UNIVERSIDADE CÂNDIDO MENDES INSTITUTO A VEZ DO MESTRE CURSO DE TERAPIA DE FAMÍLIA ALESSANDRA SANTOS DE ARAUJO CÂNCER DE MAMA - DO IMPACTO DO DIAGNÓSTICO À MASTECTOMIA: A IMPORTÂNCIA DA FAMILIA EM TODO PROCESSO ORIENTADORA: FABIANE MUNIZ RIO DE JANEIRO 2011 2 UNIVERSIDADE CÂNDIDO MENDES INSTITUTO A VEZ DO MESTRE CURSO DE TERAPIA DE FAMÍLIA ALESSANDRA SANTOS DE ARAUJO CÂNCER DE MAMA - DO IMPACTO DO DIAGNÓSTICO À MASTECTOMIA: : A IMPORTÂNCIA DA FAMILIA EM TODO PROCESSO Apresentação de monografia à Universidade Cândido Mendes como condição prévia para conclusão do Curso de Pós- Graduação “ Latu- Sensu” em Terapia de Família. RIO DE JANEIRO 2011 iv DEDICATÓRIA A minha mãe, sem ela impossível a realização desse sonho. iii AGRADECIMENTOS À DEUS, pelo dom da vida, pela luz nos meus caminhos, pela direção dos meus passos. Aos meus Pais, por estarem sempre presentes. As minhas sobrinhas Júlia e Luisa, pelos momentos de alegria. Aos meus irmãos, pelo incentivo durante toda elaboração do trabalho. A todos que colaboraram na construção deste trabalho, seja na elaboração das idéias, ou dedicando sua amizade. iv Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra; e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde onde cresce a esperança. Thiago de Mello. v vii RESUMO A despeito do avanço das técnicas diagnosticas nos últimos anos que tornaram possível a detecção precoce do câncer de mama, permitindo a realização de modalidades terapêuticas que minimizam a mutilação desse órgão, em muitos, casos, a mastectomia radical ainda é considerada a única alternativa de tratamento para está patologia, tendo em vista que muitas mulheres se deparam com a demora do atendimento no setor publico, com falhas no diagnóstico ou procuram ajuda medica numa fase já avançada da doença. Além da ameaça de morte suscinta pelo câncer, em razão de seu estigma social, a paciente também sofre, muitas vezes, a mutilação da mama que é o símbolo importante de feminilidade, tendo sua imagem corporal modificada, e conseqüentemente sua vida social alterada, pelos sentimentos de vergonha e humilhação pelo corpo deformado. É inquestionável que, com a mastectomia, o corpo vai sofrer um dano irreparável, caracterizando-se como uma castração feminina real, gerando um conflito entre o interesse de preservar essa parte do corpo e a auto-conservação da vida. A possibilidade de sobrevida, então, vai depender da extirpação do tumor, o que implicará, por sua vez, na perda da mama. A opção pela pesquisa bibliográfica se deu em virtude desta modalidade permitir ao pesquisador a cobertura de uma gama de fenômenos muito mais ampla. A pesquisa bibliográfica abrange toda a bibliografia já tornada pública em relação ao tema de estudo. Sua finalidade é colocar o pesquisador em contato direto sobre determinado assunto, eis a razão da nossa opção. Propondo-se a discutir as representações associadas ao adoecer de mulheres com câncer de mama submetidas a mastectomia, tendo em vista que, esse tipo de cirurgia, necessária, mas mutilante, provoca impacto muito grande na vida dessas mulheres, alterando a percepção da auto-imagem. Pela alta incidência do câncer de mama na população feminina e pelo grande número de mulheres que se submetem à mastectomia, fica evidente discutir a importância dos familiares no processo da doença. Palavras-chave: Neoplasia mamária, Mastectomia, Família. vii SUMÁRIO Pág. INTRODUÇÃO ........................................................................................................ 8 1 - O IMPACTO DO DIAGNÓSTICO DO “CÂNCER DE MAMA” ................. 10 1.1 Câncer: Desafios e perspectivas na contemporaneidade .................. 10 1.2 Câncer de Mama x Interdisciplinaridade: Uma relação necessária .. 13 1.3 Diagnóstico e tratamento sob a perspectiva do apoio familiar 18 2 - SIGNIFICADOS E REPERCUSSÕES DA MASTECTOMIA ..................... 22 2.1 Gênero e sexualidade .............................................................................. 22 2.2 O significado da Mastectomia para a mulher e suas conseqüentes 24 alterações físicas e sociais ...................................................................... 2.3 Repercussões da mastectomia na vida das mulheres com câncer de mama ..................................................................................................... 3 - A SAÚDE E O ACOMPANHAMENTO TERAPEUTICO 27 29 .................................... 3.1 Políticas sociais nas ultimas décadas ................................................... 29 3.2 Reforma sanitária e o Sistema Único de Saúde .................................. 31 3.3 A importância do acompanhamento terapêutico para o paciente e sua família ............................................................................................... 32 CONCLUSÃO .......................................................................................................... 35 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA ................................................................................ 37 8 INTRODUÇÃO O câncer foi por muitos anos associados a uma sentença de morte devido a sua incurabilidade, trazendo assim na vida dos cancerosos grande sofrimento. Ainda hoje, reagem excluindo-se do meio social, alastrados pelo medo e preconceito, pela vergonha e por fantasias relacionadas ao tratamento e suas conseqüências. Principalmente as mulheres portadoras do câncer de mama que são submetidas à mastectomia, o sentimento e temores de serem discriminados e rejeitados socialmente por seus familiares e por seu cônjuge, são muito grandes. A mastectomia traz conseqüências significativas que afetam diariamente todos os aspectos da vida da mulher, o seio carregado de representações simbólicas relacionadas à sexualidade, a maternidade na qual a mama exerce função essencial como fonte de alimento, enfim; o que diz respeito ao ser mulher. As marcas da ferida cirúrgica e das feridas emocionais causadas pelas modificações corporais, após mutilações são significativas, que altera sua imagem corporal e o ser mulher, relacionado à sua identidade feminina. Ainda, que nos últimos anos técnicas diagnósticas avançadas tornem possível a detecção precoce desse tumor permitindo a realização de modalidades terapêuticas menos agressivas e desfigurastes. Em muitos casos, a mastectomia radical ainda é considerada a única alternativa de tratamento, tendo em vista que muitas mulheres se deparam com a demora do atendimento no setor público, com falhas no diagnóstico, ou procuram ajuda médica numa fase já avançada da doença. Até porque é expressivo o número de mulheres que não possuem informações suficientes sobre a necessidade do auto-exame, ou até mesmo a intimidade com seu próprio corpo para realizá-lo. Além disso, as representações sobre o câncer e sua associação com a morte e a mutilação determinam que muitas mulheres não procurem atendimento, até pelo medo da confirmação do diagnóstico. 9 O impacto do diagnóstico nessas mulheres pode-se torna traumático em diversas esferas, emocional, social, sexual, espiritual dentre outras, principalmente as que são submetidas à mastectomia. 10 CAPÍTULO I IMPACTO DO DIAGNÓSTICO DO “CANCÊR DE MAMA” 1.1 Câncer: Desafios e perspectivas na contemporaneidade O câncer é conhecido desde a Grécia antiga, são quase 2 mil anos de luta conta esse mal. A cada ano que se passa o homem tem aperfeiçoado técnicas para o tratamento, mas até hoje não se conhece tudo sobre a doença. Segundo o Ministério da Saúde o câncer é considerado a segunda causa de morte mais freqüente no Brasil, perdendo apenas para doenças cardiovasculares. Tabela 1 Estimativas para o ano 2010 de número de casos novos de câncer, por região.* Localização Primária Norte Nordeste CentroOeste Sul Sudeste Mama Feminina 1.350 8.270 2.690 9.310 27.620 Traquéia, Brônquio e Pulmão 1.080 3.950 1.760 7.230 13.610 Estômago 1.300 4.280 1.270 4.090 10.560 Próstata 1.960 11.570 3.430 9.820 25.570 Colo do Útero 1.820 5.050 1.410 3.110 7.040 Cólon e Reto 620 3.040 1.580 6.150 16.720 Esôfago 260 1.530 580 3.040 5.220 Leucemias 560 2.070 650 1.790 4.510 Cavidade Oral 410 2.810 800 2.510 7.590 Pele Melanoma 180 540 250 2.020 2.940 5.260 14.780 8.090 28.810 80.960 14.800 57.890 22.510 77.880 202.340 4.320 31.460 7.830 24.600 45.640 19.120 89.350 30.340 102.480 247.980 Outras Localizações Subtotal Pele não Melanoma TOTAL * Números arredondados para 10 ou múltiplos de 10 Fonte: MS/INCA - Estimativa 2010, pág. 40. 11 Atualmente, dados epidemiológico disponíveis configura o câncer como problema de saúde publica, além de mudanças de hábitos de vida da população. Diversos fatores como o aumento das expectativas de vida e os avanços tecnológicos observados na área da saúde estão diretamente relacionados com o aumento do risco de desenvolvimento de câncer. (Ministério da Saúde). Mesmo com todo o avanço da medicina, segundo os autores não é possível à prevenção absoluta do câncer. As medidas podem ser variadas, como por exemplo, pode-se falar em uma prevenção primária em alguns casos como não tomar sol em excesso para prevenir o câncer de pele, tratar o HPV evitando que evolua para um câncer de útero e realizar o auto-exame da mama. A prevenção secundária é quando o câncer já existe e consiste em evitar o agravamento. As atitudes preventivas beneficiam principalmente no sentido de proporcionar uma detecção precoce que pode auxiliar muito para um bom prognóstico favorável. Comportamento preventivo, segundo Skaba (2002), se divide em dois grupos. O primeiro engloba condutas de estilo de vida de uma pessoa incluindo hábitos e comportamentos que visam promover a saúde e beneficiar o organismo como um todo: praticar exercícios, ter uma dieta balanceada, por exemplo. O segundo grupo inclui os comportamentos que visam redução e minimização de risco, numa perspectiva de prevenção primária ou secundária. São atitudes de proteção específica, ou diagnóstico e tratamentos precoces para impedir a ação de fatores considerados ameaçadores à saúde. Envolvem condutas tais como vacinação e uso de preservativos na relação sexual. Ao longo dos séculos, o enfretamento do câncer tendeu a exigir que o indivíduo doente lutasse contra uma serie de constrangimento. Durante as três primeiras décadas do século XX, um dos constrangimentos se devia a associação entre câncer e falta de limpeza, do corpo e da alma, feita com freqüência em diversos manuais de saúde, estudos e artigos higienistas. Acredita-se que o câncer poderia ser contagioso em ambientes poucos adepto à limpeza, ou em organismos amantes dos excessos de prazer, temores morais se 12 misturavam a receios políticos, tendo em vista a suposição de que o câncer poderia ser transmitido, aconselha-se “a notificação para o isolamento relativo à desinfecção seria em caso de morte nas casas de cancerosos” (Santa`Anna, 1997). A imagem do câncer, nesse contexto não se distinguia muito bem daquela ligada a outros terrores da época, tais como sífilis, entendida como malignidade proveniente de atitudes viciosas e da “sujeira” tanto física quanto moral. No mundo contemporâneo, o câncer possui uma historia repleta de “imagens de vergonha”, vergonha de ter sido afetado por uma doença, tradicionalmente, relegada aos bastidores da cultura. Vergonha de abrigar um mal marcado pela imagem da corrosão do desregramento orgânico ou do castigo divino. Vergonha que tende a transformar o doente no único responsável por seus sofrimentos (Sant`Anna, 1997). Dando lugar a novas pesquisas e a valorização de uma consciência dedicada tanto a auto-ajuda quanto ao auxilio daqueles que adoecem, sua historia revela, igualmente, a persistência de temores e de expectativas que resistem à passagem dos anos e as transformações técnico cientificas mais recentes. A partir dos anos 40, o câncer começa a ganhar espaço na mídia e a ser considerada uma doença que, se tratada a tempo, poderia ser curada, Quebrar tabu, romper a vergonha e falar sobre o câncer tornam-se experiência bem-vistas pela mídia. Falar sobre a doença no rádio e nas revistas, e não apenas nos consultórios médicos, torna-se uma experiência positiva, pois por meio do relato o paciente encontra energia para enfrentar o câncer, ainda contribui para a sua prevenção (Sant`Anna,1997), Hoje o câncer é entendido como uma doença crônica de modo que, mesmo quando seu controle obtém sucesso, sabe-se que este exige observação constante e seguimento prolongado. Receios antigos relativos à mutilação, à solidão e ao abandono familiar não cessam de emergir no decorrer do tratamento (quimioterapia, radioterapia e 13 hormônioterapia), ou no decorrer de exames e cirurgias quando o corpo é inúmeras vezes, manipulado, vasculhado e diagnosticado, Inicialmente, depois de um diagnostico de câncer os pacientes se preocupam primordialmente com a questão da sobrevivência, posteriormente alguns se preocupam com as habilidades necessárias para tolerar os tratamentos prescritos (Sant`Anna,1997). Figura 1 Fonte: MS/INCA - Estimativa 2010, pág. 39. 1.2 Câncer de Mama x Interdisciplinaridade: Uma relação necessária Estudos apontam que o câncer de mama é a segunda causa de mortalidade por neoplasia entre mulheres, perdendo apenas para neoplasia de pulmão. Alguns 14 fatores contribuem significativamente para o surgimento da doença, o histórico familiar de câncer de mama apresenta-se como fator de risco, assim como mulheres que tiveram primeira gestação de termo após os trinta anos de idade ou que nunca engravidaram, mulheres que tiveram a menarca antes dos doze anos ou que continuam a menstruar após os cinqüenta anos. Fatores como tabagismo, ingestão de álcool e dieta rica em gorduras também contribuem em menor grau. A idade é o maior fator de risco (Gimenez, 1997). Tabela 2 Estimativas para o ano 2010 das taxas brutas de incidência por 100.000 e de número de casos novos por câncer, em mulheres, segundo localização primária.* Estimativa dos Casos Novos Localização Primária Neoplasia maligna Estado Casos Capital Taxa Bruta Taxa Bruta Casos Mama Feminina 7.470 88,30 4.010 114,23 Colo do Útero 2.080 24,54 810 23,21 Cólon e Reto 2.130 25,23 1.270 36,26 Traquéia, Brônquio e Pulmão 1.220 14,45 660 18,85 Estômago 810 9,60 380 10,82 Leucemias 430 5,13 230 6,48 Cavidade Oral 480 5,73 220 6,42 Pele Melanoma 180 2,12 110 3,05 Esôfago 270 3,14 90 2,45 9.780 115,59 5.150 146,62 24.850 293,70 12.930 368,12 5.550 65,60 2.660 75,71 30.400 359,30 15.590 443,87 Outras Localizações Subtotal Pele não Melanoma Todas as Neoplasias * Números arredondados para 10 ou múltiplos de 10 Fonte: MS/INCA - Estimativa 2010 p. 44. 15 O ministério da saúde adverte muitos são os fatores de risco considerados, porém, muitas mulheres não o apresentavam e tiveram câncer de mama. Sendo assim, todas as mulheres correm o risco de desenvolvê-lo. Apesar de ser considerado como um câncer de relativamente bom prognostico, se diagnosticado e tratado oportunamente, as taxas de mortalidade continuam elevadas, provavelmente porque a doença ainda seja diagnosticada em estágios avançados. Quando mais cedo se detecta uma doença melhor o se prognostico, por tanto, o tempo é fator importante nesse processo, pois quanto maior o tempo transcorrido entre o inicio de uma doença e o e seu diagnostico pior o seu prognostico e mais danoso o tratamento (Ministério da Saúde, 2008). O câncer de mama feminina, ao ser diagnosticado em estágio avançado, acaba gerando tratamentos muitas vazes mutilantes, o que causa maior sofrimento a mulher. Figura 2 Fonte: MS/INCA – Estimativa 2010, p. 79. 16 Segundo Skaba (2002) “no universo simbólico, a mama é o elemento fundamental capaz de concentrar papeis da identidade feminina, como sexualidade incluída ai a sensualidade sendo os seios objeto de prazer e desejo, e a feminilidade, diante da possibilidade exclusiva concebida à mulher do ato da amamentação”. Figura 3 A MAMA Fonte: http://www.jorgebiazus.com.br/asmamas.htm Segundo Villanova Biazús (2006), a mama pode ser definida como sendo: 17 “É constituída de tecido adiposo, tecido conjuntivo e tecido glandular, o qual é composto de pequenos ductos com ramificações ligando pequenas bolsas em forma de cachos, chamados lóbulos onde é produzido o leite. Um conjunto de lóbulos ligados a um mesmo sistema de ductos coletores que se juntam em um ducto terminal que se exterioriza na papila é chamado de lobo mamário. A mama normal é composta por um conjunto de 15 a 20 lobos que se exteriorizam pelo mamilo. A mama possui uma rica rede vascular e linfática para sua nutrição e drenagem”. Portanto, sendo a mama feminina, representativa de todo esse universo, onde se concentram papeis da identidade feminina, como a sexualidade e a maternidade, a perda da mama compromete todo esse universo trazendo dor e sofrimento, com tudo, se dá à importância e a necessidade da atuação da equipe interdisciplinar na melhoria da qualidade de vida dessas pacientes. Através da interação interdisciplinar, há a possibilidade da discursão ou do dialogo, onde os pontos de vistas confrontam-se se constroem novos saberes, clareando assim as idéias a partir do momento em que temos com quem discuti- las. Segundo Fazenda (1995) isso possibilita certa identificação entre o vivido e o estudado, permitindo a abertura de novos campos de conhecimento e a novas descobertas, seu objetivo de intervenção é a realidade social, implicando que os especialistas devem esta abertos para ultrapassarem seus próprios limites e trabalhar com as contribuições de outros profissionais para que ocorra uma mutua relação entre e as partes interessadas. Diante desse contexto Gavião (2000) afirma, que se entende atualmente que o que se pretende hoje, em relação à saúde, não seria de competência de um único profissional, mas tarefa interdisciplinar, profissionais de áreas diversas representantes de varias ciências, agrega- se em equipes de saúde tendo como objetivo comuns: estudar as interações psicossociais e encontrar métodos adequados que propiciem uma pratica integradora, tendo como enfoque a totalidade dos aspectos inter-relacionado com a saúde e a doença. Minayo (1996) aborda o tema, trazendo uma literatura da interdisciplinaridade em que explícita a inclusão dos determinantes históricos, econômicos, culturais e 18 fundamentos ético-políticos, em que segundo a autora servem de elementos construtivos da totalidade onde o sujeito - profissional de saúde, não pode ser visto como único responsável pela construção e desconstrução de uma prática interdisciplinar. Sendo assim, os profissionais se deparam com seus próprios limites e encontram nos colegas de outras formações subsídios para a compreensão e atendimento do caso em questão. No entanto, tal atitude não é uma conduta padrão, podendo variar conforme a tradição profissional, a característica do grupo de trabalho e o tipo de intervenção Na verdade, o trabalho em equipe traz novos desafios, exigindo competências e habilidades para o trabalho em grupo e para a justificação clara e objetiva de procedimentos técnicos pertencentes à dada especialidade (Gavião, 2000). 1.3 Diagnóstico e tratamento sob a perspectiva do apoio familiar Atualmente, com o advento da mamografia e de outras técnicas diagnósticas mais modernas, torna-se possível a detecção precoce do câncer de mama, permitindo a realizações de modalidades terapêuticas menos agressivas e desfigurastes (tratamento conservador), e o respectivo aumento de taxa de sobrevida. O Ministério da Saúde chama atenção para a importância da realização do diagnóstico precoce exige que as mulheres realizem o auto-exame. Procurando prontamente a ajuda medica, mas normalmente encontram diferentes obstáculos a superar, como a falta de informação correta e adequada, demora do atendimento no setor público, falhas no diagnóstico, dentre outros. E de se considerar também os elementos subjetivos associados à representação sobre o câncer e seu tratamento, que induzem muitas delas a não procurar atendimento, pelo medo da morte e do sofrimento. 19 Estudando as repercussões do adoecimento e do tratamento em mulheres acometidas pelo câncer de mama, podemos também detectar que a falta de acesso aos serviços de assistências á saúde não se caracteriza como o único impedimento para a procura de ajuda médica, a possibilidade de um diagnóstico confirmado da doença também é um obstáculo. Assim, pode inferir que ao contato com a possibilidade de vir a desenvolver uma neoplasia é sentida como uma realidade extremamente dolorosa e ameaçadora, que sucinta atitudes de evitação de distanciamento como forma de se evitar o sofrimento resultante. É como se elas procurassem não pensar sobre o assunto, acreditando estarem, assim a salvo das inquietações e emoções geradas pela aceitação da possibilidade de um dia se verem afetadas pela enfermidade. Essa evitação é tão intensa que assume um caráter de autentica negação da realidade por parte dessas mulheres, que se observa antes mesmo que a realidade temida seja objetivada e confirmada pelos laudos diagnósticos (Colturado, 1996). Wanderley (2002) afirma que a negação é um mecanismo de defesa muito utilizado nas doenças crônicas. Em estudo realizado com mulheres portadoras de câncer de mama, em diferentes fases do tratamento, verifica-se que algumas mulheres, mesmo tendo sido submetidas à cirurgia ou a tratamentos complementares, evitam confrontar se com a realidade da doença. Não é sem razão que diante desse contexto o câncer de mama vem apresentado como um problema de saúde publica e, apesar da mastectomia ter indicações somente para tumores avançados. Em razão da demora da realização do diagnostico, seguida da remota possibilidade de cura, as cirurgias mutiladoras tem se tornado a única alternativa terapêutica. Aproximadamente 60 % a 70% dos casos de câncer de mama no Brasil são diagnosticados em estagio avançado. Wanderley (2002) adverte ainda, para a necessidade de se levar em conta àquilo que as mulheres pensam e falam para se obter uma maior eficácia nas campanhas preventivas. O medo do câncer e da mutilação, podendo levar à negação e a rejeição da possibilidade da doença, retardam, muitas vezes o diagnóstico, diminuindo as chances de respostas terapêuticas. 20 O diagnóstico de câncer de mama e seu tratamento são considerados por diversos autores como um trauma considerável para a maioria das mulheres, a crença na incurabilidade do câncer e a possibilidade da perda do órgão que é símbolo da feminilidade levam a mulher a se deparar com a situação extremamente dolorosa e assustadora. Apesar dos avanços obtidos no conhecimento e tratamento do câncer, alguns autores enfatizam que a população ainda o considera como uma doença fatal, vergonhosa, impossível de ser prevenida e que causa danos irreparáveis, para eles o câncer de torna ainda mais doloroso e fatal devido às metáforas e mitos difundido ao longo da historia. Esse estigma social gera ansiedade, incerteza do prognostico e expectativas de sofrimento, morte e mutilação, alem de marginalizar o paciente, contribuindo para a manutenção de sentimentos pessimistas sobre a doença e dificultando, muitas vezes a adesão do tratamento. Os significados atribuídos ao câncer afetam a maneira como a mulher percebe sua doença e as respostas das outras pessoas com relação à sua nova condição. Dentro desse contexto apresenta-se um ponto relevante, refere-se ao papel da família junto as pacientes acometidas pelo câncer de mama. A doença crônica não afeta só o individuo infermo trazendo modificações em sua funcionalidade orgânica, psíquica e social, como também aqueles que fazem parte do seu ciclo de relações principalmente familiar. Em todo processo hospitalar geralmente a família se faz presente e nesse momento percebe –se a importância de seu apoio, porque o câncer não se constitui como uma questão isolada do individuo, mas compreende toda a rede de relacionamento principalmente a familiar em geral no decorrer de todo processo. O paciente necessita da presença da família, bem como do contexto social, econômico e político na qual está inserida. Uma vez que percebemos que a família constitui –se como principal responsável pelos cuidados, além de recuperar a história e informações sobre o paciente e sua estrutura familiar. 21 Wolff apud Bergamasso e Ângelo (2001), relata que a família foi identificada como rede de suporte social da mulher mastectomizada, antes, durante e depois da intervenção cirúrgica, configurando –se, portanto, como elemento importante e presente durante a experiência da doença. Por outro lado, a família muitas vezes, por não possuir os devidos conhecimentos sobre a doença e seu tratamento acabam criando vários estigmas que dificultam a relação familiar / paciente. A família acaba isolando ou fazendo com que a própria paciente se isole. Em alguns casos devido ao fato de acharem que possam “pegar” o câncer se mantiverem contato com a pessoa que está doente, ou pelo fato do que, as outras pessoas da sociedade podem falar se souberem que um membro da sua família esta “com essa doença”. Outro agravante é quando as mulheres possuem sentimentos variados a respeito da imagem de sua feminilidade e de seu corpo após a mastectomia, muitas delas sentem –se envergonhadas , mutiladas e sexualmente repulsivas, temem ser rejeitadas pelo companheiro e julgam ter perdidos seu poder de atração; evitam relações sexuais, numa tentativa de postergar a rejeição. Algumas se afastam e sofrem em seu isolamento. Arán et Al, afirmam que a percepção que cada individuo tem do próprio corpo, ou seja, sua auto- imagem, é fundamental para o relacionamento com o outro. E pelo fato da mastectomia alterar a auto- imagem, refletindo- se de forma negativa na identidade feminina, seu relacionamento com o parceiro tende a mudar, visto que a mulher vai perceber- se e sentir- se diminuída na sua feminilidade, principalmente numa sociedade que valoriza o seio como um símbolo sexual importante, a partir disso, a paciente pode sentir- se estranha, manifestar sentimentos de vergonha, embaraço, ter dificuldade de se relacionar não só com o companheiro, mas também com os filhos e amigos. Ao se pensar a pratica sexual das mulheres mastectomizada, considerando a sexualidade a partir de um enfoque mais amplo, percebe- se que é possível que outros arranjos sexuais sejam inventados, mesmo com a falta da mama e a imagem corporal alterada. Sua sexualidade deve se pensada em ralação a questão de ordem 22 física, psicológica e do relacionamento. A maneira como a masctetcomia vai ser vivida pela mulher estará referida a sua historia pessoal, ao seus recursos internos, dentre outros, utilizados para compreender, organizar e integrar as experiências vividas com seus desejos afetivos e sexuais. CAPÍTULO II SIGNIFICADOS E REPERCUSSÕES DA MASTECTOMIA 2.1 Gênero e sexualidade De acordo com Suarez et all (1999), a sexualidade é parte integrante do ser humano desde seu nascimento. Esta relacionada aos prazeres e sensações possíveis de serem experimentados pelo individuo através das manifestações do corpo. A sexualidade sofreu através da história, toda a sorte de controle por interesses diversos, negada ou incentivada, a igreja, o Estado e o poder econômico sempre se valeram deste meio profundo do relacionamento humano (onde a afetividade e prazer formam a base motivacional) para dominar, corromper, atemorizar ou lucrar. Na segunda metade do século XX, a sexualidade das mulheres foi tirada da sombra que confundia com procriação e também pela moral da sociedade judaicocristã, onde o patriarcalismo não lhe permitia expressão fora dos estreitos limites da vida reprodutiva. Foi a partir dos anos 60 que a sexualidade feminina tornou-se visível e audível através dos movimentos das mulheres. As conquistas sociais, que permitiram as mulheres desfrutarem de liberdades sociais, são resultantes de vários processos de lutas e rupturas desencadeadas com o tempo (Ribeiro, 1993). 23 Ainda de acordo com Ribeiro, a sexualidade é um conceito complexo que pressupõe dimensões biológicas fundamentadas nas diferenças anatômicas entre homens e mulheres, dimensões fisiológicas relativas ao funcionamento físicoquímico do aparelho reprodutor, dimensões que se traduzem por manifestações do inconsciente e dimensões socais correspondentes ao desempenho de papeis sexuais socialmente definidos. Portanto, para falar em sexualidade, é necessário tratá-la toda sua amplitude e diversidade de seu conceito. Não se discutir a sexualidade deslocada da questão do gênero, pois “a categoria analítica gênero possibilita a busca dos significados das representações tanto do feminino quanto do masculino, inserido-se nos seus contextos sociais”. (Ribeiro, 1993). De acordo com Scortt (1991) “o gênero é elemento construtivo de relações sociais baseado nas diferenças percebidas entre os sexos” e também como “uma forma primeira de significar relações de poder”; gênero como construção social de significados perpassando o mercado de trabalho, o ensino, a escola o sindicato, isso significa que a questão de gênero está presente em todas as esferas da sociedade. Dentro desse contexto, percebemos que uma doença maligna. Mas precisamente o câncer de mama, interfere na sexualidade, na história orgânica, emocional e social de uma mulher. Dessa forma, entendemos como Teixeira (2001) que o impacto social da mastectomia tende a ser profundo, a perda de uma parte tão impregnada de valores estéticos e maternais gera cicatrizes profundas na vida da mulher. Os efeitos são devastadores na imagem corporal e na confiança sexual. O medo de ser rejeitada pelo parceiro, o sentimento de não ser mais atraente nem feminina, a baixa autoestima, o constrangimento frente as suas relações sociais, são sentimentos muito presentes nas mulheres que vivem ou viveram o dilema da perda da mama devido ao câncer. Entendemos que a questão da sexualidade feminina está muito alem da retirada da mama. É possível transformar a vivencia da perda da mama em mais um 24 campo para o resgate da potencialidade da sexualidade da mulher que é em geral sublimada pela mastectomia. Resgatar esta sexualidade compreendendo significado sócio-cultural dado ao corpo, responsável pela imagem que temos de nós mesmos, e que nos leva muitas vezes a negar nossa capacidade de saber e determinar o nosso tempo certo para fazer as coisas. Esse entendimento poderia ter impacto na qualidade de vida das mulheres. 2.2 O significado da Mastectomia para a mulher e suas conseqüentes alterações físicas e sociais De acordo com Duarte e Andrade (2003), o impacto da amputação da mama sobrepõe-se ao impacto do diagnóstico, expectativa da mutilação pode desencadear reações emocionais tão intensas a ponto de serem comparadas ás fantasias de morte. A preocupação central da mulher e de sua família após receber o diagnóstico de câncer de mama é a sobrevivência, surgindo em seguida à preocupação com o tratamento e as condições econômicas para realizá-lo. Para Bergamasco e Ângelo (2001), a mulher acredita que a remoção cirúrgica do tumor traz segurança, com isso, minimizando sua preocupação com a doença. Essas autoras sustentam que, para as paciente, livrar-se do tumor significa colocar limites à doença, dessa forma, remover-se do corpo ema enfermidade que impõe incertezas, sofrimentos, e muda seus hábitos de vida e o convívio social. Em estudos sobre as alterações decorrentes do câncer de mama, percebeu-se que, após a mastectomia, as mulheres, sentiam-se agradecidas por permanecerem vivas, mas relevam sentimentos ambivalentes, na medida em que, pra sobreviver, tiveram que perder a mama, ter sua imagem corporal modificada e sua identidade com mulher questionada. 25 O que importava para a maioria dessas pacientes era se submeter à mastectomia, pois priorizam manter a vida em detrimento até mesmo da sua qualidade, não se permitindo, inclusive vivenciar os sentimentos referentes á perda do seio. Bergamasco e Ângelo (2001) advertiram para a possibilidade de essas pacientes estarem se utilizando de um mecanismo de defesa – a negação, não se deparando com o sofrimento gerado pela perda de um órgão tão valorizado. Segundo aos autores aos poucos é que o instinto de vida vai dando lugar a uma aceitação da possibilidade da perda da mama. A perda da mama poderá produzir alterações significativas nos níveis mental e comportamental. A mulher poderá sentir-se incapacitada para amar e se amada, de desejar e de ser sensual, sentindo sua perda como uma castração. Figura 3 Após mastectomia do lado direito Fonte: http://www.cancerdemama.com.br/cui/cuirec0.htm#Mastectomia A mulher poderá sentir a perda da mama como algo humilhante, sendo privada, ainda do seu referencial de feminilidade, obrigando-a enfrentar um processo de luto desse órgão. Nesse sentido, a mulher terá a auto-estima alterada, o que interferirá em sua autoconfiança. A mulher, então, vai se sentir diminuída na sua feminilidade, 26 atratividade e sexualidade, sendo, muitas vezes, a perda da mama relacionada à perda da aparência da mulher. Assim a mastectomia, além de ocasionar uma serie de complicações físicas, provoca na paciente em sentimento de mutilação e perda, sendo considerada com um procedimento agressivo. A mastectomia, além de comprometer a auto-imagem e a auto-estima da mulher, trazendo conseqüências para sua vida social, também interferirá na capacidade de amamentação e, conseqüentemente, na maternidade. A partir de Freud, pode se perceber o quanto à maternidade é importante, no sentido de ajudar a mulher a ser reconhecer enquanto tal. Toda intervenção cirúrgica apresenta implicações mais ou menos intensas representando, em geral, sempre uma ameaça à paciente. Em se tratando da mastectomia, em razão da valorização cultural da mama, tal intervenção torna-se uma catástrofe existencial. Novais e Vilhena (2003), disseram que a feiúra é, atualmente, uma das formas mas presentes de exclusão social feminina, sendo a beleza representada como um dever cultural. Por ser a imagem da mulher e do feminino, na sociedade moderna, associada à beleza e juventude, existe cada vez menos tolerância pra os desvios estéticos socialmente estabelecidos. Para ser inserida no grupo social, a mulher precisa ter o corpo na moda, devendo se preocupar constantemente com os cuidados físicos, como forma de estar preparada pra enfrentar os julgamentos e expectativas sociais. Nesse sentido, pode-se considerar a mastectomia como um paradigma da feiúra, podendo, inclusive, influenciar na maneira como a paciente vai conviver com seu corpo e com o seu companheiro, estabelecendo vínculos saudáveis ou se excluindo. A percepção que cada individuo tem de seu próprio corpo, vale dizer, sua auto-imagem, é fundamental pra o relacionamento com a sociedade. Existe atualmente uma tendência para a realização de cirurgias menos radicais devido á preocupação com a qualidade no pós-operatório. Foram consistentes no fato de que pacientes submetidas a tratamentos conservadores se sentem menos 27 mutiladas, preservam melhor sua imagem corporal, mostram-se mais satisfeitas com suas estéticas, são sexualmente menos inibidas e se reintegram mais rapidamente ás suas atividades cotidianas, tendo, conseqüentemente, uma melhor qualidade de vida. Nas cirurgias mais extensas, a insatisfação cm a aparência do corpo, com a cicatriz e com o próprio seio costuma ser bem maior do que a encontrada em pacientes que fizeram cirurgia parcial, pelo medo de não se sentirem mais atraente sexualmente e pela sensação de diminuição da feminilidade. É relevante esclarecer, no entanto, que toda cirurgia, mesmo que não seja mutilante altera a imagem corporal do paciente. E, de acordo com Bartilotti (2002), embora o tratamento cirúrgico para a neoplasia de mama não se restrinja somente a mastectomia radical, existindo outras possibilidades menos mutiladoras - dependendo do estagio da doença - visando inclusive à reconstrução da mama, está modalidade terapêutica não deve ser considerada um sofrimento para a maioria das pacientes. Estudos sobre repercussões biopsicossociais do câncer de mama revelou que as pacientes que optam por cirurgias conservadoras estão mais sensíveis à agressão, à sua auto-imagem, apóiam sua auto-estima na presença da mamas e acreditam ter grande dificuldade de se adaptarem à mastectomia. Já as pacientes que optam pela mastectomia considera a presença da mama doente como uma parte má que deve ser removida. No tocante ao temor da recidiva local, alterações no trabalho segurança em relação ao futuro, comportamento da família e alterações na vida sexual. 2.3 Repercussões da Mastectomia na vida das mulheres com câncer de mama Lopes e Costa (1998), a partir da pratica clinica com mulheres com câncer de mama, constataram que muitas das pacientes atendidas apresentavam 28 comprometimento da sua sexualidade, nas diversas fases do tratamento, no decorrer do tratamento, a reação emocional ao impacto do conhecimento da doença, o receio da sua evolução a expectativa de sofrimento e a agressão dos atos terapêuticos agem diretamente em cada mulher, levando-a à da auto-estima, que a influenciará de maneira negativa na recuperação emocional, sexual e social. A ameaça da doença faz com que a feminilidade seja vivida com angustia e rejeição, sendo objeto de deslocamento de todas as fantasias auto-destrutivas, masoquistas e de auto desvalorização, ainda segundo os autores, quando a mama sofre uma mutilação, a auto imagem pode alterar-se, obrigando a mulher a se apropriar de um novo referencial de corpo, acarretando nas pacientes sentimentos de inferioridade e medo de serem rejeitadas socialmente. Diante desse contexto Quintana (1999) afirma que imagem corporal se constrói a partir das representações que o individuo constrói de seu corpo biológico. Sendo assim, as modificações corporais decorrentes da mastectomia vão acarretar alterações nessa imagem corporal. Essa mesma autora diz: “(... a aceitação de uma intervenção cirúrgica não depende somente da modificação da anatomia do sujeito, mas do fato de colocar em jogo a modificação da imagem que o mesmo possui de seu próprio corpo e com a qual é, por vezes, muito mais difícil lidar”. Quanto maior for a importância que a mulher confere às suas mamas, maior será o sentimento de perda após a cirurgia. Por negarem sua nova condição física, estão sujeitas a manifesta graves situações de crise, uma vez que a mama é parte integrante da feminilidade e de seu sentimento materno. Em razão disso, a mastectomia representa uma ferida simbólica, que parece funcionar com um sinal ou marca de destruição ou destrutibilidade. Para Albernaz (2003), o ativo envolvimento da família, em especial do cônjuge, deve ser estimulado, na medida em que diante da doença, a paciente tende a se infantilizar, buscando no seio familiar se mais encorajador apoio. Após a mastectomia, a mulher terá sua auto-imagem alterada, o que interferirá na sua autoconfiança e auto estima. A mulher tende a se sentir diminuída na sua feminilidade, 29 atratividade e sexualidade, sendo importante a presença do companheiro, familiares bem como os amigos e colegas na sua reestruturação de sua integridade. CAPÍTULO III A SAÚDE E A ATUAÇÃO 3.1 Políticas sociais nas últimas décadas Nos anos 80, a sociedade brasileira. Ao mesmo tempo em que vivenciou um processo de democratização política superando o regime ditatorial instaurado em 64, experimentou uma profunda e prolongada crise econômica que se reflete até e os dias atuais. Nesse período, ressalta-se o processo constituinte e a promulgação da Constituição de 1988, que representou, no plano jurídico, a promessa de afirmação e extensão dos direitos sociais, em nosso País, frente à grave Crise e desigualdades sociais existentes. Nesse contexto, destaca-se o capitulo “Da Ordem Social”, que é para o Serviço Social e a classe trabalhadora de vital importância, por trata-se de um conjunto de princípios e artigos que, se efetivamente respeitados podem contribuir para redução das desigualdades sociais, pois tem como base o primado do trabalho e como objetivo o bem estar social e a justiça social (CRESS, 2006). Dentro das políticas de proteção social, a constituição instituiu a Seguridade Social, como “o conjunto integrado de ações de iniciativa dos poderes públicos e da 30 sociedade, destinados assegurar os direitos relativos à Saúde, à previdência e à assistência” (Mota, 1996). A previdência foi instituída como sistema de proteção ao trabalhador e sua família mantido pela contribuição individual do trabalhador e de toda sociedade, com caráter de redistribuição de renda e sob a garantia do Estado. Sendo a Previdência de cunho contributivo, a ela tem direito os que contribuem. Para a camada da sociedade desprovida desse direito foi instituída a Assistência Social. De acordo com a Constituição, a Assistência social é política pública, dever do Estado e direito do cidadão que dela necessite. Isto significa dizer que o Estado reconhece a existência de uma enorme faixa da população em estado de pobreza absoluta e/ou relativa e que o cidadão, mais diretamente atingido por esta situação. Tem direito a uma vida digna e o Estado tem o dever de garantir o desenvolvimento de ações, programas e serviços assistência social previstos em lei, aos quais, os cidadãos brasileiros no pleno uso de seus direitos possam utilizar. Outro aspecto importante é salientado por Escorel (1989), que considera a saúde um componente fundamental da democracia e da cidadania, tanto por ser determinada por um conjunto de direitos. No artigo 3º da Constituição Federal o conceito de Saúde é definido conforme a seguir: ”Saúde tem como fatores determinantes e condicionantes, entre outros, a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a educação, o transporte, o lazer, e o acesso aos bens e serviços essenciais: os níveis de saúde da população expressam a organização social e econômica do País” A saúde é item de relevância pública, o que assegura a participação do Ministério Público na fiscalização do cumprimento das leis. O artigo 196 da constituição Federal de 1988, define que: 31 A Saúde é direito de todos e dever do Estado, garantindo mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doenças e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário ás ações e serviço para sua promoção, proteção e recuperação. Com vistas a assegurar esse direito, medidas forma implantadas a partir da descentralização da saúde, através de um sistema único e universal. 3.2 Reforma sanitária e o Sistema Único de Saúde Na década de 90 as alterações ocorridas na sociedade brasileira, bem como os grandes projetos societários em disputa tiveram repercussão nas diversas áreas das políticas sociais. Na saúde, entre outros, destaca-se o Projeto de Reforma Sanitária, construído na década de 80 e inscrito na Constituição Brasileira de 1988 e o Projeto de Saúde Privatista, hegemônico na segunda metade da década de 90 (Bravo e Matos, 2001). No projeto Privatista, a tarefa do Estado consiste em garantir um mínimo aos que não põem pagar, ficando para o setor privado o atendimento dos que tem acesso ao mercado. O projeto Saúde articulado ao mercado ou ao modelo médico assistencial privatista esta pautado na política de ajuste neoliberal, que tem como principais tendências: a contenção de gastos com a racionalização da oferta, a descentralização com isenção de responsabilidade do poder central e a focalização (Bravo, Matos, 2001). O projeto de Reforma Sanitária apresentou como uma de suas estratégias o Sistema Único (SUS), fruto de lutas e mobilização dos profissionais de saúde, articulados ao movimento popular. Sua preocupação central é assegurar que o Estado atue em função da sociedade, com uma concepção de Estado democrático e de direito, responsável pelas políticas sociais e conseqüentemente pela saúde (idem). 32 O SUS trás como princípios: universalidade de acesso; integralidade da assistência; igualdade na assistência à saúde; participação da comunidade; descentralização político-administrativa, com direção única em cada esfera (IDEC, 2008). O SUS é um sistema formado por varias instituições dos três níveis de governo (União, Estados e Municípios) e pelo setor privado, com o qual são feitos contratos e convênios pra a realização de serviços e ações, como se fosse um mesmo corpo. Assim o serviço privado um hospital, por exemplo, quando é contratado pelo SUS deve atuar como se fosse publico (IDEC, 2008). 3.3 -A importância do acompanhamento terapêutico para o paciente Oncológico e sua família. O terapeuta atuante na área oncológica visa manter o bem-estar psicológico do paciente, identificando e compreendendo os fatores emocionais que intervêm na sua saúde. Outros objetivos do trabalho desse profissional são prevenir e reduzir os sintomas emocionais e físicos causados pelo câncer e seus tratamentos, levar o paciente a compreender significado da experiência do adoecer, possibilitando assim re-significações desse processo. Em sua atuação, o terapeuta deve estar atento também aos distúrbios psicopatológicos, como depressão e ansiedade graves. Sua prática é exercida em todas as etapas do tratamento, como dito anteriormente, habilitando o paciente a confrontar-se com o diagnóstico e com as dificuldades dos tratamentos decorrentes, ajudando-o a desenvolver estratégias adaptativas para enfrentar assim situações estressantes. Os objetivos do trabalho terapêutico serão alcançados na medida em que esse profissional vai compreendendo o que está envolvido na queixa do paciente, buscando sempre uma visão ampla do que está se passando naquele momento não escolhido da vida dele. 33 Num espaço de acolhimento e escuta o terapeuta deve sempre trabalhar com a realidade. Quanto mais informado o paciente estiver de sua doença, maior será a sua capacidade de enfrentar o adoecer e mais confiança terá na equipe. Pacientes bem informados reagem melhor ao tratamento. Dessa forma, o terapeuta deve preocupar-se em falar numa linguagem acessível ao paciente e sempre checar se as informações e orientações dadas pela equipe foram efetivamente compreendidas. Segundo Ferreira, os temas que mais preocupam os pacientes com câncer e que devem ser focos das intervenções psicoterápicas são: sensação de falta de controle sobre a própria existência, temor da solidão e da própria morte, sentimento de impotência e fracasso e temor dos efeitos adversos do tratamento oncológico. A atuação do terapeuta não se restringe só ao paciente oncológico. É imprescindível incluir a família no atendimento, já que são personagens fundamentais no auxílio aos pacientes para o enfrentamento da doença. Na medida em que tenha suporte, a família pode se tornar aliada permanente não só do paciente, como também da própria equipe de saúde. Pesquisa realizada por Bergamasco e Ângelo afirma que a família, com sua ajuda material e emocional, é considerada pelas mulheres com câncer de mama como sendo um apoio fundamental para darem continuidade ao tratamento. Para Simpson et al.24 o suporte social também é um fator importante na prevenção e alívio da depressão e ansiedade nos pacientes com câncer. Neste artigo, esses autores citam uma pesquisa com pacientes com câncer de mama mostrando que a ansiedade e a depressão,t rês meses após a cirurgia, estão relacionadas com o grau de suporte dos membros da família e do cirurgião. Atuando junto à família, o terapeuta deve buscar reforçar os vínculos afetivos entre família e paciente, facilitando um diálogo verdadeiro, capacitando-os acompartilhar experiências e emoções. A participação dos familiares nas decisões, junto ao paciente, constitui outro fator que deve ser estimulado pelo terapeuta. É importante mencionar que o esse trabalho deve ser feito numa rede de contatos, ou seja, não trabalhar sozinho e sim com a equipe de saúde. A interação entre todos os profissionais envolvidos no tratamento do câncer de mama é fundamental para a conquista de um bom resultado, já que a atuação passa a ser global, envolvendo todos os aspectos implicados no adoecimento. O terapeuta deve estar atento aos 34 focos de conflitos dentro da equipe de saúde, impedindo ruídos que possam surgir nessa comunicação, pois é a partir da relação desses profissionais que todas as demais relações podem viabilizar-se ou se comprometerem. Para que a atuação do terapeuta junto à equipe e ao paciente se desenvolva satisfatoriamente, é necessário que esse profissional tenha informações básicas sobre o câncer, além dos tratamentos e sintomas que resultam dos mesmos. É importante para o terapeuta saber distinguir sintomas emocionais dos sintomas decorrentes das questões orgânicas. O conhecimento básico das questões médicas referentes ao câncer de mama, como, por exemplo, os estágios da doença e prognósticos associados a esses, contribui para que o terapeuta possa definir a abordagem que irá utilizar com o paciente. CONCLUSÃO O levantamento da literatura especializada nos faz compreender o quanto a o câncer de mama e a mastectomia compromete a vida emocional e social da mulher. O câncer, pelo impacto que gera na vida da mulher comprometendo sua autoestima, propiciando sentimentos de menos valia, interferindo, assim, nos aspectos relacionados à identidade de mulher. Por sua Vez, a mastectomia, tratamento radical, porém necessário, vem reforçar esse sentimento de estranheza, ao modificar a auto-imagem corporal da mulher, causando dificuldades para uma auto-aceitação e, conseqüentemente, fazendo aflorar sentimentos de vergonha, inibição e constrangimento. As alterações no corpo das pacientes, seguidas da alteração da imagem corporal, implicam também em transformações afetivas, refletindo na forma como passarão a perceber a si mesmas e na forma como vivenciarão as diversas situações cotidianas. 35 A vida social da paciente mastectomizada passa a ser confrontada, exigindo uma capacidade de enfrentamento e elaboração de nova condição. A aceitação e o apoio da família, amigos, etc, mostram se aspectos fundamentais. Novos arranjos na sua vida social posem ser criados, permitindo que a mulher passa a retomar a vida de forma satisfatória, mesmo tendo seu corpo modificado pela doença e tratamento, e sentindo-se ameaçada pela recorrência da doença. Apesar dos já mencionados entraves relacionados à saúde do Brasil, as falhas no diagnóstico, o medo um diagnóstico afirmativo da doença, o diagnóstico precoce, uma vez confirmado, a maioria das mulheres acometidas por câncer de mama viverá com sua doença por muitos anos. Com esse aumento de sobrevida, é fundamental que os profissionais compreendam a experiência de se viver com câncer de mama, reconhecendo as implicações não só físicas, mas emocionas e sóciais que o diagnóstico e o tratamento trazem para a vida da mulher e de seus familiares no sentido de ajudá-los no enfrentamento dessas situações. A atuação dos familiares é de suma importância , a fim de que tanto os aspectos físicos quanto os sociais sejam considerados no processo do adoecer; cada paciente exigirá uma tática especifica, dependendo de suas condições adaptativas. Seus contextos culturais, biológicos, sociais e psicológicos devem ser considerados. 36 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA ABESS/CEDEPS. Proposta básica para o projeto de formação profissional. In: Serviço social & sociedade. São Paulo, Cortez, nº 50, abril, 1996. ALBARNAZ, Maria de Fátima, Mastologia: O Papel do Assistente Social na Equipe Multidisciplinar, Rio de Janeiro, (2003). BARTILOTTI. M R M B. 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