FACULDADE DE PARÁ DE MINAS
CURSO DE PEDAGOGIA
Patrícia Vanessa da Silva
ATOS INDISCIPLINARES EM SALA DE AULA DO ENSINO FUNDAMENTAL I
Pará de Minas
2013
Patrícia Vanessa da Silva
O PROCESSO DE INDISCIPLINA EM SALA DE AULA DO ENSINO
FUNDAMENTAL I
Monografia apresentada à Coordenação do curso
de Pedagogia da Faculdade de Pará de Minas
como requisito parcial para a conclusão do curso
de Pedagogia.
Orientador: Jessé Saturnino Junior.
Pará de Minas
2013
Patrícia Vanessa da Silva
O PROCESSO DE INDISCIPLINA EM SALA DE AULA DO ENSINO
FUNDAMENTAL I
Monografia apresentada à Coordenação do curso
de Pedagogia da Faculdade de Pará de Minas
como requisito parcial para a conclusão do curso
de Pedagogia
Aprovada em: __________/__________/__________
_____________________________________________________________
Professor orientador: Jessé Saturnino Junior
_____________________________________________________________
Professor examinador
_____________________________________________________________
Professor examinador
LISTA DE QUADROS
QUADRO 1 – Ocorrências no período de 2009.........................................................40
QUADRO 2 – Ocorrências no período de 2010.........................................................40
QUADRO 3 – Ocorrências no período de 2011.........................................................41
QUADRO 4 – Ocorrências no período de 2012.........................................................41
RESUMO
O tema deste trabalho refere-se à indisciplina em sala de aula. Este é um dos
principais assuntos que preocupam os professores, pois a disciplina pode ser vista
como um instrumento de autoritarismo, mas ao mesmo tempo um instrumento que
propicia a educação. Assim, será importante apresentar quais os limites entre
disciplina e indisciplina, bem como quem define as normas disciplinares: a
sociedade ou a escola? Neste estudo será abordada a questão da indisciplina no
contexto da sala de aula entre crianças de 6 a 10 anos através de um estudo de
caso. Para isso foi utilizada pesquisa bibliográfica, mediante o estudo de artigos
científicos, doutrinas sobre o tema e tendo como documentos as atas de indisciplina
ou os livros de ocorrência assinados pelos alunos quando do cometimento de algum
ato indisciplinar. Desta forma, o estudo sobre os possíveis fatores que evidenciam a
questão de indisciplina no contexto escolar possibilitará reflexões para que seja
possível compreender e desenvolver ações que possam formar cidadãos que
saibam vivenciar situações que demandam regras e normas.
Palavras-chave: Indisciplina; Ensino Fundamental I; Disciplina; Educação.
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ........................................................................................................ 6
1.1 Objetivos ............................................................................................................. 7
1.1.1 Objetivos gerais ................................................................................................. 7
1.1.2 Objetivos específicos ......................................................................................... 7
2 REFERENCIAL TEÓRICO ...................................................................................... 9
2.1 Educação: natureza e função ............................................................................ 9
2.1.1 Definição de educação ...................................................................................... 9
2.1.2 A educação impositiva e a disciplina ............................................................... 12
2.2 Disciplina: conceito e características ............................................................. 13
2.2.1 Como manter a disciplina em sala de aula ...................................................... 16
2.3 Indisciplina: a ausência de disciplina ............................................................. 19
2.3.1 A indisciplina e o contexto escolar ................................................................... 22
2.3.2 O contexto familiar e a indisciplina .................................................................. 24
2.3.3 Ações consideradas como indisciplina ............................................................ 27
2.3.4 O professor e a indisciplina na sala de aula .................................................... 30
2.4 As causas da indisciplina e possíveis soluções ........................................... 34
2.4.1 Estratégias para conter a indisciplina .............................................................. 35
2.4.2 Algumas consequências da indisciplina .......................................................... 37
3 METODOLOGIA ................................................................................................... 39
4 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS ................................................... 40
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................. 44
REFERÊNCIAS ........................................................................................................ 46
ANEXO ..................................................................................................................... 48
6
1 INTRODUÇÃO
Este estudo aborda a questão da indisciplina no contexto da sala de aula,
evidenciando, também, através de estudo de caso, a indisciplina no âmbito escolar
de crianças de 6 a 10 anos.
Vasconcellos (2009) explica que se entendermos que a educação é um
processo de humanização, isto é, um processo que os seres humanos organizam
intencionalmente para, em relação uns com os outros, se apropriem dos avanços
civilizatórios em benefício da coletividade humana, e se entendermos que a
disciplina é uma ordem consentida livremente conveniente ao funcionamento regular
das organizações sociais, então a disciplina é importante na organização escolar,
tendo em vista suas finalidades educativas.
Contudo, a disciplina em sala de aula se deve a vários fatores, existe o
costume das pessoas que se desenvolve no meio em que ela vive e tem total
influência em seu comportamento. E diante destas questões relativas à indisciplina,
o professor pode se sentir impotente no momento de estabelecer a disciplina em
sala de aula.
A disciplina é importante para que a educação possa acontecer, pois alunos
indisciplinados tendem a não aprender o que está sendo proposto e ainda prejudica
os demais colegas e o bom andamento da aula.
Vasconcellos (2009) explica que para muitos professores a disciplina é
entendida como a adequação do comportamento do aluno àquilo que o professor
deseja. Assim, só é considerado disciplinado o aluno que se comporta como o
professor quer. É frequente o desejo do professor que o aluno fique quieto, ouça as
explicações que tem para dar, faça os exercícios e pronto.
Este seria o conceito de disciplina ligado simplesmente à obediência. Porém,
a indisciplina ou a disciplina estão ligadas a outros fatores que envolvem a vida do
aluno.
E, para responder ao questionamento proposto, será visto no decorrer deste
estudo alguns importantes conceitos relacionados á indisciplina, bem como algumas
estratégias utilizadas pelo professor e pela escola para controlar esta situação.
Sendo assim, o objetivo principal deste estudo é analisar, através de estudo
de caso, bem como de documentos e pesquisa bibliográfica, os atos indisciplinares
7
mais recorrentes de uma escola pública do Ensino Fundamental I, nos últimos 4
anos.
Porém, nos capítulos iniciais deste trabalho a abordagem trará uma análise a
respeito da educação, da disciplina e indisciplina, com seus conceitos e
características avaliando as causas, características e consequências, bem como a
postura do professor e da comunidade diante desta situação. Ao final, será
apresentado a análise realizada com as atas de ocorrência do período de 2009 a
2012.
Assim, diante das hipóteses apresentadas para este estudo, fica evidenciado
que, muitas vezes, os atos indisciplinados são um pouco do reflexo das más
condutas, violências, famílias sem estrutura etc., e tudo, isso, de certa forma,
influencia no modo como os alunos se comportam em sala de aula e até mesmo fora
dela.
O estudo destas questões será importante para o meio acadêmico como
forma de reflexão sobre o modo como a indisciplina está sendo vista e tratada pelos
professores e também pela escola.
Este estudo tem como abordagem metodológica um estudo qualitativo, sendo
que foi utilizada pesquisa documental e bibliográfica.
1.1 Objetivos
1.1.1 Objetivo geral
Analisar o atos indisciplinares mais recorrentes de uma escola pública
municipal do Ensino Fundamental I, nos últimos 4 anos, no período de 2009 a 2012.
1.1.2 Objetivos específicos
a) Conceituar disciplina e indisciplina em relação ao contexto estudado;
b) Verificar nos cadernos de atas de ocorrência relativos ao período de 2009 –
2012 o que a escola entende por indisciplina;
c) Analisar os atos indisciplinares mais recorrentes entre crianças de 6 a 10
anos.
8
d) Verificar no regimento escolar o que são atos indisciplinares e as medidas
disciplinares que cabe a escola.
e) Verificar a reincidência dos alunos no registro de ocorrência.
9
2 REFERENCIAL TEÓRICO
2.1 Educação: natureza e função
Para dar início a esta monografia é importante mencionar a definição e a
função da educação.
A educação em geral é um processo inerente ao ser humano em todas as
épocas históricas e distintas formações sociais.
2.1.1 Definição de educação
Conforme Durkheim (1978) a palavra educação, muitas vezes, é empregada
em sentido amplo, para designar o conjunto de influências que, sobre a nossa
inteligência ou sobre nossa vontade, exercem os outros homens, ou, em seu
conjunto, realiza a natureza. Essa definição acaba por encobrir a real função
sociológica da educação, pois compreende tudo aquilo que fazemos por nós
mesmos e tudo aquilo que os outros intentam fazer com o fim de aproximar-nos da
perfeição da nossa natureza.
Para este autor, esta afirmação se resume no fato de que o fim da educação
é desenvolver, em cada indivíduo, toda a perfeição de que ele seja capaz.
Todavia, cada sociedade, em determinado momento histórico e social de seu
desenvolvimento, possui um sistema de educação que se impõe aos indivíduos de
modo a integrar alguns costumes. E estes costumes também fazem parte do que
denominamos educação.
Por isso, para definir educação é preciso considerar os sistemas educativos e
os costumes de cada sociedade, pelo que se entende, que tal conceito é múltiplo.
Assim, observando estas questões, Durkheim (1978) afirma que a educação
é, pois, para a sociedade, o meio pelo qual ela prepara, no íntimo das crianças, as
condições essenciais da própria existência.
A educação é a ação exercida, pelas gerações adultas, sobre as gerações
que não se encontrem ainda preparadas para a vida social; tem por objetivo
suscitar e desenvolver, na criança, certo número de estados físicos,
intelectuais e morais, reclamados pela sociedade política, no seu conjunto,
e pelo meio especial a que a criança, particularmente, se destine
(DURKHEIM, 1978, p. 41).
10
Tendo em vista a definição do autor, entende-se que a educação consiste
numa socialização metódica e recorrente das novas gerações. Ou seja, a educação
é um fato social no sentido stricto sensu, com as suas características de
generalidade, exterioridade ao indivíduo e coercitivo.
O Estado, síntese da sociedade política, tem influência direta na educação
destas gerações, apesar de que, devido aos costumes da sociedade, conforme foi
dito anteriormente, a comunidade e a família também tem total influência e
colaboração nesta esfera.
A esta influência direta do Estado se deve a importância de um ensino basilar
nas escolas que, por sua vez, devem zelar pelo respeito à aprendizagem e ao
conhecimento determinado pelo Estado que deverá ser repassado às crianças.
Este processo é imposto. As novas gerações são obrigadas e caso os pais ou
mestres não a executem conforme os ditames do Estado, serão punidos.
Para finalizar, Durkheim (1978) explica que:
[...] a educação é a ação exercida junto às crianças, pelos pais e mestres. É
permanente, de todos os instantes, geral. Não há período na vida social,
não há mesmo, por assim dizer, momento em que as crianças não estejam
em contato com alguma ação educativa. A educação, neste sentido, é
contínua. (DURKHEIM, 1978, p. 41).
Para Melo e Urbanetz (2009), o processo educativo, é o ato que cada
sociedade produz de maneiras diferenciadas, de promover nas novas gerações a
constituição do ser humano adequado aos limites vividos pela sociedade. Enfim,
significa que a educação promove em cada um dos indivíduos a humanidade
produzida e desejada socialmente. A educação é uma prática social e abrange
vários interesses sociais.
Desta forma, relacionando o que pôde ser observado sobre o conceito de
educação, guardadas as devidas proporções, há algo em comum entre os autores: a
educação é uma necessidade vital para a manutenção da sociedade. E que há
elementos impositivos nos processos educacionais. Na esfera da educação informal,
os pais impõem seus limites, já na esfera da educação formal, os mecanismos
impositivos são ampliados.
Assim, relacionando os conceitos aqui expostos à disciplina em sala de aula,
é possível afirmar que o projeto de educação que deriva dessa metodologia que
deve ser adotada pelos professores para uma educação de qualidade parte da
11
necessidade da ação para a produção da vida e também dos conhecimentos e da
eficácia de uma capacidade impositiva.
Melo e Urbanetz (2009) afirmam que:
[...] o papel da escola é o exercício permanente da contradição que, por sua
vez, necessita dessa atividade permanente dos alunos. Portanto, aos
alunos não basta que sejam ouvintes das aulas dos professores, mas sim
que, para além delas, sejam ativos na prática da pesquisa continuada e na
extensão, no sentido de socializar essas pesquisas com a população.
(MELO; URBANETZ, 2009, p. 34).
Assim, Durkheim e Melo e Urbanetz, veem a educação como uma imposição,
ou seja, “não podemos educar nossos filhos como queremos”.
Já quanto ao papel do professor, segundo Romanowski (2007), sua
característica principal é promover a educação no sentido de favorecer para que os
sujeitos tornem-se construtores e transformadores de sua individualidade, da
subjetividade e da própria sociedade.
Por isso os professores devem ficar atentos ao fato de que é necessário ser
um intermediário do conhecimento para que seus alunos possam procurar ser
agentes autônomos, procurando novas fontes de pesquisa e de informação.
Assim, para que haja ações concretas, capazes de se articularem para uma
expressão qualitativa da organização do trabalho pedagógico e uma melhoria na
relação entre professor e alunos relacionada à disciplina na sala de aula, alguns
fatores devem ser observados.
O professor, com isso, deve procurar organizar suas aulas, pois, os autores
estudados sugerem a partir de suas pesquisas que a maioria dos alunos preferem
aqueles professores que mantém uma disciplina capaz de cativá-los, incentivá-los e
estimula-los, para que eles próprios se sintam com vontade de estudar aquela
matéria.
Percebe-se também que o professor deve ser impositivo, ou seja, deve ter
autoridade em sala de aula, dominar os conteúdos e adquirir a confiança dos alunos,
para manter a disciplina.
Melo e Urbanetz (2009), em sua obra, ensinam que o professor deve planejar
suas ações, expondo o conceito de currículo e planejamento. Para os autores a
concepção de currículo remete a ideia de um rol de conteúdos a serem trabalhados
com o objetivo de dominar os conteúdos necessários a formação profissional e
12
também a ideia de “caminho”, ou seja, a construção desse profissional a partir dos
conhecimentos que irá adquirir para a sua profissionalização plena.
Melo e Urbanetz (2009) apontam alguns elementos didáticos que podem
auxiliar bastante a relação entre professor e aluno, observando, assim, a
organização pedagógica.
É para alcançar êxito na relação didática que o professor é levado para
planejar a disciplina, de modo que possa visualizar as ações durante um
período suficiente para que ele e seus alunos, ambos conscientes do plano,
possam melhor se posicionar com relação a este e às exigências que dele
advém, ou seja, o planejamento possui um caráter pragmático, que facilita e
organiza a vida acadêmica de professores e de alunos, servindo de guia
para o trabalho docente. (MELO; URBANETZ, 2009, p. 42).
Assim, o professor deve, ao planejar suas atividades pensando na disciplina
em sala de aula, procurar o que há de melhor para essa vivência com a prática
social, utilizando as várias possibilidades dadas para que isso aconteça e
considerando as especificidades do curso em que atua, para que esse recurso não
se perca em relação aos objetivos gerais e específicos do curso e acabe por se
tornar uma prática alienada. Este fato ajuda bastante no momento de interagir com
os alunos e fazer com que eles se sintam motivados.
2.1.2 A educação impositiva e a disciplina
Conforme pôde ser visto nestas assertivas, percebe-se que a educação é
feita de maneira impositiva, pois o professor impõe o que o Estado deseja. Mas,
para que isso ocorra é necessário que se tenha autoridade para manter a disciplina.
O professor, por sua vez, deve ter em mente que a postura autoritária não
demanda de rigor excessivo, pois a autoridade traz consigo confiança e respeito.
Para Vasconcellos (2009), a visão que o educador possui de sua ação
pedagógica é fundamental para a construção da relação educacional. E esta visão
encontra-se hoje marcada pela contradição da liberdade/repressão, ou seja, de um
lado temos alguns educadores que entendem a educação através da repressão, e
outros que enxergam a educação como sendo um ato livre.
Este autor, contudo, entende que não é possível ter disciplina nem com a
postura repressiva, onde os alunos se sentem acuados e sem conseguir dispor de
seus pensamentos para interagir em sala de aula, nem mesmo com a postura
13
alienada, totalmente espontânea do professor, pois desta forma, os alunos não
sentiram confiança na transmissão do conteúdo e do conhecimento. Deve haver,
assim, um “meio termo” para que a educação, vinculada à disciplina, aconteça.
Para Durkheim (1978):
Não é necessário que o professor demonstre autoridade, pois esta deve ser
compreendida pelos alunos e nada tem a ver com um ato violento ou
repressor. A autoridade supõe vontade, confiança e respeito. Ou seja, o
aluno deve ter confiança no professor e este, por sua vez, deve demonstrar
confiança naquilo que está sendo transmitido. (DURKHEIM, 1978, p. 49).
Este autor ainda menciona que a autoridade é revestida também do respeito
que o próprio professor tem por sua função.
Com relação à contradição entre liberdade e repressão, Durkheim (1978)
expõe que:
Tem-se muitas vezes oposto a ideia de liberdade e de autoridade, como se
esses dois fatores de educação se contradissessem e se limitassem. Mas
essa oposição é fictícia. Na realidade, esses dois termos, longe de se
excluírem, são correlatos. A liberdade é filha da autoridade bem
compreendida. Porque ser livre não é fazer o que se queira; é ser senhor de
si, saber agir pela razão, praticando o dever. Ora, é justamente com o
objetivo de dotar a criança desse domínio de si mesma que a autoridade do
mestre deve ser empregada. A autoridade do mestre não é mais do que um
aspecto da autoridade do dever e da razão. (DURKHEIM, 1978, p. 56).
Por isso, a educação deve vir aliada à disciplina que, por sua vez, é imposta,
mas com autoridade pelos professores, com respeito, de maneira a fazer com que
os alunos entendam a importância de se ter os conhecimentos repassados pela
escola.
2.2 Disciplina: conceito e características
Conforme visto anteriormente, a disciplina pode estar atrelada ao professor na
medida em que se fala de um relacionamento entre docente e aluno. Assim, ambos
podem estar trabalhando em conjunto no entendimento do que consideram
disciplina, já que essa compreensão também está vinculada à interpretação dos
sujeitos escolares.
Da mesma maneira, pôde ser visto que a disciplina e a autoridade docente
podem estar conectadas de forma produtiva, fazendo com que professor e aluno
14
construam conjuntamente o vínculo de autoridade e disciplina, entendendo que esta
última pode auxiliar nesse contínuo processo de construção.
Em geral, conforme Vasconcellos (2009) o trabalho docente é compreendido
a partir da equação "ensina-se algo, de alguma forma", preocupando-se apenas com
a associação dos conteúdos específicos e métodos utilizados. Um terceiro fator deve
ser acrescentado, o da dimensão ética do trabalho docente. Assim, a fórmula
pedagógica seria "ensina-se algo, de alguma forma, a alguém específico",
delimitando um valor humano e social a esta relação.
Vasconcellos (2009) afirma que:
[...] grande parte dos problemas enfrentados hoje, relacionados à
indisciplina evocam a questão do "para quê escola?", ideia que parece
apontar na mesma direção para a qual o aluno indisciplinado nos chama.
Essa questão tem de estar muito bem resolvida para os professores,
profissionais privilegiados da educação, que devem ter clareza quanto a seu
papel e ao valor do seu trabalho. (VASCONCELLOS, 2009, p. 44).
A questão da disciplina é bastante complexa, uma vez que um grande número
de variáveis influenciam o processo de ensino-aprendizagem.
No entanto, apesar dessa complexidade, a verdade é que há um consenso
sobre o fato de que sem disciplina não se pode fazer nenhum trabalho pedagógico
significativo.
Sobre o conceito de disciplina, expõe Vasconcellos:
A disciplina pode ser entendida diferentemente segundo a tarefa do mestre
é considerada como de puro ensino ou de educação e segundo o aluno é
considerado como uma simples inteligência a guarnecer de conhecimentos
.ou como um ser a formar para a vida. (VASCONCELLOS, 2009, p. 45).
Para Silveira (2009):
[...] a disciplina é um conjunto de regras que servem para o bom andamento
da aprendizagem escolar. Portanto, entende-se que ela é uma questão de
qualidade nos relacionamentos humanos, sendo também uma questão de
qualidade entre professor e aluno. (SILVEIRA, 2009, p. 3).
Diante de suas formas de expressão, causas e implicações, a indisciplina
escolar desafia os profissionais da educação a refletir, propor e repensar as
estratégias de ação pedagógica, já que a indisciplina não pode ser considerada
como um fenômeno estático.
Vasconcellos (2009, p. 45) explica que “numa primeira abordagem da
disciplina, podemos dizer que, em grandes linhas, disciplinar significa participar do
15
esforço civilizatório, e a escola nada mais faria que colaborar com este esforço
geral”.
Todavia, o autor explica que esta é uma visão idealista, pois o que na verdade
o Estado quer é que a escola e os professores enquadrem os alunos nos moldes
impostos por ele. A autonomia da escola é relativa, pois o Estado é que impõe suas
vontades e o que deve ser ensinado.
Vasconcellos (2009, p. 45) afirma que “os educadores, em sua maioria,
entendem disciplina como sendo a adequação do comportamento do aluno àquilo
que o professor deseja. Só é considerado disciplinado o aluno que se comporta
como o professor quer”.
Mas, qual é o comportamento desejado pelo professor? É frequente o desejo
do professor que o aluno fique quieto, ouça as explicações que tem para dar, faça os
exercícios etc.
Segundo Vasconcellos (2009):
[...] para muitos professores, se os alunos ficarem quietos em sala de aula e
fizerem tudo o que for imposto, ele se sentirá realizado. Assim, a
representação de competência profissional está associada ao bom domínio
de classe, seja ele obtido por métodos autocráticos, seja através de atitudes
persuasivas. (VASCONCELLOS, 2009, p. 45).
Este conceito de disciplina está associado à obediência e é muito presente no
cotidiano das escolas. E entende-se a presença deste conceito porque o trabalho do
professor realmente é estressante e em alguns momentos ele espera dos alunos um
comportamento mais passivo.
Todavia, este conceito de disciplina pode gerar alunos alienados e que
apenas repetem, em sala de aula, o que lhes foi imposto. Neste caso, os alunos não
aprenderão realmente a matéria.
Esta realidade não é interessante nem para a escola, nem para os alunos. Na
verdade, deve-se buscar construir uma disciplina que deixe de representar a
repressão e também a alienação.
Vasconcellos (2009) explica que o objetivo é conseguir sujeitos participantes
do processo educativo, e dessa forma as necessárias condições para o trabalho
coletivo em sala de aula (e na escola), onde haja o desenvolvimento da autonomia e
da solidariedade, ou seja, as condições para uma aprendizagem significativa, crítica,
criativa e duradoura.
16
Assim, a disciplina deve envolver participação, respeito, responsabilidade,
construção do conhecimento e também a formação do caráter e da cidadania.
Sendo assim, conforme Vasconcellos (2009):
A disciplina significa a capacidade de comandar a si mesmo, de se impor
aos caprichos individuais, às veleidades desordenadas, significa, enfim,
uma regra de vida. Além disso, significa a consciência da necessidade
livremente aceita, na medida em que é reconhecida como necessária para
que um organismo social qualquer atinja o fim proposto. (VASCONCELLOS,
2009, p. 46).
E, segundo Silveira (2009):
[...] a disciplina não deve ter fim em si mesma; deve estar relacionada aos
objetivos maiores da escola, que deve formar o aluno como pessoa capaz
de pensar, de estudar, de dirigir ou de controlar quem dirige, ajudando a
construir uma nova hegemonia, a hegemonia das classes populares.
Frequentemente, trabalha-se a disciplina de forma restritiva: dá-se muita
ênfase aos limites, ao que "não pode", em detrimento das possibilidades, do
que se espera. É a disciplina do "Não". (SILVEIRA, 2009, p. 3).
Vasconcellos (2009) explica que essa é a disciplina da abstenção ou da
inibição. Ele considera que a disciplina na coletividade da escola deve ter um
caráter: o impulso de avançar. Esta é a disciplina da vitória, disciplina da superação.
A disciplina, portanto, deve apontar os limites, mas também as possibilidades.
Paulo Freire, citado por Vasconcellos (2009) afirma que:
[...] numa visão dialética libertadora, compreendemos que a disciplina se
constrói pela interação do sujeito com outros e com a realidade, até chegar
ao autodomínio. Assim, neste ponto, entende-se que ninguém disciplina
ninguém. Ninguém se disciplina sozinho. Os homens se disciplinam em
comunhão, mediados pela realidade. (FREIRE apud VASCONCELLOS,
2009, p. 48).
Desta forma, a disciplina consciente e interativa pode ser entendida como o
processo de construção da auto regulação do sujeito, que se dá na interação social
e
pela
tensão
dialética
adaptação-transformação,
tendo
em
vista
atingir
conscientemente um objetivo.
2.2.1 Como manter a disciplina em sala de aula
Conforme pôde ser visto anteriormente, a disciplina está relacionada aos
objetivos maiores da escola que, por sua vez, deve formar o aluno como pessoa
capaz de pensar, de estudar, de ser um cidadão etc.
Assim, a disciplina que se busca, conforme explica Vasconcellos (2009) é:
17
[...] aquela que deixe de ser a expressão das relações sociais alienadas, ou
seja, o objetivo é conseguir o autogoverno do sujeito participante do
processo educativo, e dessa forma, as necessárias condições para o
trabalho coletivo em sala de aula e na escola, onde haja o desenvolvimento
da autonomia e da solidariedade. (VASCONCELLOS, 2009, p. 52).
Essas condições levam a um aprendizado significativo, crítico, consciente e
interativo, pautado na construção do conhecimento e da responsabilidade.
Para Silveira (2009):
A disciplina significa a capacidade de comandar a si mesmo, de se impor
aos caprichos individuais (...) significa uma regra de vida. Além disso,
significa a consciência da necessidade livremente aceita, na medida em que
é reconhecida como necessária para que um organismo social qualquer
atinja o fim proposto. (SILVEIRA, 2009, p. 4).
Desta forma, se o problema da indisciplina está na relação entre os
indivíduos, é esta relação que deve ser o alvo para que a mesma possa ser
controlada, ou seja, se a culpa é da relação social, é necessário transformá-la na
escola, na sala de aula e também no meio em que o aluno vive.
Diante disso, para manter a disciplina em sala de aula deve-se,
primeiramente, enfrentar a alienação.
Segundo Vasconcellos (2009):
Ao professor cabe dirigir o processo de construção da coletividade em sala
de aula. E esta direção não pode ser guiada pelos parâmetros da
contradição liberdade/repressão, mas sim pelos da consciência/alienação.
O professor não pode ser omisso, mas sim participativo e interativo. Ele
deve estar atento às diferenças entre os alunos na sala de aula para buscar
combina-las e trazer à tona o que cada elemento destes diferentes alunos
pode contribuir na coletividade e na construção do conhecimento. Isto
porque coletividade não significa padronização de comportamentos e sim
combinação de comportamentos (VASCONCELLOS, 2009, p. 54).
Porém, alguns professores interpretam essa questão como sendo falta de
limites para os alunos e também como se não pudesse exigir disciplina e controle
dos alunos.
Todavia, conforme ensina Vasconcellos (2009, p. 55), “o que tem que ser
exigente são as aulas e não as normas e a forma de avaliação”.
Isso mostra que deve ser exigido dos alunos comprometimento e interação
para que seja possível implementar o conhecimento, mas para isso, no processo de
construção da disciplina o professor deve enfrentar a alienação, mas também
necessita de autoridade para alcançar este fim.
18
Vasconcellos (2009, p. 54) afirma que “a educação, no seu verdadeiro
sentido, não se faz sem autoridade, pois o educando precisa do referencial do
educador a fim de ter base para a construção do seu”.
Muitas vezes, o professor não consegue disciplina porque não tem autoridade
diante dos alunos. O respeito deve ser adquirido pelo professor perante seus alunos.
Além disso, o professor precisa exercer autoridade naquilo que domina, como sua
intelectualidade, ou seja, ele deve ser capaz de refletir, de rever seus pontos de
vista, demonstrar inteligência diante das situações, indo além do senso comum.
Da mesma forma, o professor deve ter princípios éticos, estabelecendo
parâmetros, sendo coerente, apresentando traços de firmeza e tendo compromisso
com o bem dos alunos.
Outra questão importante, conforme ensina Vasconcellos (2009) é que o
professor deve demonstrar profissionalismo, ou seja, deve ser competente, ter
domínio da matéria e da metodologia de trabalho, empregar com segurança os
conceitos e técnicas, ser interessado, demonstrar ânimo pelo que faz, preparar bem
suas aulas e estar atualizado.
E, acima de tudo, o professor deve também respeitar as peculiaridades de
cada aluno.
Para Vasconcellos (2009):
O professor com autoridade é também aquele que deixa transparecer as
razões pelas quais a exerce: não por prazer, não por capricho, nem mesmo
por interesses pessoais, mas por um compromisso genuíno com o processo
pedagógico, ou seja, com a construção de sujeitos que, conhecendo a
realidade, disponham-se a modifica-la em consonância com um projeto
comum. (VASCONCELLOS, 2009, p. 55).
Assim, o que fica demonstrado é que o professor, neste processo de
construção de conhecimento e da busca da disciplina, deve estar preparado para
empreender um ensino inteligente, ou seja, uma educação baseada em princípios
científicos, na compreensão da estrutura do conhecimento e também no processo
de desenvolvimento do aluno.
Conforme Pereira (2010), o professor é importante não somente como figura
central, mas como coordenador do processo educativo, criando espaços
pedagógicos interessantes, estimulantes e desafiadores, para que neles ocorra a
construção de um conhecimento escolar significativo.
19
2.3 Indisciplina: a ausência de disciplina
O problema da indisciplina em sala de aula em todas as escolas têm sido sem
dúvida, uma das maiores preocupações existentes entre os educadores em todo o
Brasil. Pesquisas pedagógicas têm demonstrado o quanto se perde tempo em sala
de aula com questões de disciplina.
Todavia, o mais importante é descobrir onde e como o problema se
manifesta, para então, se encontrar soluções e tentar amenizar o quanto antes a
situação.
Conforme já foi mencionado, a escola é uma instituição complexa, sendo que
sua função tradicional é a de facilitar a inserção do indivíduo no mundo social. O
indivíduo deve aprender as formas de conduta social, os rituais e as técnicas para se
inserir plenamente na vida social.
Segundo Tosi (2006):
O termo indisciplina tem diferentes significados, e observando a mesma
apenas na questão comportamental, tem-se: para a escola tradicional diz
respeito ao silêncio absoluto dos alunos que ouvem as explicações do
professor; para a Escola Nova/Progressista, o problema não existe; para a
Escola Globalizadora significa a concentração da atenção e interesse em
determinado processo de ensino/aprendizagem 1. (TOSI apud PEDRIÇA;
AYRES, 2010, p. 4).
Para Pereira (2010), problema da indisciplina escolar é:
[...] um grande desafio aos objetivos educacionais, pela não organização e
normalização das atividades e relações em sala de aula para que a
aprendizagem dos conteúdos curriculares se efetive. Assim, esse fator
____________
1
Desenvolvida no século XIX a Escola Tradicional caracteriza-se por não permitir o questionamento
das autoridades, sendo as decisões inquestionáveis. O gestor é um burocrata autoritário, cuja
preocupação fundamental é controlar e aplicar programas e ordens oriundas dos órgãos
governamentais. O aluno é um ser passivo e seu papel é receber ordens, normas e recomendações
do professor, executar a disciplina, a obediência e o espírito de trabalho. Já a escola nova teve início
no século XIX chegando até a segunda metade do século XX, como um movimento contra as
mazelas do modelo tradicional, propondo uma escola mais aberta, descentralizada e crítica da
sociedade. A iniciativa desloca-se para o aluno e o centro da ação educativa situa-se na relação
professor-aluno, partindo do princípio de que o aluno é o centro da escola, o protagonista principal do
processo de ensino aprendizagem, em torno do qual as interações com o meio social e a questão
pedagógica é aprender a aprender. São valorizadas a participação, autogestão e autoresponsabilidade. E com relação à escola globalizada, pode-se dizer que com o advento da quarta
globalização (ao final dos anos 90), que para muitos se confunde com uma nova era, a do
conhecimento, a educação é tida como o maior recurso de que se dispõe para enfrentar essa nova
estruturação do mundo. Dela depende a continuidade do atual processo de desenvolvimento
econômico e social, também conhecido como era pós-industrial, em que notamos claramente um
declínio do emprego industrial e a multiplicação das ocupações em serviços diferenciados:
comunicação,
saúde,
turismo,
lazer
e
informação.
Disponível
em:
<http://sirlene58.blogspot.com.br/2010/06/atividade-online-i.html>. Acesso em: 28 abr. 2013.
20
atrapalha o desenvolvimento do trabalho pedagógico em relação à
qualidade de ensino, abalando o desempenho tanto dos estudantes, quanto
dos docentes. (PEREIRA, 2010, p. 1).
Segundo o dicionário Aurélio, indisciplina é o procedimento, ato ou dito
contrário à disciplina, desobediência, desordem, rebelião.
Para Pedriça e Ayres (2010, p. 4), “a disciplina é conquistada todos os dias, é
preciso sempre lembrar as regras do jogo, cada vez é preciso reinteressá-los, cada
vez é preciso ameaçar, cada vez é preciso recompensar”.
Isso mostra que a indisciplina é o contrário desta questão proposta pelos
autores, lembrando que o respeito às regras de uma instituição escolar é de
fundamental importância para que o processo de conhecimento seja alcançado.
Neste caso, a indisciplina representa uma ameaça ao acesso ao conhecimento pela
desobediência às regras estabelecidas.
Por isso os autores salientam a importância de sempre relembrar as regras e
estimular os alunos a cumprirem as mesmas no decorrer do ano letivo.
O
conceito
de
indisciplina
envolve
múltiplas
interpretações
e
um
complexidade que precisa ser considerada.
Segundo Pedriça e Ayres (2010):
Um aluno indisciplinado é em princípio alguém que possui um
comportamento desviante em relação a uma norma. Corresponde a um ato
que contraria alguns princípios do regulamento interno ou regras básicas
estabelecidas pela escola. A indisciplina é uma resposta à autoridade do
professor, o aluno contesta porque não está de acordo com as normas
estabelecidas, o professor não consegue motivá-lo suficientemente, existem
os problemas familiares, ausência dos pais, exposição a ídolos violentos,
problemas de relacionamento interpessoal entre o professor e o aluno.
(PEDRIÇA; AYRES, 2010, p. 5).
Para Garcia, citado por Pedriça e Ayres (2010, p. 5), “é preciso superar a
noção arcaica de indisciplina como algo restrito à dimensão comportamental”.
Com isso dá-se a importância de investigar as causas que dão ênfase para
que a indisciplina se instale na sala de aula e oferecer maneiras diferentes para que
alunos e professores entrem em sintonia para realização de um trabalho eficiente de
ensino e aprendizagem.
De acordo com Aquino, citado por Pedriça e Ayres (2010) o conceito de
indisciplina, como toda criação cultural, não é estático, uniforme, nem tão pouco
universal. Ele se relaciona com o conjunto de valores e expectativas que variam ao
longo da história, entre as diferentes culturas e numa mesma sociedade.
21
E por classe indisciplinada, entende-se ser toda aquela que:
Não permita aos professores oportunidades plenas para o desenvolvimento
de seu processo de ajuda na construção do conhecimento do aluno; Não
ofereça condições para que os professores possam acordar em seus alunos
sua potencialidade como elemento de auto-realização, preparação para o
trabalho e exercício consciente da cidadania; desenvolvimento de uma
aprendizagem significativa e vivências geradoras da formação de atitudes
aceitas em seus alunos. (PEDRIÇA; AYRES, 2010, p. 6).
É comum ainda no atual contexto alguns educadores trazerem para a
realidade regras utilizadas há muito tempo, oriundas de pedagogias tradicionais,
onde o professor é visto como o detentor do saber e aos alunos cabe somente ouvir
e fazer o que está sendo transmitido e muitas dessas regras foram continuamente
trazidas para a sala de aula e permanecem até hoje em nossas escolas.
De acordo com Oliveira, citado por Benette e Costa (2008, p. 4) disciplina é
entendida, pelo senso comum, “como a manutenção da ordem e obediência às
normas, a primeira significa a sua negação, ou seja, a quebra da ordem”.
Segundo Saviani, também citado por Benette e Costa (2008): até mesmo a
forma com que eram organizadas as carteiras em sala de aula, tinha a ver com esse
autoritarismo onde o poder é centralizado no professor: “são fixas e voltadas para
um determinado ponto onde se encontra o professor (...) por isso é uma sala
silenciosa, de paredes opacas”. (SAVIANI apud BENETTE; COSTA, 2008, p. 5).
Esta disciplina, muitas vezes imposta, causa certo saudosismo por parte de
alguns professores que foram educados nesta pedagogia e veem ainda nisto uma
forma de enfrentar os problemas encontrados em sala de aula. Mas, atualmente,
este conceito foi superado e deve-se procurar as causas da indisciplina no contexto
escolar para que as mesmas possam ser sanadas.
E em relação às causas, segundo Vasconcellos (2009), a indisciplina pode
ser classificada em cinco grandes níveis:
a) Sociedade;
b) Família;
c) Escola;
d) Professor;
e) Aluno.
Da mesma forma, o problema de indisciplina pode ser provocado por
problemas psicológicos, ou familiares, ou da estruturação escolar, ou das
22
circunstâncias sócio-históricas, ou, então, que a indisciplina é causada pelo
professor, pela sua personalidade, pelo seu método pedagógico etc.
2.3.1 A indisciplina e o contexto escolar
A indisciplina tem se mostrado cada vez mais presente no meio educacional e
na família e, isso é visível e reflete na sociedade, principalmente nos diversos
espaços das escolas das redes públicas e particulares. A indisciplina atualmente se
insere
no
trabalho
do
professor
como
um obstáculo
no
seu
caminho,
impossibilitando de caminhar com sucesso, causando assim o desgaste e a
desmotivação em ensinar.
De acordo com Aquino, citado por Pedriça e Ayres (2010, p. 3) “muitos
distúrbios disciplinares deixaram de ser um evento esporádico e particular no
cotidiano escolar para se tornarem, talvez, um dos maiores obstáculos pedagógicos
dos dias atuais”. Nesse sentido, a maioria dos educadores não sabe ao certo como
interpretar e administrar o ato indisciplinado.
Outro dado significativo refere-se ao fato de que a indisciplina interfere tanto
no contexto da escola pública quanto da escola privada, apesar de os atos
indisciplinares que ocorrem na escola pública terem mais visibilidade, principalmente
na mídia.
O fato é que a sociedade mudou, com isso, o ambiente familiar e também
escolar, mudaram.
O ambiente familiar, de patriarcal, voltado apenas para o modelo tradicional
onde o pai trabalhava para sustentar a família e a criação dos filhos ficava somente
para a mãe, evoluiu para um modelo onde a mulher também saiu de casa para
trabalhar, sendo que os filhos passaram a ter outro tipo de criação e educação.
A escola passou a ser vista pelos pais como um local onde as crianças
pudessem passar parte do seu dia e, ali, ter a maior parte de sua educação e
conhecimento. Não que este modelo seja o correto, mas com a evolução da
sociedade, esta é a situação mais vista atualmente.
Por isso, percebe-se que muitos são os problemas nas famílias, mas é
preciso
compreender
essas
mudanças,
para
poder
então
estabelecer
23
relacionamentos com a família e por extensão com o aluno. Mas a escola também
mudou e o professor da mesma forma.
Antes a escola tinha um maior valor social, o professor tinha um maior status,
a escola tinha, portanto um maior apoio da família. O saber era mais centralizado,
menos fragmentado e mais próximo da realidade de pelo menos quem podia
permanecer por mais tempo na escola.
Hoje, conforme explicam Pedriça e Ayres (2010) ao contrário, a fragmentação
cultural e o desemprego, a crise ética, a economia recessiva baseada no capital e
não na produção, a concentração de renda, a valorização do ter e não do ser, o
consumismo desenfreado, são verdades presentes e atuais em nosso contexto, em
nosso cotidiano.
Como consequência de tudo isso, as pessoas trabalham mais, estão se
desgastando mais e várias preocupações permeiam a família. Os pais já não podem
mais dedicar-se tanto aos estudos dos filhos nem conseguem acompanhar seu
desenvolvimento. E muitas vezes essa ausência é compensada com presentes.
Assim, vai faltando tempo, prioridade e também motivação.
Neste sentido, explica Vasconcellos:
Um fator fundamental para a crise da disciplina na escola e na sala de aula
está na queda do mito da ascensão social através da escola. Antes a escola
também não era um espaço agradável, mas os alunos tinham a grande
motivação de ser alguém na vida. Com a queda deste mito fica mais difícil
conseguir um comportamento adequado do aluno, ainda que seja de
passividade. (VASCONCELLOS, 2009, p. 138).
Para Benette e Costa (2008):
As reformas educacionais realizadas nos anos 90 atuaram fortemente sobre
o trabalho pedagógico, sugerindo novas formas de ensinar, novos métodos
2
e instrumentos de trabalho . Os reflexos dessas mudanças interferiram
também sobre o comportamento dos alunos e da comunidade escolar como
um todo, pois a escola está inserida no tempo histórico-social da sociedade
capitalista que a condiciona e determina. (BENETTE; COSTA, 2008, p. 5).
Libâneo, citado por Benette e Costa (2008) chama a atenção para as
mudanças no aspecto individual:
____________
2
Neste ponto, observa-se que estas novas formas de ensinar referem-se ao fato de que a escola
passou a adotar novas didáticas, onde o aluno pode interagir mais com o professor e com a turma,
sem ter seu aprendizado mecanizado e totalmente imposto pelo professor. Além disso, novas
técnicas e instrumentos de trabalho, como o uso da informática, da internet, também passaram a
fazer parte do cotidiano escolar.
24
As pessoas são estimuladas a se preparar para competir, por si mesmas,
no mercado de trabalho e gerar seus próprios meios de vida. Neste sentido,
perde-se o sentido da coletividade, das trocas, de vínculos afetivos
duradouros e da cooperação mútua. Passa-se a ideia de que o prazer está
nos bens materiais e não no companheirismo, na convivência, no diálogo e
na solidariedade. Nesse contexto globalizado, as mudanças proporcionadas
pela economia, onde há, em todo momento, novas tecnologias, aceleram a
alienação das pessoas, pois estas transformações tecnológicas e científicas
leva-nos a compreender que são necessários novos sistemas de
organização do trabalho, principalmente no trabalho pedagógico, para
atender às exigências da sociedade atual. (LIBÂNEO apud BENETTE;
COSTA, 2008, p. 5).
Sendo assim, a indisciplina deve ser analisada no contexto da sociedade
atual, pois a escola não está alheia aos determinantes sociais que desencadeiam os
problemas na escola. Não cabe à escola resolver tais determinantes, mas ela
convive com as contradições que dificulta o desenvolvimento da prática pedagógica.
No entanto, há possibilidades de intervenção no interior da escola que pode
amenizar os conflitos existentes e melhorar a qualidade do ensino e da
aprendizagem.
2.3.2 O contexto familiar e a indisciplina
Frequentar uma escola ajuda no desenvolvimento das pessoas como
cidadãos. Além disso, muitas coisas que são aprendidas na escola não são vistas
em casa ou na sociedade.
Segundo Nunes, citado por Benette e Costa (2008):
[...] a família constitui o berço do processo de ensino e aprendizagem de
todo ser humano e nele o aprendiz está sujeito a ser influenciado
decisivamente de forma positiva ou negativa. A escola é frequentada por
aqueles que tiveram uma boa formação na família, como também por
pessoas que tiveram experiências negativas, gerando assim uma grande
diversidade de alunos na sala de aula. (NUNES apud BENETTE; COSTA,
2008, p. 6).
Contudo, a escola não está preparada para lidar com esse universo de alunos
advindos de famílias que tem sob sua responsabilidade, outros encargos também
importantes: a grande maioria dos pais passam o dia todo trabalhando na luta pela
sobrevivência e o pouco tempo que se tem em casa junto à família é utilizado pelos
programas de televisão que impedem a comunicação entre os membros,
prejudicando o bom relacionamento da família.
Vasconcellos (2009) afirma que:
25
A família pode e deve colaborar para a contenção da indisciplina na escola,
mas para que isto aconteça, e preciso que seja resgatada a prática do
diálogo no ambiente familiar, a prática de participação efetiva dos pais na
vida escolar dos filhos, indo às reuniões escolares procurando saber da vida
dos filhos, suas angústias, seus temores, suas conquistas, bem como suas
expectativas e possibilidades de realização com relação ao futuro.
(VASCONCELLOS, 2009, p. 56).
É fundamental que os pais sejam capazes de impor limites, ajudando seus
filhos a terem postura crítica diante dos meios de comunicação que despertam o
consumismo, a sexualidade, a violência generalizada etc.
Benette e Costa (2008) enfatizam que:
É importante compreender que a concepção de família atual, não pode ser
vista como a mesma de antigamente devido às mudanças em todo o
contexto histórico e social. Os autores ainda observam que a escola e a
família, são duas instituições diretamente ligadas ao ser humano em
desenvolvimento, por isso, é importante entender as transformações sociais
que vêm acontecendo ao longo do tempo. (BENETTE; COSTA, 2008, p. 6).
As famílias passam por diversas dificuldades socioeconômicas e culturais,
mas também existe uma série de outros problemas como o alcoolismo, o divórcio, as
drogas, a violência doméstica, a permissividade sem limite, entre outros e,
consequentemente, a desestrutura familiar que pode interferir negativamente no
desempenho do aluno em sala de aula.
Nesse sentido, Vasconcellos (2009) afirma que:
O grande foco da crítica e da atribuição de responsabilidades pelos
problemas de indisciplina na escola é o aluno e, em particular, sua família.
De fato percebemos muitas famílias desestruturadas, desorientadas, com
hierarquia de valores invertida em relação à escola, transferindo
responsabilidades suas para a escola, o que acaba por confundir a função
principal que tem a escola. Todavia, independentemente do tipo de
estrutura familiar constituída, a família está inserida em um contexto
sociocultural e apresenta vínculos afetivos entre seus componentes,
referências próprias e crenças que resultam em uma espécie de cultura
familiar própria. (VASCONCELLOS, 2009, p. 60).
Segundo Aquino (1998):
Do ponto de vista empírico, os alunos carregam saberes anteriores
adquiridos no seio de sua família, do meio em que vivem que, as vezes, se
chocam com os saberes docentes e escolares. Ainda é preciso lembrar que
os projetos de realização pessoal dos alunos não se justapõem ou não se
resumem automaticamente aos projetos docentes. E é aí que a relação
encontra seu principal obstáculo: a incongruência das demandas de cada
um. Assim sendo, sabemos que a melhoria dessas relações é uma via de
mão dupla e, considerando sua especificidade educativa deve partir
preferencialmente da escola, contemplando não apenas os problemas da
escola como também conhecer a realidade dos alunos e suas famílias sem
descaracterizar o papel de cada um. (AQUINO, 1998, p. 2).
26
O convívio familiar é onde o sujeito aprende os primeiros princípios da
educação. Uma educação informal, que constitui uma primeira socialização. Em
seguida, vem à escola, para aperfeiçoar a educação transmitida pela família,
fazendo o indivíduo entender que todo ser vive em uma sociedade e que toda
sociedade tem regras, das quais, principalmente os seres humanos, por serem
dotados de razão, devem ser educados para, pelo menos, tentar cumprir tais regras
e incorporar os saberes científicos, produzidos pela humanidade.
É preciso haver interesse, não só da escola, mas também da família, na
formação de cidadãos conscientes e atuantes em seu meio social, conscientes de
seus direitos e deveres para com a sociedade e dotados de um saber científico.
Segundo Pedriça e Ayres (2010):
[...] os membros da família exercem forte influência no comportamento dos
indivíduos em fase de amadurecimento emocional, pois este dependerá, em
grande escala, de suas experiências emocionais anteriores, ou seja, aquilo
que for experimentado na infância desempenha importante papel durante os
anos de adolescência. Até hoje a família transmite, avalia e interpreta
culturas para a criança. (PEDRIÇA; AYRES, 2010, p. 3).
Pires, citado por Pedriça e Ayres (2010) explica que:
A família e a escola mudaram de modo significante nos últimos tempos.
Para o autor, a família antes dava total apoio para escola, mas atualmente,
tem deixado toda a responsabilidade de educar para a escola e ainda assim
tem a criticado, com isso os alunos vem para escola sem disciplina,
cabendo ao professor trabalhar em sala de aula, princípios da educação
informal e da educação formal. (PIRES apud PEDRIÇA; AYRES, 2010, p.
3).
Piaget, também citado por Pedriça e Ayres (2010), por sua vez, alerta sobre a
importância da intervenção do adulto, já que a infração tem que ser por ele
pontuada. O autor explica que a criança que comete infrações e não tem nenhum
retorno por parte do adulto interpreta que não existe alguém que a proteja, que zele
pelo seu bem-estar, o que do ponto de vista psicanalítico significa amor.
Atualmente as famílias quase não se reúnem para ter momentos de lazer,
para dialogar, para ter momentos prazerosos, para ouvir os filhos, o ser humano
necessita desses momentos para relaxar a sua mente, seu corpo, para tornar mais
unida a família, sem isso ficamos mais agitados, sem paciência, mais estressados, e
tudo isso é passado para os filhos que, atualmente, reagem de maneiras
indisciplinadas, resultando assim em problemas na escola que vieram da falta de
tempo junto da família, ou seja, de uma causa externa para a escola.
27
Outro fator importante é a questão da disciplina muitas vezes, não ser exigida
em determinadas famílias. O comportamento de alguns pais muitas das vezes tem
deixado a desejar na educação dos filhos com uma profunda permissividade, que
por sua vez, acabam por se tornar filhos rebeldes.
É importante considerarmos que a disciplina deve ser entendida como uma
forma de conscientizar a criança dos seus direitos e deveres, tanto na família quanto
na escola.
Para Tosi (apud PEDRIÇA; AYRES, 2010), muitos pais estão terceirizando a
educação, passando a responsabilidade para a escola, a falta de limites de crianças
e adolescentes é um calo na vida dos professores. Para a autora perderam-se os
valores familiares, perdeu-se o respeito, a educação pode não vir de casa, mas a
escola não pode ser conivente com a falta dela.
É necessário que a escola (neste caso, tanto os professores como toda a
equipe escolar) realize um trabalho com dedicação para que produza um resultado
que possibilite o crescimento dos conhecimentos adquiridos por parte dos alunos,
para que estes possam usar esses conhecimentos para beneficiar a si mesmo e a
sociedade.
2.3.3 Ações consideradas como indisciplina
Uma primeira hipótese de explicação da indisciplina, conforme Aquino (1998,
p. 2) seria a de que “o aluno de hoje em dia é menos respeitador do que o aluno de
antes, e que, na verdade, a escola atual teria se tornado muito permissiva, em
comparação ao rigor e à qualidade daquela educação de antigamente”.
É comum as pessoas se reportarem à década onde vigorava a Escola
Tradicional, que era elitista e prezava pelo respeito ao silêncio absoluto e à figura do
professor.
Segundo Aquino (1998):
O respeito era considerado apenas como esse silêncio e também como
uma forma de absorver aquilo que o professor repassava, sem discussões e
sem interação. Atualmente, com as mudanças da sociedade, o grande
desafio dos educadores atuais passou a ser a permanência "de fato" dos
alunos na escola - o que, sabidamente, se consegue apenas com a
qualidade do ensino ofertado. (AQUINO, 1998, p. 2).
28
Nesse caso, como já foi dito, a interação dos alunos com os professores e
também com o restante da classe é de extrema importância para o aprendizado. E o
respeito, com isso, é visto de outra maneira e não mais como uma obediência
imposta.
Aquino (1998, p. 3) afirma que essa é a grande tarefa dos educadores
brasileiros na atualidade: “fazer com que os alunos permaneçam na escola e que
progridam tanto quantitativa quanto qualitativamente nos estudos na aquisição de
conhecimento”.
O respeito, conforme foi dito anteriormente, é adquirido pelo professor através
de suas próprias ações em sala de aula. O aluno mudou junto com a sociedade, por
isso, a escola deve se adequar a estas mudanças, bem como os professores devem
adequar sua didática a esta nova realidade. Em um mundo que muda, um aluno que
muda, o professor deve mudar.
Outra hipótese relacionada por Aquino (1998) diz respeito à suposição de que
as crianças de hoje em dia não têm limites, não reconhecem a autoridade, não
respeitam as regras, e a responsabilidade por isso é dos pais, que teriam se tornado
muito permissivos. Quase todos parecem concordar com essa hipótese do "déficit
moral" como explicativa da indisciplina.
Todavia, no entender de Vasconcellos (2009, p. 62) “a autoridade é muito
importante para a manutenção da disciplina, mas ela deve ser adquirida pelo
professor dentro da sala de aula”. Autoridade não significa obediência irrestrita, mas
sim inteligência na hora de lidar com determinadas situações, aulas motivadoras,
práticas pedagógicas atuais etc.
Da mesma forma, como já foi dito, os pais estão com menos tempo para
dedicar-se aos filhos. Mas, estes tem plena consciência de seus limites, porém,
muitas vezes, preferem ultrapassar as regras, com isso, passam a ser filhos
rebeldes que, geralmente, criam problemas na escola, com os colegas e na
comunidade onde vivem.
Aquino (1998) afirma que:
[...] as crianças, quando ingressam na escola, já conhecem muito bem as
regras de funcionamento de uma coletividade qualquer, mesmo porque elas
são inerentes a qualquer tipo de atividade humana, a qualquer tipo de
relação grupal. Não se pode sustentar, nem na teoria nem na prática, que
as crianças padeçam de falta generalizada de regra e de limite, embora esta
ideia esteja muito disseminada no meio escolar. Ao contrário, a inquietação
e a curiosidade infantis ou dos jovens, que antes eram simplesmente
29
reprimidas, apagadas do cotidiano escolar, podem hoje ser encaradas como
excelentes ingredientes para o trabalho de sala de aula. Só depende do
manejo delas. (AQUINO, 1998, p. 3).
Assim, a tarefa do professor não é moralizar a criança. O objeto do trabalho
escolar é fundamentalmente o conhecimento sistematizado, e seu objetivo, a
recriação deste, através da apropriação. É a transformação deste trabalho em uma
ferramenta que possa servir para a atuação social do aluno.
Aquino (1998) explica que:
No caso da família, o que está em foco é a ordenação da conduta da
criança, por meio da moralização de suas atitudes, seus hábitos, no caso da
escola, o que se visa é a ordenação do pensamento do aluno, por meio da
reapropriação do legado cultural, representado pelos diferentes campos de
conhecimento em pauta. Entretanto, muitos professores, diante das
dificuldades do dia-a-dia, acabam se colocando como tarefa principal a
normatização moral dos hábitos da criança e do adolescente para que, só a
partir daí, ele possa desencadear o trabalho do pensamento. (AQUINO,
1998, p. 3).
Nesse sentido, a indisciplina parece ser uma resposta clara ao abandono ou à
habilidade das funções docentes em sala de aula, porque é só a partir de seu papel
evidenciado concretamente na ação em sala de aula que eles podem ter clareza
quanto ao seu próprio papel de aluno, complementar ao de professor.
Por essa razão, segundo Aquino (1998):
[...] talvez se possa entender a indisciplina como energia desperdiçada, sem
um alvo preciso ao qual se fixar, e como uma resposta, portanto, ao que se
oferta ao aluno. Enfim, a indisciplina do aluno pode ser compreendida como
uma espécie de termômetro da própria relação do professor com seu campo
de trabalho, seu papel e suas funções. (AQUINO, 1998, p. 4).
Aquino (1998) ainda aponta uma terceira hipótese que os professores
levantam frequentemente sobre as razões da indisciplina: para os alunos, a sala de
aula não é tão atrativa quanto os outros meios de comunicação, e particularmente o
apelo da televisão. Por isso, a falta de interesse e a apatia em relação à escola. A
saída, então, seria ela se modernizar com o uso, por exemplo, de recursos didáticos
mais atraentes e assuntos mais atuais.
Realmente, a mídia, bem como outros meios de comunicação, têm função
importante para a difusão do conhecimento, mas a escola tem por objetivo
considerar o conhecimento pautado em seu currículo, reproduzindo o
conhecimento e o aprendizado comprovadamente científico. Até porque, a
disciplina pode ser conseguida pelo professor de diversas maneiras, mesmo
sem a presença dos recursos de multimídia, pois não há garantia de
instalação da disciplina em sala de aula com a implantação de novos
recursos midiáticos. (AQUINO, 1998, p. 4).
30
Assim, Aquino (1998) conclui seu pensamento expondo que a disciplina não é
um pré-requisito para a ação pedagógica, pois ela é um dos produtos ou efeitos do
trabalho cotidiano de sala de aula. Um mesmo aluno indisciplinado com um
professor nem sempre é indisciplinado com os outros. Sua indisciplina, portanto,
parece ser algo que desponta ou se acentua dependendo das circunstâncias.
Muitos professores entendem que os alunos devem apresentar um conjunto
de ações disciplinadas como: ser "obediente", permanecer "em silêncio"
etc., para ser possível iniciar a aula. Deste ponto de vista, a indisciplina
passa, então, a ser algo salutar e legítimo para o professor, pois ele
entende que se o aluno não permanecer em silêncio e obedecer ao que
está sendo proposto, não há disciplina, com isso, também não haverá
aprendizado. (AQUINO, 1998, p. 3).
Assim, para que seja possível alcançar a disciplina desejada, aliando os
pensamentos aqui expostos, algumas premissas pedagógicas precisam ser
preservadas no trabalho de todo dia, de sala de aula.
2.3.4 O professor e a indisciplina na sala de aula
É muito comum diante dos problemas de indisciplina encontrar professores
“desesperados” mediante a dificuldade em ministrar suas aulas de maneira
adequada, dizer que a escola não tem mais jeito e que já não acreditam mais na
possibilidade de mudança na educação.
Serrão e Baleeiro, citados por Benette e Costa (2008) afirmam que:
A educação é uma chave que abre a possibilidade de transformar o homem
anônimo naquele que sabe que pode escolher, que é sujeito participante de
sua reflexão, da reflexão do mundo e da sua própria história, assumindo a
responsabilidade dos seus atos e das mudanças que se fizerem acontecer.
(SERRÃO; BALEEIRO apud BENETTE; COSTA, 2008, p. 5).
Diante deste contexto, a escola precisa se organizar para que haja mudança
neste cenário. Essas mudanças só acontecerão se houver uma revisão nas
estruturas da escola, enfatizando o trabalho coletivo como elemento norteador deste
processo para a transformação desta realidade. É preciso viabilizar novas formas de
convivência no ambiente escolar, possibilitando a transformação deste quadro que
tanto angustia os educadores no atual contexto.
Vasconcellos (2009) salienta ainda que:
31
Para que haja um ensino transformador, é preciso competência profissional
e coragem para rever as propostas de trabalho no interior da escola, onde
apesar dos problemas enfrentados que não são poucos, o educador
compreenda que ele ainda é o principal agente de sua transformação, junto
aos seus pares e todos os envolvidos no processo. (VASCONCELLOS,
2009, p. 63).
Assim, o professor deve manter uma boa postura, com autoridade, diante do
aluno e da sala de aula, para conduzir de forma mais proveitosa possível o processo
de ensino-aprendizagem. E essa autoridade, precisa ser exercida nos domínios:
intelectual, ético, profissional e humano.
Sobre a questão da autoridade, Pedriça e Ayres (2010, p. 5) explicam que o
professor com autoridade é também aquele que deixa transparecer as razões pelas
quais a exerce: “não por prazer, não por capricho, nem mesmo por interesses
pessoais, mas por um compromisso genuíno com o processo pedagógico, ou seja,
com a construção de sujeitos que, conhecendo a realidade, disponham-se a
modificá-la em consonância com um projeto comum”.
Nessa perspectiva, o professor deve ser exigente, mas não com normas
rígidas, incoerentes, mas no qual exija que os educandos participem de forma
significativa da construção de seus conhecimentos.
Conforme foi visto nos capítulos anteriores, existe a forma de se conseguir
disciplina através da coação, que é resultado de uma educação autoritária ou por
convicção, na linha de uma educação dialética-libertadora, que condiz com a nova
formulação que a escola deve ter, conforme explicam Pedriça e Ayres (2010):
[...] tanto a coação como a convicção apresentam aparentemente os
mesmos resultados, mas as marcas que são deixadas nos sujeitos são
completamente distintas, pois a obtenção de disciplina por coação está
baseada no uso da punição como ameaça ou como prática efetiva. Esta
forma de disciplina leva, portanto, à heteronomia (ser governado por outra
pessoa) ao invés de propiciar a autonomia (ser governado por si próprio).
(PEDRIÇA; AYRES, 2010, p. 5).
A disciplina conseguida por coação contribui para a formação de indivíduos
passivos, obedientes, dependentes, imaturos e que não compreendem o contexto
social no qual estão inseridos. Já a disciplina construída por convicção, auxilia para
formar sujeitos ativos, autônomos, responsáveis e que tem no diálogo a base de seu
desenvolvimento.
Segundo Vasconcellos (2009), se queremos que as crianças desenvolvam a
autonomia moral, devemos reduzir nosso poder adulto, abstendo-nos de usar
32
recompensas e castigos e encorajando-as a construir por si mesmas seus próprios
valores morais.
Todavia, para se conseguir uma disciplina pela convicção, é preciso investigar
quais são as causas da indisciplina naquele contexto escolar. É preciso conhecer a
realidade na qual esses sujeitos estão inseridos, bem como estabelecer um diálogo
permanente com os familiares e com a própria coordenação pedagógica da escola.
Isto significa superar o famoso “empurra-empurra”, pois como afirma
Vasconcellos (2009), os professores dizem que os responsáveis pela indisciplina em
sala são os pais (que não dão limites), que culpam os professores (que não são
competentes) e a escola (que não tem pulso firme), que culpa o sistema (que não dá
condições), etc.
Nessa perspectiva, muitas vezes é construída uma concepção de que a maior
vítima dos problemas indisciplinares são os professores, mas na verdade os alunos
também são vítimas, já que não conseguem se desenvolver como sujeitos.
Desta forma, conforme Pedriça e Ayres (2010) é necessário que:
[...] o trabalho desenvolvido na escola seja coletivo, no sentido de todos os
profissionais seguirem uma mesma linha de atuação, de estabelecerem
objetivos comuns, de estabelecerem parâmetros do que é considerado
grave ou não, no que diz respeito a disciplinas das crianças. O trabalho
fragmentado também precisa ser superado. O desenvolvimento de
trabalhos interdisciplinares ou transdiciplinares, também é uma alternativa
para romper com as barreiras entre as diversas áreas de conhecimento.
(PEDRIÇA; AYRES, 2010, p. 5).
Muitos professores ressaltam que uma das razões referentes à indisciplina é
que para os alunos, a sala de aula não é tão atrativa quanto os outros meios de
comunicação, e particularmente o apelo da televisão. Por isso, a falta de interesse e
a apatia em relação à escola. A saída, então, seria ela se modernizar com o uso, por
exemplo, de recursos didáticos mais atraentes e assuntos mais atuais.
Todavia, conforme Pedriça e Ayres (2010):
Este tipo de raciocínio também merece reparos, pois é evidente que escola
não é um meio de comunicação. Da mesma forma as instituições família e
escola, aqui faz-se importante a distinção escola e mídia. Enquanto a mídia
(os diversos meios de comunicação como a televisão, o rádio, o jornal, o
próprio computador atualmente etc.) tem como função primordial a difusão
da informação, a escola deve ter como objetivo principal a reapropriação do
conhecimento acumulado em certos campos do saber - aquilo que constitui
as diversas disciplinas de um currículo. (PEDRIÇA; AYRES, 2010, p. 6).
33
Além disso, os meios de comunicação podem ter como objetivo o
entretenimento, o lazer. Escola, ao contrário, é lugar de trabalho árduo e complexo,
mas nem por isso menos prazeroso.
Por essa razão, Pedriça e Ayres (2010) afirmam que se deve estar bem
entendido que professor não é pai e aluno não é filho, é preciso acrescentar:
[...] o professor não é um difusor de informações, e muito menos um
animador de plateia, da mesma forma que o aluno não é um espectador ou
ouvinte. Ele é um sujeito atuante, co-responsável pela cena educativa,
parceiro imprescindível do contrato pedagógico. (PEDRIÇA; AYRES, 2010,
p. 6).
Na escola, portanto, não se repassam informações simplesmente. O processo
ensino-aprendizagem é mais complexo e exige dedicação e comprometimento.
Por isso, conforme Vasconcellos (2009):
[...] diante da indisciplina, o professor deve ter em mente que o objetivo da
ação docente não é transmitir ou difundir determinados produtos, tais como
dados, fórmulas ou fatos, mas fundamentalmente reconstruir o caminho
percorrido antes que se chegasse a tais produtos. (VASCONCELLOS,
2009, p. 64).
A relação professor e aluno devem ser baseados no diálogo, o professor deve
ser um exemplo, para que possa exercer, sem autoritarismo, a sua função
educativa.
Para Pedriça e Ayres (2010):
O professor é importante não somente como figura central, mas como
coordenador do processo educativo, criando espaços pedagógicos
interessantes, estimulantes e desafiadores, para que neles ocorra a
construção de um conhecimento escolar significativo. Deve tornar sua aula
prazerosa, prevenindo assim comportamentos indisciplinados por seus
alunos em sala de aula motivando o aluno a participar, a esclarecer suas
dúvidas, a dar opiniões, a discordar, colaborar. (PEDRIÇA; AYRES, 2010, p.
6).
O aluno sentindo prazer em aprender, em dividir conhecimentos, ele não
permitirá que a indisciplina entre em sala de aula, oportunizando assim ao professor
poder ensinar sem interrupções. Pedriça e Ayres (2010) entendem que o professor
tendo vontade em transmitir o conhecimento de maneiras diversificadas pode-se
garantir em partes que não ocorra à indisciplina, dependerá também do aluno em se
comprometer a aprender e não atrapalhar a aula.
34
Faz-se necessário o conhecimento do regulamento da turma, onde todos
possam respeitar e fazer respeitar, pois o respeito não se usa apenas na escola e
sim na sociedade.
2.4 As causas da indisciplina e possíveis soluções
As causas da indisciplina, segundo Vasconcellos (2009) podem ser
encontradas na sociedade, na família, na escola, no professor e no aluno. Estes
níveis são apresentados por Vasconcellos para facilitar a compreensão das causas
que levam à indisciplina em sala de aula, sendo que é importante encontrar o núcleo
do problema em cada um destes níveis para que seja possível alcançar uma solução
adequada.
Com relação à escola, um dos grandes impasses que se coloca hoje é a
definição de sua efetiva função social. É importante que a escola entenda seu
sentido primordial, elaborando e explicitando sua proposta educacional (Projeto
Político-Pedagógico), pois o aluno deve ver um sentido na escola que coadune com
o sentido principal da escola.
Vasconcellos (2009) explica que:
[...] o aluno deve dar um novo sentido ao conhecimento: conhecer não
simplesmente para “ser alguém na vida”, mas para ajudar a necessária
transformação estrutural da sociedade. Assim, os alunos, desde cedo,
precisam ser orientados nessa direção. Os alunos devem ser convencidos
de que a disciplina é a melhor forma para alcançar o fim que se quer. Isso
normalmente não tem ocorrido nas escolas, pois os alunos se veem
obrigados a estar numa sala de aula sem entender o porquê e o para quê
daquilo. O professor, por sua vez, entende que é óbvio para o aluno o
motivo de sua presença ali. Mas, para o aluno, muitas vezes este motivo
não está claro. (VASCONCELLOS, 2009, p. 69).
Da mesma forma, as normas devem ser bem definidas e colocadas por
escrito, para que os alunos entendam claramente quais são seus direitos e deveres.
Com relação à família, é possível perceber que as relações entre família e escola
vêm se modificando nos últimos tempos. Antes a família confiava plenamente na
escola; atualmente a família passa, de um lado, a criticar a escola, e de outro, a
transferir para ela a responsabilidade total da educação.
Os alunos chegam à escola com menos limites trabalhados pela família, pois
a maioria dos pais está sem tempo para acompanhar o desenvolvimento dos filhos.
35
Todavia, os pais devem estar conscientes e, neste caso, cabe à escola este
esclarecimento, da importância da disciplina e qual é o papel da família junto ao
comportamento dos filhos em sala de aula.
Vasconcellos (2009) salienta que:
[...] uma das melhores formas de se atingir a família é através dos próprios
filhos, daí a relevância da escola de desenvolver um trabalho participativo,
significativo, em que realmente o aluno se envolva e entenda o que está
sendo proposto para ele. Desta maneira, o próprio filho terá argumentos
para ajudar os pais a compreenderem a proposta da escola.
(VASCONCELLOS, 2009, p. 82).
Vasconcellos (2009) faz uma crítica à postura de muitos professores que
preferem se acomodar à enfrentar a realidade escolar:
Há necessidade de desalienar a relação pedagógica: entender que estes
alunos são problema seu. Enquanto ficar tratando como se o outro pudesse
resolver, não assume. Enquanto o professor ficar só reclamando, ainda está
do outro lado. (VASCONCELLOS, 2009, p.84).
O professor que quer ser efetivamente professor, tem de trabalhar com a
realidade que tem em sala de aula, não adianta ficar apenas lamentando, a questão
é enfrentar o problema e encontrar possíveis soluções.
Isso mostra que a verdadeira relação educativa não se faz sem um vínculo de
confiança recíproco: o aluno deve confiar na competência do professor e este deve
confiar na capacidade de aprender do aluno.
É fato que a situação do professor não está fácil, diante das mudanças
ocorridas na sociedade, que provocaram uma precariedade na forma de trabalhar do
professor. Atualmente, os salários são baixos, os professores tem que trabalhar em
mais de um turno para conseguir um salário razoável, há falta de material nas
escolas, infraestrutura etc. E isso tudo faz com que os professores repensem sua
profissão. E, além disso, existem os casos de indisciplina nas escolas, que também
dificultam o trabalho do professor.
2.4.1 Estratégias para conter a indisciplina
Diante do que foi visto até o momento é possível dizer que para se amenizar
o problema da indisciplina na escola, é importante que os alunos participem
ativamente da construção das regras da sala, assumindo-as com o coletivo da
36
escola. O interessante é que essas regras fiquem em local visível da sala, para que
sejam retomadas e rediscutidas sempre que necessário. É primordial que o
professor esteja atento e preocupado em ensinar pensando no aluno, por isso se faz
necessário conhecer o seu mundo e manter uma relação de harmonia para um
melhor ensinamento.
Pereira (2010), em estudo sobre a indisciplina aponta que tanto alunos quanto
professores afirmam que o melhor meio para se superar a indisciplina é a interação
entre família e escola, bem como a parceria entre professores e alunos. Além disso,
Pereira (2010) afirma que um dos fatores que influenciam a indisciplina pode ser a
falta de comunicação da própria família dentro de casa, pelo fato de muitos jovens
não encontrarem apoio e terem que procurar em uma pessoa, talvez errada, que lhe
acaba lhe colocando no mau caminho.
Problemas familiares de fato influenciam no comportamento do aluno em sala
de aula, e em muitos casos os próprios pais são os responsáveis, por darem a estes
alunos excessiva proteção.
Neste sentido família e escola não podem andar separadamente. Na verdade,
é necessário um trabalho conjunto para que os alunos consigam ser mais
disciplinados.
Vasconcellos (2009) relata que:
A maioria dos professores não sabe o que fazer diante da indisciplina, mas
não o fazem porque não acredita mais profundamente, não está
convencido: (da proposta em si - não tem segurança de que seja o caminho
correto; da eficácia da proposta - acha que talvez seja muito pouco em
relação ao tamanho do problema, que não vai resolver). Não sabe como
fazer; uma coisa é ter ouvido falar, outra é ter competência para colocar
aquilo em prática. Não vê condições para fazer. (VASCONCELLOS, 2009,
p. 85).
Muitos professores acreditam que a indisciplina esteja ligada aos objetivos da
escola. Assim, eles se sentem ameaçados em relação às suas limitações e também
pelo fato do acesso que os alunos têm às informações.
Assim, conforme Pereira (2010):
O professor deve assumir algumas atitudes, que, se forem estabelecidas
desde cedo em sala de aula, contribuirão no combate a indisciplina:
mostrar-se sério nas primeiras aulas, demonstrando a importância daquela
disciplina; impedir ou limitar as saídas durante a aula; não permitir que se
levantem do lugar sem que peçam autorização; não permitir que troquem
materiais sem que peçam autorização; dispor os alunos em lugares fixos de
modo a favorecer a cooperação e a concentração etc. (PEREIRA, 2010, p.
3).
37
Vasconcellos (2009), por sua vez, acredita que se o professor assumir uma
atitude disponível, mas realista, dando confiança aos alunos, mas sem perder a
situação e sem se mostrar inutilmente permissivo, é possível que consiga evitar
alguns conflitos.
Pedriça e Ayres (2010) afirmam que:
O trabalho do professor é uma tarefa que se exige reflexão e planejamento,
para conseguir alcançar seus objetivos, é necessário realizar algumas
atividades diversificadas para prevenir comportamentos indisciplinados por
parte dos alunos como: estar sempre atento às necessidades do aluno,
favorecer o desenvolvimento da autoconfiança, trabalhar o respeito entre
alunos e professor, promover o diálogo, pois envolve o respeito em saber
ouvir e entender os alunos, mostrando a eles a preocupação com suas
opiniões e com suas atitudes e o interesse do professor em poder dar a
assistência necessária ao aperfeiçoamento do seu processo de
aprendizagem. (PEDRIÇA; AYRES, 2010, p. 6).
Antunes, citado por Pereira (2010) explica que:
[...] ensinar não é fácil e educar é mais difícil ainda, mas não ensina e não
educa, quem não define limites, quem não constrói democraticamente as
linhas do que é e, do que não é permitido. Para o autor, o aluno só cresce
se tiver diante de um desafio, e isso deve ocorrer diariamente, desde que os
limites estejam e sejam claros. As escolas precisam estabelecer regras de
fatos mais rigorosas, caso contrários os alunos vão continuar fazendo o que
bem entenderem e os professores continuarão sem poder fazer muita coisa.
(ANTUNES apud PEREIRA, 2010, p. 3).
Por isso, somente uma grande parceria entre alunos, pais, escola, família e
sociedade será capaz de fazer com que a indisciplina seja minimizada tanto nas
escolas públicas quanto nas privadas.
Além disso, é necessário colocar em prática o diálogo e a parceria entre
professor e aluno.
2.4.2 Algumas consequências da indisciplina
Pereira (2010) em seu estudo demonstra que a maior consequência da
indisciplina em sala de aula é o seu reflexo na família e na sociedade. Para este
autor, o problema da indisciplina gera grandes proporções em muitas escolas,
prejudicando o andamento do ensino e aprendizagem.
Fato é que a indisciplina tem gerado polêmica e afetado o cotidiano escolar,
por isso, soluções devem ser pensadas, visando a melhoria do processo de
38
superação deste problema, pois a vida social dos alunos pode refletir de forma
negativa ou positiva no âmbito escolar.
Como consequência da indisciplina o que se vê é o aumento da violência nas
escolas, que acaba por refletir na família e na sociedade, além da desmotivação dos
alunos e do alto índice de reprovação. Nota-se também um aumento da desatenção,
incapacidade de fixação da matéria, baixo rendimento escolar, agressividade etc.
Para Pereira (2010):
Um dos motivos de violência nas escolas pode estar relacionado com a
estrutura que este aluno tem recebido em casa, pois a estrutura familiar
influencia bastante na constituição de um padrão adequado de vida do
aluno. O autor explica ainda que a violência praticada tanto na escola
quanto em casa tem sido resultado da indisciplina, violências que
acontecem desde o abuso sexual, a moradia precária, localidade de difícil
acesso, abandono dos pais, o envolvimento com drogas etc. (PEREIRA,
2010, p. 4).
Com relação à motivação, esta se relaciona com vários fatores.
Pereira (2010) explica que:
[...] desmotivação do aluno pode ser um reflexo da ausência de condições
de uma adequada educação familiar. A desmotivação dos alunos e o
desinteresse por aquilo que o professor está lecionando em sala de aula ou
qualquer outro comportamento inadequado, pode ser também uma forma de
chamar atenção do professor sobre as estratégias de ensino por ele
usadas. (PEREIRA, 2010, p. 4).
Desta forma, cabe ao professor dar sentido às suas aulas, expondo o que
será ensinado e interagindo com seus alunos.
A indisciplina, como pôde ser visto é um problema que está presente nas
escolas, mas que também tem raízes na sociedade e na família. Por isso, para que
este problema seja minimizado, é importante que tanto família, quanto os
professores tenham motivação para entender o problema. E esta motivação deve
ser repassada para os alunos, pois estes devem ser vistos e também eles mesmos
devem entender que são agentes no processo de ensino-aprendizagem, eles não
são meros expectadores. Por isso, se não houver disciplina, este processo será
prejudicado e, assim, o próprio desenvolvimento do aluno enquanto ser humano e
cidadão.
Para finalizar, cabe a citação de Vasconcellos (2009, p. 85) que afirma que “o
pressuposto fundamental de qualquer trabalho educacional é acreditar na
possibilidade de mudança do outro”.
39
3 METODOLOGIA
Este estudo tem como abordagem metodológica um estudo qualitativo.
Segundo Santos, Molina e Dias (2007, p. 1), “a abordagem qualitativa não
requer o uso de métodos e técnicas estatísticas, o ambiente natural é fonte direta
para a coleta de dados e o pesquisador é o instrumento chave”.
Esse estudo foi realizado através de pesquisa documental, tendo como fonte
atas de ocorrências indisciplinar de uma escola pública de Para de Minas no período
dos últimos quatro anos (período de 2009 a 2012). Com objetivo de verificar quais as
ações consideradas indisciplinares; no contexto escolar e quais os atos
indisciplinares mais recorrentes entre crianças de 6 a 10 anos.
Para Santos, Molina e Dias (2007, p. 1), “análise documental é uma pesquisa
de cunho teórico. Como o nome já sugere, realiza-se por meio de documentos, os
quais geralmente são conservados por órgãos públicos e privados”.
A escolha do período de 2009-2012 refere-se à documentação da ultima
gestão da escola o qual a direção possui em arquivos. Além dessa fonte documental
desenvolverei minhas análises a partir de análise de conteúdo registradas nas atas
de ocorrência. Tais documentos são comum nas escolas como forma de buscar
registrar tudo o que acontece na vida escolar dos alunos.
40
4 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
Diante do estudo proposto “a indisciplina em sala de aula do Ensino
Fundamental I” foi feita uma pesquisa de análise de documentos em uma escola
pública de um bairro da cidade de Pará de Minas-MG.
Assim, conforme os objetivos desta monografia foram verificados os cadernos
de ata de ocorrência e o regimento escolar relativos ao período de 2009 a 2012,
para que fosse possível analisar o que a escola entende por indisciplina.
Da mesma forma, verificou-se os atos indisciplinares mais recorrentes entre
crianças de 6 a 10 anos.
Os quadros abaixo demonstram os dados coletados na escola.
OCORRÊNCIAS NO PERÍODO DE 2009
Tipo de ocorrência
Quantidade/Frequência
Agressão física – empurrar o colega
Frequente/Constante
Palavras obscenas e ofensas
2
Atitudes inadequadas em sala de aula
2
Falta de respeito com o professor
1
Brigas dentro da sala de aula
1
Responder professor
2
Quadro 1 – Ocorrências no período de 2009. Fonte: Análise de documentos na escola estudada.
OCORRÊNCIAS NO PERÍODO DE 2010
Tipo de ocorrência
Quantidade/Frequência
Brigas devido a apelidos
1
Sair da sala sem autorização do professor
4
Atos de racismo
2
Falta de respeito com os colegas
2
Brigas dentro da sala de aula
3
Quadro 2 – Ocorrências no período de 2010. Fonte: Análise de documentos na escola estudada.
OCORRÊNCIAS NO PERÍODO DE 2011
Tipo de ocorrência
Agressão física
Quantidade/Frequência
11
41
Palavras obscenas e falta de respeito com professor
6
Aluno que não faz atividades
1
Brincadeiras de mau gosto com os colegas no recreio
3
Agressão física no recreio
6
Responder professor/funcionário
4
Aluno que não faz atividades
3
Gestos obscenos
4
Quadro 3 – Ocorrências no período de 2011. Fonte: Análise de documentos na escola estudada.
OCORRÊNCIAS NO PERÍODO DE 2012
Tipo de ocorrência
Quantidade/Frequência
Agressão física
13
Aluno que não faz atividades
2
Quadro 4 – Ocorrências no período de 2012. Fonte: Análise de documentos na escola estudada.
Todas as ocorrências da escola são feitas em um único livro, onde foi
possível perceber que as maiores ocorrências são dos alunos do sexto ao nono ano,
observação esta que também foi confirmada pela direção da escola.
No entanto, para que o aluno faça parte da ata de ocorrência da escola,
devem ser feitas pelo professor três observações de atos de indisciplina na sala de
aula. Caso a situação tenha saído do controle e não seja resolvida, o professor deve
encaminhar o aluno para a direção da escola.
Assim, a situação é passada para a supervisão, onde é registrada a
ocorrência. Esta é relatada “à mão” no livro de ocorrências e, em seguida, assinada
pelo aluno e professor. Logo após, é entregue para o aluno um termo de
comparecimento dos pais ou responsáveis para maiores esclarecimentos sobre o
ocorrido.
Caso o pai ou responsável não compareça à escola e o problema se agrave,
a situação é passada para o Conselho Tutelar, sendo que também fica um registro
no regimento da escola.
Isso mostra as medidas que são tomadas pela escola nos casos de
indisciplina.
42
Vasconcellos (2009, p. 73) afirma que “só se alcança a disciplina através do
trabalho consequente e coletivo da escola, e de uma escola onde o aluno se sinta
responsável pelo êxito de todos”.
Assim, ao analisar os atos de ocorrência da mencionada escola expostos
acima, foi possível constatar que do primeiro ao quinto ano do ensino fundamental I,
relativo ao período de 2009 a 2012 os alunos não tiveram grandes participações nas
atas de ocorrência analisadas.
De acordo com a direção, os alunos do ensino fundamental I, do 1º ao 5º ano
(idade entre 6 a 10 anos) são mais tranquilos. Geralmente, quando há algum
problema, este se dá com os alunos do 4º e 5º ano (idade entre 9 e 10 anos).
Isso mostra que a idade e a socialização na escola interferem na produção de
atos indisciplinares.
Todo ano é entregue ao pai ou responsável um informativo que contém as
normas e condutas da escola. Os pais e responsáveis são avisados que se tais
normas não forem devidamente cumpridas, serão tomadas providências que
também são mencionadas neste informativo.
Este informativo é assinado pelos pais, alunos e professores, firmando, assim,
um termo de compromisso com a escola.
O informativo, mesmo sendo conhecido e assinado pelos pais e alunos não
garante que as normas serão devidamente seguidas, pois é possível perceber que
há um registro crescente de ocorrências de atos indisciplinares.
Isso mostra a importância da família no contexto escolar.
Tosi (apud PEDRIÇA; AYRES, 2010, p. 8) explica que “a escola deve
procurar construir uma postura comum entre os educadores e educandos,
estabelecendo determinados parâmetros comuns para a escola”.
Neste sentido, afirma Pereira (2010):
Existem fatos também relacionados às carências sociais, influências
recebidas de pessoas erradas, desmotivação dos alunos para todas as
matérias postas em sala de aula, envolvimento com drogas, métodos de
ensino tradicionais fixação, agressividade, desafio a autoridade do professor
e falta de capacidade de alguns professores controlarem a turma etc. A
família de fato tem grande poder de decisão na educação do aluno. A
disciplina é um tipo de postura que está ligada ao convívio e criação, e não
pode ser considerada como uma ação originada apenas de uma vertente.
Por isso, todos (a sociedade, a família, a escola, o professor) ajudam na
formação da criança. A indisciplina não inicia na escola, vem de casa. A
família que não proporciona ao filho um bom alicerce acaba sofrendo as
43
consequências. Assim, tanto moral quanto ética pode dar ao aluno
probabilidade de se tornar uma pessoa disciplinada. (PEREIRA, 2010, p. 2).
E, como consequência da indisciplina o que se vê é o aumento da violência
nas escolas, que acaba por refletir na família e na sociedade, além da desmotivação
dos alunos e do alto índice de reprovação. Nota-se também um aumento da
desatenção, incapacidade de fixação da matéria, baixo rendimento escolar,
agressividade etc.
Neste sentido, Pedriça e Ayres (2010) afirmam que:
É do ambiente familiar que os alunos refletem seus comportamentos em
sala de aula. É fundamental a participação da família na educação de seus
filhos. É do convívio familiar que a criança leva para a escola valores que
recebem da família e da sociedade que pertencem. A escola e a família
estão diretamente ligadas ao processo de formação do indivíduo. Cabe a
cada uma cumprir bem o seu papel. E as duas, juntas, poderão amenizar
situações contrárias que surgem nesse processo. Não adianta uma culpar a
outra por determinadas situações como a indisciplina. (PEDRIÇA; AYRES,
2010, p. 3).
Desta forma, ao verificar nos cadernos de atas de ocorrência relativos ao
período de 2009 a 2012 foi possível constatar a prática de atos indisciplinares que
constam no informativo, e dentre eles destacam-se:
a) Agressão física;
b) Palavras e gestos obscenos com alunos e professores;
c) Atitudes inadequadas em sala de aula;
d) Falta de respeito com o professor e com os colegas;
e) Briga na sala de aula e no recreio;
f) Atos de racismo.
Conforme explica Aquino (1998), indisciplina é um evento escolar que estaria
sinalizando, a quem interessar, que algo, do ponto de vista pedagógico, e mais
especificamente da sala de aula, não está se desdobrando de acordo com as
expectativas dos envolvidos.
Diante desta análise de dados, foi possível constatar que a indisciplina está
presente no âmbito escolar e, para que haja ao menos a minimização deste
problema, é necessário o envolvimento de toda comunidade escolar, principalmente
dos alunos, professores e da família.
44
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante deste estudo, foi possível concluir a partir da análise documental
apresentada e também pelos dados expostos no referencial teórico, percebe-se que
os atos indisciplinares são múltiplos e distintos, além do que, este é um assunto que
causa bastante polêmica.
Os atos indisciplinares são múltiplos e distintos, pois alcançam diversas
formas e dimensões dentro da escola. Eles podem ser vistos na forma de agressão
verbal, física, na falta de motivação, do não cumprimento de tarefas, da falta de
respeito com o professor e com os colegas etc.
Foi possível concluir também que a indisciplina começa a partir do momento
em que uma pessoa passa a fazer parte do meio social em que vive e não consegue
respeitar algumas normas de socialização.
Com isso, a pessoa passa a perceber que o meio social onde está inserida há
regras e condutas, das quais ela deve fazer parte e seguir. Todavia, tais regras não
são cumpridas.
A escola é um ambiente de convívio social muito grande, onde o aluno se
depara com outros alunos que possuem suas próprias especificidades, hábitos e
costumes. Esta situação pode gerar alguns conflitos se não houver a intervenção da
comunidade escolar e também do professor que, por sua vez, deve procurar
entender estas especificidades e motivar seus alunos a fazerem parte de um mesmo
grupo, respeitando as diferenças de cada um.
Diante da análise de dados foi possível perceber que em uma escola existem
diversos atos indisciplinares que atrapalham o cotidiano escolar e prejudica o
desenvolvimento do ensino-aprendizagem.
Além disso, ficou claro que diante da convivência dos alunos e da falta de
respeito às regras, os atos indisciplinares acontecem e a idade tem grande influência
neste contexto, pois os alunos do quarto e quinto ano, com idades de 9 e 10 anos,
foram os que mais assinaram a ata de ocorrência e causaram problemas na escola.
Já os alunos do 1º ao 3º ano tem menos interferência nos atos indisciplinares
verificados na escola estudada, sendo que grande parte dos problemas que
envolvem estes alunos são resolvidos na própria sala de aula e também junto aos
professores e pais. Isto é um ponto bastante positivo, pois estas turmas estão sendo
45
alfabetizadas, sendo esta uma das etapas mais importantes para seu desempenho
na escola e para sua formação futura.
Isso demonstra também a importância do envolvimento da família na
atividade diária de seus filhos junto à escola. Se houver um comprometimento da
família, professores, alunos e toda comunidade escolar, o problema da indisciplina
será mais fácil de ser controlado e resolvido.
Assim, o problema que norteou este trabalho foi esclarecido diante do que foi
exposto no referencial teórico e também diante da análise documental da escola
estudada. Foi possível constatar quais tipos de atos indisciplinares mais aparecem
no âmbito da escola estudada e também o envolvimento dos alunos do Ensino
Fundamental I em tais atos.
46
REFERÊNCIAS
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comportamentalista
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construtivista.
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ANEXO A – NORMAS DE CONDUTA DA ESCOLA ESTUDADA
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