Conceitos
fundamentais da
psicanálise
UNIDADE II
1- O inconsciente
Com a morte de seu pai em 1896, Freud passa a reconhecer em si mesmo
alguns sintomas neuróticos. Decide se afastar das investigações sobre a
histeria e destrói grande parte de seus escritos. Este afastamento, ocorrido
também devido a grande desaprovação por parte da comunidade médica
de Viena de suas teorias, leva Freud a acentuar sua amizade com Wilhelm
Fliess. Fliess, um otorrinolaringologista, sustenta ideias estapafúrdias sobre a
etiologia da histeria. Ele acreditava que esta estava ligada ao
funcionamento do nariz. Freud torna Fliess seu grande confidente, com quem
trocará um grande volume de correspondências.
Nestas correspondências nota-se que o grande objeto de pesquisa de Freud
deixa de ser as histéricas e torna-se ele mesmo. Com a interlocução de Fliess,
Freud empreende o que é conhecido como sua auto-análise. Esta ousadia
científica de Freud irá redundar em sua obra mais valiosa e reconhecida, a
Interpretação dos Sonhos (1900).
A resistência
Somada a morte de seu pai, Freud enfrentou também a resistência da
comunidade médica contra suas teorias. Associar o trauma a sexualidade
significava reconhecer a sexualidade infantil. A ideia era a de que a causa
das neuroses estavam diretamente ligada a um evento traumático vivido no
passado, sendo que este evento necessariamente traria em si um cunho
sexual. Se o trauma acontecera na infância, logo a criança, assim como o
adulto, também era habitada e acometida por desejos sexuais.
A resistência foi percebida por Freud também em seu manejo clínico com as
histéricas. Ao abandonar a hipnose, Freud se deparou com uma extrema
dificuldade por parte dos pacientes em se lembrar dos eventos passados
possivelmente ligados a patologia. A resistência do paciente ao método
psicanalítico se manifestava em uma falha na memória e em uma enorme
dificuldade de falar sobre qualquer coisa ligada a patologia.
Desse modo, Freud, cercado de resistências contra seu método, fecha-se em
si mesmo em uma auto-análise. Para vencer tais resistências cria seu conceito
de inconsciente.
O inconsciente freudiano
O uso do termo unbewusste (inconsciente) não era novidade na época
de Freud. Filósofos e pequisadores, como Schelling, Nietzsche,
Schopenhauer, Herbart e Wundt já o utilizavam antes de Freud como
conceito importante de suas teorias. A novidade do inconsciente
freudiano que abriu-lhe caminho para a consolidação do método
psicanalítico se encontra no fato de Freud concebe-lo como algo
dinâmico, com um funcionamento estruturado, passível de ser
compreendido.
Para Freud o inconsciente não é o lugar dos mistérios mais profundos da
alma, tornando o analista responsável por fazer essa sondagem do
mundo interior. O inconsciente, ao contrário está na superfície e se
manifesta constantemente na vida cotidiana através daquilo que um
sujeito fala, sonha, ou mesmo através de seus sintomas. O inconsciente
freudiano é ação, não traz tranquilidade, não fica quieto, é perturbador e
sempre detêm a ultima palavra.
“A percepção predominante do inconsciente é a de que ele é o
domínio das pulsões irracionais, algo oposto ao eu consciente e racional.
Para Lacan, essa noção do inconsciente pertence à Lebensphilosophie
(filosofia de vida) romântica e nada tem a ver com Freud. O inconsciente
freudiano causou tamanho escândalo não por afirmar que o eu racional
está subordinado ao domínio muito mais vasto dos instintos irracionais
cegos, mas porque demonstrou como o próprio inconsciente obedece a
sua própria gramática e lógica: o inconsciente fala e pensa. O
inconsciente não é terreno exclusivo de pulsões violentas que devem ser
domadas pelo eu, mas o lugar onde uma verdade traumática fala
abertamente. Aí reside a versão de Lacan do moto de Freud Wo es war,
sol ich werden (Onde isso estava, devo advir): não “O eu deveria
conquistar o isso”, o lugar das pulsões inconscientes, mas “Eu deveria
ousar me aproximar do lugar de minha verdade.” O que me espera ali
não é uma Verdade profunda com a qual devo me identificar, mas uma
verdade insuportável com a qual devo aprender a viver.”
(Zizek, 2010, p. 9)
O inconsciente para Freud:

Não é um lugar de armazenamento de conteúdo mental.

É um dos sistemas do aparelho psíquico.

É um sistema que se comunica com um outro sistema denominado por
ele sistema Pré-consciente/Consciente.

Sistema Ics

Sistema PCs/Cs

Não opera com a negação, esta só aparece na fronteira entre os dois
sistemas.

Tem seu modo de funcionamento denominado processos primários


Deslocamento

Condensação
Não opera cronologicamente (atemporalidade linear)
Sistema
Processo
Energia
Lei
Ics
Primário
Livre
Principio do
prazer
Pcs/Cs
Secundário
Ligada
Principio da
realidade
Revisão
1.
Sob quais circunstancias Freud passa a empreender sua auto-análise?
2.
Qual a importância da sexualidade infantil para a etiologia das
neuroses?
3.
Em quais pontos podemos distinguir o inconsciente para Freud e o
inconsciente dos filósofos que o antecederam?
4.
Porque o conceito freudiano de inconsciente é ao mesmo tempo
inovador e escandaloso?
5.
Enumere as características do inconsciente freudiano.
6.
Segundo Freud como se divide o aparelho psiquico?
O recalque originário e a
inauguração do inconsciente
O recalcamento é o processo responsável pela clivagem da
subjetividade em instâncias distintas:
1.
Sistema Ics
2.
Sistema Pcs/Cs
Freud concebe o conceito de recalcamento ao:
1.
Se deparar com a resistência ao método psicanalítico.
2.
Empreender a superação da teoria do trauma.
“[...] a essência da repressão consiste simplesmente em afastar
determinada coisa do consciente, mantendo-a à distância.” (Freud,
1915, p. 170)
O recalque originário
“[...] a repressão não é um mecanismo defensivo que esteja presente desde o
início; ela só pode surgir quando tiver ocorrido uma cisão marcante entre a
atividade mental consciente e a inconsciente;” (Freud, 1915, p. 170)
O que ocorre é que o recalque produz a cisão subjetiva entre os dois sistemas
Ics e Pcs/Cs. O que haveria então antes de um sujeito dividido?
A criança antes de ser inserida no campo simbólico registra a realidade por
suas percepções aleatórias e desorganizadas, permanecendo envolvida por
sua capacidade infinita de associações de imagens. Não há, da parte da
criança, qualquer mecanismo de defesa contra os excessos provenientes do
mundo externo, até que o mecanismo do recalque seja instalado essa tarefa
necessita do amparo dos pais. Assim, toda vez que uma experiência
excessivamente excitatória acomete seu aparelho psíquico, cria-se uma
inscrição, como um sulco gravado madeira, que irá determinar mais adiante
qual conteúdo deverá ser recalcado.
A inauguração do inconsciente
A inauguração do inconsciente se dá no momento em que a criança é
inserida no campo simbólico. É devido há uma necessidade de defesa
que a criança lança mão do mecanismo do recalque que irá lhe
proporcionar se ver livre daquilo que momentaneamente escapa sua
capacidade de ordenação simbólica da realidade.
Questões relativas a sexualidade e a morte, permanecem, sem
possibilidade de elaboração simbólica e tem, portanto, seus
representantes psíquicos levados para o inconsciente, de modo que o
sujeito possa protelar o enfrentamento de tais questões. As experiências
passíveis de elaboração irão compor o conteúdo não cesurado,
autorizado e permanecer na consciência. Elas serão reconhecidas como
parte constituinte do sujeito e poderão ser compartilhadas socialmente.
A ordenação simbólica da
realidade
O retorno do recalcado
Uma vez estabelecida a cisão entre os sistemas Ics e Pcs/Cs,
constatamos da parte do sistema Pcs/Cs uma força que irá a todo custo
tentar manter certos representantes ideativos fora da consciência. A
representação então mantida no inconsciente ligar-se-á a outros
representantes ideativos, criando-se uma cadeia, de modo que quanto
mais distante do representante originalmente recalcado mais
modificado ele se torna. Assim, um representante ideativo após passar
por condensações e deslocamentos pode, ludibriando a barreira do
recalque retornar a consciência de maneira disfarçada, aparentemente
sem qualquer ligação com o representante ideativo recalcado.
Aquilo que retorna a consciência são, portanto, formações do
inconsciente. As formações do inconsciente se manifestam de 5 formas
diferentes.
Consciência
R
E
C
A
L
Q
U
E
1.
2.
3.
4.
5.
Sintomas
Esquecimentos
Sonhos
Atos falhos
Chistes
Censura
Retorno do
recalcado
Inconsciente
1. Deslocamento
2. Condensação
As formações do inconsciente
1.
2.
3.
4.
5.
Sonhos
Esquecimentos
Atos falhos
Sintoma
Chistes
Os sonhos
Freud pública sua obra magistral em 1900 com o título A interpretação dos
sonhos (Traumdeutung). Seu intuito era demonstrar a influência das forças
inconscientes não apenas na vida dos neuróticos, mas também na vida
cotidiana de uma pessoa dita normal. Afinal, apenas os neuróticos tem o
inconsciente? A resposta negativa a esta pergunta nos leva a hipótese de
que o inconsciente se manifesta também na vida das pessoas normais,
através sobretudo de sonhos.
Freud então propõe um método de interpretação dos sonhos. A partir da
hipótese do inconsciente irá afirmar que os desejos recalcados no
inconsciente irão retornar de maneira encoberta nos sonhos. Os sonhos
interpretam o inconsciente com o intuito de satisfazer seu desejo de uma
maneira encoberta. Não se trata de uma chave de interpretação com
símbolos pré-estabelecido do tipo: sonhar com uma serpente = conquista
de fama e dinheiro.
“O conteúdo dos sonhos é uma satisfação de desejo.”
O sonho do Sr. S.
S. conta que em seu sonho passava de carro em frente a um restaurante no
região do bairro Anchieta em Belo Horizonte. Ao passar ali percebeu que um
amigo estava sendo encurralado e ameaçado por um grupo de pessoas
muito suspeitas. S. se sente culpado por não parar para tentar defender o
amigo, mesmo assim segue seu caminho. Na volta, passa pelo mesmo local e
percebe que o amigo havia sofrido o ataque. Ele estava estirado no chão em
condições deploráveis, completamente espancado.
Após o relato do sonho, S. conta que esse amigo, certa vez, em uma partida
de futebol, disputara brutalmente a bola com ele, o que provocou em S. a
fratura de um dos dedos do pé. S. nega avidamente que o sonho tenha sido
um espécie de vingança contra esse amigo e logo se lembra de um outro
detalhe: O amigo namora com uma garota por quem S. tinha se interessado
e não lhe tinha correspondido o amor.
O sonho assim, de maneira encoberta satisfaz o desejo inconsciente de S. de
eliminar o seu rival, que não apenas lhe quebrara um dedo, mas também
detinha a mulher que desejava.
Esquecimentos
São fenômenos geralmente taxados como o que não tem importância,
sem sentido, resultado da desatenção. Normalmente não damos a menor
importância para esses fenômenos e é exatamente neles que Freud passa
a procurar o inconsciente.
Esse fenômenos, aparentemente anódinos, denunciam um desejo
inconsciente que demanda realizar-se.
A psicopatologia da vida
cotidiana
Nesta obra Freud despatologiza o inconsciente e passa compreende-lo como
elemento fundamental do funcionamento da vida psíquica, inclusive a
considerada normal.
Ele introduz o livro com a seguinte indagação: “Porque razão, em tantas
ocasiões, deixa de nos ocorrer um nome próprio que pensamos conhecer
perfeitamente?” E Por que os nomes próprios estão mais susceptíveis ao
esquecimento?
Freud passa então a examinar o esquecimento do nome Signorelli.
O fato de ter esquecido um nome aparentemente banal indica a Freud que
na verdade ele estava querendo esquecer alguma outra coisa. Aquele
esquecimento sem importância passa a ser a pista de que havia algo mais
importante que deveria ser esquecido.
O mecanismo
“O tema recalcado, por intermédio de associações e assonâncias
entre as palavras, entrou em ação e conectou-se a Signorelli – o
elemento recalcado se apodera, por via associativa, da palavra
procurada que é impulsionada em direção ao recalque.” (CASTANET,
2011, p. 36)
O ato falho
Todo ato falho é um ato bem sucedido do inconsciente.
A cada vez que liga para sua namorada P. erra na discagem a caba se
conectando com sua mãe. Quando ela atende ele diz:
-
Alô, amor.
Ela responde:
-
Oi meu filho, tudo bem? Também te amo, viu.
Ele surpreso, responde:
- Ops, estava tentando ligar para Laura.
O sintoma

Caso do pequeno Hans

Representante recalcado: Desejo de matar o pai.

Substituição de cavalo por pai.

Substituição de pai por cavalo.

Sintoma: fobia de cavalos.
O recalque age sobre a pulsão fazendo com que o representante
ideativo seja levado ao inconsciente. A consciência cria, então, um
substituto para o representante ideativo reprimido. Este substituto
assegurará ao sujeito a não satisfação completa da pulsão, bem como a
presença de uma quantidade necessária de desprazer.
A interpretação dos sonhos, dos esquecimentos, lapsos e outros atos
falhos atesta a existência do inconsciente. O mais particular, o mais
íntimo, libera mecanismos psíquicos gerais. Ninguém pode fazer as
pazes com o inconsciente – ele permanece sempre o Outro. Em 1933,
Freud escreve: “Chamamos de inconsciente um processo psíquico
cuja existência é preciso supor porque [...] nós o deduzimos de seus
efeitos, mas dele não sabemos nada.”
Revisão
1.
Como se dá a inauguração do inconsciente?
2.
O que é o recalcamento originário?
3.
Explique no que consiste a inserção de um individuo no campo
simbólico.
4.
Porque não podemos afirmar que todas as pessoas tem o
inconsciente?
5.
Defina e discorra sobre os três registro pelos quais o aparelho psíquico
capta a realidade.
6.
Demonstre como é possível um conteúdo recalcado retornar a
consciência. Qual nome damos a este processo?
7.
Quais são as formações do inconsciente? Dê um exemplo de cada
uma.
O inconsciente estruturado como
uma linguagem
“O inconsciente é estruturado como uma linguagem” Esta é a conclusão
a que chega Lacan quando se dá conta de que o inconsciente pode ser
decifrado assim como uma mensagem que é traduzida do japonês para
o português. Da mesma forma que uma língua tem uma estrutura que
ordena os elementos que a compõe, a linguagem de um modo geral
também é composta por elementos estruturais. Ferdinand de Saussure o
será o linguista responsável por nos mostrar quais são estes elementos e
como eles se relacionam entre si. Lacan, lendo os textos de Freud,
concluirá que o inconsciente assim como a linguagem tem em sua
estrutura estes mesmos componentes e que os processos primários
caracterizados pelo deslocamento e condensação nada mais são do
que processos linguísticos conhecidos como metáfora e metonímia.
Língua ≠ Linguagem
Língua

É um produto social da faculdade de linguagem e um conjunto de
convenções necessárias, adotadas pelo corpo social para permitir o
exercício dessa faculdade nos indivíduos. É a parte social da
linguagem, exterior ao individuo, que , por si só, não pode nem cria-la
nem modifica-la; ela não existe senão em virtude duma espécie de
contrato estabelecido entre os membros da comunidade.
Linguagem

Todo sistema de signos que serve de meio de comunicação entre
indivíduos e pode ser percebido pelos diversos órgãos dos sentidos, o
que leva a distinguir-se uma linguagem visual, uma linguagem auditiva,
uma linguagem tátil, etc., ou, ainda, outras mais complexas,
constituídas, ao mesmo tempo, de elementos diversos tal com a língua.
O lugar da língua nos fatos da
linguagem
• Parte psíquica:
• Pater física:
Conceito ligado a uma imagem acústica
Propagação das ondas sonoras pelo ar, da
boca de A até o ouvido de B.
• Parte Fisiológica:
Transmissão aos órgãos da fonação um
impulso correlativo da imagem
“Entre todos os indivíduos assim unidos pela linguagem, estabelecerse-á uma espécie de meio-termo; todos produzirão – não exatamente
sem dúvida, mas aproximadamente os mesmo signos unidos aos
mesmos conceitos. Qual a origem dessa cristalização social? Qual das
partes do circuito pode estar em causa?” (SAUSSURE, 1978)
Parte psíquica:
Conceito ligado a uma imagem
acústica
Parte Fisiológica:
Transmissão aos órgãos da fonação
de um impulso correlativo da
imagem.
Parte física:
Propagação das ondas sonoras pelo
ar, da boca de A até o ouvido de B.
Quando ouvimos falar uma
língua que desconhecemos,
percebemos bem os sons,
mas devido a nosso
incompreensão, ficamos
alheios ao fato social. Isso
prova o perfeito
funcionamento físico e
fisiológico do processo
linguístico, nos indicando
assim que o
compartilhamento social da
linguagem tem sua origem no
exercício psíquico de associar
um conceito ou vários a uma
imagem acústica.
Segundo Saussure, somente a parte receptiva tem sua influencia na origem da língua como
fenômeno social. É somente no momento em que ouvimos que somos obrigados a associar a
imagem acústica recebida com um conceito compartilhado. A parte executiva por sua vez não
necessariamente sofre influencia do meio externo sendo que o sujeito ao falar pode ligar a
imagem acústica o conceito que quiser. Assim, para Saussure, a execução da fala é sempre
individual e dela o individuo é sempre senhor.
Para psicanálise, no que concerne a parte psíquica do fenômeno
linguístico, o individuo não é senhor nem de sua execução e
tampouco de sua recepção. Se Saussure afirma que um individuo é
capaz de dominar a fala, ou seja, escolher as imagens acústicas e
associa-las aos conceitos que quer, estando todo o processo
localizado na consciência.
A psicanálise, por sua vez, irá nos ensinar que, justamente por querer
acreditar ter esse domínio, o aparelho psíquico funda o inconsciente e
deixa ali guardado o fato de nenhuma imagem acústica estar
arbitrariamente ligada a um determinado conceito, sendo que o que
de fato determina estas ligações são forças desconhecidas, que
apesar de estarem dentro do individuo são sentidas como vindas de
fora.
A natureza do signo linguístico

Os termos implicados no signo linguístico são ambos psíquicos e
estão unidos, em nosso cérebro, por um vínculo de associação.
Quais são estes termos?

O signo une não uma coisa a uma palavra, mas um conceito a
uma imagem acústica. Esta não é o som material, coisa puramente
física, mas a impressão (empreinte) psíquica desse som, a
representação que dele nos dá o testemunho de nossos sentidos;
tal imagem é sensorial e, se chegamos a chama-la material é
somente nesse sentido, e por oposição ao outro termo da
associação, o conceito, geralmente mais abstrato.
• O signo linguístico é, pois, uma unidade psíquica de duas faces , que pode ser representada
pela figura acima.
• Esses dois elementos estão intimamente unidos e um reclama o outro.
ÁRVORE

Digamos então que a consciência obedece as regras da língua e
nos permite estabelecer laços sociais. Se todos concordamos que o
estímulo produzido pela imagem visual pode ser ligado ao nome
árvore, temos então a sensação de compartilhar a realidade.

No entanto percebemos que, no inconsciente, as ligações entre as
imagens acústicas e seus conceitos consagrados não
necessariamente obedecem as convenções do dicionário, o que
distancia, portanto, o sujeito da realidade.
Conceito
significado
Imagem
acústica
significante
Signo
A inversão de Lacan
significado
significante
significante
significado
Como podemos observar, Lacan coloca o significante em cima do significado com
o intuito de apontar a maior importância do significante sobre o significado. A ideia
é afirmar que o que governa o sujeito na experiência cotidiana de seus laços sociais
não é o fato dele ter podido estabelecer este laço a partir de um significado comum
e acreditar estar dentro da realidade. Na verdade é o inconsciente, estruturado
como uma linguagem e, portanto, habitado por cadeias infinitas de significantes,
que, a seu modo, atribui significados aos significantes de maneira particular, criando
para o sujeito uma outra cena, uma outra realidade que para ser compartilhada
precisa ser decifrada.
Metáfora e metonímia
Condensação e Deslocamento
A condensação, equivalente a metáfora, corresponde ao mecanismo
que torna o conteúdo manifesto mais condensado do que o conteúdo
latente. O conteúdo manifesto será portanto sempre menor do que o
conteúdo latente. No sonho por exemplo, uma pessoa pode condensar
características de outras quatro pessoas. O significante que aparecerá no
discurso racional será uma síntese de vários significantes que
permanecem latentes.
No caso do deslocamento, que corresponde ao processo linguístico da
metonímia, há deslizamento de um significante ao outro de modo que o
primeiro significante da cadeia tenha quase nenhuma relação evidente
com o significante latente.
Revisão

Como Lacan chega a conclusão de que o inconsciente é estruturado
como uma linguagem?

Qual a diferença entre língua e linguagem?

O que é o signo e quais são seus elementos?

Em que parte do circuito da linguagem ocorre o mecanismo em que o
conceito se liga a imagem acústica?

Porque Lacan não concorda com Saussure quando este afirma que o
homem tem governo sobre a parte executiva da linguagem?

Como o inconsciente se envolve no processo linguístico?

Porque Lacan inverte a ordem entre significado e significante?

O que é uma metáfora e uma metonímia? Explique a relação dessas
figuras de linguagem com os processos primários descritos por Freud.
2 - A pulsão
A sexualidade
A sexualidade para Freud não se resume ao coito ou ao ato sexual. Sexualidade não diz
respeito somente ao que os corpos fazem quando se encontram, ao que pode ser
observado como prática. Para Freud não há a primazia da genitalidade que visa
instintivamente a reprodução.
Para Freud a sexualidade é inseparável das fantasias que criamos desde a infância para
entende-la. Freud designa “teoria sexual” as tentativas de uma criança de explicar os
enigmas:

da concepção,

do nascimento,

da diferença anatômica entre os sexos.
“Freud conclui que a sexualidade humana apresenta uma verdadeira “constituição
sexual” que assume o lugar de uma disposição neuropática geral, formulação através da
qual ele torna inexistente a fronteira entre o patológico e o normal tão nitidamente
demarcados pelo discurso médico e psicológico.” (JORGE, 2000, p. 21)
“Em psicanálise, o termo sexualidade comporta um sentido bem mais
amplo, ele se afasta totalmente do sentido popular. [...] Nós
consideramos como pertencentes ao domínio da sexualidade todas
as manifestações de sentimentos afetuosos decorrentes da fonte das
emoções sexuais primitivas. [...] Servimo-nos da palavra sexualidade
atribuindo-lhe o sentido ampliado da palavra alemã lieben (amar).”
(FREUD, 1910, p. 208 e 209)
A sexualidade é traumática
Homens e mulheres por serem seres falantes terão sempre que conviver
com a dificuldade de subjetivação da experiência sexual. Dizer que algo
é traumático significa a presença no aparelho psíquico de uma
excitação exageradamente forte incapaz de ser assimilada. O único
recurso disponível seria a linguagem que invariavelmente falha em dar
sentido acabado as experiências sexuais.
“A relação problemática com a sexualidade não é uma eventualidade
para os homens e mulheres. É um dado do qual ninguém escapa.”
(CASTANET, 2011, p. 39)
Para o ser falante, ao contrário do animal, a sexualidade implica em um
desencontro, em um impasse que se desenrolará em uma diversidade
infinita de empecilhos para a satisfação plena. Não há a sexualidade
natural, regrada biologicamente por períodos e estações como nos
animais; este encontro para o ser humano não passa de um mito.
“Se com o relato de suas pacientes histéricas Freud partira para a ideia
da ocorrência de uma sedução e de um trauma sexual infantil, ele
desembocou, através da revelação da existência das fantasias sexuais
nessas pacientes, na noção de infantilismo da sexualidade, isto é, de que
a sexualidade é sempre traumática enquanto tal, e isto para todo e
qualquer sujeito. Lacan veio a nomear essa passagem fundamental da
obra freudiana como sendo a concepção do trauma como
contingencia, isto é, não se trata de que tenha havido trauma sexual na
infância do sujeito, mas sim de que a estrutura da sexualidade é, ela
própria, sejam quais forem os acontecimentos históricos, essencialmente
traumática:” (JORGE, 2000, p. 21)
Sedução (trauma sexual infantil)
Fantasia (sexo traumático)
Pulsão ≠ instinto
Digamos que a sexualidade animal é regulada pelas leis da natureza e
por isso caracterizada como instintual. Por outro lada a sexualidade
humana, não submissa aos instintos animais, habita em um corpo também
habitado pela linguagem e que, por isso, é sempre gerador de um
conflito interno: entre o corpo construído imaginariamente e o corpo real,
limitado pelas imposições biológicas.
“Se nas diversas espécies de animais o mecanismo instintual manifesta-se
pelo desencadeamento de alguma função biológica ou atitude
comportamental (etológica) segundo parâmetros rígidos prefixados pelas
leis da hereditariedade genética e inalteráveis para os indivíduos de uma
mesma espécie, o que Freud observa na sexualidade humana emerge
como algo extremamente diverso. Surgida a partir de sua experiência
clínica de escuta de pacientes neuróticos em análise a teoria freudiana
das pulsões é o resultado da apreensão da ocorrência universal de uma
lógica diferente daquela que rege os instintos animais.” (JORGE, 2000, p.
21)
Sexualidade animal
Sexualidade humana
Predomínio do olfato
Predomínio da visão
Estímulos cíclicos
Estímulos permanentes
Funcionamento instintual
Funcionamento pulsional
Revisão

Como Freud chega conclusão de que a sexualidade humana é
perversa?

O que Freud chama de teoria sexual?

O que muda na concepção que Freud tem de trauma desde suas
investigações sobre a histeria no período pré-psicanalítico até a ideia
sobre as fantasias sexuais?

Qual a diferença entre pulsão e instinto? A partir dessa diferença como
podemos entender a sexualidade humana e a sexualidade animal?
As pulsões sexuais e as pulsões de
autoconservação – 1°dualismo

Pulsões sexuais – preservação da espécie

Pulsões de autoconservação – preservação do individuo
“Nesse momento da elaboração freudiana, as pulsões sexuais são
concebidas como apoiando-se nas de autoconservação e, desse modo,
o ato de sugar o dedo ou a chupeta revelaria o apoio (Anlehnung) de
uma atividade puramente prazerosa, da mucosa oral, sobre uma
atividade de cunho vital, como a ingestão do leite materno. Freud
distingue dois modos de escolha objetal congruentes com a noção de
apoio: a escolha anaclítica, fundamentada nofato de as pulsões sexuais
se apoiarem originalmente nas de autoconservação; e a escolha
narcísica, baseada no modelo da relação do sujeito consigo mesmo, em
que o objeto o representa sob algum aspecto.” (JORGE, 2000, p. 48)
As pulsões e seus destinos
O que é a pulsão?
“Um conceito situado na fronteira entre o mental e o somático; ou ainda,
é o representante psíquico dos estímulos que se originam dentro do
organismo e alcançam a mente.” (FREUD, 1915, p. 142)
Mente
P
U
L
S
Â
O
Corpo
“Uma pulsão jamais atua como uma força que imprime um impacto
momentâneo, mas sempre como um impacto constante. Além disso,
visto que ele incide não à partir de fora mas de dentro do organismo,
não há como fugir dele.” (FREUD, 1915, p. 138)
As principais características de
uma pulsão:

Origem em fontes de estimulação dentro do organismo

Força constante.

Não permite a fuga.

Sempre busca a satisfação, mas nunca pode ser totalmente
satisfeita.
Pulsão sexual
Devido ao fato da pulsão sexual ser uma montagem, um conjunto de diversos elementos
heterogêneos não podemos pensar a sexualidade como tendo um único objeto.
Toda pulsão apresenta:

Fonte (Quelle)
A fonte de toda pulsão é corporal, não psíquica; é “um processo somático que ocorre num
órgão ou parte do corpo e cuja excitação é representada na vida mental pela pulsão.”
(GARCIA-ROSA, 1994, p. 143)

Pressão (Drang)
“Por pressão de uma pulsão compreendemos seu fator motor, a qualidade de força ou a
medida da exigência de trabalho que ela apresenta.” (GARCIA-ROSA, 1994, p. 142)

Meta (Ziel)
O objetivo de uma pulsão é sempre a satisfação, senda a satisfação definida como a redução
da tensão provocada pela pressão.

Objeto (Objekt)
O objeto é a coisa em relação a qual ou através da qual a pulsão pretende atingir seu objetivo.
É o que há de mais variável em uma pulsão. (GARCIA-ROSA, 1994, p.143)
Qual o objeto de satisfação da
fome?
Comida
Qual o objeto de satisfação do
sexo?
O Objeto a
O objeto da pulsão é o objeto a. Este é o objeto com o qual
supostamente poderíamos obter a satisfação plena da pulsão. É o objeto
que marca o vazio, a falta, a impossibilidade de satisfação da pulsão.
Trata-se de um objeto faltoso e que, por isso mesmo pode ser substituído
por qualquer objeto que parcialmente remeta o sujeito ao desejo de
satisfação total.

O objeto a é por isso denominado objeto causa de desejo na medida
que tem a função de impulsionar o sujeito ao estabelecimento de uma
relação com a falta.

O objeto a será também denominado objeto mais de gozar na
medida em que ele tem a função de produzir para o sujeito excitação
psíquica, dando-lhe momentaneamente a impressão de ter
encontrado o objeto perdido.
O gozo
É o modo pelo qual um sujeito manipula o objeto a. Ao exercer seu modo
de gozo um sujeito elege para si objetos suplentes ao objeto a que teriam
a função de lhes garantir excitação psíquica seja ela prazerosa ou
desprazerosa. O gozo está para além das acepções simbólicas de bom
ou ruim, feio ou bonito, bem ou mal. Para Lacan, qualquer objeto pode vir
fazer suplência a falta marcada pelo objeto a, no entanto existem quatro
objetos definidos por ele como os objetos primordiais com os quais um
sujeito goza, são eles:

O seio

As fezes

A voz

O olhar
Nos remetem a perda que
inaugura a falta.
São objetos que dizem respeito
a uma presença ausente.
Todos eles tem a falta como
denominador comum.
Pulsão de vida e pulsão de morte –
2° dualismo
Pulsões sexuais
 Pulsões de autoconservação
 Pulsões de morte.

Pulsões de vida
“Nessa nova dicotomia, a noção de apoio perde sua importância para dar lugar
à afirmação mais radical da essencialidade do pulsional enquanto
especificando a sexualidade humana: a saber, a falta do objeto. (JORGE, 2000,
p. 49)
Quanto à pulsão de morte, sua natureza conservadora reside na tendência de
retorno ao estado inorgânico, pois se admitirmos que o ser vivo veio Pulsão e
Falta: o Real depois do ser não-vivo e surgiu dele, a pulsão de morte harmonizase bem com a fórmula segundo a qual uma pulsão tende para o retorno a um
estado anterior. Esse caráter conservador, restitutivo, da pulsão, está
intimamente relacionado com seu aspecto repetitivo, ou seja, é do caráter
conservador que emana a tendência da compulsão à repetição. (JORGE, 2000,
p. 62)
O sexo e a morte
A pulsão não pode ser satisfeita senão parcialmente. A satisfação total da
pulsão só pode ocorrer mediante a inatividade completa do aparelho
psíquico. Em Além do principio do prazer, Freud (1920) descobre uma
tendência interna de retorno a um estado inorgânico. Ele afirma:
“Seremos então compelidos a dizer que o objetivo de toda a vida é a
morte.” p. 56
A pulsão de morte, em oposição a pulsão de vida, nos ensina, portanto,
que a satisfação de eros não pode ser completa senão pelo estado
inanimado dos tecidos que a originam.
A morte é então o objetivo ultimo da pulsão. Até a pulsão de vida tem o
papel de fazer com que a realização da morte ocorra de maneira natural
e preferencialmente prazerosa.
Amor e pulsão
“O amor não é pulsional. Ele vem do Eu e é narcísico, pode certamente
ligar-se intimamente a atividade das pulsões sexuais posteriores, mas
pertence a esse campo em que se trata de se amar por meio do outro,
em que existe reciprocidade entre amar e ser amado. O campo pulsional,
por sua vez, é pura atividade – o Eu está excluído disso. A sexualidade é,
portanto, parcial, perversa. O amor faz sonhar com uma síntese enfim
possível, mas ele não depende do sexual! Freud mantém a
heterogeneidade dos dois campos.” (CASTANET, 2011, p. 44)
Revisão

Defina o primeiro e o segundo dualismo pulsional na teoria freudiana
sobre as pulsões.

Define a caracterize o conceito de pulsão.

Defina o objeto a.

Defina o gozo.
Trabalho 2
O aluno deverá elabora um minidicionário com os conceitos mais
relevantes abordados na Unidade II. Ao final o aluno deverá redigir um
texto que relacione os conceitos escolhidos.
O trabalho será avaliado nos
seguintes aspectos:
Organização e Didática:

Uso correto da língua portuguesa.

Sequência didática e organização lógica do assunto (introdução, desenvolvimento e
conclusão).

Concatenação das frases e dos parágrafos.

Clareza e objetividade.
Conteúdo:

Conteúdo adequado ao tema proposto.

Nível do conhecimento adequado ao de graduação (conteúdo proposto na disciplina
fundamentos da psicanálise)

Emprego de linguagem específica apropriado.

Domínio do assunto, de conceitos e de definições.

Originalidade (capacidade de transmissão escrita com palavras próprias)
Referencias Bibliográficas
CASTANET, Hervé. Compreender Freud. Zahar, 2011.
FREUD, Sigmund. Repressão, 1915. In: ______. A história do movimento psicanalítico. Rio
de Janeiro: Imago, 1996. p. 145-162. (Edição standard brasileira das obras psicológicas
completas de Sigmund Freud, 14).
FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, 1905. In: ______. Um caso
de histeria e Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Rio de Janeiro: Imago,1996. p.
163-195. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas deSigmund
Freud, 7).
FREUD, Sigmund. Os instintos e suas vicissitudes, 1915. In: ______. A história do
movimento psicanalítico. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 115-144. (Edição standard
brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 14).
FREUD, Sigmund. Além do princípio de prazer, 1920. In: ______. Além do princípio de
prazer. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 11-75. (Edição standard brasileira das obras
psicológicas completas de Sigmund Freud, 18).
JORGE, Marco Antonio Coutinho. Fundamentos da psicanálise de Freud a Lacan.
Zahar, 2000.
SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de linguística geral. 1978.
ŽIŽEK, Slavoj. Como ler Lacan. Zahar, 2010.
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Conceitos fundamentais da psicanálise – Unidade II