SUCESSO Patrimônio brasileiro Em funcionamento desde 1882, o restaurante Leite mostra que é possível conservar a qualidade ao longo do tempo Aline Alve s F Eder Jules undado em 1882, em Recife, o Leite é o mais antigo restaurante em funcionamento no País. A trajetória desse patrimônio histórico e cultural do Brasil começou em um modesto quiosque, aberto pelo português Armando Manoel Leite de França, às margens do rio Capibaribe. Localizado na saída da movimentada ponte Boa Vista, principal ligação entre o centro e os bairros da cidade, o restaurante logo conquistou uma clientela fiel e crescente. Rapidamente, as simples instalações do Manoel Leite (nome da casa então) foram substituídas por um prédio mais imponente na Praça Joaquim Nabuco. É lá que, mais de um século depois, 200 pessoas almoçam aos domingos. Para conseguir uma das concorridas mesas do Leite, é necessário fazer reserva ou aguardar em longas filas. Costumam passar por ali, diariamente (a casa funciona somente para o almoço, e fecha aos sábados), uma centena de políticos, empresários, personalidades, famílias tradicionais de Pernambuco e intelectuais. Quem sempre está lá para receber os clientes é o atual proprietário da casa, Armênio Ferreira Diogo, português assim como o fundador do restaurante. Em 1955, Armênio, seus irmãos Amadeu e Luis Dias, e o amigo Hugo Laprovítera, compraram o Leite. Desde então, o restaurante conquistou a estabilidade e ganhou de volta a sofisticação e o prestígio dos primeiros tempos. Trajetória de altos e baixos Assim que passou ao novo prédio, em 1882, a casa ganhou um ambiente refinado com decoração clássica e artigos de marcas luxuosas vindos da Europa. O Manoel Leite recebia senhores de engenho, políticos, intelectuais e artistas. Esse período de glória durou quase vinte anos. Mas, na primeira década do século 20, o restaurante entrou em dificuldades financeiras. Em 1910, Armando decidiu voltar ao seu país de origem e vendeu a casa ao seu gerente, Bernardino Wenceslau da Silva. A administração de Bernardino foi bem-sucedida até a Segunda Guerra Mundial, quando os reflexos da crise internacional chegaram ao Brasil e afetaram o estabelecimento. Em 1945, foi vendido a João Lacerda, que rebatizou o restaurante para Leite. Nessa nova fase, a casa foi reformada e ampliada. Mas, nos anos 50, mais um colapso financeiro. “O restaurante estava em CozinhaBacalhau Profissional à105moda | www.cozinhaprofissional.com.br 12 mais pedido: Prato do chef falência”, conta Armênio Ferreira Diogo. Para dar continuidade ao funcionamento do Leite, o primeiro passo foi resolver as pendências tributárias do restaurante junto ao governo. Segundo Armênio, os antigos proprietários não pagavam os impostos há dez anos. Depois de um período de negociação, foi conseguido o perdão da dívida tributária. Em seguida, as instalações passaram por mais uma reforma: o restaurante ganhou um bar, o salão foi restaurado e recebeu uma nova decoração. Todo o capital injetado foi resultado dos investimentos dos sócios, também proprietários de outros estabelecimentos em Recife, como hotéis, padarias e lojas de roupas masculinas. As mudanças só não aconteceram quanto aos colaboradoresw – os novos donos decidiram manter o pessoal que já trabalhava na casa. Renovado, o Leite voltou a ser local de encontro principalmente de políticos e empresários. “Quase todos os presidentes da República passaram pelo Leite”, afirma Armênio Ferreira Diogo, o único dos sócios que permanece no comando do restaurante atualmente. É com orgulho que ele conta um episódio envolvendo Juscelino Kubitschek e Craveiro Lopes, expresidentes do Brasil e de Portugal, respectivamente. “Em 1957, o garçom, emocionado ao servir dois presidentes, derrubou um copo de vinho tinto na mesa. O Craveiro Lopes fez uma cara mal-humorada. O JK levantou-se da mesa, deu um abraço no garçom e disse que aquilo simbolizava uma confraternização entre Brasil e Portugal. O restaurante inteiro aplaudiu a atitude do presidente. Falei diversas vezes com ele, era um homem muito espirituoso, engraçado”, diz. Jânio Quadros e Castelo Branco também estiveram Eder Jules Eder Jules Eder Jules Chef de cozinha Armênio Ferreira Diogo no restaurante, e os senadores Marco Maciel e Jarbas Vasconcellos são antigos clientes. Entre as personalidades que já visitaram o Leite estão o cineasta Orson Welles e o filósofo Jean-Paul Sartre. Atendimento dedicado Antes de chegar ao País, em 1951, Armênio Ferreira Diogo havia trabalhado na confeitaria Áurea, uma das casas mais respeitadas de Lisboa. Aos 76 anos, ele se divide entre o Leite e outras duas atividades profissionais. Ele é proprietário de casas de câmbio no Brasil e em Portugal, e vice-provedor do Real Hospital Português da Beneficência, em Pernambuco. Por isso, no dia-a-dia administrativo do restaurante, ele conta com a ajuda de uma equipe. A contabilidade está sob a responsabilidade de Alexandre Dias, seu sobrinho. Para coordenar os 40 colaboradores do Leite, há uma gerente de recursos humanos, e três funcionários são encarregados pelas compras e contatos com fornecedores – a maioria deles, de São Paulo. Alguns utensílios são comprados em Portugal, escolhidos por Armênio, assim como vinhos especiais. “Tenho um estilo de administração bem europeu, muito rígido”, diz o português. Para o proprietário, o grande diferencial do restaurante é o atendimento. Os funcionários do restaurante recebem orientações especiais em relação a aspectos que vão desde a apresentação pessoal até o modo de se dirigirem aos clientes. meu maior trabalho é anuncio cozinha profissional tesPage“O 1 6/11/2007 11:58:18 Pisos em MMA Resistência, higiene e segurança reunidos em um só piso Atual equipe do restaurante Leite com a equipe. Sempre digo a eles que a comida é tão importante quanto o atendimento. É preciso explicar sobre a importância do asseio pessoal, usar roupas limpas. A conduta pessoal também tem de ser condizente com as características de um restaurante como o Leite”, diz Armênio. Dos 14 garçons da casa, o mais antigo é Xavier da Silva. Há 34 de seus 68 anos, serve os clientes do Leite. “Há pessoas que sirvo há trinta anos. Gosto de conversar, contar uma anedota, dar risada”, afirma. Quando o movimento vai diminuindo, é comum que ele dedique seu tempo a um bate-papo com os freqüentadores. O aposentado José Ermenegildo Rocha de Melo Filho, 70 anos, é um deles. Todos os dias, há 37 anos, ele almoça no Leite. “Aqui é o prolongamento da minha casa. A qualidade da comida é excelente e nenhum outro restaurante tem esse alto astral. Todo mundo se conhece, se abraça, e sempre está rindo”, conta. Foi graças à intimidade de José Ermenegildo com o pessoal da cozinha que um dos pratos mais apreciados do restaurante acabou entrando no cardápio, definido como internacional com influências portuguesas e regionais. Depois de experimentar o feijão com charque, jerimum e repolho preparado para os colaboradores, o cliente passou a pedir o prato, acompanhado de rosbife de filé e arroz. “Quando o pessoal que vinha almoçar comigo começou a pedir isso também, colocaram no cardápio”, diz. O autor do prato é Edmilson Araújo, o Bigode, que comanda a cozinha do Leite há 18 anos. Além das 70 opções do cardápio, ele é o responsável pela elaboração das sugestões do dia, servidas durante a semana. “Cada dia a gente faz um prato diferente. O cliente do Leite gosta disso”, diz. O prato mais famoso e pedido da casa é o Bacalhau à moda do chef: lombo de bacalhau grelhado, puxado na cebola e no azeite, com batatas cozidas, azeitonas pretas, pimentões coloridos. Entre os segredos do sucesso da receita estão a ausência de espinhas do bacalhau e o azeite generoso. Já os Filés à moda do Leite e à Chateaubriand (homenagem à Assis Chateaubriand, um dos célebres freqüentadores do restaurante) são clássicos presentes no cardápio há mais de 50 anos, época em que, segundo Armênio, mulheres desacompanhadas não entravam no restaurante e homens sem paletó e gravata. Se no cardápio o Leite se mantém fiel às tradições, a modernização aparece no salão. Reformado periodicamente, mas mantendo a arquitetura original, já ganhou novos pisos, sistema de ar-condicionado e tratamento acústico – que valoriza o som do piano Petrof, uma relíquia comprada nos anos 1950, tocado diariamente. A combinação de administração dedicada, exigente padrão de atendimento e uma culinária que une a sofisticação da alta cozinha e o sabor dos pratos tradicionais renderam uma longevidade única ao Leite, que só dá indícios de vitalidade. 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