UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES
PÓS-GRADUAÇÃO “LATO SENSU”
AVM FACULDADE INTEGRADA
A RELAÇÃO EDUCADOR - EDUCANDO:
Requer humildade e curiosidade
Por: Simone Silva de Paula
Orientador
Prof. Pablo Santos
Rio de Janeiro
2012
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UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES
PÓS-GRADUAÇÃO “LATO SENSU”
AVM FACULDADE INTEGRADA
A RELAÇÃO EDUCADOR - EDUCANDO:
Requer humildade e curiosidade
Apresentação de monografia à AVM Faculdade
Integrada como requisito parcial para obtenção do
grau de especialista em Docência de Ensino
Superior.
Por: Simone Silva de Paula
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AGRADECIMENTOS
Agradeço
ao
Deus
Eterno,
criador, meu papai do céu, amigo,
confidente, ajudador, provedor e fonte
de vida.
Agradeço a Laura Valim, amiga,
apoiadora, me ensinou a ir até o fim.
À memória de mamãe e Tio
Waldomiro, pelo esforço em me dar
educação.
Agradeço Lili, por cuidar de mim.
Agradeço a irmã Débora que
aniversaria hoje.
Agradeço aos docentes da pósgraduação
lacto-sensu:
Marcelo
Saldanha, Geni, Sheila Rocha, Adriana
Mograbi, Vilson, Vasco
e Dina Lúcia
por nos transmitir os conteúdos.
Agradeço ao orientador Pablo
Santos pela disposição.
Agradeço aos colegas da Turma
T207813 pela interação.
Agradeço
aos
orações e incentivo.
amigos
pelas
4
DEDICATÓRIA
Dedico à amiga Laura Valim
5
Epígrafe:
“Assim como os perfumes alegram a
vida, a amizade sincera dá ânimo para
viver.”
(Provérbios 27:9)
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RESUMO
Não há docência sem discência. “Quem ensina aprende ao ensinar e
quem aprende ensina ao aprender." (FREIRE, Paulo - 1995)
Ensinar não é transferir conhecimentos, uma relação vertical. E sim, a
educação horizontal que permite diálogo. Este contexto de troca possibilita ao
educando ter seu conhecimento valorizado. O resultado dessa prática são
indivíduos que se abrem para o mundo desenvolvendo a criatividade, a
curiosidade e a troca de saberes.
O trabalho foi baseado no filme “Uma Professora Muito Maluquinha”,
baseado no livro homônimo do escritor brasileiro Ziraldo, 1995. Conta a história
de uma professora que tinha métodos e uma didática muito diferente do
normal. Conquistou seus alunos com seu modo de ser e suas atividades
criativas e cativantes. O filme retrata diversas formas de ensinar e tornar o
processo ensino-aprendizagem algo lúdico e retrata uma relação educadoreducando, em que predomina uma postura horizontal e dialógica.
Em contrapartida, a prática pedagógica da educação vertical, em que o
professor pode assumir em sala de aula uma postura de detentor do
conhecimento é eficaz? Uma possível resposta ao problema citado é sugerir ao
educando desenvolver habilidades em sua inteligência emocional, sobretudo,
nas relações interpessoais, para que possa cultivar, dentre outros valores, o
respeito aos seus educandos.
Baseado na reflexão de algumas cenas do filme, o trabalho pretende
estudar a prática pedagógica da educação horizontal, acreditando que esta
possibilita um caminho assertivo no processo de aprendizagem e troca.
Pretende trazer a luz exemplos de atitudes da professora que demostrava
humildade e empatia por seus educandos e os benefícios que tal postura
acarretou na aprendizagem dos alunos.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. Rio de Janeiro, Paz e Terra, (1995)
ZIRALDO. Uma Professora Muito Maluquinha. São Paulo, Cia, (1995)
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O trabalho mostra também que a relação educador-educando exige
criatividade. E, esta também, é uma postura adotada pela discente, como
veremos.
Por fim, favos discutir a eficácia de tais práticas também no ensino
superior.
O filme trata-se de uma ficção cuja trama passa-se na década de
quarenta com alunos da terceira série do ensino fundamental. Mas, não muito
distante da realidade que encontramos em sala de aula.
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METODOLOGIA
O trabalho apresenta o seguinte problema: A prática pedagógica da
educação vertical, em que o professor pode assumir em sala de aula uma
postura de detentor do conhecimento é eficaz?
A justificativa seria que, não somente na relação educador-educando,
mas, sobretudo as trocas interpessoais, é um problema que já vem sido
discutido por educadores, pedagogos e outros profissionais da área de
humanas.
Para chegar-se a uma hipótese e, ou possíveis respostas ao problema,
os métodos utilizados foram administrados pelo autor do trabalho, da seguinte
forma, como se segue:
1. As disciplinas ministradas no curso de Pós Graduação lactosensu em Docência do Ensino Superior, que despertaram o
interesse pelo assunto. Estas estão discriminadas abaixo em
ordem do cronograma do curso ministrado na Instituição
UNIVERSIDADE CÂNDIDO MENDES.
• Didática do Ensino Superior, ministrada pelo docente Marcelo
Saldanha, psicólogo, que discutiu questões como: a importância
da empatia e afetividade em sala de aula;
• Prática de Ensino, ministrada pela docente Geni, pedagoga, que
discutiu questões como: a competência do professor em sala de
aula;
• Direito e Legislação, ministrada pela docente Adriana Mograbi,
advogada e Políticas Educacionais, ministrada pela docente,
Sheila Rocha, que nos apresentou as leis e diretrizes que regem,
sobretudo, o ensino superior;
• Fundamentos Psicológicos da Educação, ministrada pelo docente
Vilson Carvalho, psicólogo que nos levou a discussão questões
como: prática pedagógica, inteligências múltiplas, abordagens e
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linhas pedagógicas, papel intelectual do professor nos dias
atuais, os recursos a disposição desse professor e a importância
do prazer de ensinar. Nesta etapa do curso, o autor do trabalho
proposto, iniciou seu processo de aprofundamento ao trabalho
monográfico.
• Dinâmica de Grupo, ministrada pela docente Dina Lúcia,
psicóloga, que nos mostrou a força que as dinâmicas oferecem
para
proporcionar
a
integração
em
sala
de
aula
e
consequentemente facilitar as relações do educador-educando.
• Fundamentos Biológicos da Educação, ministrada por Vasco
Amaral, que contribui para a importância de no percebermos,
como os aspectos biológicos interferem
no processo ensino-
aprendizagem e como o educador, é um mediador desses
conflitos hormonais e a importância deste trabalhar por um
equilíbrio em sala de aula.
2. A leitura do livro Pedagogia do Oprimido, FREIRE, Paulo (2006).
Ênfase na reflexão da importância do diálogo nas relações e na
concepção “bancária” da educação. Livro emprestado pela
biblioteca da UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES, Campus
Tijuca.
3. A leitura do livro Pedagogia da Autonomia, FREIRE, Paulo
(1995). Ênfase na reflexão “Ensinar exige criatividade”.
4. Munido desses fundamentos teóricos, aulas e leitura dos livros
citados acima, foi assistido o filme: “Uma Professora Muito
Maluquinha”. Sendo esta, minha fonte de análise prática.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro, Paz e Terra, (2005)
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. Rio de Janeiro, Paz e Terra, (1995)
ZIRALDO. Uma Professora Muito Maluquinha. São Paulo, Cia, (1995)
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SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
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CAPÍTULO 1 - Relação horizontal, dialógica:
Requer humildade
13
CAPÍTULO 2 - Ensinar exige criatividade
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CONCLUSÃO
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BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
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ÍNDICE
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INTRODUÇÃO
O trabalho foi baseado no filme “Uma Professora Muito Maluquinha”,
com estreia no Rio de Janeiro em quinze de outubro do ano dois mil de doze,
no Rio de Janeiro, uma homenagem ao dia do professor. O filme foi inspirado
pelo livro homônimo do escritor brasileiro Ziraldo, 1995. Conta a história de
uma professora, chamada Catarina Roque, “ Dona Caty”, como era chamada
pelos seus alunos. Esta adota como postura pedagógica, uma relação
horizontal e dialógica com seus alunos, e uma prática baseada no despertar da
curiosidade e uso da criatividade, que tem como frutos uma colheita de
aprendizagem e desenvolvimento de seus alunos frente aos conteúdos
apresentados.
A professora Catarina tinha métodos e uma didática muito diferente do
normal, o que causa estranhamento, inclusive, em seus pares docentes. Sua
frase de efeito diante das situações inesperadas ou conflituosas era “tive uma
ideia”. Conquistou seus alunos com seu modo de ser e suas atividades
cativantes. O livro retrata diversas formas de ensinar com criatividade, que
serão divulgadas no trabalho proposto. Também mostra como a docente
estabelecia com seus alunos uma relação de respeito e empatia.
Qual o principal objetivo do ensino superior? Não seria, dentre outros
fatores, contribuir no processo de construção de cidadãos críticos e o ensino
da pesquisa?
E, para despertar o interesse pela pesquisa, nada como
despertar a curiosidade, e, consequentemente, estimular a criatividade desses
educandos.
Assim, apesar do filme “Uma Professora Muito Maluquinha”, ter como
personagens crianças que não ultrapassavam da faixa dos dez anos, nos é útil
na abordagem do ensino superior ao nos apresentar caminhos e práticas
pedagógicas que podem contribuir na formação do docente e na relação
assertiva educador-educando.
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“Não há, por outro lado,
diálogo,
se não há humildade.
A pronúncia do mundo,
com que os homens o recriam permanentemente,
não pode ser um ato arrogante.”
(Paulo Freire)
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CAPÍTULO 1
Relação horizontal, dialógica: requer humildade.
A abordagem teoria/prática educativa exige um pensamento crítico. É
uma oportunidade que indivíduos podem aproveitar de se estabelecer um
diálogo com a educação. Digo indivíduos, pois o diálogo com a prática
educativa não é restrita somente a sala de aula, mas, sobretudo, aos
interessados em refletir sobre as relações interpessoais e desenvolvimento
humano, que, transita pelos caminhos da prática pedagógica.
E, uma das ferramentas que se pode utilizar nesse processo dialógico é
a palavra. Palavra essa que propõe um universo de trocas, reflexões, ações e,
é nestes dois últimos itens que vamos discursar. A palavra pode passear, pois
dois universos: o da ação e da reflexão. Ação em detrimento à reflexão pode
nos levar ao mero ativismo, ação por ação, e, minimizada esse processo de
pensamento, diminuir ou até mesmo impossibilitar a construção do diálogo.
Reflexão em detrimento da ação, por sua vez, pode nos conduzir ao
verbalismo, “blábláblá” e tornar oca essa palavra. (FREIRE, 2005)
Quaisquer dessas dicotomias citadas acima em desiquilíbrio podem
promover o desencontro dos seres. E, a proposta do trabalho é discutir a
relação educador-educando. Como humanos, somos seres relacionais, e, uma
das essências dessa relação, é o diálogo.
“Existir, humanamente, é pronunciar o
mundo, é modifica-lo. O mundo pronunciado,
por sua vez, se volta problematizado aos
sujeitos pronunciantes, a exigir deles novo
pronunciar.
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Não é no silêncio que os homens se
fazem, mas na palavra, no trabalho, na açãoreflexão.”
(FREIRE 1 (2005, p. 90)
É preciso que o professor tenha em mente que quem ensina aprende ao
ensinar e que quem aprende ensina ao aprender. Não há docência sem
discência. Seres humanos primeiro aprenderam para depois ensinarem. Essa
fala alternada entre duas ou mais pessoas, é um processo de constante troca
de opiniões, vivências, que possibilita o encontro entre os homens.
Mas, como estabelecer o diálogo que não considero o meu semelhante,
semelhante? Se não percebo o outro como parecido, conforme, análogo,
símile e busco com ele uma relação de interesse?
“...se não amo os homens, não é
possível o diálogo.
Não há, por outro lado, diálogo, se não
há humildade.
A pronúncia do mundo, com que os
homens o recriam permanentemente, não
pode ser um ato arrogante.”
(FREIRE 1 (2005, p. 92)
_____________________________________________________________
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro, Paz e Terra, (2005)
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Relação horizontal remete a ideia de horizonte. Esta, uma linha circular
que limita o campo da observação visual, e na qual o céu parece encontrar-se
com a terra ou o mar. (AURÉLIO, Dicionário) Essa forma de relaciona-se
possibilita um encontro e contribui para que a relação educador-educando
alcance o objetivo, que é o da aprendizagem.
E, um dos alicerces dessa relação horizontal entre educador-educando
é a humildade. A palavra humildade é de origem latina, do radical húmus, que
quer dizer terra fértil, rica em nutrientes e preparadas para receber a semente.
O contrário de humildade é o orgulho. Este é soberbo, julga-se superior e
deixa-se embriagar pela vaidade. Uma pessoa humilde está sempre disposta a
aprender, como possui um bom solo, recebe com bom grado as sementes que
a vida lhe oferece. O orgulho, por sua vez, é incompatível com o coração
aprendiz.
“A auto-suficiência é incompatível com
o diálogo. Os homens que não têm humildade
ou a perdem, não podem aproximar-se do
povo. Não podem ser seus companheiros de
pronúncia do mundo. Se alguém não é capaz
de sentir-se e saber-se tão homem quanto os
outros, é que lhe falta ainda muito que
caminhar, para chegar ao lugar de encontro
com eles. Neste lugar de encontro, não há
ignorantes absolutos, nem sábios absolutos:
há homens que, em comunhão, buscam saber
mais.”
(FREIRE 1 (2005, p. 93)
_____________________________________________________________
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro, Paz e Terra, (2005)
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A verdadeira humildade é firme, segura, sóbria. Como um dos recursos
para se estudar a relação educador-educando foi o filme “Uma professora
muito maluquinha” vejamos a seguir algumas transcrições e comentários de
cenas relevantes para representação de prática pedagógica. Perceberemos
alguns toques de humildade, que contribuiu para estabelecer-se uma boa
relação educador educando.
• Comentários a partir do primeiro contato entre docente e discente.
Nos capítulo inicial do filme, dá-se o primeiro
contato da Professora Catarina com seus alunos.
Esta esqueceu-se da chamada. Foi uma falha.
Diante de um equívoco, se assumirmos uma postura de humildade, é
mais fácil encontrar o caminho da flexibilidade, do jogo de cintura. Reconhece
e segue em frente, sem desculpas, pois sua intenção é aprender. Tal indivíduo
percebe-se como não sendo perfeito. Diante do erro, com a mente aberta,
pode então refletir “deve haver uma maneira melhor de fazer isso e eu vou
descobrir.”
Primeiro dia de aula, Professora Catarina se
apresenta aos alunos, diálogo estabelecido:
“_ Meu nome é Catarina, Catarina Roque.
_ Mas, podem me chamar de ‘Caty’ .
Alunos olham para ela surpresos e ela corrige:
_Dona ‘Caty’.
_Onde é que eu coloquei mesmo a lista de
chamada?”
Após alguns rápidos segundos de reflexão
pergunta aos alunos:
_ Vocês sabem ler?
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Crianças: (todas juntas):_ Ler e escrever.
Catarina dirige-se a uma aluna:
_Qual é o seu nome?
_ Cibele.
Professora: _Cibele, distribui estes papéis.
(entregou na mão da educanda e disse com firmeza
na voz):
_ Cada um de vocês vai escrever o próprio
nome e colocar aqui na mesa pra mim.
Reflete alguns segundos, olha para Cibele e
exclama:
_ Pode parar, pode parar!
Vocês vão escrever o nome todo sim, mas do
colega do lado.
Alunos exclamam: _ham?!
Professora responde com ar entusiasmado:
_ Que graça tem saber escrever o próprio
nome.”
Perceba que ao permitir que os alunos a chamassem de “Dona Caty”,
quebra-se o estranhamento de um primeiro contato e está aberta a porta para
uma aproximação e acessibilidade.
Um equívoco foi cometido, a mestre esqueceu a chamada. Contudo, a
pessoa humilde, reconhece suas próprias limitações, mas, consegue ter a
mente aberta para refletir que há alternativas. Podem-se encontrar meios de
realizar o que foi proposto, no caso, o simples ato de fazer a chamada, ato por
sinal, comum na rotina de um docente.
Pode parecer algo simplista. Mas, nos detalhes estão os aprendizados
da vida. Uma pessoa orgulhosa, que se percebe como detentora de todas as
respostas tende a não admitir seus erros, por menores que sejam. O desejo da
perfeição pode consumir de tal forma a ponto de gerar uma tensão que pode
paralisar.
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Quando o docente encara com flexibilidade e criatividade os seus
próprios erros, tende a transmitir uma mensagem oculta ao outro: “Você
também pode cometer erros que serão aceitos, e, juntos, vamos buscar uma
forma de acertar.”
Diz-se que a primeira impressão é a que fica. Se este dito condiz com a
realidade, a primeira impressão da docente Catarina foi um gesto de
humildade que marcou a vida daqueles discentes e foi o primeiro passo para
uma relação que provavelmente alcançará seu objetivo pedagógico, a
aprendizagem. Como educadores, perceber e desenvolver esse currículo
oculto pode vir a ser um diferencial que ficará marcado nas instituições que
transitaremos, sobretudo, na vida dos educandos.
• Comentários sobre o primeiro conflito observado em aula:
Em sala de aula, eis que surge o primeiro
conflito. A turma coloca um “ovo de passarinho” para
cadeira de um dos discentes. Quando este vai
sentar-se, senta em cima do “ovo” e a turma começa
a caçoar do jovem.
A professora Catarina questiona o que está
acontecendo.
Os alunos começam a colocar a culpa um no
outro e atribuir a docente um papel quase que
detetive da situação.
Qual foi a estratégia desenvolvida pela docente para solucionar tal
conflito?
Veremos a resposta a seguir. Cabe-nos antes uma breve reflexão.
Como docentes um de nossos papéis, é educar para a vida, e, sempre
que possível administrar os conflitos que surgem naturalmente quando
estabelecemos relações interpessoais. Desenvolver um bom relacionamento
interpessoal com os educandos, não significa dizer que deva se ocupar
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exclusivamente dos conflitos dos alunos, que surgem, a partir de momento que
eles estão em constante convívio.
Diante dos conflitos, alguns docentes, por acreditar que tal atitude é ter
uma boa relação educador-educando, se veem em algumas situações
assumindo a personagem de detetives, policiais, advogados, mães, pais e
outros papéis que acabam por lhe sobrecarregar com uma carga que na
verdade não pertence a eles.
O docente precisa lembrar que o docente possui a sua própria
autonomia, uma vez que carrega em si suas próprias vivencias e experiências.
Isso é um ato de humildade. Reconhecer que o outro possui ferramentas e
reflexões suficientes, para que, caminhando pela estrada de sua própria
autonomia, seja capaz de criar suas soluções.
Em alguns momentos, dá-se a necessidade do docente, nesta relação
com o discente, assumir uma postura de distanciamento da queixa, para poder
assim, promover uma escuta analítica. Tal postura contribui para que o
educando assuma suas próprias responsabilidades. Logo, ser humilde não
significar ser paternalista, e sim, promover a democratização das ideias.
Vejamos então qual foi a solução criada pela docente Catarina diante da
situação de conflito:
A docente Catarina tem a ideia de criar um
júri.
Os alunos questionaram o significado da
palavra:
“_Júri?”
_”Julgamento”, disse a professora.
E, nesse julgamento os alunos foram se
elegendo: réu, vítima, advogado de defesa,
advogado de acusação e um clima de leveza e
reconciliação instalou-se na aula.
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Professora Catarina mostrou-se então disposta a ouvir a opinião dos
alunos e não simplesmente, assumir a total autoridade e estabelecer, por seu
próprio juízo, o veredicto. Cabe ao educador nessa relação com o educando,
diante de conflitos, desenvolver estratégias para problematizar o convívio e as
relações interpessoais, mostrando ao sujeito que ele é responsável pela sua
própria autonomia.
A pessoa humilde compreende que nem sempre terá todas as
respostas. E, neste processo acontece a troca. Afinal, quem ensina aprende ao
ensina e, quem aprende ensina ao aprender. Não há docência sem discencia.
• Segundo conflito para ilustrar a teoria descrita acima:
Ao término da aula, a docente “Cibele”, foi
procurar a professora Catarina:
_“Professora Catarina, posso falar com a
senhora?”
Catarina mostra-se acessível.
A aluna tem estatura menor que a docente.
Esta, se curva para ficar no mesmo tamanho
da discente.
A de considerar-se que uma relação dialógica não se constitui apenas
do verbal. Há o dito pelos gestos, olhares, movimentos. A linguagem corporal
há de ser refletida se discutimos as relações. O distanciamento pode acontecer
em um ato de tentativa de aproximação. A postura de um indivíduo pode
denunciar que ele não está aberto ao diálogo. Sinais como: não olhar nos
olhos, remexer bolsas e cadernos enquanto o outro está se pronunciando, ou
até mesmo “sair andando”, são atitudes que demonstram inacessibilidade, que
é uma marca, que pode distanciar. O objetivo de descrever tais posturas, não é
o de se estabelecer nenhum juízo de valores, mas sim, como docentes,
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sermos conscientes sobre nossas atitudes, posturas e falas nas relações
interpessoais, sobretudo na relação educador-educando.
Segue o diálogo:
“ _Dona Caty, eu precisava muito falar com a
senhora.
.
_ Professora, sabe o Luizinho?
_ O Antônio, o Paulo e o Nilton vão bater nele
lá atrás da igreja.
...”
E, assim termina a cena, sem mostrar o
diálogo entre a docente e a discente.
Prossegue-se então, para a cena seguinte,
com o duelo prometido de três contra um.
Eis que surge a aluna Cibele com o seguinte
argumento:
“_Não sejam covardes... uns meninos tão
bem educados.
Um dos meninos diz:
_ Vamos dar uma lição nesse capiau.
Cibele acrescenta:
_Três contra um...
_Seguinte! Vocês conhecem a história dos
três mosqueteiros?
Os meninos a olharam admirados e acabou
a briga.”
O que iria ser uma “batalha sangrenta”, como o próprio aluno
narra na história do filme, transformou-se em uma bela amizade. Forma-
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se ali um grupo de quatro mosqueteiros e uma “mosqueteira”, que
unidos, seguem até o final da narrativa.
E, repare que a docente não precisou assumir uma postura
onipresente. Ela delegou à missão de apartar a briga para uma das
alunas, gesto este que expressa à confiança, ajuda o outro a sentir-se
importante e capaz de resolver seus próprios conflitos. Educar para a
vida.
Assim como o trabalho propõe dialogar com essa relação docentediscente sem almejar criar dogmas ou paradigmas, o docente também precisa
estar apto a dialogar com seus alunos. No diálogo há troca. E, dialogar exige
humildade, uma postura de esvaziar-se de si mesmo, para que, ouvindo,
considerando e compreendendo as ideias do outro, possa haver a troca.
Na cena descrita acima, a professora estabeleceu a partir daí, uma
relação de confiança com seus alunos. Não podemos esquecer a confiança.
Esta é ingrediente das relações. Adquirir este crédito, esta boa fama. E, só foi
possível por que a docente se colocou disponível a aproximação, foi humilde,
acessível. O orgulhoso não é acessível, ele é importante demais, está ocupado
demais para poder para e dar atenção ao outro.
A professora também tinha uma estratégia, que era a prática do elogio.
Quando tinha uma resposta positiva dos alunos essa sempre exclamava: “Mas
eles estão sabidos demais.” Uma postura de não ter receios de considerar o
outro como superior também. Claro que o elogio não pode ser falso, vir em
disfarce de bajulação, adulação. Mas, o reconhecer o bem feito do outro, é um
bom exercício de humildade e uma prática pedagógica, que, se adotada, tem
efeitos benéficos à construção do conhecimento do aluno.
A professora também possuía humildade a ponto de ver seus alunos
além da perspectiva de meros estudantes, mas, sim, de o verem grandes em
seus atributos pessoais.
No final da narrativa, que coincide com o final do ano letivo, Catarina
decide homenagear seus alunos com uma celebração de “entrega de
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medalhas”. Contudo, a avaliação não é com o intuito de parabenizar e medir
atributos acadêmicos.
O objetivo é parabenizar o ser humano.
• Comentário sobre a cena: “entrega das medalhas”:
“’_Primeiro lugar em simpatia... (ao
parabenizar uma aluna)
Vocês são o primeiro lugar, aqui ó, no meu
coração.’ As medalhas que se seguem foram por:
elegância, cuspe a distância...”
“Não há também diálogo, se não há
uma intensa fé nos homens. Fé no seu poder de
fazer e de refazer. De criar e recriar. Fé na sua
vocação de ser mais, que não é privilégio de alguns
eleitos, mas direito dos homens.”
(FREIRE (2005, p. 93)
E, fé e humildade caminham juntas. E, não é uma fé ingênua. Se parto
do principio de que a verdadeira humildade é firme, segura, sóbria. Se
humildade tem relação com uma terra fértil, pronta para receber a semente e
assim dar uma grande colheita, quem planta com este espírito, também assim
o recebe de volta. Logo, se como docente, semeei, plantei com dedicação,
acreditando nos frutos, tenho fé, que cedo ou tarde, no tempo certo, a colheita
será feita no coração e na vida dos homens com que me permiti a troca. Sem
fé nos homens o diálogo é uma farsa. Na relação docente-discente, nessa
prática pedagógica é preciso que haja um crédito depositado a partir de todas
as vias envolvidas nesta estrada do encontro.
___________________________________________________________
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro, Paz e Terra, (2005)
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“ A paixão de descobrir o mundo:
Investigar
Aprender
Viver”
(Simone de Paula)
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CAPÍTULO 2
Ensinar exige criatividade
Na relação educador-educando é importante considerar que a paixão
em ensinar e a vontade de aprender são ingredientes importantes nesta
relação. Pois, desperta as emoções e estimula a curiosidade e a criatividade.
Quem está com vontade de ensinar, de despertar nos alunos um motivo que
os levem a uma ação como resposta desse processo ensino-aprendizagem,
vai à busca, pelo mundo afora, de ferramentas, de métodos, vivências que
despertarão o interesse do aluno. A este processo de busca podemos dar o
nome de criatividade.
Contudo, a própria palavra aluno já nos paralisa diante da ideia de
propor novos paradigmas. Do latim “a”, negação e “lune”, sem luz. Aluno, no
sentido literal da palavra seria um ser “sem luz”. Mas, vamos mudar esta
concepção que a carga da palavra aluno nos traz, para que sejam evitados os
preconceitos e estereótipos de que aluno é aquele que não pensa. Propõe-se
dar um crédito aos educandos, e tal abordagem, foi comentada no capítulo
anterior quando discutimos sobre educar ser um ato de fé.
É necessário, como docente termos a consciência que ensinar não é
transmitir conhecimento e sim semear em um ambiente e utilizar ferramentas
que nos possibilite colher os frutos dessa produção de conhecimentos. Esta
será, sobretudo, uma colheita construída junto com os saberes dos discentes,
que também tem algo a contribuir. É preciso que o professor tenha em mente
que quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender.
Não há docência sem discência. Aprender é primário, o ato de ensinar é
secundário. Indivíduos primeiro aprendem para depois ensinarem.
E, este aprender pode e é necessário que seja um aprender
criticamente. É o estar com a mente aberta para novas possibilidades e estar
apto para questionar novas realidades. Carregar em si um desejo de ver,
informar-se, aprender, pesquisar as realidades.
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Mas, para que este processo de novas descobertas se instale nessa
relação educador-educando, é preciso que o líder mediador, podemos assim
chamar a figura do educador, assuma uma postura adequada para que se
instale um ambiente em que a exposição dessas descobertas encontre um
colchão de espuma para poder cair e desenvolver-se.
Assim, o educador pode optar em assumir uma postura democrática em
sala de aula, construindo assim um ambiente que irá despertar, aguçar, e
reforçar a capacidade critica e curiosidade do educando. Munido da consciente
importância da criatividade na prática pedagógica ensino-aprendizagem, o
educador compreende que sua real tarefa não é só ensinar conteúdos. Sua
missão é estimular à pesquisa, à descoberta do belo que há no mundo do
conhecimento. Afinal, ensino caminha lado a lado com a pesquisa. São como
um casal de enamorados que a todo o momento descobrem-se um ao outro. O
saber oriundo da curiosidade.
Para que tal atmosfera de pensamento crítico seja criada é um fato a se
considerar, que o educador, precisa desenvolver e trabalhar a sua habilidade
em incentivar à curiosidade. Sim, com o bom senso de estabelecer limites
éticos para que a curiosidade não invada o espaço alheio. Mas, uma
curiosidade com objetivo pedagógico, curiosidade que se origina na
criticização.
Para progredir em sala de aula é importante, dentre outras habilidades,
que se façam alguns exercícios de criatividade. Quem nunca se viu com sua
imaginação aguçada diante de uma situação em que sua curiosidade foi
despertada. Imagina um cheiro, por exemplo, pode provocar uma vontade de
investigar. Desperta o sentido, o olfato. Pode despertar outro sentido, o
paladar. Pode-se estar adormecido e de repente levantar-se por sentir um
“cheiro de café”. Tais sensações podem levar o indivíduo a desejar investigar
mais profundamente a origem de todas aquelas experiências sensoriais.
Mesmo diante do sono, no despertar lento da manhã, ele pode sair do seu
ambiente aconchegante e, dirigir-se até a cozinha, cambaleando. Pode então
surgir a interação, dar um “bom dia” para quem preparou o café, dividir um
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bom diálogo naquele momento, compartilharem mutuamente alguma notícia do
dia, enfim, despertar e prosseguir rumo a outras experiências.
“Satisfeita
uma
curiosidade,
a
capacidade de inquietar-me e buscar continua
de pé. Não haveria existência humana sem a
abertura de nosso ser ao mundo, sem a
transitividade de nossa consciência.”
(FREIRE (1995, p. 88)
Curiosidade desperta o conhecimento. Curiosidade nos faz despertar
para o mundo. Quando bem alimentados ficamos de pé, mais dispostos. Não
somente nosso corpo é saciado com o alimento. Nossa mente também é
saciada com o delicioso doce do conhecimento. Sim, o conhecimento, o ato de
aprender, de pesquisar pode ser um “doce”, que desce saboroso e lentamente
pela mente e vida afora. Como educadores, é importante desenvolver-se essa
consciência de que o estímulo da curiosidade do educando nos move, nos
inquieta, aprendemos e ensinamos.
Essa vontade de investigar o mundo nos torna seres, criativos. Afinal,
munidos de informações fruto dos nossos questionamentos, temos agora mais
ferramentas para criar alternativos e novos métodos de ensino-aprendizagem.
E, criatividade, esta capacidade de criar, movida pela paixão de ensinar
e aprender, é uma das marcar da Professora Caty.
Sua frase de efeito diante de uma situação inesperada:
“Tive uma ideia.”
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Discursamos sobre curiosidade em detrimento da criatividade. Visto que
é o título do capítulo, parece um tanto quanto incoerente. Contudo, criatividade
não se explica, aplica-se. É uma ação movida pela reflexão. É o fruto do
diálogo, com o mundo e suas adversidades. É “levantar, jogar a poeira e dar a
volta por cima”, como diz o dito popular. É preciso criatividade, não somente
para a realidade do docente, mas para driblar as surpresas que a vida nos
oferece e ter sempre uma resposta.
Então, vamos trocar vivencias com as práticas pedagógicas da
professora Catarina. Seguem-se alguns exemplos retirados do filme.
• Criatividade ao estimular a leitura:
“Catarina escreveu no quadro:
‘Debaixo da última carteira tem um
presente.
Quem ler esta frase primeiro pode ir lá
pegar o presente.
Uma aluna, sendo a primeira a ler, vai
e pega o presente. Seus colegas a olham
sem nada compreender.
Catarina parabeniza a aluna e mostra a
frase no quadro e segue com o seguinte
comentário:
_’Viu só, não gostam de ler. Mas agora
vão gostar, e muito.’”
Quem de todo o coração costuma dizer: eu gosto de ler? Leitura pode
remeter para alguns a ideia de cansaço, algo trabalhoso, complicado. De um
modo geral, na posição de alunos podemos desenvolver este pensamento. A
docente munida da habilidade de exercer a empatia sabia disso.
____________________________________________________________
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. Rio de Janeiro, Paz e Terra, (1995)
29
Logo, buscou formas de motivar seus alunos. Ensinar com paixão e criar
uma motivação são uma das competências que cabe ao docente desenvolver,
que, além de torna-lo um profissional com um diferencial e referencial, pode
contribuir para uma relação educador-educando que facilite a aprendizagem.
Um dos educandos, que narrava história do filme, fez o seguinte
comentário:
“E, ela continuava inventando coisas
novas para a gente entender a vida”
• Criatividade ao ensinar geografia:
A próxima atividade da docente foi
pedir para os alunos procurarem no globo
terrestre um país chamado, Cubacalã.
Contudo, o país chamado Cubacalã,
não existe no mundo.
E, o aluno faz a seguinte narração,
comentando a postura da professora:
_’Olha, vejam só procurando um país
que não existe, você pode descobrir um
monte de país de verdade.’ “
• Aprendizagem fora de sala de aula
Catarina levou os alunos para fora do
âmbito escolar. Os convidou para fazerem um
pic nic ao ar livre. E, trouxe um outro
professor, de geografia. Este, com os
recursos da própria paisagem, pediu aos
alunos que desenhassem tudo o que vissem.
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Foi explicado aos educandos, com os
recursos que a própria paisagem ofereceu, o
que era uma colina, serra, picos, lago e uma
ilha, no meio do lago.
O aluno, que narra a história, diz:
‘_ A sala de aula poderia ser do
tamanho do mundo inteiro.’ “
• Criatividade ao ensinar matemática:
Inspirados na cantiga de roda
chamada, ‘Pai Francisco’ os alunos,
acompanhando a docente, faz uma paródia
para a tabuada:
‘Três vezes um igual a três.
Três vezes dois igual a seis,
paratimbum
Tchau preguiça já aprendi essa
tabuada não adianta não dô mancada’
Pensar em desenvolver criatividade e estimular a curiosidade em sala
de aula, requer do educador uma postura investigativa diante da vida. Dá
trabalho. Por isto o professor precisa ser movido por um gosto muito profundo
e bem alicerçado na educação. Um dos comentários dos educandos:
“A professora Catarina inventava coisas
novas para que os alunos entendessem a vida”
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• Uma professora muito maluquinha vai ao Egito:
Catarina decidiu levar os alunos
ao cinema e deixa a seguinte mensagem no
quadro:
‘_ Estamos no Egito.’
Uma das educandas ficou tão
entusiasmada com a descoberta do Egito
vista no filme que viu com os colegas, que
pediu à professora que levasse livros para ela
estudar sobre o assunto. Foi despertado na
discente a curiosidade em aprofundar seus
conhecimentos sobre a cultura, a época e a
história da “rainha do Nilo”.
Os alunos tiveram a oportunidade de
elaborarem e apresentarem uma peça de
teatro.
E, a discente faz o seguinte comentário
diante de desenvoltura e desenvolvimento
dos alunos ao apresentarem a peça, visto que
eles próprios criaram o texto, e, recursos:
‘_Eles fizeram tudo sozinhos, não
ajudei em nada’”
Uma relação dialógica, baseada na humildade e criatividade, pode
possibilitar o desenvolvimento de um ambiente em que a prática pedagógica
ensino aprendizagem pode conquistar então o seu objetivo: a construção de
novos saberes. A criatividade de um docente pode estimular a curiosidade de
seus educandos, e, nessa atmosfera de inquietação indagadora, impulsionar o
motor que nos move em direção à viagem que é a descoberta de novos
saberes.
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CONCLUSÃO
Qual é o principal objetivo da educação superior? Estamos preocupados
em formar cidadãos críticos? Nossas aulas, o conteúdo programático promove
esta atmosfera de pesquisa e extensão do conhecimento? Veja que o filme
que serviu como caminho para a reflexão dessa relação educador-educando e
consequentemente, suas práticas pedagógicas, foi um enredo cujos alunos
eram crianças com não mais do que dez anos de idade.
Contudo, devido ao bom relacionamento estabelecido entre docente –
discente e o estímulo à curiosidade por novos saberes, despertada pela
docente por uso de sua criatividade, muito nos interessa, visto que, um dos
objetivos, por que não dizer, o principal objetivo do ensino superior, é despertar
no aluno esta curiosidade por novos saberes e a produção de conhecimento,
fruto de sua capacidade investigativa.
Não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino. Esse olhar
investigativo é necessário para se adquirir conhecimentos que depois serão
trocados. Mas, não podemos esquecer-nos do ingrediente humildade. Esta
permite que seja criado nesta relação docente-discente, um elo de confiança,
que possibilite os erros e os acertos. E, se não o chamaremos “erro”, podemos
substituir pela palavra “diversidade”. Cabe ao docente respeitar os saberes
construídos no cotidiano, convivência, e vivencia de cada indivíduo. Ensinar
não é simplesmente transmitir conhecimentos, exige a consciência de que o
educando possui a sua autonomia intelectual.
Como docentes compreender e assumir uma postura crítica frente à
teoria do ensino “bancário”. “Na visão ‘bancária’ da educação, o “saber’ é uma
doação dos que se julgam sábios aos que julgam nada saber.” (FREIRE, 2006)
Tal postura está longe de ser um valor pautado na humildade, e sim, na
soberba, que só dificulta o diálogo e acaba por criar, não uma relação
horizontal entre docente e docente.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro, Paz e Terra, (2005)
33
“O educador é que educa; os
educandos, os que são educados;
O educador é o que sabe; os
educandos, os que não sabem;
O educador é o que pensa; os
educandos, os pensados;
O educador é o que diz a
palavra;
os
educandos,
os
que
escutam docilmente;
O educador é o que disciplina;
os educandos, os disciplinados;
...
O educador escolhe o conteúdo
programático; os educandos, jamais
ouvidos nesta escolha, se acomodam a
a ele;
O
educador
autoridade
do
autoridade
funcional,
antagonicamente
identifica
saber
a
com
que
liberdade
a
sua
opõe
dos
educandos; estes devem adaptar-se as
determinações daquele;
“O educador, finalmente, é o
sujeito do processo; os educandos,
meros objetos.”
(FREIRE, 2005)
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro, Paz e Terra, (2005)
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Nessa relação educador-educando, o educador precisa estar acessível
às indagações dos alunos. Possuir competências que o possibilitem criar uma
atmosfera favorável para esta troca ensino-aprendizagem. Auto avaliar-se e
identificar se em suas características pessoais e ou intelectuais, há um caráter
propenso a desenvolver esta postura de “educador bancário” descrita acima.
Para não correr o risco de tornar-se um mero transmissor, “depositador” de
conteúdos.
Investir em culturas gerais, dominar conhecimentos específicos de sua
aula é preciso. Dá-se a necessidade também de conhecer e reconhecer os
fundamentos psicológicos e biológicos que interferem no processo ensino
aprendizagem. Afinal, a realidade escolar é uma obra socialmente construída
por aqueles que a vivenciam.
O aluno de ensino superior, considerando, por exemplo, o ensino
presencial da graduação, pode estar matriculado naquela instituição movido
por diferentes objetivos. Considerar essa diversidade possibilita ao educador
criar espaços para troca de experiências e vivências, estimulando a dimensão
coletiva da ação educativa.
Uma ferramenta que o docente pode fazer uso são as dinâmicas de
grupo. É uma das práticas pedagógicas que requerem humildade e
criatividade. Ao aplicar uma dinâmica de grupo com técnica de apresentação,
por exemplo, o docente possibilita naquele momento o reconhecimento das
identidades, além de promover a integração e estimular a inclusão.
É possível aprender e ensinar de forma prazerosa e curiosa. O lúdico
não é dádiva somente da educação infantil. Vale ressaltar, que tais práticas de
dinâmica de grupo pelos docentes no ensino superior requerem pesquisa,
curiosidade e o uso da criatividade.
Para que essa relação docente-discente alcance os objetivos esperados
é importante questionar seus objetivos enquanto docente. Um questionamento
que pode ser um passo inicial: Qual é o papel da minha disciplina na formação
desse graduando? Como posso tornar esse “saber” atrativo e útil para que
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ensinando o docente possa estar aprendendo, e aprendendo, possamos estar
ensinando?
E, falando-se em criatividade, as ferramentas utilizadas pela educação a
distancia, também podem ser usadas no âmbito sala de aula. O uso dos
recursos da Tecnologia da Informação e Comunicação, como “blogs”, “chats”,
e, inclusive, as redes sociais, podem ser estratégias que promovam a inclusão,
a integração, despertem a curiosidade e a prática da criatividade na
disseminação de saberes.
As relações humanas exigem dedicação constante. É como o
trabalhado de um agricultor, que semeia de manhã, semeia à tarde, por não
saber se todas as sementes darão frutos. O bom semeador é incansável e
sabe esperar, com paciência, pela colheita preciosa. Que os docentes,
discentes, educadores, educandos, seres em geral nunca se cansem de fazer
o bem. Pois, se não desanimarem, colherão quando chegar o tempo. E, o que
tiver que fazer que faça o melhor que puder. Afinal, estamos vivos.
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“O fim de uma coisa vale mais do que
o seu começo.”
(Rei Salomão)
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BIBLIOGRAFIA
AULAS DO CURSO DE PÓS GRADUAÇÃO LACTO SENSU EM DOCENCIA
DO ENSINO SUPERIOR – Turma T207813 – 2011/2012
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro, Paz e Terra, (2005)
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. Rio de Janeiro, Paz e Terra, (1995)
ZIRALDO. Uma Professora Muito Maluquinha. São Paulo, Cia, (1995)
WEBGRAFIA
Não há docência sem discência
< http://escrevendo1.blogspor.com.br> 23/03/2012
Orgulho e humilde
<http://ilove.terra.com.br/sergioavelhaneda/palestras/o_orgulho_e_a_humildad
e.asp> 24/03/2012
38
ÍNDICE
FOLHA DE ROSTO
2
AGRADECIMENTO
3
DEDICATÓRIA
4
RESUMO
5
METODOLOGIA
7
INTRODUÇÃO
10
CAPÍTULO 1
13
CAPÍTULO 2
25
CONCLUSÃO
32
BIBLIOGRAFIA
37
WEBGRAFIA
37
ÍNDICE
38
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