A expectativa dos alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA) com
relação à educação para o trabalho
Shirley Ângela da Silva1
Shirley Lopes Ferreira 2
Daniela Maria Ferreira3
Resumo
Esse estudo trata da expectativa dos alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA) com relação à
educação para o trabalho, na tentativa de observar aspectos e concepções inerentes à realidade
vivenciada pelos alunos pesquisados. Como base teórica, nos apoiamos a princípio na Leis de
Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), Lei nº 9394/96, que fundamenta essa modalidade
de ensino. Posteriormente, utilizamos o documento base da Secretaria de Educação do Estado do
Mato Grosso (SEDUC – MT), a respeito das funções e objetivos da EJA. Ainda fizemos menção aos
seguintes autores: CHIZZOTTI (1998), a respeito da pesquisa de cunho qualitativo; COURA (2008);
GUIMARÃES e DUARTE (2008); PAIXÃO (2005); e BRASIL (2001; 2009), todos nos demais
pressupostos da pesquisa. Através da observação e de entrevista semi-estruturada, pesquisamos o
módulo inicial da EJA na Escola Municipal Darcy Ribeiro, em Recife-PE. Os pontos observados nos
levaram a perceber a importância do trabalho e do processo de socialização para os dez jovens e
adultos de nosso estudo e como estes aspectos estão relacionados às suas trajetórias e de suas
famílias.
Palavras-Chave: Trabalho, Educação, Socialização, Educação de Jovens e Adultos.
1. Introdução
Essa pesquisa trata de entender “a expectativa dos alunos da Educação de Jovens e
Adultos (EJA) com relação à educação para o trabalho”. Nossa familiaridade com a Educação
de Jovens e Adultos se deu a partir das observações feitas durante a disciplina de Pesquisa e
Prática Pedagógica (PPP), surgindo desde então o interesse pela modalidade e pelos sujeitos
que fazem parte dela, em especial pelas expectativas desses alunos com relação as suas
passagens pela modalidade.
A necessidade de observar e entender questões que para os alunos da EJA são de
grande relevância, como o trabalho e a educação que lhes é oferecida foi o que nos levou a
1
Concluinte do curso de Pedagogia do Centro de Educação da Universidade Federal de Pernambuco.
[email protected]
2
Concluinte do curso de Pedagogia do Centro de Educação da Universidade Federal de Pernambuco.
[email protected]
3
Professora Adjunta do Departamento de Psicologia e Orientação Educacional do Centro de Educação da
Universidade Federal de Pernambuco, tendo sido orientadora das autoras deste artigo.
[email protected]
2
questionar a respeito de suas trajetórias sociais e culturais na tentativa de compreender as
condições objetivas que influenciam a escolarização desses alunos.
Considerando esses aspectos, esta pesquisa buscou, em termos gerais, identificar e
analisar a expectativa dos alunos da EJA com relação à educação oferecida nesta modalidade
no que diz respeito à possível modificação social ou econômica em suas vidas. De modo
específico, identificar os motivos que levam o aluno jovem e adulto a procurar a escola; listar
e avaliar o valor atribuído à educação e à escola pelos alunos da EJA; verificar a relevância do
trabalho para esses alunos e suas expectativas com relação ao trabalho, diante dos seus
recentes acessos à educação; relacionar os motivos e os valores atribuídos por eles com dados
a respeito de suas origens sociais e culturais.
A pesquisa ocorreu em uma escola municipal da cidade do Recife e foi realizada
através da utilização de entrevistas semi-estruturadas com dez alunos regularmente
matriculados na modalidade Educação de Jovens e Adultos, entre os quais, seis mulheres e
quatro homens, com idades entre quinze e sessenta e quatro anos, foram entrevistados
individualmente.
Este estudo está divido em quatro partes. Na primeira apontamos algumas
características da EJA e de seus sujeitos e as funções e objetivos da modalidade. As demais
partes, nas quais analisamos nossos dados, estão intitulados como: Quem são os alunos da
EJA, em que tratamos a relevância atribuída pelos alunos à questão do trabalho e a relação
disso com a procura por esta modalidade de ensino. Os alunos e a escolarização na família,
em que relacionamos o grau de escolaridade dos pais de nossos entrevistados, a escolarização
de seus irmãos e de seus filhos para tentar compreender o que eles esperam da Educação de
Jovens e Adultos. E por último, a socialização na EJA: expectativas dos alunos. Nessa parte
analisamos a socialização dos alunos na modalidade de ensino e, consequentemente, o valor
atribuído à escola.
Verificou-se, entre outros resultados encontrados em nossa pesquisa, que durante o
processo educacional, além do desejo de crescer profissionalmente, os alunos demonstraram
satisfação de estar na escola. Isso é decorrente do processo de socialização que acontece na
mesma.
2. A EJA: características, funções e objetivos
A Educação de Jovens e Adultos é uma modalidade de educação que está
fundamentada a partir das Leis de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), na Lei
3
nº 9394/96, sendo destinada aos alunos jovens e adultos “que não tiveram acesso ou
continuidade de estudos no Ensino Fundamental e Médio na idade própria”, fazendo parte do
Ensino Básico, mas não havendo para a EJA a obrigatoriedade existente no mesmo.
De acordo com o artigo 37, § 2º da LDBEN “O poder público viabilizará e estimulará
o acesso e permanência do trabalhador na escola, mediante ações integradas e
complementares”. Essas ações estão relacionadas aos cursos e exames que habilitarão os
alunos para a continuidade dos estudos na educação regular após sua passagem pela Educação
de Jovens e Adultos, além de considerar as características sociais deles, tais como: serem
alunos de baixa renda, trabalharem durante o dia, etc.
Uma característica bastante importante nas escolas que oferecem a EJA está
direcionada à necessidade das mesmas em ter seus horários de aula reduzidos. Em alguns
casos isso acontece pelo fato de que existem instituições de ensino situadas em áreas de risco
próximas ao tráfico de drogas, seja venda ou consumo, com riscos de assaltos, e a
comunidade escolar, na tentativa de se prevenir a esse respeito, torna o horário noturno ainda
menor que o habitual, já reduzido em comparação com os horários da manhã e tarde. Assim,
os alunos que cursam a Educação de Jovens e Adultos costumam ser prejudicados ainda nas
suas necessidades de frequentar a modalidade, pois o fazem no horário noturno, e têm as
horas reduzidas para estudar, além de alguns trabalharem durante o dia.
Neste contexto, o prejuízo ocasionado pela diminuição de carga horária recai
diretamente sobre o aluno que tem perspectivas de “melhorar de vida”, “terminar os estudos”,
“ensinar a tarefa dos filhos”, “deixar de ser ignorante”, “não precisar sujar o dedo para
assinar”. Estas são expressões usadas por alguns alunos da EJA que tivemos a oportunidade
de conhecer durante as observações da disciplina Pesquisa e Prática Pedagógica no ano de
2009 e confirmadas no atual estudo, justamente na escola na qual realizamos a pesquisa. 1
Para muitos alunos, o fato de não saber ler e escrever se constitui como algo que
“incomoda” e causa “vergonha” Existem os que acreditam que se sentiriam melhor em
conseguir apenas assinar o nome. As opiniões dos entrevistados requerem maior reflexão,
pois possivelmente não costumamos estabelecer grandes diferenças entre o analfabeto e
alguém que apenas consegue reproduzir seu nome com dificuldade. Eles, porém, se percebem
em patamares diferenciados. Sobre o assunto, Paixão (2005), em sua pesquisa com catadoras
________________________
1
Expressões semelhantes são observadas em BRASIL (2001, p.42).
4
de lixo, “estratégias de socialização: consonâncias e dissonâncias na relação escola-família”,
explica que:
Trabalhando com outros grupos sociais, o pesquisador tende a aglutinar os
indivíduos que não sabem ler e escrever no mesmo bloco. Ao analisar as
entrevistas, percebe-se que, para as entrevistadas, há outras distinções. Ter
aprendido a escrever o nome é um ganho que evita a humilhação de “assinar”
com o polegar. Para elas, há uma gradação entre ser analfabeto, saber escrever
o nome, saber ler, saber ler e escrever. A escala é outra. (p.6).
Nesse sentido, os alunos que cursam a Educação de Jovens e Adultos costumam fazêlo por motivos variados, como por exemplo, para aprender a ler e escrever; para não ficarem
sozinhos em casa (normalmente os idosos); para acompanhar algum filho ou neto; para
conversar; lanchar/jantar; por acreditarem que futuramente podem conseguir um emprego
melhor através da educação; ou mesmo pela socialização que acontece no ambiente escolar.
A esse respeito, Paixão (2005), ainda em pesquisa com catadoras de lixo, demonstra
que as mães catadoras enviam seus filhos à escola com o intuito de lhes garantir “a aquisição
de comportamentos relativos ao convívio social. Esperam que a escola ensine seus filhos a
serem “polidos”, “educados”, “saber entrar em algum lugar e dele sair” (p.10).
O fato de adquirir “bons modos” ou educação doméstica na escola mostra-se
significativo também para os alunos da Educação de Jovens e Adultos, pois mesmo não sendo
mais crianças que precisem ser “educadas” por seus professores, alguns desses alunos se
colocam também na situação de aprendizes de educação doméstica ou bom comportamento
em sociedade. Seus pais, que normalmente trabalharam desde muito cedo e tiveram prole
numerosa, nem sempre tinham condições ou tempo para investir na educação doméstica e isso
passou a ser destinado à escola a que poucos chegaram a frequentar, favorecendo a espera dos
sujeitos de nossa pesquisa por esse tipo de educação.
Isso se deve, possivelmente à questão acima mencionada e referente ao público
assistido pela EJA, já que os sujeitos que compõem a Educação de Jovens e Adultos
costumam ser alunos de baixa renda, pois a modalidade é direcionada a esse público e
também aos alunos que não tiveram acesso à educação formal na idade própria por várias
interrupções, seja por precisarem trabalhar, seja também por formarem famílias muito cedo,
dificultando suas trajetórias escolares.
O acesso à educação instituído como direito constitucional (Art.208), mostra-se
obrigatório apenas no Ensino Fundamental. No entanto, no caso da EJA, a ausência de
políticas públicas confere a mesma um caráter paliativo que não consegue erradicar o
5
analfabetismo, pois não havendo a obrigatoriedade de cursar a EJA, seu público alvo
permanece, muitas vezes, sem ter acesso à modalidade, além de influenciar na qualidade do
ensino da Educação de Jovens e Adultos.
Esses sujeitos normalmente costumam trabalhar em ocupações não qualificadas, mal
remuneradas e muitas vezes adquirindo um caráter marginal perante a sociedade, como é o
caso de ambulantes, vendedores nas ruas e calçadas, ou mesmo de profissões “reconhecida
socialmente” mais que estão diretamente ligadas a moradores de bairros pobres e
marginalizados e que devido as suas situações financeiras, possivelmente são privados
também de bens culturais. E é nesse contexto que a Educação de Jovens e Adultos está
inserida, para atender a esses trabalhadores.
A EJA é uma modalidade de ensino que, a princípio, possui três funções básicas:
reparadora, que prevê a inserção do aluno jovem e adulto no meio escolar, inclusive
oferecendo ensino de qualidade; a função equalizadora, que prevê oportunidades iguais para
todos, inclusive tendo “acesso a novas formas de trabalho e cultura”; e a função qualificadora
que está ligada à “educação permanente, com base no caráter incompleto do ser humano” e
sendo esta “mais que uma função, é o próprio sentido da educação de jovens e adultos”.
(SEDUC – MT, 2005, s/ p.)
Nesse sentido percebemos o seu direcionamento para o mercado de trabalho como é
objetivado em documento da Secretaria de Educação do Estado do Mato Grosso (SEDUC –
MT). Segundo o referido documento os objetivos são:
Promover a inclusão social e a inserção no mercado de trabalho de jovens e
adultos que não tiveram acesso à educação na idade própria, proporcionar
condições para que essa parte da população construa sua cidadania e possa ter
acesso à qualificação profissional, aumentar as taxas de escolarização. (2005,
s/ p.)
No entanto, na Educação de Jovens e Adultos oferecida pelo poder público não se
percebe a articulação com a educação profissional, o que seria indispensável para que a
maioria dos alunos pudesse encarar a EJA como via de mobilidade social. Porém, dada a falta
de articulação mencionada, o foco, pelo menos no módulo inicial observado, está no processo
de aprendizagem da alfabetização. Por que então alguns alunos acreditam que estudar vai
fazê-los ascender socialmente? Que mecanismos culturais estão atrelados à ideia de que
“estudar faz crescer”?
A esse respeito, e comprovando a observação acima, Maria, 63 anos, aluna da EJA na
Escola Municipal Darcy Ribeiro, que conversou conosco ainda durante as observações de
6
Pesquisa e Prática Pedagógica no ano de 2009, diz: “Quando eu vejo as pessoas „se dando
bem‟ nos estudos e conseguindo um „bom emprego‟, que „ganhe bem‟, dá vontade de estudar
muito para „crescer na vida‟ também. Tenho fé em Deus que vou fazer uma faculdade. Vou
ser assistente social”.
A prerrogativa da mudança de vida tão sonhada por muitos se constitui como impulso
para que esses alunos continuem sua trajetória escolar. Há a esperança de que ao se tornarem
alfabetizados, consigam um trabalho melhor; ou até uma profissão na qual tenham ousado
sonhar. Tudo se passa como se a frequência na EJA tornasse as dificuldades socioeconômicas
menores e continuar os estudos até a universidade se constitui em algo mais provável.
3. Delineamento Metodológico
Nossa pesquisa ocorreu na Escola Municipal Darcy Ribeiro que funciona a treze anos.
A instituição possui quinze salas de aula, sala de informática, cozinha, refeitório, área de
circulação descoberta, quatro banheiros, biblioteca, sala da diretoria, sala dos professores,
secretaria e oferece o Ensino Fundamental I e EJA, módulos I, II e III, ficando de fora, nesta
escola, o módulo IV, que junto com os anteriores correspondem ao Ensino Fundamental I e II.
No setor administrativo conta com uma gestora, vice-gestora e secretárias. A escola funciona
nos turnos da manhã, tarde e noite em prédio próprio, construído para este fim, ficando
localizada no Bairro do Cordeiro, em Recife-PE.
Em nossa pesquisa foram entrevistados 10 alunos regularmente matriculados na
modalidade de ensino, Educação de Jovens e Adultos, que funciona no período noturno.
Observamos alguns momentos de socialização entre os alunos e os profissionais desta
modalidade de educação ainda na disciplina de Pesquisa e Prática Pedagógica, que nos ajudou
para que hoje pudéssemos desenvolver nossa pesquisa juntamente com as nossas entrevistas,
onde verificamos a opinião dos nossos entrevistados a respeito de temas como, o trabalho e
sua importância; a educação e as expectativas deles, agora que estão se inserindo no mundo
letrado; e suas trajetórias familiares.
A pesquisa, de abordagem qualitativa, nos permitiu trabalhar melhor os resultados
que obtivemos, na tentativa de compreender como se processavam os pressupostos de nossa
investigação. A respeito da pesquisa qualitativa, Chizzotti (1998) explica:
A abordagem qualitativa parte do fundamento de que há uma relação
dinâmica entre o mundo real e o sujeito, uma interdependência viva entre o
sujeito e o objeto, um vínculo indissociável entre o mundo objetivo e a
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subjetividade de sujeito. O conhecimento não se reduz a um rol de dados
isolados, conectados por uma teoria explicativa; o sujeito-observador é parte
integrante do processo de conhecimento e interpreta os fenômenos,
atribuindo-lhes um significado. O objeto não é um dado inerte e neutro; está
possuído de significados e relações que sujeitos concretos criam em suas
ações. (p.79).
Dessa forma, ao observarmos os momentos de socialização e entrevistarmos os alunos
pesquisados pudemos verificar essa relação citada por Chizzotti (1998) e suas implicações em
nosso processo de análise dos dados coletados. As entrevistas foram do tipo semi-estruturada
e
tiveram como pontos principais: conhecer o perfil desses entrevistados; os valores
atribuídos à educação, os motivos que os levaram a frequentar a escola na modalidade de
EJA, buscando cruzar os dados para analisar as relações existentes entre a escolarização da
família desses alunos e sua interferência nas expectativas que eles têm no que diz respeito aos
estudos.
Esse tipo de abordagem fez-se necessária para direcionar os assuntos referentes aos
objetivos desse estudo, de modo que não se tornasse também um sistema de perguntas
fechadas, sem margem a outros possíveis e relevantes questionamentos relacionados ao
contexto de cada aluno, sujeito de pesquisa.
Para a realização do referido estudo foram necessárias três visitas à escola. A escolha
da turma para nossas entrevistas foi feita aleatoriamente com os alunos que estavam presentes
e que se dispuseram a participar. Foram 10 estudantes entrevistados, numa sala na qual estão
matriculados 46 alunos, com 25 frequentando regularmente e os demais, são 21, prováveis
desistentes. Porém no primeiro dia de nossas visitas, havia 12 presentes.
Ao chegarmos, os alunos já haviam realizado uma atividade escolar por recomendação
da professora. As entrevistas foram realizadas em sala de aula, individualmente e com certa
distância entre um aluno e outro para não ocorrer interferência nas respostas de cada
entrevistado. Antes de iniciarmos com as perguntas, propusermos a gravação das entrevistas
com o uso de um MP3, mas os alunos não concordaram e tivemos que tomar nota das
informações.
Os sujeitos entrevistados são adultos, em sua maioria, com idades entre 15 e 64 anos.
Foram utilizados nomes fictícios para identificar os participantes que serão representados por:
César, 15 anos; Wiliam, 15 anos; André, 29 anos; Leonardo, 31 anos. Sendo estes os mais
jovens. As demais, mulheres: Luzia, 40 anos; Marieta, 47 anos; Sofia, 48 anos; Antônia, 57
anos; Selma, 61 anos; Marta, 64 anos.
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4. Quem são os alunos da EJA
A educação de jovens e adultos, modalidade de ensino na qual ocorreu nossa pesquisa,
tem por característica marcante a evasão escolar. Essa evasão é provocada, sobretudo, pela
necessidade de cumprir com as obrigações de sobrevivência. O ingresso precoce no mundo do
trabalho influenciou alguns dos alunos pesquisados a abandonar a escola ainda crianças ou
jovens.
No caso de algumas alunas, essa evasão se deu na juventude porque constituíram
família e precisaram cuidar dos filhos. A evasão também se processou para alguns, depois do
ingresso na EJA, sendo uma característica recorrente a cada ano. No caso da turma
pesquisada, dos 46 alunos matriculados apenas 25 estão chegando ao final do módulo I, o que
comprova o problema da desistência.
Associado ao fato de se ter começado a trabalhar muito cedo, está o fator idade como
questão considerada pelos alunos para planejar seu futuro e suas metas. A idade é relevante
para o aluno da Educação de Jovens e Adultos, pois o permite „controlar‟/ direcionar suas
expectativas com relação ao seu futuro nos próximos módulos da EJA e após sua passagem
por esta modalidade de ensino.
Os alunos mais jovens costumam ter maiores expectativas com relação à educação e
normalmente almejam um futuro mais promissor, a saber, a inserção no mercado de trabalho.
Para os mais velhos, sobretudo os aposentados, a expectativa principal é outra. Ela está
relacionada à aquisição de conhecimentos básicos, como ler e escrever, já que mencionam a
idade avançada como um empecilho para desejar algo mais que apenas se alfabetizar.
Contudo, aprender a ler e escrever é importante para que essas pessoas possam ter maior
autonomia em suas vidas, como por exemplo, o simples fato de pegar um ônibus, ler uma
placa, etc. As falas abaixo traduzem a relação entre a idade dos alunos e suas expectativas:
Quero aprender a ler a escrever, arrumar um emprego. (Wiliam, 15 anos).
Quero passar no concurso da polícia civil. (César, 15 anos).
Quero aprender a assinar o nome, saber pegar ônibus, ler as placas dos ônibus.
É muito feio você está numa parada e pedir para alguém ler a placa do ônibus.
Já passei muito por isso. (Marieta, 47 anos).
Quero continuar aprendendo mais, para não depender de ninguém. (Sofia, 48
anos).
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A pesquisa de Coura (2008) “Entre medos e sonhos nunca é tarde para estudar: A
terceira idade na educação de Jovens e Adultos” mostra como a idade pode interferir na
formação dos sonhos dos alunos com idades mais avançadas presentes na EJA, por eles
acreditarem que pelo fato de estarem velhos não podem almejar a realização de seus sonhos
“Ao envelhecerem, muitas pessoas chegam a creditar que realizar seus sonhos não é mais
possível, que o tempo que tem pela frente não séria suficiente para concretizar seus desejos”
(p. 2). Em concordância com o que afirma a autora, isso é presente no meio de nossos dez
entrevistados, pois os alunos mais jovens (César e William, 15 anos; André, 29 anos;
Leonardo, 31 anos) têm maiores expectativas comparadas as das alunas mais velhas (Luzia,
40 anos; Marieta, 47 anos; Sofia, 48 anos; Antônia, 57 anos; Selma, 61anos; Marta, 64 anos).
Percebemos a observação da Coura (2008) presente na fala de muitos dos
entrevistados, principalmente dos mais velhos quando enfatizam que não podem alcançar
muito mais do que ler e escrever e atribuem suas expectativas à questão da idade, vista como
empecilho para desejar sonhos maiores.
Dessa forma, os alunos da EJA até desejam algo maior para seu futuro, mas costumam
fazê-lo com cautela, já que consideram que têm pouco tempo para viver e tentar realizar o que
realmente almejam. Talvez numa tentativa de não se frustrarem, acreditam que o que der
tempo para fazer, será feito. Assim também costumam pensar os adultos de nossa pesquisa,
como podemos perceber na fala de Selma, ao dizer que quer “[...] aprender a ler, escrever... Já
„tô‟ perto de morrer, não vou fazer mais nada. Já „tô‟ velha, não dá tempo de fazer vestibular,
crescer.” Mesmo assim, essa senhora ainda acredita que a educação vai mudar sua vida.
4.1. Os alunos e a escolarização na família
Uma das principais causas da entrada precoce no mercado de trabalho está ligada às
dificuldades financeiras presentes na realidade dos sujeitos de nossa pesquisa desde a
infância. Estas dificuldades somadas ao grau de escolaridade dos pais, dos irmãos e dos filhos
dos nossos entrevistados ajudam a compreender o que os alunos esperam da Educação de
Jovens e Adultos. Assim, podemos observar no quadro 1 da página seguinte:
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Quadro 1- Características dos entrevistados
Nome
Lugar de
origem
Idade
César
Recife-PE
15 anos
Wiliam
Recife-PE
15 anos
André
Glória do
Goitá-PE
29 anos
Leonardo
Recife-PE
31 anos
Luzia
PaudalhoPE
Marieta
Recife-PE
Profissão
Ocupação
Objetivos
escolarização dos
pais
Pai: autônomo
alfabetizado;
Fazer concurso
Mãe: doméstica
da
policia civil.
Lavador de carro
alfabetizada.
Pai: conserta
Estudar para
cadeiras; Mãe:
arrumar um
doméstica.
Estudante
emprego melhor,
Ambos sabem ler e
comprar uma
não escrevem bem.
casa melhor.
Pai: comerciante que
cursou1º ano do
Abrir um
Ensino Médio;
Vigilante
negócio próprio.
Mãe: agricultora
analfabeta.
Pai: motorista que
concluiu o ensino
médio;
Arrumar um
Biscateiro
Mãe: cozinheira que
trabalho melhor.
concluiu o Ensino
Fundamental I.
40 anos
Pais analfabetos e
agricultores
Dona de Casa
Abrir o próprio
negócio (salão de
beleza).
47 anos
Pai: pedreiro
analfabeto;
Mãe: dona de casa
alfabetizada.
Doméstica
Fazer curso de
cozinheira ou
confeiteira.
Mãe: pescadora
analfabeta
Sofia
Recife-PE
48 anos
Antônia
Feira NovaPE
57 anos
Selma
Itambé-PE
61 anos
Pais: agricultores
analfabetos
Cozinheira
Marta
Águas
Belas-PE
64 anos
Pais: agricultores
analfabetos
Aposentada
Pais: agricultores
analfabetos
.
Desempregada
Doméstica
aposentada
Não depender de
ninguém;
arrumar um
trabalho.
Aprender a ler e
escrever para
pegar ônibus e
assinar o nome.
Aprender a ler.
Acha feio
quando as
pessoas que não
sabem ler são
chamadas de
analfabetas
Maior
recuperação da
saúde
11
Ao observar o quadro na página anterior, Antônia, 57 anos, filha de pais analfabetos,
acredita que a grande contribuição da Educação de Jovens e Adultos em sua vida é aprender a
ler para poder pegar ônibus e assinar seu nome. Algo semelhante acredita Selma, aos 61 anos,
filha de pais também analfabetos, e que se aborrece quando as pessoas pedem para que leia e
ela não consegue. Nestes casos, aprender a ler e escrever são os maiores bens que elas podem
adquirir na EJA, na opinião das mesmas.
Já para os alunos cujos pais tiveram o mínimo acesso ao universo letrado, o que
possibilitou para alguns o ingresso na escola, mesmo tendo evadido posteriormente, a
expectativa para o ensino da EJA vai além da aquisição da leitura e escrita. Leonardo, 31
anos, cujo pai concluiu o ensino médio e a mãe, o Ensino Fundamental I, pretende depois da
conclusão da EJA “arrumar um emprego melhor”. Expectativa semelhante tem Wiliam, 15
anos, filho de pais que sabem ler, pretende estudar para “arrumar um emprego melhor e
comprar uma casa melhor.”
Ainda com relação à escolarização da família, o nível escolar dos irmãos de alguns
sujeitos de pesquisa, constituiu-se como importante incentivo para esses alunos buscarem a
educação na modalidade EJA, mesmo que muitos dos entrevistados não tenham informações
sobre seus irmãos ou seus graus de escolarização. No caso específico de André de 29 anos,
vigilante, filho de pai que estudou até o 1º ano do ensino médio, além do pai ter tido acesso à
escola, informou que possui três irmãos dos quais, uma é estudante de medicina, outro é
policial civil e outro estudante e possui negócio próprio. A familiaridade que este aluno
possui com a escola, já que quando criança concluiu o Ensino Fundamental I no interior do
estado, ajuda-o a acreditar na possibilidade de abrir seu próprio negócio e até mesmo criticar
o curso e o sistema escolar. Como explica:
Eu parei de estudar „pra‟ trabalhar. Fiz até a 4ª série, mas esqueci quase tudo,
doze anos sem estudar... Agora o trabalho exige que eu tenha mais estudo. [...]
Eu quero estudar, melhorar de vida, só que eu acho que aqui (capital) fica
difícil, porque o ensino é muito fraco. Eu quero trabalhar „pra‟ mim. [...] Meus
irmãos estudaram. Um é policial civil e outro é comerciante e estuda, e minha
irmã é estudante de medicina [...] Sinceramente, acho que com a educação que
estou tendo... O professor tem que “puxar” pelo aluno e eu não vejo isso. Às
vezes eu penso em pagar a alguém „pra‟ me ensinar. (André, 29 anos).
Aliada à escolarização dos pais e dos irmãos dos alunos pesquisados, a escolarização
de seus filhos também influencia nas expectativas dos entrevistados em relação à Educação de
Jovens e Adultos. Alguns desses filhos incentivam seus pais a ingressar ou retornar à escola.
Pelo fato de estarem tendo acesso à educação, suas proles, que conhecem de perto os
12
problemas e as dificuldades de seus pais com relação aos seus baixos graus de escolarização
ou ao analfabetismo presente, procuram instigar esses pais a se matricular e prosseguir com os
estudos. Podemos perceber isso na fala de Luzia, 40 anos, cujos quatro filhos frequentam
regularmente os Ensinos Fundamental e Médio:
Eu sempre quis estudar, mas tive que trabalhar, depois casei e tive quatro
filhos. Agora eles já são grandes, estão estudando... Eu me matriculei por
causa dos meus filhos que me incentivaram a estudar. (Luzia, 40 anos).
Dessa forma, percebe-se que a escolarização dos filhos pode impulsionar seus pais
para que estes se dediquem ao que muitos alunos da Educação de Jovens e Adultos almejaram
por vários anos de suas vidas, mas que apenas agora podem realizar: sua inserção no mundo
letrado.
Apesar de alguns dos entrevistados terem permanecido por muitos anos longe do
universo escolar, não desejam que seus filhos tenham a mesma realidade. A este fato pode-se
associar a questão da obrigatoriedade do ensino fundamental, como fator da escolarização de
seus filhos, pois as famílias dos alunos pesquisados, normalmente de baixa renda, necessitam
do auxílio do governo através do programa assistencial Bolsa Família. Esse programa
corresponde a uma complementação da renda familiar, sendo este auxílio adquirido mediante
a frequência dos alunos às aulas, o que faz com que nossos entrevistados assegurem a
assiduidade dos filhos na escola para garantir o referido benefício.
É possível acompanhar que, uma vez incentivados por seus filhos, os entrevistados
também passam a alimentar o prolongamento da escolaridade das suas proles. Dessa forma,
existe uma reciprocidade de estímulos entre pais e filhos. Os pais querem que seus filhos
estudem para que a família consiga ter um futuro mais promissor. E os filhos instigam os pais
ao retorno ou busca da educação por estarem tendo contato com a educação formal instituída
na escola, como pressupõe as imposições da vida em sociedade.
Esse fenômeno também é observado por Paixão (2005) em sua pesquisa “Estratégias
de Socialização: Consonâncias e dissonâncias na relação escola-família". A autora, ao analisar
as estratégias de socialização da realidade de mães catadoras de lixo, a respeito do desejo de
escolarização de seus filhos, observa na fala de uma dessas mães que, mesmo considerando
suas condições sociais, acredita que a escola provavelmente permitirá a realização de certos
sonhos com relação ao nível escolar da sua prole. Isso acontece também por não conhecerem
bem o sistema escolar, como afirma a própria autora:
13
Como conhecem pouco o sistema escolar e a relação entre emprego e
requisitos escolares, suas expectativas não contemplam certificações
específicas. O diploma superior, mas como sonho irrealizável, apareceu em
apenas um discurso, acompanhado de reflexões realistas sobre sua viabilidade.
“Muitas vezes vai das condições. Porque às vezes a gente quer uma coisa, mas
num tem condições pra aquilo. Mas se fosse assim um caso, por exemplo, d‟eu
poder manter os meus filhos, eles estudariam até se formarem. Eu formaria
eles um advogado, um médico, entendeu?” (p. 7, 8).
O investimento na escolarização dos seus filhos também se explica pela tentativa de
nossos entrevistados de garantir um destino diferente do que têm grande parte dos jovens que
habitam próximo ao local onde residem. Esse medo também é recorrente na pesquisa de
Paixão (2005) com mães catadoras, pois “quase todas expressam o medo de que os filhos
caiam na vida de “bandidagem”, que se tornem “um cara da vida”” (p. 10).
Esse investimento se dá também em função da satisfação que os alunos pesquisados
sentem em ver que seus filhos estão estudando ou fazendo cursos que possam ajudá-los no
âmbito profissional ou cognitivo, como relata Luzia quando se refere aos filhos, todos
estudantes, e à filha que estuda e já fez vários cursos: “Meus filhos estão estudando. Dois
fazem o 1º grau e um faz o 2º grau. São inteligentes [...] Minha filha já fez curso de
cabeleireira, de computação... e estuda o 2º grau.” (Luzia, 40 anos, quatro filhos). Essa
satisfação revela-se bastante comum entre nossos entrevistados, que se sentem realizados
através de seus filhos.
Nesse contexto, muitos dos alunos participantes de nossa pesquisa atribuem à escola
sentidos semelhantes também ao comportamento social e educação doméstica, como “saber se
expressar”, “falar corretamente”, “ser educado com os outros”, “aprender a respeitar”.
Contudo, alguns acreditam que através da Educação de Jovens e Adultos poderão melhorar
suas vidas e de seus familiares, visto que a educação para estes pode promover uma
determinada mudança na vida futura. (entrevista, setembro de 2011).
Alguns entrevistados também opinam que a escola tem o cunho formativo,
considerando o aprendizado do aluno. Delegam à escola atitudes de “ensinar”, “incentivar o
aluno”, “ajudar a melhorar de vida” e também se referindo à educação que os conduza a um
trabalho, que, na verdade é desejo de muitos. (entrevista, setembro de 2011).
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4.2. A socialização na EJA: expectativas dos alunos
Associado à escolarização da família extensa, é importante considerar o aprendizado
dos alunos da EJA no módulo inicial desta modalidade de ensino. No decorrer deste primeiro
ano de contato com a educação oferecida a eles, é crucial entender que o que os alunos
conseguem aprender no módulo I servirá também como impulso para quererem continuar suas
trajetórias escolares. A partir do momento no qual tentam aprender a ler e escrever, almejando
um futuro profissional relativamente melhor do que estão tendo agora, e não veem isso
acontecer com a “rapidez” necessária, torna-se desestimulante continuar na “incerteza”, não
havendo motivação para a permanência deles na escola. Essa motivação necessária é buscada,
então, nos momentos de socialização.
A socialização dos alunos se inicia desde a chegada à escola, a partir do momento em
que encontram com os colegas e seguem até a cantina para jantar, antes do início da aula. Esta
é a hora em que eles se reúnem ao redor das mesas, em pequenos grupos e ficam conversando
até o momento de entrarem na sala. Já nas salas, iniciam as atividades da noite e quem
termina mais rápido passa a ajudar os que ainda não concluíram a tarefa proposta pela
professora, aumentando, assim, os períodos de interação entre os alunos.
A satisfação em estar na escola, descobrindo novas coisas, aprendendo aos poucos a
ler e escrever, vendo os colegas de outros módulos e sentindo-se mais estimulados a continuar
reforça o desejo de se alfabetizar e continuar cursando a Educação de Jovens e Adultos,
considerado o recorrente problema da evasão nessa modalidade de ensino, como explica a
aluna Sofia:
Eu me matriculei aqui no ano passado, mas desisti logo. [...] Tenho vontade de
aprender, não depender de ninguém. [...] Quando a gente vê os colegas
aprendendo, passando de série, fica com vontade de aprender mais. (Sofia, 48
anos).
Alguns alunos mostraram-se surpresos com o que estão conseguindo aprender na EJA,
e se dizem satisfeitos por frequentar a escola, pois obtiveram não apenas o benefício de
aprender a ler e escrever, mas fizeram amizade com os colegas e com os profissionais da
educação. Os idosos comentam que não precisam ficar em casa, à noite, vendo televisão, pois
agora vão à escola nesse horário. Para estes, o caráter de socialização que acontece na turma
de Educação de Jovens e Adultos, os traz satisfação em estar ali, tendo contato com pessoas
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de idades e interesses diferentes, mas com a vontade comum de aprender a ler e escrever,
porém mostrando através de suas falas, a socialização na escola:
Eu em casa, essa hora, „tava‟ sem fazer nada. Eu não gosto de televisão.
(Marta, 64 anos).
„Pra‟ mim, é um divertimento vir „pra‟ escola. (Selma, 61 anos).
A esse respeito, Guimarães e Duarte (2008) em sua pesquisa “Jovens da Educação de
Jovens e Adultos (EJA): escola e o trabalho na mediação entre o presente e o futuro”
apresentam que, um coordenador pedagógico participante do estudo “considera natural o
espaço escolar ser mais aproveitado para a socialização do que para o ensino e aprendizagem”
(p. 5), confirmando a importância da escola no processo de socialização vivenciado pelos
alunos.
De fato, o problema do horário noturno oferecido principalmente aos que trabalham
durante todo o dia e ainda não concluíram seus estudos, sejam eles, fundamental, médio ou
superior, tenta compensar a necessidade de iniciação ou complementação da educação. Por
causa desse problema, de cunho político, social e econômico, tenta-se, de certa maneira
oferecer uma oportunidade de ensino, mas em defasagens quantitativa e qualitativa em relação
às classes diurnas. Nos casos dos alunos da EJA, este é o único horário de funcionamento, não
dando opções de escolha aos aposentados e jovens menores de idade que ainda não trabalham.
Talvez por isso, o espaço seja percebido por alguns, como local de socialização. A esse
respeito, os alunos explicam que:
Olhe, eu gosto muito de estar aqui. A gente conversa, faz tarefa em grupo... É
muito bom. (Marta, 64 anos).
Eu venho „pra‟ cá, vejo os colegas, faço as tarefas... Eu gosto. (Sofia, 48
anos).
O contato social é importante entre os alunos que formam um grupo de pessoas que
não se envergonham tanto diante uns aos outros, pois o mundo letrado é preconceituoso com
quem não atende as suas exigências, não se enquadra nos seus padrões. O único preconceito
percebido foi observado com relação à idade, na fala de Marta, de 64 anos, ao dizer que “a
pessoa „pra‟ se educar depois de idoso é mais complicado. Demora mais „pra‟ aprender.”
Diante da opinião de Marta, podemos esperar que entre os alunos de EJA mais velhos,
possivelmente podem existir perspectivas semelhantes à fala de nossa entrevistada, mesmo
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que em nossa pesquisa nenhum outro aluno tenha demonstrado isso. Nesse contexto
percebemos o processo de socialização como algo que contribui para a permanência e o gosto
pela escola. Isso reforça a vontade de prosseguir com os estudos na tentativa de realizar seus
sonhos atuais e levando-os, no futuro, a ter objetivos maiores.
5. Considerações Finais
A ideia de melhoria de vida em decorrência de um possível crescimento
cognitivo/intelectual após o acesso ao mundo letrado é bastante comum entre os alunos. E, a
partir dessa evolução galgar uma oportunidade profissional que os retire da situação social,
econômica e cultural em que se encontram. Acreditam que através do processo de
alfabetização, as etapas de ensino-aprendizado sigam acontecendo até culminar num emprego
melhor, no sonho do negócio próprio ou da profissão desejada. Porém, no decorrer dessa
sequência eles encontram na escola, pessoas procurando as mesmas coisas e oportunidades.
Pessoas que saem todas as noites de suas casas para encontrar os colegas e conversar.
Portanto, reiteramos a importância da socialização vivida pelos alunos da EJA no ambiente
escolar, pois além de aprender a ler e escrever, os momentos de interação são considerados
para eles, de grande valia.
Em nossa pesquisa foi possível perceber que os valores atribuídos pelos alunos à
educação e sua relação com o mundo do trabalho estão, em suas opiniões, na oportunidade
que aquela pode fornecer para os que realmente prosseguirem com os estudos, mesmo que as
expectativas se diferenciem proporcionalmente a idade de cada. Mas, vale salientar, que
mesmo com as diferenças de idades, as expectativas resistem apesar de todas as dificuldades
existentes.
Esse estudo serviu para mostrar os problemas da EJA e as dificuldades educacionais
pelas quais passam esses alunos, além da necessidade de incentivo (normalmente por parte de
familiares, através das suas escolarizações) para sua permanência na escola, influenciando,
consideradas também as idades dos alunos, as suas metas educacionais. As expectativas dos
alunos com relação aos objetivos desse artigo, provavelmente serão diferentes ao chegarem ao
último módulo da Educação de Jovens e Adultos, favorecendo uma pesquisa futura em
continuação a esta.
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Referências
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Curricular do ensino fundamental – 1º segmento. 2001. Disponível em: < http://forumeja.org.
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SEDUC – MT. Secretaria de Estado de Educação. Governo do Estado de Mato Grosso.
Superintendência de Ensino e Currículo. Educação de Jovens e Adultos. 2005; Disponível em:
< www.seduc.mt.gov.br/download_file. php? id = 501 &parent=56 > Acesso em: 20/06/2011.
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A expectativa dos alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA