As dimensões de adaptação de actividades motoras
David RODRIGUES
Universidade Técnica de Lisboa, Portugal
A Actividade Motora Adaptada (AMA) representa hoje em dia
um campo profissional um campo científico e uma área de formação.
Apesar do seu âmbito de acção muito alargado frequentemente a
AMA encontra-se conotada com “Educação Física e Desporto”
para pessoas com deficiência. Vamos procurar apresentar neste artigo
uma concepção mais alargada de actividades motoras (concebidas
como todo o conjunto de experiências motoras no âmbito recreativo,
competitivo, educacional, etc. que a pessoa pode ter acesso) e quais
as variáveis que se podem accionar para adaptar estas actividades a
perfis de necessidades muito diferentes.
Conceito de actividade e actividade motora
O termo “actividade” pode ser - e tem sido - usado com diferentes
significações. Quando nos referimos a “actividade” numa dada área
de comportamento queremos realçar que essa actividade tem num
determinado contexto, ascendente sobre outras. Por exemplo não
dizemos que alguém que lê o jornal se encontra em actividade
cognitiva mas diríamos isso de uma pessoa que está a tentar resolver
um problema matemático. Quando designamos uma actividade como
motora queremos assim referir-nos ao empenhamento de uma pessoa
numa tarefa predominantemente motora e com um fim concreto.
A actividade pode também ser entendida como uma mediação
entre o sujeito e o envolvimento. COLE (1989) afirma que a actividade
é “um sistema com a sua própria estrutura, transformações e
desenvolvimento que permite realizar a unidade entre os níveis de
análise cultural e individual”. É neste mesmo sentido que LEONTIEV
se refere ao conceito de actividade ao afirmar que:
Na actividade o objecto é transformado em forma subjectiva ou
imagem; ao mesmo tempo a actividade é convertida em resultado
objectivo ou produto. Vista desta perspectiva a actividade emerge
como um processo de transformações recíprocas entre o pólo do
sujeito e do objecto” (cit. COLE, 1989, p.158-9).
A actividade, conforme nos lembra Leontiev, não é uma simples
“mudança de estado”, uma mera deslocação de segmentos corporais;
é uma acção pela qual a realidade se converte em representação. A
actividade é um processo de transformar o mundo exterior e
simultaneamente de transformar a representação que temos dele.
A esta luz, fica mais difícil entender o termo “Actividade Física”.
Actividade Física tem implícita a noção que é uma actividade do
“físico”. O “físico” é entendido como uma actividade do corpo
enunciada no tempo em que o corpo era visto como um vulgar
invólucro do espírito. A actividade física pressupõe uma deslocação
no espaço, uma acção fisiológica cujo fim é predominantemente
centrado no movimento em si próprio.“Fazer actividade física”
implica o desenvolvimento de objectivos centrados em si próprio (a
melhoria da condição física, do desempenho, da saúde, etc.). A
perspectiva de Leontiev é, como vimos, bem distinta: a actividade
não é centrada no indivíduo mas é um meio de transacção, de
interacção entre a pessoa e o mundo que a rodeia.
Daí que a expressão “Actividade Motora” surja como mais
adequada. O termo Actividade Física surgiu no contexto
científico e profissional da Educação Física e como tal herdou
(sem questionar a herança) o termo “físico” (RODRIGUES, 1992).
O conhecimento psico-fisiológico actual informa-nos que a
fronteira entre o que é um comportamento “físico” e outros
tipos de comportamento designadamente “afectivos”. “sociais”,
“cognitivos” é puramente teórica. Não é possível, excepto em
condições laboratoriais, dissociar os afectos, a cognição e o
comportamento motor. Há comportamentos em que as variáveis
respeitantes a cada uma destas áreas podem ter um maior
protagonismo mas todas as outras áreas comportamentais se
encontram presentes. Pode ser aduzida outra reflexão, esta de
tipo mais conceptual: a divisão cartesiana de corpo e espírito
criou espaço para o estudo científico do corpo. Este olhar
“científico” do corpo é aborda do corpo como saudável e
normal, como sendo o que é perfeito e a antítese da doença e da
imperfeição. O conceito de “ actividade física” enquadra-se neste
paradigma de obter uma resposta higienista ( é “obrigatório”
ser saudável…) e técnica (sabemos o que deve ser feito…) para
problemas de uma grande complexidade. Face a estas questões
usamos o termo “Actividade Motora” na concepção que o motor
é a “expressão motora de um comportamento” (RODRIGUES,
op.cit.). Este comportamento é influenciado por múltiplas
variáveis de origens diversas mas exprime-se de uma forma
unificada através de uma acção motora. Ao designar um acto
como uma “actividade motora” assumimos que a pessoa é um
ser complexo, e que a acção que dela presenciamos é a expressão
dessa complexidade É isso que fazem BRONFENBRENNER e
MORRIS (1998) ao usarem o conceito de actividade e ao o
relacionarem com o desenvolvimento humano. Para estes autores
a actividade é imprescindível para o desenvolvimento e
identificam várias condições necessárias para isso:
Mesa Redonda
Atividade Física para Portador de Necessidades Especiais
XI Congresso Ciências do Desporto e Educação Física
dos países de língua portuguesa
a) Para ocorrer o desenvolvimento a pessoa deve envolver-se numa
actividade;
b) Para ser efectiva a actividade deve ocorrer numa base regular
favorável e num período regular de tempo,
Rev. bras. Educ. Fís. Esp., São Paulo, v.20, p.53-58, set. 2006. Suplemento n.5. • 53
XI Congresso Ciências do Desporto e Educação Física
dos países de língua portuguesa
c) uma actividade para ser efectiva em ter mos de
desenvolvimento deve ocorrer durante um período de tempo
suficientemente longo para se tornar complexa pois a mera repetição
não funciona
d) os processos de desenvolvimento não são unidireccionais, há
reciprocidade e troca,
e) Não é só a interacção com pessoas, é também com símbolos e objectos.
E existem factores moderadores (forma, poder, conteúdo e direcção) que
produzem mudanças nos processos proximais1. (Op. Cit. p.28-9)
Vemos assim que a actividade tem implicações em todas as
áreas da pessoa e que é um condição fundamental do
desenvolvimento humano.
Conceito de actividade motora adaptada
A actividade Motora Adaptada constitui actualmente um
campo profissional e científico com uma grande vitalidade. O
entendimento que se tem deste campo é que:
a) AMA é indicada só para pessoas com deficiência
b) A AMA proporciona tipos de estratégias e metodologias
que permitem tornar mais fáceis e menos complexas as
actividades motoras.
Antes de mais a AMA não se destina só a pessoas com uma
condição de deficiência. Estamos conscientes das dificuldades de
delimitar qual a fronteira em que se pode classificar uma pessoa
como tendo uma condição de deficiência. Os textos da ICIDH-2
da Organização Mundial de Saúde (OMS) proporcionam uma
panorâmica completa sobre os aspectos funcionais da saúde e da
deficiência que são entendidas como o resultado das interacções
entre as características da pessoa com os factores do envolvimento
físico e social. Ficou bem claro nestes documentos que o objectivo
não é classificar as pessoas com deficiência ou os problemas que elas
enfrentam mas sim a funcionalidade que elas apresentam encarada
com uma preocupação de neutralidade.
Se a deficiência é fruto deste processo interactivo é mais difícil
estabelecer a tal fronteira porque as condições em que a pessoa se
encontra podem fazer variar a sua funcionalidade e a participação e
desta forma influenciar o próprio grau de incapacidade. Muitas
pessoas que se podem ser abrangidas por programas de AMA não
têm uma deficiência enquanto tal. Podem ser pessoas com atrasos
de desenvolvimento, com condições especiais de saúde, com
dependência de drogas, pessoas em risco de exclusão social, etc. Assim
a AMA não é uma “Actividade Física” para pessoas com deficiência:
apresenta um âmbito muito mais alargado abrangendo outros tipos
de dificuldades sejam elas permanentes ou temporárias.
Por outro lado, associa-se a AMA à simplificação de actividades,
a actividades motoras menos exigentes de forma a que possam ser
desempenhadas por pessoas com condições de deficiência. Adaptar
seria tornar as tarefas mais fáceis, as regras menos exigentes em
suma, facilitar. Se, no entanto, retomarmos o sentido de adaptar,
concluímos que adaptar é adequar a exigência da tarefa ao nível de
desempenho do executante. Cada vez que se altera a exigência e as
condições de desempenho de uma actividade de forma a que um
dado executante a possa realizar ou envolver-se num processo de
aprendizagem está-se a adaptar. Tornar uma actividade mais exigente
em termos perceptivos, tomada de decisão, desempenho motor ou
elaboração cognitiva é também adaptar.
Assim talvez pudéssemos definir adaptação de actividades motoras
como “o processo de identificação e intervenção sobre variáveis
da actividade (executante, , tarefa e envolvimento) de forma a
tornarem-na mais complexa ou mais simples para a ajustarem
ao nível de desempenho e desenvolvimento do aprendiz e aos
objectivos da desejados”. Assim a AMA deixa de ser uma actividade
que se faz “às vezes” e “para alguns” para ser um critério de qualidade
no ensino e desempenho de actividades motoras (isto é um processo
que se deve seguir “sempre” e “para todos”). Assim a adaptação de
actividades motoras abarca toda a gama de desempenhos e deveria
estar permanentemente nas preocupações de qualquer professor de
educação motora ou treinador.
As variáveis de adaptação
Como podemos desenvolver projectos de adaptação de
actividades motoras? Como vimos, não se trata de simplesmente
encontrar actividades mais fáceis de executar e com níveis de
exigência mais baixos.
Um modelo de adaptação de actividades pressupõe que, antes
de mais, sejam identificadas um conjunto de variáveis da
actividade. Entendemos por variáveis categorias relacionadas
com o desempenho de uma actividade que podem, como o nome
indica, ser alteradas de forma a assumir diferentes graus de
exigência e dificuldade. Por exemplo na prática de uma actividade
de “equilíbrio”, a largura da superfície onde esse equilíbrio é
executado, a sua inclinação, o contexto em que é realizado
constituem variáveis.
Assim, o processo de adaptação de uma actividade consiste
em intervir sobre um conjunto de variáveis influenciando o seu
maior ou menor grau de dificuldade. A manipulação destas
variáveis permitirá sintonizar o nível de exigência da actividade
com as capacidades de desempenho do aprendiz.
Se tomarmos como exemplo o lançamento de um objecto
de forma a atingir um alvo determinado podemos considerar
três tipos de variáveis: as relacionadas com o desempenho
do executante (tipo de lançamento, trajectória, a posição de
lançamento, etc.) a tarefa a desempenhar (tipo de bola,
trajectória do lançamento, localização do alvo, apoio à
realização, etc.) e finalmente o contexto em que este
lançamento se processa (num jogo com oposição, em
54 • Rev. bras. Educ. Fís. Esp., São Paulo, v.20, p.53-58, set. 2006. Suplemento n.5.
XI Congresso Ciências do Desporto e Educação Física
dos países de língua portuguesa
Variável: desempenho do executante
O tipo de movimento que solicitamos ao executante é uma
primeira variável. Resultados semelhantes podem ser alcançados
com tipos muito variados de movimento. Assim, cabe ao
professor/treinador pesquisar com o executante de forma a
seleccionar qual o tipo de desempenho que lhe pode ser mais
favorável.
Nas pessoas com condições de deficiência é importante o
conhecimento específico da condição da pessoa para poder
seleccionar quais as modificações necessárias. Por exemplo,
nas pessoas com deficiência intelectual é importante levar
em linha de conta qual a complexidade informativa que cada
actividade implica. Tendo dificuldades de processar muito
quantidade de informação e usar símbolos a adaptação ao
desempenho pode situar-se sobretudo ao nível do tipo e
quantidade de informação que é fornecida. Em pessoas com
condições de deficiência motora a adaptação ao desempenho
verifica-se sobretudo ao nível funcional enquanto nas
deficiências sensoriais os aspectos da quantidade e qualidade
(sobretudo modalidade) de informação são os aspectos mais
críticos. É importante realçar que qualquer pessoa com ou
sem qualquer tipo de deficiência pode necessitar de apoio
tanto ao nível funcional, como informativo. Não existe uma
relação de causalidade entre o tipo de deficiência e as áreas
em que pode ser necessário o apoio. Pessoas com deficiência
motora necessitam também (como pessoas sem deficiência)
que a informação que lhes é fornecida seja inteligível e
adequada ao seu nível de processamento. Esta inteligibilidade
pode ser conseguida de muitas maneiras: desde fornecer pequenas
quantidades de informação de cada vez, seguir um modelo de análise
de tarefas ou usar formas complementares à informação verbal
(exemplificação, escrita, símbolos, esquemas, etc.).
DAVIS e BURTON (1992) recomendam para se realizar uma
boa adaptação ao desempenho do executante um método que
designaram “Análise Ecológica de Tarefas”. Esta metodologia
propõe a realização dos seguintes passos: 1) Determinar o
objectivo da tarefa, isto é definir claramente qual é o resultado
final que pretendemos alcançar; 2) Incentivar a prática do
executante experimentando diversos tipos e formas de
movimento. Esta prática deve ser observada e registada: 3)
Manipular as dimensões da tarefa, isto é, modificar as variáveis
da tarefa que podem conduzir a um melhor desempenho; 4)
Comparar os resultados da prática antes da manipulação das
dimensões e após e finalmente, 5. Encontrar as formas mais
adequadas de movimento e usá-las para melhorar desempenho.
Observar e registar para posteriores reformulações.
Variável: tarefa e tipo de prática
A tarefa (tipo de acção a realizar) pode também ser adaptada.
Esta adaptação comporta duas componentes a considerar: uma
relacionada com as variáveis da própria tarefa e outra com a
prática proporcionada.
No que respeita às variáveis da própria tarefa, MORRIS (1980),
considerando a tarefa de recepção considera que se podem
encontrar sete variáveis que se podem seleccionar desde o mais
simples para o mais complexo (QUADRO 1).
QUADRO 1 - Adaptação da Tarefa de Recepção (MORRIS, 1980).
Variáveis
do simples para o complexo
Velocidade do
lento
médio
rápido
objecto
Ângulo da
horizontal
vertical
arco
trajectória
Contraste
contrastante semelhante
igual
objecto/fundo
Dimensão do
pequeno
médio
grande
objecto
Localização do
perto
longe
lançador
Localização da
linha média dominante não dominante
bola
Textura do objecto
mole
duro
Em qualquer tarefa motora é possível encontrar um conjunto
de variáveis que podem ser ou manipuladas no sentido de uma
maior complexidade ou facilidade e que permitirão que o
executante encontre um nível de exigência ultrapassável que lhe
permite a aprendizagem e a participação.
Um segundo aspecto da adaptação da tarefa diz respeito à
prática proporcionada. A aprendizagem verifica-se no contacto
(e na acção) com situações simultaneamente acessíveis mas ainda
não completamente adquiridas. Quando uma nova situação é
apresentada ao aprendiz (por uma pessoa, por uma solicitação
do envolvimento, computador, brinquedo, etc.) interessa saber
se essa apresentação é adequada à sua capacidade de
aprendizagem. A proposta de uma boa nova situação de
aprendizagem é aquela em que o aprendiz a relaciona com algo
que conhece e em que a partir deste conhecimento consegue
um desempenho diferente do que possuía até então. O que o
aprendiz já conhece, o seu desempenho, as suas capacidades de
estabelecer um modelo estável das novas aprendizagens
influenciam a sua área sensível de aprendizagem. Desenvolvemos
este conceito de “Área Sensível de Aprendizagem - ASA”
(RODRIGUES, 1985) que pretende exactamente delimitar esta
“área” de aprendizagem em que o aprendiz é sensível (isto é: o
âmbito das situações em que ele realmente aprende). A ASA
delimita o nível de complexidade das situações de aprendizagem
a propor de forma a que não sejam tão difíceis que ele sinta o
objectivo como inatingível nem tão fáceis que não seja necessário
Mesa Redonda
Atividade Física para Portador de Necessidades Especiais
competição, sozinho, num contexto de resolução de um
problema mais vasto, etc.)
Vamos examinar mais detalhadamente em que consistem
estes três tipos de variáveis.
Rev. bras. Educ. Fís. Esp., São Paulo, v.20, p.53-58, set. 2006. Suplemento n.5. • 55
XI Congresso Ciências do Desporto e Educação Física
dos países de língua portuguesa
qualquer adaptação ou acomodação para responder a novas
situações. A criação desta ASA depende muito do
estabelecimento de uma interacção entre o aprendiz e o adulto
tal como VYGOTSKY (1978) demonstrou ao investigar a “Zona
de Desenvolvimento Proximal” que o autor definiu como “uma
estrutura de actividade conjunta em qualquer contexto no qual
há participantes que exercem responsabilidades diferenciadas
em função das suas distintas habilidades” (VYGOTSKY, op.cit)
A intervenção do adulto encontra-se vocacionada, neste
âmbito, para mediar a maior ou menos complexidade das
variáveis da situação de aprendizagem que são apresentadas.
Existe uma relação entre o modelo de prática e as fases de
aprendizagem em que se encontra o aprendiz.
a) Quando o aprendiz se encontra na fase aquisição isto é quando
o objectivo final ainda não se encontra dominado, devem ser
incentivadas situações prática parcial (acção sobre as componentes
mais críticas da actividade) ou prática assistida (desempenho de
toda a actividade a aprender mas com apoio exterior)
b) Na fase de proficiência quando o aprendiz já é capaz de
desempenhar regularmente a actividade que aprendeu parecem
mais indicados os modelos de prática independente em que
se incentiva um “tempo de prática pessoal”
c) Finalmente nas fases de aprendizagem de generalização e
aplicação, isto é quando o aprendiz deve usar a aprendizagem
realizada em contextos análogos e aplicá-la em contextos inéditos,
parece ser de incentivar a prática complexa. Entendemos por
prática complexa a que introduz variações espaciais, temporais ou
contextuais na tarefa de forma a tornar mais adaptável e transferível
para situações necessariamente mais inesperadas e variadas.
Variável: envolvimento
Tradicionalmente o processo de adaptação sempre se centrou
mais em aspectos da pessoa do que do envolvimento. A “capacidade”
ou “incapacidade” para a adaptação eram entendidas como uma
característica individual. Assim a pessoa adaptar-se-ia melhor ou pior
em função desta sua característica individual.
Mais recentemente tem vindo a ser atribuída uma maior
importância ao papel decisivo que as condições do envolvimento
desempenham na adaptação. Este realce sobre o envolvimento devese muito ao impacto da obra de Urie BRONFENBRENNER “The ecology
of human development: experiments by nature and design” (1979).
A importância dos factores do envolvimento para o processo de
adaptação tornou-se assim de importância central. O modelo
proposto apresentava uma rede progressivamente alargada de âmbitos
de sistemas ecológicos (micro, meso, exo e macro) interdependentes
susceptíveis de ser modificados para optimizar esta adaptação. Uma
influência directa da afirmação dos modelos ecológicos, é a evolução
que a definição que a deficiência mental sofreu por influência do
“comportamento adaptativo”. Assim, para se avaliar o nível de
deficiência mental deve-se levar em conta de que forma o indivíduo
interage com o seu envolvimento e não só os factores relacionados
com um “quociente de inteligência” (RODRIGUES, 2002). Incluir na
avaliação das capacidades da pessoa a forma como ela se relaciona
com o envolvimento assume uma grande importância para as pessoas
com condições de deficiência dado que regra geral as suas maiores
ou menores dificuldades de adaptação são sistematicamente atribuídas
à sua condição. “Fulano tem problemas na escola porque tem Paralisia
Cerebral”. “Fulano tem problemas na equipa onde joga porque tem
deficiência mental”. Sempre a condição de deficiência explica a menor
adaptação. É muito mais raro que seja posta em causa a escola ou a
equipa enquanto factores de adaptação que podem ser modificados.
A adaptação é antes de mais um processo de interacção entre os
factores intra individuais (variáveis de origem) e os factores do
envolvimento (variáveis de decisão) (RODRIGUES, 1985). Analisar e
intervir num processo de adaptação implica considerar para além do
que pessoa é, onde está, em que época e sociedade vive, que se espera
dela, etc. Podia-se sintetizar esta importância do envolvimento na
frase: “Diz-me o que és e em que circunstância”.
Todo o processo de modificação das variáveis do envolvimento
de forma a tornar possível a adaptação e participação de pessoas
com características menos comuns, teve, assim, um assinalável impulso
nas últimas décadas. Hoje ouve-se menos dizer que “um paraplégico
tem o problema de não conseguir entrar num auditório” (com
barreiras arquitectónicas, óbvio) e ouve-se mais dizer que “aquele
auditório tem o problema de não ser capaz de receber pessoas
paraplégicas”. Mas continua a ser comum pensar (e sobretudo actuar)
entendendo que a adaptação é uma competência individual e não
fruto da relação entre o indivíduo e o(s) seu(s) envolvimento(s).
A adaptação de actividades motoras pressupõe assim uma
componente essencial de modificação do envolvimento. Esta
modificação pode assumir três variáveis: a maior ou menor incerteza
do resultado, as condições normativas ou de desempenho da
actividade e o clima sócio emocional em que a actividade se desenrola.
A previsibilidade do resultado e o facto de desenvolver uma
actividade em quadros mais ou menos previsíveis pode constituir
uma variável de adaptação. Podemos encontrar um exemplo
desta variável nas provas do teste de avaliação motora Movement
ABC , que organiza as situações de avaliação em termos ma
maior ou menor estabilidade do corpo e do envolvimento. Esta
perspectiva desenvolvida a partir do trabalho de David SUGDEN
(1984) classifica as tarefas motoras em quatro tipos:
1) aquelas em que o corpo e o envolvimento estão estáveis
(ex. o equilíbrio estático),
2) as que solicitam uma estabilidade corporal em
envolvimentos instáveis (ex: surf ou skate),
3) as que apelam a uma instabilidade do corpo em ambientes
estáveis (ex: grande parte dos desportos individuais) e
4) as que implicam desempenhos corporais instáveis em
ambientes também instáveis ( ex: desportos colectivos).
Neste caso o desenvolvimento do processo de adaptação
consiste em propor ao aprendiz actividades com maior ou menos
incerteza e instabilidade de forma a manipular e a sintonizar o
grau de adequação da actividade ao aprendiz.
56 • Rev. bras. Educ. Fís. Esp., São Paulo, v.20, p.53-58, set. 2006. Suplemento n.5.
As condições normativas e de desempenho podem ser também
uma adaptação do envolvimento. Modificar regras para permitir a
participação num jogo colectivo pode constituir uma adaptação. Por
exemplo uma pessoa com paraplegia pode participar num jogo de
voleibol de pessoas que caminhem se o jogo for efectuado sentado,
ou pode participar num jogo de basquetebol desde que não seja
permitido aos adversários realizar acções defensivas a menos de 2
metros da cadeira de rodas. Para além das modificações das regras
podem ser feitas alterações que impliquem o desempenho: os
materiais desportivos (peso, “pega”, dimensão, etc.), o uso de ortóteses
ou próteses (ex: defender o gol com canadianas) e o próprio
desempenho motor (ex: estabelecimento de uma avaliação baseada
em critério para o desempenho).
O clima sócio-emocional em que a actividade se desenrola é
também uma variável susceptível de sofrer intervenção. As situações
de competição são usadas em educação motora (mesmo em situações
de aprendizagem) de uma forma extremamente exagerada. O
Educação Motora usa frequentemente (e mesmo sem se dar conta)
os modelos competitivos oriundos do desporto de rendimento.
Frequentemente estes modelos seriais e competitivos criam um clima
competitivo que, em lugar de melhorar o desempenho, provoca na
pessoa uma rejeição e uma desmotivação para se implicar em práticas
motoras cuja prática se apresenta como indissociável dos factores
de competição.
A adaptação de actividades motoras deve levar em conta que as
situações enquadradas por uma lógica competitiva podem originar sobretudo em pessoas com níveis de desempenho notoriamente
menos bons - uma pressão emocional excessiva e todo um conjunto
de sentimentos que podem não incentivar a participação e a
permanência na prática da actividade. É importante realçar que a
competição não é senão um dos inúmeros enquadramentos e
modelos que podem ser adoptados quando procuramos encontrar
envolvimentos afectivos e sociais que incentivem a pessoa a participar
e a se manter empenhada na realização de actividades motoras. O
clima emocional é assim igualmente uma variável de adaptação que
pode ser alterada.
Síntese
Constatamos também que o conceito de actividade motora
adaptada como o conjunto de experiências motoras
destinadas a pessoas com condições de deficiência é um
conceito redutor. Adaptar é sobretudo conhecer quais as
diferentes componentes que podem influenciar o
desempenho de uma actividade e manipulá-las de forma a
construir uma situação de desempenho ou de aprendizagem
adequada ao aprendiz.
Por fim, apresentamos um modelo de adaptação de
actividades motoras que pode ser sintetizado na FIGURA 1.
Procuramos defender que o conceito de actividade motora é
diferente do conceito de actividade física. O conceito dominante de
actividades físicas parece até estar a dar origem a um novo dualismo.
É como se a pessoa necessitasse de fazer actividade física para libertar
para dar condições de funcionamento às actividades que se
consideram mais “nobres”. É inevitável contrapor a Actividade Física
outros tipos de actividades humanas como sendo as de cariz cognitiva
ou social. O termo “actividade motora” abre espaço para
considerarmos a expressão motora de um comportamento
multifacetado mas que se exprime numa unidade.
Desempenho
do
executante
a) factores quantitativos
b) factores qualitativos
c) Análise Ecológica de
Tarefas
Mesa Redonda
Atividade Física para Portador de Necessidades Especiais
XI Congresso Ciências do Desporto e Educação Física
dos países de língua portuguesa
Adaptação de
Actividades
Motoras
Tipo de tarefa e prática
Variáveis e
dimensões
da tarefa
Tipos
de
prática
Condições do envolvimento
a) incerteza da actividade
b) normas e condições do
desempenho
c) factores sócioemocionais da interacção
FIGURA 1 - Variáveis de adaptação de actividades motoras.
Rev. bras. Educ. Fís. Esp., São Paulo, v.20, p.53-58, set. 2006. Suplemento n.5. • 57
XI Congresso Ciências do Desporto e Educação Física
dos países de língua portuguesa
A adaptação de actividades motoras é assim um processo
com múltiplas componentes que exige não só o conhecimento
da pessoa mas sobretudo a sua participação no processo de
adaptação. Adaptar não é criar ou remover obstáculos: é
sobretudo encontrar níveis óptimos de participação para qualquer
pessoa independentemente dos seus níveis de desempenho.
E se este processo for adequadamente desenvolvido, as
pessoas que têm condições de deficiência terão oportunidade
de ser verdadeiramente incluídas de participar em todos os
domínios sociais porque a sua diferença poderá deixar de ser
algo de inédito e “à parte” para passar a ser um dos valores da
sempre presente, sedutora e criativa diversidade humana.
Notas
1) Segundo os autores os “processos proximais” são os que implicam formas particulares de interacção entre o organismo e o
envolvimento. Estes processos operam ao longo do tempo e constituem os mecanismos primários que originam o desenvolvimento
humano”. (Nota do autor)
Referências
BRONFENBRENNER, U.; MORRIS, P. The ecology of developmental process. In: GOMES-PEDRO, J. (Ed.). Stress e violência
na criança e no jovem. Lisboa: Faculdade de Medicina/Universidade de Lisboa, 1998.
COLE, M. The zone of proximal development: where culture and cognition create each other. En J. Wertsch, , 1989.
DAVIS; BURTON. Ecological task analysis: translating movement behaviour theory into practice. Adapted Physical Activity
Quarterly, v.8, n.12, p.154-77, 1992.
MORRIS, G.S.D. Towards inclusion. Movement Development: theory into practice, p.7-10, 1980. Monograph 3.
RODRIGUES, D. O indivíduo e o envolvimento em educação especial. O Professor, n.82, p.35-8, 1986.
______. Adapted motor activity and integration: a non-categorial approach. In: COPPENOLLE, H. van et al. (Eds.). First
european conference on adapted physical activity and sports. Leuven: Acco, 1994.
______. Motricidade adaptação e populações especiais. In: SÉRGIO, M. (Ed.). Epistemologia da motricidade humana. Lisboa:
Edições FMH, 1997.
______. Uma reflexão sobre as dimensões da motricidade na estimulação do desenvolvimento. In: KREBS, R. et al.
Desenvolvimento infantil em contexto. Florianópolis: UDESC, 2001.
______. Actividade motora adaptada e comportamento adaptativo. Lisboa: FMH, 2002. 1 vídeocassete (16 min).
SUGDEN, D. Issues in teaching children with movement problems. British Journal of Physical Education, v.15, n.3, 1984.
VYGOTSKY, L.S. Mind in society: the development of higher psychological process. Cambridge: Harvard University Press,
1978.
58 • Rev. bras. Educ. Fís. Esp., São Paulo, v.20, p.53-58, set. 2006. Suplemento n.5.
Download

As dimensões de adaptação de actividades motoras