I Congresso Internacional de Pesquisa em Letras no Contexto Latino-Americano e X Seminário Nacional de Literatura, História e Memória 21 a 23 de Setembro de 2011 UNIOESTE – Cascavel/PR Dona Casmurra e Seu Tigrão: uma metáfora do processo de formação do leitor literário BELTRAMIM, Alessandra Oliveira dos Santos (UEM) ZAPPONE, Mírian Hisae Yaegashi (UEM-Orientadora) RESUMO: Considerando que o texto literário possui características bem peculiares, exigindo um tratamento diferenciado por parte de seus leitores, é evidente que a formação do leitor literário dificilmente poderá contar apenas com a sorte, ocorrendo de forma gratuita, espontânea, sem investimentos, sem planejamento para tal fim. A formação desse leitor é um tanto complexa, a leitura dessa modalidade textual possui um “decoro” peculiar e requer habilidades específicas que não podem ser ignoradas. Partindo desse pressuposto, este trabalho propõe uma leitura da obra Dona Casmurra e Seu Tigrão, de Ivan Jaf, concebendo-a como uma metáfora do processo de formação do leitor literário. Na referida obra, as personagens - de modo mais específico, Barrão, o adolescente lutador de jiu-jitsu - passam por um interessante processo de formação a partir do qual a obra machadiana – Dom Casmurro - adquire um novo sentido, propiciando a criação de um contexto favorável para a leitura da mesma e para o amadurecimento e deleite do leitor. Com base na leitura dessa obra, segundo essa perspectiva, espera-se, então, elencar algumas contribuições, algumas alternativas que nos permitam problematizar o ensino de literatura e a educação literária. Para fundamentar nossa análise, adotar-se-á a Teoria do Efeito Estético, proposta por Iser (1996 / 1999) e as contribuições de Aguiar (2000), Hansen (2005) e Candido (1981) no que se refere às especificidades do texto literário. PALAVRAS-CHAVE: “Dona Casmurra e Seu Tigrão”, Leitura Literária, Formação do Leitor, Teoria do Efeito Estético. ABSTRACT: Considering that the literary text has peculiar characteristics, requiring a different approach from readers, it is evident that the literary reader formation can hardly rely only on luck, happen in an unpaid and spontaneous way, without investments, without planning. The literary reader formation is complex, the reading of this textual genre has a particular “decorum” and requires specific abilities that can not be ignored. Based on that, this paper proposes a reading analysis of the Dona Casmurra e Seu Tigrão, by Ivan Jaf, conceiving it as a metaphor for the literary reader formation. In that book, the characters – more specifically, Barrão, the teenager jiu-jitsu fighter – go through an interesting formation process from which the machadian work – Dom Casmurro – acquires a new meaning, allowing the creation of a favorable context for its reading and the reader’s maturation and delight. Based on the mentioned work reading, according to this perspective, it is hoped, then, list some contributions, some alternatives that enable us to question the literature teaching and the literary education. To support our analysis, we adopt the Theory of Aesthetic Effect, proposed by Iser (1996/1999) and the contributions of Aguiar (2000), Hansen (2005) and Candido (1981) about the literary text specificities. KEYWORDS: “Dona Casmurra e Seu Tigrão”, Literary Reading, Reader’s Formation, Theory of Aesthetic Effect. INTRODUÇÃO ISSN 2175-943X I Congresso Internacional de Pesquisa em Letras no Contexto Latino-Americano e X Seminário Nacional de Literatura, História e Memória 21 a 23 de Setembro de 2011 UNIOESTE – Cascavel/PR Não é novidade o fato de a literatura possuir certas peculiaridades que tornam a leitura literária um tanto complexa. Nesse caso, é evidente que o processo de formação do leitor literário não pode contar apenas com a sorte, com o gosto individual, com o interesse espontâneo de cada leitor. Sem dúvida, em se falando de literatura, elementos como o gosto, o interesse e a sensibilidade do leitor são fundamentais, mas não são suficientes para garantir a realização de leituras literárias capazes de refazerem o processo de invenção previsto pelos textos dessa natureza. O processo de formação do leitor é influenciado por uma série de fatores e, dificilmente, ocorre de forma gratuita e sem nenhuma mediação. As experiências vivenciadas por cada um no contexto sócio-cultural e a presença de mediadores competentes exercem grande influência sobre a formação dos indivíduos enquanto leitores. Então, é preciso reconhecer que a formação do leitor literário demanda esforços, planejamento e a atuação de bons mediadores. E, embora reconheçamos que não existe, de fato, uma receita única, passível de ser aplicada com êxito em todas as situações de tentativa de formação desse leitor, defendemos a necessidade de serem analisadas algumas possibilidades de tratamento das relações entre o leitor em processo de formação e a literatura. Primeiramente, é preciso esclarecer que vemos a formação do leitor literário como um processo amplo, complexo, que exige treino, exercício, planejamento e algum tipo de mediação. Ninguém nasce leitor formado, a formação do gosto pela leitura está intimamente ligada aos hábitos, à cultura, à história dos indivíduos e, por isso, exige uma atenção maior da parte dos profissionais e estudiosos da área, a fim de que sejam encontrados caminhos que permitam que a leitura literária passe a fazer parte da vida dos leitores adolescentes. Para que se possa ler literariamente, é preciso dominar as convenções da escrita literária e suas características específicas de modo a garantir a construção de sentido para o que se lê. E nesse contexto, são poucos os jovens que se aventuram pelo emaranhado plurissignificativo da escrita literária, propriamente reconhecida como tal. Por essa razão, esse estudo pretende investigar as estratégias adotadas por Ivan Jaf para atrair o público juvenil para a obra machadiana, através da obra Dona Casmurra e Seu Tigrão. Dessa forma, conceberemos esta obra como uma metáfora do processo de formação do leitor literário, pois com uma preocupação evidente em garantir acessibilidade ao leitor principiante, essa atualização do clássico machadiano estabelece caminhos que podem ser interessantes de serem observados pelos estudiosos envolvidos na formação do leitor literário. ISSN 2175-943X I Congresso Internacional de Pesquisa em Letras no Contexto Latino-Americano e X Seminário Nacional de Literatura, História e Memória 21 a 23 de Setembro de 2011 UNIOESTE – Cascavel/PR A TEORIA DO EFEITO ESTÉTICO E A POSSIBILIDADE DE ATUALIZAÇÃO DO TEXTO LITERÁRIO Ao propor a “Teoria do Efeito”, Iser (1996 - 1999) afirma, em relação à obra literária, que “sempre nos acontece algo através dessa arte, e nos cabe perguntar”, então, “o que acontece” (ISER, 1996, p.9). Para o autor, a obra literária tem a peculiaridade de sempre provocar efeitos em seu leitor, o que explica o chamado “caráter de acontecimento” por ele proposto. Considerando esse caráter de acontecimento, Iser (1996 – 1999) defende que o mais importante, diante da obra literária, não é a sua mensagem ou as intenções do seu autor ao produzi-la; o que interessa, para ele, são os possíveis efeitos provocados pela obra no leitor. E é importante considerar, ainda, que, como a leitura é um processo individual, é provável que a diversidade de efeitos possíveis seja proporcional à diversidade de leitores que se aventuram pela leitura de uma mesma obra. Essa nova concepção metodológica passou a exigir novas posturas dos críticos e, assim, tentando explicar os processos que levam a leitura literária a provocar efeitos em seus leitores, Iser propõe duas questões básicas: “1- Em que medida o texto literário se deixa apreender como um acontecimento? 2- Até que ponto as elaborações provocadas pelo texto são previamente estruturadas por ele?” (Iser, 1996, p. 11). Para responder à primeira questão, Iser (1996 – 1999) recorre ao processo de seleção e combinação, afirmando que toda obra de arte transpõe, de certa forma, para o universo artístico, determinada realidade; essa realidade recuperada no contexto da arte, porém, assume significados diferentes. Todo artista seleciona apenas alguns fragmentos da realidade e o faz de forma subjetiva, combinando-os à sua maneira. Assim, a seleção e combinação dos aspectos da realidade retratados na arte pelo artista ganham novos significados. O mesmo acontece quando o apreciador se depara com a obra do artista: a partir de sua individualidade, ele seleciona e deixa-se envolver com os aspectos da obra que mais lhe instigam. A individualidade do observador é quem seleciona agora os aspectos da obra que fundamentará sua recepção, construindo sentidos novos a partir da combinação dos elementos selecionados. Assim, a leitura literária é considerada um trabalho conjunto entre leitor e autor, a partir do texto. O autor seleciona e organiza os conteúdos e escolhe a abordagem que dará a tais conteúdos. O leitor, por sua vez, também seleciona, dentre os conteúdos da obra, apenas alguns, os quais serão combinados segundo critérios subjetivos, dando origem a um novo processo de construção de sentido, confirmando o caráter plurissignificativo da obra literária. ISSN 2175-943X I Congresso Internacional de Pesquisa em Letras no Contexto Latino-Americano e X Seminário Nacional de Literatura, História e Memória 21 a 23 de Setembro de 2011 UNIOESTE – Cascavel/PR Para explicar o processo de seleção, Iser afirma que, cada texto literário comporta seletivamente quanto ao mundo dado, no interior do qual ele surge e que forma sua realidade de referência. Quando determinados elementos dela são retirados e incorporados ao texto, eles experimentam a partir daí uma mudança de sua significação. Nesse sentido, a seleção a partir da qual se constrói o texto literário, possui o caráter de acontecimento, e isso porque ele, ao intervir em uma determinada organização, elimina sua referência. Toda transformação da referência é um acontecimento, porque agora os elementos da realidade de referência são retirados de sua subordinação (ISER, 1996, p.11). E para esclarecer o processo de combinação, Iser argumenta que o caráter de acontecimento do texto se intensifica pelo fato de que os elementos selecionados do ambiente do texto são por sua vez combinados entre si. Desse modo, eles se inserem em subordinações, pelas quais sua determinação semântica e contextual é mais uma vez ultrapassada (ISER, 1996, p.11). É interessante destacar, ainda, que o caráter de acontecimento do texto literário – e os respectivos efeitos provocados no leitor, através do processo de seleção e combinação possibilitam a criação de uma nova realidade, com novos significados, alterando, de certa forma, a realidade inicial, selecionada pelo autor, visto que “na seleção, a referência da realidade se rompe e, na combinação, os limites semânticos do léxico são ultrapassados” (ISER, 1996, p.12). Para Iser, “o texto literário se origina da reação de um autor ao mundo e ganha o caráter de acontecimento à medida que traz uma perspectiva para o mundo presente que não está nele contida” (ISER, 19996, p.11). Voltando à segunda questão, vale destacar que, no processo de produção do texto literário, o autor já adota algumas estratégias e vai disponibilizando informações que servirão de pistas para seus leitores. Ao produzir sentido para a obra, durante a leitura, o leitor tem a liberdade seletiva, já que a linguagem literária abarca sentidos plurais. No entanto, Iser defende que essa liberdade é controlada pelas estratégias textuais propostas pelo texto. Desse modo, as elaborações, os sentidos que são produzidos a partir de uma obra literária, só são válidos se forem estruturados por ela. Desse modo, cada leitura configura-se como uma nova atualização do texto literário. E essas atualizações são condicionadas “pelas disposições individuais do leitor, bem como pelo código sociocultural do qual ele faz parte. Fatores desse tipo orientam a seleção daquilo que constitui para cada leitor a base da consistência e, assim, ISSN 2175-943X I Congresso Internacional de Pesquisa em Letras no Contexto Latino-Americano e X Seminário Nacional de Literatura, História e Memória 21 a 23 de Setembro de 2011 UNIOESTE – Cascavel/PR o pressuposto para a pregnância de sentido do texto” (ISER, 1996, p.13). E a leitura literária, nesse caso, passa a ser vista como um processo integral que envolve o trabalho do autor que reage ao mundo e, também, o trabalho do receptor que atribui sentido à obra a partir de suas experiências individuais. Apesar da ênfase que a Teoria do Efeito atribui ao caráter individual da leitura do texto literário, percebe-se, também, a insistência de que tal leitura deve ser competente o suficiente para recuperar as pistas distribuídas pelo autor, ao longo do texto. A esse respeito, Hansen (2005) defende que a leitura sempre é feita no presente de um corpo já tatuado pela cultura, corpo-texto que lê textos segundo critérios culturais de ler bem ou ler mal, ler muito ou ler pouco, ler trechos ou ler volumes, ler devagar ou ler depressa, ler sequencialmente ou aos saltos, ler em pé ou sentado, ler por obrigação ou por prazer, ler entendendo tudo ou ler não entendendo nada .... (HANSEN, 2005, p.13, grifo nosso). Sendo assim, a leitura, sendo feita no presente de um corpo “já tatuado pela cultura”, “segundo critérios culturais”, não pode ser desligada da tradição de leitores que se apropriaram de cada texto, atribuindo novos significados a partir deles. Isso é mais relevante ainda quando se considera a especificidade da leitura literária, que, por sua vez, pressupõe o domínio de uma série de convenções que não podem ser ignoradas. Na opinião do autor, para que uma leitura se especifique como leitura literária, é consensual que o leitor deva ser capaz de ocupar a posição semiótica do destinatário do texto, refazendo os processos autorais de invenção que produzem o efeito de fingimento. Idealmente, o leitor deve coincidir com o destinatário para receber a informação de modo adequado (HANSEN, 2005, p. 19 – 20). Apesar dessa convicção, Hansen (2005) tem clareza de que essa coincidência entre leitor e destinatário - tão desejada pelos teóricos e que seria tão favorável a uma leitura literária propriamente dita - é praticamente inatingível: Essa coincidência é prescrita pelos modelos dos gêneros e pelos estilos, que funcionam como reguladores social de recepção, compondo destinatários específicos dotados de competências diversificadas; mas a coincidência é apenas teórica, quando observamos o intervalo temporal e semântico existente entre destinatário e leitor (HANSEN, 2005, p.20). ISSN 2175-943X I Congresso Internacional de Pesquisa em Letras no Contexto Latino-Americano e X Seminário Nacional de Literatura, História e Memória 21 a 23 de Setembro de 2011 UNIOESTE – Cascavel/PR E é por essa razão que defendemos que a existência dos mediadores competentes pode ajudar na atenuação das distâncias que separam os leitores principiantes e os textos literários clássicos de difícil acessibilidade, contribuindo, dessa forma, para que a interação entre ambos possa produzir sentidos significativos. Aguiar (2000), por sua vez, ao tratar do mesmo tema ratifica que a leitura literária pressupõe o domínio de certo “decoro” que lhe é peculiar. Para ele, a literatura constitui-se num objeto único que “merece [...] um tratamento específico, um preparo especial para ser apreciado” (AGUIAR, 2000, p.20). O domínio desse decoro diz respeito exatamente ao domínio das convenções de leitura exigido para a leitura das obras literárias. Em relação aos textos clássicos, Hansen (2005) reconhece que o mercado do livro, os cânones artísticos, as corporações universitárias, as comunidades críticas da leitura, as legilibilidades autorizadas etc. tendem a classificar positivamente ou autorizar determinados regimes discursivos e modos determinados de lê-los, propondo-os como exclusivos para produzir o sentido (HANSEN, 2005, p.20), Por outro lado, o autor também entende que esses modos institucionalizados de se relacionar com a leitura não podem predeterminar as leituras de ficção; e menos ainda as leituras literárias; isso porque, para ele, “as apropriações dos textos são muito felizmente incontroláveis” (2005, p.20). Além disso, a “incompletude é regra”, nenhuma leitura esgota todas as possibilidades e a maior parte das leituras literárias também permanecem anônimas e desconhecidas, pois “elas são individuais”. Isso nos remete às considerações de Candido (1981), quando este afirma que o ponto de partida para a leitura literária é a personalidade do crítico, enquanto leitor, já que, para ele, toda crítica viva parte de uma impressão para chegar a um juízo e é entre essas duas etapas que a análise literária propriamente dita acontece. O ponto de partida para Candido, portanto, é a personalidade do crítico que intervém na sensibilidade do leitor, mas isso não é tudo. As impressões do crítico enquanto leitor são preliminares importantes e é preciso experimentá-las e manifestá-las, “pois elas representam a dose de arbítrio, que define a sua visão pessoal” (CANDIDO, 1981, p.32). Para Candido, quanto mais o leitor for capaz de ver num escritor, o seu escritor, vendo na obra, como ninguém mais, algo oposto ao que os outros veem, tanto mais crítico ele será. Segundo o autor, é por esse motivo que a crítica viva usa largamente a intuição, aceitando e procurando exprimir as sugestões trazidas pela leitura. Delas sairá, afinal, o juízo, que não é julgamento puro e simples, mas avaliação, reconhecimento e definição de valor. Desse modo, percebe-se ISSN 2175-943X I Congresso Internacional de Pesquisa em Letras no Contexto Latino-Americano e X Seminário Nacional de Literatura, História e Memória 21 a 23 de Setembro de 2011 UNIOESTE – Cascavel/PR que a análise está, então, a serviço da receptividade individual, que busca na obra uma fonte de emoção e termina avaliando o seu significado. Devido a todas estas convenções da leitura literária, Hansen (2005) chama a atenção para a necessidade de que se considere o “como” da leitura, pois, para ele, não adianta, apenas, quantificar “o que” se lê. Afinal, ter livros não significa ler livros, ainda mais numa sociedade em que o livro funciona como um crachá, distintivo de classe. Nesse aspecto, torna-se procedente a reflexão sobre o modo como os textos literários, com todas as suas convenções e exigências, têm sido apropriados pelos leitores em processo de formação. Consciente da questão política que gira em torno da questão da leitura e do acesso à cultura, Hansen (2005) também questiona a qualidade do ensino público brasileiro, entendendo que diante de tamanha complexidade da leitura literária e da precariedade desse ensino, dificilmente os adolescentes poderão realizar tais leituras de forma adequada. Se o estilo é o homem e se o homem é revelado, como se ouve dizer, nas grandes obras canônicas que todos devemos necessariamente conhecer para a máxima elevação espiritual de nós mesmos e da nação, qual será a humanidade dos alunos da escola pública que hoje, porque mal conseguem ler textos pragmáticos simples, são classificados – e por professores de literatura que deveriam ter a mais radical consciência do arbítrio da cultura – como exemplares zoológicos de rebaixamento do nível? (HANSEN, 2005, p.38). O questionamento proposto por Hansen (2005) é, no mínimo, desestabilizador para nós - professores de literatura -, tornando a reflexão inevitável. Essa preocupação nos convoca à mudança e ao comprometimento com a avaliação das práticas de ensino adotadas na área da Literatura e dos investimentos que têm sido feitos para a formação do leitor literário. Nessa perspectiva, procuramos, na obra Dona Casmurra e Seu Tigrão, algumas inspirações que nos ajudem a pensar em possibilidades de atuação voltadas ao trabalho de despertar no leitor juvenil o interesse pela leitura literária. NA TRAMA DE IVAN JAF, A MEDIAÇÃO ENTRE ASSS E SEUS LEITORES Tendo em vista a complexidade da leitura literária de obras clássicas dotadas de grande prestígio e marcadas pelo caráter de difícil acessibilidade, é provável que um leitor ainda em processo de formação encontre dificuldades para a realização de semelhante tarefa ISSN 2175-943X I Congresso Internacional de Pesquisa em Letras no Contexto Latino-Americano e X Seminário Nacional de Literatura, História e Memória 21 a 23 de Setembro de 2011 UNIOESTE – Cascavel/PR e, por essa razão, torna-se necessária a existência de mediadores competentes que possam contribuir para uma relação mais positiva entre esses leitores e a literatura clássica. A obra Dona Casmurra e Seu Tigrão (2008), pertencente à Coleção Descobrindo os Clássicos, tendo o propósito explícito de estabelecer a mediação entre a obra machadiana e o público juvenil, cumpre esta tarefa de forma interessante e, por isso, pode nos sugerir algumas alternativas a serem consideradas no decorrer do processo de formação desses leitores juvenis. Na tentativa de criar, na narrativa, um contexto favorável para a leitura do clássico machadiano, logo de início, o autor apresenta, em primeiro plano, a fábula de um adolescente, lutador de jiu-jitsu e famoso, entre os jovens, pela sua força, valentia e coragem. As características do protagonista Barrão despertam, de imediato, a identificação dos leitores dessa faixa etária com a trama, de modo que eles se sentem representados na narrativa. À primeira vista, o leitor tem a impressão de que Barrão é exatamente o oposto de Bentinho, protagonista de Dom Casmurro: enquanto Bentinho é um garoto mimado, inseguro, que se coloca na posição de frágil vítima, traído por Capitu e constantemente manipulado pela mãe e pela própria Capitu, Barrão é um adolescente valentão, independente, de grande autoestima, musculoso, pró-ativo, rebelde e que não leva desaforo para casa. Para completar a sua fama, Barrão ainda se apresenta como alguém que não gosta de ler e que considera a leitura “coisa de fresco”. Esse fato também é estratégico, pois garante a simpatia e a autoridade de Barrão diante do público juvenil. Quando Barrão for seduzido pela leitura da obra machadiana, a estratégia do narrador é seduzir, também, simultaneamente, todos os leitores de Dona Casmurra e Seu Tigrão (2008). Ao longo da narrativa, o propósito do narrador de criar condições favoráveis à leitura vai adquirindo consistência e envolvendo o protagonista Barrão e o público juvenil. Assim, tudo começa quando o jovem lutador de jiu-jitsu ouve colegas comentando que sua namorada Pâmela seria uma “tremenda Capitu”. Intrigado por não entender o sentido dessa expressão e já suspeitando da infidelidade de Pâmela, Barrão segue até a biblioteca da escola para procurar na Internet o significado do termo. Indignado, Barrão lê algo que relaciona o nome Capitu às suspeitas de infidelidade. Isso é o suficiente para que Barrão enlouqueça e aja de forma violenta na biblioteca, chamando a atenção de Lu, a estagiária que trabalhava ali. Lu dirige-se até Barrão e tenta acalmá-lo, mas ele está descontrolado e parece decidido a matar sua namorada e todos os envolvidos na suposta traição. Chorando e muito irritado, Barrão acaba confessando para Lu o que lhe sucedera e é por meio dela que ele ISSN 2175-943X I Congresso Internacional de Pesquisa em Letras no Contexto Latino-Americano e X Seminário Nacional de Literatura, História e Memória 21 a 23 de Setembro de 2011 UNIOESTE – Cascavel/PR descobre que “Capitu” era a personagem de Machado de Assis; por coincidência, da mesma obra solicitada pela professora, para a prova final, na qual Barrão deveria tirar nove e meio. Lu revela-se convicta da inocência de Capitu e tenta convencer Barrão de que talvez Pâmela não seja infiel e até sugere que ele leia Dom Casmurro para tirar suas próprias conclusões a respeito de Capitu. Essa convicção de Lu até faz com que Barrão passe a admitir a possibilidade de estar equivocado em relação à Pâmela, mas seu ciúme e sua necessidade de manter a fama de “machão” é maior. E, dominado pelo ciúme, Barrão defende a infidelidade de Pâmela e de Capitu. Além disso, não é difícil imaginar que um leitor desmotivado para a leitura como Barrão, não se renderia à leitura do clássico machadiano tão facilmente. E é por isso que Ivan Jaf busca um meio diferente para trazer à tona o interesse pelo livro. No contexto escolar, muitas vezes os adolescentes também não conseguem encontrar razões suficientes para a leitura dos clássicos. Assim como na escola, na trama de Dona Casmurra e Seu Tigrão (2008), também, a prova por si só não basta para provocar esse leitor desinteressado. E, possivelmente, para ganhar a cumplicidade desse leitor adolescente real, Jaf cria essa personagem que é o verdadeiro estereótipo do jovem rebelde, vaidoso e que não lê. E só depois de aprontar muita confusão é que Barrão passa a interessar-se pela leitura. E o fato que faz com que Barrão reconheça que a leitura de Dom Casmurro poderia ter suas vantagens acontece num momento extremo, depois do dia em que ele foi procurar sua namorada, sem avisar, após a aula de inglês que ela fazia no shopping e, lá, ele a viu de mãos dadas com um cara. Ele não suportou o ciúme e partiu logo para a violência: bateu no homem e em todos os que tentaram segurá-lo, com tantos socos e pontapés, o homem agredido desmaiou, a polícia foi acionada e Barrão foi levado à delegacia, ficando numa situação complicada. Se fosse condenado, ele iria para uma instituição de menores. Só mais tarde Barrão descobriu que o tal homem que ele agrediu era um tio de Pâmela, que era dono de uma loja no shopping e era um dos mais influentes membros da comunidade gay do Rio de Janeiro. Foi assim que Barrão virou símbolo da violência dos pitboys contra os homossexuais. O resultado disso foi que Pâmela não queria mais falar com Barrão, os pais dele achavam que se ele fosse preso seria até bom e, além disso, as notas na escola não estavam nada bem e, se reprovasse, seus pais desistiriam dele de vez. Foi então que o protagonista rendeu-se de vez à leitura: “Não dá pra tirar nove e meio só lendo a orelha ou vendo filme. Colar também vai ser difícil. [...] Você me ajuda a ler Dom Casmurro?” (JAF, 2008, p. 31). Percebe-se, então, que o interesse pela leitura, na obra, é provocado por uma série de fatores: o ciúme doentio; a suspeita da traição de sua namorada; o medo dos comentários que ISSN 2175-943X I Congresso Internacional de Pesquisa em Letras no Contexto Latino-Americano e X Seminário Nacional de Literatura, História e Memória 21 a 23 de Setembro de 2011 UNIOESTE – Cascavel/PR os colegas poderiam estar fazendo a respeito dele; o desejo de acabar com a dúvida e a pressão por melhorar a sua situação na escola, já que ele corria o risco de reprovar; a insistência e as grandes contribuições de Lu... tudo isso foi criando um contexto favorável para a leitura. As motivações escolares – provas e notas – juntam-se a motivações pessoais do protagonista e, assim, ler Dom Casmurro passa a ser uma questão de honra para Barrão. Pela leitura, ele acredita ser possível a aprovação na escola, mas isso é apenas um pretexto para recuperar a confiança dos pais e da sociedade e superar as suspeitas de infidelidade de Pâmela que tanto o incomodavam. Essas seriam, então, como Candido propõe, as impressões iniciais que levaram Barrão à leitura da obra, leitura esta que passará por um processo de análise, pesquisa, compreensão, para chegar depois a um juízo de valor. Lu, então, com a condição de poder dizer tudo o que pensava de Barrão sem correr o risco de ser agredida, aceitou o desafio de ajudá-lo na leitura e sua ajuda foi essencial. Foi ela quem transmitiu as informações preliminares para esse adolescente rebelde, apresentando o autor, a obra e incrementando as informações no decorrer da leitura, conforme as dúvidas iam surgindo. Lu falava do contexto histórico, explicava as referências que o narrador fazia a outros textos, explicava determinados termos pertencentes ao léxico da obra, antecipava o que seria abordado nos capítulos seguintes, de modo a aguçar a curiosidade de Barrão; enfim, ela acompanhou todas as etapas da leitura, ajudando na interpretação dos fatos e emitindo comentários críticos e alguns palpites sobre as suspeitas que recaíam sobre Capitu. Diante da inexperiência e da ignorância das convenções literárias de Barrão, Lu ocupa uma posição importante, no processo de formação desse leitor. É através dela que Barrão vai aguçando sua curiosidade de tal modo que, mesmo com seu preconceito contra a leitura, ele acaba convencido de que não será possível escapar da leitura de Dom Casmurro. A partir de então, na leitura realizada por Barrão, é evidente a sua necessidade de falar a Lu daquilo que leu, de fazer comentários, questionar, levantar hipóteses, comparar a narrativa com os fatos da sua vida, associar personagens a pessoas conhecidas, colocar-se no lugar dos personagens, dar palpites sobre a história, enfim, estabelecer uma forte relação entre a obra e as suas experiências de vida. Esses comentários abundantes a respeito da obra lida justificam-se pela motivação da personagem na leitura, pelas suas impressões iniciais e pelas predisposições que o levam ao clássico machadiano. Acompanhando o processo de leitura de Barrão, torna-se possível identificar várias fases que podem ser comparadas às fases pelas quais passa um leitor em processo de formação. Através de suas opiniões, é possível perceber ISSN 2175-943X I Congresso Internacional de Pesquisa em Letras no Contexto Latino-Americano e X Seminário Nacional de Literatura, História e Memória 21 a 23 de Setembro de 2011 UNIOESTE – Cascavel/PR o amadurecimento gradativo de Barrão e, aos poucos, o adolescente rebelde, que tinha orgulho por não gostar de ler, passa a mostrar-se seduzido por Machado de Assis. Com a ajuda de Lu, Barrão, seduzido pela qualidade estética da obra machadiana, vai envolvendo-se na trama desse clássico, passa a considerar o autor um cara legal e não pondera ao exaltar “o Machado de Assis”, que agora aparece acompanhado do artigo definido, já que Barrão já adquiriu intimidade com ele. Evidencia-se, então, na narrativa de Ivan Jaf, um cuidado todo especial para fazer com que seus leitores tenham acesso não só à fábula machadiana, mas também às discussões relacionadas à qualidade estética da obra. Tanto é assim que Barrão passa a admirar e respeitar Machado de Assis pela forma como ele narra, por exemplo, o primeiro beijo de Bentinho e Capitu, narração esta que Barrão lê como a narrativa do seu primeiro beijo com Pâmela: “Foi assim mesmo! Esse Machado escreve gozado, mas foi assim mesmo. [...], me deu vontade de dizer uma porção de coisas, mas as palavras não saíam. As palavras saíam da cabeça, mas, em vez de ir pra boca, iam pro coração. [...] Grande Machado!” (JAF, 2008, p.46). Em alguns momentos da leitura, Barrão mostra-se revoltado contra o comportamento “passivo” de Bentinho, mas aos poucos, ele passa a enxergar a si mesmo nas atitudes da personagem e até passa a admitir que, ao contrário do que ele e os leitores pensavam inicialmente, ele não era tão diferente de Bentinho. À medida que a narrativa avança, Barrão percebe que, na verdade, a sua valentia e autoconfiança eram apenas aparentes. Por trás da sua revolta e agressividade, Barrão enxerga um ciumento paranoico, frágil, carente e inseguro. E, a partir de então, acentuam-se as semelhanças que ligam as histórias de Barrão e Bentinho. Os pressupostos da Teoria do efeito, propostos por Iser, de que a subjetividade do leitor contribui para o processo de construção de sentido da obra, nesse caso, é confirmado, pela leitura de Barrão. Em outra situação, certamente, a leitura ele faria da obra não seria a mesma, o nível de intimidade com o personagem poderia estreitar-se ainda mais ou até mesmo afrouxar-se, de acordo com o interesse e as emoções afloradas em cada momento. Para Hansen (2005), “bons leitores literários não se deixam iludir pela ficção, sendo capazes de analisar a maneira técnica como o texto prescreve a recepção do efeito ou, mais simplesmente, de entender que resulta de um ato de fingir” (2005, p.27). Então, se o leitor não perceber o aspecto ficcional da obra, não conseguir analisar a maneira técnica como o próprio texto prescreve a sua, sua leitura será um tanto superficial. Por outro lado, ao dominar os artifícios usados pelo narrador, o leitor pode ousar e propor novos sentidos para a obra. ISSN 2175-943X I Congresso Internacional de Pesquisa em Letras no Contexto Latino-Americano e X Seminário Nacional de Literatura, História e Memória 21 a 23 de Setembro de 2011 UNIOESTE – Cascavel/PR Na obra de Ivan Jaf, por exemplo, talvez por ignorar algumas estratégias do narrador machadiano, até certo ponto, Barrão faz exatamente a leitura que o narrador quer que ele faça, acreditando piamente na inocência de Bentinho e na traição de Capitu. À medida que é orientado por Lu, no entanto, ele fica atento às tentativas de manipulação do narrador machadiano, passando a admitir a possibilidade de ler a obra a partir de outra perspectiva. Já a estagiária Lu, é enfática ao afirmar: “Capitu é uma personagem muito complexa. Machado de Assis foi um escritor maravilhoso. Capitu era uma porção de coisas. [...] Pra mim, Capitu não foi infiel. Não traiu o marido. Bom, pelo menos do meu ponto de vista” (JAF, 2008, p.21). Dessa forma, Lu demonstra que compreendeu os artifícios do ato de fingir do narrador e confirma que o texto literário pode ser lido de diversas maneiras. Num país [...] como o Brasil, ler é luxo; e a leitura literária, o supra-sumo dele, pois depende de critérios especializados que conferem distinção para os membros dessas corporações, que recitam hierarquizadamente as leituras autorizadas, incorporando a aura da sua autoridade [...] (HANSEN, 2005, p. 23). No entanto, ao propor a leitura de Dom Casmurro por adolescentes e não por um crítico de literatura, a obra Dona Casmurra e Seu Tigrão (2008) traz para essa leitura novas possibilidades, enfatizando o caráter individualizado da leitura que ali se realiza. A estagiária de Biblioteconomia realiza uma leitura particular, mas nunca ela apresenta essa leitura como a única possível. Muito pelo contrário, Lu deixa claro que a leitura que ela realiza é uma prática perspectivada, com posicionamento bem definido. A sua leitura não tem a autoridade conferida às leituras dos renomados críticos de literatura, mas nem por isso, perde em qualidade e em poder de persuasão, diante de Barrão. O processo de leitura literária sendo encarado dessa forma, na obra, acaba por permitir aos demais leitores - e até mesmo estimulálos – que eles aproximem a leitura da obra de suas vivências particulares. Vale ratificar, ainda, que a melhoria da relação entre Barrão e a obra machadiana, que acontece sob a mediação de Lu, e o respeito e a admiração pelo autor, gradativamente, vão conquistando a cumplicidade também do público que lê a trama Ivan Jaf. Os vínculos criados entre Barrão e Machado estendem-se para os demais leitores que passam a enxergar, também, um outro lado de Assis, mais acessível, mais próximo, mais familiar. Dessa forma, Dona Casmurra e Seu Tigrão (2008) realiza, com competência, a mediação a que se propõe, pois ela assegura aos seus leitores o acesso à fábula e à trama de Dom Casmurro; nela é possível ter acesso ao conteúdo – “o que” se narra - e ao modo de narrar – o “como” - da obra ISSN 2175-943X I Congresso Internacional de Pesquisa em Letras no Contexto Latino-Americano e X Seminário Nacional de Literatura, História e Memória 21 a 23 de Setembro de 2011 UNIOESTE – Cascavel/PR machadiana. E, nesse sentido, é que podemos identificar, na trama de Ivan Jaf, algumas questões interessantes a serem refletidas sobre o processo de formação do leitor literário. A LEITURA E O AMADURECIMENTO PESSOAL E LITERÁRIO DE BARRÃO Ao falar sobre a influência do texto literário sobre o leitor, Hansen propõe que a leitura literária é um processo em que o leitor, na leitura, faz uso e transforma “um objeto cultural que também o transforma ao ser lido. Porque não lemos, apenas, somos lidos ativamente pelos textos literários [...]. O texto literário nos lê ativamente e [...] contra nós, porque questiona o familiar [...] que rotiniza a nossa experiência como natureza imutável (HANSEN, 2005, p.24-25). Isso é o que acontece com Barrão, que vai se constituindo um novo sujeito por meio da leitura. Ao mesmo tempo em que ele usa e transforma um objeto cultural que é a obra, ele também é transformado por esse objeto e lido também. O texto literário, ao interagir com Barrão, provoca emoções diversas, questiona suas convicções pessoais, muda seus conceitos, acrescenta-lhe novas dúvidas, traz a ele novas perspectivas, promove a reflexão sobre suas atitudes, enfim, Barrão muda ao ser lido pela obra e a obra muda, também, ao ser lida por Barrão, pois ambos – obra e leitor - acrescentam novas perspectivas tanto para a obra quanto para a vida do leitor. Fazendo referência à obra de Shakespeare, Hansen (2005) afirma que sua imagem mimética e valorativa constitui dois tipos de destinatários definidos: os “discretos” e os “vulgares”, sendo os discretos, os tipos intelectuais conhecedores do artifício aplicado no texto e os vulgares, aqueles que ignoram tais artifícios. O destinatário discreto, que é capaz de refazer na recepção as operações dialético-retóricas aplicadas à deformação dos temas figurados nelas adquire superioridade na agudeza das imagens, visto que ele é apto a compreender não só a significação engenhosa das imagens, mas também a perícia técnica do artifício aplicado à invenção. Por outro lado, o destinatário vulgar, recebe o texto como se as imagens estivessem sendo construídas contra ele, acusando-o da falta das virtudes convencionais, e divertindo-o com vulgaridades sem regras aparentes de juízo. Na obra Dona Casmurra e Seu Tigrão, Lu é essa leitora “discreta”, visto que ela não perde de vista o fato de que a narrativa da obra Dom Casmurro feita por Bentinho é influenciada pelas convicções pessoais desse narrador-personagem e, assim, ela lê a obra com mais atenção aos artifícios usados para persuadir o leitor. Para ela, a narrativa de Bentinho é ISSN 2175-943X I Congresso Internacional de Pesquisa em Letras no Contexto Latino-Americano e X Seminário Nacional de Literatura, História e Memória 21 a 23 de Setembro de 2011 UNIOESTE – Cascavel/PR totalmente suspeita, visto que ele não é neutro na história. Já Barrão, dominado pelo ciúme e mais ingênuo em relação aos artifícios de fingimento do texto literário, cai mais facilmente na armadilha do narrador, chegando a considerar que a traição de Capitu era inquestionável, e isso por aceitar as evidências de Bentinho como evidências indiscutivelmente verdadeiras. Para Hansen (2005), para que se possa ler literariamente, os leitores devem saber escolher entre os significados possíveis, o mais adequado ao contexto discursivo da leitura, do gênero textual lido e não apenas ao contexto do seu imaginário particular. Desse modo, verifica-se que o conhecimento para a leitura literária não é dado apenas pelo texto, mas depende muito, também, dos fatores extra-literários como uma vida e um ensino público decentes. No caso de Barrão, o que se evidencia é que, aos poucos, ele vai percebendo os artifícios do narrador e passa a observar até as táticas de Bentinho, quando ele aproveita algum episódio para reforçar a desconfiança do leitor sobre Capitu. Em alguns momentos, sua sensibilidade estava tão aflorada a ponto dele reconhecer, por exemplo, que a descrição de sexo apresentada por Machado de Assis era a melhor possível, e diferente de qualquer outra que ele poderia ouvir, por exemplo, na academia de jiu-jitsu. Enquanto Assis capricha na linguagem ao afirmar que Bentinho e Capitu “visitaram aquele lugar infinito”; os garotos “azaravam” as garotas, davam uns “amassos” e depois as “machucavam” (JAF, 2008, p.103). E assim, Barrão decide que não queria mais “machucar” as mulheres, só queria “visitar com elas aqueles lugares infinitos” (p.103). A mudança de Barrão é tão evidente que, no final da narrativa de Ivan Jaf, Barrão foi capaz de ir ao shopping para pedir desculpas ao tio de Pâmela em quem tinha batido, já se declara disposto a reduzir a musculação para desinchar os bíceps, está decidido a deixar de ser estúpido e, para isso, propõe-se a ler mais. E ainda, ele se mostra muito grato à Lu por tê-lo ajudado nessa fase difícil de sua vida. Mais que grato, Barrão demonstra estar apaixonado por Lu e, nesse caso, a sua dúvida em relação à possível traição de Pâmela - assim como a dúvida de Bentinho, em Dom Casmurro - ainda é uma incógnita, mas já não faz o menor sentido para ele. O importante é que, agora, ele está interessado em Lu e isso lhe dá forças e segurança para superar o ciúme que sentira. Ao contrário de Bentinho, Barrão ainda tem a chance de recomeçar sua vida e mudar o desfecho da sua história. E, ao final da trama, ele constata que “a vida era como as histórias contadas nos livros. Os personagens avançavam pelas páginas, às cegas. Barrão era como o personagem de um livro. Ninguém podia avisá-lo do perigo” (JAF, 2008, p.111). Entretanto, através da leitura de Dom Casmurro, o protagonista pode ISSN 2175-943X I Congresso Internacional de Pesquisa em Letras no Contexto Latino-Americano e X Seminário Nacional de Literatura, História e Memória 21 a 23 de Setembro de 2011 UNIOESTE – Cascavel/PR ampliar seus conhecimentos, suas experiências e superar sua ignorância. Ao apreciar a história de Bentinho, Barrão revisita a sua própria história, vendo-se a si mesmo “entre parênteses” por meio da leitura. CONSIDERAÇÕES FINAIS A partir das estratégias adotadas pelo narrador de Dona Casmurra e Seu Tigrão, podemos tirar algumas conclusões importantes, sobre a formação do leitor literário. Primeiro, esse leitor não nasce formado, ele precisa de incentivo, precisa de algum tipo de mediação. E essa mediação deve ser exercida por mediadores aptos a identificarem, nesse público de leitores em formação, algo com o que eles possam identificar-se na leitura. Cabe aos mediadores, ajudar o leitor principiante a encontrar novas razões para a leitura, razões estas que envolvem a subjetividade desses indivíduos e não podem, de forma alguma, serem limitadas às razões escolares (notas, provas, trabalhos). Para que haja interesse verdadeiro pela obra literária, o leitor deve reconhecer nela, a possibilidade de um diálogo consigo mesmo, através da leitura. Para isso, às vezes, ele precisa de informações que o ajudem a compreender melhor o universo cultural que deu origem à obra, os significados que ela tem recebido ao longo do tempo, mas, acima de tudo, o leitor deve encontrar o ponto de coerência que garante que ele se sentirá refletido, de alguma forma, na obra que lê. A importância de que haja espaços favoráveis ao debate da obra no decorrer da leitura, como ocorreu na leitura que Lu e Barrão fizeram de Dom Casmurro, também, é fundamental. Quando um leitor estabelece hipóteses de sentido e as confronta com as hipóteses de outros leitores, ele tem a possibilidade de validar suas conclusões, de assumir perspectivas diferentes e de aprofundar sua leitura, atribuindo novos sentidos para o texto que lê. Até porque esses espaços de debates propiciam, também, o amadurecimento do leitor. Ao falar de como leu, cada leitor pode organizar seus pensamentos e sentimentos, refletindo sobre a leitura que fez e sobre si mesmo. Através dos debates, um leitor que se atém apenas à história pode ser levado a observar, além do conteúdo, a forma como os temas são abordados, dando maior ênfase ao trabalho estético que o autor realiza com a linguagem. Enfim, a narrativa de Dona Casmurra e Seu Tigrão, além de assumir o papel de mediadora entre o clássico machadiano e o público juvenil, pode nos oferecer uma série de dicas que podem auxiliar o nosso trabalho de educadores envolvidos na formação do leitor literário. Acompanhar o processo de amadurecimento de Barrão, no decorrer da leitura de ISSN 2175-943X I Congresso Internacional de Pesquisa em Letras no Contexto Latino-Americano e X Seminário Nacional de Literatura, História e Memória 21 a 23 de Setembro de 2011 UNIOESTE – Cascavel/PR Dom Casmurro é uma forma de ter acesso a algumas etapas pelas quais muitos leitores principiantes costumam passar. E entender que essas fases fazem parte de um processo contínuo já é um primeiro passo para que saibamos atuar no sentido de ajudar nossos leitores a tornarem-se cada vez mais críticos e mais competentes na leitura de um texto literário. REFERÊNCIAS AGUIAR, Flávio. “As questões da crítica literária”. In: Outras leituras: literatura, televisão, jornalismo de arte e cultura, linguagens interagentes. Martins, M. H. (org) – São Paulo: Editora SENAC. São Paulo: Itaú Cultural, 2000. CANDIDO, Antônio. Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos. 6. ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1981. HANSEN, João Adolfo. “Reorientações no campo da Leitura Literária”. In: Márcia Abreu, Nelson Schapochnik (orgs). Cultura letrada no Brasil: objetos e práticas. – Campinas: Mercado de Letras, Associação de Leitura do Brasil (ALB); São Paulo: FAPESP, 2005. (Coleção Histórias de Leitura). ISER, Wolfgang. O ato de leitura: uma teoria do efeito estético. Tradução: Johannes Kretschmer. São Paulo: Ed. 34, 1996, v. 1. ISER, Wolfgang. O ato da leitura: uma teoria do efeito estético. Tradução: Johannes Kretschmer. São Paulo: Ed. 34, 1999, v. 2. JAF, Ivan. Dona Casmurra e seu Tigrão. 2. ed. 1. reimpr.. São Paulo: Ática, 2008 (Coleção Descobrindo os Clássicos). ISSN 2175-943X