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DIRECTOR Pe. José Mario O. Mandía | ANO 68 | Nº 19 | 30 de SETEMBRO de 2015 | QUARTA-FEIRA
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EDIÇÃO TRILINGUE | TRILINGUAL EDITION | SEMANÁRIO CATÓLICO DE MACAU | PREÇO 12.00 Mop
www.oclarim.com.mo
ALEXANDRE HAVARD,
FUNDADOR DO VIRTUOUS LEADERSHIP INSTITUTE
«A Rússia
e o Vaticano
estão cada vez
mais isolados»
DESTAQUE PÁGs. 2, 3, 4
Macau celebra
S. Francisco de Assis
LOCAL PÁG. 7
E
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MAESTRO AURELIO PORFIRI
SOBRE O ESTADO DA CULTURA EM MACAU
Para os amigos, tudo!
Ai que Dore!
OPINIÃO PÁG. 9
Vaticano acolhe
famílias sírias
Alternativa
aos
criminosos
LITURGIA PÁG. 14
OPINIÃO PÁG. 11
Porquê falarmos
da Família?
Voltamos
no dia
9 de Outubro
ECLESIAL PÁG. 16
LOCAL PÁG. 7
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O CLARIM | Semanário Católico de Macau | QUARTA-FEIRA | 30 de Setembro de 2015
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ALEXANDRE HAVARD, FUNDADOR DO VIRTUOUS LEADERSHIP INSTITUTE
«A Rússia e o Vaticano
estão cada vez mais isolados»
ci muitas pessoas que ficaram fascinadas
com o conceito de liderança virtuosa e se
ofereceram para trabalhar comigo. Estas
pessoas criaram estruturas em Washington, Paris, Moscovo, Xangai e Nairobi.
CL – Qual o objectivo?
A.H. – Diz a Igreja Católica que se
praticarmos as quatro virtudes cardeais
(prudência, coragem, auto-controle e
justiça) somos boas pessoas. Acontece
que a maioria dos cristãos não tem ideia
do que é a magnanimidade – a virtude da
grandeza – considerando que basta apenas cumprir as quatro virtudes cardeais.
Ora, a liderança deve ser um sonho na
nossa vida, um sentido de missão, um desejo de multiplicarmos os nossos talentos
JOSÉ MIGUEL ENCARNAÇÃO
EM
Moscovo (Rússia)
Francês de nascença, russo
de sangue, Alexandre Havard
trabalha com administradores
de empresas, forças armadas e
universidades espalhadas pelo
mundo. A’O CLARIM falou do
conceito de liderança virtuosa, do
ressurgimento da Rússia na esfera
mundial – colocando-a ao lado dos
Estados Unidos – de Cristianismo,
do movimento LGBT, do Médio
Oriente, da Ucrânia e de Vladimir
Putin. Uma conversa franca, em
território russo, inimaginável há
duas décadas.
O CLARIM – Criou o Virtuous Leadership Institute em resultado de uma experiência de vida. Fale-nos um pouco de si
e da organização a que preside?
ALEXANDRE HAVARD – Sou advogado de formação. Nasci e estudei em Paris, onde exerci advocacia durante alguns
anos. Também trabalhei em Estrasburgo
e na Finlândia. Vivi 18 anos em Helsínquia, onde descobri que seria mais útil
se fizesse qualquer outra coisa para além
da advocacia. O Virtuous Leadership Institute nasceu entre os meus alunos. Eu
leccionava História da Integração Europeia, na Universidade em Helsínquia.
Nas aulas falava nos grandes fundadores
da União Europeia: Gasperi, Adenauer,
Schuman e Monnet. Os meus alunos ficavam fascinados por estas personalidades e pediam-me que falasse sobre estes
assuntos e não sobre legislação da União
Europeia; que falasse sobre seres humanos e não sobre coisas. Descobri que, de
facto, a Universidade não estava a educar as pessoas. Estava a formá-las, mas
não a educá-las. “Education”, “educare”,
“educere” é trazer ao de cima as grandes
qualidades das pessoas. Não é implantar
modelos pré-concebidos em pequenos
cérebros. Desisti da advocacia e dediquei-me ao ensino da liderança virtuosa. Não
S E M A N Á R I O C C AT Ó L I C O D D E D M A C AU
A liderança deve ser um
sonho na nossa vida, um
sentido de missão, um
desejo de multiplicarmos
os nossos talentos e de
actuarmos. No final de
cada dia o meu instituto
ajuda muitos cristãos a
entenderem que não basta
ser bom; temos de ser
excelentes, magnânimos
se trata de ensinar técnicas de liderança,
de como manipular as pessoas, de como
ser bem sucedido. Queria antes mostrar
às pessoas o que é a liderança virtuosa.
Tem como base a virtude, o carácter, a
magnanimidade e a humildade. Magnanimidade enquanto grandeza e humildade enquanto serviço. A ideia era demons-
trar que a liderança tem como objectivo
alcançar a magnanimidade trazendo ao
de cima a grandeza que há dentro de nós.
Não tem a ver com sucesso. Escrevi vários
livros, traduzidos em quinze línguas, incluindo o Chinês, e comecei a ensinar
por todo o mundo – nos Estados Unidos,
na Europa, na China, em África. Conhe-
e de actuarmos. No final de cada dia o
meu instituto ajuda muitos cristãos a entenderem que não basta ser bom; temos
de ser excelentes, magnânimos. Não esperarmos pelo Salvador – esse já veio há
mais de dois mil anos. O pensamento é:
“Eu tenho de ser aquele que vai mudar
a humanidade, agora!” Temos talentos e
temos que estar a par dos nossos talentos.
Temos de agradecer a Deus pelos nossos
talentos, pelo que devemos utilizá-los.
Tem a ver com a dignidade e a criatividade de cada um. Ensino aos meus alunos
como desenvolver as virtudes da grandeza
e da humildade. Tem sido uma enorme
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descoberta para mim e para muitas pessoas. Fomos criados para a grandeza, não
para a mediocridade. Muitas pessoas são
exemplo de grandeza, devemos aprender
com elas. O mundo nunca mudará se tivermos uma visão fraca da humildade, se
tivermos uma mente pequena. A humildade deve estar ligada à magnanimidade.
Tanto cristãos, como não cristãos, entendem a nossa mensagem. Todos as pessoas
querem ser grandiosas. Os crentes entendem muito bem que devem ser magnânimos, devem actuar e transformar o mundo ao serviço de Deus. Os não crentes
começam a compreender que estes dons
são uma dádiva de Deus, pelo que devem
procurar Deus, se não começam a dar em
malucos e colapsam. Em termos gerais,
os cristãos precisam de mais grandeza e
os não crentes de mais humildade.
CL – Que tipo de pessoas procura o
instituto?
A.H. – Há tipos diferentes de pessoas.
Há os executivos de grandes empresas que
procuram alcançar a excelência. Quando
são novos procuram ter uma carreira e alcançar o sucesso. Depois de atingiram os
objectivos começam a pensar neles próprios e no sentido das suas vidas. Sou convidado por eles para ir às empresas, para
falar com os membros dos conselhos de
administração. Também sou procurado
por militares. No ano passado estive nos
Estados Unidos a convite das escolas de
guerra do Exército e da Marinha, onde se
formam os oficiais dos respectivos ramos.
Para além de militares de topo, também
trabalho com docentes de ensino. Somos
líderes quando educamos. Se não educarmos não somos líderes. Educar é trazer ao
de cima o melhor que há dentro dos outros. Se formos o patrão de uma empresa,
mas não soubermos ensinar, não sabemos
ser líderes. A grande maioria dos meus interlocutores são estudantes. Passo oitenta
por cento do meu tempo a trabalhar com
estudantes do Ensino Superior. Foram
os estudantes que me conduziram a este
modo de vida e estou-lhes grato. Todas as
semanas organizo palestras para eles. Criei
aqui em Moscovo um instituto juntamente
com vinte alunos. Serão eles que no futuro irão continuar este projecto e difundir
o conceito de liderança virtuosa por toda
a Rússia. Gostaria que se espalhasse por
todo o mundo. Há universidades nos Estados Unidos que colaboram connosco,
onde há inclusivamente um mestrado dedicado à liderança virtuosa. Na China já
estamos há dois anos, com algum sucesso.
Há empresas chinesas que nos procuram
e mostram-se satisfeitas com os progressos
alcançados.
CL – A presença ou ausência de liderança em cada um de nós pode explicar
o sucesso ou fracasso dos sistemas políticos, económicos e sociais?
A.H. – Chego à conclusão que muitas
pessoas não acreditam em Jesus, porque
não acreditam no Homem. Muitas pessoas
são pequenas porque misturam o Individualismo com o Socialismo. O Socialismo
diz-nos que não somos ninguém. O todo é
alguma coisa, mas nós, enquanto seres únicos, não somos nada. O Socialismo fala da
Sociedade, não há lugar para o indivíduo.
O Individualismo diz-nos precisamente
O Socialismo diz-nos que
não somos ninguém.
O todo é alguma coisa,
mas nós, enquanto seres
únicos, não somos nada.
Não há lugar para o
indivíduo. O Individualismo
diz-nos precisamente o
contrário: não precisamos
de servir os outros, somos
grandes, não precisamos
da Sociedade. “Eu,
eu e só eu”
o contrário: não precisamos de servir os
outros, somos grandes, não precisamos da
Sociedade. “Eu, eu e só eu”. No Individualismo não há substância – eu como Deus,
sem sentido de dignidade pessoal.
CL – Actualmente alguns CEO de grandes multinacionais são filhos de emigrantes ou provenientes de países terceiros,
sem qualquer ligação aos países-sede dessas empresas. Pode isto significar que o
poder está a ser transferido dos denominados países do centro para as periferias?
A.H. – O contacto com diferentes culturas dá-nos uma visão ampla do mundo.
Pessoas que se movem de Este para Oeste
e vice-versa tornam-se culturalmente superiores, pois conhecem diferentes tipos
de cultura e conseguem resolver os problemas com mais sabedoria. Um europeu
que só conhece a Europa, ou um americano que só conhece a América, tem uma
visão mais limitada. É por isso que muitos
enviam os filhos para a Rússia ou para a
Ásia, para verem que há diferenças entre
os diferentes blocos. Não me surpreende,
pois, que as grandes companhias coloquem os seus CEO em contacto com diferentes culturas, pois têm que lidar com
pessoas de todas as partes do mundo. No
entanto, não considero que tenha tanto a
ver com liderança, mas mais com capacidade de gestão. A liderança é espiritual.
Uma pessoa pode conhecer muitas culturas, mas continuar pequena se não for
magnânime, se não sonhar, se não procurar transformar o outro, se só pensar em
ganhar dinheiro.
CL – Num mundo cada vez mais global parecem existir duas realidades: a das
pessoas e a dos políticos. Enquanto nós,
cidadãos comuns, procuramos unificar
o mundo, os políticos erguem muros,
aprofundando o fosso entre Norte e Sul,
entre Este e Oeste. Como olha a actual
dicotomia Estados Unidos/União Europeia – China/Rússia?
A.H. – É verdade! Quando estou junto
dos mais novos reparo que as suas vidas
não são muito diferentes da vida de um
francês ou de um chinês. Têm os mesmos
iPhones, os mesmos smartphones, os
mesmos iPads, não vêem televisão, ouvem
o mesmo tipo de música. Existe de facto
uma cultura global muito alicerçada nos
Estados Unidos, que impuseram ao mundo um tipo de cultura espiritualmente
muito pobre. Uma cultura baseada no
sucesso e no dinheiro a curto prazo. Não
tem como missão espraiar a espiritualidade e os valores do Cristianismo, mas que
é muito eficiente e, por isso, muito poderosa. No caso da Rússia, por exemplo, depois do colapso do Marxismo os Estados
Unidos ocuparam um lugar que ficou
vago. Acontece que no final dos anos 90
já os russos andavam muito desiludidos.
O Marxismo tinha caído e impusera-se o
Liberalismo – o dinheiro haveria de resolver todos os problemas. Tivemos aquilo a
que chamamos “terapia de choque” (dos
tipos de Harvard), com a introdução do
Capitalismo Individualista, como se tal
pudesse substituir 70 anos de Comunismo de um dia para o outro... Em 2000 Boris Yeltsin chorou e pediu perdão ao povo
Existe de facto uma
cultura global muito
alicerçada nos Estados
Unidos, que impuseram
ao mundo um tipo de
cultura espiritualmente
muito pobre. Uma cultura
baseada no sucesso e no
dinheiro a curto prazo. Não
tem como missão espraiar
a espiritualidade e os
valores do Cristianismo
russo por ter falhado. Sugeriu que votassem em Vladimir Putin, que assumiu o
poder com uma visão totalmente diferente do seu antecessor. Yeltsin considerava
que o Comunismo era tão mau, tão mau,
que o Liberalismo só podia ser melhor.
Depois de dez anos no Poder percebeu
que o Liberalismo não é a solução para
a Rússia. O Comunismo e o Liberalismo
têm a mesma visão do Ser Humano, que
CONTINUA
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A geopolítica dos Estados
Unidos para o Médio
Oriente é totalmente
criminosa. São mortos
anualmente cem mil
cristãos no Médio Oriente
devido à sua acção. Há um
“complot” internacional
para matar os cristãos. A
razão para não deixaram a
Rússia resolver o problema
é porque são anti-cristãos
é reduzi-lo à insignificância. Putin foi
educado nas fileiras do KGB, tinha outra
visão. Percebeu que a estrutura da Rússia tinha colapsado... e que o País tinha
a bomba atómica. O Papa João Paulo II
apercebeu-se do problema e assustou-se.
Putin reabilitou o Estado russo, destruiu
a Máfia, combateu a corrupção – ainda
há muita mas vem diminuindo de ano
para ano – e revelou qual a visão que tem
para o mundo, na qual os Estados Unidos
não podem ser os únicos a ditar as regras
na esfera internacional. Hoje no Médio
Oriente a Rússia tem uma palavra a dizer,
apoiando o Governo sírio no combate ao
Estado Islâmico, que luta com armas fornecidas pelos Estados Unidos, o que fez
reavivar o orgulho da nação russa.
CL – Talvez a solução passe pela Rússia encontrar os seus próprios modelos,
à semelhança do que tem feito a China...
A.H. – A Rússia de hoje promove determinados valores, como a Tradição, a Igreja e a Família. Não matamos ninguém do
movimento LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgénero), mas também não
permitimos que façam propaganda nas
escolas junto dos mais novos. Não prendemos por prender. As “Pussy Riot” só foram presas porque entraram numa igreja
e atentaram contra a ordem pública. A
Administração Obama e os Estados europeus estão de mãos dadas com o movimento LGBT e por isso odeiam a Rússia.
O mais curioso é que os actuais líderes
europeus são quase todos ex-marxistas,
ex-maoístas ou ex-trotskistas. Nos anos
70 e 80 amavam a União Soviética e agora detestam a Rússia. As mesmas pessoas
que hoje escrevem coisas horríveis sobre
a Rússia são as mesmas que escreviam
coisas bonitas sobre a União Soviética. O
mundo mudou. Depois do Comunismo
na União Soviética o mal passou, muito
provavelmente, para os Estados Unidos.
A Virgem Maria triunfou no nosso país.
Nós que estudámos na Europa adoráva-
A Administração Obama
e os Estados europeus
estão de mãos dadas com
o movimento LGBT e por
isso odeiam a Rússia. O
mais curioso é que os
actuais líderes europeus
são quase todos exmarxistas, ex-maoístas ou
ex-trotskistas. Nos anos
70 e 80 amavam a União
Soviética e agora
detestam a Rússia
mos os Estados Unidos, a sua estratégia,
o seu poder, mas quando o Comunismo
acabou revelou-se que afinal os Estados
Unidos não queriam destruir o Comunismo, queriam destruir a Rússia, porque a
Rússia é um adversário. Ronald Reagan,
um cristão, odiava o Comunismo, mas
adorava os russos. Depois dele, quem
veio a seguir – especialmente os Bush
– odeia a Rússia. Para eles a Rússia é o
Diabo. Muitas pessoas da Administração
Obama odeiam a Rússia, porque esta tem
outra visão que eles não entendem nem
aceitam. Os Estados Unidos querem espalhar a Democracia por todo o mundo,
nos Estados islâmicos, na Ásia, e os russos são um obstáculo porque pensam de
outra maneira. Deus quer que a Rússia
e a Ásia pensem de outra maneira e isso
é bom. A China e a Rússia não querem
que haja um pensamento global para
sempre. Enquanto os Estados Unidos e a
Europa vão caindo em termos espirituais,
a Rússia eleva-se. A Europa vai no sentido
contrário ao Cristianismo, em direcção
ao Paganismo; vem negando as raízes do
Cristianismo e dos valores por detrás da
construção europeia. Por sua vez, a Rússia está a sair do túnel do Comunismo em
direcção ao Cristianismo. A questão não
é onde estamos, mas para onde vamos.
O Ocidente detesta a Igreja, a Família,
promove o puro individualismo e o movimento LGBT em nome da liberdade.
CL – Nos poucos dias que estou em
Moscovo pude-me aperceber que a cidade é muito limpa, organizada e segura. As
pessoas trabalham, as famílias são unidas
e os fiéis frequentam a Igreja. Como se
consegue isto nos dias de hoje?
A.H. – É verdade mas não se esqueça
que está em Moscovo, na capital. Se for
para fora, para o interior, há alguma pobreza e muita gente a consumir álcool.
O alcoolismo é o nosso maior problema.
O povo russo procura cumprir as regras.
O temperamento dos russos é diferente,
são muito introvertidos, embora bastante
sociáveis. Talvez por isso tenhamos muitos
pintores, músicos e escritores. É isso que
muitos estrangeiros gostam na Rússia, da
sua seriedade e profundidade. Ao princípio não gostam de vir para a Rússia, mas
passado um ano já não querem sair. Aqui
não há superficialidade, as pessoas gostam
de falar de coisas sérias, seja onde for.
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CL – De acordo com a lei, a Rússia é
um país secular, mas se olharmos para algumas notas de Rublo vemos representadas catedrais. A Ortodoxia é, na prática,
a religião do Estado?
A.H – Não temos qualquer preconceito em relação ao Cristianismo, ao contrário do que acontece no Ocidente, onde
as pessoas não falam sobre a sua fé. Na
Rússia a Igreja é considerada como algo
positivo. A Igreja foi destruída pelo Comunismo. Havia 400 bispos e sobraram
apenas três. Sentimos o fim da Civilização. É uma era que já terminou e os russos querem viver uma vida normal e o
Cristianismo faz parte das suas vidas.
CL – A Europa enfrenta uma onda de
refugiados que traz consigo outra cultura
e religião. O Presidente Putin quer resolver o problema, exterminando o Estado
Islâmicos e outros grupos terroristas,
mas tem deparado com alguns entraves
colocados pelos Estados Unidos e seus
aliados. Como analisa esta situação?
A.H – O que diz é verdade. A geopolítica dos Estados Unidos para o Médio
Oriente é totalmente criminosa. São
mortos anualmente cem mil cristãos no
A NATO entrou na Polónia,
nos Balcãs e começou
a expandir-se para a
Ucrânia. Acontece que a
Rússia sempre disse que
a Ucrânia deveria ficar
de fora das intenções
da NATO, uma vez que
nós, russos, também
somos ucranianos. Todos
os russos têm raízes
ucranianas. Todos nós
nascemos na Ucrânia
Médio Oriente devido à sua acção. Há
um “complot” internacional para matar
os cristãos. A razão para não deixaram a
Rússia resolver o problema é porque são
anti-cristãos. Pergunte a opinião das pessoas e dos bispos que ainda lá estão e elas
dizem-lhe o que pensam sobre a Rússia.
Os Estados Unidos estão a destruir e a torturar esta gente. No Governo dos Estados
Unidos ou são malucos ou simplesmente criminosos. Bashar al-Assad está a ser
perseguido apenas porque não quis cumprir as regras que lhe foram impostas. Os
países têm o direito de não quererem ser
marionetas dos Estados Unidos. Espero
que a Rússia seja bem sucedida, pois temos cerca de vinte milhões de muçulmanos dentro do nosso território. Imagine
que os muçulmanos extremistas, do lado
de lá da fronteira, faziam chegar armas às
nossas comunidades, acompanhadas por
discursos de ódio... Os muçulmanos rus-
sos não são extremistas, mas podem ser
fanatizados. Se não fizermos nada agora,
podemos vir a sofrer as consequências.
CL – Ouvimos falar muito sobre o conflito na Ucrânia. Sendo russo, pode partilhar a sua visão?
A.H. – A situação na Ucrânia foi provocada de forma totalmente artificial
pela NATO, por razões meramente geopolíticas. Quando o Comunismo acabou
a NATO disse a Mikhail Gorbachev que
não iria expandir para Leste. A partir
do momento em que o Pacto de Varsóvia terminou, a NATO também deveria
ter deixado de existir. A NATO foi formada para combater a União Soviética e
não para combater a Rússia. Com Bush
tudo se alterou. A NATO ganhou força
e procuraram conquistar culturalmente
a Rússia e o resto do mundo. A NATO
entrou na Polónia, nos Balcãs e começou
a expandir-se para a Ucrânia. Acontece
que a Rússia sempre disse que a Ucrânia
deveria ficar de fora das intenções da
NATO, uma vez que nós, russos, também
somos ucranianos. Todos os russos têm
raízes ucranianas. Todos nós nascemos
na Ucrânia. Só no século XIII é que os
ucranianos partiram, da zona de Kiev,
para Nordeste. O Governo americano,
em conjunto com o movimento LGBT,
tem como missão declarar guerra à Rússia, à nossa tradição e conservadorismo.
O Papa Francisco está muito bem ciente
desta realidade e não parece nada satisfeito com o facto dos Estados Unidos lhe
dizerem como deve lidar com o Presidente Putin. O Vaticano tem mais de dois mil
anos de história diplomática, não precisa
que seja o Governo dos Estados Unidos a
dizer como se deve comportar.
CL – Considera ser possível uma visita
do Papa Francisco à Rússia, a curto ou
médio prazo?
A.H. – Claro que sim, é muito possível, até porque a Rússia e o Vaticano estão cada vez mais isolados. Um dia irão
chegar a um entendimento. A Rússia
é o único país com poder que defende
os valores do Cristianismo de forma oficial, enquanto os Estados Unidos os destroem. Há notícias que apontam para
um encontro entre o Papa e o Patriarca
da Igreja Ortodoxa Russa, já no próximo
ano, talvez na Finlândia.
CL – Estará o mundo a precisar de
mais líderes virtuosos?
A.H. – O mundo tem muitos líderes
virtuosos, mas infelizmente não estão
no Poder. No caso da Rússia temos de
produzir líderes virtuosos entre os mais
jovens. Dentro de uma década esse objectivo será concretizado. Já o Ocidente
tem muitos líderes virtuosos em todas as
áreas, mas quando falecerem não haverá
quem os substitua. As ideias liberais e o
movimento LGBT têm contribuído para
a destruição dos valores do Cristianismo,
sem os quais não há líderes virtuosos.
Ainda assim a situação será mais dramática na Europa do que nos Estados
Unidos, pois estes ainda têm uma larga
franja da população que é cristã e luta
pelos seus ideais.
CL – A verdade é que os novos líderes
que aparecem na Rússia vão sendo abafados por Putin...
A.H. – Quando o Presidente Putin foi
eleito, por larga maioria, podia fazer o
que bem entendesse – um pouco ao jeito do General De Gaulle em França, nos
anos 60. Sempre que há eleições aparecem partidos e candidatos ligados ao Liberalismo e ao movimento LGBT – mais
liberdade e menos Cristianismo. Os russos não querem este modelo. Se as eleições fossem amanhã Putin seria reeleito
com setenta por cento dos votos. É uma
personalidade muito atraente. É muito
inteligente, muito esperto, tem um pensamento muito rápido, não é marioneta de ninguém. Por vezes os jornalistas
ficam desarmados com as respostas que
dá, pois conhece muito bem os dossiês.
Não é como o Presidente de França, o
senhor Hollande, que é ridículo, uma
Se as eleições fossem
amanhã Putin seria
reeleito com setenta
por cento dos votos.
É uma personalidade
muito atraente. É muito
inteligente, muito esperto,
tem um pensamento
muito rápido, não é
marioneta de ninguém.
Por vezes os jornalistas
ficam desarmados com
as respostas que dá, pois
conhece muito bem
os dossiês
marioneta. Não sabe falar, não sabe o
que quer. O Presidente Putin sabe o que
quer e quando quer. Quando é preciso
zanga-se e mostra que está zangado. Não
é como no Ocidente em que está sempre tudo bem. Depois é um desportista,
foi campeão de judo em São Petersburgo quando era novo. É disciplinado,
não se deixa engordar como os líderes
do Ocidente. Claro que isso fragiliza
os adversários. Quem poderá gostar do
senhor Hollande com aquele aspecto?
Um Presidente tem de ser activo e não
um boneco como acontece no Ocidente. Tem de haver modelos que sirvam de
referência para a população em geral e
para os mais novos em particular. Quando conseguirmos vencer a corrupção a
Rússia vai voar bem alto.
LOCAL
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CONHECER AS LEIS DE MACAU
Salário mínimo para os trabalhadores de limpeza
e de segurança na actividade de administração predial
A Lei n.º 7/2015 (Salário mínimo para os trabalhadores de
limpeza e de segurança na actividade de administração predial) foi publicada no Boletim
Oficial da Região Administrativa Especial de Macau em 13 de
Julho e entrará em vigor no primeiro dia de Janeiro de 2016.
Esta lei fixou o salário mínimo
para os trabalhadores que exerciam trabalhos de limpeza e de
segurança na actividade de administração predial.
Fixação do salário mínimo
O Governo da Região Administrativa Especial de Macau começou a promover em 2007 a política de salário mínimo aplicável
aos trabalhadores que prestavam
serviço de limpeza e segurança
nas instalações dos organismos
de Administração Pública adjudicado às empresas privadas, com
vista a providenciar garantias
remuneratórias a empregados
desse sector. Para dar continuidade à política de melhorar a remuneração dos trabalhadores de
baixo rendimento, o Governo irá
pôr gradualmente em prática a
política de salário mínimo. Com
base na experiência de aplicação
desta medida, na presente fase, o
Governo irá em primeiro lugar
promover a política de salário
mínimo aos trabalhadores que
prestam serviço de limpeza e de
segurança na actividade de administração predial.
Ponderadas as diversas circunstâncias da situação, designadamente, se o rendimento
do trabalhador é suficiente para
dar cobertura às necessidades
correntes da vida, a capacidade
das empresas e dos empregadores de suportar estes encargos,
a competitividade em termos
globais da RAEM, as condições
de exercício comercial da sociedade e a comparação com
a realidade de regiões vizinhas
que aplicam a política de salário
mínimo, a Lei n.º 7/2015 (Salário mínimo para os trabalhadores de limpeza e de segurança
na actividade de administração
predial) fixou o valor do salário mínimo aos trabalhadores
de limpeza e de segurança na
actividade de administração
predial, com as seguintes especificações: para os trabalhadores cuja remuneração seja cal-
culada à hora, 30 patacas por
hora; para os trabalhadores
cuja remuneração seja calculada diariamente, 240 patacas
por dia; para os trabalhadores
cuja remuneração seja calculada mensalmente, 6 240 patacas
por mês. A lei determina que o
salário mínimo não compreende a remuneração do trabalho
extraordinário, nem o 13.º mês
de salário ou outras prestações
de natureza semelhante.
Âmbito de aplicação
A Lei n.º 7/2015 (Salário mínimo para os trabalhadores de
limpeza e de segurança na actividade de administração predial) tem como destinatários
os trabalhadores de limpeza e
de segurança na actividade de
administração predial, sendo
aplicável às seguintes relações
de trabalho:
1) Estabelecidas com trabalhadores, contratados por prestadores de serviço que exercem
a actividade de administração
predial, para prestarem servi-
ços de limpeza e de segurança
a outrem em espaços públicos e
prédios urbanos;
2) Estabelecidas com trabalhadores, contratados por proprietários de prédios urbanos
destinados à habitação, para
realizarem trabalhos de limpeza e de segurança nas partes comuns dos mesmos.
Independentemente da designação de categoria do trabalhador, considera-se exercício
de trabalhos de limpeza e de
segurança:
1) A realização de trabalhos
de varrimento e lavagem, com
uso de equipamentos, instrumentos ou agentes de limpeza,
e outros trabalhos similares;
2) A guarda e protecção de
bens móveis e imóveis;
3) A vigilância e controlo do
acesso, permanência e circulação de pessoas em espaços públicos e prédios urbanos.
Normas sancionatórias
Caso vier estipulada no con-
trato uma remuneração que
viole as normas sobre o valor
do salário mínimo, esta é considerada inexistente, sendo a
entidade patronal obrigada a
pagar a remuneração devida.
O empregador que não pagar
o salário mínimo estipulado
pela lei, pode ser punido com
a multa máxima de 50 000 patacas (a multa é calculada em
função do número de trabalhadores envolvidos; se a infracção envolver dois trabalhadores, a multa máxima pode
chegar às 100 000 patacas, e
daí para diante). Compete à
Direcção dos Serviços para os
Assuntos Laborais fiscalizar o
cumprimento da lei.
Revisão do valor
De acordo com a Lei n.º
7/2015 (Salário mínimo para
os trabalhadores de limpeza e
de segurança na actividade de
administração predial), o valor do salário mínimo é revisto
anualmente, sendo a primeira
revisão efectuada um ano após
a entrada em vigor da lei, podendo o respectivo valor ser
actualizado de acordo com a
situação do desenvolvimento
económico.
Os interessados em conhecer
melhor as normas da Lei n.º
7/2015, (Salário mínimo para
os trabalhadores de limpeza e
de segurança na actividade de
administração predial), podem
contactar a Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais
pelo n.º De telefone 28717810
ou consultar os seguintes “websites”, para mais informações:
a Direcção dos Serviços para
os Assuntos Laborais www.dsal.
gov.mo e a Direcção dos Serviços de Assuntos de Justiça www.
dsaj.gov.mo.
Obs. Na elaboração do presente artigo, teve-se como referência o disposto na
Lei n.º 7/2015 (Salário mínimo para os
trabalhadores de limpeza e de segurança
na actividade de administração predial).
Texto fornecido pela Direcção
dos Serviços de Assuntos de Justiça
O CLARIM | Semanário Católico de Macau | QUARTA-FEIRA | 30 de Setembro de 2015
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PT
MAESTRO AURELIO PORFIRI
SOBRE O ESTADO DA CULTURA EM MACAU
Para os amigos, tudo!
PEDRO DANIEL OLIVEIRA
[email protected]
O maestro italiano Aurelio Porfiri regressa hoje definitivamente
a Roma, com a «sensação do dever
cumprido nos sete anos de docência em
Macau». Na bagagem leva também
«o desejo de que os responsáveis pela Cultura identifiquem os problemas de base»
que estão a minar o sector e «procurem soluções» que tragam benefícios
para as novas gerações que vivem
no território.
Tendo notado que «os padrões
culturais são muito pobres em Macau»,
disse que «há o património da herança
cultural deixada pelos portugueses e demais ocidentais, tais como os italianos,
que é bastante rico». Contudo, «o problema está em quem gere este património.
Ou seja, há pessoas que não dominam
as questões do património», referiu
Porfiri, acrescentando que «o mesmo
acontece com a música».
A título de exemplo, salientou
que o Festival Internacional de Música de Macau é um tipo de evento
que não tem grande impacto na
comunidade local: «Trazem músicos
famosos e pagam-lhes muito para tocarem cá, mas depois tudo se esquece. Deviam trazer esses músicos famosos, talvez durante seis meses, para ministrar
“workshops”. Infelizmente, os apoios vão
numa certa direcção de modo a favorecer
determinadas pessoas. Não favorecem
a qualidade, mas as pessoas que fazem
parte de um certo círculo. É este o problema. Ter dinheiro para pagar um carro
bonito não faz dela uma pessoa bonita.
Não devemos dar peixes às pessoas, mas
sim ensiná-las a pescar».
Aurelio Porfiri admitiu que já
foi apoiado pela Fundação Macau,
algo que considerou ser um processo bastante difícil para um estrangeiro. «Tive a sorte de ser apoiado pelas
escolas [Colégio Santa Rosa de Lima
e Escola de Nossa Senhora de Fátima], seja por me darem a oportunidade de ter cá trabalhado, seja pelo apoio
financeiro para realizar eventos musicais», referiu, acrescentando que
por vezes também foi apoiado pela
Direcção dos Serviços de Educação
e Juventude.
Para si, o estado da Cultura é
transversal ao sistema educativo de
matriz chinesa, em que os métodos
de ensino muitas vezes não favorecem o florescimento da criatividade e da inovação nos alunos. «O
problema é que o sistema educativo não
ajuda a desenvolver as suas faculdades, porque nem a criatividade favorece.
Muitos alunos têm medo de errar, por
isso preferem ficar quietos e não agir»,
vincou.
No território, o maestro Aurelio Porfiri foi professor-associado
do Instituto Inter-Universitário de
Macau, actual Universidade de São
José, director das actividades corais
do Colégio Santa Rosa de Lima (Secção Inglesa) e colaborador da Escola
de Nossa Senhora de Fátima. É colaborador musical no suplemento d’O
CLARIM em Inglês.
LOCAL
PADRE PAULO TCHEONGUE
FALECEU AOS 77 ANOS
Nobre trabalho
em Timor
O padre Paulo Tcheongue
(
) faleceu no passado dia 14 de Setembro,
no Centro Hospital Conde
de São Januário, vítima de
doença prolongada. Tinha
77 anos de idade. A missa
de corpo presente foi celebrada no dia 21 de Setembro, na Sé Catedral.
D. José Lai, bispo de
Macau, presidiu à cerimónia fúnebre, tendo o Coro
dos Antigos Alunos do Seminário de São José prestado homenagem ao ex-aluno daquela instituição
de ensino. O padre Paulo
Tcheongue foi a enterrar
no cemitério de São Miguel Arcanjo.
«Quando acompanhei D.
José Lai a Timor-Leste, em
Agosto último, para as comemorações dos 500 anos da
evangelização do povo timorense visitámos a escola-capela
que ele fundou para servir a
comunidade chinesa em Díli.
Chama-se agora Colégio Paulo VI e funciona como uma
escola normal pertencente à
diocese de Díli, sob a égide da
Fundação São Paulo», referiu a’O CLARIM o padre
Domingos Soares, vigário
da Sé Catedral para a co-
munidade portuguesa e
outros crentes.
O padre Paulo Tcheongue nasceu no seio de
uma família católica em
Siu Hing (China), então
parte da diocese de Macau. No território estudou
no Seminário de São José,
onde terminou os cursos
de Filosofia e Teologia,
recebendo a ordenação
sacerdotal das mãos de D.
Paulo José Tavares, a 24
de Abril de 1966.
Três anos depois foi enviado para Timor, como
membro do Padroado
Português no Extremo
Oriente, para servir a
comunidade chinesa de
Díli. Permaneceu até
1975, quando a ocupação
de Timor pelas tropas
Indonésias o obrigou a
ir para Portugal. Esteve
depois em Singapura,
regressando a Macau no
início de 1979, onde desenvolveu trabalho pastoral até ao agravamento da
doença de que padecia.
Passou os últimos tempos
no lar de idosos “Betânia”, na Ilha Verde.
P.D.O.
DOMINGO, 4 DE OUTUBRO, NA SÉ CATEDRAL
Festa de São Francisco de Assis
As Irmãs Franciscanas Missionárias de Nossa Senhora celebram no próximo Domingo, dia 4 de Outubro, o seu fundador, São
Francisco de Assis, com eucaristia marcada
para as 11 horas, na igreja Sé Catedral. Presidida por D. José Lai, bispo de Macau, e
concelebrada por vários sacerdotes, a missa
contará ainda com a presença das Irmãs
Franciscanas Missionárias de Maria e das
Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora dos
Anjos, além de crentes em geral.
«A Igreja, constituída pelo povo de Deus,
teve e tem muitos que o adoram e o evocam. Ao
longo dos séculos destacaram-se, como exemplos
vivos de seguimento de Jesus Cristo, que é o rosto de Deus, entre eles, Francisco de Assis. Este
Santo fez do Evangelho a norma da sua vida.
Por esta razão, e porque há muitos franciscanos
e franciscanas espalhadas pelo mundo, também
aqui em Macau o Nosso Deus é louvado por
quem se consagrou totalmente a Jesus Cristo no
estilo de São Francisco de Assis», disse a irmã
Maria Lúcia a’O CLARIM.
«Assim, a eucaristia do próximo Domingo
será uma ocasião para todos nós nos unirmos
a estas irmãs franciscanas para louvarmos com
fé, entusiasmo e alegria o nosso Deus, em honra
de São Francisco de Assis», sublinhou a Franciscana Missionária de Nossa Senhora.
P.D.O.
O CLARIM LANÇA OBRA – A “História da Salvação – Tempo de Israel” é oficialmente lançada no auditório do Paço Episcopal, com a presença de D. José Lai, bispo de Macau. Na ocasião, o director do
semanário católico, padre José Mario Mandía, referiu que as infografias do livro já estão a chegar a
lugares tão distantes como a Nigéria e o Quénia.
CARTOON
O CLARIM | Semanário Católico de Macau | QUARTA-FEIRA | 30 de Setembro de 2015
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A SANTA CASA DA MISERICÓRDIA
FELICITA
a República Popular
da China
pelo seu 66º Aniversário
PT
O CLARIM | Semanário Católico de Macau | QUARTA-FEIRA | 30 de Setembro de 2015
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PT
O L H A N D O
E M
OPINIÃO
R E D O R
Ai que Dore!
PEDRO DANIEL OLIVEIRA
consciencialização da opinião
pública ocidental sobre o País,
que na última década se tornou
num parceiro privilegiado para
muitas nações, além de ser
imprescindível no garante da
estabilidade e da paz mundial.
Por enquanto, ainda
há bastantes resistências a
ultrapassar até atingir o seu
objectivo. Sabendo que o
Ocidente não goza de perfeita
saúde financeira, é certo
que uma vantagem será a
capacidade de investimento
nos media ocidentais.
[email protected]
A
scende a mais de 400
milhões de dólares de
Hong Kong (?!?!) o
montante que várias dezenas
de queixosos provenientes de
Macau, de Hong Kong e da
China continental reclamam
do alegado desfalque que
afectou a Dore.
Segundo a Imprensa local, foi
a própria promotora de Jogo a
denunciar o crime de burla que
terá sido praticado pela então
contabilista-chefe da Dore, Chao
Ioc Mei, no casino da Wynn
Resorts. A Dore afirma que nada
deve aos lesados que fizeram os
seus investimentos nas salas VIP
desta sociedade de “junkets”,
porque também foi vítima, razão
pela qual apresentou queixa na
Polícia Judiciária.
As questões de fundo que se
põem são as seguintes: O desvio
de milhões de dólares de Hong
Kong foi efectuado por quem?
Foi ou não por uma funcionária
paga pela Dore? Não terá esta
empresa a responsabilidade
de ter escolhido a funcionária
para desempenhar o cargo que
ocupava, nem de controlá-la e
de vigiá-la?
O artigo 31º do Regulamento
Administrativo nº 6/2002 parece
não dar razão à pretensão da
Dore, porque «os promotores de
jogo são responsáveis solidariamente
com os seus empregados e com os
seus colaboradores pela actividade
desenvolvida nos casinos por estes,
bem como pelo cumprimento, por
parte dos mesmos, das normas legais
e regulamentares aplicáveis».
Já os artigos 29º e 30º-A,
referentes às responsabilidades
das concessionárias e
subconcessionárias, estipula
que as seis operadoras «são
responsáveis solidariamente
com os promotores de jogo pela
actividade desenvolvida nos
casinos pelos promotores de jogo e
administradores e colaboradores
deles, bem como pelo cumprimento,
por parte dos mesmos, das normas
legais e regulamentares aplicáveis».
Salvo interpretação legal em
contrário, a responsabilidade
solidária que se pode invocar
à Wynn Resorts aplica-se em
OBSCURO NG LAP SENG
casos de obrigações para com o
Governo. Se uma funcionária de
uma empresa “junket” faz um
desfalque, mesmo que à revelia
da entidade empregadora, como
poderá uma concessionária,
ou subconcessionária,
responsabilizar-se pelo sucedido?
Por outras palavras, quaisquer
actos internos, ao nível da
gestão, de uma sociedade
comercial ou anónima a operar
nos “junkets” não poderão
ser imputados a quem detém
qualquer uma das seis licenças
de Jogo. Caso contrário, faziam
o que bem lhes apetecesse
porque haveria sempre alguém
para saldar os incumprimentos.
BRILHANTE XI JINPING
«Damos as boas-vindas aos
media e correspondentes estrangeiros
na cobertura de histórias da China,
apresentando o desenvolvimento
da China no mundo e ajudando
o mundo a aproveitar as
oportunidades [proporcionadas]
pelo desenvolvimento» do gigante
asiático, afirmou Xi Jinping
ao magnata da Comunicação
Social, Rupert Murdoch.
A declaração proferida no
passado dia 18 de Setembro foi
registada pela Xinhua durante
a deslocação do presidente da
News Corp a Pequim, onde
visitou o Grande Palácio do
Povo.
Parece que a afirmação
do Presidente da RPC
terá surpreendido alguns
observadores porque as
autoridades chinesas têm
ordenado o bloqueio de sítios
da Internet em Chinês do
New York Times, da Bloomberg
News, da Reuters e também do
Wall Street Journal (de Rupert
Murdoch).
Talvez porque estão pouco
informados sobre a verdadeira
realidade da China, ou porque
andam “envenenados” pelos
conglomerados económicos
a que pertencem, escapalhes que Xi Jinping precisa
da Imprensa ocidental para
o País se dar a conhecer ao
mundo, daí atrair os media
mais influentes do planeta,
invariavelmente norteamericanos.
Não considero que o
Presidente chinês se esteja
a “enfiar na toca do lobo”,
mas há vários problemas de
monta a resolver porque tais
Órgãos de Comunicação
Social quererão sempre,
numa primeira fase, obstruir a
estabilidade político-social da
China apenas porque directa
ou indirectamente servem
os interesses de uma nação
ocidental que a todo o custo
deseja exercer o seu poderio
mundial a salvo de princípios
de que é apologista, mas pouco
os guarda até mesmo dentro
de casa, sendo um deles os
Direitos Humanos.
Xi Jinping quer que o
mundo fique a conhecer
a China para haver menor
desconfiança e maior
Macau está outra vez nas
“bocas do mundo” – pelas
piores razões – devido à
detenção em Nova Iorque do
empresário do imobiliário
Ng Lap Seng. Contra
ele recai a acusação de
introduzir ilegalmente nos
Estados Unidos mais de 4,5
milhões de US dólares em
dois anos. Segundo o FBI, o
dinheiro não se destinava à
aquisição de obras de arte,
nem de antiguidades ou de
imobiliário, mas sim para
pagar «actividades ilegais».
Contou-me uma águia (para
não dizer “passarão”) que o
“timing” desta detenção em
solo norte-americano não
aconteceu por acaso porque
Ng Lap Seng já estava há muito
referenciado pelo FBI. Entre
várias revelações, deixou-me
uma pista: no corrente mês de
Setembro os EUA entregaram
pela primeira vez a Pequim um
suspeito de crimes económicos
constante de uma lista com os
fugitivos mais procurados que
foi elaborada pela comissão
de disciplina do Partido
Comunista da China.
O acontecimento foi tão ou
mais surpreendente porque
a China não tem acordo
de extradição com os EUA.
Alguns dias depois foi a vez de
uma mulher chinesa acusada
de corrupção também ser
repatriada pelas autoridades
norte-americanas. Quis saber
o que estes dois casos teriam a
ver com Ng Lap Seng por não
haver qualquer tipo de ligação
entre eles. A resposta foi incisiva:
Macau que se prepare!
OPINIÃO
O CLARIM | Semanário Católico de Macau | QUARTA-FEIRA | 30 de Setembro de 2015
10
PT
“Surprise”... o Syriza voltou a ganhar!
LUIS BARREIRA
A
s eleições legislativas na
Grécia voltaram a dar a
vitória ao Syriza.
Os gregos voltaram a votar
maioritariamente no partido de
Tsipras, que venceu estas eleições
com uma maioria confortável
de cerca de 36%, contra o
seu principal rival, o partido
conservador “Nova Democracia”,
que atingiu 28%, após 80% dos
votos contados.
Nestas condições, o Syriza
voltou a renovar a coligação
governamental com os “Gregos
Independentes”, criando
um Governo estável para os
quatro anos de uma legislatura
complicada que tem pela frente.
Como é que é possível os
gregos voltarem a eleger o
Syriza, depois de tudo o que
antes aconteceu e da “forte”
dose de austeridade que este
partido teve de aceitar e com a
qual vai ter de governar?
Na minha opinião há um
conjunto de factores que, no seu
conjunto, contribuíram para esta
reacção do povo grego.
Os gregos são um povo
orgulhoso da sua história e
da sua cultura e dificilmente
aceitaram a chantagem de que
foram alvo, por parte do Banco
Central Europeu, do Eurogrupo
e dos credores, em Julho
passado, obrigando-os a aceitar
condições de austeridade ainda
mais gravosas das que antes
estavam previstas.
Os gregos rejeitam os
partidos tradicionais que (des)
governaram a Grécia durante
décadas, independentemente
da “maquilhagem” de que têm
sido alvo para os tornar mais
atractivos actualmente.
O Syriza “libertou-se” da sua
facção mais radical, chefiada
pelo seu antigo ministro das
Finanças, Varoufakis, que,
com outros 25 deputados,
abandonou o partido para
formar um outro, designado
“Unidade Popular”, após a
aceitação do terceiro resgate e
as pesadas consequências que
isso implicava por parte de
Tsipras, o líder do Syriza. Agora,
Varoufakis está com dificuldades
em eleger um deputado nestas
recentes eleições. O povo grego
responsabilizou-o por, através do
seus excessos, ter comprometido
qualquer possibilidade
negocial com os credores e de
ter complicado ainda mais a
situação de um povo que quer
continuar na União Europeia e
na moeda única.
Mas se bem que este Syriza
já não seja o mesmo que há
uns meses atrás e em referendo
rejeitava qualquer austeridade
adicional, ele continua a ser um
sinal de esperança num projecto
mais global de contestação à
austeridade pela austeridade –
política actualmente defendida
pelas forças políticas maioritárias
da Europa. A prová-lo está a
primeira declaração do Syriza,
após a sua eleição, em estabelecer
como sua primeira prioridade a
renegociação da sua dívida.
Naturalmente que (e apesar
das modificações que sofreu)
voltar a ter um Governo do
Syriza a governar a Grécia e a
representar o País na União
Europeia é extremamente
incomodativo para os
restantes Governos europeus,
aqueles que mais defendem
a actual política europeia
e nomeadamente aqueles
que estão em más condições
económicas, sofrem grande
contestação interna e estão em
vésperas de eleições.
Se tivesse ganho os
conservadores da “Nova
Democracia” seria mais fácil
a aceitação pelo Governo
grego de todas as medidas
propostas no terceiro resgate
e as consequentes negociações
que vão ter lugar no próximo
mês mas, “surprise”, tal não
aconteceu e a Europa e o FMI
vão ter de afinar o seu discurso
perante a incapacidade lógica
de defender publicamente a
recuperação económica da
Grécia, face aos obstáculos que
lhe são criados pelo resgate
e o “castigo público” que lhe
foi imposto sob pretexto da
arrogância do anterior ministro
Varoufakis, que já não tem razão
de ser, agora que este senhor está
na oposição.
No entanto, se houver
alguma alteração na política
europeia, aceitando algumas
cedências ao Governo grego, tal
só acontecerá após as eleições
espanholas e portuguesas para
evitar prejudicar os actuais
partidos no poder nesses dois
países. Porque os interesses
comuns falam mais alto...
A história recente da
Grécia e as atitudes do
seu povo podem parecer
incompreensíveis para alguns
mas, apesar das precipitações
e dos erros cometidos, não
deixará de ser uma referência
a ter em consideração para
todos aqueles que acreditam
que o empobrecimento não
conduz de forma alguma ao
desenvolvimento económico e
social e que os povos não devem
desistir de lutar por isso.
A Associação dos Aposentados,
Reformados e Pensionistas de Macau
congratula-se
pelo 66º Aniversário
da REPÚBLICA POPULAR DA CHINA
OPINIÃO
O CLARIM | Semanário Católico de Macau | QUARTA-FEIRA | 30 de Setembro de 2015
11
PT
Alternativa aos criminosos
JOSÉ PINTO COELHO (*)
clarificação: quem assinou o
Memorando de Entendimento
com a Troika foram PS, PSD e
CDS-PP, depois de o Governo
socialista ter conduzido o País
a essa situação vexatória. Quem
os ouve falar, tentando sacudir
responsabilidades, parece que
nunca passaram pelo Governo.
Lembramos até que foi um
executivo PS que destruiu
as carreiras profissionais da
Função Pública.
A
gora, mais do que
nunca, o meu
pensamento dirige-se
aos espoliados do Ultramar
que perderam tudo; aos idosos
que hoje vivem na pobreza
após uma vida de trabalho; às
crianças que passam privações
e se encontram em risco de
pobreza; aos desempregados e
aos que partiram lá para fora
à procura das condições que
a Pátria lhes nega; aos semabrigo, aos despejados das suas
casas, aos que sofreram cortes
drásticos em tantas coisas, aos
mais desfavorecidos…
São, afinal, portugueses
desamparados e desprezados
pelos governantes do seu
próprio país. Estes mesmos
governantes, traidores, que
acolhem sem hesitar vários
milhares de imigrantes
invasores, bárbaros e
hostis (a quem chamam
eufemisticamente “refugiados”
ou “migrantes”) e com direito
a tudo.
Isto é ser-se profundamente
desumano para com os
seus. É ser-se traidor e
carrasco do próprio povo. É
chocantemente injusto!
Portugal e a Europa não têm
obrigação nenhuma de receber
esta verdadeira invasão,
“mostrando-se” cinicamente
humanos. Pelo contrário,
temos que nos defender! Os
países semelhantes, nas suas
regiões, que os recebam. Os
países europeus, além de não
terem condições para tal,
nem o devem fazer nunca!
Isso é suicídio! Afinal, além
da tremenda injustiça para
com os nossos, estamos a
meter cá dentro um autêntico
“Cavalo de Tróia”. Dentro de
pouco tempo veremos a nossa
própria terra transformada
numa espécie de Iraque
ou Síria. Eis a obra dos
“humanitários”. Isto é crime
contra o nosso país!
POÇO SEM FUNDO
MUDANÇA
Perante o diagnóstico real
(do Estado deplorável da
Nação) há que ser frontal
e explicar aos portugueses
que Portugal precisa de uma
mudança verdadeira, e que
as soluções não passam pela
alternância entre quem nos
colocou neste estado de coisas.
Só há uma solução para
sair deste buraco onde nos
meteram, e que passa por
uma mudança radical de
rumo e de mentalidade:
recuperar o Orgulho Nacional,
a Soberania e a Identidade;
combater sem contemplações
a corrupção; combater sem
tréguas a injustiça social e a
imoralidade das mordomias e
benesses de muitos; promover
sem complexos as medidas
proteccionistas que reanimem
a Produção Nacional e nos
libertem da servidão externa e
dos interesses sectários.
Advogamos assim uma
mudança profunda, que
defenda um novo Regime de
cariz Nacional e Social no
qual se promova a Soberania,
a Identidade, a Justiça Social
e o Espírito de Serviço à
Comunidade.
Na defesa e fortalecimento
dos nossos valores e causas
defendemos o papel
preponderante do Estado. Um
Estado eficaz, cuja existência
é imprescindível, mas sem
gorduras nem peso inútil ou
atrofiador. Não deve haver
presença do Estado na qual ela
não seja realmente necessária.
Deve haver lugar à iniciativa
privada e respeito pela
propriedade privada.
O Estado é fundamental e
tem que ser forte, mas naquilo
que estritamente lhe compete:
regular e fiscalizar a sociedade
civil, promover a Justiça Social e
impedir toda a espécie de abusos
e desigualdades. Compete-lhe
assegurar o controlo de todos os
sectores vitais para o bem-estar
da população e da economia e
soberania nacionais, como sejam
os transportes, comunicações,
energias e recursos naturais.
Compete-lhe, também, garantir
sempre e em cada momento a
maior Independência Nacional
possível e a mais ampla
margem na escolha de aliados
internacionais e de objectivos
político-diplomáticos.
Queremos ser uma nação
aberta ao mundo, mas soberana,
onde quem manda somos nós. E
queremos sentir em português
e pensar em português o que só
em português pode e deve ser
sentido e pensado.
ENFADONHO
Decorreu o primeiro e único
debate televisivo entre Passos
Coelho e António Costa. Algo os
une, que é o facto de deixarem
sem resposta as perguntas
mais incómodas, tal como
deixam sem solução as questões
essenciais que desde sempre
afligem a sociedade portuguesa.
Nenhum deles, no fundo, se
compromete. José Sócrates,
referido 12 vezes por Passos
Coelho, apesar de ausente,
esteve bem presente. Pouco ou
nenhum rigor das propostas,
populismo e demagogia, um
discurso excessivamente técnico.
O resultado só poderia ser a
derrota de ambos.
O plafonamento que
ambos pretendem realizar, e
de que tanto falaram, trata-se
simplesmente da transferência
de parte dos descontos para
sistemas financeiros privados.
Já agora, importa uma
A disparidade entre
salário mínimo e salários
de administradores atinge
dimensões próprias do terceiro
mundo. Temos hoje milhares de
pequenos e médios empresários
sem acesso a qualquer apoio
social. A substituição do
pagamento de subsídios de
férias e Natal por duodécimos
não convence. A limitação do
acesso à Justiça mediante o
preço é desde logo um atentado
ao Estado de Direito.
Aflige-nos igualmente
constatar que os pais deste
país, que tantos sacrifícios
fizeram para formar os filhos na
universidade, os vêem depois
condenados ao desemprego.
Desinvestimento público,
diminuição de rendimentos
do trabalho, especulação
imobiliária e financeira são
outros dos efeitos prejudiciais
das más políticas levadas a
cabo. Também o crédito às
pequenas e médias empresas
baixou 10 mil milhões de euros.
Chegámos a uma situação de
impasse.
Afinal, de que serviram
quatro anos de austeridade, se
o Estado continua a contrair
empréstimos para pagar juros
de outros empréstimos? Tudo
isto vem reforçar a convicção
de que a solução política para
o futuro de Portugal tem de
incluir os Nacionalistas.
(*) Presidente
do Partido Nacional Renovador
ENTREGUE ESTE CUPÃO NAS BILHETEIRAS DO CINETEATRO DE MACAU
DATA DO SORTEIO: 8 DE OUTUBRO DE 2015
C U LT U R A
O CLARIM | Semanário Católico de Macau |
12
PT
MEMÓRIAS E FORTALEZAS NO LESTE DE ÁFRICA – PARTE 1
Terras de macuas e m
JOAQUIM MAGALHÃES DE CASTRO
[email protected]
Generosas mangueiras enraizadas
em terreiros alaranjados fornecem
a sua sombra a aldeias de cubatas
cobertas com o capim que cresce
nas bermas da trilha percorrida
por centenas de mulheres,
homens e crianças com carregos
na cabeça. Inúmeros ciclistas
transportam sacos com carvão
vegetal, o bem de consumo mais
comercializado nestas paragens.
Cena habitual em África: gente,
dir-se-ia, num êxodo permanente,
quando, afinal, macuas e
macondes, etnias predominantes,
se limitam a locomover, de
aldeia em aldeia. Num contraste
absoluto com este universo rural,
surgem com frequência sinais
rodoviários mais apropriados a
auto-estradas europeias e placas
indicando paragens de transportes
públicos, embora isso tenha
deixado de ser uma realidade há
já várias décadas.
FOTOS | Joaquim Magalhães de Castro
O ENTUSIASMO do Boaventura, natural do
distrito de Meluco, «um santuário de fauna e flora que vem referenciado no mapa»,
como diz ele, é contagiante. Ao longo
da viagem fala-me de mil e uma coisas
e alerta-me para o que se passa à nossa
volta, como, por exemplo, a existência
de uma escola agrária subsidiada com
fundos da União Europeia e o interesse
histórico de locais como Bemacha e de
Namapa, «no distrito de Nampula e de Cabo
Delgado», associados a Mombaça e à passagem dos portugueses de antanho, nomes que certamente não me esquecerei.
Em Macomia deixamos o asfalto e
paramos uns breves minutos numa encruzilhada onde há uma rodoviária com
veículos estacionados ao lado das placas
de madeira que indicam o seu destino
habitual. Chamam-lhes estações. Estação Mucojo. Estação Olumboa. Estação
Pangano. No centro desse enorme espaço aberto, um pilar com uma estrela
vermelha no topo é resquício de ventos
revolucionários, hoje bastante esfriados.
Daqui em diante espera-nos um estradão de terra batida. Escapa-me agora o
nome da povoação logo a seguir a Macomia, mas recordo bem a interessante designação “A vida começa assim” de uma
barraca de comes e bebes, e o de uma
outra que vende bebidas alcoólicas, “Aly
Baba. Estamos grossos, estamos juntos”,
frase que na minha opinião se adequa
perfeitamente à sua vocação. Totalmente
deslocada parece-me a publicidade aos
telemóveis “Mcel diz olá”; quanto ao Bar
Chung, esse é um claro sinal da presença
de chineses também nestas paragens, envolvidos no negócio das madeiras.
«– Aqui eles cortam sobretudo pau-preto»,
esclarece Boaventura, respondendo à
saudação de um aldeão que passa de bicicleta.
Se a maioria das pessoas com que cruzamos reage com normalidade à presença de um branco acomodado com as malas e os sacos nas traseiras da carrinha, há
também quem manifeste espanto e até há
quem se assuste a valer, como a rapariga
à entrada de Quelimene Pequeno que se
atira para o mato quando lhe aponto a
máquina fotográfica. De repente, lembro-me que sou ainda do tempo em que nas
aldeias mais recônditas do nosso país as
pessoas mais idosas olhavam os aviões que
cruzavam os céus encarando-os como prenúncio do fim do mundo. Um tempo que
não é assim tão antigo.
Ao Quelimene Pequeno segue-se o
Maputo Pequeno. Os nomes das grandes cidades do País têm aqui a sua versão miniatura. Passamos também por Mu
Chai, onde foi disparado o primeiro tiro
contra as tropas portuguesas, no que se
pode considerar com o grito de Ipiranga
da guerra colonial em Moçambique.
«– A gente não esquece», comenta Boaventura, sem acrescentar qualquer outra palavra. Prefiro também não dizer
nada, até porque não sei muito bem o
que comentar a respeito de assunto tão
melindroso.
MACHAMBA DE QUIMANES
Ao chegarmos a Nacate, a aldeia natal do amigo Boaventura, este não se
esquece de mencionar a machamba do
seu irmão mais novo que se estende da
estrada para o interior do mato onde
muitas outras machambas são sachadas
por macondes, como o Boaventura, e
quimanes, seus vizinhos e compatriotas.
De Outubro a Dezembro cultiva-se, para
além da mandioca, também o arroz,
mais do que uma vez por ano.
Depois de o Boaventura nos deixar
a viagem torna-se mais silenciosa e os
motivos de interesse passam a ser me-
nos, até porque entretanto o entardecer transforma-se rapidamente em noite, como é comum nos trópicos. São de
realçar uns inesquecíveis, algo aterradores, cem quilómetros em que a car-
| QUARTA-FEIRA | 30 de Setembro de 2015
13
10
macondes
rinha, com a mecânica a precisar de urgente revisão, seguiu praticamente sem
travões. Nas descidas, felizmente pouco
acentuadas, valeu-nos uma estóica primeira que se fartou de gemer. Junto a
uma ponte por pouco não nos despistávamos, evitando por centímetros um
barranco bastante fundo. Assustado, o
motorista achou por bem não forçar
mais a barra, até porque a noite estava escura como o breu e de nada valia
chegar a Moçimba àquelas horas. Após
ter conferenciado ao telefone com a sua
chefe, que nessa altura estava a sair de
Pemba numa carrinha similar, o responsável pelo palanque do presidente autorizou o condutor a encostar a viatura à
berma da estrada, e ali dormimos à bela
estrela, acomodados em cima dos ladrilhos de cerâmica.
Chegamos ao mercado de Moçimba
da Praia de manhã bem cedo, precisamente na altura em que pessoas começam a abrir as suas barracas e tendas.
Este é o destino do rapaz e da rapariga (só agora me dou conta que são irmãos), que não proferiram uma única
palavra durante toda a viagem, mas
quando chega a altura de pagar o preço
previamente combinado dizem que não
têm dinheiro. Percebo então porque
razão o condutor hesitara em trazê-los
consigo. Pelos vistos, a pessoa que os
devia receber em Moçimba, e que era
o futuro marido da rapariga, esquivou-se quando soube da responsabilidade
que lhe queriam acatar. Após alguns
momentos de impasse, nada agradáveis,
diga-se de passagem, o condutor faz-se
pagar retirando dos sacos que os dois
transportam maçarocas de milho e mãos
cheias de arroz. E de nada vale a minha
intervenção, oferecendo-me para a pagar a passagem dos pobres camponeses,
evitando assim humilhações desnecessárias, até porque o numerário em causa
não é significativo. O condutor não só
não aceita a minha oferta como reafirma, em jeito de mestre-escola, que eles
devem assumir a responsabilidade dos
actos que cometem.
CHINESES E OMANITAS
Entre as raras pessoas que avisto nas
ruas de Moçimba da Praia nessas primeiras horas da manhã consta uma mulher
chinesa, certamente familiar dos donos
da serração que encontramos uma centena de metros à frente. Estão depositados nas instalações dessa pequena
unidade fabril diferentes tipos de madeiras, ainda na forma de toros: umbilas, chanfudas, pau-rosa, pau-preto. Não
me admirava nada que o Quelimanjaro,
o único albergue visível, fosse também
propriedade dos chineses.
Entramos em Palma – meia dúzia
de barracas alinhadas ao longo da rua
principal – duas horas depois. Chama-me desde logo a atenção um posto de
imigração que parece desactivado, pois
o polícia de plantão olha-me, por simples curiosidade, e deixa-se ficar sentado onde está.
Junto a uma rotunda assinalada por
um monumento à independência, a placa Praia de Palma abre a possibilidade
da existência de algo mais que a dúzia
de comércios já referidos. O mar ainda
fica distante, em baixo, num desnível de
talvez uns cinquenta metros.
Oito da manhã é já muito tarde para
apanhar transporte público, do género
até agora utilizado, seja para onde for,
e em Palma não há nada que se assemelhe a um hotel. Poderei, se quiser, alugar uma carrinha ou uma motocicleta,
mas tanto uma como outra são opções
bastante caras. E, mesmo assim, é preciso que alguém esteja disponível para me
transportar até à fronteira tanzaniana.
Um mero acaso conduz-me ao encontro de Mussa Abdulai, um desses moçambicanos de origem omanita que preferia
que os portugueses nunca tivessem partido. Está junto a um edifício em construção e prepara-se para almoçar amêijoas
com mandioca preparadas num grande
tacho que ainda aquece ao lume de uma
enorme fogueira. Convida-me para almoçar e ao saber das minhas intenções oferece-se, com a maior naturalidade deste
mundo, para me levar até a fronteira.
«– Se calhar acompanho-o até Mtwara, a
primeira cidade tanzaniana. Costumo lá ir
com alguma frequência», diz ele.
Confesso que sou apanhado de surpresa. Uma agradável surpresa.
C U LT U R A
PT
LITURGIA
O CLARIM | Semanário Católico de Macau | QUARTA-FEIRA | 30 de Setembro de 2015
14
PT
27° DOMINGO COMUM – Ano B – 4 de Outubro
HORÁRIO DAS MISSAS
(DOMINGOS E DIAS SANTOS)
7:00 horas
7:30 horas
7:30 horas
8:15 horas
8:30 horas
9:00 horas
9:30 horas
—
—
—
—
—
—
—
—
—
10:00 horas —
—
—
10:30 horas —
11:00 horas —
11:00 horas —
—
11:00 horas —
11:15 horas —
12:00 horas —
16:30 horas —
17:30 horas —
18:00 horas —
20:30 horas —
Fátima (C).
Sé, S. Lourenço e St.º António (C).
S. Lázaro (C).
S. Francisco Xavier
Mong-Há (C).
St.º António.
Sé, S. Lourenço, N.ª Sr.ª do Carmo
Taipa (C); Fátima (C).
S. Lázaro, S. Francisco Xavier (Mong-Há),
S. José Operário (C).
St.º António (P); S. Francisco Xavier
Coloane (I, C); N.ª Srª do Carmo
Taipa (I).
Sto. Agostinho (Tagalog).
Sé (P), Hospital de S. Januário (P);
N.ª Srª do Carmo
Taipa (P).
S. Lázaro (I).
Instituto Salesiano (I).
Fátima (I).
S. Agostinho (I); Fátima (vietnamita)
S. José Operário (I).
Sé (I); S. Fr. Xavier Mong-Há (C).
S. Lázaro (P).
S. José Operário (M).
MISSAS ANTECIPADAS
17:00 horas
17:30 horas
18:00 horas
18:30 horas
—
—
—
—
—
19:00 horas —
20:00 horas —
S. Domingos (P).
S. Fr. Xavier Mong-Há (I).
Sé (P).
N.ª S.ª do Carmo
Taipa (I).
S. Lázaro (C).
Fátima (C).
ABREVIATURAS
C - Em Cantonense I - Em Inglês
M - Em Mandarim P - Em Português
A humanidade foi criada
para a união e a solidariedade
INTRODUÇÃO ÀS LEITURAS
O Livro do Génesis fala-nos que Deus criou o homem
e a mulher para que formassem um casal com componentes iguais (PRIMEIRA LEITURA: Gn., 2, 18-24).
Jesus referiu-se a este texto do Génesis e uniu com os
laços indissolúveis do matrimónio o casal criado por
Deus, ao dizer que «o que Deus uniu, não o separe o homem» (EVANGELHO: Mc., 10, 2-16). Depois, na carta aos hebreus (SEGUNDA LEITURA: Heb., 2, 8-11),
é-nos apresentado Jesus como Aquele que se uniu a
todos os homens, assumindo também a condição humana, para nos conduzir a todos ao Seu reino eterno,
salvando-nos através da Sua morte.
«Não separe o homem o que Deus uniu»...
...nem os pais dele, nem
os pais dela, metendo-se
onde não são chamados.
...nem os gritos dele, nem
os contra-gritos dela, que
tornam impossível a convivência.
...nem a falta de manifestações de afecto de
ambos, o que pode fazer
secar até mesmo o amor
mais prometedor.
...nem a falta de comunicação mútua, de modo que
ela não saiba o que ele faz,
nem ela saiba o que ela faz
e nenhum dos dois saiba o
que o outro pensa, quer,
sofre ou precisa.
...nem os filhos, absorvendo-lhes o tempo que necessitam para estar juntos.
...nem o descuido com a
higiene e aparência pessoal de casa um.
...nem os amigalhaços dele
ou as amigotas dela.
...nem o facto de que nenhum deles esteja disposto a perder uma discussão,
a sacrificar o seu gosto, a
reconhecer o seu próprio
erro, ou a pedir desculpa.
...nem a falta de reconhecimento explícito das
qualidades do outro, por
parte de cada um.
...nem a presunção ingénua de que «o que Deus
uniu» poderá permanecer unido sem Lhe pedir
a Ele (Deus) a Sua ajuda
ou se, praticamente, se
acaba por desterrá-L’O
do próprio lar...
REFUGIADOS
Vaticano acolhe família síria
A Esmolaria Pontifícia confirmou o acolhimento a uma
primeira família de refugiados
sírios, que se encontra instalada
na paróquia de Santa Ana, no
coração do Vaticano.
De acordo com os dados avançados por aquele organismo, “a
família é composta por pai, mãe
e dois filhos e são cristãos de rito
greco-melquita católico, do Patriarcado de Antioquia”.
São provenientes “de Damasco, capital da Síria”, de onde
tiveram de “fugir da guerra”, e
chegaram a Itália no dia 6 de
Setembro, data em que o Papa
Francisco precisamente dirigiu
um apelo a todas as «paróquias,
comunidades religiosas, mosteiros
e santuários» no sentido destes
se mostrarem disponíveis para
«acolher refugiados».
A família síria está hospedada
“num apartamento nas proximidades da Basílica de São Pedro”
e o Vaticano já deu entrada de
um “pedido de protecção internacional” para estas pessoas.
“Com base na lei”, refere o
serviço informativo da Santa
Sé, “nos primeiros seis meses
da apresentação do pedido de
asilo, os solicitantes não podem
trabalhar. Neste período, eles
serão assistidos e acompanhados pela comunidade paroquial
de Santa Ana”.
A Esmolaria pontifícia pede
que, “até que se conheça a decisão italiana de reconhecer ou
não o status de refugiados”, os
media “respeitem a vontade deles de não serem identificados e
entrevistados”.
Para breve poderá estar a
recepção a uma segunda família de refugiados sírios,
que de acordo com as últimas
indicações avançadas pelo Vaticano poderá ser instalada na
paróquia de São Pedro.
No entanto, “até à conclusão
dos procedimentos necessários”,
a Esmolaria diz que “não pode
oferecer mais informações”.
O comunicado daquele organismo sublinha ainda que “há
anos que os Papas, através da
Esmolaria, contribuem para o
pagamento das taxas para a obtenção do primeiro visto para
os refugiados”.
Os apoios são canalizados
através “do Centro Astalli de
Roma, gerido pelos jesuítas”.
“Em 2014, foram doados 50
mil euros para este fim. Além
disso, a Esmolaria, sempre em
nome do Papa, ajuda quotidianamente inúmeras pessoas e famílias de refugiados acolhidos
em Roma”, pode ler-se.
In ECCLESIA
ECLESIAL
O CLARIM | Semanário Católico de Macau | QUARTA-FEIRA | 30 de Setembro de 2015
15
PT
LENDO A CARTA QUE DEUS NOS ENVIOU – IV
A mensagem que altera o modo de vida
PE. JOSÉ MARIO MANDÍA
[email protected]
Suponhamos que já decidiu ler
diariamente a Bíblia, e dispôs
de um certo tempo com uma
duração constante para tal. Parabéns! Eu recomendo sempre
que se comece pelo Novo Testamento, porque o Antigo Testamento só faz sentido se já tivermos lido o Novo Testamento.
Mas como é que se deve ler
a Bíblia? O Papa Bento XVI
explicou-nos e mostrou como
fazê-lo. Na sua mensagem para
o 21º Dia Mundial da Juventude
(2006) ele escreveu o seguinte:
«Meus caros jovens amigos, peço-vos que se tornem familiares com a
Bíblia, tenham um exemplar sempre
por perto, de modo a que ele possa
ser a bússola que vos indique o caminho a seguir. Lendo a Bíblia, vós
aprendereis a conhecer Cristo. Vejam
o que São Jerónimo disse a este respeito: “Ignorância das Escrituras é
ignorância de Cristo” (PL 24,17; cf
Dei Verbum [A Palavra de Deus]
25). O tempo dedicado a estudar e
saborear a palavra de Deus é LECTIO DIVINA (Leitura Divina) que
constitui uma jornada espiritual
real e verdadeiramente marcada por
etapas». E como é que isso é feito? O primeiro passo é LECTIO
(Leitura), que «consiste em ler e reler uma passagem das Sagradas Escrituras, considerando os elementos
principais», disse o Santo Padre.
Definitivamente, Deus tem
uma mensagem para nós em todos e cada dia. É por essa razão
que temos que ler uma segunda vez, ou mesmo uma terceira
vez. Aqui e ali, uma palavra ou
uma frase surpreendem-nos.
É por isso bom que tomemos
nota dessas palavras ou frases, e
as escrevamos no nosso diário.
Assim chegamos à MEDITATIO (Meditação). Este é o momento de reflexão, no qual a
alma se vira para Deus e tenta
compreender o que a Sua palavra nos quer dizer, no dia de hoje.
Enquanto lemos, recordamos
como a passagem que estamos a
ler está relacionada com outras
passagens da Bíblia, ou verificamos o que a Sagrada Tradição e
o Magistério da Igreja nos ensina
com referência a essa passagem.
Exploraremos tanto o sentido Literal como o Espiritual
daquilo que lemos. É nesta
altura que nós ouvimos o que
Deus está a tentar dizer-nos.
Segue-se ORATIO (Oração),
quando conseguimos falar com
Deus directamente. Algumas
pessoas usam uma passagem
que tenham registado durante a
lectio, como aspirações ou orações vocalizadas que sussurram
ao Senhor nos seus corações,
onde quer que se encontrem.
Temos alguns exemplos: «Senhor, vós que sabeis tudo, sabeis que
eu vos Amo (João 21:17)»; «Senhor, salvai-me (Mateus 14:30)»;
«Senhor, deixai-me receber a minha
vista (Lucas 18:41)»; «Senhor,
para quem deveremos ir? Vós tendes
palavras de vida eterna; e nós acreditámos e acabámos por saber que
Vós sois o Sagrado (Filho) de Deus
(João 6:68-69)»...
Segue-se agora, a CONTEMPLATIO (Contemplação). Bento XVI dizia: «Isto ajuda-nos a
manter os nossos corações atentos à
presença de Cristo, cuja palavra é
“uma luz brilhando num local escuro, até que o dia nasça e a Estrela
da Manhã cresça nos vossos corações (II PT 1:19)”».
São Josemaría escreveu: «Demasiadas vezes vivemos como se
pensássemos que Nosso Senhor está
distante de nós – onde as estrelas
brilham». Lermos a Bíblia diariamente ajudar-nos-á a vermos
que Deus está sempre connosco
– nós nunca estamos sozinhos!
Finalmente, o Papa Bento XVI
mostra-nos que a Palavra de Deus
tem o poder de mudar a forma
como vivemos. «Lendo a Bíblia,
estudando e meditando sobre a Palavra, tornar-te-ás no fluir de uma vida
de fidelidade consistente a Cristo e a
aos seus ensinamentos». São Tiago
diz-nos: «Trabalhem a palavra, e
não sejam apenas ouvintes passivos
que se enganam a si próprios (1:22)».
Quando adquirimos o hábito da
lectio divina tornamo-nos cada
vez mais e mais humanos, mais e
mais divinos, mais e mais parecidos com Cristo.
SÃO MIGUEL, SÃO GABRIEL E SÃO RAFAEL
Três poderosos arcanjos
MARIA FERNANDA BARROCA (*)
Antes da última reforma litúrgica, as
Festas destes três arcanjos eram celebradas separadamente: São Miguel a 29
de Setembro, São Gabriel a 24 de Março (véspera da Festa da Anunciação a
Maria) e São Rafael a 24 de Outubro.
A Igreja unificou a celebração dos três
arcanjos e a celebração faz-se a 29 de Setembro.
Estes três arcanjos pertencem à alta
hierarquia dos Anjos, o grupo dos sete
espíritos puros que rodeiam o trono de
Deus e são os “mensageiros dos decretos
divinos” aqui na terra.
Miguel, significa “quem como Deus?”,
defensor do Povo de Deus. Fiel escu-
deiro do Pai Eterno, chefe supremo do
exército celeste e dos anjos fiéis a Deus,
Miguel é o arcanjo da justiça e do arrependimento, padroeiro da Igreja Católica. Costuma ser de grande ajuda no
combate contra as forças do mal. O seu
culto é um dos mais antigos da Igreja.
Gabriel, significa “Deus é meu protector” ou “homem de Deus”. É o arcanjo
anunciador, por excelência, das revelações de Deus e é, talvez, aquele que esteve perto de Jesus na agonia entre as
oliveiras. Padroeiro da diplomacia, dos
trabalhadores dos correios e dos operadores dos telefones, comummente está
associado a uma trombeta, indicando
que é aquele que transmite a Voz de
Deus, o portador das notícias. Na sua
página, descrevemos com detalhes as
suas aparições citadas na Bíblia . Além
da missão mais importante e jamais dada
a uma criatura, que o Senhor confiou a
ele: o anúncio da encarnação do Filho
de Deus. Motivo que o fez ser venerado,
até mesmo no Islamismo.
Rafael, cujo significado é “Deus te
cura” ou “cura de Deus”, teve a função
de acompanhar o jovem Tobias, personagem central do livro “Tobit”, no Antigo Testamento, em sua viagem, como
seu segurança e guia. Foi o único que
habitou entre nós, passagem que pode
ser lida na página dedicada a ele. Guardião da saúde e da cura física e espiritual, é considerado, também, o chefe da
ordem das virtudes. É o padroeiro dos
cegos, médicos, sacerdotes e, também,
dos viajantes, soldados e escuteiros.
A Igreja Católica considera estes três
arcanjos poderosos intercessores dos
eleitos ao trono do Altíssimo. Durante
as atribulações do quotidiano, eles costumam aconselhar-nos e auxiliar, além,
é claro, de levar as nossas orações ao
Senhor, trazendo as mensagens da Providência Divina. Preste atenção, ouça e
não deixe de rezar para eles.
(*) Professora
ECLESIAL
C A R T A
A O S
O CLARIM | Semanário Católico de Macau | QUARTA-FEIRA | 30 de Setembro de 2015
16
PT
L E I T O R E S
Porquê falarmos da Família?
IRMÃ MARIA LÚCIA FONSECA (FMNS)
Há duas razões para falarmos da Família:
Primeira – estamos no ano da Família. Por isso, nunca é demais falar dela e
muitas vezes.
Faz-nos lembrar o provérbio sempre
antigo e sempre novo: “água mole em
pedra dura, tanto dá até que fura.”
Segundo – S. Francisco de Assis, o
santo mais parecido com Jesus Cristo (se
queres conhecer Cristo, olha para Francisco, e se queres conhecer Francisco,
olha para Cristo), foi um santo muito
amigo de todas as criaturas; e sofreu,
quando seu pai o abandonou por ter
sido fiel a Jesus, que o chamou a “restaurar a Igreja” do seu tempo. Passou a
sua vida a louvar o Criador, o Altíssimo,
Omnipotente e Bom Senhor, através da
vivência, à letra, do Evangelho.
Ora, o Evangelho fala-nos tantas, tantas vezes, do amor. Onde se constrói melhor o amor? Na Família!
A Família é o maior valor que possuímos na vida! Nunca deixemos de o cultivar, enriquecendo-o com amor sempre mais criativo, dinâmico, inventivo,
fervoroso. É na Família que desenvolvemos os valores da verdade, do respeito,
da gratidão, da humildade, do perdão,
do carinho, das aprendizagens que vão
Amemos a nossa Família, berço de
tantas recordações: umas menos boas,
mas tantas e tantas tão boas!
Estimemo-la, porque só temos uma.
É/foi na Família que fica/ficou definida, em parte, a nossa personalidade. Se mais ninguém no mundo nos
compreender, mesmo que a nossa família não seja/não tivesse sido o que
desejaríamos, é no seu tecto que nos
abrigamos nos momentos de maior
dor. Todas as qualidades referidas
acima, “bebidas” na Família, serão/
foram as maiores condecorações dos
nossos Pais.
Retribuamos-lhes veneração e gratidão com o nosso testemunho de vida.
Tudo o que eles nos dão/deram com
tanto carinho, dedicação, mesmo que
já tenham partido, ficará no nosso coração e prolongar-se-á pelos tempos
além.
ajudar, também, a prolongar a vida,
constituindo família, e colaborando na
Obra criadora de Deus, com a procriação digna e feliz.
Mais: é na Família que se pode encontrar a forma de responder a um chamamento diferente, pelo dom da vida ao
Senhor, para ajudar outras famílias a
encontrarem-se quando se desviam do
que foi o seu primeiro amor para viver
como família.
A nossa maneira de ser depende,
em grande parte, da forma como é/
foi a nossa Família!
Por sermos reflexo da nossa Família,
também reconhecemos os nossos erros
e qualidades e podemos melhorá-la sempre com a nossa colaboração pessoal,
isto é, nunca contribuindo para a sua
destruição.
A Família é sinal de que não vivemos sós no mundo e, quando houver
algum erro, comecemos por nós para
o eliminar.
Olhemos para Francisco de Assis: um
santo que respeitava todas as criaturas e
por elas louvava o Criador de todas as
coisas visíveis e invisíveis. A Família, para
Francisco de Assis, é a célula essencial,
de onde brota a vida e o amor, pelo qual
também ele louvava o Altíssimo, Omnipotente e Bom Senhor.
Vamos celebrá-lo no dia 4 de Outubro, às 11 horas, na Sé Catedral.
Como seria bom que a nossa Igreja-mãe se enchesse de muitos irmãos na Fé,
sobretudo de “irmãos” portugueses!
FAMÍLIA E FÉ
Uma responsabilidade dos pais
PE. RODRIGO LYNCE DE FARIA (*)
«MUITOS PAIS, hoje em dia, não sabem educar
os seus filhos. Parecem saturados e muito ocupados. Temos que ser nós a fazê-lo na escola
aproveitando as aulas que damos. Estamos,
na prática, a substituir os pais. Isto não me
parece mal. Tenho a sensação de que, a partir
da adolescência, a maioria dos progenitores
perde a capacidade de dialogar com os seus
filhos. Sobretudo, em temas que incluem valores que evoluíram com o passar das gerações.
Os pais sentem que os tempos mudaram e que
não podem obrigar os seus filhos a pensar
como eles ou como os seus avós. A sociedade
mudou e a vida também. Nós, professores que
ensinamos matérias humanistas, temos maiores facilidades para esse diálogo com os adolescentes e os jovens».
Estas palavras de um professor fize-
ram-me pensar: será que o ideal na educação é substituir os pais, ou ajudá-los a
educarem os seus filhos? Qual é a missão da escola? Que fazer se essa missão
entra em confronto com a dos pais dos
alunos?
Os pais são sempre os primeiros e os
principais educadores dos seus filhos
(Catecismo 1653). Por isso, nunca podem renunciar a ser educadores com o
pretexto de que outros o fazem melhor
ou estão mais preparados para isso. É
evidente que necessitam ser auxiliados
na sua tarefa educativa. No entanto,
qualquer outro agente educativo só o
pode ser por delegação dos pais e “subordinado” a eles.
Esta visão da educação – fundamentada na natureza humana – possui muitas
consequências no modo como entendemos a missão da escola. Os estabele-
cimentos de ensino são instituições destinadas a colaborar com os pais – nunca
a substituí-los e muito menos a ir contra
eles – na sua missão educativa.
É contraproducente e profundamente injusto que os pais procurem transmitir aos seus filhos em casa valores que
depois são descaradamente negados ou
ridicularizados na sala de aula. Muitas
vezes, isso acontece sob o falso pretexto
de que é o professor quem sabe a matéria e os progenitores não passam de uns
ignorantes.
Quantas dificuldades encontram muitos pais cristãos nos dias de hoje para
educarem os seus filhos na fé, quando
essa mesma fé é achincalhada na sala de
aula! É ridicularizada com programas e
livros propostos e aprovados por pessoas
que se apresentam com uma “ideologia
neutra”. No entanto, essa pretendida
neutralidade de alguns é só aparente.
Implica uma concreta posição ideológica: o desejo de “emancipar” a cultura
humana de toda a concepção religiosa.
Como se isso tornasse o ser humano
mais livre, mais humanista e mais inteligente!
Por isso, é uma responsabilidade
grave dos pais interessar-se pelo ambiente da escola dos seus filhos e pelos
conteúdos que se transmitem na sala
de aula. O interesse dos pais tem de ir
mais além dos resultados escolares que
se traduzem nas notas. Esses resultados
podem ser relevantes, mas, por si só,
não garantem a saúde moral e espiritual dos filhos. Saúde que terá muito
mais influência no seu futuro do que as
classificações obtidas.
(*) Doutor em Teologia
ECLESIAL
O CLARIM | Semanário Católico de Macau | QUARTA-FEIRA | 30 de Setembro de 2015
PT
17
SÃO JERÓNIMO
Doutor, tradutor, exegeta bíblico
VÍTOR TEIXEIRA (*)
[email protected]
Strídon, ou Estridão: uma cidade romana antiga, na fronteira entre a Dalmácia
e a Panónia. Bom, na geografia actual é
mais fácil de identificar, até principalmente pela tragédia humana que tem ocorrido ao longo deste Verão no território. A
Dalmácia corresponde, aproximadamente, à Croácia e Eslovénia, a Panónia à Hungria: pois, um dos cenários de passagem
das vagas de milhares de refugiados em
demanda da Alemanha e Norte da Europa. Sim, a personalidade de que hoje nos
ocupamos nasceu naquela cidade, neste
território. Doutor da Igreja, sábio, erudito, poliglota, grande intelectual, santo acima de tudo: Jerónimo, um dos pilares do
Cristianismo e uma das suas figuras mais
marcantes, indelevelmente.
Recordando
o
cabeçalho
do
L’Osservatore Romano, de que falámos há
algumas semanas – “E as portas do inferno não prevalecerão [contra Ela]!”
– bem poderíamos associá-lo a São Jerónimo e outros homens do seu tempo,
época conturbada para a Igreja. Entre
erros doutrinais e heresias, registam-se incursões dos povos germânicos no
Império, ameaçando a Cristandade, que
começava a despontar depois do édito
de Milão de Constantino, em 313, de
tolerância em relação à Fé Cristã, reforçado no I Concílio de Niceia, em 325, o
concílio do Credo. Mas os tempos eram
ainda de conturbação, eram necessárias
figuras sólidas, na fé, na inteligência e
na cultura, luminares. Como São Hilário, de Poitiers, São Ambrósio, de Milão
ou Santo Agostinho, também poderemos nomear São Jerónimo, também um
dos Santos Padres da Igreja.
Jerónimo nasceu de facto em Estridão,
no ano de 342, mas dadas as diferentes
interpretações melhor será dizer que foi
entre 331 e 347. A sua cidade foi destruída pelos Godos, mais tarde, dada a sua
localização numa região de passagem
entre o Sul e o Centro e Norte da Europa. “Que tem um nome sagrado”, este
é o significado do nome Jerónimo, que
dedicou a sua vida ao estudo de línguas
e, consequentemente, das Sagradas Escrituras, além da sua tradução e fixação
textual. Estudou Latim em Roma, com
o maior mestre da língua do seu tempo,
Donato, um ilustre gramático pagão. Jerónimo chegou a ser um grande latinista
e grande conhecedor do Grego e de outros idiomas, como Hebraico e Aramaico. Todavia, não conhecia tão bem os
livros e autores espirituais como conhecia Cícero, Virgílio, Horácio e Tácito, ou
Homero e Platão, que a todos conhecia
de cor. Retórico, filósofo, gramático,
com juventude e dinheiro, numa cidade
magnífica como Roma, mas estudioso e
aplicado, Jerónimo não se prendia muito com a fé e a espiritualidade cristãs. O
circo, o teatro, a vida mundana eram-lhe
mais apelativos.
Mas não seria assim sempre. Com 18
anos torna-se catecúmeno, preparando-se aos Domingos para o baptismo, visitando as catacumbas dos mártires, numa
fase em que começou a discernir mais
acerca da espiritualidade cristã. Depois
da sua conversão e baptismo em 366,
parte para a Gália, com seu amigo Bonosus, em 367, via Aquileia, no Norte de
Itália, onde contacta com experiências
monásticas siríaco-egípcias. Instala-se
em Trier (actual Alemanha), perto do
Reno, com Rufino de Aquileia e Heliodoro de Altino. Contacta com as obras
de Hilário de Poitiers, ficando tocado
pelo monaquismo, criando até com Rufino e outro companheiro, Cromácio,
uma experiência de vida cenobítica.
Rompe então os laços com a família e
decide enveredar definitivamente pela
vida consagrada.
Ao contrário dos pobres refugiados da
actualidade, sai da Alemanha e parte para
a Trácia (Norte da Grécia), vai para a Ásia
Menor (Turquia) e daqui para o deserto da
Síria. Ali viveu, na região a leste de Antioquia, como eremita, experiência que não
lhe agradou, sem descobrir a paz. Ali se
ordenou sacerdote também, mas acabou
por voltar à Europa. A Itália, onde o Papa
Dâmaso I (366-384), aconselhado por bispos, o nomeia seu secretário, na sequência da impossibilidade, por doença, de
São Ambrósio de Milão. Encarregado de
redigir as cartas que o Pontífice enviava, os
seus dotes revelaram qualidades exponenciais, tendo sido designado para realizar a
tradução da Bíblia. As traduções da Bíblia
que existiam nesse tempo tinham muitas
imperfeições de linguagem e várias imprecisões ou traduções não muito exactas.
Jerónimo, fluente e elegante no Latim,
traduziu este idioma, “a língua vulgar”,
toda a Bíblia, designada assim por “Vulgata” (ou tradução feita para o “povo” ou
“vulgo”), a partir de fontes aramaicas e
hebraicas, além de gregas e noutras línguas, num trabalho mais completo e coerente, homogéneo, que as Bíblias então
em uso. A Vulgata de São Jerónimo foi a
“Bíblia oficial” da Igreja Católica durante
perto de quinze séculos, até à sua revisão
no séc. XX.
Começou-a em 382, mudando-se para
a Terra Santa, para Belém, para melhor
aprender o Aramaico e o Hebraico.
Roma também não lhe oferecia estabilidade, apesar dos seus cargos e estatuto. A
inveja e a calúnia imperavam na Cidade.
Por isso, Belém tornou-se lugar de paz.
E de trabalho! Em 390 já tinha pronta
a revisão do texto latino do Novo Testamento, começando a tradução do Antigo, este mais centrado no Hebraico e
Aramaico, que já dominaria. Completou
esta tradução em 405. Mas continuou a
trabalhar na teologia e exegese bíblicas,
com comentários e revisões. Além disso
fundou um mosteiro dúplice em Belém,
ou seja, com uma comunidade masculina, por ele inspirada, e outra feminina,
dirigida por Santa Paula, filha de São
Eustóquio, ou Fabíola de Roma. O mosteiro foi erigido graças às doações de ricas
mulheres romanas que procuravam a sua
direcção espiritual em Belém, as quais se
juntaria Paula na comunidade monástica
feminina. Não mais sairia da Terra Santa,
pregando, aconselhando, dirigindo espiritualmente as comunidades monásticas.
Vivia como um eremita na Cova (gruta)
do Presépio, a todos atendendo.
Escrevia ainda contra as heresias, de
forma resoluta, estribado no conhecimento que detinha das Sagradas Escrituras e da exegese dos textos, além da
Teologia. A sua vida inspirou eremitas e
também comunidades monásticas, como
a ordem religiosa contemplativa, de clausura, que lhe leva o seu nome, fundada
no século XV em Espanha, seguindo-lhe
o exemplo e forma de vida. A sua legenda
tornou-se famosa, muitas vezes até tornado cardeal, o que é irreal, pois esta dignidade eclesiástica apenas surgiu no séc.
XI. Mas Jerónimo é acima de tudo o símbolo da tradução das Sagradas Escrituras.
Morreu em 30 de Setembro do ano 420,
com 80 anos, sendo comemorado em
quase todas as Igrejas Cristãs.
(*) Universidade Católica Portuguesa
PUBLICIDADE
O CLARIM | Semanário Católico de Macau | QUARTA-FEIRA | 30 de Setembro de 2015
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PT
AVISO
RENOVAÇÃO DA LICENÇA
1. Faz-se público que, nos termos do n.º 1 do artigo 130.º do Regulamento da Actividade Hoteleira e Similar aprovado pela
Portaria n.º 83/96/M, de 1 de Abril, a renovação da licença dos estabelecimentos hoteleiros e similares deve ser efectuada
junto da Direcção dos Serviços de Turismo no mês de Outubro de 2015, nomeadamente:
i) Hotel ii) Pensão iii) Restaurante iv) Bar v) Sala de Dança
2. Prazo, local e horário
Prazo : Outubro de 2015 (com excepção de sábados, domingos e feriados).
Local 1 : Direcção dos Serviços de Turismo, Alameda Dr. Carlos Assumpção
n.os 335-341, Edifício “Centro Hot Line”, 18.º andar, Macau.
Horário : 2.as às 5. as feiras, das 09H00 às 17H45 (sem interrupção).
6.as feiras, das 09H00 às 17H30 (sem interrupção).
Local 2 : Centro de Serviços da RAEM, Rua Nova da Areia Preta n.º 52, Macau.
Horário : 2.as às 6.as feiras, das 09H00 às 18H00 (sem interrupção).
3. Documentos a apresentar para a renovação da licença e respectivas taxas podem ser consultados na página electrónica:
http://industry.macautourism.gov.mo/pt/license/content.php?page_id=24&id=60
Para mais informações poderá ser contactada a Divisão de Licenciamento durante as horas de expediente, através do
telefone 8397-1312/8397-1313, por fax 2833-0518 ou por email [email protected].
Direcção dos Serviços de Turismo, aos 24 de Agosto de 2015.
O Directoro dos Serviços, Subst. o
Cheng Wai Tong
SAÚDA
o 66º Aniversário
da Implementação da
República Popular da China
A P O N TA M E N TO
O CLARIM | Semanário Católico de Macau | QUARTA-FEIRA | 30 de Setembro de 2015
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PT
O NOSSO TEMPO
Papa Francisco:
para um regresso ao humano
CARLOS FROTA (*)
Se se pode ver – e vê-se! – uma linha condutora nas intervenções
da figura de audiência mundial,
que é o Papa Francisco, essa linha pode ser definida pelo esforço do Pontífice, de recentragem da civilização mundial – ou
do que a tal superficialmente se
assemelha – nos valores matriciais da nossa comum humanidade. Valores presentes na mensagem cristã e igualmente na das
grandes religiões e sistemas filosóficos do nosso mundo.
Estamos num cotovelo da
História, numa esquina de rua
do ponto de vista da civilização
– e de tudo isso tem o Chefe da
Igreja Católica uma consciência
apuradíssima.
E sem professar o sincretisno
que tantos receiam, Francisco
não hesita a chamar todos os
que podem contribuir para um
regresso à autenticidade do homem... ficando esta por definir,
como dirá o cepticismo dos que
não acreditam na bondade de
tal diligência ou se lhe opõem.
******
Esta forma algo pomposa
de principiar a minha crónica
equivale tão só à tentativa de
enquadrar a visita do Papa a
Cuba, aos Estados Unidos e Nações Unidas, no contexto mais
geral de propósitos e intenções
que formam o desígnio último
do Pontífice – ser fiel à sua missão apostólica ou missionária,
como gosta de sublinhar.
Vou redigindo esta crónica à
medida que prossegue a visita.
E, por razões óbvias, o meu texto
não pode deixar de ser um caleidoscópio de impressões e de emoções que fatalmente me vai transmitindo esse homem singular.
Mas, para começar pelo princípio da minha narrativa sobre
a visita, como é que há muito
tempo venho pensando nesta
particular digressão do Papa ao
estrangeiro?
UM GRANDE DESAFIO
Como um grande desafio
do seu pontificado . Porquê
esta digressão em particular, já
que o mundo testa permanentemente a liderança espiritual
singular, deste homem singular que por dever de função –
que a História moldou – é ao
mesmo o Chefe de um micro-Estado e o guia supremo de
uma nação sem fronteiras que
equivale ao país mais populoso
do mundo?
Teste do pontificado é-o a vários títulos, sublinhados pelas
diferentes etapas do périplo.
Se Cuba assiste ao último
capítulo de uma revolução
socialista que se rende cada
vez mais ao realismo do mundo globalizado – e o Papa foi
interveniente decisivo nesse
processo, como se sabe, como
medianeiro da reconciliação cubano-americana – já a
América representa um outro
grande desafio.
A sociedade americana é
hoje (e cada vez mais) uma
sociedade entre duas civilizações, uma inspirada ainda pelo
puritanismo protestante e pelo
conservadorismo católico; e
outra que, no seio daquela,
se foi gerando, como reacção,
e que aponta para modos de
pensar o humano (e o divino?)
de forma completamente diferente. Uma América post-americana, de algum modo.
CUBA:
O ADEUS ÀS ARMAS
Mas detenho-me na primeira
etapa do périplo papal, Cuba.
São várias as imagens fortes,
aqui: Francisco visitando em
sua casa um muito debilitado,
quase nonagenário Fidel, a
quem oferece um ou vários livros de espiritualidade cristã,
segundo ouvi e li na Comunicação Social.
Quem diria há décadas que
o desafiante El Comandante,
pai de muitos sonhos utópicos
da minha geração, ainda haveria de acolher, na sua sala de
estar, o símbolo mesmo dessa
interpretarão do mundo e da
História que Castro desafiou
toda a sua vida, pretendendo
criar – e com relativo sucesso o
fez – uma sociedade inspirada
na violência revolucionária dos
espoliados?
Depois, a hospitalidade, a
quase cumplicidade amigável
com Raúl Castro – um homem que claramente admira
o Papa Francisco. Isso pressente-se quando ambos estão
juntos.
É talvez um homem que pretende redescobrir o seu destino, já na recta final da sua vida,
quando sabe que o modelo social e político em que acredi-
tou e de que foi co-obreiro está
esgotado...
Depois, ou melhor, antes de
tudo, os milhares e milhares de
cubanos nas ruas, acolhendo
esse portador de esperança que
é por isso mesmo a prova provada do falhanço ideológico do
castrismo.
O homem novo que o processo revolucionário pretende
ter criado é afinal o homem de
sempre – que se alimenta também de algo mais do que o pão
de cada dia. E que expressou
de forma mais do que evidente
essa fome espiritual há muito
não satisfeita.
A (SEGUNDA)
REVOLUÇÃO AMERICANA
Em seguida a América, cínica e sincera; generosa e egoísta;
protestante e branca; e, cada
vez mais, multi-étnica e multi-cultural.
A sociedade americana, tal
como a posso descodificar à
distância, não vive um período
de evolução, mas de autêntica
revolução sociológica. O termo
pode parecer forte, mas as suas
consequências abonarão cada
vez mais a favor desta tese.
Desde o repensar de instituições básicas como a família,
o conceito de casamento por
exemplo, até ao modo como
se gera a realidade da política
– e por consequência o debate
político – tudo mexe na sociedade americana. Segundo uma
agenda ética e social protagonizada pelos democratas, mas
que os republicanos opõem
tão só o seu radicalismo... económico.
A função dos EUA como matriz do sistema económico global parece ter invadido tudo. E
o seu sentido de sobrevivência
como superpotência também.
Assim, os Estados Unidos vivem
uma transição que, pondo em
causa valores tradicionais em
que o protestantismo e catolicismo se reviam, substituiu-os pela
lógica das minorias e o pragmatismo dos negócios que invade
os outros sectores da vida – e
que acaba por constituir o catecismo de uma nova “teologia
da sobrevivência”, repito, como
super-potência económica, em
risco de perder o seu estatuto
de domínio (contestado) do
mundo.
É a esta sociedade em revolução – e sobretudo aos milhões
de descontentes deste modelo
de civilização, em ruptura com
o passado, que o Papa foi falar,
convertendo habilmente essa
viagem numa espécie de peregrinação ao santuário dos valores tradicionais, uma última
tentativa de regresso às origens,
não no sentido do regresso ao
passado. mas nesse outro de
reencontro com as referências
matriciais.
Condenado a desagradar
muitos, pelas suas posições exageradamente à esquerda ou à
direita, segundo os pontos de
vista, o Papa, no seu improvável
discurso no Congresso, mostrou
como as divisões entre esquerda e direita do debate político e
social habitual se subalternizam
perante a extrema urgência das
soluções inadiáveis.
Esta realidade posso a expressar na imagem caricatural
do casal que discute quem há-de ficar no lado esquerdo ou
direito da cama, quando é iminente o terramoto que destruirá a casa...
(*) Universidade de São José
C U LT U R A
O CLARIM | Semanário Católico de Macau | QUARTA-FEIRA | 30 de Setembro de 2015
20
PT
COSTA DA MEMÓRIA
Canhões da Praça de Faro
JOAQUIM MAGALHÃES DE CASTRO
[email protected]
O troço seguinte do percurso,
rumo a Tânger, fez-se por uma
densa mata de pinheiros, similar à que se encontra na costa
portuguesa a norte de Aveiro,
só que muito mais suja e praticamente despovoada. Neste último aspecto, pouco terá mudado
desde a passagem da expedição
quinhentista, que escolheu esta
rota devido à escassez de população. Outras das razões foi,
como já se viu, a topografia do
terreno, bem mais favorável ali
do que junto à costa.
A campanha portuguesa
montou arraiais numa das colinas sobranceiras à cidade – hoje
o bairro residencial de Marchan,
habitado por inúmeros estrangeiros – e aí começou a abrir
fossos e trincheiras. Este vosso
cronista, em simples missão de
paz, limitou-se a ser conduzido
até à Gare Routière des Voyageurs, a menos de uma centena
de metros da praia, após ter cruzado uns subúrbios caracterizados pela presença de unidades
fabris com nomes franceses e
espanhóis, e cartazes e letreiros
apelando à opção Tânger como
anfitriã da Expo 2012.
O objecto mais bélico com
que me deparei foi um canhão
português (lá estavam as quinas
e um enigmático Luiz gravados
no ferro) de uma época bem
posterior à henriquina, virado
para o mar, pousado no extenso
passeio que se prolonga por vários quilómetros desde o porto,
ponto receptor dos barcos que
fazem a ligação entre Tarifa e
Algeciras, até aos mais recentes
subúrbios, desta feita, marcados por novos empreendimentos turísticos, avistando-se mais
a nordeste o cabo Malabata,
onde deixámos para a posteridade um farol e um baluarte
fortificado.
Junto ao canhão travei conhecimento com uma dessas
personagens que em Marrocos
se designam faux guides, ou
seja, os falsos guias. Abordam-te, como quem não quer a
coisa, dando explicações a propósito disto e daquilo como se
fossem versados em todas as
matérias e mais alguma, e nem
ao Domingo tiram folga. Convém dar-lhes alguma atenção,
pois, afinal, como os próprios
dizem, limitam-se a fazer pela
vida – «há que ganhá-la, messieur» – e até podem, eventualmente, fornecer informações
preciosas.
«– Na Praça de Faro há muitos outros. Portugueses, espanhóis
e de outros países», informou o
homem, ao reparar que o supra mencionado canhão me
chamara a atenção.
Durante a caminhada ao longo do passeio marítimo, tendo
sempre ao meu lado direito um
areal imenso – 150 metros de
orla marítima aproveitados por
ginastas para praticar ousados
saltos mortais – cruzei-me com
muita gente, de olhar absorto,
fixando o horizonte. Sonhavam
certamente com a Europa, ali
tão perto.
Uns vinte minutos depois,
estava na parte antiga da cidade, assinalada por moradias
coloniais do período espanhol,
embora com elementos arquitectónicos de óbvia inspiração
portuguesa. Nas residenciais
existentes ao longo de uma
rua bastante íngreme, o privilégio de um duche quente era
adicionado ao preço da diária,
sem qualquer margem para negociação, o que contrariava a
habitual prática.
«– Acha caro doze euros? Isso é
ESCOLHA SARDINHAS
PORTUGUESAS
quanto você paga por um café no
seu país», disse-me, com maus
modos, o mal-encarado gerente
de uma dessas hospedarias, perante o espanto demonstrado
face aos preços praticados.
O homem, no alto da sua ignorância, tomava a nuvem por
Juno, desconhecendo as especificidades muito específicas de
uma União Europeia já então
desunida pela moeda única.
«– Na almedina encontrará maior
variedade de alojamento e a preços
bem mais acessíveis», aconselhar-me-ia alguém mais atencioso.
E em busca dessa almedina vi-me na Rue du Portugal,
como bem indicava uma placa
afixada num pedaço da muralha original portuguesa, que
desce a colina até a um cais
apinhado com os mais diversos
tipos de embarcações. Dentro
dessa muralha, transposta a
Porta Portuguesa, encontraria refúgio no souq, apelidado
ESCOLHA
PORTHOS
pelos franceses de Petit Socco,
não sem antes ter de me haver
com mais uns seis ou sete cicerones de ocasião.
«– Não te preocupes, amigo. Não
sou guia, apenas te quero ajudar,
sem compromissos», dizia um deles em Castelhano.
Circulavam por ali também
africanas e africanos de além-Sara, candidatos a ilegais em
terras de Espanha. Um deles
aproximou-se de mim e suplicou, em Francês, que lhe desse
dinheiro para comer, pois tinha
«vraiment faim». Também os havia bem vestidos. Certamente
não eram dos que percorriam
milhares de quilómetros a pé,
acampando ao longo da costa
norte de Marrocos à espera de
um barco que os levasse, sãos e
salvos, se tivessem sorte, até ao
lado de lá do Mediterrâneo.
Das labirínticas vielas desembocavam degraus que me
trouxeram à memória as “Escadinhas do Duque”, em Lisboa.
Bastante mais sujos, é certo,
estando bem patente uma notória falta de higiene nas casas de
pasto e botecos que ladeavam
o seu empedrado. O peixe e o
frango, fritos num óleo reutilizado sabe-se lá quantas vezes,
eram manuseados à “mãozada”
e sem qualquer cerimónia.
Pensão
Madrid.
Pensão
Mimi. Pensão Masada. Não faltava alojamento no coração da
cidade que viu nascer o grande viajante Ibn Battuta, cujos
relatos inspirariam muitas das
sagas do período das Descobertas. Graças à sua imensa fama,
o também ilustre geógrafo tem
hoje direito a mausoléu e empresta o nome a uma rua, ao
aeroporto e a diversos estabelecimentos comerciais, havendo
quem esteja disposto a indicar
ao visitante a casa onde ele, aparentemente, terá nascido.
O CLARIM | Semanário Católico de Macau | QUARTA-FEIRA | 30 de Setembro de 2015
PT
JOÃO SANTOS GOMES
21
R OTA D O S 5 0 0 A N O S
Bote furado
[email protected]
N
ão fosse a minha pouca
inclinação para o estilo
melodramático até iria
achar alguma piada, ou no mínimo
entretenimento, ao que se tem passado
nos últimos dias no que diz respeito ao
novo bote.
Como sabem, se nos vêm
acompanhando, depois de dois botes
insufláveis decidimos que o próximo
seria rígido e que nos desse a opção de
o utilizar também, além do motor e dos
remos, com vela. Assim, daqui a pouco
tempo, poderemos iniciar a Maria na
lides das velas – se bem que o conjunto
de vela, mastro e retranca terá de ficar
para mais tarde. Para já é mesmo só o
bote porque motor e remos já temos.
Decidimos adquirir um modelo da
marca Walker Bay – leve, de plástico
e muito utilizado pelos navegadores,
com provas provadas de durabilidade
e versatilidade de utilização. De entre
dois modelos que a marca disponibiliza,
optámos pelo mais pequeno, de apenas
oito pés. Para nós é suficiente, se bem
que mais pequeno, se comparado com
o insuflável de onze pés que temos
actualmente, com capacidade para seis
pessoas. A encomenda e o pagamento
– estas coisas pagam-se sempre em
adiantado (sempre me ensinaram que
quem paga adiantado é mal servido, e
cada vez mais acredito nesse ensinamento
dos meus pais) – foram feitas no início
de Julho, para que fosse entregue só no
final de Agosto porque, segundo nos
disseram, o dia do pagamento coincidia,
exactamente, com o dia em que o
contentor do mês de Julho deixaria St.
Martin (onde se encontra a casa mãe
da cadeia de lojas onde o comprámos, a
Budget Marine). Muito contra-vontade
aceitámos a desculpa e engolimos,
esperando pelo final de Agosto para
receber o novo bote.
Na data prevista, mais propriamente
no dia 23, a NaE voou para Macau,
sendo que o bote chegava no dia 24.
Por um dia não iria ver o tão desejado
meio de transporte. Nessa segunda-feira
esperei que me telefonassem. Esperei
em vão! Sem qualquer contacto, no
dia seguinte, terça-feira, decidi ir ao
estabelecimento para saber o que se
passava. Foi-me dito que não tinha
vindo qualquer bote com as nossas
especificações porque não estava
disponível em St. Martin. Perguntei
porque só agora, no dia em que
deveria ser entregue, haviam chegado
à conclusão que não podiam satisfazer
o pedido? Deviam, pois, ter entrado
em contacto muito antes a explicar a
situação e assim tentar encontrar uma
solução. Tal argumento não surtiu
qualquer efeito. Não havia, não havia,
paciência! Nem o facto de estar pago
mudaria as circunstâncias. Pedi para
falar com o gerente, mas visto ser hora
de almoço o mesmo mandou dizer que
eu teria de esperar mais de uma hora
até que terminasse o manjar. Claro está
que não esperei.
Na segunda-feira seguinte, dia 31
de Agosto, entrava ao serviço a pessoa
que tinha recebido a encomenda – a
gerente assistente do estabelecimento
– pelo que decidi esperar para falar
com ela directamente, visto que o seu
superior não estaria muito disposto a
resolver a situação.
Não vale a pena pensar em
apresentar queixa formal ou algo
parecido. As Caraíbas são um mundo
completamente diferente daquele
a que estamos habituados e tudo se
resolve de forma sui generis – ao estilo
das Caraíbas, como dizem, com um
sorriso na cara.
Por mero acaso, encontrei a
senhora num supermercado, tendo
ela perguntado se já tinham entregado
o bote. Deduzi que nem sequer
tinha sido informada da situação,
respondendo-lhe que na segunda-feira
íamos “conversar”.
Quando ficou a saber o que se
passava fez todos os possíveis para
resolver a situação, tendo encontrado
um bote igual na loja da mesma cadeia
em Trinidade e Tobago. Apresentava
uns pequenos riscos, dano pelo qual
seria compensado.
Estando farto da situação disse-lhe
que desde que boiasse aceitava ficar com
o bote, que não chegou no dia entre nós
acordado. Os danos visíveis nem eram
assim tão grandes (apenas uns pequenos
riscos cosméticos). Isto até eu e o capitão
do Gentileza o colocarmos na água...
Entrou água junto da válvula de esgoto,
pelo que em poucos minutos afundaria.
Retirámo-lo da água, telefonei para
a loja a informar do infortúnio e a
camioneta que fez a entrega nem
chegou a sair do recinto da marina.
Levantou-se então outro problema:
não há outro bote nas Caraíbas
disponível para entrega, pelo que
tinha duas opções: esperar até meados
de Outubro, até que chegasse nova
remessa, ou receber o dinheiro e
desistir do novo bote.
Verdade seja dita que a gerente
assistente tem tentado tudo para resolver
o problema, tendo sugerido outra
alternativa. Há outro bote em Trinidade
e Tobago, mas de dez pés, maior do
que o inicialmente encomendado. Caso
aceitasse entregar-mo-ia sem qualquer
encargo adicional. Um bom negócio
visto que a diferença de preço é superior
a cinquenta por cento entre o de oito
e o de dez pés. Aceitei, pois não tenho
outra opção. O bote vai atravancar ainda
mais o convés quando navegarmos, mas
desde que bóie tudo bem.
Resta esperar até ao dia 28 deste mês.
Apesar de Trinidade e Tobago ser aqui
ao lado, só há um barco de carga por
semana, à sexta-feira, e a decisão foi
tomada pouco tempo depois do navio
ter zarpado. Agora há que esperar mais
uma semana, dois dias antes de sairmos
de Grenada, a 1 de Outubro.
Quanto ao resto, estamos bem e o
tempo tem cooperado. Sol, calor,
alguma chuva e boa disposição.
A ASSOCIAÇÃO PROMOTORA
DA INSTRUÇÃO DOS MACAENSES
ASSINALA
o 66º Aniversário
da Implementação da
República Popular da China
CADERNO DIÁRIO
O CLARIM | Semanário Católico de Macau | QUARTA-FEIRA | 30 de Setembro de 2015
22
Quarta 23
Terça 29
Martinho
Lesa-Pátria 1
Na altura do seu nascimento, D. Sancho I não
estava destinado a ser
o segundo Rei de Portugal. A prová-lo está o
facto de ter sido baptizado com o nome de Martinho, por ter nascido a
11 de Novembro. Martinho era, no entanto,
um nome sem tradição
entre os reis hispânicos.
E, passado algum tempo (de seis meses a um
ano), mudaram-lhe o
nome para Sancho. Na
verdade, no dia de São
Martinho de 1154, nasceu, não o primogénito,
mas o segundo filho (legítimo) do primeiro monarca português. Destinado a ser o segundo
Rei de Portugal estava
o seu irmão Henrique,
Falhou a tentativa de venda do Novo
Banco, e o Banco de Portugal regressa
agora às conversações com fundos internacionais de capital. Num mundo globalizado, onde as crises financeiras são
frequentes, a dependência da economia portuguesa em relação a estes fundos de capitais especulativos é altamente perigosa, deixando o País à mercê da
volatilidade dos mercados. Tenhamos
ainda em atenção que o Novo Banco é
o patrocinador oficial da Selecção Portuguesa de Futebol e continua com o
mesmo tipo de publicidade agressiva
anterior ao colapso. Nesta última legislatura foram injectados na banca, no
mínimo, 20 mil milhões de euros, entre
as capitalizações e os resgates dos buracos financeiros do BPN, do BANIF,
do BPP, do Montepio e do BES. Os
que, na altura, tinha
já sete anos. Era este o
primogénito, a quem
D. Afonso Henriques,
note-se, deu o nome de
seu pai. E o facto de ter
dado o nome de Marti-
nho ao menino nascido
naquele dia indica que
talvez o destinasse à
carreira eclesiástica. Se
Martinho não era nome
para rei, seria adequado
para um clérigo.
PT
números são estes. O sistema financeiro é a base da economia de mercado
e, no momento presente, estão ambos
desequilibrados. Cerca de 40 mil milhões de euros de riqueza gerada todos
os anos fogem, por esta ou aquela forma, aos impostos, o que poderia gerar
uma receita média de 10 mil milhões.
A falta de controlo fiscal das importações tem também lesado o Estado
através da fuga ao IVA, para além de
gerar concorrência desleal para com
os produtores e fabricantes portugueses. Entretanto, criou-se um Banco de
Fomento, que a única coisa que fez foi
pagar salários exorbitantes aos seus administradores políticos. Em conclusão,
a dívida externa bruta, soma da dívida
pública com a privada, ultrapassa já os
500 mil milhões de euros!
Quinta 24
História
A história é geralmente escrita pelos vencedores, sendo profundamente injusta
para com os vencidos. No quadro gigantesco da Reforma e da Contra-Reforma,
o apóstolo da tolerância ocupa um segundo plano; os outros todos, possessos
do génio e da crença, cumpririam dramaticamente o seu destino.
Sexta 25
Inveja
Os portugueses, segundo muitos analistas,
consideram-se frequentemente um povo de
invejosos, o que leva a
denegrirem os sucessos obtidos por alguém,
caindo na maledicência.
O sucesso de alguém é
olhado com desconfiança, não é motivo de regozijo colectivo, mas de
preocupação. A única
explicação que o invejoso aceita para o êxito de
alguém é que o mesmo
se deve ao acaso (sorte),
ou a outra pessoa que
não o próprio. O inve-
Lesa-Pátria 2
joso não acredita nos
resultados do trabalho,
Leia O CLARIM na net
muito menos nos méritos de alguém.
A Sociedade de Transportes Colectivos
do Porto (STCP) e o Metro do Porto,
depois de falhado o concurso público,
foram passadas para as mãos de empresas estrangeiras por ajuste directo.
Esta operação de venda, por si só, vai
originar automaticamente uma perda
de mil milhões de euros! As propostas
escolhidas ganharam por uma margem
mínima. Está previsto no caderno de
encargos que não pode haver “aumen-
www.oclarim.com.mo
tos extraordinários” de bilhetes, mas já
ninguém acredita nisso, atendendo aos
anteriores exemplos. Não haja dúvidas:
a concessão dos transportes públicos do
Porto em regime privativo a empresas
multinacionais de outros países é lesiva
do Estado e dos utentes. Sabe-se igualmente que muitos destes actores da política dos negócios só permanecem em
palco para roubarem o cenário, peça
por peça.
ENTRETENIMENTO
O CLARIM | Semanário Católico de Macau | QUARTA-FEIRA | 30 de Setembro de 2015
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PT
TDM Canal 1
13:00
13:30
14:30
18:20
19:00
19:40
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22:10
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23:45
00:20
00:50
Quarta-feira
TDM News (Repetição)
Telejornal RTPi (Diferido)
RTPi (Directo)
Telenovela: Amor à Vida (Rastros de Mentiras – Repetição)
TDM Entrevista (Repetição)
Telenovela: Paixões Proibidas
Telejornal
Montra do Lilau
Literatura Agora
Telenovela: Amor à Vida (Rastros de Mentiras)
TDM News
Resumo Liga dos Campeões
Liga dos Campeões: Porto x Chelsea (Repetição)
RTPi (Directo)
Quinta-feira
Dia da Implantação da RPC:
Cerimónia do Hastear da Bandeira (Directo)
TDM News (Repetição)
RTPi (Directo)
Telejornal RTPi (Diferido)
Filme da Treta
Sabia Que?
Rasgar o Céu
Ver de Perto
Telenovela: Amor à Vida (Rastros de Mentiras – Repetição)
Montra do Lilau (Repetição)
Telenovela: Paixões Proibidas
Telejornal
TDM Talk Show
Agora a Sério
Telenovela: Amor à Vida (Rastros de Mentiras)
TDM News
Resumo Liga dos Campeões
Onda Curta
Telejornal (Repetição)
RTPi (Directo)
Sexta-feira
13:00 TDM News (Repetição)
13:30
14:30
16:00
17:25
18:20
19:10
19:40
20:30
21:15
21:45
22:10
23:00
23:30
23:45
01:20
01:50
Telejornal RTPi (Diferido)
Atrás das Nuvens
Luís Alberto Bettencourt
Guitarras ao Alto
Telenovela: Amor à Vida (Rastros de Mentiras – Repetição)
TDM Talkshow (Repetição)
Telenovela: Paixões Proibidas
Telejornal
Macau 360°
Mudar de Vida
Amor à Vida (Rastros de Mentiras)
TDM News
Resumo Liga Europa
Cinema: Sonhar é Fácil
Telejornal (Repetição)
RTPi (Directo)
10:45
11:35
12:00
12:30
13:00
13:30
14:30
18:10
18:30
19:20
19:50
20:30
21:00
22:00
23:00
23:30
00:30
01:00
Sábado
Os Ursos Boonie
Esfera Ki
À Mesa com Capote
Cozinha em Forma
TDM News (Repetição)
Telejornal RTPi (Diferido)
Telenovela: Paixões Proibidas (Compacto)
Sabia Que?
Quem Quer Ser Milionário
What’s Up: Olhar a Moda
Macau 360° (Repetição)
Telejornal
Conta-me como foi
Pedro e Inês
TDM News
Pop Lusa
Telejornal (Repetição)
RTPi (Directo)
Domingo
10:35 Jardim da Celeste
11:00 Missa Dominical
12:00 A Hora de Baco
A PARTIR DE 30/9/2015
B
12:30
13:00
13:30
14:30
16:30
17:20
17:50
18:20
18:50
19:40
20:30
21:00
22:00
23:00
23:30
23:45
00:40
01:10
Especial Saúde
TDM News (Repetição)
Telejornal RTPi (Diferido)
Zig Zag
Pequenos em Grande
Photo Madeira
AB Ciência
Corpo Clínico
Decisão Final
Bem-Vindos a Beirais
Telejornal
Contraponto
Em Busca da Cura para o Ébola
TDM News
Reportagem
AUDAX: Negócios à Prova
Telejornal (Repetição)
RTPi (Directo)
21:00 TDM Entrevista
13:00
13:30
17:50
18:40
19:40
20:30
21:00
22:10
23:00
23:30
00:05
00:40
Segunda-feira
TDM News (Repetição)
Telejornal RTPi (Diferido)
Telenovela: Amor à Vida (Rastros de Mentiras – Repetição)
Contraponto (Repetição)
Telenovela: Paixões Proibidas
Telejornal
TDM Desporto
Telenovela: Amor à Vida (Rastros de Mentiras)
TDM News
Magazine Liga dos Campeões 2015/2016
Telejornal (Repetição)
RTPi (Directo)
13:00
13:30
14:30
17:50
18:40
19:40
20:30
Terça-feira
TDM News (Repetição)
Telejornal RTPi (Diferido)
RTPi (Directo)
Telenovela: Amor à Vida (Rastros de Mentiras – Repetição)
TDM Desporto (Repetição)
Telenovela: Paixões Proibidas
Telejornal
21:40 City Folk: Gente da Cidade
22:10 Telenovela: Amor à Vida (Rastros de Mentiras)
23:00 TDM News
23:30 Portugal Aqui Tão Perto
00:30 Telejornal (Repetição)
01:05 RTPi (Directo)
Quarta-feira
13:00 TDM News (Repetição)
13:30 Telejornal RTPi (Diferido)
14:30 RTPi (Directo)
18:20 Telenovela: Amor à Vida (Rastros de Mentiras – Repetição)
19:00 TDM Entrevista (Repetição)
19:40 Telenovela: Paixões Proibidas
20:30 Telejornal
21:00 Montra do Lilau
21:40 Mar de Letras
22:10 Telenovela: Amor à Vida (Rastros de Mentiras)
23:00 TDM News
23:30 A Minha Geração
01:10 Telejornal (Repetição)
01:45 RTPi (Directo)
Quinta-feira
13:00 TDM News (Repetição)
13:30 Telejornal RTPi (Diferido)
18:50 Telenovela: Amor à Vida (Rastros de Mentiras – Repetição)
19:10 Montra do Lilau (Repetição)
19:40 Telenovela: Paixões Proibidas
20:30 Telejornal
21:00 TDM Talk Show
21:40 Agora a Sério
22:10 Amor à Vida (Rastros de Mentiras)
23:00 TDM News
23:30 Onda Curta
00:05 Telejornal (Repetição)
00:40 RTPi (Directo)
02:45 Apuramento Euro 2016: Portugal x Dinamarca
04:45 RTPi (Directo)
B
A PARTIR DE 30/9/2015
SALA 1
SALA 1
EVEREST
THE MARTIAN
14:30 | 16:45 | 21:45
19:15
Um filme de: Baltasar Kormakur
Com: Jason Clarke, Josh Brolin, John Hawkes, Robin Wright
A PARTIR DE 30/9/2015
Um filme de: Ridley Scott
Com: Matt Damon, Jessica Chastain, Kristen Wiig, Kate Mara
B
SALA 2
OFFICE
14:00 | 17:45 | 21:30
Um filme de: Johnnie To
Com: Chow Yun Fat, Sylvia Chang, Eason Chan, Tang Wei
Língua: Falado em Cantonês, com legendas em Chinês e Inglês
A PARTIR DE 30/9/2015
C
SALA 2
ATTACK ON TITAN
END OF THE WORLD
16:05 | 19:50
Um filme de: Shinji Higuchi
Com: Haruma Miura, Kiko Mizuhara
Língua: Falado em Japonês, com legendas em Chinês e Inglês
S E M A N Á R I O
C A T Ó L I C O
D E
M A C A U
24 | QUARTA-FEIRA | 30 - 09 - 2015
Rua do Campo, Edf. Ngan Fai, Nº 151, 1º G, MACAU
TEL. 28573860 FAX. 28307867
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Edição 30-09-15 - Jornal O Clarim