Casos de Ensino em Administração: A Gestão da Produção em uma pequena empresa de confecção Autoria: Luis Daniel Pittini Strumiello, Rogério Royer RESUMO Este artigo tem como objetivo apresentar um estudo de caso de ensino em administração, no qual descreve-se a problemática que envolve o gerenciamento da produção de uma pequena empresa do ramo de confecções. Inicialmente, realizou-se uma série de entrevistas com administradores e funcionários da Cia. Ponto de Vista, elaborando-se após um texto que descreve os diversos aspectos da empresa. Como objetivo, o texto tem o de auxiliar aos alunos na identificação de questões como: (i) características da empresa; (ii) experiências administrativas vivenciadas pelos administradores; (iii) características e especificidades dos produtos elaborados; (iv) características da estrutura e dos processos e (v) especificidades e quantificação dos recursos humanos envolvidos. O texto descreve ainda os problemas que são vivenciados pela empresa de forma a permitir que alunos entendam o contexto da situação e possibilitando que discussões sejam feitas a partir do mesmo. Ao seu final, o texto sugere que o aluno proponha soluções para que a empresa em questão possa crescer de forma estruturada. Complementando, o artigo apresenta em seu anexo o Apoio ao Instrutor. Neste anexo apresentam-se: (a) os objetivos de aprendizagem, (b) os temas que podem ser discutidos, (c) a contextualização do caso, (d) as sugestões para discussão, e (e) a bibliografia recomendada. 1. Crescimento e reestruturação do Sistema de Produção Este era mais um dia bastante agitado para Amanda Sucesso, sócia diretora da Cia. Ponto de Vista. Apesar do crescimento da empresa, ela não conseguia atender aos pedidos em dia. Os atrasos eram comuns e, apesar da boa qualidade dos produtos vendidos por sua empresa, os lojistas já começavam a demonstrar a sua insatisfação com os constantes atrasos praticados pela empresa. Amanda sempre foi uma batalhadora. Com uma infância pobre e dificuldades para estudar Amanda sempre teve uma alma empreendedora. Quando criança vendia abacates colhidos no pátio de casa, para conseguir dinheiro e comprar o seu material escolar. E sua vida sempre foi assim, repleta de desafios, os quais a auxiliavam a crescer e buscar os seus objetivos. A decisão por entrar na indústria da confecção foi tomada após algumas experiências em outros tipos de empreendimentos. A Cia. Ponto de Vista iniciou suas atividades em 1998, após uma decisão de Amanda e Miguel (seu esposo), em ter o seu próprio negócio. Trabalhadores da iniciativa privada durante longo período, o casal, já há algum tempo, tinha um pequeno negócio que auxiliava no orçamento doméstico, mas que não crescia em função do pouco tempo de dedicação. Em um determinado momento, o casal resolveu colocar o sonho em prática. Amanda pediu demissão de seu emprego e abriu uma empresa de porcelanas (a atividade já era praticada de modo informal), com motivos focados no público cristão. À medida que o tempo passou, o casal dividiu as atividades, ficando a esposa responsável pela parte de produção e Miguel com a parte de vendas. Esse, em momentos de contato com os clientes, identificou uma carência de roupas feitas para esse público. A idéia ficou adiada durante um período, até que através de uma negociação conseguiu-se um contrato para fabricação exclusiva de uma marca de camisetas já reconhecida no mercado. Feito o contrato, as medidas foram tomadas no sentido de agilizar-se a produção. Inicialmente o barracão utilizado para a produção das porcelanas foi dividido e os investimentos em máquinas e equipamentos foram adquiridos. Após um período, além de atender o cliente do contrato, outros clientes foram aparecendo e a empresa, na medida do possível, foi atendendo a todos e diversificando sua base de clientes e seu mix de produtos. Com o chão-de-fábrica estruturado, os empreendedores estavam diante de uma nova realidade. Até então, apesar de ter um faturamento razoável, a empresa não tinha a área de produção que exigisse complexidade. O negócio de porcelanas era feito por poucas pessoas trabalhando diretamente na produção, até porque boa parte da produção era terceirizada. Mas neste momento, trabalhando em um novo mercado, além do volumes de produção ser maior, a mesma exigia que houvesse uma maior quantidade de pessoas envolvidas, mais máquinas e equipamentos, menores custos de produção, uma vez que o mercado de confecção gera margens pequenas, ou seja, havia uma maior necessidade de planejamento e controle da produção. A Ponto de Vista possui 31 funcionários, sendo que 24 deles estão diretamente ligados ao setor produtivo. Os outros sete funcionários distribuem-se em: almoxarifado (1), transporte (1), administração (2), análise financeira (1) e vendas (2). Neste momento, com as vendas crescendo, a base de clientes aumentando, os diretores estão diante de uma nova situação, como crescer de modo estruturado? Do ponto de vista de mercado, a empresa está tendo boa aceitação e sua estratégia de marketing tem atendido as expectativas. Do ponto de vista financeiro, a empresa continua estruturada, pois essa foi uma área onde sempre houve uma atenção destacada. A relação entre funcionários, administração e fornecedores é boa. Apesar de tudo isso, Amanda sente uma necessidade de maior controle no processo produtivo, pois o crescimento do número de funcionários, o aumento dos pedidos, a maior movimentação de materiais entre outras coisas, tem gerado certo desconforto nos empresários. Desse modo, Amanda tem enfrentado desafios diários para conseguir fazer com que os pedidos sejam atendidos não somente no que se refere à entrega, mas também no número correto e com as características de camisetas corretas. Formada em pedagogia, Amanda apesar de toda a sua experiência em gestão, e com funcionários confiáveis, não entende a razão pela qual está tendo tantas dificuldades, no processo produtivo. Em sua visita a um dos seus fornecedores, para verificar a possibilidade de adiantar determinado entrega de matérias-primas, percebe uma pessoa diferente na área de produção. Ao interrogar quem era, fica sabendo que era um consultor que estava tentando resolver problemas de planejamento e controle da produção. Amanda então comentou sobre algumas das dificuldades que estava tendo em sua empresa, e Ronaldo (dono da empresa fornecedora), então o apresentou a Kleber Bonfim, o consultor. Após uma rápida conversa, Kleber ficou de aparecer dois dias depois na empresa de Amanda para verificar o que estava acontecendo. Conforme combinado, Kleber aparece na Cia Ponto de Vista e encontra Amanda agitada. Um grande pedido estava atrasado uma semana e o cliente, enfurecido, telefona cancelando o pedido. Tal cliente era importante, pois além de ser de grande porte, era o presidente da associação de lojistas de uma grande cidade do Mato Grosso do Sul, sendo que em meio à conversa ríspida ao telefone, prometeu contatar todos os seus conhecidos da associação para revelar o fato. Amanda estava transtornada, foi verificar e percebeu que o pedido apesar de estar no processo produtivo, havia sido interrompido, em função de outro também urgente. Kleber observa tudo isso e pergunta: quem dá as ordens para a produção? Amanda afirma que é ela. E pergunta então, mas como pode ser você se nem esse pedido havia mandado interromper? 2 Amanda fica pensativa e Kleber, andando no chão de fábrica, vai perguntando à Amanda: qual a sua capacidade produtiva? Qual a sua demanda mensal? Quem são seus clientes? Qual é a seqüência que os produtos seguem na produção? Como são estabelecidas as prioridades? Quais os pedidos aceitos? Como são feitos os controles? E finalmente: - Você sabe qual o custo de seus produtos? Amanda fica sem graça e tenta enrolar, mas Kleber é bastante enfático e afirma: - Desculpe Amanda, mas sem essas informações você não sabe qual o seu custo. Amanda admite o problema e verifica se Kleber pode auxiliá-la a resolver esses problemas. Kleber disse que está bastante atarefado, mas observando a situação, o potencial de crescimento da empresa e as dificuldades enfrentadas, aceita o desafio. Fecham o preço sendo que Kleber sugere também que ele ganhe uma porcentagem sobre o aumento do faturamento da empresa. Amanda fica reticente, mas aceita, concordando com Kleber que isso somente acontecerá se a empresa ganhar mais. Após uma semana Kleber inicia o seu trabalho com o objetivo de elaborar um diagnóstico do sistema produtivo, para ter condições de proporcionar as mudanças necessárias. O responsável por acompanhar Kleber durante esse processo é Edmar Agnelo, chefe de produção da empresa e profundo conhecedor do andamento da produção. Ao caminhar pela produção para realizar a observação, Kleber faz anotações enquanto Edmar, bastante falante, vai expondo o que ocorre no dia-dia segundo a sua visão. Ele explica: - A empresa tem como estratégia básica a produção por pedido. Todo o desenvolvimento da produção só acontece após o pedido do cliente. Algumas vezes, este pedido necessita de um determinado tipo de material que não existe em estoque. Feito o pedido, por vezes, este demora a chegar, comprometendo toda a produção e interferindo (em função das interrupções) nos outros pedidos. Tal fato apesar de não ser constante, não é raro. Dos produtos mais vendidos, são feitas sempre algumas (poucas) peças a mais, no intuito de atender a um pedido mais urgente. Além disso, todos os pedidos têm urgência. Alguns clientes obviamente têm preferência no atendimento, porém, em sua grande maioria todos os pedidos são considerados urgentes, isso faz com que quase fiquemos loucos aqui, porque a pressão é muito grande. Kleber pondera, afirmando que esta estratégia de produção tem vantagens, como o fato de não gerar estoque e oferecer exatamente o que cliente deseja. Isso tem permitido à empresa, um crescimento rápido no mercado. Edmar concorda acrescentando: - O que desencadeia a produção, portanto, é o pedido do cliente. O problema é que essa produção por pedido tem gerado alguns transtornos no sistema produtivo. Todos os pedidos têm sido considerados como urgentes, apesar de alguns clientes terem preferência no fornecimento. Isso faz com que muitas vezes o processo produtivo seja interrompido para que se inicie aquele pedido mais urgente. - É, temos que mudar essa prática, afirma Kleber. Edmar ainda lembra: – Ah, tem uma outra questão que penso ser interessante você saber. É algo que eu percebi e já alertei a patroa, mas ela não concorda comigo. - O que é? (pergunta Kleber). - É que eu percebo que algumas vezes, principalmente no fim do ano, as costureiras reduzem o ritmo de produção com o passar das horas do dia, pelo que sinto, fazem isto para forçar a realização de horas extras. Quando elas percebem aquela agitação, com muitos pedidos, sinto que isso acontece. Tenho a impressão, continua Edmar, que com a produção pós-pedido, o sistema produtivo fica muito dependente dos pedidos e da urgência pela qual ele é necessário. Praticamente não há aproveitamento de um pedido para outro. - Isso é um assunto complicado, mas creio que nesse momento, não é o problema mais urgente para resolvermos, observa Kleber. Mas me conte um pouco mais, sobre a produção, qual é a seqüência da produção? 3 Bem, seu Kleber, depende do produto. A disposição das máquinas até tem uma lógica, mas ocorre muito “vai e vem” de pessoas e materiais no chão-de-fábrica. Posso resumir e desenhar para o Sr., dividindo em quatro os processos principais. Até fiz o desenho outro dia, pois tinha muita gente andando, mas com o corre-corre do dia-dia, você sabe como é..... - Sim, responde Kleber, pela movimentação de vocês aqui vejo que não dá muito tempo para planejar e sim, para apagar os incêndios. Mas mostre os desenhos que você fez. - Podemos ir até minha sala? Pois eles estão lá. Chegando ao escritório Edmar entrega os seus rascunhos nas mãos de Kleber que estão assim descritos (ver Figuras 1, 2, 3 e 4). Cada uma das Figuras representa a movimentação que ocorre para um tipo de produto; no caso, as quatro movimentações mais freqüentemente observadas no chão de fábrica da Cia. Ponto de Vista. Corte Costura Estampa Acabamento e Embalagem Estoque Passageadoria Pregar botões Figura 1: Rascunho elaborado sobre o processo de produção utilizado no Produto 1. Corte Costura Acabamento e Embalagem Estampa Estoque Passageadoria Figura 2: Rascunho elaborado sobre o processo de produção utilizado no Produto 2. Corte Costura Acabamento e Embalagem Estoque Passageadoria Figura 3: Rascunho elaborado sobre o processo de produção utilizado no Produto 3. Corte Costura Acabamento e Embalagem Estoque Passageadoria Figura 4: Rascunho elaborado sobre o processo de produção utilizado no Produto 4. Após Kleber analisar um pouco a seqüência dos vários produtos na produção, Edmar destacou: - Essas possibilidades de caminhos a serem seguidos durante o processo é conhecida por praticamente todos na empresa, mas isso tem causado um grande transtorno. Deve haver uma seqüência que evite esse giro de pessoas e produtos. Kleber concorda e acrescenta: - O pequeno espaço torna o processo ainda mais confuso, gerando número excessivo de materiais na fabricação. O fato de atender um pedido de cada vez auxilia a não misturar lotes de produtos, porém em momento de maior pressão e 4 necessidade de produção, tal fato tem ocorrido. Mas me explique uma coisa, quais são os equipamentos da empresa? Aqui você não os descreveu. - É, responde Edmar, como isso é conhecido achei desnecessário, mas vá anotando aí. - Não, não, vamos andar pela produção e verificar lá. Providencie papel e caneta para nós dois, assim vamos anotando. Caminhando na produção os dois conversam e vão anotando e discutindo sobre o que encontram, chegando à seguinte conclusão: A empresa possui: • 2 mesas para corte (4m e 2,5m) • 13 máquinas de costura (1 é reserva) • 3 overloques • 1 passadora de roupas • 1 mesa e ferro de passar • 1 pregadora de botões • 2 mesas para estampagem Edmar concorda com o diagnóstico de equipamentos e destaca: - Além desses a maioria das costureiras tem uma mesa para apoiar os materiais enquanto costura. Essa mesa é importante para servir de apoio às costureiras. Percebo que as costureiras que não tem essa mesa passam por maiores dificuldades no momento da costura. Kleber ouve tudo e discute que aparentemente o número e o estado de conservação das máquinas e equipamentos é satisfatório. Comenta que há um grande problema no setor de corte, pois as mesas são pequenas, tornando esse setor um gargalo (coisa rara na indústria) necessitando de um funcionário a mais. - É, responde Edmar, já analisei isso e concluí que o tamanho ideal desta mesa é de 10 m. seria interessante também ter duas outras de 5 m. para trabalhos menores ou utilização para desenho enquanto outra pessoa corta. - Mas para isso vocês precisariam de mais espaço, até porque no setor de classificação e embalagem percebe-se a necessidade de mais espaço para a operação. Os operadores por vezes ficam atrapalhados em função do pouco espaço. Após o corte, os produtos são divididos e colocados em uma mesa lateral encostada na parede, afirma Kleber. - Pois é senhor, tenho percebido que essa disposição dificulta o acesso a esse material prejudicando o andamento do processo, completou Kleber. No horário do almoço, Kleber senta-se à mesa com a Amanda que lhe pergunta sobre o andamento dos trabalhos. Kleber afirma que este está em ritmo acelerado, mas ainda demoraria um pouco para oferecer um diagnóstico. Destaca que conseguiu detectar algumas deficiências no processo, mas precisa de um maior acompanhamento para chegar a conclusões. Amanda fica curiosa, querendo saber se há condições de resolver o seu problema de prazo de entrega sem ter despesas muito altas. Kleber continua afirmando que ainda é cedo para chegar a conclusões a respeito, mas anima a diretora, dizendo que tem esperanças que isso seja possível sim, porém com o esforço e comprometimento de todos. - Bem Kleber, explica Amanda, acho que é relevante você saber que estamos conscientes das dificuldades relativas a espaço e estamos estudando a possibilidade de mudar a área de produção para um outro espaço. - Interessante saber disso, então posso já considerar essa possibilidade quando fizer os planos das alterações necessárias, pergunta Kleber. - Sim, vou até mais adiante, veja qual são as necessidades e depois disso procuramos um espaço que seja adequado. - Ótimo, pondera Kleber. 5 No período da tarde, Kleber fica na observação, analisando o modo como os trabalhadores executam suas tarefas. Edmar vai resolver os seus problemas corriqueiros se envolvendo com estes, deixando Kleber anotando as suas observações. Enquanto caminha pelo chão de fábrica Kleber observa o trabalho das costureiras e identifica uma dificuldade no que se refere a padronização dos trabalhos. As costureiras não trabalham da mesma forma. Até as cadeiras são diferentes entre elas. Intrigado com isso e querendo ter uma informação diferenciada, conversa com Lourdes Jacinta, supervisora da produção que é quem distribui o trabalho para as costureiras. Segundo Lourdes, a ordem para determinada costureira fazer um serviço é definida por ela, que utiliza um critério, que foi definida com a Dona Amanda. Este critério envolve a quantidade de trabalho em si que esta costureira tem a realizar e a habilidade da costureira para determinado tipo de costura (segundo a percepção de Lourdes). Perguntada sobre como chegou a essa conclusão sobre as costureiras, ela explica que a rotatividade das costureiras na empresa é pequena sendo que ela conhece bem cada uma delas, mas essa habilidade não está registrada em nenhum local, - Somente é conhecida por mim, diz Lourdes, complementando que se as costureiras começarem a ter essa informação podem querer interferir no trabalho. Kleber ainda questiona sobre o por quê as costureiras trabalham de modo diferente, e Lourdes explica que isso se deve ao fato de cada uma ter um jeito diferente de costurar e, fazendo assim, pode se sentir a vontade para costurar do modo que achar melhor. - Mas existe treinamento para as costureiras, questiona Kleber. - Sim, quando a funcionária é contratada eu passo um dia observando como ela costura e instruindo como as coisas devem ser feitas, responde Lourdes. Kleber ouve tudo isso, fica pensativo e não fala nada. Apenas anota e continua sua observação. Em um determinado momento, fica de longe observando o movimento no almoxarifado. Identifica que os materiais ficam estocados no almoxarifado conjuntamente à matéria-prima. Verifica que não há uma pessoa que fica ali o tempo todo. A porta fica fechada, mas além de Edmar, ele percebe que Lourdes e ainda outro funcionário, que posteriormente descobriu ser o responsável pelo almoxarifado, tem acesso a este. Kleber continua em sua observação, conversa com duas costureiras sobre o trabalho, colhendo informações, principalmente agora focando sobre o estado de conservação das máquinas de costura. Ambas as costureiras explicam que as máquinas quebram pouco e sempre que isso ocorre há uma máquina reservada justamente para esses momentos. Informam também que raramente ocorre a quebra de duas máquinas juntamente, afirmando que em suas opiniões esse procedimento está funcionando bem. Enquanto Kleber fica parado e aparentemente distante observando a produção, Edmar se aproxima perguntando se está tudo bem, e se precisa de algo. - Sim está tudo bem. Conversei com a supervisora de produção e também algumas costureiras, tirando algumas dúvidas sobre o método de trabalho. Mas agora gostaria discutir um pouco com você sobre o Planejamento e Controle da Produção. Você tem um tempo agora? - Já, deixei todo o trabalho encaminhado e podemos conversar sem problema. Essa é uma área que gosto bastante. Vamos ver o que podemos fazer. - Bem, então vamos lá. Deixe eu te expor um pouco do cenário para entrarmos na discussão. A indústria da confecção tem características singulares em função de algumas influências exercidas sobre os consumidores como, por exemplo, pelos meios de comunicação, apresentando assim uma grande variabilidade em sua produção. Para uma pequena empresa como esta, por exemplo, isso fica ainda mais complicado porque ela não dispõe de informações tão acessíveis sobre as tendências da moda para as próximas estações, deixando-a principalmente como agente de reação ao mercado. Apesar disso, vocês 6 conseguem encontrar nichos de produção em função de sua característica mais destacada que é a agilidade. Assim, vocês reagem rapidamente às novas tendências de mercado, o que deixa vocês competitivos. Concorda comigo? - Sim, gostei dessa análise, creio que é por aí que conseguimos conquistar o nosso espaço, responde Edmar. - Certo, mas mesmo assim é necessário ter o registro do desenho dos produtos, materiais gastos, tempos e seqüência do processo e quantidades fabricadas. O que, de fato, vocês fazem aqui? - Bem, seu Kleber, a empresa tem fichas de produção nas quais consta o projeto do produto, como também a quantidade de materiais necessários, mas eles nem sempre são consultados. Na verdade, isso foi feito no passado, mas acho que ninguém usa. Como a grande maioria dos produtos tem o mesmo processo, pois os diferenciais referem-se a colocar ou não botões, ter ou não estampa e a necessidade ou não da peça ser passada, acreditamos que os tempos de processo e seqüência são parecidos, não precisando consultar essas fichas. - Tudo bem, responde Kleber, mas tempos de processo e materiais componentes do produto são coisas diferentes, mas, por favor, continue me contando, diga-me agora sobre as quantidades. - Bem, não existe informação sobre a capacidade produtiva na empresa. Nós sabemos mais ou menos o que podemos produzir diariamente, mas se a coisa aperta, os funcionários fazem hora-extra, e fazem numa boa. Temos um problema no setor de classificação e embalagem, pois há um acúmulo de tarefas ali, pois somente há uma pessoa trabalhando, mas isso a gente resolve rapidinho no fim do dia, sinto que a operação costura é que define a capacidade produtiva da empresa. - Tudo bem, estou entendendo, mas me conte sobre o dia na produção, como e quando é realizada a definição de quais produtos serão fabricados? - Olhe, isso nem sempre é simples. Essa definição é realizada todas as manhãs, na reunião que ocorre entre a Dona Amanda e eu em função dos pedidos ocorridos no dia anterior, como também os pedidos que ainda não foram atendidos devido à questões de prioridade. Nesse momento então, é realizada a definição de quais e quantos produtos serão necessários. A partir daí, verificamos quais os materiais são necessários para realizar esta produção. Algumas vezes, o material solicitado não está em estoque, gerando a necessidade de pedido, que por sua vez, gera uma espera de 1, 2, 3 ou até mais dias. Essa falta atrasa o atendimento a esse pedido. Quando o material chega, geralmente a produção é interrompida, para que esse pedido, que já está atrasado, seja atendido. - Sei, responde Kleber, mas e a seqüência de qual produto deve ser fabricado e os seus prazos de produção, como isso é feito? - No momento da definição dos itens a serem produzidos são decididos também o prazo que determinado produto deve estar pronto. A seqüência é determinada em função destes prazos. Temos um problema quando falta um material para um pedido. Aí quando ele chega, conforme te falei, interrompemos a produção e damos uma corrida com esse pedido. - Mas, isso tem funcionado bem? - Bem, temos muitos problemas de atrasos. Essa história de interromper a produção, eu não sei se é certo, pois outro dia, um cliente ligou reclamando de um pedido que estava atrasado um mês. Fomos procurar a ordem de produção e vimos que ela havia sido dada. Reviramos a empresa, desconfiamos até de roubo, mas no fim percebemos que o pedido estava parado na produção, embaixo da mesa de corte. Eu fiquei indignado e dei uma olhada nas ordens de produção, no dia em que ele parou mais ou menos, e pelo que entendi, ele foi parado para atender a um pedido urgente e foi esquecido. Isso causa um stress danado. - Muito bem, já que você tocou nesse assunto me diga, como são feitos os controles na produção? 7 - Os controles são informais, não temos nenhum documento para isso. Por exemplo, o controle de qualidade é verificado no fim da linha no momento da classificação. Ao se perceberem falhas, tal produto volta para a linha. Se identificado o operário autor do erro, ele conserta a peça e está resolvido. Na reincidência dos erros eu converso com a supervisora de produção, que tenta descobrir quem foi o operário que fez isso para tentar identificar as causas do erro. Já, os controles de tempos e quantidades são realizados de forma empírica. Nós sabemos mais ou menos a quantidade de produção esperada e no fim do dia essa contagem é feita para comparação. - E o controle de custos? - Isso não é comigo, mas sei que esses valores foram estabelecidos quando aquelas fichas de produto de que falei foram feitas e acho que é isso o que ocorre. - Muito bem, Edmar, por hoje acho que é só. Já estamos no final do expediente e você deve ter outras coisas para resolver. Com essas informações vou conversar com a Sra. Amanda e depois vejo o que podemos fazer para resolver essas dificuldades. Mas muito obrigado pelas informações. Percebi que você é muito importante aqui na empresa e será a pessoa-chave para melhorarmos o desempenho da produção. Edmar agradece o elogio e afirma que fará tudo para colaborar, pois gosta muito de trabalhar na empresa. Kleber, ainda passa na sala da Amanda, conversa um pouco com ela, se comprometendo a oferecer uma solução simples e não radical para a empresa. Agora cabe a você, na posição do consultor Kleber Bonfim, entregar uma proposta de solução dos problemas da Cia. Ponto de Vista. 8 ANEXO 1. Apoio ao Instrutor 1.1 Objetivos de aprendizagem Este caso foi desenvolvido para ser utilizado de modo integral ou em partes. O caso faz uma análise geral sobre o Sistema de Produção da Cia. Ponto de Vista e é inspirado em uma situação real. Este foi desenvolvido no intuito de auxiliar professores na explicação do setor produtivo de empresas industriais, haja vista a dificuldade de deslocar uma turma para as visitas técnicas de negócios às empresas. O caso permite uma discussão individual sobre cada item de um programa da disciplina de Administração da Produção (Sistema de produção, Estratégia de Produção, Lay out, Tempos e Métodos, Planejamento e Controle da produção entre outros). Pode ser utilizado também para permitir uma visão geral sobre o Sistema de produção e suas implicações nas outras áreas de empresa. A linguagem está adequada a alunos que tenham um conhecimento básico do sistema produtivo, permitindo verificar as suas interações. Será interessante discutir, antes do estudo do caso em si, um panorama da indústria da confecção para que os alunos se situem sobre a realidade destas empresas. O anexo 1, traz algumas destas informações. O trabalho foi estruturado segundo o diagnóstico proposto por Erdmann (2000). Esta estrutura foi testada e aprovada em pesquisas desenvolvidas na indústria da confecção com destaque para Cosentino (1998) e Strumiello (1999), fato que justifica a sua utilização. O fato exige que os participantes da análise do caso tenham conhecimento da matéria em si, como também um conhecimento geral sobre a estrutura do Sistema de Produção. 1.2 Temas que podem ser discutidos a partir do caso Estratégia Produtiva Lay out Equipamentos Tempos e métodos Manutenção Materiais Planejamento da Produção Projeto do produto Projeto do processo Determinação as quantidades a produzir • Programação e Controle da Produção Determinação da necessidade de produtos finais Cálculo das necessidades de material Definição de prazos, capacidades e ajustes (aprazamento e seqüenciamento) Liberação da produção Controles – tempo, quantidade, qualidade, custos • Informática Hardware Software • Recursos Humanos • • • • • • • 9 1.3 Contextualização A indústria da confecção tem características singulares em função de algumas influências exercidas sobre os consumidores como, por exemplo, pelos meios de comunicação, apresentando assim uma grande variabilidade em sua produção. Para uma pequena empresa do ramo tal situação se complica, pois ela não dispõe de informações tão acessíveis sobre as tendências da moda para as próximas estações, deixando-a principalmente como agente de reação ao mercado. Apesar disso, as pequenas empresas conseguem encontrar nichos de produção em função de sua característica mais destacada que é a agilidade. Tais empresas conseguem reagir rapidamente às novas tendências de mercado, capacitando-as a competir. Tais fatos tem tornado a moda mais acessível à população em geral. Isto fica evidenciado ao observar que ao longo dos anos, a moda foi gradativamente ficando menos exigente e mais barata (A EVOLUÇÃO, 1998). Alguns dados sobre o crescimento do setor auxiliam nesta constatação. Enquanto o número de indústrias de confecção cresceu 24% entre 1990 e 1997 (72% de pequeno porte), a produção saltou 64% (de 4,5 bilhões para 7,4 bilhões de peças). O faturamento anual, contudo, permaneceu quase que inalterado, teve uma variação de US$ 27,2 bilhões para US$ 27,9 bilhões. Isso indica uma drástica redução de preços, resultado da enorme concorrência do setor. De acordo com a FIPE essa indústria apresentou deflação de 11,94% desde julho de 1994 até dezembro de 1999. Tais fatores fizeram com que as margens de lucro despencassem (O NOVO, 1999). Essa tendência continuou por longo período, sendo que em 2001, o faturamento do setor foi de 22,15 bilhões de dólares (ABIT, 2006a), mostrando que apesar do crescimento do número de empresas, o faturamento tem permanecido estável, ou até, neste caso, reduzido. Entre 1995 e 1999, cerca de 800 fábricas encerraram suas atividades, devido a vários problemas, que vão desde o desconhecimento do mercado, até à falta de investimento em equipamentos e informatização. Apesar disso, dados mais recentes evidenciam que os empregos, nesta indústria cresceram 2,89% entre abril de 2005 e abril de 2006 (ABIT, 2006b). Neste tipo de indústria a participação de pequenas empresas, é bastante relevante. Segundo o IEMI (2005), as pequenas empresas correspondiam em 2004, a 78% das confecções instaladas no Brasil. Segundo Porto e Ferreira (2005), a outra face deste quadro é que existe um claro desnível de produtividade entre as grandes empresas e as de menor porte, pois em apenas 2% das unidades produtivas de confecções no Brasil são feitas 41% do total de peças produzidas no país. Todos estes dados demonstram a intensa competitividade no setor, o que requer uma estruturação adequada do setor produtivo para fazer frente a tal ambiente competitivo. Uma dificuldade é que, de um modo geral, essas indústrias são criadas devido ao saber-fazer (STRUMIELLO, 1999). As oportunidades detectadas no mercado são aproveitadas e o crescimento ocorre sem muito planejamento. No que se refere a produção, o domínio da técnica não é suficiente para a obtenção de bons resultados. Existe a necessidade de planejamento e controle para que os requisitos referentes a prazos, quantidade, qualidade, custos entre outros, sejam atendidos (ERDMANN, 1998). Mesmo respeitando uma de suas características mais importantes que é a agilidade (BATALHA e DEMORI, 1990), é necessária a estruturação de um sistema do setor produtivo que indique os rumos a serem seguidos, sendo útil, entre outras coisas, para determinação dos custos. Tais fatos são úteis para capacitar o empresário à não tomar decisões sem saber exatamente onde atacar com maior competência. O conhecimento dos custos permite uma adequada formação do preço de venda e, a partir daí, uma competição em melhor posição no 10 mercado. Todavia, esta informação somente estará disponível, com a estruturação do setor produtivo da empresa. 1.4 Sugestões para a discussão do caso 1.4.1 Estratégia de produção Cabe discutir se a estratégia de produção está adequada para a estrutura da empresa. Até quando vale a pena seguir uma estrutura por pedido se o mercado tem crescido e a demanda permite outra estratégia. É relevante também a discussão sobre o transtorno que causa no sistema produtivo, o fato de considerar todos os pedidos como urgentes. Muitas vezes a interrupção na produção para a produção de uma “urgência” atrapalha todo o processo produtivo, deixando parado um pedido em processo, onde já foi investido materiais e mão-deobra. 1.4.2 Layout O trabalho deixa uma dica, ao destacar que a empresa estará mudando para um novo prédio. Dessa forma, é possível incentivar os alunos a definirem qual o espaço necessário, como também qual o layout mais adequado para a empresa, haja visto os processos envolvidos no sistema. 1.4.3 Tempos e métodos e PCP O fato de não haver um padrão de produção na empresa, acaba impossibilitando a determinação de sua capacidade produtiva. A ausência dos tempos de processo, também dificulta o estabelecimento de metas diárias, deixando este controle, de certa forma, para as costureiras. Além disso, vale a pena discutir sobre a falta de registros de habilidades das costureiras. É suficiente ele ser de conhecimento da gerente de produção? Isso dificulta também a função de PCP, pois sem os tempos de processo, todas as etapas do PCP ficam afetadas. 1.4.4 Controles Quais controles são necessários? Eles estão adequados? Como aplica-los de forma a permitir que a empresa continua tendo uma de suas características mais relevantes que é a agilidade? 1.5 Bibliografia recomendada ERDMANN, Rolf Hermann. Administração da produção: planejamento, programação e controle. Florianópolis: Papa Livro, 2000. PAIVA, Ely Laureano; CARVALHO JR, José Mário de; FENSTERSEIFER, Jaime Evaldo . Estratégia de Produção e de Operações. Porto Alegre: Editora Bookman, v.1, 192 p., 2004. SLACK, Nigel et. al. Administração da produção. São Paulo: Atlas, 1997. STRUMIELLO, Luis Daniel P. Proposta para o planejamento e controle da produção e custos para pequenas empresas do vestuário. Florianópolis: Dissertação de Mestrado em Engenharia de Produção - PPGEP/UFSC, 1999. 2 Fontes de dados Os dados utilizados são baseados em um caso real, de uma pequena empresa. Eles foram obtidos a partir de três entrevistas estruturadas com os gestores da empresa e gerente de 11 produção, como também via observações e análises documentais. O nome da empresa é fictício com o objetivo de apesar de expor a realidade empresarial, preservar a empresa. 3 Referências ABIT – Associação Brasileira da Industria Têxtil e de Confecção: Perfil Econômico. In: Aprendendo a Exportar. Disponível em <http://www.aprendendoaexportar.gov.br/confeccoes/perfil_economico.htm>. Acesso em 28 de Junho de 2006a. ABIT – Associação Brasileira da Industria Têxtil e de Confecção. Disponível em <http://www.abit.org.br/content/area/Pasta.asp?nCodAreaConteudo=23&nCodPastaPai=694> . Acesso em 28 de Junho de 2006b. A EVOLUÇÃO da moda no Brasil. <http://www.fairway.com.br/moda.htm>. Acesso em 1998. Disponível em: BATALHA, Mário Otávio, DEMORI, Flávio. A pequena e média indústria em Santa Catarina. Florianópolis: Editora da UFSC, 1990. COSENTINO, Aldo. Planejamento e controle da produção na pequena empresa de confecção: uma investigação e a geração de um modelo com interface para custos. 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Florianópolis: Dissertação de Mestrado em Engenharia de Produção - PPGEP/UFSC, 1999. 12