AVALIAÇÃO DA UNIDADE CURRICULAR ADMINISTRAÇÃO GERAL E ECONOMIA NUM CURSO DE GRADUAÇÃO EM ENFERMAGEM Maria Aparecida de Oliveira Freitas1 - EPE/UNIFESP Rosana Rodrigues Figueira Fogliano 2 - EPE/UNIFESP Monica Jordão de Souza Pinto3 - EPE/UNIFESP Lucia Marta Giunta da Silva4 - EPE/UNIFESP Alexandre Pazetto Balsanelli5 - EPE/UNIFESP Grupo de Trabalho - Didática: Teorias, Metodologias e Práticas Agência Financiadora: não contou com financiamento Resumo Com um currículo centrado no cuidar, o curso de Graduação em Enfermagem da Escola Paulista de Enfermagem da Universidade Federal de São Paulo agrega conteúdos que levam o futuro enfermeiro a desempenhar o papel de gestor dos ambientes onde se pratica o cuidado. Na segunda série, os estudantes passam a ter contato com a Unidade Curricular Administração Geral e Economia. O grande desafio que tem sido colocado a esse corpo docente envolve diferentes questões: como trabalhar estes assuntos teóricos, em classe numerosa (80 estudantes) de forma participativa? Como proceder às avaliações de aprendizagem, sem necessariamente ter que aplicar provas? Portanto este estudo teve como objetivo apresentar os resultados das avaliações realizadas pelos estudantes a respeito do desenvolvimento desta disciplina. Trata-se de um relato de experiência. O conteúdo programático foi dividido em três blocos perfazendo um total de 11 aulas, e em cada aula foi aplicada uma estratégia de aprendizagem diferente. Criou-se um instrumento de avaliação com questões semiestruturadas permitindo aos respondentes que expressassem seus comentários a respeito do plano de ensino, carga horária, programa e assuntos abordados, busca ativa da aprendizagem, estratégias de ensino, contribuição para vida profissional e sugestões de aperfeiçoamento. Os principais resultados destacam que a busca ativa de aprendizagem foi muito importante para 24 estudantes (34%) e importante para 37 (53%). 1 Doutora em Ciências pela Escola Paulista de Enfermagem da Universidade Federal de São Paulo(UNIFESP). Pedagoga da Escola Paulista de Enfermagem da UNIFESP. 2 Mestre em Enfermagem pela Universidade Federal de São Paulo. Enfermeira do Departamento de Administração e Saúde Coletiva (DASC) da Escola Paulista de Enfermagem da UNIFESP. 3 Mestre em Enfermagem pela Universidade Federal de São Paulo. Enfermeira do Departamento de Administração e Saúde Coletiva (DASC) da Escola Paulista de Enfermagem da UNIFESP. 4 Doutora em Enfermagem pela Universidade Federal de São Paulo. Professor Adjunto Nível I do Departamento de Administração e Saúde Coletiva (DASC) da Escola Paulista de Enfermagem da UNIFESP. 5 Doutor em Ciências pela Escola Paulista de Enfermagem da Universidade Federal de São Paulo. Professor Adjunto Nível I do Departamento de Administração e Saúde Coletiva(DASC) da Escola Paulista de Enfermagem da UNIFESP. ISSN 2176-1396 10417 Classificou-se as diferentes formas de avaliar, em sua maioria, com muito bom e bom. A unidade curricular proporcionou ampliar o conhecimento sobre a administração e sua importância para o trabalho do enfermeiro. Além disto, houve relatos de que estes conceitos podem ser aplicados na sua vida pessoal. Não aplicar provas foi a escolha do grupo de docentes e trabalhar com diferentes formas de avaliação serviu de aprendizado para os atores deste processo resultando em importante construção coletiva de conhecimento. Palavras-chaves: Educação em enfermagem. Administração. Enfermagem. Introdução No mundo contemporâneo, a prática educativa tem sido colocada à prova, no sentido de desafiar os docentes a se reinventarem para mobilizar os estudantes na construção do conhecimento (PRADO, et al., 2012 ; SORDI, 2000). Especialmente na área da saúde, onde saberes e práticas devem estar articulados, pensar maneiras de trabalhar assuntos demasiadamente teóricos, mas importantes para o exercício profissional, é muito desafiador – para quem ensina, mas também, para quem aprende (COGO et al.,2010; SORDI, 2000). Com um currículo centrado no cuidar, o curso de Graduação em Enfermagem da Escola Paulista de Enfermagem da Universidade Federal de São Paulo também agrega Unidades Curriculares (UC) que subsidiam o futuro enfermeiro no desempenho das ações de gestão do cuidado. Entretanto, os estudantes que ingressam na Enfermagem, têm como objetivo maior o cuidar, atribuindo a este processo de trabalho maior importância (UNIFESP, 2012). Neste contexto, a UC de Administração Geral e Economia têm como objetivo fornecer os princípios básicos da administração e economia nos serviços de saúde; instrumentalizar o discente para a visão global nos contextos político, organizacional, ético e social no âmbito da assistência individual e coletiva; enfatizar a influência das teorias da administração na gestão organizacional e discutir as etapas do processo administrativo: planejamento, organização, direção e controle e sua interface na organização dos serviços (UNIFESP, 2012). Oferecida no primeiro semestre do segundo ano do curso, com carga horária teórica de 36 horas, tem seu corpo docente formado por Enfermeiros que estudam gestão e aborda as Bases teóricas da Administração; Princípios Gerais de Economia; Processo Administrativo: Planejamento, Organização, Direção e Controle. O grande desafio que tem sido colocado a esse corpo docente envolve diferentes questões: como trabalhar estes assuntos teóricos, em classe numerosa (80 estudantes) de 10418 forma participativa? Como proceder às avaliações de aprendizagem, sem necessariamente ter que aplicar provas? Objetivo Apresentar os resultados das avaliações realizadas pelos estudantes acerca do desenvolvimento da Unidade Curricular Administração Geral e Economia. Método A UC foi dividida em três grandes blocos, perfazendo um total de 11 aulas. Em cada aula foi aplicada uma estratégia de aprendizagem diferente a fim de incentivar a participação dos estudantes, corroborando a afirmativa de Berbel (2011, p.28) de que “as metodologias ativas têm o potencial de despertar a curiosidade à medida que os alunos se inserem na teorização e trazem elementos novos”. Compreendendo que avaliar é um processo, e que não significa punir ou classificar, mas contribuir para que os estudantes atribuam sentido ao que aprendem, os professores elaboravam avaliações realizadas ao final de cada aula, com o intuito de verificar a aprendizagem (CAVALCANTE; MELLO, 2015). Para que todos os estudantes pudessem participar, em algumas aulas a turma de 80 alunos foi dividida em dez grupos formados por oito alunos cada, e em outros, os estudantes trabalharam em duplas, priorizando o trabalho em equipe como forma de ressignificar saberes, compartilhar diferentes conhecimentos e exercitar a negociação. O primeiro bloco, desenvolvido em três aulas, com duração de quatro horas cada, com os estudantes trabalhando em grupos, abordou as Bases teóricas e principais Teorias da Administração. Neste bloco, com aulas expositivas-dialogadas, nas quais a participação ativa dos estudantes era parte importante do processo de ensinar e aprender, os professores iniciaram o assunto solicitando que os mesmos elaborassem um script, que deveria abordar os seguintes aspectos: 1- o pensamento administrativo da época; 2- exemplos e influência e 3- a teoria, sua ênfase e princípios. Posteriormente, obedecendo a uma linha de tempo, cada grupo apresentou este material escolhendo as estratégias que julgasse mais apropriadas como, por exemplo: 10419 filme, dramatização, debate, jogral, dentre outras. O grupo foi avaliado pelo material escrito (script) e pela exposição feita. O segundo bloco foi realizado em duas aulas, com três horas de duração cada, abordando os Princípios Gerais de Economia. As estratégias utilizadas foram: 1- quiz com questões que abordaram os principais conceitos de economia, e os estudantes eram convidados, a partir do conhecimento prévio que possuíam, a escolher a alternativa que respondesse a este questionamento; 2- apresentação de um filme seguido de uma pergunta reflexiva que foi respondida em dupla; 3- estudo dirigido para mediar a leitura de um artigo científico a respeito deste tema. O terceiro e último bloco abordou assuntos referentes ao processo administrativo e foi desenvolvido em seis aulas, com três horas de duração cada. No início dos encontros, antes da proposição das estratégias, descritas a seguir, fazia-se uma exposição dialogada do tema. Aula 1 - Planejamento: os estudantes receberam um breve histórico de algumas empresas. O desafio proposto era descrever a missão, visão e valores desta organização. Na sequência, fazia-se uma análise reflexiva e comparativa sobre a verdadeira missão, visão e valores destas instituições; Aula 2 - Organização: análise de um organograma para identificar a linha de autoridade e responsabilidade; Aula 3 - Direção: resposta individual de um questionário para verificar o grau de comprometimento com as oportunidades de aprendizado de seu curso; Aula 4 - Controle: exercício sobre a análise de indicadores; Aula 5 - Construção da Missão, Visão e Valores do ser Enfermeiro para a Turma: cada grupo de 10 alunos apresentou uma proposta para cada um destes atributos. Este material foi postado num ambiente virtual de aprendizagem [Moodle] e aos estudantes foi solicitado que votassem, individualmente, naquelas que melhor representassem a Turma. Na sequência, as proposições mais votadas foram apresentadas em sala e discutidas com o grupo, a fim de se chegar a um consenso final da para Missão, Visão e Valores da turma. Aula 6 - Avaliação da UC: os estudantes responderam a um instrumento não identificado, semiestruturado, elaborado pelos professores, permitindo que os respondentes expressassem seus comentários e opiniões sobre plano de ensino, carga horária, programa e conteúdo da UC, estratégias de ensino e busca ativa da aprendizagem, contribuição da UC 10420 para sua formação profissional e sugestões de aperfeiçoamento. As falas foram identificadas pela letra “E” seguido de um número de ordem, apresentando a seguinte configuração E x. Resultados e Discussão Sobre a importância de apresentar e discutir o plano de ensino da UC no primeiro dia de aula. Dos 80 respondentes, 70 (87,5%) destacaram esta proposta como sendo importante. Em relação à carga horária, 57 (82%) avaliaram como adequada e 13 (18%) insuficiente. Quanto ao programa da UC e os conteúdos abordados, 25 (31%) consideraram muito interessante; 45 (56%) interessante; 7 (9%) pouco interessante; 2 (3%) nada interessante e 1 (1%) não respondeu. Ao serem questionados sobre a busca ativa de aprendizagem, os estudantes consideraram que esta estratégia foi: muito importante para 24 (34%), importante para 37 (53%), pouco importante para 7 (10%) e nada importante para 2 (3%). A diversificação na forma de avaliação, ao longo da UC, permitiu compreender a importância das diferentes formas e instrumentos utilizados, como apresentado no gráfico 1. 10421 Gráfico 1: Diferentes formas e instrumentos utilizados para a avaliação da aprendizagem. Fonte: os autores De uma forma geral, a avaliação dos estudantes sobre a contribuição desta UC para sua formação foi significativa. Ampliou o conhecimento sobre a administração e sua importância para o trabalho do enfermeiro. Além disto, há relatos de que estes conceitos podem ser aplicados na sua vida pessoal. As falas contidas no quadro 1 exemplificam esta abordagem. 10422 Quadro 1: avaliação dos estudantes sobre a contribuição que a UC trouxe para sua formação. Trouxe a visão que não conhecia da enfermagem como administração (E 1) Foi importante para entender qual o nosso futuro como enfermeiros (missão, visão, valores), além da organização (E2). Trouxe muito aprendizado e conhecimentos diferenciados para minha formação (E3) Abriu o horizonte para desenvolver o lado gestor do enfermeiro (E 4) Noções e conceitos sobre uma área da enfermagem que não é apenas uma especialização, e sim, estão presentes em todos os momentos da profissão (E5). Contribuiu para a formação mais elaborada do papel do enfermeiro e da equipe (E 6) Aprender que o enfermeiro pode ser muito mais que assistente (E 7) Aprendi a lidar com questões administrativas e econômicas, as quais não teria contato nas demais disciplinas (E8). O lado menos biológico do curso, aprendendo um pouco mais da parte administrativa da enfermagem (E9). Ajuda na vida pessoal e profissional (E10) Fonte: Os autores As sugestões de aperfeiçoamento da UC centraram-se nos seguintes aspectos: ausência de retorno dos professores sobre as atividades realizadas, ou seja, o estudante aponta que não teve conhecimento sobre o seu desempenho nas estratégias. Além disto, destacou-se a necessidade de relacionar mais os assuntos abordados com temas da área da saúde. Este resultado é importante, pois a proposta de avaliação foi formativa, a fim de acompanhar o progresso dos alunos na apreensão dos conteúdos e não pressupunha a classificação por notas, a que os estudantes estão habituados. Entretanto, como o retorno das atividades foi realizado em sala, por meio de discussões com todos, mas não para cada grupo ou estudante individualmente, esta percepção aponta para a necessidade de ações que permitam aos estudantes perceberem seu progresso e a distinção entre as formas e objetivos de avaliação. Quanto a aproximação dos conteúdos com a área da saúde é interessante observar que esta demanda corrobora o grande interesse e motivação dos estudantes para os aspectos instrumentais da profissão escolhida, em que as habilidades e conhecimentos clínicos são altamente valorizados, particularmente nesta etapa da aprendizagem. 10423 Considerações Finais Avaliação implica em tomada de decisão. Portanto, a partir dos resultados apresentados, sentiu-se a necessidade de rever o programa da UC, especialmente quanto à aproximação dos assuntos abordados relacionando-os com temas da área da saúde. Identificou-se que trabalhar com metodologias ativas de aprendizagem foi um exercício para os docentes e estudantes, pois a busca ativa do conhecimento implica esforços e comprometimento de ambas as partes. Diversificar a forma como avaliamos contribui sobremaneira para uma aprendizagem mais significativa. Isto permite inferir que a transferência de conhecimentos se estende para além da vida profissional. Não aplicar provas foi a escolha dos docentes por entenderem que este instrumento nem sempre reflete o que os estudantes realmente aprenderam. Assim, trabalhar com diferentes formas de avaliação ao final de cada aula, foi um aprendizado para os atores deste processo resultando em importante construção coletiva de conhecimento. REFERÊNCIAS BERBEL, Neusi Aparecida Navas. As metodologias ativas e a autonomia na promoção dos estudantes. Semina: Ciências Sociais e Humanas, Londrina, v. 32, n. 1, p. 25-40, jan./jun. 2011. CAVALCANTE, Leira Maria Pacheco; MELLO, Maria Aparecida. Avaliação da aprendizagem no ensino de graduação em saúde: concepções, intencionalidades e reflexões. Avaliação, Campinas, v. 20, n. 2, p. 423-442, jul. 2015. COGO, Ana Luísa Petersen et al. Aprendizagem de sinais vitais utilizando objetos educacionais digitais: opinião de estudantes de enfermagem. Rev. Gaúcha de Enferm., Porto Alegre, v. 31, n. 3, p. 435-441, set. 2010. PRADO, Marta Lenise do et al. Arco de Charles Maguerez: refletindo estratégias de metodologias ativas na formação de profissionais de saúde. Esc Anna Nery, v. 16, n. 1, p. 172-177, jan./mar. 2012. SORDI, Mara Regina Lemes de. Problematizando o papel da avaliação nas metodologias inovadoras na área da saúde. Revista de Educação PUC Campinas, Campinas, n. 9, p. 5261, dez. 2000. UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO (UNIFESP). Projeto pedagógico do curso de graduação em enfermagem. São Paulo, 2012. Disponível em: 10424 <http://www.unifesp.br/reitoria/prograd/index.php/ensino-menu/cursos/informacoes-sobre-oscursos>. Acesso em: 7 jan. 2015.