta um dos principais conceitos de sua teoria psicanalítica. Nesse texto, ele
define a pulsão como um estímulo que surge do interior do próprio organismo, tal
uma força que imprime um impacto constante na busca da satisfação, conceito
20
esse que se situa “na fronteira entre o somático e o psíquico[...], o representante
psíquico das forças orgânicas[...] o representante psíquico de uma fonte de estímulo
endossomática, constantemente a fluir[...]” ( pág.130). Ainda nesse mesmo ano de
1915, mas em outro artigo, O inconsciente, disse-nos também Freud, que “ uma
pulsão nunca pode se tornar objeto da consciência – só a ideia que o representa
pode” ( pág. 203). Tal ideia, para realizar seu objetivo, é destinada de quatro formas
diferentes: transformação em seu contrário, retorno ao próprio eu, recalque e
sublimação.
Laplanche & Pontalis (1985), no Vocabulário de Psicanálise, definiram a pulsão
como sendo um
processo dinâmico que consiste numa pressão ou força (carga
energética, fator de motricidade) que faz tender o organismo para um
alvo. Segundo Freud, uma pulsão tem a sua fonte numa excitação
corporal (estado de tensão); o seu alvo é suprimir o estado de tensão
que reina na fonte pulsional; é no objeto ou graças a ele que a pulsão
pode atingir o seu alvo. (pág. 506)
Desse modo, o princípio do prazer estaria vinculado ao aumento ou à redução do
estímulo, donde se infere que toda pulsão é dotada de quatro componentes, ou seja:
pressão, finalidade, objeto e fonte.
A pressão exprime a quantidade de força ou a medida da exigência de trabalho que
ela representa, isto é, uma característica motora, ativa. A finalidade, por sua vez,
constitui a própria satisfação, que só acontecerá se ocorrer a eliminação da fonte da
pulsão. Além disso, as pulsões possuem uma finalidade principal que permanece
constante; contudo, inúmeras outras finalidades intermediárias podem surgir, a
proporcionar satisfação parcial.
Já o objeto expressa o elemento em relação ao qual, ou através do qual, ela pode
atingir sua finalidade. Tal objeto, em geral variável e diversificado, permite que a
pulsão se satisfaça, caracterizando-se muitas vezes como sendo uma parte do
21
próprio corpo do sujeito, mesmo que noutras ocasiões, eventualmente, evidencie-se
como algo estranho.
Por último, a fonte, que é caracterizada como o processo somático que ocorre em
um órgão ou em parte do corpo, e cujo estímulo é representado na vida mental por
uma pulsão. Em geral, chega-se à fonte a partir de sua finalidade.
As pulsões, no entender de Freud, (1915 ) deslocam-se prontamente de objetos e
são capazes de realizar funções inúmeras vezes distantes das ações intencionais
que as originaram, por meio de vicissitudes que atuam como uma forma de defesa,
através de reversão ao seu oposto, de retorno em direção ao próprio ‘eu’ do
indivíduo, de repressão e de sublimação. Dessa forma, Freud tratou dos destinos do
representante ideativo da pulsão.
Para a teoria Freudiana, portanto, a pulsão só é conhecida a partir de seus
representantes, caracterizados como ideativo (manifestação mental ou psíquica dos
estímulos endossomáticos), e afetivo (que constitui a parte energética da força
pulsional). A reversão ao seu oposto afeta a finalidade das pulsões e pode ocorrer
de duas maneiras: como reversão do objetivo da pulsão, condizente com a mudança
da atividade para a passividade, ou como reversão de seu conteúdo, que se
transforma, em geral, no oposto ao original.
O retorno em direção ao próprio ‘eu’ tem em sua essência a mudança de objeto,
embora o objetivo mantenha-se constante, convergindo para a transformação de
atividade para passividade do sujeito.
Em contrapartida, o recalque ocorre quando a pulsão encontra resistências que a
tornam inoperante e, não raro, desloca-se e aparece sob a forma de dor; noutras
vezes, porém, surge por sucessões de pensamentos que são associados e ligados a
uma outra direção.
22
Assim sendo, em relação ao tema proposto no presente trabalho, a sublimação
traduz-se como um conceito fundamental. A sublimação é um dos destinos que
compete à pulsão. Para chegar à sublimação, o homem canaliza a pulsão sexual
para outro tipo de produção, direcionando seu desejo para alguma atividade
valorizada socialmente, como, por exemplo, a criação artística ou a investigação
intelectual. No Vocabulário de Psicanálise, Laplanche (1895), citando Freud, referese à sublimação como
o processo que explica as atividades humanas sem qualquer relação
aparente com a sexualidade, mas que encontrariam o seu elemento
propulsor na força da pulsão sexual. Freud descreveu como
atividades de sublimação principalmente a atividade artística e a
investigação intelectual. A pulsão é derivada para um novo alvo
não sexual ou em que visa a objetos socialmente valorizados.
(pág. 638)
Dessa forma, o trabalho proporciona ao sujeito um tipo de satisfação diferente da
satisfação sexual, atribuindo aos objetos produzidos a possibilidade de serem
socialmente valorizados. No entender de Freud (1930),
a atividade profissional constitui fonte de satisfação especial, se for
livremente escolhida, isto é, se, por meio da sublimação, tornar
possível o uso de inclinações existentes, de moções pulsionais
persistentes ou constitucionalmente reforçados. No entanto, como
caminho para a felicidade, o trabalho não é altamente prezado pelos
homens. Não se esforçam em relação a ele como o fazem em
relação a outras possibilidades de satisfação. A grande maioria das
pessoas só trabalha sobre a pressão da necessidade, e essa natural
aversão humana ao trabalho suscita problemas sociais
extremamente difíceis. (pág. 99)
É então que Freud adverte não haver nada de natural na relação com o trabalho,
pois esse tipo de ligação de investimento é uma demanda que vem do Outro, e
como tal constitui uma renúncia pulsional do sujeito. O natural é contraposto aqui às
exigências do processo sublimatório, fonte do mal-estar. A questão é que o sujeito
ganha com esses investimentos que exigem renúncia: um lugar, um reconhecimento
pelos objetos valorizados, produzidos. Ao renunciar, o sujeito sofre. Entretanto, se a
energia sexual for canalizada para o trabalho, a representação do prazer tornar-se-á
23
também de suma importância para seus atores. Repensar o lugar do trabalho é,
pois, repensar o lugar da produção dos sujeitos como objeto e fonte possível para o
desejo, isto é, como lugar de satisfação e insatisfação, pois o desejo não pode se
esgotar.
Contudo, o ideal, no sentido de nossa mais alta aspiração, é inatingível, já que para
preservar o grupo social, os interesses sociais precisam ser priorizados frente aos
individuais, fazendo com que o desejo do grupo prevaleça sobre o desejo do sujeito.
Em Psicologia das Massas e Análise do Ego, Freud (1921) sustentou que o homem
da cultura tende a viver em sociedade e que isso implica renúncia pulsional.
Paradoxalmente, essa tendência foi analisada por ele como motivo gerador do malestar.
Todavia, não se pode esquecer de que o descentramento do sujeito da modernidade
dá lugar ao desejo que o anuncia, que o ultrapassa e que o transcende, pois que ele
se submete ao Outro. Se a realização do desejo se torna inalcançável porque o
objeto lhe escapa, isso há de incitar o sujeito a desejar, a criar e a recomeçar ou
ainda a ir se acovardando tal qual a neurose nos demonstra, como diz Freud, o
tédio, o marasmo. Assim sendo, é o desejo a marca psicanalítica por excelência da
modernidade, a sinalizar a incompletude e a produzir a falta, fonte primeira da
produção de mal-estar psíquico.
Lacan retoma Freud para tratar do objeto ‘a’, objeto radicalmente perdido, a partir da
ideia freudiana de bissexualidade constitucional orgânica, mas sim da falta estrutural
de inscrição do objeto do desejo no inconsciente. Tal objeto, a-sexual, Freud
relacionou como fantasia ligada à bissexualidade, que vai revelar nada mais nada
menos que a incompletude do sujeito.
24
Sabe-se que a cultura envolve hábitos, costumes, crenças e valores de uma
sociedade composta por sujeitos que, segundo a psicanálise, são movidos pelo
inconsciente. O conceito de inconsciente freudiano (1915) se estrutura a partir do
reconhecimento de que existem processos mentais inconscientes. O inconsciente,
do ponto de vista topográfico,
abrange, por um lado, atos que são meramente latentes,
temporariamente inconscientes, mas que em nenhum outro
aspecto diferem dos atos conscientes, e, por um outro lado, abrange
processos tais como os recalcados, que, caso se tornassem
conscientes, estariam propensos a sobressair num contraste mais
grosseiro com o restante dos processos conscientes. ( pág. 198)
A civilização intervém na subjetividade, estabelecendo princípios, tendências,
ditando normas e leis que orientam condutas, conceitos e ideias. Em texto publicado
em 1930, no período de pós-guerra, Freud nos remeteu a essa sensação
desagradável de insatisfação, a que ele chamou de Mal-estar na civilização,
ressaltando que os interesses individuais vão de encontro às aspirações da
sociedade como um todo, ou seja, às aspirações da civilização.
Os homens, segundo Freud (1930), têm como propósito de vida a homeostase, daí
procurarem evitar o desprazer e o sofrimento, na perspectiva de alcançarem
intensos sentimentos de prazer. Assim, em O Mal-estar na Civilização, ele afirma
que
o que decide o propósito da vida é simplesmente o programa do
princípio do prazer. [...]
Não há possibilidade alguma de ele ser executado; todas as normas
do universo são-lhe contrárias. Ficamos inclinados a dizer que a
intenção de que o homem seja “feliz” não se acha incluída no plano
da “criação”. O que chamamos de felicidade no sentido mais restrito
provém da satisfação (de preferência, repentina) de necessidades
represadas em alto grau, sendo, por sua natureza, possível apenas
como uma manifestação episódica. (pág. 96)
Esse mal-estar preconizado por Freud explica o sofrimento advindo do nosso próprio
corpo que, por ser perecível, traz em seu caminhar a decadência e a dissolução,
25
emitindo o sofrimento e a angústia como alertas de que as coisas não estão como
deveriam estar, ou seja, de que algo não vai bem. Assim sendo, vale a pena lembrar
que aquele que estabeleceu os princípios da Psicanálise iniciou sua investigação
nos sintomas conversivos de sujeitos histéricos, de sujeitos que sinalizavam esse
mesmo estado de inquietação mal definido, a que se chama mal-estar.
Por certo que, não raro, o mal-estar decorre do mundo externo, do qual fazemos
parte, e no qual sofremos mudanças tanto sociais quanto ambientais. Aliás, é essa
mesma relação social que torna possível nossa atuação no entorno, ora
transformando e ora recriando a cultura.
Ao viver em sociedade o homem reconstrói a mesma cultura que o construiu, à
medida que, sendo expressa pelo outro, ela torna-se passível de ser entendida e, a
um tempo, de poder significar, de maneira a elaborar seu papel social num exercício
de cidadania que se estabelece através de sua produção. Conforme nos ensina
Freud (1930),
somos constituídos pelo olhar do outro que capturamos pela via do
dito do outro, perpassado pela linguagem, que forma a cultura e
constitui a sociedade. Contudo, a felicidade a qual os seres humanos
pretendem alcançar, precisa ser abdicada em função dos objetivos
de uma coletividade, tornando o trabalho de todos necessário ao
bem do grupo social. Vemos, então, que para que uma sociedade
aconteça, ela precisa ser construída e preservada, sendo os
objetivos do grupo colocados acima dos interesses individuais. (pág.
96)
Lidar com a natureza pressupõe posição ativa, porquanto cabe ao homem sujeitá-la
à sua vontade, posto que todos trabalham em sociedade – ou, pelo menos,
deveriam fazê-lo – para o bem de todos, criando laços sócioculturais. Freud nos
apontava então na direção do trabalho para a sobrevivência da coletividade.
Daí dizer-se que o sujeito social é por si só um sujeito ético, conforme argumenta
Freud ao reportar-se à leitura de Psicologia de Grupo e a Análise do Eu, de Gustave
Le Bon (1921), quando observava como se constituem as massas. Em sociedade,
26
porém, os cidadãos tendem a superar os princípios éticos face aos princípios
daqueles que os compõem, tornando as coletividades capazes de apresentar um
alto grau de desprendimento e devoção.
Na verdade, o amor por si mesmo só conhece uma barreira: o amor pelos outros, o
amor por objetos – já preconizara Freud (1921) como condição para a vida em
comum, de modo a produzir o enlace que possibilita ao sujeito substituir o
individualismo pelo altruísmo. A propósito, ele ainda ressalta:
Levantar-se-á imediatamente a questão de saber se a comunidade
de interesse em si própria, sem qualquer adição de libido, não deve
necessariamente conduzir à tolerância das outras pessoas e à
consideração para com elas. Essa objeção pode ser enfrentada pela
resposta de que, não obstante, nenhuma limitação duradoura do
narcisismo é efetuada dessa maneira, visto que essa tolerância não
persiste por mais tempo do que o lucro imediato obtido pela
colaboração de outras pessoas. (pág.129)
O trabalho produz laços, inclui, adapta e colabora com a civilização, de forma que o
altruísmo se transforme numa condição para a convivência em grupo e preservação
da espécie. Ainda sobre o mal-estar, diz Freud (1921):
[...] a experiência demonstrou que, nos casos de colaboração, se
formam regularmente traços libidinais entre os companheiros de
trabalho, laços que prolongam e solidificam a relação entre eles até
um ponto além do que é simplesmente lucrativo. (pág.130)
Seria então o trabalho por si só um investimento libidinal, sublimado pelos sujeitos e
direcionado para a sociedade em prol do bem-comum? Nas relações sociais dos
homens, a libido busca a satisfação das grandes necessidades vitais, ligando-se aos
primeiros objetos de amor, podendo, contudo, estender-se para a humanidade,
inclusive pelos laços de trabalho, a propiciar o exercício da cidadania. Ao abordar o
assunto, Freud (1921) esclarece que
no desenvolvimento da humanidade como um todo, do mesmo modo
que nos indivíduos, só o amor atua como fator civilizador, no sentido
de ocasionar a modificação do egoísmo em altruísmo.
27
E isso é verdade tanto no amor sexual pelas mulheres, com todas as
obrigações que envolve de não causar dano às coisas que são caras
às mulheres, quanto do amor homossexual, dessexualizado e
sublimado por outros homens, que se origina do trabalho em comum.
(pág.130)
No meio cultural, o homem canaliza a energia libidinal por meio da sublimação, com
vistas à construção de algo necessário à vida em comum, ou seja, na perspectiva de
um ato de amor e de uma conduta altruística.
Assim, na proposição psicanalítica, ao colocar sua produção à mercê da civilização,
o homem, perpassado pela castração, promulga para além disso a ação de cada um
na cultura, visto que o sujeito castrado vive a falta, tentando preenchê-la, desejando
agir, partindo para a ação.
Na obra Os Outros em Lacan, Antonio Quinet (2011) propõe-nos analisar a
bipolaridade do “eu” através do espelhamento narcísico, construído a partir do Outro,
pois “assim, o outro, como semelhante, é o objeto do amor narcísico: eu me amo no
outro (que é o meu reflexo).” (pág.16)
Há de se lembrar de que o inconsciente, pedra fundamental da Psicanálise, é
constituído pelo discurso do Outro e instituído e marcado pela linguagem. Portanto,
o Outro nos marca, com a linguagem, codificando-nos e oferecendo um tesouro de
significantes, inscrevendo-nos numa linhagem, numa história, em que cabem o
desejo e seus ideais. E essa cadeia de significantes é formada pela cultura que
mantém a partir do Outro, como lugar dos significantes do sujeito na formação do
inconsciente. O desejo, como veremos, advém do “furo” do Outro, que instaura a
falta que o sujeito tenta preencher com inúmeros significantes, dentre os quais, o
trabalho.
Desse modo, o trabalho como laço social alimenta a cultura que é transmitida a cada
geração. Daí Quinet (2012) declarar que
28
a predeterminação do laço social é estabelecida e transmitida de
geração em geração aos agentes e seus outros, garantindo a
manutenção dos laços em uma sociedade, pois o homem é um ser
social que não prescinde do outro e cria regras e condutas de
convivência com finalidades específicas. Nossa realidade social é
enquadrada pelos laços sociais que Lacan chama de aparelhos de
gozo, uma vez que esses vínculos promovem um esvaziamento de
gozo ao estabelecer maneiras conviviais de relação com o outro.
Sem esse enquadramento, que é cultural e, portanto, simbólico, a
inclinação do homem é tratar o outro como seu objeto de gozo e nele
saciar suas pulsões eróticas e de morte. (pág. 47)
Se o capitalismo, por sua vez, baseia-se na manutenção do desejo insatisfeito, a fim
de que o sujeito possa produzir incessantemente, a garantir o lucro através do
consumo constante, como seria possível coexistir satisfação e trabalho?
Antes de darmos conta dessa questão, torna-se necessário investigar quem é o
sujeito desejante para a psicanálise? Afinal, a própria psicanálise funda o
inconsciente, pensando o sujeito como sujeito movido pelo próprio inconsciente,
posto constituir representações de algo que falta, só podendo, portanto, ser
representado por uma linguagem que nos remete ao desejo.
2.2. O SUJEITO DO DESEJO
Para designar o desejo, Freud utilizou o termo “Wunsch” ( 1895), que representa o
desejo inconsciente recalcado, irrealizável, que se concretiza através dos sonhos ou
da imagem fantasística, cuja experiência de prazer ou desprazer foi inscrita no
aparelho psíquico, através dos próprios traços mnêmicos.
Por outro lado, seguindo as indicações oferecidas por Lacan, que se baseou em
Hegel, o desejo deve ser pensado como desejo do Outro. Refletindo o
reconhecimento a partir de Hegel, pode-se dizer que ele se dá a partir de um outro
que serve de suporte ao desejo, negando-o como consciência. Daí entender-se que
29
o sujeito quer se fazer reconhecer pelo outro na palavra que lhe é dirigida. E, em um
segundo momento, o desejo não mais será simplesmente do ‘outro’, porém, será do
‘Outro significante’, por isso ele só poderá ser interpretado e/ou nomeado.
Em A Descoberta do Inconsciente, Quinet (2012), propôs que o ‘cogito’ freudiano é,
antes de tudo, ‘desidero ergo sum’, uma vez que lá onde se encontra o desejo está o
sujeito como efeito da associação das representações. ‘Desejo, logo existo’. Desejo
é o nome do sujeito de nossa era: a era freudiana. (pág.13).
Na relação com o Outro, perpassada pela palavra, somos significados e é dessa
forma que a cultura se sustenta, impregnando-nos de valores, de hábitos e de
costumes da época, de acordo com os grupos sociais que influenciam esses
‘Outro’s’ que habitam nossas vidas. Como se vê, não é difícil entender que é através
do espelhamento narcísico que o outro se constrói.
Como se sabe, em A Interpretação dos Sonhos, Freud (1900) descreveu as leis do
inconsciente. Nesse momento, concluiu ele que nos sonhos, além de encontrar
chistes, atos falhos e esquecimento, há também a possibilidade de acesso ao
inconsciente, através de sua interpretação. Com isso, ele demonstrou que o
inconsciente possui uma forma de estruturação diferente, que reporta o sujeito a
algo que não pode ser revivido, podendo somente ser impresso como algo que se
lhe escapasse, como algo deslocado, o que influencia as pessoas em sua vida
diária, fazendo-as adoecer.
Da mesma forma, no texto “A instância da Letra no inconsciente ou a razão desde
Freud”, que se encontra em sua obra O Seminário: livro 5, Jacques Lacan (1958)
estuda as formações do inconsciente para entender como ele se estrutura,
depreendendo que
[...]não existe objeto a não ser metonímico, sendo o objeto do desejo
objeto do desejo do Outro, e sendo o desejo sempre um desejo de
Outra coisa – muito precisamente, daquilo que falta, a, o objeto
perdido primordialmente, à medida que Freud mostra-o sempre, por
ser reencontrado. (pág.16).
30
Sabe-se que o inconsciente é um fato, isto é, não precisa de nada mais além do
discurso para se estabelecer. Lacan se refere ao discurso, como a realidade social
da comunicação, que ocorre na tentativa de uma inter-relação com o Outro.
Entretanto, a linguagem trata das fantasias inconscientes, elucidadas através da
relação analítica, que estabelecem um saber, um conhecimento da
realidade
subjetiva do analisante, em função das desarticulações dos significantes, que
indicavam relações simbólicas, isto é, posições sexuadas e sociais, para além
do prazer. Logo, percebe-se que, em conformidade ao pensamento lacaniano, a
sexualidade humana é comandada pela linguagem. Na verdade, trata-se de um fato
de discurso, daí ter de existir primeiro na linguagem. Aliás, qualquer coisa só existe
por estar no discurso, porquanto é a linguagem que faz o inconsciente existir.
Logo, “sou” onde não “me” penso, mas “me” falo, “me” significo. Assim, os inúmeros
significantes que se nos oferecem produzem a cadeia de significantes que é
formada pela cultura – cultura essa que a mantém a partir do Outro, como lugar dos
significantes do sujeito na formação do inconsciente.
Em suas reflexões sobre Édipo, Freud (1905) nos apontou, nos “Três Ensaios sobre
a Teoria da Sexualidade”, a falta original, a falha estruturante da castração que, pelo
viés de um vazio, provoca-nos o desejo de preenchimento que se traduz em busca
incessantemente de algo que jamais dará conta de nos completar. Eis, pois, a ideia
de objeto perdido, o denominado das Ding, a Coisa. Segundo Marco Antonio
Coutinho Jorge, em Fundamentos da Psicanálise: de Freud a Lacan, “das Ding é o
que se revela como absolutamente prevalente na estrutura, pois das Ding implica a
representificação na estrutura do real sem nome originário e sem imagem.” ( pág.
140). Trata-se do termo freudiano que designa o indizível da ação humana, mas que
se relaciona com a palavra, sendo por ela representado.
Assim, quando examinou a essência do desejo e a natureza de seu processo, Freud
destacou que a pulsão se expressa no aparelho psíquico sob a forma de seus
representantes, pois é a partir da primeira experiência de satisfação, que surge de
31
uma necessidade, que o sujeito buscará retorná-la, ao perceber seus traços
mnêmicos. O objeto com que o sujeito procura satisfazer as necessidades dessa
primeira experiência de satisfação é caracterizado como objeto pulsional, entendido
aqui como objeto do desejo, o objeto a, o objeto causa do desejo, o objeto perdido,
enfim. Lacan define esse objeto como eternamente faltante, que, por conseguinte,
há de marcar a presença de um furo, um vazio em que caberá qualquer outro objeto,
desde que contornado pela pulsão, circundando-a, buscando satisfazê-la, mesmo
que não atinja seu alvo. Ele enfatiza que o primeiro objeto de satisfação perdido
jamais será reencontrado, mas que o sujeito buscará incessantemente substituí-lo
por Outra coisa. Esse objeto perdido, a que Lacan denominou objeto ‘a’, é marcado
pela repetição de um encontro faltoso com o real.
Oportunamente, Colette Soler (2012), ao escrever O inconsciente – Que é isso?,
assinalou que:
O inconsciente trabalhador, Arbeiter, em alemão, produtor das
formações do inconsciente, do sonho ao sintoma, tem por
empreendedor, segundo ele, um desejo que se vai realizando nessas
formações, isto é, que está em posição de causa do falar do
inconsciente.
Disse na última vez que, para Freud, o inconsciente diz a verdade, e
acrescento que para ele a verdade é a verdade do desejo. O
inconsciente, isso fala e, falando, transporta o desejo. Deveria dizer
um desejo. (pág. 55).
Sob essa perspectiva, é possível afirmar que o desejo é correlativo à falta, sendo
único, específico; além do mais, ele nos identifica como sujeitos, isto é, como aquele
ao qual nos sujeitamos, sendo possível apenas dizer algo a respeito dele,
enunciando-o através de uma demanda ao Outro.
O desejo, vale lembrar, estrutura-se sempre e fundamentalmente como “desejo do
desejo do Outro”. E a corroborar essa afirmação, Joel Dör (1989) observa que “a
divisão do Sujeito implica, na perspectiva lacaniana, ter de se definir uma parte de
nossa subjetividade como sujeito do inconsciente, como sujeito do desejo.” (pág.
114)
32
Sabe-se que os sujeitos divididos e alienados do seu próprio desejo vivem em
comunidade, escrevendo e se inscrevendo na cultura de uma civilização. A
civilização incide sobre o desejo, deixa suas marcas, seus imperativos, suas
exigências. O sujeito contemporâneo manifesta-se de diferentes formas, adoecendo
uns aos outros, potencializando suas estruturas clínicas, criando instituições cada
vez mais adoecidas e adoecedoras, como veremos adiante, ao pensar o lugar
desses sujeitos no trabalho, e o lugar do trabalho para os sujeitos.
Em O Seminário: livro 2, ao abordar o ‘eu’ na teoria de Freud e na técnica
psicanalítica, Lacan (1985) estabeleceu que “para falar do desejo, uma noção se
impôs em primeiro plano: a libido.” (pág. 279).
O ser parte do desejo, diz-nos Freud, considerando que o desejo sexual encontra-se
no âmago mesmo do desejo do ser humano, pois ele se constitui sob a relação de
‘ser com falta’. A falta primordial, constituinte do sujeito, é que estabelece a
possibilidade de existência, pois o desejo que aí surge não pode ser nomeado,
posto que toda e qualquer conceitualização parte desse mesmo desejo. O
inominável causa angústia, ensina Freud, fazendo com que, para suportá-la,
coloquemos, por exemplo, algo em seu lugar: um objeto.
Portanto, desejo é falta que não pode ser preenchida. E essa falta, embora
constituinte, não o obstrui, pois ele é, por natureza, insatisfeito. Desejo vincula-se a
pensamento, o que leva Lacan (1963) a pensar o desejo entre significantes, entre
representações.
Em O Seminário: Livro 10, em que Lacan (1963) freudianamente esclarece que a lei
faculta o desejo, ele próprio afirma que:
O desejo, portanto, é a lei.
Isso não é verdade apenas na doutrina analítica, onde constitui o
corpo central do edifício. É claro que o que constitui a substância da
lei é o desejo pela mãe, e que, inversamente, o que normatiza o
próprio desejo, o que o situa como desejo, é a chamada lei da
proibição do incesto.
33
[...] Sabe-se que sua manifestação edipiana, se não sadiana, é a
mais exemplar. O desejo se apresenta como vontade de gozo, não
importa por que vertente apareça, tanto pela vertente sadiana – eu
não disse “sádica” – quanto pelo lado do que chamamos de
masoquismo.
Mesmo na perversão, na qual o desejo se dá como aquilo que serve
de lei, ou seja, como uma subversão da lei, ele é, efetivamente,
suporte de uma lei. (pág.166)
Ora, como é de conhecimento geral, um dos destinos possíveis para a pulsão seria
a sublimação, posto que assim ela escaparia do recalque. O trabalho, definido por
Freud como atividade sublimatória, constituiria, pois, um circuito possível para
contornar o desejo, já que a pulsão encontra a satisfação sem recalcamento, por
mudança de objeto e de alvo sexual, na sublimação.
Freud, por sua vez, já ressaltava a arte, a literatura, a atividade intelectual ou
científica, como formas de sublimação da energia libidinal, e comparava, no plano
psíquico, o tipo de satisfação obtida com tais práticas àquela obtida no exercício da
sexualidade, mesmo que em menor intensidade.
Na cultura contemporânea pode-se encontrar o mal-estar no trabalho, justamente
porque muitas vezes o trabalho não permite que o sujeito ocupe um lugar de sujeito
do desejo. O mal-estar faz parte de qualquer cultura, embora para cada sujeito caiba
um significante, dependendo de como ele se posiciona frente aos apelos sociais,
com relação ao seu próprio desejo.
Apesar de a cultura necessitar que seus membros se sujeitem ao trabalho, tendo
como objetivo sua própria preservação, é possível ressignificar esse lugar, pois
através dele o desejo pode ser canalizado, possibilitando satisfação e prazer, e,
simultaneamente,
sofrimento
e
desprazer.
Desafios,
novas
oportunidades,
investimentos e demais questões inerentes ao mundo do trabalho precisam estar
inseridas na cultura, já que, embora não consigam dar conta do mal-estar, tendem a
reduzi-lo, pois permitem o deslizamento do desejo, reeditando o trabalho como fonte
de bem-estar, colocando o trabalho no lugar de objeto causa de desejo. Nesse caso,
o sujeito consegue se manter desejante, consegue conservar-se buscando
34
continuamente sua própria satisfação, independente das necessidades da empresa
ou da sociedade em que vive.
Assim sendo, o mal-estar no trabalho surge quando o sujeito desejante se anula em
função de um mais-de-gozar social, que o demanda a abrir mão de seu desejo em
função da exigência social capitalista de produção e eficácia. É sabido que todo
neurótico tem problema com o desejo: na histeria, desejo insatisfeito e na neurose
obsessiva, desejo impossível, ou seja: desinteressar-se pelo desejo é uma
estratégia neurótica, defensiva.
O fato é que o homem se sujeita ao desejo do Outro, seja esse outro a empresa,
seja o trabalho ou mesmo a sociedade.
Considerando-se a castração como o ponto comum da interseção entre a norma do
desejo e a da lei, entende-se que para lidar com o interdito, a sociedade estimula no
homem o poder dado pelo capital, onde, no mundo contemporâneo, a leitura é feita
pela cartilha da eficácia e da produtividade. Logo, pode-se consumir tudo o que se
produz. Os efeitos contemporâneos abrem caminhos para as compulsões, para a
‘medicalização’, para a ‘drogadição’ e para a violência desenfreada, como formas de
encaminhamento para que a humanidade canalize sua angústia.
No mundo capitalista, o objeto socialmente fomentado são os objetos a consumir, e
é ele que justifica a produção, pois para que haja produção, é preciso antes existir a
necessidade dela, de maneira a justificar o consumo. O objeto do desejo na cultura
contemporânea esvazia-se e repõe-se sistematicamente, descartando de forma
insustentável a permanência de qualquer desejo que subverta esse status. O
trabalho encontra-se inserido na cultura, a fomentar mais ainda a busca pela
satisfação do desejo, como ferramenta que pretende tamponar a falta essencial,
tornando-se, portanto, o motivo capitalista para escravizá-lo. Entretanto, se aquilo
que falta é inominável, é indizível, é insubstituível, porquanto essencial, o trabalho
por si só não será suficiente para encobrir essa falta, por apontar em algum
35
momento na direção de seu significante, assim como na direção de um ser sujeitado
a sua cultura.
O retorno ao mal-estar, portanto, é sustentado pela cultura contemporânea, que o
legitima por meio de hábitos e costumes da sociedade capitalista, sociedade essa
que produz seres capazes de sublimar o próprio desejo, ao mesmo tempo em que o
diluem incessantemente e se alienam em relação a ele. Desamparo e alienação
constituem, pois, os slogans/clichês atuais que justificam o anonimato da produção
capitalista. O trabalho do artesão ‘era’ de sua apropriação, possuía sua assinatura;
porém, no sistema capitalista, o mais das vezes isso não ocorre, cabendo esse
privilégio apenas a alguns – àqueles que se dedicam às atividades que requerem
considerável utilização do intelecto, quero dizer, os artistas e os próprios intelectuais.
Assim, pergunta-se, qual a relação do trabalho na sociedade capitalista como o
mais-de-gozar prenunciado por Lacan? Talvez, a seguir, a noção de gozo em Lacan
possa nos ajudar a responder. Observa-se, ademais, que Lacan construiu a teoria
dos discursos como resposta ao mal-estar na civilização, abordado por Freud em
1930.
2.3. O MAIS-DE-GOZAR
Freud utilizava a palavra ‘gozo’ para definir o excesso de prazer, cujo preceito
regulador de funcionamento do aparelho psíquico era o princípio do prazer e o
princípio de realidade. A existência de Das Ding, a Coisa, permitiu a Lacan, nos
anos 60, desenvolver o conceito de ‘objeto a’, conceituado pelo desejo como aquele
que o motiva, que o provoca, marcando a subjetividade do sujeito que se estrutura
através da linguagem.
36
Para Lacan, (1982) o gozo é delineado pelo discurso, entretanto, ele é indizível, ele
é inefável, posto que o significante que o desperta produzirá diferentes modalidades
de gozo no sujeito. O discurso a que se refere Lacan equivale à fala, somatório entre
enunciado e enunciação.
O ‘objeto a’ é abordado pelo campo do gozo, em sua diferença em relação ao
campo do significante, nesse momento em que Lacan sustenta o mais-de-gozar a
partir do conceito de mais-valia, formulado por Marx. Para Lacan, a mais-valia
marxista pode ser articulada como um ‘resto’, como algo impossível de simbolizar
algo, uma espécie de um ‘gozo’ a mais, não passível de entrar na significação do
gozo fálico. Para o trabalhador, cuja atividade só é remunerada por meio de salário,
a mais-valia acarreta a falta de percepção daquilo que ultrapassa o limite do lucro,
visto que ela não é concedida, mas, sim, simbolizada, já que ultrapassa a concepção
do lucro retido pelo capitalista. Mesmo porque, no sistema capitalista, não é possível
ao sujeito estabelecer a valia de seu labor, já que ele é intangível, restando-lhe
apenas a sensação de que está sendo subtraído de algo que lhe pertence de direito,
sem, contudo, poder atribuir um valor a esse algo.
Dentre as formas de gozo elencadas por Lacan (1982), encontram-se o gozo do
Outro, o gozo fálico, o mais-gozar e o gozo propriamente feminino. O gozo do Outro
refere-se ao corpo próprio, trata-se do gozo originário, apresentado como mítico, que
está na Coisa (Das Ding). Representa o pai da horda, do mito freudiano narrado em
Totem e Tabu. O gozo fálico, por sua vez, está relacionado com a linguagem, como
resultado de sua codificação por intermédio do significante e assumindo a sua
significação fálica no Édipo. Já o mais-gozar tem sua origem no objeto pequeno ‘a’,
que comporta um resto de gozo, que escapa ao processo de significância, embora
produzido por ele. A verdade é que o gozo extravasa, transborda, escapa, obrigando
o sujeito a enchê-lo, sem jamais conseguir completá-lo.
O gozo propriamente feminino, que se encontra mais além do falo, é suplementar,
enigmático, por nunca ter sido apresentado na linguagem. Daí não se saber se o
37
homem fala porque seu gozo está em falta, ou se é porque ele fala que seu gozo
está em falta, portanto, o gozo é o real do ser, advindo da relação conturbada do
sujeito com o seu próprio corpo.
Lacan comunga com Marx a ideia de singularidade da produção dos sujeitos da
ordem de um desejo velado no capitalismo. Ele aborda o campo do gozo, como
operatório e conceitual, que se utiliza dos aparelhos da linguagem para tratar do
gozo nos laços sociais, através dos discursos que se elucidam na realidade.3
A propósito, ainda em relação ao gozo, Patrick Valas (2001) lembra que Freud
também enfatizava ser o desejo regulado pelo princípio do prazer e pelo princípio de
realidade, considerando que “a realização de um desejo inconsciente respondia a
outras exigências, e funcionava segundo outras leis diferentes das satisfações das
necessidades vitais. Assim, ele pode afirmar que a realização do desejo tende,
antes, para uma desrealização.” (pág. 19)
2.4. O SUJEITO DO DESEJO DO TRABALHO NA CULTURA
CONTEMPORÂNEA
Freud (1930) entende que o sofrimento humano tem como uma de suas causas o
relacionamento com os outros, portanto, o mal-estar na civilização é pautado no malestar dos laços sociais.
O que determina o mal-estar do homem para a psicanálise é a cisão de um ser
sempre dividido e angustiado por um conflito interno não resolvido, que se encontra
constantemente em dúvida entre o que ele quer e aquilo que ele pode, entre o que
deseja e o que deve desejar. Tal mal-estar se repercute no trabalho, evidenciado
sob a forma de sofrimento e adoecimento físico e mental.
3
A questão do aparelho de linguagem leva Lacan aos discursos pois a teoria dos discursos é uma questão de
conceituar, isto é, aparelhar o gozo do outro, não mais do dito, mas do dizer.
38
Ora, não resta dúvida de que o mal-estar constitui a marca do sujeito do
inconsciente, cunhado por um desejo para sempre insatisfeito, que tem no gozo sua
maneira de mal estar na civilização. É esse sujeito que perpassa a cultura, pela qual
ele se constitui através do dito do Outro, perpetuando-a ao desejar e ao se fazer
reconhecer para um Outro, através do convívio social.
Em artigo intitulado “O discurso do capitalista e o mal-estar na cultura”, em que
tratou de capitalismo e mal-estar, Sônia Alberti (2000) assim questionou o sujeito
frente ao mal-estar:
O que vem a ser esse "social" ao qual se deveria dar importância?
Como articulá-lo na teoria, senão pela noção freudiana de que o ‘eu’
é sempre outra coisa, o ‘eu’ é o ‘outro’, o ‘eu’ é dividido, ou, como o
introduz Lacan, que o sujeito mantém, em relação ao Outro uma
posição de alienação e de separação e onde o social tanto faz parte
da realidade psíquica do sujeito quanto qualquer outra representação
mais ou menos investida. (pág. 3)
Por certo que não é de estranhar que o trabalho seja um dos lugares possíveis para
o ser humano transformar a cultura, fomentando-a. Mesmo porque, o desejo tem,
nesse espaço, a possibilidade de sublimação, deslocando-se para a produção de
subjetividades que visam à manutenção da civilização, em um contexto social
contemporâneo ditado pelo capital.
O capitalismo dos tempos atuais preconiza a produtividade e a eficácia como pilares
que sustentam a sublimação do desejo dos sujeitos. Contudo, os sujeitos se
subjugam
ao
mal-estar,
por
estarem
eminentemente
insatisfeitos;
consequentemente, esses sujeitos necessitam ser reconhecidos por aqueles Outros
que insistem em não os reconhecer, sustentando, ademais, a incompletude deles
próprios (dos sujeitos) para que se refaçam e possam desencadear um processo
ininterrupto de produção/consumo, do qual a sociedade necessita para sua
subsistência e evolução.
39
Compete-nos, então, pensar sobre a possibilidade de sustentar o desejo nesse
complexo mal-estar social em que estamos inseridos, produzindo com ele de
maneira suportável.
Não raro, a libido que excede necessita ser canalizada, na perspectiva de sua ação
se tornar mais abundante. Em contrapartida, o excesso de trabalho – ainda que
afete as relações sociais, mesmo que seja um dos fatores causadores de estresse –
será sempre mais interessante para as organizações, por quase sempre originar
lucro, que é a premissa fundamental para os assuntos de interesse empresarial e
financeiro.
É possível divisar, no momento presente, neste início de século, que o sistema
capitalista está passando por uma alteração de processo, a reclamar um novo
espaço para o trabalho, embora sempre em prol do alcance de seus interesses.
Na atualidade, o trabalho se define como uma atividade útil, coordenada, realizada
por indivíduos de ambos os sexos, para enfrentar aquilo que, em uma tarefa
utilitária, não pode ser obtido pela execução estrita da organização prescrita. Agora,
esse fazer passa pela subjetividade do trabalhador que, numa dimensão humana,
ajusta o real, rearranja-o, imagina, inventa e sempre acrescenta algo mais. Nesse
sentido, Christophe Dejours (2011) desenvolve uma reflexão a respeito da noção de
atividade subjetivante, em um trabalho a que denominou “Fator Humano”. Diz ele
que
a noção de atividade subjetivante é devida aos pesquisadores em
ciências sociais, que se interessam especificamente pela atividade
operária, não somente nos setores clássicos da produção, mas
também nas “novas tecnologias”, na condução de processos e na
utilização de máquinas de comando numérico. (pág. 43)
Considerado por muitos como o único sistema vigente e dominante no mundo atual,
o Capitalismo aparece hoje encoberto por uma nova face. Desse modo, ao reler o
sujeito contemporâneo, é preciso situá-lo frente ao grupo ao qual se insere. Aquele
capitalismo de outrora, que se baseava na produção mecânica, sequencial e
40
repetitiva do trabalho, como forma de obtenção de lucro, cedeu lugar a um outro.
Agora, ele se propõe, através da produção, a oferecer novos benefícios a seus
obreiros, antecedendo algumas vezes às ações de sindicatos e até mesmo a
determinações governamentais, numa tentativa, talvez inconsciente ainda, de dar
início a uma mudança em toda a forma de existir do homem atual. Afinal, sustentar o
passado é perseverar em um mundo de dolorosa ilusão.
41
3. O MAL-ESTAR DA CONTEMPORANEIDADE NO TRABALHO
Pensamos demasiadamente
Sentimos muito pouco
Necessitamos mais de humildade
Que de máquinas.
Mais de bondade e ternura
Que de inteligência.
Sem isso,
A vida se tornará violenta e
Tudo se perderá.
Charles Chaplin
A vida em sociedade tem sido o grande desafio da humanidade que cada vez mais
enfrenta questões individuais relativas à busca da felicidade. Atualmente, o sistema
capitalista é considerado por muitos como a única estrutura vigente e dominante no
mundo, apesar de parecer apresentar-se-nos com uma nova face.
Ao fazer uma releitura do sujeito contemporâneo, é preciso situá-lo frente à cultura e
aos discursos ao qual se insere no seio mesmo do sistema socioeconômico vigente.
Por certo que se vislumbra algo de novo em relação àquele capitalismo que outrora
se baseava na produção mecânica, na geração sucessiva e repetitiva do trabalho
como meio de obtenção de vantagens. Agora, aquela estrutura parece se dispor a
alterar a feição apresentada até então, através da produção, de maneira a
reorganizar toda a forma de existir do homem atual, quiçá numa perspectiva, ainda
que involuntária, de oferecer recursos necessários ao bem-estar geral.
Há muito que se entrevê um processo de mudança no organismo socioeconômico
como um todo, a requerer um novo espaço para o trabalho, sem perder de vista, é
42
claro, seus interesses, isto é, os lucros e as vantagens. Para entender o que afeta os
sujeitos e essa nova forma de interação,
faz-se necessário realizar uma
retrospectiva de tal mecanicismo, marco dessa transformação que é por nós
vivenciada tanto no seio da clínica como no bojo das empresas.
3.1. O CAPITALISMO MECANICISTA
No fim do século XVIII, com o advento da indústria e o término do feudalismo,
camponeses e artesãos passaram por um processo de transformação em que o
tempo empregado para a produção e os locais onde o trabalho era realizado não
mais pertenciam à natureza propriamente dita, mas, sim, às empresas e às
máquinas, às quais deveriam se subordinar, a fim de conseguirem operar tal
engrenagem.
O surgimento da indústria pautada na geração de capital e no lucro como finalidade
reconhecia no trabalho sua principal fonte de produção.
A esse respeito, Álvaro Roberto Crespo Merlo e Naira Lima Lapis (2007), em “A
Saúde e os processos de Trabalho no Capitalismo: reflexões na interface da
psicodinâmica do trabalho e da sociologia do trabalho”, texto em que dissertam
sobre a saúde e os processos de trabalho, ressaltam que
Taylor (1995) observou que boa parte dos problemas de baixa
produtividade das fábricas se deviam à enorme variação de tempo e
de rendimento no trabalho individual dos operários. Coexistiam,
numa mesma empresa, diversas maneiras de executar uma idêntica
atividade, e os métodos de produção eram, em geral, transmitidos
oralmente de trabalhador a trabalhador ou aprendidos por intermédio
da observação. Prêmios, ameaças e sanções não obtinham os
resultados esperados. (pág. 62)
43
É sabido que tanto os homens quanto a sociedade passaram por um processo de
mudanças, que requisitou adaptação não só no modo como o trabalho era
realizado, mas também no próprio estilo de vida das pessoas, na maneira como se
relacionavam e interagiam uns com os outros. As condutas sociais passaram a ser
analisadas por uma medida de tempo, e esse tempo representava um custo e
deveria gerar lucro para que o novo sistema funcionasse a contento, nessa nova era
caracterizada como industrial. A esse respeito, citando Taylor, Merlo & Lapis (2007)
assim se expressam:
Taylor (1995) sabia que os empregadores desconheciam parte
significativa dos conteúdos do trabalho e do tempo necessário para a
execução de cada atividade e que, enquanto isso ocorresse, ou seja,
enquanto os operários detivessem o conhecimento de uma parte
importante do processo de trabalho, não seria possível diminuir os
tempos ociosos e o “fazer cera”, tão desastrosos do ponto de vista da
produtividade.
A questão implicava buscar métodos objetivos de execução, os
quais, além de serem uniformes, deveriam ser determinados de
forma externa, prescritos pela gerência. Segundo a lógica taylorista,
as atividades não mais poderiam ser realizadas ao bel-prazer dos
trabalhadores. (pág. 63)
Como é factível observar, teóricos da administração buscavam métodos que
pudessem viabilizar a organização do trabalho, de forma que quaisquer desperdícios
fossem preteridos em detrimento de ganhos possíveis para a otimização dos lucros.
Merlo & Lapis (2007), aliás, ao estudarem a administração mecanicista,
consideraram que
a administração científica de Taylor (1995) visava a racionalizar a
organização do trabalho, o que envolveu buscar normas,
procedimentos sistemáticos e uniformes. Pela observação, pela
descrição e pela medição, seria possível simplificar as operações,
eliminar os movimentos desnecessários, lentos e ineficientes e
encontrar “o modo melhor”, o movimento certo e mais rápido em
todos os ofícios. Embora a cronometragem já houvesse sido utilizada
para coordenar e acelerar o trabalho, com Taylor, o estudo do tempo,
associado ao estudo dos movimentos, levou à busca do único e
melhor método de execução como norma a ser seguida
permanentemente pela empresa. Esses métodos e técnicas de
trabalho não eram elaborados pelos trabalhadores – embora fosse
das sugestões deles que deveriam partir as melhores ideias para
44
aprimorar o processo produtivo –, visto que a preparação do trabalho
passou a ser atribuição de especialistas, como engenheiros. Estava
consolidando-se, no capitalismo, uma radical separação entre o
saber e o fazer; entre a concepção, o planejamento e a execução;
entre o trabalho manual dos operários e o trabalho intelectual das
gerências. (pág. 63 )
Os resultados dessas mudanças tiveram como consequência a decomposição do
trabalho em atividades cada vez mais simplificadas, e as tarefas passaram a
corresponder a um posto de trabalho que deveria ser ocupado pelo trabalhador
certo. Foi, portanto, no bojo mesmo do Taylorismo que surgiu o recrutamento e a
seleção de mão-de-obra apropriada para cada atividade. Assim, dever-se-ia
escolher a pessoa em conformidade com o trabalho que lhe fosse oferecido, daí a
necessidade de seleção. Isso porque as técnicas, cada vez mais aprimoradas,
tinham como principal objetivo escolher a pessoa mais adequada para realizar cada
tarefa, no local adequado de trabalho, visando a colocar “o homem certo no lugar
certo”.
Contudo, já no final do século XIX, surgiram novas concepções sobre o trabalho,
motivadas pelas propostas de Frederick Winslow Taylor, Henry Ford, Sakichi Toyota,
cujo nome de família era Toyoda e Henry Fayol. Esses teóricos muito contribuíram
para a evolução do conhecimento da administração moderna de empresas,
inovaram os processos para a produção industrial, que passaram a ter como
premissa básica a racionalização do trabalho. Com eles, inaugurou-se um trabalho
coletivo, cuja produção passou a ser controlada pela empresa, através da compra e
venda da força de trabalho. Foi então que os trabalhadores passaram a ser tratados
como mão-de-obra. Tais processos mecanicistas, rigidamente controlados de modo
inflexível, permaneceram influenciando o desempenho do mundo do trabalho na
contemporaneidade.
Estudando a influência das principais teorias da administração na organização do
trabalho em sociedade, Eliane Matos e Denise Pires (2006) evidenciaram a
influência do modelo Taylorista positivista de organização do trabalho na economia
da época. Segundo elas,
45
A Teoria da Administração Científica iniciada por Frederick W. Taylor
(1856 – 1915) fundamenta-se na aplicação de métodos da ciência
positiva, racional e metódica aos problemas administrativos, a fim de
alcançar a máxima produtividade. Essa teoria provocou uma
verdadeira revolução no pensamento administrativo e no mundo
industrial. Para o aumento da produtividade, propôs métodos
e
sistemas de racionalização do trabalho e disciplina do conhecimento
operário, colocando-o sob o comando da gerência; a seleção
rigorosa dos mais aptos para realizar as tarefas; a fragmentação e
hierarquização do trabalho. Investiu nos estudos de tempos e
movimentos para melhorar a eficiência do trabalhador e propôs que
as atividades complexas fossem divididas em partes mais simples
facilitando a racionalização e a padronização.
Propôs incentivos salariais e prêmios, pressupondo que as pessoas
são motivadas exclusivamente por interesses salariais e materiais,
de onde surge o termo “homo economicus. (pág. 509).
Em 1913, Ford aplicou a teoria de Taylor na fabricação de automóveis, ampliando-a
com a utilização de máquinas mais especializadas. Além dos processos organizados
de trabalho, como ‘o homem certo no lugar certo’, ele acrescentou ‘a máquina certa’
para o desenvolvimento de cada tarefa. A esse respeito e com muita propriedade,
Matos & Pires esclarecem que:
Henry Ford, em 1913, aplica a tecnologia da linha de montagem na
fabricação de automóveis. Utiliza os mesmos princípios
desenvolvidos pelo taylorismo, porém trata-se de “uma estratégia
mais abrangente de organização da produção, que envolve extensa
mecanização, como uso de máquinas-ferramentas especializadas,
linha de montagem e de esteira rolante e crescente divisão do
trabalho”. O modelo taylorista/fordista difundiu-se no mundo e
influenciou fortemente todos os ramos da produção.
Há algumas décadas, vêm-se debatendo os efeitos negativos da
organização do trabalho taylorista/fordista sobre os trabalhadores,
destacando-se: a fragmentação do trabalho com separação entre
concepção e execução, que associada ao controle gerencial do
processo e à hierarquia rígida tem levado à desmotivação e à
alienação de trabalhadores, bem como a desequilíbrios nas cargas
de trabalho. (pág. 509)
O engenheiro francês Jules Henri Fayol complementou tal abordagem analítica e
concreta de Taylor com uma mais sintética, global e universal, propondo que a
estrutura administrativa e a empresa passassem a ser percebidas como um único
46
organismo composto de estruturas. A teoria organicista de Fayol estava embasada
em quatro premissas: organizar, coordenar, comandar e controlar atividades de
incumbência da direção da empresa.
A teoria de Taylor se constituía, então, em uma produção de mais bens e serviços
com menos trabalho, caso as empresas se organizassem cientificamente. Assim, a
divisão do trabalho para a eliminação do desperdício necessitava da organização de
processos de execução na operação das máquinas. Tais modificações substanciais
aconteceram
na
qualificação
do trabalhador, que, até então, detinha um
significativo conhecimento sobre o conteúdo do seu trabalho; a partir daí, ele foi
passando, gradualmente, a ter seu saber-fazer expropriado, ao mesmo tempo em
que se aprofundava a divisão do trabalho.
Não se pode, contudo, afirmar que houve uma desqualificação generalizada do
trabalhador. J. M. C. Ferreira (2011) ressalta, que
[...] a evolução da Primeira Revolução Industrial se teria tornado
difícil sem o perfil profissional e as qualificações do operariado.
No que tange às estratégias de resistência dos trabalhadores,
entrelaçaram-se diferentes formas para dificultar o desenvolvimento
da produção, que vão desde a sabotagem, como danificação das
máquinas, atrasos e absenteísmo, até a ocorrência de greves. Essa
resistência operária se alicerçava, dentre outros, em dois importantes
pilares: por um lado, o relativo desconhecimento do empregador
quanto ao conteúdo do trabalho, o qual era transmitido oralmente de
geração em geração, sendo que os métodos e as técnicas de
trabalho não eram registrados ou documentados; por outro, a
complexidade da maquinaria era ainda incipiente. Nesse contexto, foi
possível aos trabalhadores exercerem um relativo controle sobre o
processo de trabalho no que concerne às pausas, aos movimentos e
aos tempos de realização das operações. (pág. 69)
No primeiro momento da implantação do sistema capitalista, o controle exercido
sobre os trabalhadores evidenciava-se o mais autoritário possível. As fábricas
apareciam repletas de situações que envolviam agressões físicas, ameaças,
castigos, multas e demissões, enfim, essa fase caracterizava-se pela intensificação
47
do trabalho, pelas longas jornadas – de 12 a 15 horas diárias –, pelas precárias
condições de trabalho e pelos salários aviltantes.
O movimento sindical começava a se estruturar e o Estado, como legítimo regulador
das relações entre o capital e o trabalho não funcionava. Não havia um efetivo
sistema de proteção social para os trabalhadores; inúmeros e graves acidentes
aconteciam no próprio local onde se processava o trabalho, como perda de dedos,
esmagamento de mãos, queimaduras, lesões, enfim, tudo ocasionado pelas
ferramentas que caíam sobre os operários.
Não raro, inúmeros trabalhadores eram acometidos por enfermidades, por doenças
que, muito frequentemente, levavam à morte crianças, mulheres e homens: eram
doenças pulmonares, eram enfermidades cutâneas, eram moléstias cardíacas, eram
disfunções respiratórias, eram, afinal, estresses, isto é, abatimentos físicos e
mentais.
Em contrapartida, Henry Ford acreditava que toda a sociedade poderia se
transformar em linhas de montagem, em que cada tarefa deveria ser realizada
dentro de uma sequência, em um determinado espaço de tempo.
Como é passível de se perceber, a sociedade industrial tinha na riqueza seu
principal desígnio. Essa riqueza era gerada por meio do proveito obtido pela
distribuição inumana do trabalho. Para consumir, o cidadão precisava produzir,
fornecendo resultados. Por outro lado, à proporção que ia ocorrendo o aumento do
número de máquinas, o número de trabalhadores empregados na construção das
produções fabris ia reduzindo.
A fonte de riqueza que movimentava a economia era determinada por um modelo de
desenvolvimento dos trabalhadores e seus resultados. Os trabalhadores se
submetiam a instruções e procedimentos, que eram planejados, organizados,
direcionados, coordenados e controlados a fim de que produzissem mais e com
48
melhor qualidade, a fim de que que se obtivesse a multiplicação do capital como
sustentáculo do sistema econômico em pauta.
Fayol aplicou a teoria fordista de divisão do trabalho à alta gerência, e a ela
acrescentou princípios tais como: autoridade, disciplina, unidade de comando e
direção, subordinação dos interesses individuais ao interesse comum, remuneração,
centralização, cadeia de autoridade (hierarquização), ordem, equidade, estabilidade
no emprego, iniciativa e moral.
Toyota, por sua vez, introduziu a produtividade e a inovação ao sistema de gestão
flexível da produção em empresas japonesas, propondo alteração de toda a visão
organizacional a partir dos acionistas, passando pela alta direção, pelos gerentes,
pelos técnicos, chegando até aos trabalhadores operacionais.
3.2. O CAPITALISMO PÓS-MECANICISTA
Ao se reestruturar, o capitalismo pós-mecanicista passou a se caracterizar pela
produção de conhecimentos, representados por um trabalho vivo, que é constitutivo,
intelectualizado e comunicativo. A revolução do trabalho encontra-se, pois, na
criação, que é ativa e viva, em contraposição ao trabalho morto, repetitivo e técnico,
em que ao sujeito só lhe competia colocar-se como mão-de-obra que
complementava a máquina naquilo que ela ainda não conseguia executar. No
trabalho morto, era impossível ao sujeito criar, e isso ainda pode ser constatado na
atualidade, em áreas cuja composição técnica tem como objetivo a exploração da
mão-de-obra.
Com efeito, a sociedade que impera no mundo capitalista atual é a mesma que
detém o poder. O poder, por sua vez, conduz a vida dos sujeitos, afetando-a em
todos os âmbitos. O sujeito contemporâneo é representado pelo poder, que apela
49
por sua eficácia, pois se quem comanda é quem resolve o problema, a negação de
tudo o que tem a ineficácia como valor básico requer um mediador para a situação.
Para sufocar as insatisfações e produzir ininterruptamente, apela-se para que o
sujeito goze pelo simples prazer de pertencer à sociedade, mesmo que para tal
todos os valores desmoronem em prol do poder. O imperativo de gozo é pautado
pelo fenômeno do não pertencimento.
Ao elaborar o texto a que intitulou “Trabalho Imaterial e Subjetividade”, Negri (2001)
se expressou a respeito do trabalho como plano ideológico capitalista, aconselhando
que se deveria “... pensar a constituição do trabalho (e, portanto, de sua crítica)
“fora” da relação de capital (que tornaria a ‘maldição’ do trabalho assalariado
‘dispensável’)”, por também haver, no seu entender, “outros ângulos ideológicos que
fazem do trabalho imaterial um valor em si”. (pág. 9).
Assim, ao pensar a constituição do trabalho, Negri (2001) sintetizou as interações
entre a potência constituinte de que se reveste o trabalho vivo e a potência
constitutiva do trabalho morto, propondo que a reestruturação industrial fizesse
emergir um regime de acumulação globalizado, baseado na produção de
conhecimentos e num trabalho vivo, cada vez mais intelectualizado e comunicativo,
que tivesse sua oposição no presente, através das novas formas de exploração e da
composição técnica do trabalho, principalmente ao que dissesse respeito ao
proletariado urbano.
A revolução vivida pelo trabalho teve o próprio tempo como fator primordial de uma
crise, de um lado, em que se posicionava o tempo da propriedade consolidado e
fechado e, de outro, assumia-se o tempo do trabalho que era liberado,
indeterminado e aberto, a produzir nova riqueza e nova humanidade, ambas
marcadas principalmente por dois aspectos: a centralidade do trabalho e a crítica da
crítica.
50
Na atualidade, porém, o trabalho do operário constitui uma atividade que, em
diversos níveis, implica sempre mais capacidade de escolha entre diversas
alternativas e, portanto, representa maior responsabilidade ao assumir certas
decisões. A integração do trabalho imaterial ao trabalho industrial e até mesmo ao
trabalho terciário torna-se uma das principais fontes da produção e atravessa os
ciclos dessa produção definidos precedentemente que, por sua vez, a organizam.
Em realidade, inaugurou-se uma nova subjetividade da intelectualidade de massa.
Essa subjetividade encontra-se sedimentada sobre o desenvolvimento do indivíduo
social que se apresenta como o grande pilar de sustentação da produção e da
riqueza. Tão logo o trabalho cessou de ser a maior fonte da riqueza, o tempo de
trabalho se encerrou e deve também cessar de representar a sua medida, portanto,
o valor de troca deve deixar de ser a medida do valor de uso.
A produção, cujo sustentáculo era o valor de troca, cedeu lugar ao processo de
produção material e ao livre desenvolvimento das individualidades. Desse modo, ela
não permite a redução do tempo de trabalho necessário para criar mais trabalho,
mas, sim, a redução do trabalho necessário da sociedade a um mínimo, ao qual
correspondem, em seguida, à formação e ao desenvolvimento artístico, científico,
isto é, ao aprimoramento cultural dos indivíduos.
Assim, a contradição capitalista contemporânea consiste na proposição de uma
redução de tempo de trabalho a um mínimo, ao absolutamente necessário, em
contraposição a uma outra proposta, também capitalista, que coloca esse tempo
como única medida e fonte de riqueza. Evoca todas as forças da ciência e da
natureza, todas as condições sociais imprescindíveis à criação da riqueza, mesmo
que para tal, o tempo de trabalho empregado por ela independa do restante.
Consequentemente, o paradoxo consiste em reduzir, de um lado, a força de trabalho
capitalista a um capital fixo, que o subordina sempre mais ao processo produtivo,
enquanto que, de outro lado, propõe que o ator fundamental do processo social de
51
produção torne-se agora o saber social geral, sob a forma do trabalho científico, ou
sob a forma de atividades sociais cooperativas.
A relação do sujeito com sua produção, proposta por Marx, passa pela questão da
subjetividade. Dois fatores são de extrema relevância nessa relação homemtrabalho: o primeiro, diz respeito ao trabalho que se compõe pela independência em
relação ao tempo imposto pelo capital; o segundo refere-se à autonomia da
capacidade produtiva, individual e coletiva, configurada pela capacidade de fruição.
Tais fatores tornam praticamente impossível distinguir o tempo de trabalho do tempo
livre, do tempo produtivo e do tempo de lazer.
O trabalho imaterial é, hoje, o alicerce que sustenta a produção, subvertendo o ciclo
reprodução-consumo de uma subjetividade que se acha concentrada na
intelectualidade da massa capitalista. Segundo Negri (2001), “o empreendedor, hoje,
deve ocupar-se mais em reunir os elementos políticos necessários para a
exploração da empresa do que importar-se com as condições produtivas do
processo de trabalho.” (pág. 32)
A questão inerente à intelectualidade de massa encontra-se ligada não mais à
expropriação de um saber, mas, sim, à potência produtiva que concentra em seu
interior como reprodutora de uma realidade que tende a configurar e tornar o
trabalho imaterial hegemônico.
A potência do trabalho atual está na relação antagônica, alternativa e constitutiva de
uma realidade social diferente, que rompe com as bases do trabalho assalariado de
outrora, dissolvendo-o através da figura do não trabalho, composto de processos
autônomos
de
constituição
de
subjetividade
alternativa,
de
organização
independente dos trabalhadores, de modo a afetar até mesmo a implicação política
dos sujeitos.
A partir de uma releitura do trabalho de Marx, Negri (2001) repensa então a
concepção de poder, entendendo esse poder como “a capacidade de os sujeitos
52
livres e independentes intervirem sobre a ação de outros sujeitos igualmente livres e
independentes.” (pág. 38).
Dessa forma, o trabalho imaterial estabelece um novo conceito que envolve nova
qualidade para o trabalho e para o prazer, bem como novas relações de poder e
novos processos de subjetivação. O poder, que numa primeira época esteve restrito
às formas constitucionais de uma ordem social classista e rígida, passou, em um
segundo período, ao status da representação política e das técnicas disciplinares,
em que o poder jurídico não só legislava, como também normatizava o trabalho. E
isso permanece até o momento atual, em que a organização do poder engloba a
política da comunicação, da luta pelo controle ou libertação do sujeito da
comunicação.
A participação ativa dos sujeitos que o trabalho requer hoje modifica as formas de
poder, revolucionando toda a ideia de trabalho, a partir da proposta de imaterialidade
do trabalho. Então, o trabalho adquire um novo lugar para os sujeitos e,
consequentemente, para a sociedade, porquanto ele se configura como capital fixo,
sujeitado à produção e ao imperativo de mudança da ordem social.
Como se vê, a noção de trabalho oferecida pelo mundo capitalista faz parte de um
sistema de controle que outorga aos sujeitos garantia de direitos básicos, como o
direito à identidade cultural, reconhecendo os destinos do trabalhador no que diz
respeito à vinculação salarial. A verdade é que passamos dos ideais produtivos do
mecanicismo, do fordismo e do taylorismo à reestruturação industrial, que promove a
acumulação globalizada pautada na produção de conhecimentos e saberes, por
meio de um trabalho vivo, intelectualizado e comunicativo – e ainda assim explorado
–, que constitui, legitima e assegura o poder e, consequentemente, o controle social.
O trabalho permitia ao homem de outrora, quer dizer, da era mecanicista, ter como
objetivo a realização de suas necessidades, através da obtenção de um salário que
pudesse garantir sua sobrevivência. Havia, então, uma finalidade bem delineada
53
para o trabalho, que supria as necessidades pessoais de cada qual, com vistas a
abastecer os sujeitos.
Efetivamente, o homem-máquina morreu. Em seu lugar viu-se surgir esse novo
homem, pensante, atuante, dinâmico e produtivo. Se antes era a força humana que
produzia o trabalho, auxiliada pela máquina, agora cabe ao homem pensar, e à
máquina, compete-lhe a execução do trabalho braçal. Antes, a empresa funcionava
como um organismo vivo que se transformava a todo instante, modificando-se
constantemente, comunicando-se, requisitando decisões assertivas e eficazes de
seus profissionais, que foram preparados por ela para atender a essa demanda.
O capitalismo pós-mecanicista entendeu que não adiantava simplesmente trabalhar,
pois havia a necessidade de também produzir com eficácia. Essa percepção
provocou a reestruturação das empresas e reivindicou para o operário capacidade
de escolha, em diversos níveis e de forma crescente. Para tanto, ofereceu-se-lhe
uma gama enorme de alternativas, assegurando-lhe decisões no trabalho. Assim, o
poder aumentou na mesma medida em que a responsabilidade e a pressão foram
inseridas à vida profissional.
Ao trabalhador passou a ser necessário fazer interface entre diferentes funções,
entre diversas equipes e níveis hierárquicos, de maneira a gerenciar a própria
personalidade e subjetividade, adequando-as a uma cultura organizacional que
comunica, repassa e perpetua o cabedal de conhecimentos da classe dominante
que, dessa forma, acaba por assegurar seu poder no mundo capitalista
contemporâneo.
O trabalho operário transitou da repetição mecanicista para uma atividade mais
elaborada, quase abstrata, mais ligada à subjetividade. A produtividade tornou-se de
fato a ideia central, o ícone mesmo da sociedade capitalista pós-industrial, que
requer dos sujeitos a comunicação nos diferentes níveis hierárquicos. As empresas
passaram a ser administradas como verdadeiros organismos animados, isto é,
organismos vivos, em que os diversos departamentos, a partir de seus profissionais,
54
interagem através da comunicação. A comunicação, portanto, representa a
estratégia primordial da globalização da produção que constitui as bases do trabalho
material. Assim, a compatibilização entre trabalhos – material e imaterial – traduz os
desafios organizacionais mais frequentes. O confronto com a capacidade de
organizar e orientar o próprio trabalho e suas relações com a empresa define a
capacidade dos sujeitos socialmente produtivos.
3.3. O CAPITALISMO NA CONTEMPORANEIDADE
Na atualidade, os requisitos sociais que visam a transformar o trabalho imaterial em
força de trabalho intelectual de massa podem conduzir o sujeito social a um sujeito
politicamente hegemônico, ideia essa perpetuada culturalmente, a gerar no indivíduo
contemporâneo uma compulsão para o estudo e a aquisição ininterrupta de títulos,
não raro abrindo mão da vida pessoal para se manter atualizado e não perder seu
valor de mercado.
A medida do trabalho passou a exprimir o valor de uso. O livre desenvolvimento das
individualidades e a não redução do trabalho necessário para criar mais trabalho de
maneira incongruente impõem aos indivíduos a redução do tempo de trabalho
propriamente dito a um mínimo possível; em contrapartida, essa mesma situação
estabelece o tempo de trabalho como única medida e fonte de riqueza, isto é, o
tempo necessário à criação da riqueza, em detrimento das forças da ciência e da
natureza, assim como das condições e das relações sociais. Trabalha-se pelo
menos 12h por dia!
Richard Sennett (2011) afirma que “a rotina torna-se autodestrutiva porque os seres
humanos perdem o controle sobre seus próprios esforços; a falta de controle sobre o
tempo de trabalho significa morte espiritual”, conclui ele. (pág. 41)
55
Diferentemente do homem mecanicista, que não estabelecia limites para as horas
dedicadas ao trabalho, o que gerava fadiga física, os profissionais contemporâneos
sofrem de fadiga mental, impossibilitados que são de desagregar casa e trabalho,
tornando a rotina autodestrutiva.
Em O Futuro do Trabalho, Domenico de Masi (1999) distingue o trabalho como um
vício recente, explicando que
as pessoas que trabalham, isto é, aquele bilhão que exerce encargos
regularmente remunerados, estão mais garantidas do que as outras,
são mais respeitadas, podem orientar a profissão no cartão de visita.
Ao trabalho, de fato, são atribuídos efeitos positivos, até milagrosos.
Segundo muitos sociólogos, apenas quem trabalha consegue
socializar-se, amadurecer, realizar-se. Segundo algumas religiões, só
quem trabalha consegue se redimir do pecado original e alcançar o
paraíso.
Por milhares de anos, até o advento da indústria, os que ocupavam o
alto da pirâmide social – os aristocratas, os proprietários de terras, os
intelectuais – na verdade não trabalhavam. Não era do trabalho que
obtinham riqueza e prestígio, mas do nome de família, de proteção
às artes e letras e de rendas. Hoje, entretanto, um empresário,
administrador ou diretor geral trabalham muito mais horas do que um
operário ou empregado. Em suma, antigamente, quanto mais rica,
menos a pessoa trabalhava, podendo dedicar-se a si, à família e aos
amigos; hoje, entretanto, quanto mais rico, mais o homem trabalha,
descuidando de si e dos outros. O trabalho passou de castigo a
privilégio. (pág. 13)
No sistema capitalista vigente, a possibilidade de mudar de condição social –
circunstância outrora muito remota – é o que move as pessoas a adquirir recursos e
a melhorar suas condições de vida. Dessa forma, o capitalismo tem no trabalho sua
configuração mais democrática de produção e manutenção do sistema, pois,
simultaneamente e historicamente, consome-se o que se produz.
No trabalho imaterial, a relação do sujeito com sua produção encerra uma relação
global, o que torna impossível distinguir o tempo no desempenho das atividades de
lazer e de trabalho. Com isso, reproduz-se uma subjetividade autônoma ao redor da
intelectualidade de massa, que prescinde da organização do trabalho para impor a
56
própria força na relação com o capital. Nessa conjuntura de trabalho, a produção de
subjetividade se constitui ao largo da relação de capital, organiza-se na subjetivação
do trabalho, no plano do desejo e não do poder, de forma alternativa, constitutiva de
uma realidade social diferente.
O fato é que o produto do trabalho imaterial é revolucionário, pois não se esgota no
ato mesmo do consumo, ao contrário, ele se alarga, transforma-se, cria o ambiente
ideológico e cultural do consumidor, modificando as pessoas e o meio que o utiliza,
a planificar o que outrora dialetizou a produção/consumo. De fato, o Capitalismo
produz o trabalhador, mas é o trabalhador que produz a riqueza, o que faz com que
o trabalho deixe de ser um lugar de realização pessoal, retirando o desejo desse
espaço de produção, a repercutir o mal-estar na civilização contemporânea.
A busca pela autorrealização, pela produção de um trabalho que acrescente algo a
mais ao ser, libertando-o e, a um tempo, produzindo o que o valorize, é cerceada
pelo capitalismo como um todo. Esse sistema instaura uma nova relação, agora
entre trabalho e trabalho vivo, o que é mais grave, já que o tempo de trabalho foi
ampliado tendo em vista o aumento do tempo de vida. Tal ocorreu em consequência
do novo ponto de vista do sistema vigente. Logo, pergunta-se: onde se insere,
então, a singularidade dos sujeitos?
Inauguramos,
sim,
uma
nova
subjetividade
com
sujeitos
marcados
pelo
assujeitamento aos dispositivos de poder que servem ao capital, mediando a
inserção social na contemporaneidade. Conforme esclarece Auterives (2011), em
seu texto “A morte de Deus, o homem sem pertencimento e a necessidade de um
para-além”,
a biopolítica que fomenta a máquina, produzindo subjetividades
moduladas segundo a frequência do funcionamento de mercado,
assujeitando vidas ao controle que vigora na sociedade, produz, no
nosso entender, um tipo de subjetividade flexível, onde o trânsito
entre as esferas efêmeras impede a consolidação de qualquer
identidade fixa. Os sujeitos que daí derivam são fugazes, larvas mal
esboçadas e desfeitas, seres híbridos e fluidos, sujeitos aos
57
imperativos da eficácia que definem o mercado. Homens voltados
para a ação, investidos em um mundo pragmático, onde a eficácia,
segundo as normas definidas pela sociedade, torna-se imperativa.
Homens que fazem funcionar uma sociedade de consumo; onde o
consumo é definido pelo controle, determinado pelos saberes e pelos
poderes que fomentam a flexibilização e a ação desmesurada. (pág.
118)
Constata-se, com isso, que o sujeito contemporâneo sofre com a extrema influência
do mercado, que o demanda basicamente à eficácia e à ação a qualquer preço, pois
dele o que a sociedade requisita é o lucro, a partir da eficiência de seus resultados.
Examinando o problema pelo ângulo da psicanálise, poderemos pensar essa ação,
sem medir esforços, como um imperativo de gozo. Nessa situação, a compulsão e a
depressão aparecem como efeitos desse imperativo que ocasiona um mal-estar no
mundo contemporâneo. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde - OMS,
a cada cinco minutos, no Brasil, um profissional é afastado do trabalho por
depressão.
Oportunamente, Domenico de Masi (1999) lembra que
a sociedade global induz de fora a essa mudança radical dos
sistemas organizacionais, que não consegue criar internamente.
Vivemos de fato uma inversão de liderança: não é mais a indústria
que leva à mudança da sociedade, mas a sociedade (jovens,
mulheres, artistas, desempregados, imigrantes, pensionistas e
voluntários) que antecipa os valores, as necessidades e até os
instrumentos operativos que a empresa (e, com ela, todas as
organizações que a mantém como modelo próprio) se obstina em
não compreender e não adotar. (pág. 63)
Logo, a eficácia dos sujeitos funciona em busca de prazer e de gozo imediatos em
um mundo transitório e incerto, onde não cabem sujeitos ineficazes, já que a
compulsão ao consumo é imperativa e alimenta os interesses capitalistas.
A sociedade contemporânea coloca no homem a necessidade de ação eficaz e
imediata, impedindo e anulando o espaço que caberia ao desejo, dissipando os
conflitos subjetivos, causando o mal-estar. Contraditoriamente, no mundo do
58
trabalho os desmotivados não são promovidos, embora dificilmente alguma análise
para constatar as causas e quaisquer ações corretivas ou preventivas sejam
implementadas.
Seguindo esse raciocínio, em O Mal-Estar da Pós-Modernidade, o sociólogo polonês
Zygmunt Bauman (1998) faz o seguinte:
O mundo está repleto de incertezas onde o ser humano troca a
segurança, outrora desejada, pela liberdade, mas não uma liberdade
qualquer: a liberdade individual engendrada por uma vontade
suprema. Esta vontade que reduz o homem a um estado de
insegurança, de medo universal, de tecnologia excludente, de
ameaças constantes e desemprego crescente, tornando-o impotente.
Mudanças repentinas, em que o tempo é o senhor que tudo pode.
Mudanças econômicas, políticas, culturais que transformam o
cotidiano em ambivalente. Extingue-se a rotina e a estabilidade das
relações, o sentimento de confiança já não existe mais e o
sentimento de incompletude, de vazio, se traduz como mais um
fantasma a assombrar a humanidade “pós-moderna”. (pág. 9)
Tais incertezas, conforme apontadas por Bauman (1998), são extensivas a todos os
setores da atuação humana, e sinalizam para um suposto ideal de liberdade
totalizante, representado pelo mercado consumidor, pela competitividade, pela
indiferença e por aquelas verdades múltiplas que salientam diferenças, embora não
respeitem as singularidades.
A globalização veicula o enquadramento e a padronização, despersonaliza as
diversas culturas, alimentando-as de produtos para consumo rápido. Trata-se, em
verdade,
daquela
liberdade
de
escolha
que
não
alcança
a
satisfação
prometida, pois parece impossível alcançar o prazer nessa época de constante
oferta de oportunidades de satisfação através das coisas e das pessoas. Nesse
contexto, encontramos um mundo de estratégias e de guerras preventivas, como
também são preventivas as ofertas de produtos que nem se sabia precisar, levando
o indivíduo ao consumismo exacerbado, cujo desejo é estimulado pela tendência a
um padrão de comportamento social orquestrado pelas próprias redes sociais.
59
O homem pós-moderno, cujo vazio o ‘outro’ tenta preencher incessantemente, mas
que ele quer combater, esse homem, dizia-se, busca um prolongamento de sua vida
através de novos formatos de comunitarismo, onde se encontram incluídos o
nacionalismo e o fundamentalismo religioso e até mesmo o terrorista. Nesse mundo
onde o homem sonha com o prolongamento de sua vida, tais formas de
comunitarismo representam tentativas legítimas de combater os excessos da
liberdade, da falta de ética, da invasão de um livre mercado internacional onde os
países desenvolvidos estabelecem as regras.
Em vista disso, nesse mundo ‘pós-moderno’, cabe ao homem refletir criticamente
essa desapropriação do ‘ser’ em prol da apropriação do ‘ter’; compete a ele
considerar o quanto devemos abrir mão de nossa individualidade em benefício de
uma sociedade que nos massifica e nos enquadra, visando ao próprio prazer e ao
próprio benefício, tais são questionamentos que nos demandam o tempo de que não
dispomos para sequer buscar as respostas.
Sennett (2011), em A corrosão do caráter, destaca o conflito provocado pelo
capitalismo na identidade do homem contemporâneo como danoso ao caráter.
Entende ele que questões morais ligam os seres humanos uns aos outros e
oferecem a cada um deles um senso de identidade sustentável, facultando valores
sociais duráveis, numa sociedade composta de episódios e fragmentos. Assim se
expressa ele a respeito:
Em lugar dos valores de camaleão da nova economia, a família deve
enfatizar o compromisso mútuo e o senso de objetivo. Todas essas
são virtudes de longo prazo.
Esse conflito entre a família e o trabalho impõe algumas questões
sobre a própria experiência adulta. Como se podem buscar objetivos
de longo prazo numa sociedade de curto prazo? Como se podem
manter relações sociais duráveis? Como pode um ser humano
desenvolver uma narrativa de identidade e história de vida numa
sociedade composta de episódios e fragmentos? As condições da
nova economia alimentam, ao contrário, a experiência com a deriva
no tempo, de lugar em lugar, de emprego em emprego. (pág. 27)
60
O que une os seres humanos, o que determina seu caráter vem sendo corroído pelo
sistema capitalista a curto prazo, alterando-lhes a identidade.
Embora a necessidade de um comportamento flexível seja imperativa como prática
cotidiana, o capitalismo estimula-se pela dependência que, direta ou indiretamente,
só a produtividade resultante do trabalho pode gerar e, com isso, deter o poder.
Afinal, o sonho do trabalhador é mudar de posição, é transformar-se em empresário,
e para tanto, ele precisa trabalhar com afinco e determinação, a fim de mudar de
classe social. Por certo que o anseio do ‘escravo’ moderno continua persistindo no
desejo de se tornar ‘senhor’.
Não se deve esquecer de que Marx (2005) proclamava “a luta de classes como o
motor da História, e o proletariado como o germe que deveria submeter a estrutura
da sociedade moderna.” (p. 10)
Ora, a modernidade é fundada pelo discurso da ciência, é demarcada pelas imagens
da tecnologia e pelas metáforas da ciência. Nesse contexto, Freud descobre o
inconsciente, enuncia ao mundo a Psicanálise, evidenciando uma ferida narcísica na
história da humanidade.
3.4. O MAL-ESTAR NA CONTEMPORANEIDADE
É inegável que a sociedade contemporânea apresenta peculiaridades importantes
para entendermos o lugar social do trabalho e suas possíveis representações para
os sujeitos.
O filósofo italiano Giorgio Agamben (2009) trata o contemporâneo como
inapreensível,
influenciado
intervenientes
dos
por
processos
dispositivos
de
estudados
subjetivação,
por
Foucault
constituintes
do
como
poder
61
contemporâneo. Ao estabelecer duas grandes classes, a de seres viventes e a de
dispositivos, ele incluiu os sujeitos entre esses seres, como resultantes da relação
corpo a corpo entre os viventes e os dispositivos, declarando que:
Naturalmente, as substâncias e os sujeitos, como na velha
metafísica, parecem sobrepor-se, mas não completamente. Nesse
sentido, por exemplo, um mesmo indivíduo, uma mesma substância,
pode ser o lugar dos múltiplos processos de subjetivação: o usuário
de telefones celulares, o navegador na internet, o escritor de contos,
o apaixonado por tango, o não global etc. Ao ilimitado crescimento
dos dispositivos no nosso tempo corresponde uma igualmente
disseminada proliferação de processos de subjetivação. (pág. 41)
A vida em grupo tem sido o grande desafio da humanidade, que cada vez mais tem
de conviver com questões individuais relativas ao hedonismo. O homem está
sempre em busca dessa felicidade tão ambicionada por todos. O ideal é, contudo,
inatingível, já que para preservar o grupo social, é preciso sacrificar os interesses
individuais em prol da preservação da espécie. Os interesses sociais são priorizados
frente aos individuais, fazendo com que o desejo do grupo prevaleça sobre o desejo
do sujeito. O que marca o mal-estar do homem contemporâneo é a cisão de um ser
sempre dividido e angustiado por um conflito interno não resolvido, que se encontra
constantemente em dúvida entre o que ele realmente quer e aquilo que ele pode ter,
entre o que de fato deseja e o que apenas deve cobiçar. Daí o mal-estar repercutir
inclusive no trabalho, a evidenciar a forma de sofrimento e adoecimento físico e
mental do indivíduo.
Na sociedade contemporânea, o trabalho define-se como uma atividade útil
coordenada, realizada por indivíduos de ambos os sexos, na perspectiva de
enfrentar aquilo que, em uma tarefa utilitária, não pode ser obtido pela execução
rigorosa da organização prescrita, passando pela subjetividade do trabalhador.
Numa dimensão humana, reafirma-se, esse trabalhador ajusta o real, reacomoda-o,
idealiza-o, elabora-o e adiciona-lhe algo. Em O Fator Humano, Dejours (2011) fala
dessa noção de atividade subjetivante, esclarecendo que:
62
A noção de atividade subjetivante é devida aos pesquisadores em
ciências sociais, que se interessam especificamente pela atividade
operária, não somente nos setores clássicos da produção, mas
também nas “novas tecnologias”, na condução de processos e na
utilização de máquinas de comando numérico. (pág. 43)
Desse modo, a transformação do trabalho constitui-se a partir das interações entre o
homem e seu posto de trabalho. A partir de suas habilidades tácitas, ele passa a
integrar o trabalho à subjetividade humana e não mais o racionaliza.
Dejours (1987), em outra obra intitulada A Loucura do Trabalho, ao pensar o
sofrimento do homem em sua atividade, parte da ideia de que o sofrimento mental
decorre da organização do trabalho, e argumenta: “Por organização do trabalho
designamos a divisão do trabalho, o conteúdo da tarefa (à medida que ele dela
deriva), o sistema hierárquico, as modalidades de comando, as relações de poder,
as questões de responsabilidade etc.”. (pág. 25)
Em verdade, vontade e desejo no trabalho se contrapõem maciçamente com o
comando do patrão, concretizado pela organização do trabalho que é proposta,
controlada e, na maioria das vezes, imposta pelo empregador.
Ao efetuar uma releitura do sujeito contemporâneo, precisamos situá-lo frente ao
grupo ao qual se insere, porquanto o capitalismo que outrora se baseava na
produção mecânica, em série e repetitiva do trabalho, como instrumento para auferir
vantagens, propõe-se agora, através da produção, a alterar toda a forma de existir
do homem atual.
O descentramento do sujeito da modernidade, isto é, o sujeito que emerge na era
moderna, cede espaço ao desejo que o anuncia, que o ultrapassa e que o
transcende. Se o desejo é inatingível, o objeto de desejo escapa-lhe, e o sujeito
passa a desejar, a criar, a reincidir. O desejo é, pois, o distintivo psicanalítico da
hodiernidade, a distinguir a lacunosidade, o ‘inacabamento’ do ser e a estabelecer o
desamparo, gerador primeiro da produção de mal-estar psíquico. A ideia de
desamparo surgiu em 1895, no Projeto para uma psicologia científica, sendo
63
abordada por Freud como fonte primordial de todos os motivos ligados à moral. Na
Interpretação dos Sonhos, em 1900, ele se referiu ao desamparo como a falta de
uma experiência de satisfação; em 1926, em Inibição, sintomas e angústia, ele o
entendeu como produto da angústia vivida pela criança diante de uma situação
traumática, ligada ao medo da perda do objeto de amor. No Futuro de uma ilusão,
em 1927, o desamparo é considerado por Freud como uma condição que
acompanha o sujeito por toda a sua existência. E em Mal-estar na civilização, 1930,
ele o relaciona com a renúncia pulsional, a que o sujeito se submete em prol dos
ditames culturais.
É o desamparo, aliás, que denota a fragilidade humana no mundo capitalista, em
que a morte de Deus representa uma premissa da ciência. O homem que não mais
conta com a confiança na proteção do Pai, revela-se frágil e desamparado em sua
subjetividade. Evitar a dor, submetendo-se às diversas formas de servidão e de
“despossessão” subjetivas, indo do masoquismo à violência – eis as questões que
se encontram em evidência na atualidade.
Por outro lado, ao estudar a importância do fator humano nas organizações, Dejours
(2011) buscou compreender como as condutas humanas encontram-se submetidas
à exigência de leis, a contribuir para a própria evolução. Diz ele que
[...] o fator humano é marcado pelo selo do histórico, do social, do
contextual.
[...] a contradição entre a pertença ao mundo da natureza e a
pertença ao mundo do espírito coloca o homem em uma situação
existencial difícil. Ele está constantemente dividido entre aquilo que
ele quer e aquilo que ele pode, entre o que ele deseja e o que ele
deve. Essa contradição reflete-se em todas as situações ordinárias,
inclusive nas situações de trabalho. No trabalho, o homem não pode
ser considerado unificado e coerente. Está, ao contrário, sempre
dividido e angustiado por esse conflito interno jamais resolvido, o
que, a rigor, implica considerar a dimensão psicoativa na teoria do
fator humano. (pág. 77)
O trabalho propõe um novo lugar de inserção social, onde seu produto será
consumido por um Outro. Esse Outro precisa, então, de ‘minha’ existência,
64
ressignificando a dor diante da importância da manutenção da cultura, a propiciar
um retorno à sensação de pertencimento.
Em minha experiência de trabalho, por exemplo, um funcionário que se aposentou,
entrou em depressão. Isso o levou a sair no dia seguinte à procura de um novo
emprego, no qual permanece até hoje. Segundo ele, não conseguia sequer gozar
férias, pois no seu entender sua vida não teria mais sentido se não produzisse algo.
Colocar o pijama e ficar em casa, dia após dia, parecia-lhe extremamente
assustador, mesmo que o trabalho realizado não representasse o fruto de seu
desejo.
À vista disso, ao compreender que há alguém dependente de si, a humanidade se
considera responsável por sua ação perante o outro, unindo-se a esse outro cada
vez mais. Diz Sennett (2011) que
para sermos dignos de confiança, devemos nos sentir necessários;
para nos sentirmos necessários, esse Outro tem de estar em
necessidade.
Quem precisa de mim? É uma questão de caráter que sofre um
desafio radical no capitalismo moderno. O sistema irradia indiferença.
Faz isso em termos dos resultados do esforço humano, como nos
mercados em que o vencedor leva tudo, onde há pouca relação entre
o risco e recompensa. Irradia indiferença na organização da falta de
confiança, onde não há motivo para se ser necessário.
[...] A falta de responsividade é uma reação lógica ao sentimento de
que não somos necessários. (pág. 174)
Entretanto, o sujeito oscila entre o bem-estar de se sentir impreterível ao outro e o
mal-estar de abrir mão de seu prazer em prol do outro. A dúvida dá acesso à culpa,
justificando
processos
compensatórios,
tais
como
as
compulsões
e
as
dependências. Dentre as dependências, poder-se-ia citar a drogadição, a
depressão, a ansiedade, o estresse, a medicalização de seres que tentam
incessantemente dar conta de um vazio do qual a psicanálise aponta como
impossível de ser preenchido.
65
Cabe relatar aqui o caso de uma paciente que recentemente iniciou análise por se
encontrar em depressão, desencadeada pela venda, há cerca de cinco anos, da
empresa na qual trabalhava e que passara por um processo de incorporação pela
então concorrente. Afirmou a paciente ser ela extremamente apaixonada pelo ofício
que desempenhava e que se sentia deveras comprometida com o trabalho. Daí
desabafar que estava sendo “insuportável suportar”.
Em uma das sessões, comentou, ademais, que estava habituada a uma carga
horária puxada de trabalho, o que a levou ao estresse e à necessidade de
medicamentação, pois não mais conseguia dormir. Foi então que procurou apoio
psiquiátrico, ocasião em que foi medicada. Disse ela que após a venda da empresa
onde se considerava feliz no trabalho, era bem remunerada e interagia
satisfatoriamente com todos os colegas; contudo, ficou grávida de seu segundo filho,
o que impossibilitou sua demissão. A atual empresa incorporara praticamente todos
os funcionários da que fora comprada, e adotava a prática de demitir os empregados
antigos, pois tinha por objetivo contratar sua própria equipe, porquanto, além de
praticar salários mais baixos, contratava pessoas com o novo perfil profissional da
empresa. Foi a partir de então que entrara em processo depressivo e acabou por
sofrer um aborto espontâneo, acarretado, no seu entender, pelo excesso de esforço
físico durante uma mudança de residência.
Após o aborto, informou imediatamente à empresa que já poderia ser demitida, fato
que veio a ocorrer no mês posterior. Porém, no processo de desligamento,
descobriu que estava grávida novamente, o que mais uma vez tornou inviável sua
demissão. Frente às mudanças e ao mal-estar gerado por tal situação, e agravado
ainda mais pela interrupção dos medicamentos por causa da gravidez, que já se
encontrava em período avançado de gestação, procurou análise, demandando ajuda
para lidar com o sofrimento de uma delonga frente à realização de seu desejo:
‘Como suportar o insuportável?’
66
O processo de medicalização, característica da sociedade contemporânea, refletese no trabalho, como possível saída para comprovar a doença e justificar o
afastamento do trabalho, conforme aponta Dejours (1984):
Quando o limiar coletivo de tolerância não é ultrapassado, pode
acontecer que um trabalhador, isoladamente, não consiga manter os
ritmos de trabalho ou manter o seu equilíbrio mental. Forçosamente,
a saída será individual. Duas soluções lhe são possíveis: largar o
trabalho, trocar de posto ou mudar de empresa. São as formas
encobertas pela rotatividade. A segunda solução é representada pelo
absenteísmo. Mesmo sabendo que não está propriamente doente, o
operário esgotado e à beira da descompensação psiconeurótica não
pode abandonar a fábrica sem maiores explicações. O sofrimento
mental e a fadiga são proibidos de se manifestarem numa fábrica. Só
a doença é admissível. Por isso, o trabalhador deverá apresentar um
atestado médico, geralmente acompanhado de uma receita de
psicoestimulantes e analgésicos. A consulta médica termina por
disfarçar o sofrimento mental: é o processo de medicalização, que se
distingue bastante do processo de psiquiatrização, na medida em
que se procura não somente o deslocamente do conflito homemtrabalho para um terreno mais neutro, mas a medicalização visa,
além disso, à desqualificação do sofrimento, no que este pode ter de
mental. (pág. 121).
A se considerar válido aquilo que se produz e aquilo que se consome, o homem
contemporâneo abdica da própria satisfação e passa a trabalhar incessantemente,
prejudicando inúmeras vezes os laços sociais que se veem preteridos diante do
vínculo que passa a manter com o poder.
Até mesmo nos momentos de lazer há produção, através do consumo desenfreado.
Logo, conforme Ferreira e Mendes (2001) abordam no texto “Só de pensar em vir
trabalhar, já fico de mau humor: atividade de atendimento ao público e prazersofrimento no trabalho”,
[...] se todo o trabalho veicula implicitamente um custo humano que
se expressa sob a forma de carga de trabalho, as vivências de
prazer-sofrimento têm como um dos resultantes o confronto do
sujeito com essa carga que, por conseguinte, impacta no seu bemestar psíquico.” (pág. 93)
67
Na contemporaneidade, portanto, o trabalho configura-se em um cenário de malestar. Pensar o que é o mal-estar no trabalho, quem é o sujeito social e qual o lugar
do sujeito do desejo no âmbito do trabalho implica analisar o mal-estar do sujeito
contemporâneo.
O produto dessa nova concepção de trabalho não se esgota no ato do consumo, ao
contrário, alarga-se, a produzir o sujeito que produz a riqueza; isso faz com que o
trabalho deixe de ser um lugar de realização pessoal, retirando o desejo desse
espaço de produção e repercutindo o mal-estar na civilização contemporânea.
A cultura contemporânea tem no trabalho um aparelho propagador de suas ideias e
valores, que não pode ser manifestado institucionalmente, o que torna o mal-estar
latente e disfarçado.
No artigo intitulado “A transformação do sofrimento em adoecimento: do nascimento
da clínica à psicodinâmica do trabalho”, Luiz Carlos Brant e Carlos Minayo-Gomez
(2004), assim se expressam a esse respeito:
É possível observar, no interior das organizações, o quanto a tristeza
é imediatamente nomeada como depressão e o medo, como
paranoia, apenas para citar alguns exemplos. Esse adoecimento não
se faz sem consequências, uma vez que ele discrimina, estigmatiza e
exclui. O que abre espaço para a medicalização das manifestações
do sofrimento nas empresas, através da prescrição indiscriminada,
principalmente de antidepressivos e ansiolíticos. Portanto, evidenciar
a transformação do sofrimento em adoecimento significa criticar esse
conjunto de práticas que permite a enunciação de determinadas
doenças. (pág. 215)
O trabalho como atividade e ação humana utiliza a inteligência e a sabedoria prática
para enfrentar aquilo que não é oferecido pela organização prescrita do trabalho
para fins de sua concretização. A criação é o produto do sujeito com o qual ele
colabora para o desenvolvimento da sociedade na qual ele se insere, indo muito
além do exercício da cidadania, pois tem na sua raiz o poder, tão requisitado e
valorizado pelo capitalismo contemporâneo.
68
Agamben (2009) entende que
[...]os dispositivos visam, através de uma série de práticas e de
discursos, de saberes e de exercícios, à criação de corpos dóceis,
mas livres, que assumem a sua identidade e a sua liberdade de
sujeitos no próprio processo do seu
assujeitamento. Isto é, o dispositivo é, antes de tudo, uma máquina
que produz subjetivações e somente enquanto tal é também uma
máquina de governo. (pág. 46).
Concomitantemente, pode-se dizer que o capitalismo age por meio da produção de
um sujeito, à medida que o ‘dessubjetiva’, a eliminar a sua verdade, igualando uns
aos outros. Um dos dispositivos que influenciam o sujeito contemporâneo é o
mercado, que o demanda basicamente da eficácia e da ação a qualquer preço, pois
dele, o que a sociedade requisita é o lucro, a partir de seus resultados.
Ao se efetuar uma leitura desse problema pelo ângulo da psicanálise, é cabível
pensar essa ação ‘a qualquer preço’ como um imperativo de gozo. A compulsão, o
estresse e a depressão aparecem, então, como efeitos desse imperativo que
demarca um mal-estar no mundo contemporâneo, sendo essa uma das possíveis
razões para o afastamento do trabalho.
A eficácia dos sujeitos funciona em busca de prazer e de gozo imediatos em um
mundo transitório e incerto, onde não cabem sujeitos ineficientes.
O sofrimento causado pela culpa provavelmente é passível de desencadear um
quadro depressivo, o que pode levar o sujeito à somatização, fazendo com que o
problema pessoal de um afete o desempenho de outros. Nesse caso, tal conjuntura
pode vir a afetar inclusive a vida de muitos outros, com possível risco de defunção
para ele próprio ou para os demais que o circundam. Assim, atitudes tomadas pelas
empresas podem ser de extrema relevância social, sendo essa, aliás, sua principal
responsabilidade: colaborar com a sociedade capitalista, em todas as suas
interfaces, alimentando o sistema, mesmo que seja por meio do apelo à eficácia.
69
Dejours (1987), ao comentar que “toda doença física só pode ser prejudicial à
produtividade e à rentabilidade da empresa” (pág.96), aponta o sofrimento mental
como pré-condição para intermediar a submissão ao corpo. Enquanto o fato
permanecer invisível aos olhos da empresa, ele pode ser contornado, mas no
momento em que vier a prejudicá-la, ele precisa ser tratado e extirpado, atendendo
às demandas da legislação internacional responsável pelo trabalho.
A OIT, Organização Internacional do Trabalho (1984), entende que cabe às
empresas implantar e avaliar medidas preventivas e corretivas que visem a melhorar
as condições de promoção e proteção à saúde do trabalhador, ressaltando a
relevância do ambiente psicossocial:
O ambiente psicossocial no trabalho engloba a organização do
trabalho e as relações sociais de trabalho. Fatores psicossociais no
trabalho são aqueles que se referem à interação entre e no meio
ambiente de trabalho, conteúdo do trabalho, condições
organizacionais e habilidades do trabalhador, necessidades, cultura,
causas extratrabalho pessoais que podem, por meio de percepções e
experiência, influenciar a saúde, o desempenho no trabalho e a
satisfação no trabalho (OIT, 1984).
Os principais fatores psicossociais geradores de estresse que podem estar
presentes no meio ambiente do trabalho envolvem aspectos de organização,
administração e sistemas de trabalho e também a qualidade das relações humanas.
Por isso, o clima organizacional4 de uma empresa vincula-se não somente à sua
estrutura e às condições de vida da coletividade do trabalho, mas também a seu
contexto histórico, com seu conjunto de problemas demográficos, econômicos e
sociais. Assim, o crescimento econômico da empresa, o progresso técnico, o
aumento da produtividade e a estabilidade da organização dependem também dos
meios de produção, das condições de trabalho, dos estilos de vida, do nível de
saúde e bem-estar de seus trabalhadores.
4
Representa a influência ambiental, interna, existente entre os membros da organização, que é percebida ou
experimentada pelos mesmos, como influenciadora de seu grau de satisfação com o trabalho.
70
Por certo que o trabalho apresenta um conteúdo para o homem contemporâneo
diverso daquele que oferecia para o homem feudal, pois já não existe neutralidade
na produção subjetiva do trabalho. Dejours (1987), diga-se de passagem, considera
que o trabalho ocupa um novo papel para o homem na atualidade, tendo em vista
sua participação social pautada na produção e na manutenção cultural, isto é, “o
conteúdo significativo do trabalho em relação ao Objeto, a produção como função
social, econômica e política.” (pág. 51)
Em verdade, o sujeito contemporâneo é aquele que não pode sofrer, é aquele que
se medica ele próprio, que foge da dor e produz incessantemente, pois precisa
consumir, porque caso isso não ocorra ele é que poderá vir a ser consumido pela
sociedade em que sobreviver.
Eis porque, ao tratar da organização do trabalho, Dejours (1987) aponta sua
estrutura como possível causadora de adoecimento mental no contexto do trabalho,
fato esse que já vem sendo explorado por algumas empresas na atualidade. No seu
entender,
as estratégias defensivas, por sua vez, podem ser utilizadas pela
organização do trabalho para aumentar a produtividade. A questão é saber
se a exploração do sofrimento pode ter repercussões sobre a saúde dos
trabalhadores, do mesmo modo que podemos observar com a exploração
da força física. Talvez o mais insólito, na abordagem psicopatológica da
organização do trabalho, é que a exploração mental seja fonte de maisvalia nas tarefas desqualificadas, cuja reputação é de serem
exclusivamente manuais. (pág. 120)
Ora, já não é possível ignorar que o mundo globalizado, planificado numa tela de
computador, veicula o enquadramento e a padronização, despersonaliza as diversas
culturas, alimentando-as de produtos para consumo rápido, acenando para uma
liberdade de escolha que não alcança a satisfação prometida, pois parece
impossível o prazer nessa época de constante oferta de oportunidades de satisfação
através das coisas e das pessoas. Nesse contexto, encontramos um mundo de
estratégias e de guerras preventivas, como também são preventivas as ofertas de
produtos que tampouco se tinha conhecimento deles carecer, levando o sujeito ao
71
consumismo exacerbado, cujo desejo é cada vez mais estimulado pela tendência a
um padrão de comportamento social orquestrado pelas próprias redes sociais.
Dessa forma, Sennett (2011) adverte que:
Confiança, responsividade mútua, comunitarismo, todas são palavras
que acabaram sendo apropriadas pelo movimento chamado
comunitarismo.
[...] O comunitarismo tem um direito de posse bastante dúbio em
relação à confiança ou ao compromisso; enfatiza falsamente a
unidade como fonte de força numa comunidade, e teme
erroneamente que, quando surgem conflitos, os laços sociais sejam
ameaçados. (pág. 171)
O sofrimento suscitado pelo capitalismo contemporâneo agora se perpetua no
trabalho, que nos escraviza, deslocando-se da posição de fonte de prazer para a de
fonte de tanto desgaste e desprazer, ou, mais precisamente, de insatisfação e
ansiedade. Analisando o sofrimento na Loucura do Trabalho, Dejours (1980) lembra
que
[...] o sofrimento operário é dividido em dois componentes, isso não
significa que existam dois tipos distintos de sofrimento. Existe uma
vivência global cuja decifração leva à descoberta em vários aspectos.
Na vivência operária, no discurso dos trabalhadores, descreveremos
provisoriamente dois sofrimentos fundamentais organizados atrás de
dois sintomas: a insatisfação e a ansiedade. (pág. 48)
Se o fruto do trabalho mecanicista permanecesse como objetivo principal da era
industrial, e o braço do homem fosse uma extensão da máquina, hoje não mais
verificaríamos tanto sofrimento no que diz respeito à indignidade e à falta de
significação que se disfarçam através de sentimentos de inutilidade, de
desqualificação, de ansiedade e depressão no trabalho, ou mesmo dele decorrente.
Acredita-se que se continuarmos nesse quadro progressivo, até 2020 a depressão
será a segunda causa de morte no mundo, perdendo somente para as doenças
cardíacas. O trabalho que deveria ser um meio de vida passará a ser efetivamente
um meio de morte.
72
A insalubridade que se verifica na atualidade refere-se também ao sentimento
experimentado pelos operários que ainda se veem como uma continuação da
máquina e envergonham-se, e desprezam-se por isso. Hoje, é bem verdade, os
salários na área técnica das indústrias são muito maiores do que os de alguns
cargos burocráticos, pois a demanda de profissionais é consideravelmente superior,
visto que muito poucos se interessam por esse tipo de trabalho. Consertar máquinas
não mais tem importância, menos ainda operá-las, pois isso reporta os profissionais
a um sentimento de inutilidade, de incapacidade de se qualificar, o que afeta a
autoestima e atinge um sentimento de finalidade do trabalho, pois não conseguem
entender o significado do próprio ofício em relação ao conjunto de atividades da
empresa, e tampouco da família ou da sociedade em linhas gerais. O trabalhador
passa a desempenhar a simples função de provedor, quer dizer, aquele que se
sacrifica para que a família consuma e progrida, colocando seu desejo em último
plano, restando-lhe somente a depressão e o cansaço, não raro velados pelo
alcoolismo, pela drogadição e pelo adoecimento psíquico.
A
psiquiatria
aponta
a
Síndrome
Subjetiva
Pós-Traumática
como
única
objetivamente vista por ela como sendo de origem bem limitada à organização do
trabalho. Ao estudá-la, Dejours (1992) compreendeu que
“seu sentido e seu
significado não podem ser desvelados pela história passada do sujeito; residem, ao
contrário, na natureza das condições e da organização do trabalho.” (pág. 125 )
Assim, o exercício de atividades consideradas inúteis, sem investimento material ou
afetivo, exige muito esforço e uma negociação interna entre o desejo e a motivação,
a fim de que o trabalhador consiga suportar tamanha insatisfação, mantendo-se
produtivo. O mundo do trabalho requer um número cada vez maior de profissionais
motivados a produzir.
Na esteira dessa perspectiva, Sennett (2011) acredita que em lugar do homem
motivado surge o homem irônico, pois
73
a ironia é um estado de espírito em que as pessoas jamais são exatamente
capazes de se levar a sério, porque sempre sabem que os termos em que se
descrevem estão sujeitos a mudança, sempre sabem da contingência e
fragilidade de seus vocabulários finais, e portanto de seus eus. (pág. 138)
É sabido que ao selecionar seus profissionais, as empresas analisam “o melhor
profissional para o cargo” em questão; porém, talvez seja pertinente pensar,
outrossim, na possibilidade de haver uma seleção de neuroses, conforme lembra
Dejours (1987), ao afirmar que “a adaptação da relação homem-máquina e a boa
qualidade da saúde-trabalho repousam também na seleção que só retém os
sujeitos, física e psicossensorialmente, escolhidos a dedo.” (pág. 85)
O profissional que tem o trabalho como necessário pode ser um excelente
colaborador; contudo, aquele que deseja o que faz e com ele encontra-se transferido
estabelece um vínculo de comprometimento muito maior, certamente proporcional à
sua eficácia. Sem dúvida que se trata de uma definição de Negri, quando ele
compreendeu que todo trabalho necessário constitui-se em um trabalho morto, por
tratar-se de uma labuta que o sujeito leva a efeito por uma questão de
sobrevivência, como se estivesse mecanizado, sem qualquer criatividade.
Opostamente, porém, o trabalho vivo é o criativo, é aquele executado com maior
satisfação; é aquele, enfim, que acaba gerando mais comprometimento e eficácia.
Contudo, ainda assim é possível que o trabalhador que realiza um trabalho
necessário seja também um excelente profissional e consiga experimentar prazer
em sua realização.
Por outro lado, embora o sujeito se inscreva institucionalmente através de seu
produto, o trabalho, a gradativa desapropriação de seu desejo, em função da
demanda organizacional e da consequente despersonalização de sua identidade,
acarretam, com frequência, a descaracterização daquele profissional que entrou na
empresa para ocupar o lugar daquele outro que saiu, sugado e esvaziado por ela.
Mesmo sendo o trabalho uma forma possível de sublimação, em que a energia
libidinal pode ser canalizada de forma produtiva para o sujeito, a subjetividade que
concerne a essa produção precisa ser pensada, para que esse produto signifique
74
algo além do consumo e tenha a dimensão da criação do presente, através do qual
nos eternizamos, presentificando-nos em relação ao outro que, nesse caso,
representa a sociedade em que vivemos.
Mais uma vez, é Dejour (1987) que nos ilumina, quando, retornando a Marx para
investigar a alienação, retoma os manuscritos de 1844 e, a esse mesmo respeito,
comenta que:
(...) encontra na tolerância graduada segundo os trabalhadores de
uma organização do trabalho, que vai contra seus desejos, suas
necessidades e sua saúde. Alienação no sentido psiquiátrico
também, de substituição da vontade própria do Sujeito pela do
Objeto. Nesse caso, trata-se de uma alienação, que passa pelas
ideologias defensivas, de modo que o trabalhador acaba por
confundir com seus desejos próprios a injunção organizacional que
substitui seu livre arbítrio. Vencido pela vontade contida na
organização do trabalho, ele acaba por usar todos os seus esforços
para tolerar esse enxerto contra sua natureza, ao invés de fazer
triunfar sua própria vontade. Instalado o circuito, é a fadiga que
assegura sua perenidade, espécie de chave, necessária para fechar
o cadeado do círculo vicioso. (pág. 137)
Assim, é cabível afirmar que a alienação faz com que o trabalhador confunda os
próprios desejos com os desejos organizacionais, matando seu livre arbítrio e
abdicando da própria vontade. Com isso, instala-se a fadiga que o mantém
empregado, sendo esta a chave necessária para o seu aprisionamento.
Aos poucos, o que se constata é uma alienação do próprio desejo, a deflagrar o
sofrimento que marca o mal-estar do homem contemporâneo no trabalho. O
profissional que ingressa na empresa, geralmente é bem diferente daquele que
parte, o que esporadicamente é mapeado pelos setores de recursos humanos,
através de entrevistas de desligamento, para atuar na redução do sofrimento no
trabalho, embora, ainda que inabitualmente, seja levado em conta pelas empresas,
que em geral não se interessam por isso, desde que tal insatisfação não altere o
ritmo de trabalho da organização. Dejour (1987), ainda na Loucura do Trabalho,
comenta logo depois que “a organização do trabalho aí aparece como veículo da
75
vontade de um outro, a tal ponto poderosa que, no fim, o trabalhador se sente
habitado pelo estranho”. (pág. 137)
A alienação é, pois, fruto do conflito entre o desejo do profissional e o desejo do
empregador, representado pelo trabalhador e por esse mesmo poder ditado pelo
capitalismo contemporâneo. O sujeito alienado é o sujeito que não sabe sobre a
causa do seu sofrimento, desconhece as determinações inconscientes de suas
ações, não havendo necessariamente conflito. A alienação é correlativa às
identificações feitas pelo sujeito no seu percurso de vida. Aliás, a alienação ao Outro
é constitutiva.
76
4. CONCLUSÃO
A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira
como ela termina. Eu acho que o verdadeiro
ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós
deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo
disso.
Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora
de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio
de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40
anos até ficar novo o bastante pra poder
aproveitar sua aposentadoria. Aí você curte
tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se
prepara para a faculdade.
Você vai para colégio, tem várias namoradas,
vira
criança,
não
tem
nenhuma
responsabilidade, se torna um bebezinho de
colo, volta pro útero da mãe, passa seus
últimos nove meses de vida flutuando. E
termina tudo com um ótimo orgasmo! Não
seria perfeito?
Charles Chaplin
Freud (1930) considerou a relação entre as pessoas como uma das fontes de
sofrimento humano, e dessa maneira demarcou o mal-estar na civilização. Por meio
do discurso, o ‘objeto a‘ é representado assinalando a falta e configurando o malestar. Frente às exigências da civilização, o sujeito precisa renunciar às exigências
de satisfação da pulsão, que por sua vez são constantes, isto é, não cessam,
visando a estabelecer laços sociais. Todo laço social, por sua vez, inscreve um
discurso determinado pelo gozo e sobre o gozo, campo no qual o sujeito se implica.
A proposta lacaniana de que todo laço social é uma estrutura discursiva do domínio
do gozo ressalta a importância do discurso, que é da ordem de um dizer. Dessa
forma, o que é dito pelo sujeito expressa o real, elucidando seu inconsciente.
77
Conforme vimos, ao falar, o sujeito funda um fato, atua, goza! Falar dá sentido.
Logo, através dos discursos dá-se o agir humano, que Freud desdobrou em
governar, educar, psicanalisar e Lacan acrescentou o ‘fazer desejar’. O sujeito é
então marcado pelo significante e pelo gozo.
Ao elaborar Psicose e laço social, Quinet (2009) estudou os discursos dominantes
em nossa cultura, conforme propôs Lacan, considerando como resultado de tais
discursos dominantes da civilização atual esse mal-estar que grassa pela população
em geral, em todas as esferas, “do mestre, do universitário e do capitalista”. (pág.
36)
É importante ressaltar, porém, que o discurso capitalista tem a peculiaridade de não
promover laço social. Mesmo porque, sua proposta básica se circunscreve na
relação dos sujeitos com um objeto de consumo curto e rápido, que ‘vende’ a ideia
de uma satisfação plena e de uma completude inalcançável, a retroalimentar a
cadeia, gerando mais consumo e, consequentemente, mais produção. Como aqui se
mostrou, o mercado controla a oferta, regula a procura, estabelece as regras do
consumo, da produção e do desejo. O trabalho, no que lhe diz respeito, é que cria a
possibilidade e a condição para esse consumo; ele é intermediado pelo salário, que
remarca a menos-valia do trabalho, sendo, por isso mesmo, insuficiente para cobrir
o preço, no caso de se ter de renunciar à pulsão. Quanto mais se trabalha, mais se
ganha e mais se gasta, e, em sendo assim, valemos menos, ou seja, seremos
sempre insuficientes para o mercado. Consoante ao que foi visto, o desejo não se
satisfaz nunca e a busca por objetos fantásticos que prometem preencher o vazio
escravizam ainda mais os trabalhadores. Assim, as empresas buscam inovações
para se manter competitivas, de modo a aguçar o consumo, e isso chega a tal ponto
que o desejo passa a ser interativo, podendo o consumidor organizar ele próprio o
produto que há de atender às suas necessidades, isto é, àqueles que espelham os
deslizamentos dos seus desejos.
78
No capítulo intitulado “O mal-estar na Psicanálise”, examinamos os lugares onde os
sujeitos podem ocupar, para que a civilização entenda a cultura como fonte de bemestar e prazer, permitindo que os sujeitos a desejem. Para tal, pensamos a relação
existente entre cultura, trabalho, desejo e gozo, a fim de, na cultura contemporânea,
localizar onde o sujeito do desejo se situa no trabalho.
Refletimos sobre o fato de Jacques Lacan, em 1974, assim como Freud, no pósguerra, preocuparem-se com o mal-estar da civilização na modernidade.
Destacamos que foi então que se produziu a obra “Televisão”, na qual incluiu o ‘malestar’ como produto de um discurso capitalista, decorrente do discurso do mestre,
dominante na nossa sociedade. No discurso do capital, o sujeito se tornou
consumidor, cuja verdade é o capital, á medida que ele se relaciona com os objetos
de consumo são ofertados pela ciência e pela tecnologia. Trata-se de um discurso
em que o sujeito se relaciona com os tais objetos oferecidos pelo mercado
comandado pelo capital, de maneira a impedir os laços sociais. Na verdade, o
significante que prevalece no discurso capitalista é o próprio capital, estando o
sujeito reduzido à posição de um mero consumidor de objetos engendrados pela
ciência e pela tecnologia.
Vimos que a globalização – planificação do mundo numa tela de computador –
produziu sujeitos que consomem em abundância e incessantemente, demandando
um dispêndio que jamais será saciado, e cujo gozo em nenhuma ocasião será
fabricado. É que os objetos de desejo produzidos necessitam de
consumo,
porquanto representam os objetos pulsionais e assumem o posto de representantes
binários, sobre os quais o significante-mestre se desdobra.
Evidenciamos que, ao produzir, o sujeito contemporâneo deseja, mantendo essa
cadeia ativa, deslocada do ‘ser’ para o ‘ter’, desvinculada do capital que agora é
universalizado, e onde nos tornamos meros proletários do mundo. Afinal, verificamos
que trabalho produz trabalho, e assim a cadeia se mantém ativa, e o dinheiro que se
ganha é o mesmo que se gasta, fazendo a economia circular e o sistema continuar
79
perpetuando-se, sob a grande ilusão de que todos lucram e se sustentam. Quanto
mais trabalho, maior o ganho e como todos querem ganhar, todos se escravizam
cada vez mais, sobre a égide de um senhor sem rosto, caracterizado como
Capitalismo. A nação que impera é a que mais consome, e, consequentemente, a
que mais produz.
O discurso capitalista é imperativo, portanto, sem lei, regulado por uma lógica
inacessível e segregadora, na qual quem não tem não é, ‘ex-iste’3, não deseja e não
goza, é excluído da sociedade.
Assim, no capítulo caracterizado como “O mal-estar da contemporaneidade no
trabalho”, abordamos algumas evidências do mal-estar na saúde do trabalhador,
analisando como o processo de mudança ocorreu a partir do capitalismo
mecanicista e pós-mecanicista, e chegou a assumir um novo lugar para o trabalho
na contemporaneidade.
Demonstramos, de mais a mais, que o mal-estar na cultura se estende e reflete no
trabalho, onde as organizações que prosperam são as mesmas que obtêm os
melhores resultados e, inclusive, são as que melhor administram os negócios,
contrabalançando seus custos com vistas a multiplicar os benefícios. Como se viu,
tais empresas, em geral, buscam profissionais que abrem mão de seus desejos e
dedicam a maior parte de seu tempo para servi-las. Colocando o trabalho acima de
qualquer laço social, esse trabalhador passa a desejar somente as regalias que o
capital lhe pode oferecer. Assim, pode-se dizer que na contemporaneidade, o
trabalho não se resume apenas ao espaço das empresas, ao contrário, ele
reverbera por todos os momentos da vida do sujeito, qualificado hoje como
Workaholic, ou seja, o viciado em trabalho, o que leva consigo os problemas do
trabalho para onde estiver. E tal ocorre não porque sente prazer ou porque seja de
_________
3
De acordo com o Diccionario Crítico Etimológico de La Lengua Castellana, de Joan Corominas (vol.
II, Madrid: Ed. Gredos, 1976), o verbo existir é proveniente do latim ‘exsistěre’, cuja acepção era ‘sair’,
‘nascer’, ‘aparecer’ que, por sua vez, provinha de ‘sistěre’, que tinha a acepção de ‘colocar’, ‘sentar’,
‘deter’, ‘ter’. Logo, ex-sistere teria o significado de ‘colocar para fora’.
80
fato viciado, não, mas porque visa à possibilidade de alcançar o tão cobiçado
crescimento social.
Percebe-se que a tecnologia de ponta vem desenvolvendo novos mecanismos de
controle, para que os profissionais se mantenham conectados com as organizações,
‘produzindo’ desde o momento que saem da empresa até o instante mesmo em que
retornam. Algumas instituições, ademais, têm inovado suas práticas, trazendo ‘a
casa’ de seus colaboradores para o local de trabalho. Explica-se: essas
organizações permitem a seus funcionários customizar o ambiente de labor como se
fora o próprio lar, estimulam os exercícios físicos, inaugurando academias e espaços
para relaxamento, embora os trabalhadores mal disponham de tempo para usufruir
essas benesses.
Frequentemente, os profissionais que se destacam são premiados e estimulados a
se tornarem cada vez mais eficientes e eficazes, já que não basta apenas agir
corretamente, conforme os padrões estabelecidos pela empresa, mas também
resolver todos os problemas a ela relacionados, comprometendo-se com os
resultados organizacionais, administrando eles próprios a empresa, como se de fato
lhes pertencesse, colocando sua produção como se o negócio fosse efetivamente
propriedade sua.
Compreende-se que o crescimento profissional ocorre, em geral, quando o sujeito se
submete às normas, isto é, às regras e valores organizacionais. Não raro, eles
passam a propagá-los como se lhes pertencessem, e de tal forma isso ocorre, que
alguns trabalhadores chegam mesmo a organizar suas vidas e suas casas conforme
o que aprenderam que deveria ser feito na empresa. Ao se amalgamar, o sujeito
restringe a vida ao trabalho, confundindo-a com sua produção. O sofrimento
decorrente de tal desalinho costumeiramente acarreta decepção e frustração, pois a
empresa dificilmente dará ao trabalho por ele realizado o valor que ele atribui à
própria produção.
81
No capítulo “O mal-estar da contemporaneidade no trabalho”, evidenciamos o
confronto entre o bem-estar do trabalho vivo com o desejo e o mal-estar do trabalho
morto na contemporaneidade, com o gozo representando uma via do capitalismo,
em que o sujeito do desejo se submete ao desejo do Outro, que pode ser espelhado
pela empresa, pelo trabalho ou pela própria sociedade. Com isso, tentamos concluir
que o sistema capitalista passa efetivamente por um processo de mudança, a
reclamar um novo espaço para o trabalho, em prol do alcance de seus interesses. E
para entender o que afeta os sujeitos, assim como essa nova forma de interação,
evidenciamos a necessidade de se repensar esse mal-estar que emana da cultura
contemporânea.
Conclui-se, pois, ser preciso buscar uma maneira de lidar com o trabalho de forma
mais prazerosa. É possível, pergunta-se, coexistir na cultura contemporânea
sublimação e gozo no trabalho? Além do mais, a articulação entre a canalização da
energia libidinal, proposta por Freud em O mal-estar na civilização e, posteriormente,
repensada por Lacan no seminário “Televisão” designam fontes de mal-estar
questionadas pela psicanálise, à medida que o sujeito vê-se ameaçado pela
possibilidade de exclusão social, imperativo do capitalismo para aqueles que não se
adéquam aos apelos de produtividade e eficácia.
Consequentemente, trabalho e consumo se entrelaçam de tal forma, que países
como o Brasil enfrentaram, e até mesmo com certo êxito, crises econômicas que
abalaram fortemente outros países considerados gigantes econômicos, por se
acreditar que há muito mais tempo do que podíamos imaginar suas economias
já
estavam consolidadas. Isso porque há muito que tais nações, concebidas como de
‘primeiro mundo’, adotavam uma artimanha econômica embasada no simples
estímulo ao consumo-produção-trabalho.
Contudo, sabe-se hoje que para que o crescimento social seja auspicioso, é preciso
que todos se submetam à chibata do capitalismo e a ele se escravizem, alienandose ao seu desejo. E os que não abrem mão da liberdade de desejar acabam se
submetendo ao domínio de países mais prósperos, colocando- se à mercê de uma
82
economia invasora que passará a ditar as normas – normas essas que acabarão
imperando e imprimindo uma falsa dependência mediada pelo poderio dominante.
Outro aspecto interessante a ser observado nas empresas é que elas buscam
colaboradores que mantêm um padrão adequado de conduta, regido pelo mercado.
A uniformidade e a padronização de comportamento impostas pelo mercado de
trabalho fazem com que a própria produção também se torne repetitiva, bem como a
forma pela qual o trabalhador organiza e estrutura o pensamento, a argumentação e
o próprio trabalho. Há profissionais que levam consigo aquilo que desenvolveram em
outras organizações como modelo de trabalho para as demais, sem se darem conta
das características culturais organizacionais próprias de cada qual.
Procuram-se profissionais criativos para inovar a produção e causar novos desejos,
mas é sabido que esses mesmos profissionais precisam manter intactos e
inalterados os valores há muito tempo divulgados. Não obstante, a ciência busca o
saber, surgindo então profissionais que desejam conhecer, que questionam mais e
que se submetem aos ditames organizacionais por menos tempo.
Ansiedade e angústia traduzem, pois, as marcas da contemporaneidade nos sujeitos
que necessitam, com o menor esforço e o mais rápido possível, chegar ao topo para
alcançar o sucesso. Compulsões, doenças e medicalização retratam as saídas para
resolver, ou, pelo menos, para tamponar tanto mal-estar, desde que o sujeito se
mantenha produtivamente contribuindo para a preservação da cultura.
O mal-estar do sujeito jamais será bem-vindo ao mundo do trabalho, e sua
permanência há de ser sempre indesejável e, portanto, afastada do meio – quer seja
por licenciamento médico, quando justificado, quer seja por demissão – como forma
de punição por qualquer tipo de inadequação profissional. Desse modo, no sistema
capitalista contemporâneo, desemprego é a maior ameaça, pois obriga o sujeito a
lidar com a própria falta, sem poder recorrer ao consumo para tamponá-la.
83
Vimos que o mal-estar no trabalho se aloja quando o sujeito desejante se anula em
função de um mais-de-gozar social, que o demanda a abrir mão de seu desejo em
função do desejo social capitalista de produção e eficácia. E ao abrir mão do desejo,
o sujeito se assujeita ao desejo do Outro, seja esse ‘outro’ a empresa, o trabalho ou
a sociedade propriamente dita.
Entretanto, o trabalho pode, sim, ocupar um lugar de bem-estar ou de mal-estar,
dependendo de como cada um se posiciona em relação ao desejo, frente aos apelos
sociais do mundo do trabalho.
Destacamos que o trabalho vivo que surge como objeto de desejo do sujeito
encontra no mesmo sujeito a possibilidade de manter-se vivo, de permanecer ativo,
ao contrário do que pressupõe a sociedade capitalista. O trabalho como bem-estar
pode atuar como fonte de prazer quando o profissional consegue se manter como
sujeito desejante, que busca no sujeito mesmo do desejo sua própria satisfação,
independente das necessidades da empresa ou da sociedade em que vive. Dizendo
de outra maneira: como o sujeito é a personagem principal de seu próprio desejo,
ele se torna passível de desejar o trabalho e situá-lo em outro ponto. Assim, já não
mais se trata de um sujeito subserviente àquele gozo forjado e/ou outorgado pelo
sistema capitalista de produtividade e eficácia, mas, ao contrário, trata-se de um
sujeito que se empenha por encontrar no trabalho uma maneira de sublimar que lhe
seja prazerosa por desejar o que faz.
Em vez de tamponar o desejo, e contrariamente ao que se pratica atualmente,
causaria muito mais bem-estar e, consequentemente, melhores resultados para
todos suscitar a criatividade dos sujeitos, possibilitando-os canalizar a energia
libidinal para produzir algo que constitua valor para os demais.
Precisaríamos, pois, de repensar as propostas e as práticas organizacionais, de
modo a viabilizar o direcionamento pulsional para um trabalho vivo, fonte de prazer e
não somente de gozo. Com isso, a sociedade ganharia imensamente, pois os
caracteres antes corroídos, ditados por um capitalismo que ferozmente nos
84
engole, abdicaria de tanto mal-estar, produzindo sujeitos mais desejantes e
realizadores, e, quem sabe, talvez até mais produtivos.
Cabe-nos questionar, então, se interessa ao sistema capitalista incentivar e permitir
a existência de sujeitos desejantes e vivos ao produzir, ou simplesmente aceitar que
essa ‘pseudo escravidão’ se torne mais segura, visto que ela encarcera os sujeitos
tornando-os amarrados e dependentes de suas principais premissas, ou seja: o
trabalho, a produção e o consumo. Questiona-se, pois, se seria possível ao
capitalismo adotar uma outra face, que se apresentaria ao sujeito pela via do desejo,
visto que este nunca se esgota, eis a interrogação que, afinal, este trabalho nos
suscita.
6. ANEXO
SINOPSE DO CURSO
CURSO: O mal-estar no trabalho contemporâneo
CARGA HORÁRIA: 4 horas/aulas
1)OBJETIVO GERAL DO CURSO
Desenvolver nos participantes um novo olhar sobre o trabalho, levando-os a
promover o encontro do desejo dos sujeitos na realização de seus trabalhos.
2) TÉCNICAS DE ENSINO
Abordagem teórica utilizando metodologia participativa através de debates.
3) CONTEÚDO PROGRAMÁTICO
1. Introdução
2. O mal-estar na psicanálise
2.1. Trabalho e cultura
2.2. O sujeito do desejo
2.3. O mais de gozar
2.4. O sujeito do desejo no trabalho na cultura contemporânea
3. O mal-estar no trabalho na contemporaneidade
3.1. O capitalismo mecanicista
3.2. O capitalismo pós-mecanicista
3.3. O capitalismo na contemporaneidade
3.4. O mal-estar na contemporaneidade
4. Conclusão
87
6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Books: 2000. Disponível em: http://www.berggasse19.psc.br/site/wpcontent/uploads/2012/07/19133239-Sonia-Alberti-O-Discurso-Do-Capitalist-A-e-oMal-Estar-Na-Cultura-1.pdf
Acesso em: 10 fev. 2013, 18:20.
BAUMAN, Z. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora,
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BRANT, L. & MINAYO-GOMEZ, C. A transformação do sofrimento em adoecimento:
do nascimento da clínica à psicodinâmica do trabalho. Rio de Janeiro: Escola
Nacional de Saúde Pública, Fiocruz, 2003.
Cadernos de Psicanálise / Sociedade de Psicanálise da Cidade do Rio de Janeiro. A
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COROMINAS, Joan. Diccionario Crítico Etimológico de La Lengua Castellana.
Madrid: Editora Gredos, 1976. 4 vols.
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DEJOURS, C. A Loucura do Trabalho. São Paulo: Cortez Editora, 1987.
DEJOURS, C. Fator Humano. São Paulo: Cortez Editora, 2011.
DE MASI, Domenico. O futuro do trabalho. Rio de Janeiro: José Olympio Editora,
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88
DÖR, J. Introdução à leitura de Lacan: o inconsciente estruturado como linguagem.
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ELIA, L. O conceito de sujeito. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2010, Passo-apasso, V. 50.
FERREIRA,N. Jacques Lacan: apropriação e subversão da linguística, 2002, Ágora,
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FREUD, S. O Mal-estar na Civilização. Parte 1-7 (1929). In: Obras Completas. ESB.
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_______ (1927). O Futuro de uma Ilusão. In: Obras Completas. ESB. Rio de Janeiro:
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_______ (1925). A Negativa. In: Obras Completas. ESB. Rio de Janeiro: Imago
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_______ (1923). O Ego e o Id. In: Obras Completas. ESB. Rio de Janeiro: Imago
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_______ (1920). Além do Princípio de Prazer. In: Obras Completas. ESB. Rio de
Janeiro: Imago Editora, 1977, v. XVIII
_______ (1915). As Pulsões e suas Vicissitudes. In: Obras Completas. ESB. Rio de
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89
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