universos da educação não-formal Não-fronteiras: Educação Cultura e Arte 2005-2006 universos da educação não-formal Não-fronteiras: Prefácio Olga Rodrigues de Moraes von Simson Mapeamento e análise Maria da Glória Gohn Levantamento de dados quantitativos Renata Sieiro Fernandes São Paulo 2007 2a edição Catalogação Itaú Cultural Não-fronteiras: universos da educação não-formal / prefácio Olga Rodrigues de Moraes von Simson; texto Maria da Glória Gohn; dados quantitativos Renata Sieiro Fernandes; Ilustração Andrés Sandoval, Mariana Zanetti. -- São Paulo : Itaú Cultural, 2007. 96 p. : il. color. ; 21 cm x 24 cm (Rumos Educação Cultura e Arte, 2). Bibliografia ISBN 978-85-85291-63-1 1. Educação e Arte 2. Cultura brasileira 3. Educação não-formal 4. Projeto educacional 5. Projeto social 6. Brasil CDD 707 avenida paulista 149 são paulo sp 01311 000 [estação brigadeiro do metrô] fone 11 2168 1700 fax 11 2168 1775 [email protected] www.itaucultural.org.br 8 13 45 67 82 Apresentação Prefácio 10 O perfil do educador 19 O público participante 57 Um novo Brasil 75 Agradecimentos 90 A educação não-formal e o papel do educador social As instituições Resultados a observar Para saber mais Apresentação Trazido a público ainda em meio ao período de intensa atividade do programa Rumos Educação Cultura e Arte 20052006, o segundo volume da série de três obras do programa convida leitoras e leitores a uma reflexão mais ampla sobre aquele que deu sentido à criação do Rumos Educação: o educador. Após abordar as histórias e os projetos dos cinco educadores não-formais selecionados pelo programa, no volume Educação de saberes, poderes e quereres, lançado em 2006, a série volta-se agora para descobrir quem são os outros personagens do universo 8 de mais de 200 inscritos do Rumos Educação Cultura e Arte 20052006. Sem pretensão de oferecermos as respostas, lançamos diversas perguntas para, mesmo que palidamente e movidos pela curiosidade que ajuda a construir o conhecimento, começar a esboçar o perfil dos inscritos no programa, profissionais da educação não-formal. Afinal, quem é o educador não-formal? Olga Rodrigues de Moraes von Simson é cientista social, professora da Faculdade de Educação da Unicamp e coordenadora do Centro de Memória da Unicamp, com pósdoutorado no Geographisches Institut, na Universidade de Tübigen. 1 Onde vive, quantos anos tem, que grau de escolaridade possui? O que o motiva? Quem o apóia? Qual o perfil das instituições com as quais trabalha? Quem são os participantes das atividades que promove? Que resultados ele consegue atingir? A diversidade já adivinhada por trás dessas perguntas parece-nos justificar a idéia das “não-fronteiras”, anunciada no título da obra. Maria da Glória Gohn é socióloga, professora titular da Faculdade de Educação da Unicamp e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uninove e pesquisadora do CNPq, com pós-doutorado na New School of University, em Nova York. 2 Para lançar o debate a respeito dessas e outras questões, contamos com a professora Olga de Moraes Rodrigues von Simson 1, que prefacia o estudo, a professora Maria da Glória Gohn 2, responsável pela organização e análise crítica do mapeamento desses educadores não-formais, e a consultora do Rumos Educação Cultura e Arte 2005-2006, Renata Sieiro Fernandes 3, responsável pela primeira análise quantitativa do universo de projetos inscritos. Ao final do volume, há uma extensa bibliografia sobre educação e áreas correlatas, organizada também pela professora Renata Sieiro Fernandes é pedagoga, doutora em Educação pela Unicamp e autora de, entre outros, Educação não-formal, memória de jovens e história oral e Entre nós, o Sol: relações entre infância, cultura, imaginário e lúdico na educação não-formal. 3 Maria da Glória Gohn. O livro, que não poderia, neste caso, prescindir de alguns gráficos demonstrativos, é especialmente enriquecido aqui e ali com a fala dos educadores mapeados. Esperamos contribuir com o lançamento de um debate há muito aguardado. E esperamos que as leitoras e leitores, na prática e na pesquisa diárias, possam se reconhecer no “universo da diversidade” apresentado e enriquecer ainda mais essas reflexões, apenas iniciadas. Instituto Itaú Cultural 9 Prefácio Tendo participado durante dois anos do Programa Rumos Educação Cultura e Arte 2005-2006 – primeiro como consultora, na fase de planejamento do programa; posteriormente na etapa de divulgação da proposta, realizando palestras e conversando com os futuros inscritos; em seguida como uma das três integrantes da comissão que julgou os projetos e, finalmente, como colaboradora do programa de formação dos cinco educadores premiados –, creio que posso avaliar com clareza a 10 importância e a pertinência da análise do perfil dos inscritos e do mapeamento dos projetos, que aqui é apresentada. Trata-se da primeira iniciativa levada avante por um instituto com tradição e renome no trabalho com arte e cultura e que, reconhecendo a importância na sociedade brasileira contemporânea do papel social e político exercido pela educação não-formal, tentou enfocá-la através do olhar construído pelos profissionais que a exercem. Ao constatar, também, a intrínseca relação dessa forma de educar com as áreas da cultura e da arte e possuindo fôlego suficiente para propor um programa de abrangência nacional, a proposta que embasa a análise apresentada neste volume buscou atingir todas as regiões brasileiras onde experiências educacionais não-formais poderiam estar se desenvolvendo e motivar os educadores, provenientes de diferentes campos do saber, a descrevê-las. Com um farto material, já organizado e analisado quantitativamente por Renata Sieiro Fernandes, cobrindo o universo formado pelos inscritos que o Rumos Educação Cultura e Arte conseguiu sensibilizar, a coordenação do programa buscou uma intelectual que, por décadas, vinha estudando os movimentos sociais na sociedade brasileira e as organizações nãogovernamentais que os sucederam – hoje o principal locus das experiências educacionais não-formais –, solicitando a ela que traçasse um retrato detalhado do universo dessa área da educação em nosso país. A partir dos dados quantitativos e do conteúdo dos formulários de inscrição dos educadores sociais, nos quais eles descrevem suas experiências concretas de educação não-formal, Maria da Glória Gohn, após conceituar brevemente essa área de atuação, realiza uma detalhada análise qualitativa e traça o perfil desses educadores, bem como das instituições onde realizam seu trabalho. Em seguida, tenta perceber qual é o público que esse trabalho consegue atingir, o que a obriga a alargar esse olhar para as comunidades do entorno. Além de necessário, devido à notória carência de bibliografia sobre o tema, este estudo certamente dará subsídios às universidades para repensar os currículos de seus cursos de pedagogia, que, hoje, em sua imensa maioria, sequer incluem o campo da educação não-formal. A experiência tem mostrado que, no fim das contas, o sucesso de um projeto educativo dessa natureza está não só diretamente relacionado à capacidade de diálogo com a comunidade que o acolhe, como também ao envolvimento que ele consegue suscitar em diversos setores da sociedade. Olga Rodrigues de Moraes von Simson 11 A educação não-formal e o papel do educador social M A educação não-formal é um campo de conhecimento em construção As práticas da educação não-formal se desenvolvem geralmente fora dos muros da escola – nas organizações sociais, nos movimentos e nos programas de formação sobre direitos humanos, cidadania, práticas identitárias e lutas contra a desigualdade e a exclusão social. Essas práticas estão no centro das atividades das ONGs e dos programas de inclusão, especialmente no campo das artes, educação e cultura. A educação não-formal é voltada para questões que dizem respeito ao dia-a-dia dos participantes. O principal objetivo dessa corrente educativa é a formação de cidadãos aptos a solucionar problemas do cotidiano, desenvolver habilidades, capacitar-se para o trabalho, organizar-se coletivamente, apurar a compreensão do mundo à sua volta e ler criticamente a informação que recebem. Isso é feito pela valorização de elementos culturais já existentes na comunidade, às vezes mesclados com novos elementos introduzidos pelos educadores, e pela experiência em ações coletivas, freqüentemente organizadas segundo eixos temáticos: questões étnico-raciais, de gênero, geracionais etc. Segundo Moacir Gadotti 1, a educação não-formal é mais difusa, menos hierárquica e menos burocrática que a educação tradicional. Tanto o lugar onde se realizam as atividades quanto a duração dos programas variam, respeitando o ritmo de cada turma, o rumo que o programa toma conforme a colaboração 14 dos participantes e, principalmente, diferenças biológicas, culturais e históricas. A educação não-formal está muito associada à idéia de cultura 2. Ela não deve ser vista, em hipótese alguma, como um tipo de proposta contra ou alternativa à educação formal, escolar. Tampouco deve ser definida pelo que não é, mas sim pelo que é – um espaço concreto de formação com a aprendizagem de saberes para a vida em coletividade. Essa formação envolve tanto a aprendizagem de ordem subjetiva – relativa ao plano emocional e cognitivo das pessoas –, como a aprendizagem de habilidades corporais, técnicas, manuais etc., que capacitam os participantes GADOTTI, Moacir. A questão da educação formal/não-formal. Sion: Institut International des Droits de l’Enfant, 2005. 1 2 Vide GOHN, Maria da Glória. Educação nãoformal e cultura política. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2005. pp. 98-99. para o desenvolvimento de uma atividade de criação. O educador não-formal tem um papel de animador do grupo: ele deve despertar os participantes para o contexto em que vivem, o processo de formação histórica e cultural de sua comunidade e o processo de constituição de si mesmos, desafiando-os a investigar mais a fundo a própria realidade – tanto A educação não-formal pretende formar cidadãos aptos a solucionar problemas do cotidiano, desenvolver habilidades, capacitar-se para o trabalho, organizar-se coletivamente e apurar a leitura e compreensão do mundo social como individual. O produto gerado nas atividades é reflexo desse despertar e dessa investigação. O principal instrumento de trabalho do educador social é o diálogo. Não o simples “jogar conversa fora”, mas o diálogo tematizado, estruturado com base nas propostas das atividades. Somam-se a ele o estudo de fundamentos teóricos e a prática de atividades. O trabalho do educador deve ter, sem dúvida, uma boa dose de espontaneidade, mas só terá um efeito mais profundo se for sustentado em princípios e metodologias de trabalho, que incluem estudo de indicadores socioculturais e econômicos, contextualização da comunidade no conjunto das redes sociais e temáticas de um município e pesquisa histórica. Segundo a pedagogia de Paulo Freire 3, há três fases bem distintas na construção do trabalho do educador social, a saber: o diagnóstico do problema e do que é preciso para solucioná-lo; a elaboração preliminar da proposta de trabalho propriamente dita; e o desenvolvimento do processo de participação de um grupo, ou de toda a comunidade, na implementação da proposta. FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 14. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983. 3 A educação não-formal funciona em mão dupla: o educador tanto aprende quanto ensina – o mesmo vale para os participantes das atividades. É fundamental, assim, que o educador tenha sensibilidade para entender e captar a cultura local, a cultura do outro, as características exclusivas do grupo e de cada um dos participantes. A escolha do tema gerador com a comunidade não pode ser aleatória, pré-selecionada ou imposta. A temática deve nascer a partir do cotidiano daquele grupo, considerando as características dos integrantes – como idade, gênero, nacionalidade, religião, crenças, hábitos de consumo – e a cultura e o modo de vida locais – que incluem práticas coletivas, divisão do trabalho no interior das famílias, relações de parentesco, vínculos sociais e redes de solidariedade. Ou seja, todas as capacidades e potencialidades organizativas locais devem ser consideradas, resgatadas, acionadas. Com seu trabalho, o educador social ajuda a construir 16 sobre o papel do educador social “Reconheço como um desafio defender essa alternativa de atuação na qual são priorizados o desenvolvimento e a construção de potencialidades das pessoas, dos grupos, em contrapartida a uma perspectiva adaptativa, corretiva e de controle.” Lis Albuquerque Melo – Projeto União – Fortaleza, CE espaços de cidadania no local onde atua. Esses espaços representam uma alternativa aos meios tradicionais de informação – como a televisão, o rádio, a internet e os jornais. Nesses lugares, o trabalho com a comunidade poderá transformar o tecido social, plantando as sementes para que novas figuras de promoção da cidadania surjam e se desenvolvam, tais como os tradutores sociais e culturais – educadores que se dedicam a buscar mecanismos de diálogo com setores sociais geralmente isolados, invisíveis, incomunicáveis ou marginalizados. As atividades desenvolvidas pelo educador devem não apenas mapear o presente, mas também levantar prognósticos. As possibilidades que o futuro oferece são uma força que alavanca mentes e corações em busca de mudanças. A esperança – fundamental aos seres humanos – reaviva-se quando trabalhamos com os sonhos e desejos de um grupo. sobre a educação não-formal O educador não-formal propõe, em suma, a produção de “Nem todas as pessoas ligadas à saberes a partir da tradução de culturas locais existentes, educação acreditam no potencial procurando trazer novo alento a essas culturas. O principal instrumento de trabalho do educador social é o diálogo da educação não-formal, pois para muitos as atividades fora da sala de aula são vistas apenas como recreação e não como educação propriamente dita.” Michel Bierig Schoor – Centro Cultural Mordechai Anilevitch – Rio de Janeiro, RJ 17 O perfil do educador O educador é peça-chave. Ele não pode ser apenas um dinamizador, um ouvido amigo, um facilitador ou um vigilante das atividades Os educadores não-formais do Brasil constituem um painel amplo, rico e estimulante. Trata-se de jovens que realizam projetos inovadores – e renovadores –, levando uma lufada de cultura e educação às comunidades em que atuam. Neste capítulo, apresentaremos em primeiro lugar os dados quantitativos do mapeamento desses educadores, para em seguida fazer uma avaliação qualitativa. Análise dos dados quantitativos A tabulação dos dados das fichas de inscrição do Programa Rumos Educação Cultura e Arte 2005-2006 apresenta-nos um painel bastante peculiar. Vejamos os destaques: • 69,37% do total dos inscritos são da região Sudeste do país; • a maioria dos projetos é proposta por mulheres (72,53%); • o grau de escolaridade majoritário dos educadores é o superior completo (63,06%, incluindo os que possuem pós-graduação ou especialização). O conjunto dessas três variáveis – região, gênero e escolaridade – nos permite chegar a algumas conclusões e formular algumas hipóteses, a saber: a maioria dos inscritos localiza-se em uma das regiões mais desenvolvidas do país, tem educação formal completa, possui bom acesso a informações e é 20 composta por mulheres. Porém, vale destacar que há, dentre os inscritos com grau superior completo, uma pequena parcela de educadores que cresceram em lares e abrigos, ou que nasceram e vivem até hoje em zonas urbanas deterioradas, e muitas vezes atuam na própria comunidade. A maior parte dos inscritos está na região Sudeste, mas o estado de São Paulo lidera, com mais de cem inscrições, cerca de 50% do total do Programa Rumos 2005-2006, sendo que a maioria está localizada na capital. Seguem-se Rio de Janeiro e Minas Gerais. Entretanto, essas conclusões não nos permitem deduzir que a maioria dos projetos culturais inscritos realiza-se necessariamente em territórios compostos por contingentes populacionais aquinhoados, porque, na atualidade, a pobreza, a exclusão e as áreas de conflitos sociais existem mais nas regiões urbanas das grandes metrópoles e cidades de grande porte do que nos pequenos municípios brasileiros ou nas zonas rurais. Por isso, programas governamentais de apoio econômico, que buscam criar redes de proteção social, do tipo Bolsa Família, têm mais impacto em localidades de menor densidade demográfica, situadas em sua maioria no interior das regiões Norte e Nordeste do país, mas enfrentam dificuldades de penetrar com Inscrições por região 69,37% 70 60 50 40 30 16,67% 20 4,96% 10 4,5% 4,5% 21 0 SE NE S N eficiência nas grandes metrópoles. Se olharmos para o Nordeste, Salvador, Recife e Fortaleza são os pólos concentradores das instituições inscritas. Na região Norte, os inscritos concentram-se no estado do Pará, basicamente na capital, Belém. Muitos estados não tiveram projetos inscritos, como Amazonas, Acre, Roraima e Amapá. A baixa participação da região Sul causou-nos surpresa de um lado e compreensão de outro. Surpresa porque o Sul tem tradição de associativismo; compreensão porque seus estados não possuem grande número de populações em situação de vulnerabilidade. Entretanto, no início do programa, supunha-se que Porto Alegre apresentaria um leque grande de projetos socioculturais e educacionais entre os inscritos, devido à fama que alcançou, até no plano internacional, com as edições do Fórum Social Mundial entre 2001 e 2007 (exceto em 2004, quando o fórum ocorreu na Índia, em 2006, quando ocorreu na Venezuela, e em 2007, quando ocorreu no Quênia), CO Inscrições por gênero 72,53% 70 60 50 40 30 27,47% 20 10 0 22 Homens Mulheres e por seu longo período de gestão pública governamental com programas participativos. Mas não foi isso que os dados revelaram – registraram-se apenas duas inscrições: uma na capital e uma no interior do Rio Grande do Sul. A predominância das mulheres no quesito gênero reafirma pesquisas já realizadas a respeito de projetos sociais em outras áreas de atividade ou a respeito de movimentos sociais. Destaca-se com muita evidência a qualificação educacional das mulheres, que possuem índices de escolaridade com ensino superior completo (67,08%, incluindo pós-graduação e especialização) maiores em relação aos homens (52,45%, incluindo pósgraduação). A defasagem explica-se quando se observa outro dado, o de experiência anterior em educação formal: 52,25% dos inscritos já trabalharam na área da educação formal, carreira de predominância entre as mulheres, especialmente nos ensinos infantil e fundamental. A área de formação predominante é a área de humanidades, em especial os cursos de artes, pedagogia, psicologia, comunicações, letras etc. Grau de escolaridade 1,80% 15,77% Fundamental Médio Superior incompleto Superior completo 19,37% 63,06% 23 Grau de escolaridade por gênero Feminino Masculino 1,25% 3,28% 12,42% 24,60% 19,25% 67,08% 52,45% 19,67% A análise das datas de nascimento dos inscritos indica-nos que a maioria tem de 20 a 40 anos de idade, predominando os que estão na faixa etária dos 30 anos. São, portanto, pessoas nascidas sobretudo na década de 1970. Por que a idade de uma pessoa é um dado importante? Porque nos indica a localização do tempo histórico do país na vida dos inscritos e a conjuntura sociopolítica, econômica e cultural que eles vivenciaram. Provavelmente, as pessoas nascidas na década de 1970 acompanharam ou participaram das manifestações pelo impeachment do presidente Fernando Collor, em 1992, por exemplo. Dos inscritos que nasceram nos anos 1960, supõe-se que tiveram a oportunidade de participar, nos anos 1980, da fase movimentalista de reconstrução do regime democrático no país e de grandes mobilizações da sociedade civil. A origem sociocultural foi citada por apenas 12,16% como fator relevante para a motivação para o trabalho, supondo-se assim que a maioria não seja proveniente das camadas populares, categoria social predominante no público onde eles, educadores, atuam. 24 No que se refere aos dados profissionais, o leque de cargos ocupados pelos inscritos em suas instituições é grande. Há vários nomes para designar funções similares, tais como: formador, monitor, facilitador, articulador comunitário, instrutor, oficineiro, apoiador pedagógico, recreador, animador etc. Todos são educadores sociais – um misto de professor com mediador cultural. Mas o educador social pode ainda acumular funções que geralmente são responsabilidade de coordenadores (em instituições de porte médio e grande), diretores ou presidentes (em instituições pequenas), como elaboração e gestão de projetos. A predominância de experiência anterior no ensino formal (52,25% passaram por ela) é um dado relevante, pois denota aprendizagem de saberes anteriores à entrada no campo da educação não-formal. Verificamos ainda que essa experiência pode ter exercido um papel importante na sensibilização do educador para o trabalho na nova área. Como foi feita essa transição? Será que não há concomitância de trabalhos nas duas áreas, tendo em vista que muitos dos educadores inscritos atuam voluntariamente ou mediante baixa remuneração no campo não-formal? Essa dedução remete-nos ainda a outras indagações, do tipo: que aprendizado acumulado anteriormente foi relevante para o trabalho atual, e que aprendizado novo foi construído? Algumas respostas nos revelam que cursos feitos com mestres competentes ficam na memória dos inscritos. Outras vezes foi a leitura ou a formação segundo algum educador ou estudioso. Entretanto, a formação profissional em uma dada área específica do saber – artes, por exemplo – é decisiva para o desempenho do educador. Observe-se que consideramos o campo do saber como algo múltiplo: há saberes científicos, artísticos, religiosos, corporais, populares etc. O papel de educador exige ainda que o profissional domine conteúdos relativos ao local e ao público com que está atuando. A educação não-formal se faz, portanto, com o uso competente de saberes acumulados, com o conhecimento construído durante a própria prática das atividades e com a articulação de um saber científico, pré-codificado e aprendido durante o processo de formação profissional. Esse saber não é transmitido ou repassado ao público-alvo como uma técnica ou um acervo de informações. Ele é utilizado para desenvolver e fazer acontecer a verdadeira face do educador – a de sensibilizador, formador, estimulador de um trabalho com o grupo, seja numa dança, numa peça de teatro, numa banda de latas, na confecção de um jornal, na criação de artesanato ou num coral, possibilitando assim a construção de novos saberes. Outras indagações também podem ser feitas a partir do item formação anterior, como: de que modo os educadores repassam seus conhecimentos, principalmente se pensarmos em grupos que não têm o mesmo perfil socioeconômico e cultural deles? Quais as formas de comunicação e como se constroem os diálogos? Qual a capacidade de gestão que eles estão desenvolvendo? De que modo criam suas alternativas de sobrevivência, financiamentos ou desenvolvimento auto-sustentável? Quais as redes sociais que se articulam? Isso depende bastante da capacidade do educador de encontrar uma linguagem que o aproxime dos participantes. A formação do educador pode ser observada não apenas na trajetória passada, anterior ao trabalho na área da educação não-formal, mas também na busca de qualificação e no próprio desempenho do trabalho atual. O desempenho atual é um grande teste, pois se constitui em um momento para articular elementos de um repertório teórico anterior às necessidades do grupo. Os registros nos formulários com experiências aparentemente bem-sucedidas 25 Grau de escolaridade por região 1,96% 15,58% 61,68% Fundamental Médio Superior incompleto Superior completo 20,78% Sudeste 2,70% 10,00% 20,00% 21,62% 26 59,46% 16,22% 70,00% Norte Nordeste 18,18% 30,00% 70,00% 45,45% 36,37% Sul Centro-Oeste A prática gera aprendizado e saberes, mas não pode ser apenas auto-referenciada. Necessita de conteúdos e formas de desenvolvimento teóricas específicas indicam-nos que o diálogo foi um dos principais instrumentos para viabilizar resultados positivos. Foram trabalhos debatidos, compartilhados, construídos. Outros pontos relevantes na formação do educador são a consciência social, a cultura política e a capacidade de comunicação, ou seja, a capacidade de lidar com saberes abstratos em um linguajar acessível ao grupo com que se trabalha. Trata-se de construir conhecimentos novos por meio de estruturas dialógicas – que são diferentes das estruturas escolares formais, mais institucionalizadas. Esse diálogo ocorre não apenas entre o educador e os participantes, mas também entre os próprios participantes, conforme atesta o registro de um educador do Nordeste, ao relatar o trabalho com alunos aprendizes de uma banda de pífanos e mestres tocadores (leia a respeito do projeto Musicalização com Mestres do Sertão de Pernambuco no volume 1 desta série). O educador que atua na área da educação não-formal não prescinde da educação formal. Entretanto, a titulação não é suficiente para garantir um bom trabalho. A formação do educador deve vir acompanhada do desenvolvimento de uma consciência crítica da realidade onde ele vive e atua. O educador que teve uma formação com conhecimentos básicos sobre a realidade socioeconômica do país e sobre os direitos básicos dos seres humanos desenvolverá seu trabalho de maneira engajada e responsável, preocupando-se em conhecer a história de vida das pessoas com quem está trabalhando, assim como a história do lugar, articulando fragmentos dessas histórias com 27 Experiência anterior no ensino formal 100 52,25% 47,75% 50 0 Possuem experiência anterior 28 Não possuem experiência anterior fatos e acontecimentos de um cenário mais amplo, de modo a auxiliar na construção da identidade do grupo. O educador com essa formação vê as técnicas e instrumentos de trabalho, como anotações de campo, diários de bordo, relatórios, registros de vivências, registros de momentos de reflexão, rodas de discussão, fotos, vídeos etc., como muito mais que meros requerimentos cotidianos preconizados pela instituição. Os meios e técnicas tornam-se parte da dinâmica de formação no dia-a-dia, sendo utilizados conforme as necessidades do projeto. Ou seja, a identidade e os pertencimentos são construídos no processo de trabalho do educador. Esse procedimento foi relatado em alguns casos dentre os inscritos, e concentra-se justamente nos projetos bem-sucedidos. Muitas vezes, é ele que diferencia a educação não-formal da formal. O domínio de habilidades não se faz apenas pelo acúmulo de informações, mas pela maneira como o acervo de informações vai sendo repassado e assimilado. Nesse processo, o educador é peça-chave. Ele não pode ser apenas um dinamizador, um ouvido amigo, um facilitador ou um vigilante de atividades. Deve ser ativo, partir do domínio de conhecimentos e da habilidade no manejo desses conhecimentos segundo as necessidades do grupo para que novos saberes se construam, continuamente. Ao buscar formação específica, os educadores costumam participar de cursos, oficinas, laboratórios etc. Vale notar que os cursos destinados ao campo da educação não-formal aparentemente têm um caráter estratégico-operacional, ou seja, mais voltado para subsidiar a prática cotidiana e menos voltado ao aprendizado de determinada área de conhecimento, que permite adquirir cultura e compor um acervo de saber. Essa constatação tem por base dois indicadores. Primeiro, quando observamos as instituições promotoras desses cursos, vemos que a maioria situase no campo da prática, e não em ambientes universitários ou centros de pesquisa (embora haja registros, com menor freqüência, de cursos e visitas a museus, bibliotecas, faculdades etc.): são órgãos da prefeitura ou do governo estadual ou federal, entidades do sistema S, como o Senac, casas de cultura, ONGs, fundações, escolas técnicas, centros já tradicionais de apoio a jovens e adolescentes em situação de risco etc. Segundo, as referências feitas pelos educadores aos cursos e programas confirmam que eles geralmente são mais dirigidos à capacitação instrumental, ao como lidar e como fazer, e menos voltados ao processo de reflexão, análise e problematização dos temas com que os educadores deparam. Os projetos inscritos com indícios de sucesso e bons resultados freqüentemente apresentaram os fundamentos teóricos ou filosóficos da prática, incluindo autor de referência ou técnica utilizada – reforçando a idéia de que o educador social deve sair do ambiente de trabalho para buscar subsídios para sua prática. A prática gera aprendizado e saberes, mas não pode ser apenas auto-referenciada. Necessita de conteúdos e formas de desenvolvimento teóricas específicas. As instituições que oferecem capacitação instrumental são relevantes na formação do educador, porque a educação não-formal não pode prescindir de metodologias operacionais que organizem o trabalho cotidiano. Mas, para atuar de maneira crítica e transformadora, o educador social deve ter ainda uma formação que o leve a uma reflexão e 29 compreensão maior de sua prática, que lhe possibilite fazer uma leitura própria do mundo. Por isso, articular a prática com conhecimentos sistematizados é uma necessidade. Saber inerte Muitas vezes tidos como templos do saber, os locais que capacitam os educadores podem ainda revelar-se deficientes na transmissão do conhecimento. O grupo em “capacitação” muitas vezes apenas contempla um saber inerte, sem conseguir apreendê-lo, ou porque não está suficientemente preparado, ou porque os mestres têm dificuldade para transmitir os conteúdos de forma acessível. Certamente, bons mestres e uma grade curricular bem organizada, que se concentre em análises de conjunturas, contextualização de temas e questões-chave, problematização das relações e redes de articulações dos temas-objetos dos cursos de formação, assim como aulas desenvolvidas em 30 museus, bibliotecas, centros culturais etc., são ótimas fontes de formação, porque esses locais, metodologias de trabalho e profissionais são, em si próprios, pólos geradores de informação e conhecimento. Os saberes, no entanto, são construídos; não basta transmitir instruções porque não se aprende pelo acúmulo das informações, mas por um processo de recepção e processamento dessas informações. Por isso, os educadores têm um papel fundamental no sucesso de um projeto, como mediadores da formação e da emancipação de um grupo social, quer sejam crianças, jovens e adolescentes, quer sejam adultos ou idosos. O conteúdo, seus princípios e o modo como eles, educadores sociais, atuam junto ao grupo têm relevância primordial. Isso é importante porque no campo do voluntariado ainda predomina a visão de que bastam boa vontade, disponibilidade de tempo e atributos similares – fatores que Composição de figurinos na oficina do Teatro Popular União e Olho Vivo. devem ser considerados, mas não são indicadores completos para um trabalho de qualidade. Linguagem artística utilizada 32,43% 26,58% 24,32% 3,15% 13,52% ! Linguagem plástica Expressão corporal Música Áudio e vídeo Não priorizam uma única linguagem 31 Sendo assim, a cultura e os valores de cada um, e do grupo como um todo, são elementos fundamentais para analisarmos o conhecimento construído, o que nos leva às seguintes indagações: quais foram os códigos culturais e os valores locais que os inscritos no Programa Rumos mobilizaram para processar as informações recebidas nos cursos de que participaram? Em que medida assimilaram as informações? A análise dessas questões será explorada no tópico a seguir; para auxiliar essa tarefa, vale examinar antes um último dado quantitativo, o quesito área de trabalho, ou linguagem utilizada. A linguagem plástica é a que tem maior índice vista isoladamente (26,58%). Alguns inscritos não atuam no campo das artes propriamente ditas, mas em projetos sociais, tais como saúde e meio ambiente, e utilizam a linguagem artística para realizar seus trabalhos. Na área da linguagem plástica destacaram-se trabalhos com cerâmica, pintura, desenho, colagem, construção de objetos, costura, bordado, artesanato etc. Os projetos com formas de expressão do corpo – dança, teatro, capoeira, consciência corporal, circo – somam 24,32%. A música aparece com 13,52%. Projetos que lidam com áudio e vídeo (televisão, rádio e cinema) representam uma fatia de 3,15%. Muitos trabalhos não priorizaram nenhuma linguagem ou adotaram linguagens diversas (32,43%). Vale destacar os que envolvem a escrita e a produção de textos, voltados à elaboração de jornais locais, fanzines, revistas em quadrinhos etc.; ou os dedicados a desenvolver o hábito da leitura, visando à reprodução dos textos em escolas, famílias, amigos e comunidade. Trabalhos com linguagens modernas, como o uso do computador e/ou da internet (e a própria iniciação à informática), também marcaram presença, embora tímida. Análise dos dados qualitativos Justificativas para o trabalho social As justificativas dadas pelos participantes do Programa Rumos para a escolha e desenvolvimento do trabalho na área 32 sociocultural, e mais especificamente com crianças e adolescentes (a maioria em situação de risco social), fundamentam-se sobretudo em princípios e valores humanistas, em uma consciência social e na preocupação com o outro. Por isso o empenho em uma atividade de baixa remuneração econômica, ou voluntária, mas de grande retorno em termos de satisfação pessoal, de reconhecimento social, ou, nos termos de Axel Honneth4, de engajamento com causas que tratam da vida, com vidas e sobre a vida. Alia-se a esses propósitos o fato de a quase totalidade dos projetos inscrever-se no campo da cultura, das artes, da criatividade e da descoberta do novo. É possível observar também um recorte político, de exercício de práticas cidadãs, um anseio por justiça social, uma vontade de contribuir para diminuir as desigualdades sociais por meio de ações que buscam a inclusão. 4 HONNETH, Axel. Luta por reconhecimento: a gramática moral dos conflitos sociais. São Paulo: Editora 34, 2003. Há inúmeros registros de projetos que têm um olhar para o interesse público, para além do mundo da vida privada, do consumo, denotando uma consciência política em formação. Se relembrarmos que a maioria dos inscritos é composta de jovens com poucos anos de inserção no mundo profissional, o panorama torna-se bastante animador. Vislumbram-se esperanças a partir do trabalho desses educadores, numa sociedade dominada pelo medo, descrença e decepção com instituições públicas e privadas. Em alguns casos, a escolha do local de trabalho, e a opção de atuar com a educação não-formal, justificam-se pela identificação do sujeito com o objeto da ação da entidade – por sobre os métodos de atuação “A maneira participativa com a qual foram conduzidas todas as etapas exemplo, ser portador de alguma deficiência ou necessidade do processo de construção teatral, a especial (como síndrome de Down), ou ainda de uma doença possibilidade de fazer escolhas, dialogar, hereditária (como hemofilia). Motivos de ordem religiosa também foram registrados, utilizando-se às vezes argumentos sob uma trocar idéias, a utilização de recursos perspectiva mística, como o de que o educador “foi chamado”. variados, o contato com as diversas Motivos de militância política ou ideológica foram minoritários. áreas do conhecimento construído pela humanidade e principalmente Objetivos dos projetos A partir dos argumentos e justificativas coletados nos formulários, estruturamos os objetivos dos projetos em torno de cinco eixos básicos, que se desdobram em várias temáticas. confundir com personalistas), porque focalizam indivíduos isolados. • O segundo se concentra, prioritariamente, na formação dos indivíduos participantes para o mercado de trabalho. • O terceiro constitui-se de objetivos comunitários ou coletivizantes, porque toma como foco a repercussão dos trabalhos no contexto mais amplo em que se inserem. quarto abrange objetivos socializadores trabalhados tendo como ponto de partida o saber das crianças garantiu • O primeiro eixo abrange objetivos personalizados (não •O o relacionamento dos conteúdos ou socializantes, porque focaliza os indivíduos em relação ao meio social em que vivem e atuam. • O quinto eixo, formação do educador, refere-se a projetos que visam a formar educadores para atuar como monitores/ instrutores ou multiplicadores de projetos socioculturais. o sucesso de nosso trabalho.” Lisandra Marisa Princepe – Lar da Irmã Celeste – Guarulhos, SP 33 É preciso destacar que esses eixos são construções analíticas e nem sempre os encontramos na forma pura. É comum termos o cruzamento dos objetivos. Mas sempre um deles se destaca mais, o que nos permite caracterizar os projetos. O primeiro eixo, que visa à personalização, trabalha no plano dos valores e destaca temáticas como: ! formação dos jovens enquanto seres humanos – inclui criar senso de responsabilidade, potencializar qualidades esquecidas, despertar talentos etc.; ! desenvolvimento psicomotor e intelectual – abrange trabalhos de terapia ocupacional e técnicas de convívio social; ! exercício da subjetividade – envolve auto-estima, autoconfiança, auto-expressão, aperfeiçoamento das capacidades, reconstrução da identidade pessoal, autoconhecimento dos próprios limites etc.; ! desenvolvimento de valores que estruturem hábitos cotidianos como assiduidade, compromisso na execução de tarefas etc.; 34 ! contribuição para melhorar o rendimento na escola; ! o despertar para conhecer o próprio corpo; ! informação sobre o valor dos alimentos etc. Há uma correlação entre objetivos personalizados (do educador para com o público-alvo) e uma certa autovalorização no relato do trabalho. Os indicadores do sucesso estão, nesses casos, na persistência do próprio educador, na fé e confiança que ele deposita em uma causa. A instituição não figura muito nessas auto-avaliações, nem o trabalho de uma equipe. Tudo parece obra do sujeito informante, fruto de seu trabalho e esforços. Os objetivos do projeto podem ser complementares aos da escola, mas não uma extensão, uma continuidade para tapar buracos No eixo dos objetivos personalizados, portanto, os argumentos estão sempre centrados no indivíduo, na pessoa, no desenvolvimento pessoal, em aspectos da personalidade dos participantes das atividades. Neste grupo não se observa uma sobre os métodos preocupação maior com o desenvolvimento da coletividade na de atuação qual aqueles indivíduos estão inseridos. Em alguns casos é “Partindo dessa relação eu-comigo e mesmo difícil vislumbrar a coletividade mais ampla, porque os jovens do local já foram “catalogados” como advindos eu-com-o-outro, a ação desenvolvida de situação de risco, como ocorre numa unidade da Febem, se pauta na construção de processos por exemplo. Reconstruir uma identidade fragmentada, coletivos de reflexão e ação sobre temas desestruturada, passa a ser a meta inicial, no argumento dos educadores que preencheram os formulários. Trabalhar o sociais e comunitários contemporâneos, indivíduo no próprio grupo e nas condições em que ele vive mas articulados ao próprio cotidiano naquele momento é a etapa complementar, pois a identidade de das crianças e adolescentes.” cada um está dilacerada e precisa ser reconstituída. O foco privilegiado no indivíduo também se faz necessário quando se trata de projetos no campo da saúde – no trabalho com crianças com câncer, por exemplo. São grupos de indivíduos fragilizados por uma dada situação. A tarefa é fortalecê-los, ajudando-os a se integrar no grupo, na família, na comunidade, de modo a viver sua situação não como um drama ou uma desgraça, mas um momento especial. O segundo eixo, formação para o trabalho, focaliza os participantes como elementos de um grupo que tem de aprender a trabalhar de forma coletiva, priorizando uma demanda, um problema ou um bem sociocultural da comunidade. Assim como no primeiro eixo, o trabalho inclui o desenvolvimento de valores morais, mas essa não é a única preocupação ou a maior delas. O objetivo central é prepará-los para o mercado de trabalho, por meio do ensino de uma habilidade específica – a arte da cerâmica, por exemplo, ou o domínio da informática. Capacitar técnicos e artistas para atuar como especialistas em áreas como o audiovisual, exercitando a produção de documentários sobre Magna Silva Fernandes – Projeto Famílias Reunidas – Fortaleza, CE 35 comunidades excluídas e/ou periféricas, são também alvos deste eixo. A temática do empreendedorismo, do ponto de vista de fomentar nos jovens ações voltadas para a geração de trabalho e renda, de modo a contribuir no incremento da economia familiar, também é uma constante. Há a preocupação com trabalhos que criem perspectiva de sustentabilidade, como o estímulo à reutilização de garrafas PET, para que gerem ações multiplicadoras, por meio de cooperativas, por exemplo, ou desenvolvam um núcleo de produção e/ou formação individual de profissionais para a geração de renda. Registre-se, entretanto, que a maioria dos que atuam segundo este objetivo não faz uma justificativa meramente instrumental. A inclusão social, a reconstrução da memória de tradições culturais, de uma técnica do fazer artístico ou de uma modalidade de artesanato também estão presentes. Inscreveram-se ainda no eixo relativo ao mercado de trabalho propostas que pretendiam sensibilizar jovens para uma dada profissão. O terceiro eixo, coletivizante/comunitário, toma a comunidade ou o 36 grupo de pertencimento dos participantes das atividades como objetivo central. A solidariedade é fundamental nas ações desenvolvidas, pois é o amálgama da rede que se busca construir para atingir o objetivo. As temáticas que estruturam o eixo são: ! levar algum tipo de arte para a comunidade; ! preservar a memória de um local, grupo ou tradição cultural; ! formar público e platéias para as atividades; ! usar a linguagem não-formal falada pela própria comunidade no desenvolvimento dos trabalhos; ! inserir socialmente os indivíduos na comunidade; ! conscientizar os pais quanto às necessidades de seus filhos; ! criar multiplicadores de idéias, conceitos e práticas de desenvolvimento sustentável; ! formar multiplicadores de uma determinada arte – a dança, por exemplo. O patrimônio imaterial de um grupo social ou uma dada comunidade é sempre destacado. A diferença em relação ao item anterior é que não se prioriza a profissionalização daqueles que atuam ou a geração de renda. Outra projeto de teatro com jovens de Salvador (leia a respeito do projeto sobre os objetivos Silêncios Sentidos no volume 1 desta série). Representações “Que [os jovens] descubram em cada teatrais e desenho são as linguagens utilizadas para atingir gesto transformador de um material temática assinalada neste eixo é a do desenvolvimento da consciência em relação aos problemas sociais, tais como a violência sexual contra crianças e adolescentes, matéria de um os objetivos propostos. Destacam-se também os objetivos de criar e desenvolver espaços de lazer, cultura e recreação nas comunidades locais. simples (papel, lápis, tinta, fotografia etc.), em uma página de livro, em cada roteiro de história criado em roda, O eixo socializante trata os indivíduos como parte de um grupo e procura fazer a conexão entre indivíduo e sociedade. As temáticas que surgem são: ! inserção no contexto social; ! desenvolvimento de atividades (geralmente artísticas) com os jovens, para que eles adquiram maneiras de conhecer o de forma coletiva – muitas vezes longamente debatido –, a força transformadora de um exemplo de generosidade, em que uma pintura mundo; ou imagem autoral passa a ser uma ! pesquisa em arte-educação; página num volume construído ! formação de cidadãos com visão crítica do mundo; ! oportunidade de conhecer a arte como uma forma de livre coletivamente, que posteriormente expressão; vai passar pelas mãos de pais, irmãos ! uso da arte como ferramenta de transformação social; e pessoas que eles nem conhecem, ! conhecimento do processo econômico e de industrialização por meio do ensino da história da arte; ! e que ao encontrarem-se com aquele reflexão a respeito do contexto em que se vive para objeto livro vão acabar por aproximar-se melhor aproveitamento intelectual e das oportunidades mais de outros livros, e assim descobrir e existentes ao redor. Essas temáticas envolvem ações como implementar modelos de gestão comunitária que contemplem a autonomia dos jovens, respeitar a diversidade cultural, estimular a participação sociopolítica e comunitária e o desenvolvimento de práticas cidadãs, envolver os jovens em espaços de participação, debate e reivindicação de direitos, estimular os grupos de comunidades carentes socioeconomicamente a se fortalecer e sentir-se parte se incluir na grande aventura do saber.” Marcus Vinicius Pereira – Fundação Orsa Criança e Vida – Carapicuíba, SP 37 sobre os preconceitos da cidade etc. Desconstruir imagens negativas e estereotipadas valendo-se da reflexão crítica, por meio da apropriação de novos significados à linguagem audiovisual, por exemplo, transmitida via diferentes mídias, é um objetivo relevante deste “Os ‘pré-conceitos’ ou a lógica do eixo. Instigar os participantes ao valor da pesquisa, ou da fracasso podem ser superados a leitura, e orientá-los para o desenvolvimento de um olhar partir da ampliação de repertórios inquiridor, dialogando com os textos e os contextos em que se inserem, é outro destaque. e do olhar frente ao mundo e à sua realidade, possibilitando o posicionamento do educando como objetivo o envolvimento e a formação de seu público-alvo, não apenas por meio da transmissão de uma técnica que poderá enquanto sujeito de direitos contribuir para sua profissionalização futura, mas pelo e cidadão do mundo.” desenvolvimento de ferramentas de gestão, avaliação e Carolina Proetti Imura – Instituto Sou da Paz – São Paulo, SP 38 O quinto eixo, formação do educador, destaca-se por ter sistematização das atividades – para que os participantes se tornem futuros educadores e transmissores de conhecimento. Os objetivos sempre assinalam a preocupação com a pesquisa, por exemplo, sobre o perfil dos adolescentes e sua relação com o contexto histórico da infância e adolescência no Brasil, visando a estimular a autoconsciência crítica. O desenvolvimento de metodologias de trabalho para a formulação de políticas públicas voltadas à juventude também é um objetivo registrado pelos inscritos caracterizados neste eixo. Trata-se de um grupo minoritário de propostas, composto por educadores de cinco entidades, dentre as 11 que têm como parte do nome os termos grupo, núcleo ou centro de formação. Algumas dessas instituições contam com profissionais que já tiveram experiência em secretarias e entidades de pesquisa; os educadores inscritos possuem ensino superior e mestrado. Suas trajetórias de estudo e trabalho em outros projetos sociais provavelmente foram o que lhes forneceu a capacidade de analisar criticamente as experiências passadas e atuais, e ter alguma clareza quanto ao papel que desempenham como formadores de valores nos grupos em que atuam. O ponto comum das proposições é a busca por incluir socialmente os grupos com os quais trabalham, por meio do desenvolvimento de valores humanistas. Projetos que fazem referência a uma formação crítica dos participantes, ou seja, que pretendem estimulá-los a refletir a respeito de si próprios e de seu cotidiano, a politizar-se para entender o mundo em que vivem e situar-se nele, são minoritários – o que causa surpresa, se considerarmos que a consciência crítica é fundamental para a formação de cidadãos articulados. Independentemente do tipo de instituição, do campo de trabalho e dos objetivos dos educadores, há um clichê bastante mencionado: auto-estima. Esse termo desempenha o papel simbólico de um “certificado de garantia” de que a ação social coletiva é bem-intencionada. Muitas vezes é a chave para se apresentar como uma proposta moderna, em trabalhos de natureza mais assistencialista, todos bemintencionados, mas sem uma preocupação maior de contribuir para a emancipação dos sujeitos atendidos. 39 Principais dificuldades destacadas pelos educadores Neste tópico também podemos observar alguns eixos, que • território – da cidade e da comunidade; sobre as dificuldades • famílias; “A maior dificuldade é captar nos ajudarão a situar as dificuldades: • políticas públicas; • instituições-suporte; • equipes de trabalho; recursos para implantar o projeto. • o próprio educador; Depois é vencer a desconfiança • o público participante do projeto. da comunidade, que tem vivido No plano das políticas públicas, as temáticas mais citadas são ausência, descontinuidade, falta de planejamento, apoio financeiro de baixo valor, não-promoção de parcerias, existência de poderes paralelos ao estatal, sobretudo o tráfico de drogas etc. sucessivas promessas não cumpridas, vários projetos de fachada.” Leila Maria da Silva Barboza – Isata – Cabo Frio, RJ A falta de apoio de outras instituições, até mesmo as que se localizam no próprio bairro, foi bastante citada. Isso denota dificuldade de atuar em redes – estrutura moderna e fundamental no mundo contemporâneo No caso dos territórios, destacam-se a falta ou subutilização de espaços físicos para o desenvolvimento das atividades. Nas famílias, as dificuldades giram em torno das condições socioeconômicas e da vulnerabilidade a que estão expostas, assim como dos baixos níveis de compreensão das propostas na área das artes. Falta uma cultura política que capte as artes como formas de expressão do ser humano, 40 tão importantes quanto a roupa ou os alimentos. Falta uma cultura de valorização das raízes culturais do povo brasileiro – o que leva aos estigmas e ao preconceito, por exemplo, em relação aos repertórios da cultura afrobrasileira, por parte de algumas famílias de jovens atendidos em projetos que abordem esses repertórios. A expectativa das famílias também é um dado relevante: há registros de pais e mães que esperam que as atividades desenvolvidas nas instituições sejam uma extensão da escola para suprir as dificuldades de aprendizagem dos alunos – e os objetivos do projeto podem ser complementares aos da escola, mas não uma extensão, uma continuidade para tapar buracos. As instituições também respondem por dificuldades no trabalho cotidiano do educador, porque muitas delas são frágeis em termos econômicos ou organizacionais, trabalham com projetos de curto prazo, têm visão assistencialista, dependem e contam com o trabalho voluntário como uma missão humana, não criam espaços para a reflexão e o planejamento das atividades e preocupam-se apenas com os números de atendidos a fim de justificar ou embasar seus relatórios e pedidos de apoio financeiro. Nesse cenário, as fragilidades se evidenciam na dependência que os projetos possuem em relação a transporte, material permanente, recursos para a compra de material etc. A falta de apoio de outras instituições, até mesmo as que se localizam no próprio bairro, foi bastante citada. Isso denota dificuldade de atuar em redes – estrutura moderna e fundamental no mundo contemporâneo. Embora haja inúmeras parcerias de sucesso com escolas formais, ou trabalhos que visam a contribuir para a melhoria do desempenho do aluno na escola, em alguns casos os projetos encontram dificuldade nas relações com a escola local. A educação não-formal deve ser parceira da escola, atuando de modo complementar, e não em oposição, ou isoladamente. A baixa remuneração profissional é também citada como um empecilho – o que não é uma novidade. A novidade é o fato de os educadores não identificarem a estrutura necessária para o tipo de trabalho que realizam – direitos trabalhistas, por exemplo. Nota-se que a insatisfação conseqüente dessa falta de apoio material provoca geralmente uma grande rotatividade entre os 41 educadores, comprometendo a continuidade dos trabalhos. Esse problema, porém, diz mais respeito à instituição e ao modo de trabalho – geralmente por projetos que possuem período limitado – do que aos educadores propriamente ditos. No trabalho cotidiano com as equipes, a principal dificuldade enfrentada é a falta de debate e reflexões sobre a organização do trabalho cotidiano, a médio ou longo prazo. Algumas pesquisas acadêmicas sobre o terceiro setor têm mencionado a ausência de uma lógica na gestão das instituições, com algum grau de racionalidade, como uma das causas das dificuldades 5. Ocorre que esses estudos tomam o modelo empresarial, baseado na concorrência e na lógica do mercado, como exemplo para apontar as lacunas no campo do trabalho social. Como se trata de lógicas articulatórias distintas as que organizam os dois campos, não basta simplesmente aplicar as regras de gestão de pessoas e de pessoal de uma empresa em um centro social ou um instituto cultural. Isso não significa que eles devam operar sem regras, sem organização, BOSI, Mônica. Gestão de pessoas no terceiro setor. Dissertação de mestrado. São Paulo: Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo, 2004. 5 rotinas, procedimentos, planejamento – ou seja, sem nenhum grau de racionalidade. O que preconizamos é que as metodologias e os procedimentos devem ser distintos e específicos para o campo sociocultural porque não se estão produzindo mercadorias para venda, mas sim trabalhando e formando pessoas, cidadãos e cidadãs. Mesmo quando se trabalha com a produção de sobre as dificuldades nas escolas, é vítima de possíveis falhas em sua própria formação. “Outra dificuldade está relacionada Baixa qualificação profissional é um item bastante citado ou que à visão assistencialista impregnada 42 mercadorias – caso de algumas cooperativas, por exemplo –, o “produtivismo” não deve imperar como objetivo estratégico único, pois ele mata o caráter social e cultural do trabalho. O educador dos projetos inscritos, assim como o professor transparece nos depoimentos dos educadores, assim como pouco comprometimento com o trabalho voluntário, principalmente nos projetos educativos desenvolvidos quando o público destinatário tem alguma especificidade – por por muitas instituições. Os próprios exemplo, portadores de síndrome de Down. Falta de espírito de jovens já chegam à oficina com um entendimento de que a atividade será uma espécie de ‘terapia ocupacional’ para ‘tirá-los da rua’. Essa visão, muitas vezes, desqualifica o trabalho artístico desenvolvido pelo jovem e pelo próprio educador. É preciso reverter esse estereótipo e ressaltar, todo o tempo, que a oficina é um espaço de criação no qual cada um tem uma valiosa e equipe, pensamentos mecânicos e a perpetuação de estereótipos são outros sintomas que emergem dos depoimentos. Causa-nos certa surpresa um determinado trecho de um dos formulários – “ranço pedagógico e escolarizado” –, que nos leva a supor que o sujeito que emitiu essa opinião tem também uma visão estereotipada sobre as escolas, ou as toma pelo que têm de ruim e de desestruturadas. Na verdade, o diálogo entre a educação formal e a não-formal é bastante produtivo – desde que se preserve o espaço de liberdade que existe na educação nãoformal. Concordamos com um dos inscritos quando diz: “A liberdade é fundamental e faz da educação não-formal o lugar onde a inovação acontece com mais freqüência e frescor”. Um eixo recorrente nas respostas dos inscritos foi o das dificuldades com os participantes dos projetos. As temáticas singular contribuição.” desse eixo vão das de ordem pessoal – dificuldades econômicas da Ana Tereza Melo Brandão – Associação Imagem Comunitária – Belo Horizonte, MG ordem cultural e valorativa – não-entendimento da proposta, família, problemas de saúde, falta de tempo, desinteresse – às de pessimismo em relação à validade do trabalho, expectativa de receber algo pronto, dificuldade de participar da elaboração de algo, expectativa de comportamento mais dirigido por parte dos monitores/professores, desvalorização e descrença em si próprio por valores que assimilou e que se encontram arraigados na sua visão de mundo sobre as coisas. Ao trabalhar com elementos da cultura local, o educador encontra dificuldades para transmitir determinadas linguagens: muitas vezes há empecilhos técnicos tão complexos e difíceis quanto os que existem na educação formal. Por exemplo, instrumentos melódicos rústicos podem ser mais difíceis de tocar que instrumentos modernos, devido à imprecisão das escalas, exigindo mais tempo e dedicação. Isso implica projetos com períodos mais longos – teoricamente mais fáceis de existir na educação não-formal, em que o tempo não depende de um calendário escolar instituído por lei. Mas esses projetos são, também, muito mais difíceis de executar porque exigem todo tipo de recursos para poder se manter por períodos maiores. A expressão escrita dos educadores Uma última observação: a análise dos formulários nas questões abertas, qualitativas, fornece-nos não apenas dados de conteúdo, mas também da forma de expressão dos inscritos. Podemos observar, de um lado, dificuldades na escrita e na maneira de se comunicar ou de expressar os argumentos; simplificação ou excesso de detalhes nas respostas; por outro lado, observamse vários casos de fluência na escrita, reflexão e análise nos argumentos apresentados, e cuidado na forma de construir e expressar as frases. O instrumento para viabilizar a escrita também denota diferentes tipos de capital (social, cultural e econômico) dos inscritos e diferenças marcantes entre as instituições. Vários questionários foram preenchidos por digitação, incluindo quadros e anexos sobre suas instituições. Mas a maioria foi manuscrita; alguns questionários evidenciam o cuidado de fazer tudo em letras de forma, outros possuem “garranchos” e respostas bem curtas. Erros de gramática e de digitação de vários tipos se apresentam. Em síntese, a simples leitura dos formulários nos leva a hipóteses sobre o grau de domínio da língua portuguesa, a habilidade de comunicação e expressão e o universo cultural dos educadores (valores, visões de mundo, noções, idéias e ideologias, experiências avaliativas etc.). 43 As instituições Tanto nas instituições novas como nas antigas, predominam programas de inclusão social. A arte é o foco central ou o meio para viabilizá-la O primeiro elemento a destacar no conjunto das 221 entidades é a diversidade de instituições a que se vinculam os inscritos no Programa Rumos, assim como a variedade de suas áreas de atuação. Iniciamos a análise desse universo pela nomenclatura que as define. Nomenclatura Nem todo o universo das instituições pertence ao chamado terceiro setor, embora ele seja hegemônico. Temos escolas públicas (estaduais e municipais), uma universidade e três secretarias de estado (de um mesmo estado e de uma mesma cidade). O termo predominante nos nomes das instituições é “associação”, de diferentes naturezas: cultural, recreativa, beneficente, caritativa, de cooperativas, de amigos de um dado museu ou clube. Há uma associação específica de mulheres. Predominam as “associações beneficentes”. Dentre as 221 entidades, 58 autodenominam-se “associações”. O segundo termo predominante no nome das instituições, com 25 ocorrências, é “centro” – cultural, educacional, voltado para doenças específicas ou para crianças e adolescentes. Há um centro de cultura negra, outro de apoio a trabalhadores rurais, 46 outro de hemofílicos. As modernas organizações do terceiro setor estão, na sua maioria, nos “institutos” (ligados a empresas, bancos, redes comerciais, ambientalistas etc.). O termo “fundação” faz parte também desse bloco, mas não é dos mais comuns. Há ainda um conjunto grande de instituições que adotam nomes específicos, ou porque inscrevem no nome sua identidade (trabalho com blocos de carnaval, rádios educativas, Teatro do Oprimido, escolas de balé etc.), ou porque escolhem um símbolo que represente suas demandas (o nome de uma flor, um animal, uma região geográfica etc.). As entidades mais tradicionais, que adotam práticas de fundo assistencial, denominam-se “obra social”, “legião”, “ação social”, “casa assistencial” ou “lar”. Destaque-se, entretanto, que um grande número de “associações” também possuem esse perfil tradicional. Causou-nos surpresa o baixo número de entidades que se denominam “ONGs”: apenas duas. Entretanto, várias entidades denominadas associações se identificam como ONGs, pois, ao citar o nome do coordenador/dirigente, usam a denominação “ONG patrocinadora”; ou, ao descreverem as atividades realizadas, dizem “a nossa ONG”, a exemplo de uma OSCIP (organização da sociedade civil de interesse público). As instituições mais voltadas para o mundo do trabalho denominam- Uma importante frente de trabalho da educação não-formal é a questão das diferenças culturais e o respeito à diversidade cultural dos povos 47 se “oficinas”. Uma só entidade foi encontrada com o nome de “sociedade de amigos do bairro” – talvez porque esse nome seja comum no estado de São Paulo, principalmente na capital paulista, mas desconhecido em outras regiões, onde entidades de moradores denominam-se “associações de amigos”, “associações comunitárias”, “uniões de bairros”, “uniões de vilas” etc.6 Entretanto, se considerarmos que o maior percentual de inscritos localiza-se em São Paulo, capital, e só uma sociedade desse gênero se inscreveu, somos levados a concluir que as sociedades de amigos de bairro mais tradicionais provavelmente não estão muito engajadas ou interessadas em desenvolver projetos socioculturais e educativos, nem têm a representatividade e importância que já tiveram no passado – quando freqüentemente eram a única voz em qualquer atividade coletiva que ocorria nos bairros populares periféricos. Algumas nomenclaturas usadas no início do século XX, Vide GOHN, Maria da Glória. Teoria dos movimentos sociais. 4. ed. São Paulo: Loyola, 2005. 6 principalmente pelo movimento operário da época, também foram registradas. São os “círculos de cultura de trabalhadores”, bastante comuns no início do processo de industrialização, formados por operários imigrantes, sob a influência de ideologias anarquistas; o “educandário”, tradicional destino de crianças órfãs; as “sociedades artísticas”, heranças da Semana da Arte Moderna e de padrões europeus; e os já citados “lares”, geralmente patrocinados por entidades religiosas, para abrigar crianças pobres. Os termos “núcleo”, “grupo” ou “centro de estudo” – bastante utilizados no meio acadêmico para designar grupos de pesquisas – tiveram 11 ocorrências. Alguns se dedicam a uma 48 Não basta localizar uma região carente ou próxima da sede da entidade. Instituições que promovem atividades socioculturais têm que conquistar e formar seu público-alvo atividade artística específica, como a capoeira ou o hip-hop, ou a um dado autor, como Vygotsky. Outros se dedicam a temáticas que caracterizam as formas modernas de associativismo no Brasil, abordando questões de gênero, sexualidade, faixa etária, raça/etnia e necessidades especiais. Na área da educação formal, inscreveram-se 17 instituições, que abrangem um leque que vai da educação infantil (creche) ao ensino superior (num projeto relativo a rádio comunitária), passando pelo ensino fundamental e superior público. Uma biblioteca, uma associação de pais e mestres e um CEU (centro educacional unificado) compõem o cenário. surpresa: o pequeno número de entidades que se apresentam sobre as instituições como “movimentos”. O termo “movimento” é utilizado “Apesar do engajamento gradativo atualmente no linguajar dos participantes dos projetos de artistas e educadores atuando Algumas das instituições registram-se como “projetos”, uma vez que a atividade desenvolvida caracteriza a instituição como um todo. Um outro destaque, que não foi propriamente socioculturais mais como sinônimo de ativismo e mobilização de protagonistas do que de movimento social propriamente dito. através da educação não-formal, Quatro instituições adotavam esse termo, e duas outras se ainda há uma resistência e visão autodenominavam redes de movimentos. Esse número reduzido preestabelecida ou até mesmo indica-nos que os movimentos sociais populares não atuam muito no campo da cultura e das artes, embora tenham grande estereotipada das instituições de presença no campo da moradia, da saúde e do trabalho, tanto ensino que atuam nas áreas de arte na zona urbana como na rural . e educação. Ainda se mantém a visão 7 Alguns registros isolados chamam-nos a atenção, como a inscrição de uma proposta pela polícia militar. Trata-se de um dado particularmente interessante, porque o tema da violência, principalmente na zona urbana, é prioritário na vida dos cidadãos brasileiros. Nos grandes centros metropolitanos a situação é grave. de educação e arte como restritas às paredes da sala de aula e dos ateliês.” Eduardo Cômodo Valarelli – Projeto Carmim – São Paulo, SP Essa inscrição pode ser um reflexo da preocupação da polícia militar em atuar preventivamente e promover a conscientização em relação ao crime, às drogas e às contravenções em geral, e não apenas em combatê-los. Data de fundação Esse dado apareceu esparsamente em alguns relatos (o registro mais comum refere-se ao período de desenvolvimento do projeto inscrito). Observa-se a presença de entidades muito antigas – uma creche fundada em 1914 em Campinas, por exemplo, ou entidades criadas nos anos 1940, 1950 e 1960. A maioria, entretanto, dentre os que mencionaram a data de fundação, indica-nos que elas foram criadas a partir dos anos 1990. Vide GOHN, Maria da Glória. “Associativismo em São Paulo: novas formas de participação no planejamento urbano da cidade”. In: NUNES, Brasilmar Ferreira (org.). Sociologia de capitais brasileiras: participação e planejamento urbano. Brasília: Líber Livro, 2006. pp. 129-178. 7 49 Diversas instituições se destacam por fugir do foco exclusivo na assistência Coordenador responsável O responsável pela instituição é muitas vezes um professor universitário ou um educador aposentado. Em dez casos, os educadores inscritos são também os presidentes das instituições. Área de atuação e temáticas abordadas nas instituições O Programa Rumos faz, a priori, uma pré-seleção temática ao destacar a arte, a cultura de modo geral e a educação. Ao incluir no formulário a questão “Por que escolheu trabalhar com crianças e/ou jovens de baixa renda e/ou em situação de risco?”, demarcase um recorte baseado em dois critérios: faixa etária e nível socioeconômico. Não obstante, pode-se observar, no conjunto das instituições inscritas, uma amostra bastante representativa das formas de associativismo existentes na sociedade civil no Brasil. Tanto nas instituições novas como nas antigas, predominam programas de inclusão social. A arte é o foco central ou o meio para viabilizá-la. Na análise dos nomes, já destacamos a hegemonia das instituições organizadas nos moldes assistenciais. Um terço das “associações” já se apresenta no próprio nome como associações filantrópicas. Se agregarmos a esse número as 16 obras sociais, os 3 lares, as 10 casas assistenciais e outros nomes tradicionais, chegamos a 50 entidades. Ou seja, quase um quarto do total de instituições inscritas. Segundo Lavalle: [...] as entidades assistenciais exercem fundamentalmente trabalhos de prestação de serviços e assistência direta ao público para o qual trabalham. Suas feições distintivas são pacíficas na literatura, onde costumam aparecer sob combinações com ênfases diferenciadas de quatro elementos recorrentes: ethos cristão, prestação de serviços de índole assistencial, atendimento dos segmentos mais vulneráveis da população e financiamento provindo do setor privado, não raro mediante a figura da fundação empresarial. 8 As áreas de trabalho dividem-se entre sociais (programas de apoio a crianças, jovens, adolescentes, idosos, mulheres, minorias etc.), prestação de serviços à comunidade (principalmente na área da saúde), projetos culturais e socioeducativos, apoio econômico (programas de geração de renda) e defesa de bens e patrimônio 51 material ou imaterial. Encontramos poucas instituições que atuam diretamente sobre a temática do meio ambiente. Ela aparece de forma paralela e complementar nos trabalhos com a reciclagem de materiais de sucata, por exemplo, ou em alguns programas criados em função da defesa de algum rio, córrego ou mata, desenvolvido com alunos de escolas. O tema do combate às formas de violência existentes no Brasil atual se manifesta de três maneiras diferentes: 1. O projeto como um todo atua em áreas que apresentam altos índices de violência (a maioria das entidades que trabalham nessas zonas de risco, favelas principalmente, enfrenta dificuldade para desenvolver seu projeto justamente porque concorre com as forças organizadas do crime e com as drogas para capturar a atenção dos jovens); 2. Tendo em vista uma modalidade de violência, por exemplo, exploração sexual, trabalho infantil etc.; LAVALLE, A. A. G., CASTELO, G. e BICHIR, R. Redes, protagonismos e alianças no seio da sociedade civil. 30 o Encontro Anual da Anpocs, Caxambu, 2006. 8 3. Focalizando o tema da paz, atuando como formador de uma cultura da não-violência, reconstruindo valores que contribuam para novas mentalidades e novas formas de encarar o cotidiano. Nesses casos, pressupõe-se que a violência não é só física e nem se localiza apenas entre as camadas mais pobres. Ela está disseminada na cultura moderna. A criação e/ou a restituição de valores e comportamentos que reconstruam um modo civilizatório é o que está em pauta. Linguagens utilizadas e formas de atendimento No universo das formas de expressão e das linguagens artísticas, o teatro e a dança se destacam como experiências freqüentemente bem-sucedidas, por seu poder de envolvimento e interação dos participantes. Alguns projetos fazem conexão 52 com a escola local no sentido de serem um reforço para o desempenho escolar. Nesses casos, as instituições também fazem apresentações nas escolas locais. Há muitos projetos na área da música, com predomínio de gêneros contemporâneos, como o hip-hop em suas diversas modalidades (rap, break etc.). Não encontramos muitos registros de instituições com ênfase na música brasileira, popular, clássica ou contemporânea – um campo da cultura que distingue e caracteriza a própria identidade brasileira. Essa modalidade aparece no resgate de algum gênero, instrumento ou técnica tradicional ou antiga (banda de pífanos, orquestra de berimbaus, banda marcial e fanfarra, por exemplo), ou em um coral de escola. Houve também registros de oficinas com aulas teóricas e práticas sobre música, para instrumentos como a flauta, mas que eram apenas uma das atividades da instituição; ou um projeto Jovens brilham em apresentação desenvolvido num colégio comunitário. Em um dos relatos, a do Ballet Stagium. educadora descreve que os alunos não se interessavam pelas aulas regulares das outras disciplinas. O trabalho com percussão, canto e outros instrumentos a partir de canções populares propiciou um envolvimento tal que até as famílias colaboravam para ajudar os filhos a aprender as letras das canções. Um exemplo cristalino das sobre a arte e as formas possibilidades da música como um veículo de integração e, de expressão portanto, de formação de crianças e adolescentes. “Penso que a arte nos proporciona a O desenho, a pintura e a fotografia também estão muito presentes nos projetos citados. Dignos de nota são os projetos possibilidade de construir a nós mesmos sobre a língua portuguesa, fundamental para a formação de em um corpo que não é o nosso, pelo cidadãos e para o desenvolvimento da capacidade de expressar-se. menos não literalmente; um corpo A produção de textos, bem como o estímulo à leitura (romances, lendas, literatura de cordel) numa sociedade marcada pela metafórico, mas ao mesmo tempo oralidade e pelos meios visuais de comunicação, são um trabalho material e ruidoso, que possa mediar instigante e que deveria ter mais apoio. No conjunto das os valores que o público traz e o que instituições, observa-se que aquelas que apresentam projetos com uso de vídeo, cinema e informática, por exemplo, tendem a ter uma procura e um interesse maiores. Projetos no campo das brincadeiras e dos jogos, como a batalha naval, o dominó popular e outras formas de vivência do mundo infantil, também constaram das atividades inscritas, reforçando a importância da ludicidade, bastante citada nos projetos. Muitas instituições que promovem atividades socioculturais têm que conquistar e formar seu público-alvo. Não basta localizar uma região carente ou próxima da sede da entidade. A escola, as igrejas e as estratégias como aulas-espetáculo são meios e veículos para despertar a confiança na instituição e o interesse pelo projeto. Muitas vezes, após algum tempo, ou depois da apresentação de algum espetáculo, atividade ou produto do grupo fora da comunidade, o problema inverte-se – criam-se filas de espera para a participação nos programas. O espaço onde as atividades são desenvolvidas também fornece elementos para a análise da forma de atendimento. Nem todos possuem sedes ou locais adequados. Dependências de escolas, circos, teatros, espaços cedidos por alguma obra social, sedes de ONGs parceiras, salões paroquiais de o objeto propõe, gerando um terceiro valor, o bem cultural.” Marcus Vinicius Pereira – Fundação Orsa Criança e Vida – Carapicuíba, SP 53 sobre a arte e as formas de expressão “É aqui que entra a dança, como expressão artística, como instrumento de autoconhecimento e que complementa e amplia as possibilidades educacionais das meninas.” Débora Ribeiro Cabral Domingues – Centro Social São José – São Paulo, SP igrejas, salas do Conselho da Criança e do Adolescente, praças públicas, ruas, hospitais e até restaurantes são utilizados. Em alguns casos, a natureza do projeto determina o local – como os da área da saúde. Mas a conquista dos espaços não é fácil: são necessárias interações e negociações até que haja a aprovação para o projeto se realizar em dado local. Os objetivos das instituições Na maioria dos casos, os objetivos estão inscritos no próprio nome da instituição, predominando o eixo assistencial, como já assinalamos. Mas diversas instituições se destacam por fugir do foco exclusivo na assistência. Elas têm alguns objetivos mais específicos expressos, como “construir tecnologia social de educação para o desenvolvimento humano pela arte”, “ensinar a ensinar”, “ensinar a observar, pensar, questionar”, “estimular a 54 construir sua própria história”, “descobrir sonhos e desejos” ou “conscientizar a respeito dos direitos do cidadão”. Resta destacar no perfil e nos objetivos das instituições o aspecto religioso. Muitas são da área confessional, predominando a religião cristã católica (nota-se pelo uso do nome de santos no próprio nome da instituição ou das paróquias onde atuam). Mas há também entidades espíritas, e ainda cultos africanos, trabalhados como elementos culturais. Neste último caso, a demonstração do preconceito vem à tona – pais que confundem candomblé com magia, ou segmentos religiosos locais que criticam atividades musicais com berimbau, por exemplo, associando-as a “magia negra”, conforme o relato de um educador. Descortina-se aqui uma importante frente de trabalho e de oportunidades para a educação não-formal: lidar com a questão das diferenças culturais, com o respeito à diversidade cultural dos povos. Instituições parceiras Alguns inscritos registraram a ocorrência de parcerias para o desenvolvimento de atividades cotidianas com os seguintes tipos sobre a arte e as formas de instituição: outra entidade da própria comunidade, de expressão departamentos específicos de universidades públicas localizadas “As artes visuais constituem um na cidade da instituição (essas parcerias geralmente se concretizaram a partir da iniciativa individual de um professor que modo singular de conhecimento, avaliou a instituição ou ministrou palestras ali) e entidades interpretação e intervenção que governamentais. possibilita ao educando promover, Como parceiros das entidades, destacam-se entidades privadas e do terceiro setor, instituições governamentais e pelas vias da visão, infinitas formas entidades de matrizes religiosas. Cooperativas de artesãos, de leitura de uma mesma realidade, associações voluntárias e cooperativas de catadores e recicladores de um mesmo mundo. Através do de papel, papelão etc. também constam como parceiras dos projetos inscritos. Pode-se observar ainda que a maioria dessas desenho, da pintura, do mosaico, da entidades é brasileira, embora algumas instituições contem com modelagem e da escultura, o educando, apoio da cooperação solidária internacional. valendo-se de sensibilidade e A parceria das entidades com escolas da região, que cedem espaço para apresentações dos projetos culturais (bandas, teatro, criatividade, realiza construções dança etc.), ainda que ocasionais e não fruto de trabalhos simbólicas que favorecem o planejados e mais duradouros, é de grande relevância, porque vai redimensionamento do mundo real, ao encontro do fato que preconizamos no início – a articulação da educação não-formal com a formal. Essa articulação introduz questionando-o, transcendendo-o, artistas populares nas escolas – mestres de bandas de pífanos, por dando-lhe novos significados e exemplo –, ajudando a promover a cultura desses artistas junto propondo novos desafios.” aos alunos. As parcerias não existem apenas em função do apoio financeiro. A divulgação, o trabalho conjunto, a cessão de espaço físico e o apoio à infraestrutura para uma atividade são citados em vários casos. Amábile Selvati Marchesi – Secri (Serviço de Engajamento Comunitário) – Vitória, ES 55 O público participante M Em alguns casos, os participantes se interessam por culturas que não necessariamente dizem respeito à sua comunidade O público-alvo participante nos projetos inscritos foi caracterizado nos formulários como pertencente sobretudo às camadas populares e aos grupos mais vulneráveis, ou em situação de risco, que habitam zonas urbanas desfavorecidas. Alguns inscritos descreveram esse público como “jovens, sem preparo profissional, expostos a situações de risco, membros de famílias com desajustes familiares e com defasagem na escola”. Outros destacaram o mosaico de situações econômicas e culturais envolvidas, especialmente os que atuam em entidades das áreas de saúde, manifestações culturais e direitos sociais (de mulheres, indígenas, afro-descendentes), instituições de estudo e pesquisa e projetos de reconstrução de memória ou preservação de bens históricos materiais ou imateriais. A faixa etária do público-alvo predominante é de crianças, adolescentes e jovens. Em alguns casos, pessoas de todas as 58 idades participam dos projetos, ainda que a maior parte sobre o público geralmente seja formada por jovens. Observa-se que os educadores costumam adotar a nomenclatura da educação formal como parâmetro para denominar os participantes das atividades, freqüentemente chamados de “alunos”. Mas não estão equivocados por chamá- participante los assim. Segundo o dicionário Aurélio, “aluno” vem do latim “A partir do momento em que o alumnu, que significa “aquele que é dado para criar”; de acordo indivíduo volta-se para si mesmo, ele reorganiza-se internamente, reconhece-se, e, a partir do momento em que produz algo seu, conscientiza-se de sua capacidade.” Graziela Trefiglio Mancini – Centro de Educação Especial Síndrome de Down – Campinas, SP com o dicionário Houaiss, aluno é “aquele que foi criado e educado por alguém, aquele que teve ou tem alguém por mestre ou preceptor; educando”. No que diz respeito ao gênero e à etnia, a maioria do público participante dos projetos é composta por turmas mistas. Há, entretanto, projetos com públicos específicos, tais como comunidades indígenas e populações quilombolas. Em outros casos, os participantes se interessam por culturas que não necessariamente dizem respeito à sua comunidade. O grau de escolaridade do público atendido foi pouco mencionado nos formulários. A exceção ficou por conta dos casos de instituições que atendem a crianças e jovens de determinadas escolas. Essas instituições costumam ter uma sobre o público estrutura mais sólida porque acolhem as crianças ou os jovens participante com mais regularidade, sempre no período do dia complementar “As experiências de vida trazidas pelos ao horário da escola. Em relação a interações diretas entre o trabalho desenvolvido adolescentes do grupo também servem pelas instituições inscritas e as escolas formais dos bairros onde de material para discussão e análise, atuam, há vários registros de melhoria no desempenho escolar, em que aprendemos uns com os outros. sempre advindos de informações de mães de alunos; e de alunos que foram “requisitados” (expressão de uma educadora) para O educador não é o dono da verdade e realizar apresentações artísticas nas escolas, auxiliando aulas de sim um mediador dos conhecimentos do professores de artes e de português. Não é comum a existência grupo, que se diferem e se completam.” de planos de trabalho conjuntos entre os educadores nãoformais e os educadores das escolas formais, nos registros dos formulários. Os trabalhos existentes são ocasionais, articulados oralmente. O número do público atendido em cada projeto oscila entre 15 e 30 pessoas, sendo que a maioria dos casos possui ao redor de 30 participantes. O atendimento a um público maior é sempre citado como uma dificuldade pela falta de recursos – financeiros, humanos, físicos etc. –, e às vezes o público de apresentações e espetáculos é computado (nesses casos, há registros de até 12 mil pessoas atendidas). Quando o projeto é desenvolvido em turmas, vários dos inscritos anotaram o total dos participantes até a atualidade e não o número de cada turma. Em projetos com objetivos impactantes, tais como os que utilizam o Teatro do Oprimido, o grupo costuma trabalhar com um público reduzido, de cerca de dez jovens, embora alguns deles tenham iniciado com mais participantes. Trabalho e violência são citados como responsáveis pelo abandono de boa parte do público de alguns projetos. O registro de “alunos bolsistas” é ocasional, mas existe. Entretanto, a grande maioria daqueles que desenvolvem Flávio Santos da Conceição – CTO-Rio (Centro de Teatro do Oprimido) – Rio de Janeiro, RJ 59 Grupo ensaia os primeiros passos do jongo, sob a orientação de Renato Ihu. trabalhos com crianças e jovens nas áreas de educação e cultura assinalaram que a demanda não atendida é grande. Pesquisas e sondagens a respeito do público-alvo foram mencionadas por alguns dos inscritos. Como a contribuição dos participantes é decisiva para o desenvolvimento dos projetos, na maioria dos casos os trabalhos foram construídos por etapas, e cada etapa levava a novas descobertas e a novos rumos. Aliás, sair dos locais onde se vive ou onde é desenvolvido o projeto com o público participante é sempre citado como uma grande realização, com resultados muito positivos. Os projetos com instrumentos musicais, teatro, dança etc. não objetivam, geralmente, formar um profissional no uso do instrumento ou da linguagem de expressão artística. São meios para viabilizar trabalhos de inclusão que procuram resgatar a auto-estima, a cidadania e a autoconfiança, entre outros propósitos já mencionados. Mas, muitas vezes, talentos são descobertos ou despertados. Alguns projetos não têm público fixo – são oficinas com alta rotatividade. Outros têm o público demarcado por uma característica particular no desenvolvimento físico ou psíquico, como pessoas com dificuldades visuais, auditivas, psicomotoras etc. Os multiplicadores das idéias do projeto na comunidade formam-se durante as atividades e as disseminam mesmo após seu término. A confecção de um artesanato ou objeto artístico que despertou atenção, por exemplo, pode ser continuada por pais de participantes, como ocorreu em um dos projetos, ou por outros integrantes da comunidade, para gerar renda extra. O aspecto de aprendizagem de uma habilidade está presente em inúmeros casos. A mentalidade do empreendedorismo se instala quando a curiosidade vai além do mero desejo de conhecer a técnica e instiga a vislumbrar a possibilidade de gerar um bem, um produto dotado de valor comercial. Um outro indicador da repercussão do projeto na comunidade é o modo como ele reflete na própria escola – além dos depoimentos já citados de mães dizendo que o desempenho de seus filhos melhorou depois que começaram a participar dos projetos, há registros de alunos mais antigos ensinando técnicas de pintura ou confecção de produtos para os mais jovens. Alguns projetos destacam-se por disseminar saberes codificados e de acesso restrito para públicos mais amplos e formar multiplicadores desses saberes. 61 O entorno O entorno refere-se à comunidade, ente abstrato, mas que geralmente designa os limites do território de um grupo, bairro, instituição ou projeto social. Os projetos inscritos se desenvolvem, em sua quase totalidade, em áreas de moradia pobres e de risco social, marcadas pela exclusão. Nas grandes cidades, são zonas urbanas deterioradas – favelas, áreas periféricas ou bolsões de pobreza. Alguns projetos desenvolvem-se em regiões que já possuem estigmas de “territórios do mal”, tais como “polígono da maconha”. Em outros, os projetos convivem com traficantes e contraventores no mesmo território, tendo de “competir” com essas forças na busca pela adesão do jovem a seu programa (e pela continuidade nele). Outros projetos atuam na luta de combate ao trabalho infantil, tentando reconduzir crianças e adolescentes para a escola. 62 As áreas centrais das grandes cidades não tiveram muitos projetos inscritos. Cumpre mencionar que nessas áreas, em algumas cidades, como São Paulo, localizam-se os movimentos sociais populares urbanos mais organizados da atualidade. Tratase de movimentos que atuam na área da habitação popular e são Sair dos locais onde se vive ou onde é desenvolvido o projeto é sempre citado como uma grande realização – os participantes conhecem novos lugares e ganham inspiração e estímulo com jovens na zona rural. São projetos que trabalham com sobre o entorno educomunicação, como o desenvolvimento de uma rádio rural. “A partir do segundo mês do projeto, Alguns projetos “vão” para a zona rural esporadicamente, moradores (adultos e crianças) que formados por moradores de cortiços e prédios abandonados ou por pessoas que vivem nas ruas9. Embora em número pequeno, houve inscrições de projetos trabalhando com manifestações culturais como a Folia de Reis, o moçambique, a catira, a dança de são Gonçalo e a congada. Há inúmeros registros de apresentações em espaços da comunidade local – escolas, salões de idosos, praças, igrejas, associações comunitárias e outros lugares extramuros da instituição. Alguns projetos abrangem uma região – muito além das fronteiras do bairro. No Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, por exemplo, onde habitam 170 mil pessoas, 16 comunidades são incluídas num único projeto. Um destaque exemplar é a preocupação que existe em vários projetos com a recuperação da memória local, a história do bairro e de seus personagens. Além de reconstruir a identidade do lugar, esses projetos contribuem para desenvolver vínculos sociais e tecer redes de solidariedade entre os moradores. Os projetos que têm como proposta intervir na cena urbana, fazem parte do entorno da obra social que nos acolhe começaram a nos procurar, mostrando grande interesse em conhecer e participar das experiências que as crianças do projeto realizaram em suas comunidades. Organizamos então palestras e oficinas para pais, avós e professores da região, com o objetivo de mostrar a importância e o resultado do resgate da identidade.” Hélio Rodrigues de Souza – Obra Social Antonio de Aquino – Rio de Janeiro, RJ por meio de apresentações ou pela elaboração de grafites e artes plásticas, contribuem para a apropriação e ressignificação do espaço público. Há o caso de um projeto que trabalha com a pintura dos muros externos da escola local, ilustrando a história do bairro. Poucas informações foram registradas sobre a demanda da comunidade por determinado tipo de projeto, ou se houve alguma interação com os moradores para a definição das atividades. Os coordenadores e/ou o presidente da entidade são quase sempre os responsáveis por essa escolha. A maioria dos inscritos assinala que desenvolve metodologias participativas, registra, faz avaliações etc., mas há poucas referências à Vide GOHN, Maria da Glória. “Associativismo em São Paulo: novas formas de participação no planejamento urbano da cidade“. In: NUNES, Brasilmar Ferreira (org.). Sociologia de capitais brasileiras: participação e planejamento urbano. Brasília: Líber Livro, 2006. pp. 129-178. 9 63 sobre o entorno “Os educandos dão referências para outras pessoas da vila, como a internalização da disciplina como interação inicial, preliminar, no momento de escolha do projeto. A impressão que se tem é de que ele em geral é “levado” para a comunidade, e não “demandado”. Teoricamente, os resultados e as possibilidades de desenvolvimento e sustentabilidade de um projeto são bem diferentes nesses dois casos. Todos os projetos que objetivam revalorizar campos da cultura local ou trabalhar com eles acabam tendo algum tipo de impacto no entorno, sendo o maior deles o de caráter educativo – um hábito da vida e a melhoria forma-se um saber, desenvolve-se uma consciência. Observamos nos relacionamentos pessoais.” isso no registro de projetos que trabalham, por exemplo, com o Marilene Rodrigues dos Santos – Associação Querubins – Belo Horizonte, MG desenho de pássaros, comidas e frutas regionais, além de danças e manifestações artísticas. 64 Os multiplicadores das idéias do projeto na comunidade formam-se durante as atividades e as disseminam mesmo após seu término Percussão corporal com o grupo Barbatuques. Resultados a observar A gestão do processo poderia ser repassada como um conhecimento à comunidade local, para que se formassem pólos multiplicadores Como os projetos inscritos trabalham ou utilizam, de alguma maneira, expressões artísticas com grupos de camadas populares, o resultado inicial e mais visível são as aprendizagens que a habilidade artística fornece para o cotidiano e o mundo do trabalho. Arte e educação se entrelaçam, uma alimenta a outra. A arte ajuda a conhecer e transformar o mundo; a educação é o sobre os resultados o mundo da informação codificada, que será transformada em conhecimento. Alunos de teatro aprendem não apenas o desempenho da atuação, mas, a partir da representação de peças “O impacto é direto, levando à clássicas, por exemplo, ficam sabendo que as tragédias tratam ressignificação da história de vida das sempre dos chamados homens superiores – reis, príncipes, nobres adolescentes, possibilitando o sonhar e heróis. Já as comédias abordam dramas populares, e nelas se desenrolam farsas, sátiras, ações grotescas etc. de cunho político- como uma realidade mais justa e social. São processos de aprendizagem decorrentes da educação humana. Na medida em que as vivencial, presencial, nos dizeres de Mário Sérgio Cortella 10. A arte, atividades com artes plásticas e cênicas favorecem a autonomia e o protagonismo político, elas possibilitam também mudanças 68 caminho e o processo de trânsito do não-saber para o saber, para demonstram-nos cabalmente os projetos inscritos, é um poderoso meio de educação dos indivíduos, tanto para humanizá-los, como para constituí-los como cidadãos e cidadãs de um território. Uma outra aprendizagem relacionada à arte é a da construção de caminhos para a superação de preconceitos e o respeito às diferenças culturais e religiosas – um exemplo é positivas dos vínculos afetivos na o ensino da música pautado ao mesmo tempo por normas de família, na escola e na comunidade.” conduta da religião católica e dos indígenas de uma dada região. Maria do Socorro Andrade Lima – Centro Brasileiro da Criança e do Adolescente – Recife, PE A relação dialógica, não-formal, que se estabelece entre educador e educando favorece esse tipo de trabalho. Diversos relatos registram que, muitas vezes, o projeto possibilitou a crianças e/ou adultos sair pela primeira vez do bairro para ir ao centro, ou sair de suas cidades (caso de centros menores), ou entrar em um teatro, instituição de arte ou órgão público. Principais destaques Dentre os resultados já mencionados ao longo deste estudo, vale destacar: CORTELLA, Mário Sérgio. Contribuições da educação não-formal para a construção da cidadania. Palestra proferida no Instituto Itaú Cultural em 6 de dezembro de 2006. 10 • a construção de conteúdos ao longo do processo. Para alguns educadores, “a autonomia desenvolvida no interior do grupo de trabalho é a maior expressão do sucesso das estratégias adotadas”; • a cultura humanista, que é um fundamento básico da maioria dos projetos inscritos; • a valorização da cultura local, quer seja de uma tradição, instrumento musical ou linguagem artística, quer seja de histórias da região e dos moradores pioneiros da comunidade. Cenários físico-espaciais, como uma praça, podem se alterar de locais abandonados para espaços de convivência e manifestação da arte. A importância do saber dos indivíduos atendidos e da comunidade local é citada em inúmeros projetos. O resultado aparece nos relatos de recuperação de tradições esquecidas ou “acanhadas” diante de costumes modernos. A reconstrução de saberes pode ser também uma ponte na restituição de vínculos afetivos dentro das próprias famílias. Os mais idosos deixam de ser “caretas” e passam a ter algo para repassar para a “moçada”, ávida por criar mosaicos de manifestações culturais nas suas 69 maneiras de ser e atuar no mundo. Com tudo isso há uma revalorização do próprio ser humano no que ele tem de fundamental, que é sua forma de se expressar artisticamente e se comunicar. Desenvolvem-se também competências cognitivas, porque o pensar não se separa do fazer. A preocupação com a “autonomia do sujeito”, manifestada em alguns projetos, denota também a busca por mais um resultado positivo: o de valorizar a criação em detrimento da mera reprodução de um objeto, uma dança etc. Trata-se de uma diretriz fundamental para a construção do olhar e do pensamento críticos, um processo de emancipação dos indivíduos – que vale para qualquer idade, mas, quando desenvolvido na infância e/ou na adolescência, estabelece as bases para a formação de cidadãos. Isso se traduz no amadurecimento das relações interpessoais. O discurso contemporâneo das competências e habilidades está presente em várias das propostas inscritas. Em alguns casos Encontro de gerações entre pífanos e ela é vazia de significados, está posta para repetir chavões e dar tambores de Tacaratu. A preocupação com a “autonomia do sujeito”, manifestada em alguns projetos, denota também a busca por mais um resultado positivo: o de valorizar criação em detrimento da mera reprodução um ar moderno ao projeto. Mas, em outros, seu uso relaciona-se ao respeito aos direitos e deveres dos cidadãos, aos valores éticos e estéticos. Jovens deixam de ser vistos como “problemas” e passam a ser reconhecidos como promotores de transformações. 70 Multiplicando os resultados sobre os resultados sociais – por exemplo, numa praça pública, como já citado – e “Penso, portanto, que a principal causa contribui para a transformação da realidade do público atendido. do sucesso é o interesse dos jovens pela proposta e a disposição para o novo. Contudo, a manutenção do interesse e da participação deve-se à relação estabelecida entre educador e educando – pautada numa relação dialógica, de respeito e reconhecimento do saber mútuo.” Carolina Proetti Imura – Instituto Sou da Paz – São Paulo, SP A participação sociopolítica e comunitária, promovida a partir de projetos construídos coletivamente, leva a intervenções Resultados observados são melhorias urbanas, geração de renda para famílias, desenvolvimento e formação de cooperativas de artesãos. Os projetos que fomentam a participação cidadã dos jovens contribuem para o resgate da auto-estima, mas podem ir muito além, delineando projetos e trajetórias de vida. Há casos de adolescentes que moravam em abrigos e foram reintegrados às famílias. Dar continuidade aos projetos e produzir efeitos multiplicadores são os mais problemáticos gargalos das instituições que atuam com educação não-formal. Os projetos são datados. Para iniciarem, têm um tempo de espera (formulação do projeto, encaminhamento, aprovação, contratos etc.). Depois que termina o prazo, nem sempre são renovados automaticamente. E a maioria não contempla propostas de desenvolvimento auto-sustentável, quer dizer, se a entidade ou o educador saírem da região após o fim do projeto, nem sempre se forma um grupo local para continuar o trabalho. Até porque, em vários casos, o atendimento sobre os resultados ao público se faz a partir de habilidades específicas. A gestão do “O impacto se estabelece no resultado processo poderia ser repassada como um conhecimento à pessoal de aquisição e na transmissão comunidade local, para que se formassem pólos multiplicadores. Relatos registram o efeito multiplicador dentro da própria de conhecimento por parte dos instituição – alunos ou ex-alunos que passam a ser monitores, ou educadores, dos educandos e de seus ainda ex-alunos que se engajam em trabalhos em outras familiares. A arte é um meio oportuno instituições a partir dos conhecimentos adquiridos na primeira. Há registros também de repasse de conhecimento do modus operandi, já previsto no planejamento do trabalho. O reconhecimento do trabalho pela comunidade local é por si só um dos grandes indicadores de resultados. Ele aparece também na replicação do projeto em outras comunidades. Há de descobrir suas potencialidades, despertar a auto-estima e resgatar aspectos culturais importantes relacionados à história de suas vidas até mesmo casos de elaboração de leis a partir de experiências no contexto social do ambiente educativas não-formais. em que vivem.” Refletir e criar Guilherme Gadelha de Souza – Ação Comunitária – São Paulo, SP A criatividade das propostas é um dos resultados mais prazerosos de se observar. Ela aparece não somente na arte de uma apresentação, de uma peça artesanal, ou em um trabalho de conscientização ou de articulação da cultura local com a cultura da cidade e do mundo. A criatividade aparece também no processo, quando se decide algo em conjunto para viabilizar a idéia inicial. Nesses casos há trabalho reflexivo, e não apenas “atividades programadas” para ocupar o tempo das crianças ou jovens. Esses casos revelam também a versatilidade da educação não-formal. Mas tudo isso depende da proposta do educador. Não basta dizer que as atividades têm planejamento, controle, acompanhamento, avaliação. Tudo isso pode ser técnico e burocrático. O importante é como são feitos os trabalhos, seus fundamentos e bases 71 A criatividade das propostas é um dos resultados mais interessantes – seja nas idéias dos educadores, seja na contribuição dos participantes para o andamento do projeto filosóficas. Concentrar-se no público-alvo como cliente, usuário ou consumidor é uma coisa. Vê-lo como sujeito de direitos e dotado de uma cultura e um saber é outra. Motivar crianças e jovens para práticas cidadãs é um trabalho difícil e desafiador porque não se trata de regras e normas de moral e cívica. Trata-se de criar valores. E a arte-educação é um grande caminho. Os projetos mais bem estruturados têm até equipes de 72 consultores para avaliar e redesenhar constantemente os rumos da instituição. Todos os inscritos afirmam que têm diários e relatórios para fins internos. Porém, a publicação de livros, artigos ou sites na internet dos trabalhos ou das instituições é bastante escassa. Cumpre registrar uma diferença básica entre a concepção de resultado de um projeto social e a concepção de resultado no mundo privado, empresarial, onde a lógica da eficácia e da eficiência vem sempre em primeiro lugar, tendo como parâmetro o lucro auferido. São duas lógicas, dois mundos. Ocorre que, cada vez mais, podemos observar o patrocínio de projetos sociais por empresas (da indústria, do comércio ou do setor financeiro, ou ainda do setor educacional privado – universidades e centros educacionais), sob o incentivo das políticas de responsabilidade social. Quando esses projetos são elaborados pelas fundações e institutos das empresas, a concepção de projeto é diferente – segue a racionalidade do mundo privado. Resultados, nesse Oficina de hip-hop com Nelson Triunfo. caso, são coisas palpáveis, mensuráreis, quantitativas, já previstas para serem atingidas logo no início da formulação do projeto segundo os recursos disponíveis. Questões de ordem qualitativa, tais como “desenvolver ou aumentar a auto-estima”, são considerados objetivos gerais, mas não resultados, na óptica empresarial. Os resultados devem ser medidos e estar no escopo de gerenciamento dos proponentes do projeto. Nesse sentido, vemos uma distância saudável entre o que a maioria dos inscritos registra como resultados obtidos e o que seriam os resultados para uma agência de financiamento de um projeto, advinda do mundo das empresas. Por conta dessa nova dinâmica de investimentos, a lógica articuladora dos resultados no mundo das instituições de educação não-formal inclui progressivamente a racionalidade privada, que se preocupa com o registro e o controle dos processos em andamento. Mas essas instituições são também herdeiras da lógica do setor público, que tem como alvo, para seus resultados, o universo da população, e tem de trabalhar 73 com direitos – sempre universais. Assim, os resultados, como nos projetos de investigação científica, são as descobertas feitas ao longo do processo. sobre os resultados “O resultado é a formação de jovens conscientes, enquanto lideranças da comunidade, possuidores de uma visão crítica e ativa da sociedade. Eles têm formação baseada em valores humanos, e terão a capacidade de passar os mesmos valores adiante.” Michel Bierig Schoor – Centro Cultural Mordechai Anilevitch – Rio de Janeiro, RJ Um novo Brasil M Atores e sujeitos desconhecidos entram em foco, com projetos sociais nas zonas periféricas das grandes capitais e em cidades distantes dos grandes centros As inscrições no Programa Rumos Educação Cultura e Arte 2005-2006 se constituem numa amostra impactante de um novo Brasil, muito pouco conhecido dos brasileiros e raramente destacado nos veículos da grande mídia. Essa nova realidade é desconhecida também da maioria das universidades, e tem recebido pouca atenção dos pesquisadores e intelectuais de forma geral. Trata-se de grupos, instituições e coletivos socioculturais preocupados com a questão social, com crianças e adolescentes que vivem em zonas urbanas desfavoráveis, excluídos socioeconomicamente, mas plenos de vontade de mudar, atuando sempre com muito espírito criativo. O Brasil desenhado nas cerca de 2 mil páginas do conjunto dos formulários do Programa Rumos 2005-2006 traz para o palco atores e sujeitos desconhecidos, em projetos sociais desenvolvidos nas zonas periféricas das grandes capitais, em favelas e em cidades distantes dos grandes centros. Os projetos inscritos apresentam também profissionais que têm escolhido outros rumos para suas carreiras e para suas vidas, longe de empregos estáveis, bem-remunerados e bem-localizados (que, aliás, estão em extinção), atuando como educadores sociais. A maioria desses educadores tem curso superior completo, é formada em ciências humanas, compõe-se de mulheres, tem idade média ao redor de 30 anos e possui mais de 5 anos de 76 experiência em projetos sociais. Por meio de estudo e esforço, emanciparam-se economicamente e hoje são professores de escolas públicas, profissionais liberais ou trabalham em projetos sociais apoiados por órgãos públicos. As marcas em sua trajetória criaram uma identidade cultural que inclui a solidariedade e o olhar para os excluídos, canalizados principalmente no desenvolvimento de um trabalho artístico. O novo Brasil da educação não-formal representa fôlego renovado para as culturas esquecidas; esperança de aprendizagem para jovens carentes; diálogo social para a construção de saberes e abolição de preconceitos próprias instituições patrocinadoras – que na maioria das vezes sobre as avaliações não ultrapassam os marcos assistenciais, com projetos que não “A avaliação está vinculada às atividades têm continuidade –, assim como dificuldades para atuar em redes desenvolvidas nas oficinas como parte Certamente há problemas das mais diversas ordens e naturezas, relacionados à área onde atuam, à falta de apoio e de recursos financeiros e estruturais para desenvolver os projetos, às solidárias e congregar esforços. Internamente há muitos discursos sobre a necessidade de respeitar diferenças e diversidades de todo o processo, sendo dinâmica, culturais, mas os educadores encontram empecilhos para colocar contínua, permanente e cumulativa. esses princípios na prática. E há ainda dificuldades advindas de Assim, a cada oficina é feita uma carências na formação do educador que atua nos projetos. Apesar de esforços heróicos de uns, que trabalham voluntariamente e avaliação do processo como um todo gastam recursos próprios para a compra de material para o com os participantes do projeto e, trabalho (tintas e pincéis, por exemplo, ou roupas para peças), há a partir daí, são revistas as propostas também o não-reconhecimento por parte de membros do próprio local onde a atividade é desenvolvida. Não obstante, um realizadas, modificações e adaptações importante trabalho está sendo levado a cabo por educadores são feitas, sempre visando à melhoria empenhados e com senso coletivo, sob o signo de uma do nosso trabalho e uma melhor modalidade da educação sempre esquecida, ignorada ou desdenhada – o ensino não-formal –, com um papel cada vez mais relevante para a formação dos indivíduos, parte integrante da constituição dos seres humanos enquanto cidadãos. Mudança em curso O novo Brasil revelado na pequena amostra do Programa Rumos vem na verdade sendo construído há alguns anos, mas só agora os resultados começam a aparecer. Entidades de cunho assistencial que desenvolvem projetos sociais têm mudado seus discursos e procurado se adequar aos novos tempos, atuando tanto no plano simbólico, da criação de valores, como no plano material – na busca de alternativas para o problema do desemprego –, criando alternativas futuras para o trabalho e a geração de renda, por meio da aprendizagem de uma habilidade. adequação das temáticas trabalhadas à faixa etária e realidade do grupo.” Keyla Silva Rabêlo – Federação dos Bandeirantes do Brasil – Salvador, BA 77 Nelson Triunfo apresenta vídeo em oficina de hip-hop. demandas”, bem como deixado de adotar “discursos cifrados no sobre as avaliações registro dos direitos e da cidadania”11. “A avaliação é um processo de As entidades de perfil mais caritativo têm abandonado “progressivamente sua tônica caritativa e apolítica para assumir uma maior politização e publicização de seus trabalhos e Avaliações, impactos, resultados e desafios são partes do roteiro a ser seguido pelas entidades – e educadores – em seus projetos de intervenção direta. A nova realidade no campo do associativismo em que se situam as instituições inscritas tem como pressuposto um modelo diferente daquele que ocorreu no Brasil nos anos 1980. Mobilizar pessoas envolve agora não apenas um aprendizagem e deve ser constante, tanto de cada uma das atividades, como de mim mesma como educadora.” Carolina Proetti Imura – Instituto Sou da Paz – São Paulo, SP chamamento para uma ação diretamente relacionada com um interesse de sua categoria ou classe social. No novo paradigma, mobilizar as pessoas deve ser uma tarefa integral: mobilizar corpos, emoções, pensamentos e ações de forma a provocar mudanças nos hábitos e no comportamento dos indivíduos, alterando o resultado de sua participação social, inserindo-os na 79 comunidade próxima, ajudando-os a desenvolver um espírito fraterno e comunitário. No novo paradigma, não importa a ideologia política. Importa criar sujeitos políticos ativos com capacidade de intervir no meio econômico (leia-se economia informal), para melhorar a sua qualidade de vida e a de sua família. Os dados apresentados nos formulários denotam a baixa participação social ou cultural do público atendido e suas famílias. A religião ainda é o espaço de participação maior, fora do campo moradia-trabalho. Além disso, falta muito para criar um sentimento de pertencimento mais amplo nas comunidades atendidas; falta articular instituições e projetos sociais. Falta criar uma comunidade educativa de fato12. Entidades pertencentes ao terceiro setor, em sua face mais LAVALLE, A. A. G., CASTELO, G. e BICHIR, R. Redes, protagonismos e alianças no seio da sociedade civil. 30 o Encontro Anual da Anpocs, Caxambu, 2006. p. 13. 11 mercadológica, desvinculadas do contexto associativístico e movimentalista, portadoras apenas de um discurso genérico de inclusão social, têm dificuldades para superar o desafio de incluir os excluídos em processos realmente emancipatórios porque eles Vide GOHN, Maria da Glória. “A educação não-formal e a relação escola-comunidade”. In: Revista Eccos, n. 2, vol. 6, dez. 2004. pp. 39-65. 12 não mantêm com elas relação de pertencimento; os projetos são frutos de ações desterritorializadas; a abordagem focal/emergencial reduz os cidadãos a usuários de serviços. O trabalho voluntário individualista, sem preocupação com o desenvolvimento de uma consciência social, leva somente ao estrelismo, ao glamour, ao merchandising e à mercantilização, em que o que se busca é agregar valor a uma marca, produto ou pessoa. Algo mais é necessário para que as entidades extrapolem o modelo hoje implantado no país, de busca por eficácia, competência, resultados, talentos: as ações das entidades devem ter vínculos com a sociedade civil organizada, com os movimentos sociais e populares, com as associações de moradores, com os grupos organizados e com todos aqueles que lutam por direitos sociais no país – estabelecendo assim uma rede de ações que favorece o trabalho dos educadores. Porém, prevalecendo sobre as dificuldades, o novo Brasil da educação nãoformal representa fôlego renovado para as culturas esquecidas; esperança de aprendizagem para jovens carentes; diálogo social para a construção de saberes 80 e abolição de preconceitos. Trata-se de um Brasil constituído de entidades que cada vez mais fogem da pecha de meras instituições assistenciais – e, acima de tudo, um Brasil constituído de educadores jovens e cheios de disposição, decididos a transformar positivamente seu meio e seu mundo. Contação de histórias com o grupo Girasonhos. Para saber mais A educação não-formal é uma área carente de pesquisa científica. Com raras exceções, predomina o levantamento sistemático de dados para subsidiar projetos e relatórios, feitos geralmente por ONGs. A produção crítica e reflexiva a respeito das práticas da educação não-formal ainda engatinha. Listamos a seguir uma bibliografia básica – incluindo as referências bibliográficas citadas ao longo do mapeamento –, organizada em nove tópicos: educação, pesquisa, políticas públicas, democracia e participação popular, direito e cidadania, sociedade e economia, terceiro setor, diversidade cultural e teoria e crítica. 82 Educação AFONSO, Almerindo Janela. “Sociologia da educação não-escolar: reactualizar um objecto ou construir uma nova problemática?” In: ESTEVES, Antonio J. A sociologia na escola: professores, educação e desenvolvimento. Porto: Biblioteca das Ciências do Homem/Afrontamento, 1992. BRANDÃO, Carlos Rodrigues. 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Paris: Fayard, 2005. 89 Agradecimentos Agradecemos aos educadores inscritos no Programa Rumos Educação Cultura e Arte 2005-2006, sem cuja participação o mapeamento feito neste volume não seria possível. 90 Ademilson Galdino da Silva Carlos Federico Buonfiglio Dowling Evanilde dos Santos Carvalho Adriana dos Santos Silva Carolina Proetti Imura Fabiana Belintani Adriana Freitas Cássia Adolfina Neves Bertuzzi Fábio Luis Alves dos Santos Alan Annibal Schimidt Celia de Fatima Carvalho Fernanda Correia Vianna Alberto Pitta e Silva Cláudia Danielle Vargas Moretti Flávio Santos da Conceição Alcides de Lima Claudia Figueiredo Leite Francisco Carvalho da Silva Alexandra Bujokas de Siqueira Claudia Gianini Geane Patrícia Santos de Lima Alexandre Moreira de Souza Clemilson Gonçalves Souza Geiza Gadelha Sampaio Amábile Selvati Marchesi Cleonice Teresinha Mercuri Quitério Genilda Moura dos Santos Amanda Aleixo Freire Loula Cley Franklin dos Santos Romão Gisela Borkowske Amélia Santos da Silva Cristina Ferreira da Silva Gisela Nora Ana Carolina Martins Daniela Santos da Silva Grasiela dos Santos Ana Carolina Tenório Daniella Forchetti Graziela Trefiglio Mancini Ana Cristina Silva Godoy Débora Braga Baker Guilherme Gadelha de Souza Ana Lucia do Nascimento Santos Debora Ribeiro Domingues dos Santos Gustavo Arantes de Souza Lima Ana Michelle da Silva Martins Deise Bastos Gustavo Vilar Gonçalves Ana Neide Jardim Denise Nalini Helena Deperão Lopes Ferreira Ana Paula Abrahamian de Souza Diego Gomes Souza Hélio Rodrigues de Souza Ana Paula de Brito Simião Dinorá Couto Cançado Heloisa Maria Olivani Ana Tereza Melo Brandão Edilson Almeida Pereira Hely Costa Aguiar Anderson Alexandre Anastácio Edízia Kaline Costa Lessa Herval Luiz Azevedo Andréia de Alcântara Ednaldo Brasil da Silva Ioná Pereira da Silva Andréia de Carvalho Zichia Edson Polidoro dos Santos Isa Uehara Angela da Silva Juscelino Eduardo Comodo Valarelli Isabel de Cássia Paes Almeida Pauxis Angela Maria Doriguello Eduardo de Oliveira Freitas Isabel Ribeiro Penoni Ivanete Oliveira dos Santos Pessoa Antônio Eduardo Eloy Ferreira da Silva Eduardo Kanemoto Antônio Wanderlei Santos Amorim Eliane de Araújo Lima Izercila de Fátima Campos Remigi Auda Edileusa Piani Tavares Elias Kruglianski Jacqueline Baumgratz Gonçalves Augusto Botelho Campos Elinaldo Paz da Silva Costa Jaqueline Costa Castilho Moreira Aureliane Maria de Melo Lira Elson Firmino de Campos João Tancredo de Sá Bandeira Beloni Alma de Souza Ferreira Emerson Ferreira da Silva Johayne de Oliveira Ildefonso Benedito José Faustino Enéas Gomes Joilson Bispo dos Santos Bernardo Vasconcellos Caldeira Brant Ernesto Antônio dos Santos Junior Joilson Martins da Silva Carla Araújo Lopes Ester Ingrid Christmann Lorusso José Carlos Ferreira da Silva José Carlos Santiago Oliveira Maria Carlota Melo de Paula Rebeca Lescher Nogueira de Olioveira José Cláudio Correia da Silva Maria da Conceição Santos Regina Celi Bizzaro José Hamilton Alves de Oliveira Maria D'Águia Souza Carneiro Regina Galante Pinheiro José Renato da Silva Maria do Socorro Andrade Lima Regina Tessis Joselice de Oliveira Santos Maria do Socorro Guterres Regineide Maria Soares Josiana Pereira Rocha Maria Helena Santos Renata de Barros Pedrosa Josimar Flor de Araújo Maria Izabel da Silva Renata Jaffé Misiuk Barbosa Júlia Emília Bastos Ferreira da Silva Maria José Ferreira Conselheiro Renata Ribeiro Guimarães Keithy Michelle de Oliveira Lima Maria Julia dos Santos Cruz Renato Pedro Cardoso Kenya Pio de Penha Maria Stella Melo Nunes Rita de Cássia Coelho Teixeira Keyla Silva Rabelo Marilene Rodrigues dos Santos Roberta Wallner Teixeira Kleber Cavalcante Gomes Marilene Souza Lopes Roberto Carlos Madalena Lais Doria Passos Monteiro de Barros Marilia Pontoni Hellmeister Rodolfo David Lara Rodrigues Machado Marilise da Veiga Ketzer Rodrigo Barea de Souza Laura Neyde Lima Ribeiro Marina Henriques Coutinho Rodrigo Serapião Batalha Leila Maria da Silva Barboza Mary Celeste Madueño Carvalho Souza Rosalba Guimarães Vieira Lis Albuquerque Melo Matildes Cândida de Jesus Teixeira Rosana Antunes Lisandra Marisa Princepe Meire da Piedade Torres Rosane Luchtenberg Lucia Helena Conde de Souza Meirivalda Santana da Silva Roselene Almeida Rocha Luciana Alves de Souza Michel Bierig Schoor Rosemary da Silva Santos Luciana Cardia de Carvalho Carnalonga Miguel de Souza Campos Filho Silvana Ferreira Rufo Luciana Henrique Miguel Takao Chikaoka Solange Caetano Lucila Maia da Silva Mirella D'Angelo Viviani Sueli de Lima Moreira Lucilene Ferreira da Silva Mônica Frisch Carvalho Sylvio Solano Ayala Neto Luis Eduardo Cardim Baldijão Nair Spinelli Lauria Taís de Araújo Luiza Cândida Gentile Neide Pereira dos Santos Mattos Tânia Mara Lopes Cançado Luiza Elena de Souza Nicéia de Fátima Silveira Fonseca Tânia Maria Fernandes Pacheco Luiz Otávio Gomes dos Santos Noeme Alves do Nascimento Tatiana Ferreira Soares Lurdi Haas Osvaldo Rosa Junior Teonildo de Assis Pereira Lima Magna Silva Fernandes Otília Carneiro Dalprá Tereza Neuma Leandro do Nascimento Marcela Soubhia da Motta Zancaner Patrícia Machado Coelho Lima Ulisses Damacena de Lima Marcelo Albert dos Santos Paula Nilza Arantes Cardoso Macedo Urdiley de Oliveira Araújo Marcelo Alves Brazil Paula Roberta da Rocha Valdirene Ferreira Gomes Marcia Regina Marchette Paulo Gustavo Magalhães Pinto Jr. Valmir Alcântara Alves Marcio Bello dos Santos Peter Ospina Vânia Luiza Lima Saragossa dos Santos Marcus Vinicius Pereira Plínio Lopez Godinho Meireles Walquiria Aguiar Fagundes Maria Aparecida Barros Aleixo Rafael Silva da Cruz William Moraes Corrêa Maria Aparecida Casarin Rafaela da Silva Guimarães Zayra Alcântara Martins Maria Aparecida Gonçalves Lourenço Raquel Fayad Delazari Zélia Maria Nascimento Sell Maria Arlete Araújo Medeiros Raquel Pancotti Brum Lacerda Maria Auxiliadora Bichara Raquel Turci Pedroso 91 Coordenação editorial Estúdio da Carochinha Edição de texto Diego Rodrigues Revisão Ana Solé de Castro Miúcha Abreu Naiara Raggiotti Ilustrações (miolo e capa) Andrés Sandoval Mariana Zanetti Projeto gráfico Luís Lorenzon Adaptação de projeto e diagramação Pólen Editorial Produção gráfica Marcio Soares Digitalização das ilustrações Angelo Greco Créditos fotográficos Cia de Foto: páginas 30, 52, 60, 65, 72, 78, 81 Itaú Cultural: página 69 Produzido por Equipe Itaú Cultural 96