Universidade Federal do Rio de Janeiro Instituto COPPEAD de Administração Erika Alves Ferreira A INTERNACIONALIZAÇÃO DE EMPRESAS EMPREENDEDORAS BRASILEIRAS DO SETOR DE SOFTWARE: o caso da IDXP Rio de Janeiro 2013 Erika Alves Ferreira A INTERNACIONALIZAÇÃO DE EMPRESAS EMPREENDEDORAS BRASILEIRAS DO SETOR DE SOFTWARE: o caso da IDXP Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós Graduação em Administração, Instituto Coppead de Administração, Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Administração. Orientador: Renato Cotta de Mello, D.Sc. Rio de Janeiro 2013 Ferreira, Érika Alves. A Internacionalização de empresas empreendedoras brasileiras do setor de tecnologia da informação: o caso da IDXP. / Érika Alves Ferreira. -- Rio de Janeiro: UFRJ, 2013. 120 f.: il.; 30 cm. Orientador: Renato Cotta de Mello. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto COPPEAD de Administração, 2013. 1.Estratégia empresarial. 2. Internacionalização - Brasil. 3. Administração – Teses. I. Mello, Renato Cotta de. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto COPPEAD de Administração. III. Título. Erika Alves Ferreira A INTERNACIONALIZAÇÃO DE EMPRESAS EMPREENDEDORAS BRASILEIRAS DO SETOR DE SOFTWARE: o caso da IDXP Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós Graduação em Administração, Instituto Coppead de Administração, Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Administração. Aprovada em: _______________________________ _______________________________________ Renato Cotta de Mello, D.Sc. – COPPEAD/UFRJ _______________________________________ Ângela da Rocha, Ph.D. – PUC – Rio de Janeiro _______________________________________ Ariane Cristine Roder Figueira, D. Sc. – COPPEAD/UFRJ AGRADECIMENTOS Agradeço, em primeiro lugar, ao meu orientador, professor Renato Cotta de Mello, pelo suporte, incentivo e por estar sempre presente durante o desenvolvimento deste trabalho. Agradeço ao empresário e empreendedor Cristiano Monte Mór Paranhos, da IDXP, pela disponibilidade e abertura em conceder entrevista para esse trabalho, oferecendo as informações necessárias para sua realização. Agradeço aos colegas de Mestrado pelo apoio, pelas trocas de aprendizados, pelas caronas até a Coppead e por esses dois anos de convivência. Em especial àqueles que compartilharam aritigos e conhecimentos que colaboraram para este estudo. Agradeço também a todas as pessoas próximas a mim, familiares e amigos, que contribuíram de forma direta ou indireta, para a realização deste trabalho. RESUMO FERREIRA, Erika Alves. A Internacionalização de empresas empreendedoras brasileiras do setor de software: o caso da IDXP. Rio de Janeiro, 2013. Dissertação (Mestrado em Administração) – Instituto COPPEAD de Administração, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2013 Este trabalho investiga as características e principais fatores de influência que levam uma empresa empreendedora brasileira de tecnologia da informação a se internacionalizar já nos seus primeiros anos de vida. Para tanto, foi realizado um estudo de caso da startup brasileira IDXP, empresa de analytics comportamental do varejo, que antes mesmo de obter retorno financeiro já estava presente em três países. O processo dessa empresa foi examinado à luz das teorias tradicionais sobre a internacionalização de abordagem comportamental - nesse caso, as teorias de Uppsala e Redes – além do Empreendedorismo Internacional e estudos sobre o fenômeno Born Globals. Os resultados indicam que as proposições teóricas que versam sobre empreendedorismo internacional e born globals são úteis para compreender o processo e de internacionalização dessa empresa, assim como os seus fatores de influência; mas as teorias tradicionais também oferecem alguns elementos que ajudam a explicar as tomadas de decisão ao longo do processo observado. Palavras-chave: 1. Estratégia empresarial. 2. Internacionalização - Brasil. 3. Administração ABSTRACT FERREIRA, Erika Alves. The internationalization of Brazilian entrepreneur firms from software industry: case IDXP. Rio de Janeiro, 2013. Dissertation (Master of Business Administration) – COPPEAD Graduate School of Business, Federal University of Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2013. This study investigates the main characteristics and influence factors that lead a Brazilian IT new venture into a internationalization process since the early stages of its lifecycle. To illustrate this, we develop a case study about the Brazilian start-up IDXP, a retail behavior analytics company. Before reaching financial revenues, IDXP had part of its operations in three different countries. We examined IDXP internationalization process based on traditional internationalization theories with behavior approach – in this case, Uppsala and Network Theory -, and explored the literature about International Entrepreneurship and studies on Born Globals phenomenon. The results show that theoretical propositions about international entrepreneurship and born globals are useful to understand this company’s internationalization process and influence factors. On the other hand, the traditional theories are also able to offer insights that help to explain the decision making behind the internationalization process. Keywords: 1. Corporate strategy. 2. Internationalization - Brazil. 3. Business administration LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 – Número de empresas da IBSS. (Softex, 2009, p. 30).............................. 21 Figura 2 – Distribuição das empresas da IBSS por região de localização da sede – 2005. (Fonte: Softex, 2009, p. 33). ............................................................................ 21 Figura 3 – Distribuição das empresas de IBSS e do Total Brasil, considerando faixa de tempo de permanência no mercado - 2005. (Softex, 2009, p. 66) ....................... 22 Figura 4 – Posicionamento da inovação na lista de prioridades estratégicas das empresas. (Fonte: Softex, 2009). .............................................................................. 30 Figura 5 - Modelo de Uppsala. (Adaptado de Johanson e Vahlne, 1977) ................ 37 Figura 7 - Atualização do Modelo de Uppsala. (Adaptado de Johanson e Vahlne, 2009, p. 1424). .......................................................................................................... 41 Figura 8 - Modelo de Network. (Adaptado de Johanson e Mattsson, 1988). ............ 45 Figura 9 - Modelo do Empreendedorismo Internacional. (Adaptado de Oviatt e McDougall, 1994, p. 59). ........................................................................................... 52 Figura 10 - Modelo de Uppsala atualizado. (Adaptado de Johanson e Vahlne, 2009, p. 1424). .................................................................................................................... 82 Figura 11 - Modelo de Network. (Adaptado de Johanson e Mattsson, 1988). .......... 86 Figura 12 - Modelo do Empreendedorismo Internacional. (Adaptado de Oviatt e McDougall, 1994, p. 59). ........................................................................................... 89 Gráfico 1 - Mercado Brasileiro de TI em US$ Bi, 2012. (Brasscom) ....................... 17 Gráfico 2 - Média de pessoal ocupado por empresa – 2009. Fonte: Pesquisa Anual de Serviços (IBGE, 2011, p. 43 ). .............................................................................. 18 Gráfico 3 - Distribuição de receita de exportação de serviços das empresas de serviços de tecnologia da informaçãp com 20 ou mais pessoas ocupadas, segundo faixas de valor de receita - Brasil, 2009. (PSTI, IBGE, 2011, p. 20) .......................... 19 Gráfico 4 – Distribuição do total de empresas de serviços em tecnoogia da informação com 20 ou mais pessoas ocupadas e da receita bruta e subvenções, por faixas de valor de receira – 2009. (PSTI, IBGE, 2011. p. 17). ................................... 23 Gráfico 5 – Distribuição do total de empresas de serviços de tecnologia da informação com 20 ou mais pessoas ocupadas e da receita bruta e subvenções, por diversificação de produtos - 2009. (PSTI, IBGE, 2011, p.18). ................................... 24 Gráfico 6 – Distribuição do total das empresas de serviços de tecnolofia da informação com 20 ou mais pessoas ocupadas e da receita bruta e subvenções, por classificação de atividades - 2009. (PSTI, IBGE, 2009. p.19) ................................... 25 Gráfico 7 – Distribuição dos grupos de produtos de serviços das empresas de serviços de tecnologia da informação com 20 ou mais pessoas ocupadas, segundo as faixas de valor da receita - 2009. (PSTI, IBGE, 2011, p. 23). ............................... 27 Gráfico 8 – Distribuição de receita de exportação de serviços das empresas de serviços de tecnologia da informação com 20 ou mais pessoas ocupadas segundo as faixas de valor de receita - 2009. (PSTI, IBGE, 2011, p.20). ................................ 28 Gráfico 9 – Participação relativa da receita de exportação de serviços no total da receita bruta e subvenções das empresas de serviços de tecnologia da informação com 20 ou mais pessoas ocupadas, segundo a classificação de atividades - 2009. (PSTI, IBGE, 2011, p. 21).......................................................................................... 29 Gráfico 10 – Distribuição da receita de exportação de serviços das empresas de serviços de tecnologias da informação com 20 ou mais pessoas oupadas, segundo os países/blocos - 2009. (PSTI, IBGE, 2009). ........................................................... 29 LISTA DE TABELAS Tabela 1 - Cadastro de empresas com 20 ou mais pessoas ocupadas informantes da PSTI 2008. (Adaptado de PSTI, IBGE, 2011, p. 12) ............................................ 19 Tabela 2 – Distribuição do pessoal ocupado nas empresas de IBSS – 2005. (Softex, 2009, p. 65). .............................................................................................................. 22 Tabela 3 – Empresas da IBSS titulares de registro de software considerando a classe da IBSS – 1989 a 2006. (Softex, 2009, p. 269). ............................................. 26 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ............................................................................................. 10 1.1 OBJETIVOS DO ESTUDO ........................................................................... 10 1.2 CONTEXTO ................................................................................................. 10 1.3 RELEVÂNCIA DO ESTUDO ........................................................................ 12 1.4 DELIMITAÇÃO DO ESTUDO ....................................................................... 15 1.5 O SETOR DE SERVIÇOS EM TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO ........... 16 1.5.1 Dados do setor ........................................................................................... 21 1.5.2 Exportação e mercados de destino .......................................................... 27 1.5.3 O papel da inovação .................................................................................. 30 1.6 ORGANIZAÇÃO DO ESTUDO .................................................................... 31 2 REVISÃO DE LITERATURA ....................................................................... 33 2.1 MODELOS TRADICIONAIS DE INTERNACIONALIZAÇÃO DE EMPRESAS 34 2.1.1 O modelo de Uppsala ................................................................................ 35 2.1.1.2 Críticas ao Modelo de Uppsala ................................................................. 37 2.1.1.3 Defesa do Modelo de Uppsala .................................................................. 39 2.1.2 Teorias de Network .................................................................................... 42 2.1.2.1 O modelo de Network ................................................................................ 44 2.1.2.2 Network e novos negócios internacionalizados ..................................... 46 2.2 A INTERNACIONALIZAÇÃO DE NOVOS NEGÓCIOS ............................... 47 2.2.1 Empreendedorismo Internacional ............................................................ 50 2.2.1.1 O papel do empreendedor ......................................................................... 54 2.2.2 Born Globals .............................................................................................. 56 2.2.2.1 O processo de internacionalização das born globals ............................. 58 2.4 INTERNACIONALIZAÇÃO DE NOVOS NEGÓCIOS: UMA DISCUSSÃO ... 59 2.4.1 A internacionalização de empresas de tecnologias da informação ...... 62 3 METODOLOGIA DE PESQUISA ................................................................ 64 3.1 O PROBLEMA DE PESQUISA .................................................................... 64 3.2 DEFINIÇÃO DAS PERGUNTAS DE PESQUISA ......................................... 64 3.3 MÉTODO DE PESQUISA ............................................................................ 65 3.4 MÉTODOS DE COLETA E ANÁLISE DE DADOS ....................................... 68 3.5 LIMITAÇÕES DO ESTUDO ......................................................................... 69 4 ESTUDO DE CASO ..................................................................................... 71 4.1 BREVE APRESENTAÇÃO DA IDXP............................................................ 71 4.2 O PROCESSO DE INTERNACIONALIZAÇÃO DA IDXP ............................. 74 4.2.1 Efeito made in e adaptação ao novo mercado ........................................ 76 5 ANÁLISE DO CASO ................................................................................... 81 5.1 CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA DE UPPSALA ............................................ 81 5.2 CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA DE NETWORK .......................................... 84 5.3 CONTRIBUIÇÕES DOS ESTUDOS DE NOVOS NEGÓCIOS INTERNACIONALIZADOS ........................................................................................ 87 5.3.1 Contribuições do Empreendedorismo Internacional .............................. 88 5.3.2 Contribuição da teoria de Born Globals .................................................. 91 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS ......................................................................... 94 6.1 QUESTÕES ESPECÍFICAS ......................................................................... 95 6.1.1 Motivos da internacionalização ................................................................ 95 6.1.2 Etapas da internacionalização .................................................................. 97 6.1.3 Manifestações de compromisso ............................................................... 98 6.1.4 Escolha de mercado ................................................................................ 100 6.3 CONCLUSÕES .......................................................................................... 101 6.4 SUGESTÕES PARA PESQUISAS FUTURAS ........................................... 102 REFERÊNCIAS ....................................................................................................... 103 ANEXOS E ADENDOS ........................................................................................... 110 10 1 INTRODUÇÃO 1.1 OBJETIVOS DO ESTUDO Este estudo analisa os processos de internacionalização de uma empresa empreendedora brasileira do setor de tecnologias da informação e comunicação, que opera em atividades dos serviços de informação (segundo critério do CNAE1, IBGE, 2007), avaliando as principais decisões tomadas durante sua trajetória de multinacionalização e os fatores que influenciam as suas escolhas na abordagem de novos mercados. Especificamente, este trabalho busca entender os motivos que levam uma empresa com este perfil a investir em mercados no exterior, além de identificar as etapas desse processo; a velocidade da internacionalização; os critérios de escolha dos mercados nos quais investir e as manifestações de comprometimento dessas empresas com as suas operações internacionais 1.2 CONTEXTO A internacionalização de empresas pode ser uma decisão tomada devido a uma limitação do mercado doméstico (Johanson e Vahlne, 2009), que funcionaria como uma barreira para o crescimento da organização; a uma oportunidade emergente (Rocha, Mello et al., 2012); ou pode ser uma opção estratégica para obter vantagens competitivas devido à operação multinacional. Os seguintes fatores podem ser enumerados como benefícios da internacionalização para empresas, de maneira geral: economias de escala e escopo; maior habilidade para atender consumidores em outro mercado, tanto pela logística quanto pela compreensão de suas necessidades; aprendizado internacional direto; acesso a recursos específicos que não estariam disponíveis no país de origem; maior capacidade de monitorar informações de mercado pertinentes ao negócio; melhor conhecimento para embasar a precificação e desenvolvimento de produtos e, por fim, benefícios relacionados à reputação da marca (Barcellos, Cyrino et al., 2010). 1 Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE), produzida pelo Instituto Brasileiro de Geografia a Estatística (IBGE). Disponível em http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/ economia/classificacoes/cnae1.0_2ed/cnae10v2.pdf. Acesso em março de 2012. 11 No caso dos serviços de informação, a internacionalização é frequentemente necessária. Devido à alta facilidade de comunicação e de distribuição dos produtos, essa indústria é uma das que mais sofre efeitos da globalização (Rocha et al, 2010; Berbel, 2008). Por esse motivo, as empresas ligadas a tecnologias da informação necessitam de constante atualização, já que inovações são lançadas com frequência no mercado (Oviatt e McDougall, 1994). Nessa velocidade de evolução, mesmo os produtos e serviços estabelecidos precisam de aperfeiçoamentos para permanecerem competitivos. Essas características fazem com que a internacionalização de empresas do setor de tecnologias da informação seja um passo necessário, quer por uma limitação natural do mercado doméstico, quer pela necessidade de maior proximidade com clientes ou até mesmo a busca por uma maneira de explorar mais intensamente uma tecnologia desenvolvida (Fernhaber, McDougall et al., 2007). A essas razões, somam-se as características intrínsecas aos softwares e serviços de tecnologia da informação que, por não estarem vinculados a meios físicos, enfrentam obstáculos menores para a sua distribuição. No entanto, Oviatt e McDougall (1994) lembram que se, por um lado, a facilidade de distribuição pode contribuir para a internacionalização rápida dessas empresas, por outro, a carência de barreiras para a reprodução/imitação pode representar uma ameaça para os desenvolvedores. Esse fator torna-se ainda mais relevante no caso de um país como o Brasil, que não é mundialmente conhecido pelo desenvolvimento de tecnologias e serviços de informação, ao contrário de países exportadores de inovação e tecnologia, como Estados Unidos e Japão; ou que desenvolveram uma sólida indústria de softwares, como a India. Assim, o Brasil não conta com os benefícios do efeito made in (Berbel, 2008) para o setor de TI, o que representa um ponto negativo para a abordagem do mercado exterior por parte das empresas nacionais. Em contrapartida, como efeito da própria globalização, a redução dos custos de transação cria um novo ambiente para essas empresas, tornando a internacionalização uma possibilidade mesmo para organizações menores e com menos recursos disponíveis (Rocha et all, 2010; Oviatt e McDougall, 1994). Essas passam a investir em nichos que mercado que, em uma indústria em expansão, podem ser replicados em outros países (Fernhaber, McDougall et al., 2007). Nesse cenário, a internacionalização acontece cada vez mais cedo (McDougall e Oviatt, 12 2000), viabilizada pela menor exigência de recursos e pela maior experiência internacional dos empreendedores. A decisão de investir em mercados internacionais tanto pode ser um processo gradual, enfatizando o aprendizado e a redução dos riscos do investimento (Johanson e Vahlne, 1977); quanto uma estratégia da empresa desde seus primeiros anos de operação, ou mesmo durante seu próprio processo de idealização – como apontam os estudos de Empreendedorismo Internacional (Oviatt e McDougall, 1994; 2000) e das chamadas Born Globals (Rennie, 1993). Enquanto primeiro caso é percebido principalmente em grandes empresas estabelecidas, o segundo tenta explicar a rápida internacionalização de firmas mais jovens e com recursos limitados. Essas diferentes perspectivas de internacionalização são base para este estudo. 1.3 RELEVÂNCIA DO ESTUDO Desde os anos 1990, vários autores em diversas partes do mundo tentam entender o processo de internacionalização de empresas que, já em seus primeiros anos de operação, conseguem ser competitivas no cenário internacional (Coviello, McDougall et al., 2011). Apesar disso, os estudos nessa área ainda carecem de conclusões sobre os fatores que levam essas empresas a se internacionalizarem (Rialp, Rialp et al, 2005; Coviello, Macdougall et al., 2011; Dib, 2008), os padrões do processo de internacionalização, as suas manifestações de comprometimento com os novos mercados e os fatores que influenciam tanto a decisão quanto o processo de abordagem internacional. No Brasil, por sua vez, as empresas locais não têm um histórico de busca ativa por mercados internacionais, como destacam Rocha, Silva e Carneiro (2007): a internacionalização dessas firmas é tardia em comparação a outros países, mesmo na América Latina. Os autores acrescentam que, até os anos 1990, havia um baixo grau de envolvimento de firmas nacionais com exportação, e o investimento direto dessas empresas no exterior também era raro. Uma das explicações possíveis para esse fato, de acordo com o artigo, é a existência de um mercado doméstico suficientemente grande e protegido em relação a importações. Esse cenário, segundo os mesmos autores, começou a se modificar após a abertura do mercado nos anos 90, que expôs a indústria nacional à concorrência estrangeira. 13 No atual ambiente macroeconômico do Brasil, porém, observa-se o crescimento de empresas nacionais e aumento da sua internacionalização. Exemplos disso são evidenciados pela mídia: apenas no primeiro semestre de 2012, as empresas brasileiras no exterior receberam US$ 3,474 bilhões em lucros e dividendos, quase o dobro da receita do ano de 2011 inteiro (Oliveira, Revista Exame, 2012)2. No entanto, a base histórica deste processo no caso de firmas nacionais é recente, permitindo um conhecimento ainda restrito de experiências que levem em conta especificidades de empresas criadas no ambiente econômico e cultural do país (Rocha, Silva e Carneiro, 2007). A análise e compreensão dos processos de internacionalização de firmas brasileiras pode contribuir para outros negócios que pretendem se internacionalizar. De acordo com Hurmerinta e Paavilainen-Mäntymäki (2011), o processo de aprendizagem, que inclui tanto a experiência própria quanto o entendimento da experiência alheia, é fundamental para o sucesso de um empreendimento internacional, sobretudo no caso de novos negócios. Os fatores que podem influenciar a decisão de abordagem de mercados no exterior e as formas de entrada adotadas pela empresa vão além de oportunidades de negócios: o contexto da indústria (Johanson e Mattson, 1988; Fernhaber, McDougal et al, 2007) e a experiência internacional do empreendedor (Oviatt e McDougall, 1994; 2000; Coviello, McDougall et al., 2011) também têm implicações sobre a tomada de decisões no que diz respeito à internacionalização e ao comportamento de empresas empreendedoras. Além disso, firmas inovadoras e baseadas em tecnologia são mais propensas à internacionalização rápida (Oviatt e McDougall, 1994). No entanto, essa operação pode ser mais arriscada e cara em países emergentes, já que o menor desenvolvimento tecnológico do mercado doméstico é menos favorável para que essas empresas estabeleçam vantagens competitivas sobre concorrentes de países desenvolvidos (Zolfaghari e Rialp, 2011). No caso de empresas de serviços de tecnologias, aquelas estabelecidas em países com tradição tecnológica têm a sua aceitação no mercado internacional favorecida pelos country-origin-effects ou efeito made in; ou seja, elas gozam de credibilidade graças a seu país de origem. Não é o caso do Brasil. Hoje, o mercado 2 Disponível em http://exame.abril.com.br/economia/noticias/empresas-brasileiras-receberam-doexterior-us-3-47-bi. Acesso em 9 de julho de 2012. 14 mundial de tecnologias é visto em dois grandes grupos: um é o de desenvolvimento, concentrado em países desenvolvidos, como os Estados Unidos; e outros são aqueles concentrados na produção graças ao offshoring, ou seja, transferência de parte da empresa graças a baixos salários (Berbel, 2008). Esse é o caso da India. O não reconhecimento do Brasil na área pode requerer estratégias internacionais específicas, como o uso de networks, conforme mostra a pesquisa realizada por Berbel (2008); investimentos que reflitam comprometimento gradual (Rocha et al, 2010); ou a adoção de estratégias de nicho ou diferenciação (Fernhaber, McDougall et al., 2007). Oviatt e McDougall (1994) propõem que, como efeito da globalização, alguns fatores se tornaram fontes de vantagem competitiva para uma firma, compensando o o tamanho. Exemplos deles seria a presença de empreendedores com experiência internacional e capazes de conectar recursos de vários países ao mesmo tempo; a visão internacional da firma desde sua concepção; o fato de possuir recursos únicos ou um produto inovador; e de possuir forte network que incentive o processo. Mais tarde, Zolfaghari e Rialp (2011) realizaram uma pesquisa quantitativa com foco em países emergentes sobre fatores que impactam o sucesso internacional de empresas. Entre as conclusões, os autores confirmam que nesses países também os recursos e capacidades da firma têm influência sobre a internacionalização; assim como conhecimento tecnológico e orientação para o empreendedorismo internacional, confirmando que as propostas de Oviatt e McDougall (1994) também são válidas para empresas criadas em economias em crescimento. Outros fatores que impactam positivamente são a capacidade de adaptação, o nível de desenvolvimento e apoio institucional e, de forma mais branda, a vantagem de custos geralmente encontrada nesses países (Zolfaghari e Rialp, 2011). Uma das conclusões que, no entanto, contrariou a hipótese prevista pelos autores é o efeito das incertezas do ambiente doméstico: os resultados mostraram que estas influenciam positivamente o sucesso da operação internacional. Essas incertezas estão, ainda, fortemente associadas ao conhecimento da firma. A alta competição no mercado local também teria efeito positivo, embora mais fraco (Idem, 2011). Cabe ressaltar que a pesquisa encontrou fortes evidências da influência positiva do network institucional e social da empresa; mas o mesmo não é verdade 15 para os relacionamentos pessoais e internacionais (Zolfaghari e Rialp, 2011). Esse ponto contradiz a os resultados do trabalho de Berbel (2008), que analisou o processo de internacionalização de um cluster de empresas de software localizado em Recife. No estudo, o autor observou que o relacionamento com pessoas de empresas estrangeiras tinha uma forte influência sobre a internacionalização. Com base nesses e em outros estudos realizados em internacionalização de empresas, este trabalho propõe entender como as variáveis que influenciam a decisão e o processo de internacionalização dessas empresas se comportam no âmbito de novos negócios brasileiros do setor de serviços e prestação de serviços de informação. Para isso, é examinado o caso de uma empresa desse setor, visando obter elementos que ajudem a entender os principais fatores que motivam as decisões de investimento no exterior por essas empresas no caso específico do Brasil. 1.4 DELIMITAÇÃO DO ESTUDO Este trabalho analisa o processo de abordagem internacional no caso de uma empresa empreendedora brasileira do setor de tecnologia da informação. O objetivo é entender como acontece a internacionalização, as principais decisões e fatores de influência que determinam o processo, em particular quando acontece nos primeiros estágios de operação da empresa. Para tanto, foi realizado um estudo de caso, abordando uma empresa durante esse processo. A IDXP foi a empresa escolhida para este estudo por ser uma empresa jovem, com movimentos internacionais recentes e em andamento. Dessa forma, a pesquisa pretende colher informações em um momento próximo daquele em que foram tomadas as decisões de entrada no mercado externo, quando a memória dos empreendedores sobre fatos e impressões ainda é bastante presente. Dessa forma, será possível concentrar esse trabalho sobre as variáveis de influência de forma mais confiável. As informações para o estudo foram obtidas a partir de uma entrevista com um dos sócios e gestores da empresa, Cristiano Paranhos, baseada em um roteiro que aborda as principais questões que motivaram a decisão de investir em mercados externos, a escolha do modo de entrada na nova região, o processo de aprendizagem, o comprometimento da firma com o mercado internacional, entre 16 outros. Dessa forma, espera-se explorar e entender a lógica subjacente de suas escolhas e os principais fatores que influenciam as suas decisões relativas à internacionalização. Além da entrevista, que teve uma duração de cerca de duas horas e trinta minutos, foram colhidos dados secundários sobre a empresa em matérias de jornais e no próprio site da IDXP. Por ser um estudo de caso, esta pesquisa não pretende ser representativa de todas as firmas brasileiras do setor, nem tampouco um modelo genérico de estratégia de internacionalização. Visto que o foco são o processo de abordagem internacional e os fatores de influência para as decisões, também não oferecerá uma análise do desempenho da empresa no mercado externo, nem mesmo terá foco nos resultados da sua internacionalização, embora alguns dados indicativos do sucesso da operação possam ser observados. Por fim, destaca-se que este não pretende ser um estudo conclusivo, mas apenas fornecer subsídios que contribuam para o aprendizado sobre novos negócios internacionalizados, especificamente no caso de empresas brasileiras de serviços de tecnologia da informação. 1.5 O SETOR DE SERVIÇOS EM TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO A indústria mundial de serviços de tecnologias da informação, de um modo geral, pode ser definida pela alta velocidade das mudanças dos paradigmas tecnológicos, exigência de altos investimentos em pesquisa e desenvolvimento e por constantes inovações que chegam ao mercado, muitas delas representando ameaças às empresas estabelecidas (Oviatt e McDougall, 1994; Fernhaber, McDougall et al, 2007; Berbel, 2008). Como um segmento dinâmico, abrange grande diversidade de produtos e serviços, que se desenvolvem constantemente (PSTI, IBGE, 2011). Existem três conceitos de tecnologias da informação: o de hardware e periféricos, que representam a parte física; e a parte lógica, que abrange diversos tipos de software, incluindo jogos. Um terceiro grupo, relacionado ao segundo, refere-se a demais serviços relacionados à informação, como gestão, armazenamento e tratamento de dados, informação, desenvolvimento de sistemas, consultorias e suporte técnico (PSTI, IBGE, 2011). No Brasil, o mercado de TI está distribuído, pela geração de receita, de acordo com o seguinte gráfico: 17 Gráfico 1 - Mercado Brasileiro de TI em US$ Bi, 2012. (Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação) Este estudo se concentrará no caso de uma empresa que pertence à parte lógica dessa indústria. De acordo com a classificação utilizada pelo IBGE para a PSTI - Pesquisa de Serviços de Tecnologia da Informação3 (IBGE, 2011), seguindo a Classificação Nacional de Atividades Econômicas - CNAE 2.0 (IBGE, 2007), o setor é definido como Informação e Comunicação, seção J. Esse setor tem alta geração de receita: de acordo com a Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom), o faturamento do setor chegou a US$ 123 bilhões em 2012, representando 4,5% de participação no PIB nacional. Segundo a mesma instituição, as exportações chegaram a US$ 3 bilhões. Apesar disso, o número de empresas nessa indústria representa apenas 7,7% daquelas que pertencem aos segmentos de serviços; com proporção de pessoal ocupado de 7,5% (PAS - IBGE, 2011). Dentro do setor de Informação e Comunicação definido pelo CNAE-IBGE, a atividade mais significativa é a de Tecnologia da Informação, responsável por 67,7% das empresas e 49,6% das pessoas ocupadas. Apesar disso, representa apenas 21,9% do faturamento. Os números indicam uma indústria pulverizada: 3 Pesquisa realizada pelo IBGE em parceria com a Softex. Disponível em http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/economia/psti/2009/psti2009.pdf. Acesso em 12 de maio de 2012. 18 Receita Operacional Líquida 10.20% Telecomunicações 8.00% 0.30% Tecnologia da Informação 59.70% 21.90% Serviços audiovisuais 1.90% Número de empresas 13.90% 4.40% Telecomunicações Tecnologia da Informação 12.40% 67.30% Serviços audiovisuais Gráfico 2 - Média de pessoal ocupado por empresa – 2009. Fonte: Pesquisa Anual de Serviços (IBGE, 2011, p. 43 ). Segundo a Demografia das Empresas (IBGE, 2011), o setor de Informação e Comunicação no Brasil contava com quase 139 mil empresas em 2009. O estudo, porém, destaca que a taxa de entrada e saída dessas empresas do mercado, respectivamente 26,6% e 19,2%, estão acima da média nacional. A taxa de sobrevivência entre 2006 e 2009 foi de 76,6%. Além disso, ainda segundo o documento, 2,3% das empresas nesse setor são consideradas de alto crescimento ou gazelas – ou seja, com crescimento médio do pessoal ocupado assalariado igual ou maior do que 20% ao ano, durante três anos consecutivos, e com pelo menos 10 pessoas assalariadas no ano inicial de observação. Já a PSTI (IBGE, 2011-A) utiliza um recorte mais restrito do setor, considerando, dentro da seção J da CNAE 2.0, apenas as atividades e serviços de tecnologias da informação. Dentro desta seção, a pesquisa considera duas divisões: a divisão 62, Atividades dos serviços de tecnologias de informação, que abrange as atividades de desenvolvimento de programas de computador sob encomenda (incluindo o desenvolvimento de páginas na internet e de bancos de dados); desenvolvimento e licenciamento de programas de computador (softwares) e aplicativos, customizáveis e não customizáveis; consultoria em tecnologia da informação, que compreende diversos serviços relacionados à aplicação e uso das tecnologias, como assessoria, 19 implantação de sistemas, customização de sistemas, atualização de sites, banco de dados e serviços afins; e suporte técnico em tecnologia da informação. Na divisão 63, Atividades de prestação de serviços de informação, a pesquisa aborda: serviços de tratamento e hospedagem de dados na internet, processamento e gestão de bancos de dados e outras atividades relacionadas ao acesso a serviços de informação; assim como operação de portais, provedores de conteúdo e outros serviços de informação na internet, conforme resume o quadro abaixo: Descrição Desenvolvimento de programas de computador sob encomenda Desenvolvimento e licenciamento de programas de computados customizáveis Desenvolvimento e licenciamento de programas de computador não customizáveis Consultoria em tecnologia da informação Suporte técnico em tecnologia da informação Tratamento de dados, provedores de serviços de aplicação e de hospedagem na internet Portais, provedores de conteúdo e outros serviços de informação na internet Número de empresas 520 191 173 232 317 549 26 Tabela 1 - Cadastro de empresas com 20 ou mais pessoas ocupadas informantes da PSTI 2008. (Adaptado de PSTI, IBGE, 2011, p. 12) O mercado delimitado pela PSTI abrange 2100 empresas brasileiras de serviços de tecnologia da informação que, em 2009, geraram R$ 39,4 bilhões em receita bruta. No entanto, a participação de exportação nessa receita é baixa: o setor gerou apenas R$ 2,1 bilhões, ou seja, o equivalente a apenas 5,4% do total da receita bruta das empresas pesquisadas. No mesmo período, a Índia, maior exportador de serviços de TI, registrou US$ 50 bilhões em exportação nesse setor; Estados Unidos exportaram US$ 13,4 bilhões e a China, US$ 6,2 bilhões (PSTI, IBGE, 2011). No Brasil, 88,7% dessa receita de exportação é originada pelas maiores empresas, com faturamento acima de R$ 30 milhões, conforme mostra o gráfico abaixo: Gráfico 3 - Distribuição de receita de exportação de serviços das empresas de serviços de tecnologia da informaçãp com 20 ou mais pessoas ocupadas, segundo faixas de valor de receita - Brasil, 2009. (PSTI, IBGE, 2011, p. 20) 20 É relevante destacar, no entanto, que a PSTI avaliou apenas as empresas com 20 ou mais pessoas ocupadas. Estas representam 75% do total da receita bruta de serviços do segmento em 2008. Apesar de ser um recorte representativo pelo percentual de contribuição, é preciso lembrar que é comum entre empresas desse setor no Brasil trabalhar com funcionários terceirizados; além de casos de informalidade que não são facilmente capturados em pesquisas (Dib, 2008). Isso acontece principalmente entre de empresas de software por encomenda, que utilizam a contratação de pessoas jurídicas em vez de profissionais assalariados. Isso causa alterações tanto no sentido de criar mais empresas para permitir esse contrato alternativo quanto de reduzir o número de trabalhadores da empresa contratante (Softex, 2009). Por outro lado, segundo o mesmo relatório, embora muito elevada, a participação de empresas com menos de quatro funcionários vem reduzindo nos últimos anos. De acordo com o a Pesquisa Anual de Serviços (PAS, IBGE, 2011), o setor de Serviços de Tecnologia da Informação no Brasil é formado por 47 mil empresas, responsáveis por geração de renda de quase R$ 47 bilhões em 2008-2009, ocupando 136 mil pessoas. A pesquisa também considera as empresas por sua atividade principal, adotando os critérios da CNAE 2.0 (IBGE, 2007). A Softex (2009), por sua vez, usa um critério um pouco diferente na delimitação do setor. Primeiro, pelo fato de que considera a empresa não apenas pela atividade que significa sua principal fonte de receita, a exemplo da CNAE; mas abrange também atividades secundárias, caso estejam relacionadas às tecnologias de informação. Segundo porque, sendo o documento anterior ao lançamento da CNAE 2.0, utiliza os critérios da versão 1.0, que ainda não reconhece algumas atividades ou segmentos emergentes. A partir desse recorte, incluindo firmas com menos de 4 funcionários, a pesquisa identificou quase 59 mil empresas na Indústria Brasileira de Serviços em Software (IBSS) em 2006, com uma taxa de crescimento de 4,8% ao ano. Com base nesses dados, a projeção do crescimento para 2009 seguiria os padrões abaixo: 21 Figura 1 – Número de empresas da IBSS. (Softex, 2009, p. 30) Sobre as regiões em que essas empresas são instaladas, o relatório mostra que, em 2005, 67% delas se concentravam na região Sudeste, como mostra o quadro abaixo: Figura 2 – Distribuição das empresas da IBSS por região de localização da sede – 2005. (Fonte: Softex, 2009, p. 33). Na divisão por estados, o de São Paulo concentra o maior número de empresas do setor, seguido por Rio de Janeiro e Minas Gerais. Além do Sudeste, em outras regiões, destacam-se o Rio Grande do Sul, a Bahia e o Distrito Federal. O relatório da Softex (2009) também destaca que a quantidade de empresas da IBSS com 20 ou mais pessoas ocupadas cresceu no período de 2003 a 2006, o que enfatiza o crescimento das empresas do setor. A taxa média do crescimento do número dessas empresas no período (15,8%) foi superior à do total de empresas – incluindo IBSS e empresas que têm sua principal fonte de receita em outro tipo de atividade -, que foi de 4,9% no período analisado (Softex, 2009). 1.5.1 Dados do setor No que diz respeito à distribuição das empresas de serviços de TI no Brasil por porte, a pesquisa realizada pela Softex (2009) mostra que este é um setor 22 pulverizado, composto de poucas companhias grandes e alta porcentagem de empresas menores. O quadro abaixo explicita essa distribuição, de acordo com o número de pessoas ocupadas, considerando empresas que têm nos serviços de tecnologias de informação sua atividade primária: Tabela 2 – Distribuição do pessoal ocupado nas empresas de IBSS – 2005. (Softex, 2009, p. 65). O relatório também observa a concentração de empresas jovens sobre as antigas – 63,9% delas tinham, em 2005, menos de cinco anos de idade, taxa acima da média nacional, em 42,1% no mesmo ano. A idade da empresa foi definida, na pesquisa, pelo número de anos desde a sua fundação. Apesar disso, em números relativos, houve maior concentração de pessoal em empresas mais antigas (Softex, 2009). A concentração é evidenciada no quadro a seguir, que compara com o total de empresas brasileiras: Figura 3 – Distribuição das empresas de IBSS e do Total Brasil, considerando faixa de tempo de permanência no mercado - 2005. (Softex, 2009, p. 66) A PSTI (IBGE, 2011) confirma a pulverização da indústria, mas pelo ponto de vista da distribuição de receita: de acordo com o relatório, de cerca de 2 mil empresas pesquisadas, aquelas que têm receita de até R$ 5 milhões representam 55,8% das empresas no setor; enquanto as com faturamento superior a R$ 30 23 milhões representam apenas 11,1% das empresas. No entanto, em relação à contribuição financeira, a representatividade dessas empresas se inverte: enquanto o primeiro grupo representa apenas 5% da geração de receita do setor, as maiores foram responsáveis por 75,6% do que foi gerado pelo segmento. Os gráficos abaixo resumem a participação dessas empresas segmentadas pelo faturamento: Gráfico 4 – Distribuição do total de empresas de serviços em tecnoogia da informação com 20 ou mais pessoas ocupadas e da receita bruta e subvenções, por faixas de valor de receira – 2009. (PSTI, IBGE, 2011. p. 17). Quanto ao nível de especialização da empresa, traduzido pelo número de produtos oferecidos, a PSTI (IBGE, 2011) concluiu que as organizações consideradas altamente especializadas (que oferecem apenas um produto) representam quase metade das empresas nesse setor. No entanto, a participação financeira não acompanha esse número: elas representam apenas 28% da receita bruta no setor. Nesse aspecto, destacam-se as empresas com 5 a 9 produtos que, apesar de representarem apenas 9,9% do setor, são responsáveis por 25,3% da receita bruta e subvenções. O gráfico abaixo mostra a distribuição das empresas por seu nível de especialização: 24 Gráfico 5 – Distribuição do total de empresas de serviços de tecnologia da informação com 20 ou mais pessoas ocupadas e da receita bruta e subvenções, por diversificação de produtos - 2009. (PSTI, IBGE, 2011, p.18). A existência de uma grande proporção de firmas altamente especializadas ou especializadas com alguma diversificação (com 1 a 4 produtos), seria explicada, segundo Fanhauber, McDougall et al (2007), pelo fato de que, em um ambiente de concentração de grandes firmas, as empresas menores conseguem competir pela diferenciação dos produtos e pelo uso de estratégias alternativas, que lhes permite atender mercados específicos. Para os autores, a demanda no setor de softwares é mista, coexistindo espaço tanto para produtos padronizados quando para os customizados, o que gera oportunidade para o surgimento de novos negócios. No que diz respeito ao tipo de serviço oferecido, por sua vez, as quatro atividades de maior participação foram responsáveis por mais da metade da geração de receita no setor (55%), sendo elas: desenvolvimento e licenciamento de uso de software customizável próprio; consultoria em sistemas e processos em TI; software sob encomenda; e tratamento de dados (PSTI, IBGE, 2011). A distribuição do setor, tanto por número de empresas quanto por receita bruta, acontece conforme demonstrado nos gráficos abaixo: 25 Gráfico 6 – Distribuição do total das empresas de serviços de tecnolofia da informação com 20 ou mais pessoas ocupadas e da receita bruta e subvenções, por classificação de atividades - 2009. (PSTI, IBGE, 2009. p.19) De acordo com o gráfico, observa-se que empresas cuja atividade principal é o desenvolvimento e licenciamento de programas customizáveis correspondem a 27,3% das empresas, que somam 31% do total da receita bruta e subvenções das empresas pesquisadas. A consultoria em TI também merece destaque: apesar de representar 11,8% do setor, a participação na receita bruta é um pouco superior, somando 17,8% do total nesse segmento. O dado confirma o relatório da Softex (2009), segundo o qual o desenvolvimento de programas de computador sob encomenda representa uma participação ainda mais significativa na receita do setor, sendo responsável por 30,4% em 2005 e 27,2% em 2006. Ainda de acordo com a Softex (2009), o desenvolvimento de softwares por encomendas foi oferecido por cerca de 40% das empresas nos dois anos de pesquisa, seja como atividade principal ou secundária em geração de renda. No entanto, duas considerações devem ser feitas: primeiro, a Softex utiliza um critério diferenciado de segmentação de setor, baseado na versão 1.0 da CNAE; segundo, mesmo sob essa perspectiva, houve uma ligeira queda da participação dessa atividade entre um ao e outro. A tabela abaixo mostra uma visão geral sobre o registro de softwares nas diferentes classes das empresas brasileiras de Serviços de Software, segundo a pesquisa da Softex (2009): 26 Tabela 3 – Empresas da IBSS titulares de registro de software considerando a classe da IBSS – 1989 a 2006. (Softex, 2009, p. 269). Se, por um lado, a pesquisa confirma que as classes direcionadas para o desenvolvimento de softwares são as mais representativas do setor, seja como produtos prontos ou sob encomenda; por outro, essas duas classes foram as que representaram as menores taxas de crescimento dentro do setor – respectivamente 10,8% e 9,4% (Softex, 2009). O relatório também observa que, em geral, há uma tendência entre as empresas de software no Brasil de voltar suas atividades muito mais para serviços (como consultorias e desenvolvimento de software sob demanda) do que na venda de produtos. No quadro abaixo, que mostra a mostra a distribuição das atividades por faixa de renda, é possível observar que o desenvolvimento de softwares tem maior representatividade em empresas de todos os tamanhos. Já a consultoria em tecnologia da informação ocupa o segundo lugar entre as empresas com maior faixa de receita. 27 Gráfico 7 – Distribuição dos grupos de produtos de serviços das empresas de serviços de tecnologia da informação com 20 ou mais pessoas ocupadas, segundo as faixas de valor da receita - 2009. (PSTI, IBGE, 2011, p. 23). 1.5.2 Exportação e mercados de destino A exportação brasileira de serviços de tecnologias de informação tem aumentado nos últimos anos. De acordo com a pesquisa da Softex (2009), entre 2003 e 2006 a receita líquida vinda do exterior cresceu à taxa média de 53,2% ao ano no período. A alta taxa, de acordo com o relatório, se deve principalmente ao ano de 2006, último abordado pela pesquisa. O aumento da receita de exportação, no mesmo período, representava uma participação relativamente baixa no total gerado pelo setor. No entanto, essa taxa está em crescimento: em 2004, representava 2,5%; e em 2006 passou a significar 5,2% de toda a receita (Softex, 2009). Já a Brasscom estima que as exportações brasileiras do setor de TI chegam a US$ 3 bilhões. A receita da exportação é gerada principalmente por empresas maiores. De acordo com a pesquisa da Softex (2009), em 2004 e 2005, aproximadamente 98% da receita de vendas no exterior foi gerada por empresas com 20 ou mais pessoas ocupadas. Apesar disso, que o número de empresas desse porte com atividades no exterior é pequeno: em 2005, significavam apenas 3,4% das firmas do setor (Softex, 2009). Por sua vez, a PSTI (IBGE, 2011) mostra que, por faixa de receita, as empresas com faturamento anual superior a R$ 30 milhões foram responsáveis, em 2008, por 28 88,7% do total da receita das exportações do setor. O gráfico abaixo evidencia essa distribuição: Gráfico 8 – Distribuição de receita de exportação de serviços das empresas de serviços de tecnologia da informação com 20 ou mais pessoas ocupadas segundo as faixas de valor de receita 2009. (PSTI, IBGE, 2011, p.20). Quanto ao nível de diversificação, a PSTI (IBGE, 2011) mostrou que as empresas diversificadas (5 a 9 produtos) e altamente diversificadas (10 ou mais produtos) representaram 49,9% das exportações no ano de 2009. As empresas com apenas um produto, por outro lado, tiveram uma participação pouco expressiva. A maioria das empresas com atividades de exportação tem sede na região Sudeste, sobretudo no estado de São Paulo. Em 2005, as firmas paulistas representavam 88,1% da renda gerada por exportações no setor. Apesar de ser um percentual expressivo, apresentou queda em relação a 2004, quando a região era responsável por 91,3% da receita gerada pelas empresas exportadoras (Softex, 2009). Na distribuição da receita de exportação por atividades específicas, destacam-se as empresas de desenvolvimento de programas customizáveis, responsáveis por 55,8% da receita gerada (PSTI, IBGE, 2011). Essa atividade, conforme foi dito, também representa a maior geração de receita do setor. A segunda atividade de maior participação em exportações são as empresas de programas não customizáveis, que representam 19% do valor das exportações (PSTI, IBGE, 2011). Esta, porém, foi a atividade que teve a maior proporção de participação de exportação em sua receita, um total de 14%. O quadro abaixo mostra a participação relativa da exportação em cada atividade: 29 Gráfico 9 – Participação relativa da receita de exportação de serviços no total da receita bruta e subvenções das empresas de serviços de tecnologia da informação com 20 ou mais pessoas ocupadas, segundo a classificação de atividades - 2009. (PSTI, IBGE, 2011, p. 21). Em relação aos países de destino das exportações, são os Estados Unidos os principais geradores de receita de exportação, atingindo R$ 1,5 bilhões – 72,7% do total; seguido pelo México, com 2,8% de participação (PSTI, IBGE, 2009). A maioria dos países tem uma participação pouco expressiva como destino de exportação de tecnologia de informação brasileira, como mostra o gráfico abaixo: Gráfico 10 – Distribuição da receita de exportação de serviços das empresas de serviços de tecnologias da informação com 20 ou mais pessoas oupadas, segundo os países/blocos - 2009. (PSTI, IBGE, 2009). 30 1.5.3 O papel da inovação A inovação também é considerada um fator importante para a consolidação de novos negócios nesse setor. De acordo com a Pintec4 (IBGE, 2008), no Brasil, a conjuntura econômica dos últimos anos foi favorável às decisões de investimento em inovações, devido ao crescimento do PIB, aumento do consumo, entre outros. O resultado, de acordo com a publicação, seria o aumento não apenas das inovações dentro das empresas como também aquelas resultantes de parcerias com outras firmas e institutos. Dentre as organizações pesquisadas, foi observado que setores de maior conteúdo tecnológico permitem as maiores oportunidades de inovações. Nesse caso, incluídas empresas de serviços de tecnologias da informação. Na mesma linha, uma pesquisa realizada pelo Boston Consulting Group com 1070 executivos de 63 países, mostra que a inovação tem crescido como prioridade estratégica para as empresas: em 2006, foi considerada a principal prioridade por 40% dos gestores; e uma das três principais prioridades de 32% deles (Softex, 2009). O gráfico abaixo mostra a posição da inovação como prioridade e a comparação dos resultados de 2005 e 2006: Figura 4 – Posicionamento da inovação na lista de prioridades estratégicas das empresas. (Fonte: Softex, 2009). Por outro lado, no Brasil, alguns fatores tornam o ambiente menos próprio à inovação. A Softex realizou uma pesquisa sobre o assunto em 2009 e concluiu que a maior barreira para a inovação, pelo ponto de vista das empresas, é a elevada carga tributária do país, que foi mencionado por 66,7% dos gestores. Além disso, 81,1% 4 Pesquisa de Inovação Tecnológica, realizada pelo IBGE. Disponível em http://www.pintec.ibge.gov.br/downloads/PUBLICACAO/Publicacao%20PINTEC%202008.pdf. Acesso em maio de 2012. 31 das empresas não se beneficiam de nenhum incentivo fiscal para a inovação (Softex, 2009), dado que aponta para uma carência de apoio do governo para motivar esse tipo de investimentos. O mercado de serviços de tecnologia da informação é um dos mais afetados pela globalização (Berbel, 2008), principalmente devido ao desenvolvimento de tecnologias de comunicação e transporte (Rocha et all, 2010; Oviatt e McDougall, 1994) que facilitam e barateiam as transações entre diversos países. Uma característica básica das atividades descritas é que a maioria delas é baseada na internet. A facilidade de distribuição de softwares, somada às características de disponibilidade intrínsecas aos serviços relacionados, possibilitam que empresas deste setor consigam se internacionalizar mais rapidamente (Oviatt e McDougall, 1994), já que o investimento necessário é relativamente baixo. Mas, se, por um lado, essa característica facilita a inserção no mercado global, aumenta a troca de informações, incentiva a inovação e reduz os custos de distribuição; por outro, a concorrência se beneficia dessas mesmas qualidades (Dib, 2008). Nesse sentido, não apenas o incentivo à inovação é importante, mas também a sua proteção. No Brasil, a política de propriedade intelectual que se aplica ao setor segue duas vertentes: a Propriedade Industrial, que rege patentes, marcas, desenhos etc; e os Direitos de Autor e de Domínios Conexos, que é a mesma regra aplicada a obras literárias e artísticas. Em geral, os softwares são regidos juridicamente por essa segunda regra, tratando a parte relacionada à comercialização (Lei nº 9.609/1998), da mesma forma que obras de literatura (Softex, 2009). 1.6 ORGANIZAÇÃO DO ESTUDO Este trabalho está organizado em seis capítulos. O primeiro capítulo apresenta o estudo a ser realizado, seus objetivos, relevância e contribuições para os estudos de internacionalização de empresas e delimitações. No mesmo capítulo, é oferecido o contexto da indústria de tecnologias da informação, em que a empresa escolhida para o estudo de caso se insere; e os motivos da escolha deste setor. O segundo capítulo traz uma revisão da literatura que versa sobre o fenômeno da internacionalização de empresas, abordando as proposições teóricass que irão embasar a análise do caso. Entre as principais correntes teóricas sobre o 32 tema, foram escolhidas para este trabalho duas abordagens tradicionais, o Modelo de Uppsala e a Teoria de Network, que oferecem a compreensão de processos de multinacionalização sob uma perpectiva comportamental. De outro lado, duas teorias sobre novos negócios internacionalizados, o Empreendedorismo Internacional e os estudos de Born Globals, são expostas e discutidas, de modo a destacar propostas que ofereçam elementos para a compreensão da internacionalização de empresas empreendedoras brasileiras que atuam no setor de tecnologia da informação. No terceiro capítulo é apresentado o problema de pesquisa, as questões que orientaram o estudo, a metodologia utilizada pelo trabalho, assim como suas limitações e as justificativas para a escolha da mesma. O quarto capítulo apresenta a empresa escolhida para o estudo de caso, suas características e a descrição dos seus processos e decisões de internacionalização. Em seguida, no quinto capítulo, o caso apresentado é analisado à luz das teorias descritas no capítulo 2. Nesta etapa, é feita uma análise das etapas e decisões de internacionalização, revisitando e discutindo as contribuições das teorias da internacionalização para a compreensão da trajetória do caso estudado. Por fim, o sexto capítulo retorna às questões de pesquisa, discutindo os seus resultados com base nas teorias e na pesquisa desenvolvida; assim como um sumário das principais conclusões. Também são apresentadas sugestões para futuros estudos que permitam aprimorar o entendimento do fenômeno pesquisado. 33 2 REVISÃO DE LITERATURA Este capítulo apresenta uma revisão da literatura sobre a internacionalização de empresas, assim organizada: na primeira parte, seção 2.1, são abordadas as teorias tradicionais sobre os negócios internacionais, enfatizando duas correntes teóricas: o Modelo de Uppsala e Teorias de Network. A seção 2.2 propõe uma discussão sobre as teorias e pesquisas acadêmicas que buscam o entendimento de novos negócios que se internacionalizam nos seus primeiros anos de existência, destacando os estudos do Empreendedorismo Internacional e de Born Globals. Por último, a seção 2.3 oferece uma discussão sobre a internacionalização de novos negócios no contexto brasileiro. Até os anos 80, estudos acadêmicos sobre internacionalização de empresas tinham foco principalmente em grandes companhias estabelecidas. Com base na observação do comportamento dessas empresas, pesquisas (Johanson e Wiedersheim-Paul, 1975; Johanson e Vahlne, 1977) mostravam que a multinacionalização de organizações é um processo de aumento gradual de investimentos e compromissos com a atividade em outro país, evoluindo à medida que o conhecimento sobre o novo mercado aumenta. Essa premissa é a base do modelo de Uppsala, proposto por Johanson e Vahlne (1977). No mesmo período, outros autores (Vernon, 1993; Dunning, 1988), explicavam a internacionalização de empresas pela abordagem econômica, analisando a decisão de investimentos em outros países de acordo com o estágio de crescimento e desenvolvimento da firma, baseada, por exemplo, no esgotamento do mercado doméstico. Apesar da relevância dos modelos econômicos para a pesquisa de negócios internacionais, este estudo se concentrará apenas na abordagem comportamental dos estudos de internacionalização. A ênfase do modelo de Uppsala em grandes empresas baseava-se no pressuposto de que apenas elas tinham os recursos e conhecimento necessários para a abordagem de novos mercados (Johanson e Wiedersheim-Paul, 1975). No entanto, ao final da década de 80, foi observado que empresas menores eram capazes de se internacionalizar compensando a falta de recursos internos com recursos acessados através de suas redes de relacionamentos (Johanson e Mattsson, 1988). A partir desta percepção, foi desenvolvida a Teoria de Network, 34 visando explicar a internacionalização de empresas por fatores internos e externos, como o relacionamento com fornecedores, clientes, concorrentes e outros. Já na década seguinte, alguns teóricos (Oviatt e McDougall, 1994; Rennie, 1993) observaram que empresas menores iniciavam o processo de abordagem de mercados no exterior ainda nos primeiros anos desde sua fundação. Por isso, propuseram a ampliação do interesse das teorias de internacionalização pelo fenômeno de pequenas organizações que investem em mercados internacionais ainda nos primeiros anos de vida. Coviello, McDougall et al. (2011) mostram que esse interesse foi se consolidando na área Empreendedorismo Internacional, desenvolvida tanto pelos estudos de novos negócios internacionais, ou international new ventures (Oviatt e McDougall, 1994; McDougall e Oviatt), e das Born Globals (Rennie, 1993; Rialp, Rialp et al, 2005). Apesar de algumas diferenças conceituais, como as palavras “global” e “internacional”, os termos INV e Born Global são frequentemente utilizados como sinônimos. Mesmo tendo se desenvolvido independentemente, essas duas linhas de pesquisa apontam para um mesmo fenômeno, já que consideram as implicações da internacionalização relevantes de acordo com a idade da firma – novas ou nascidas – e não com seu tamanho ou escopo (Coviello, McDougall et all, 2011). Ao retomar as teorias de internacionalização descritas acima, tanto as tradicionais como as de novos negócios, este estudo pretende discutir a internacionalização de empresas empreendedoras considerando os fatores que consistem nas principais influências na abordagem do novo mercado internacional, analisando as etapas e motivações deste processo. 2.1 MODELOS TRADICIONAIS DE INTERNACIONALIZAÇÃO DE EMPRESAS Os estudos tradicionais de internacionalização de empresas são tipicamente divididos entre abordagem econômicas e comportamentais. Este estudo se concentrará nas abordagens comportamentais, visto que este aspecto está mais estreitamente relacionado com o processo em si de abordagem de mercados externos (Dib, 2008), envolvendo as escolhas e mecanismos de tomadas de decisão, do que o enfoque econômico. Como exemplos dos modelos comportamentais, retomamos para esse trabalho o Modelo de Uppsala, proposto por Johanson e Vahlne (1977), por ser 35 amplamente citado na literatura de negócios internacionais (segundo Oviatt e McDougall, 1999); e a Teoria de Network, de Johanson e Mattsson (1988), que contribui com análises sobre a influência de outros atores de um mercado nos processos de internacionalização; além do reconhecimento de que empresas de menor porte também buscam mercados no exterior. 2.1.1 O modelo de Uppsala Nos anos 70, a internacionalização de empresas era definida como a transferência de atividades de uma organização para outros países, em um processo caracterizado pelo aumento gradual do investimento de recursos e envolvimento dessas firmas com o novo mercado (Johanson e Wiedersheim-Paul, 1975; Johanson e Vahlne, 1977). A partir de pesquisas que observavam a internacionalização de empresas estudadas na Universidade de Uppsala, na Suécia, Johanson e Vahlne (1977) observaram que esse processo era resultado de uma série de decisões incrementais com traços em comum, que se repetiam nas diversas empresas. Esses padrões foram traduzidos pelos autores no modelo de Uppsala. O modelo de Uppsala considera, fundamentalmente, a internacionalização de grandes empresas estabelecidas. Estas apresentariam padrões no processo de internacionalização, que seguiriam em duas direções: A) o aumento gradual de envolvimento com um mesmo mercado e B) a expansão de operações em diversos países (Johanson e Vahlne, 1977). Na primeira direção, relativa ao investimento em um mesmo mercado, as bases para o modelo são oferecidas pelo estudo anterior de Johanson e Wiedersheim-Paul (1975), que identifica alguns desses traços em comum, diferenciados pelo grau de envolvimento com a operação no exterior. Segundo os autores, esse aumento gradual de investimentos seguiria as seguintes etapas de abordagem do mercado internacional: 1) nenhuma atividade regular de exportação; 2) exportação via agentes de vendas; 3) implantação de uma subsidiária de vendas e, por último, 4) início da produção local (Johanson e Wiedersheim-Paul, 1975). A lógica desse padrão seria estabelecer-se no novo mercado gradualmente, aumentando o envolvimento com a operação à medida que o conhecimento sobre a região evolui e a posição da empresa se fortalece naquele ambiente (Johanson e Vahlne, 1977). 36 Rocha, Mello et al. (2012) lembram que, no modelo de Uppsala, é a quantidade de recursos alocada que indica o comprometimento da empresa com o novo mercado. Isso significa que, quando atingido um elevado nível de compromisso, este é traduzido no investimento direto na produção internacional. Essa manifestação de compromisso seria reconhecida pela quantidade de recursos investida, grau de especialização desses recursos e modos de entrada (Rocha, Mello et al, 2012). Além de desenvolver a análise sobre investimentos em um mesmo mercado, ao propor o modelo de Uppsala, Johanson e Vahlne (1977) desenvolvem as observações anteriores acrescentando a segunda direção ao aumento de grau de internacionalização: o estabelecimento sucessivo de subsidiárias da empresa em outros países. Nessa linha, os autores observaram que a distância psíquica – definida principalmente pelo fluxo de informações entre países, levando em conta a percepção sobre diferenças culturais, além de aspectos como a língua local e outros (Johanson e Wiedersheim-Paul, 1975) – era fator fundamental para as escolhas do novo mercado. Na prática, isso significa que as empresas buscam abordar primeiro aqueles mercados sobre os quais têm mais conhecimento ou que julgam ter maiores semelhanças com o doméstico. De forma mais simples, os autores definiram, mais tarde, a distância psíquica como “os fatores que dificultam o entendimento do ambiente estrangeiro” (Johanson e Vahlne, 2009, p. 1411, tradução nossa). De acordo com as observações de Johanson e Vahlne (1977), as empresas investiriam primeiramente em mercados semelhantes ou sobre os quais tivessem mais conhecimentos; para então abordar, gradualmente, países cuja distância psíquica fosse maior. O modelo de Uppsala, que resultou dessas percepções está representado na figura a seguir: 37 Figura 5 - Modelo de Uppsala. (Adaptado de Johanson e Vahlne, 1977) Na visão de Johanson e Vahlne (1977), o principal ponto crítico em um processo de internacionalização é o conhecimento do novo mercado. Tanto o conhecimento quanto o comprometimento de recursos (medido pela quantidade de recursos investidos no novo mercado e o grau de dificuldade para transferi-los para outro local) afetam a percepção da empresa sobre os riscos e oportunidades no país de investimento. Para reduzir o déficit de conhecimento e, consequentemente, o risco do novo investimento, segundo Johanson e Vahlne (1977), as empresas iniciam a internacionalização pela exportação, como um meio para determinar o tamanho e natureza do mercado, além de iniciar o aprendizado sobre a cultura, características principais e negociação no novo local. A partir daí, o investimento e o comprometimento com a operação internacional seriam graduais, seguindo o aumento de conhecimento. Dois fatores que poderiam acelerar esse processo, no entanto, seriam a abundância de recursos da empresa, o que permitiria maiores investimentos; e a experiência prévia em mercados similares (Johanson e Vahlne, 1977). Nos demais casos, os investimentos seriam proporcionais ao conhecimento sobre o novo local e, consequentemente, à redução da percepção de risco. 2.1.1.2 Críticas ao Modelo de Uppsala Um dos principais fundamentos do Modelo de Uppsala é a premissa de que o investimento internacional está diretamente relacionado ao conhecimento do novo mercado e, portanto, influenciado pela percepção de riscos. Ainda segundo o 38 modelo, esse conhecimento seria adquirido apenas através da experiência direta, ou seja, pela operação própria da empresa no mercado externo. No entanto, esse ponto é alvo das principais críticas ao modelo de Uppsala, já que a aprendizagem não traz, necessariamente, o aumento da eficiência da empresa em um mercado (Forsgren, 2002). Além disso, os autores não consideram a possibilidade de aprendizado por experiência alheia que, de acordo com Hurmerinta e Paavilainen-Mäntymäki (2011), seria capaz de oferecer subsídios para a internacionalização de uma firma. Outra crítica ao modelo recai sobre a sugestão de que o aumento de investimentos de recursos acontece de forma lenta. Esse pressuposto de investimento gradual desconsidera as empresas que, dado o escopo do negócio, necessitam se internacionalizar rapidamente (Forsgren, 2002; Coviello e Munro, 1995). A aceleração desse processo pode acontecer tanto pela competitividade do setor, que induz empresas a buscar a rápida internacionalização – é, em geral, o caso de empresas de serviços em tecnologias da informação – ou devido aos relacionamentos internacionais que a empresa estabelece durante seu crescimento (Coviello e Munro, 1995). Na mesma linha, Forsgren (2002) acrescenta que o modelo de Uppsala considera apenas o aprendizado direto da empresa, desprezando até mesmo a experiência prévia funcionários e outras pessoas envolvidas. Para o autor, o modelo aborda a firma como um indivíduo isolado, sem considerar que o conhecimento, e a conseqüente redução da percepção de risco, poderia ser adquirido através de fornecedores, clientes, outras empresas. Ignora, também, segundo o autor, a possibilidade de investimentos simultâneos e vários países (Idem, 2002). O artigo de Johanson e Vahlne (1977), porém, reconhece que o processo de internacionalização pode ser acelerado caso o conhecimento do novo mercado seja adquirido por terceiros ou quando um empreendedor dentro da organização já teve experiência no local de destino. Em artigo anterior à proposta do modelo de Uppsala, Johanson e Wiedersheim-Paul (1975) observaram que a experiência do empreendedor pode afetar a visão do mercado internacional pela firma: os gestores de duas das quatro empresas estudadas pelos autores tinham experiência internacional em vendas. Essas mesmas empresas vislumbravam a abordagem de mercados no exterior desde sua concepção. Por último, outra crítica argumenta que o modelo de Uppsala não explica o comportamento de empresas menores, como sugere a pesquisa realizada por 39 Coviello e Munro (1995) com quatro empresas empreendedoras de software na Nova Zelândia: nesses casos, as empresas não apenas passaram por um processo rápido de internacionalização, mas também entraram simultaneamente em diversos países. Segundo os autores, o modelo de Uppsala não é aplicável a esse tipo de empresa, mas a Teoria de Network, que será descrita a seguir, oferece ferramentas para sua análise. 2.1.1.3 Defesa do Modelo de Uppsala O modelo de Uppsala surgiu a partir de observações empíricas e da percepção de que determinado comportamento relativo à internacionalização não se limitava às empresas estudadas na Universidade de Uppsala, mas se repetiam em outros ambientes (Johanson e Vahlne, 1977). No entanto, estudos posteriores contradiziam o modelo, como visto nas críticas acima. Apesar das evidências que embasaram a publicação do artigo, ele foi ameaçado pelo fenômeno de rápida internacionalização de novos negócios (Rocha, Mello et al, 2012). Johanson e Vahlne (2009) posteriormente, em defesa ao modelo à sua proposta original, atribuem às mudanças regulatórias, econômicas e, principalmente, de comportamento das empresas, o fato de que o modelo tenha se desatualizado. Além disso, citam que a própria pesquisa nessa área avançou, alcançando conhecimentos que antes eram inexistentes. No entanto, argumentam que as mudanças estariam ligadas às alrterações do contexto do ambiente de negócios que ocorreram nos últimos 50 anos, desde que o artigo seminal foi publicado; mas o modo como as pessoas aprendem e tomam decisões, por outro lado, não mudou tão drasticamente. Nesse sentido, falta ao modelo de Uppsala a atualização, mas sua essência ainda seria válida (Johanson e Vahlne, 2009). Uma das principais mudanças na literatura, a que os autores se referem, foi o modo como o ambiente de negócios passou a ser visto: não mais como um conjunto de consumidores e fornecedores independentes, mas como uma rede de relacionamentos (Johanson e Vahlne, 2009). Os autores reconhecem que pesquisas posteriores que comprovam a importância das redes na escolha de mercados e modos de entrada (Coviello e Munro, 1995) apontaram para a necessidade de desenvolver o modelo inicial, incluindo essas evidências. No entanto, eles ressalvam 40 que os estudos focam no período posterior, sem buscar o modo como essas redes foram criadas (Johanson e Vahlne, 2009). Acusados de considerarem a empresa como um indivíduo isolado (Forsgren, 2002), Johanson e Vahlne (2009) argumentam que não incluíram as redes de relacionamento no modelo original por falta de conhecimentos sobre o assunto. No entanto, hoje reconhecem que esse fator é essencial para a internacionalização e que as empresas podem aprender pelas experiências de parceiros. Porém, para eles, as networks não contradizem o modelo original, mas o complementam, visto que eles oferecem a possibilidade de aprendizado (uma extensão do conhecimento), além de contribuir para a construção de confiança e compromisso mútuo entre as empresas – pilares para a internacionalização, segundo o modelo original. Por outro lado, apesar de reconhecer que o conhecimento pode ser complementado por diversos tipos de acesso à informação, os autores reforçam a crença inicial de que é o aprendizado por experiência que influencia o comprometimento de recursos (Johanson e Vahlne, 2009). Outra crítica ao modelo original de Uppsala surgiu a partir de estudos sobre o fenômeno de novos negócios internacionalizados. Para Oviatt e McDougall (1994), as teorias tradicionais não estariam velhas - apenas se aplicam somente a alguns tipos de empresas. Sobre esse aspecto, Johanson e Vahlne (2009) respondem dizendo que empresas que se internacionalizam rápido são um fenômeno antigo; assim, as mudanças de comportamento estariam muito mais ligadas às mudanças no ambiente internacional do que aos mecanismos de internacionalização. Por exemplo, a distância psíquica continua sendo fundamental; porém os gestores adquirem hoje mais experiência e contatos no exterior, o que aumenta o conhecimento sobre outros mercados. Em outras palavras, isso significa dizer que o que mudou não foi a importância da distância psíquica, mas a percepção de distância do tomador de decisão em relação ao outro mercado (Johanson e Vahlne, 2009). Para os autores, uma prova de que o modelo é ainda válido é que algumas born globals são, na verdade, born regionals – ou seja, não atingem o mercado global, mas estendem seu mercado para países com menor distância psíquica ou sobre os quais têm maior conhecimento. A escolha de mercados e modos de entrada seria ainda feita de modo incremental, como sugerido no modelo original. 41 Esse argumento vai ao encontro das conclusões da pesquisa de Rocha et al. (2010), que investiga em profundidade quatro casos de empresas de software brasileiras. Os autores observam que, embora essas empresas possam ser caracterizadas com born globals, “seu desenvolvimento não contraria totalmente a teoria comportamental de internacionalização de Uppsala” (p. 275). Isso se deve ao fato de que o envolvimento com a operação internacional aumenta gradualmente, junto com o maior conhecimento. Baseado nisso, Johanson e Vahlne (2009) admitem que seu modelo ainda pode ser considerado genérico e prescritivo para um processo racional de internacionalização, visando a redução gradual de incertezas. E propõem uma atualização da proposta original, conforme representado a seguir: Figura 6 - Atualização do Modelo de Uppsala. (Adaptado de Johanson e Vahlne, 2009, p. 1424). Entre as diferenças fundamentais, a nova proposta leva em consideração não um ambiente estático, mas dinâmico: enquanto mais conhecimentos sobre o mercado influenciam as decisões sobre o compromisso com o novo local, o aumento das atividades requer melhor aprendizado, o que torna o modelo um ciclo, com processos cumulativos de aprendizagem, conhecimento e estabelecimento de confiança (Johanson e Vahlne, 2009). Uma das marcas desse dinamismo é a substituição de “atividades” por “aprendizado, criação e construção de confiança”, indicando que é um processo em evolução. Alguns elementos foram incluídos na nova versão do modelo para absorver a importância de fatores apenas reconhecida pelos autores posteriormente, como a 42 relevância das redes. Nota-se que o original “compromisso com o mercado” foi substituído por “posição na rede”. O compromisso, nessa versão, está vinculado a “relacionamentos” em “compromisso”, mostrando que esse compromisso não é estabelecido apenas com o mercado, mas com outros atores daquele ambiente (Johanson e Vahlne, 2009). De acordo com essa versão do modelo, o compromisso com as relações é assumido gradualmente durante o processo de internacionalização (Rocha, Mello et al, 2012). Outro aspecto importante é que o novo modelo agrega ao original a dimensão afetiva e emocional das relações que, devido a observações empíricas, Johanson e Vahlne (2009) concluíram ser um componente crítico para o modelo. Os autores reforçam que o conhecimento afeta a percepção de oportunidades e riscos. No entanto, esse conhecimento está ligado aos relacionamentos, podendo ser substituído pela confiança. Nessa nova percepção, uma das mudanças é identificar que o aumento do conhecimento sobre o novo mercado pode ter impactos não apenas positivos, mas também negativos sobre a confiança e o compromisso (Johanson e Vahlne, 2009). 2.1.2 Teorias de Network Enquanto o modelo original de Uppsala analisava a internacionalização de empresas considerando apenas seus fatores internos, a teoria de Network veio contribuir com a percepção de que os mercados industriais não são feitos de firmas isoladas. Ao contrário, seriam constituídos de empresas que estabelecem relacionamentos com seus fornecedores, clientes, concorrentes e outros, recebendo influência dessas relações e do ambiente externo (Johanson e Mattsson, 1988). A teoria de Network também preenche uma lacuna quanto à internacionalização de firmas de menor porte, reconhecendo que estas são capazes de abordar mercados no exterior com a ajuda de recursos adquiridos em sua rede de relacionamentos. Conforme apresentado anteriormente, o modelo de Uppsala é frequentemente aplicado às grandes empresas estabelecidas porque apenas elas teriam recursos internos suficientes para investir no conhecimento de outros mercados (Johanson e Vahlne, 1977) – conhecimento este que é pré-requisito para a internacionalização, segundo a versão original do modelo. Até os anos 80, a 43 literatura sobre pequenas empresas internacionalizadas era, então, limitada e com resultados de pesquisas inconsistentes (Coviello e Munro, 1995). Sobre essas empresas, Fernhaber, Mccougall et al. (2007) defendem que o ambiente influencia o seu comportamento porque elas tendem a imitar as estratégias e decisões das firmas estabelecidas e de maior porte. Coviello e Munro (1995), por sua vez, argumentam que os relacionamentos auxiliam essas empresas no processo de internacionalização ao permitir o acesso ao conhecimento sobre novos mercados através de seus contatos comerciais, como clientes e fornecedores. Em última análise, os relacionamentos ajudam a diminuir o risco do investimento, propiciando a internacionalização. No artigo seminal que propõe o modelo de Network, Johanson e Mattsson (1988) avaliam que, em um determinado sistema industrial – que os autores chamam de rede de relacionamentos – as firmas desenvolvem uma relação de interdependência crescente com seus fornecedores, clientes, ou até mesmo concorrentes pela própria divisão do trabalho entre elas. Essa relação teria implicações sobre as estratégias e comportamento das empresas, tanto em ambiente doméstico quanto na decisão e processos de multinacionalização. Os autores explicam que empresas investem em relações de longo prazo, o que é essencial para que elas desenvolvam confiança, compromisso e, sobretudo, conhecimentos de uma sobre a outra. O tempo e as relações interpessoais, envolvendo diversos níveis hierárquicos, permitirão entender os recursos disponíveis da outra empresa, suas formas de negociação, preferências, capacidade de desenvolvimento, de entrega e outras informações que só podem ser adquiridas através do relacionamento constante (Johanson e Mattsson, 1988). O artigo também defende que relacionamentos de longo prazo fazem da rede um ambiente estável; no entanto, sujeito a constantes mudanças, visto que empresas podem entrar ou sair dessa rede; ou até mesmo uma rede se ligar a outras networks, aumentando e influenciando suas relações. Forsgreen (2008) complementa essa visão ao destacar que, além de tempo, as empresas precisam investir seus recursos nas interações. Dessa forma, elas desenvolvem competências em comum, envolvendo interdependências complexas de logística, tecnologia, finanças e outras. Essas competências desenvolvidas contribuem para a competitividade das empresas e da rede, tanto em ambiente doméstico quanto na abordagem e operação em um mercado internacional. 44 A primeira menção aos recursos de uma rede foi feita por Johanson e Mattsson (1988), que falavam de ativos de mercado (market assets). Estes eram definidos como recursos que não são diretamente controlados por uma empresa, mas acessados através da rede – como informações, por exemplo. Gulati (1999) introduz um conceito semelhante ao definir recursos de network como recursos externos às firmas, frutos exatamente das relações entre elas e acessados através da rede. Estes são capazes de influenciar tanto a formação de novas alianças estratégicas quanto a percepção das empresas sobre oportunidades e riscos. Segundo o autor, os recursos de network são valiosos para a estratégia da firma e sua disponibilidade influenciará o modo como a empresa reage às oportunidades, além de afetar seu desempenho na operação internacional. O acesso a esses recursos depende, no entanto, da posição das empresas na rede. Há duas formas de se descrever o papel de uma empresa em uma network: a microposição, caracterizada pela relação da firma com outros atores; e a macroposição, que significa a sua relação com o contexto da rede (Johanson e Mattsson, 1988). A internacionalização, segundo o modelo de Network, seria, então, estabelecer essas posições em relação a seus parceiros em mercados no exterior. O resultado disso é que o processo de internacionalização das empresas será influenciado de forma significativa pela rede de relacionamentos em que as empresas estão inseridas. Essa influência se dá desde a escolha dos países por onde se inicia a expansão; decisão sobre o modo de entrada no novo mercado; o nível de comprometimento de recursos etc (Forsgren, 2008). 2.1.2.1 O modelo de Network O movimento de internacionalização, segundo o Modelo de Network, pode ter três vieses: 1) extensão internacional, que significa simplesmente ampliar um relacionamento no mercado doméstico para o mercado externo; 2) penetração, ou seja, desenvolvimento de posições e aumento de recursos comprometidos nas redes em mercados internacionais já existentes; e 3) integração internacional, que seria o aumento da coordenação em diferentes redes internacionais (Johanson e Mattsson, 1988). Baseados nessas dimensões e nas posições ocupadas pelas firmas, Johanson e Mattsson (1988) chegaram a quatro estágios de internacionalização, de 45 acordo com a experiência da firma e com o ambiente. A matriz abaixo ilustra o modelo dos autores. Baixo grau de internacionalização da empresa Pioneira Iniciante Tardia Alto grau de internacionalização da empresa Internacional Solitária Internacional entre outras Baixo grau de Alto grau de internacionalização do internacionalização do mercado mercado Figura 7 - Modelo de Network. (Adaptado de Johanson e Mattsson, 1988). O primeiro caso são as pioneiras (early starter), empresas com poucas e fracas relações no exterior que significam, na prática, pouco conhecimento sobre o novo local e alto risco do investimento. No caso dessas firmas, os recursos próprios são importantes para que esse conhecimento seja adquirido, e captar esses recursos no mercado é menos provável. As pioneiras são as empresas cuja internacionalização mais se aproxima do modelo de Uppsala (Johanson e Vahlne, 1977), que começam com agente de vendas no local, sendo o aumento de investimentos e comprometimento graduais, à medida que o conhecimento é desenvolvido. No entanto, Johanson e Mattsson (1988) reconhecem que a operação no exterior também pode ser iniciada pela aquisição de uma companhia local ou com a instalação de uma base de operações. Essa classificação é, em geral, destinada a grandes empresas. A evolução desse estágio é a internacional solitária (lonely international). Quando a firma adquire conhecimento e estabilidade em um mercado estrangeiro pouco internacionalizado, ela estabelece uma vantagem naquele ambiente. Nesse estágio, a empresa é capaz tanto de criar barreira de entrada para concorrentes como de estimular a internacionalização de seus parceiros locais (Johanson e Mattsson, 1988). No entanto, seu tamanho e recursos ainda são importantes, já que 46 ainda é necessário investi-los na difusão de produtos, por exemplo. Isso restringe o grupo a multinacionais com alta capacidade de investimento. O terceiro grupo são as iniciantes tardias (late starters). Essas firmas são definidas por sua pouca experiência em mercados no exterior, enquanto seu ambiente de fornecedores, clientes e mesmo concorrentes já é internacionalizado. Essas condições levam as empresas à internacionalização graças à rede. Por esse estágio de internacionalização depender menos de recursos, essas empresas são geralmente menores e mais especializadas (Johanson e Mattsson, 1988). A internacionalização acontece, em geral, devido à necessidade de estar próximo de outras empresas: como lembram Chetty e Stangl (2009), empresas menores tendem a trabalhar mais perto de seus clientes para viabilizar as inovações através da colaboração. No entanto, conforme retratam Johanson e Mattsson (1988) em seu modelo, se, por um lado, as conexões das empresas com networks estrangeiras diminuem a desconfiança e cria um ambiente favorável; por outro, o pouco conhecimento de mercado é uma desvantagem em relação à concorrência. O último tipo de empresas descrito pelos autores é a internacional entre outras (international among others). Nessa categoria, tanto a empresa já tem experiências internacionais anteriores quanto o ambiente é altamente internacionalizado. A experiência prévia facilita o investimento em novos mercados, tornando menor a exigência de recursos. O processo de expansão internacional seria, então, apenas incremental e tipicamente mais acelerado (Johanson e Mattsson,1988). 2.1.2.2 Network e novos negócios internacionalizados Ao levar em conta o caso de empresas que dispõem de menos recursos internos para investir na abordagem do novo mercado, encontrando o suporte necessário ao processo no ambiente, o modelo de Network oferece uma explicação para a internacionalização de pequenas empresas. Tanto as iniciantes tardias quanto as internacionais entre outras são coerentes com o processo encontrado nos casos de born globals (Dib, 2008), podendo ser aplicados a novos negócios internacionalizados. Para Coviello e Munro (1995) os relacionamentos dessas empresas são recursos que podem oferecer novos contatos internacionais e ajudar a estabelecer 47 posições no novo mercado. Esses contatos oferecem também acesso a oportunidades de negócios em outros países. Nesse caso, segundo os autores, a percepção de risco e oportunidade estaria mais associada ao compromisso desses contatos e relações internacionais do que ao conhecimento por experiência direta do novo mercado, conforme a proposta de Johanson e Vahlne (1977). Mas se, por um lado, uma rede contribui para a internacionalização das empresas, auxiliando na conquista de credibilidade no novo mercado e criando meios para expandir rapidamente as operações internacionais; por outro, os contatos também limitam o aproveitamento de oportunidades e desenvolvimento de novas parcerias (Johanson e Mattsson, 1988; Coviello e Munro, 1995), assim como o acesso a informações e recursos desses novos contatos (Gulati, 1999). Além disso, redes muito grandes são difíceis de controlar (Schwens et all, 2011). Apesar das contribuições do modelo de Network para a compreensão da internacionalização de empresas de menor porte, a visão ainda segue características das teorias tradicionais, que surgiram nos anos 70. Isso significa dizer que a internacionalização é vista como um processo que tende a acontecer em fases posteriores do ciclo de vida de uma empresa (Mello, 2009), após o seu crescimento ou esgotamento do mercado doméstico. O modelo de Johanson e Mattsson (1988) não explicaria, nesse sentido, o fenômeno de empresas que se internacionalizam nos seus primeiros anos de vida, tendo o processo como parte da sua estratégia intrínseca (Pandeya, 2011). Schweizer, Vahlne et al. (2010) chegam a argumentar que a atualização do modelo de Network pode ser tão abrangente que faria mais sentido como uma explicação para um processo de mudança na empresa, que pode ou não levar à internacionalização. Na tentativa de preencher as lacunas das teorias tradicionais a respeito da internacionalização de novos negócios, alguns campos de estudo contribuem especificamente para o estudo dessas empresas (Oviatt e McDougall, 1994; Rennie, 1993; Coviello, McDougall et al., 2011), como será analisado a seguir. 2.2 A INTERNACIONALIZAÇÃO DE NOVOS NEGÓCIOS A partir dos anos 90, cresce o interesse da literatura por novos negócios internacionalizados. Coviello, McDougall et al. (2011) observam que o interesse de pesquisadores por firmas que investem na abordagem de mercados internacionais 48 ainda nos primeiros anos de operação tem aumentado, o que pode ser observado não apenas no crescimento do número de autores e pesquisas, mas também na diversificação de países de origem dos estudos. Segundo a teoria de Network, esse movimento de empresas pequenas e médias seria impulsionado pela internacionalização da própria indústria em que elas estão inseridas (Johanson e Mattsson, 1988). No entanto, esse argumento não é suficiente para explicar o fenômeno de rápida internacionalização das empresas, já que o processo de internacionalização de novos negócios é constituído de padrões e manifestações de compromisso diferentes das empresas tradicionais: geralmente as primeiras decisões de internacionalização acontecem antes do desenvolvimento da própria organização (Oviatt e McDougall, 1994). Os novos negócios internacionalizados passaram a chamar a atenção de acadêmicos e da mídia no final dos anos 80 e início dos anos 90 (Oviatt e McDougall, 1994), consolidando-se como tendência (Knight, 2000; Coviello, McDougall et al., 2011). O fenômeno seria conseqüência de empreendedores com experiência internacional, capazes de conectar recursos de múltiplos países (Oviatt e McDougall, 1994); da própria orientação original da empresa, que teria o mercado internacional como potencial desde sua concepção (McDougall, 1989; Rennie, 1993); ou mesmo um pré-requisito para a sua sobrevivência e crescimento (Rialp, Rialp et al., 2005). Essas empresas, apesar do menor porte, seriam competitivas no mercado internacional e, em princípio, originárias de qualquer setor (Rennie, 1993), mas principalmente aqueles ligados a serviços e alta tecnologia (Mello, 2009). Entre os fatores que teriam contribuído para a disseminação do fenômeno de novas empresas que buscavam o mercado internacional desde a sua concepção estariam a globalização, definida como a crescente interdependência de economias de diversos países, envolvendo empresas, fornecedores, clientes, governos etc (Knight, 2000); e a conseqüente homogeneização de mercado (McDougall e Oviatt, 2000; Rocha et all, 2010). O desenvolvimento de tecnologias de produção, comunicação e transporte também são constantemente associados ao surgimentos dessas empresas (Oviatt e McDougall, 1994; Rialp, Rialp et al., 2005; Rocha et al., 2010). Entre as novas condições de mercados, vale ressaltar o aumento da importância dos nichos e o maior valor associado às alianças e relacionamentos globais (Rialp, Rialp et al., 2005). Já nas empresas, as características 49 empreendedoras mais desenvolvidas teriam também impulsionado o movimento internacional (Oviatt e McDougall, 1994; 2000; Rialp, Rialp et al., 2005). Duas linhas de pesquisa que buscavam entender fenômeno da rápida internacionalização de empresas surgiram quase simultaneamente. Apesar de ambos terem como possível marco inicial o artigo publicado por McDougall (1989), no início, essas duas propostas foram se desenvolvendo de formas distintas. A primeira linha é o Empreendedorismo Internacional, originado pela pesquisa de Oviatt e McDougall (1994), que nomearam essas organizações novos negócios internacionais (International new ventures). A segunda surgiu na Austrália, quando Rennie (1993) propôs o termo Born Global referindo-se a empresas que têm a visão do mercado global desde seu nascimento. A principal diferença dessas duas áreas de pesquisa é a própria origem: enquanto o Empreendedorismo Internacional teve raízes no mundo acadêmico, buscando fontes em diversas áreas de estudos anteriores, como empreendedorismo e expansão internacional; a teoria de born globals surgiu de uma proposta teóricoempírica, originada em uma empresa de consultoria (Mello, 2009). Apesar de desenvolvimentos distintos, os estudos não descrevem fenômenos necessariamente diferentes, mas duas perspectivas que cresceram independentemente a respeito de um mesmo fenômeno. Por isso, apesar de terem se desenvolvido separadamente, pesquisas nas duas áreas mostraram resultados convergentes (Mello, 2009). Hoje, são vistas como duas abordagens dentro de um mesmo fenômeno (Coviello, McDougall et al, 2011), com pequenas diferenças conceituais. De fato, Oviatt e McDougall (1994) reconheciam as global start ups como um tipo de international new venture. A preferência pelo segundo termo seria, então, pela abrangência do termo internacional, que incluiria empresas com atividades em apenas um ou poucos países além de sua origem, geralmente priorizando o mercado doméstico; em contraposição ao termo global, que sugere o envolvimento da organização em diversos países ou continentes, com foco mundial (Coviello, McDougal et al, 2011). Segundo Coviello et all (2011), no entanto, o ponto mais importante nessas pesquisas não é o grau de internacionalização das empresas, mas relação dos termos born (nascida) e new (nova): o foco de ambas as linhas de pesquisa são firmas jovens e, portanto, diferenciadas das demais pelo estágio de seu ciclo de vida 50 em que iniciam a internacionalização. Para os autores, é a idade em que a empresa cresce e se internacionaliza o que tem maiores implicações para o desenvolvimento dos trabalhos na área e, nesse sentido, há uma convergência entre as international new ventures e as born globals. . Os termos Born Global e International New Venture são utilizados na literatura de negócios internacionais frequentemente de forma permutável (Rialp, Rialp et al., 2005; Dib, 2008; Coviello, McDougall et al, 2011). A seguir, são descritos o desenvolvimento dessas duas linhas de pesquisa, com o objetivo de explorar as pesquisas que as embasaram. 2.2.1 Empreendedorismo Internacional Apesar de ter como marco inicial o ano de 1994, quando Oviatt e McDougall publicaram um artigo sobre o processo de internacionalização dos novos negócios, as bases para a pesquisa em empreendedorismo internacional foram lançadas por McDougall (1989). No estudo, a autora ressalta a diferença entre novos negócios focados no mercado doméstico e aqueles com orientação para o ambiente internacional, adaptando observações sobre indústrias estabelecidas localmente e aquelas que possuem atividades ou buscam mercado em outros países. . Neste sentido, a autora definiu como novos negócios internacionalizados (international new ventures) as empresas que tivessem pelo menos 5% do seu faturamento originados no exterior. Para ela, a decisão por estratégias que considerassem o mercado de forma ampla e a opção por modos de entrada agressivos eram características marcantes desse tipo de empresa. Por isso, buscou bases na literatura de empreendedorismo e de negócios internacionais para entender o fenômeno. A definição inicial do empreendedorismo internacional seria “o desenvolvimento de novos negócios internacionalizados ou start-ups que, desde sua concepção, se envolvem em negócios internacionais, com a visão de sua operação como internacional desde os primeiros estágios de operação da firma” (McDougall, 1989, p.387, tradução nossa). Mais tarde, Oviatt e McDougall retomam o termo international new ventures, aprofundando a definição desse tipo de negócio para “organizações empresariais que, desde a concepção, procuram derivar vantagem 51 competitiva significativa do uso de recursos e vendas de produtos em múltiplos países” (Oviatt e McDougall, 1994, p. 49). Esse fenômeno, de acordo com os autores, não poderia ser entendido pelas teorias tradicionais de internacionalização. Dessa forma, para entender os novos negócios internacionalizados, o estudo de empreendedorismo internacional buscou bases em outras linhas de pesquisa existentes, agregando principalmente conhecimentos de negócios internacionais, empreendedorismo e gerenciamento estratégico, entre outros (Oviatt e McDougall, 1994; 2000; Coviello et all, 2011). Oviatt e McDougall (2000) explicam que, antes, os estudos de internacionalização focavam apenas em grandes empresas estabelecidas, enquanto o empreendedorismo olhava somente para o mercado local. O início dos estudos sobre empreendedorismo internacional ampliou a visão desses dois campos de estudo, incluindo novos negócios no primeiro e trazendo o segundo para uma abordagem internacional, traduzindo um fenômeno observado em diversos países (Knight, 2000). Com o tempo, outras disciplinas somaram conhecimentos para a evolução do tema e de subgrupos, trazendo contribuições, entre elas o envolvimento de disciplinas como marketing, estudos de pequenas empresas e gestão, além do empreendedorismo em diferentes culturas (Coviello, McDougall et al., 2011). Oviatt e McDougall (2000) também destacam o caráter multidimensional do conceito, que pode ser estudado à luz de diversas disciplinas. A partir de estudos de internacionalização, observou-se que empresas jovens não seguem os mesmos padrões de grandes empresas: suas tomadas de decisão, escolhas e processos seguem caminhos próprios (Oviatt e McDougall, 1994). Com base nesse pressuposto, os autores propuseram um modelo que buscava as international new ventures na teoria tradicional de internacionalização: 52 Poucas atividades coordenadas entre países (Prioritariamente logística) Startup de importação e exportação Negociante multinacional Muitas atividades coordenadas entre países Startup com foco geográfico Startup global Poucos países envolvidos Muitos países envolvidos Figura 8 - Modelo do Empreendedorismo Internacional. (Adaptado de Oviatt e McDougall, 1994, p. 59). Um ponto que merece destaque na abordagem de Oviatt e McDougall (1994) é a conclusão de que, ao contrário de grandes empresas, o investimento direto no exterior não é necessariamente um pré-requisito para a internacionalização dessas firmas – a definição desses negócios seria pelo valor agregado, não pelos ativos que possui. Isso significa que não apenas a estratégia, mas também a manifestação de compromissos é diferente no caso dessas empresas. Além disso, eles são enfáticos ao dizer que é a idade da firma, não seu tamanho, o fator que diferencia seus processos de internacionalização. Associados aos conceitos de internacionalização, entretanto, há as contribuições do empreendedorismo. No processo de abordagem internacional, o empreendedorismo aprendeu a usar as networks para captar informações tanto sobre um novo mercado quanto sobre oportunidades e mudanças ambientais. Em outras palavras, network pode ser considerada uma ferramenta de marketing da empresa (Pandeya, 2010), um recurso para reduzir o risco das operações internacionais (Rocha et al, 2010) através do aprendizado indireto ou oportunidade de negócios com seus parceiros domésticos. Nesse aspecto, Knight (2000) argumenta que as principais características do empreendedorismo estão também estão fortemente relacionadas ao marketing. Essas características seriam: o fato de ser voltado para a busca de oportunidades; mas também à promoção de novas ideias (inovação), propensão a investir recursos em projetos de alto risco, mas também com possibilidade de altos retornos; 53 proatividade e o forte papel do líder, reconhecido pela autonomia. Oviatt e McDougall (2000) chegam a considerar que o empreendedorismo é base da internacionalização mesmo em firmas estabelecidas. Essa noção, no entanto, não é definitiva: Coviello, McDougall et al. (2011), conforme anteriormente, voltam a definir o empreendedorismo internacional pela idade das empresas. Com o crescimento do interesse pelo tema e o seu rápido desenvolvimento, a definição do empreendedorismo internacional foi atualizada pelos autores que a propuseram, enfatizando características que foram, no geral, observadas nesse tipo de firmas. Na nova concepção, o “empreendedorismo internacional é uma combinação de comportamento inovador, pró-ativo e propenso ao risco que cruza as fronteiras nacionais para criar valor nas organizações” (McDougall e Oviatt, 2000, tradução nossa). A evolução da definição do termo reflete uma tendência do estudo, que é voltar-se para uma questão comportamental. De modo geral, o empreendedorismo internacional aborda mais profundamente a figura do empreendedor, suas características e comportamento, em comparação a outras teorias de internacionalização (Dib, 2008). Mello (2009) busca na literatura as características da internacionalização de empresas segundo o proposto pelos estudiosos do empreendedorismo internacional. Estas seriam: as empresas surgiram graças às mudanças ambientais e tecnológicas; as características do empreendedor, motivações, experiências e conhecimentos seriam essenciais para o processo; as redes de relacionamento domésticas e internacionais teriam um papel importante na internacionalização; são empresas pró-ativas na busca de oportunidades no exterior; têm características que representam vantagem competitiva no mercado internacional; são mais flexíveis e desfrutam de capacidade de aprendizado; e, por fim, os empreendimentos geralmente compensam a falta de recursos próprios com governanças alternativas, como licenciamento da marca e franquia. Coviello, McDougal et al. (2011) reconhecem as controvérsias do tema, e separam as contribuições dos diversos estudiosos da área em cinco grupos: as primeiras publicações, que ajudaram a estabelecer o empreendedorismo internacional como um campo de estudos, já que essas firmas têm padrões particulares de abordar mercados externos; as revisões que classificavam os subgrupos – de que as Born Globals são exemplos. O terceiro grupo evidencia o 54 potencial do Empreendedorismo Internacional relacionado com disciplinas como o marketing e gestão; o quinto grupo foca em características específicas dos empreendimentos, como a busca por oportunidades. E, por último, o quinto grupo descrito pelos autores é o das críticas, que questionam mesmo o valor da existência desse campo de estudo como algo diferenciado da internacionalização tradicional. As críticas, no entanto, atentam para o fato de que esse campo ainda está em desenvolvimento. Observações empíricas sobre os fatores que levam novos negócios a investir em mercados internacionais ainda mostram resultados controversos (Schewns et all, 2011), o que reforça a necessidade de revisões que indiquem os padrões e parâmetros da internacionalização nos primeiros anos de vida. Para Coviello et all (2011), essa revisão deve ter uma perspectiva multidisciplinar e que compreenda verdadeiramente a história e o desenvolvimento desse campo de estudo. 2.2.1.1 O papel do empreendedor Um elemento que merece destaque nos estudos de internacionalização de empresas é o papel do empreendedor. Sua relevância para a abordagem internacional era já percebida desde a pesquisa de Johanson e Wiedersheim-Paul (Johanson e Wiedersheim-Paul, 1975), que embasou o modelo de Uppsala, quando os autores reconheceram que as organizações cujos gestores tinham experiência internacional prévia idealizavam o investimento em novos mercados desde o início da operação. Mas é no Empreendedorismo Internacional que a figura do empreendedor ganha mais relevância na literatura (McDougall, 1989; Oviatt e McDougall, 1994; Coviello, McDougall et al, 2011), sendo foco inclusive de artigos específicos, que a analisam, por exemplo, a influência de sua paixão (Laaksonen, Ainamo e Karjalainen, 2011). A associação do empreendedorismo à rápida internacionalização de empresas encontra justificativas na literatura: a pesquisa realizada por Knight (2000), por exemplo, mostra que a orientação empreendedora está associada à qualidade de liderança em firmas com alto grau de globalização, o que não acontece naquelas focadas apenas no mercado doméstico. Por isso, essa característica é considerada chave por empresas internacionalizados. que correspondem ao perfil de novos negócios 55 Sob outro ponto de vista, os gestores seriam responsáveis pelo fenômeno de internacionalização precoce. No artigo seminal do Empreendedorismo Internacional, Oviatt e McDougall (1994) justificam os novos fundamentos de empresas multinacionais pelo aumento da experiência internacional dos empreendedores, que teriam mais facilidade para lidar com a comunicação e com as diferenças culturais. Na mesma linha, Schwens, Werth et al. (2011) mostram que, na literatura, a experiência internacional dos gestores é o fator que tem maior relação positiva com a internacionalização das empresas. A paixão do empreendedor é também um tema que tem motivado um número crescente de pesquisadores. Isso se deve à sua motivação, que contribuiria para o crescimento do negócio e a criação de algo novo. Essa paixão seria importante para a solução de problemas, persistência e criatividade (Laaksonen, Ainamo e Karjalainen, 2011). Rialp, Rialp et al. (2005), por sua vez, ao pesquisar pequenas empresas espanholas, não encontraram diferenças relevantes entre as experiências internacionais anteriores de gestores de born globals e de empresas que optam pela internacionalização gradual; nem mesmo nos conhecimentos sobre outros mercados. No entanto, os autores reconhecem que gestores de novos negócios internacionalizados e de born globals têm atitude mais pró-ativa, além de melhor uso dos relacionamentos internacionais, sendo capazes de ver oportunidades onde outros não enxergam. De fato, em sua pesquisa, as empresas previamente identificadas como born globals utilizavam melhor seus distribuidores em outros países para adquirir conhecimento de mercado. Isso vai ao encontro da observação de Pandeya (2011), que ressalta a importância das networks, mas desde que os empreendedores saibam utilizá-lo, filtrar informações recebidas, identificar oportunidades, buscar recursos e saber aproveitá-las. Quanto à qualidade desses relacionamentos, no entanto, é possível buscar associações na pesquisa de network, que mostra a internacionalização de empresas baseada nas oportunidades oferecidas por clientes ou outros parceiros de negócios: Coviello e Munro (2005), por exemplo, ressaltam que os relacionamentos comerciais são significativos na decisão de internacionalização. Já na pesquisa realizada por Coviello e Martin (1999), os resultados apontam que, em muitos casos, são os 56 relacionamentos pessoais que promovem ações significativas, como acesso a oportunidades que, em última análise, motivam a internacionalização. 2.2.2 Born Globals O termo Born Global foi empregado pela primeira vez na Austrália, quando Rennie (1993) relatou o resultado de uma pesquisa, realizada por uma consultoria multinacional sobre empresas de pequeno e médio porte que competiam internacionalmente com grandes corporações sem passar por um estágio de maturação em seu mercado doméstico. Essas empresas, segundo o artigo, teriam um tempo médio para início da operação internacional de dois anos, e a sua participação internacional corresponderia a 76% de suas vendas; enquanto as chamadas tradicionais teriam apenas 20% das vendas no exterior. Desde então, o termo Born Global foi incorporado aos estudos de internacionalização, desenvolvendo-se em teorias buscavam descrever e entender o fenômeno. Esse tipo de empresas também se adequa à definição de McDougall (1989): empresas competitivas, que viam a internacionalização em seu escopo desde os primeiros anos de vida. Apesar dos estudos sobre as Born Globals terem se desenvolvido paralelamente ao Empreendedorismo Internacional, é possível indicar semelhanças dessas empresas com as International New Ventures, sendo os dois termos frequentemente utilizados de maneira permutável (Coviello, McDougall et al, 2011). No entanto, ao contrário do Empreendedorismo Internacional, cuja base nasce a partir da consolidação de diferentes linhas de pesquisa para a formação uma nova teoria; os estudos de born globals tendem a criar um conceito próprio. Por ser um fenômeno ainda recente, a sua compreensão e classificações ainda são limitadas (Rialp, Rialp et al, 2005), pouco conclusivas e carentes de um arcabouço teórico e terminologias consistentes que a sustentem (Dib, 2008). O rótulo de “nascidas globais” pode dar uma ideia errada sobre seu significado: normalmente as born globals não nascem distribuídas pelo planeta, como o nome sugere, mas são assim chamadas porque se internacionalizam rapidamente, em seus primeiros estágios de vida (Hashai, 2011). Essas empresas pensam global, mas agem localmente; não ficam confinadas a um só país; nem enxergam o mercado internacional como mero complemento ao doméstico (Rialp, 57 Rialp et al., 2005, p. 138, tradução nossa). Ao contrário, há certo consenso na literatura de que um dos pontos que a caracteriza é a percepção do mundo como um mercado potencial, observando não apenas o próprio país, mas fundamentalmente os “nichos globais” (Mello, 2009). Inicialmente, as born globals foram definidas por duas características fundamentais: 1) apesar de pequenas, as companhias são muito competitivas; 2) seu lucro e crescimento global seriam impossíveis há algumas décadas, dado que a evolução da tecnologia, como internet e transporte, são condições fundamentais para a internacionalização dessas empresas (Rennie, 1993). Com o desenvolvimento dos estudos, outras características foram observadas, entre elas o uso de ativos intangíveis e inovação, principalmente porque essas empresas investem na diferenciação de produtos; e a postura empreendedora na abordagem de mercados em comparação às de internacionalização tradicional (Rialp, Rialp et al., 2005). Em resumo, as características mais marcantes entre as born globals, de acordo com a literatura, seriam: posse de ativos singulares que a permitam ser competitiva; maior capacidade de inovação; especialização ou foco, traduzidos em estratégias de nicho global; orientação ao consumidor; diferenciação do produto como vantagem competitiva; vantagem tecnológica; uso intenso de tecnologias de informação; uso de parcerias; importância de networks em seus processos (Dib, 2008). Outros fatores também constantemente associados a esse perfil de empresas seriam o acesso a recursos internacionais, forte orientação e experiência internacional de seus gestores e tolerância ao risco (Mello, 2009). No geral, essas empresas também competem em segmentos emergentes de mercado, focados em novas tecnologias e são capazes de utilizar as redes de relacionamento e seus recursos ao invés de acumular informações gradualmente (Rialp, Rialp et al., 2005). Ainda não há, porém, consenso sobre diversas questões a respeito de born globals. Entre elas, estão os motivos de sua existência, ou seja, se essas empresas se internacionalizam rápido devido a uma limitação do mercado consumidor interno ou por uma necessidade intrínseca da firma, que seria anterior a um objetivo (Rocha et al, 2010). Rennie (1993), em sua descrição inicial do fenômeno, argumentou que não apenas as inovações tecnológicas, mas também mudanças no mercado 58 possibilitaram o surgimento dessas empresas: do lado do consumidor, estes exigiam produtos mais especializados, criando mercados globais de nicho; em relação à competição, o mercado favorecia firmas mais flexíveis e eficientes em custos. Entre as principais dúvidas na literatura para estabelecer os parâmetros e entender esse tipo de empresas está a idade da firma, visto que a data em que começam a existir não é clara (Dib, 2008). Segundo o autor, a maioria dos estudiosos prefere considerar o início da operação o período de um ano após o primeiro faturamento. Outras dúvidas seriam: em que período as empresas efetivamente surgiram (estima-se entre os anos 70 a 90, junto com os avanços tecnológicos que tornaram possível sua existência); tempo de início das atividades internacionais, que normalmente varia entre dois e oito anos; a porcentagem de vendas internacionais para as empresas; e qual o modo de entrada dessas empresas em outros países, ou seja, como elas começam a atividade internacional (Dib, 2008). 2.2.2.1 O processo de internacionalização das born globals Sobre o processo em si de internacionalização das born globals, a maioria dos autores chega a um consenso de que essas empresas não seguem os padrões descritos pelo Modelo de Uppsala, caracterizado pela internacionalização gradual (Dib, 2008). Essa proposta contraria a pesquisa realizada por Rocha et al (2010) com quatro empresas brasileiras de software que, embora tivessem passado pela internacionalização nos seus primeiros anos de vida e apresentassem características particulares de born globals, passaram também pelo aumento de investimentos e compromisso por etapas, não se afastando totalmente do proposto por Johanson e Vahlne (1977). Hashai (2011), por sua vez, propõe que as born globals, assim como empresas tradicionais que seguem o modelo de estágios, também visam a redução dos riscos no processo de internacionalização. Este, porém, toma uma forma diferente, dada a limitação de recursos e à velocidade com que a operação é realizada. Isso contraria o proposto por diversos autores (Oviatt e McDougall, 1994; 2000; Coviello, 2011) de que essas firmas seriam altamente propensas ao risco. A manifestação da redução de risco, no entanto, seria diferente daquela proposta na literatura tradicional de internacionalização. 59 Para Hashai (2011), existem duas dimensões em que uma empresa se internacionaliza: 1) número e diversidade de países de destino; 2) aumento do grau de comprometimento com a operação internacional. Tendo esse pressuposto, sua pesquisa aponta evidências de que as born globals também adotariam a internacionalização por estágios, reduzindo seus riscos. No entanto, esse processo se daria de forma diferente do Modelo de Uppsala: em vez de aumentar gradualmente investimentos em um mesmo mercado, essas empresas diminuiriam seus riscos concentrando seus recursos em apenas um dos dois padrões como dominante de internacionalização, fazendo uma expansão significativa apenas nesse sentido. Dessa forma, a redução da complexidade do processo seria a responsável por propiciar menor risco, o que tornaria a internacionalização atrativa economicamente por causa da experiência adquirida (Idem, 2011). Com isso, segundo o autor, as empresas desenvolvem capacidades para essa operação e obtém economias até um ponto ótimo; para em seguida iniciar a internacionalização segundo o outro padrão. O autor enfatiza que a mudança de padrão pode acontecer diversas vezes na mesma empresa. A pesquisa também apontou que, quanto maior a intensidade tecnológica dessas empresas, maior a probabilidade de investir em um só padrão. A experiência internacional prévia dos gestores, no entanto, pode diminuir a necessidade desse processo por etapas (Hashai, 2011). 2.4 INTERNACIONALIZAÇÃO DE NOVOS NEGÓCIOS: UMA DISCUSSÃO Anteriormente, este trabalho expôs modelos que buscam explicar a internacionalização de empresas pelo processo em si, traduzido pelas etapas do modelo de Uppsala (Johanson e Vahlne, 1977); pela percepção da influência de outros atores de uma rede de relacionamentos, como proposto pelo modelo de Network (Johason e Mattsson, 1988) ou pela observação da rápida internacionalização de novos negócios (McDougall, 1989; Rennie, 1993; Oviatt e McDougall, 1994; Coviello, McDougall et all, 2011). Porém, a realidade das pesquisas pode apontar para um contexto diferente, em que apenas uma teoria não é suficiente para explicar o processo de internacionalização e os principais fatores envolvidos. A pesquisa realizada por Rocha et al (2010) é um exemplo para esse cenário: embora as empresas 60 pudessem ser caracterizadas como born globals, seu padrão de abordagem do mercado externo era bastante semelhante àquele sugerido por Uppsala. Mello (2009) deixa esse aspecto ainda mais evidente ao concluir que, entre dez empresas estudadas, apenas três eram “puras”, ou seja, seu processo de abordagem do mercado externo poderia ser explicado por um só modelo. No entanto, mesmo entre esses casos, todas as teorias eram capazes de oferecer explicações para alguns aspectos da internacionalização. Se as teorias de internacionalização buscam explicar a abordagem internacional de forma genérica, é preciso levar em conta, entretanto, que a natureza da atividade da empresa pode afetar a interpretação dos elementos desse processo. Firmas de prestação de serviços, como é o caso do setor abordado neste trabalho, apresentam características no processo de internacionalização diferentes das empresas focadas em produtos. Sobre esse aspecto, Coviello e Martin (1999) mostram que a internacionalização de pequenas empresas de serviços segue padrões mais complexos do que aqueles descritos por modelos tradicionais. Por exemplo, o processo não seguiria estágios, como sugerido pelo modelo de Uppsala, apesar de haver evidências de que o conceito de distância psíquica seja aplicável nesses casos; nem se adequaria ao modelo de Network, embora os relacionamentos sejam essenciais para o acesso às oportunidades. Mesmo as motivações para a abordagem de novos mercados seriam diferentes: entre os motivos identificados, estão o conhecimento e natureza do serviço, distribuição de risco e limitação do mercado doméstico (Coviello e Martin, 1999). Nessa linha, é notável que a redução de risco é considerada estímulo, e não barreira, para opção por investir em novos mercados. Esse fator pode ser atribuído principalmente à característica intrínseca do serviço mais ligado em que o ativo mais importante não é físico, mas exige investimento de tempo: o relacionamento com mercado consumidor. Ainda sobre a percepção de ricos, é importante destacar que esta é diferente em empresas de rápida internacionalização. É possível reconhecer que as companhias estabelecidas tendem a ser mais cautelosas do que os novos negócios (Rocha, Mello et al., 2012). No caso de pequenas empresas, por sua vez, a percepção de risco estaria muito mais associada ao compromisso do contato de network – quanto maior o comprometimento com a relação, menor o risco percebido (Coviello e Munro, 1995). Em parte, essa característica pode ser explicada pelo fato 61 de que as empresas de rápida internacionalização usam o conhecimento dos seus parceiros mais do que buscam absorver esse conhecimento para si (Rialp, Rialp et al., 2005). Quanto ao processo em si de internacionalização de empresas, a literatura classifica os negócios de rápida internacionalização pelo tempo e fase do ciclo de vida em que o processo de abordagem de novos mercados acontece (Coviello, McDougall et al., 2011); no entanto, não existe consenso sobre as diferenças de processo e critérios operacionais que permitam reconhecer os novos negócios internacionais e diferenciá-los daquelas empresas que investem gradualmente no mercado externo (Rialp, Rialp et al, 2005). Knight (2000) defende que a internacionalização é um processo evolucionário da empresa que requer uma preparação do novo negócio, envolvendo pesquisa de marketing, comprometimento de pessoas, adaptação de produtos e preparação de recursos, como os financeiros. No caso das empresas de serviço, a contratação de mão-de-obra qualificada e o investimento em relacionamentos internacionais seriam formas de preparação para a abordagem internacional (Coviello e Martin, 1999). Essa preparação, no caso de empresas de serviço, estaria diretamente ligada às manifestações de compromisso da empresa com o novo mercado. O compromisso, por sua vez, poderia ser inversamente proporcional à velocidade da internacionalização. Rocha, Mello et al. (2012) mostram isso ao identificar dois perfis de empresas em relação ao compromisso: o primeiro são aquelas em que a preparação é mínima e se internacionalizam graças a uma oportunidade. Nesse caso, a internacionalização pode ser feita por licenciamento da marca ou através de uma joint venture com parceiros estrangeiros, que seriam responsáveis pelo acesso ao conhecimento do novo mercado. O segundo perfil identificado pelos autores são as empresas que realmente investem na preparação para a abordagem internacional, desenvolvendo conhecimento de mercado e adaptando seu serviço ao novo ambiente. Desse modo, ao assumir maior compromisso, é necessário também mais tempo tanto para conhecimento do novo mercado quanto para a preparação e adaptação. Nessa concepção, o compromisso com o novo mercado estaria estabelecido mesmo antes da internacionalização em si (Rocha, Mello et al., 2012). 62 2.4.1 A internacionalização de empresas de tecnologias da informação O setor a que pertence uma empresa também tem características que podem influenciar o seu processo, decisões e velocidade de internacionalização. No caso do setor de serviços em tecnologias de informação, exemplos dessas características seriam as facilidades de comunicação e distribuição (Oviatt e McDougall, 1994; Rocha et al., 2010), uma vez que muitos desses serviços são facilmente acessados pela internet; e a alta exposição à globalização e competição internacional (Berbel, 2008; Knight, 2000). No entanto, apesar das facilidades que a globalização possibilita para que empresas busquem mercado em outros países, muitas dessas firmas ainda procuram se estabelecer no mercado doméstico antes de investir na internacionalização (Rialp, Rialp et all, 2005). Além disso, as mudanças no mercado podem também ter impacto negativo na competição: as mesmas mudanças tecnológicas que oferecem vantagens e facilidade para que uma firma exporte seus produtos e serviços, criando oportunidades, também permitem que concorrentes internacionais venham competir em seu mercado doméstico (Dib, 2008). Nesse caso, as empresas se defendem ao se especializar, buscando atingir os “nichos globais” (Mello, 2009). Uma das maneiras que as empresas encontraram para lidar com essa competição internacional foi a crescente especialização de mercados, que possibilitou o surgimento de “nichos globais”: estes possibilitavam às empresas buscarem nichos específicos em diferentes partes do mundo (Mello, 2009). Como outra implicação da exposição à competição internacional, Knight (2000) defende que essas empresas tendem a responder enfatizando a tecnologia no seu negócio, reagindo à globalização principalmente com a adaptação de suas estratégias, desenvolvendo orientação empreendedora, focada na inovação e qualidade de produto e preparando-se para o mercado internacional. Essas empresas seriam também altamente voltadas para o cliente. Dessa forma, apresentariam características compatíveis àquelas observadas nos estudos de novos negócios internacionalizados e born globals. Coviello e Munro (1995), por sua vez, mostram que a internacionalização rápida é uma conseqüência de empresas submetidas à competição internacional, da 63 competitividade intrínseca da indústria e dos ciclos de vida curtos nesse setor. Também os relacionamentos internacionais estabelecidos durante o crescimento de uma firma são capazes de influenciar não apenas a decisão de investir em novos mercados, mas também modos de entrada e outras decisões estratégicas. Esses contatos, em um primeiro momento, também seriam essenciais para acelerar a entrada no novo mercado e estabelecer credibilidade. Quanto ao contexto de mercado, Fanhauber et al. (2007) defendem o crescimento dos novos negócios de acordo com o ciclo de vida da indústria. Para eles, é mais provável que a internacionalização de novos negócios aconteça na fase de crescimento do setor, quando a demanda é crescente e os padrões da indústria ainda não foram estabelecidos. Esta fase é marcada por baixa demanda e alta incerteza; por isso, é possível tentar estratégias mais arriscadas com riscos reduzidos de não sobreviver. Nesse aspecto, a teoria oferece uma explicação para o resultado inesperado encontrado na pesquisa de Zolfaghari e Rialp (2011), que conclui que as incertezas ambientais influenciam positivamente a operação internacional das empresas. Além das oportunidades permitidas pelo próprio crescimento do mercado, há mais espaço para erros neste período, já que a indústria ainda não tem padrões estáveis (Fanhauber et al., 2007). Quanto à internacionalização da empresa em si, os modelos propostos pela literatura não são, em geral, suficientes para explicar sozinhos os processos de abordagem de mercados externos de uma empresa – ao contrário, observa-se que as empresas de software normalmente seguem modelos mixtos de internacionalização (Mello, 2009). Dib (2008) acrescenta que as empresas com vantagens tecnológicas ou as mais voltadas para o cliente são, também, aquelas que buscam mercado de forma precoce, seguindo o conceito de born globals. 64 3 METODOLOGIA DE PESQUISA Este capítulo apresenta a metodologia adotada para esta dissertação, assim como os aspectos e implicações do método. Na primeira parte, serão apresentadas as perguntas de pesquisa que orientam o estudo, especificando as principais questões a serem abordadas. Em seguida, será discutido o método de pesquisa – estudo de caso – e as justificativas para o seu uso, vantagens e desvantagens. A terceira parte apresenta a justificativa da seleção do caso utilizado, descrevendo também os métodos de coleta e análise de dados. Ao final, são apresentadas as limitações do estudo. 3.1 O PROBLEMA DE PESQUISA Este estudo tem o objetivo de analisar o processo de internacionalização de empresas brasileiras de serviços de tecnologia da informação, avaliando as principais etapas, escolhas e decisões que determinam esse processo. Para isso, o estudo examina o caso de uma empresa brasileira que se internacionalizou nos últimos anos, tendo o movimento internacional se iniciado ainda nos seus primeiros anos de operação. Desta forma, o estudo pretende oferecer elementos para a compreensão dos principais fatores que influenciam a abordagem de mercados internacionais no caso de uma empresa empreendedora brasileira. 3.2 DEFINIÇÃO DAS PERGUNTAS DE PESQUISA As duas principais questões orientam este estudo são: 1) Como pode ser caracterizado o processo de internacionalização de uma empresa brasileira de serviços de tecnologia da informação? 2) Que fatores influenciam as suas decisões de abordagem de novos mercados no exterior? As duas questões foram desdobradas nas seguintes perguntas específicas, a partir da revisão de literatura do capítulo 2, que nortearam a pesquisa: 65 - Quais os principais motivos que levam uma empresa de serviços em tecnologia da informação a buscar mercados em outros países? - Quais as principais etapas do processo de internacionalização dessa empresa? - Quais as manifestações de compromisso que podem ser identificadas em cada etapa? - Como a empresa escolheu o primeiro mercado no exterior? Que fatores influenciaram essa escolha? - Qual o papel desempenhado pelo empreendedor no processo de internacionalização da empresa? - Qual a importância das networks para a internacionalização da empresa? 3.3 MÉTODO DE PESQUISA Neste estudo, optou-se por realizar uma pesquisa qualitativa exploratória, com o objetivo de buscar um entendimento em profundidade e novas visões sobre as questões propostas. A metodologia escolhida é a de estudo de caso, visando desenvolver um trabalho que retome o processo de internacionalização de uma empresa empreendedora brasileira do setor de tecnologia da informação. Yin (2009) sugere que, a escolha do método depende de três fatores: 1) a pergunta de pesquisa; 2) se há exigência do controle do pesquisador sobre eventos comportamentais; e 3) o grau de foco em eventos presentes e passados. O autor reforça, no entanto, que é um erro comum hierarquizar cada tipo de pesquisa – ao contrário, pesquisas qualitativas tanto podem ser exploratórias quanto descritivas, ou mesmo servir como teste para uma teoria. Creswell (2004), por sua vez, argumenta que a pesquisa qualitativa, por ser exploratória, é indicada nos casos em que as variáveis do objeto de estudo são desconhecidas ou as teorias existentes não se 66 adequam. Em outras palavras, essa abordagem se aplica quando o fenômeno estudado ainda necessita um entendimento mais profundo. Sobre estudos de negócios internacionais, Birkinshaw, Brannen e Tung (2011) defendem que a pesquisa qualitativa é importante por permitir uma análise mais profunda de temas que exigem maior compreensão por pesquisadores, levando a novas interpretações de uma cultura e melhor capturando a complexidade, a pluralidade de contextos envolvendo o ambiente de negócios e as nuances do tema. Entretanto, sua realização não elimina a necessidade de aplicar também pesquisas que utilizem métodos quantitativos ou a combinação das duas abordagens. Na mesma linha, mas referindo-se à metodologia de estudo de caso, Ghauri (2004) complementa que esses são especialmente indicados na área de negócios internacionais, já que métodos quantitativos seriam mais difíceis de comparar ou criar equivalências entre as diferentes culturas. Com perguntas abertas, por outro lado, o entrevistador é capaz de explorar e entender diferentes pontos de vista. A pesquisa qualitativa é fundamentalmente interpretativa; não existe, porém, um formato de pesquisa qualitativa que seja comumente aceito (Creswell, 2004). Nesse sentido, a pesquisa deve seguir suas perguntas ou hipóteses; contudo, Eisenhardt (1989) argumenta que esse tipo de pesquisa deve utilizar perguntas abertas possível, o que significa deixar margem para mudanças de foco durante o processo. O essencial, segundo a autora, seria seguir o problema de pesquisa e formular as potenciais variáveis principais, mas sem se deixar limitar por elas ou delimitar as suas possíveis relações. Este trabalho utiliza especificamente o método de estudo de caso, com análise de uma empresa de forma a entender em profundidade seus processos. Estudos de casos são utilizados por pesquisadores da na área de negócios para obter novas visões sobre um assunto, situação ou teoria (Ghauri, 2004). Dubois e Gadde (2002) defendem que o valor dos estudos de caso está em utilizar ideias extraídas de uma compreensão em profundidade de um fenômeno, levando em conta também o contexto em que esse fenômeno ocorre. Dessa forma, segundo os autores, o estudo de caso seria capaz de oferecer meios únicos para embasar e desenvolver uma teoria. Estudo de caso é um método que explora em profundidade uma questão utilizando a combinação de dados de diversos tipos e fontes e utilizando diferentes 67 procedimentos (Creswell, 2004), tais como arquivos, entrevistas, documentos, questionários e observações (Eisenhardt, 1989; Dubois e Gadde, 2002; Ghauri, 2004). A escolha do caso também é um ponto chave na pesquisa, pois, uma vez escolhido, elimina variações e nuances presentes em outros casos. Esses devem, então, ser escolhidos para replicar casos anteriores, ampliar conhecimentos sobre uma teoria emergente ou para oferecer exemplos de teorias já existentes (Eisenhardt, 1989). Este estudo examina a internacionalização de uma empresa brasileira do setor de tecnologia da informação, retomando desde seus primeiros movimentos de abordagem ao mercado no exterior, avaliando as principais decisões estabelecidas, velocidade da internacionalização e outros fatores associados a esse processo. O objetivo do trabalho é oferecer ferramentas que permitam melhor compreender não apenas a trajetória internacional de uma empresa empreendedora brasileira desse setor, mas também entender quais são os principais fatores que influenciam positiva ou negativamente esse processo. Sendo assim, o caso escolhido para esse trabalho explora o processo de internacionalização de uma empresa nos seus primeiros estágios de operação, permitindo verificar a aplicação de teorias de internacionalização ou mesmo criar elementos que contribuam para estudos de novos negócios internacionalizados. A opção pelo estudo de um único caso, segundo Ghauri (2004), é apropriada quando esse é suficientemente crítico para confirmar, desafiar ou entender uma teoria. Nesse caso, os achados do estudo são conciliados com perspectivas teóricas tradicionais de negócios internacionais, além daquelas relacionadas aos novos negócios internacionalizados, analisando como cada uma delas pode ou não contribuir para explicar o fenômeno. Creswell (2004) descreve como características do problema de pesquisa qualitativa: a) o conceito é imaturo ou não tem teorias e pesquisas prévias suficientes para explicar o fenômeno; b) a noção oferecida pela literatura não é precisa, apropriada, correta ou embasada; c) existe necessidade de explorar mais profundamente o tema para que uma teoria possa ser formulada; ou d) a natureza do fenômeno não permite que ele seja medido quantitativamente (p. 120). Nesta pesquisa, a escolha do método pode ser justificada pelos seguintes argumentos: - a quantidade de estudos teóricos e empíricos sobre a internacionalização de empresas brasileiras de serviços tecnologias da informação ainda é restrito; 68 - a necessidade de entender em profundidade as características do processo de abordagem internacional por essas empresas, capturando aspectos culturais e buscando comportamentais; - a necessidade de compreender os critérios das decisões dos empreendedores brasileiros durante o processo de internacionalização, assim como os fatores que influenciaram essas escolhas; - a possibilidade de surgimento de fatores novos e inesperados possibilitada pela pesquisa qualitativa; - a necessidade de uma abordagem holística, que avalie diversas fontes de informação, tais como entrevistas, documentos, artigos, publicações sobre a empresa, observações, além de artigos acadêmicos. 3.4 MÉTODOS DE COLETA E ANÁLISE DE DADOS Para essa pesquisa, em um primeiro momento, a coleta de dados foi realizada com a busca de informações secundárias. Para isso, foram consultadas fontes de pesquisas sobre o setor de serviços de tecnologia da informação, tais como IBGE, Softex e Brasscom; notícias publicadas na mídia sobre o setor e a empresa escolhida; o site da empresa a ser estudada, assim como perfis dos empreendedores; sites de instituições e eventos relacionados à história dessa empresa. A partir dessas informações, foram formuladas questões para entrevista em profundidade com os empreendedores da firma escolhida. A coleta de dados primários consistiu na realização de entrevistas em profundidade com um dos sócios-fundadores da IDXP e atual diretor operacional da mesma, Cristiano Monte Mór Paranhos. A entrevista principal seguiu o roteiro que se encontra em anexo neste trabalho, foi realizada por Skype, uma vez que o entrevistado encontrava-se nos Estados Unidos, e teve a duração de aproximadamente duas horas. Posteriormente, foi realizada uma conversa de duração de cerca de 30 minutos com o propósito de preencher eventuais lacunas e esclarecer pontos sobre o processo de internacionalização da empresa. O material obtido foi gravado e transcrito, de forma a tornar possível estabelecer uma cadeia de evidências para a construção do caso Explorar diversas fontes de dados para a análise do caso escolhido é fundamental para essa pesquisa por permitir a sua triangulação. A triangulação de 69 dados para a análise é uma forma de validação de dados comum em pesquisas qualitativas (Creswell e Miller, 2000). Segundo Eisenhardt (1989), a triangulação de dados, confrontando as análises com as informações coletadas, ajuda ainda os pesquisadores a manter vantagem e flexibilidade sobre seus resultados e coleta das de dados. Também permite ajustes nos questionários a partir de informações secundárias, o que facilita a descoberta de novos temas a serem explorados, de oportunidades de pesquisa emergentes e de inclusão de informações na pesquisa original. Já a comparação com conceitos da literatura, de acordo com a mesma autora, ajuda a validar as descobertas de pesquisa do estudo de caso. A maior dificuldade em estudos de casos é fazer a interrelação de diversos elementos envolvidos no processo (Dubois e Gadde, 2002). Os autores, no entanto, sugerem a combinação sistemática – um processo não linear de conduzir estudos de casos confrontando a teoria com a realidade, em um movimento contínuo entre o mundo empírico e o modelo. À medida que os dados encontrados surgem, a base de análise se reorienta, o que acontece múltiplas vezes durante o processo. Após a coleta e triangulação das informações obtidas, a última etapa dessa pesquisa é a análise dos resultados à luz dos estudos e teorias apresentados na revisão bibliográfica, confrontando as observações do estudo com teorias propostas por acadêmicos dedicados aos estudos de negócios internacionais. Essa análise foi conduzida pelas questões formuladas para este trabalho, apresentadas no item 3.2 deste capítulo. 3.5 LIMITAÇÕES DO ESTUDO Algumas limitações deste estudo são intrínsecas à natureza da pesquisa qualitativa baseada em estudos de caso. Uma das principais é a impossibilidade de generalizar as descobertas de pesquisas para um determinado fenômeno (Ghauri, 2004), ainda que para um universo limitado. Eisenhardt (1989) argumenta que, ao propor teorias a partir de estudos de casos, essas podem resultar uma visão muito estreita, incapaz de ser replicada como uma teoria geral. No entanto, este trabalho não se propõe a ser um modelo generalista; ao contrário, seu objetivo é explorar um fenômeno e levantar variáveis ou novas visões que possam ajudar a entendê-lo. 70 A segunda limitação, também inerente à pesquisa qualitativa, é a subjetividade dos dados. Esse fator pode ser desdobrado em dois aspectos: o ponto de vista do entrevistado e a análise do pesquisador, ou mesmo a de pessoas externas. Para Creswell e Miller (2000), a validação da pesquisa depende da lente utilizada, se a do entrevistado ou do pesquisador. No primeiro caso, é a fonte que conduzirá as descrições; no entanto, essas pessoas influenciam a narrativa com suas percepções, que podem ser alteradas suprimidas ou racionalizadas dado o tempo de intervalo entre o fato e a pesquisa. No entanto, para este trabalho especificamente, o viés do entrevistado, com seus pontos de vista e interpretações, são particularmente importantes, visto que o que está sob análise são os seus processos decisórios. Por outro lado, é preciso considerar que as interpretações dos dados estão sujeitas às percepções do pesquisador, que teria critérios subjetivos para julgar e analisar os dados. Pela lente do observador, é este que determina o tempo de pesquisa, a quantidade de dados suficiente para a pesquisa, a hierarquia de importância de informação e divisão de temas, além de conduzir o desenvolvimento da narrativa (Creswell e Miller, 2000). A análise de dados é um ponto crítico na pesquisa qualitativa, sujeito à interferência do viés e experiências prévias do pesquisador. Eisenhardt (1989) lembra que a análise de dados é o coração da construção de uma teoria; e geralmente essa parte leva a um final aberto. Ghauri (2004) complementa que cada resposta pode levar a novas questões, o que significa que não há um final claro para a pesquisa. Cabe ao pesquisador determinar os limites da pesquisa. 71 4 ESTUDO DE CASO Este capítulo descreve o caso da empresa escolhida para este estudo, apresentando um histórico de sua atuação, origem, evolução do negócio e processo de internacionalização. A apresentação do caso é contextualizada e contém transcrições de entrevistas com um dos sócios da empresa, o que permite melhor ilustrar as escolhas e percepções que levaram às decisões de abordagem do mercado internacional. 4.1 BREVE APRESENTAÇÃO DA IDXP A IDXP foi escolhida para este estudo por ser um caso particular: é uma start up ainda nos seus primeiros estágios de vida, mas já internacionalizada. A empresa foi legalmente fundada em 2008, mas permaneceu praticamente inativa até 2010, quando seus fundadores passaram a investir tempo e esforço no empreendimento. Em 2011, realizou o seu bem-sucedido projeto piloto em uma rede varejista em Belo Horizonte; e, em 2012, antes mesmo de começar a ter retorno financeiro, mas já com o reconhecimento do Prêmio SmartCamp da IBM, a empresa transferiu sua sede para o Vale do Silício, nos Estados Unidos, transformando o escritório original em Belo Horizonte, Minas Gerais, em uma subsidiária. A empresa foi idealizada a partir de um Plano de Negócios desenvolvido por Gustavo Lemos, atual CEO da empresa, e Cristiano Monte Mór Paranhos, que hoje está à frente das operações na IDXP. O Plano era o trabalho de conclusão de curso de pós-graduação de ambos, em Belo Horizonte. Com base no trabalho, os dois empreendedores decidiram fundaram uma empresa e, com o tempo, dois novos sócios se uniram ao empreendimento: Victor Gollnick, que assumiu como CTO, e o francês Jean Racine-grisoli, que foi o primeiro investidor anjo da empresa, mas hoje, unido à equipe como sócio, concentra a responsabilidade de CFO e contribuições com esforços comerciais na Europa, apesar de ainda atuar no seu antigo trabalho como investidor anjo na França. Durante esse histórico, até mesmo o foco da empresa mudou. A ideia inicial, vender uma tecnologia para monitorar consumidores, surgiu em 2006, quando um dos fundadores, Gustavo Lemos, era ainda estudante de engenharia. Hoje, a IDXP se define como “empresa de analytics comportamental do varejo” (IDXP). Na prática, 72 o modelo de negócios da empresa é o software como serviço: os dados obtidos através de um sistema tecnológico são analisados por um software próprio; e o cliente paga pelos resultados dessa análise. Por isso, a IDXP se define como uma provedora de consultoria estratégica em marketing, sendo o seu produto a análise do comportamento de compra do consumidor. A base da empresa, no entanto, é tecnológica, visto que as informações são obtidas por dispositivos de Rastreamento de Rádio Frequência colocados nos carrinhos de compras em supermercados, por exemplo, permitindo que a empresa monitore os passos dos consumidores e funcionários nos pontos de venda. Os dados obtidos são analisados por um software baseado em técnicas de análise comportamental, tecnologia semelhante à utilizada para análise de compras pela internet, gerando informações e propostas para otimizar as vendas por metro quadrado na loja. Paranhos, explica a mudança de foco: Na verdade, foi um pequeno equívoco. A gente começou achando que era uma empresa de tecnologia. Mas não vendemos tecnologia. Nós somos uma empresa de análise comportamental. A gente provê o serviço de análise comportamental. [...] Somos hoje uma empresa de análise de comportamento de consumidor, de 5 funcionário, mas uma empresa de base tecnológica. E continua: Nós vendemos software como serviço. Nós vamos na loja, capturamos as informações usando uma tecnologia, ou várias tecnologias integradas, e usamos o software para analisar, para processar isso tudo e analisar essas informações baseados em técnicas e critérios de análise comportamental.” Como essa tecnologia e a sua aplicação ainda não são utilizadas em lojas físicas, o produto é considerado inovador, como indica o COO: A análise do comportamento do consumidor é feita já de várias outras formas, com outras tecnologias [...]. A gente está trazendo um modelo e um approach diferente. É trazer uma escala industrial para esse tipo de serviço. A gente gosta muito de falar que é como... imagina o que eles já fazem muito bem hoje no mundo online: você entra num site e o sistema segue o seu clickstream, o que é que você faz, cada página onde você pára, quanto tempo você fica, o que é que você visualiza mais, enfim. Nós trazemos isso para o varejo físico, que é como um google analytics para o varejo físico, para as lojas mesmo. 5 Os trechos transcritos neste capítulo são parte de entrevista realizada com o COO da IDXP, Cristiano Paranhos, especificamente para este trabalho. 73 A tecnologia começou a tomar formas de negócio em 2008, quando Lemos e Paranhos se conheceram em seu curso de pós-graduação. Com empresa formalmente constituída, mas ainda inativa, os empreendedores foram aprovados no Programa Primeira Empresa Inovadora - PRIME, promovido pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) – programa que visa criar condições financeiras para apoiar a fase inicial de empreendimentos (FINEP, 2012). Esse foi o primeiro passo para que a empresa fosse selecionada, em 2010, para a Incubadora de Empresas de Base Tecnológica em Informática de Belo Horizonte (Insoft-BH), gerida pela Sociedade Mineira de Software – FUMSOFT. Além do apoio da incubadora, a IDXP recebeu o investimento de R$ 120 mil para estimular o negócio. Os primeiros resultados concretos do negócio vieram em 2011, quando a empresa realizou o bem-sucedido projeto piloto em uma rede de supermercados de Belo Horizonte, Minas Gerais. O projeto mostrou o potencial do produto. No mesmo ano, a IDXP ficou em primeiro lugar no IBM SmartCamp Brazil 2011, que levou a empresa a disputar a final mundial nos Estados Unidos, competindo com startups de diversos paises. Os Prêmios, além de reconhecimento, promoveram a divulgação da empresa e os relacionamentos. Parcerias, inclusive nos Estados Unidos, foram iniciadas a partir do SmartCamp. O contato com outras pessoas e projetos também ampliou a visão dos sócios, que passaram a acreditar mais no produto e a reestruturar a ideia inicial. Fomos disputar a final mundial lá no Vale do Silício, representando o Brasil contra as [empresas] que venceram nos outros países. E, chegando lá, a gente venceu, (...) e aí começamos realmente abrir a cabeça. Conversamos com muita gente lá. Isso é muito legal porque eles dão oportunidade, num evento desses, não só de mostrar a ideia, o produto, o projeto; mas também de conversar com muita gente interessante. E você tem muitos feedbacks legais. Então a gente começou a ter outras visões, a ter outras opiniões sobre a empresa, sobre o produto, e vimos que era um produto não só para o mercado brasileiro, mas podia ser um produto para o mercado global. Hoje, a estrutura da empresa ainda é reduzida e os primeiros projetos com retorno financeiro estão sendo iniciados no primeiro semestre de 2013. Os três sócios brasileiros se transferiram para a nova sede nos Estados Unidos, onde contratam o primeiro funcionário local: um profissional sênior de vendas. A sede da firma, no Vale do Silicio, é responsável por administrar negócios em todo o mundo. No Brasil, o escritório que fica em Belo Horizonte, por sua vez, assume apenas os 74 contratos nacionais. Hoje, esse escritório dispõe de um funcionário alocado na área administrativa e um técnico autônomo, que não é contratado, mas trabalha por projetos. A cada início de um projeto no Brasil, porém, um dos sócios está sempre presente. A filial brasileira, por questões de custos, também mantém a parte de desenvolvimento tecnológico: hoje a empresa está contratando um funcionário fixo para o desenvolvimento da tecnologia no Brasil. E, na França, além do sócio e CFO Jean Racine-grisol, a IDXP conta com uma pessoa independente de vendas. Após reestruturar a constituição da empresa, dividindo atividades e a parte administrativa entre a sede, nos Estados Unidos, e a subsidiária brasileira, a IDXP está em fase de começar projetos nos dois países, além de ter negociação em andamento com potenciais clientes na Europa. Como próximos passos, a empresa vai investir em vendas nos Estados Unidos, Brasil e Europa, visando colher os frutos de todo o desenvolvimento e estruturação. “O desenvolvimento nunca pode ficar de lado, estamos sempre aprimorando o produto (...) Mas o foco maior agora é esforço comercial”, diz Paranhos. 4.2 O PROCESSO DE INTERNACIONALIZAÇÃO DA IDXP Desde a concepção da IDXP, a abordagem de mercados estrangeiros fazia parte dos planos dos sócios. No entanto, essa era uma ideia para o futuro – o primeiro passo seria a consolidação da empresa no mercado local. Dois fatores aceleraram esse processo: o primeiro foi o envolvimento do investidor anjo da empresa, o francês Jean Racine-grisoli, que inicialmente era um contato pessoal do atual CEO, Gustavo Lemos, e, mais tarde, acabou se tornando sócio do empreendimento. Hoje, ele atua como CFO e também dedica esforços comerciais à empresa na França e outros países da Europa. Como mostra Paranhos, a presença desse sócio na França é benéfica para a empresa: O mercado francês, é uma feliz coincidência, porque o mercado francês, quando se fala de varejo, [está] entre os tops do mercado global. Então a gente conseguiu linkar isso. A presença na Europa, no entanto, ainda mostra baixo comprometimento de recursos, visto que o sócio já residia na França – como evidenciado por Paranhos, essa questão foi uma coincidência –, o outro responsável por vendas é um 75 profissional independente e os investimentos da empresa nessa área são ainda baixos. O segundo fator que serviu não só como gatilho para a internacionalização da empresa, mas também para decisão de transferência da sede para os Estados Unidos, foi a participação da IDXP no Prêmio IBM SmartCamp. A vitória em um prêmio internacional e o consequente contato com outras empresas e pessoas de diversos países, formando uma rede de relacionamentos, foi muito relevante para antecipar esse processo, como conta o sócio e COO: [Após a vitória da IDXP] começou a fazer sentido para a gente levar isso para fora. Aí a gente voltou para casa, reestruturamos a empresa, pensamos isso tudo em cima da nossa estratégia e realmente levamos a empresa para fora. Esse programa ajudou bastante nisso. Então, em 2012, a IDXP finalmente abriu a nova sede em Sunyvalle, no Vale do Silício, Califórnia. Não só o processo, mas também a motivação para a internacionalização para os Estados Unidos foi diferente da abordagem adotada na Europa. Nesse caso, a IDXP não tinha ainda parceiros, sócios ou clientes no novo país. Toda a rede de relacionamentos precisou ser construída: Na verdade, a gente não tinha nada. Nem parceiros. A gente começou a procurar parceiros lá. [...] Os primeiros meses realmente foram difíceis para a gente. Tivemos que gastar muito tempo com isso, reestruturando tudo, formando alguns parceiros lá [...]. É tudo mais difícil quando você vai de fora tentar estruturar isso tudo. Você tem que passar por um processo que quem já está lá não precisa. Enfim, a IBM ajudou muito nisso porque abriu muitas portas [...]. Esse programa da IBM ajudou muito também com esses contatos, com a network. Com o tempo, a empresa conseguiu parceiros locais de tecnologia e nas áreas operacional, jurídica e mercadológica. Esses parceiros, segundo os gestores, influenciaram diversas das decisões estratégicas e tecnológicas da empresa, além de facilitarem a abertura de mercado. A respeito da internacionalização, ao contrário da atuação na Europa, a abordagem dos Estados Unidos exigiu grande esforço e comprometimento com o novo mercado, não apenas de construção de network, mas também burocrático. A primeira prova disso é a própria decisão de transferência da sede da empresa, incluindo todos os processos legais envolvidos. Segundo, a transferência dos três sócios brasileiros para a sede reforça o comprometimento com o novo mercado, já 76 que os gestores constituem recursos essenciais. Somam-se a isso os processos de visto para o novo país. Uma terceira prova do comprometimento foi a decisão pelo registro de propriedade intelectual nos Estados Unidos, sendo que o produto ainda não é patenteado no Brasil. As dificuldades do mercado brasileiro, de certa forma, incentivaram o movimento internacional. Dadas as complicações burocráticas locais, mesmo o processo de transferência, dificultado pelo fato de serem empreendedores estrangeiros nos Estados Unidos, parecia mais viável do que enfrentar a burocracia brasileira: É engraçado isso, porque o Brasil, ao mesmo tempo que tem oportunidades, a gente esbarra em muita coisa que dificulta muito esse processo. [...] A gente esbarrou em muita coisa não só para estruturar. Quando a gente levou a empresa para lá, tinha que reestruturar, e tudo agarrava aqui no Brasil. É tudo mais difícil. A questão de posse também, tributação, é mais complicado. Lá fora as coisas funcionam muito mais, com muito mais facilidade. Esses motivos contribuíram para que a ideia inicial fosse a transferência completa da empresa para o novo país, fechando o escritório no Brasil. Porém, ao verificar o potencial do mercado doméstico e o interesse de empresas brasileiras pelo produto, os gestores decidiram manter o escritório em Belo Horizonte, Minas Gerais – não mais como sede, mas como filial da empresa americana. A empresa ainda está em seus primeiros estágios, o que torna prematura a comparação do retorno financeiro entre a sede americana e a subsidiária brasileira. Mas Paranhos arrisca o palpite de que a filial nacional irá gerar cerca de 30% do faturamento da IDXP; e os demais 70% serão atribuídos à matriz, responsável não só pelos projetos realizados nos Estados Unidos, mas por negócios gerados na Europa e outros países. 4.2.1 Efeito made in e adaptação ao novo mercado Algumas características observadas pelos empreendedores da IDXP no mercado americano, principalmente em comparação com o mercado brasileiro, foram significativas para motivar a transferência da sede da empresa para os Estados Unidos. Segundo Paranhos, os norte-americanos têm um mercado mais maduro, inclusive em relação ao tipo de serviço oferecido pela empresa. Isso 77 significava, para a IDXP, que os clientes daquele país eram mais dinâmicos na tomada de decisão de contratar um projeto. Isso se explica, segundo ele, pelo fato deste mercado estar mais habituado com o modelo de negócios, que é o software como serviço. Também significava uma diferença de prioridades dos varejistas em relação ao crescimento do negócio: enquanto, no Brasil, uma varejista busca aumentar o faturamento fundamentalmente pela abertura de novas lojas; nos Estados Unidos, a preferência dos gestores era por aumentar a rentabilidade nas lojas já existentes. Essa característica seria decisiva para motivar o interesse pelo produto oferecido pela IDXP, na avaliação dos gestores. Esses são alguns dos fatores que levaram os empreendedores a considerar a transferência total da empresa para o Sunyvalle, no Vale do Silício, com o objetivo de conquistar o mercado americano e global. Entretanto, a simples mudança de endereço motivou a procura por aquele produto, não apenas por clientes dos Estados Unidos e outros países, mas também do Brasil, como conta o COO da empresa: Foi engraçado isso, porque como o selo, o carimbo Vale do Silício, faz diferença. Isso é impressionante. Quando a gente mudou, umas duas semanas depois, a gente começou a receber ligações do Brasil, de vários lugares do mundo, mas inclusive do Brasil, de gente interessada. E, na verdade, o produto não tinha mudado, não é? Tinha mudado só o endereço. Só por estar lá, o carimbo Vale do Silício faz muita diferença. A gente começou a ter gente interessada aqui do Brasil que antes não se interessaria. A observação de Paranhos exemplifica o efeito made in obtido pela empresa graças à mudança de endereço. O interesse gerado não era uma questão de competência técnica, nem mesmo da nacionalidade do projeto, visto que a origem da IDXP era conhecida; mas atribuído ao fato de ser uma empresa estabelecida no Vale do Silício, pólo de tecnologia reconhecido. Segundo o empreendedor, a decisão da transferência visava o crescimento global da firma e estabelecimento de credibilidade, principalmente por estar, no novo endereço, em um pólo reconhecido de tecnologia de ponta. A opinião de parceiros dos Estados Unidos, feitos durante a participação no prêmio da IBM, também influenciou os gestores: [...] dizer para um cliente que a empresa está estabelecida nos Estados Unidos, na Califórnia, no Vale do Silício, é um diferencial sim, porque dá mais credibilidade. [...] Como diz um investidor que nós conhecemos nos Estados Unidos, lá no processo da 78 IBM [...]. A gente estava na dúvida ainda se a gente levava a empresa para lá ou não e ele perguntou assim: “vocês querem jogar o Campeonado Brasileiro ou vocês querem jogar a Champions League?” [...] “Se vocês quiserem jogar o campeonato brasileiro, não tem problema nenhum. Vocês vão ficar no Brasil, não precisa vir. O mercado lá é bacana, vocês podem crescer e ter muito sucesso lá. Mas se vocês quiserem realmente ir para o mercado global, vocês têm que vir, vocês têm que estar aqui. Não tem jeito. Não tem outra saída. Uma consequência da transferência da sede foi repensar a empresa, tanto sua estrutura quanto o seu produto. Em estrutura, a empresa redividiu as atividades que seriam desempenhadas na matriz americana e na filial, no Brasil. Dessa forma, seria possível melhor explorar os recursos oferecidos pelos dois países. Nos Estados Unidos, além do efeito made in proporcionado pelo novo endereço, as parcerias eram essenciais tanto na parte tecnológica e legal quanto para o desenvolvimento de mercado. Por isso, os três sócios brasileiros se transferiram para a nova sede. Também a parte de vendas requer presença física, o que motivou a contratação de um profissional sênior de vendas nativo, já com rede de relacionamentos estabelecida, para desenvolver o mercado norte-americano. Já na parte de desenvolvimento, a presença física não é fator determinante, dadas as facilidades de comunicação e transmissão de dados. Por isso, é possível explorar as vantagens de custos proporcionada pela internacionalização e escolher a localidade que possibilita a melhor opção. Nesse sentido, os empreendedores avaliaram que no Brasil é possível encontrar profissionais de desenvolvimento qualificados por salários mais baixos do que no Vale do Silício, mas com as mesmas competências tecnicas, como explica Cristiano Paranhos: Lá, a mão-de-obra é muito cara. [...] Imagina que lá é um imã. Tem Stanford, tem muita gente boa ali, tem muitas empresas grandes. Então todo mundo quer estar ali, quer estar próximo, porque é realmente onde as coisas acontecem. Mas é muito difícil achar mão de obra boa, qualificada. É tudo muito caro, as empresas pagam muito caro, os salários são altos e, para uma empresa como a nossa competir, ou qualquer outra startup competir e pagar um salário desses é muito difícil. Por isso a gente tem também buscado outras opções, que é contratar, por exemplo, mão de obra, principalmente desenvolvedor, no Brasil. Se estruturalmente era possível distribuir dessa forma as vantagens de recursos, por outro lado, o produto oferecido pela empresa deveria ser repensado de acordo com as características do novo mercado. Neste sentido, os relacionamentos estabelecidos nos Estados Unidos motivaram o repensar a proposta da IDXP. O primeiro passo foi passar da concepção de venda de uma tecnologia de 79 monitoramento de clientes na loja para o conceito de prestação de serviços que usa a tecnologia como uma ferramenta. No Brasil, o foco era muito mais tecnológico. Lá a gente começou a pensar de outra forma, e hoje a gente é uma empresa simplesmente de base tecnológica. [...] a tecnologia é uma ferramenta pra prestar um serviço. E não só a abordagem ao cliente no Brasil é diferente da de lá, mas o modelo é diferente. Aqui [no Brasil] as pessoas estão muito acostumadas a pagar isso como pesquisa. [...] E a gente começou a ver que é difícil o mercado. Tem que educar o mercado primeiro. No mercado do Brasil, a gente quer sempre vender isso como um serviço, uma coisa que você vai botar na loja, vai deixar lá e vai te ajudar no dia a dia. Não é uma coisa que eu vou entrar lá, passar dois meses e entregar o resultado. Lá no mercado americano é diferente. A abordagem, o modelo tem que ser diferente. Eles aceitam isso melhor. As consequências das diferenças culturais, de maturidade e de exigências observadas entre os dois mercados, segundo o empreendedor, variavam desde a percepção do produto, o tempo para a tomada de decisões – mais ágil nos Estados Unidos – e até ao modo de pagamento: enquanto as empresas americanas, habituadas ao software como serviço, estão mais dispostas a pagar por uma prestação de serviços constante; as brasileiras preferem pagar por um projeto, como uma pesquisa. A esse fator, soma-se a questão de preços e tributação sobre importação de tecnologia, que encarecem o produto no Brasil. Diante desses dados, os empreendedores optaram por criar um portifólio de produtos segmentados de acordo com o grau de precisão e de analytics aplicados. O Brasil está mais aberto para usar, por exemplo, um tipo de tecnologia mais barata, com uma precisão um pouco menor, no caso do nosso produto, do que os Estados Unidos. Então lá [nos Estados Unidos] a gente consegue ter uma abertura maior para um produto mais premium, que a gente considera que tenha uma precisão maior, mas é um pouco mais caro. Paranhos atribui parte das diferenças à questão de maturidade e prioridades dos varejistas brasileiros, que geralmente não têm uma pessoa designada para geranciar um projeto de estudo de comportamento do consumidor. No entanto, o empreendedor também observa o interesse deste mercado pelo produto, tanto por varejistas quanto por fabricantes, e acredita que, mesmo no país, o potencial mercado para a IDXP é grande e tende a seguir os Estados Unidos. 80 Linha do Tempo - IDXP 2006 Durante a graduação em Engenharia, o atual CEO Gustavo Lemos começa a desenvolver a tecnologia 2007/2008 Gustavo Lemos e Cristiano Paranhos elaboram o Plano de Negócios da IDXP durante o curso de MBA 2008 A IDXP é fundada, mas permanece praticamente inativa 2010 A IDXP é aprovada pelo programa Prime, promovido pela Finep, recebendo um aporte de R$ 120 mil. Também foi selecionada para a Insoft-BH 2011 É realizado o projeto piloto, em uma rede varejista de Belo Horizonte, Minas Gerais 2011 IDXP vence a etapa brasileira do Prêmio IBM SmartCamp 2012 Em fevereiro, vai disputar a etapa mundial do IBM SmartCamp em San Francisco, Estados Unidos. Lá ganha um prêmio. 2012 No segundo semestre, transfere a sede para o Vale do Silício, nos Estados Unidos 2013 Expectativas dos primeiros retornos financeiros, com projetos iniciando em três países (Estados Unidos, Brasil e França). 81 5 ANÁLISE DO CASO No capítulo anterior, foi descrita a trajetória de rápida internacionalizacão da IDPX, retomando desde a sua concepção até o seu desenvolvimento internacional. No presente capítulo, procura-se relacionar os aspectos do caso às teorias abordadas na Revisão de Literatura, considerando separadamente cada uma delas, de forma a identificar os aspectos do caso estudado que podem ser explicados a partir das correntes teóricas examinadas. 5.1 CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA DE UPPSALA O primeiro modelo teórico apresentado neste trabalho foi o Modelo de Uppsala, que considera o processo de internacionalização de uma empresa pelo aumento gradual de envolvimento e comprometimento com o novo mercado. Esse processo seguiria quatro etapas: atividade de exportação, exportação via agente de vendas, implantação da subsidiária e início da produção local (Johanson e Wiedersheim-Paul, 1975). Para avaliar a aderência do processo de multinacionalização da IDXP a esse modelo, é preciso primeiro separar os dois movimentos de internacionalização simultâneos iniciados pela empresa: a abordagem da Europa e a de transferência da sede da empresa para os Estados Unidos. No caso da abordagem ao mercado europeu, o padrão de internacionalização da IDXP não se afasta totalmente do proposto na teoria de Uppsala, visto que esse acontece de forma gradual. Por ser uma empresa de serviços, não existiu a primeira etapa de simples exportação, que implicaria maior comprometimento de recursos, como equipe e tecnologia. No entanto, a empresa atualmente exporta via agente de vendas, tendo duas pessoas responsáveis por esforços comerciais no local e envolvimento ainda baixo com o mercado. Já a implantação de uma subsidiária local é uma possibilidade que os sócios consideram para o futuro. Em outras palavras, o envolvimento com esse mercado aumenta gradualmente, como previsto por Johanson e Vahlne (1977). A mesma aderência a essa base do Modelo de Uppsala não acontece em relação à internacionalização para os Estados Unidos. Nesse caso, não havia exportação, clientes, parceiros ou agente de vendas antes da decisão de 82 transferência da sede para o novo mercado, como relatou o COO da empresa, Cristiano Paranhos. Os primeiros parceiros foram estabelecidos após a decisão; e os clientes vieram depois que a nova sede já estava em funcionamento. O comprometimento com esse mercado, não é gradual: ao contrário, é alto desde os primeiros estágios, o que é comprovado pela transferência da sede, a presença dos sócios no novo mercado, pelos relacionamentos e parcerias estabelecidos e pela opção de manter, naquele país, o registro de propriedade intelectual. Conforme as críticas ao modelo citadas na revisão de literatura deste trabalho, o modelo de Uppsala falha ao explicar a velocidade de internacionalização de empresas que precisam abordar outros países rapidamente dado o escopo de seu negócio (Forsgren, 2002; Coviello e Munro, 1995). Este ponto parece se adequar ao caso da IDXP, que optou pela transferência por motivos mercadológicos – no caso, os gestores julgaram a mudança necessária para que a empresa fosse capaz de competir globalmente, segundo explicado por Paranhos: “A gente tinha alguns poucos contatos mas, na verdade, a gente não tinha nada. Nem parceiros”, conta. Se, por um lado, a internacionalização por etapas não é percebida na transferência da empresa para os Estados Unidos, nem tampouco na opção por abordar simultaneamente dois mercados internacionais; por outro, a atualização do modelo de Uppsala (Johanson e Vahlne, 2009), se não é capaz de explicar o processo, pelo menos oferece elementos que ajudam a entender algumas decisões dos gestores da IDXP. O Modelo atualizado é retomado abaixo: Figura 9 - Modelo de Uppsala atualizado. (Adaptado de Johanson e Vahlne, 2009, p. 1424). 83 Em sua proposta dinâmica do Modelo de Uppsala, os autores enfatizam a relação entre “oportunidades de conhecimento” e “relacionamento, comprometimento e decisões”. A mesma relação pode ser claramente percebida no caso da IDXP, em que as oportunidades de conhecimento do novo mercado, proporcionada em primeiro lugar pela participação e contatos feitos durante o evento IBM SmartCamp, provocou o aumento de relacionamentos e as posteriores decisões e comprometimento com o novo mercado. Além disso, a decisão de transferência da sede foi influenciada, conforme descrito no capítulo anterior, por parceiros locais estabelecidos. Essa mesma relação é mais fraca na Europa. Uma explicação possível é que a experiência e oportunidades de conhecimento nessa região são indiretas, via parceiro, tornado sócio; e não diretamente pelos principais gestores. Essa possibilidade é prevista por Johanson e Vahlne (2009) que, apesar de críticas em contrário, reforçam a percepção descrita em seu modelo inicial de que é o aprendizado por experiência própria que influencia o comprometimento de recursos da empresa. Segundo o mesmo modelo, o “aprendizado, criação e construção de confiança” ajustam a posição da empresa na rede. Durante a entrevista com a empresa, foi possível perceber que essa posição ainda está sendo definida. No entanto, a empresa busca construir parcerias baseadas em confiança. Estas foram importantes para o desenvolvimento de tecnologia, estruturação da empresa, além de influenciarem decisões, como a própria internacionalização. Uma das principais contribuições de Uppsala para entender a internacionalização da IDXP, no entanto, é o conceito de distância psíquica (Johanson e Vahlne, 1977), que determina que a escolha dos países por uma empresa se deve à percepção de distância cultural entre o mercado doméstico e o do novo país. Na atualização do modelo, Johanson e Vahlne (2009) sugerem que o conceito da distância psíquica permanece na escolha dos países, enquanto a percepção da distância diminui devido à facilidade de se obter conhecimentos sobre o novo mercado. Dessa forma, a influência da distância psíquica na escolha de mercado pode ser percebida nos dois movimentos de abordagem internacional da IDXP, visto que os países escolhidos foram exatamente aqueles sobre os quais a empresa pôde obter maior conhecimento e compreensão. No caso da Europa, a distância psíquica 84 era pequena devido ao fato de um dos sócios ser francês; nos Estados Unidos, ela foi reduzida graças à participação dos empreendedores em eventos e à rede de relacionamentos estabelecida, que proporcionaram melhor conhecimento sobre o mercado daquele país. Os fatores mercadológicos não são, aqui, excluídos da tomada de decisão. No entanto, há indícios de que a distância psíquica é um fator relevante em ambos os casos. Um deles seria o fato de, durante a entrevista, Paranhos se referir aos esforços comerciais no mercado francês como “sorte”, já que a empresa tem um sócio desta nacionalidade; e não a uma escolha por potencial de mercado e à presença de grandes redes varejistas naquele país. Nos Estados Unidos, por sua vez, apesar do rápido comprometimento com a operação internacional, o investimento foi feito depois de serem estabelecidos relacionamentos e conhecimentos sobre o novo mercado. Além disso, durante a transferência da sede, pelo menos dois dos sócios buscaram cursos de gestão nos Estados Unidos, proporcionando-lhes melhor conhecimento da cultura local. Ao mesmo tempo, mesmo quando discutidos planos de expansão futura, nenhum país oriental foi citado durante a entrevista, independente de sua situação econômica. Assim como sugeriram Johanson e Vahlne (2009), a empresa não está presente ainda no mercado global, mas escolhe mercados em que a distância psíquica é menor. 5.2 CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA DE NETWORK Conforme adiantado no tópico anterior, a teoria de Network propõe alguns elementos que contribuem para a compreensão do processo de internacionalização da IDXP. O principal deles é a base do modelo, ou seja, admitir que a firma faz parte de uma rede de relacionamentos e recebe influência de outros atores em um ambiente de mercado. Essa rede também possibilita o acesso da empresa a recursos, principalmente conhecimentos a respeito de um mercado, que podem ser adquiridos através desses parceiros (Johanson e Mattsson, 1988). Isso é especialmente verdade no caso de empresas menores e com menos recursos para investir no aprendizado por experiência. Ainda de acordo com Johanson e Mattsson (1988), as empresas buscam relações de longo prazo dentro dessas redes de relacionamento, estabelecendo, 85 dessa forma, confiança, compromisso e conhecimento sobre as outras. Dessa forma, elas criam competências em comum e interdependências com fornecedores, clientes e outros atores em um ambiente, que acabam por influenciar o comportamento e as decisões de uma empresa. Esse fator é observado no caso da IDXP, conforme se verifica no trecho da entrevista abaixo: Desde o início da empresa a gente buscou trazer parceiros ou pessoas para perto da empresa que realmente comprassem a ideia com a gente, que comprassem o sonho com a gente. E eu acho que desde o início a gente tirou bons resultados e benefícios de parceiros grandes a pequenos. Tanto na parte tecnológica quanto desenvolvimento [...], na parte de mercado, a entender o que o mercado queria, para enxergar se isso era viável ou não; na parte jurídica, em estruturar isso da melhor forma. De acordo com o COO, esses parceiros influenciaram não apenas a visão da empresa sobre o mercado, mas também apoiaram quanto à tecnologia utilizada, aspectos legais, entre outros. Ainda sobre esses parceiros, alguns deles influenciaram a própria decisão de transferência da sede da IDXP para os Estados Unidos, mostrando que a presença naquele país era necessária para garantir a competitividade global da empresa. Esse aspecto confirma a influência das networks sobre a percepção de oportunidades e riscos, conforme identificado por Johanson e Mattsson (1988). Coviello e Munro (1995) complementam, afirmando que as parcerias influenciam a internacionalização também porque permitem o acesso da empresa a oportunidades de negócios e ao conhecimento sobre o novo mercado, diminuindo, assim, os riscos do investimento. Já para Forsgren (2008), essa influência começa desde a escolha de países, passando pela decisão do modo de entrada e o comprometimento de recursos. Os aspectos identificados em ambos os casos são percebidos na entrevista com a IDXP, já que a decisão de abordar o novo mercado, embora fizesse parte dos planos futuros dos empresários, foi acelerada graças às informações e conhecimentos obtidos por relacionamentos durante o evento de premiação do IBM SmartCamp. Esses mesmos parceiros também foram determinantes na escolha do modo de entrada, ou seja, optar pela transferência da empresa. Quanto à abordagem da Europa, também foi motivada por um parceiro – no caso, o investidor anjo. Apesar de diversos fatores da Teoria de Network contribuírem para o entendimento da internacionalização da IDXP, o Modelo em si, por outro lado, é 86 dificilmente aplicável a esse caso específico. Isso porque ele avalia uma empresa pelo seu grau de internacionalização e o de sua indústria, conforme retomado abaixo: Baixo grau de internacionalização da empresa Pioneira Iniciante Tardia Alto grau de internacionalização da empresa Internacional Solitária Internacional entre outras Baixo grau de Alto grau de internacionalização do internacionalização do mercado mercado Figura 10 - Modelo de Network. (Adaptado de Johanson e Mattsson, 1988). Dib (2008) defende que as empresas que se internacionalizam nos seus primeiros estágios de vida podem se enquadrar entre as iniciantes tardias e as internacionais entre outras, duas categorias determinadas pelo alto grau de internacionalização do mercado. No entanto, a indústria de softwares de análise do comportamento do consumidor é relativamente nova, assim como o tipo de serviço oferecido pela IDXP. Esse mercado específico não é necessariamente de alto grau de internacionalização; antes, segundo os gestores da empresa, é concentrado nos Estados Unidos. Analisando os dois grupos, a categoria das internacionais entre outras pressupõe que tanto a empresa quanto o ambiente já sejam altamente internacionalizados (Johanson e Mattsson,1988). Tendo em conta que a IDXP está abordando, pela primeira vez, simultaneamente e de distintas formas, dois mercados, não é possível classificar o processo como uma internacionalização incremental devido à experiência prévia. Já as iniciantes tardias são, por definição, firmas com pouca experiência internacional, enquanto o ambiente é internacionalizado (Johanson e Mattsson, 1988). Não é exatamente o caso da IDXP: pode-se argumentar que parte de seus fornecedores e clientes têm experiência internacional por fazerem parte das 87 indústrias de tecnologia e varejo, respectivamente. Porém, no que se refere ao mercado de serviço de análise de comportamento do consumidor, essa inferência não pode ser feita sobre a indústria, já que os concorrentes não são necessariamente internacionalizados. A palavra “tardia” implica em um movimento internacional após grande parte do mercado já o ter feito, o que não é verdade nesse caso por ser ainda um setor que está se constituindo: como mostram os gestores da empresa, a competição ainda não é claramente estabelecida. O Modelo de Network não considera especificamente o caso de uma indústria emergente. Também deve ser levado em conta que o processo foi assumido em uma etapa bem inicial da operação da empresa, antes mesmo de obter retornos financeiros. O caso reforça a observação de Pandeya (2011), que diz que o modelo de Network falha ao explicar casos de empresas que se internacionalizam no início de sua existência. 5.3 CONTRIBUIÇÕES DOS ESTUDOS DE NOVOS NEGÓCIOS INTERNACIONALIZADOS Se as teorias de Uppsala e Network não explicam completamente a internacionalização no caso da IDXP, graças a características do próprio processo e da indústria em questão, os estudos de Empreendedorismo Internacional e de Born Globals, por sua vez, buscam uma compreensão de casos de empresas que, assim como no caso estudado, tendem a abordar mercados no exterior desde as primeiras etapas de sua existência. Essas empresas teriam padrões de internacionalização e de manifestação de compromisso diferentes das empresas tradicionais (Oviatt e McDougall, 1994) e, por esse motivo, as teorias expostas anteriormente não seriam suficientes para explicar seu processo. Os primeiros indícios de aderência do caso abordado neste trabalho aos estudos de novos negócios internacionalizados são os motivos que levam à internacionalização. Essas empresas, assim como a IDXP, estariam, desde sua origem, voltadas para o mercado internacional (McDougall, 1989; Rennie, 1993); sendo que as primeiras decisões de internacionalização acontecem antes mesmo do desenvolvimento da própria organização (Oviatt e McDougall, 1994). No caso particular da IDXP, apesar de, segundo os gestores da empresa, a 88 internacionalização ter sido inicialmente pensada para uma etapa após a consolidação no mercado doméstico, esse passo sempre foi uma certeza para eles. Além disso, estiveram abertos à ideia de antecipar esse movimento quando a oportunidade surgiu. Outro ponto de aderência à teoria é que, conforme o estudo de Rialp, Rialp et al. (2005), a abordagem internacional era uma condição para o crescimento e competitividade da empresa. Como já foi dito no capítulo 2, atualmente autores admitem que os estudos de empreendedorismo internacional e born globals, apesar de desenvolvidos separadamente, descrevem um mesmo fenômeno (Coviello, McDougall et al, 2011). No entanto, como cada linha de pesquisa enfatiza certos aspectos da internacionalização de novos negócios, para fins de análise, o caso da IDXP será abordado à luz de cada uma dessas teorias separadamente. 5.3.1 Contribuições do Empreendedorismo Internacional Pelo ponto de vista do Empreendedorismo Internacional, os novos negócios internacionalizados são empresas com orientação para o mercado exterior desde os seus primeiros estágios de operação (McDougall, 1989). Segundo a autora, a opção por estratégias que considerem o mercado de forma ampla e escolha de modos de entrada agressivos são características marcantes desse tipo de empresa. Já nessa primeira definição é possível reconhecer o movimento internacional da IDXP. Avaliando a evolução das definições dos novos negócios internacionalizados (international new ventures), observa-se igualmente a aderência do caso da IDXP ao conceito. Oviatt e McDougall (1994), ao redefini-lo, aludem à capacidade de estabelecer vantagem competitiva do uso de recursos e vendas em múltiplos países. Esse fator é também percebido pelo modo como a empresa dividiu as atividades de desenvolvimento, buscando vantagens de custos; além de explorar o efeito made in proporcionado pela presença no Vale do Silício, Estados Unidos; e a distribuição da força de vendas nas três áreas que abordou, explorando conhecimentos regionais. Em posterior atualização do conceito, os autores descrevem ainda o empreendedorismo internacional pelo comportamento inovador e propensão ao risco através de países para criar valor para o negócio (McDougall e Oviatt, 2000). Ainda nessa definição é possível reconhecer o comportamento da IDXP, cuja transferência de sede – alto risco assumido, dado o alto comprometimento e o baixo 89 conhecimento por experiência desse mercado – aconteceu principalmente pelo valor atribuído à empresa graças ao efeito made in. Quanto à inovação, é intrínseca à própria indústria e à tecnologia utilizados. Oviatt e McDougall (1994) classificam os novos negócios internacionalizados de acordo com o modelo reproduzido abaixo: Poucas atividades coordenadas entre países (Prioritariamente logística) Startup de importação e exportação Negociante multinacional Muitas atividades coordenadas entre países Startup com foco geográfico Startup global Poucos países envolvidos Muitos países envolvidos Figura 11 - Modelo do Empreendedorismo Internacional. (Adaptado de Oviatt e McDougall, 1994, p. 59). Retomando este modelo, cuja classificação é feita de acordo com o número de atividades coordenadas entre países e o número de países envolvidos, é possível identificar a IDXP como uma “startup geograficamente focada”, visto que concentra ainda suas operações em poucas áreas – Brasil, Estados Unidos e Europa – mas as atividades da empresa estão distribuídas entre essas regiões. Outra contribuição do Empreendedorismo Internacional para a compreensão da internacionalização da IDXP está relacionado ao uso de networks como uma ferramenta de marketing da empresa, reduzindo também os riscos tomados para a operação (Pandeya, 2010). Conforme visto anteriormente, a partir de relacionamentos construídos pelos gestores, a empresa conseguiu parceiros que contribuíram ativamente não apenas para a melhor compreensão daquele mercado, como informações sobre as suas características e oportunidades oferecidas, mas mesmo como forma de acessar essas oportunidades. Segundo Mello (2009), outras características encontradas na literatura para definir as empresas de acordo com o Empreendedorismo Internacional seriam: pró- 90 atividade na busca de oportunidades no exterior, possuir vantagens competitivas no mercado internacional, flexibilidade e capacidade de aparendizado e o fato de compensarem a falta de recursos próprios com sistemas de governança alternativos. O perfil do empreendedor também teria um papel essencial no processo de internacionalização. Essas características também confirmam que o perfil da IDXP, de modo geral, se enquadra nas descrições feitas na literatura sobre os novos negócios internacionalizados. São exemplos disso a busca por parceiros nos Estados Unidos, a escolha de uma tecnologia usada de maneira inovadora, as mudanças feitas na empresa de acordo com alterações na percepção do mercado e até a equipe de advisors formada para auxiliar a tomada de decisões. Cabe, porém, especial atenção à influência do perfil do empreendedor, figura que tem maior relevância nessa teoria de internacionalização (McDougall, 1989; Oviatt e McDougall, 1994; Dib, 2008; Coviello, McDougall et al, 2011). Uma das explicações encontradas na literatura para a influência do empreendedor é a sua experiência internacional prévia (Oviatt e McDougall, 1994; Schwens, Werth et al., 2011). Nesse sentido, Oviatt e McDougall (1994) defendem que o o aumento da experiência internacional dos empreendedores e as facilidades de comunicação e compreensão de outra cultura facilitariam a internacionalização da empresa. Rialp, Rialp et al. (2005), apesar de discordarem da influência do empreendedor na velocidade da internacionalização, admitem que gestores de novos negócios internacionalizados utilizam melhor seus relacionamentos e são mais capazes de enxergar oportunidades. No caso da IDXP, um dos sócio-fundadores, Gustavo Lemos, tinha experiência prévia de estudos na Irlanda. Além disso, dois dos gestores – Lemos e Cristiano Paranhos – fizeram cursos de gestão de curta duração nos Estados Unidos antes de iniciar o processo de transferência internacional, mas após a empresa ter sido constituída já com planos de ser global. Por esse motivo, seria uma compreensão parcial do caso atribuir a essas experiências a influência para a abordagem de outros mercados. Isso porque os dois fatores que mais influenciaram o movimento para o exterior, segundo os gestores, foram a participação de um investidor francês, antes parte da rede de relacionamento de Lemos; e a vitória no Prêmio IBM SmartCamp, que não apenas colocou a empresa no cenário internacional como possibilitou ampliar e explorar a rede de contatos no exterior. 91 Dessa forma, não é a vivência em outro país, mas a construção de relacionamentos em outros países, que repercutiu nas decisões de internacionalização da IDXP. O trecho a seguir, retirado da entrevista com Paranhos, dá indícios dessa influência: Apesar de ser uma startup, a gente começou estruturado. E começamos já com a presença global, coincidentemente até pelo caso do investidor ser francês, e a gente estar agora nos Estados Unidos. Então, apesar de ser uma startup, a gente está estruturado de uma forma global. Nós estamos começando assim mesmo. Isso é bom por um lado, e por isso a gente precisa realmente fazer parcerias para conseguir escalar e defender isso. Nesse sentido, o caso da IDXP não confirma completamente a teoria exposta por Oviatt e McDougall (1994) e a pesquisa quantitativa realizada por Schwens, Werth et al. (2011). Por outro lado, corrobora com o estudo de Rialp, Rialp et al. (2005), que enfatiza a exploração das redes e percepção de oportunidades. O caso analisado também confirma a pesquisa de Coviello e Martin (1999), que aponta que os relacionamentos pessoais podem ter influência significativa nas decisões, acesso a oportunidades e até na velocidade da internacionalização da empresa. 5.3.2 Contribuição da teoria de Born Globals As born globals, conforme foi exposto na revisão de literatura deste trabalho, são empresas que, assim como no Empreendedorismo Internacional, buscam mercado no exterior nos primeiros anos de vida (Rennie, 1993), mas não necessariamente espalhando-se por todo o planeta: na maioria dos casos, focam em poucos países (Hashai, 2011). De forma geral, também utilizam intensivamente as tecnologias da informação e seu produto tem um diferencial, geralmente baseado em ativos singulares ou uma vantagem tecnológica (Rennie, 1993; Rialp, Rialp et all, 2005; Dib, 2008; Mello, 2009). Essas características, em uma primeira análise, são muito semelhantes ao caso apresentado para este estudo. Conforme foi discutido, além de buscar mercado já em seus primeiros estágios, a IDXP também é uma empresa de base tecnológica, sendo essa tecnologia um diferencial competitivo. Além disso, como o serviço prestado deriva da aplicação de um software e desenvolvimento de sistemas próprios, pode-se dizer que essa empresa utiliza intensivamente as tecnologias de informação. Dados esses elementos é possível peceber a aderência à teoria, 92 confirmando que a linha de pesquisa de born globals oferece contribuições para a compreensão do processo de internacionalização da IDXP. Rennie (1993), na descrição original do fenômeno, afirma que as born globals são empresas que se internacionalizam nos seus primeiros dois anos de operação, sem passar por maturação prévia no mercado doméstico. Esse número é, posteriormente, aceito na literatura como dois a oito anos após o primeiro faturamento (Dib, 2008). De qualquer forma, o perfil é coerente com a história da IDXP, que buscou mercado em outros países antes mesmo de obter retorno financeiro. Além disso, segundo Rennie (1993), a participação internacional no faturamento dessas empresas corresponderia a 76% de suas vendas. Não há um consendo na literatura a respeito dessa porcentagem (Dib, 2008), mas, apesar de ainda não ser possível ter uma definição concreta do faturamento da IDXP, essa proporção está de acordo com a projeção feita pelo COO da empresa, Cristiano Paranhos, de que 70% do retorno da empresa viria de fora do Brasil. Segundo a literatura, as born globals entendem o mundo como um mercado potencial. Elas não focam no mercado local, mas buscam “nichos globais” (Rialp, Rialp et al., 2005; Mello, 2009). Também essa característica é observada na IDXP, que aborda simultaneamente três mercados, mas também considera o potencial de outros países na Europa e América Latina, oferecendo um serviço específico ao varejo. Esse fator é confirmado pelo depoimento de Paranhos: “A gente tem um produto world class. (...) a gente está lançando um produto novo, agora para o mercado mundial”, diz o COO, enfatizando o foco em um produto, mas diversos países. A postura empreendedora na abordagem de mercados, identificada por Rialp, Rialp et al. (2005) como característica das born globals, assim como o uso de parcerias e a importância das redes de relacionamentos em seus processos (Rialp, Rialp et al., 2005; Dib, 2008) são elementos de destaque na internacionalização da IDXP. Em sua estratégia para atingir o mercado global, a transferência da sede foi um passo essencial, que teve a influência de diversos parceiros. A abordagem desses parceiros, o modo como os recursos de network foram utilizados a favor da competitividade e a tolerância ao risco são coerentes com a teoria de born globals. Outra característica das born globals reforçada pela literatura é o uso de ativos intangíveis e a capacidade de inovação, geralmente utilizando a tecnologia (Rialp, Rialp et al., 2005; Mello, 2009); e sendo o crescimento dessas empresas 93 possibilitado exatamente pelas evoluções, tecnológicas, de comunicação e transporte (Rennie, 1993). Pelos motivos descritos acima, é possível aferir que a IDXP se adequa ao que a literatura de internacionalização considera uma born global. Dessa forma, pode-se analisar se os estudos de abordagem internacional por empresas born globals explica o processo de expansão internacional no caso específico dessa empresa. Assim como propõe a literatura, a IDPX não seguiu a internacionalização gradual, com o aumento de comprometimento de recursos ao longo do tempo, descrita no modelo de Uppsala, mas segue outros padrões de abordagem de mercado e manifestação de compromissos (Dib, 2008), de modo semelhante ao Empreendedorismo Internacional. Conforme exposto no capítudo 2, Hashai (2011) propõe que as born globals seguem outro modelo de redução de riscos, baseado na especialização em uma de duas dimensões do processo de internacionalização: número e diversidade de países de destino e aumento do grau de comprometimento com o novo mercado. A empresa, então, concentraria recursos em uma expansão significativa apenas em um sentido, para só então seguir o processo internacional pelo outro padrão, reduzindo a complexidade das ações. Retomando a internacionalização da IDXP, houve uma expansão internacional simultânea para duas áreas geográficas: os Estados Unidos e a Europa. Nos Estados Unidos, é possível entender que a empresa investe no aumento do grau de comprometimento com o mercado, seguindo o segundo padrão do processo. No entando, o mesmo não acontece na Europa. O esforço de vendas está na França mas, ao mesmo tempo, mantém negociações em outros países no continente sem aumentar o investimento de recursos. Nesse caso, seria possível entender que essa internacionalização segue o primeiro padrão. Como os dois processos acontecem ao mesmo tempo, não há atualmente evidências que suportem a pesquisa de Hashai (2011) no caso específico da IDXP. No entanto, como a internacionalização está ainda nos primeiros estágios e algumas decisões da empreesa foram tomadas por causa de oportunidades emergentes, não se pode descartar a hipótese que a internacionalização da empresa siga, no futuro, a especialização em um ou outro processo, como sugerido pelo autor. 94 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS Este estudo examinou o caso da internacionalização IDXP, empresa fundada no Brasil, à luz de teorias tradicionais de internacionalização de foco comportamental – Teorias de Uppsala e de Network – e os estudos de internacionalização de novos negócios – empreendedorismo internacional e born globals. Todas as teorias contribuíram, em alguma medida, para a compreensão da internacionalização da firma escolhida. A análise do caso busca entender como pode ser caracterizado o processo de internacionalização de uma empresa empreendedora de serviços de tecnologia da informação no caso de uma empresa brasileira; e os fatores que influenciam as decisões de seus gestores quanto à abordagem de novos mercados no exterior. No caso específico da IDXP, a análise dos dados sugere que a empresa se adequa às descrições dos novos negócios internacionalizados e born globals. Isso significa dizer que, assim como sugerem ambas as linhas de pesquisa, a internacionalização da empresa se caracterizou por um movimento precoce em direção ao mercado externo, marcado por baixa aversão ao risco e facilitado pelas tecnologias da comunicação e o bom uso das redes de relacionamento. Os empreendedores tiveram um papel fundamental nesse processo. Os principais fatores que influenciaram a internacionalização, por sua vez, podem ser encontrados nas teorias tradicionais da internacionalização. Quanto à escolha de mercados, os gestores optaram por aqueles sobre os quais já tinham informações e conhecimentos. Em outras palavras, a escolha da França e Estados Unidos acontecem devido à menor distância psíquica em relação a esses países, graças ao sócio francês, no primeiro caso; e aos conhecimentos adquiridos durante a participação em eventos e relacionamentos estabelecidos, no segundo. Nesse sentido, a escolha dos mercados se aproxima da teoria de Uppsala. O segundo fator, ainda mais relevante do que o primeiro, é a influência de contatos e parceiros – a rede de relacionamentos – sobretudo no que se refere à decisão de transferência da sede da empresa para os Estados Unidos. Nesse caso, a Teoria de Network ajuda a compreender como a empresa utiliza recursos e conhecimentos de seus parceiros, compensando a sua limitação desses recursos. Esses relacionamentos ajudaram não só a compreender o novo mercado, mas também tiveram papel fundamental na tomada de decisão sobre a abordagem 95 internacional e transferência de sede para outro país. Através deles, a empresa conseguiu se adaptar ao ambiente, desde o modelo de negócios e tecnologia até questões comerciais - a network também propiciou acesso ao mercado e a oportunidades. Um terceiro fator de influência pode ser inferido desse caso: assim como mostraram Coviello e Martin (1999) ao estudar empresas de prestação de serviços, as razões para a abordagens de outros mercados pode ser a garantia da competitividade, ou mesmo sobrevivência da firma, em alguns casos dada a limitação do mercado doméstico. Também essa característica pode ser percebida no caso da IDXP, que entendeu que só seria competitiva no mercado global se estivesse nos Estados Unidos. Essa presença física possibilitaria à empresa manterse atualizada e desenvolver conhecimento sobre aquele mercado. Em resumo, a internacionalização da empresa estudada se caracteriza pelo comportamento empreendedor, que utiliza e se deixa influenciar pelas as redes de relacionamento, busca aproveitar as oportunidades e toma decisões que visam o mercado global, sendo o mundo visto como mercado em potencial. Nesse sentido, aproxima-se das propostas dos estudos Empreendedorismo Internacional e Born Globals realizados em outros países. No entanto, a escolha de mercados é feita de acordo com os conhecimentos da empresa, diminuindo os riscos, como sugerido pela Teoria de Uppsala. 6.1 QUESTÕES ESPECÍFICAS 6.1.1 Motivos da internacionalização A literatura aponta diversas razões que motivam um novo negócio baseado em tecnologias da informação a buscar mercado no exterior. Os estudos de born globals, por exemplo, sugerem que os motivos podem estar relacionados a uma limitação do mercado consumidor interno ou uma necessidade intrínseca da firma (Rocha et al, 2010). A garantia de sobrevivência da empresa dado seu setor de negócio também é um fator de motivação para internacionalização (Coviello e Martin, 1999). Nesse caso, buscar mercado em outros países seria uma consequência de empresas submetidas a uma alta competição internacional (Coviello e Munro, 1995; Knight, 2000). A globalização (Knight, 2000) que propiciou 96 a homogeinização do mercado em diferentes regiões geográficas (McDougall e Oviatt, 2000; Rocha et al., 2010) também são fatores frequentemente apontados como motivos para a internacionalização de novos negócios. Sobre a IDXP, pode-se afirmar, baseado nas entrevistas realizadas para este trabalho, que os empreendedores percebiam uma necessidade intrínseca de buscar mercado no exterior. Mas o fator fundamental para a decisão de transferência para os Estados Unidos está menos ligado à limitação do mercado doméstico, que eles acreditam ser suficiente para a empresa; e mais à garantia de competitividade. Em uma visão mercadológica, isso significa dizer que os empreendedores da IDXP identificaram, no mercado norte americano, características que seriam mais adequadas ao modelo de negócios e atual fase de crescimento da empresa. Nesse sentido, a transferência da empresa foi afetada pela necessidade de proximidade física com o mercado alvo, que possibilitaria maior capacidade para atender consumidores, tanto pela logística quanto pela maior facilidade de aprendizado e compreensão daquele mercado, monitorando informações e investindo em relacionamentos (Barcellos, Cyrino et al., 2010). Somado a isso, está a maior possibilidade de desenvolvimento tecnológico nos Estados Unidos: Zolfaghari e Rialp (2011) apontam que, em países emergentes, o menor desenvolvimento tecnológico dificulta o estabelecimento de vantagens competitivas. Além disso, os investimentos em pesquisa e desenvolvimento são dificultados pela burocracia brasileira que, de acordo com pesquisas, seria a principal barreira para a inovação (Softex, 2009). Ambos os fatores são confirmados pelo COO da empresa, Cristiano Paranhos, que aponta que a tecnologia utilizada pela empresa é muito cara no Brasil, devido aos altos impostos sobre eletrônicos. Pelo lado comportamental, ao decidir pela internacionalização, a empresa busca ganhar relevância no mercado global, proporcionado pelo efeito made-in. Nos Estados Unidos, especialmente no Vale do Silício, a IDXP busca estar próxima à parceiros fortes, desenvolvimento tecnológico, concorrência e clientes de todo o mundo, compreendendo mercados com características diferentes do Brasil. Nesse caso, pode-se admitir que a alta competição internacional e a gobalização foram determinantes para a decisão de transferência da empresa para outro país. Essa percepção pode estar associada ao senso de oportunidade, já que, segundo os gestores da IDXP, existem outras empresas atuando no mesmo segmento, mas nenhuma com destaque relevante. A visão de que esse momento 97 era propício à internacionalização é confirmada por Fanhauber et al. (2007), que defendem que, na fase de crescimento da indústria, a demanda é crescente e os padrões ainda não foram estabelecidos, o que permite que as empresas invistam em nichos, replicando suas estratégias em outras regiões. Sendo assim, a expansão da indústria cria o ambiente ideal para a internacionalização dos novos negócios. Outro aspecto importante que levou à internacionalização da IDXP é a influência e as oportunidades de negócios oferecidas pelas redes de relacionamentos que a firma estabelece (Coviello e Munro, 1995). Não apenas os relacionamentos comerciais são importantes, mas também os pessoais, que podem promover acesso a oportunidades e ações significativas para motivar a internacionalização (Coviello e Martin, 1999). 6.1.2 Etapas da internacionalização Na revisão de literatura deste trabalho, foram expostas teorias de que explicam as etapas da internacionalização de uma empresa pelo aumento de investimentos e comprometimento gradual com o novo mercado, de acordo com o Modelo de Uppsala (Johanson e Vahlne, 1977); os estágios da internacionalização em relação ao mercado, como mostra o modelo de Network (Johanson e Mattson, 1988); e a especialização em processos de abordagem de um novo país ou aprofundamento no mesmo mercado, no caso das born globals, conforme proposto por Hashai (2010). Nenhum desses modelos, entretanto, é suficiente para explicar a internacionalização da IDXP, seja por características próprias da empresa ou indústria, que não foram levados em conta na época em que as teorias foram propostas, como é o caso do modelo de Network; seja porque os dois processos de abordagem de mercados têm características diferentes e, portanto, não oferecem elementos para confirmar o modelo. No caso desta empresa, o primeiro movimento internacional aconteceu graças à oportunidade: com um investidor francês que se tornou sócio, foi possível estabelecer vendas naquele país, além de abrir o mercado-alvo também para clientes em potencial na Europa. Nesse sentido, o início da abordagem internacional pelos esforços de vendas permitiria admitir a aderência tanto ao Modelo de Uppsala quanto à teoria de Hashai (2010). 98 O movimento seguinte, porém, contraria ambas as teorias. Ao verificar as oportunidades disponíveis, os gestores decidiram pela transferência da sede da empresa para os Estados Unidos. Isso significaria alto comprometimento de recursos antes mesmo de estabelecer esforços comerciais, o que vai de encontro ao modelo de Uppsala (Johanson e Vahlne, 1977). Por se aprofundar em um mercado específico, quando o primeiro passo foi buscar superficialmente outros países, esse processo também não se adequa à proposta de Hashai (2010). O fato de existir, mesmo após a internaccionalização da sede, uma estrutura de escritório e a parte de desenvolvimento de produtos no Brasil reforça que, apesar da transferência, o comprometimento de recursos se mantém nos dois países. Analisando o caso da IDXP, ambas as internacionalizações seguem as seguintes etapas: 1) a empresa estabelece relacionamento comercial com indívíduos ou corporações em outro país; 2) desse relacionamento, os gestores identificam a oportunidade de abordagem desse novo mercado; 3) o modo de entrada e investimentos nesse mercado é escolhido de acordo com oportunidades e questões de competitividade. Contudo, como a expansão ainda está limitada aos Estados Unidos, França e primeiras negociações em outros países da Europa, ainda é cedo, nesse caso, para uma análise mais detalhada da estratégia de abordagem internacional em si ou identificar padrões de processos. 6.1.3 Manifestações de compromisso No modelo original de Uppsala, a manifestação de compromisso com o novo mercado é verificada pelo comprometimento de recursos com a operação internacional e a facilidade de transportar esses recursos para outro local (Johanson e Vahlne, 1977). Rocha, Mello et al. (2012) explicam que os fatores que indicam compromisso com o mercado são a quantidade de recursos alocada e o grau de especialização dos mesmos. Coviello e Martin (1999), por sua vez, defendem que empresas de serviços manifestam o compromisso com o novo mercado de forma diferente, dada a natureza do negócio – o ativo mais importante, nesse caso, não é o físico. Nessas empresas, as manifestações de comprometimento seriam o investimento em relacionamentos no novo local e a contratação de mão de obra qualificada. 99 Dadas essas premissas, é possível identificar, no caso da IDXP, que as manifestações de compromissos acontecem de maneira muito próxima àquela descrita por Coviello e Martin (1999): o principal ativo que demonstra o compromisso com o mercado dos Estados Unidos são os relacionamentos estabelecidos com parceiros, fornecedores, clientes em potencial e advisors da empresa; e a contratação de pelo menos um profissional local especializado. A percepção da manifestação de compromisso através dos relacionamentos, de certa forma, é confirmada pela atualização do modelo de Uppsala (Johanson e Vahlne, 2009). Na nova versão, o “compromisso com o novo mercado” é substituído por “posição na rede”, critério vinculado a “relacionamentos”. Essas alianças com outros atores seriam assumidas gradualmente durante a internacionalização, admitindo que a network estabelecida é significativa como compromisso com aquela região. A essa, entretanto, somam-se outras manifestações, como a transferência de recursos especializados – no caso, os sócios e gestores da empresa, que exigiram processo de visto para atuar no país. Por último, pode também ser interpretada como compromisso com o novo mercado a questão burocrática, representada principalmente pela transferência legal da sede da empresa (sendo uma das exigências para isso a contratação de profissionais locais) e pelo o registro de propriedade intelectual somente nos Estados Unidos. Rocha, Mello et al. (2012), ao analizar novos negócios internacionalizados, identificam dois perfis de empresas em relação ao compromisso, sendo o de maior compromisso aquele que investe mais tempo na preparação para o novo mercado; e de menor compromisso a empresa que opta por formas de internacionalização que exigem menor preparação. Essa teoria contribui para explicar os diferentes movimentos internacionais da IDXP, em oposição àquela proposta por Uppsala: quanto à transferência da sede para os Estados Unidos, fisicamente, o investimento da empresa é baixo – apenas um escritório. A transferência dos recursos humanos, nesse caso, três dos quatro sócios, representa um investimento alto, porém facilmente transportável para outro local. Porém, esse comprometimento pode ser medido pelos investimentos em relacionamentos, fornecedores, parceiros entre outros, participação em eventos, aprendizagem no novo mercado e no investimento burocrático no país, como a 100 abertura de firma e registro de propriedade intelectual. Nesse sentido, o grau de comprometimento com esse mercado é alto. Já a internacionalização para a França e outros países da Europa exigiu menos preparação e recursos. Nesse caso, a empresa conta com um sócio que não tem dedicação exclusiva e uma pessoa de vendas que conhece o mercado local. Isso significa dizer que o comprometimento com esse mercado é mais baixo. Essa relação, no entanto, pode se aprofundar com o tempo ou o início de projetos. 6.1.4 Escolha de mercado A internacionalização para os dois novos mercados, Estados Unidos e Europa, aconteceu praticamente ao mesmo tempo no caso da IDXP. Apesar de movimentos internacionais distintos, ambos foram ocasionados pelos mesmos fatores: oportunidade emergente e influência dos contatos internacionais. Nesse caso, as oportunidades não estão relacionadas ao potencial de mercado, mas aos relacionamentos estabelecidos. O exemplo da internacionalização para a França é mais claro nesse aspecto. O investidor francês Jean Racine-grisoli era um contato pessoal de um dos empreendedores, Gustavo Lemos. A importância desses relacionamentos é reconhecida na literatura (Coviello e Martin, 1999). Ao se tornar, em um primeiro momento, o investidor-anjo da empresa e, posteriormente, um sócio, esse investidor passou a dedicar tempo e explorar os próprios relacionamentos para identificar oportunidades não apenas na França, mas também em outros países da Europa. Portanto, seus relacionamentos e conhecimentos foram os responsáveis por gerar a oportunidade de abordagem do mercado. Embora o histórico de transferência da sede para os Estados Unidos seja diferente, as motivações da escolha desse país foram semelhantes. O conhecimento do mercado, possibilitado desde participação no Prêmio IBM SmartCamp, e os relacionamentos estabelecidos principalmente durante o mesmo evento ajudaram os gestores a identificar oportunidades naquele mercado. Nesse caso, porém, houve um terceiro motivo: o conhecimento desse mercado e os parceiros estabelecidos apontavam para a necessidade de presença física, que garantisse a competitividade global da empresa. A oportunidade ajudou a empresa a acelerar a 101 internacionalização; e essa percepção motivou ainda o comprometimento de recursos. 6.3 CONCLUSÕES Como o método de pesquisa utilizado foi o de estudo de caso, não é possível generalizar os achados para a população de empresas brasileiras de tecnologias da informação que se lançam no mercado internacional logo após a sua criação. Mas, apesar de as conclusões apresentadas neste trabalho não poderem ser estendidas a outras empresas, o estudo traz considerações que podem servir de inspiração para pesquisadores sobre o tema. A análise do caso permite concluir que: A) De forma geral, as teorias de novos negócios internacionalizados abordadas neste trabalho – Empreendedorimo Internacional e Born Globals – parecem descrever de forma mais adequada o caso da internacionalização da IDXP, assim como explicar diversos aspectos da abordagem de novos mercados, muito embora nenhuma delas explique, sozinha, todos os processos e decisões da empresa. Entre as maiores contribuições estão os motivos da internacionalização, manifestações de compromisso, a compreensão do uso de recursos, influência da network e a velocidade de internacionalização, além da figura do empreendedor. Como a aderência do caso é alta tanto em relação ao Empreendedorismo Internacional quanto aos estudos de Born Globals, também é possível admitir que esse fato corrobora a percepção de que ambas as linhas de pesquisa olham para um mesmo fenômeno, que são as jovens empresas que se internacionalizam rapidamente. B) Embora as teorias tradicionais de internacionalização abordadas por este trabalho – Teoria de Uppsala e Teoria de Network – não expliquem os processos de internacionalização da IDXP, ambas contribuem com elementos que ajudam a compreender alguns aspectos de escolhas dos gestores dessa empresa. 102 No caso da teoria de Uppsala, a principal contribuíção foi o conceito de distância psíquica. Apesar da rápida internacionalização, os países abordados foram exatamente aqueles pelos quais os gestores da empresa tinham a menor percepção de distância cutural ou acreditavam conhecer melhor: a França, graças ao investidor francês; e os Estados Unidos, mercado que os empreendedores tiveram a oportunidade de conhecer e estabelecer relacionamentos locais. Já teoria de Network contribui com o reconhecimento dos relacionamentos nas decisões e processos de uma empresa. Esses relacionamentos, conforme foi visto, foram essenciais para identificar oportunidades, influenciar a decisão e até mesmo atuar no processo de internacionalização. O acesso aos recursos da rede, também sugerido pelo modelo de Network, foi um grande fator de influência na internacionalização da IDXP. 6.4 SUGESTÕES PARA PESQUISAS FUTURAS Por ser um estudo de caso, essa pesquisa não pretende ser genérica ou conclusiva sobre a internacionalização de empresas brasileiras de tecnologias da informação. No entanto, as conclusões do estudo permitem perceber possibilidades para novas pesquisas sobre o tema. Uma dessas possibilidades seria realizar um estudo quantitativo que verificasse se algumas dessas descobertas de pesquisa são generalizáveis para outras empresas brasileiras, como a influência das redes de relacionamento na decisão de abordagem internacional e escolha de países; motivações e velocidade de internacionalização e o efeito made in alcançado graças ao investimento direto internacional. Outra sugestão de pesquisa futura é o desdobramento do caso da IDXP. Visto que tanto as internacionalizações quanto a própria operação da empresa estão em estágios iniciais, as etapas seguintes da empresa e as futuras decisões quanto ao mercado global podem oferecer elementos que auxiliem a melhor compreensão do fenômeno. Além disso, buscar empresa de outros setores que apresentem características de decisões e processos semelhantes aos da IDXP pode ser significativo para a compreensão do movimento internacional de empresas brasileiras. 103 Por último, o prêmio IBM SmartCamp foi um grande incentivo para a internacionalização da empresa estudada. Por esse motivo, examinar os casos de outras empresas brasileiras vencedoras do mesmo prêmio, verificando possíveis processos de internacionalização, poderia contribuir para estudos nessa área. 104 REFERÊNCIAS AGÊNCIA BRASILEIRA DA INOVAÇÃO. Prime. Brasília, DF: Finep, 27 dez. 2012. Disponível em: <http://www.finep.gov.br/pagina.asp?pag=programas_prime>. Acesso em: 10 fev. 2013. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DAS EMPRESAS DE TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO. Central de Informações: mercado de TIC. São Paulo: BRASCOM< [2013?].Disponível em http://www.brasscom.org.br/brasscom/Portugues/detInstitucional.php?codArea=3&co dCategoria=21 . 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Odense: University of Southern Denmark, 2011. 1 CD. 110 ANEXOS E ADENDOS INTERNACIONALIZAÇÃO DE EMPRESAS BRASILEIRAS DE SERVIÇO ROTEIRO DE ENTREVISTA Data: ___/___/___ Entrevistador: __________________________ Empresa: __________________________________________________________ Endereço: _________________________________________________________ Telefone: _________________Fax: _____________e-mail: __________________ 1. Informações sobre o Respondente Nome:_______________________________Cargo:________________________ Há quanto tempo desempenha esta função na empresa: ____________anos. Principais atribuições do cargo:_________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ _______________________________________________________________ Formação acadêmica: Graduação: (curso e instituição)________________________________________ Pós-Graduação: (curso e instituição)____________________________________ Experiência profissional anterior:_______________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ Alguma etapa de sua formação acadêmica foi adquirida no exterior? ( ) Não ( ) Sim. Qual? (tipo, duração, país) ____________________________________ ___________________________________________________________________ _________________________________________________________________ Número médio de viagens ao exterior por ano (a trabalho e a lazer): ___________ 111 Principais destinos no exterior: _________________________________________ __________________________________________________________________ 2. Informações sobre a Empresa Ano de fundação: ___________________________________ Ramo de atividade: __________________________________________________ Principais serviços comercializados Serviços (por ordem de importância no No Brasil No Exterior faturamento) 1. 2. 3. 4. Número de funcionários no Brasil a. Nas operações _________ b. Na administração _______ TOTAL __________ Número de funcionários no exterior, incluindo aqueles que, mesmo estando no Brasil dedicam-se às atividades de exportação: a. Nas operações __________ b. Na administração ________ TOTAL __________ Faturamento total anual: R$ _______________________ Faturamento referente à comercialização dos serviços no exterior: R$ ______________________ ou US$ _____________________ 3. Informações sobre as Operações no Exterior 112 Qual foi o primeiro país para o qual a empresa exportou ou iniciou a operação de seus serviços: __________________ Em que ano em essa primeira venda ou operação aconteceu:_____________ Qual era o número aproximado de funcionários na empresa, quando essa primeira exportação aconteceu? _________________ funcionários Qual era o volume de faturamento anual da empresa nessa mesma época? R$____________________ Qual foi o principal motivo que, no seu entender, levou a empresa a iniciar operações no exterior, especificamente neste primeiro país? ( ) Porque houve solicitação de um cliente no Brasil que estava operando nesse país; ( ) Porque a empresa percebeu uma oportunidade no mercado externo através de pesquisa de mercado; ( ) Porque havia incentivos governamentais para estender as operações para esse país; ( ) Porque houve um pedido de um cliente localizado nesse país; ( ) Porque executivos da empresa já conheciam esse país: a. por ter relações familiares e visita-lo com freqüência ( ) b. por ter estudado (graduação ou pós-graduação) nesse país ( ) c. por ter trabalhado anteriormente nesse país ( ) d. por dispor de relações profissionais estabelecidas anteriormente ( ) ( ) Por outro motivo: ________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ________________________________________________________________ Qual foi o segundo país (se for o caso) para o qual a empresa começou a exportar os seus serviços? ___________________________________________________ Em que ano (data) isso aconteceu? _____________________________________ Quais foram os principais fatores que motivaram a empresa a se expandir para esse outro país? ( ) Porque houve solicitação de um cliente no Brasil que estava operando nesse país; ( ) Porque a empresa percebeu uma oportunidade no mercado externo através de pesquisa de mercado; 113 ( ) Porque havia incentivos governamentais para estender as operações para esse país; ( ) Porque houve um pedido de um cliente localizado nesse país; ( ) Porque executivos da empresa já conheciam esse país: e. por ter relações familiares e visita-lo com freqüência ( ) f. por ter estudado (graduação ou pós-graduação) nesse país ( ) g. por ter trabalhado anteriormente nesse país ( ) h. por dispor de relações profissionais estabelecidas anteriormente ( ) ( ) Porque esse país tinha um mercado semelhante ao do primeiro país no qual a empresa iniciou suas atividades no exterior; ( ) Porque nossos parceiros no primeiro país: a. nos ofereceram a oportunidade de explorar em conjunto esse mercado ( ) b. nos apresentaram a novos parceiro nesse país ( ) Outro motivo: ______________________________________________________ _________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ _________________________________________________________________ De forma resumida, por favor, descreva as principais etapas da expansão da empresa no mercado internacional, indicando os países, além do Brasil, onde a empresa opera atualmente: País Ano de Forma de atuação Forma de atuação Ingresso Inicial* Atual* 114 * atendendo a pedidos eventuais, com agente de vendas, com joint venture com uma empresa local, com escritório de vendas próprio, com estrutura de pesquisa e desenvolvimento no país, com estrutura de produção no país etc. Quando a empresa passou a atuar no exterior, para que o serviço pudesse ser prestado, foi necessário que as operações fossem executadas: ( ) totalmente no país estrangeiro, de forma independente ( ) totalmente no país estrangeiro, juntamente com uma empresa local ( ) parte no Brasil e parte no país estrangeiro, de forma independente ( ) parte no Brasil e parte no país estrangeiro, em parceria com uma empresa local ( ) a forma de operar varia de país para país Comentar a opção assinalada acima:____________________________________ ___________________________________________________________________ _________________________________________________________________ Esse modo inicial foi alterado com o passar do tempo? ( ) sim ( ) não Caso positivo, que tipo de alteração(ões) foi(ram) feita(s)? _________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ _______________________________________________________________ Que tipo de adaptação (ões), se alguma, teve que ser feita nos serviços prestados pela empresa no exterior, nos diferentes países onde atua? 115 País Adaptações 1. 2. 3. 4. 5. 6. Essas adaptações nos serviços prestados foram introduzidas previamente, ou a empresa verificou sua necessidade após haver iniciado suas operações no exterior? ( ) previamente no primeiro país estrangeiro onde operou ( ) após o início das operações no primeiro país Discorrer sobre a opção assinalada: ____________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ _______________________________________________________________ A tecnologia, ou know-how, contida no seu produto/serviço está legalmente protegida no Brasil? ( ) não ( ) sim. Qual o tipo de proteção? ______________________ ______________________________________________ E no exterior? ( ) não ( ) sim. Qual o tipo de proteção? ______________________ ______________________________________________ 4. Alianças e Parcerias 116 A empresa estabeleceu alguma parceria com outras empresas em sua trajetória internacional? ( ) sim ( ) não Caso positivo: Essa(s) empresa(s) eram brasileira(s) ou estrangeira(s)? ____________________ __________________________________________________________________ A iniciativa para a formação dessa parceria foi da sua empresa ou da empresa no exterior? __________________________________________________________ __________________________________________________________________ Que tipo(s) de benefício(s) essa parceria trouxe para a sua empresa? ( ) adicionou tecnologia ao meu produto/serviço ( ) trouxe conhecimento sobre as práticas comerciais naquele mercado ( ) trouxe clientes potenciais para o meu produto/serviço ( ) permitiu à minha empresa ultrapassar barreiras legais para atuar naquele mercado: _______________________________________________________ ( ) outra contribuição: _______________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ Com que tipo(s) de benefício(s) a sua empresa contribuiu para essa parceria? ( ) adicionou tecnologia ao produto/serviço do parceiro ( ) permitiu à parceira oferecer outro produto/serviço aos seus clientes já existentes ( ) permitiu à parceira aumentar a sua competitividade, oferecendo um produto/serviço equivalente por um preço menor ( ) outra contribuição: _______________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ Existia algum relacionamento prévio de sua empresa com esse parceiro antes de estabelecer alguma relação comercial com o mesmo? ( ) Não ( ) Sim, existia um relacionamento social (amizade, parentesco etc.) ( ) Sim, existia um relacionamento profissional (fornecedor, cliente etc.) ( ) Sim, executivos desse parceiro haviam sido colegas de trabalho de executivos de nossa empresa anteriormente 117 Essa parceria se restringiu ao desenvolvimento de mercado(s) no exterior ou também para o mercado doméstico? ____________________________________ __________________________________________________________________ A parceria foi estabelecida através de um documento formal (contrato) ou os negócios aconteceram de maneira informal? ______________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ Com o passar do tempo, essa parceria foi ampliada? De que maneira? _________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ Essa primeira parceria continua existindo, ou ela se esgotou? Por quê? ________ __________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ________________________________________________________________ Após essa primeira parceria, a sua empresa buscou estabelecer relações com outros parceiros no exterior? ( ) sim, no mesmo país ( ) sim, em outro país ( ) não Caso positivo, de que maneira se deu essa busca? (através de participações em feiras ou congressos internacionais, através de indicações recebidas de clientes da empresa no Brasil ou no exterior, através de recomendações de parceiros já estabelecidos, através de instituições do governo brasileiro etc.) __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ 5.Informações sobre os Esforços Comerciais A empresa faz alguma divulgação de seus serviços no exterior? (propaganda de massa, mala direta, participações em feiras, telemarketing, internet etc.) ( ) Não ( ) Sim: __________________________________________________________ (solicitar material de divulgação, se existir) 118 Caso positivo, essa divulgação segue os mesmos padrões da utilizada no Brasil? ( ) Sim ( ) Não. Comente as principais diferenças: _______________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ _______________________________________________________________ A forma de venda pessoal (se for o caso) no exterior difere daquela praticada no Brasil? ( ) sim ( ) não Caso positivo, quais são as principais diferenças? _________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ _______________________________________________________________ E no que diz respeito aos preços? Suas políticas de preços (de tabela, descontos, crédito, financiamento etc) são distintas no Brasil e no exterior? ( ) sim ( ) não Caso positivo, em que diferem?________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ________________________________________________________________ 6. Informações sobre Recursos Humanos Com relação ao quadro de funcionários da empresa no exterior, o pessoal contratado é: ( ) totalmente local ( ) parte local e parte brasileiros (_____% de brasileiros) ( ) totalmente brasileiros Caso a empresa contrate pessoas no exterior: Esses funcionários “estrangeiros” recebem algum tipo de treinamento formal na empresa? ( ) sim ( ) não 119 Caso positivo, esse treinamento é ministrado: ( ) totalmente no Brasil ( ) totalmente no país no exterior onde a empresa está operando ( ) parte no Brasil e parte no exterior ( ) de outra forma: __________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ 7. Informações de ordem geral Qual a importância da internet para o desenvolvimento de novos mercados para seus negócios no exterior? ____________________________________________ __________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ _________________________________________________________________ Qual a importância da internet para a manutenção de seus negócios no exterior? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ________________________________________________________________ As inovações dos produtos ou dos serviços prestados pela empresa têm a sua origem: ( ) totalmente no Brasil ( ) totalmente no exterior ( ) tanto no Brasil como no exterior Em sua percepção, a rentabilidade que a empresa obtém no exterior: ( ) é superior àquela obtida no Brasil ( ) é inferior àquela obtida no Brasil Porque ___________________________________________________________ ___________________________________________________________________ _________________________________________________________________ 120 Em sua percepção, quais as vantagens que seu produto/serviço oferece aos clientes, em relação aos seus concorrentes diretos? (preço, desempenho etc.) ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ________________________________________________________________ E quais seriam as desvantagens? ______________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ________________________________________________________________ A empresa possui planos para crescer no exterior? ( ) sim ( ) não Caso positivo, quais seriam as principais diretrizes que orientariam esse crescimento? (aprofundamento da presença no(s) país(es) em que já tem presença atualmente, expansão para outros países que oferecerem oportunidade, ou que tenham afinidade política e/ou cultural, ou que sejam próximos geograficamente, ou que apresentem bom potencial de mercado para os serviços da empresa etc.) ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ______________________________________________________________ ___________________________________________________________________ _________________________________________________________________