Conceitos fundamentais da psicanálise UNIDADE II 1- O inconsciente Com a morte de seu pai em 1896, Freud passa a reconhecer em si mesmo alguns sintomas neuróticos. Decide se afastar das investigações sobre a histeria e destrói grande parte de seus escritos. Este afastamento, ocorrido também devido a grande desaprovação por parte da comunidade médica de Viena de suas teorias, leva Freud a acentuar sua amizade com Wilhelm Fliess. Fliess, um otorrinolaringologista, sustenta ideias estapafúrdias sobre a etiologia da histeria. Ele acreditava que esta estava ligada ao funcionamento do nariz. Freud torna Fliess seu grande confidente, com quem trocará um grande volume de correspondências. Nestas correspondências nota-se que o grande objeto de pesquisa de Freud deixa de ser as histéricas e torna-se ele mesmo. Com a interlocução de Fliess, Freud empreende o que é conhecido como sua auto-análise. Esta ousadia científica de Freud irá redundar em sua obra mais valiosa e reconhecida, a Interpretação dos Sonhos (1900). A resistência Somada a morte de seu pai, Freud enfrentou também a resistência da comunidade médica contra suas teorias. Associar o trauma a sexualidade significava reconhecer a sexualidade infantil. A ideia era a de que a causa das neuroses estavam diretamente ligada a um evento traumático vivido no passado, sendo que este evento necessariamente traria em si um cunho sexual. Se o trauma acontecera na infância, logo a criança, assim como o adulto, também era habitada e acometida por desejos sexuais. A resistência foi percebida por Freud também em seu manejo clínico com as histéricas. Ao abandonar a hipnose, Freud se deparou com uma extrema dificuldade por parte dos pacientes em se lembrar dos eventos passados possivelmente ligados a patologia. A resistência do paciente ao método psicanalítico se manifestava em uma falha na memória e em uma enorme dificuldade de falar sobre qualquer coisa ligada a patologia. Desse modo, Freud, cercado de resistências contra seu método, fecha-se em si mesmo em uma auto-análise. Para vencer tais resistências cria seu conceito de inconsciente. O inconsciente freudiano O uso do termo unbewusste (inconsciente) não era novidade na época de Freud. Filósofos e pequisadores, como Schelling, Nietzsche, Schopenhauer, Herbart e Wundt já o utilizavam antes de Freud como conceito importante de suas teorias. A novidade do inconsciente freudiano que abriu-lhe caminho para a consolidação do método psicanalítico se encontra no fato de Freud concebe-lo como algo dinâmico, com um funcionamento estruturado, passível de ser compreendido. Para Freud o inconsciente não é o lugar dos mistérios mais profundos da alma, tornando o analista responsável por fazer essa sondagem do mundo interior. O inconsciente, ao contrário está na superfície e se manifesta constantemente na vida cotidiana através daquilo que um sujeito fala, sonha, ou mesmo através de seus sintomas. O inconsciente freudiano é ação, não traz tranquilidade, não fica quieto, é perturbador e sempre detêm a ultima palavra. “A percepção predominante do inconsciente é a de que ele é o domínio das pulsões irracionais, algo oposto ao eu consciente e racional. Para Lacan, essa noção do inconsciente pertence à Lebensphilosophie (filosofia de vida) romântica e nada tem a ver com Freud. O inconsciente freudiano causou tamanho escândalo não por afirmar que o eu racional está subordinado ao domínio muito mais vasto dos instintos irracionais cegos, mas porque demonstrou como o próprio inconsciente obedece a sua própria gramática e lógica: o inconsciente fala e pensa. O inconsciente não é terreno exclusivo de pulsões violentas que devem ser domadas pelo eu, mas o lugar onde uma verdade traumática fala abertamente. Aí reside a versão de Lacan do moto de Freud Wo es war, sol ich werden (Onde isso estava, devo advir): não “O eu deveria conquistar o isso”, o lugar das pulsões inconscientes, mas “Eu deveria ousar me aproximar do lugar de minha verdade.” O que me espera ali não é uma Verdade profunda com a qual devo me identificar, mas uma verdade insuportável com a qual devo aprender a viver.” (Zizek, 2010, p. 9) O inconsciente para Freud: Não é um lugar de armazenamento de conteúdo mental. É um dos sistemas do aparelho psíquico. É um sistema que se comunica com um outro sistema denominado por ele sistema Pré-consciente/Consciente. Sistema Ics Sistema PCs/Cs Não opera com a negação, esta só aparece na fronteira entre os dois sistemas. Tem seu modo de funcionamento denominado processos primários Deslocamento Condensação Não opera cronologicamente (atemporalidade linear) Sistema Processo Energia Lei Ics Primário Livre Principio do prazer Pcs/Cs Secundário Ligada Principio da realidade Revisão 1. Sob quais circunstancias Freud passa a empreender sua auto-análise? 2. Qual a importância da sexualidade infantil para a etiologia das neuroses? 3. Em quais pontos podemos distinguir o inconsciente para Freud e o inconsciente dos filósofos que o antecederam? 4. Porque o conceito freudiano de inconsciente é ao mesmo tempo inovador e escandaloso? 5. Enumere as características do inconsciente freudiano. 6. Segundo Freud como se divide o aparelho psiquico? O recalque originário e a inauguração do inconsciente O recalcamento é o processo responsável pela clivagem da subjetividade em instâncias distintas: 1. Sistema Ics 2. Sistema Pcs/Cs Freud concebe o conceito de recalcamento ao: 1. Se deparar com a resistência ao método psicanalítico. 2. Empreender a superação da teoria do trauma. “[...] a essência da repressão consiste simplesmente em afastar determinada coisa do consciente, mantendo-a à distância.” (Freud, 1915, p. 170) O recalque originário “[...] a repressão não é um mecanismo defensivo que esteja presente desde o início; ela só pode surgir quando tiver ocorrido uma cisão marcante entre a atividade mental consciente e a inconsciente;” (Freud, 1915, p. 170) O que ocorre é que o recalque produz a cisão subjetiva entre os dois sistemas Ics e Pcs/Cs. O que haveria então antes de um sujeito dividido? A criança antes de ser inserida no campo simbólico registra a realidade por suas percepções aleatórias e desorganizadas, permanecendo envolvida por sua capacidade infinita de associações de imagens. Não há, da parte da criança, qualquer mecanismo de defesa contra os excessos provenientes do mundo externo, até que o mecanismo do recalque seja instalado essa tarefa necessita do amparo dos pais. Assim, toda vez que uma experiência excessivamente excitatória acomete seu aparelho psíquico, cria-se uma inscrição, como um sulco gravado madeira, que irá determinar mais adiante qual conteúdo deverá ser recalcado. A inauguração do inconsciente A inauguração do inconsciente se dá no momento em que a criança é inserida no campo simbólico. É devido há uma necessidade de defesa que a criança lança mão do mecanismo do recalque que irá lhe proporcionar se ver livre daquilo que momentaneamente escapa sua capacidade de ordenação simbólica da realidade. Questões relativas a sexualidade e a morte, permanecem, sem possibilidade de elaboração simbólica e tem, portanto, seus representantes psíquicos levados para o inconsciente, de modo que o sujeito possa protelar o enfrentamento de tais questões. As experiências passíveis de elaboração irão compor o conteúdo não cesurado, autorizado e permanecer na consciência. Elas serão reconhecidas como parte constituinte do sujeito e poderão ser compartilhadas socialmente. A ordenação simbólica da realidade O retorno do recalcado Uma vez estabelecida a cisão entre os sistemas Ics e Pcs/Cs, constatamos da parte do sistema Pcs/Cs uma força que irá a todo custo tentar manter certos representantes ideativos fora da consciência. A representação então mantida no inconsciente ligar-se-á a outros representantes ideativos, criando-se uma cadeia, de modo que quanto mais distante do representante originalmente recalcado mais modificado ele se torna. Assim, um representante ideativo após passar por condensações e deslocamentos pode, ludibriando a barreira do recalque retornar a consciência de maneira disfarçada, aparentemente sem qualquer ligação com o representante ideativo recalcado. Aquilo que retorna a consciência são, portanto, formações do inconsciente. As formações do inconsciente se manifestam de 5 formas diferentes. Consciência R E C A L Q U E 1. 2. 3. 4. 5. Sintomas Esquecimentos Sonhos Atos falhos Chistes Censura Retorno do recalcado Inconsciente 1. Deslocamento 2. Condensação As formações do inconsciente 1. 2. 3. 4. 5. Sonhos Esquecimentos Atos falhos Sintoma Chistes Os sonhos Freud pública sua obra magistral em 1900 com o título A interpretação dos sonhos (Traumdeutung). Seu intuito era demonstrar a influência das forças inconscientes não apenas na vida dos neuróticos, mas também na vida cotidiana de uma pessoa dita normal. Afinal, apenas os neuróticos tem o inconsciente? A resposta negativa a esta pergunta nos leva a hipótese de que o inconsciente se manifesta também na vida das pessoas normais, através sobretudo de sonhos. Freud então propõe um método de interpretação dos sonhos. A partir da hipótese do inconsciente irá afirmar que os desejos recalcados no inconsciente irão retornar de maneira encoberta nos sonhos. Os sonhos interpretam o inconsciente com o intuito de satisfazer seu desejo de uma maneira encoberta. Não se trata de uma chave de interpretação com símbolos pré-estabelecido do tipo: sonhar com uma serpente = conquista de fama e dinheiro. “O conteúdo dos sonhos é uma satisfação de desejo.” O sonho do Sr. S. S. conta que em seu sonho passava de carro em frente a um restaurante no região do bairro Anchieta em Belo Horizonte. Ao passar ali percebeu que um amigo estava sendo encurralado e ameaçado por um grupo de pessoas muito suspeitas. S. se sente culpado por não parar para tentar defender o amigo, mesmo assim segue seu caminho. Na volta, passa pelo mesmo local e percebe que o amigo havia sofrido o ataque. Ele estava estirado no chão em condições deploráveis, completamente espancado. Após o relato do sonho, S. conta que esse amigo, certa vez, em uma partida de futebol, disputara brutalmente a bola com ele, o que provocou em S. a fratura de um dos dedos do pé. S. nega avidamente que o sonho tenha sido um espécie de vingança contra esse amigo e logo se lembra de um outro detalhe: O amigo namora com uma garota por quem S. tinha se interessado e não lhe tinha correspondido o amor. O sonho assim, de maneira encoberta satisfaz o desejo inconsciente de S. de eliminar o seu rival, que não apenas lhe quebrara um dedo, mas também detinha a mulher que desejava. Esquecimentos São fenômenos geralmente taxados como o que não tem importância, sem sentido, resultado da desatenção. Normalmente não damos a menor importância para esses fenômenos e é exatamente neles que Freud passa a procurar o inconsciente. Esse fenômenos, aparentemente anódinos, denunciam um desejo inconsciente que demanda realizar-se. A psicopatologia da vida cotidiana Nesta obra Freud despatologiza o inconsciente e passa compreende-lo como elemento fundamental do funcionamento da vida psíquica, inclusive a considerada normal. Ele introduz o livro com a seguinte indagação: “Porque razão, em tantas ocasiões, deixa de nos ocorrer um nome próprio que pensamos conhecer perfeitamente?” E Por que os nomes próprios estão mais susceptíveis ao esquecimento? Freud passa então a examinar o esquecimento do nome Signorelli. O fato de ter esquecido um nome aparentemente banal indica a Freud que na verdade ele estava querendo esquecer alguma outra coisa. Aquele esquecimento sem importância passa a ser a pista de que havia algo mais importante que deveria ser esquecido. O mecanismo “O tema recalcado, por intermédio de associações e assonâncias entre as palavras, entrou em ação e conectou-se a Signorelli – o elemento recalcado se apodera, por via associativa, da palavra procurada que é impulsionada em direção ao recalque.” (CASTANET, 2011, p. 36) O ato falho Todo ato falho é um ato bem sucedido do inconsciente. A cada vez que liga para sua namorada P. erra na discagem a caba se conectando com sua mãe. Quando ela atende ele diz: - Alô, amor. Ela responde: - Oi meu filho, tudo bem? Também te amo, viu. Ele surpreso, responde: - Ops, estava tentando ligar para Laura. O sintoma Caso do pequeno Hans Representante recalcado: Desejo de matar o pai. Substituição de cavalo por pai. Substituição de pai por cavalo. Sintoma: fobia de cavalos. O recalque age sobre a pulsão fazendo com que o representante ideativo seja levado ao inconsciente. A consciência cria, então, um substituto para o representante ideativo reprimido. Este substituto assegurará ao sujeito a não satisfação completa da pulsão, bem como a presença de uma quantidade necessária de desprazer. A interpretação dos sonhos, dos esquecimentos, lapsos e outros atos falhos atesta a existência do inconsciente. O mais particular, o mais íntimo, libera mecanismos psíquicos gerais. Ninguém pode fazer as pazes com o inconsciente – ele permanece sempre o Outro. Em 1933, Freud escreve: “Chamamos de inconsciente um processo psíquico cuja existência é preciso supor porque [...] nós o deduzimos de seus efeitos, mas dele não sabemos nada.” Revisão 1. Como se dá a inauguração do inconsciente? 2. O que é o recalcamento originário? 3. Explique no que consiste a inserção de um individuo no campo simbólico. 4. Porque não podemos afirmar que todas as pessoas tem o inconsciente? 5. Defina e discorra sobre os três registro pelos quais o aparelho psíquico capta a realidade. 6. Demonstre como é possível um conteúdo recalcado retornar a consciência. Qual nome damos a este processo? 7. Quais são as formações do inconsciente? Dê um exemplo de cada uma. O inconsciente estruturado como uma linguagem “O inconsciente é estruturado como uma linguagem” Esta é a conclusão a que chega Lacan quando se dá conta de que o inconsciente pode ser decifrado assim como uma mensagem que é traduzida do japonês para o português. Da mesma forma que uma língua tem uma estrutura que ordena os elementos que a compõe, a linguagem de um modo geral também é composta por elementos estruturais. Ferdinand de Saussure o será o linguista responsável por nos mostrar quais são estes elementos e como eles se relacionam entre si. Lacan, lendo os textos de Freud, concluirá que o inconsciente assim como a linguagem tem em sua estrutura estes mesmos componentes e que os processos primários caracterizados pelo deslocamento e condensação nada mais são do que processos linguísticos conhecidos como metáfora e metonímia. Língua ≠ Linguagem Língua É um produto social da faculdade de linguagem e um conjunto de convenções necessárias, adotadas pelo corpo social para permitir o exercício dessa faculdade nos indivíduos. É a parte social da linguagem, exterior ao individuo, que , por si só, não pode nem cria-la nem modifica-la; ela não existe senão em virtude duma espécie de contrato estabelecido entre os membros da comunidade. Linguagem Todo sistema de signos que serve de meio de comunicação entre indivíduos e pode ser percebido pelos diversos órgãos dos sentidos, o que leva a distinguir-se uma linguagem visual, uma linguagem auditiva, uma linguagem tátil, etc., ou, ainda, outras mais complexas, constituídas, ao mesmo tempo, de elementos diversos tal com a língua. O lugar da língua nos fatos da linguagem • Parte psíquica: • Pater física: Conceito ligado a uma imagem acústica Propagação das ondas sonoras pelo ar, da boca de A até o ouvido de B. • Parte Fisiológica: Transmissão aos órgãos da fonação um impulso correlativo da imagem “Entre todos os indivíduos assim unidos pela linguagem, estabelecerse-á uma espécie de meio-termo; todos produzirão – não exatamente sem dúvida, mas aproximadamente os mesmo signos unidos aos mesmos conceitos. Qual a origem dessa cristalização social? Qual das partes do circuito pode estar em causa?” (SAUSSURE, 1978) Parte psíquica: Conceito ligado a uma imagem acústica Parte Fisiológica: Transmissão aos órgãos da fonação de um impulso correlativo da imagem. Parte física: Propagação das ondas sonoras pelo ar, da boca de A até o ouvido de B. Quando ouvimos falar uma língua que desconhecemos, percebemos bem os sons, mas devido a nosso incompreensão, ficamos alheios ao fato social. Isso prova o perfeito funcionamento físico e fisiológico do processo linguístico, nos indicando assim que o compartilhamento social da linguagem tem sua origem no exercício psíquico de associar um conceito ou vários a uma imagem acústica. Segundo Saussure, somente a parte receptiva tem sua influencia na origem da língua como fenômeno social. É somente no momento em que ouvimos que somos obrigados a associar a imagem acústica recebida com um conceito compartilhado. A parte executiva por sua vez não necessariamente sofre influencia do meio externo sendo que o sujeito ao falar pode ligar a imagem acústica o conceito que quiser. Assim, para Saussure, a execução da fala é sempre individual e dela o individuo é sempre senhor. Para psicanálise, no que concerne a parte psíquica do fenômeno linguístico, o individuo não é senhor nem de sua execução e tampouco de sua recepção. Se Saussure afirma que um individuo é capaz de dominar a fala, ou seja, escolher as imagens acústicas e associa-las aos conceitos que quer, estando todo o processo localizado na consciência. A psicanálise, por sua vez, irá nos ensinar que, justamente por querer acreditar ter esse domínio, o aparelho psíquico funda o inconsciente e deixa ali guardado o fato de nenhuma imagem acústica estar arbitrariamente ligada a um determinado conceito, sendo que o que de fato determina estas ligações são forças desconhecidas, que apesar de estarem dentro do individuo são sentidas como vindas de fora. A natureza do signo linguístico Os termos implicados no signo linguístico são ambos psíquicos e estão unidos, em nosso cérebro, por um vínculo de associação. Quais são estes termos? O signo une não uma coisa a uma palavra, mas um conceito a uma imagem acústica. Esta não é o som material, coisa puramente física, mas a impressão (empreinte) psíquica desse som, a representação que dele nos dá o testemunho de nossos sentidos; tal imagem é sensorial e, se chegamos a chama-la material é somente nesse sentido, e por oposição ao outro termo da associação, o conceito, geralmente mais abstrato. • O signo linguístico é, pois, uma unidade psíquica de duas faces , que pode ser representada pela figura acima. • Esses dois elementos estão intimamente unidos e um reclama o outro. ÁRVORE Digamos então que a consciência obedece as regras da língua e nos permite estabelecer laços sociais. Se todos concordamos que o estímulo produzido pela imagem visual pode ser ligado ao nome árvore, temos então a sensação de compartilhar a realidade. No entanto percebemos que, no inconsciente, as ligações entre as imagens acústicas e seus conceitos consagrados não necessariamente obedecem as convenções do dicionário, o que distancia, portanto, o sujeito da realidade. Conceito significado Imagem acústica significante Signo A inversão de Lacan significado significante significante significado Como podemos observar, Lacan coloca o significante em cima do significado com o intuito de apontar a maior importância do significante sobre o significado. A ideia é afirmar que o que governa o sujeito na experiência cotidiana de seus laços sociais não é o fato dele ter podido estabelecer este laço a partir de um significado comum e acreditar estar dentro da realidade. Na verdade é o inconsciente, estruturado como uma linguagem e, portanto, habitado por cadeias infinitas de significantes, que, a seu modo, atribui significados aos significantes de maneira particular, criando para o sujeito uma outra cena, uma outra realidade que para ser compartilhada precisa ser decifrada. Metáfora e metonímia Condensação e Deslocamento A condensação, equivalente a metáfora, corresponde ao mecanismo que torna o conteúdo manifesto mais condensado do que o conteúdo latente. O conteúdo manifesto será portanto sempre menor do que o conteúdo latente. No sonho por exemplo, uma pessoa pode condensar características de outras quatro pessoas. O significante que aparecerá no discurso racional será uma síntese de vários significantes que permanecem latentes. No caso do deslocamento, que corresponde ao processo linguístico da metonímia, há deslizamento de um significante ao outro de modo que o primeiro significante da cadeia tenha quase nenhuma relação evidente com o significante latente. Revisão Como Lacan chega a conclusão de que o inconsciente é estruturado como uma linguagem? Qual a diferença entre língua e linguagem? O que é o signo e quais são seus elementos? Em que parte do circuito da linguagem ocorre o mecanismo em que o conceito se liga a imagem acústica? Porque Lacan não concorda com Saussure quando este afirma que o homem tem governo sobre a parte executiva da linguagem? Como o inconsciente se envolve no processo linguístico? Porque Lacan inverte a ordem entre significado e significante? O que é uma metáfora e uma metonímia? Explique a relação dessas figuras de linguagem com os processos primários descritos por Freud. 2 - A pulsão A sexualidade A sexualidade para Freud não se resume ao coito ou ao ato sexual. Sexualidade não diz respeito somente ao que os corpos fazem quando se encontram, ao que pode ser observado como prática. Para Freud não há a primazia da genitalidade que visa instintivamente a reprodução. Para Freud a sexualidade é inseparável das fantasias que criamos desde a infância para entende-la. Freud designa “teoria sexual” as tentativas de uma criança de explicar os enigmas: da concepção, do nascimento, da diferença anatômica entre os sexos. “Freud conclui que a sexualidade humana apresenta uma verdadeira “constituição sexual” que assume o lugar de uma disposição neuropática geral, formulação através da qual ele torna inexistente a fronteira entre o patológico e o normal tão nitidamente demarcados pelo discurso médico e psicológico.” (JORGE, 2000, p. 21) “Em psicanálise, o termo sexualidade comporta um sentido bem mais amplo, ele se afasta totalmente do sentido popular. [...] Nós consideramos como pertencentes ao domínio da sexualidade todas as manifestações de sentimentos afetuosos decorrentes da fonte das emoções sexuais primitivas. [...] Servimo-nos da palavra sexualidade atribuindo-lhe o sentido ampliado da palavra alemã lieben (amar).” (FREUD, 1910, p. 208 e 209) A sexualidade é traumática Homens e mulheres por serem seres falantes terão sempre que conviver com a dificuldade de subjetivação da experiência sexual. Dizer que algo é traumático significa a presença no aparelho psíquico de uma excitação exageradamente forte incapaz de ser assimilada. O único recurso disponível seria a linguagem que invariavelmente falha em dar sentido acabado as experiências sexuais. “A relação problemática com a sexualidade não é uma eventualidade para os homens e mulheres. É um dado do qual ninguém escapa.” (CASTANET, 2011, p. 39) Para o ser falante, ao contrário do animal, a sexualidade implica em um desencontro, em um impasse que se desenrolará em uma diversidade infinita de empecilhos para a satisfação plena. Não há a sexualidade natural, regrada biologicamente por períodos e estações como nos animais; este encontro para o ser humano não passa de um mito. “Se com o relato de suas pacientes histéricas Freud partira para a ideia da ocorrência de uma sedução e de um trauma sexual infantil, ele desembocou, através da revelação da existência das fantasias sexuais nessas pacientes, na noção de infantilismo da sexualidade, isto é, de que a sexualidade é sempre traumática enquanto tal, e isto para todo e qualquer sujeito. Lacan veio a nomear essa passagem fundamental da obra freudiana como sendo a concepção do trauma como contingencia, isto é, não se trata de que tenha havido trauma sexual na infância do sujeito, mas sim de que a estrutura da sexualidade é, ela própria, sejam quais forem os acontecimentos históricos, essencialmente traumática:” (JORGE, 2000, p. 21) Sedução (trauma sexual infantil) Fantasia (sexo traumático) Pulsão ≠ instinto Digamos que a sexualidade animal é regulada pelas leis da natureza e por isso caracterizada como instintual. Por outro lada a sexualidade humana, não submissa aos instintos animais, habita em um corpo também habitado pela linguagem e que, por isso, é sempre gerador de um conflito interno: entre o corpo construído imaginariamente e o corpo real, limitado pelas imposições biológicas. “Se nas diversas espécies de animais o mecanismo instintual manifesta-se pelo desencadeamento de alguma função biológica ou atitude comportamental (etológica) segundo parâmetros rígidos prefixados pelas leis da hereditariedade genética e inalteráveis para os indivíduos de uma mesma espécie, o que Freud observa na sexualidade humana emerge como algo extremamente diverso. Surgida a partir de sua experiência clínica de escuta de pacientes neuróticos em análise a teoria freudiana das pulsões é o resultado da apreensão da ocorrência universal de uma lógica diferente daquela que rege os instintos animais.” (JORGE, 2000, p. 21) Sexualidade animal Sexualidade humana Predomínio do olfato Predomínio da visão Estímulos cíclicos Estímulos permanentes Funcionamento instintual Funcionamento pulsional Revisão Como Freud chega conclusão de que a sexualidade humana é perversa? O que Freud chama de teoria sexual? O que muda na concepção que Freud tem de trauma desde suas investigações sobre a histeria no período pré-psicanalítico até a ideia sobre as fantasias sexuais? Qual a diferença entre pulsão e instinto? A partir dessa diferença como podemos entender a sexualidade humana e a sexualidade animal? As pulsões sexuais e as pulsões de autoconservação – 1°dualismo Pulsões sexuais – preservação da espécie Pulsões de autoconservação – preservação do individuo “Nesse momento da elaboração freudiana, as pulsões sexuais são concebidas como apoiando-se nas de autoconservação e, desse modo, o ato de sugar o dedo ou a chupeta revelaria o apoio (Anlehnung) de uma atividade puramente prazerosa, da mucosa oral, sobre uma atividade de cunho vital, como a ingestão do leite materno. Freud distingue dois modos de escolha objetal congruentes com a noção de apoio: a escolha anaclítica, fundamentada nofato de as pulsões sexuais se apoiarem originalmente nas de autoconservação; e a escolha narcísica, baseada no modelo da relação do sujeito consigo mesmo, em que o objeto o representa sob algum aspecto.” (JORGE, 2000, p. 48) As pulsões e seus destinos O que é a pulsão? “Um conceito situado na fronteira entre o mental e o somático; ou ainda, é o representante psíquico dos estímulos que se originam dentro do organismo e alcançam a mente.” (FREUD, 1915, p. 142) Mente P U L S Â O Corpo “Uma pulsão jamais atua como uma força que imprime um impacto momentâneo, mas sempre como um impacto constante. Além disso, visto que ele incide não à partir de fora mas de dentro do organismo, não há como fugir dele.” (FREUD, 1915, p. 138) As principais características de uma pulsão: Origem em fontes de estimulação dentro do organismo Força constante. Não permite a fuga. Sempre busca a satisfação, mas nunca pode ser totalmente satisfeita. Pulsão sexual Devido ao fato da pulsão sexual ser uma montagem, um conjunto de diversos elementos heterogêneos não podemos pensar a sexualidade como tendo um único objeto. Toda pulsão apresenta: Fonte (Quelle) A fonte de toda pulsão é corporal, não psíquica; é “um processo somático que ocorre num órgão ou parte do corpo e cuja excitação é representada na vida mental pela pulsão.” (GARCIA-ROSA, 1994, p. 143) Pressão (Drang) “Por pressão de uma pulsão compreendemos seu fator motor, a qualidade de força ou a medida da exigência de trabalho que ela apresenta.” (GARCIA-ROSA, 1994, p. 142) Meta (Ziel) O objetivo de uma pulsão é sempre a satisfação, senda a satisfação definida como a redução da tensão provocada pela pressão. Objeto (Objekt) O objeto é a coisa em relação a qual ou através da qual a pulsão pretende atingir seu objetivo. É o que há de mais variável em uma pulsão. (GARCIA-ROSA, 1994, p.143) Qual o objeto de satisfação da fome? Comida Qual o objeto de satisfação do sexo? O Objeto a O objeto da pulsão é o objeto a. Este é o objeto com o qual supostamente poderíamos obter a satisfação plena da pulsão. É o objeto que marca o vazio, a falta, a impossibilidade de satisfação da pulsão. Trata-se de um objeto faltoso e que, por isso mesmo pode ser substituído por qualquer objeto que parcialmente remeta o sujeito ao desejo de satisfação total. O objeto a é por isso denominado objeto causa de desejo na medida que tem a função de impulsionar o sujeito ao estabelecimento de uma relação com a falta. O objeto a será também denominado objeto mais de gozar na medida em que ele tem a função de produzir para o sujeito excitação psíquica, dando-lhe momentaneamente a impressão de ter encontrado o objeto perdido. O gozo É o modo pelo qual um sujeito manipula o objeto a. Ao exercer seu modo de gozo um sujeito elege para si objetos suplentes ao objeto a que teriam a função de lhes garantir excitação psíquica seja ela prazerosa ou desprazerosa. O gozo está para além das acepções simbólicas de bom ou ruim, feio ou bonito, bem ou mal. Para Lacan, qualquer objeto pode vir fazer suplência a falta marcada pelo objeto a, no entanto existem quatro objetos definidos por ele como os objetos primordiais com os quais um sujeito goza, são eles: O seio As fezes A voz O olhar Nos remetem a perda que inaugura a falta. São objetos que dizem respeito a uma presença ausente. Todos eles tem a falta como denominador comum. Pulsão de vida e pulsão de morte – 2° dualismo Pulsões sexuais Pulsões de autoconservação Pulsões de morte. Pulsões de vida “Nessa nova dicotomia, a noção de apoio perde sua importância para dar lugar à afirmação mais radical da essencialidade do pulsional enquanto especificando a sexualidade humana: a saber, a falta do objeto. (JORGE, 2000, p. 49) Quanto à pulsão de morte, sua natureza conservadora reside na tendência de retorno ao estado inorgânico, pois se admitirmos que o ser vivo veio Pulsão e Falta: o Real depois do ser não-vivo e surgiu dele, a pulsão de morte harmonizase bem com a fórmula segundo a qual uma pulsão tende para o retorno a um estado anterior. Esse caráter conservador, restitutivo, da pulsão, está intimamente relacionado com seu aspecto repetitivo, ou seja, é do caráter conservador que emana a tendência da compulsão à repetição. (JORGE, 2000, p. 62) O sexo e a morte A pulsão não pode ser satisfeita senão parcialmente. A satisfação total da pulsão só pode ocorrer mediante a inatividade completa do aparelho psíquico. Em Além do principio do prazer, Freud (1920) descobre uma tendência interna de retorno a um estado inorgânico. Ele afirma: “Seremos então compelidos a dizer que o objetivo de toda a vida é a morte.” p. 56 A pulsão de morte, em oposição a pulsão de vida, nos ensina, portanto, que a satisfação de eros não pode ser completa senão pelo estado inanimado dos tecidos que a originam. A morte é então o objetivo ultimo da pulsão. Até a pulsão de vida tem o papel de fazer com que a realização da morte ocorra de maneira natural e preferencialmente prazerosa. Amor e pulsão “O amor não é pulsional. Ele vem do Eu e é narcísico, pode certamente ligar-se intimamente a atividade das pulsões sexuais posteriores, mas pertence a esse campo em que se trata de se amar por meio do outro, em que existe reciprocidade entre amar e ser amado. O campo pulsional, por sua vez, é pura atividade – o Eu está excluído disso. A sexualidade é, portanto, parcial, perversa. O amor faz sonhar com uma síntese enfim possível, mas ele não depende do sexual! Freud mantém a heterogeneidade dos dois campos.” (CASTANET, 2011, p. 44) Revisão Defina o primeiro e o segundo dualismo pulsional na teoria freudiana sobre as pulsões. Define a caracterize o conceito de pulsão. Defina o objeto a. Defina o gozo. Trabalho 2 O aluno deverá elabora um minidicionário com os conceitos mais relevantes abordados na Unidade II. Ao final o aluno deverá redigir um texto que relacione os conceitos escolhidos. O trabalho será avaliado nos seguintes aspectos: Organização e Didática: Uso correto da língua portuguesa. Sequência didática e organização lógica do assunto (introdução, desenvolvimento e conclusão). Concatenação das frases e dos parágrafos. Clareza e objetividade. Conteúdo: Conteúdo adequado ao tema proposto. Nível do conhecimento adequado ao de graduação (conteúdo proposto na disciplina fundamentos da psicanálise) Emprego de linguagem específica apropriado. Domínio do assunto, de conceitos e de definições. Originalidade (capacidade de transmissão escrita com palavras próprias) Referencias Bibliográficas CASTANET, Hervé. Compreender Freud. Zahar, 2011. FREUD, Sigmund. Repressão, 1915. In: ______. A história do movimento psicanalítico. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 145-162. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 14). FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, 1905. In: ______. Um caso de histeria e Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Rio de Janeiro: Imago,1996. p. 163-195. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas deSigmund Freud, 7). FREUD, Sigmund. Os instintos e suas vicissitudes, 1915. In: ______. A história do movimento psicanalítico. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 115-144. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 14). FREUD, Sigmund. Além do princípio de prazer, 1920. In: ______. Além do princípio de prazer. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 11-75. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 18). JORGE, Marco Antonio Coutinho. Fundamentos da psicanálise de Freud a Lacan. Zahar, 2000. SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de linguística geral. 1978. ŽIŽEK, Slavoj. Como ler Lacan. Zahar, 2010.