POLÍTICAS CURRICULARES, CENTRALIZAÇÃO CURRICULAR E IMPACTOS NA FORMAÇÃO DOCENTE: UMA ANÁLISE DO DOCUMENTO PÁTRIA EDUCADORA Rita de Cássia Frangella1 - UERJ Débora Barreiros2 - UERJ Aura Helena Ramos3 - UERJ Grupo de Trabalho - Cultura, Currículo e Saberes Agência Financiadora: FAPERJ Resumo A compreensão das recentes reformas para a formação de professores no Brasil exige que alarguemos a moldura sob a qual são vistas, incluindo nesse quadro as instâncias de debates e formulação de sentidos para essa problemática, esfera onde se disputa uma hegemonia discursiva que busca se consolidar nas políticas propostas. Neste estudo, colocamos em destaque a problematização em torno de uma temática que tem mobilizado as discussões acerca das políticas educacionais: o investimento e defesa de produções curriculares pautados por uma perspectiva de centralização como estratégia política para o alcance da tão desejada qualidade em educação e democratização da mesma. Para tanto, elegemos como foco de análise o documento “Pátria Educadora (2015) ” que traça um plano de ação estratégica para a qualificação do ensino básico. Arguir os sentidos de currículo que se depreendem de uma proposta de centralização curricular e seus impactos na formação e trabalho docente é importante para pensar os efeitos das políticas em debate, pondo em questão os significados produzidos e reclamando participação na produção dessas políticas. Para tanto, temos assumido como balizador o entendimento do currículo como prática discursiva, enunciação cultural e para tanto, operamos com os aportes da teoria do discurso de Ernesto Laclau para análise das articulações discursivas que se movem e constituem tal política, bem como nas discussões acerca de cultura e diferença de Homi Bhabha (2001), reconhecendo a ação política pelo viés da enunciação cultural requer compreender o currículo como espaço 1 Doutora em Educação (UERJ, 2006). Professora adjunta da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Grupo de Pesquisa Currículo, Formação e Educação em Direitos Humanos (GECDH) E-mail: [email protected] 2 Doutora em Educação (UERJ, 2009). Professora adjunta da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Grupo de Pesquisa Currículo, Formação e Educação em Direitos Humanos (GECDH) E-mail: [email protected] 3 Doutora em Educação (UERJ, 2010). Professora adjunta da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Grupo de Pesquisa Currículo, Formação e Educação em Direitos Humanos (GECDH) E-mail: [email protected] ISSN 2176-1396 36194 discursivo, onde o trabalho de significação se dá no encontro com a diferença, em meio a negociações contingenciais. Palavras-chave: Políticas curriculares. Formação de professores. Discurso Introdução Ao longo dos últimos anos, no contexto das pesquisas que temos desenvolvido, dedicamo-nos ao estudo de políticas curriculares, ainda que, com diferentes enfoques, observando como, em processo de fazer-se, estas vão sendo apropriadas, reconfiguradas, criadas no contexto específico das escolas, dando ênfase ao trabalho realizado por professores-professoras como curriculistas, na produção que fazem do currículo. Assim, temos destacado o entendimento do currículo com campo de produção cultural, espaço-tempo de negociações que hibridizam discursos, concepções e práticas produzidas nos diferentes contextos que concorrem para sua produção. Argumentamos que as políticas curriculares não podem tomar a escola como ponto de referência ou ancoragem apenas, pelo fato de ser também na escola que as políticas de currículo se constituem, via disputas e negociações de saberes e poderes que legitimam e hegemonizam provisoriamente sentidos. Para tanto, temos assumido como balizador o entendimento do currículo como prática discursiva, assentado na perspectiva de Ernesto Laclau (1998) que defende que as políticas são produções político-discursivas, cuja matriz é a contingência. Em outras palavras, implica pensar que o currículo, em seus movimentos instituintes, não se dá com base em sentidos apriorísticos, mas toma forma no campo da indecibilidade, nas articulações entre diferentes contextos. Assim, em diálogo com as escolas, observamos tensões, negociações, os movimentos de transformação/reapropriação/invenção do currículo numa tensão: universal/particular, ou seja, da totalização proposta de uma proposta una e o localismo do cotidiano das diferentes escolas. Enfatizamos aqui o uno, no sentido de centralização que tem pautado as discussões em torno das políticas de currículo contemporaneamente. Problematizamos o sentido de comum que se transmuta em uno/homogeneizado. Essa tensão reencenada sob vários nomes, mais uma vez se coloca no horizonte de discussões em torno das Bases Curriculares Comuns Nacionais. É nesse cenário e essa problemática que nos mobiliza a discussão que aqui apresentamos. Arguir os sentidos de currículo que se depreendem de uma proposta de centralização curricular e seus impactos na formação e trabalho docente é importante para 36195 pensar os efeitos das políticas em debate, pondo em questão os significados produzidos e reclamando participação na produção dessas políticas. Assim, elegemos como objeto de análise o documento “Pátria Educadora” (2015) que, em linhas gerais, apresenta a orientação para a produção das bases curriculares comuns nacionais, bem como a política nacional de formação de profissionais da educação básica a ela articulada. Diante deste contexto, assumimos para análise o currículo como política cultural, o que implica entendê-lo como campo de produção discursiva, principalmente por envolver confrontos de significações nos contextos de construção da política assumida pelo Ministério da Educação. Política de currículo numa perspectiva discursiva: sentidos de política e discurso Discutir políticas de currículo nos leva a delinear brevemente a concepção de política que nos orienta ao arguirmos os movimentos de produção curricular. Como produção político-discursiva, argumentamos que políticas curriculares se dão a partir das negociações e disputas em que os sentidos e interesses se hibridizam na formulação curricular, evidenciando sua condição de processo político inacabado. É no ato de negociar que significados são construídos dialogicamente, muitas vezes construindo com base em consensos conflituosos, uma vez que os sentidos são instáveis, fluidos e permeados por demandas e interesses distintos. Situar a questão do currículo no marco teórico de Laclau e Mouffe (2004), possibilita evitar a apreensão dos processos de produção de política curricular como uma luta polarizada entre forças excludentes, o hegemônico (prescrição que emana do poder) e o contrahegemônico (prática pedagógica escolar) como entidades fixas. Tal apreensão permite compreender que os contextos de produção curricular são instituídos e atravessados por múltiplas significações discursivas, hegemônicas e não-hegemônicas, e que no seu interior, a diferença se move identificada por demandas contingentes, que produzem articulações provisórias, instituintes de consensos precários forjados no que os autores denominam como o trabalho de significação. Ao assumirmos a dimensão política nos fundamentamos nos estudos de Chantal Mouffe (2003) para compreender os múltiplos discursos e o consenso conflituoso que envolvem a administração dos antagonismos. De acordo com a autora, quando reconhecemos a “dimensão do “político” e entendemos que “política” consiste em domar a hostilidade e 36196 tentar neutralizar o antagonismo que existe nas relações humanas, que podemos posicionar a questão fundamental para a política democrática” (p.15). Quando trabalhamos numa dimensão de antagonismo operamos com ações entre inimigos; já no agonismo, existe uma relação entre adversários. Neste trabalho, optamos por uma análise dentro de uma política democrática que visa transformar um “antagonismo” em “agonismo”, que permita reconhecer a multiplicidade de demandas e os conflitos existentes. Em outras palavras, o princípio democrático “do político” é o espaço de emersão da diferença, que ocorre dentro de um modelo de pluralismo agonístico, cuja qualquer busca por estabilidade do poder – hegemonia – implica em uma ação de exclusão, que reforça o processo conflitivo e possibilita a alternância do poder. Nesse contexto, a alternância de poder faz do ato político um espaço marcado por conflitos, disputas e negociações. É na dimensão do político (MOUFFE, 2003) que os discursos são formados, num terreno de conflitos que faz parte do movimento de produção curricular, permitindo a constante configuração das identidades coletivas, dentro das particularidades, em uma relação de conflitos, de propositura de projetos diversos, em que a hegemonização desses projetos seja sempre provisoriamente construída. De acordo com Lopes (2013), assumir a dimensão política requer pensar que o currículo assume uma dimensão que ao mesmo tempo busca regular sujeitos, atos e instituições, mas que também promove o caráter conflitivo e de movimentação que faz o processo político uma ação contingencial. Na acepção da autora, a política torna-se “o exercício da decisão que nos constitui como sujeitos, e essa decisão é sempre contingente, exige o risco da indeterminação: toda a opção política é sempre uma opção num conjunto imprevisto de possibilidades” (p.20). Nesse contexto em que a indecidibilidade (DERRIDA, 1998) é parte da ação política, todo movimento hegemônico busca produzir a estabilidade. O que nos possibilita pensar a necessidade de analisar o currículo como um espaço de negociação, evidenciando sua condição de processo político inacabado. É no ato de negociar que os significados são construídos, com base em consensos conflituosos, visto que são permeados por demandas e interesses distintos. Como nos afirma Laclau (1998): […] uma indecibilidade constitutiva penetra toda disposição estrutural. Dito de outro modo: nenhum sistema pode estar inteiramente protegido, dada a indecibilidade de suas fronteiras (ou seja, nenhum sistema pode ser uma eternidade spinoziana) […] isto explica nossa primeira tese: o deslocamento é o traço da contingência, dentro da estrutura (p. 112 – tradução livre). 36197 Compreendemos que as relações de saber-poder estão imersas nas lutas por espaço e legitimação diante do deslocamento que uma política curricular promove, por hibridizarem discursos e demandas, onde as enunciações culturais destacam-se pelas disputas hegemônicas presentes na atividade política. Reconhecer a ação política pelo viés da enunciação cultural requer compreender o currículo como espaço discursivo, em que o ato de enunciar permite um olhar mais dialógico por buscar “rastrear deslocamentos e realinhamentos que são resultado de antagonismos e articulações culturais – subvertendo a razão do momento hegemônico e recolocando lugares híbridos, alternativos de negociação cultural” (BHABHA, 2001, p.248). Pátria Educadora e centralização curricular: sentidos de currículo Neste estudo, colocamos em destaque a problematização em torno de uma temática que tem mobilizado as discussões acerca das políticas educacionais, em especial, aqueles o fazem a partir do campo do currículo: o investimento e defesa da Base Comum Curricular Nacional como estratégia política para o alcance da tal desejada qualidade em educação e democratização da mesma, no contexto de uma Pátria Educadora. Diante deste contexto, buscamos trazer uma leitura problematizadora do documento “Pátria Educadora: a qualificação do ensino básico como obra de construção nacional” (2015), que tem como foco a qualificação do ensino público elegendo quatro campos de iniciativas para tal empreitada: A transformação do ensino público que comece nestes pontos de partida deve incluir iniciativas em quatro campos: a organização da cooperação federativa na educação; a reorientação do currículo e da maneira de ensinar e de aprender; a qualificação de diretores e de professores e aproveitamento de novas tecnologias. (BRASIL, 2015, p.6) O jogo articulatório é o que consideramos a “jogada mestre” no que tange o documento “Pátria Educadora: a qualificação da educação básica como obra de construção nacional”, que já no seu título articular três significantes importantes e inquestionáveis no que tange à educação, a saber: pátria educadora - assumida como proposta de governo da Dilma Rousseff e que reforça o crescimento do país a partir da educação; qualificação da educação básica – operando com a questão da qualidade e da qualificação dos sujeitos e atores do processo educativo (alunos, professores, gestores), que é um discurso muito reforçado para que a educação possa melhorar o seu desempenho aos olhares dos exames nacionais e internacionais e; obra de construção nacional – que dentro do jogo político torna um projeto de governo uma proposta coletiva. Esses conceitos são considerados significados vazios por 36198 se tratar de conteúdos incorporados universalmente e que tendem a provocar uma situação de maior reconhecimento de diferenças em espaços de múltiplas cisões. O que compreendemos por significante vazio está ancorado em Laclau (2005) ao mencionar que quanto maior for a cadeia de equivalência, maior será a representação universal, dado que “[…]a demanda vai ter que se despojar de seu conteúdo preciso e concreto, afastando-se da relação com seu(s) significado(s) específico(s), transformando-se em um significante puro que é o que conceitua como sendo um significante vazio” (p. 3). Em outras palavras, mesmo que os confrontos demonstrem a impossibilidade de atender à demanda de cada um desses sujeitos, o caráter de demanda universal presente no documento busca definir sentidos capazes de compensar as ausências e lacunas presente na crise educacional. Inclusive, a legitimação ou superioridade de um discurso ocorre a partir das ligações que um significante vazio pode estabelecer com sentidos residuais, o que possibilita uma maior adesão ao projeto nacional. Nesse sentido, o documento “Pátria Educadora” como uma política nacional passa a ser vista como um objeto real de busca por centralização curricular e de impacto na ação docente, visto que “[...] opera com conceitos que acabam fixando os sentidos dessa e voltando a atenção para as interpretações, apropriações, embates, resistências às políticas, contudo essas permanecem como centro gravitacional das ações na/da escola e seus sujeitos, produto objetivo. (BARREIROS & FRANGELLA, 2007, p. 233). Interessante questionar como a adjetivação do nacional funciona como forma de homogeneização, numa visão horizontal de uma comunidade imaginada como assentada numa uniformidade, numa autoridade cultural que se estabilizaria em torno do nacional. Bhabha (2001) nos permite problematizar essa significação ao discutir a nação como uma forma de estratégia narrativa que funciona como forma de estabilização de uma complexa operação de identificação cultural. O autor propõe o deslocamento do historicismo que domina a discussão da nação e a localidade da cultura é movida pela temporalidade e não pela historicidade, o que volta atenção para uma operação híbrida de articulação de diferenças culturais, o que implica atentar para a temporalidade ambivalente desse espaço-nação. O que significa pensar que o novo modelo de política assumido transforma o discurso antes de pura implementação para o de ação coletiva. Na concepção de Burity, a lógica com que o opera acaba por assumir o discurso de “atores coletivos”, que “[...] os ameaça ou desafia, ou seja, os desloca, fornecendo-lhes as condições de aglutinarem grupos e pessoas díspares em torno de uma "preocupação" ou "demanda" comuns” (BURITY, 1998, p.3). 36199 Cabe destacar que o discurso de diálogo e cooperação é um dos eixos que compõem o ideário de transformação da qualidade presentes no documento: a organização da cooperação federativa na educação. O que significa construir o federalismo cooperativo no ensino básico? De acordo com o que é proposto, “não é federalizar o ensino básico. É organizar o federalismo cooperativo em educação” (BRASIL, 2015, p. 7). No entanto, todo procedimento busca reconciliar a gestão local com padrões nacionais, que a nosso ver é uma tentativa de centralização e controle do processo educativo, até porque trabalha a partir do monitoramento e correção das ações educativas em “obediência a critérios nacionais de qualidade” (p. 8). Sendo que opera pelo discurso do coletivo, do diálogo e da cooperação que permite um fechamento provisório dos sentidos produzidos dentro de esferas de disputa de poder. O fato de aglutinarem diferentes sujeitos e demandas possibilita uma leitura de aproximação e articulação, principalmente por permitir que o sujeito se veja representado dentro das distintas perspectivas que disputam sentidos numa política que opera dentro de um jogo político na perspectiva discursiva: Onde quer que uma experiência antagonística ou um deslocamento na estrutura (ordem das coisas, discurso hegemônico, status quo institucional, identidade grupal, etc.) produzam uma demanda articulada de tal forma que seu atendimento torna-se impossível nos limites da ordem estabelecida sem alterar esta última, sem por em xeque sua conformação hegemônica, estaremos em presença do político. Na medida em que demandas particulares, sem deixar de sê-lo, podem transformar-se em pontos nodais de articulação de vontades coletivas mais amplas, há um trabalho da articulação a ser realizado, que não é dado pela situação nem vem “de graça” pela boa vontade de outras demandas. Articulação, portanto, é termo chave: fala da construção de uma vontade coletiva pela transformação de uma demanda particular num objeto de investimento simbólico universal ou “representativo” da comunidade em geral; e fala das operações simbólicas que precisam ser realizadas para tal. (BURITY, 2010, p. 17) Destacamos no documento a leitura articulada de dois eixos do documento: currículo e formação, que fazem parte do “novo modelo de desenvolvimento - produtivista, capacitador e democratizante” (BRASIL, 2015, p.4). Observamos como esses se apresentam de forma interconectada e que imprimem sentidos a compreensão do currículo, de perspectivas de formação docente e do currículo da formação de professores. No que diz respeito ao currículo, documento afirma: O currículo como sequência de capacitações: sequência padrão e sequências especiais. O Currículo Nacional deve ser, portanto, organizado como sequência de capacitações, adquiridas e exercitadas em campos variáveis, sob o signo da primazia de aprofundamento sobre abrangência, à medida que o ensino médio avança para seus degraus superiores. (Exemplo interessante de esforço neste sentido é o currículo nacional australiano.) 36200 O currículo, porém, deve também comportar sequências especiais, para os alunos que enfrentem maior dificuldade ou que demonstrem maior potencial. As sequências especiais servirão como espaço ainda mais aberto do que a sequência padrão para o experimentalismo pedagógico e para a individualização do ensino. Tanto a sequência curricular padrão como as sequências especiais precisam ser encarnadas em rico repertório de protocolos disponibilizados aos professores. Os protocolos darão exemplos práticos e pormenorizados de como liderar cada aula em cada disciplina. Substituirão o livro didático na imprópria função de servir como guia curricular residual. (BRASIL, 2015, p.10-11) O trecho em destaque nos permite discutir o sentido de currículo que se depreende: a ideia currículo como guia descritivo de ações, práticas, conteúdos que devem ser postos em prática e para assegurar que isso se efetive, a criação de protocolos/modelos de práticas a serem incorporados pelos professores serão disponibilizados. Tal proposição se alinha a perspectivas curriculares instrumentais que reduzem a discussão do o que e por que ensinar ao como ensinar, o que desliza também para a questão a da atuação e formação docente que se circunscreve, nessa perspectiva, a questões técnico-didáticas em detrimento de outras facetas que são envolvidas na prática pedagógica em sua dinâmica e complexidade. Dito isso, ainda que sob o discurso de igualdade, o que se destaca é o entendimento dessa como uniformização, numa ação que centraliza as decisões curriculares, num esvaziamento do sentido do político, tal como argumentamos anteriormente que o constitui. Chama-nos atenção não só o caráter instrumental, mas todo viés psicologizante que se agrega à proposta da Pátria Educadora, que acredita que a qualidade almejada precisa ser trabalhada pelo que chamam de capacitações pré-cognitivas. O aluno brasileiro é visto pela sua incapacidade de reflexão analítica por suas limitações socioemocionais, para isso o documento destaca que é preciso “trabalhar no terreno de capacitações pré-cognitivas que faltam a crianças saídas da pobreza mais comumente do que faltam aos filhos da classe média” (BRASIL, 2015, p.13). Em outro momento, o documento argumenta que “grande parte da massa de alunos pobres no país enfrenta obstáculos que podem parecer intransponíveis em subir a escada das capacitações analíticas”. Tais afirmativas, a nosso ver, tem com premissa todo um discurso presente na teoria da carência e diferença cultural 4, que 4 A partir do início da década de setenta, as explicações que até então se centravam sobre as características individuais dos alunos deslocaram-se para a família e para o ambiente. Dentro dessa perspectiva, encontramos as teorias da carência cultural e da diferença cultural. A teoria da carência cultural postula que o fracasso escolar ocorre devido à deficiência ou privação cultural do aluno em decorrência das suas precárias condições de vida. Essa teoria incentivou o desenvolvimento de projetos de educação compensatória no Brasil, contribuindo para o “aprofundamento da má qualidade da escola que se oferece ao povo, na medida em que justifica um barateamento do ensino que acaba realizando a profecia segundo a qual os pobres não têm capacidade suficiente para o sucesso escolar” (Patto, 1997, p. 47). Já para a teoria da diferença cultural, as razões do fracasso escolar estariam nas disparidades; nas diferenças entre os padrões culturais da classe média (nos quais se baseiam os programas educacionais e escolares) e aqueles apresentados por crianças de famílias pobres. (PAULA & 36201 tratavam a questão do fracasso escolar pelos padrões culturais e familiares que “incapacitavam” os alunos por suas condições de classe social. Tal discurso percorre grande parte do documento, reforçando que a escola vem assumindo novos papéis, visto que a família não consegue desempenhar suas tarefas. Inclusive faz um retrato da família brasileira atual, a saber: [...] nas periferias e nos bairros pobres de nossas cidades, mais da metade das famílias costuma ser conduzida por mãe sozinha, casada ou solteira. Revezam-se os homens como companheiros instáveis. Esta mãe, pobre e geralmente negra ou mestiça, luta para zelar pelos filhos e para manter ao mesmo tempo emprego ou biscate (BRASIL, 2015, p.14). Nesse contexto, destaca que é através turno social ampliado, o que chamamos de escola de tempo integral, que a escola poderá suprir as lacunas desses alunos. Para isto, o documento considera fundamental fazer um trabalho pautado na disciplina e na cooperação para melhorar o desempenho do aluno, de modo a redefinir as capacidades pré-cognitivas. No que tange à questão cooperativa, o documento destaca que nas “práticas cooperativas, há natural hierarquia: as mais fecundas são as que que menos dependem de comando e controle e as que se organizam por divisão relativa, flexível e mutável de tarefas” (BRASIL, 2015, p.14). Em outras palavras, é preciso ensinar o sujeito a ser e/ou se comportar como aluno, para que posteriormente possa trabalhar com os conteúdos curriculares. Numa ação de cunho comportamental, busca-se nas questões socioemocionais uma forma de empoderamento, que é visto como “fortalecimento imediato da capacidade que terão alunos e professores para enfrentar e corrigir suas limitações” (p.15). Assim, as propostas direcionam para a ideia de que é preciso ensinar o aluno a ser aluno, o que também desliza para a formação de professores: há que pauta-se (re)formar o professor que, de acordo com o documento já tem uma sua formação defasada desde a educação básica e que, devido também a essas condições, opta por um curso de Pedagogia ou demais licenciaturas no Ensino Superior privado, em instituições “muitas de seriedade duvidosa, dedicadas ao lucro e carentes de recursos intelectuais” (p.16). Nosso intuito não é discutir a qualidade dos cursos de formação em desenvolvimento, mas compreender como o Pátria Educadora faz toda uma análise do perfil docente para justificar as ações propostas. TFOUNI, 2009, p.120) Disponível 33902009000200012&script=sci_arttext em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1679- 36202 Cabe alguns questionamentos: seria por uma lógica de desqualificação do aluno e dos profissionais da educação – professores e diretores – que estariam estruturados os elementos fundamental dessa proposta? No que tange aos professores, estão sendo propostos os Centros de Qualificação Avançada para professores, que visam instituir “cursos intensivos para suplementar a formação nos cursos de pedagogia e licenciatura, desenvolver as práticas e os protocolos exigidos pelo Currículo Nacional e discutir as experiências e as inovações do professorado” (p.17). Quem e quantos serão os professores requalificados? Servirá para sanar as lacunas de formação ou para difundir os protocolos da Base Comum Nacional? Neste contexto, nas ações elencadas e relacionadas aos docentes estão inseridas ainda a carreira nacional e a Prova Nacional Docente que, segundo o documento, “exigiria de todos os professores demonstrar que estão preparados para ensinar nas áreas para as quais se credenciam. Assim, “serviria como meio poderoso de influir nos cursos de pedagogia e de licenciatura” (p.18). Todo o discurso tem como foco o monitoramento e avaliação dos docentes e instituições. Cabe perguntar: como as instituições formadoras dialogariam com tais políticas de monitoramento? Pomos em destaque a ideia que recorrentemente aparece tanto na seção que discute currículo quanto na que traz as questões relativas aos profissionais da educação: a elaboração de protocolos de ensino. A ideia de protocolo, como o próprio sentido dicionarizado da palavra sugere, referese a um conjunto de regras, a partir de critérios acordados, que devem ser cumpridos, criando uma rotina de execução de uma dada atividade. Esse ponto, para nós, é mote de problematização, pois ele implica o entendimento do currículo como documento estático, de caráter regulatório que permite “adaptações à realidade”, mas sem um caráter deliberativo sobre os sentidos curriculares propostos. Nesse cenário, a questão da autonomia pedagógica das instituições e dos professores é reduzida – não cabe a eles discutir e negociar a produção curricular em que estão envolvidos. Contudo, não significa que pode a escola fazer isso de forma ensimesmada – não significa ignorar proposições mais gerais, deliberações/normativas, diferentes documentos, diretrizes – mas não se pode limitar a pensar o espaço da escola como só de reação/adequação às políticas; é preciso observá-los como campo de produção curricular negociado. Cabe pensar em diálogo, em assumir que a escola tem mais fazer que apenas que por em ação definições prévias que desencorajam e invisibilizam experiências pedagógicas e curriculares próprias. 36203 A ideia dos protocolos, tal como apresentados ao longo da proposta, nos leva a inferir sobre um processo de centralização curricular que vemos se desenhar onde o espaço que cabe aos professores é de adequação à definições totais. Põe-se como desafio superar também uma polarização infrutífera que constitui uma relação binária de oposição – não se trata de defender a negação absoluta de toda e qualquer diretriz e nem absolutização da produção da escola, nem isto ou aquilo, mas observar o currículo, em sua condição de enunciação cultural, como processo de negociação - sempre conflituoso e ambíguo - movimento que articulam o “aqui” e o “lá”, concomitantemente, mas que vemos ser esvaziado na medida em que a ideia de protocolos se apresenta como fixação de saberes, fazeres e modos de identificação dos sujeitos. Não se pode compreender a política curricular de forma simplista, como meio de ordenação do sistema educativo ou mera validação. Tão pouco é possível vislumbrar somente os interesses das inst ncias políticas. Torna-se necessário ter como perspectiva a combinação entre os diferentes elementos, como eles se articulam de forma a estabelecerem mecanismos de intervenção-regulação. Isso impõe o desafio de análise de modelos políticos nem sempre claros, indo além das orientações técnico-pedagógicas, retirando delas as articulações que as sustentam, na compreensão do componente político. A existência de antagonismos regula e coloca em movimento uma fronteira que faz com que as formações hegem nicas se deem no espaço indecidível. O entendimento desse pluralismo, que na teorização de ouffe seria um pluralismo agonístico, exige que se veja que a disputa se dá entre adversários e não inimigos, um confronto entre adversários legítimos e não luta antagônica entre inimigos, o que cria uma visão de polarização absoluta e impossibilidade de diálogo. E é esse espaço de diálogo que vemos minado na defesa e implementação de protocolos, tal como alinhado no documento em análise. Nesse sentido, ao expor as análises que fazemos a partir da leitura do documento, o fazemos na defesa de políticas curriculares que não incorram no apagamento da diferença, muitas vezes vista como problema a ser suprimido, mas que a percebam como tensão produtiva, entre-lugar de negociação de sujeitos que possam criar sentidos agonísticos (Mouffe, 2003) para as suas práticas. 36204 REFERÊNCIAS BARREIROS, D. & FRANGELLA, R. DE C.. As múltiplas dimensões de uma políticaprática curricular: o caso da Multieducação na cidade do Rio de Janeiro. Intermeio. Campo Grande/ UFMS, v.13, 2007. p.126-141 BHABHA, H. O local de cultura. Belo Horizonte: UFMG, 2001. BRASIL. Pátria educadora: a qualificação do ensino básico como obra de construção nacional. Brasília: Ministério da Educação, 2015. BURITY, J. Psicanálise, identificação e a formação de atores coletivos. XXII Encontro Anual da ANPOCS. Caxambu-MG, 27 a 31 de outubro de 1998. 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