“O que o Handbook não diz”: Novas Considerações sobre Teoria Crítica e Abordagens
Pós-modernas para Estudos Organizacionais
Autoria: Ana Paula Paes de Paula
Resumo
Neste ensaio, realiza-se uma crítica do capítulo elaborado por Mats Alvesson e Stanley Deetz
para o Handbook de Estudos Organizacionais, com o intuito de demonstrar as fragilidades de
suas análises, em especial o que se considera uma interpretação equivocada da crítica da
ideologia da Escola de Frankfurt, tomada como se fosse idêntica à crítica da ideologia do
marxismo ortodoxo em sua versão vulgar, em uma operação que abre caminho para os autores
descartarem a crítica da ideologia frankfurtiana e apontarem a crítica pós-moderna como mais
“sofisticada”. Denuncia-se que os autores estabelecem uma agenda para a teoria crítica nos
estudos organizacionais a partir de uma perspectiva pós-estruturalista, e não frankfurtiana,
além de sugerirem a bricolagem entre teoria crítica e pós-modernismo como saída para o
imobilismo político dos pós-modernos, deslocando a teoria crítica em favor do pósmodernismo e colocando como meta da mesma, ainda que não intencionalmente, a
performance ao invés da práxis. O objetivo deste ensaio é evidenciar as consequências deste
deslocamento e apontar que a agenda proposta para a teoria crítica por Alvesson e Deetz
precisa ser refeita, uma vez que contém vícios de origem, pois se quisermos ser coerentes em
relação ao pensamento frankfurtiano, a meta da teoria crítica nos estudos organizacionais não
pode ser um ato de criação organizacional, mas um ato de crítica da realidade existente que
possibilite uma nova forma de pensamento e habilite os sujeitos a buscarem caminhos para a
criação de uma nova realidade.
I. Introdução
No final da década de 1990 e nos últimos anos da década 2000 os estudos organizacionais no
Brasil foram influenciados pelo lançamento da edição brasileira do Handbook of Organization
Studies (Clegg; Hardy; Nord; Caldas, Fachin; Fischer, 1999; 2001; 2004), que diversificou as
pesquisas, uma vez que trouxe novas perspectivas de estudos para o campo, como o neoinstitucionalismo, a teoria crítica, o pós-modernismo e os estudos feministas, entre outras,
além de ter representado um notável esforço da comunidade acadêmica nacional para
fortalecê-lo, pois transcendeu a mera tradução, incluindo notas técnicas de autores nacionais.
Já se passaram praticamente dez anos desde a primeira edição brasileira do volume I, que traz
um capítulo chamado “Teoria crítica e abordagens pós-modernas para estudos
organizacionais” de Mats Alvesson e Stanley Deetz (1999). Este texto, além de alguns outros
artigos como por exemplo “Na hora da crítica: condições e perspectivas para estudos críticos
de gestão” de Valérie Fournier e Chris Grey (2000), vem servindo de referência para os
estudiosos desta área que é permeada por controvérsias, posto que não há consenso sequer
sobre como denominá-la. “Teoria crítica e pós-modernismo nos estudos organizacionais”
(Alvesson; Deetz, 1999; Vieira; Caldas, 2000), “Estudos críticos de gestão” (Fournier; Grey,
2000), “Estudos críticos em Administração” (Davel; Alcadipani, 2002), “Estudos
organizacionais críticos” (Paes de Paula, 2008): estas são apenas algumas designações
correntes e não parece haver no horizonte a expectativa de se chegar a um único nome.
O fato é que as imprecisões e confusões no que se refere ao nome da área são apenas a “ponta
do iceberg”, pois esta dificuldade de denominação reflete uma clara disputa em relação ao
escopo destes estudos, posto que há pesquisadores que defendem que estes deveriam se
restringir, no que se refere ao campo teórico, ao marxismo e à teoria crítica frankfurtiana,
enquanto outros alargam este repertório, incluindo também a crítica pós-estruturalista, que é
chamada por alguns de crítica pós-modernista. Apesar das posições divergentes, pouco se
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vem realizando no sentido de estabelecer correntes teóricas, epistemológicas e metodológicas
mais precisas para a área, pois tanto no Brasil como no exterior, há uma preocupação em
defender sua sobrevivência, uma vez que estes estudos são considerados marginais frente à
hegemonia do funcionalismo e ao espaço que está se abrindo para o interpretacionismo. Dessa
forma, especialmente na Europa, os críticos, ainda que dissonantes, procuram se manter
unidos, ao invés de tentar resolver suas diferenças e arriscar uma ruptura que poderia
fragilizar a área.
O custo de tal opção tem sido alto no que se refere ao amadurecimento teórico e analítico da
área, pois ainda que haja debate, o ímpeto crítico de alguns pesquisadores costuma ser
arrefecido quando se trata de apontar as falhas das elaborações de seus pares (ver por exemplo
Parker, 2006 respondendo a Clegg, Kornberg, Carter e Rhodes, 2006). Um dos maiores
exemplos disto é o fato de, passados cerca de treze anos da edição inglesa e dez anos da
edição brasileira, nenhuma crítica sistemática ter sido realizada sobre o capítulo “Teoria
Crítica e Abordagens Pós-Modernas para Estudos Organizacionais” de Mats Alvesson e
Stanley Deetz (1999), embora muitos pesquisadores concordem, nos bastidores acadêmicos,
que o texto apresenta falhas significativas.
Talvez esteja chegando o momento de questionar se vale a pena continuar alimentando o
temor de uma fragilização e de uma ruptura e assumir o risco de explicitar algumas diferenças
fundamentais entre a crítica frankfurtiana e a crítica pós-estruturalista. Este é o propósito
deste ensaio, que nasceu de uma sugestão feita no ano 2000 por um pesquisador da área, que
será citado somente nos agradecimentos para que se possa preservar o blind review. A sua
realização foi fruto de uma longa reflexão e acredita-se que tanto do ponto de vista da autoria
quanto da comunidade acadêmica, foi melhor que ele viesse a público no momento atual, pois
somente agora quem escreve reuniu todas as condições necessárias para fazê-lo e o fato é que
debatê-lo há nove anos atrás não faria tanto sentido quanto hoje, posto que na época a área
estava ainda começando a se fortalecer no Brasil.
Na primeira seção, realiza-se uma exposição da argumentação de Alvesson e Deetz no
capítulo que lhes coube no Handbook com o objetivo de apontar as fragilidades que foram
encontradas, em especial uma interpretação equivocada da crítica da ideologia da Escola de
Frankfurt, tomada como se fosse idêntica à crítica da ideologia do marxismo ortodoxo em sua
versão vulgar, que abriu o caminho para os autores descartarem a crítica da ideologia
frankfurtiana e afirmarem a crítica pós-moderna, que será categorizada neste ensaio como
pós-estruturalista, como mais “sofisticada”. Além disso, os autores estabelecem uma agenda
para a teoria crítica nos estudos organizacionais a partir de uma perspectiva pós-estruturalista,
e não frankfurtiana, e sugerem a bricolagem entre teoria crítica e pós-modernismo como uma
saída para o imobilismo político dos pós-modernos. Fazendo esta operação, deslocam a teoria
crítica em favor do pós-modernismo e colocam como meta da teoria crítica, ainda que não
intencionalmente, a performance ao invés da práxis.
Na segunda seção, procura-se apontar um caminho para constituir uma agenda para a teoria
crítica legitimamente apoiada na Escola de Frankfurt, demonstrando, a partir do pensamento
dos frankfurtianos de primeira geração, que a crítica da ideologia frankfurtiana não é
simplista, elitista e reativa como foi caracterizada por Alvesson e Deetz. A intenção é
evidenciar que, alinhando-se ao pós-modernismo, Alvesson e Deetz descartam a crítica da
ideologia e a possibilidade do sujeito autônomo defendidas pela Escola de Frankfurt,
inviabilizando a práxis e apostando em uma crítica imobilizada. Além disso, uma vez que os
autores defendem uma postura pragmática para a teoria crítica e não acreditam na
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possibilidade de uma prática política ampliada, abre-se espaço para a prática localizada, que
na ausência do político, se manifesta como técnica, e desta maneira a práxis pode ser
substituída pela performance.
Nas conclusões, demonstra-se que a agenda proposta para a teoria crítica por Alvesson e
Deetz precisa ser refeita por conter vícios de origem, pois a meta da teoria crítica nos estudos
organizacionais não pode ser um ato de criação organizacional, mas um ato de crítica da
realidade existente que possibilite uma nova forma de pensamento e habilite os sujeitos a
buscarem caminhos para a criação de uma nova realidade. Admite-se ainda que a teoria crítica
não tem uma teoria das organizações de fato e que uma via para constituí-la passaria
necessariamente por formas organizacionais como a autogestão, ou as isonomias e
fenonomias, desde que se ressalte que estas devem ser construções dos sujeitos e que
precisam estar sob constante vigilância da crítica para não se burocratizarem. Também
evidencia-se a pedagogia crítica como um caminho para a práxis, posto que esta apresenta
possibilidades concretas para habilitar os sujeitos a transcenderem a dominação e a
transformarem as organizações. Finaliza-se apontando as lacunas deixadas por este ensaio.
I. O que eles pensam (e como interpretamos)
Alvesson e Deetz (1999, p. 229-230) começam seu capítulo no Handbook dizendo que as
teorias pós-moderna e crítica das organizações diferem entre si e dentro de si, o que é
verdadeiro, pois além de serem por vezes opostas, estas teorias são heterogêneas, uma vez que
abrigam diversas tendências e autores. Esclarecem então que vão utilizar o termo teoria crítica
em um sentido mais restrito, referindo-se “...aos estudos organizacionais embasados
prioritariamente, embora não exclusivamente, em conceitos da Escola de Frankfurt (Adorno,
Horkheimer, Marcuse e Habermas).” Também assinalam que o pós-modernismo será
compreendido não como um período histórico, mas sim como “...um conjunto de abordagens
filosóficas para o estudo das organizações e outras áreas, apoiado particularmente nos
trabalhos de Derrida e Foucault, e em menor grau de Baudrillard, Deuleuze e Guattari,
Laclau e Mouffe, ou seja, em um ‘pós-modernismo de resistência’.”
Em seguida, afirmam que tanto a teoria crítica quanto os pós-modernos, posicionam seus
trabalhos em relação a quatro desenvolvimentos do pensamento ocidental: “...(1) a relação
poder/conhecimento que surge com o perspectivismo de Nieztche, (2) um construcionismo
não dualista devido à experiência e a linguagem que surge na hermenêutica fenomenológica
e com o estruturalismo linguístico, (3) uma teoria de conflito social historicamente embasada
em Marx, (4) um sujeito humano complexo, que vem de Freud.” (Alvesson, Deetz, 1999, p.
230). Estes desenvolvimentos, segundo os autores, seriam responsáveis pela maior parte das
diferenças entre e dentro do pós-modernismo e da teoria crítica. Nas páginas seguintes, tratam
de identificar os teóricos críticos como os restauradores do projeto modernista e os pósmodernistas como os proclamadores de sua morte, atribuindo uma positividade à crítica do
modernismo dos primeiros, no sentido de que ainda veriam o modernismo como uma saída e
uma negatividade à crítica do modernismo dos últimos, uma vez que estes não crêem mais no
potencial da modernidade.
Este ponto de partida de algum modo possibilita vislumbrar o que viria a seguir, que é uma
crítica da teoria crítica de primeira geração (Habermas, representante da segunda geração da
Escola de Frankfurt, é poupado) e uma defesa do pós-modernismo como uma crítica mais
“sofisticada”. Não haveria nenhum problema com o fato dos autores se posicionarem no que
se refere a sua preferência epistemológica, caso a teoria crítica frankfurtiana de primeira
geração não tivesse sido examinada de modo superficial e ter sido, em consequência, objeto
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de uma crítica que, precisamos admitir, foi pouco criteriosa. Além disso, posto que o texto
passou a servir para muitos como “manual” sobre os estudos de “teoria crítica e pósmodernismo” em organizações, leitores menos cautelosos passaram a se sujeitar aos
equívocos dos autores.
Retomando o ponto de partida colocado por Alvesson e Deetz, não haveria nada de errado em
restringir a teoria crítica à Escola de Frankfurt, se Adorno, Horkheimer e Marcuse tivessem
sido de fato examinados pelos autores antes de serem preteridos em favor de Habermas.
Também seria correto restringir o “pós-modernismo” a um conjunto de abordagens filosóficas
e autores, se estes não fossem representantes na verdade do pós-estruturalismo, termo muito
mais preciso do que “pós-modernismo” para designar esta corrente. Os próprios autores
admitem que o termo pós-modernismo tem sido usado para descrever um clima social e um
período histórico, de modo que não discordariam de Jameson (1997) quando este aponta que o
pós-modernismo na realidade é um novo estágio histórico que reflete o modo de produção
reinante – o capitalismo tardio – e que as abordagens filosóficas apontadas, que constituem
uma nova epistemologia, são melhores denominadas como pós-estruturalismo. Além disso, os
quatro desenvolvimentos descritos sobre o pensamento ocidental seriam elementos de auxílio
para as diferenciações pretendidas, se os autores tivessem assinalado que os pontos (1) e (2)
se referem principalmente à preocupações do âmbito do pós-estruturalismo e os pontos (3) e
(4), à questões fundamentais para a teoria crítica, desenvolvendo cada um deles com maior
profundidade.
Por outro lado, ao afirmarem que os “...teóricos críticos, especialmente Habermas, enfocam
as potencialidades positivas não realizadas do Iluminismo” (Alvesson; Deetz, 1999, p. 233),
os autores teriam sido mais precisos se fizessem notar que pensadores como Adorno,
Horkheimer e Marcuse, realizam uma crítica radical do Iluminismo, na qual, inclusive os pósestruturalistas se apóiam, mas não excluem as possibilidades emancipatórias e
revolucionárias, tal como fazem os apontados “pós-modernistas”, que se engajam na via da
microemancipação e micropolítica por meio da resistência e das leituras alternativas. Na
verdade o resgate da positividade do Iluminismo é obra de Habermas, que aposta na
possibilidade de superação da comunicação distorcida pela teoria da ação comunicativa,
erroneamente apontada pelos autores como característica dos teóricos críticos.
Após definirem o ponto de partida e diferenciarem a teoria crítica e o pós-modernismo das
outras abordagens para o estudo das organizações, os autores passam a examinar a teoria
crítica. Seu primeiro passo é definir o escopo da teoria crítica nos estudos organizacionais:
“A meta central da teoria crítica nos estudos da organização tem sido criar sociedades e
lugares de trabalho livres de dominação em que todos os membros têm igual oportunidade
para contribuir para a produção de sistemas que venham ao encontro das necessidades
humanas e conduzam ao progressivo desenvolvimento de todos.” (Alvesson; Deetz, 1999,
p.238)
Para os autores, os estudos na área focalizam tanto os processos de dominação dentro das
organizações como as relações entre as organizações no âmbito social, destacando os efeitos
sociais da colonização das instituições e da destruição da esfera pública. Entre as
contribuições da teoria critica, os autores identificam a melhoria da base de conhecimento e
dos processos decisórios, de aprendizagem e de adaptação. Argumentam que o interesse da
teoria crítica pelas ideologias está dirigido às limitações das pessoas em geral para desafiar a
tecnocracia, o consumismo e o carreirismo, de modo que a mesma oferece insumos para
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reflexão na escolha de carreiras, recursos intelectuais para enfrentar as tendências totalitárias e
estímulo para incorporar mais critérios no processo decisório.
Esta definição e escopo têm sido tomados a priori por muitos estudiosos, mas o fato é que ela
encerra um problema: ao buscar um sentido instrumental e “=prático para a teoria crítica, bem
como afirmar que esta não é anti-administração per se, ainda que talvez não tenha sido esta a
intenção, abriu-se uma perigosa lacuna para a performatividade, que mais tarde seria utilizada
pelo próprio Alvesson e outros autores, que vai defender como papel dos estudos críticos uma
curiosa “performatividade crítica” (Spicer; Alvesson; Kärreman, 2007), ou um “gerencialismo
engajado” (Paes de Paula; Maranhão; Barros, 2008), ao invés da práxis. Este “gerencialismo
engajado” vem permeando as propostas do movimento critical management studies: em sua
crítica dos rumos do movimento, Clegg, Kornberg, Carter e Rhodes (2006) aventam a
possibilidade de ser "crítico" e ao mesmo tempo ser "a favor do gerencialismo"; em sua
discussão sobre a agenda do movimento, Adler, Forbes e Willmott (2007) incluem a prática
gerencial cotidiana como parte do projeto crítico da área; Spicer, Alvesson e Kärreman
(2007), por sua vez, defendem que o CMS deve ser "profundamente performativo", sugerindo
uma “performatividade crítica”.
O que ocorre é que apesar de todos os cuidados tomados pelos autores no sentido de preservar
a crítica, uma análise mais detida destas propostas (Paes de Paula; Maranhão; Barros, 2008),
revela que estes por vezes partem da premissa de que as ações dos envolvidos seriam
desinteressadas e isentas de ideologia, descartando paradoxalmente através de um suposto
posicionamento crítico a própria concepção de poder e o caráter político das organizações.
Além disso, ao invés de estabelecerem uma relação dialética entre o idealismo e o mundo real,
como faria a tradição marxista, os autores decidem descartar o idealismo como este fosse um
posicionamento ingênuo, afirmando indiretamente que só o tempo presente importa, em todo
seu realismo e pragmatismo, aproximando-se, mesmo que involuntariamente, de uma visão
utilitarista. Ora, considerando este quadro, fica evidente que a definição e a agenda dos
estudos críticos organizacionais deveria ser uma construção dos teóricos críticos e não um
caminho apontado por autores de inspiração pós-estruturalista, como é o caso de Alvesson e
outros citados, de modo que se faz necessária uma revisão destas elaborações.
Após definirem a agenda dos teóricos críticos, sem consultá-los ou fazer referência a eles,
Alvesson e Deetz (1999) prosseguem caracterizando o que seriam os dois tipos principais de
estudos críticos nos estudos organizacionais: a crítica ideológica, que será tratada aqui como
crítica da ideologia, terminologia que se considera mais precisa, e a ação comunicativa. No
que se refere à crítica da ideologia, que é a prática corrente dos frankfurtianos de primeira
geração, Alvesson e Deetz optam por partir das primeiras críticas ideológicas, atribuídas a
Marx e prosseguem citando alguns teóricos organizacionais, que categorizam como de
inspiração marxista. Discutem então quatro temas que perspassam a crítica da ideologia nos
estudos organizacionais: as questões da naturalização, da universalização de interesses
gerenciais, da primazia da racionalidade instrumental e da hegemonia. Este poderia ser um
caminho, se as considerações estivessem permeadas de extensas elaborações sobre a forma
como os frankfurtianos de primeira geração conceituam a ideologia e realizam a crítica da
mesma, mas os autores não fazem sequer uma citação de Adorno, Horkheimer ou Marcuse,
pois preferem alinhavar suas considerações com uma referência a Habermas, algumas
referências a marxistas ocidentais como Lukács e Gramsci e fartas referências a estudiosos
das organizações que não são especialistas em Escola de Frankfurt.
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Em seguida, passam a realizar uma crítica da crítica da ideologia dos teóricos críticos,
afirmando: “Cada uma dessas quatro preocupações (i.e. naturalização, universalização de
interesses gerenciais, primazia da racionalidade instrumental e hegemonia) surgidas em várias
críticas ideológicas têm valor. Mesmo assim, limitações da crítica ideológica têm sido
demonstradas por muitos. Três críticas são muito comuns. Primeiro, a crítica ideológica
freqüentemente aparece ad hoc e reativa. A maioria dos estudos explica, depois do fato, por
que algo não aconteceu, em vez de fazer declarações preditivas e testáveis sobre o futuro.
Segundo, ela parece elitista. Conceitos como falsas necessidades e falsa consciência, que
eram centrais para os primeiros estudos, presumem uma fraqueza básica na intuição e nos
processos de raciocínio nas mesmas pessoas a que ela pretende dar o poder. A ironia de um
defensor de maior igualdade ao prenunciar o que outros deveriam querer ou como eles
deveriam perceber ‘melhor’ o mundo, não está perdido nem nos grupos dominantes nem nos
dominados. E terceiro, estudos de crítica ideológica aparecem muito simplistas. De acordo
com a crítica de Abercrombie et al (1980) da ‘tese da ideologia dominante’, a concepção de
grupo dominante permanece singular e intencional, como se um grupo identificável montasse
um sistema no qual pudesse ocorrer a dominação por meio de controle de idéias e seu
interesse pudesse estar assegurado.” (Alvesson; Deetz, 1999, p.243)
Talvez os autores pudessem ter prestado mais atenção ao que escreviam, mas o fato é que não
perceberam que reduziram toda a crítica da ideologia frankfurtiana à crítica da ideologia
marxista ortodoxa em sua versão vulgar (esta sim, diga-se de passagem, uma “crítica
ideológica”), ou seja, aos “primeiros estudos” que tinham como “centrais” “as falsas
necessidades e a falsa consciência”. Ocorre que não poderiam ter chegado à outra conclusão
posto que baseiam suas elaborações da crítica da ideologia nestes “primeiros estudos” e não
nas elaborações frankfurtianas, para depois se apropriarem das críticas que alguns autores têm
feito destes “primeiros estudos” como se elas se aplicassem ao caso da Escola de Frankfurt.
Sem nunca terem explicitado no texto o que é verdadeiramente a crítica da ideologia
frankfurtiana concluem que: “Uma crítica mais sofisticada, advinda do pós-modernismo,
aponta para a idéia de que o foco no sujeito-agente é tão central para a crítica ideológica
quanto o é para grupos dominantes e os sistemas se beneficiam deles. A esperança para um
agente racional e reflexivo que é capaz de agir de forma autônoma e coerente pode em si
mesmo ser um alvo digno da crítica ideológica.” (Alvesson; Deetz, 1999, p. 243)
Em outra palavras, os autores consideram que a autonomia do sujeito também deve ser objeto
de crítica, posto que ela aponta para uma onipotência do sujeito que seria simétrica à
onipotência dos grupos dominantes. Ora isto é problemático, pois atinge diretamente a
possibilidade da práxis: mais adiante será demonstrado como. Por outro lado, é fácil apontar
que crítica “pós-modernista” é mais sofisticada, posto que não se chegou ao âmago da crítica
da ideologia frankfurtiana, que é muito mais complexa do que sugerem os autores.
Prosseguindo sua análise, Alvesson e Deetz praticamente descartam a crítica da ideologia
frankfurtiana, sem elucidá-la completamente, diga-se de passagem, louvando a iniciativa de
Habermas de substituí-la por uma filosofia sistemática, que tem como eixo principal a teoria e
ação comunicativa. A partir daí é um passo para terminar de caracterizar a crítica da ideologia
promovida pelos frankfurtianos de primeira geração como reativa, elitista e simplista e
apontar as possibilidades pragmáticas das idéias de Habermas. Vale aqui ressaltar que este
descarte da crítica da ideologia frankfurtiana realizado por Alvesson e Deetz, embora, como
veremos mais adiante, “jogue fora o bebê com água do banho”, é coerente com a posição pósestruturalista que eles assumem, pois a crítica “pós-moderna” se caracteriza justamente por
não ser uma crítica da ideologia.
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Após analisarem a teoria crítica e caracterizarem o “pós-modernismo” como uma crítica mais
sofisticada, Alvesson e Deetz (1999, p. 248) se debruçam sobre o mesmo afirmando: “No
pós-modernismo, como uma perspectiva de pesquisa baseada filosoficamente, que é a nossa
preocupação principal neste capítulo, o seguinte conjunto de idéias inter-relacionadas no
todo é, freqüentemente, enfatizado: (a) a centralidade do discurso – textualidade – em que
são enfatizados os poderes constitutivos da linguagem e os objetos ‘naturais’ são vistos como
discursivamente produzidos; (b) identidades fragmentadas, enfatizando a subjetividade como
um processo e a morte do indivíduo, autônomo, sujeito criador de significado no qual a
produção discursiva do indivíduo substitui o convencional entendimento ‘essencialista’ das
pessoas; (c) a crítica da filosofia da presença e representação na qual as incertezas da
linguagem assume precedência sobre a linguagem como um espelho da realidade e um meio
para a transmissão do significado; (d) a perda dos fundamentos e do poder das grandes
narrativas, em que uma ênfase em múltiplas vozes e políticas locais é preferida em relação a
quadros teóricos e projetos políticos de grande escala; (e) a conexão poder/conhecimento no
qual as impossibilidades de separar poder de conhecimento são assumidas e o conhecimento
perde um senso de inocência e neutralidade; (f) hiper-realidade – simulacro – substitui o
mundo real, em que simulações têm precedência sobre a ordem social contemporânea; e (g) a
pesquisa visa à resistência e indeterminação, nas quais a ironia e o jogo são preferidos à
racionalidade, previsibilidade e à ordem.”
Vamos tentar interpretar estes elementos tratando primeiramente dos três primeiros, que estão
estreitamente relacionados. Os pós-estruturalistas tomam as identidades como fragmentadas
por dois motivos: em primeiro lugar, porque acreditam que a concepção de identidade
autônoma e unitária é uma ficção que foi produzida para reduzir as tensões e conflitos da
psique humana e em segundo lugar, porque apostam que a condição do indivíduo como um
todo coerente integrado é falsa na situação histórica e cultural contemporânea, pois uma vez
que a identidade é produção social, esta só seria estável se a sociedade fosse homogênea. Por
meio da crítica da filosofia da presença e da representação rejeitam o objetivismo e enfatizam
uma primazia da subjetividade. No entanto, proclamam um curioso “subjetivismo sem
sujeito” (ver Anderson, 2004), posto que substituem a estrutura do inconsciente por campos
textuais e discursivos, que produzem formas particulares de subjetividade, estabelecendo
assim a centralidade do discurso enquanto estrutura em detrimento do sujeito.
Estes três elementos são reforçados pela idéia de perda dos fundamentos e do poder das
grandes narrativas, que também é validada por dois motivos, simétricos aos utilizados para
justificar as identidades fragmentadas: em primeiro lugar, porque as grandes narrativas
políticas estariam estabelecendo uma visão dominante do mundo e de sua ordem e em
segundo lugar, porque na situação histórica e cultural contemporânea elas estariam perdendo
sua credibilidade. Alvesson e Deetz não discordariam da interpretação apresentada, a qual se
somam o binômio poder e conhecimento, a partir de uma leitura pós-estruturalista de Foucault
e a noção de simulacro de Baudrillard. De acordo a interpretação que fazem da analítica
foucaultiana, o poder residiria na própria formação discursiva, ou seja, na combinação de um
conjunto de distinções lingüísticas e práticas materiais que produzem as instituições sociais e
os próprios sujeitos. Além disso, seguindo a elaboração de Baudrillard, afirmam que muitos
destes sistemas lingüísticos ou representacionais seriam auto-referentes, ou seja, seriam
simulações: os sinais e imagens são referentes apenas a outros sinais e imagens e têm pequena
relação com qualquer exterior ou interior, não havendo mais significado e referente, mas
apenas um jogo de significantes. Como não há “real” fora que possa ser retratado falsamente,
ou que possa ser utilizado para corrigir esta compreensão, a realidade é o próprio simulacro.
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A lógica “pós-moderna”, de acordo com Alvesson e Deetz (1999), leva ao estabelecimento da
pesquisa como resistência e indeterminação, que se concretiza por meio da desconstrução e
das releituras da realidade como forma de resistência (as genealogias também são citadas
pelos autores, mas o conceito não é explorado no texto). Uma vez que a desconstrução
trabalha criticando a filosofia da presença, esta criaria um conhecimento antipositivo e
indeterminado. Já as releituras seriam formadas por um senso agudo de ironia e jocosidade
séria, uma vez que implicam no prazer das transgressões que liberam o indivíduo das
compulsões estabelecidas por um mundo violento e opressor.
De um modo geral, pode-se dizer, fazendo uma crítica, que os pós-estruturalistas substituem a
onipotência do sujeito e das grandes narrativas políticas pela onipotência das estruturas e das
pequenas narrativas, que também podem ser identificadas como micropolítica. Alvesson e
Deetz (1999, p. 254) percebem algumas das consequências disto, ainda que de forma
incompleta, pois afirmam que lógica “pós-moderna cria uma dificuldade no que se refere ao
desenvolvimento das ações políticas: “Com isto (i.e. o fim das grandes narrativas), a
dificuldade do pós-moderno, como no conceito de identidades fragmentadas, é gerar uma
postura política com respeito a estes desenvolvimentos. Se a pessoa rejeita um fundamento
essencial e acredita que é preciso mais do que resistência local, algum tipo de combinação
entre pós-modernismo e teoria crítica pode prover bem a melhor opção restante.”
Passam então a sugerir uma combinação entre pós-modernismo e teoria crítica, uma espécie
de bricolagem, realizada, naturalmente, à maneira “pós-moderna”: “Uma opção, então, é
trabalhar com tensões não resolvidas dentro de um texto, na qual seguimos diferentes temas
de pós-modernismo e teoria crítica, sem tentar sínteses, trabalhando com as tensões e
imagens contrastantes (...) Outra versão é dar espaço para várias vozes discretas em textos,
organizando-os em torno de conversações entre várias perspectivas teóricas ou de grupos de
interesse (...) para conduzir interpretações múltiplas do mesmo fenômeno (...), interpretando
o fenômeno em ambas as posições, da teoria crítica e pós-modernista (e talvez outras). Outro
modo de combinar insights de teoria crítica e pós-modernista é ver ambas como metateorias
úteis para inspirar a reflexividade, em vez de vê-las como teorias diretamente relevantes para
guiar e interpretar estudos de problemas substantivos (...) Ainda outra opção é restringir o
enfoque ao estudo cuidadoso do uso da linguagem e práticas comunicativas no cenário real,
o que é feito pela, pelas análise (sic) de conversação e discurso (...) e construtivista.”
(Alvesson; Deetz, 1999, p. 258-259)
Após sugerirem esta bricolagem, terminam o texto afirmando que talvez um dos maiores
problemas da teoria crítica e do pós-modernismo seja a escassez de estudos empíricos claros,
pois uma postura empírica “...pode também reduzir uma tendência à negatividade em muito
da teoria crítica e algum pós-modernismo.” (Alvesson; Deetz, 1999, p.259). O empirismo
seria também uma espécie de saída para o imobilismo político: “O que está faltando, em
particular, são esforços sérios para embasar idéias de resistência local em contextos
empíricos específicos. Fala-se muito de resistência na indústria pós-modernista, mas de
maneira altamente retórica, generalizada e bastante esotérica. Precisamos ir além de repetir
slogans programáticos, e usar e refinar a idéia em contato estreito com as vidas de sujeitos
em ambientes organizacionais.” (Alvesson; Deetz, 1999, p.259).
O que parece escapar à Alvesson e Deetz é que ao excluir a crítica da ideologia frankfurtiana
em favor de uma crítica baseada em desconstrução e releituras como forma de resistência,
“jogou-se fora o bebê com a água do banho”, pois a exclusão da crítica da ideologia significa
a exclusão da prática política, uma vez que esta crítica é indissociável da práxis. A crítica
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“pós-moderna” ao escamotear a ideologia, esvazia-se de substância política e se converte em
pura ironia: o que seria mais sarcástico do que um indivíduo que se sabe vítima da dominação
e que também sabe de antemão que não há nada a fazer a respeito a não ser realizar
desconstruções e releituras que permitem pequenas transgressões sem alterar em absoluto a
dominação reinante, já que somente as estruturas teriam autonomia para tanto?
Assim, de nada adianta realizar bricolagens entre teoria crítica e pós-modernismo, pois não se
chega ao âmago da questão: a crítica da ideologia é inseparável da ação política e a crença na
possibilidade do sujeito autônomo é essencial para que a ação política seja possível. Estas são
as bases da teoria crítica, estabelecidas pelos frankfurtianos a partir de elaborações que se
fundamentam nas teorias marxista e freudiana, que Alvesson e Deetz parecem ter perdido no
caminho em favor do perspectivismo de Nieztche e da centralidade do discurso herdada do
estruturalismo. O fato é que os pós-estruturalistas discordam radicalmente dessas bases e isto
é inerente aquilo que o pós-estruturalismo é enquanto abordagem filosófica.
Alvesson e Deetz falham ao não realizarem uma crítica do pós-modernismo tal como tentaram
fazer da teoria crítica, o que é compreensível, pois se posicionam muito mais como “pósmodernos” do que como teóricos críticos. Por outro lado, os autores procuram resgatar uma
positividade para os estudos críticos que acaba abrindo o caminho, mesmo que indiretamente,
para a performatividade. Isto porque a práxis, que deveria estar no lugar da performance,
pressupõe a negatividade intrínseca à crítica da ideologia que é descartada por eles. Alvesson
e Deetz se alinham com o pós-estruturalismo e seu imobilismo político, mas ao mesmo tempo
incentivam o pragmatismo: ao realizarem esta operação parecem não perceber que a ação
localizada, na ausência da política considerada de forma mais ampla, converte-se em técnica,
de modo que o que resta é a performance. Isto será detalhado mais adiante em maior
profundidade.
II. O que nós pensamos
Na seção anterior, vimos que Alvesson e Deetz avaliam o pós-modernismo mais
positivamente do que a teoria crítica e cometem imprecisões no que se refere ao
posicionamento dos frankfurtianos em relação à questão da ideologia. Os autores apontam três
defeitos na crítica da ideologia frankfurtiana, que podem ser sintetizadas da seguinte forma: 1)
tende a ser reativa, pois explica o que aconteceu e não projeta o futuro; 2) é simplista e
elitista, pois tende a conceber um grupo dominante singular e intencional que supostamente
teria montado um sistema para promover a dominação através do controle das idéias,
assegurando seus interesses, atribuindo uma falsa consciência e falsas necessidades às
pessoas, que pressupõe uma fraqueza básica na intuição e raciocínio das mesmas.
Então concluem que a crítica pós-modernista é mais “sofisticada” por colocar em questão que
a onipotência do sujeito se equipara a onipotência dos grupos dominantes. A seguir
demonstraremos como isto afeta a possibilidade de práxis, tratando, em primeiro lugar do
suposto simplismo e elitismo da crítica da ideologia frankfurtiana. Em seguida, será feita uma
negação do caráter reativo da Escola de Frankfurt, apontando que Alvesson e Deetz parecem
ignorar a inerência entre crítica e práxis, de modo que se alinham com uma crítica
imobilizada e deixam em aberto apenas a possibilidade da prática localizada, que na ausência
de uma ação política mais ampla, pode ser convertida em ação técnica, ou seja, performance.
A crítica da ideologia frankfurteana não é simplista e tampouco elitista
Alguns equívocos realizados por Alvesson e Deetz poderiam ter sido evitados se os autores
tivessem realizado uma distinção entre o marxismo ortodoxo e o marxismo ocidental,
9
demarcando como o último trata a questão da ideologia. Segundo Anderson (2004), o
marxismo ocidental, do qual a Escola de Frankfurt faz parte, evita a discussão sobre as
tradições clássicas ortodoxas do materialismo histórico, como o exame do funcionamento do
capitalismo como um modo de produção, a análise da máquina política do Estado burguês e a
estratégia da luta de classes necessária para derrubá-lo. Assim, entre as características do
marxismo ocidental está o deslocamento do eixo teórico da economia e da política para a
filosofia, que foi desencadeado pela descoberta do “Manuscritos Econômico-Filosóficos”
elaborados por Marx em sua juventude e publicados em Moscou em 1932.
No âmbito do marxismo ocidental, rechaça-se a categorização da ideologia como uma “falsa
consciência” e “falsas necessidades”, que é usual no marxismo ortodoxo em sua versão
vulgar, pois para muitos marxistas ocidentais a ideologia é a própria realidade, como
veremos mais adiante. Assim, analisar a crítica da ideologia frankfurtiana como se esta fosse
idêntica à crítica da ideologia do marxismo ortodoxo em sua versão vulgar, configura um
reducionismo questionável, além de diminuir o valor de sua contribuição teórica. De acordo
com Eagleton (1991), em sua obra mais madura, a “Dialética Negativa”, Adorno (1975)
caracterizou a ideologia como um pensamento que reduz o que circunda à sua própria imagem
e semelhança e se revolta diante da alteridade daquilo que ameaça escapar do seu sistema
fechado. Deste modo, a ideologia seria uma forma de “pensamento de identidade” que
procura transmutar inexoravelmente a singularidade e a pluralidade das coisas em simulacro
de si, ou as expulsa para além de suas fronteiras. A ideologia, na visão de Adorno,
homogeneíza o mundo e para desfazer isto é preciso uma dialética negativa, que procura
incluir no pensamento o que é heterogêneo a ele, ou em outras palavras, é preciso realizar
uma crítica da ideologia.
Assim, o oposto de ideologia não seria a verdade ou a teoria, mas a diferença e a
heterogeneidade, posição que prefigura a defendida pelos pós-estruturalistas de nossa época.
No entanto, ao contrário dos pós-estruturalistas, Adorno não celebra acriticamente a noção de
diferença e nem denuncia o princípio da identidade como falso, pois tem a esperança de que
um dia “...a reconciliação acontecerá e de que um mundo de puras diferenças seria
indistinguível de um mundo de puras identidades.” (Eagleton, 1991, p. 116) Esta visão de
ideologia está presente tanto na noção de indústria cultural elaborada na “Dialética do
Esclarecimento” de Adorno e Horkheimer (1985), como na análise realizada em “A ideologia
da sociedade industrial” de Marcuse (1967): em ambos casos, os autores mostram como se
estabelece um sistema de pensamento totalitário que geriu os conflitos sociais até extinguí-los.
Este conceito de ideologia, assim como todos os outros presentes na ciências sociais, aponta
que há uma sistema de dominação operando, mas é demasiadamente simplista afirmar que a
ideologia na visão frankfurtiana sugere que as pessoas têm falsa consciência e falsas
necessidades, que as impedem de resistir, ou que há um grupo singular e intencional que
promove a dominação. Para Adorno (1975), a ideologia está longe de ser falsa consciência,
pois o autor acredita que na sociedade industrial e de massas a ideologia é a própria
realidade. Marcos Nobre (1998, p.43) cita uma passagem de Adorno em “Dialética Negativa”
que não deixa dúvidas sobre como ele conceitua a ideologia:
“Para Adorno, a ideologia ‘não é mais véu, mas apenas e tão somente o rosto do mundo. Não
apenas por força de seu entrelaçamento com a propaganda, mas segundo sua própria figura,
ela transita para o terror. Porque, porém, ideologia e realidade se movem de tal maneira
uma em direção à outra; porque a realidade, na falta de qualquer outra ideologia
convincente, torna-se ideologia de si mesma, seria necessário apenas um ínfimo esforço do
10
espírito para afastar de si a ilusão ao mesmo tempo onipotente e nula.’ (AGS 8, p.477,
‘Beitrag zur Ideologielehe’).”
Esta visão está igualmente presente nas elaborações de “Dialética do Esclarecimento”, de
Adorno e Horkheimer e de “Ideologia da Sociedade Industrial” de Marcuse. Por outro lado,
como veremos a seguir, Eagleton (1991) afirma que os frankfurtianos colocam a ideologia
como “um alvo sem substância”, desmentindo a noção de que para eles haveria um grupo
responsável pela operação da ideologia. A crítica que pode ser dirigida aos frankfurtianos,
segundo Eagleton (1991), é que talvez nem toda ideologia funcione pelo princípio da
identidade, que extirpa tudo que lhe é heterogêneo. A ideologia do humanismo liberal, por
exemplo, teria espaço para variedade, pluralidade, relatividade cultural e particularidade
concreta. A este respeito, Eagleton (1991, p.117) afirma: “Adorno e seus colegas oferecemnos como ideologia como que um alvo sem substância, à maneira dos teóricos pósestruturalistas, para quem toda ideologia, sem exceção, baseia-se em absolutos metafísicos e
fundamentos transcendentais. As reais condições ideológicas das sociedades capitalistas
ocidentais certamente são muito mais misturadas e autocontraditórias, mesclando discursos
metafísicos e pluralistas em várias medidas”.
Assim, de acordo com Eagleton, a noção de ideologia frankfurtiana é paralela à noção de fim
da crítica da ideologia dos pós-estruturalistas, o que parece não ter também sido captado por
Alvesson e Deetz. Para os frankfurtianos, o “herói transcendental” é a razão, que se tornou
inerentemente violenta e manipuladora, de modo que “o próprio pensar” é culpado de
cumplicidade com a dominação ideológica. Para os pós-estruturalistas, o novo “herói
transcendental” é o discurso, pois o pensamento, baseado na linguagem, e a realidade material
são dados indissoluvelmente juntos, ou seja, constituídos ontologicamente, sendo o discurso,
portanto, anterior a tudo mais e não havendo sentido em perguntar de onde vêm as idéias
sociais, ou seja, a própria ideologia.
Quando se analisa esta condição da ideologia como um “alvo sem substância” pode parecer
que frankfurtianos e pós-estruturalistas partilham de uma mesma visão, mas há diferenças
cruciais. No caso dos frankfurtianos, por detrás da razão há o sujeito, que por meio de sua
autonomia pode restituir sua face emancipatória. Já no caso dos pós-estruturalistas, por detrás
do discurso não há um autor, pois o discurso é entendido como uma estrutura constituída
socialmente segundo leis que fogem à vontade dos sujeitos. Ora, se o pensamento e a
realidade se constituem juntos, posto que a realidade seja dominação, como é possível superála sem a razão e a autonomia do sujeito? O que levaria a sociedade, entendida aqui como
estrutura, a superar sua inércia e a promover uma mudança?
Um dos pontos comuns entre a teoria crítica e a pós-moderna é a crítica da razão, mas
enquanto os pós-modernos costumam identificar a razão com o poder e condená-la, os
teóricos críticos procuram demonstrar que a razão é a via para a emancipação e que se assim
não tem sido é porque a mesma vem sendo “distorcida” e “tecnicizada”. Ao descartarem a
razão como possibilidade emancipatória, os pós-modernos acabam se condenando à paralisia
política (Jameson, 1997; Anderson, 1999), pois deixam de ver na reflexão e na crítica uma
possibilidade de superar a ideologia e desbloquear a ação humana. Dessa forma, nada mais
equivocado que sugerir que a Escola de Frankfurt vê os sujeitos como vítimas passivas das
ideologias: isto pode ser uma condição do sujeito, mas ela não é insuperável. Quando se
considera o pós-estruturalismo, no entanto, temos a curiosa condição de um sujeito consciente
da dominação que sofre, mas impotente quanto à possibilidade de mudar esta condição: ele
seria apenas um ator, uma “marionete” a serviço das estruturas discursivas.
11
Vale ainda ressaltar que Eagleton não elabora que a autocontradição e o pluralismo do
denominado humanismo liberal”também são condições da ideologia e podem se constituir
como pensamento único, de modo que há alguma fragilidade na sua crítica dirigida à noção de
ideologia dos frankfurtianos. Os próprios frankfurtianos realizaram uma crítica desta condição
plural, quando demonstram como na sociedade industrial as diferenças mantêm a identidade
daquilo que é sempre o mesmo. Nas palavras de Adorno e Horkheimer (1985, p.126): “O que
é novo na fase de cultura de massas em comparação com a fase do liberalismo avançado é a
exclusão do novo. A máquina gira sem sair do lugar. Ao mesmo tempo que já determina o
consumo, ela descarta o que ainda não foi experimentado porque é um risco. (...) se fala
continuamente em idea, novelty e surprise, em algo que seria ao mesmo tempo familiar a
todos sem jamais ter ocorrido. A seu serviço estão o ritmo e a dinâmica. Nada deve ficar
como era, tudo deve estar em constante movimento. Pois só a vitória universal do ritmo da
produção e a reprodução mecânica é a garantia de que nada mudará, de que nada surgirá
que não se adapte.”
Por outro lado, Eagleton (1991, p.192) percebe que o próprio pós-estruturalismo e sua
pretensão de fim da crítica da ideologia, é uma ideologia, pois afirma: “Certamente é um
tanto imodesto de acadêmicos, profissionalmente preocupados com o discurso, projetar suas
próprias preocupações sobre o mundo como um todo, nessa ideologia conhecida como
(pós-)estruturalismo.” Esta posição é corroborada por Anderson (2004) para quem o pósmodernismo e a abordagem filosófica que dele deriva, o pós-estruturalismo, se manifestam
como uma grande narrativa e uma ideologia. Como foi colocado anteriormente temos na
realidade um deslocamento do sujeito e das grandes narrativas políticas pelas estruturas e a
micropolítica: substitui-se uma onipotência por outra.
A crítica da ideologia frankfurtiana não é reativa
Considerar a crítica da ideologia frankfurtiana reativa porque é explicativa e não preditiva,
também é uma forma de reducionismo, além de sinalizar um alinhamento de Alvesson e
Deetz com a prescrição, que mais uma vez denuncia que a lacuna aberta pelos autores
possibilita a substituição da práxis pela performance. É reducionismo, porque a negatividade,
que é aqui preterida em favor de uma positividade, é de fundamental importância para os
estudos críticos, pois como aponta Adorno em “Dialética Negativa”, a verdadeira dialética,
entendida aqui como crítica da ideologia, é a consciência da não-identidade e de que de não
existe um ponto de vista dado de antemão: é isto que permite desvendar e destituir uma
ideologia (ver Nobre, 1998) Além disso, o pessimismo e a negatividade da Escola de
Frankfurt não significam que ela se reduz à crítica: os frankfurtianos pretendem justamente a
partir do negativo derivar o afirmativo (Horkheimer, 1976). Em outras palavras, a crítica é a
base para a renovação das ações, pois a exclusão da negação leva ao conformismo e o
negativo é um impulso para a mudança, para o desprendimento do normatizado e do hábito: é
o ponto de partida para a construção de novas referências.
O caráter positivo, segundo Horkheimer (1976) é extraído de dois procedimentos negativos:
1) a renúncia das verdades definitivas e rejeição da veneração do finito (ídolos políticos ou
econômicos - tais como nação, líder, sucesso, dinheiro e valores éticos ou estéticos como
personalidade, felicidade, beleza, liberdade) sempre que este se pretenda um princípio
fundamental independente; e 2) a mensuração das idéias culturais básicas tendo como
referência seu contexto histórico e social, confrontando o existente com o contexto para
criticar a relação entre ambos e transcendê-los.
12
Por outro lado, o projeto original dos frankfurtianos de primeira geração era elaborar uma
crítica da filosofia com intenção prática (Horkheimer, 1990; Bronner, 1997). Se Horkheimer
e principalmente Adorno preferiram permanecer no campo da teoria e assim preservá-la da
ideologização, por acreditarem que o momento histórico não favorecia a ação política, o
mesmo não é verdade para Marcuse, que resgata Marx e Hegel na Teses de Feuerbach e
procura muito mais do refletir sobre a realidade, reagir, pensar em uma transformação
material da mesma, com o olhar no futuro. Sua atuação junto ao movimento estudantil lhe
rendeu um conflito intelectual com Adorno que pode ser acompanhado na correspondência
que trocaram no final da década de 1960 (ver Marcuse, 1999).
Assim, não é correto dizer que a crítica da ideologia frankfurtiana explica ex-post algo que
não aconteceu ao invés de fazer “declarações preditivas e testáveis sobre o futuro”. Ora, toda
esta construção é falha se considerarmos que a crítica da ideologia frankfurtiana na verdade
não está realizando uma explicação sobre o passado ou o presente, mas incluindo em um
pensamento que é homogêneo outras formas de pensar a partir das quais se espera que o
sujeito constitua com outros sujeitos ações coletivas capazes de mudar o status quo. Em
outras palavras, não se trata de predizer e prescrever o futuro, mas de, por meio da crítica da
ideologia, estabelecer condições de pensamento para que os sujeitos modifiquem sua própria
realidade, ou ainda, de colocar a razão na trilha da emancipação.
É isto que chamamos de práxis, que é ontologicamente inseparável da crítica da ideologia.
Castoriadis (1986, p. 94-95) nos apresenta um elucidativo conceito de práxis: “Chamamos de
práxis este fazer no qual o outro ou os outros são visados como seres autônomos e
considerados como agente essencial do desenvolvimento da própria autonomia. (...)
Poderíamos dizer que para a práxis a autonomia do outro ou dos outros é, ao mesmo tempo,
o fim e o meio; a práxis é aquilo que visa o desenvolvimento da autonomia como um fim e
utiliza para este fim a autonomia como meio. Essa maneira de falar é cômoda, porque
facilmente compreensível. Mas ela é, rigorosamente falando, um abuso de linguagem, e os
termos fim e meio são absolutamente inadequados neste contexto. A práxis não pode ser
reduzida a um esquema de fins e de meios. O esquema do fim e dos meios pertence
precisamente à atividade técnica, pois esta relação tem um fim que é um fim, um fim finito e
definido que pode ser estabelecido como um resultado necessário ou provável, em vista do
qual a escolha dos meios se reduz a uma questão de cálculo mais ou menos exato (...)”
Em outras palavras a práxis pressupõe a autonomia e não pode se pensada de acordo com a
lógica de meios e fins, causa e efeito, pois isto é próprio da atividade técnica e instrumental. A
questão que aqui nos interessa é que ao desconstruírem a dominação denunciando a
onipotência dos sujeitos e ao mesmo tempo suspeitando da possibilidade de um sujeito
autônomo, os pós-estruturalistas escamoteiam a crítica da ideologia e caracterizam esta
operação como se fosse uma crítica mais “sofisticada”, quando na verdade inviabilizam a
práxis. É por este motivo que ao defenderem uma posição pragmática para os estudos críticos
organizacionais, Alvesson e Deetz (1999) acabam abrindo espaço para a performance: ora, se
não há como desenvolver práticas políticas amplas, a única prática possível ocorre
localmente, e na ausência do político, esta prática só pode ser técnica. E não será através da
bricolagem entre teoria crítica e pós-modernismo, ou através do empirismo, que a política
poderá ser restituída, mas somente através do resgate da crítica da ideologia e da autonomia
do sujeito, ou seja, da própria práxis.
Por outro lado, apesar de rotularem a crítica da ideologia frankfurtiana de reativa, Alvesson e
Deetz (1999) não parecem capazes de demonstrar em seu texto que a crítica “pós-moderna” é
13
propositiva. O fato é que nem poderiam, pois a crítica “pós-moderna” com seus recursos de
desconstrução e reeleituras de resistência realiza uma “crítica imobilizada”. Constatar que o
mundo é violento e opressor e que nada se pode fazer a respeito implica uma negatividade
contínua que ossifica a realidade, de modo que tudo que resta é a ironia e a jocosidade. O
momento da positividade sequer está previsto, pois onde não há práxis, não há possibilidade
de converter o negativo em positivo: a crítica fica paralisada, pois é esvaziada de sua
substância política. E o que é criticar nesta situação senão rir de si mesmo?
III. Conclusões
A crítica realizada do capítulo elaborado por Alvesson e Deetz (1999) sobre a teoria crítica e
o pós-modernismo nos estudos organizacionais possibilita a seguinte conclusão: o projeto de
estudar as organizações a partir de uma perspectiva crítica precisa ser revisto, pois as
premissas que levaram os autores a propor a agenda da teoria crítica contêm vícios de origem,
em particular uma interpretação equivocada da crítica da ideologia frankfurtiana e um
alinhamento com o pós-estruturalismo, que, intencionalmente ou não, substitui a práxis pela
performance. O escopo elaborado pelos autores aponta que a meta central da teoria crítica é
criar organizações livres da dominação, que satisfaçam as necessidades humanas e levem ao
progresso de todos. No entanto, se quisermos ser coerentes em relação ao pensamento
frankfurtiano, a meta da teoria crítica nos estudos organizacionais não pode ser um ato de
criação organizacional, mas um ato de crítica da realidade existente que possibilite uma nova
forma de pensamento e habilite os sujeitos a buscarem caminhos para a criação de uma nova
realidade, superando a opressão.
Não é a toa que, ao sugerirem que a teoria crítica e o pós-modernismo melhoram a base do
conhecimento e dos processos decisórios, de aprendizagem e de adaptação, bem como
possibilitam que as pessoas desafiem a ordem e se tornem mais criteriosas, os autores acabam
por abrir espaço para um “gerencialismo engajado” (Paes de Paula; Maranhão; Barros, 2008).
Ora, o que mais as organizações poderiam querer a não ser a melhoria contínua, a
possibilidade de inovação e o aperfeiçoamento dos processos? Estas podem não ser
exatamente as metas da teoria crítica, mas com certeza é a “tradução” que alguns executivos
fariam da proposta de Alvesson e Deetz caso estes se aproximassem da prática gerencial
cotidiana para mostrar como ser “crítico e a favor do gerencialismo”, ou realizar uma
“performatividade crítica”.
A realidade é que a teoria crítica, ao contrário, por exemplo, do contingencialismo e do neoinstitucionalismo, não tem uma teoria das organizações, mas sim um corpus teórico e
epistemológico que possibilita uma crítica das ideologias que circundam o mundo
organizacional. Se há alguma teoria das organizações possível aqui, certamente ela
contemplaria formas organizacionais alternativas como a autogestão, (Tragtenberg, 1980) ou
as isonomias e fenonomias (Guerreiro Ramos, 1981). No entanto, até mesmo esta “teoria das
organizações crítica” só seria admitida caso fosse uma produção da autonomia dos sujeitos e
estaria sob uma vigilante crítica para evitar as tendências à autonomização organizacional, ou
em outras palavras, à burocratização, que parece ser uma consequência, ainda que não
inevitável, do fenômeno organizar.
Outra meta que precisa fazer parte do projeto da teoria crítica para o estudo das organizações
é a educação, pois esta é uma via concreta para a práxis, uma vez que possibilita o
desenvolvimento do pensamento crítico e abre caminhos para ação social e política. A crítica
das ideologias que permeiam as organizações é possível utilizando-se como referencial os
pensadores da Escola de Frankfurt, mas é a pedagogia crítica que aponta possibilidades
14
concretas para explorar as fissuras causadas no pensamento dominante, habilitando os sujeitos
a transformarem as organizações. Neste sentido é fundamental para os estudiosos explorar as
contribuições da pedagogia crítica, especialmente o pensamento de autores como Paulo
Freire, Moacir Gadotti, Michel Apple, Henry Giroux, entre outros.
Assim, o projeto dos estudos críticos organizacionais precisa negar a performatividade, sob o
risco de não ser mais crítico. Ele deve incluir a perspectiva da práxis, mas sem a pretensão de
indicar os caminhos que os sujeitos individuais e coletivos devem trilhar. O caminho é uma
construção dos sujeitos, é uma obra da autonomia, de modo que o ponto de chegada não é
possível prever. A questão delicada que se coloca para a academia na área é que a recuperação
da práxis não passa pela bricolagem entre teoria crítica e pós-modernismo, mas por uma
reconstituição do projeto original da teoria crítica e um remodelamento de suas categorias e
suposições, de modo que elas sirvam como categorias analíticas para a atual realidade (ver
Bronner, 1997). Além disso, é fundamental transcender a visão de que a teoria e a prática são
campos distintos e de que a positividade é melhor que a negatividade. Ora, no âmbito da
teoria crítica a teoria é práxis, pois o que interessa é a prática política, e a negatividade é
positividade, pois criticar é a única forma possível de afirmar uma nova realidade, posto que o
sujeito é capaz de transformá-la se puder, por meio da própria crítica, superar o pensamento
dominante. Isto talvez implique ainda no doloroso reconhecimento, para alguns, de que pode
ser necessário descartar o pós-estruturalismo, ou rever todo o seu projeto, buscando uma nova
epistemologia e uma nova forma de criticar.
Certamente este é um posicionamento polêmico, mas este ensaio não pretende esgotar a
questão, até mesmo porque há lacunas que não foram preenchidas. Em primeiro lugar, para
que uma análise mais detida da crítica da ideologia frankfurtiana fosse possível seria
necessário discutir os aportes teóricos do marxismo e do freudismo no pensamento dos
frankfurtianos de primeira geração, que por sinal não foram exaustivamente examinados, até
porque isto seria inviável no espaço disponível para fazê-lo. Em segundo lugar, uma análise
mais cuidadosa do pensamento de Foucault seria recomendável, uma vez que este sofreu
apropriações por parte dos pós-estruturalistas, que utilizam sua analítica do poder, assim
como sua proclamação da morte do sujeito, como base de suas elaborações, desconsiderando
que o próprio Foucault reviu esta posição mais tarde e assumiu seu alinhamento com as
posições frankfurtianas (ver Assoun, 1991). Em terceiro lugar, uma exposição mais
sistemática do próprio estruturalismo e do pós-estruturalismo seria valiosa e neste ponto as
elaborações de Peters (2000) poderiam ajudar a corroborar algumas considerações feitas aqui.
Cada uma destas lacunas requer novos escritos: espera-se que ainda assim os leitores tenham
conseguido captar a mensagem que o ensaio procura deixar.
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16
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