EN DIRECTOR Pe. José Mario O. Mandía | ANO 68 | Nº 19 | 30 de SETEMBRO de 2015 | QUARTA-FEIRA PT EN CH EDIÇÃO TRILINGUE | TRILINGUAL EDITION | SEMANÁRIO CATÓLICO DE MACAU | PREÇO 12.00 Mop www.oclarim.com.mo ALEXANDRE HAVARD, FUNDADOR DO VIRTUOUS LEADERSHIP INSTITUTE «A Rússia e o Vaticano estão cada vez mais isolados» DESTAQUE PÁGs. 2, 3, 4 Macau celebra S. Francisco de Assis LOCAL PÁG. 7 E 5 MAESTRO AURELIO PORFIRI SOBRE O ESTADO DA CULTURA EM MACAU Para os amigos, tudo! Ai que Dore! OPINIÃO PÁG. 9 Vaticano acolhe famílias sírias Alternativa aos criminosos LITURGIA PÁG. 14 OPINIÃO PÁG. 11 Porquê falarmos da Família? Voltamos no dia 9 de Outubro ECLESIAL PÁG. 16 LOCAL PÁG. 7 D E S TAQ U E O CLARIM | Semanário Católico de Macau | QUARTA-FEIRA | 30 de Setembro de 2015 2 PT ALEXANDRE HAVARD, FUNDADOR DO VIRTUOUS LEADERSHIP INSTITUTE «A Rússia e o Vaticano estão cada vez mais isolados» ci muitas pessoas que ficaram fascinadas com o conceito de liderança virtuosa e se ofereceram para trabalhar comigo. Estas pessoas criaram estruturas em Washington, Paris, Moscovo, Xangai e Nairobi. CL – Qual o objectivo? A.H. – Diz a Igreja Católica que se praticarmos as quatro virtudes cardeais (prudência, coragem, auto-controle e justiça) somos boas pessoas. Acontece que a maioria dos cristãos não tem ideia do que é a magnanimidade – a virtude da grandeza – considerando que basta apenas cumprir as quatro virtudes cardeais. Ora, a liderança deve ser um sonho na nossa vida, um sentido de missão, um desejo de multiplicarmos os nossos talentos JOSÉ MIGUEL ENCARNAÇÃO EM Moscovo (Rússia) Francês de nascença, russo de sangue, Alexandre Havard trabalha com administradores de empresas, forças armadas e universidades espalhadas pelo mundo. A’O CLARIM falou do conceito de liderança virtuosa, do ressurgimento da Rússia na esfera mundial – colocando-a ao lado dos Estados Unidos – de Cristianismo, do movimento LGBT, do Médio Oriente, da Ucrânia e de Vladimir Putin. Uma conversa franca, em território russo, inimaginável há duas décadas. O CLARIM – Criou o Virtuous Leadership Institute em resultado de uma experiência de vida. Fale-nos um pouco de si e da organização a que preside? ALEXANDRE HAVARD – Sou advogado de formação. Nasci e estudei em Paris, onde exerci advocacia durante alguns anos. Também trabalhei em Estrasburgo e na Finlândia. Vivi 18 anos em Helsínquia, onde descobri que seria mais útil se fizesse qualquer outra coisa para além da advocacia. O Virtuous Leadership Institute nasceu entre os meus alunos. Eu leccionava História da Integração Europeia, na Universidade em Helsínquia. Nas aulas falava nos grandes fundadores da União Europeia: Gasperi, Adenauer, Schuman e Monnet. Os meus alunos ficavam fascinados por estas personalidades e pediam-me que falasse sobre estes assuntos e não sobre legislação da União Europeia; que falasse sobre seres humanos e não sobre coisas. Descobri que, de facto, a Universidade não estava a educar as pessoas. Estava a formá-las, mas não a educá-las. “Education”, “educare”, “educere” é trazer ao de cima as grandes qualidades das pessoas. Não é implantar modelos pré-concebidos em pequenos cérebros. Desisti da advocacia e dediquei-me ao ensino da liderança virtuosa. Não S E M A N Á R I O C C AT Ó L I C O D D E D M A C AU A liderança deve ser um sonho na nossa vida, um sentido de missão, um desejo de multiplicarmos os nossos talentos e de actuarmos. No final de cada dia o meu instituto ajuda muitos cristãos a entenderem que não basta ser bom; temos de ser excelentes, magnânimos se trata de ensinar técnicas de liderança, de como manipular as pessoas, de como ser bem sucedido. Queria antes mostrar às pessoas o que é a liderança virtuosa. Tem como base a virtude, o carácter, a magnanimidade e a humildade. Magnanimidade enquanto grandeza e humildade enquanto serviço. A ideia era demons- trar que a liderança tem como objectivo alcançar a magnanimidade trazendo ao de cima a grandeza que há dentro de nós. Não tem a ver com sucesso. Escrevi vários livros, traduzidos em quinze línguas, incluindo o Chinês, e comecei a ensinar por todo o mundo – nos Estados Unidos, na Europa, na China, em África. Conhe- e de actuarmos. No final de cada dia o meu instituto ajuda muitos cristãos a entenderem que não basta ser bom; temos de ser excelentes, magnânimos. Não esperarmos pelo Salvador – esse já veio há mais de dois mil anos. O pensamento é: “Eu tenho de ser aquele que vai mudar a humanidade, agora!” Temos talentos e temos que estar a par dos nossos talentos. Temos de agradecer a Deus pelos nossos talentos, pelo que devemos utilizá-los. Tem a ver com a dignidade e a criatividade de cada um. Ensino aos meus alunos como desenvolver as virtudes da grandeza e da humildade. Tem sido uma enorme DIRECTOR: Pe. José Mario O. Mandía I ADMINISTRADOR: Alberto Santos | ASSISTENTE DA ADMINISTRAÇÃO: Wong Sao Ieng I EDITOR: José Miguel Encarnação I EDITOR-ADJUNTO:Benedict Keith Ip | REDACÇÃO: Pedro Daniel Oliveira, Joaquim Magalhães de Castro (Grande Repórter) I SECRETARIADO DA REDACÇÃO E FOTOGRAFIA: Ana Marques I TRADUÇÃO: May Shiu-Ling Ho | COLABORAÇÃO: João Santos Gomes, Pe. João Eleutério, Carlos Frota, Luís Barreira, José Pinto Coelho, Vítor Teixeira, Manuel dos Santos, Oswald Vas, Padres Claretianos I DIRECÇÃO GRÁFICA: Miguel Augusto I PAGINAÇÃO: Lei Sui Kiang I PROPRIEDADE: Diocese de Macau MORADA: Rua do Campo, Edf. Ngan Fai, Nº 151, 1º G, Macau I TELEFONE: 28573860 - FAX: 28307867 I URL: www.oclarim.com.mo I E-MAIL: [email protected] I IMPRESSÃO: Tipografia Welfare Ltd. O CLARIM | Semanário Católico de Macau | QUARTA-FEIRA | 30 de Setembro de 2015 D E S TAQ U E 3 PT descoberta para mim e para muitas pessoas. Fomos criados para a grandeza, não para a mediocridade. Muitas pessoas são exemplo de grandeza, devemos aprender com elas. O mundo nunca mudará se tivermos uma visão fraca da humildade, se tivermos uma mente pequena. A humildade deve estar ligada à magnanimidade. Tanto cristãos, como não cristãos, entendem a nossa mensagem. Todos as pessoas querem ser grandiosas. Os crentes entendem muito bem que devem ser magnânimos, devem actuar e transformar o mundo ao serviço de Deus. Os não crentes começam a compreender que estes dons são uma dádiva de Deus, pelo que devem procurar Deus, se não começam a dar em malucos e colapsam. Em termos gerais, os cristãos precisam de mais grandeza e os não crentes de mais humildade. CL – Que tipo de pessoas procura o instituto? A.H. – Há tipos diferentes de pessoas. Há os executivos de grandes empresas que procuram alcançar a excelência. Quando são novos procuram ter uma carreira e alcançar o sucesso. Depois de atingiram os objectivos começam a pensar neles próprios e no sentido das suas vidas. Sou convidado por eles para ir às empresas, para falar com os membros dos conselhos de administração. Também sou procurado por militares. No ano passado estive nos Estados Unidos a convite das escolas de guerra do Exército e da Marinha, onde se formam os oficiais dos respectivos ramos. Para além de militares de topo, também trabalho com docentes de ensino. Somos líderes quando educamos. Se não educarmos não somos líderes. Educar é trazer ao de cima o melhor que há dentro dos outros. Se formos o patrão de uma empresa, mas não soubermos ensinar, não sabemos ser líderes. A grande maioria dos meus interlocutores são estudantes. Passo oitenta por cento do meu tempo a trabalhar com estudantes do Ensino Superior. Foram os estudantes que me conduziram a este modo de vida e estou-lhes grato. Todas as semanas organizo palestras para eles. Criei aqui em Moscovo um instituto juntamente com vinte alunos. Serão eles que no futuro irão continuar este projecto e difundir o conceito de liderança virtuosa por toda a Rússia. Gostaria que se espalhasse por todo o mundo. Há universidades nos Estados Unidos que colaboram connosco, onde há inclusivamente um mestrado dedicado à liderança virtuosa. Na China já estamos há dois anos, com algum sucesso. Há empresas chinesas que nos procuram e mostram-se satisfeitas com os progressos alcançados. CL – A presença ou ausência de liderança em cada um de nós pode explicar o sucesso ou fracasso dos sistemas políticos, económicos e sociais? A.H. – Chego à conclusão que muitas pessoas não acreditam em Jesus, porque não acreditam no Homem. Muitas pessoas são pequenas porque misturam o Individualismo com o Socialismo. O Socialismo diz-nos que não somos ninguém. O todo é alguma coisa, mas nós, enquanto seres únicos, não somos nada. O Socialismo fala da Sociedade, não há lugar para o indivíduo. O Individualismo diz-nos precisamente O Socialismo diz-nos que não somos ninguém. O todo é alguma coisa, mas nós, enquanto seres únicos, não somos nada. Não há lugar para o indivíduo. O Individualismo diz-nos precisamente o contrário: não precisamos de servir os outros, somos grandes, não precisamos da Sociedade. “Eu, eu e só eu” o contrário: não precisamos de servir os outros, somos grandes, não precisamos da Sociedade. “Eu, eu e só eu”. No Individualismo não há substância – eu como Deus, sem sentido de dignidade pessoal. CL – Actualmente alguns CEO de grandes multinacionais são filhos de emigrantes ou provenientes de países terceiros, sem qualquer ligação aos países-sede dessas empresas. Pode isto significar que o poder está a ser transferido dos denominados países do centro para as periferias? A.H. – O contacto com diferentes culturas dá-nos uma visão ampla do mundo. Pessoas que se movem de Este para Oeste e vice-versa tornam-se culturalmente superiores, pois conhecem diferentes tipos de cultura e conseguem resolver os problemas com mais sabedoria. Um europeu que só conhece a Europa, ou um americano que só conhece a América, tem uma visão mais limitada. É por isso que muitos enviam os filhos para a Rússia ou para a Ásia, para verem que há diferenças entre os diferentes blocos. Não me surpreende, pois, que as grandes companhias coloquem os seus CEO em contacto com diferentes culturas, pois têm que lidar com pessoas de todas as partes do mundo. No entanto, não considero que tenha tanto a ver com liderança, mas mais com capacidade de gestão. A liderança é espiritual. Uma pessoa pode conhecer muitas culturas, mas continuar pequena se não for magnânime, se não sonhar, se não procurar transformar o outro, se só pensar em ganhar dinheiro. CL – Num mundo cada vez mais global parecem existir duas realidades: a das pessoas e a dos políticos. Enquanto nós, cidadãos comuns, procuramos unificar o mundo, os políticos erguem muros, aprofundando o fosso entre Norte e Sul, entre Este e Oeste. Como olha a actual dicotomia Estados Unidos/União Europeia – China/Rússia? A.H. – É verdade! Quando estou junto dos mais novos reparo que as suas vidas não são muito diferentes da vida de um francês ou de um chinês. Têm os mesmos iPhones, os mesmos smartphones, os mesmos iPads, não vêem televisão, ouvem o mesmo tipo de música. Existe de facto uma cultura global muito alicerçada nos Estados Unidos, que impuseram ao mundo um tipo de cultura espiritualmente muito pobre. Uma cultura baseada no sucesso e no dinheiro a curto prazo. Não tem como missão espraiar a espiritualidade e os valores do Cristianismo, mas que é muito eficiente e, por isso, muito poderosa. No caso da Rússia, por exemplo, depois do colapso do Marxismo os Estados Unidos ocuparam um lugar que ficou vago. Acontece que no final dos anos 90 já os russos andavam muito desiludidos. O Marxismo tinha caído e impusera-se o Liberalismo – o dinheiro haveria de resolver todos os problemas. Tivemos aquilo a que chamamos “terapia de choque” (dos tipos de Harvard), com a introdução do Capitalismo Individualista, como se tal pudesse substituir 70 anos de Comunismo de um dia para o outro... Em 2000 Boris Yeltsin chorou e pediu perdão ao povo Existe de facto uma cultura global muito alicerçada nos Estados Unidos, que impuseram ao mundo um tipo de cultura espiritualmente muito pobre. Uma cultura baseada no sucesso e no dinheiro a curto prazo. Não tem como missão espraiar a espiritualidade e os valores do Cristianismo russo por ter falhado. Sugeriu que votassem em Vladimir Putin, que assumiu o poder com uma visão totalmente diferente do seu antecessor. Yeltsin considerava que o Comunismo era tão mau, tão mau, que o Liberalismo só podia ser melhor. Depois de dez anos no Poder percebeu que o Liberalismo não é a solução para a Rússia. O Comunismo e o Liberalismo têm a mesma visão do Ser Humano, que CONTINUA D E S TAQ U E 2 O CLARIM | Semanário Católico de Macau | QUARTA-FEIRA | 30 de Setembro de 2015 4 PT A geopolítica dos Estados Unidos para o Médio Oriente é totalmente criminosa. São mortos anualmente cem mil cristãos no Médio Oriente devido à sua acção. Há um “complot” internacional para matar os cristãos. A razão para não deixaram a Rússia resolver o problema é porque são anti-cristãos é reduzi-lo à insignificância. Putin foi educado nas fileiras do KGB, tinha outra visão. Percebeu que a estrutura da Rússia tinha colapsado... e que o País tinha a bomba atómica. O Papa João Paulo II apercebeu-se do problema e assustou-se. Putin reabilitou o Estado russo, destruiu a Máfia, combateu a corrupção – ainda há muita mas vem diminuindo de ano para ano – e revelou qual a visão que tem para o mundo, na qual os Estados Unidos não podem ser os únicos a ditar as regras na esfera internacional. Hoje no Médio Oriente a Rússia tem uma palavra a dizer, apoiando o Governo sírio no combate ao Estado Islâmico, que luta com armas fornecidas pelos Estados Unidos, o que fez reavivar o orgulho da nação russa. CL – Talvez a solução passe pela Rússia encontrar os seus próprios modelos, à semelhança do que tem feito a China... A.H. – A Rússia de hoje promove determinados valores, como a Tradição, a Igreja e a Família. Não matamos ninguém do movimento LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgénero), mas também não permitimos que façam propaganda nas escolas junto dos mais novos. Não prendemos por prender. As “Pussy Riot” só foram presas porque entraram numa igreja e atentaram contra a ordem pública. A Administração Obama e os Estados europeus estão de mãos dadas com o movimento LGBT e por isso odeiam a Rússia. O mais curioso é que os actuais líderes europeus são quase todos ex-marxistas, ex-maoístas ou ex-trotskistas. Nos anos 70 e 80 amavam a União Soviética e agora detestam a Rússia. As mesmas pessoas que hoje escrevem coisas horríveis sobre a Rússia são as mesmas que escreviam coisas bonitas sobre a União Soviética. O mundo mudou. Depois do Comunismo na União Soviética o mal passou, muito provavelmente, para os Estados Unidos. A Virgem Maria triunfou no nosso país. Nós que estudámos na Europa adoráva- A Administração Obama e os Estados europeus estão de mãos dadas com o movimento LGBT e por isso odeiam a Rússia. O mais curioso é que os actuais líderes europeus são quase todos exmarxistas, ex-maoístas ou ex-trotskistas. Nos anos 70 e 80 amavam a União Soviética e agora detestam a Rússia mos os Estados Unidos, a sua estratégia, o seu poder, mas quando o Comunismo acabou revelou-se que afinal os Estados Unidos não queriam destruir o Comunismo, queriam destruir a Rússia, porque a Rússia é um adversário. Ronald Reagan, um cristão, odiava o Comunismo, mas adorava os russos. Depois dele, quem veio a seguir – especialmente os Bush – odeia a Rússia. Para eles a Rússia é o Diabo. Muitas pessoas da Administração Obama odeiam a Rússia, porque esta tem outra visão que eles não entendem nem aceitam. Os Estados Unidos querem espalhar a Democracia por todo o mundo, nos Estados islâmicos, na Ásia, e os russos são um obstáculo porque pensam de outra maneira. Deus quer que a Rússia e a Ásia pensem de outra maneira e isso é bom. A China e a Rússia não querem que haja um pensamento global para sempre. Enquanto os Estados Unidos e a Europa vão caindo em termos espirituais, a Rússia eleva-se. A Europa vai no sentido contrário ao Cristianismo, em direcção ao Paganismo; vem negando as raízes do Cristianismo e dos valores por detrás da construção europeia. Por sua vez, a Rússia está a sair do túnel do Comunismo em direcção ao Cristianismo. A questão não é onde estamos, mas para onde vamos. O Ocidente detesta a Igreja, a Família, promove o puro individualismo e o movimento LGBT em nome da liberdade. CL – Nos poucos dias que estou em Moscovo pude-me aperceber que a cidade é muito limpa, organizada e segura. As pessoas trabalham, as famílias são unidas e os fiéis frequentam a Igreja. Como se consegue isto nos dias de hoje? A.H. – É verdade mas não se esqueça que está em Moscovo, na capital. Se for para fora, para o interior, há alguma pobreza e muita gente a consumir álcool. O alcoolismo é o nosso maior problema. O povo russo procura cumprir as regras. O temperamento dos russos é diferente, são muito introvertidos, embora bastante sociáveis. Talvez por isso tenhamos muitos pintores, músicos e escritores. É isso que muitos estrangeiros gostam na Rússia, da sua seriedade e profundidade. Ao princípio não gostam de vir para a Rússia, mas passado um ano já não querem sair. Aqui não há superficialidade, as pessoas gostam de falar de coisas sérias, seja onde for. O CLARIM | Semanário Católico de Macau | QUARTA-FEIRA | 30 de Setembro de 2015 D E S TAQ U E 5 PT 3 CL – De acordo com a lei, a Rússia é um país secular, mas se olharmos para algumas notas de Rublo vemos representadas catedrais. A Ortodoxia é, na prática, a religião do Estado? A.H – Não temos qualquer preconceito em relação ao Cristianismo, ao contrário do que acontece no Ocidente, onde as pessoas não falam sobre a sua fé. Na Rússia a Igreja é considerada como algo positivo. A Igreja foi destruída pelo Comunismo. Havia 400 bispos e sobraram apenas três. Sentimos o fim da Civilização. É uma era que já terminou e os russos querem viver uma vida normal e o Cristianismo faz parte das suas vidas. CL – A Europa enfrenta uma onda de refugiados que traz consigo outra cultura e religião. O Presidente Putin quer resolver o problema, exterminando o Estado Islâmicos e outros grupos terroristas, mas tem deparado com alguns entraves colocados pelos Estados Unidos e seus aliados. Como analisa esta situação? A.H – O que diz é verdade. A geopolítica dos Estados Unidos para o Médio Oriente é totalmente criminosa. São mortos anualmente cem mil cristãos no A NATO entrou na Polónia, nos Balcãs e começou a expandir-se para a Ucrânia. Acontece que a Rússia sempre disse que a Ucrânia deveria ficar de fora das intenções da NATO, uma vez que nós, russos, também somos ucranianos. Todos os russos têm raízes ucranianas. Todos nós nascemos na Ucrânia Médio Oriente devido à sua acção. Há um “complot” internacional para matar os cristãos. A razão para não deixaram a Rússia resolver o problema é porque são anti-cristãos. Pergunte a opinião das pessoas e dos bispos que ainda lá estão e elas dizem-lhe o que pensam sobre a Rússia. Os Estados Unidos estão a destruir e a torturar esta gente. No Governo dos Estados Unidos ou são malucos ou simplesmente criminosos. Bashar al-Assad está a ser perseguido apenas porque não quis cumprir as regras que lhe foram impostas. Os países têm o direito de não quererem ser marionetas dos Estados Unidos. Espero que a Rússia seja bem sucedida, pois temos cerca de vinte milhões de muçulmanos dentro do nosso território. Imagine que os muçulmanos extremistas, do lado de lá da fronteira, faziam chegar armas às nossas comunidades, acompanhadas por discursos de ódio... Os muçulmanos rus- sos não são extremistas, mas podem ser fanatizados. Se não fizermos nada agora, podemos vir a sofrer as consequências. CL – Ouvimos falar muito sobre o conflito na Ucrânia. Sendo russo, pode partilhar a sua visão? A.H. – A situação na Ucrânia foi provocada de forma totalmente artificial pela NATO, por razões meramente geopolíticas. Quando o Comunismo acabou a NATO disse a Mikhail Gorbachev que não iria expandir para Leste. A partir do momento em que o Pacto de Varsóvia terminou, a NATO também deveria ter deixado de existir. A NATO foi formada para combater a União Soviética e não para combater a Rússia. Com Bush tudo se alterou. A NATO ganhou força e procuraram conquistar culturalmente a Rússia e o resto do mundo. A NATO entrou na Polónia, nos Balcãs e começou a expandir-se para a Ucrânia. Acontece que a Rússia sempre disse que a Ucrânia deveria ficar de fora das intenções da NATO, uma vez que nós, russos, também somos ucranianos. Todos os russos têm raízes ucranianas. Todos nós nascemos na Ucrânia. Só no século XIII é que os ucranianos partiram, da zona de Kiev, para Nordeste. O Governo americano, em conjunto com o movimento LGBT, tem como missão declarar guerra à Rússia, à nossa tradição e conservadorismo. O Papa Francisco está muito bem ciente desta realidade e não parece nada satisfeito com o facto dos Estados Unidos lhe dizerem como deve lidar com o Presidente Putin. O Vaticano tem mais de dois mil anos de história diplomática, não precisa que seja o Governo dos Estados Unidos a dizer como se deve comportar. CL – Considera ser possível uma visita do Papa Francisco à Rússia, a curto ou médio prazo? A.H. – Claro que sim, é muito possível, até porque a Rússia e o Vaticano estão cada vez mais isolados. Um dia irão chegar a um entendimento. A Rússia é o único país com poder que defende os valores do Cristianismo de forma oficial, enquanto os Estados Unidos os destroem. Há notícias que apontam para um encontro entre o Papa e o Patriarca da Igreja Ortodoxa Russa, já no próximo ano, talvez na Finlândia. CL – Estará o mundo a precisar de mais líderes virtuosos? A.H. – O mundo tem muitos líderes virtuosos, mas infelizmente não estão no Poder. No caso da Rússia temos de produzir líderes virtuosos entre os mais jovens. Dentro de uma década esse objectivo será concretizado. Já o Ocidente tem muitos líderes virtuosos em todas as áreas, mas quando falecerem não haverá quem os substitua. As ideias liberais e o movimento LGBT têm contribuído para a destruição dos valores do Cristianismo, sem os quais não há líderes virtuosos. Ainda assim a situação será mais dramática na Europa do que nos Estados Unidos, pois estes ainda têm uma larga franja da população que é cristã e luta pelos seus ideais. CL – A verdade é que os novos líderes que aparecem na Rússia vão sendo abafados por Putin... A.H. – Quando o Presidente Putin foi eleito, por larga maioria, podia fazer o que bem entendesse – um pouco ao jeito do General De Gaulle em França, nos anos 60. Sempre que há eleições aparecem partidos e candidatos ligados ao Liberalismo e ao movimento LGBT – mais liberdade e menos Cristianismo. Os russos não querem este modelo. Se as eleições fossem amanhã Putin seria reeleito com setenta por cento dos votos. É uma personalidade muito atraente. É muito inteligente, muito esperto, tem um pensamento muito rápido, não é marioneta de ninguém. Por vezes os jornalistas ficam desarmados com as respostas que dá, pois conhece muito bem os dossiês. Não é como o Presidente de França, o senhor Hollande, que é ridículo, uma Se as eleições fossem amanhã Putin seria reeleito com setenta por cento dos votos. É uma personalidade muito atraente. É muito inteligente, muito esperto, tem um pensamento muito rápido, não é marioneta de ninguém. Por vezes os jornalistas ficam desarmados com as respostas que dá, pois conhece muito bem os dossiês marioneta. Não sabe falar, não sabe o que quer. O Presidente Putin sabe o que quer e quando quer. Quando é preciso zanga-se e mostra que está zangado. Não é como no Ocidente em que está sempre tudo bem. Depois é um desportista, foi campeão de judo em São Petersburgo quando era novo. É disciplinado, não se deixa engordar como os líderes do Ocidente. Claro que isso fragiliza os adversários. Quem poderá gostar do senhor Hollande com aquele aspecto? Um Presidente tem de ser activo e não um boneco como acontece no Ocidente. Tem de haver modelos que sirvam de referência para a população em geral e para os mais novos em particular. Quando conseguirmos vencer a corrupção a Rússia vai voar bem alto. LOCAL O CLARIM | Semanário Católico de Macau | QUARTA-FEIRA | 30 de Setembro de 2015 6 PT CONHECER AS LEIS DE MACAU Salário mínimo para os trabalhadores de limpeza e de segurança na actividade de administração predial A Lei n.º 7/2015 (Salário mínimo para os trabalhadores de limpeza e de segurança na actividade de administração predial) foi publicada no Boletim Oficial da Região Administrativa Especial de Macau em 13 de Julho e entrará em vigor no primeiro dia de Janeiro de 2016. Esta lei fixou o salário mínimo para os trabalhadores que exerciam trabalhos de limpeza e de segurança na actividade de administração predial. Fixação do salário mínimo O Governo da Região Administrativa Especial de Macau começou a promover em 2007 a política de salário mínimo aplicável aos trabalhadores que prestavam serviço de limpeza e segurança nas instalações dos organismos de Administração Pública adjudicado às empresas privadas, com vista a providenciar garantias remuneratórias a empregados desse sector. Para dar continuidade à política de melhorar a remuneração dos trabalhadores de baixo rendimento, o Governo irá pôr gradualmente em prática a política de salário mínimo. Com base na experiência de aplicação desta medida, na presente fase, o Governo irá em primeiro lugar promover a política de salário mínimo aos trabalhadores que prestam serviço de limpeza e de segurança na actividade de administração predial. Ponderadas as diversas circunstâncias da situação, designadamente, se o rendimento do trabalhador é suficiente para dar cobertura às necessidades correntes da vida, a capacidade das empresas e dos empregadores de suportar estes encargos, a competitividade em termos globais da RAEM, as condições de exercício comercial da sociedade e a comparação com a realidade de regiões vizinhas que aplicam a política de salário mínimo, a Lei n.º 7/2015 (Salário mínimo para os trabalhadores de limpeza e de segurança na actividade de administração predial) fixou o valor do salário mínimo aos trabalhadores de limpeza e de segurança na actividade de administração predial, com as seguintes especificações: para os trabalhadores cuja remuneração seja cal- culada à hora, 30 patacas por hora; para os trabalhadores cuja remuneração seja calculada diariamente, 240 patacas por dia; para os trabalhadores cuja remuneração seja calculada mensalmente, 6 240 patacas por mês. A lei determina que o salário mínimo não compreende a remuneração do trabalho extraordinário, nem o 13.º mês de salário ou outras prestações de natureza semelhante. Âmbito de aplicação A Lei n.º 7/2015 (Salário mínimo para os trabalhadores de limpeza e de segurança na actividade de administração predial) tem como destinatários os trabalhadores de limpeza e de segurança na actividade de administração predial, sendo aplicável às seguintes relações de trabalho: 1) Estabelecidas com trabalhadores, contratados por prestadores de serviço que exercem a actividade de administração predial, para prestarem servi- ços de limpeza e de segurança a outrem em espaços públicos e prédios urbanos; 2) Estabelecidas com trabalhadores, contratados por proprietários de prédios urbanos destinados à habitação, para realizarem trabalhos de limpeza e de segurança nas partes comuns dos mesmos. Independentemente da designação de categoria do trabalhador, considera-se exercício de trabalhos de limpeza e de segurança: 1) A realização de trabalhos de varrimento e lavagem, com uso de equipamentos, instrumentos ou agentes de limpeza, e outros trabalhos similares; 2) A guarda e protecção de bens móveis e imóveis; 3) A vigilância e controlo do acesso, permanência e circulação de pessoas em espaços públicos e prédios urbanos. Normas sancionatórias Caso vier estipulada no con- trato uma remuneração que viole as normas sobre o valor do salário mínimo, esta é considerada inexistente, sendo a entidade patronal obrigada a pagar a remuneração devida. O empregador que não pagar o salário mínimo estipulado pela lei, pode ser punido com a multa máxima de 50 000 patacas (a multa é calculada em função do número de trabalhadores envolvidos; se a infracção envolver dois trabalhadores, a multa máxima pode chegar às 100 000 patacas, e daí para diante). Compete à Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais fiscalizar o cumprimento da lei. Revisão do valor De acordo com a Lei n.º 7/2015 (Salário mínimo para os trabalhadores de limpeza e de segurança na actividade de administração predial), o valor do salário mínimo é revisto anualmente, sendo a primeira revisão efectuada um ano após a entrada em vigor da lei, podendo o respectivo valor ser actualizado de acordo com a situação do desenvolvimento económico. Os interessados em conhecer melhor as normas da Lei n.º 7/2015, (Salário mínimo para os trabalhadores de limpeza e de segurança na actividade de administração predial), podem contactar a Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais pelo n.º De telefone 28717810 ou consultar os seguintes “websites”, para mais informações: a Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais www.dsal. gov.mo e a Direcção dos Serviços de Assuntos de Justiça www. dsaj.gov.mo. Obs. Na elaboração do presente artigo, teve-se como referência o disposto na Lei n.º 7/2015 (Salário mínimo para os trabalhadores de limpeza e de segurança na actividade de administração predial). Texto fornecido pela Direcção dos Serviços de Assuntos de Justiça O CLARIM | Semanário Católico de Macau | QUARTA-FEIRA | 30 de Setembro de 2015 7 PT MAESTRO AURELIO PORFIRI SOBRE O ESTADO DA CULTURA EM MACAU Para os amigos, tudo! PEDRO DANIEL OLIVEIRA [email protected] O maestro italiano Aurelio Porfiri regressa hoje definitivamente a Roma, com a «sensação do dever cumprido nos sete anos de docência em Macau». Na bagagem leva também «o desejo de que os responsáveis pela Cultura identifiquem os problemas de base» que estão a minar o sector e «procurem soluções» que tragam benefícios para as novas gerações que vivem no território. Tendo notado que «os padrões culturais são muito pobres em Macau», disse que «há o património da herança cultural deixada pelos portugueses e demais ocidentais, tais como os italianos, que é bastante rico». Contudo, «o problema está em quem gere este património. Ou seja, há pessoas que não dominam as questões do património», referiu Porfiri, acrescentando que «o mesmo acontece com a música». A título de exemplo, salientou que o Festival Internacional de Música de Macau é um tipo de evento que não tem grande impacto na comunidade local: «Trazem músicos famosos e pagam-lhes muito para tocarem cá, mas depois tudo se esquece. Deviam trazer esses músicos famosos, talvez durante seis meses, para ministrar “workshops”. Infelizmente, os apoios vão numa certa direcção de modo a favorecer determinadas pessoas. Não favorecem a qualidade, mas as pessoas que fazem parte de um certo círculo. É este o problema. Ter dinheiro para pagar um carro bonito não faz dela uma pessoa bonita. Não devemos dar peixes às pessoas, mas sim ensiná-las a pescar». Aurelio Porfiri admitiu que já foi apoiado pela Fundação Macau, algo que considerou ser um processo bastante difícil para um estrangeiro. «Tive a sorte de ser apoiado pelas escolas [Colégio Santa Rosa de Lima e Escola de Nossa Senhora de Fátima], seja por me darem a oportunidade de ter cá trabalhado, seja pelo apoio financeiro para realizar eventos musicais», referiu, acrescentando que por vezes também foi apoiado pela Direcção dos Serviços de Educação e Juventude. Para si, o estado da Cultura é transversal ao sistema educativo de matriz chinesa, em que os métodos de ensino muitas vezes não favorecem o florescimento da criatividade e da inovação nos alunos. «O problema é que o sistema educativo não ajuda a desenvolver as suas faculdades, porque nem a criatividade favorece. Muitos alunos têm medo de errar, por isso preferem ficar quietos e não agir», vincou. No território, o maestro Aurelio Porfiri foi professor-associado do Instituto Inter-Universitário de Macau, actual Universidade de São José, director das actividades corais do Colégio Santa Rosa de Lima (Secção Inglesa) e colaborador da Escola de Nossa Senhora de Fátima. É colaborador musical no suplemento d’O CLARIM em Inglês. LOCAL PADRE PAULO TCHEONGUE FALECEU AOS 77 ANOS Nobre trabalho em Timor O padre Paulo Tcheongue ( ) faleceu no passado dia 14 de Setembro, no Centro Hospital Conde de São Januário, vítima de doença prolongada. Tinha 77 anos de idade. A missa de corpo presente foi celebrada no dia 21 de Setembro, na Sé Catedral. D. José Lai, bispo de Macau, presidiu à cerimónia fúnebre, tendo o Coro dos Antigos Alunos do Seminário de São José prestado homenagem ao ex-aluno daquela instituição de ensino. O padre Paulo Tcheongue foi a enterrar no cemitério de São Miguel Arcanjo. «Quando acompanhei D. José Lai a Timor-Leste, em Agosto último, para as comemorações dos 500 anos da evangelização do povo timorense visitámos a escola-capela que ele fundou para servir a comunidade chinesa em Díli. Chama-se agora Colégio Paulo VI e funciona como uma escola normal pertencente à diocese de Díli, sob a égide da Fundação São Paulo», referiu a’O CLARIM o padre Domingos Soares, vigário da Sé Catedral para a co- munidade portuguesa e outros crentes. O padre Paulo Tcheongue nasceu no seio de uma família católica em Siu Hing (China), então parte da diocese de Macau. No território estudou no Seminário de São José, onde terminou os cursos de Filosofia e Teologia, recebendo a ordenação sacerdotal das mãos de D. Paulo José Tavares, a 24 de Abril de 1966. Três anos depois foi enviado para Timor, como membro do Padroado Português no Extremo Oriente, para servir a comunidade chinesa de Díli. Permaneceu até 1975, quando a ocupação de Timor pelas tropas Indonésias o obrigou a ir para Portugal. Esteve depois em Singapura, regressando a Macau no início de 1979, onde desenvolveu trabalho pastoral até ao agravamento da doença de que padecia. Passou os últimos tempos no lar de idosos “Betânia”, na Ilha Verde. P.D.O. DOMINGO, 4 DE OUTUBRO, NA SÉ CATEDRAL Festa de São Francisco de Assis As Irmãs Franciscanas Missionárias de Nossa Senhora celebram no próximo Domingo, dia 4 de Outubro, o seu fundador, São Francisco de Assis, com eucaristia marcada para as 11 horas, na igreja Sé Catedral. Presidida por D. José Lai, bispo de Macau, e concelebrada por vários sacerdotes, a missa contará ainda com a presença das Irmãs Franciscanas Missionárias de Maria e das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora dos Anjos, além de crentes em geral. «A Igreja, constituída pelo povo de Deus, teve e tem muitos que o adoram e o evocam. Ao longo dos séculos destacaram-se, como exemplos vivos de seguimento de Jesus Cristo, que é o rosto de Deus, entre eles, Francisco de Assis. Este Santo fez do Evangelho a norma da sua vida. Por esta razão, e porque há muitos franciscanos e franciscanas espalhadas pelo mundo, também aqui em Macau o Nosso Deus é louvado por quem se consagrou totalmente a Jesus Cristo no estilo de São Francisco de Assis», disse a irmã Maria Lúcia a’O CLARIM. «Assim, a eucaristia do próximo Domingo será uma ocasião para todos nós nos unirmos a estas irmãs franciscanas para louvarmos com fé, entusiasmo e alegria o nosso Deus, em honra de São Francisco de Assis», sublinhou a Franciscana Missionária de Nossa Senhora. P.D.O. O CLARIM LANÇA OBRA – A “História da Salvação – Tempo de Israel” é oficialmente lançada no auditório do Paço Episcopal, com a presença de D. José Lai, bispo de Macau. Na ocasião, o director do semanário católico, padre José Mario Mandía, referiu que as infografias do livro já estão a chegar a lugares tão distantes como a Nigéria e o Quénia. CARTOON O CLARIM | Semanário Católico de Macau | QUARTA-FEIRA | 30 de Setembro de 2015 8 A SANTA CASA DA MISERICÓRDIA FELICITA a República Popular da China pelo seu 66º Aniversário PT O CLARIM | Semanário Católico de Macau | QUARTA-FEIRA | 30 de Setembro de 2015 9 PT O L H A N D O E M OPINIÃO R E D O R Ai que Dore! PEDRO DANIEL OLIVEIRA consciencialização da opinião pública ocidental sobre o País, que na última década se tornou num parceiro privilegiado para muitas nações, além de ser imprescindível no garante da estabilidade e da paz mundial. Por enquanto, ainda há bastantes resistências a ultrapassar até atingir o seu objectivo. Sabendo que o Ocidente não goza de perfeita saúde financeira, é certo que uma vantagem será a capacidade de investimento nos media ocidentais. [email protected] A scende a mais de 400 milhões de dólares de Hong Kong (?!?!) o montante que várias dezenas de queixosos provenientes de Macau, de Hong Kong e da China continental reclamam do alegado desfalque que afectou a Dore. Segundo a Imprensa local, foi a própria promotora de Jogo a denunciar o crime de burla que terá sido praticado pela então contabilista-chefe da Dore, Chao Ioc Mei, no casino da Wynn Resorts. A Dore afirma que nada deve aos lesados que fizeram os seus investimentos nas salas VIP desta sociedade de “junkets”, porque também foi vítima, razão pela qual apresentou queixa na Polícia Judiciária. As questões de fundo que se põem são as seguintes: O desvio de milhões de dólares de Hong Kong foi efectuado por quem? Foi ou não por uma funcionária paga pela Dore? Não terá esta empresa a responsabilidade de ter escolhido a funcionária para desempenhar o cargo que ocupava, nem de controlá-la e de vigiá-la? O artigo 31º do Regulamento Administrativo nº 6/2002 parece não dar razão à pretensão da Dore, porque «os promotores de jogo são responsáveis solidariamente com os seus empregados e com os seus colaboradores pela actividade desenvolvida nos casinos por estes, bem como pelo cumprimento, por parte dos mesmos, das normas legais e regulamentares aplicáveis». Já os artigos 29º e 30º-A, referentes às responsabilidades das concessionárias e subconcessionárias, estipula que as seis operadoras «são responsáveis solidariamente com os promotores de jogo pela actividade desenvolvida nos casinos pelos promotores de jogo e administradores e colaboradores deles, bem como pelo cumprimento, por parte dos mesmos, das normas legais e regulamentares aplicáveis». Salvo interpretação legal em contrário, a responsabilidade solidária que se pode invocar à Wynn Resorts aplica-se em OBSCURO NG LAP SENG casos de obrigações para com o Governo. Se uma funcionária de uma empresa “junket” faz um desfalque, mesmo que à revelia da entidade empregadora, como poderá uma concessionária, ou subconcessionária, responsabilizar-se pelo sucedido? Por outras palavras, quaisquer actos internos, ao nível da gestão, de uma sociedade comercial ou anónima a operar nos “junkets” não poderão ser imputados a quem detém qualquer uma das seis licenças de Jogo. Caso contrário, faziam o que bem lhes apetecesse porque haveria sempre alguém para saldar os incumprimentos. BRILHANTE XI JINPING «Damos as boas-vindas aos media e correspondentes estrangeiros na cobertura de histórias da China, apresentando o desenvolvimento da China no mundo e ajudando o mundo a aproveitar as oportunidades [proporcionadas] pelo desenvolvimento» do gigante asiático, afirmou Xi Jinping ao magnata da Comunicação Social, Rupert Murdoch. A declaração proferida no passado dia 18 de Setembro foi registada pela Xinhua durante a deslocação do presidente da News Corp a Pequim, onde visitou o Grande Palácio do Povo. Parece que a afirmação do Presidente da RPC terá surpreendido alguns observadores porque as autoridades chinesas têm ordenado o bloqueio de sítios da Internet em Chinês do New York Times, da Bloomberg News, da Reuters e também do Wall Street Journal (de Rupert Murdoch). Talvez porque estão pouco informados sobre a verdadeira realidade da China, ou porque andam “envenenados” pelos conglomerados económicos a que pertencem, escapalhes que Xi Jinping precisa da Imprensa ocidental para o País se dar a conhecer ao mundo, daí atrair os media mais influentes do planeta, invariavelmente norteamericanos. Não considero que o Presidente chinês se esteja a “enfiar na toca do lobo”, mas há vários problemas de monta a resolver porque tais Órgãos de Comunicação Social quererão sempre, numa primeira fase, obstruir a estabilidade político-social da China apenas porque directa ou indirectamente servem os interesses de uma nação ocidental que a todo o custo deseja exercer o seu poderio mundial a salvo de princípios de que é apologista, mas pouco os guarda até mesmo dentro de casa, sendo um deles os Direitos Humanos. Xi Jinping quer que o mundo fique a conhecer a China para haver menor desconfiança e maior Macau está outra vez nas “bocas do mundo” – pelas piores razões – devido à detenção em Nova Iorque do empresário do imobiliário Ng Lap Seng. Contra ele recai a acusação de introduzir ilegalmente nos Estados Unidos mais de 4,5 milhões de US dólares em dois anos. Segundo o FBI, o dinheiro não se destinava à aquisição de obras de arte, nem de antiguidades ou de imobiliário, mas sim para pagar «actividades ilegais». Contou-me uma águia (para não dizer “passarão”) que o “timing” desta detenção em solo norte-americano não aconteceu por acaso porque Ng Lap Seng já estava há muito referenciado pelo FBI. Entre várias revelações, deixou-me uma pista: no corrente mês de Setembro os EUA entregaram pela primeira vez a Pequim um suspeito de crimes económicos constante de uma lista com os fugitivos mais procurados que foi elaborada pela comissão de disciplina do Partido Comunista da China. O acontecimento foi tão ou mais surpreendente porque a China não tem acordo de extradição com os EUA. Alguns dias depois foi a vez de uma mulher chinesa acusada de corrupção também ser repatriada pelas autoridades norte-americanas. Quis saber o que estes dois casos teriam a ver com Ng Lap Seng por não haver qualquer tipo de ligação entre eles. A resposta foi incisiva: Macau que se prepare! OPINIÃO O CLARIM | Semanário Católico de Macau | QUARTA-FEIRA | 30 de Setembro de 2015 10 PT “Surprise”... o Syriza voltou a ganhar! LUIS BARREIRA A s eleições legislativas na Grécia voltaram a dar a vitória ao Syriza. Os gregos voltaram a votar maioritariamente no partido de Tsipras, que venceu estas eleições com uma maioria confortável de cerca de 36%, contra o seu principal rival, o partido conservador “Nova Democracia”, que atingiu 28%, após 80% dos votos contados. Nestas condições, o Syriza voltou a renovar a coligação governamental com os “Gregos Independentes”, criando um Governo estável para os quatro anos de uma legislatura complicada que tem pela frente. Como é que é possível os gregos voltarem a eleger o Syriza, depois de tudo o que antes aconteceu e da “forte” dose de austeridade que este partido teve de aceitar e com a qual vai ter de governar? Na minha opinião há um conjunto de factores que, no seu conjunto, contribuíram para esta reacção do povo grego. Os gregos são um povo orgulhoso da sua história e da sua cultura e dificilmente aceitaram a chantagem de que foram alvo, por parte do Banco Central Europeu, do Eurogrupo e dos credores, em Julho passado, obrigando-os a aceitar condições de austeridade ainda mais gravosas das que antes estavam previstas. Os gregos rejeitam os partidos tradicionais que (des) governaram a Grécia durante décadas, independentemente da “maquilhagem” de que têm sido alvo para os tornar mais atractivos actualmente. O Syriza “libertou-se” da sua facção mais radical, chefiada pelo seu antigo ministro das Finanças, Varoufakis, que, com outros 25 deputados, abandonou o partido para formar um outro, designado “Unidade Popular”, após a aceitação do terceiro resgate e as pesadas consequências que isso implicava por parte de Tsipras, o líder do Syriza. Agora, Varoufakis está com dificuldades em eleger um deputado nestas recentes eleições. O povo grego responsabilizou-o por, através do seus excessos, ter comprometido qualquer possibilidade negocial com os credores e de ter complicado ainda mais a situação de um povo que quer continuar na União Europeia e na moeda única. Mas se bem que este Syriza já não seja o mesmo que há uns meses atrás e em referendo rejeitava qualquer austeridade adicional, ele continua a ser um sinal de esperança num projecto mais global de contestação à austeridade pela austeridade – política actualmente defendida pelas forças políticas maioritárias da Europa. A prová-lo está a primeira declaração do Syriza, após a sua eleição, em estabelecer como sua primeira prioridade a renegociação da sua dívida. Naturalmente que (e apesar das modificações que sofreu) voltar a ter um Governo do Syriza a governar a Grécia e a representar o País na União Europeia é extremamente incomodativo para os restantes Governos europeus, aqueles que mais defendem a actual política europeia e nomeadamente aqueles que estão em más condições económicas, sofrem grande contestação interna e estão em vésperas de eleições. Se tivesse ganho os conservadores da “Nova Democracia” seria mais fácil a aceitação pelo Governo grego de todas as medidas propostas no terceiro resgate e as consequentes negociações que vão ter lugar no próximo mês mas, “surprise”, tal não aconteceu e a Europa e o FMI vão ter de afinar o seu discurso perante a incapacidade lógica de defender publicamente a recuperação económica da Grécia, face aos obstáculos que lhe são criados pelo resgate e o “castigo público” que lhe foi imposto sob pretexto da arrogância do anterior ministro Varoufakis, que já não tem razão de ser, agora que este senhor está na oposição. No entanto, se houver alguma alteração na política europeia, aceitando algumas cedências ao Governo grego, tal só acontecerá após as eleições espanholas e portuguesas para evitar prejudicar os actuais partidos no poder nesses dois países. Porque os interesses comuns falam mais alto... A história recente da Grécia e as atitudes do seu povo podem parecer incompreensíveis para alguns mas, apesar das precipitações e dos erros cometidos, não deixará de ser uma referência a ter em consideração para todos aqueles que acreditam que o empobrecimento não conduz de forma alguma ao desenvolvimento económico e social e que os povos não devem desistir de lutar por isso. A Associação dos Aposentados, Reformados e Pensionistas de Macau congratula-se pelo 66º Aniversário da REPÚBLICA POPULAR DA CHINA OPINIÃO O CLARIM | Semanário Católico de Macau | QUARTA-FEIRA | 30 de Setembro de 2015 11 PT Alternativa aos criminosos JOSÉ PINTO COELHO (*) clarificação: quem assinou o Memorando de Entendimento com a Troika foram PS, PSD e CDS-PP, depois de o Governo socialista ter conduzido o País a essa situação vexatória. Quem os ouve falar, tentando sacudir responsabilidades, parece que nunca passaram pelo Governo. Lembramos até que foi um executivo PS que destruiu as carreiras profissionais da Função Pública. A gora, mais do que nunca, o meu pensamento dirige-se aos espoliados do Ultramar que perderam tudo; aos idosos que hoje vivem na pobreza após uma vida de trabalho; às crianças que passam privações e se encontram em risco de pobreza; aos desempregados e aos que partiram lá para fora à procura das condições que a Pátria lhes nega; aos semabrigo, aos despejados das suas casas, aos que sofreram cortes drásticos em tantas coisas, aos mais desfavorecidos… São, afinal, portugueses desamparados e desprezados pelos governantes do seu próprio país. Estes mesmos governantes, traidores, que acolhem sem hesitar vários milhares de imigrantes invasores, bárbaros e hostis (a quem chamam eufemisticamente “refugiados” ou “migrantes”) e com direito a tudo. Isto é ser-se profundamente desumano para com os seus. É ser-se traidor e carrasco do próprio povo. É chocantemente injusto! Portugal e a Europa não têm obrigação nenhuma de receber esta verdadeira invasão, “mostrando-se” cinicamente humanos. Pelo contrário, temos que nos defender! Os países semelhantes, nas suas regiões, que os recebam. Os países europeus, além de não terem condições para tal, nem o devem fazer nunca! Isso é suicídio! Afinal, além da tremenda injustiça para com os nossos, estamos a meter cá dentro um autêntico “Cavalo de Tróia”. Dentro de pouco tempo veremos a nossa própria terra transformada numa espécie de Iraque ou Síria. Eis a obra dos “humanitários”. Isto é crime contra o nosso país! POÇO SEM FUNDO MUDANÇA Perante o diagnóstico real (do Estado deplorável da Nação) há que ser frontal e explicar aos portugueses que Portugal precisa de uma mudança verdadeira, e que as soluções não passam pela alternância entre quem nos colocou neste estado de coisas. Só há uma solução para sair deste buraco onde nos meteram, e que passa por uma mudança radical de rumo e de mentalidade: recuperar o Orgulho Nacional, a Soberania e a Identidade; combater sem contemplações a corrupção; combater sem tréguas a injustiça social e a imoralidade das mordomias e benesses de muitos; promover sem complexos as medidas proteccionistas que reanimem a Produção Nacional e nos libertem da servidão externa e dos interesses sectários. Advogamos assim uma mudança profunda, que defenda um novo Regime de cariz Nacional e Social no qual se promova a Soberania, a Identidade, a Justiça Social e o Espírito de Serviço à Comunidade. Na defesa e fortalecimento dos nossos valores e causas defendemos o papel preponderante do Estado. Um Estado eficaz, cuja existência é imprescindível, mas sem gorduras nem peso inútil ou atrofiador. Não deve haver presença do Estado na qual ela não seja realmente necessária. Deve haver lugar à iniciativa privada e respeito pela propriedade privada. O Estado é fundamental e tem que ser forte, mas naquilo que estritamente lhe compete: regular e fiscalizar a sociedade civil, promover a Justiça Social e impedir toda a espécie de abusos e desigualdades. Compete-lhe assegurar o controlo de todos os sectores vitais para o bem-estar da população e da economia e soberania nacionais, como sejam os transportes, comunicações, energias e recursos naturais. Compete-lhe, também, garantir sempre e em cada momento a maior Independência Nacional possível e a mais ampla margem na escolha de aliados internacionais e de objectivos político-diplomáticos. Queremos ser uma nação aberta ao mundo, mas soberana, onde quem manda somos nós. E queremos sentir em português e pensar em português o que só em português pode e deve ser sentido e pensado. ENFADONHO Decorreu o primeiro e único debate televisivo entre Passos Coelho e António Costa. Algo os une, que é o facto de deixarem sem resposta as perguntas mais incómodas, tal como deixam sem solução as questões essenciais que desde sempre afligem a sociedade portuguesa. Nenhum deles, no fundo, se compromete. José Sócrates, referido 12 vezes por Passos Coelho, apesar de ausente, esteve bem presente. Pouco ou nenhum rigor das propostas, populismo e demagogia, um discurso excessivamente técnico. O resultado só poderia ser a derrota de ambos. O plafonamento que ambos pretendem realizar, e de que tanto falaram, trata-se simplesmente da transferência de parte dos descontos para sistemas financeiros privados. Já agora, importa uma A disparidade entre salário mínimo e salários de administradores atinge dimensões próprias do terceiro mundo. Temos hoje milhares de pequenos e médios empresários sem acesso a qualquer apoio social. A substituição do pagamento de subsídios de férias e Natal por duodécimos não convence. A limitação do acesso à Justiça mediante o preço é desde logo um atentado ao Estado de Direito. Aflige-nos igualmente constatar que os pais deste país, que tantos sacrifícios fizeram para formar os filhos na universidade, os vêem depois condenados ao desemprego. Desinvestimento público, diminuição de rendimentos do trabalho, especulação imobiliária e financeira são outros dos efeitos prejudiciais das más políticas levadas a cabo. Também o crédito às pequenas e médias empresas baixou 10 mil milhões de euros. Chegámos a uma situação de impasse. Afinal, de que serviram quatro anos de austeridade, se o Estado continua a contrair empréstimos para pagar juros de outros empréstimos? Tudo isto vem reforçar a convicção de que a solução política para o futuro de Portugal tem de incluir os Nacionalistas. (*) Presidente do Partido Nacional Renovador ENTREGUE ESTE CUPÃO NAS BILHETEIRAS DO CINETEATRO DE MACAU DATA DO SORTEIO: 8 DE OUTUBRO DE 2015 C U LT U R A O CLARIM | Semanário Católico de Macau | 12 PT MEMÓRIAS E FORTALEZAS NO LESTE DE ÁFRICA – PARTE 1 Terras de macuas e m JOAQUIM MAGALHÃES DE CASTRO [email protected] Generosas mangueiras enraizadas em terreiros alaranjados fornecem a sua sombra a aldeias de cubatas cobertas com o capim que cresce nas bermas da trilha percorrida por centenas de mulheres, homens e crianças com carregos na cabeça. Inúmeros ciclistas transportam sacos com carvão vegetal, o bem de consumo mais comercializado nestas paragens. Cena habitual em África: gente, dir-se-ia, num êxodo permanente, quando, afinal, macuas e macondes, etnias predominantes, se limitam a locomover, de aldeia em aldeia. Num contraste absoluto com este universo rural, surgem com frequência sinais rodoviários mais apropriados a auto-estradas europeias e placas indicando paragens de transportes públicos, embora isso tenha deixado de ser uma realidade há já várias décadas. FOTOS | Joaquim Magalhães de Castro O ENTUSIASMO do Boaventura, natural do distrito de Meluco, «um santuário de fauna e flora que vem referenciado no mapa», como diz ele, é contagiante. Ao longo da viagem fala-me de mil e uma coisas e alerta-me para o que se passa à nossa volta, como, por exemplo, a existência de uma escola agrária subsidiada com fundos da União Europeia e o interesse histórico de locais como Bemacha e de Namapa, «no distrito de Nampula e de Cabo Delgado», associados a Mombaça e à passagem dos portugueses de antanho, nomes que certamente não me esquecerei. Em Macomia deixamos o asfalto e paramos uns breves minutos numa encruzilhada onde há uma rodoviária com veículos estacionados ao lado das placas de madeira que indicam o seu destino habitual. Chamam-lhes estações. Estação Mucojo. Estação Olumboa. Estação Pangano. No centro desse enorme espaço aberto, um pilar com uma estrela vermelha no topo é resquício de ventos revolucionários, hoje bastante esfriados. Daqui em diante espera-nos um estradão de terra batida. Escapa-me agora o nome da povoação logo a seguir a Macomia, mas recordo bem a interessante designação “A vida começa assim” de uma barraca de comes e bebes, e o de uma outra que vende bebidas alcoólicas, “Aly Baba. Estamos grossos, estamos juntos”, frase que na minha opinião se adequa perfeitamente à sua vocação. Totalmente deslocada parece-me a publicidade aos telemóveis “Mcel diz olá”; quanto ao Bar Chung, esse é um claro sinal da presença de chineses também nestas paragens, envolvidos no negócio das madeiras. «– Aqui eles cortam sobretudo pau-preto», esclarece Boaventura, respondendo à saudação de um aldeão que passa de bicicleta. Se a maioria das pessoas com que cruzamos reage com normalidade à presença de um branco acomodado com as malas e os sacos nas traseiras da carrinha, há também quem manifeste espanto e até há quem se assuste a valer, como a rapariga à entrada de Quelimene Pequeno que se atira para o mato quando lhe aponto a máquina fotográfica. De repente, lembro-me que sou ainda do tempo em que nas aldeias mais recônditas do nosso país as pessoas mais idosas olhavam os aviões que cruzavam os céus encarando-os como prenúncio do fim do mundo. Um tempo que não é assim tão antigo. Ao Quelimene Pequeno segue-se o Maputo Pequeno. Os nomes das grandes cidades do País têm aqui a sua versão miniatura. Passamos também por Mu Chai, onde foi disparado o primeiro tiro contra as tropas portuguesas, no que se pode considerar com o grito de Ipiranga da guerra colonial em Moçambique. «– A gente não esquece», comenta Boaventura, sem acrescentar qualquer outra palavra. Prefiro também não dizer nada, até porque não sei muito bem o que comentar a respeito de assunto tão melindroso. MACHAMBA DE QUIMANES Ao chegarmos a Nacate, a aldeia natal do amigo Boaventura, este não se esquece de mencionar a machamba do seu irmão mais novo que se estende da estrada para o interior do mato onde muitas outras machambas são sachadas por macondes, como o Boaventura, e quimanes, seus vizinhos e compatriotas. De Outubro a Dezembro cultiva-se, para além da mandioca, também o arroz, mais do que uma vez por ano. Depois de o Boaventura nos deixar a viagem torna-se mais silenciosa e os motivos de interesse passam a ser me- nos, até porque entretanto o entardecer transforma-se rapidamente em noite, como é comum nos trópicos. São de realçar uns inesquecíveis, algo aterradores, cem quilómetros em que a car- | QUARTA-FEIRA | 30 de Setembro de 2015 13 10 macondes rinha, com a mecânica a precisar de urgente revisão, seguiu praticamente sem travões. Nas descidas, felizmente pouco acentuadas, valeu-nos uma estóica primeira que se fartou de gemer. Junto a uma ponte por pouco não nos despistávamos, evitando por centímetros um barranco bastante fundo. Assustado, o motorista achou por bem não forçar mais a barra, até porque a noite estava escura como o breu e de nada valia chegar a Moçimba àquelas horas. Após ter conferenciado ao telefone com a sua chefe, que nessa altura estava a sair de Pemba numa carrinha similar, o responsável pelo palanque do presidente autorizou o condutor a encostar a viatura à berma da estrada, e ali dormimos à bela estrela, acomodados em cima dos ladrilhos de cerâmica. Chegamos ao mercado de Moçimba da Praia de manhã bem cedo, precisamente na altura em que pessoas começam a abrir as suas barracas e tendas. Este é o destino do rapaz e da rapariga (só agora me dou conta que são irmãos), que não proferiram uma única palavra durante toda a viagem, mas quando chega a altura de pagar o preço previamente combinado dizem que não têm dinheiro. Percebo então porque razão o condutor hesitara em trazê-los consigo. Pelos vistos, a pessoa que os devia receber em Moçimba, e que era o futuro marido da rapariga, esquivou-se quando soube da responsabilidade que lhe queriam acatar. Após alguns momentos de impasse, nada agradáveis, diga-se de passagem, o condutor faz-se pagar retirando dos sacos que os dois transportam maçarocas de milho e mãos cheias de arroz. E de nada vale a minha intervenção, oferecendo-me para a pagar a passagem dos pobres camponeses, evitando assim humilhações desnecessárias, até porque o numerário em causa não é significativo. O condutor não só não aceita a minha oferta como reafirma, em jeito de mestre-escola, que eles devem assumir a responsabilidade dos actos que cometem. CHINESES E OMANITAS Entre as raras pessoas que avisto nas ruas de Moçimba da Praia nessas primeiras horas da manhã consta uma mulher chinesa, certamente familiar dos donos da serração que encontramos uma centena de metros à frente. Estão depositados nas instalações dessa pequena unidade fabril diferentes tipos de madeiras, ainda na forma de toros: umbilas, chanfudas, pau-rosa, pau-preto. Não me admirava nada que o Quelimanjaro, o único albergue visível, fosse também propriedade dos chineses. Entramos em Palma – meia dúzia de barracas alinhadas ao longo da rua principal – duas horas depois. Chama-me desde logo a atenção um posto de imigração que parece desactivado, pois o polícia de plantão olha-me, por simples curiosidade, e deixa-se ficar sentado onde está. Junto a uma rotunda assinalada por um monumento à independência, a placa Praia de Palma abre a possibilidade da existência de algo mais que a dúzia de comércios já referidos. O mar ainda fica distante, em baixo, num desnível de talvez uns cinquenta metros. Oito da manhã é já muito tarde para apanhar transporte público, do género até agora utilizado, seja para onde for, e em Palma não há nada que se assemelhe a um hotel. Poderei, se quiser, alugar uma carrinha ou uma motocicleta, mas tanto uma como outra são opções bastante caras. E, mesmo assim, é preciso que alguém esteja disponível para me transportar até à fronteira tanzaniana. Um mero acaso conduz-me ao encontro de Mussa Abdulai, um desses moçambicanos de origem omanita que preferia que os portugueses nunca tivessem partido. Está junto a um edifício em construção e prepara-se para almoçar amêijoas com mandioca preparadas num grande tacho que ainda aquece ao lume de uma enorme fogueira. Convida-me para almoçar e ao saber das minhas intenções oferece-se, com a maior naturalidade deste mundo, para me levar até a fronteira. «– Se calhar acompanho-o até Mtwara, a primeira cidade tanzaniana. Costumo lá ir com alguma frequência», diz ele. Confesso que sou apanhado de surpresa. Uma agradável surpresa. C U LT U R A PT LITURGIA O CLARIM | Semanário Católico de Macau | QUARTA-FEIRA | 30 de Setembro de 2015 14 PT 27° DOMINGO COMUM – Ano B – 4 de Outubro HORÁRIO DAS MISSAS (DOMINGOS E DIAS SANTOS) 7:00 horas 7:30 horas 7:30 horas 8:15 horas 8:30 horas 9:00 horas 9:30 horas — — — — — — — — — 10:00 horas — — — 10:30 horas — 11:00 horas — 11:00 horas — — 11:00 horas — 11:15 horas — 12:00 horas — 16:30 horas — 17:30 horas — 18:00 horas — 20:30 horas — Fátima (C). Sé, S. Lourenço e St.º António (C). S. Lázaro (C). S. Francisco Xavier Mong-Há (C). St.º António. Sé, S. Lourenço, N.ª Sr.ª do Carmo Taipa (C); Fátima (C). S. Lázaro, S. Francisco Xavier (Mong-Há), S. José Operário (C). St.º António (P); S. Francisco Xavier Coloane (I, C); N.ª Srª do Carmo Taipa (I). Sto. Agostinho (Tagalog). Sé (P), Hospital de S. Januário (P); N.ª Srª do Carmo Taipa (P). S. Lázaro (I). Instituto Salesiano (I). Fátima (I). S. Agostinho (I); Fátima (vietnamita) S. José Operário (I). Sé (I); S. Fr. Xavier Mong-Há (C). S. Lázaro (P). S. José Operário (M). MISSAS ANTECIPADAS 17:00 horas 17:30 horas 18:00 horas 18:30 horas — — — — — 19:00 horas — 20:00 horas — S. Domingos (P). S. Fr. Xavier Mong-Há (I). Sé (P). N.ª S.ª do Carmo Taipa (I). S. Lázaro (C). Fátima (C). ABREVIATURAS C - Em Cantonense I - Em Inglês M - Em Mandarim P - Em Português A humanidade foi criada para a união e a solidariedade INTRODUÇÃO ÀS LEITURAS O Livro do Génesis fala-nos que Deus criou o homem e a mulher para que formassem um casal com componentes iguais (PRIMEIRA LEITURA: Gn., 2, 18-24). Jesus referiu-se a este texto do Génesis e uniu com os laços indissolúveis do matrimónio o casal criado por Deus, ao dizer que «o que Deus uniu, não o separe o homem» (EVANGELHO: Mc., 10, 2-16). Depois, na carta aos hebreus (SEGUNDA LEITURA: Heb., 2, 8-11), é-nos apresentado Jesus como Aquele que se uniu a todos os homens, assumindo também a condição humana, para nos conduzir a todos ao Seu reino eterno, salvando-nos através da Sua morte. «Não separe o homem o que Deus uniu»... ...nem os pais dele, nem os pais dela, metendo-se onde não são chamados. ...nem os gritos dele, nem os contra-gritos dela, que tornam impossível a convivência. ...nem a falta de manifestações de afecto de ambos, o que pode fazer secar até mesmo o amor mais prometedor. ...nem a falta de comunicação mútua, de modo que ela não saiba o que ele faz, nem ela saiba o que ela faz e nenhum dos dois saiba o que o outro pensa, quer, sofre ou precisa. ...nem os filhos, absorvendo-lhes o tempo que necessitam para estar juntos. ...nem o descuido com a higiene e aparência pessoal de casa um. ...nem os amigalhaços dele ou as amigotas dela. ...nem o facto de que nenhum deles esteja disposto a perder uma discussão, a sacrificar o seu gosto, a reconhecer o seu próprio erro, ou a pedir desculpa. ...nem a falta de reconhecimento explícito das qualidades do outro, por parte de cada um. ...nem a presunção ingénua de que «o que Deus uniu» poderá permanecer unido sem Lhe pedir a Ele (Deus) a Sua ajuda ou se, praticamente, se acaba por desterrá-L’O do próprio lar... REFUGIADOS Vaticano acolhe família síria A Esmolaria Pontifícia confirmou o acolhimento a uma primeira família de refugiados sírios, que se encontra instalada na paróquia de Santa Ana, no coração do Vaticano. De acordo com os dados avançados por aquele organismo, “a família é composta por pai, mãe e dois filhos e são cristãos de rito greco-melquita católico, do Patriarcado de Antioquia”. São provenientes “de Damasco, capital da Síria”, de onde tiveram de “fugir da guerra”, e chegaram a Itália no dia 6 de Setembro, data em que o Papa Francisco precisamente dirigiu um apelo a todas as «paróquias, comunidades religiosas, mosteiros e santuários» no sentido destes se mostrarem disponíveis para «acolher refugiados». A família síria está hospedada “num apartamento nas proximidades da Basílica de São Pedro” e o Vaticano já deu entrada de um “pedido de protecção internacional” para estas pessoas. “Com base na lei”, refere o serviço informativo da Santa Sé, “nos primeiros seis meses da apresentação do pedido de asilo, os solicitantes não podem trabalhar. Neste período, eles serão assistidos e acompanhados pela comunidade paroquial de Santa Ana”. A Esmolaria pontifícia pede que, “até que se conheça a decisão italiana de reconhecer ou não o status de refugiados”, os media “respeitem a vontade deles de não serem identificados e entrevistados”. Para breve poderá estar a recepção a uma segunda família de refugiados sírios, que de acordo com as últimas indicações avançadas pelo Vaticano poderá ser instalada na paróquia de São Pedro. No entanto, “até à conclusão dos procedimentos necessários”, a Esmolaria diz que “não pode oferecer mais informações”. O comunicado daquele organismo sublinha ainda que “há anos que os Papas, através da Esmolaria, contribuem para o pagamento das taxas para a obtenção do primeiro visto para os refugiados”. Os apoios são canalizados através “do Centro Astalli de Roma, gerido pelos jesuítas”. “Em 2014, foram doados 50 mil euros para este fim. Além disso, a Esmolaria, sempre em nome do Papa, ajuda quotidianamente inúmeras pessoas e famílias de refugiados acolhidos em Roma”, pode ler-se. In ECCLESIA ECLESIAL O CLARIM | Semanário Católico de Macau | QUARTA-FEIRA | 30 de Setembro de 2015 15 PT LENDO A CARTA QUE DEUS NOS ENVIOU – IV A mensagem que altera o modo de vida PE. JOSÉ MARIO MANDÍA [email protected] Suponhamos que já decidiu ler diariamente a Bíblia, e dispôs de um certo tempo com uma duração constante para tal. Parabéns! Eu recomendo sempre que se comece pelo Novo Testamento, porque o Antigo Testamento só faz sentido se já tivermos lido o Novo Testamento. Mas como é que se deve ler a Bíblia? O Papa Bento XVI explicou-nos e mostrou como fazê-lo. Na sua mensagem para o 21º Dia Mundial da Juventude (2006) ele escreveu o seguinte: «Meus caros jovens amigos, peço-vos que se tornem familiares com a Bíblia, tenham um exemplar sempre por perto, de modo a que ele possa ser a bússola que vos indique o caminho a seguir. Lendo a Bíblia, vós aprendereis a conhecer Cristo. Vejam o que São Jerónimo disse a este respeito: “Ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo” (PL 24,17; cf Dei Verbum [A Palavra de Deus] 25). O tempo dedicado a estudar e saborear a palavra de Deus é LECTIO DIVINA (Leitura Divina) que constitui uma jornada espiritual real e verdadeiramente marcada por etapas». E como é que isso é feito? O primeiro passo é LECTIO (Leitura), que «consiste em ler e reler uma passagem das Sagradas Escrituras, considerando os elementos principais», disse o Santo Padre. Definitivamente, Deus tem uma mensagem para nós em todos e cada dia. É por essa razão que temos que ler uma segunda vez, ou mesmo uma terceira vez. Aqui e ali, uma palavra ou uma frase surpreendem-nos. É por isso bom que tomemos nota dessas palavras ou frases, e as escrevamos no nosso diário. Assim chegamos à MEDITATIO (Meditação). Este é o momento de reflexão, no qual a alma se vira para Deus e tenta compreender o que a Sua palavra nos quer dizer, no dia de hoje. Enquanto lemos, recordamos como a passagem que estamos a ler está relacionada com outras passagens da Bíblia, ou verificamos o que a Sagrada Tradição e o Magistério da Igreja nos ensina com referência a essa passagem. Exploraremos tanto o sentido Literal como o Espiritual daquilo que lemos. É nesta altura que nós ouvimos o que Deus está a tentar dizer-nos. Segue-se ORATIO (Oração), quando conseguimos falar com Deus directamente. Algumas pessoas usam uma passagem que tenham registado durante a lectio, como aspirações ou orações vocalizadas que sussurram ao Senhor nos seus corações, onde quer que se encontrem. Temos alguns exemplos: «Senhor, vós que sabeis tudo, sabeis que eu vos Amo (João 21:17)»; «Senhor, salvai-me (Mateus 14:30)»; «Senhor, deixai-me receber a minha vista (Lucas 18:41)»; «Senhor, para quem deveremos ir? Vós tendes palavras de vida eterna; e nós acreditámos e acabámos por saber que Vós sois o Sagrado (Filho) de Deus (João 6:68-69)»... Segue-se agora, a CONTEMPLATIO (Contemplação). Bento XVI dizia: «Isto ajuda-nos a manter os nossos corações atentos à presença de Cristo, cuja palavra é “uma luz brilhando num local escuro, até que o dia nasça e a Estrela da Manhã cresça nos vossos corações (II PT 1:19)”». São Josemaría escreveu: «Demasiadas vezes vivemos como se pensássemos que Nosso Senhor está distante de nós – onde as estrelas brilham». Lermos a Bíblia diariamente ajudar-nos-á a vermos que Deus está sempre connosco – nós nunca estamos sozinhos! Finalmente, o Papa Bento XVI mostra-nos que a Palavra de Deus tem o poder de mudar a forma como vivemos. «Lendo a Bíblia, estudando e meditando sobre a Palavra, tornar-te-ás no fluir de uma vida de fidelidade consistente a Cristo e a aos seus ensinamentos». São Tiago diz-nos: «Trabalhem a palavra, e não sejam apenas ouvintes passivos que se enganam a si próprios (1:22)». Quando adquirimos o hábito da lectio divina tornamo-nos cada vez mais e mais humanos, mais e mais divinos, mais e mais parecidos com Cristo. SÃO MIGUEL, SÃO GABRIEL E SÃO RAFAEL Três poderosos arcanjos MARIA FERNANDA BARROCA (*) Antes da última reforma litúrgica, as Festas destes três arcanjos eram celebradas separadamente: São Miguel a 29 de Setembro, São Gabriel a 24 de Março (véspera da Festa da Anunciação a Maria) e São Rafael a 24 de Outubro. A Igreja unificou a celebração dos três arcanjos e a celebração faz-se a 29 de Setembro. Estes três arcanjos pertencem à alta hierarquia dos Anjos, o grupo dos sete espíritos puros que rodeiam o trono de Deus e são os “mensageiros dos decretos divinos” aqui na terra. Miguel, significa “quem como Deus?”, defensor do Povo de Deus. Fiel escu- deiro do Pai Eterno, chefe supremo do exército celeste e dos anjos fiéis a Deus, Miguel é o arcanjo da justiça e do arrependimento, padroeiro da Igreja Católica. Costuma ser de grande ajuda no combate contra as forças do mal. O seu culto é um dos mais antigos da Igreja. Gabriel, significa “Deus é meu protector” ou “homem de Deus”. É o arcanjo anunciador, por excelência, das revelações de Deus e é, talvez, aquele que esteve perto de Jesus na agonia entre as oliveiras. Padroeiro da diplomacia, dos trabalhadores dos correios e dos operadores dos telefones, comummente está associado a uma trombeta, indicando que é aquele que transmite a Voz de Deus, o portador das notícias. Na sua página, descrevemos com detalhes as suas aparições citadas na Bíblia . Além da missão mais importante e jamais dada a uma criatura, que o Senhor confiou a ele: o anúncio da encarnação do Filho de Deus. Motivo que o fez ser venerado, até mesmo no Islamismo. Rafael, cujo significado é “Deus te cura” ou “cura de Deus”, teve a função de acompanhar o jovem Tobias, personagem central do livro “Tobit”, no Antigo Testamento, em sua viagem, como seu segurança e guia. Foi o único que habitou entre nós, passagem que pode ser lida na página dedicada a ele. Guardião da saúde e da cura física e espiritual, é considerado, também, o chefe da ordem das virtudes. É o padroeiro dos cegos, médicos, sacerdotes e, também, dos viajantes, soldados e escuteiros. A Igreja Católica considera estes três arcanjos poderosos intercessores dos eleitos ao trono do Altíssimo. Durante as atribulações do quotidiano, eles costumam aconselhar-nos e auxiliar, além, é claro, de levar as nossas orações ao Senhor, trazendo as mensagens da Providência Divina. Preste atenção, ouça e não deixe de rezar para eles. (*) Professora ECLESIAL C A R T A A O S O CLARIM | Semanário Católico de Macau | QUARTA-FEIRA | 30 de Setembro de 2015 16 PT L E I T O R E S Porquê falarmos da Família? IRMÃ MARIA LÚCIA FONSECA (FMNS) Há duas razões para falarmos da Família: Primeira – estamos no ano da Família. Por isso, nunca é demais falar dela e muitas vezes. Faz-nos lembrar o provérbio sempre antigo e sempre novo: “água mole em pedra dura, tanto dá até que fura.” Segundo – S. Francisco de Assis, o santo mais parecido com Jesus Cristo (se queres conhecer Cristo, olha para Francisco, e se queres conhecer Francisco, olha para Cristo), foi um santo muito amigo de todas as criaturas; e sofreu, quando seu pai o abandonou por ter sido fiel a Jesus, que o chamou a “restaurar a Igreja” do seu tempo. Passou a sua vida a louvar o Criador, o Altíssimo, Omnipotente e Bom Senhor, através da vivência, à letra, do Evangelho. Ora, o Evangelho fala-nos tantas, tantas vezes, do amor. Onde se constrói melhor o amor? Na Família! A Família é o maior valor que possuímos na vida! Nunca deixemos de o cultivar, enriquecendo-o com amor sempre mais criativo, dinâmico, inventivo, fervoroso. É na Família que desenvolvemos os valores da verdade, do respeito, da gratidão, da humildade, do perdão, do carinho, das aprendizagens que vão Amemos a nossa Família, berço de tantas recordações: umas menos boas, mas tantas e tantas tão boas! Estimemo-la, porque só temos uma. É/foi na Família que fica/ficou definida, em parte, a nossa personalidade. Se mais ninguém no mundo nos compreender, mesmo que a nossa família não seja/não tivesse sido o que desejaríamos, é no seu tecto que nos abrigamos nos momentos de maior dor. Todas as qualidades referidas acima, “bebidas” na Família, serão/ foram as maiores condecorações dos nossos Pais. Retribuamos-lhes veneração e gratidão com o nosso testemunho de vida. Tudo o que eles nos dão/deram com tanto carinho, dedicação, mesmo que já tenham partido, ficará no nosso coração e prolongar-se-á pelos tempos além. ajudar, também, a prolongar a vida, constituindo família, e colaborando na Obra criadora de Deus, com a procriação digna e feliz. Mais: é na Família que se pode encontrar a forma de responder a um chamamento diferente, pelo dom da vida ao Senhor, para ajudar outras famílias a encontrarem-se quando se desviam do que foi o seu primeiro amor para viver como família. A nossa maneira de ser depende, em grande parte, da forma como é/ foi a nossa Família! Por sermos reflexo da nossa Família, também reconhecemos os nossos erros e qualidades e podemos melhorá-la sempre com a nossa colaboração pessoal, isto é, nunca contribuindo para a sua destruição. A Família é sinal de que não vivemos sós no mundo e, quando houver algum erro, comecemos por nós para o eliminar. Olhemos para Francisco de Assis: um santo que respeitava todas as criaturas e por elas louvava o Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis. A Família, para Francisco de Assis, é a célula essencial, de onde brota a vida e o amor, pelo qual também ele louvava o Altíssimo, Omnipotente e Bom Senhor. Vamos celebrá-lo no dia 4 de Outubro, às 11 horas, na Sé Catedral. Como seria bom que a nossa Igreja-mãe se enchesse de muitos irmãos na Fé, sobretudo de “irmãos” portugueses! FAMÍLIA E FÉ Uma responsabilidade dos pais PE. RODRIGO LYNCE DE FARIA (*) «MUITOS PAIS, hoje em dia, não sabem educar os seus filhos. Parecem saturados e muito ocupados. Temos que ser nós a fazê-lo na escola aproveitando as aulas que damos. Estamos, na prática, a substituir os pais. Isto não me parece mal. Tenho a sensação de que, a partir da adolescência, a maioria dos progenitores perde a capacidade de dialogar com os seus filhos. Sobretudo, em temas que incluem valores que evoluíram com o passar das gerações. Os pais sentem que os tempos mudaram e que não podem obrigar os seus filhos a pensar como eles ou como os seus avós. A sociedade mudou e a vida também. Nós, professores que ensinamos matérias humanistas, temos maiores facilidades para esse diálogo com os adolescentes e os jovens». Estas palavras de um professor fize- ram-me pensar: será que o ideal na educação é substituir os pais, ou ajudá-los a educarem os seus filhos? Qual é a missão da escola? Que fazer se essa missão entra em confronto com a dos pais dos alunos? Os pais são sempre os primeiros e os principais educadores dos seus filhos (Catecismo 1653). Por isso, nunca podem renunciar a ser educadores com o pretexto de que outros o fazem melhor ou estão mais preparados para isso. É evidente que necessitam ser auxiliados na sua tarefa educativa. No entanto, qualquer outro agente educativo só o pode ser por delegação dos pais e “subordinado” a eles. Esta visão da educação – fundamentada na natureza humana – possui muitas consequências no modo como entendemos a missão da escola. Os estabele- cimentos de ensino são instituições destinadas a colaborar com os pais – nunca a substituí-los e muito menos a ir contra eles – na sua missão educativa. É contraproducente e profundamente injusto que os pais procurem transmitir aos seus filhos em casa valores que depois são descaradamente negados ou ridicularizados na sala de aula. Muitas vezes, isso acontece sob o falso pretexto de que é o professor quem sabe a matéria e os progenitores não passam de uns ignorantes. Quantas dificuldades encontram muitos pais cristãos nos dias de hoje para educarem os seus filhos na fé, quando essa mesma fé é achincalhada na sala de aula! É ridicularizada com programas e livros propostos e aprovados por pessoas que se apresentam com uma “ideologia neutra”. No entanto, essa pretendida neutralidade de alguns é só aparente. Implica uma concreta posição ideológica: o desejo de “emancipar” a cultura humana de toda a concepção religiosa. Como se isso tornasse o ser humano mais livre, mais humanista e mais inteligente! Por isso, é uma responsabilidade grave dos pais interessar-se pelo ambiente da escola dos seus filhos e pelos conteúdos que se transmitem na sala de aula. O interesse dos pais tem de ir mais além dos resultados escolares que se traduzem nas notas. Esses resultados podem ser relevantes, mas, por si só, não garantem a saúde moral e espiritual dos filhos. Saúde que terá muito mais influência no seu futuro do que as classificações obtidas. (*) Doutor em Teologia ECLESIAL O CLARIM | Semanário Católico de Macau | QUARTA-FEIRA | 30 de Setembro de 2015 PT 17 SÃO JERÓNIMO Doutor, tradutor, exegeta bíblico VÍTOR TEIXEIRA (*) [email protected] Strídon, ou Estridão: uma cidade romana antiga, na fronteira entre a Dalmácia e a Panónia. Bom, na geografia actual é mais fácil de identificar, até principalmente pela tragédia humana que tem ocorrido ao longo deste Verão no território. A Dalmácia corresponde, aproximadamente, à Croácia e Eslovénia, a Panónia à Hungria: pois, um dos cenários de passagem das vagas de milhares de refugiados em demanda da Alemanha e Norte da Europa. Sim, a personalidade de que hoje nos ocupamos nasceu naquela cidade, neste território. Doutor da Igreja, sábio, erudito, poliglota, grande intelectual, santo acima de tudo: Jerónimo, um dos pilares do Cristianismo e uma das suas figuras mais marcantes, indelevelmente. Recordando o cabeçalho do L’Osservatore Romano, de que falámos há algumas semanas – “E as portas do inferno não prevalecerão [contra Ela]!” – bem poderíamos associá-lo a São Jerónimo e outros homens do seu tempo, época conturbada para a Igreja. Entre erros doutrinais e heresias, registam-se incursões dos povos germânicos no Império, ameaçando a Cristandade, que começava a despontar depois do édito de Milão de Constantino, em 313, de tolerância em relação à Fé Cristã, reforçado no I Concílio de Niceia, em 325, o concílio do Credo. Mas os tempos eram ainda de conturbação, eram necessárias figuras sólidas, na fé, na inteligência e na cultura, luminares. Como São Hilário, de Poitiers, São Ambrósio, de Milão ou Santo Agostinho, também poderemos nomear São Jerónimo, também um dos Santos Padres da Igreja. Jerónimo nasceu de facto em Estridão, no ano de 342, mas dadas as diferentes interpretações melhor será dizer que foi entre 331 e 347. A sua cidade foi destruída pelos Godos, mais tarde, dada a sua localização numa região de passagem entre o Sul e o Centro e Norte da Europa. “Que tem um nome sagrado”, este é o significado do nome Jerónimo, que dedicou a sua vida ao estudo de línguas e, consequentemente, das Sagradas Escrituras, além da sua tradução e fixação textual. Estudou Latim em Roma, com o maior mestre da língua do seu tempo, Donato, um ilustre gramático pagão. Jerónimo chegou a ser um grande latinista e grande conhecedor do Grego e de outros idiomas, como Hebraico e Aramaico. Todavia, não conhecia tão bem os livros e autores espirituais como conhecia Cícero, Virgílio, Horácio e Tácito, ou Homero e Platão, que a todos conhecia de cor. Retórico, filósofo, gramático, com juventude e dinheiro, numa cidade magnífica como Roma, mas estudioso e aplicado, Jerónimo não se prendia muito com a fé e a espiritualidade cristãs. O circo, o teatro, a vida mundana eram-lhe mais apelativos. Mas não seria assim sempre. Com 18 anos torna-se catecúmeno, preparando-se aos Domingos para o baptismo, visitando as catacumbas dos mártires, numa fase em que começou a discernir mais acerca da espiritualidade cristã. Depois da sua conversão e baptismo em 366, parte para a Gália, com seu amigo Bonosus, em 367, via Aquileia, no Norte de Itália, onde contacta com experiências monásticas siríaco-egípcias. Instala-se em Trier (actual Alemanha), perto do Reno, com Rufino de Aquileia e Heliodoro de Altino. Contacta com as obras de Hilário de Poitiers, ficando tocado pelo monaquismo, criando até com Rufino e outro companheiro, Cromácio, uma experiência de vida cenobítica. Rompe então os laços com a família e decide enveredar definitivamente pela vida consagrada. Ao contrário dos pobres refugiados da actualidade, sai da Alemanha e parte para a Trácia (Norte da Grécia), vai para a Ásia Menor (Turquia) e daqui para o deserto da Síria. Ali viveu, na região a leste de Antioquia, como eremita, experiência que não lhe agradou, sem descobrir a paz. Ali se ordenou sacerdote também, mas acabou por voltar à Europa. A Itália, onde o Papa Dâmaso I (366-384), aconselhado por bispos, o nomeia seu secretário, na sequência da impossibilidade, por doença, de São Ambrósio de Milão. Encarregado de redigir as cartas que o Pontífice enviava, os seus dotes revelaram qualidades exponenciais, tendo sido designado para realizar a tradução da Bíblia. As traduções da Bíblia que existiam nesse tempo tinham muitas imperfeições de linguagem e várias imprecisões ou traduções não muito exactas. Jerónimo, fluente e elegante no Latim, traduziu este idioma, “a língua vulgar”, toda a Bíblia, designada assim por “Vulgata” (ou tradução feita para o “povo” ou “vulgo”), a partir de fontes aramaicas e hebraicas, além de gregas e noutras línguas, num trabalho mais completo e coerente, homogéneo, que as Bíblias então em uso. A Vulgata de São Jerónimo foi a “Bíblia oficial” da Igreja Católica durante perto de quinze séculos, até à sua revisão no séc. XX. Começou-a em 382, mudando-se para a Terra Santa, para Belém, para melhor aprender o Aramaico e o Hebraico. Roma também não lhe oferecia estabilidade, apesar dos seus cargos e estatuto. A inveja e a calúnia imperavam na Cidade. Por isso, Belém tornou-se lugar de paz. E de trabalho! Em 390 já tinha pronta a revisão do texto latino do Novo Testamento, começando a tradução do Antigo, este mais centrado no Hebraico e Aramaico, que já dominaria. Completou esta tradução em 405. Mas continuou a trabalhar na teologia e exegese bíblicas, com comentários e revisões. Além disso fundou um mosteiro dúplice em Belém, ou seja, com uma comunidade masculina, por ele inspirada, e outra feminina, dirigida por Santa Paula, filha de São Eustóquio, ou Fabíola de Roma. O mosteiro foi erigido graças às doações de ricas mulheres romanas que procuravam a sua direcção espiritual em Belém, as quais se juntaria Paula na comunidade monástica feminina. Não mais sairia da Terra Santa, pregando, aconselhando, dirigindo espiritualmente as comunidades monásticas. Vivia como um eremita na Cova (gruta) do Presépio, a todos atendendo. Escrevia ainda contra as heresias, de forma resoluta, estribado no conhecimento que detinha das Sagradas Escrituras e da exegese dos textos, além da Teologia. A sua vida inspirou eremitas e também comunidades monásticas, como a ordem religiosa contemplativa, de clausura, que lhe leva o seu nome, fundada no século XV em Espanha, seguindo-lhe o exemplo e forma de vida. A sua legenda tornou-se famosa, muitas vezes até tornado cardeal, o que é irreal, pois esta dignidade eclesiástica apenas surgiu no séc. XI. Mas Jerónimo é acima de tudo o símbolo da tradução das Sagradas Escrituras. Morreu em 30 de Setembro do ano 420, com 80 anos, sendo comemorado em quase todas as Igrejas Cristãs. (*) Universidade Católica Portuguesa PUBLICIDADE O CLARIM | Semanário Católico de Macau | QUARTA-FEIRA | 30 de Setembro de 2015 18 PT AVISO RENOVAÇÃO DA LICENÇA 1. Faz-se público que, nos termos do n.º 1 do artigo 130.º do Regulamento da Actividade Hoteleira e Similar aprovado pela Portaria n.º 83/96/M, de 1 de Abril, a renovação da licença dos estabelecimentos hoteleiros e similares deve ser efectuada junto da Direcção dos Serviços de Turismo no mês de Outubro de 2015, nomeadamente: i) Hotel ii) Pensão iii) Restaurante iv) Bar v) Sala de Dança 2. Prazo, local e horário Prazo : Outubro de 2015 (com excepção de sábados, domingos e feriados). Local 1 : Direcção dos Serviços de Turismo, Alameda Dr. Carlos Assumpção n.os 335-341, Edifício “Centro Hot Line”, 18.º andar, Macau. Horário : 2.as às 5. as feiras, das 09H00 às 17H45 (sem interrupção). 6.as feiras, das 09H00 às 17H30 (sem interrupção). Local 2 : Centro de Serviços da RAEM, Rua Nova da Areia Preta n.º 52, Macau. Horário : 2.as às 6.as feiras, das 09H00 às 18H00 (sem interrupção). 3. Documentos a apresentar para a renovação da licença e respectivas taxas podem ser consultados na página electrónica: http://industry.macautourism.gov.mo/pt/license/content.php?page_id=24&id=60 Para mais informações poderá ser contactada a Divisão de Licenciamento durante as horas de expediente, através do telefone 8397-1312/8397-1313, por fax 2833-0518 ou por email [email protected]. Direcção dos Serviços de Turismo, aos 24 de Agosto de 2015. O Directoro dos Serviços, Subst. o Cheng Wai Tong SAÚDA o 66º Aniversário da Implementação da República Popular da China A P O N TA M E N TO O CLARIM | Semanário Católico de Macau | QUARTA-FEIRA | 30 de Setembro de 2015 19 PT O NOSSO TEMPO Papa Francisco: para um regresso ao humano CARLOS FROTA (*) Se se pode ver – e vê-se! – uma linha condutora nas intervenções da figura de audiência mundial, que é o Papa Francisco, essa linha pode ser definida pelo esforço do Pontífice, de recentragem da civilização mundial – ou do que a tal superficialmente se assemelha – nos valores matriciais da nossa comum humanidade. Valores presentes na mensagem cristã e igualmente na das grandes religiões e sistemas filosóficos do nosso mundo. Estamos num cotovelo da História, numa esquina de rua do ponto de vista da civilização – e de tudo isso tem o Chefe da Igreja Católica uma consciência apuradíssima. E sem professar o sincretisno que tantos receiam, Francisco não hesita a chamar todos os que podem contribuir para um regresso à autenticidade do homem... ficando esta por definir, como dirá o cepticismo dos que não acreditam na bondade de tal diligência ou se lhe opõem. ****** Esta forma algo pomposa de principiar a minha crónica equivale tão só à tentativa de enquadrar a visita do Papa a Cuba, aos Estados Unidos e Nações Unidas, no contexto mais geral de propósitos e intenções que formam o desígnio último do Pontífice – ser fiel à sua missão apostólica ou missionária, como gosta de sublinhar. Vou redigindo esta crónica à medida que prossegue a visita. E, por razões óbvias, o meu texto não pode deixar de ser um caleidoscópio de impressões e de emoções que fatalmente me vai transmitindo esse homem singular. Mas, para começar pelo princípio da minha narrativa sobre a visita, como é que há muito tempo venho pensando nesta particular digressão do Papa ao estrangeiro? UM GRANDE DESAFIO Como um grande desafio do seu pontificado . Porquê esta digressão em particular, já que o mundo testa permanentemente a liderança espiritual singular, deste homem singular que por dever de função – que a História moldou – é ao mesmo o Chefe de um micro-Estado e o guia supremo de uma nação sem fronteiras que equivale ao país mais populoso do mundo? Teste do pontificado é-o a vários títulos, sublinhados pelas diferentes etapas do périplo. Se Cuba assiste ao último capítulo de uma revolução socialista que se rende cada vez mais ao realismo do mundo globalizado – e o Papa foi interveniente decisivo nesse processo, como se sabe, como medianeiro da reconciliação cubano-americana – já a América representa um outro grande desafio. A sociedade americana é hoje (e cada vez mais) uma sociedade entre duas civilizações, uma inspirada ainda pelo puritanismo protestante e pelo conservadorismo católico; e outra que, no seio daquela, se foi gerando, como reacção, e que aponta para modos de pensar o humano (e o divino?) de forma completamente diferente. Uma América post-americana, de algum modo. CUBA: O ADEUS ÀS ARMAS Mas detenho-me na primeira etapa do périplo papal, Cuba. São várias as imagens fortes, aqui: Francisco visitando em sua casa um muito debilitado, quase nonagenário Fidel, a quem oferece um ou vários livros de espiritualidade cristã, segundo ouvi e li na Comunicação Social. Quem diria há décadas que o desafiante El Comandante, pai de muitos sonhos utópicos da minha geração, ainda haveria de acolher, na sua sala de estar, o símbolo mesmo dessa interpretarão do mundo e da História que Castro desafiou toda a sua vida, pretendendo criar – e com relativo sucesso o fez – uma sociedade inspirada na violência revolucionária dos espoliados? Depois, a hospitalidade, a quase cumplicidade amigável com Raúl Castro – um homem que claramente admira o Papa Francisco. Isso pressente-se quando ambos estão juntos. É talvez um homem que pretende redescobrir o seu destino, já na recta final da sua vida, quando sabe que o modelo social e político em que acredi- tou e de que foi co-obreiro está esgotado... Depois, ou melhor, antes de tudo, os milhares e milhares de cubanos nas ruas, acolhendo esse portador de esperança que é por isso mesmo a prova provada do falhanço ideológico do castrismo. O homem novo que o processo revolucionário pretende ter criado é afinal o homem de sempre – que se alimenta também de algo mais do que o pão de cada dia. E que expressou de forma mais do que evidente essa fome espiritual há muito não satisfeita. A (SEGUNDA) REVOLUÇÃO AMERICANA Em seguida a América, cínica e sincera; generosa e egoísta; protestante e branca; e, cada vez mais, multi-étnica e multi-cultural. A sociedade americana, tal como a posso descodificar à distância, não vive um período de evolução, mas de autêntica revolução sociológica. O termo pode parecer forte, mas as suas consequências abonarão cada vez mais a favor desta tese. Desde o repensar de instituições básicas como a família, o conceito de casamento por exemplo, até ao modo como se gera a realidade da política – e por consequência o debate político – tudo mexe na sociedade americana. Segundo uma agenda ética e social protagonizada pelos democratas, mas que os republicanos opõem tão só o seu radicalismo... económico. A função dos EUA como matriz do sistema económico global parece ter invadido tudo. E o seu sentido de sobrevivência como superpotência também. Assim, os Estados Unidos vivem uma transição que, pondo em causa valores tradicionais em que o protestantismo e catolicismo se reviam, substituiu-os pela lógica das minorias e o pragmatismo dos negócios que invade os outros sectores da vida – e que acaba por constituir o catecismo de uma nova “teologia da sobrevivência”, repito, como super-potência económica, em risco de perder o seu estatuto de domínio (contestado) do mundo. É a esta sociedade em revolução – e sobretudo aos milhões de descontentes deste modelo de civilização, em ruptura com o passado, que o Papa foi falar, convertendo habilmente essa viagem numa espécie de peregrinação ao santuário dos valores tradicionais, uma última tentativa de regresso às origens, não no sentido do regresso ao passado. mas nesse outro de reencontro com as referências matriciais. Condenado a desagradar muitos, pelas suas posições exageradamente à esquerda ou à direita, segundo os pontos de vista, o Papa, no seu improvável discurso no Congresso, mostrou como as divisões entre esquerda e direita do debate político e social habitual se subalternizam perante a extrema urgência das soluções inadiáveis. Esta realidade posso a expressar na imagem caricatural do casal que discute quem há-de ficar no lado esquerdo ou direito da cama, quando é iminente o terramoto que destruirá a casa... (*) Universidade de São José C U LT U R A O CLARIM | Semanário Católico de Macau | QUARTA-FEIRA | 30 de Setembro de 2015 20 PT COSTA DA MEMÓRIA Canhões da Praça de Faro JOAQUIM MAGALHÃES DE CASTRO [email protected] O troço seguinte do percurso, rumo a Tânger, fez-se por uma densa mata de pinheiros, similar à que se encontra na costa portuguesa a norte de Aveiro, só que muito mais suja e praticamente despovoada. Neste último aspecto, pouco terá mudado desde a passagem da expedição quinhentista, que escolheu esta rota devido à escassez de população. Outras das razões foi, como já se viu, a topografia do terreno, bem mais favorável ali do que junto à costa. A campanha portuguesa montou arraiais numa das colinas sobranceiras à cidade – hoje o bairro residencial de Marchan, habitado por inúmeros estrangeiros – e aí começou a abrir fossos e trincheiras. Este vosso cronista, em simples missão de paz, limitou-se a ser conduzido até à Gare Routière des Voyageurs, a menos de uma centena de metros da praia, após ter cruzado uns subúrbios caracterizados pela presença de unidades fabris com nomes franceses e espanhóis, e cartazes e letreiros apelando à opção Tânger como anfitriã da Expo 2012. O objecto mais bélico com que me deparei foi um canhão português (lá estavam as quinas e um enigmático Luiz gravados no ferro) de uma época bem posterior à henriquina, virado para o mar, pousado no extenso passeio que se prolonga por vários quilómetros desde o porto, ponto receptor dos barcos que fazem a ligação entre Tarifa e Algeciras, até aos mais recentes subúrbios, desta feita, marcados por novos empreendimentos turísticos, avistando-se mais a nordeste o cabo Malabata, onde deixámos para a posteridade um farol e um baluarte fortificado. Junto ao canhão travei conhecimento com uma dessas personagens que em Marrocos se designam faux guides, ou seja, os falsos guias. Abordam-te, como quem não quer a coisa, dando explicações a propósito disto e daquilo como se fossem versados em todas as matérias e mais alguma, e nem ao Domingo tiram folga. Convém dar-lhes alguma atenção, pois, afinal, como os próprios dizem, limitam-se a fazer pela vida – «há que ganhá-la, messieur» – e até podem, eventualmente, fornecer informações preciosas. «– Na Praça de Faro há muitos outros. Portugueses, espanhóis e de outros países», informou o homem, ao reparar que o supra mencionado canhão me chamara a atenção. Durante a caminhada ao longo do passeio marítimo, tendo sempre ao meu lado direito um areal imenso – 150 metros de orla marítima aproveitados por ginastas para praticar ousados saltos mortais – cruzei-me com muita gente, de olhar absorto, fixando o horizonte. Sonhavam certamente com a Europa, ali tão perto. Uns vinte minutos depois, estava na parte antiga da cidade, assinalada por moradias coloniais do período espanhol, embora com elementos arquitectónicos de óbvia inspiração portuguesa. Nas residenciais existentes ao longo de uma rua bastante íngreme, o privilégio de um duche quente era adicionado ao preço da diária, sem qualquer margem para negociação, o que contrariava a habitual prática. «– Acha caro doze euros? Isso é ESCOLHA SARDINHAS PORTUGUESAS quanto você paga por um café no seu país», disse-me, com maus modos, o mal-encarado gerente de uma dessas hospedarias, perante o espanto demonstrado face aos preços praticados. O homem, no alto da sua ignorância, tomava a nuvem por Juno, desconhecendo as especificidades muito específicas de uma União Europeia já então desunida pela moeda única. «– Na almedina encontrará maior variedade de alojamento e a preços bem mais acessíveis», aconselhar-me-ia alguém mais atencioso. E em busca dessa almedina vi-me na Rue du Portugal, como bem indicava uma placa afixada num pedaço da muralha original portuguesa, que desce a colina até a um cais apinhado com os mais diversos tipos de embarcações. Dentro dessa muralha, transposta a Porta Portuguesa, encontraria refúgio no souq, apelidado ESCOLHA PORTHOS pelos franceses de Petit Socco, não sem antes ter de me haver com mais uns seis ou sete cicerones de ocasião. «– Não te preocupes, amigo. Não sou guia, apenas te quero ajudar, sem compromissos», dizia um deles em Castelhano. Circulavam por ali também africanas e africanos de além-Sara, candidatos a ilegais em terras de Espanha. Um deles aproximou-se de mim e suplicou, em Francês, que lhe desse dinheiro para comer, pois tinha «vraiment faim». Também os havia bem vestidos. Certamente não eram dos que percorriam milhares de quilómetros a pé, acampando ao longo da costa norte de Marrocos à espera de um barco que os levasse, sãos e salvos, se tivessem sorte, até ao lado de lá do Mediterrâneo. Das labirínticas vielas desembocavam degraus que me trouxeram à memória as “Escadinhas do Duque”, em Lisboa. Bastante mais sujos, é certo, estando bem patente uma notória falta de higiene nas casas de pasto e botecos que ladeavam o seu empedrado. O peixe e o frango, fritos num óleo reutilizado sabe-se lá quantas vezes, eram manuseados à “mãozada” e sem qualquer cerimónia. Pensão Madrid. Pensão Mimi. Pensão Masada. Não faltava alojamento no coração da cidade que viu nascer o grande viajante Ibn Battuta, cujos relatos inspirariam muitas das sagas do período das Descobertas. Graças à sua imensa fama, o também ilustre geógrafo tem hoje direito a mausoléu e empresta o nome a uma rua, ao aeroporto e a diversos estabelecimentos comerciais, havendo quem esteja disposto a indicar ao visitante a casa onde ele, aparentemente, terá nascido. O CLARIM | Semanário Católico de Macau | QUARTA-FEIRA | 30 de Setembro de 2015 PT JOÃO SANTOS GOMES 21 R OTA D O S 5 0 0 A N O S Bote furado [email protected] N ão fosse a minha pouca inclinação para o estilo melodramático até iria achar alguma piada, ou no mínimo entretenimento, ao que se tem passado nos últimos dias no que diz respeito ao novo bote. Como sabem, se nos vêm acompanhando, depois de dois botes insufláveis decidimos que o próximo seria rígido e que nos desse a opção de o utilizar também, além do motor e dos remos, com vela. Assim, daqui a pouco tempo, poderemos iniciar a Maria na lides das velas – se bem que o conjunto de vela, mastro e retranca terá de ficar para mais tarde. Para já é mesmo só o bote porque motor e remos já temos. Decidimos adquirir um modelo da marca Walker Bay – leve, de plástico e muito utilizado pelos navegadores, com provas provadas de durabilidade e versatilidade de utilização. De entre dois modelos que a marca disponibiliza, optámos pelo mais pequeno, de apenas oito pés. Para nós é suficiente, se bem que mais pequeno, se comparado com o insuflável de onze pés que temos actualmente, com capacidade para seis pessoas. A encomenda e o pagamento – estas coisas pagam-se sempre em adiantado (sempre me ensinaram que quem paga adiantado é mal servido, e cada vez mais acredito nesse ensinamento dos meus pais) – foram feitas no início de Julho, para que fosse entregue só no final de Agosto porque, segundo nos disseram, o dia do pagamento coincidia, exactamente, com o dia em que o contentor do mês de Julho deixaria St. Martin (onde se encontra a casa mãe da cadeia de lojas onde o comprámos, a Budget Marine). Muito contra-vontade aceitámos a desculpa e engolimos, esperando pelo final de Agosto para receber o novo bote. Na data prevista, mais propriamente no dia 23, a NaE voou para Macau, sendo que o bote chegava no dia 24. Por um dia não iria ver o tão desejado meio de transporte. Nessa segunda-feira esperei que me telefonassem. Esperei em vão! Sem qualquer contacto, no dia seguinte, terça-feira, decidi ir ao estabelecimento para saber o que se passava. Foi-me dito que não tinha vindo qualquer bote com as nossas especificações porque não estava disponível em St. Martin. Perguntei porque só agora, no dia em que deveria ser entregue, haviam chegado à conclusão que não podiam satisfazer o pedido? Deviam, pois, ter entrado em contacto muito antes a explicar a situação e assim tentar encontrar uma solução. Tal argumento não surtiu qualquer efeito. Não havia, não havia, paciência! Nem o facto de estar pago mudaria as circunstâncias. Pedi para falar com o gerente, mas visto ser hora de almoço o mesmo mandou dizer que eu teria de esperar mais de uma hora até que terminasse o manjar. Claro está que não esperei. Na segunda-feira seguinte, dia 31 de Agosto, entrava ao serviço a pessoa que tinha recebido a encomenda – a gerente assistente do estabelecimento – pelo que decidi esperar para falar com ela directamente, visto que o seu superior não estaria muito disposto a resolver a situação. Não vale a pena pensar em apresentar queixa formal ou algo parecido. As Caraíbas são um mundo completamente diferente daquele a que estamos habituados e tudo se resolve de forma sui generis – ao estilo das Caraíbas, como dizem, com um sorriso na cara. Por mero acaso, encontrei a senhora num supermercado, tendo ela perguntado se já tinham entregado o bote. Deduzi que nem sequer tinha sido informada da situação, respondendo-lhe que na segunda-feira íamos “conversar”. Quando ficou a saber o que se passava fez todos os possíveis para resolver a situação, tendo encontrado um bote igual na loja da mesma cadeia em Trinidade e Tobago. Apresentava uns pequenos riscos, dano pelo qual seria compensado. Estando farto da situação disse-lhe que desde que boiasse aceitava ficar com o bote, que não chegou no dia entre nós acordado. Os danos visíveis nem eram assim tão grandes (apenas uns pequenos riscos cosméticos). Isto até eu e o capitão do Gentileza o colocarmos na água... Entrou água junto da válvula de esgoto, pelo que em poucos minutos afundaria. Retirámo-lo da água, telefonei para a loja a informar do infortúnio e a camioneta que fez a entrega nem chegou a sair do recinto da marina. Levantou-se então outro problema: não há outro bote nas Caraíbas disponível para entrega, pelo que tinha duas opções: esperar até meados de Outubro, até que chegasse nova remessa, ou receber o dinheiro e desistir do novo bote. Verdade seja dita que a gerente assistente tem tentado tudo para resolver o problema, tendo sugerido outra alternativa. Há outro bote em Trinidade e Tobago, mas de dez pés, maior do que o inicialmente encomendado. Caso aceitasse entregar-mo-ia sem qualquer encargo adicional. Um bom negócio visto que a diferença de preço é superior a cinquenta por cento entre o de oito e o de dez pés. Aceitei, pois não tenho outra opção. O bote vai atravancar ainda mais o convés quando navegarmos, mas desde que bóie tudo bem. Resta esperar até ao dia 28 deste mês. Apesar de Trinidade e Tobago ser aqui ao lado, só há um barco de carga por semana, à sexta-feira, e a decisão foi tomada pouco tempo depois do navio ter zarpado. Agora há que esperar mais uma semana, dois dias antes de sairmos de Grenada, a 1 de Outubro. Quanto ao resto, estamos bem e o tempo tem cooperado. Sol, calor, alguma chuva e boa disposição. A ASSOCIAÇÃO PROMOTORA DA INSTRUÇÃO DOS MACAENSES ASSINALA o 66º Aniversário da Implementação da República Popular da China CADERNO DIÁRIO O CLARIM | Semanário Católico de Macau | QUARTA-FEIRA | 30 de Setembro de 2015 22 Quarta 23 Terça 29 Martinho Lesa-Pátria 1 Na altura do seu nascimento, D. Sancho I não estava destinado a ser o segundo Rei de Portugal. A prová-lo está o facto de ter sido baptizado com o nome de Martinho, por ter nascido a 11 de Novembro. Martinho era, no entanto, um nome sem tradição entre os reis hispânicos. E, passado algum tempo (de seis meses a um ano), mudaram-lhe o nome para Sancho. Na verdade, no dia de São Martinho de 1154, nasceu, não o primogénito, mas o segundo filho (legítimo) do primeiro monarca português. Destinado a ser o segundo Rei de Portugal estava o seu irmão Henrique, Falhou a tentativa de venda do Novo Banco, e o Banco de Portugal regressa agora às conversações com fundos internacionais de capital. Num mundo globalizado, onde as crises financeiras são frequentes, a dependência da economia portuguesa em relação a estes fundos de capitais especulativos é altamente perigosa, deixando o País à mercê da volatilidade dos mercados. Tenhamos ainda em atenção que o Novo Banco é o patrocinador oficial da Selecção Portuguesa de Futebol e continua com o mesmo tipo de publicidade agressiva anterior ao colapso. Nesta última legislatura foram injectados na banca, no mínimo, 20 mil milhões de euros, entre as capitalizações e os resgates dos buracos financeiros do BPN, do BANIF, do BPP, do Montepio e do BES. Os que, na altura, tinha já sete anos. Era este o primogénito, a quem D. Afonso Henriques, note-se, deu o nome de seu pai. E o facto de ter dado o nome de Marti- nho ao menino nascido naquele dia indica que talvez o destinasse à carreira eclesiástica. Se Martinho não era nome para rei, seria adequado para um clérigo. PT números são estes. O sistema financeiro é a base da economia de mercado e, no momento presente, estão ambos desequilibrados. Cerca de 40 mil milhões de euros de riqueza gerada todos os anos fogem, por esta ou aquela forma, aos impostos, o que poderia gerar uma receita média de 10 mil milhões. A falta de controlo fiscal das importações tem também lesado o Estado através da fuga ao IVA, para além de gerar concorrência desleal para com os produtores e fabricantes portugueses. Entretanto, criou-se um Banco de Fomento, que a única coisa que fez foi pagar salários exorbitantes aos seus administradores políticos. Em conclusão, a dívida externa bruta, soma da dívida pública com a privada, ultrapassa já os 500 mil milhões de euros! Quinta 24 História A história é geralmente escrita pelos vencedores, sendo profundamente injusta para com os vencidos. No quadro gigantesco da Reforma e da Contra-Reforma, o apóstolo da tolerância ocupa um segundo plano; os outros todos, possessos do génio e da crença, cumpririam dramaticamente o seu destino. Sexta 25 Inveja Os portugueses, segundo muitos analistas, consideram-se frequentemente um povo de invejosos, o que leva a denegrirem os sucessos obtidos por alguém, caindo na maledicência. O sucesso de alguém é olhado com desconfiança, não é motivo de regozijo colectivo, mas de preocupação. A única explicação que o invejoso aceita para o êxito de alguém é que o mesmo se deve ao acaso (sorte), ou a outra pessoa que não o próprio. O inve- Lesa-Pátria 2 joso não acredita nos resultados do trabalho, Leia O CLARIM na net muito menos nos méritos de alguém. A Sociedade de Transportes Colectivos do Porto (STCP) e o Metro do Porto, depois de falhado o concurso público, foram passadas para as mãos de empresas estrangeiras por ajuste directo. Esta operação de venda, por si só, vai originar automaticamente uma perda de mil milhões de euros! As propostas escolhidas ganharam por uma margem mínima. Está previsto no caderno de encargos que não pode haver “aumen- www.oclarim.com.mo tos extraordinários” de bilhetes, mas já ninguém acredita nisso, atendendo aos anteriores exemplos. Não haja dúvidas: a concessão dos transportes públicos do Porto em regime privativo a empresas multinacionais de outros países é lesiva do Estado e dos utentes. Sabe-se igualmente que muitos destes actores da política dos negócios só permanecem em palco para roubarem o cenário, peça por peça. ENTRETENIMENTO O CLARIM | Semanário Católico de Macau | QUARTA-FEIRA | 30 de Setembro de 2015 23 PT TDM Canal 1 13:00 13:30 14:30 18:20 19:00 19:40 20:30 21:00 21:40 22:10 23:00 23:30 23:45 01:30 07:50 13:00 08:30 13:30 14:30 16:00 16:45 17:45 18:20 19:10 19:40 20:30 21:00 21:40 22:10 23:00 23:30 23:45 00:20 00:50 Quarta-feira TDM News (Repetição) Telejornal RTPi (Diferido) RTPi (Directo) Telenovela: Amor à Vida (Rastros de Mentiras – Repetição) TDM Entrevista (Repetição) Telenovela: Paixões Proibidas Telejornal Montra do Lilau Literatura Agora Telenovela: Amor à Vida (Rastros de Mentiras) TDM News Resumo Liga dos Campeões Liga dos Campeões: Porto x Chelsea (Repetição) RTPi (Directo) Quinta-feira Dia da Implantação da RPC: Cerimónia do Hastear da Bandeira (Directo) TDM News (Repetição) RTPi (Directo) Telejornal RTPi (Diferido) Filme da Treta Sabia Que? Rasgar o Céu Ver de Perto Telenovela: Amor à Vida (Rastros de Mentiras – Repetição) Montra do Lilau (Repetição) Telenovela: Paixões Proibidas Telejornal TDM Talk Show Agora a Sério Telenovela: Amor à Vida (Rastros de Mentiras) TDM News Resumo Liga dos Campeões Onda Curta Telejornal (Repetição) RTPi (Directo) Sexta-feira 13:00 TDM News (Repetição) 13:30 14:30 16:00 17:25 18:20 19:10 19:40 20:30 21:15 21:45 22:10 23:00 23:30 23:45 01:20 01:50 Telejornal RTPi (Diferido) Atrás das Nuvens Luís Alberto Bettencourt Guitarras ao Alto Telenovela: Amor à Vida (Rastros de Mentiras – Repetição) TDM Talkshow (Repetição) Telenovela: Paixões Proibidas Telejornal Macau 360° Mudar de Vida Amor à Vida (Rastros de Mentiras) TDM News Resumo Liga Europa Cinema: Sonhar é Fácil Telejornal (Repetição) RTPi (Directo) 10:45 11:35 12:00 12:30 13:00 13:30 14:30 18:10 18:30 19:20 19:50 20:30 21:00 22:00 23:00 23:30 00:30 01:00 Sábado Os Ursos Boonie Esfera Ki À Mesa com Capote Cozinha em Forma TDM News (Repetição) Telejornal RTPi (Diferido) Telenovela: Paixões Proibidas (Compacto) Sabia Que? Quem Quer Ser Milionário What’s Up: Olhar a Moda Macau 360° (Repetição) Telejornal Conta-me como foi Pedro e Inês TDM News Pop Lusa Telejornal (Repetição) RTPi (Directo) Domingo 10:35 Jardim da Celeste 11:00 Missa Dominical 12:00 A Hora de Baco A PARTIR DE 30/9/2015 B 12:30 13:00 13:30 14:30 16:30 17:20 17:50 18:20 18:50 19:40 20:30 21:00 22:00 23:00 23:30 23:45 00:40 01:10 Especial Saúde TDM News (Repetição) Telejornal RTPi (Diferido) Zig Zag Pequenos em Grande Photo Madeira AB Ciência Corpo Clínico Decisão Final Bem-Vindos a Beirais Telejornal Contraponto Em Busca da Cura para o Ébola TDM News Reportagem AUDAX: Negócios à Prova Telejornal (Repetição) RTPi (Directo) 21:00 TDM Entrevista 13:00 13:30 17:50 18:40 19:40 20:30 21:00 22:10 23:00 23:30 00:05 00:40 Segunda-feira TDM News (Repetição) Telejornal RTPi (Diferido) Telenovela: Amor à Vida (Rastros de Mentiras – Repetição) Contraponto (Repetição) Telenovela: Paixões Proibidas Telejornal TDM Desporto Telenovela: Amor à Vida (Rastros de Mentiras) TDM News Magazine Liga dos Campeões 2015/2016 Telejornal (Repetição) RTPi (Directo) 13:00 13:30 14:30 17:50 18:40 19:40 20:30 Terça-feira TDM News (Repetição) Telejornal RTPi (Diferido) RTPi (Directo) Telenovela: Amor à Vida (Rastros de Mentiras – Repetição) TDM Desporto (Repetição) Telenovela: Paixões Proibidas Telejornal 21:40 City Folk: Gente da Cidade 22:10 Telenovela: Amor à Vida (Rastros de Mentiras) 23:00 TDM News 23:30 Portugal Aqui Tão Perto 00:30 Telejornal (Repetição) 01:05 RTPi (Directo) Quarta-feira 13:00 TDM News (Repetição) 13:30 Telejornal RTPi (Diferido) 14:30 RTPi (Directo) 18:20 Telenovela: Amor à Vida (Rastros de Mentiras – Repetição) 19:00 TDM Entrevista (Repetição) 19:40 Telenovela: Paixões Proibidas 20:30 Telejornal 21:00 Montra do Lilau 21:40 Mar de Letras 22:10 Telenovela: Amor à Vida (Rastros de Mentiras) 23:00 TDM News 23:30 A Minha Geração 01:10 Telejornal (Repetição) 01:45 RTPi (Directo) Quinta-feira 13:00 TDM News (Repetição) 13:30 Telejornal RTPi (Diferido) 18:50 Telenovela: Amor à Vida (Rastros de Mentiras – Repetição) 19:10 Montra do Lilau (Repetição) 19:40 Telenovela: Paixões Proibidas 20:30 Telejornal 21:00 TDM Talk Show 21:40 Agora a Sério 22:10 Amor à Vida (Rastros de Mentiras) 23:00 TDM News 23:30 Onda Curta 00:05 Telejornal (Repetição) 00:40 RTPi (Directo) 02:45 Apuramento Euro 2016: Portugal x Dinamarca 04:45 RTPi (Directo) B A PARTIR DE 30/9/2015 SALA 1 SALA 1 EVEREST THE MARTIAN 14:30 | 16:45 | 21:45 19:15 Um filme de: Baltasar Kormakur Com: Jason Clarke, Josh Brolin, John Hawkes, Robin Wright A PARTIR DE 30/9/2015 Um filme de: Ridley Scott Com: Matt Damon, Jessica Chastain, Kristen Wiig, Kate Mara B SALA 2 OFFICE 14:00 | 17:45 | 21:30 Um filme de: Johnnie To Com: Chow Yun Fat, Sylvia Chang, Eason Chan, Tang Wei Língua: Falado em Cantonês, com legendas em Chinês e Inglês A PARTIR DE 30/9/2015 C SALA 2 ATTACK ON TITAN END OF THE WORLD 16:05 | 19:50 Um filme de: Shinji Higuchi Com: Haruma Miura, Kiko Mizuhara Língua: Falado em Japonês, com legendas em Chinês e Inglês S E M A N Á R I O C A T Ó L I C O D E M A C A U 24 | QUARTA-FEIRA | 30 - 09 - 2015 Rua do Campo, Edf. Ngan Fai, Nº 151, 1º G, MACAU TEL. 28573860 FAX. 28307867 www.oclarim.com.mo