A crise de identidade da mulher despatriada no romance Desmundo, de Ana
Miranda
Luana Raquel Ruhs VIEIRA 1
Marly Catarina SOARES 2
Resumo
O presente trabalho tem como objetivo analisar a identidade feminina e o deslocamento
identitário de Oribela, personagem do romance Desmundo, de Ana Miranda, bem como
a condição da mulher que vive no contexto histórico-social do século XVI e é obrigada
a deixar seu país para viver como esposa em terra estrangeira. O deslocamento físico
proporciona sofrimento e revolta na personagem resultando em deslocamento
identitário. O romance mostra que a mulher apresenta uma identidade construída pela
imposição da sociedade patriarcal gerando, assim, uma “falsa” identidade feminina.
Porém, a personagem se rebela contra seu opressor na tentativa de destruir tal
identidade. Discutimos, ainda, os problemas que seu deslocamento físico acarreta.
Concluímos que a personagem torna-se ainda mais marginalizada ao se rebelar contra
seu marido e não poderá construir sua identidade, ter voz na sociedade representada no
romance, uma vez que ela converte-se em uma mulher sem marido e o casamento era,
no séc. XVI, uma forma de a mulher ser respeitada (PRIORE, 1993). Ademais, mesmo
que Oribela regresse a sua terra – Portugal - , não recuperará os laços enfraquecidos pela
sua experiência diaspórica, já que o contato com uma nova cultura tornou sua identidade
cultural nacional híbrida.
Palavras-chave: Estudos literários; Identidade feminina; Representações femininas;
Identidade cultural nacional; Deslocamento identitário.
Abstract
This paper aims to analyze the female identity and the displacement identity of Oribela,
a character in the novelDesmundo, of Ana Miranda, as well as the condition of the
1
Mestre em Linguagem, Identidade e Subjetividade pela Universidade Estadual de Ponta Grossa.
Endereço: Rua: Joel Assis, 46, Ponta Grossa - PR. CEP: 84.015-780. E-mail: [email protected].
2
Doutora em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina. Atualmente, é Professor adjunto da
Universidade Estadual de Ponta Grossa, Coordenação de curso UAB _ EAD da Universidade Estadual de
Ponta Grossa e Membro de corpo editorial da UniLetras.
woman who lives in the socio-historical context of the sixteenth century and is obliged
to leave their country to live as a wife in a foreign land. The physical displacement
brings suffering and revolt in character resulting in a displacement identity. The novel
shows that the woman has an identity constructed by the imposition of patriarchal
society, thus generating a "false" female identity. However, the character rebels against
his oppressor in an attempt to destroy that identity. Wealso discuss the problems that
their physical displacement entails. We concluded the character became more
marginalized by rebelling against her husband and cannot build your identity, to have a
voice in society represented in the novel, once she becomes a woman without a
husband, and the marriage was, in the sixteenth century, a form of women to be
respected (PRIORE, 1993). Moreover, even if Oribela has returned to their land Portugal, she will not recover the bonds weakened by their diasporic experience, since
the contact with a new culture has their hybrid national cultural identity.
Keywords: Literary studies; Female identity; Female representations; National cultural
identity; displacement identity.
Introdução
As obras de Ana Miranda abordam de maneira explícita a História e a Literatura.
Segundo Jabour (2006), a intenção dessa autora é mesclar história e literatura, seja por
meio de documentos históricos inseridos nas obras, ou pela criação de personagens
através de grandes nomes de nossa literatura. Ainda segundo Jabour, “em seis de seus
sete romances Ana Miranda reconta a história do Brasil, fazendo um diálogo entre
história e literatura”. Assim, ela procura preencher as lacunas do discurso histórico
utilizando-se do discurso ficcional (JABOUR, 2006, p. 18). Além de ser escritora, Ana
Miranda é pesquisadora, dedicando-se à pesquisa histórica para fazer sua literatura,
firmando-se como um grande nome na produção de romances históricos no Brasil. Ou
seja, a escritora faz a sua leitura da história do Brasil, através de farta pesquisa histórica,
e reconta períodos da história de nosso país através de sua criação literária (JABOUR,
2006, p.22).
O foco de nossa análise será o romance Desmundo, publicado em 1996, que
possui como epígrafe um trecho da carta do jesuíta Manoel da Nóbrega a El Rei D.
João:
A El – Rei D. João, já que escrevi a Vossa Alteza a falta que nesta
terra há de mulheres, com quem os homens casem e vivam em serviço
de Nosso Senhor, apartados dos peccados em que agora vivem, mande
Vossa Alteza muitas orphãs, e si não houver muitas, venham de
mistura dellas e quaesquer, porque são tão desejadas as mulheres
brancas cá, que quaesquer farão cá bem à terra, e ellas se ganharão, e
os homens de cá apartar-se-hão do pecado. (MIRANDA, 2006, p.7).
A inserção desse trecho da carta de Nóbrega no romance evidencia a criação de
uma personagem ficcional: a protagonista Oribela e ainda a criação de seu romance a
partir de um documento histórico. A narradora Oribela, uma jovem órfã de quinze anos,
portuguesa, que é enviada ao Brasil colonial de 1555, juntamente com outras sete
jovens, para suprir a falta de mulheres cristãs com quem os homens pudessem se casar
nessa terra, é quem nos conta essa história.
Através do olhar do feminino oprimido, como ressalta Soares (2004), é que Ana
Miranda quer nos mostrar o Desmundo, o Brasil brutal do século XVI. Será que essa
jovem, Oribela, deslocada em Portugal como órfã, trancafiada em um convento à mercê
da vontade das autoridades de seu país e enviada como um produto à colônia possui
uma identidade? Além disso, o seu deslocamento físico Brasil – Portugal afetará sua
identidade nacional cultural? Essas questões nortearão nossa análise da identidade
sexual/de gênero da narradora-personagem Oribela, bem como de sua identidade
enquanto Portuguesa.
1.1. A construção da “falsa” identidade feminina de Oribela:
Segundo Silva (2000), a construção de nossas identidades ocorre através de
nossas relações sociais. Logo, para entendermos como ocorreu a construção da “falsa”
identidade feminina da personagem Oribela, devemos analisar suas relações com outras
personagens que constituíram tal identidade.
Oribela nos é apresentada como uma mulher que vive em situação de opressão e
dominação. Quando ela ainda estava em seu país – Portugal – vivia sob o jugo de seu
pai, pois sua mãe morreu logo após seu nascimento. Ou seja, ela foi criada por seu pai e
não teve, até ir viver num mosteiro para órfãs, uma referência feminina.
O pai a culpa pela morte da mãe e a trata mal. Ele é descrito como um homem
viciado em jogo e bebida que a criou sob rígida educação: “Meu pai mandava turvar a
água do banho com leite para não ver o meu corpo de criança, uma vez alevantei da
gameleira e ele me castigou com tantas vergastadas que verti sangue pela boca. Água
nas mãos e na fuça, fidalga. Água no mais, puta.” (MIRANDA, op.cit., p. 43).
Essa lembrança de seu pai lhe ocorre durante a viagem, no navio, quando ela
sente vontade de banhar-se. Seu pai é um personagem muito presente em suas
lembranças durante o decorrer da narrativa e é um dos responsáveis pela imposição da
“falsa” identidade feminina.
Ele é quem, durante seu crescimento, lhe impõe uma educação rígida de acordo
com os preceitos morais que a igreja católica e o governo português ditavam às
mulheres do período apresentado no romance e é ele também que começa, utilizandonos do termo de Priore (1993), a “domesticar” Oribela.
Ao chegar à adolescência e após a morte de seu pai, Oribela passa a viver num
mosteiro para órfãs. Nesse local, ela encontra suas primeiras referências femininas.
Destacaremos três personagens femininas que são suas referências mais importantes.
Primeiramente, destaca-se a Velha, freira do mosteiro que ocupava uma posição
de status nesta instituição, mas perde seus direitos por ter ficado grávida. Dessa forma,
foi banida de Portugal sem direito a ficar em sua pátria e criar seu filho. Exilada, ela
recebe a “função de guardiã e instrutora das órfãs até que fossem entregues ao
matrimônio.” (SOARES, 2004, p. 9).
Oribela sente profunda admiração pela velha, por considerá-la uma mulher
sábia, que, por isso, poderia falar aos homens. Entretanto, ela é semelhantemente
oprimida como a narradora-personagem, está sob a mesma situação de dominação e
opressão. Mesmo assim, a personagem impõe a Oribela o comportamento de submissão
aos homens (uma vez que fora designada para esta tarefa), determinando-lhe assim a
“falsa” identidade feminina. A Velha se torna uma espécie de mãe para a personagem e,
ainda, representa o “elo de Oribela com o mundo ao qual ela pertencia antes de sofrer os
reveses que a vida lhe reservou.” (SOARES, 2004, p. 9).
Outra personagem feminina que, assim como a Velha, se difere de suas outras
referências femininas é a Rainha, personagem com a qual Oribela não possuiu um
contato direto. Esta se apresenta como uma idealização. Oribela tem uma admiração
platônica por ela, enxergando-a como uma mulher rica, poderosa e que possuía voz
perante os homens. É o que observamos na descrição que Oribela faz à índia Temericô:
“Perguntou o que era ser rainha. É ser dona de tudo, a que cintila mais que as estrelas, a
quem se cobre de riquezas e leva na cabeça uma tiara de realeza, mulher que tem mando
e voz.” (MIRANDA, 2006, p. 123).
Esta personagem também impõe tal identidade a Oribela, visto que, segundo a
própria narradora-personagem, é ela a responsável pela instituição (mosteiro) que
mantém as órfãs e as recoloca na sociedade.
Outra personagem de destaque é Bernardinha, uma das sete órfãs que vieram
para o Brasil Colônia junto com Oribela. Assim como a Velha, representa o elo que liga
a narradora-personagem ao mundo (mosteiro) ao qual ela pertencia antes de sua chegada
ao desmundo. Essa personagem se encontra na mesma situação de submissão à “falsa”
identidade feminina em que Oribela e a Velha vivem.
Dona Bernardinha, como é chamada por Oribela, adorava roubar beijos das
outras órfãs, comportamento lésbico que vai contra a norma sexual da época (que ainda
persiste – heteronormatividade) e aos preceitos morais da igreja católica, o qual era
seguido pelo governo português.
No romance, há uma forte presença da igreja católica exercendo sua função de
vigiar os indivíduos e assegurar o poder do governo português sobre a população.
Observamos ainda a falta de higiene, as condições precárias em que essas órfãs vieram
para o desmundo. Há também o medo e receio do futuro (que já estava traçado: “povoar
um despejado lugar”) que Oribela sente.
Essas três personagens reforçam o tratamento dado pelo pai a Oribela, que foi
fundamental na constituição de sua “falsa” identidade.
Durante a sua viagem descrita no primeiro capítulo, A chegada, a narradorapersonagem começa a sofrer com seu deslocamento físico:
Corja, adeus, nunca mais eu ia querer avistar aquelas fuças, não que
tivessem sido maus contra mim ou contra Deus, não que tivessem dito
más palavras, nem tivessem maus sentidos, ou por suas fuças rudes,
muitos cabelos, suas caras peludas ou suas arnelas podres, seu cheiro
de suor e o nunca entender da existência mulheril, uma canalha de
feros homens que devia eu admirar e lhes dedicar os meus respeitos,
mas não, a força de suas brutas mãos dera velas ao vento, rumo ao
leme, entenderam eles bem o mar e o passaram, entre as rochas de
pedra, por grandes calmas, pela fúria de um temporal, pelas ondas
desmandadas fazendo-lhes vantagem em grandeza, fortaleza, bondade,
governaram a nau, mas a cada dia me fizeram mais distante de onde
fora eu arrancada com muita pena por serem meus pés quais umas
abóboras nascidas no chão, minhas mãos uns galhos que se vão à terra
e a agarram por baixo das pedras fundas. Aquele era o meu destino,
não poder demandar de minha sorte, ser lançada por baías, golfos,
ilhas até o fim do mundo (...). (MIRANDA, 2006, p. 15).
Oribela nos mostra o ódio que sente dos marinheiros que fizeram com que o
navio avançasse e a deixasse cada vez mais longe de sua terra (Portugal). Ela ainda
demonstra tristeza por sua situação enquanto órfã e mulher. E, assim, não pode
demandar de sua sorte, escolher seu destino.
No entanto, com relação ao rótulo identitário que recebeu da sociedade patriarcal
apresentada no romance (sua “falsa” identidade feminina que define seu destino: se
casar), Oribela demonstra-se ansiosa e sonhadora, afirmando que a rainha ordenou que
os homens (futuros maridos) fossem gentis com as órfãs. A personagem nos diz que a
vida é uma cadeia e nos mostra que tem consciência de sua condição de mulher. Assim,
percebemos seu desconforto com tal identidade.
1.2. O encontro com o desconhecido:
Ao chegar ao Brasil, Oribela sente o peso do olhar do Outro, ou seja, da
população da Colônia, constituída por: índios, brasileiros (homens e mulheres) que
percebem as diferenças culturais através das roupas, comportamento e língua;
portugueses, colonos que lançam olhares maliciosos à Oribela, enxergando-a como um
produto, uma mercadoria. Portanto, as diferenças são de ordem racial, sexual e cultural.
Além do incômodo olhar do Outro, existe a brutalidade do Brasil daquela época
(séc. XVI – 1555), que era um verdadeiro Desmundo. Um país que estava sendo tomado
e explorado por estrangeiros, com várias culturas em choque, uma querendo sobrepor-se
à outra em busca do poder sobre a terra, travando-se, assim, uma guerra entre os nativos
e estrangeiros (colonizados e colonizadores) que lutam pelo comando da terra. Essa era
a situação que Oribela encontrou em sua chegada.
No romance, nós temos o olhar do colonizador (Oribela: narradora-personagem)
sobre os colonizados (índios, brasileiros), que invade a terra destes, reprovando a sua
cultura e tentando impor os costumes europeus. A narradora apresenta não só o
estranhamento à cultura do Outro (brasileiros) como também se horroriza com a falta de
estrutura do país, descrevendo o Brasil como um país em ruínas, com aparência de
velho, bruto, cheio de árvores, com extensa mata e poucas casas.
E é nesse desmundo, um país rústico, em construção, com várias culturas em
choque e em constante conflito devido ao processo de colonização em que a despatriada
Oribela é obrigada a viver. Além disso, é obrigada a submeter-se a homem que nunca
viu, seu futuro marido.
Ao notar o olhar de desejo dos colonos, dias antes da apresentação das órfãs aos
seus futuros maridos, Oribela toma consciência de seu valor:
Celebrei em segredo a cegueira daqueles homens tão precisados, por
dentro de mim sentia uma ninfa, falada no pregão feito fidalga, bofé,
adeus a condição pesada e dura, um altivo coração me vinha, a eu ser
um aljôfar que nas conchas nasce, meu orgulho despejado, que havia,
dentro de cada um de nós, desfeita que fosse, um coração que lhe no
peito não cabia e se há fogo no coração, há água nos
olhos.(MIRANDA,2006,p.42).
Ela descobre que possui um valor: “De pobre, éramos ricas, de um tipo de
cabedal nascido de nossa própria natureza, feito uma terra boa para plantar (...)”
(MIRANDA, 2006, p. 42), toma consciência de sua serventia para aquela terra e para os
homens, valor que está em sua natureza devido a sua diferença biológica: o sexo e a
procriação.
Ao descobrir seu valor, a protagonista começa a sentir o desejo que existe
dentro de seu coração: libertar-se daquela “falsa” identidade feminina, que existe dentro
de todas as mulheres que foram rotuladas por tal identidade, como, por exemplo: Dona
Bernardinha e a Velha; libertar-se do desejo que é chamado de mau: “(...) que fazíamos
pouco de nossos ímpetos mulheris dados ao demônio que devíamos temer e vigiar, vivia
o Mau dentro de nossas almas negras (...)”.(MIRANDA,2006,p.41).
No dia da apresentação das órfãs, as mulheres são colocadas em fila como
produtos a serem escolhidos pelos colonos. Oribela mostra pavor diante dessa situação:
“Um temor me deu, havia umas vozes dentro de mim, que eu não queria ouvir.”
(MIRANDA, 2006, p. 51). Essas vozes configuram-se como um presságio do que
estava por acontecer.
Ao ser apresentada ao seu futuro marido, a narradora-personagem cospe no rosto
do homem. A partir desse momento, a personagem percebe seu valor para aquela
sociedade e, através de sua importância, conscientiza-se de que é um sujeito, firmandose, assim, como “um protesto contra o sistema dominante” (TOURAINE, 2007, p. 39).
Mesmo com tal afronta, Oribela foi obrigada a se casar. Com o destino selado,
concretizado por outra mulher – Brites de Albuquerque, mulher do governador e tia de
Francisco, futuro marido da narradora – Oribela recorre ao oficial de um navio que iria
partir para Portugal. Combinou que a embarcaria em segurança, ainda que demorasse
quatro ou seis meses para partir, se lhe pagasse algumas moedas.
1.3. O casamento:
Depois de casada, a caminho do sítio de seu marido, seu novo lar, Oribela nos
conta sua tristeza por estar longe de sua terra:
Francisco de Albuquerque ia em seu cavalo que arrematara numa
disputa de dinheiro, cavalo ereto e alto, manchado de umas nódoas
pretas e andador, por uma trilha estreita de carro, beirando um rio, por
uma ermida, um engenho, uma roça, uma granjearia, outra ermida,
outro engenho outra roça e assim sempre, cada vez mais dentro e
distante do mar oceano, no que se apertava mais meu coração, não
bastava estar assim carecida de minha terra, até se acabarem as
ermidas os engenhos, acima, uma volta, um esteio, uma enseada,
sempre beirando rio, o rio do rio, que tornava eu sempre as vistas para
trás, cada vez mais longe se metia a vila e cada vez mais triste estava
eu. (MIRANDA,2006,p.81).
Como se não bastasse estar fora de sua zona de conforto, sua nova família é um
universo confuso e animalizado. Na primeira noite de casada, é estuprada pelo marido,
primeiro personagem de suas novas relações que é descrito como um animal.
Em sua relação matrimonial, Oribela teve a prova de que a vida era uma cadeia e
que seria a propriedade de um homem que afirmava ser seu dono e senhor. Suas outras
relações familiares eram sua sogra Dona Branca e sua cunhada Viliganda. Estas, assim
como Francisco, são animalizadas. Existe, entre essas três personagens (Francisco,
Dona Branca e Villiganda), uma estranha relação que faz com que a narradorapersonagem suspeite que a garota seja filha de Francisco com sua mãe Dona Branca,
fruto de uma relação incestuosa.
Francisco mantinha ainda relações sexuais com as índias. Assim, Oribela
desconfiava que alguns meninos mestiços que viviam no sítio de seu marido fossem
filhos dele também.
Além de ser estrangeira e ter recebido um rótulo identitário (“falsa” identidade
feminina), a despatriada Oribela é obrigada a conviver com sua confusa e estranha
família, vivendo sobre constante vigília, tensão e repreensão por seu marido e sua sogra.
A cada dia que passava nesta terra – Brasil – , Oribela ampliava o rol de
relacionamentos com o Outro: brasileiros, índios e índias que viviam e trabalhavam no
sítio de seu marido; portugueses que viviam na Colônia; sua nova família – Francisco,
Dona Branca e Viliganda.
Como resultado dessas relações, Oribela participava de um sistema de trocas
culturais, ou seja, passava sua cultura a esses Outros e, por sua vez, recebia outras
culturas; Isso resultará na crise de sua identidade cultural nacional. Com isso, o que era
fixo, sua identidade portuguesa, torna-se instável pela experiência da dúvida
(MERCER, 1990, p.4 apud SILVA, 2000, p. 19).
A insegurança e dúvida são justamente causadas pelo afastamento da cultura
(língua, gastronomia, música, comportamento, crenças etc.) de seu país, por estar fora
de seu lugar, seu lar. Segundo Hall (2006), todo o ser humano, por mais que não nomeie
este lugar e/ou grupo, reconhece algo (que pode ser: sociedade, grupo, classe, nação e
etc.) instintivamente como seu:
A condição de homem (sic) exige que o indivíduo, embora exista e aja
como um ser autônomo, faça isso somente porque ele pode
primeiramente identificar a si mesmo como algo mais amplo – como
um membro de uma sociedade, grupo, classe, estado ou nação, de
algum arranjo, ao qual ele pode até não dar um nome, mas que ele
reconhece instintivamente como seu lar. (SCRUTON, 1986, p.156
apud HALL, 2006, p.48).
Portanto, os laços com seu país são enfraquecidos por sua experiência
diaspórica, criando a dúvida: Será que ainda sou portuguesa? Vale ressaltar que não
estamos falando de perda de identidade, e sim de crise de identidade, até porque
acreditamos que não há perda total da identidade cultural nacional, e sim um
enfraquecimento dos laços com o país de origem.
Segundo Egleaton (2003), a palavra cultura deriva da natureza e “um dos seus
significados originais é lavoura ou cultivo agrícola, o cultivo do que se cresce
naturalmente” (EGLEATON, 2003, pág.9). Portanto, a cultura cresce naturalmente,
porém devemos cultivá-la. Logo, a questão é: Como cultivar a cultura sem estarmos em
nossa terra? Maura Penna (1998) nos dá a seguinte resposta: “(...) as práticas culturais
não dependem tão diretamente da permanência na terra natal, uma vez que podem ser
preservadas em outros espaços, recuperadas pela memória ou recriadas.” (SIGNORINI,
1998, pág.98).
Porém, no caso de Oribela, não há tentativa de cultivar sua cultura, o que até
seria possível, entrando em contato com as outras órfãs que vieram com ela e tentando
manter suas práticas culturais (como, por exemplo: ouvir canções, histórias).
Para exemplificar a tentativa de cultivo cultural, Maura Penna fala sobre pessoas
que, mesmo estando fora de sua terra natal, procuravam (no lugar em que estavam) se
encontrar com conterrâneos para ouvir “cantoria” (SIGNORINI,1998, p.98). Mas, por
sua condição de mulher oprimida pelo poder de seu marido, não podia fazer nada sem o
consentimento deste.
Na tentativa de voltar para seu país e recuperar os laços enfraquecidos pelo
deslocamento e se livrar da opressão de seu marido e dessa nova sociedade, na
esperança de poder construir-se como mulher, Oribela tenta duas fugas que acabam
frustradas e resultam em trocas de cultura.
1.4. As fugas e o fim:
Na primeira fuga, Oribela partiu a pé, seguindo as luzes rumo à cidade. O dia
amanhece e ela avista o oficial do navio e lhe entrega as moedas. De repente, dois
marujos agarram-na. Um a estupra e, quando o outro iria fazer o mesmo, Francisco de
Albuquerque surge e mata o oficial e os dois marujos.
Com ódio de Oribela, Francisco a amarra e a leva arrastada até seu sítio, onde é
castigada, ficando presa num quarto e tendo contato somente com uma índia: Temericô.
O contato entre as duas resulta, naquela situação de encarceramento, em troca cultural.
A convivência com a índia faz com que Oribela aclare-se de que pertence a um
povo, já que Temericô mostra à narradora-personagem que, apesar de viver em situação
de submissão, de escravidão, ela pertence a algo maior: seu povo, sua etnia. Temericô
também ensinou um pouco de sua língua para Oribela: “Muitas mais coisas ensinou a
natural, de sua fala, kûarasy sem’îanondé, xemo-mbak-i, que dizia, Antes do nascer do
sol ele me acordou (...)”. (MIRANDA, 2006, p. 127). A personagem, por sua vez, falou
de sua terra – Mendo Curvo – e da rainha.
Assim, esse processo de troca cultural afeta a personagem, sublinhando sua
identidade cultural nacional portuguesa, fazendo com que ela se reconheça como parte
de algo maior – nação – e, por conseguinte, a torna mais revoltada com sua “falsa”
identidade e sua situação diaspórica, acarretando uma nova fuga.
Sua segunda fuga acontece em meio a um conflito entre os nativos, que invadem
o sítio de Francisco de Albuquerque, e os homens que trabalham para o marido de
Oribela. A narradora-personagem aproveita que não está sendo vigiada, veste uma
roupa de homem e foge do sítio. Disfarçada, vestida como um homem, ela seria
respeitada e não correria o risco de ser abusada por outros homens, como foi por aqueles
marinheiros na sua primeira tentativa de regresso. Em sua segunda evasão, cansada de
caminhar, ela desmaia e acorda na casa de Ximeno (O mouro), que a encontrou
desacordada e a levou para sua casa.
Oribela fica escondida na casa do Mouro, com quem acaba tendo um caso e,
desse contato, conhece uma nova cultura, resultando em uma nova troca cultural. Além
dessa troca entre Oriente (Mouro) e Ocidente (Oribela), Ximeno mostra a Oribela outra
forma de tratar as mulheres, completamente distinta da maneira a que ela fora submetida
até então.
Durante todo o tempo que passou escondida na casa do Mouro, ele a trata com
respeito e a deixa livre para fazer o que quer. Dessa forma, Ximeno representa um novo
mundo para ela que, a partir da convivência com o árabe, passa a enxergar a harmonia
entre homem e mulher. Ao saber, através do Mouro, da possibilidade de um tratamento
sem opressão, no qual sua subjetividade seria ouvida e respeitada, a personagem busca
reivindicar a identidade feminina de fato.
Oribela deseja cada vez mais voltar a Portugal para recuperar os laços com seu
país e construir-se como mulher. No entanto, para esse retorno há que se considerar a
troca cultural que a personagem sofreu, por meio da influência da cultura indígena (da
índia Temericô) e da árabe (do Mouro – Ximeno). Ou seja, a identidade cultural
nacional de Oribela não é mais portuguesa, ou melhor, não é só portuguesa; pois, como
afirma Hall, “estamos sempre em processo de formação cultural. A cultura não é uma
questão de ontologia, de ser, mas de se tornar.” (HALL, 2003, pág. 44). E, pelas
influências culturais recebidas no desmundo, sua identidade acaba se tornando híbrida,
uma mescla de identidade portuguesa, identidade indígena e identidade árabe.
Nesse sentido, se Oribela conseguisse voltar para sua terra – Portugal – , ela
realmente conseguiria reconhecer seu lar como o mesmo deixado? Hall afirma que não:
”Não podemos jamais ir para casa, voltar à cena primária enquanto momento esquecido
em nossos começos e “autenticidade”, pois há sempre algo no meio (between)”.
(CHAMBERS, 1990, p.104 apud Hall, 2003, pág. 27).
Esse algo no meio são, segundo Penna, as suas experiências vividas fora de sua
terra natal, visto que por mais que o migrante volte a sua terra e a encontre da mesma
forma, a reconheça como a mesma deixada e encontre as mesmas práticas culturais,
“essas terão novos significados por conta de sua vivência em terra estrangeira”.
(SIGNORINI, 1998, pág. 98).
Portanto, acreditamos que o esforço de Oribela para voltar a sua terra natal e
restaurar os laços enfraquecidos por seu deslocamento, acabaria em um novo
sofrimento. Agora, em sua zona de conforto, ela se encontraria frustrada por não sentirse portuguesa como antes.
As tentativas de fuga configuram-se, ainda, como um modo de Oribela
reivindicar a identidade feminina de fato, de se fazer ouvir pelo Outro, de fazer com que
a vejam, visto que é ausente na sociedade na qual é representada por seu marido. Os
homens constroem a identidade dessas mulheres, eles são quem detêm o poder para
constituição de si e do Outro – mulheres.
Passado certo tempo, Francisco, que havia procurado muito por Oribela,
encontra-a e a leva de volta para seu sítio. Ela descobre que está grávida. Seu marido
(um pouco desconfiado, pois Oribela contou que ganhou um agasalho do Mouro durante
o período que esteve foragida) fica feliz.
Porém, a mãe de Franciso (Dona Branca) o deixa perturbado ao falar que ele não
era o pai do filho de Oribela. Então, ele discute com sua mãe e a mata. Após a morte da
sogra, a jovem dá à luz um menino muito parecido com o Mouro, deixando seu marido
ainda mais perturbado. Assim, ele acaba fugindo com o menino para Portugal.
Quando ela se dá conta do que aconteceu, se desespera e, por medo da solidão e
dor da perda de seu filho, chega a desejar que Francisco volte. Oribela tira todos do sítio
(todos os índios e a única integrante que restou da família de Francisco: Viliganda) e
manda pôr fogo em tudo:
Por minha ordem se ateou fogo à casa com as coisas dentro, queria eu
nada do que me deram ali, desde o mais pequeno lume de cera às
cantareiras de louça, os baús de dona Branca, o vestido preto, vestida
eu estava com a roupa de órfã com que viera pelo mar, a coifinha
lavrada, a almofadinha de seda e o dedal, o coxim, o rosário, fiquei só
com a caravelinha. (MIRANDA, 2006, p.209).
Esse momento da narrativa representa a quebra do poder do homem (pólo
dominante) – marido – Francisco de Albuquerque, que, juntamente com os outros
homens dessa sociedade, construíram sua “identidade legitimadora” e impuseram sobre
sua mulher (pólo dominado) – esposa – Oribela, essa “falsa” identidade feminina.
(CASTELLS, 1999, p.18 apud MURANGA, 2006, p. 20)
Ao livrar-se da opressão do homem que era seu representante naquela sociedade,
Oribela consegue desconstruir a “falsa” identidade feminina. Logo, ela tem a chance de
reconstruir sua identidade através da construção de uma “identidade de resistência”, que
é constituída por um grupo de indivíduos marginalizados (no caso, as mulheres que
foram rotuladas por tal identidade, como, por exemplo, Velha e Dona Bernardinha) e
que não possuem voz na sociedade. (CASTELLS, 1999, p.18 apud MUNANGA, 2006,
p. 20). A força dessa identidade está na coletividade (MUNANGA, 2006, p. 21).
Porém, com o choque que recebeu ao perder seu filho, Oribela vai até a casa de
Ximeno e a encontra vazia, com rastros de sangue no chão. Tudo indica que Francisco,
antes de partir para Portugal levando o filho de Oribela, assassinou o Mouro.
Dessa forma, Oribela não consegue reconstruir sua identidade feminina. Numa
sociedade dominada por homens responsáveis pela legitimação da (falsa) identidade da
mulher, nada mais resta a Oribela senão sucumbir frente a esse poder, uma vez que, com
o choque que recebeu pela perda de seu filho e de seu amor (o Mouro), ela enlouquece:
“Todo o meu mundo esvaneceu, estava eu endoidando, dormindo, sonhando? Ouvi o
choro de meu filho, virei e na porta, atravessado pelos raios derradeiros do sol, os
cabelos em fogo puro, estava o Ximeno com uma trouxa de criança no colo. Hou ha.”
(MIRANDA, 2006, p. 213).
Considerações finais
Ao analisarmos a identidade feminina e o deslocamento identitário da narradorapersonagem Oribela, buscamos nos afastar de uma abordagem essencialista do conceito
de identidade, ou seja, não consideramos que nascemos com nossas identidades prontas
e que morremos com elas dessa mesma forma. Ao contrário, consideramos a identidade
como, segundo Hall, em seu ensaio intitulado: “Quem precisa da identidade?”,
publicado no livro “identidade e diferença” de Tomaz Tadeu da Silva, um conceito que
“opera sobre rasura”, no intervalo entre a inversão e a emergência (...)” (SILVA, 2000,
p.104).
Assim, destacamos que estamos em constante processo de mutação identitária
que é, em nossa concepção, a lei natural que rege nossas identidades, visto que vivemos
em constante contato com o Outro, desconstruindo-nos e construindo-nos ao longo da
vida.
Em nossa análise, demonstramos a luta da personagem Oribela em favor de sua
mutação identitária, buscando a desconstrução do rótulo identitário que recebeu dos
homens (influenciados pelo governo português e pela igreja) da sociedade patriarcal
criada na obra – “falsa” identidade feminina – para poder construir-se como mulher,
construir a verdadeira identidade feminina na qual ela teria voz e não seria ausente
perante essa sociedade.
A revolta com seu destino e as tentativas de fuga configuram-se como um modo
encontrado por ela para chamar atenção dessa sociedade, ser vista, ser ouvida e tentar
renegociar sua identidade sexual, que se tornou uma marca em relação “à
essencialidade” da masculinidade e, reatar os “elos naturais e espontâneos” que possuía
com seu país, que foram “interrompidos por sua experiência diaspórica” (LACLAU,
1990, p.33 apud SILVA, 2000, p. 110; HALL, 2003, p.27)
Entretanto, Oribela só consegue se livrar da opressão de seu marido, mas isso
não muda a sua condição de marginalização na sociedade do Brasil do séc. XVI,
apresentada na obra e na sociedade portuguesa, de onde tal condição foi herdada, caso
ela voltasse para sua terra natal. Pelo contrário, sendo abandonada pelo marido, a
personagem Oribela ficará mais “deslocalizada” ou marginalizada nessas sociedades,
uma vez que, segundo Priore (1993), o casamento era para a mulher uma forma de ser
respeitada, de seguridade e de “ascensão social”. Logo, não ser ou estar casada
significava estar “nos limites da desclassificação social” (VAINFAS, 1986, p.93 apud
PRIORE, 1993, p.141; SOARES, 2004, p. 4-5).
Vimos ainda que a tristeza por estar longe de seu país (Portugal) e o desejo que a
personagem sente de voltar para o seu lar são meios de manter pura sua identidade
cultural nacional, aproximando-se de uma abordagem essencialista do conceito de
identidade. Porém, a luta de Oribela para restaurar os laços enfraquecidos por sua
experiência diaspórica é vã, pois, segundo Penna, “a migração implica um processo de
reconstrução de referências de vida”, ou seja, mesmo que ela voltasse para sua terra e a
reconhecesse como a mesma deixada, sua experiência e a infiltração cultural que
recebeu no Brasil tornando sua identidade híbrida, são novas referências que tornam
impossível manter, se é que um dia existiu, a pureza de sua identidade cultural nacional.
(SIGNORINI, 1998, p. 108).
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A crise de identidade da mulher despatriada no romance