caderno especial do jornal do comércio | Porto Alegre, Segunda-feira, 16 de novembro de 2015 8 FILOSOFIA DO VINHO Peculiaridades da bebida Ao beber um vinho, há um padrão objetivo para dizer que gosta ou não? As peculiaridades da bebida tornaram-se exemplo para especulações e teorias sobre a natureza e a complexidade da percepção humana; as diferenças de juízo em relação ao que é bom ou ruim entre leigos e experts; a moralidade de nossa conduta com respeito ao álcool; e também a importância da tradição e da cultura em hábitos sociais. Isso é a “filosofia do vinho”. A aproximação de vinho e filosofia pode representar uma nova forma de abordagem de certos temas clássicos, uma forma, no entanto, prazerosa e, por que não dizer, divertida. Fazer filosofia do vinho é também mostrar que a filosofia pode ser uma atividade intelectual versátil e moderna. E, tanto como o vinho, encantadora. “O vinho é um tema que estimula filósofos, pois sua complexidade permite reflexões sobre as mais diversas áreas da filosofia, da ética, passando pela ontologia, estética e também pela filosofia das neurociências”, comenta Marco Antonio Azevedo. Ele é doutor em Filosofia e médico, professor da Unisinos, autor de artigos e livros na área de ética filosófica e bioética e, recentemente, interessado no tema “vinhos e filosofia”. Azevedo é um enófilo: apaixonado por vinhos e sempre atento ao degustá-los. Mas ao perceber a dedicação de estudiosos e a seriedade acadêmica existente sobre o tema, passou a demonstrar interesse pelo vinho por outras perspectivas. A bebida é exemplo para o estudo de certos temas importantes na filosofia contemporânea, especialmente o problema da objetividade de juízos sobre assuntos que envolvem a aplicação àquilo que os filósofos modernos chamavam de “propriedades secundárias”. “A cor é um exemplo típico de propriedade secundária. O filósofo John Locke sustentou que, ao atribuirmos uma cor, por exemplo o vermelho, a certo objeto, digamos, ao uniforme de um jogador de futebol, estamos atribuindo uma qualidade que não existe no objeto, pois a cor é um estado ou evento na mente do observador. Isso parece-nos conduzir a uma forma de subjetivismo sobre propriedades, o que parece plausível no caso do MARCELO G. RIBEIRO/JC A aproximação de vinho e filosofia pode representar uma nova abordagem de certos temas clássicos paladar. Quando dizemos que um vinho é saboroso, estamos avaliando o vinho informando aos outros nossa apreciação pessoal. E quando dizemos: ‘Este Savignon Blanc tem aromas de abacaxi bastante pronunciados’, estaríamos dizendo algo sobre nós ou sobre o vinho que estamos provando? Parece justamente que estamos atribuindo ao vinho uma qualidade que não está em nós, mas na bebida. O vinho oferece, assim, exemplos fantásticos para pensarmos sobre as conexões entre objetividade e subjetividade em nossos juízos, especialmente os estéticos e os morais. Isso me encanta bastante”, explica em detalhes. Para entender como se formam as percepções de gosto e sabor conceituais. Esta é uma área da filosofia”, comenta Marco Antonio Azevedo, doutor em Filosofia e médico. Barry C. Smith, diretor do Instituto de Filosofia do Centro de Estudos Avançados da Universidade SIMCIC MARJAN/DIVULGAÇÃO/JC O vinho é estudado pelos neurocientistas, interessados especialmente em entender como se formam percepções de gosto e sabor. “O problema é que as ciências do cérebro não solucionam problemas O prazer de beber um vinho é algo subjetivo e individual de Londres, é uma das inspirações de Azevedo. O pesquisador organizou um livro, intitulado Questions of Taste: The Philosophy of Wine, que traz artigos escritos não apenas por filósofos, mas por estudiosos de outras áreas, inclusive o prefácio é assinado por ninguém menos que Jancis Robinson, uma das mais prestigiadas especialistas em vinhos do mundo. “Barry Smith tem uma distinção que penso é iluminadora. Há uma diferença, diz ele, entre o sabor de um vinho e nossa percepção deste sabor. Como podemos concordar sobre características e qualidades de certo vinho - e as confrarias mostram que isso é verdadeiro, ao menos parcialmente -, faz sentido dizer que o vinho tem um sabor que é ‘dele’, e não ‘nosso’. Por outro lado, cada um percebe esse sabor individualmente. Nesse processo, pode haver divergências, variações. Agora, diríamos que a verdade sobre o assunto está nessas variações ou na concordância entre os juízos? Bem, isso não resolve a questão. Pois nossos juízos concordam de forma não acidental, mas, ainda assim, eles concordam sobre propriedades que não existiriam no mundo sem a existência da mente humana. A filosofia do vinho, portanto, depende de uma boa filosofia da mente, algo sobre o qual ainda estamos elaborando. E estamos mais próximos do início que do fim”, reconhece. O prazer de beber um vinho é algo subjetivo e individual. Mas é comunicável. “Mecanismos empáticos nos permitem ter sensações provocadas pelo que percebemos que os outros sentem. O sabor do vinho é, assim, um valor comunicável: do vinho, aos seus degustadores, e também entre eles. O vinho é tipicamente uma bebida social e não deve ser assim por acaso. O adágio ‘in vino veritas’ expressa a ideia de que o vinho aproxima as pessoas, faz com que elas se tornem mais sinceras. Isso, costuma-se dizer, é uma propriedade comum às bebidas alcoólicas. Mas o vinho parece ser uma das poucas bebidas que aproximam as pessoas em razão de suas qualidades. As pessoas gostam de falar sobre o vinho, do que perceberam nele, de suas impressões, sobre geografia, história. O vinho é uma bebida social num sentido muito peculiar”, afirma Azevedo.