ÁREA TEMÁTICA: Cooperativismo, economia e desenvolvimento PROJETO “EQUIPE TÉCNICA” – CONHECENDO A REALIDADE DAS COOPERATIVAS REGISTRADAS NO SISTEMA OCEMG/SESCOOP - MG NOS RAMOS AGROPECUÁRIO E TRANSPORTE THE “TECHNICAL TEAM” – KNOWING THE REALITY OF THE REGISTERED COOPERATIVES IN THE SYSTEM OCEMG/SESCOOP - MG ON AGRICULTURE/LIVESTOCK AND TRANSPORT SECTORS DRUMOND, Vitória Resende Soares – Sistema Ocemg/Sescoop - MG FIGUEIREDO, Fabrício Henrique de – Sistema Ocemg/Sescoop - MG [email protected] [email protected] Resumo O artigo descreve o projeto de monitoramento desenvolvido pela Gerência de Acompanhamento de Cooperativas do Sistema Ocemg/Sescoop - MG, apresentando a forma como as cooperativas dos ramos transporte e agropecuário são acompanhadas pelos técnicos; o levantamento de demandas específicas nesses ramos e apontando os resultados alcançados com essa atividade no ano de 2011, bem como sugestões para a sua continuidade. Palavras-chave: cooperativas; cooperativismo; desenvolvimento; Gerência de Acompanhamento de Cooperativas. Abstract The article describes the work on monitoring developed by the Management of Cooperative Accompaniment, of the Ocemg/Sescoop-MG System, showing the form how the cooperatives on branches transportation and agriculture/livestock are accompanied by technical; the raising specific demands of these branches and pointing the results with this activity in 2011, as well suggestions for its continuity. Keywords: cooperatives; development; Management of Cooperative Monitoring 1- Introdução Pretende-se, com este trabalho, apresentar o papel estratégico da Gerência de Acompanhamento de Cooperativas do Sistema Ocemg/Sescoop - MG (Sindicato e Organização das Cooperativas do Estado de Minas Gerais / Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo de Minas Gerais), que consiste no acompanhamento das cooperativas, realizado por meio de visitas técnicas, nos ramos agropecuário e transporte, como forma de estreitar o relacionamento junto ao Sistema, levantar demandas de capacitação, diagnosticar o processo de gestão, receber sugestões ou críticas e mensurar, por meio de questionário específico, pontos relevantes das cooperativas visitadas, relacionados com seu quadro social, quadro funcional, gestão, produtos, contabilidade e responsabilidade social. Por meio de visitas in loco, técnicos formados em Gestão de Cooperativas, acompanhados por estagiários, levam informações importantes referentes ao Sistema Ocemg/Sescoop - MG e fazem um diagnóstico preliminar, identificando demandas das cooperativas nas regiões onde estão inseridas. Outro ponto relevante do trabalho é o convênio firmado com a Universidade Federal de Viçosa, pelo qual o Sistema oferece a estagiários a oportunidade de aplicar, na prática, conceitos e teorias estudados, além de conhecer de perto a realidade das diversas cooperativas. Segundo Bialoskorski (2006), o atual contexto da economia obriga o cooperativismo, diante dos novos rumos econômicos e estruturais, a modernizar sua gestão, bem como a utilizá-lo como alternativa frente aos problemas sociais desses “novos tempos” da economia. Torna-se fato, portanto, que tal sucesso apenas será consolidado por meio de um cooperativismo forte, tanto em nível nacional quanto internacional. A Gerência de Acompanhamento de Cooperativas surgiu por demanda das cooperativas, apresentada em uma série de encontros regionais de dirigentes, realizada no ano de 2009 para a elaboração do Plano Diretor do Sistema Ocemg/Sescoop - MG para os anos de 2009 a 2012. Esses dirigentes apresentaram algumas deficiências do Sistema, tais como falta de aproximação com a base, dificuldades de comunicação com as cooperativas registradas, inexistência de monitoramento e falta de novos produtos que poderiam contribuir para uma maior profissionalização das cooperativas. Ansiavam pela estruturação dos ramos do cooperativismo através do fomento e assessorias e por uma maior aproximação do Sistema com as cooperativas. Em julho de 2010, o Sistema colocou em prática o projeto de Acompanhamento das Cooperativas, com o objetivo principal de promover a troca de informações institucionais e identificar as principais demandas das cooperativas por ramo ou região, oferecendo sugestões e soluções para o desenvolvimento do segmento no Estado. O trabalho de monitoramento das cooperativas objetiva, a partir da coleta e análise dos dados, a sistematização das informações das cooperativas por região, ramo e atividade, propiciando o mapeamento das demandas comuns e a formatação de programas de capacitação direcionados para o atendimento das necessidades das organizações visitadas. 2- Objetivo Constitui o objetivo geral de este artigo descrever o trabalho desenvolvido pelo Sistema Ocemg/Sescoop - MG por meio da Gerência de Acompanhamento de Cooperativas e os resultados alcançados no ano de 2011, bem como as sugestões para a sua continuidade em 2012. 3- Metodologia De acordo com Michel (2009), a metodologia pode ser entendida como um caminho a ser traçado para orientar o processo de investigação do pesquisador, a fim de que ele possa alcançar um objetivo e trazer a verdade num processo de pesquisa. O delineamento utilizado neste artigo baseia-se no estudo de caso, que, de acordo com Godoi (2006), se caracteriza como um tipo de pesquisa que visa a explicar fatos que ocorrem em um determinado contexto ou situação. Justifica-se a sua utilização tendo em vista a necessidade de explicar e analisar uma realidade social mais complexa, uma vez que permite um maior aprofundamento sobre o objeto de pesquisa (YIN, 2005). Foram investigados fenômenos atuais ocorridos durante a implantação e atuação da Gerência de Acompanhamento de Cooperativas do Sistema Ocemg/Sescoop - MG. 4- Criação e Atuação da Gerência de Acompanhamento de Cooperativas do Sistema Ocemg/Sescoop - MG A Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), conforme determina o artigo 105 da Lei n. 5.764 de 1971, é a entidade máxima de representação do cooperativismo nacional. Foi constituída no início dos anos 1970 e tem sua sede no Distrito Federal, além de outras 26 filiadas, uma para cada Estado. À OCB cabe à coordenação nacional do sistema e a elaboração de diretrizes que serão implementadas nos Estados. As unidades estaduais são responsáveis pelo registro e acompanhamento das cooperativas filiadas. A esse sistema foi integrado o Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo – Sescoop, criado pela Medida Provisória n. 1.715, de 3 de setembro de 1998 e suas reedições, regulamentado pelo Decreto n. 3.017, de 6 de abril de 1999. O Sescoop faz parte do Sistema S e tem como objetivo integrar o Sistema Cooperativista nacional. Representa importante instrumento operacional do Sistema OCB para o desenvolvimento de ações de capacitação, acompanhamento e promoção social, visando à estruturação e desenvolvimento das cooperativas. Dessa forma, a cada organização estadual foi vinculado um Sescoop. Cabe ao Sescoop organizar, administrar e executar o ensino profissional cooperativista e a promoção social de cooperados, empregados de cooperativas e familiares, além do monitoramento das cooperativas (SESCOOP, 2011). De acordo com Bialoskorski (2000), o cooperativismo brasileiro sofreu importantes alterações em seu ambiente institucional com a promulgação da Constituição de 1988, que, entre outras ações, fundamentou a autogestão das cooperativas, retirando o acompanhamento e a intervenção governamental. Ainda, conforme Bialoskorski (2000), as cooperativas participantes do XI Congresso Brasileiro de Cooperativismo reivindicaram um efetivo monitoramento das cooperativas por parte do Sistema, o que resultaria em uma maior transparência da gestão e um monitoramento de sua situação financeira e social. Assim, a “elaboração de uma política institucional de monitoramento das cooperativas passa a ser uma exigência institucional para o sucesso das sociedades cooperativas.” (BIALOSKORSKI, 2000, p. 37). O Sindicato e Organização das Cooperativas do Estado de Minas Gerais – Ocemg – e o Serviço Nacional de Cooperativismo no Estado de Minas Gerais – Sescoop MG, também conhecido como Sistema Ocemg/Sescoop - MG representam as cooperativas do Sistema OCB no Estado de Minas Gerais. O Sistema Ocemg/Sescoop - MG abriga a Gerência de Acompanhamento de Cooperativas, criada em 2010 com o objetivo de monitorar as 7901 cooperativas registradas na organização. Tendo em vista a extensão territorial do Estado e o grande número de cooperativas registradas, o trabalho da gerência iniciou-se pela escolha de dois ramos específicos: o agropecuário, devido à sua representatividade quantitativa/econômica e ao distanciamento geográfico da maioria das cooperativas da sede do Sistema, e o ramo transporte, devido à sua complexidade, peculiaridade e por ser um ramo relativamente novo2 dentre os treze existentes. 1 2 Fonte Ocemg/Sescoop - MG, em 29/2/2012. O ramo transporte foi criado pela Assembleia Geral Ordinária da Organização das Cooperativas Brasileiras – OCB – no ano de 2002. O ramo é composto por cooperativas que se dedicam à atividade do transporte de cargas ou de passageiros. A metodologia utilizada pela Gerência de Acompanhamento no monitoramento das cooperativas mineiras consiste em visitar as cooperativas com o objetivo de realizar um diagnóstico de gestão e estreitar o relacionamento dessas sociedades com o Sistema Ocemg/Sescoop - MG, uma vez que, de acordo com Bialoskorski (2000), há uma heterogeneidade enorme quando se trata de gestão nas cooperativas, que é determinada pelo segmento, região e tipo de negócio da sociedade. As visitas não se limitam apenas à coleta de dados estatísticos adquiridos por meio do questionário, pelo contrário: através do contato pessoal dos técnicos que compõem a gerência, é possível detectar pontos relevantes das cooperativas no que se refere ao nível de organização do quadro social, a motivação do quadro funcional, o grau de profissionalização, a aderência com a Lei n. 5.764/71, entre outros fatores. Ainda, a atuação da gerência busca minimizar alguns pontos principais que “estrangulam” o sistema cooperativista, conforme já havia ponderado Bialoskorski (2000, p. 12), sendo eles a falta de profissionalização da gestão, a incipiente organização, os problemas de capacitação da empresa, a falta de integração entre cooperativas e a necessidade de se elevar o nível de educação cooperativista do associado. O processo inicia-se com o contato telefônico com a cooperativa da região a ser visitada, a fim de explicar o projeto e agendar uma data para a realização da visita. O primeiro momento da visita visa a conhecer a cooperativa in loco, sua história e área de atuação. Em seguida, são apresentadas as funções do Sistema Ocemg/Sescoop - MG e fornecidas informações relevantes, por meio de cartilhas. Por fim, é aplicado um questionário com perguntas fechadas e abertas, voltado para cada ramo. O questionário aborda questões como: a atividade econômica da cooperativa, os livros obrigatórios, a tecnologia da informação, a organização do quadro social e funcional, a gestão dos recursos, a atuação do Conselho de Administração e do Conselho Fiscal, a contabilidade e a responsabilidade social. Também são esclarecidas dúvidas da cooperativa no que se refere aos assuntos de gestão e legislação. Após a visita, são elaborados dois relatórios: o primeiro contempla uma descrição de cada cooperativa e traça uma fotografia percebida pelos técnicos, englobando as declarações dos participantes da visita; o segundo consiste na tabulação do questionário aplicado nas cooperativas. Este último permite o mapeamento das demandas comuns, necessidades de capacitação e pontos de estrangulamento, que são apresentados à diretoria do Sistema para posterior análise e encaminhamentos. 5- Identificação das cooperativas visitadas Acompanhamento de Cooperativas em 2011 pela Gerência de As visitas técnicas foram direcionadas para atender aos ramos agropecuário e transporte. Atualmente o Sistema Ocemg/Sescoop - MG possui registradas 216 cooperativas do ramo agropecuário e 115 cooperativas do ramo transporte. Foram visitadas 208 cooperativas entre os anos 2010 e 2011, sendo 127 agropecuárias, o que significa aproximadamente 59% do total de cooperativas do ramo, e 81 do ramo transporte, representando 70% do total das cooperativas do ramo. No ano de 2011, foram visitadas 136 cooperativas. O Gráfico 1 mostra a distribuição das visitas nos meses do ano. É possível observar que os meses de agosto a novembro apresentam um aumento significativo no número de visitas realizadas em decorrência da contratação de quatro estagiários da Universidade Federal de Viçosa – UFV. Para o ano de 2012, restam 75 cooperativas agropecuárias e 20 cooperativas do ramo transporte. GRÁFICO 1 – Número de cooperativas visitadas em 2011 Fonte: Os autores. A quantidade de cooperativas visitadas permite uma análise mais precisa da realidade das cooperativas dos referidos ramos. Os próximos itens apresentarão a sistematização dos dados das cooperativas visitadas. 5.1- Ramos transporte Entre 2010 e 2011, foram visitadas 81 cooperativas singulares do ramo transporte. Desse total, 18 são filiadas a uma central ou federação; as 63 restantes afirmaram não pertencerem a nenhuma organização de grau superior. O número de cooperativas não associadas a uma central ou federação representa 78% do total das cooperativas visitadas. Esse dado mostra a necessidade de organização do ramo, que se encontra sem a representação efetiva de uma federação. Uma central ou federação estruturada é fundamental para o fortalecimento do ramo transporte, tendo em vista que poderia possibilitar para as cooperativas filiadas, além de representação política e possibilidade de troca de experiências, uma redução de custos administrativos, na medida em que poderiam ser programadas compras conjuntas e um mapeamento de demandas, bem como a formulação de projetos de capacitação que poderiam ser desenvolvidos em parceria com o Sistema Ocemg/Sescoop - MG. Para Galerani (2003), a união de cooperativas através de uma central ou federação traz vantagens, como redução de custos, incremento na produtividade, facilidade de obtenção de crédito, melhora da gestão, inovação e fortalecimento do empreendimento cooperativo. Do universo visitado, foi possível estabelecer uma classificação do tipo de serviço prestado pelas cooperativas. Assim, conforme Tabela abaixo, temos que 40 cooperativas trabalham com transporte de carga, 45 com transporte de passageiros, 34 com transporte escolar, 23 com fretamento de veículo, 14 com táxi, 1 com mototáxi e 5 com serviços de entregas e mensagens. É importante deixar claro que uma cooperativa pode trabalhar com mais de um tipo de atividade. Tabela 1 Tipos de serviços prestados pelas cooperativas visitadas do ramo transporte Quais são os produtos da cooperativa? Mototáxi Táxi Transporte Transporte de cargas escolar 1 14 40 Fonte: Ocemg, 2011. 34 Serviço de entrega e mensagens Fretamento de veículo Transporte de passageiros Outros 5 23 45 2 Sobre a Organização do Quadro Social – OQS –, foi constatado que 66 (81%) cooperativas não possuem comitês educativos ou departamento que desenvolva trabalhos de conscientização sobre o cooperativismo para o quadro social e funcional. Apenas 15 (19%) afirmaram desenvolver trabalhos nessa área. Tais números apontam para a necessidade de ampliação do trabalho desenvolvido pelo Sistema Ocemg/Sescoop - MG de Organização do Quadro Social. É importante que o referido projeto contemple, além das cooperativas agropecuárias, as cooperativas do ramo transporte visitadas que possuem condições de desenvolvê-lo. A educação cooperativista, desenvolvida através da Organização do Quadro Social, além de capacitar as pessoas com relação ao negócio cooperativo e suas especificidades, reforça a identidade das organizações cooperativas, visto que propicia um modelo de gestão que favorece o desenvolvimento das pessoas e do negócio, oportunizando a participação, a transparência e o profissionalismo (SCHNEIDER, 2003). O meio de comunicação mais utilizado pelos cooperados é a comunicação direta com o presidente. Esse dado demonstra que, na maioria das cooperativas, não há formalização das opiniões e sugestões reforçando a necessidade de um programa de Organização do Quadro Social. A Tabela 2 descreve os meios de comunicação utilizados pelos cooperados. É importante explicitar que existem cooperativas que utilizam mais de um meio de comunicação. Tabela 2 Meios de comunicação dos cooperados com as cooperativas Quais são os principais meios de comunicação do cooperado com a cooperativa? Ofício Fax 11 6 Fonte: Ocemg, 2011. E-mail Telefone Caixa de sugestões 14 52 7 Comunicação direta com o presidente 74 Das cooperativas visitadas, 63 possuem funcionários e empregam 1.555 pessoas, porém apenas 23 (28%) delas oferecem capacitação específica sobre cooperativismo ao contratar novos colaboradores. A conscientização do funcionário é fundamental, pois ele executa as atividades operacionais e propicia condições para os cooperados realizarem a atividade fim da cooperativa. Nesse contexto, é preponderante que esse colaborador tenha o mínimo de entendimento sobre o empreendimento cooperativo, sua forma de gestão, especificidades, princípios e valores. Durante as visitas técnicas, muitas dúvidas sobre os fundos obrigatórios das cooperativas foram sanadas, com destaque para o Fundo de Assistência Técnica Educacional e Social – Fates. Apenas 17 cooperativas, ou seja, aproximadamente 21%, dispõem de programa de utilização dos recursos do Fates. Também é importante mencionar que algumas cooperativas possuem outros fundos, porém não fazem a previsão do modo de formação, aplicação e liquidação, como determina o artigo 28 da Lei n. 5.764/71. A contabilidade é o controle sobre a situação econômica, financeira e patrimonial do negócio. A maioria das cooperativas visitadas apresenta dificuldades relacionadas com as questões contábeis. Algumas dificuldades são: elaboração de balanço, elaboração de balancetes mensais, análise das demonstrações contábeis, definição e contabilização do ato cooperativo, ausência de plano de contas adequado e inconsistência entre as peças contábeis. Das 81 cooperativas do ramo transporte visitadas, 36 (45%) cooperativas não seguem os artigos 80 e 81 da Lei n. 5.764/71, que dispõem sobre a forma de distribuição de despesas. Em relação à destinação das sobras líquidas apuradas no exercício findo, 9 (11%) cooperativas fazem o rateio em partes iguais, ferindo o inciso VII do artigo 4º da Lei n. 5.764/71. Os dados são preocupantes, pois demonstram que algumas cooperativas ainda não seguem a legislação específica. As questões tributárias foram muito demandadas, as cooperativas possuem muitas dúvidas sobre as bases de cálculo e as alíquotas dos tributos. Essas dúvidas são muito específicas, e não existe um consenso entre as cooperativas acerca do tratamento de cada tributo. Com relação ao conselho de administração, das 81 cooperativas visitadas, em 62 (77%) delas os membros do conselho de administração não receberam capacitação específica para o desempenho das funções. Este indicador é importante, pois, na medida em que os próprios gestores não se capacitam, a dificuldade de gerir o negócio é maior. Uma consequência dessa falta de capacitação é a resposta dos presidentes quando perguntados sobre quais são os maiores desafios para o cumprimento de suas atribuições. As respostas mais frequentes foram: Conhecer a tributação específica (50 cooperativas); Aplicar a Lei n° 5.764/71 (40 cooperativas); Utilizar os relatórios contábeis como ferramenta de decisão (37 cooperativas). • • • Os membros do conselho de administração, em sua grande maioria, têm conhecimento específico do negócio, daí a necessidade de se priorizar o acompanhamento dos processos de gestão tendo em vista que possuem pouco conhecimento sobre as peculiaridades da administração do empreendimento cooperativo. Apenas 19 (23%) cooperativas participaram de treinamento específico junto ao Sistema Ocemg/Sescoop - MG e 51 (63%) cooperativas visitadas não possuem planejamento estratégico. Em relação aos fatores que contribuem para o desenvolvimento da cooperativa no mercado, foram ressaltados pelos presidentes: A qualidade na prestação dos serviços; A necessidade de conhecer o mercado no qual atuam; A logística de transporte; Fidelização do cooperado. • • • • Tabela 3 Fatores que contribuem para o desenvolvimento da cooperativa no mercado 33 20 17 13 21 38 16 22 Fidelização do cooperado Planejamento estratégico 57 Financiamento e captação de recursos 34 Logística de transporte Tributação Capacitação do quadro funcional Capacitação do quadro social Profissionalização da gestão Formação de preço Estratégia de marketing 30 Qualidade na prestação de serviços 32 Pesquisa de satisfação dos clientes 43 Captação e manutenção de cliente Conhecimento de mercado Quais são os fatores que contribuem para o desenvolvimento da cooperativa no mercado? 38 Fonte: Ocemg, 2011. Estes itens apontados pelos gestores sugerem temas de cursos que podem ser desenvolvidos para atender às cooperativas visitadas. A fidelização do cooperado reforça a necessidade de se trabalhar a organização do quadro social. O conhecimento de mercado e a logística de transporte enfatizam a necessidade de se desenvolver cursos ligados ao negócio da cooperativa. Em relação ao conselho fiscal, identificou-se que 58 (72%) cooperativas visitadas não participaram de capacitação específica ministrada pelo Sistema Ocemg/Sescoop - MG. Com relação à periodicidade das reuniões do conselho fiscal, apenas 43 (53%) cooperativas realizam reuniões mensais, as demais fazem reuniões trimestrais ou quando necessário (17 cooperativas). No total, 21 cooperativas não fazem reuniões do conselho fiscal. Estes dados demonstram o baixo nível de profissionalização e o despreparo dos conselheiros, impactando na diminuição da transparência e concentração de poder na gestão do negócio cooperativo. Tabela 4 O conselho fiscal das cooperativas do Ramo Transporte. Conselho de Fiscal Qual a periodicidade das reuniões do conselho de fiscal? Sim 31 Ao assumir o cargo de conselheiro, o(s) membro(s) recebe(m) capacitação específica para o desempenho da função? Sim 23 Não Não 17 58 O conselho fiscal formaliza suas reuniões em atas? Mensal 43 Trimestral ou quando necessário 17 Não fazem reunião 21 Fonte: Ocemg, 2011. A maioria dos conselheiros exerce a atividade de motorista e possui baixo grau de instrução. Este fato tem grande impacto na realização de suas atribuições e as principais dificuldades identificadas por eles foram: • Analisar relatórios contábeis (49 cooperativas); • Aplicar a Lei n° 5.764/71 (29 cooperativas); • Verificar livros e documentos obrigatórios da cooperativa (28 cooperativas). Neste contexto, sugere-se a elaboração de uma Cartilha sobre o Conselho Fiscal e que os próximos trabalhos com as cooperativas visitadas contemple uma reunião orientada com os membros do conselho fiscal. 5.2- Ramos agropecuário É inquestionável a importância das cooperativas agropecuárias no contexto econômico social brasileiro. Bialoskorski (1994) ressalta que onde há cooperativas agropecuárias há também um aumento relevante na renda média dos produtores rurais e um crescimento econômico como um todo. Entre 2010 e 2011, foram visitadas 127 cooperativas singulares do ramo agropecuário. Desse total, 122 cooperativas responderam ao questionário aplicado pelos técnicos durante a visita. As demais receberam a visita, porém preferiram não responder ao questionário. Das 122 cooperativas, 29 são filiadas a uma central ou federação; as 93 restantes afirmaram não pertencer a nenhuma organização de grau superior. O número de cooperativas não associadas a uma federação representa 76% do total das cooperativas visitadas. Assim como no ramo transporte, esse dado mostra a necessidade de organização do ramo, que não possui representação efetiva das centrais e federações, com exceção das cooperativas que trabalham com leite, filiadas à Itambé. Do universo visitado, foi possível estabelecer uma classificação dos tipos de produtos oferecidos pelas cooperativas. A maioria das cooperativas visitadas trabalha com produção pecuária, principalmente leite (59 cooperativas), mel (4 cooperativas), aves (2 cooperativas), bovinos (1 cooperativa) e suínos (3 cooperativas). Algumas cooperativas também trabalham com produção agrícola, e os principais produtos são: algodão (4 cooperativas), café (27 cooperativas), milho (17 cooperativas), cana de açúcar (4 cooperativas), feijão (4 cooperativas) e soja (9 cooperativas). É importante destacar que uma cooperativa pode trabalhar com mais de um tipo de produto. Tabela 5 Participação das cooperativas visitadas na produção agropecuária PRODUTOS ALGODÃO ALHO ARROZ BANANA BATATA CACHAÇA CAFÉ CANA-DE-AÇÚCAR CENOURA FEIJÃO LARANJA MANDIOCA MILHO SOJA SORGO TRIGO UVA LEITE AVES SUÍNOS MEL Fonte: Ocemg, 2011. COOPERATIVAS PRODUÇÃO MÉDIA TOTAL 4 1 2 2 1 2 27 4 1 4 1 1 17 9 4 3 1 59 2 2 4 2.129 T 4.836 T 6.846 T 162.400 T 31.709 T 50.004 L 297.417 T 2.044.004 T 45.303 T 39.962 T 3.000 T 50 T 865.892 T 250.533 T 19.249 T 13.127 T 1.600 T 116.977.858 L 30.003 T 235.992 U 176 T Sobre a Organização do Quadro Social – OQS –, foi constatado que 99 (81%) cooperativas não possuem comitês educativos ou departamento que desenvolva trabalhos de conscientização sobre o cooperativismo para o quadro social e funcional. Apenas 23 afirmaram desenvolver trabalhos nessa área. Esses números, assim como no ramo transporte, apontam para a necessidade de ampliação do trabalho desenvolvido pelo Sistema Ocemg/Sescoop - MG de Organização do Quadro Social. Seria importante que o referido projeto ampliasse a quantidade de cooperativas agropecuárias atendidas e contemplasse o acompanhamento efetivo das ações do projeto desde a sua implantação até a concretização do trabalho na cooperativa. A comunicação direta com o presidente e o telefone são os meios de comunicação mais utilizados pelos cooperados. Pode-se observar que poucos cooperados se comunicam com a cooperativa através de e-mail, ofício ou caixa de sugestões. Esses dados demonstram que, na maioria das cooperativas, não há formalização das opiniões e sugestões, reforçando a necessidade de um programa de Organização do Quadro Social que favoreça a comunicação com os membros da cooperativa e mantenha os cooperados mais preparados, participativos e comprometidos com o empreendimento. É importante frisar que existem cooperativas que utilizam mais de um meio de comunicação. Tabela 6 Meios de comunicação dos cooperados com as cooperativas agropecuárias Quais são os principais meios de comunicação do cooperado com a cooperativa? Caixa de Comunicação direta Ofício Fax E-mail Telefone Outros sugestões com o presidente 17 13 30 99 7 109 16 Fonte: Ocemg, 2011. A carta/circular, o quadro de avisos e o telefone são os instrumentos mais utilizados pelas cooperativas para comunicar-se com seu quadro social. Também é importante ressaltar que 41 cooperativas possuem jornal próprio, o que indica um novo canal de comunicação entre o Sistema e os cooperados das cooperativas agropecuárias. Tabela 7 Meios de comunicação das cooperativas com os cooperados Que instrumentos a cooperativa utiliza para comunicar-se com o quadro social? Carta/Circular Jornal próprio Rádio Telefone E-mail Quadro de avisos Outros (reuniões, jornal, recados no RPA, site, pessoalmente) 97 41 56 82 51 85 45 Fonte: Ocemg, 2011. Das cooperativas visitadas que responderam ao questionário, 112 possuem funcionários e empregam 8.138 pessoas, porém apenas 26 (21%) delas oferecem capacitação específica sobre cooperativismo ao contratar novos colaboradores. Assim como no ramo transporte, é notória a necessidade de uma capacitação específica sobre cooperativismo para os funcionários das cooperativas visitadas. Apenas 33 cooperativas, ou seja, aproximadamente 27%, dispõem de programa de utilização dos recursos do Fates. Também é importante mencionar que 96 (78%) cooperativas possuem outros fundos, porém não fazem a previsão do modo de formação, aplicação e liquidação, como determina o artigo 28 da Lei n. 5.764/71. Das 122 cooperativas que responderam ao questionário, 18 não seguem os artigos 80 e 81 da Lei n. 5.764/71, que dispõem sobre a forma de distribuição de despesas. Em relação à destinação das sobras líquidas apuradas no exercício findo, 1 cooperativa faz o rateio em partes iguais, ferindo o inciso VII do artigo 4º da Lei n. 5.764/71. Esses dados são preocupantes, pois demonstram que algumas cooperativas ainda não seguem a legislação específica. As questões tributárias também foram muito demandadas no decorrer das visitas nas cooperativas do ramo agropecuário. As cooperativas possuem muitas dúvidas sobre as bases de cálculo e as alíquotas dos tributos. As referidas dúvidas são muito específicas, e não existe consenso entre as cooperativas acerca do tratamento de cada tributo. Seria muito importante que o Sistema mantivesse fóruns constantes de discussão sobre o assunto e fizesse um mapeamento sobre a incidência de cada tributo, pelo menos os de esfera federal e municipal que incidem sobre as cooperativas. Com relação ao conselho de administração, das 122 cooperativas que responderam ao questionário, em 95 (78%), os membros do conselho de administração não receberam capacitação específica para o desempenho das funções. Este indicador é importante, pois, demonstra a necessidade de desenvolver trabalhos com foco no aprimoramento gerencial dos dirigentes abordando os maiores desafios apontados por eles para o cumprimento de suas atribuições, como: • • • Conhecer a tributação específica (82 cooperativas); Utilizar os relatórios contábeis como ferramenta de decisão (53 cooperativas); Aplicar a Lei n° 5.764/71 (51 cooperativas). Em relação aos fatores que contribuem para o desenvolvimento da cooperativa no mercado, foram ressaltados pelos presidentes: • • • • • Conhecimento de mercado; Fidelização do cooperado; Qualidade na prestação dos serviços; Formação de preço; Profissionalização da gestão. Estes itens, apontados pelos gestores, sugerem temas de cursos que podem ser desenvolvidos para atender às cooperativas visitadas. A fidelização do cooperado reforça a necessidade de se trabalhar a organização do quadro social. O conhecimento de mercado, a qualidade na prestação de serviços e a formação de preços enfatizam a necessidade de se desenvolver cursos ligados ao negócio da cooperativa como, por exemplo, café, leite, cana, milho e soja. Tabela 8 Fatores que contribuem para o desenvolvimento da cooperativa no mercado. Fonte: Ocemg, 2011. 28 36 25 23 Fidelização do cooperado Planejamento estratégico 58 Financiamento e captação de recursos 17 Logística de transporte 27 Tributação 20 Qualidade na prestação de serviços 37 Pesquisa de satisfação dos clientes 46 Profissionalização da gestão Formação de preço Estratégia de marketing 17 Capacitação do quadro funcional 33 Capacitação do quadro social 72 Captação e manutenção de cliente Conhecimento de mercado Quais são os fatores que contribuem para o desenvolvimento da cooperativa no mercado? 58 Em relação ao conselho fiscal, identificou-se que 86 (70%) cooperativas visitadas não participaram de capacitação específica ministrada pelo Sistema Ocemg/Sescoop - MG. No que se referem à periodicidade das reuniões do conselho fiscal, apenas 80 cooperativas realizam reuniões mensais. As demais fazem reuniões trimestrais ou quando necessário (31 cooperativas) e 11 cooperativas não fazem reuniões do conselho fiscal. Estes dados demonstram o baixo nível de profissionalização e a necessidade de ampliar a oferta de cursos direcionados ao conselho fiscal das cooperativas. Tabela 9 O conselho fiscal das cooperativas do Ramo Agropecuário. Conselho de Fiscal Qual a periodicidade das reuniões do conselho de fiscal? O conselho de fiscal formaliza suas reuniões em atas? Mensal 80 Trimestral ou quando necessário 31 Não fazem reunião 11 Fonte: Ocemg, 2011. Sim 103 Não 18 Ao assumir o cargo de conselheiro, o(s) membro(s) recebe(m) capacitação específica para o desempenho da função? Sim 36 Não 86 As principais dificuldades identificadas pelos membros do conselho fiscal foram: • • • Analisar relatórios contábeis (85 cooperativas); Aplicar a Lei n° 5.764/71 (64 cooperativas); Verificar livros e documentos obrigatórios da cooperativa (44 cooperativas). Neste contexto sugere-se que os cursos direcionados ao conselho fiscal contemplem os assuntos apontados acima e enfatizem uma orientação mais prática (oferecendo modelos e planilhas de trabalho) para o desempenho das funções dos conselheiros. 6- Resultado e discussões As regiões Metropolitana de Belo Horizonte, Noroeste, Norte e Oeste de Minas, Triângulo Mineiro, Vale do Mucuri, Vale do Rio Doce e Zona da Mata já foram visitadas. Ao todo, foram visitadas 208 cooperativas, sendo 81 do ramo transporte e 127 do ramo agropecuário. Vários resultados foram observados, dentre os quais se podem destacar: a grande necessidade apontada pelas cooperativas em regionalizar os cursos; a necessidade por estreitar o relacionamento com o Sistema de forma decisiva, uma vez que muitas cooperativas ponderaram conhecê-lo apenas por correspondência e e-mails; a necessidade de ampliação para o desenvolvimento de projetos nas áreas de organização do quadro social, planejamento estratégico, governança corporativa, contabilidade e jurídica. Algumas ações estão sendo implementadas pelo Sistema Ocemg/Sescoop - MG, como a regionalização de cursos. 7- Conclusões A criação da Gerência de Acompanhamento de Cooperativas foi de suma importância para o Sistema, tendo em vista que o representa pessoalmente nas cooperativas, fato este que até então não ocorria. A presença física de técnicos in loco resulta na percepção, por parte da cooperativa, de que o Sistema está buscando alternativas concretas para atuar junto delas. Daí a necessidade de consolidar a Gerência de Acompanhamento de Cooperativas e ampliar o número de visitas, monitorando efetivamente as cooperativas. De forma geral, as cooperativas se mostraram satisfeitas com o trabalho realizado e almejam que essas visitas resultem em ações que desenvolverão o cooperativismo como um todo, visto que, para o mercado, uma cooperativa precisa ser tão competitiva, eficiente e eficaz como qualquer empresa de capital, senão estará fadada à liquidação. Assim, faz-se necessária a profissionalização da gestão, impulsionada pela capacitação, planejamento, organização do quadro social e funcional. Referências BRASIL. Lei Federal n. 5.764 de 16 de dezembro de 1971. Legislação cooperativista e resoluções do Conselho Nacional de Cooperativismo, Brasília, 1971. OCEMG – SINDICATO E ORGANIZAÇÃO DAS COOPERATIVAS DO ESTADO DE MINAS GERAIS. Disponível em: <http://www.minasgerais.coop.br>. Acesso em 24 de outubro de 2011. 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