I Congresso Internacional de Pesquisa em Letras no Contexto Latino-Americano e
X Seminário Nacional de Literatura, História e Memória
21 a 23 de Setembro de 2011
UNIOESTE – Cascavel/PR
Dona Casmurra e Seu Tigrão: uma metáfora do processo de formação do leitor literário
BELTRAMIM, Alessandra Oliveira dos Santos (UEM)
ZAPPONE, Mírian Hisae Yaegashi (UEM-Orientadora)
RESUMO: Considerando que o texto literário possui características bem peculiares, exigindo
um tratamento diferenciado por parte de seus leitores, é evidente que a formação do leitor
literário dificilmente poderá contar apenas com a sorte, ocorrendo de forma gratuita,
espontânea, sem investimentos, sem planejamento para tal fim. A formação desse leitor é um
tanto complexa, a leitura dessa modalidade textual possui um “decoro” peculiar e requer
habilidades específicas que não podem ser ignoradas. Partindo desse pressuposto, este
trabalho propõe uma leitura da obra Dona Casmurra e Seu Tigrão, de Ivan Jaf, concebendo-a
como uma metáfora do processo de formação do leitor literário. Na referida obra, as
personagens - de modo mais específico, Barrão, o adolescente lutador de jiu-jitsu - passam
por um interessante processo de formação a partir do qual a obra machadiana – Dom
Casmurro - adquire um novo sentido, propiciando a criação de um contexto favorável para a
leitura da mesma e para o amadurecimento e deleite do leitor. Com base na leitura dessa obra,
segundo essa perspectiva, espera-se, então, elencar algumas contribuições, algumas
alternativas que nos permitam problematizar o ensino de literatura e a educação literária. Para
fundamentar nossa análise, adotar-se-á a Teoria do Efeito Estético, proposta por Iser (1996 /
1999) e as contribuições de Aguiar (2000), Hansen (2005) e Candido (1981) no que se refere
às especificidades do texto literário.
PALAVRAS-CHAVE: “Dona Casmurra e Seu Tigrão”, Leitura Literária, Formação do
Leitor, Teoria do Efeito Estético.
ABSTRACT: Considering that the literary text has peculiar characteristics, requiring a
different approach from readers, it is evident that the literary reader formation can hardly rely
only on luck, happen in an unpaid and spontaneous way, without investments, without
planning. The literary reader formation is complex, the reading of this textual genre has a
particular “decorum” and requires specific abilities that can not be ignored. Based on that, this
paper proposes a reading analysis of the Dona Casmurra e Seu Tigrão, by Ivan Jaf,
conceiving it as a metaphor for the literary reader formation. In that book, the characters –
more specifically, Barrão, the teenager jiu-jitsu fighter – go through an interesting formation
process from which the machadian work – Dom Casmurro – acquires a new meaning,
allowing the creation of a favorable context for its reading and the reader’s maturation and
delight. Based on the mentioned work reading, according to this perspective, it is hoped, then,
list some contributions, some alternatives that enable us to question the literature teaching and
the literary education. To support our analysis, we adopt the Theory of Aesthetic Effect,
proposed by Iser (1996/1999) and the contributions of Aguiar (2000), Hansen (2005) and
Candido (1981) about the literary text specificities.
KEYWORDS: “Dona Casmurra e Seu Tigrão”, Literary Reading, Reader’s Formation,
Theory of Aesthetic Effect.
INTRODUÇÃO
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Não é novidade o fato de a literatura possuir certas peculiaridades que tornam a
leitura literária um tanto complexa. Nesse caso, é evidente que o processo de formação do
leitor literário não pode contar apenas com a sorte, com o gosto individual, com o interesse
espontâneo de cada leitor. Sem dúvida, em se falando de literatura, elementos como o gosto, o
interesse e a sensibilidade do leitor são fundamentais, mas não são suficientes para garantir a
realização de leituras literárias capazes de refazerem o processo de invenção previsto pelos
textos dessa natureza. O processo de formação do leitor é influenciado por uma série de
fatores e, dificilmente, ocorre de forma gratuita e sem nenhuma mediação. As experiências
vivenciadas por cada um no contexto sócio-cultural e a presença de mediadores competentes
exercem grande influência sobre a formação dos indivíduos enquanto leitores.
Então, é preciso reconhecer que a formação do leitor literário demanda esforços,
planejamento e a atuação de bons mediadores. E, embora reconheçamos que não existe, de
fato, uma receita única, passível de ser aplicada com êxito em todas as situações de tentativa
de formação desse leitor, defendemos a necessidade de serem analisadas algumas
possibilidades de tratamento das relações entre o leitor em processo de formação e a literatura.
Primeiramente, é preciso esclarecer que vemos a formação do leitor literário como
um processo amplo, complexo, que exige treino, exercício, planejamento e algum tipo de
mediação. Ninguém nasce leitor formado, a formação do gosto pela leitura está intimamente
ligada aos hábitos, à cultura, à história dos indivíduos e, por isso, exige uma atenção maior da
parte dos profissionais e estudiosos da área, a fim de que sejam encontrados caminhos que
permitam que a leitura literária passe a fazer parte da vida dos leitores adolescentes.
Para que se possa ler literariamente, é preciso dominar as convenções da escrita
literária e suas características específicas de modo a garantir a construção de sentido para o
que se lê. E nesse contexto, são poucos os jovens que se aventuram pelo emaranhado
plurissignificativo da escrita literária, propriamente reconhecida como tal.
Por essa razão, esse estudo pretende investigar as estratégias adotadas por Ivan Jaf
para atrair o público juvenil para a obra machadiana, através da obra Dona Casmurra e Seu
Tigrão. Dessa forma, conceberemos esta obra como uma metáfora do processo de formação
do leitor literário, pois com uma preocupação evidente em garantir acessibilidade ao leitor
principiante, essa atualização do clássico machadiano estabelece caminhos que podem ser
interessantes de serem observados pelos estudiosos envolvidos na formação do leitor literário.
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A TEORIA DO EFEITO ESTÉTICO E A POSSIBILIDADE DE ATUALIZAÇÃO DO
TEXTO LITERÁRIO
Ao propor a “Teoria do Efeito”, Iser (1996 - 1999) afirma, em relação à obra
literária, que “sempre nos acontece algo através dessa arte, e nos cabe perguntar”, então, “o
que acontece” (ISER, 1996, p.9). Para o autor, a obra literária tem a peculiaridade de sempre
provocar efeitos em seu leitor, o que explica o chamado “caráter de acontecimento” por ele
proposto. Considerando esse caráter de acontecimento, Iser (1996 – 1999) defende que o mais
importante, diante da obra literária, não é a sua mensagem ou as intenções do seu autor ao
produzi-la; o que interessa, para ele, são os possíveis efeitos provocados pela obra no leitor. E
é importante considerar, ainda, que, como a leitura é um processo individual, é provável que a
diversidade de efeitos possíveis seja proporcional à diversidade de leitores que se aventuram
pela leitura de uma mesma obra.
Essa nova concepção metodológica passou a exigir novas posturas dos críticos e,
assim, tentando explicar os processos que levam a leitura literária a provocar efeitos em seus
leitores, Iser propõe duas questões básicas: “1- Em que medida o texto literário se deixa
apreender como um acontecimento? 2- Até que ponto as elaborações provocadas pelo texto
são previamente estruturadas por ele?” (Iser, 1996, p. 11).
Para responder à primeira questão, Iser (1996 – 1999) recorre ao processo de seleção
e combinação, afirmando que toda obra de arte transpõe, de certa forma, para o universo
artístico, determinada realidade; essa realidade recuperada no contexto da arte, porém, assume
significados diferentes. Todo artista seleciona apenas alguns fragmentos da realidade e o faz
de forma subjetiva, combinando-os à sua maneira. Assim, a seleção e combinação dos
aspectos da realidade retratados na arte pelo artista ganham novos significados. O mesmo
acontece quando o apreciador se depara com a obra do artista: a partir de sua individualidade,
ele seleciona e deixa-se envolver com os aspectos da obra que mais lhe instigam. A
individualidade do observador é quem seleciona agora os aspectos da obra que fundamentará
sua recepção, construindo sentidos novos a partir da combinação dos elementos selecionados.
Assim, a leitura literária é considerada um trabalho conjunto entre leitor e autor, a
partir do texto. O autor seleciona e organiza os conteúdos e escolhe a abordagem que dará a
tais conteúdos. O leitor, por sua vez, também seleciona, dentre os conteúdos da obra, apenas
alguns, os quais serão combinados segundo critérios subjetivos, dando origem a um novo
processo de construção de sentido, confirmando o caráter plurissignificativo da obra literária.
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Para explicar o processo de seleção, Iser afirma que,
cada texto literário comporta seletivamente quanto ao mundo dado, no
interior do qual ele surge e que forma sua realidade de referência. Quando
determinados elementos dela são retirados e incorporados ao texto, eles
experimentam a partir daí uma mudança de sua significação. Nesse sentido,
a seleção a partir da qual se constrói o texto literário, possui o caráter de
acontecimento, e isso porque ele, ao intervir em uma determinada
organização, elimina sua referência. Toda transformação da referência é um
acontecimento, porque agora os elementos da realidade de referência são
retirados de sua subordinação (ISER, 1996, p.11).
E para esclarecer o processo de combinação, Iser argumenta que
o caráter de acontecimento do texto se intensifica pelo fato de que os
elementos selecionados do ambiente do texto são por sua vez combinados
entre si. Desse modo, eles se inserem em subordinações, pelas quais sua
determinação semântica e contextual é mais uma vez ultrapassada (ISER,
1996, p.11).
É interessante destacar, ainda, que o caráter de acontecimento do texto literário – e os
respectivos efeitos provocados no leitor, através do processo de seleção e combinação possibilitam a criação de uma nova realidade, com novos significados, alterando, de certa
forma, a realidade inicial, selecionada pelo autor, visto que “na seleção, a referência da
realidade se rompe e, na combinação, os limites semânticos do léxico são ultrapassados”
(ISER, 1996, p.12). Para Iser, “o texto literário se origina da reação de um autor ao mundo e
ganha o caráter de acontecimento à medida que traz uma perspectiva para o mundo presente
que não está nele contida” (ISER, 19996, p.11).
Voltando à segunda questão, vale destacar que, no processo de produção do texto
literário, o autor já adota algumas estratégias e vai disponibilizando informações que servirão
de pistas para seus leitores. Ao produzir sentido para a obra, durante a leitura, o leitor tem a
liberdade seletiva, já que a linguagem literária abarca sentidos plurais. No entanto, Iser
defende que essa liberdade é controlada pelas estratégias textuais propostas pelo texto. Desse
modo, as elaborações, os sentidos que são produzidos a partir de uma obra literária, só são
válidos se forem estruturados por ela. Desse modo, cada leitura configura-se como uma nova
atualização do texto literário. E essas atualizações são condicionadas “pelas disposições
individuais do leitor, bem como pelo código sociocultural do qual ele faz parte. Fatores desse
tipo orientam a seleção daquilo que constitui para cada leitor a base da consistência e, assim,
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o pressuposto para a pregnância de sentido do texto” (ISER, 1996, p.13). E a leitura literária,
nesse caso, passa a ser vista como um processo integral que envolve o trabalho do autor que
reage ao mundo e, também, o trabalho do receptor que atribui sentido à obra a partir de suas
experiências individuais.
Apesar da ênfase que a Teoria do Efeito atribui ao caráter individual da leitura do
texto literário, percebe-se, também, a insistência de que tal leitura deve ser competente o
suficiente para recuperar as pistas distribuídas pelo autor, ao longo do texto. A esse respeito,
Hansen (2005) defende que
a leitura sempre é feita no presente de um corpo já tatuado pela cultura,
corpo-texto que lê textos segundo critérios culturais de ler bem ou ler mal,
ler muito ou ler pouco, ler trechos ou ler volumes, ler devagar ou ler
depressa, ler sequencialmente ou aos saltos, ler em pé ou sentado, ler por
obrigação ou por prazer, ler entendendo tudo ou ler não entendendo nada ....
(HANSEN, 2005, p.13, grifo nosso).
Sendo assim, a leitura, sendo feita no presente de um corpo “já tatuado pela cultura”,
“segundo critérios culturais”, não pode ser desligada da tradição de leitores que se
apropriaram de cada texto, atribuindo novos significados a partir deles. Isso é mais relevante
ainda quando se considera a especificidade da leitura literária, que, por sua vez, pressupõe o
domínio de uma série de convenções que não podem ser ignoradas. Na opinião do autor,
para que uma leitura se especifique como leitura literária, é consensual que o
leitor deva ser capaz de ocupar a posição semiótica do destinatário do texto,
refazendo os processos autorais de invenção que produzem o efeito de
fingimento. Idealmente, o leitor deve coincidir com o destinatário para
receber a informação de modo adequado (HANSEN, 2005, p. 19 – 20).
Apesar dessa convicção, Hansen (2005) tem clareza de que essa coincidência entre
leitor e destinatário - tão desejada pelos teóricos e que seria tão favorável a uma leitura
literária propriamente dita - é praticamente inatingível:
Essa coincidência é prescrita pelos modelos dos gêneros e pelos estilos, que
funcionam como reguladores social de recepção, compondo destinatários
específicos dotados de competências diversificadas; mas a coincidência é
apenas teórica, quando observamos o intervalo temporal e semântico
existente entre destinatário e leitor (HANSEN, 2005, p.20).
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E é por essa razão que defendemos que a existência dos mediadores competentes
pode ajudar na atenuação das distâncias que separam os leitores principiantes e os textos
literários clássicos de difícil acessibilidade, contribuindo, dessa forma, para que a interação
entre ambos possa produzir sentidos significativos.
Aguiar (2000), por sua vez, ao tratar do mesmo tema ratifica que a leitura literária
pressupõe o domínio de certo “decoro” que lhe é peculiar. Para ele, a literatura constitui-se
num objeto único que “merece [...] um tratamento específico, um preparo especial para ser
apreciado” (AGUIAR, 2000, p.20). O domínio desse decoro diz respeito exatamente ao
domínio das convenções de leitura exigido para a leitura das obras literárias.
Em relação aos textos clássicos, Hansen (2005) reconhece que o
mercado do livro, os cânones artísticos, as corporações universitárias, as
comunidades críticas da leitura, as legilibilidades autorizadas etc. tendem a
classificar positivamente ou autorizar determinados regimes discursivos e
modos determinados de lê-los, propondo-os como exclusivos para produzir o
sentido (HANSEN, 2005, p.20),
Por outro lado, o autor também entende que esses modos institucionalizados de se
relacionar com a leitura não podem predeterminar as leituras de ficção; e menos ainda as
leituras literárias; isso porque, para ele, “as apropriações dos textos são muito felizmente
incontroláveis” (2005, p.20). Além disso, a “incompletude é regra”, nenhuma leitura esgota
todas as possibilidades e a maior parte das leituras literárias também permanecem anônimas e
desconhecidas, pois “elas são individuais”. Isso nos remete às considerações de Candido
(1981), quando este afirma que o ponto de partida para a leitura literária é a personalidade do
crítico, enquanto leitor, já que, para ele, toda crítica viva parte de uma impressão para chegar
a um juízo e é entre essas duas etapas que a análise literária propriamente dita acontece.
O ponto de partida para Candido, portanto, é a personalidade do crítico que intervém
na sensibilidade do leitor, mas isso não é tudo. As impressões do crítico enquanto leitor são
preliminares importantes e é preciso experimentá-las e manifestá-las, “pois elas representam a
dose de arbítrio, que define a sua visão pessoal” (CANDIDO, 1981, p.32). Para Candido,
quanto mais o leitor for capaz de ver num escritor, o seu escritor, vendo na obra, como
ninguém mais, algo oposto ao que os outros veem, tanto mais crítico ele será. Segundo o
autor, é por esse motivo que a crítica viva usa largamente a intuição, aceitando e procurando
exprimir as sugestões trazidas pela leitura. Delas sairá, afinal, o juízo, que não é julgamento
puro e simples, mas avaliação, reconhecimento e definição de valor. Desse modo, percebe-se
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que a análise está, então, a serviço da receptividade individual, que busca na obra uma fonte
de emoção e termina avaliando o seu significado.
Devido a todas estas convenções da leitura literária, Hansen (2005) chama a atenção
para a necessidade de que se considere o “como” da leitura, pois, para ele, não adianta,
apenas, quantificar “o que” se lê. Afinal, ter livros não significa ler livros, ainda mais numa
sociedade em que o livro funciona como um crachá, distintivo de classe.
Nesse aspecto, torna-se procedente a reflexão sobre o modo como os textos literários,
com todas as suas convenções e exigências, têm sido apropriados pelos leitores em processo
de formação. Consciente da questão política que gira em torno da questão da leitura e do
acesso à cultura, Hansen (2005) também questiona a qualidade do ensino público brasileiro,
entendendo que diante de tamanha complexidade da leitura literária e da precariedade desse
ensino, dificilmente os adolescentes poderão realizar tais leituras de forma adequada.
Se o estilo é o homem e se o homem é revelado, como se ouve dizer, nas
grandes obras canônicas que todos devemos necessariamente conhecer para
a máxima elevação espiritual de nós mesmos e da nação, qual será a
humanidade dos alunos da escola pública que hoje, porque mal conseguem
ler textos pragmáticos simples, são classificados – e por professores de
literatura que deveriam ter a mais radical consciência do arbítrio da cultura –
como exemplares zoológicos de rebaixamento do nível? (HANSEN, 2005,
p.38).
O questionamento proposto por Hansen (2005) é, no mínimo, desestabilizador para
nós - professores de literatura -, tornando a reflexão inevitável. Essa preocupação nos convoca
à mudança e ao comprometimento com a avaliação das práticas de ensino adotadas na área da
Literatura e dos investimentos que têm sido feitos para a formação do leitor literário. Nessa
perspectiva, procuramos, na obra Dona Casmurra e Seu Tigrão, algumas inspirações que nos
ajudem a pensar em possibilidades de atuação voltadas ao trabalho de despertar no leitor
juvenil o interesse pela leitura literária.
NA TRAMA DE IVAN JAF, A MEDIAÇÃO ENTRE ASSS E SEUS LEITORES
Tendo em vista a complexidade da leitura literária de obras clássicas dotadas de
grande prestígio e marcadas pelo caráter de difícil acessibilidade, é provável que um leitor
ainda em processo de formação encontre dificuldades para a realização de semelhante tarefa
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e, por essa razão, torna-se necessária a existência de mediadores competentes que possam
contribuir para uma relação mais positiva entre esses leitores e a literatura clássica.
A obra Dona Casmurra e Seu Tigrão (2008), pertencente à Coleção Descobrindo os
Clássicos, tendo o propósito explícito de estabelecer a mediação entre a obra machadiana e o
público juvenil, cumpre esta tarefa de forma interessante e, por isso, pode nos sugerir algumas
alternativas a serem consideradas no decorrer do processo de formação desses leitores juvenis.
Na tentativa de criar, na narrativa, um contexto favorável para a leitura do clássico
machadiano, logo de início, o autor apresenta, em primeiro plano, a fábula de um adolescente,
lutador de jiu-jitsu e famoso, entre os jovens, pela sua força, valentia e coragem. As
características do protagonista Barrão despertam, de imediato, a identificação dos leitores
dessa faixa etária com a trama, de modo que eles se sentem representados na narrativa.
À primeira vista, o leitor tem a impressão de que Barrão é exatamente o oposto de
Bentinho, protagonista de Dom Casmurro: enquanto Bentinho é um garoto mimado, inseguro,
que se coloca na posição de frágil vítima, traído por Capitu e constantemente manipulado pela
mãe e pela própria Capitu, Barrão é um adolescente valentão, independente, de grande
autoestima, musculoso, pró-ativo, rebelde e que não leva desaforo para casa. Para completar a
sua fama, Barrão ainda se apresenta como alguém que não gosta de ler e que considera a
leitura “coisa de fresco”. Esse fato também é estratégico, pois garante a simpatia e a
autoridade de Barrão diante do público juvenil. Quando Barrão for seduzido pela leitura da
obra machadiana, a estratégia do narrador é seduzir, também, simultaneamente, todos os
leitores de Dona Casmurra e Seu Tigrão (2008).
Ao longo da narrativa, o propósito do narrador de criar condições favoráveis à leitura
vai adquirindo consistência e envolvendo o protagonista Barrão e o público juvenil. Assim,
tudo começa quando o jovem lutador de jiu-jitsu ouve colegas comentando que sua namorada
Pâmela seria uma “tremenda Capitu”. Intrigado por não entender o sentido dessa expressão e
já suspeitando da infidelidade de Pâmela, Barrão segue até a biblioteca da escola para
procurar na Internet o significado do termo. Indignado, Barrão lê algo que relaciona o nome
Capitu às suspeitas de infidelidade. Isso é o suficiente para que Barrão enlouqueça e aja de
forma violenta na biblioteca, chamando a atenção de Lu, a estagiária que trabalhava ali.
Lu dirige-se até Barrão e tenta acalmá-lo, mas ele está descontrolado e parece
decidido a matar sua namorada e todos os envolvidos na suposta traição. Chorando e muito
irritado, Barrão acaba confessando para Lu o que lhe sucedera e é por meio dela que ele
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descobre que “Capitu” era a personagem de Machado de Assis; por coincidência, da mesma
obra solicitada pela professora, para a prova final, na qual Barrão deveria tirar nove e meio.
Lu revela-se convicta da inocência de Capitu e tenta convencer Barrão de que talvez
Pâmela não seja infiel e até sugere que ele leia Dom Casmurro para tirar suas próprias
conclusões a respeito de Capitu. Essa convicção de Lu até faz com que Barrão passe a admitir
a possibilidade de estar equivocado em relação à Pâmela, mas seu ciúme e sua necessidade de
manter a fama de “machão” é maior. E, dominado pelo ciúme, Barrão defende a infidelidade
de Pâmela e de Capitu. Além disso, não é difícil imaginar que um leitor desmotivado para a
leitura como Barrão, não se renderia à leitura do clássico machadiano tão facilmente.
E é por isso que Ivan Jaf busca um meio diferente para trazer à tona o interesse pelo
livro. No contexto escolar, muitas vezes os adolescentes também não conseguem encontrar
razões suficientes para a leitura dos clássicos. Assim como na escola, na trama de Dona
Casmurra e Seu Tigrão (2008), também, a prova por si só não basta para provocar esse leitor
desinteressado. E, possivelmente, para ganhar a cumplicidade desse leitor adolescente real, Jaf
cria essa personagem que é o verdadeiro estereótipo do jovem rebelde, vaidoso e que não lê.
E só depois de aprontar muita confusão é que Barrão passa a interessar-se pela leitura.
E o fato que faz com que Barrão reconheça que a leitura de Dom Casmurro poderia
ter suas vantagens acontece num momento extremo, depois do dia em que ele foi procurar sua
namorada, sem avisar, após a aula de inglês que ela fazia no shopping e, lá, ele a viu de mãos
dadas com um cara. Ele não suportou o ciúme e partiu logo para a violência: bateu no homem
e em todos os que tentaram segurá-lo, com tantos socos e pontapés, o homem agredido
desmaiou, a polícia foi acionada e Barrão foi levado à delegacia, ficando numa situação
complicada. Se fosse condenado, ele iria para uma instituição de menores. Só mais tarde
Barrão descobriu que o tal homem que ele agrediu era um tio de Pâmela, que era dono de uma
loja no shopping e era um dos mais influentes membros da comunidade gay do Rio de
Janeiro. Foi assim que Barrão virou símbolo da violência dos pitboys contra os homossexuais.
O resultado disso foi que Pâmela não queria mais falar com Barrão, os pais dele
achavam que se ele fosse preso seria até bom e, além disso, as notas na escola não estavam
nada bem e, se reprovasse, seus pais desistiriam dele de vez. Foi então que o protagonista
rendeu-se de vez à leitura: “Não dá pra tirar nove e meio só lendo a orelha ou vendo filme.
Colar também vai ser difícil. [...] Você me ajuda a ler Dom Casmurro?” (JAF, 2008, p. 31).
Percebe-se, então, que o interesse pela leitura, na obra, é provocado por uma série de
fatores: o ciúme doentio; a suspeita da traição de sua namorada; o medo dos comentários que
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os colegas poderiam estar fazendo a respeito dele; o desejo de acabar com a dúvida e a
pressão por melhorar a sua situação na escola, já que ele corria o risco de reprovar; a
insistência e as grandes contribuições de Lu... tudo isso foi criando um contexto favorável
para a leitura. As motivações escolares – provas e notas – juntam-se a motivações pessoais do
protagonista e, assim, ler Dom Casmurro passa a ser uma questão de honra para Barrão. Pela
leitura, ele acredita ser possível a aprovação na escola, mas isso é apenas um pretexto para
recuperar a confiança dos pais e da sociedade e superar as suspeitas de infidelidade de Pâmela
que tanto o incomodavam. Essas seriam, então, como Candido propõe, as impressões iniciais
que levaram Barrão à leitura da obra, leitura esta que passará por um processo de análise,
pesquisa, compreensão, para chegar depois a um juízo de valor.
Lu, então, com a condição de poder dizer tudo o que pensava de Barrão sem correr o
risco de ser agredida, aceitou o desafio de ajudá-lo na leitura e sua ajuda foi essencial. Foi ela
quem transmitiu as informações preliminares para esse adolescente rebelde, apresentando o
autor, a obra e incrementando as informações no decorrer da leitura, conforme as dúvidas iam
surgindo. Lu falava do contexto histórico, explicava as referências que o narrador fazia a
outros textos, explicava determinados termos pertencentes ao léxico da obra, antecipava o que
seria abordado nos capítulos seguintes, de modo a aguçar a curiosidade de Barrão; enfim, ela
acompanhou todas as etapas da leitura, ajudando na interpretação dos fatos e emitindo
comentários críticos e alguns palpites sobre as suspeitas que recaíam sobre Capitu.
Diante da inexperiência e da ignorância das convenções literárias de Barrão, Lu
ocupa uma posição importante, no processo de formação desse leitor. É através dela que
Barrão vai aguçando sua curiosidade de tal modo que, mesmo com seu preconceito contra a
leitura, ele acaba convencido de que não será possível escapar da leitura de Dom Casmurro.
A partir de então, na leitura realizada por Barrão, é evidente a sua necessidade de
falar a Lu daquilo que leu, de fazer comentários, questionar, levantar hipóteses, comparar a
narrativa com os fatos da sua vida, associar personagens a pessoas conhecidas, colocar-se no
lugar dos personagens, dar palpites sobre a história, enfim, estabelecer uma forte relação entre
a obra e as suas experiências de vida. Esses comentários abundantes a respeito da obra lida
justificam-se pela motivação da personagem na leitura, pelas suas impressões iniciais e pelas
predisposições que o levam ao clássico machadiano. Acompanhando o processo de leitura de
Barrão, torna-se possível identificar várias fases que podem ser comparadas às fases pelas
quais passa um leitor em processo de formação. Através de suas opiniões, é possível perceber
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o amadurecimento gradativo de Barrão e, aos poucos, o adolescente rebelde, que tinha
orgulho por não gostar de ler, passa a mostrar-se seduzido por Machado de Assis.
Com a ajuda de Lu, Barrão, seduzido pela qualidade estética da obra machadiana, vai
envolvendo-se na trama desse clássico, passa a considerar o autor um cara legal e não pondera
ao exaltar “o Machado de Assis”, que agora aparece acompanhado do artigo definido, já que
Barrão já adquiriu intimidade com ele. Evidencia-se, então, na narrativa de Ivan Jaf, um
cuidado todo especial para fazer com que seus leitores tenham acesso não só à fábula
machadiana, mas também às discussões relacionadas à qualidade estética da obra.
Tanto é assim que Barrão passa a admirar e respeitar Machado de Assis pela forma
como ele narra, por exemplo, o primeiro beijo de Bentinho e Capitu, narração esta que Barrão
lê como a narrativa do seu primeiro beijo com Pâmela: “Foi assim mesmo! Esse Machado
escreve gozado, mas foi assim mesmo. [...], me deu vontade de dizer uma porção de coisas,
mas as palavras não saíam. As palavras saíam da cabeça, mas, em vez de ir pra boca, iam pro
coração. [...] Grande Machado!” (JAF, 2008, p.46).
Em alguns momentos da leitura, Barrão mostra-se revoltado contra o comportamento
“passivo” de Bentinho, mas aos poucos, ele passa a enxergar a si mesmo nas atitudes da
personagem e até passa a admitir que, ao contrário do que ele e os leitores pensavam
inicialmente, ele não era tão diferente de Bentinho. À medida que a narrativa avança, Barrão
percebe que, na verdade, a sua valentia e autoconfiança eram apenas aparentes. Por trás da sua
revolta e agressividade, Barrão enxerga um ciumento paranoico, frágil, carente e inseguro. E,
a partir de então, acentuam-se as semelhanças que ligam as histórias de Barrão e Bentinho.
Os pressupostos da Teoria do efeito, propostos por Iser, de que a subjetividade do
leitor contribui para o processo de construção de sentido da obra, nesse caso, é confirmado,
pela leitura de Barrão. Em outra situação, certamente, a leitura ele faria da obra não seria a
mesma, o nível de intimidade com o personagem poderia estreitar-se ainda mais ou até
mesmo afrouxar-se, de acordo com o interesse e as emoções afloradas em cada momento.
Para Hansen (2005), “bons leitores literários não se deixam iludir pela ficção, sendo
capazes de analisar a maneira técnica como o texto prescreve a recepção do efeito ou, mais
simplesmente, de entender que resulta de um ato de fingir” (2005, p.27). Então, se o leitor não
perceber o aspecto ficcional da obra, não conseguir analisar a maneira técnica como o próprio
texto prescreve a sua, sua leitura será um tanto superficial. Por outro lado, ao dominar os
artifícios usados pelo narrador, o leitor pode ousar e propor novos sentidos para a obra.
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Na obra de Ivan Jaf, por exemplo, talvez por ignorar algumas estratégias do narrador
machadiano, até certo ponto, Barrão faz exatamente a leitura que o narrador quer que ele faça,
acreditando piamente na inocência de Bentinho e na traição de Capitu. À medida que é
orientado por Lu, no entanto, ele fica atento às tentativas de manipulação do narrador
machadiano, passando a admitir a possibilidade de ler a obra a partir de outra perspectiva. Já a
estagiária Lu, é enfática ao afirmar: “Capitu é uma personagem muito complexa. Machado de
Assis foi um escritor maravilhoso. Capitu era uma porção de coisas. [...] Pra mim, Capitu não
foi infiel. Não traiu o marido. Bom, pelo menos do meu ponto de vista” (JAF, 2008, p.21).
Dessa forma, Lu demonstra que compreendeu os artifícios do ato de fingir do
narrador e confirma que o texto literário pode ser lido de diversas maneiras.
Num país [...] como o Brasil, ler é luxo; e a leitura literária, o supra-sumo
dele, pois depende de critérios especializados que conferem distinção para os
membros dessas corporações, que recitam hierarquizadamente as leituras
autorizadas, incorporando a aura da sua autoridade [...] (HANSEN, 2005, p.
23).
No entanto, ao propor a leitura de Dom Casmurro por adolescentes e não por um
crítico de literatura, a obra Dona Casmurra e Seu Tigrão (2008) traz para essa leitura novas
possibilidades, enfatizando o caráter individualizado da leitura que ali se realiza. A estagiária
de Biblioteconomia realiza uma leitura particular, mas nunca ela apresenta essa leitura como a
única possível. Muito pelo contrário, Lu deixa claro que a leitura que ela realiza é uma prática
perspectivada, com posicionamento bem definido. A sua leitura não tem a autoridade
conferida às leituras dos renomados críticos de literatura, mas nem por isso, perde em
qualidade e em poder de persuasão, diante de Barrão. O processo de leitura literária sendo
encarado dessa forma, na obra, acaba por permitir aos demais leitores - e até mesmo estimulálos – que eles aproximem a leitura da obra de suas vivências particulares.
Vale ratificar, ainda, que a melhoria da relação entre Barrão e a obra machadiana,
que acontece sob a mediação de Lu, e o respeito e a admiração pelo autor, gradativamente,
vão conquistando a cumplicidade também do público que lê a trama Ivan Jaf. Os vínculos
criados entre Barrão e Machado estendem-se para os demais leitores que passam a enxergar,
também, um outro lado de Assis, mais acessível, mais próximo, mais familiar. Dessa forma,
Dona Casmurra e Seu Tigrão (2008) realiza, com competência, a mediação a que se propõe,
pois ela assegura aos seus leitores o acesso à fábula e à trama de Dom Casmurro; nela é
possível ter acesso ao conteúdo – “o que” se narra - e ao modo de narrar – o “como” - da obra
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machadiana. E, nesse sentido, é que podemos identificar, na trama de Ivan Jaf, algumas
questões interessantes a serem refletidas sobre o processo de formação do leitor literário.
A LEITURA E O AMADURECIMENTO PESSOAL E LITERÁRIO DE BARRÃO
Ao falar sobre a influência do texto literário sobre o leitor, Hansen propõe que a
leitura literária é um processo em que o leitor, na leitura, faz uso e transforma “um objeto
cultural que também o transforma ao ser lido. Porque não lemos, apenas, somos lidos
ativamente pelos textos literários [...]. O texto literário nos lê ativamente e [...] contra nós,
porque questiona o familiar [...] que rotiniza a nossa experiência como natureza imutável
(HANSEN, 2005, p.24-25).
Isso é o que acontece com Barrão, que vai se constituindo um novo sujeito por meio
da leitura. Ao mesmo tempo em que ele usa e transforma um objeto cultural que é a obra, ele
também é transformado por esse objeto e lido também. O texto literário, ao interagir com
Barrão, provoca emoções diversas, questiona suas convicções pessoais, muda seus conceitos,
acrescenta-lhe novas dúvidas, traz a ele novas perspectivas, promove a reflexão sobre suas
atitudes, enfim, Barrão muda ao ser lido pela obra e a obra muda, também, ao ser lida por
Barrão, pois ambos – obra e leitor - acrescentam novas perspectivas tanto para a obra quanto
para a vida do leitor.
Fazendo referência à obra de Shakespeare, Hansen (2005) afirma que sua imagem
mimética e valorativa constitui dois tipos de destinatários definidos: os “discretos” e os
“vulgares”, sendo os discretos, os tipos intelectuais conhecedores do artifício aplicado no
texto e os vulgares, aqueles que ignoram tais artifícios. O destinatário discreto, que é capaz de
refazer na recepção as operações dialético-retóricas aplicadas à deformação dos temas
figurados nelas adquire superioridade na agudeza das imagens, visto que ele é apto a
compreender não só a significação engenhosa das imagens, mas também a perícia técnica do
artifício aplicado à invenção. Por outro lado, o destinatário vulgar, recebe o texto como se as
imagens estivessem sendo construídas contra ele, acusando-o da falta das virtudes
convencionais, e divertindo-o com vulgaridades sem regras aparentes de juízo.
Na obra Dona Casmurra e Seu Tigrão, Lu é essa leitora “discreta”, visto que ela não
perde de vista o fato de que a narrativa da obra Dom Casmurro feita por Bentinho é
influenciada pelas convicções pessoais desse narrador-personagem e, assim, ela lê a obra com
mais atenção aos artifícios usados para persuadir o leitor. Para ela, a narrativa de Bentinho é
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totalmente suspeita, visto que ele não é neutro na história. Já Barrão, dominado pelo ciúme e
mais ingênuo em relação aos artifícios de fingimento do texto literário, cai mais facilmente na
armadilha do narrador, chegando a considerar que a traição de Capitu era inquestionável, e
isso por aceitar as evidências de Bentinho como evidências indiscutivelmente verdadeiras.
Para Hansen (2005), para que se possa ler literariamente, os leitores devem saber
escolher entre os significados possíveis, o mais adequado ao contexto discursivo da leitura, do
gênero textual lido e não apenas ao contexto do seu imaginário particular. Desse modo,
verifica-se que o conhecimento para a leitura literária não é dado apenas pelo texto, mas
depende muito, também, dos fatores extra-literários como uma vida e um ensino público
decentes.
No caso de Barrão, o que se evidencia é que, aos poucos, ele vai percebendo os
artifícios do narrador e passa a observar até as táticas de Bentinho, quando ele aproveita
algum episódio para reforçar a desconfiança do leitor sobre Capitu. Em alguns momentos, sua
sensibilidade estava tão aflorada a ponto dele reconhecer, por exemplo, que a descrição de
sexo apresentada por Machado de Assis era a melhor possível, e diferente de qualquer outra
que ele poderia ouvir, por exemplo, na academia de jiu-jitsu. Enquanto Assis capricha na
linguagem ao afirmar que Bentinho e Capitu “visitaram aquele lugar infinito”; os garotos
“azaravam” as garotas, davam uns “amassos” e depois as “machucavam” (JAF, 2008, p.103).
E assim, Barrão decide que não queria mais “machucar” as mulheres, só queria “visitar com
elas aqueles lugares infinitos” (p.103).
A mudança de Barrão é tão evidente que, no final da narrativa de Ivan Jaf, Barrão foi
capaz de ir ao shopping para pedir desculpas ao tio de Pâmela em quem tinha batido, já se
declara disposto a reduzir a musculação para desinchar os bíceps, está decidido a deixar de ser
estúpido e, para isso, propõe-se a ler mais. E ainda, ele se mostra muito grato à Lu por tê-lo
ajudado nessa fase difícil de sua vida. Mais que grato, Barrão demonstra estar apaixonado por
Lu e, nesse caso, a sua dúvida em relação à possível traição de Pâmela - assim como a dúvida
de Bentinho, em Dom Casmurro - ainda é uma incógnita, mas já não faz o menor sentido para
ele. O importante é que, agora, ele está interessado em Lu e isso lhe dá forças e segurança
para superar o ciúme que sentira. Ao contrário de Bentinho, Barrão ainda tem a chance de
recomeçar sua vida e mudar o desfecho da sua história. E, ao final da trama, ele constata que
“a vida era como as histórias contadas nos livros. Os personagens avançavam pelas páginas,
às cegas. Barrão era como o personagem de um livro. Ninguém podia avisá-lo do perigo”
(JAF, 2008, p.111). Entretanto, através da leitura de Dom Casmurro, o protagonista pode
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ampliar seus conhecimentos, suas experiências e superar sua ignorância. Ao apreciar a
história de Bentinho, Barrão revisita a sua própria história, vendo-se a si mesmo “entre
parênteses” por meio da leitura.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir das estratégias adotadas pelo narrador de Dona Casmurra e Seu Tigrão,
podemos tirar algumas conclusões importantes, sobre a formação do leitor literário. Primeiro,
esse leitor não nasce formado, ele precisa de incentivo, precisa de algum tipo de mediação. E
essa mediação deve ser exercida por mediadores aptos a identificarem, nesse público de
leitores em formação, algo com o que eles possam identificar-se na leitura. Cabe aos
mediadores, ajudar o leitor principiante a encontrar novas razões para a leitura, razões estas
que envolvem a subjetividade desses indivíduos e não podem, de forma alguma, serem
limitadas às razões escolares (notas, provas, trabalhos). Para que haja interesse verdadeiro
pela obra literária, o leitor deve reconhecer nela, a possibilidade de um diálogo consigo
mesmo, através da leitura. Para isso, às vezes, ele precisa de informações que o ajudem a
compreender melhor o universo cultural que deu origem à obra, os significados que ela tem
recebido ao longo do tempo, mas, acima de tudo, o leitor deve encontrar o ponto de coerência
que garante que ele se sentirá refletido, de alguma forma, na obra que lê.
A importância de que haja espaços favoráveis ao debate da obra no decorrer da
leitura, como ocorreu na leitura que Lu e Barrão fizeram de Dom Casmurro, também, é
fundamental. Quando um leitor estabelece hipóteses de sentido e as confronta com as
hipóteses de outros leitores, ele tem a possibilidade de validar suas conclusões, de assumir
perspectivas diferentes e de aprofundar sua leitura, atribuindo novos sentidos para o texto que
lê. Até porque esses espaços de debates propiciam, também, o amadurecimento do leitor. Ao
falar de como leu, cada leitor pode organizar seus pensamentos e sentimentos, refletindo sobre
a leitura que fez e sobre si mesmo. Através dos debates, um leitor que se atém apenas à
história pode ser levado a observar, além do conteúdo, a forma como os temas são abordados,
dando maior ênfase ao trabalho estético que o autor realiza com a linguagem.
Enfim, a narrativa de Dona Casmurra e Seu Tigrão, além de assumir o papel de
mediadora entre o clássico machadiano e o público juvenil, pode nos oferecer uma série de
dicas que podem auxiliar o nosso trabalho de educadores envolvidos na formação do leitor
literário. Acompanhar o processo de amadurecimento de Barrão, no decorrer da leitura de
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Dom Casmurro é uma forma de ter acesso a algumas etapas pelas quais muitos leitores
principiantes costumam passar. E entender que essas fases fazem parte de um processo
contínuo já é um primeiro passo para que saibamos atuar no sentido de ajudar nossos leitores
a tornarem-se cada vez mais críticos e mais competentes na leitura de um texto literário.
REFERÊNCIAS
AGUIAR, Flávio. “As questões da crítica literária”. In: Outras leituras: literatura, televisão,
jornalismo de arte e cultura, linguagens interagentes. Martins, M. H. (org) – São Paulo:
Editora SENAC. São Paulo: Itaú Cultural, 2000.
CANDIDO, Antônio. Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos. 6. ed. Belo
Horizonte: Itatiaia, 1981.
HANSEN, João Adolfo. “Reorientações no campo da Leitura Literária”. In: Márcia Abreu,
Nelson Schapochnik (orgs). Cultura letrada no Brasil: objetos e práticas. – Campinas:
Mercado de Letras, Associação de Leitura do Brasil (ALB); São Paulo: FAPESP, 2005.
(Coleção Histórias de Leitura).
ISER, Wolfgang. O ato de leitura: uma teoria do efeito estético. Tradução: Johannes
Kretschmer. São Paulo: Ed. 34, 1996, v. 1.
ISER, Wolfgang. O ato da leitura: uma teoria do efeito estético. Tradução: Johannes
Kretschmer. São Paulo: Ed. 34, 1999, v. 2.
JAF, Ivan. Dona Casmurra e seu Tigrão. 2. ed. 1. reimpr.. São Paulo: Ática, 2008 (Coleção
Descobrindo os Clássicos).
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