CIÊNCIA-TECNOLOGIA-SOCIEDADE E O CURRÍCULO DE CIÊNCIAS NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS: PELA TRANSVERSALIDADE DE SABERES. Edilena Maria Corrê[email protected] Universidade Federal do Pará, Instituto de Educação Matemática Científica Belém - Pará Maria dos Remédios de Brito – [email protected] Universidade Federal do Pará, Instituto de Educação Matemática Científica Belém - Pará Resumo: esse texto traz uma discussão acerca da abordagem CTS (Ciência, Tecnologia e Sociedade) no currículo de ciências no que diz respeito à Educação de Jovens e Adultos, a partir dos saberes populares. Enfatizo que um currículo que traz a abordagem CTS, desvinculada dos saberes dos estudantes, torna-se focado na homogeneidade e não na multiplicidade de saberes. A pesquisa tem como objetivo problematizar o currículo de ciências da EJA que se baseia numa abordagem CTS que desconsidera os saberes dos estudantes Jovens e Adultos. Trata-se de uma pesquisa bibliográfica que aborda a transversalidade e a multiplicidade dos saberes como questões importantes a serem discutidas no currículo de ciências da Educação de Jovens e Adultos no que diz respeito à abordagem CTS, pensando possibilidades curriculares a partir da conexão de saberes, saberes científicos e saberes populares, ultilizando como ferramenta para pensar tais possibilidades, a teoria do filósofo francês Gilles Deleuze. O texto então está dividido em três sessões: a primeira,os saberes populares na educação de jovens e adultos, aborda sobre a importância dos saberes populares dos estudantes jovens e adultos no ensino de ciências; a segunda, ressalta a respeito de um ensino de ciências voltado à cidadania, democracia e inclusão, trazendo como título, educação e cidadania: o currículo de ciências da EJA e a abordagem CTS; a terceira, traz à tona a discussão acerca da necessidade de um currículo de ciências que transversalize os diferentes saberes, intitulado Currículo e transversalidade: desafios e perspectivas para o ensino de ciências EJA. Palavras-chave: Currículo de ciências, Abordagem CTS, Educação de Jovens e Adultos, saberes populares, Transversalidade. 1 INTRODUÇÃO Nas propostas curriculares de ciências, está-se sempre procurando buscar uma maneira de proporcionar aos estudantes a construção do conhecimento que lhes permita posicionar-se criticamente diante de problemas nos âmbitos social, político, econômico, cultural, ambiental, enfim, diante de questões com as quais estão diretamente envolvidos. Nesse sentido, conteúdos que envolvem questões relacionadas à Ciência, Tecnologia e Sociedade , têm sido bastante enfatizados no currículo. Farias (2011) ressalta que um dos principais objetivos do currículo de ciências numa abordagem CTS (Ciência, Tecnologia e Sociedade ), é o desenvolvimento da capacidade de tomada de decisões por parte dos estudantes, contribuindo assim para sua participação na sociedade. Nesse sentido, segundo a autora, propostas curriculares de ensino numa abordagem C TS que possibilite o estudante posicionar-se criticamente, incentivam a problematizações, questionamentos de modelos e valores do desenvolvimento científico e tecnológico de nossa sociedade, posicionando-se como cidadãos, a partir do acesso aos conhecimentos diretamente relacionados à sua vivência. Nessa concepção, Chassot (2003) enfatiza que a cidadania só pode ser exercida plenamente se o cidadão ou cidadã tiver acesso a conhecimentos e não somente a informações. E é nesse sentido que a abordagem CTS no currículo de ciências contribui para a formação de sujeitos com posicionamentos críticos no meio social em que estão inseridos. Esse texto faz um enfoque acerca da abordagem CTS no currículo de ciências no que diz respeito à Educação de Jovens e Adultos, a partir dos saberes populares, ou como ressalta Chassot, a partir dos saberes primeiros dos estudantes, os saberes que estes têm antes dos conhecimentos adquiridos na escola. Enfatizo que um currículo que traz a abordagem CTS, desvinculado ou desconsiderando os saberes dos estudantes, torna-se focado na homogeneidade e não na multiplicidade de saberes. Trago como questão de investigação, Como os saberes das camadas populares se efetivam enquanto possibilidade curricular de ciências na EJA numa abordagem CTS? A pesquisa tem como objetivo problematizar o currículo de ciências da EJA que se baseia numa abordagem CTS que desconsidera os saberes dos estudantes Jovens e Adultos. Trata-se de uma pesquisa bibliográfica que aborda a transversalidade e a multiplicidade dos saberes como questões importantes a serem discutidas no currículo de ciências da Educação de Jovens e Adultos no que diz respeito à abordagem CTS, pensando possibilidades curriculares a partir da conexão de saberes, saberes científicos e saberes populares, ultilizando como ferramenta para pensar tais possibilidades, a teoria do filósofo francês Gilles Deleuze. O texto então está dividido em três sessões: a primeira,os saberes populares na educação de jovens e adultos, aborda sobre a importância dos saberes populares dos estudantes jovens e adultos no ensino de ciências; a segunda, ressalta a respeito de um ensino de ciências voltado à cidadania, democracia e inclusão, trazendo como título, educação e cidadania: o currículo de ciências da EJA e a abordage m CTS; a terceira, traz à tona a discussão acerca da necessidade de um currículo de ciências que transversalize os diferentes saberes, intitulado Currículo e transversalidade: desafios e perspectivas para o ensino de ciências EJA. 2 OS SABERES POPULARES NO CURRÍCULO DE CIÊNCIAS DA EJA Os estudantes jovens e adultos, vivenciam determinadas situações que são próprias de seu contexto, possuindo vastos conhecimentos que são resultados de suas crenças, valores, sabedorias, enfim, conhecimentos que são construídos e reconstruídos nos espaços sociais em que estão inseridos. Esses saberes e conhecimentos, não podem ser ignorados pela escola no que tange à organização das políticas educativas curriculares, e aqui ressalto, no que se volta aos conhecimentos de ciência, tecnologia e sociedade. No que diz respeito ao ensino e à aprendizagem de ciências desses jovens e adultos trabalhadores, a escola não pode perder de vista seus vastos conhecimentos no que tange à articulação entre saber popular e saber científico, possibilitando que os saberes populares através de uma reorganização curricular pautado no diálogo entre os saberes, se efetivem enquanto saberes escolares nas práticas pedagógicas na EJA. Tem-se percebido que os saberes científicos vêm se efetivando enquanto saberes escolares no currículo de ciências da EJA, tal estrutura curricular menospreza os saberes dos sujeitos considerando-os irrelevantes no processo educativo. Barcelos (2010), propõe re(pensar)a EJA não apenas a partir de questões técnicas e de conteúdos, mas como um entrelugar de múltiplas relações e emoções, como um espaço-tempo para vivenciar experiências significativas, um “território de aprendizagem” que possibilita aos homens e mulheres um pouco mais de conhecimento sobre si mesmos e sobre sua história, sua cultura”. Assim, estuda-se alternativas curriculares que possibilitem uma maior aproximação entre os diferentes conhecimentos, focando-se em uma concepção curricular transversal baseada na idéia rizomática que favorece o trânsito pelos diferentes saberes constituídos nas múltiplas experiências vivenciadas no contextos dos estudantes da EJA. 3 EDUCAÇÃO E CIDADANIA: O CURRÍCULO DE CIÊNCIAS DA EJA E A ABORDAGEM CTS Santos e Schnetzler (2000), enfatizam que a inclusão da abordagem CTS nos currículos de ciências, no Brasil, se deu a partir da década de 70. Tais discussões trouxeram a necessidade de uma maior participação da sociedade nas discussões sobre CTS. Segundo Freitas (2011), a apartir do século XX, os questionamentos relacionados ao desenvolvimento científico , tecnológico e econômico se intensificaram, por não estarem atrelados linear e automaticamente ao bem estar social. Quando se discute hoje um ensino de ciências numa perspectiva de formação para a cidadania, entendendo um cidadão que é simultaneamente biológico, psíquico e cultural, entende-se que não se pode mais pensar uma formação que opere a dualidade saber científico- saber popular. É preciso compreender que esses conhecimentos precisam se juntar, precisam dialogar só assim, é possível agregar, valores, saberes ampliando-se o conhecimento, proporcionando uma educação em ciências para a cidadania, que possibilite ao estudante participação nas tomadas de decisão. Cachapus (2005) enfatiza necessidade de insistir em que a participação dos cidadãos na tomada de decisões que se traduz, em geral, em evitar a aplicação apressada de inovações , das que se desconhecem as consequências a médio e longo prazo , não supõe nenhum impedimento ao desenvolvimento da investigação , nem para a introdução de inovações para as que existam razoáveis garantias de segurança. Segundo o autor, a participação dos cidadãos nas tomadas de decisões é hoje um fato positivo , uma garantia de aplicação do princípio de precaução, que se apoia numa crescente sensibilidade social face às implicações do desenvolvimento tecno-cientifico que pode comportar riscos para as pessoas ou para o meio ambiente. Meu interesse em investigar sobre os saberes populares e sua relação com a abordagem CTS no currículo de ciências da EJA na busca de uma educação para a cidadania, justifica-se pela necessidade de reconhecer que não basta ensinar conceitos científicos para dizer que está se educando para a cidadania, pois forma-se um cidadão quando se pensa o modelo de organização social, política, econômica e cultural que se precisa. Pensar a cidadania é pensar uma educação que resgate e valorize os conhecimentos e as experiências dos sujeitos. Chassot (2003) ressalta que quando se propõe a busca de saberes, isso ocorre em duas dimensões: uma, a convicção de que há uma necessidade urgente de se preservar saberes populares, e a outra, tem uma dimensão social no fazer educação, b uscando fazer dos saberes populares, saberes escolares. El- Hani e Sepúlveda (2007) ressalta que o conhecimento escolar vem até o momento, desprezando a cultura popular, rotulando-a como inferior, considerando-a sem legitimidade. Nesse sentido, ressalta-se a importância de uma educação contextualizada, onde o aluno perceba que os conhecimentos escolares de alguma forma estão presentes em seus saberes. Essa relação pode tornar a educação mais inclusiva e democrática. É preciso que a escola compreenda que a segregação de saberes além de contribuir com a dificuldade de aprendizagem priva os estudantes de uma compreensão no que tange à relação entre ciência, tecnologia e sociedade no processo educativo, para a formação de sujeitos capazes de se posicionar criticamente frente às questões sociais, econômicas políticas e ambientais. Chassot (2003: 65), ressalta que, a educação é um processo ideológico de inculcação de valores que pode preparar o indivíduo para fazer uso racional do conhecimento científico e tecnológico, desenvolvendo nele o sentimento solidário de buscar o que é melhor para a comunidade, ou pode preparar o indivíduo para explorar o conhecimento científico e tecnológico no sentido de apenas extrair benefícios para si sem se preocupar com as consequências sociais e ambientais. Portanto, é necessário chamar atenção para um ensino de ciências, numa abordagem CTS, comprometido com a melhoria da qualidade de vida e da sociedade, refletindo o papel da ciência e da educação na construção da cidadania dos estudantes da EJA. E, um ensino de ciências para a cidadania deve valorizar os saberes dos sujeitos para que estes compreendam qual o seu papel social diante das questões que envolvam ciência, tecnologia e sociedade. Aikenhead (1996) enfatiza que o conteúdo CTS de um currículo de educação em ciências compreende uma interação entre ciência e tecnologia, ou entre ciência e sociedade, e qualquer uma ou a combinação de um artefato tecnológico, processo ou especialidade; a interação entre tecnologia e sociedade; questões sociais relacionadas à ciência e tecnologia. Santos e Schnetzler (1998) ressaltam que discutir sobre ciência e educação para a cidadania, significa refletir sobre como elas estão influenciando a vida do cidadão e qual o papel social que lhes compete; qual a finalidade da ciência e quais os fins da educação; a quem a ciência tem servido e, para quem temos educado nossos alunos. Questões como essas devem estar presentes no fazer pedagógico de todo/a educador/a. E, um fazer pedagógico que busque no ensino de ciências uma educação para a cidadania, a partir de uma abordagem CTS, precisa considerar o conhecimento popular enquanto orientação curricular de ciências, pois, segundo Candau (2000), as propostas curriculares redesenham as relações professor-aluno e enredam valores, saberes e possibilidade de intervenção, experiências e criação, potencializando aprendizagens de conteúdos, comportamentos e valores para além do previsto e do suposto oficialmente. Lopes e Macedo (2004) ressaltam que o currículo deve tornar explícitas as condições e as características do trabalho didático pelo qual se espera que as escolas ofereçam aos alunos oportunidades para alcançar os saberes e experiências culturais cuja apropriação por todos é considerada relevante. Assim, investigar a respeito da importância do saber popular no currículo de ciências para uma educação cidadã dos alunos e alunas da Educação de Jovens e Adultos é fundamental, pois propicia uma educação mais inclusiva, onde os estudantes possam ver a escola como um espaço que vai lhes proporcionar a construção de conhecimentos, a partir da valorização de suas experiências e saberes. “(...) se espera da educação de jovens e adultos, que estes possam entender e criticar a realidade em que vivem, propondo alternativas para sua transformação, (...), a EJA não deve ser apenas uma segunda oportunidade de escolarização, mas outras formas de educação que venham a instrumentalizar indivíduos e grupos, preparando-os para a vida (RÍVERO E FÁVERO, 2009: 112). Compreender a educação de jovens e adultos, a partir da cultura, dos saberes, das práticas populares, é ressaltar a pedagogia freiriana que trouxe uma forma inovadora de prática pedagógica. Para Freire (2006), os educadores têm de partir da compreensão crítica de sua própria experiência e da do educando, sem considerar a experiência do educando, o educador falha. 4 CURRÍCULO E TRANSVERSALIDADE: DESAFIOS E PERSPECTIVAS PARA O ENSINO DE CIÊNCIAS Discutir sobre conhecimento científico e conhecimento popular no que tange ao ensino e à aprendizagem em ciências na EJA na abordagem CTS, numa perspectiva de compreender como esses conhecimentos vêm sendo direcionados pelas políticas educacionais, mais especificamente no que tange às po líticas curriculares, torna-se necessário para entender qual a finalidade do ensino de ciências e quais os fins da educação, à quem a educação tem servido e para quê estamos educando nossos estudantes. A necessidade de melhoria da qualidade do ensino de ciências está sempre em discussão, pois, dados relacionados à qualidade da educação do país, têm mostrado que os estudantes apresentam dificuldades em relação à disciplina, resultando em índices consideráveis de reprovação. Considerando que o nosso sistema educacional ainda está longe da tão sonhada educação de qualidade para todos, a discussão aqui apresentada se volta para a abordagem do aspecto curricular que tem sido implementado, fruto de uma política pública que tem firmado o conhecimento científico como o único válido no currículo oficial, desconsiderando, negligenciando os saberes dos estudantes. De maneira geral na educação, e não seria diferente na educação em ciências, há uma política curricular que define mais especificamente sobre quais conhecimentos são importantes na disciplina, o que reflete na formação dos alunos em seus diferentes contextos, pois a política educacional não é traçada por acaso, não é neutra, alheia a um objetivo. Um dos grandes desafios da educação, e não é diferente no ensino de ciências, é pensar a complexidade superando a inteligência cega, enfatizada por Morin (2006). E pensar um currículo de ciências numa perspectiva transversal que religa conhecimentos, rompendo com a hierarquização, dando espaço para as múltiplas possibilidades de conexões entre os saberes, é uma possibilidade de fugir da concepção de educação que separa e hierarquiza saberes. Gondim e Mól (2000) ressaltam que o distanciamento da escola em relação aos saberes que os estudantes trazem devido a sua formação histórica e social têm sido neglicenciados pela escola. A vinculação entre as vivências dos estudantes e os conteúdos ensinados na escola é quase inexistente, principalmente quando nos refer imos ao ensino de ciências, caracterizando um ensino baseado na transmissão-recepção, de maneira descontextualizada. Os autores destacam ainda, a forte influência da concepção positivista da ciência no ensino de ciências. Nessa concepção, a ciência é tratada como uma atividade neutra, em uma visão cientificista que desconsidera as relações existentes entre ciência, tecnologia e sociedade. Os cientistas são colocados como autônomos na busca de um conhecimento universal e as possíveis implicações ambientais do desenvolvimento científico e tecnológico, nas relações de produção e em toda a sociedade, não são de responsabilidade deles, como se os interesses econômicos, políticos e mesmo pessoais não estivessem presentes em suas atividades. Sendo assim, o resultado desse ensino de ciências é uma “aprendizagem descartável”, não significativa e a disseminação do mito da ciência. A forma de pensar a educação, o conhecimento a partir de uma concepção transversal é uma perspectiva para o currículo e para o ensino de ciências que busca contribuir com a formação cidadã crítica dos estudantes, que saibam assumir posicionamentos críticos diante de questões em que estão inseridos. O que não quer dizer que a transversalidade vai resolver todos os problemas da educação em ciências, mas é uma forma de pensar um ensino diferente, desvinculado das falsas certezas que se tem sobre o ensino e a aprendizagem em ciências. É preciso começar a pensar em romper com os obstáculos que impedem de fazer uma educação diferente, saindo da comodidade,lançando-se a conhecer o desconhecido, indo além do que se sabe. Assim, um ensino de ciências que pense o conhecimento de forma transversal, busca fugir da linearidade, da verticalização do conhecimento, da organização que hierarquiza os conteúdos, buscando múltiplas possibilidades de diálogo entre os saberes integrando os conhecimentos de forma mais abrangente possível. Portanto, pensar um ensino de ciências para a EJA a partir de uma concepção transversal, implica pensar uma organização curricular diferente da que temos hoje, um currículo arbóreo onde os conteúdos, os saberes estão organizados de forma fragmentada e hierarquizada, que nega os conhecimentos populares, firmando e universalizando os saberes científicos como sendo os únicos válidos para a educação, tomando-os como verdadeiros. Uma linguagem universal, um método único, uma forma de pensar que privilegia a suposta realidade objetiva são disseminados na educação formal desde a primeira escola até à universidade (...). A exclusão dos conhecimentos acumulados pelas experiências das culturas que estão “fora da rede” compromete uma democracia cognitiva e subjuga a diversidade de saberes à monocultura da mente além de desperdiçar uma infinidade de descobertas e sistematizações de conhecimentos que emergem nas margens do conhecimento científico formal (ALMEIDA, 2010: 35). Nesse sentido, pensar um currículo de ciências para a EJA, que reconheça os diferentes saberes numa perspectiva de uma educação transversal, uma educação que perpassa pelos diferentes saberes sem, contudo sobrepor um ao outro é imprescindível ao desenvolvimento de uma prática pedagógica que respeite e valorize outros conhecimentos que não sejam apenas os científicos. A idéia de buscar que cada pessoa envolvida com o tema em estudo o descreva ao mesmo tempo em que nos possibilita uma “interpretação”que contemple a subjetividade individual, abre espaços para a manifestação de outras formas de conhecimento que não apenas o científico (...), a educação em geral, nos tempos atuais, está cada vez mais procurando estabelecer diálogos entre as diferentes formas de saber (BARCELOS, 2010:130). No que tange à abordagem de questões relacionadas à Ciência, Tecnologia e sociedade, tratar os saberes populares no currículo de ciências de uma forma interconectada aos conhecimentos científicos, rompendo com a hierarquia de importância entre os saberes, proporciona aos estudantes uma educação mais cidadã e democrática, buscando superar preconceitos e desigualdades, estabelecendo o diálogo entre os grupos sociais de diversos interesses, sobretudo, assumir como valor fundamental o interesse coletivo na melhoria de vida de todos. Portanto, busca-se um currículo que transversalize diferentes saberes. Nessa perspectiva, um currículo de ciências que contemple um conhecimento transversal deve fugir da organização oficial, que regula os conhecimentos e saberes que devem ser considerados pela escola. No dizer de silva (2004: 98), é preciso, encarar o currículo, sua teoria como multiplicidade. Prestar atençãoàs correntes subterrâneas, aos movimentos moleculares que aí se passam, aos fluxos que aí brotam, que aí correm, que aí jorram. Não fazer do currículo uma máquina abstrata dirigida á formação de sujeitos (...). em vez disso:experimentar, agenciar, compor, promover encontros que produzam o máximo de potência (...). escrever sobre currículo, ou escrever no currículo, ou escrever o currículo sempre com estilo. o que significa escrever seguindo a linha da bruxa, dos devires minoritários, das linhas de fuga. Uma educação que fuja da excessiva compartimentalização do saber, deve ser pautada numa perspectiva de conhecimento transversal, como propõe Gallo (2008), motivado pelo conceito de rizoma criado por Deleuze e Guatarri, deslocando-o para a educação. Nessa concepção, o rizoma, tomado como aquele tipo de caule radiciforme de alguns vegetais, formado por uma miríade de pequenas raízes emaranhadas em meio a pequenos bulbos armazenatícios, colocando em questão a relação intrínseca entre as várias áreas do saber, representadas cada uma delas pelas inúmeras linhas fibrosas de um rizoma, que se entrelaçam formando um conjunto complexo no qual os elementos remetem necessariamente uns aos outros e mesmo para fora do próprio conjunto (GALLO, 2008), é o que representa uma idéia de currículo transversal, que prima pela relação não hierárquica e não linear entre os diferentes saberes. O autor ressalta que a estrutura do conhecimento apresenta-se tradicionalmente pelo paradigma arborescente que compreende o saber de forma fragmentada e hierarquizada,já a metáfora do rizoma vai na contramão do paradigma arbóreo. A metáfora do rizoma subverte a ordem da metáfora arbórea (...). Diferente da árvore, a imagem do rizoma não se presta nem a uma hierarquização nem a ser tomada como paradigma, pois nunca há um rizoma, mas rizomas, na mesmamedida em que o paradigma fechado, paralisa o pensamento, o rizoma sempre aberto, faz proliferar pensamentos (GALLO, 2008:76). Gallo (2008), ao deslocar o conceito de rizoma para a educação, ressalta que o currículo escolar apresenta uma organização que compartimentaliza e isola os saberes, o que dificulta para os estudantes a compreensão do conhecimento como um todo. Tal estrutura curricular arbórea, aquela tomada como uma árvore em que tem as raízes fincadas em solo firme e um tronco sólido que se ramifica em galhos, representa uma concepção mecânica do conhecimento. Um currículo numa perspectiva rizomática, é oposta à essa concepção arbórea de currículo em que a educação está pautada. Numa perspectiva rizomática, podemos apontar para uma transversalidade entre as várias áreas do saber, integrando-as, senão em sua totalidade, pelo menos de forma muito mais abrangente, possibilitando conexões inimagináveis por meio do paradigma arborescente (...). A transversalidade rizomática aponta para o reconhecimento da pulverização, da multiplicização, para a atenção às diferenças e à diferenciação, construindo possíveis trânsitos pela multiplicidade dos saberes (GALLO, 2008:73 ). Nessa idéia rizomática de currículo para a educação e, em especial chamando atenção aqui para o ensino de ciências na EJA, é importante compreender os princípios básicos do rizoma, propostos proposto por Deleuze e Guatarri (1995). O primeiro, chamado de princípio da conexão, ressalta que qualquer ponto de um rizoma pode ser/estar conectado a qualquer outro; o segundo, o princípio da heterogeneidade trás como argumento que qualquer conexão é possível; o princípio da multiplicidade,considera que o rizoma não é sujeito nem objeto, não podendo ser reduzido à unidade, sendo portanto, múltiplo; o princípio da ruptura a-significante remete à idéia de que o rizoma não pressupõe qualquer processo de significação, de hierarquização estando sempre sujeito às linhas de fuga que apontam para novas direções; o princípio da cartografia indicando que o rizoma pode ser acessado de infinitos pontos pois o rizoma enquanto mapa possui uma riqueza geográfica pautada numa lógica do devir e, o princípio da decalcomania, pois colocar os rizomas sobre as árvores possibilita o surgimento de novos territórios, novas possibilidades (GALLO, 2008:77). Portanto, pode-se pensar um currículo transversal para a educação em ciências na EJA que, baseado na idéia de rizoma proposta por Gallo, no que tange à educação e portanto, ao currículo, possibilite a abertura dos vários campos dos saberes, assim, entre os saberes populares e os saberes científicos no ensino de ciências na abordagem CTS, não haveria hierarquia de importância ou de poder, mas diálogo, interação, possibilidades de trânsitos pelos múltiplos saberes. CONSIDERAÇÕES Com a pesquisa, busco pensar possibilidades de um currículo de ciências na Educação de Jovens e Adultos, numa abordagem CTS, que valorize, que considere os saberes desses estudantes, a apartir da transversalidade de saberes, saberes que são frutos de suas vivências e de sua relação com o trabalho, procurando entender como os saberes dos estudantes, articulados aos saberes científicos podem contribuir com o currículo de ciências na melhoria da qualidade do ensino e da aprendizagem em ciências, no que tange a uma concepção de currículo que prime pela integração dos conhecimentos, que leve os estudantes a assumirem posicionamentos d iante das questões que envolvam Ciência-Tecnologia-Sociedade. REFERÊNCIAS ALMEIDA, Maria da Conceição de. Complexidade, saberes científicos, saberes da tradição. São Paulo: Editora Livraria da Física, 2010. BARCELOS, Valdo. Educação de jovens e adultos: currículo e práticas pedagógicas. Petrópolis, RJ: vozes, 2010. CACHAPUS, Antônio (et al.) 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This is a literature that addresses the mainstreaming and the multiplicity of knowledge as important issues to be discussed in the science curriculum of Youth and Adults with respect to the STS approach, thinking curriculum possibilities from the connection of knowledge, knowledge scientific and popular knowledge, ultilizando as a tool for thinking about such possibilities, the theory of the French philosopher Gilles Deleuze. The text is then divided into three sessions: the first, the popular knowledge in the youth and adults, focuses on the importance of popular knowledge of young and adult students in science education, the second emphasizes the respect of a science education focused on citizenship, democracy and inclusion, bringing as title, education and citizenship: the science curriculum of adult education and the STS approach, the third brings up the discussion about the need for a science curriculum that transversalize different knowledge, entitled curriculum and transversality: challenges and prospects for science teaching adult education. Keywords: science curriculum, CTS Approach, Youth and Adults, popular knowledge, Transversality.