A atuação do psicólogo escolar fundamentada na psicanálise: uma questão ética
Le travail du psychologue scolaire fondé sur la psychanalyse: une question
éthique
Aline Anselmo (UFPR)
Resumo
O presente estudo tem como objetivo refletir sobre a proposta ética da psicanálise na atuação do psicólogo
escolar. Utilizou-se o método qualitativo de pesquisa, na forma de estudo de caso.
Analisam-se dois casos de universitários com dificuldades acadêmicas, atendidos durante um determinado
período do ano de 2008, no contexto de um serviço de atendimento psicopedagógico ao estudante de uma
instituição privada de ensino superior, localizada na região sul do Brasil.
As demandas de atendimento desse serviço incluíam, em sua maioria, dificuldades acadêmicas, dificuldades ou
problemas no relacionamento interpessoal (entre alunos ou entre alunos e professores) e dúvidas relativas à
escolha do curso universitário. Os acadêmicos atendidos chegavam ao serviço espontaneamente ou
encaminhados pelo corpo docente e passavam por entrevistas com a psicóloga responsável, que realizava a
orientação ou o encaminhamento.
Durante as entrevistas, os estudantes eram solicitados a falar e refletir sobre sua queixa, a fim de
encontrarem, eles próprios, as causas e as possíveis soluções para seu problema. Tal abordagem se fundamenta
na noção de ética proposta pela psicanálise, que considera a existência do inconsciente como determinante dos
acontecimentos psíquicos, particulares para cada sujeito. Há algum tempo se discutem as possibilidades de se
atuar, a partir dessa ética, no contexto escolar, o que tem gerado inúmeras propostas de diálogo e de trabalho
conjunto entre psicanálise e educação.
Apesar das diferenças de cada caso relatado, foi possível demonstrar que o atendimento de demandas
acadêmicas, baseado na ética psicanalítica, considera a particularidade dos sujeitos e de seus problemas, a
subjetividade contida no seu sintoma e, ainda, aposta nas possibilidades do sujeito apesar dos limites impostos
por um diagnóstico de déficit orgânico.
Conclui-se que, embora a experiência relatada tenha se dado no ensino superior, a ética da psicanálise pode
permear a atuação de profissionais em todos os demais contextos escolares, desde que se leve em conta
princípios fundamentais da teoria e técnica psicanalíticas.
Palavras-chave: psicólogo escolar, ética psicanalítica, contexto escolar
Résumé
Cette étude a pour but de réfléchir sur la proposition éthique de la psychanalyse au sein du travail du
psychologue scolaire. Pour cela, la méthode qualitative de recherche a été employée sous forme d'étude de
cas.
Ont été analysés deux cas d'étudiants en détresse universitaire, suivis pendant une certaine période de l'année
2008, dans le contexte d'un service de support psychopédagogique aux étudiants d'une institution privée
d’enseignement supérieur, situé au sud du Brésil.
Les demandes issues de ce service comprenaient majoritairement des détresses universitaires, des problèmes
de relations interpersonnelles (entre étudiants et entre étudiants et professeurs) et des doutes relatifs au choix
du cours universitaire. Les étudiants suivis demandaient ce service de leur initiative ou étaient envoyés par le
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corps enseignant, et faisaient un entretien avec la psychologue responsable, qui effectuait l'orientation ou les
reconduisait à un autre service.
Pendant l'entretien, les étudiants étaient encouragés à parler et à réfléchir sur leurs plaintes afin d'identifier
les causes de leurs problèmes et de trouver par leurs propres moyens les solutions pour les résoudre. Cette
approche est basée sur la conception d'éthique proposée par la psychanalyse, qui considère l'existence de
l'inconscient un facteur déterminant des mouvements psychiques particuliers à chacun. Depuis quelque temps
on discute les possibilités de travailler, à partir de cette éthique, dans le contexte scolaire, ce qui a donné lieu
à d'innombrables propositions de dialogues et de travaux conjoints entre la psychanalyse et l'éducation.
Malgré les différences de chaque cas, il a été possible de démontrer que les suivis de ces demandes au sein de
l'académie, basés sur l'éthique psychanalytique, prennent en compte la particularité des sujets et de leurs
problèmes, la subjectivité de leurs symptômes et parient encore sur la capacité du sujet malgré les limitations
imposées par un diagnostic de déficit organique. On conclut que, même si l'expérience relatée a eu lieu dans le
contexte de l'enseignement supérieur, l'éthique de la psychanalyse peut être employée dans le travail des
professionnels dans tout contexte scolaire, si l’on prend toujours en compte les principes fondamentaux de la
théorie et de la technique psychanalytiques.
Mots-clés: psychologue scolaire, éthique psychanalytique, contexte scolaire
Alguns estudos realizados no Brasil têm mostrado a atual recorrência de casos de universitários com
problemas no processo e na consolidação do aprendizado em instituições de ensino superior (Witter, 1998;
Watanabe, 2000; Ferrari e Sekkel, 2007; Ferreira, 2007). A grande oferta de vagas tem permitido que os
estudantes – mesmo aqueles que apresentam graves dificuldades escolares – tenham acesso ao ensino superior
privado sem passar por vestibulares concorridos ou mesmo seletivos. Programas destinados a ampliar as
universidades públicas também estão voltados à ampliação do número de vagas nessas instituições,
possibilitando o ingresso às pessoas pertencentes a grupos historicamente desprovidos de condições de acesso
às universidades públicas (afro-descendentes, indígenas, alunos de escolas públicas, dentre outros).
Além das dificuldades psicopedagógicas, existem ainda diversas outras dificuldades que o estudante
encontra ao ingressar em faculdades e universidades, que vão desde condições financeiras para se manter nos
estudos, de acessibilidade física, até de adaptação às rotinas e exigências acadêmicas e incertezas em relação
à escolha do curso universitário (Serpa e Santos, 2001). Ferrari e Sekkel (2007) alertam que “(...) se o ingresso
de tal aluno foi legitimado pelo exame vestibular ou processo seletivo, ele tem o direito de encontrar
condições de permanência e conclusão do curso que levem em consideração as suas dificuldades” (2007,
p.645).
É para atender a esta demanda que se inserem os serviços de apoio psicopedagógico ao universitário,
uma prática que tem crescido dentre as instituições de ensino superior brasileiras, tanto públicas quanto
privadas. Nesse contexto se desenvolveu a experiência que será relatada na presente pesquisa. Trata-se do
trabalho do psicólogo escolar em um serviço de atendimento psicopedagógico ao aluno de uma instituição de
ensino superior privada, localizada na região sul do Brasil. O foco do estudo é a atuação do psicólogo
fundamentada na psicanálise, experiência que será ilustrada por meio do relato de dois casos de alunos com
dificuldades acadêmicas atendidos durante um período do ano de 2008.
Embora a psicanálise seja um método de trabalho desenvolvido exclusivamente nos consultórios – já
que todo seu aparato teórico e técnico tenha sido desenvolvido por Freud com base em seus casos clínicos – sua
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aplicação, ou extensão, a outros contextos tem sido pensada desde o próprio Freud, que dedicou uma de suas
conferências – a Conferência XXXIV – às aplicações da psicanálise a outras ciências, dentre elas a educação.
Além de fornecer todo o seu arsenal teórico à interpretação de fenômenos que ocorrem fora do
contexto analítico, a psicanálise pode fundamentar a prática do analista fora desse contexto. Entretanto, não
se faz clínica psicanalítica fora do consultório, mas sim se atua fundamentado na ética da psicanálise,
concepção que será abordada na seqüência do trabalho.
A ética em psicanálise
Segundo Di Matteo (2006), estudioso da obra freudiana a partir de uma perspectiva filosófica, existe
uma preocupação ética que perpassa a obra de Freud e que está evidenciada em sua prática clínica. Foi
amparado nesta prática, isto é, nas descobertas que empreendeu a partir do funcionamento mental de seus
pacientes, que Freud desenvolveu toda a concepção que embasa o método psicanalítico.
Embora no início do movimento psicanalítico Freud ainda acreditasse na cura das neuroses pela
psicanálise, o final de sua obra é marcado por um pessimismo, resultado de suas investigações acerca da
relação eternamente conflituosa entre o homem e a civilização, bem como do desamparo que marca a
subjetividade e a descoberta da pulsão de morte. Ademais, a psicanálise entende o homem enquanto um
sujeito determinado pelo seu inconsciente e, ao mesmo tempo, responsável pela sua neurose e pelos seus
sintomas.
É, então, considerando tais aspectos acerca da vida subjetiva dos homens, que se fundamenta um
modo de se fazer psicanálise:
A prática psicanalítica não se inscreve num projeto terapêutico de caráter científico,
inspirado no paradigma da medicina; nem num projeto de salvação de natureza e
inspiração religiosa. Sem promessas de cura e certezas para oferecer, a psicanálise
apenas ajuda o sujeito a conviver com seu intransponível desamparo e a literalmente
inventar um estilo de vida condizente com a singularidade do seu desejo. (Di Matteo,
2006, p.64)
Na medida em que entende o homem enquanto um ser singular, a psicanálise adota um método
próprio de investigação e tratamento. Em 1905, Freud utiliza uma comparação feita por Leonardo da Vinci
acerca da pintura e da escultura: enquanto a pintura deposita sobre a tela partículas de tinta que antes não
estavam ali, a escultura retira da pedra o que encobre a superfície da estátua que já existe ali. O método
analítico, segundo Freud, assemelha-se à escultura, pois
(...) não pretende acrescentar nem introduzir nada de novo, mas antes tirar, trazer
algo para fora, e para esse fim preocupa-se com a gênese dos sintomas patológicos e
com a trama psíquica da idéia patogênica, cuja eliminação é sua meta. (Freud, 1905
[1904], p. 247).
Portanto, a proposta ética da psicanálise, independente do contexto onde ela se aplique, considera a
existência de uma verdade que está por trás daquilo que aparece na superfície. Esta verdade é particular para
cada sujeito e é passível de ser desvendada, ainda que parcialmente, pela via da psicanálise.
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Há algum tempo se discutem as possibilidades de se atuar, a partir dessa ética, no contexto escolar, o
que tem gerado inúmeras propostas de diálogo e de trabalho conjunto entre psicanálise e educação. As
construções acerca do tema demonstram claramente que a ética psicanalítica é que pauta qualquer
experiência, no contexto educacional, que se diz fundamentada na psicanálise.
Ainda que se referindo ao trabalho na clínica, o trecho que se segue retrata de forma simples, mas
precisa, um modo de se fazer psicanálise que se aplica também a outros contextos:
Não há, em psicanálise, um saber que possa ser aplicado a todos os indivíduos. Cada
pessoa, apesar de compartilhar de angústias semelhantes com outros seres humanos,
tem o seu psiquismo estruturado de forma original. A cada análise, o psicanalista
necessita despojar-se do que já conhece teoricamente sobre o psiquismo humano,
para poder perceber o original e novo que o seu paciente lhe apresenta. (Safra,
1993, p.126)
Psicanálise e educação
As construções teóricas sobre as conexões possíveis entre psicanálise e educação tiveram início com o
próprio Freud, que atribuiu extrema importância ao tema. Embora não tenha se dedicado exclusivamente à
questão em um único texto, em diversas passagens de sua obra encontram-se referências à educação e à sua
relação com a psicanálise. (Freud, 1905, 1913, 1914, 1925, 1933 [1932]).
As elaborações freudianas tratam diretamente da relação entre a psicanálise e a educação na
perspectiva do autor e atualmente, em conjunto com outros conceitos psicanalíticos, têm servido de base para
que psicanalistas dedicados ao assunto formulem propostas de trabalho no contexto educacional.
No final da década de 1970, a francesa Catherine Millot – referência nos estudos sobre a relação entre
psicanálise e educação – trabalhou sobre as possibilidades de haver uma pedagogia que levasse em conta os
conhecimentos e o método de trabalho da psicanálise, mas concluiu que isso não era possível, em virtude da
distância entre as duas propostas: a psicanálise pretende trazer à tona o que a educação pretende barrar.
Segundo essa autora, a relação possível entre psicanálise e educação se daria apenas “(...) pela psicanálise do
educador e da criança” (Millot, 1979, p.157).
Durante algum tempo, essa concepção prevaleceu entre os pesquisadores do tema. Na década de
1980, Kupfer (1989), ao apresentar a psicanálise aos educadores, descartou a possibilidade de aplicação da
psicanálise como instrumento para a prática desses profissionais, tal como havia proposto Millot.
Fundamentada nas descobertas e na lógica psicanalíticas, Kupfer limita, ao final desse trabalho, a contribuição
da psicanálise à geração de uma filosofia de trabalho aos educadores:
(...) a Psicanálise pode transmitir ao educador (e não à Pedagogia, como um todo
instituído), uma ética, um modo de ver e de entender sua prática educativa. (...)
Cessa aí, no entanto, a atuação da Psicanálise. Nada mais se pode esperar dela, caso
se queira ser coerente com aquilo de que se constitui essencialmente a aventura
freudiana. (Kupfer, 1989, p.97).
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Uma década depois, a autora revê suas elaborações anteriores e modifica sua posição. Na introdução
de seu mais recente trabalho, ela afirma: “pode-se falar em educação orientada pela psicanálise.” (Kupfer,
2007, p.10) e cita diversos outros trabalhos – não apenas no Brasil, mas também na França, na Argentina e na
Bélgica – que demonstraram a possibilidade de se educar de modo psicanaliticamente orientado.
Porque visam ao sujeito na criança que aprende, essas formulações acabam por
provocar inflexões no campo das práticas educacionais conhecidas, fazendo pensar
inclusive que se pode conceber o ato educativo de outro modo. (2007, p.10).
É, portanto, para as contribuições possíveis da psicanálise à prática dos educadores que atualmente os
estudos sobre psicanálise e educação estão voltados. Contribuições que vão além da leitura psicanalítica do ato
educativo.
Ao propor uma educação para o sujeito a autora vislumbra uma modificação na forma como os
educadores concebem o aluno. E na medida em que se fala em sujeito, fala-se em particularidades, inclusive
no modo como aprende ou não aprende. Kupfer (2007) fala em estilos cognitivos, isto é, a marca de cada
sujeito na sua relação com o conhecimento. Ao saber disso, o educador, em conjunto ou não com o
psicanalista, poderá conduzir seu aluno para seu próprio estilo cognitivo.
Tanto na educação especial quanto na regular, a psicanálise propõe um trabalho de escuta dos
educadores, por um lado, e de transmissão da teoria psicanalítica a esses profissionais, por outro. Escutam-se
suas angústias diante do diferente, do que foge ao padrão. Transmite-se sobre sexualidade infantil,
transferência professor-aluno, o que é educar, e qualquer outro tema que possa auxiliar na prática educativa.
Segundo Colli (2008), ao conhecer a teoria o educador pode sustentar a sua função, além de ter reduzido o
nível de angústia presente no ato de educar.
No campo das conexões entre psicanálise e educação ainda são encontradas referências consistentes
para se refletir e agir diante das queixas relacionadas a problemas no aprendizado. Do ponto de vista da
psicanálise, a dificuldade de aprendizagem deve ser questionada tal como se questiona qualquer queixa na
clínica, ou seja, pergunta-se ao próprio sujeito o que ele pensa a respeito da sua dificuldade.
(...) a escuta do sujeito possui o alcance de integrar ao diagnóstico da dificuldade de
aprendizagem a dimensão subjetiva, que, para a psicanálise, se configura como a
única via possível para a transformação da queixa escolar em uma demanda de
tratamento propriamente analítico. (Santiago, 2005, p.29).
Sem recusar a importância da investigação pedagógica das dificuldades de aprendizagem, essa autora
prioriza um método de investigação que leve em conta a subjetividade do sujeito, colocando o analista na
posição de não-saber diante da queixa. Não se trabalha no sentido de atingir um objetivo pré-determinado,
mas sim no sentido de um desvendamento da dificuldade e sua transformação em questão.
Tanto as elaborações de Freud quanto as dos pós-freudianos são dedicadas à relação entre a
psicanálise e a educação de crianças, já que a infância marca a época em que a criança começa a assimilar a
cultura e se adaptar à vida em sociedade, tendo a educação um papel primordial para que isso aconteça.
Contudo, a relação com o conhecimento atravessa a infância e chega ao mundo adulto, podendo gerar
problemas, como é o caso de universitários com dificuldades acadêmicas. Ademais, o ingresso na educação
superior é passível de gerar muita angústia no sujeito, que se encontra diante de situações novas ou mesmo de
repetições de situações vivenciadas na infância.
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Método
O objetivo do presente estudo é refletir sobre a proposta ética da psicanálise na atuação do psicólogo
escolar. Para atingir o objetivo proposto utilizou-se o método qualitativo de pesquisa, na forma de estudo de
caso. Analisam-se dois casos de universitários com dificuldades acadêmicas, atendidos durante um determinado
período do ano de 2008, no contexto de um serviço de atendimento psicopedagógico ao estudante de uma
instituição privada de ensino superior, localizada na região sul do Brasil. A análise dos casos têm como
fundamento a teoria psicanalítica, mais especificamente a psicanálise freudiana.
A escolha dos dois casos, dentre inúmeros outros atendidos no mesmo contexto, se deu pelo fato de
ambos possuírem elementos que permitam ilustrar as possibilidades de atuação do psicólogo escolar
fundamentado na psicanálise. Além disso, ambos os casos foram discutidos em supervisão, o que garante uma
maior objetividade das observações apresentadas na pesquisa. Segundo Safra (1993), a supervisão “auxilia o
pesquisador a discriminar suas reações contratransferenciais, para submetê-las à análise e prosseguir em seu
trabalho de investigação.” (p. 131).
Em virtude da importância de se preservar o sigilo profissional e a privacidade dos estudantes
atendidos, utilizam-se nomes fictícios e são relatados apenas aspectos de suas histórias necessários para a
compreensão do tema que está em discussão. Ainda que a omissão de alguns elementos dos casos traga algum
prejuízo à sua compreensão, optou-se por ela para evitar a identificação dos estudantes.
A atuação do psicólogo escolar fundamentada na ética psicanalítica
O contexto
A experiência se deu no contexto de um serviço de atendimento psicopedagógico ao estudante de uma
instituição privada de ensino superior, localizada na região sul do Brasil. As demandas de atendimento desse
serviço incluíam, em sua maioria, dificuldades acadêmicas, dificuldades ou problemas no relacionamento
interpessoal (entre alunos ou entre alunos e professores) e dúvidas relativas à escolha do curso universitário.
Os acadêmicos atendidos chegavam ao serviço espontaneamente ou encaminhados pelo corpo docente e
passavam por entrevistas com a psicóloga responsável, que realizava a orientação ou o encaminhamento. A
proposta das entrevistas era transformar a queixa inicial em uma questão para o aluno, que muitas vezes
chegava ao atendimento esperando que, ao invés disso, conseguiria uma resposta. No momento em que uma
questão se fazia possível, um encaminhamento para que ele continuasse pensando tal questão poderia ser
realizado. Caso contrário, não existiria possibilidade de colocá-la em análise.
Durante as entrevistas, os estudantes eram solicitados a falar e refletir sobre sua queixa, a fim de
encontrarem, eles próprios, as causas e as possíveis soluções para seu problema. Tal abordagem se fundamenta
na noção de ética proposta pela psicanálise, que considera a existência do inconsciente como determinante dos
acontecimentos psíquicos, particulares para cada sujeito.
No contexto psicanalítico, a adoção do método de trabalho acima mencionado não causa
estranhamento. Entretanto, em um contexto educacional, onde o discurso dominante é o de adaptação a um
padrão de rendimento e os diagnósticos se apresentam com muita rigidez, o individual (o caso a caso) parece
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muito estranho. Os efeitos da escuta psicanalítica realizada poderão ser verificados nos relatos dos dois casos
que se seguem.
Caso 1:
Elisa chegou ao atendimento por iniciativa própria. Sua queixa era de uma forte ansiedade no
momento de realizar as provas, a ponto de não conseguir responder às questões. Tal ansiedade resultou em
reprovação, apesar de dedicar longo tempo aos estudos. A suspeita do corpo docente era de algum distúrbio de
memória. Durante algumas entrevistas, Elisa pôde perceber que tal ansiedade estava relacionada não a um
problema de memória, mas sim ao que ela nomeou de “mais um”, ou seja, algo que, ao ser acrescentado
àquilo que ela já sabia ou havia programado, gerava forte ansiedade e, conseqüentemente, dificultava a
resolução do problema. Como exemplo, a aluna relatou as questões da prova, que são diferentes daquelas
realizadas em sala de aula ou durante os estudos; qualquer elemento a mais nessas questões era suficiente
para angustiá-la. A aluna relatou outras situações, além das provas, em que era tomada pela ansiedade, como
quando acontecia de marcar algum compromisso em determinada hora e ter que desmarcá-lo por qualquer
motivo. Segundo ela, durante as horas em que deveria estar naquele compromisso desmarcado ela não
conseguia fazer nada, pois já havia programado que, naquele momento, estaria naquele compromisso. Os
motivos que levaram ao desenvolvimento de tais manifestações sintomáticas e qual o significado do “mais um”
não puderam ser explorados mais a fundo, mas se transformaram no enigma a ser desvendado em um espaço
de análise, ao qual Elisa foi encaminhada. Alguns meses após a finalização das entrevistas, a aluna foi
encontrada e relatou não apresentar mais aquela ansiedade inicial: “O mais um ainda me atrapalha”, ela disse,
“mas tenho conseguido resolver os problemas das provas”. Embora não estivesse em análise, a aluna pôde
colocar em palavras o que se passava com ela em relação às provas e sabia que aquilo consistia em uma
questão. Pode-se supor então que, percebendo que sua queixa inicial era algo que atingia sua vida como um
todo, não necessitava realizar o “mais um” na aprendizagem.
Caso 2:
Maria chegou ao atendimento encaminhada por uma professora, cuja queixa era de um estranhamento
do corpo docente em relação à aluna, que apresentava comportamento “infantilizado e ingênuo” diante de
assuntos pessoais. Além disso, a aluna falava muito rápido, o que dificultava o entendimento do grupo de
colegas quando da apresentação de trabalhos em público. Ao ser chamada para o atendimento, ela concordou
em realizar algumas entrevistas para falar sobre suas dificuldades. Levantou-se a hipótese de uma estrutura
psicótica, com base em seus relatos sobre experiências do passado (na adolescência a aluna havia sofrido de
delírios e alucinações) e no seu modo atual de lidar com as situações da vida. Além disso, tinha uma relação
familiar onde era poupada das dificuldades da vida. A proposta dos atendimentos (e a exigência da própria
instituição de ensino) era fazer justamente o contrário: a aluna tinha que se deparar com as dificuldades do
mundo e com as próprias dificuldades, sem ser poupada de enfrentar os problemas da faculdade. Ou seja,
apesar da hipótese da estrutura psicótica, a proposta de trabalho com a aluna foi verificar até que ponto ela
poderia fazer um laço com o ambiente acadêmico e enfrentar as dificuldades, diferente de como era tratada
no ambiente familiar. Para complementar esse trabalho, os professores foram informados sobre o modo
diferente de Maria, mas orientados a não modificar modos de avaliação, por exemplo, para favorecê-la. Desta
forma, sendo acompanhada durante alguns meses, foi possível perceber que a aluna tinha uma capacidade
muito grande de se adaptar às novas situações que enfrentava, apesar de em outros momentos da sua vida ter
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precisado romper com a realidade com delírios e alucinações. Suas associações já não eram caracterizadas por
tanta superficialidade e foi possível perceber algumas modificações em seu comportamento. A escuta, somada
a uma aposta em suas capacidades, geraram algumas transformações importantes.
Considerações finais
Diante das experiências relatadas pode-se concluir que é possível inserir-se em um contexto
educacional com a ética psicanalítica. Entende-se que essa inserção se deu através do modo de acolher e
escutar as queixas, portanto do método de trabalho. Permanece como principal contribuição à presente
pesquisa o modo como a psicanálise propõe uma escuta dos problemas escolares, que pode ser aplicado ao
contexto institucional.
Caminhar pelas contribuições de Freud e de psicanalistas pós-freudianos sobre a conexão entre e
psicanálise e a educação, serviu para, muito mais do que contextualizar o tema deste trabalho, entender que
atuar profissionalmente a partir da psicanálise é adotar uma ética e um modo psicanalíticos de acolher e ouvir
o sujeito. Foi possível perceber, nas experiências relatadas, que essa ética produz efeitos talvez fundamentais
para que o aluno prossiga na sua trajetória acadêmica.
Apesar das diferenças de cada caso relatado, foi possível demonstrar que o atendimento de demandas
acadêmicas baseado na ética psicanalítica considera a particularidade dos sujeitos e de seus problemas, a
subjetividade contida no seu sintoma e, ainda, aposta nas possibilidades do sujeito apesar dos limites impostos
por um diagnóstico de déficit orgânico.
Conclui-se que, embora a experiência relatada tenha se dado no ensino superior, a ética da psicanálise
pode permear a atuação de profissionais em todos os demais contextos escolares, desde que se leve em conta
princípios fundamentais da teoria e técnica psicanalíticas.
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