Nome:
Português
Nº:
3º ano
Modernismo Carlos Drummond de
Andrade
Turma:
Wilton
Nov/09
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
NO VESTIBULAR
Os concursos vestibulares de todo o Brasil costumam trabalhar com questões relacionadas à vasta
obra de Carlos Drummond de Andrade, mesmo quando não há exigência da leitura de alguma obra
específica do autor mineiro.
Para iniciar a discussão relacionada às questões sobre Drummond, se for possível, assista ao
documentário O fazendeiro do ar, de Fernando Sabino e David Neves (1974). O filme dura
aproximadamente 9 minutos e traz Drummond comentando sua trajetória. No site
www.carlosdrummond.com.br há uma cópia de qualidade desse vídeo.
A questão proposta a seguir pela Unifal traz um poema retirado da coletânea Sentimento do mundo,
“Noturno à janela do apartamento”. A obra Sentimento do mundo pertence à fase social do poeta.
Unifal – janeiro 2008 – 2ª Prova Comum
1)
Leia o poema a seguir.
Noturno à janela do apartamento
Silencioso cubo de treva:
um salto, e seria a morte.
Mas é apenas, sob o vento,
a integração na noite.
Nenhum pensamento de infância,
nem saudade nem vão propósito.
Somente a contemplação
de um mundo enorme e parado
A soma da vida é nula.
Mas a vida tem tal poder:
na escuridão absoluta,
como líquido, circula.
Suicídio, riqueza, ciência...
A alma severa se interroga
e logo se cala. E não sabe
se é noite, mar ou distância.
Triste farol da Ilha Rasa.
Sentimento do mundo. Carlos Drummond de Andrade.
Considerando o poema acima, é INCORRETO afirmar que:
a) há uma volta para a discussão de um momento político, enfatizando-se uma lírica a serviço de uma tese
social, que se distancia completamente da indagação do eu.
b) apesar das perplexidades diante de um “mundo enorme e parado” − descrito por um vocabulário que
apresenta uma visão niilista da realidade contemplada à distância pelo eu-lírico − a vida impõe suas
resistências e sua continuidade.
c) o eu-lírico encontra-se mergulhado na reflexão sobre os impactos da vida. Isso está metaforizado
principalmente no último verso, através da referência ao palco histórico do naufrágio de dois grandes
navios.
d) o título do poema remete a uma espacialização que metaforiza um eu-lírico ambíguo, dividido entre o
interior e o exterior, e a uma temporalidade que indica um estado emocional de recolhimento e reflexão.
Resposta: A
O poema a seguir, proposto pela banca da UFBA, serve como base para a questão 2. Procure
associá-lo às temáticas do Romantismo brasileiro da segunda geração. Estabeleça semelhanças e
diferenças em relação aos poetas byronistas. Enfatize também os aspectos modernistas presentes no
poema.
UFBA – 2007 – 1ª Fase
2)
CANÇÃO DA MOÇA-FANTASMA DE BELO HORIZONTE
Eu sou a Moça-Fantasma
ou suicidou-se na praia
que espera na Rua do Chumbo
e seus cabelos ficaram
o carro da madrugada.
longos na vossa lembrança.
Eu sou branca e longa e fria,
Eu nunca fui deste mundo:
a minha carne é um suspiro
Se beijava, minha boca
na madrugada da serra.
dizia de outros planetas
Eu sou a Moça-Fantasma.
em que os amantes se queimam
O meu nome era Maria.
num fogo casto e se tornam
Maria-Que-Morreu-Antes.
estrelas, sem ironia.
Morri sem ter tido tempo
Sou a vossa namorada
de ser vossa, como as outras.
que morreu de apendicite,
Não me conformo com isso,
no desastre de automóvel
e quando as polícias dormem
em mim e fora de mim,
meu espectro itinerante
e por cima do vestido
desce a Serra do Curral,
e por baixo do vestido
vai olhando as casas novas,
era a mesma ausência branca,
ronda as hortas amorosas
um só desespero branco...
(Rua Cláudio Manuel da Costa),
Podeis ver: o que era corpo
pára no Abrigo Ceará,
foi comido pelo gato.
não há abrigo. Um perfume
que não conheço me invade:
As moças que ainda estão vivas
é o cheiro do vosso sono
(hão de morrer, ficai certos)
quente, doce, enrodilhado
têm medo que eu apareça
nos braços das espanholas...
e lhes puxe a perna... Engano.
Oh! deixai-me dormir convosco.
Eu fui moça, serei moça
deserta, per omnia secula.*
E vai, como não encontro
Não quero saber de moças.
nenhum dos meus namorados,
Mas os moços me perturbam
que as francesas conquistaram,
Não sei como libertar-me.
e que beberam todo o uísque
Se o fantasma não sofresse,
existente no Brasil
se eles ainda me gostassem
(agora dormem embriagados),
e o espiritismo consentisse,
espreito os carros que passam
mas eu sei que é proibido,
com choferes que não suspeitam
vós sois carne, eu sou vapor.
de minha brancura e fogem.
Os tímidos guardas-civis,
Um vapor que se dissolve
coitados! Um quis me prender.
quando o sol rompe na Serra.
Abri-lhe os braços... Incrédulo,
me apalpou. Não tinha carne
Agora estou consolada,
disse tudo que queria,
subirei àquela nuvem,
serei lâmina gelada,
cintilarei sobre os homens.
Meu reflexo na piscina
da Avenida Paraúna
(estrelas não se compreendem),
ninguém o compreenderá.
* “per omnia secula” – por todos os séculos.
ANDRADE , Carlos Drummond de. Sentimento do mundo. In: COUTINHO, Afrânio
(Org.). Carlos Drummond de Andrade: obra completa: poesia. Rio de Janeiro:
Aguilar, 1964. p. 102-103. (Biblioteca Luso-Brasileira. Série Brasileira).
Sobre o poema, é correto afirmar:
(01) O texto é permeado por um tom de lamento da moça fantasma, motivado pela
perda do mundo real.
(02) O espaço físico pelo qual a personagem transita é delimitado na superfície do texto.
(04) As expressões “eu sou branca”, “minha brancura”, “ausência branca” e “desespero
branco” intensificam a idéia de um ser abstrato, inorgânico.
(08) O discurso lírico da segunda estrofe identifica a figura do fantasma com outros
seres que se tornaram invisíveis para o mundo real.
(16) A voz poética revela desejo de comunhão com a natureza, com o sagrado e com os
homens.
(32) O poema lírico revela imagens de tédio, de ódio e de desespero de um ser
oprimido, desejoso de mudanças sociais.
(64) O final do poema evidencia o restabelecimento da integração da personagem com o
mundo real.
Resposta: 01+02+04+08 = 15
O poema “Procura da poesia”, utilizado pela Fuvest, foi retirado da coletânea A
Rosa do Povo, livro em que estão em primeiro plano as preocupações sociais do
poeta. Entretanto, os poemas “Consideração do poema” e “Procura da poesia” que
abrem A rosa do povo têm enfoque metalinguístico. Em “procura da poesia”,
Drummond trabalha com a ideia de que poesia é, essencialmente, linguagem. O
poeta simbolista francês Mallarmé afirmava que “poemas não se fazem com ideias,
mas com palavras”, concepção que parece ir ao encontro daquela defendida por
Drummond em seu texto.
FUVEST - 2007
3)
Procura da Poesia
Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
(...)
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
(...)
Carlos Drummond de Andrade, A rosa do povo.
No contexto do livro, a afirmação do caráter verbal da poesia e a incitação a que se
penetre “no reino das palavras”, presentes no excerto, indicam que, para o poeta de A
rosa do povo,
a) praticar a arte pela arte é a maneira mais eficaz de se opor ao mundo capitalista.
b) a procura da boa poesia começa pela estrita observância da variedade padrão da
linguagem.
c) fazer poesia é produzir enigmas verbais que não podem nem devem ser interpretados.
d) as intenções sociais da poesia não a dispensam de ter em conta o que é próprio da
linguagem.
e) os poemas metalingüísticos, nos quais a poesia fala apenas de si mesma, são
superiores aos poemas que falam também de outros assuntos.
Resposta: D
Questão 74
FUVEST – 2007 – 2ª Fase (Anglo)
Questão 4
A flor e a náusea
Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
(...)
Carlos Drummond de Andrade, A rosa do povo.
a) Em A rosa do povo, o poeta se declara anticapitalista. Nos três primeiros versos do
excerto, esse anticapitalismo se manifesta? Justifique sucintamente sua resposta.
Sim. Esse “anticapitalismo” a que se refere a questão manifesta-se no excerto e em
muitos outros poemas que compõem a coletânea A rosa do povo. Já nos primeiros
versos de “A flor e a náusea”, o sujeito poético parece estar em descompasso com o
mundo capitalista em que está inserido. No verso que abre o poema, ele se reconhece
inserido numa determinada classe social (“minha classe”) e a “algumas roupas” (valores
culturais específicos dessa classe). O sujeito lírico sente-se incomodamente vigiado e
preso à sua condição social. O capitalismo é traduzido pejorativamente pela expressão
“rua cinzenta” em oposição à cor branca da roupa do eu lírico.
b) De acordo com os dois últimos versos do excerto, como se manifesta, no campo da
linguagem, o impasse de que fala o poeta? Explique resumidamente.
O impasse de que fala o eu lírico nos versos “Em vão me tento explicar, os muros são
surdos./Sob a pele das palavras há cifras e códigos.” se manifesta na impossibilidade da
comunicação. As “cifras” e “códigos” dificultam a comunicação e tornam inútil (“vão”)
a tentativa do sujeito poético de ser ouvido pelos “muros” (metáfora para a surdez das
pessoas).
UEMG – 2008
Questão 9
A poesia de Cecília Meireles é povoada de aspectos da fantasia, que operam uma
diluição
proposital de formas, sons (...)
Assinale, abaixo, o fragmento poético dessa autora que contraria o comentário acima
apresentado.
a)
A noite desmancha o pobre jogo das variedades.
Pousa a linha do horizonte entre as minhas pestanas,
e mergulha silêncio na última veia da esperança.
b)
Desde agora, saberei que sou sem rastros.
Esta água da minha memória reúne os sulcos feridos:
as sombras efêmeras afogam-se na conjunção das ondas.
c)
Tenho no meu lábio as ruínas
de arquiteturas de espuma
com paredes cristalinas...
d)
Muitas velas. Muitos remos.
Âncora é outro falar...
Tempo que navegaremos
não se pode calcular.
Resposta: D
PUC – 2009 (Anglo)
Questão 7
Anoitecer
É a hora em que o sino toca,
mas aqui não há sinos;
há somente buzinas,
sirenes roucas, apitos
aflitos, pungentes, trágicos,
uivando escuro segredo;
desta hora tenho medo.
É a hora em que o pássaro volta,
mas de há muito não há pássaros;
só multidões compactas
escorrendo exaustas
como espesso óleo
que impregna o lajedo;
desta hora tenho medo.
Questão 7lução
É a hora do descanso,
mas o descanso vem tarde,
o corpo não pede sono,
depois de tanto rodar;
pede paz — morte — mergulho
no poço mais ermo e quedo;
desta hora tenho medo.
Hora de delicadeza,
gasalho, sombra, silêncio.
Haverá disso no mundo?
É antes a hora dos corvos,
bicando em mim, meu passado,
meu futuro, meu degredo;
desta hora, sim, tenho medo.
O poema acima, que integra a obra A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade,
constrói-se a partir de oposições. Assinale a alternativa que não concretiza uma
oposição existente na construção do poema.
a) O lirismo nostálgico de evocações do passado e o drama presente das situações de
conflito.
b) A espiritualidade de sons delicados e a crueza dos ruídos estridentes.
c) A leveza solitária da hora e a densidade compacta dos corpos.
d) O repouso reparador do descanso e o desespero sem saída da morte.
e) A afirmação das certezas passadas e a confirmação das ações no presente.
Resolução
As alternativas A, B e, com certa complacência, C contêm oposições que podem ser
observadas no poema. A alternativa D seria uma resposta válida, pois, em rigor, o
“descanso”, mencionado na terceira estrofe, não se opõe à morte: esta pode ser
entendida como uma radicalização daquele e, em vez de provocar desespero, é desejada
pelo eu lírico, reduzido à materialidade de um corpo que “pede paz — morte —”, como
forma de evasão do mundo moderno, brutal, desumanizado e alienante. A alternativa E,
porém, poderia igualmente ser apontada como resposta, uma vez que as “certezas
passadas”, em última instância, não são afirmadas, mas negadas (“não há sinos; “não há
pássaros”). Além disso, as noções de “afirmação” e de “confirmação” não se opõem.
Resposta: D e E
UFAC – 2009
Questão 10
A poesia de Carlos Drummond de Andrade se caracterizou desde o início por uma
postura de deslocamento em relação ao mundo. No poema “José”, é inevitável a
percepção de um esgotamento, de uma finitude de valores vivida ao extremo (E agora
José?), porque nesse caso:
a) o sujeito lírico ordena uma série de resoluções que se não forem cumpridas pelo
personagem fará com que ele perca irremediavelmente a sua condição humana.
b) o sujeito lírico imprime no personagem uma marca de universalidade que
representará os limites do homem num mundo de forças inexoráveis.
c) o sujeito lírico permite uma distância entre o personagem e o mundo de tal maneira
que eles não se contaminem.
d) o sujeito lírico conhece intimamente o personagem porque exagera nos seus defeitos
e os sabe de antemão condenado por eles.
e) o sujeito lírico não mostra nenhuma consideração pelo personagem na sua
representatividade exemplar do fracasso humano.
Resposta: B
UNICAMP – 2007
Questão 9
O poema abaixo pertence ao livro A rosa do povo (1945):
Cidade prevista
Irmãos, cantai esse mundo
que não verei, mas virá
um dia, dentro em mil anos,
talvez mais... não tenho pressa.
Um mundo enfim ordenado,
uma pátria sem fronteiras,
sem leis e regulamentos,
uma terra sem bandeiras,
sem igrejas nem quartéis,
sem dor, sem febre, sem ouro,
um jeito só de viver,
mas nesse jeito a variedade,
a multiplicidade toda
que há dentro de cada um.
Uma cidade sem portas,
de casas sem armadilha,
um país de riso e glória
como nunca houve nenhum.
Este país não é meu
nem vosso ainda, poetas.
Mas ele será um dia
o país de todo homem.
(Carlos Drummond de Andrade, A rosa do povo, em Poesia e prosa. Rio de Janeiro:
Nova Aguilar, 1992, p.158-159.)
a) A quem se dirige o eu lírico e com que finalidade?
O eu lírico se dirige aos poetas (antepenúltimo verso), também chamados de “irmãos”
(conforme a apóstrofe do primeiro verso), com a finalidade de exortá-los a cantar o
mundo futuro.
b) A que “cidade” se refere o título do poema e como ela é representada?
A “cidade” referida no título do poema consiste no mundo futuro, idealizado como
espaço de igualdade entre os homens, de acordo com a utopia socialista, que faz lembrar
o mito da “idade de ouro”, registrado por Hesíodo (poeta grego do séc. VIII a.C.), e se
configura na descrição profética iniciada no quinto verso (“Um mundo enfim
ordenado”), estendendo-se até o décimo-oitavo (“como nunca houve nenhum”).
c) Que características centrais de A Rosa do Povo se encontram nesse poema?
Os poemas de A Rosa do Povo desenvolvem três grandes temas: a própria poesia
(metalinguagem), a reflexão existencial (a vida, a morte, o amor, a memória, etc.) e o
impasse político-social nos tempos sombrios da ditadura Vargas e da Segunda Guerra
Mundial. A própria poesia e a questão social entrelaçam- -se nitidamente nos versos de
“Cidade prevista”, na exortação feita aos poetas para que cantassem a utopia de um
mundo em que os homens fossem solidários, livres e felizes. Do ponto de vista formal,
convivem nesse livro de Drummond o registro da poética tradicional, expressa em
versos isométricos, e o da poética modernista, marcada pelo uso sistemático do verso
livre. No caso do poema em questão, os versos são redondilhos maiores (sete sílabas
poéticas), exceto os versos 12 e 13, que são octossílabos.
UNICAMP – 2009
Questão 11
Carlos Drummond de Andrade reescreve a famosa “Canção do exílio” de Gonçalves
Dias, na qual o poeta romântico idealiza a terra natal distante:
Nova canção do exílio
A Josué Montello
Um sabiá
na palmeira, longe.
Estas aves cantam
um outro canto.
O céu cintila
sobre flores úmidas.
Vozes na mata,
e o maior amor.
Só, na noite,
seria feliz:
um sabiá,
na palmeira, longe.
Onde tudo é belo
e fantástico,
só, na noite,
seria feliz.
(Um sabiá,
na palmeira, longe.)
Ainda um grito de vida e
voltar
para onde tudo é belo
e fantástico:
a palmeira, o sabiá,
o longe.
(A rosa do povo, em Carlos Drummond de Andrade, Poesia e Prosa. Rio de Janeiro:
Nova Aguilar, 1988, p.117.)
a) Além de expatriação, a palavra exílio significa também “lugar longínquo” e
“isolamento do convívio social”.
Quais palavras expressam estes dois últimos significados no poema de Drummond?
No poema de Carlos Drummond de Andrade, as palavras que expressam tais sentidos
são “longe” e “só”, respectivamente.
b) Como o eu lírico imagina o lugar para onde quer voltar?
O eu lírico idealiza um lugar “Onde tudo é belo/ e fantástico”, no qual é possível ser
feliz. Uma espécie de utopia, local distante e distinto daquele em que se encontra e no
qual se sente exilado, pois “as aves cantam/ um outro canto”. Esta utopia pode ser
associada a uma terra natal da qual o eu lírico se sente distanciado; pode referir-se a um
Brasil livre da censura e da ditadura de Getúlio Vargas ou a um outro lugar distante no
tempo ou no espaço, em que ele possa ser feliz, ainda que sozinho.
UFBA – 2007 - 2ª Fase
Questão 1
FRAGILIDADE
Este verso, apenas um arabesco
em torno do elemento essencial – inatingível.
Fogem nuvens de verão, passam aves, navios, ondas,
e teu rosto é quase um espelho onde brinca o incerto movimento,
ai! já brincou, e tudo se fez imóvel, quantidades e quantidades
de sono se depositam sobre a terra esfacelada.
Não mais o desejo de explicar, e múltiplas palavras em feixe
subindo, e o espírito que escolhe, o olho que visita, a música
feita de depurações e depurações, a delicada modelagem
de um cristal de mil suspiros límpidos e frígidos: não mais
que um arabesco, apenas um arabesco
abraça as coisas, sem reduzi-las.
ANDRADE, Carlos Drummond de. A rosa do povo. In: COUTINHO, Afrânio (Org.).
Carlos Drummond de Andrade: obra completa: poesia. Rio de Janeiro: Aguilar, 1964.
p. 154-155.
Na seleção dos signos verbais, o sujeito poético cria metáforas estabelecendo analogias
entre elementos distintos. Na linguagem de Drummond, “isso é aquilo”.
Identifique e transcreva uma das analogias referidas, explicando-a com base no contexto
do poema.
Espera-se que o candidato identifique uma das metáforas “verso” e “arabesco”, “rosto”
e “espelho”, “cristal”. Em seguida deverá atribuir sentidos como: poesia e realidade,
linguagem poética e essência da poesia, fragilidade do homem, do verso, da palavra em
face da captação da essência das coisas.
UNIMONTES – 2009
Questão 16
Leia o texto abaixo:
“Em posição de Buda me ensabôo,
resignado me contemplo.
O mundo é estreito. Uma prisão de água
envolve o ser, uma prisão redonda.
Então me faço prisioneiro livre.
Livre de estar preso. Que ninguém me solte
deste círculo de água, na distância
de tudo mais. O quarto. O banho. O só.
O morno. O ensaboado. O toda-vida.
Podem reclamar,
podem arrombar
a porta. Não me entrego
ao dia e seu dever.”
(ANDRADE, 2006. p. 142-143).
Com base no fragmento do poema “Banho de Bacia”, de Boitempo, de Carlos
Drummond de Andrade, assinale a interpretação que está INCORRETA.
a) O poema representa o estado de meditação do eu adulto através do episódio do banho
de bacia do menino.
b) O espaço do banho de bacia, com toda a água que envolve o menino, significa a
liberdade e a prisão, mas também pode significar o vazio e a solidão do homem no
mundo.
c) O eu adulto reconstrói o episódio do banho de bacia como uma forma de expor o seu
comprometimento com os fatos históricos de Itabira.
d) A repetição da vogal “o” em vários versos não só dá sonoridade ao poema, mas
também pode representar o próprio formato da bacia e do mundo.
Resposta: C
UNIMONTES – 2009
Questão 17
Leia o poema abaixo:
REPETIÇÃO
Volto a subir a Rua de Santana.
De novo peço a Ninita Castinho
a Careta com versos de Bilac.
É toda musgo a tarde itabirana.
Passando pela Ponte, Luís Camilo
(o velho) vejo em seu laboratóriooficina,
de mágico sardônico.
Na Penha, o ribeirão fala tranqüilo
que Joana lava roupa desde o Império
e não se alforriou desse regime
por mais que o anil alveje a nossa vida.
Ô de casa!... Que casa! Que menino?
Quando foi, se é que foi – era submersa
que me torna, de velho, pequenino?
(ANDRADE, 2006. p. 249)
Faça uma leitura interpretativa do poema “Repetição”, de Boitempo, de Carlos
Drummond de Andrade, e marque a alternativa que está INCORRETA.
a) O poema apresenta o poeta Drummond como leitor dos poetas clássicos quando ele
pede: “Ninita Castinho / a Careta com versos de Bilac”.
b) O eu lírico descreve o espaço físico e geográfico da cidade de Itabira onde o escritor
Drummond viveu a sua infância.
c) O eu, no presente da escrita, revela uma visão crítica do adulto em relação à
escravidão dos negros no Brasil desde o Império.
d) O poeta Drummond, já velho, faz uma viagem à sua terra natal e consegue encontrar,
do mesmo jeito, a cidade e a casa onde viveu.
Resposta: D
ITA – 2008
Questão 37
O poema abaixo é um dos mais conhecidos de Carlos Drummond de Andrade. É
INCORRETO dizer que o poema
Questão 37
Cidadezinha qualquer
Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.
Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar… as janelas olham.
Eta vida besta, meu Deus
a) é herdeiro da vertente social do Modernismo de 30.
b) ironiza a idealização da vida rural, tão cantada pelos românticos do século XIX.
c) substitui a idealização romântica da vida rural por uma visão mais crítica.
d) se vale de vocabulário e sintaxe simples, de acordo com a proposta do Modernismo.
e) mostra na primeira estrofe um quadro romântico da natureza, que é desfeito nas
estrofes seguintes.
Resolução
Na primeira estrofe, com as expressões “pomar amor cantar”, o poema “Cidadezinha
qualquer” retoma termos românticos associados à temática da natureza (alternativa E).
No entanto, essa retomada se dá sob a chave irônica (alternativa B), através da qual o
poema denuncia criticamente a idealização romântica (alternativa C). Tanto o
despojamento vocabular quanto as repetições fazem eco ao coloquialismo defendido
pelos poetas da geração de 1922 (alternativa D). O poema refere o atraso da vida
brasileira, aproximando-se da tendência social do Modernismo de 30, geração da qual o
poeta é contemporâneo, e não herdeiro, o que invalida a alternativa A.
Resposta: A
FUVEST – 2008 – 1ª FASE
Questão 54
Entre os seguintes versos de Alberto Caeiro, aqueles que, tomados em si mesmos,
expressam ponto de vista frontalmente contrário à orientação dominante que se
manifesta em A rosa do povo, de Carlos Drummond de Andrade, são os que estão em:
a) “Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho: / O valor está ali, nos meus
versos.”
b) “Eu nunca daria um passo para alterar / Aquilo a que chamam a injustiça do mundo.”
c) “Como o campo é grande e o amor pequeno! / Olho, e esqueço, como o mundo
enterra e as árvores se despem.”
d) “Quando a erva crescer em cima da minha sepultura, / seja esse o sinal para me
esquecerem de todo.”
e) “Quem me dera que eu fosse o pó da estrada / E que os pés dos pobres me estivessem
pisando…”
Questão 54
Resolução
Nos versos de Alberto Caeiro, o eu lírico assume uma postura de alienação política, ao
afirmar que “nunca daria um passo para alterar / Aquilo a que chamam a injustiça do
mundo”. A orientação dominante que se manifesta em A Rosa do Povo é a da
participação social, na busca da utilização da poesia como instrumento de luta contra a
opressão do indivíduo, tema que se manifesta, por exemplo, nas referências à Segunda
Guerra Mundial.
Resposta: B
PUC RS - 2009
INSTRUÇÃO: Para responder à questão 35, leia o texto que segue, de Cecília
Meireles.
Lua adversa
01 Tenho fases, como a lua
02 Fases de andar escondida,
03 fases de vir para a rua...
04 Perdição da minha vida!
05 Perdição da vida minha!
06 Tenho fases de ser tua,
07 tenho outras de ser sozinha.
08 Fases que vão e que vêm,
09 no secreto calendário
10 que um astrólogo arbitrário
11 inventou para meu uso.
12 E roda a melancolia
13 seu interminável fuso!
14 Não me encontro com ninguém
15 (tenho fases, como a lua...)
16 No dia de alguém ser meu
17 não é dia de eu ser sua...
18 E, quando chega esse dia,
19 o outro desapareceu...
Sobre o poema, é correto afirmar:
I. A comparação das fases da lua às fases da vida transmitem a idéia de mudança,
relacionada a um dos elementos que marcam a passagem do tempo, ou, seja, a lua.
II. O ritmo e o léxico do poema reforçam a idéia de circularidade do tempo.
III. Os adjetivos “secreto” (verso 09) e “arbitrário” (verso 10), relacionados,
respectivamente, a “calendário” (verso 09) e “astrólogo” (verso 10), esclarecem a
origem das mudanças.
IV. A última estrofe (versos 14 a 19) abandona o tema relativo ao movimento cíclico da
vida sugerido no início do poema, para centrar-se na questão do amor.
V. O uso das reticências no verso 03 sugere o processo contínuo de alternância de
estados emocionais do sujeito.
35) Pela análise das afirmativas, conclui-se que estão corretas, apenas,
a) I, II e III.
b) III, IV e V.
c) II, III e IV.
d) I, II e V.
e) I, II, III e V.
Resposta: D
UFJF – 2008
Questão 12
Aponte e comente 3 (três) traços marcantes dos textos que compõem o livro
Sentimento do mundo, de Carlos Drummond de Andrade.
Grau de dificuldade: 0
Razão: a questão pressupunha leitura prévia dos textos. A partir dessa premissa, o aluno
só teria que destacar 3 características marcantes e comentá-las.
Essas características poderiam ser:
a) busca do eu: auto-conhecimento;
b) solidariedade com o mundo;
c) engajamento em relação aos problemas sociais;
d) os fatores históricos influenciando o comportamento e as reações das pessoas no
Brasil e no mundo;
e) retrato dos sentimentos trazidos e instalados pela guerra e seus efeitos como o medo,
a angústia e a mutilação de pessoas;
f) ironia como forma de criticar a atitude alienada da classe burguesa;
g) metalinguagem: o exercício do fazer poético com propósitos sociais.
Download

Modernismo Carlos Drummond