UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE INSTITUTO DE BIOLOGIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM NEUROCIÊNCIAS ARIANE SILVA SANTA RITA FERREIRA Receptor A1 de adenosina: modelagem molecular por homologia, comparação bacteriana e docking de ligantes Orientadora: Drª. Helena Carla Castro Cardoso de Almeida NITERÓI 2011 i UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE INSTITUTO DE BIOLOGIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM NEUROCIÊNCIAS ARIANE SILVA SANTA RITA FERREIRA Receptor A1 de adenosina: modelagem molecular por homologia, comparação bacteriana e docking de ligantes DISSERTAÇÃO SUBMETIDA À UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINANSE VISANDO A OBTENÇÃO DO GRAU DE MESTRE EM NEUROCIÊNCIAS. Orientadora: Drª. Helena Carla Castro Cardoso de Almeida NITERÓI 2011 ii FICHA CATALOGRÁFICA iii ARIANE SILVA SANTA RITA FERREIRA Receptor A1 de adenosina: modelagem molecular por homologia, comparação bacteriana e docking de ligantes Dissertação de mestrado submetida à Universidade Federal Fluminense como requisito parcial para obtenção do grau de mestre em Neurociências Banca Examinadora ______________________________________________ Dra. Paula Campello Costa Lopes – UFF (Presidente) ______________________________________________ Dra. Monique Araújo de Brito - UFF ______________________________________________ Dr. Cristian Follmer – UFRJ ______________________________________________ Dr. André Fuly – UFF (Revisor e suplente) iv Agradecimentos Agradeço a Deus pela força de querer continuar a lutar por um ideal. Ao Minu por ter tido paciência comigo nos dias mais estressantes. À minha mãe por ter me socorrido tantas vezes nos momentos necessários. À minha orientadora Helena Carla Castro pela paciência e pela orientação desde a iniciação à pesquisa. Ao meu amigo Guto por todo ajuda que me deu. Aos colegas do laboratório por me ajudarem com as minhas dúvidas. Aos colaboradores da Faculdade de Farmácia da UFF e da UFRJ e aos professores da pós em Neurociências. À professora Ana da Fiocruz. v Sumário Página Lista de Abreviaturas............................................................................. IX Lista de Figuras..................................................................................... XI Lista de Tabelas..................................................................................... XV Resumo................................................................................................... XVI Abstract................................................................................................... XVII 1. Introdução......................................................................... 1 1.1 – Adenosina e suas características.................................................. 1 1.2 – Receptor de adenosina (RA): um receptor acoplado à proteína G.... 3 1.2.1 – Receptor de adenosina A1 e A2a: breve visão....................... 6 1.2.1.1 - Receptor de adenosina A1 (RA-A1).................................. 6 1.2.1.2 – Receptor de adenosina A2a (RA-A2a) ............................ 8 1.3 – Agonistas e antagonistas: os ligantes dos receptores de adenosina................................................................................................ 10 1.3.1. Receptores de adenosina A1 e A2a: resíduos importantes para interação com ligantes.................................................................... 13 1.4 – Modelagem molecular: uma ferramenta para o estudo de receptores e ligantes............................................................................... 13 1.4.1 – Modelagem por homologia: abordando os receptores........... 15 1.4.1.1 – Etapas de construção do modelo 16 1.4.1.1.1 – Alinhamento de sequências proteicas........................ 16 1.4.1.1.2 – Construção e otimização do modelo 3D..................... 18 1.4.1.1.3 – Validação do modelo 3D............................................ 19 1.4.2 – Docking: gerando complexos receptor-ligante........................ 21 1.4.2.1 – Interação receptor-ligante.................................................. 23 vi 1.4.3 – O receptor de adenosina A1 (RA-A1) e a modelagem por homologia................................................................................................ 25 2. Objetivos............................................................................ 30 2.1 – Objetivo geral................................................................................. 30 2.1 – Objetivos específicos..................................................................... 30 3. Material e métodos........................................................... 31 3.1 – Construção dos modelos por homologia....................................... 31 3.2 – Docking das estruturas dos receptores com os ligantes e análise das interações......................................................................................... 32 3.3 - Cálculo de valor quadrático médio (Root Mean Square – RMS).... 33 3.4 - Mapa de potencial eletrostático (MPE)........................................... 33 4. Resultados......................................................................... 35 4.1 – Alinhamento de sequências, construção e análise dos modelos do receptor de adenosina A1 (RA-A1).................................................... 35 4.2 – Docking e análise das interações dos complexos formados pelos modelos do receptor de adenosina A1 (RA-A1)..................................... 43 4.2.1 – Construção dos ligantes do tipo agonista (adenosina) e antagonista (ZM241384)......................................................................... 43 4.2.2 - Docking e análise das interações entre a adenosina e os modelos do RA-A1 (RA-A1).................................................................... 44 4.2.3 - Docking e análise das interações entre a adenosina e a estrutura cristal do RA-A2a e comparação com o modelo do RA-A1 baseado no RA-A2a................................................................................ 46 4.2.4 - Docking e análise das interações entre o antagonista ZM241385 e o modelo do RA-A1 baseado no RA-A2a e comparação com o complexo antagonista-molde....................................................... 51 5. Discussão.......................................................................... 54 5.1 – Construção e análise dos modelos do receptor de adenosina A1. 55 5.2 – Análise das interações receptor-ligante......................................... 59 vii 5.2.1 – Análise das interações entre os receptores (RA-A2a e os modelos do RA-A1)................................................................................. 59 5.2.2 – Análise das interações entre o ZM241385 e os receptores RA-A2a e o modelo do RA-A1 baseado no RA-A2a............................... 62 6. Conclusões........................................................................ 64 7. Referências bibliográficas............................................... 66 viii LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS AMP AMPc ATP Asp Ala Ǻ Arg Asn bacRho β2-A bRho CHA Cys DPCPX DPMA DT Glu Gly His Ile LE Leu LI LTP Lys ME Met MI MMFF MPE PDB PLAc PLA2 Phe PKC Pro RA Adenosina monofosfato Adenosina monofosfato cíclica Adenosina trifosfato Ácido aspártico Alanina Angstron Arginina Asparagina Bacteriorodopsina Receptor β2-adrenérico Rodopsina bovina N6-cicloexiladenosina Cisteína 8-ciclopentil-1,3-dipropilxantina N-[2-(3,5-dimetoxifenil) etil] adenosina Domínios transmembranar Ácido glutâmico Glicina Histidina Isoleucina Loop extracelular Leucina Loop intracelular Long-term potentiation, Potenciação de Longa Duração Lisina Meio extracelular Metionina Meio itracelular Molecular Mechanics Force Field, Campo de Força de Mecânica Molecular Mapa de potencial elestrostático Protein Data Bank, Banco de Dados de Proteínas Fosfolipase C Fosfolipase A2 Fenilalanina Proteína quinase C Prolina Receptor de adenosina RAPG Receptor acoplada à proteína G RMN RMS SCH58261 Ressonância magnética nuclear Root mean square (valor quadrático médio) 7-(2-feniletil)-5-amino-2-(2-furil)-pirazolo-[4,3-e]-1,2,4triazolo[1,5-c]pirimidina Serina Ser ix SNC Thr 3D Trp Val ZM241385 UK-432097 Sistema Nervoso Central Treonina Tridimensional Triptofano Valina 4-(2-[7-amino-2-(2-furil)-[1,2,4]triazolo[2,3-a]-[1,3,5]triazina-5ilamino]etil)fenol 2-(3-[1-(piridina-2-yl)piperidina-4-yl]ureido)etil-6-N-(2,2difeniletil)-5-N-etilcarboxamidoadenosina-2-carboxamida x LISTA DE FIGURAS Página Figura 1. Estrutura química do nucleosídeo adenosina..................................... 1 Figura 2 – Principais vias do metabolismo da adenosina e seu transporte............................................................................................................ 2 Figura 3 - Vias de sinalização dos subtipos de receptores de adenosina.......... 4 Figura 4 – Distribuição dos receptores de adenosina de alta afinidade nas principais regiões do sistema nervoso central (Adaptado de Ribeiro, 2003)................................................................................................................... 7 Figura 5 – Representação esquemática do receptor de adenosina A1 (RA-A1) na membrana celular, mostrando a distribuição estrutural das alças extracelulares (LE) e intracelulares (LI), os domínios transmembranares (DT) e as porção C-terminal e N-terminal nos meios extracelular (ME) e intracelular (MI)................................................................................................... 8 Figura 6 – Representação esquemática do receptor de adenosina A2a (RAA2a) na membrana celular, mostrando a distribuição estrutural das alças extracelulares (LE) e intracelulares (LI), os domínios transmembranares (DT) e as porção C-terminal e N-terminal nos meios extracelular (ME) e intracelular (MI)................................................................................................... 9 Figura 7 – Estruturas da adenosina, xantina e fármacos que as utilizam como base estrutural, mostrando as posições de mudanças estruturais..................... 12 Figura 8 - Alinhamento entre as sequências primárias dos receptores pertencentes à família I dos receptores acoplados à proteína G e da bacteriorodopsina, mostrando os resíduos de aminoácidos idênticos estão marcados com (*), os resíduos de aminoácidos similares estão marcados com (.) e os resíduos de aminoácidos análogos estão marcados com (:)........................................................................................................................ 17 Figura 9 - Estrutura das ligações peptídicas, mostrando os ângulos torcionais phi (φ) e psi (ψ) da cadeia principal de proteínas (Adaptado de Jakubowski, 2008)................................................................................................................... 20 Figura 10 – Gráfico de Ramachandran para a estrutura cristal do receptor de adenosina A2a como exemplo da estereoquímica dos aminoácidos de acordo com a distribuição dos ângulos phi e psi. Em vermelho, regiões favoráveis, em amarelo e creme, regiões permitidas e em branco, regiões desfavoráveis...................................................................................................... 20 Figura 11 - Comparação das estruturas cristais da bacteriorodopsina (A), da rodopsina bovina (B) e do receptor β2-adrenérgico (C) com resolução de 3,5Ǻ, 2,40Ǻ e 2,20Ǻ, respectivamente. Os sete domínios transmembranares xi estão demarcados pelas caixas revelando ainda a conformação mais aberta do receptor β2-adrenérgico. As estruturas secundárias são mostradas em rosa (α-hélices), azul (loops) e verde (folhas β-pregueadas)............................. 26 Figura 12 – Alinhamento das sequências primárias dos receptores de adenosina RA-A1 e RA-A2a (PDB = 3EML) feito no programa ClustalW. Os resíduos de aminoácidos estão marcados: idênticos com (*), similares com (:) e análogos com (.).............................................................................................. 28 Figura 13 - Comparação das estruturas original/cristal (verde) e completa (vermelho) do receptor de adenosina RA-A2a quanto a proporção (%) aminoácidos em regiões favoráveis, permitidas e desfavoráveis (acima) e utilizando o gráfico de análise do Verify3D (abaixo)........................................... 32 Figura 14 – Alinhamento múltiplo das sequências primárias do receptor de adenosina A1 (RA-A1) e das estruturas cristais do receptor de adenosina A2a (PDB = 3EML), da bacteriorodopsina (PDB = 1BRD), da rodopsina bovina (PDB = 1U19) e do receptor β2-adrenérgcio (PDB = 2RH1). Os resíduos de aminoácidos idênticos estão marcados com (*), os resíduos de aminoácidos similares com (:) e os resíduos de aminoácidos análogos com (.)........................................................................................................................ 36 Figura 15 - Análise dos diferentes modelos do receptor de adenosina A1 (verde) e seus respectivos moldes (A-D, rosa), utilizando o programa Verify3D. Embaixo, a comparação de todos os modelos baseados no receptor de adenosina (RA-A2a), bacteriorodopsina (bacRho), rodopsina bovina (BRho)..................................................................................................... 39 Figura 16 - Comparação das estruturas tridimensionais dos modelos do receptor de adenosina A1 baseados nas estruturas cristais do receptor de adenosina A2a (RA-A2a), da bacteriorodopsina (bacRho), da rodopsina bovina (BRho) e do receptor β2-adrenérgico β2 ( -A). As estruturas secundárias dos moldes e dos seus respectivos modelos estão mostradas em rosa (α-hélices), azul (alças) e verde (folhas β-pregueadas)....................... 40 Figura 17 – Comparação entre os mapas de potencial eletrostático dos moldes e dos modelos do receptor de adenosina A1 (rotação 0º e 180º. Box amarelo: sítio de ligação. As cargas positivas estão em azul, as negativas em vermelho e as neutras em branco. RA-A2a e modelo do RA-A1, bacRho e modelo do RA-A1 (bacRho), BRho e modelo do RA-A1 (BRho) e o receptor β2-A e modelo do RA-A1 (receptor β2-A)........................................................... 41 Figura 18 – Mapa de potencial eletrostático da conformação mais estável dos ligantes adenosina (A) e ZM241385 (B), com rotação de 0º a 270º. As cargas positivas estão em azul, enquanto que as negativas estão em vermelho.......... 43 Figura 19 – Corte de 6Ǻ da região de ligação do agonista adenosina nos modelos dos receptores de adenosina do tipo A1, que mostra os resíduos considerados importantes por estudos de mutagênese e que só foram identificados nos modelos de RA-A1 baseado no receptor de adenosina do tipo A2a (A), na rodopsina bovina (B) e no receptor β2-adrenérgico (C). Os resíduos que interagem com a adenosina segundo Terán et al., 2004 e Giordanetto et al., 2003 estão coloridos em lilás. Os resíduos ácidos estão xii em vermelho, os básicos em azul, os polares em verdes e os apolares em amarelo. Na adenosina, em vermelho, o oxigênio; em azul escuro, o nitrogênio; em branco, o carbono; e em azul claro, o hidrogênio...................... 45 Figura 20 – Alinhamento das estruturas 3D dos modelos do RA-A1 baseado nas estruturas cristais do RA-A2a (verde claro), da rodopsina bovina (vermelho) e do receptor de β2-adrenérgico (amarelo), mostrando os resíduos que aparecem em todos os modelos no corte de Ǻ a6 partir da adenosina, incluindo os resíduos Ile67, Met82, Val83, Ala84, Cys85, Pro86, Val87, Ile274 e His278. As estruturas secundárias estão mostradas em rosa (α-helice), verde escuro (β-pregueada) e azul (alças)........................................ 47 Figura 21 – Análise da região de ligação do agonista na estrutura cristal do RA-A2a. (Esquerda) Resíduos considerados importantes por estudos de mutagênese para a interação receptor-ligante do RA-A2a. Todos os resíduos interagem com o antagonista ZM segundo Jaakola et al., 2008. O resíduo ácido está em vermelho, o polar em verde e o apolar em amarelo. Na adenosina, o oxigênio está em vermelho,; em azul escuro, o nitrogênio; em branco, o carbono; e em azul claro, o hidrogênio. (Direita) Tabela de resíduos do RA-A2a que realizam interação com a adenosina. Em negrito, estão os resíduos presentes na lista de aminoácidos descritos como importantes para a interação receptor-agonista (Ben et al., 2010; Giordanetto et al.,2003; Olah e Stiles, 2000, Rivkees et al., 1999)................................................................... 48 Figura 22– Comparação dos resíduos presentes no sitio de ligação em um corte de 6Ǻ a partir do ligante (adenosina) nos complexos envolvendo o modelo do RA-A1 baseado no RA-A2a (esquerda) e a estrutura cristal do RAA2a (direita). Em vermelho, resíduos ácidos; verdes, os polares em e os apolares em amarelos. Adenosina está colorida por átomos: oxigênio (vermelho), nitrogênio (azul escuro), hidrogênio (azul claro) e carbono (branco).............................................................................................................. . B 49 Figura 23 – Comparação dos complexos ligante-receptor formados pela adenosina e pelo modelo do RA-A1 (RA-A2a) (rosa) ou pela estrutura cristal do RA-A2a (verde) observados em um corte de 6Ǻ a partir da adenosina em um alinhamento estrutural. A parte superior da figura mostra a localização dos resíduos de aminoácidos idênticos, similares e distintos citados na parte inferior. Adenosina está colorida de acordo com os átomos: oxigênio (vermelho), nitrogênio (azul escuro), hidrogênio (azul claro) e carbono (branco).............................................................................................................. 50 Figura 24 – Resíduos (A e B) encontrados em um corte de 6Å dos complexos antagonista-receptor a partir do antagonista ZM241385, que são considerados importantes, por estudos de mutagênese, para a interação com o RA-A1 (A) e com o RA-A2a (B) e interações observadas envolvendo outros resíduos (C). Os resíduos ácidos estão em vermelho, os polares em verde e os apolares em amarelo. O antagonista está colorido de acordo com os átomos: oxigênio (vermelho), nitrogênio (azul escuro), hidrogênio (azul claro) e carbono (branco)............................................................................................. 52 Figura 25 – Comparação dos complexos ligante-receptor formados antagonista ZM241385 e pelo modelo do RA-A1 (RA-A2a) (rosa) ou pela xiii estrutura cristal do RA-A2a (verde) observados em um corte de 6Ǻ a partir da ZM241385 em um alinhamento estrutural. A parte superior da figura mostra a localização dos resíduos de aminoácidos idênticos, similares e distintos citados na parte inferior. O ZM241385 está colorido de acordo com os átomos: oxigênio (vermelho), nitrogênio (azul escuro), hidrogênio (azul claro) e carbono (branco)............................................................................................. 53 LISTA DE TABELAS Página Tabela 1 – Comparação dos valores percentuais de identidade resultantes do alinhamento múltiplo das sequências primárias dos subtipos de xiv receptores de adenosina (RA-A1, RA-A2a, RA-A2b e RA-A3)....................... 5 Tabela 2 - Afinidade dos receptores de adenosina pelo ligante endógeno..... 6 Tabela 3 – Algumas doenças nas quais os ligantes dos receptores de adenosina A1 e A2a (agonistas ou antagonistas) são utilizados como formas de tratamento...................................................................................... 10 Tabela 4 – Resíduos de aminoácidos dos receptores de adenosina RA-A1 e RA-A2a analisados por estudos de mutagênese e seu perfil de modulação sobre a afinidade.......................................................................... 14 Tabela 5 - Comparação dos valores percentuais de identidade resultantes do alinhamento múltiplo das sequências primárias entre o receptor de adenosina A1 (RA-A1) e os moldes utilizados, incluindo as estruturas cristais da bacRho, da BRho, do receptor β2-A e do RA-A2a......................... 35 Tabela 6 – Distribuição dos resíduos de aminoácidos observados no gráfico de Ramachandran para os modelos do receptor de adenosina A1 (RA-A1) e para os moldes utilizados (RA-A2a, bacRho, BRho e β2-A)........................ 37 Tabela 7 – Comparação dos valores de RMS Ǻ) resultantes ( do alinhamento dos modelos de RA-A1 utilizando como molde o receptor de adenosina A2a (RA-A2a), a bacteriorodopsina (bacRho), a rodopsina bovina (BRho) e o receptor β2-adrenérgico (β2-A)......................................... 42 Tabela 8 – Resíduos dos modelos de receptor de adenosina A1 que realizam interações com a adenosina no compexo receptor-ligante. No corte de 6Ǻ, foram identificados resíduos descritos pela literatura como importantes para a interação receptor-agonista (em itálico) (Ben et al., 2010; Giordanetto et al.,2003; Olah e Stiles, 2000, Rivkees et al., 1999) e resíduos que foram identificados em pelo menos dois modelos..................... 44 RESUMO A adenosina é um nucleosídeo endógeno, sendo um metabólito produzido tanto intra quanto extracelularmente. Presente em todos os tecidos e fluidos corporais, ela desempenha várias funções importantes, tais como neuromodulação, neuroproteção e envolvido no processo de plasticidade. xv Devido a essas funções, os receptores de adenosina (RA-A1, RA-A2a, RA-A2b e RA-A3) são atualmente alvos terapêuticos para o desenho de ligantes potentes e seletivos. Entretanto, a estrutura destes receptores ainda não foi totalmente elucidada experimentalmente, com exceção do RA-A2a. Neste trabalho, temos como objetivo geral analisar e comparar RA-A1 e RA-A2a nos diferentes níveis estruturais, incluindo suas interações com possíveis ligantes, utilizando a modelagem molecular a fim de compreender sua relação estruturaatividade e contribuir para o desenvolvimento de ligantes mais potentes e seletivos. Assim, construímos os modelos por homologia do RA-A1, utilizando o programa MODELLER 9.9 além dos programas Verify 3D, Procheck para validação. Diferentes moldes foram utilizados, incluindo as estruturas cristais do RA-A2a (código PDB = 3EML), da bacteriorodopsina (PDB = 1BRD), da rodopsina bovina (PDB = 1U19) e do receptor β2-adrenérgico (PDB = 2RH1). A construção dos ligantes adenosina (agonista) e ZM241385 (antagonista) foi feita no Spartan’08 enquanto o docking nos modelos foi realizado no programa Molegro Virtual Docker. Os resultados sobre a comparação da estrutura primária revelou uma identidade entre os moldes e o RA-A1, que variou entre 8 e 49%. Apesar do baixo grau de identidade, os modelos construídos se mostraram estáveis mostrando baixos valores de RMS (0,30-0,78 Å) que apontam para uma conservação da estrutura 3D. A única exceção foi o modelo gerado a partir da bacteriorodopsina, que impossibilitou o alinhamento estrutural e o cálculo do RMS. A distribuição eletrônica também se mostrou conservada nos modelos contruídos, com exceção dos modelos baseados na rodopsina bovina e na bacteriorodopsina, que apresentaram maior quantidade de cargas negativas. Esses dados reforçam a inadequabilidade da bacteriorodopsina como molde para a construção de modelo para o RA-A1, de forma análoga ao descrito na literatura para o RA-A2a. Os resultados dos estudos de docking confirmaram a presença de vários aminoácidos descritos na literatura como importantes para interação receptor-ligante, incluindo os resíduos de aminoácidos Glu16, Leu65, Ile69, Cys85, Pro86, Cys169, Thr277 e His278 para o RA-A1 e Thr88, Glu169, Asn181, Phe182, His250, Asn253 e Ile274 para o RAA2a. O estudo também permitiu observar que o tipo de ligante (antagonista ou agonista) provoca um deslocamento nos resíduos de aminoácidos da estrutura do receptor, mostrando que determinados aminoácidos são importantes para a interação específica com o ligante. Contudo as diferenças de afinidade observadas experimentalmente para o antagonista não foi explicado pelo modelo construído com base na estrutura cristal do RA-A2a, o que indica a necessidade de uma análise mais extensiva desse modelo e de suas interações. ABSTRACT Adenosine is an endogenous nucleoside and a metabolite produced both intra and extracellularly. Present in all tissues and body fluids, it is involved in several important functions, such as neuromodulation, neuroprotection and plasticity process. Due to these functions, the adenosine receptors (RA-A1, RAxvi A2a, A2b and RA-RA-A3) are currently therapeutic targets for designing potent and selective ligands. However the structure of these receptors has not been fully elucidated experimentally, except for RA-A2a. In this work, we aim at analyzing and comparing the adenosine receptors A1 and A2a at different structural levels, including their interactions with potential ligands using molecular modeling to understand their structure-activity relationship and contribute to the development of ligands more potent and selective. Thus, we built homology models for RA-A1, using the MODELLER 9.9 program besides the Verify 3D and Procheck programs for validation. Different templates were used, including the crystal structures of RA-A2a (PDB code = 3EML), bacteriorhodopsin (PDB = 1BRD), bovine rhodopsin (PDB 1U19 =) and β2adrenergic receptor (PDB = 2RH1). The construction of the ligands, adenosine (agonist) and ZM241385 (antagonist), was made in Spartan'08 while the docking in the models was carried out in the program Molegro Virtual Docker. The results on comparison of primary structure revealed an identity between the templates and RA-A1, which ranged from 8 to 49%. Despite the low identity degree, the constructed models were stable showing low RMS values (0.30 to 0.78 Å) that point to the conservation of the 3D structure. The only exception was the model derived from the bacteriorhodopsin that did not allow the structural alignment and calculation of RMS. The electronic distribution also remained conserved in the constructed models, with the exception of models based on bovine rhodopsin and bacteriorhodopsin, which showed a higher concentration of negative charges. These findings reinforced the inadequacy of bacteriorhodopsin as a template for building a model for RA-A1, similar to that described in the literature for RA-A2a. The results of docking studies confirmed the presence of various amino acids described in the literature as important for receptor-ligand interaction, including amino acid residues Glu16, Leu65, Ile69, Cys85, Pro86, Cys169, Thr277 and His278 for RA-A1 and Thr88, Glu169, Asn181, Phe182, His250, Asn253 and Ile274 for RA-A2a. The study also allowed us to observe that the type of ligand (antagonist or agonist) causes a shift in amino acid residues of the receptor structure, showing that certain amino acids are important for specific interactions with the ligand. However, the differences experimentally observed in the affinity of the antagonist was not explained by the model constructed based on the crystal structure of RA-A2a, which indicates the need for a more extensive analysis of this model and their interactions. xvii 1 – Introdução 1.1 – Adenosina e suas características A adenosina é um nucleosídeo endógeno composto pela base adenina (purina) e pela ribose (Baraldi et al., 2008; Jenner et al., 2009; Clementina e Giuseppe, 2010) (Figura 1). Presente em todos os tecidos e fluídos corporais, a adenosina é liberada essencialmente por todas as células, incluindo neurônios e glia (Ribeiro et al., 2003). A concentração desse nucleosídeo pode aumentar drasticamente quando há um desequilíbrio entre a energia consumida e a energia fornecida (Schulte e Fredholm, 2003; Martinelli e Tuccinardi, 2008; Baraldi et al., 2008), sendo esta molécula instável e com meia vida limitada pela deaminação ou recaptação celular (Baraldi et al., 2008). H2N N N N N O HO HO OH Figura 1. Estrutura química do nucleosídeo adenosina. A adenosina é um metabólito que pode ser formado tanto intracelularmente quanto extracelularmente. A produção intracelular pode ser mediada pela endo-5nucleotidase, que desfosforila a adenosina monofosfato (AMP), ou pela hidrólise da S-adenosil-homocisteína. Diferentemente, a produção extracelular ocorre por desfosforilação de AMP extracelular, cuja fonte pode ser a adenosina trifosfato (ATP), acarretada pela ação da ecto-5’-nucleotidase (Figura 2). Outra fonte de adenosina extracelular é o monofosfato de adenosina cíclico (AMPc), que é liberado para o meio extracelular através de um transportador não específico dependente de energia. Ainda podemos mencionar a formação de adenosina a 1 partir da hidrólise da S-adenosilhomocisteína (SAH) pela enzima SAH hidrolase. Essa enzima geraria adenosina e homocisteína a partir da SAH (Martinelli e Tuccinadi, 2007; Cunha, 2008; Baraldi et al., 2008; Fredholm et al., 2010) (Figura 2). Figura 2 – Principais vias do metabolismo da adenosina e seu transporte. Adaptado de Poulsen e Quinn, 1998. A adenosina atua como neuroprotetor sob condições fisiológicas e patológicas. O efeito de proteção e reparo está dividido em categorias que inclui vasodilatação ou angiogênese, proteção contra danos provocados por isquemia e estímulo da resposta antiinflamatória (Jacobson, 2009; Jenner et al., 2009; Jacobson e Gao, 2006). Como é um importante neuromodulador, a adenosina está envolvida em diversas atividades cerebrais, tais como: a) inibição do neurotransmissor glutamato, possivelmente pela inibição do influxo de Ca2+ présináptico (Franco et al., 2005); b) regulação do sono e do nível de alerta; c) efeitos locomotores; d) analgesia; e) mediação dos efeitos do etanol e do uso crônico de fármacos (Fukumitsu et al., 2005; Dort et al., 2009). A neuromodulação mediada pela adenosina pode ser excitatória ou inibitória, dependendo do receptor ao qual esse nucleosídeo se liga (Margus et al., 2009). Além disso, os derivados dessa molécula modulam as diferentes formas de plasticidade sináptica, incluindo potenciação de longa duração (Long2 term potentiation, LTP) e despotenciação (Mohammad-Zadeh et al., 2009.; Jacobson, 2009; Schubert et al.2006). Além desses efeitos sobre o sistema nervoso central (SNC), a adenosina desempenha outros papéis em uma variedade de tecidos. No sistema cardíaco, a adenosina pode estimular a vasoconstricção ou a vasodilatação de veias e artérias, alterando a pressão sanguínea (Givertz, 2009; Silva, 2010). No sistema imunológico, a adenosina regula a produção de citocinas, a proliferação de linfócitos T, a produção de moléculas co-estimulatórias positivas, que são utilizadas para ativação de células imunitárias, protegendo ainda contra a morte celular induzida por reativação de linfócitos T CD4+ (Silva, 2010; Michael et al., 2010). Esse nucleosídeo também está relacionado com a inibição da lipólise e indução da broncoconstrição (Silva, 2010). A adenosina não pode ser considerada um neurotransmissor clássico porque não é produzida e liberada por vesículas em resposta a um estímulo neuronal (Jacobson, 2009; Ribeiro et al., 2003). De forma diferente, este nucleosídeo é liberado do citoplasma para o espaço extracelular através de um transportador de nucleosídeo, que também medeia sua recaptação (Cunha, 2008; Ribeiro et al., 2003) (Figura 2). 1.2 – Receptor de adenosina (RA): um receptor acoplado à proteína G Os Receptores Acoplados à Proteína G (RAPG) compreendem uma classe de receptores transmembranares que viabilizam a sinalização intracelular, via estímulo extracelular, resultando em diversos eventos celulares (Wettschureck e Offermanns, 2005,Katritch et al., 2010). Cerca de 800 proteínas transmembranares da família dos RAPG estão envolvidas em sinalização e regulação no Sistema Nervoso Central (SNC) e em outros sistemas, sendo esses receptores alvos para quase metade dos fármacos existentes (Katritch et al., 2010). Os RAPG de mamíferos podem ser classificados em várias famílias com base na sua sequência de resíduos de aminoácidos. Dentre as principais estão incluídas as famílias das moléculas do tipo rodopsina (I), do tipo receptor de 3 secretina (II) e do tipo receptor metabotrópico do neurotransmissor glutamato (III) (Wettschureck e Offermanns, 2005, Martinelli e Tuccinardi, 2007; Yuzlenco e Kiéc-Kononowicz, 2009). Os receptores de adenosina (RA) pertencem à família I, do tipo rodopsina, e possuem um grande número de aminoácidos altamente conservados em sua estrutura (Martinelli e Tuccinardi, 2007; Yuzlenco e Kiéc – Kononowicz, 2008). Eles apresentam quatro subtipos, incluindo A1 (RA-A1), A2a (RA-A2a), A2b (RAA2b) e A3 (RA-A3), sendo essa classificação proposta com base no segundo mensageiro, na distribuição tecidual e no perfil farmacológico. Segundo a literatura, adenosina é capaz de estimular a adenil ciclase , enzima que converte ATP em AMPc, em cortes cerebrais com maior ou menor afinidade, o que gerou a subclassificação do RA-A2, em RA-A2a e RA-A2b respectivamente (Olah e Stiles, 2000; Gomes, 2007). Similar à função e à regulação de outros receptores acoplados à proteína G, a ativação e a desensibilização dos receptores de adenosina ocorre após a ligação do agonista. A interação do receptor ativado com a proteína G induz à produção de segundos mensageiros e a respostas fisiológicas clássicas que dependem do subtipo de RA envolvido (Jacobson, 2009). Enquanto os receptores de adenosina A1 e A3 são acoplados à proteína Gi/G0 e medeiam respostas inibitórias, os receptor A2a e A2b, que sinalizam principalmente via Gs ou G0, medeiam respostas excitatórias (Fredholm, 2010; Jacobson, 2009) (Figura 3). 4 Figura 3 - Vias de sinalização dos subtipos de receptores de adenosina. RA = receptor de adenosina. Todos os RA são membros do RAPG e por isso apresentam uma região estrutural (motif) típica desta classe, composta de uma única cadeia polipeptídica, formando sete hélices transmembranares, com o N-terminal extracelular e o Cterminal citosólico. Além disso, apresentam três alças intracelulares e três alças extracelulares, que contêm resíduos de cisteína que participam da formação de ligações dissulfeto, influenciando na conformação do receptor (Jacobson e Gao, 2006; Jenner et al., 2009). A identidade entre a estrutura primária dos receptores de adenosina varia entre 37 e 57%, o que é considerado um alto grau de conservação para sequência de aminoácidos (Tabela 1) (Jacobson, 2009). Tabela 1 – Comparação dos valores percentuais de identidade resultantes do alinhamento múltiplo das sequências primárias dos subtipos de receptores de adenosina (RA-A1, RA-A2a, RA-A2b e RA-A3). Identidade (%)* Receptores de adenosina RA-A1 RA-A2a RA-A2b RA-A3 RA-A1 100 49 45 48 RA-A2a 49 100 57 41 RA-A2b 45 57 100 37 RA-A3 48 41 37 100 * Dado obtido através do programa www.ebi.ac.uk/Tools/msa/clustalw2/]. ClustalW2 – Multiple Sequence Alignment. [Disponível em: A região C-terminal de RA-A1, RA-A2b e RA-A3 possui resíduos de cisteína conservados, que serve aparentemente como sítio para palmitação e permite a formação de uma quarta alça intracelular (Olah e Stiles, 2000). O RAA2a possui a região C-terminal mais longa, contendo mais de 120 resíduos de aminoácidos e que atua como um sítio de ligação para proteínas acessórias (Jacobson, 2009). Contudo, apesar do alto grau de identidade, esses receptores apresentam diferença quanto à afinidade pela adenosina endógena. O RA-A1 e o RA-A2a 5 possuem mais afinidade pela adenosina endógena do que RA-A3 e RA-A2a (Tabela 2) (Dunwiddie e Masino, 2001; Ciruela et al., 2006; Jacobson, 2009; Clementina e Giuseppe, 2010). Tabela 2 - Afinidade dos receptores de adenosina pelo ligante endógeno. Receptores Afinidade pela adenosina (nM) RA-A1 70 RA-A2a 150 RA-A2b 5100 RA-A3 6500 Adaptado de Dunwiddie e Masino, 2001 No SNC, os principais receptores para a adenosina são RA-A1 e RA-A2a, sendo que, as menores concentrações de adenosina estimularão preferencialmente RA-A1 (Boison, 2008; Gomes, 2007; Ciruela et al., 2006; Olah e Stiles, 2000). RA-A1 e RA-A2a são responsáveis por mediar a regulação do sono e o nível de alerta, neuroproteção, regulação da susceptibilidade à apreensão, efeitos locomotores, analgesia, mediação dos efeitos do etanol e uso crônico de fármacos (Fukumitsu et al., 2005). Por sua importância no SNC, esses receptores têm sido avaliados em diferentes áreas, incluindo a biologia celular, a bioinformática, a neuroquímica, a neurofarmacologia e a neurofisiologia (Cunha et al., 1997; Fukumitsu et al., 2005; Yang et al., 2009). Apesar de estar em menor concentração que o RA-A1, o RAA2a é o único que possui, atualmente, a estrutura tridimensional (3D) depositada no banco de dados de proteínas (Protein Data Bank, PDB), código 3EML, o que limita os estudos de relação estrutura-atividade para estes receptores (Jaakola et al., 2008). 6 1.2.1 – Receptor de adenosina A1 e A2a: breve visão 1.2.1.1 - Receptor de adenosina A1 (RA-A1) O receptor de adenosina A1 (RA-A1) está presente no SNC, particularmente em sinapses glutamatérgicas no hipocampo, no córtex, no cerebelo (Hargus et al., 2009; Lopes et al., 2002; Ochiishi et al., 1999) e no corno dorsal da medula espinhal (Ribeiro et al., 2003) (Figura 4). Esse receptor possui uma alta afinidade pela adenosina, sendo responsável por efeitos inibitórios mediados pela adenosina na transmissão sináptica e excitabilidade neuronal. Quando acoplado à proteína Gi/G0, esse receptor reduz a atividade da adenil ciclase, diminui os níveis de AMPc, aumenta a condutância do potássio (K+) e diminui transientemente a condutância de cálcio (Ca2+) (Jockers et al., 1994; Ochiishi et al., 1999; Ribeiro et al., 2003). Como resultado, ocorre a liberação de vários neurotransmissores, tais como glutamato, dopamina, serotonina e acetilcolina (Jenner et al., 2009; Zizzo et al., 2009; Boison, 2008; Lopes et al., 2002). Figura 4 – Distribuição dos receptores de adenosina de alta afinidade nas principais regiões do sistema nervoso central (Adaptado de Ribeiro, 2003). 7 Para exercer sua função, o RA-A1 apresenta alças extra e intracelulares, domínios transmembranares, uma porção N-terminal e uma porção C-terminal distribuidos na membrana celular de forma a permitir a sinalização (Figura 5). Além da adenil ciclase, a estrutura do RA-A1 permite a utilização de outros efetores, tais como fosfolipase A2 (PLA2), a fosfolipase C (PLAc) e a guanilil ciclase (Boison, 2008; Fukumitsu et al., 2005; Poulsen e Quinn, 1998). LE N-terminal LE LE ME DT MI LI LI LI C-terminal Figura 5 – Representação esquemática do receptor de adenosina A1 (RA-A1) na membrana celular, mostrando a distribuição estrutural das alças extracelulares (LE) e intracelulares (LI), os domínios transmembranares (DT) e as porção Cterminal e N-terminal nos meios extracelular (ME) e intracelular (MI). 1.2.1.2 – Receptor de adenosina A2a (RA-A2a) Os receptores de adenosina A2a (RA-A2a) apresentam diferenças estruturais significativas quando comparados aos RA-A1, como o tamanho na região do C-terminal e a quantidade de resíduos apolares presentes nas alças extras e intracelulares, que estão em maior proporção em relação aos outros tipos de aminoácidos para ambos os receptores (Figura 6) (Tuccinardi et al., 2006). 8 N-terminal LE LE LE ME DT MI LI LI LI C-terminal Figura 6 – Representação esquemática do receptor de adenosina A2a (RA-A2a) na membrana celular, mostrando a distribuição estrutural das alças extracelulares (LE) e intracelulares (LI), os domínios transmembranares (DT) e as porção Cterminal e N-terminal nos meios extracelular (ME) e intracelular (MI). Os RA-A2a são expressos em áreas com alta inervação GABAérgica, tais como o estriado (Boison, 2008) e hipocampo, assim como em terminais nervosos glutamatérgicos (Figura 4) (Hargus et al., 2009; Lopes et al., 2002). Esses receptores também são encontrados no núcleo accumbes e no bulbo olfatório (Gillespie et al., 2009; Latini et al., 1996) (Figura 4). A via de sinalização do RA-A2a causa ativação da adenil ciclase, estimulando a formação de AMPc, induz a formação de inositol trifosfato para elevar os níveis intracelulares de Ca2+ e ativa a proteína quinase C (PKC) (Jacobson e Gao, 2006). Assim, esse receptor é responsável por mediar ações excitatórias pré-sinápticas. 9 1.3 – Agonistas e antagonistas: os ligantes dos receptores de adenosina A identificação de um grande número de funções mediadas pela adenosina apontam os receptores de adenosina como alvos terapêuticos para tratamento de diferentes doenças e seus ligantes como possíveis fármacos (Tabela 3) (Poulsen e Quinn, 1998). Esse potencial foi reforçado com a descoberta de mais subtipos de receptores na última década e com a determinacao dos efeitos terapêuticos de agonistas e antagonistas (Tabela 3). Tabela 3 – Algumas doenças nas quais os ligantes dos receptores de adenosina A1 e A2a (agonistas ou antagonistas) são utilizados como formas de tratamento. Doenças tratadas pelo uso de ligante de RA Receptor Agonista A1 A2a Epilepsia, cardíaca, arritmia, dor. proteção derrame, Desordens do sono, imunossupressão, artrite reumatoide, derrame, hipertensão, trombose, desordens respiratórias. Antagonista Asma, diabetes, falência renal, desordens cognitivas Doença de Parkinson, derrame, câncer, neurodegeneração, doença de Huntington. Devido à ampla distribuição dos receptores de adenosina nos tipos celulares, a existência de quatro subtipos diferentes e a variabilidade de respostas fisiológicas, uma proposta de tratamento exige agonistas e antagonistas que sejam seletivos em sua ação para ter valor terapêutico (Poulsen e Quinn, 1998). A utilização de fármacos em camundongos com deleções em receptores de adenosina tem possibilitado delinear um número de processos fisiológicos e patofisiológicos, onde um ou mais desses receptores estão envolvidos (Tabela 3) (Jacobson e Gao, 2006; Fredholm, 2010). 10 Com a descoberta dos subtipos dos RA, alguns fármacos, que eram considerados seletivos para RA-A1 e RA-A2a, foram posteriormente identificados como não seletivos, devido à sua afinidade pelos subtipos RA-A2b e RA-A3. Essa situação aumenta a necessidade de novos compostos seletivos para os subtipos dos receptores recentemente descobertos (Klotz, 2000). A adenosina é a base estrutural de quase todos os agonistas conhecidos para os RA, com exceção da classe dos derivados da piridina-3,5-dicarbonitrila, que demonstra uma seletividade variada pelos subtipos de receptores (Jacobson, 2009; Klotz, 2000). A literatura descreve três sítios na adenosina que podem ser modificados para aumentar a afinidade a um subtipo específico do receptor, sem comprometer a atividade agonista, incluindo a posição 5’ da ribose e 2’ e as posições N6 da purina. Os compostos N6-cicloexiladenosina (CHA) e N-[2-(3,5-dimetoxifenil) etil] adenosina (DPMA) derivam das substituições na posição N6 e na posição 2’, respectivamente (Figura 7)( Sheardown e Knutsen, 1996; Klotz, 2000; Jacobson e Gao, 2006). A principal abordagem para a descoberta de antagonistas do receptor de adenosina tem sido a modificação de xantinas, tais como a cafeína e a teofilina (Figura 7). Antagonistas seletivos para o receptor de adenosina RA-A1 tem sido oriundos da modificação de xantinas, incluindo muitos derivados contendo 8-aril e 8-cicloalquil, como, por exemplo, o 8-ciclopentil-1,3-dipropilxantina (DPCPX) (Figura 7). Em relação ao receptor de adenosina A2a, 4-(2-[7-Amino-2-(2-furil)[1,2,4]triazolo[2,3-a]-[1,3,5]triazin-5-ilamino]etil)fenol (ZM241385) e 7-(2-feniletil)-5amino-2-(2-furil)-pirazolo-[4,3-e]-1,2,4-triazolo [1,5-c]pirimidina (SCH58261) são antagonistas seletivos, embora o ZM241385 também se ligue ao RA-A2b com afinidade intermediária (Jacobson e Gao, 2006) (Figura 7). 11 Figura 7 – Estruturas da adenosina, xantina e fármacos que as utilizam como base estrutural, mostrando as posições de mudanças estruturais. CHA = N6cicloexiladenosina, DPMA = N-[2-(3,5-dimetoxifenil) etil] adenosina, DPCPX = 8ciclopentil-1,3-dipropilxantina, SCH58261 = 7-(2-feniletil)-5-amino-2-(2-furil)pirazolo-[4,3-e]-1,2,4-triazolo[1,5-c] pirimidina, ZM241385 = 4-(2-[7-Amino-2-(2furil)-[1,2,4]triazolo[2,3-a]-[1,3,5]triazin-5-ilamino]etil)fenol. 12 1.3.1. Receptores de adenosina A1 e A2a: resíduos importantes para interação com ligantes Nos receptores de adenosina, tanto os domínios transmembranares, quanto às regiões extracelulares desempenham um papel importante na composição do sítio de ligação de fármacos (Olah e Stiles, 2000). Os resíduos de aminoácidos presentes em RA-A1 e RA-A2a importantes para a interação com os fármacos têm sido identificados por estudos de mutagêne revelando o papel de alguns resíduos para a interação de ligantes ao RA-A2a, incluindo Phe182, Asn253, Ile274, Ser281, His250, Ser277 e His278 (Sherbiny et al., 2009; Ben et al., 2010). Desde 1996, pesquisas envolvendo mutagênese têm identificado resíduos dos RA envolvidos direta ou indiretamente na interação com os ligantes ou que desempenhando uma função alostérica. Foi observado que o Glu16 e Thr277 (RA-A1) e o Glu13 (RA-A2a) são críticos para os agonistas, incluindo ainda os resíduos conservados Cys80 e Cys169 (Rivkees et al., 1999; Olah e Stiles, 2000; Giordanetto et al.,2003; Ben et al., 2010). Outros resíduos que têm sido descritos na literatura e que modulam a afinidade do RA-A1 e do RA-A2a estão descritos na Tabela 4 (Ben et al., 2010; Giordanetto et al., 2003; Olah e Stiles, 2000; Rivkees et al., 1999). 1.4 – Modelagem molecular: uma ferramenta para o estudo rde receptores e ligantes A modelagem molecular envolve métodos teóricos, matemáticos e técnicas computacionais que permitem, em ambiente computacional (in silico), criar ou simular o comportamento de moléculas, descrever e prever estruturas moleculares, propriedades do estado de transição, equilíbrio de reações, propriedades termodinâmicas, dentre outras (Brito, 2007). Estudos da área de modelagem comparativa podem envolver vários estágios, incluindo: a seleção de um molde/template que descreva interações inter e intramoleculares de um sistema, realização de cálculos e simulações com análise dos resultados e 13 validação da estrutura final que irá permitir usar ou rejeitar o modelo obtido (Brito, 2007). Tabela 4 – Resíduos de aminoácidos dos receptores de adenosina RA-A1 e RAA2a analisados por estudos de mutagênese e seu perfil de modulação sobre a afinidade. Ligante Agonista Efeito na afinidade RA-A1 RA-A2a Aumento Gly14, Asp55 Gly89, His250, Ser281 Glu16, Pro25, Leu65, Glu13, Val84, Thr88, Ile69, Cys85, Pro86, Glu151, Glu169, Asn181, Leu88, Thr91, Ser94, Phe182, His250, Asn253, Cys169, Asn254, Phe257, Ile274, Ser277, Thr277, His278 His278, Ser281 - Gly89, Glu161, Ser281 Glu16, Cys80, Val87, Thr88, Glu151, Glu169, Redução Leu88, Thr91, Gly92, Phe182, His250, ou perda Ser94, Cys169, Asn251, Asn253, Phe257, Ile274, Asn254, Thr277, His278 His278, Ser281 Redução ou perda Aumento Antagonista A modelagem molecular é usada nas áreas de química computacional, biologia computacional e ciências para o estudo de sistemas moleculares, que variam desde pequenos sistemas químicos até grandes moléculas biológicas, tais como ácidos nucléicos e proteínas. A modelagem molecular reduz a complexidade dos sistemas, permitindo que muito mais partículas (átomos) sejam consideradas durante as simulações (Leach, 2001). A base da modelagem molecular está em relacionar todas as propriedades moleculares importantes, ou 14 seja, estabilidade, reatividade e propriedades eletrônicas com a estrutura molecular (Coelho et al., 1999). Os métodos de modelagem molecular são usualmente utilizados para investigar a estrutura, a dinâmica e a termodinâmica de sistemas inorgânicos, biológicos e poliméricos, além de abrangerem estudos de minimização de energia, análise conformacional, simulações de dinâmica molecular, entre outros. Os tipos de atividades biológicas de macromoléculas que têm sido investigados usando a modelagem molecular incluem o enovelamento e estabilidade protéica, a catálise enzimática, mudanças conformacionais associadas à função biomolecular e reconhecimento molecular de proteínas, de DNA e de complexos membranares. Na última década, o avanço no desenvolvimento de recursos computacionais, em termos de equipamentos (hardware) e programas (software), possibilitou uma maior aplicação da modelagem molecular em problemas de interesse biológico. Atualmente, esse campo encontra-se muito mais acessível para os pesquisadores, devido ao grande número de programas de química computacional disponíveis para auxiliar na pesquisa científica (Leach, 2001). Os estudos nessa área têm contribuído de forma decisiva para elucidar interações intra/inter moleculares, mecanismos de reações químicas e estrutura e função de proteínas difíceis de serem purificadas em grande escala, o que dificulta a determinação estrutural de forma experimental clássica (ex.: cristalografia) (Figueiredo et al., 2005). 1.4.1 – Modelagem por homologia: abordando os receptores Apesar do progresso na determinação experimental de estruturas por cristalografia de raio-X e ressonância magnética nuclear (RMN), o número de estruturas de proteínas caracterizadas experimentalmente é menor quando comparado ao número de sequências de proteínas descritas de forma contínua na literatura (Koop e Schwede, 2005; Nayeem et al., 2006). Assim, vários métodos computacionais para predizer estruturas 3D têm sido desenvolvidos, variando de métodos ab initio, que prevê estruturas sem 15 conhecimento prévio das mesmas; à modelagem comparativa, que utiliza informações experimentais de estruturas já determinadas. Como as estruturas tridimensionais (3D) das proteínas são mais conservadas do que as suas sequências, a estrutura conhecida experimentalmente de uma proteína pode ser usada como molde (template) para gerar um modelo para outras proteínas da mesma família (Hillisch et al., 2004; Nayeem et al., 2006). A modelagem por homologia tem se mostrado como um método preciso e capaz de construir modelos 3D de forma confiável, que podem ser utilizados, por exemplo, no desenho de novos fármacos (Filho e Alencastro, 2003; Hillisch et al., 2004; Koop e Schwede, 2005). Para construir um modelo por homologia são necessárias basicamente três etapas: 1ª: Seleção de um molde que apresente um certo grau de similaridade determinado a partir de alinhamentos das sequencias primárias; 2ª: Construção da proteína alvo utilizando a estrutura 3D do molde. 3ª: Avaliação (validação) da qualidade do modelo construído. Assim, o modelo por homologia representará a estrutura 3D da proteína alvo, cuja estrutura original é desconhecida, construída a partir de dados de coordenadas de raios-X ou RMN de proteínas semelhantes ou usando técnicas de alinhamento (Sant’Anna, 2002). 1.4.1.1 – Etapas de Construção do Modelo 1.4.1.1.1 - Alinhamento de sequências proteicas O alinhamento de sequências auxilia na predição e na construção de modelos por homologia. As sequências são alinhadas e a qualidade do alinhamento é avaliada e pontuada considerando as regiões conservadas e a identidade dos resíduos de aminoácidos (Gibas e Jambeck, 2001). Uma das regiões conservadas presente nos subtipos de receptores de adenosina é a sequência Asp-Arg-Tyr, existindo ainda outras que são conservadas em todos os receptores pertencentes à família I dos RAPG (Yuzlenko e Kiec-Kononowicz, 2009) (Figura 8). 16 17 Quando resíduos de aminoácidos são idênticos são mais altamente pontuados pelos programas de alinhamento do que os similares que conservam apenas as propriedades químicas, como os aminoácidos ácidos, e do que aqueles que conservam as propriedades eletrônicas como ser carregado (positivo ou negativamente) (Gibas e Jambeck, 2001). Sequências homólogas apresentam uma relação evolutiva entre elas. Contudo, certas sequências apresentam inserções ou deleções de aminoácidos, dando origem a espaços vazios – os gaps – no alinhamento o que indica a necessidade de adição ou retirada de alças na estrutura (Abreu, 2008, apud Gibas e Jambeck, 2001). As proteínas que apresentam funções relacionadas são, por vezes, semelhantes tanto na sequência primária, quanto na estrutura terciária. Entretanto, a estrutura primária pode se modificar mais rapidamente do que a estrutura 3D durante a evolução (Santos 2002). A estrutura de proteínas homólogas são, geralmente, conservadas, uma vez que a estrutura ancestral comum é, por vezes, imprescindível para a função específica da cada uma das proteínas daquela família (Santos 2002). 1.4.1.1.2 – Construção e otimização do modelo 3D Um dos primeiros passos para a construção de um modelo por homologia é determinar o molde, o que necessita de uma busca no banco de dados de proteínas (Protein Data Bank, PDB) com comparação das sequências das estruturas existentes com a sequência da proteína a ser modelada (Filho e Alencastro, 2003). A qualidade do modelo geralmente depende do nível de identidade entre a sequência da proteína com estrutura conhecida e da proteína a ser modelada. Se a identidade for maior que 30%, usualmente pressupõe-se uma homologia que determinaria um ancestral comum. Portanto, essas proteínas seriam evolutivamente relacionadas, podendo apresentar uma estrutura 3D conservada e similar. Contudo, se a sequência de identidade for menor que 15%, a estrutura modelada, segundo a literatura, torna-se questionável. Se o valor estiver entre 18 15% e 30%, métodos mais sofisticados capazes de reconhecer a homologia e predizer o enovelamento devem ser utilizados (Abreu 2008; Hillisch et al., 2004; Filho e Alencastro, 2003). Os modelos que possuem sequência de identidade entre 30% e 50% facilitam a predição baseada na estrutura de alvos terapêuticos e uma identidade maior que 50%, permite a construção de um modelo geralmente útil para o planejamento de fármacos e predição de sítios de interações (Hillisch et al., 2004; Filho e Alencastro, 2003). Uma das vantagens dos modelos por homologia é que podem ser rapidamente gerados, devendo, contudo, a construção e a avaliação dos modelos serem cuidadosas, uma vez que existem insucessos descritos na literatura (Hillisch et al., 2004). Os modelos gerados por homologia precisam ser otimizados para se aproximar à forma da estrutura estável real. O objetivo da otimização da geometria é encontrar o mínimo de energia mais próximo à geometria de partida, o que pode ser atingido por meio de cálculos de mecânica molecular (Sant’Anna, 2002). Na mecânica molecular, e energia é calculada por comparação entre ângulos e distância de ligação entre átomos que compõem a molécula. Nesse cálculo, apenas o núcleo dos átomos é considerado, o que torna possível estudar biomacromoléculas e sistemas que contenham mais de 10.000 átomos (Abreu, 2008; Carvalho et al., 2003). 1.4.1.1.3 – Validação do modelo 3D No processo de modelagem por homologia de uma proteína, a última etapa consiste na validação do modelo, uma análise da confiabilidade da estrutura construída. Essa é uma etapa complexa, pois a qualidade do modelo depende de várias propriedades, em diferentes níveis de organização estrutural (Fersht, 1998). A distribuição dos ângulos torcionais da cadeia principal – phi (φ) e psi (ψ) – é um indicador importante da qualidade estereoquímica da proteína. Os ângulos 19 φ e Ψ referem-se a rotações de duas unidades rígidas dos peptídeos em torno do carbono alfa (Cα). O ângulo ψ é o ângulo de torção da ligação Cα – N e o ângulo φ é o ângulo de torção da ligaçãoα C – carbono da carbonila (CO) (Filho e Alencastro, 2003; Branden e Tooze, 1991) (Figura 9). Figura 9 – Estrutura das ligações peptídicas, mostrando os ângulos torcionais phi (φ) e psi (ψ) da cadeia principal de proteínas (Adaptado de Jakubowski, 2008) A distribuição dos ângulos φ e ψ pode ser examinada através do gráfico de Ramachandran. Esse gráfico é separado em regiões identificadas por cores incluindo as regiões favoráveis (vermelha), permitidas (amarela e creme) e desfavoráveis (branca), no qual resíduos de aminoácidos que apresentam problemas estereoquímicos geralmente se localizam (Figura 10). Figura 10 - Gráfico de Ramachandran para a estrutura cristal do receptor de adenosina A2a como exemplo da estereoquímica dos aminoácidos de acordo com a distribuição dos ângulos phi e psi. Em vermelho, regiões favoráveis, em amarelo e creme, regiões permitidas e em branco, regiões desfavoráveis. 20 Além do gráfico de Ramachandran, existem outras formas de avaliar um modelo, tais como, a análise da superfície da proteína e da compatibilidade entre a estrutura 3D do modelo e sua própria sequência de aminoácidos usando o programa Profile 3D. O método baseia-se no fato de que proteínas com estrutura 3D adequadas possuem pontuações (scores) maiores do que modelos com estrutura 3D inadequada. Além disso, o método avalia o score 3D–1D para cada aminoácido, que deve apresentar, preferencialmente, valores maiores que zero (Lüthy, et al., 1992; Abreu, 2008). 1.4.2 - Docking: gerando complexos receptor-ligante A utilização de métodos computacionais para o processo de reconhecimento molecular receptor-ligante tem sido motivada devido à redução de tempo e dos altos custos envolvidos no desenvolvimento experimental de novos fármacos (Morgon e Coutinho, 2007; Huguenin, 2009). O Docking ou ancoramento molecular é um processo computacional de busca por um ligante capaz de se encaixar geometricamente e energeticamente ao sítio de uma proteína. Essa técnica pode ser realizada de forma manual ou automática (Huguenin, 2009). No docking manual, o composto é posicionado no sítio de ligação de acordo com modelos comparativos de outros compostos análogos. No docking automático, o composto é posicionado por meio de programas computacionais, que utilizam algoritmos de busca para localizar as orientações mais estáveis, ou seja, de menor energia (Huguenin, 2009). Entender como os ligantes interagem com os diferentes tipos de proteínas é importante não só para a área de planejamento de fármacos ou produtos biotecnológicos (indústrias farmacêuticas), mas também para indústrias que produzem alimentos funcionais, que podem fornecer benefícios para a saúde (Vaqué et al., 2008). Em um docking proteína-ligante, as coordenadas individuais da proteína e do ligante são usadas para prever as coordenadas do complexo. Hoje, existem vários programas que fazem docking de ligantes, como o Molegro Virtual Docker 21 (MVD) e o AutoDock. Esses programas apresentam características em comum, incluindo o uso de um algoritmo que faz uma busca de todas as possíveis coordenadas para um complexo, sugerindo um candidato de estruturas 3D, e uma função de pontuação (score) que pontua todos os candidatos e classifica-os de acordo com a energia de interação intermolecular. Apesar dessas semelhanças, os programas de docking diferem uns dos outros na forma como o algoritmo de busca funciona e/ou na pontuação para os diferentes tipos de interações intermoleculares e sobreposições estéricas que considera para obter o score (Vaqué et al., 2008). Ao observar as coordenadas do complexo proteína-ligante, diferentes graus de flexibilidade molecular podem ser considerados. Dentre eles estão os algoritmos mais simples que consideram o receptor e o ligante como corpos rígidos, sendo assim, não há grau de liberdade em torno de qualquer ponto de rotação. Atualmente essa técnica é utilizada apenas para docking proteínaproteína (B-Rao et al., 2009; Vaqué et al., 2008). Recentemente, a abordagem utilizada pela maioria dos programas considera que o receptor é rígido e o ligante, flexível. No entanto, tem sido questionado que o receptor não pode ser considerado um corpo rígido e que a sua flexibilidade também deve ser considerada. Esse tipo de abordagem está presente em alguns programas de docking mais recentes (B-Rao et al., 2009; Vaqué et al., 2008). Para que uma ferramenta de docking seja útil, é necessário que ela seja capaz de gerar um conjunto grande e diversificado de ligantes. Existem dois tipos principais de algoritmos que permitem que os programas de docking pesquisem o espaço conformacional do ligante para obtenção de suas representações estruturais. Ambos apresentam vantagens e desvantagens, sendo a escolha orientada, geralmente, pela experiência prévia (Vaqué et al., 2008). Uma vez que o conjunto de conformações do ligante, no complexo, tenha sido predito, a sua afinidade de ligação para o receptor deve ser avaliada. Isso é feito por meio do score, que avalia os resultados da pesquisa, o ligante ideal a ser escolhido é aquele que apresenta o maior valor. Dessa forma, podemos concluir 22 que a função de pontuação é crítica nos protocolos de docking e que auxilia na escolha do melhor ligante (Spallarossa et al., 2009; Vaqué et al., 2008; Pham e Jain, 2008). Além do score, para que os programas de docking sejam ferramentas úteis na descoberta de fármacos, precisão e velocidade são fatores importantes (Brooijmans e Kuntz, 2003). A comparação da capacidade de previsão e os resultados gerados por programas de docking proteína-ligante constituem uma área atualmente de intenso investimento (Vaqué et al., 2008). 1.4.2.1– Interação receptor – ligante Para entender o mecanismo de ação dos fármacos, faz-se necessário conpreender as forças de interação que permitem que o fármaco se ligue ao receptor. As interações envolvidas na formação do complexo receptor-ligante são aquelas comuns entre moléculas orgânicas, tais como, ligações de hidrogênio, interações eletrostáticas (iônicas), interações dipolo-dipolo, interações hidrofóbicas e interações de van der Waals, além da possibilidade da existência de ligações covalentes. Essas interações só são possíveis quando as superfícies moleculares estão próximas, sendo a força da interação dependente da distância (Silverman, 1992; Santos, 2002). As ligações covalentes são de alta energia e dificilmente clivadas em processos não enzimáticos. Dessa forma, as ligações covalentes envolvidas no complexo receptor-ligante raramente são desfeitas e levam a uma inibição irreversível com inativação do sítio alvo (Abreu, 2008). Em pH fisiológico, a cadeia lateral dos resíduos de aminoácidos básicos torna-se protonada, gerando um ambiente catiônico. Em relação aos aminoácidos ácidos, as cadeias laterais encontram-se desprotonadas, caracterizando sítios aniônicos. Dessa forma, os grupamentos dos ligantes e receptores contendo cargas opostas são mutuamente atraídos de forma complementar (Santos, 2002; Silverman, 1992). As interações iônicas que ocorrem entre grupamentos com cargas opostas são mais fortes que as ligações de hidrogênio, porém, mais fracas que as ligações covalentes (Abreu, 2008 apud Murray et al., 2006). 23 A interação dipolo-dipolo é mais fraca que a interação iônica e envolve a atração entre dipolos permanentes. A diferença de eletronegatividade dos átomos do receptor e do ligante (C – X, onde X é um átomo eletronegativo) produz uma distribuição assimétrica de elétrons (Silverman, 1992). A ligação de hidrogênio é uma forma de interação dipolo-dipolo formada entre um átomo de hidrogênio ligado a um átomo eletronegativo (X) e a outro átomo eletronegativo contendo um par de elétrons livres (Y), X ....... H ....... Y onde X e Y podem ser átomos de nitrogênio, oxigênio ou flúor. Esse é o tipo de interação mais importante nos sistemas biológicos, sendo responsável pela formação da estrutura secundária em proteínas α( -hélice e folha β -pregueada) e ácidos nucléicos (hélice de DNA). A ligação de hidrogênio torna-se importante para o encaixe do fármaco no sítio da macromolécula alvo (Santos, 2002; Silverman, 1992). As interações hidrofóbicas ocorrem entre grupamentos apolares. Essa interação minimiza as ligações energeticamente desfavoráveis que são formadas na associação. Podemos observar esse tipo de interação entre os lipídios das membranas biológicas e entre as cadeias hidrofóbicas presentes no ligante e no sítio de ligação do receptor (Abreu, 2008; Santos, 2002; Silverman, 1992). As interações de van der Waals são as interações mais fracas energeticamente e ocorrem em função de uma polarização transitória (dipolo instantâneo ou dipolo induzido) de ligações de baixa polaridade ou apolares, tais como as ligações carbono-carbono e carbono-hidrogênio. Mesmo sendo caracterizadas como uma interação fraca, a interação de van der Waals é importante para o reconhecimento molecular do ligante pelo sítio de ligação do receptor (Abreu, 2008, apud Silverman, 1992). Interessantemente, fármacos que interagem por ligações fracas são, por vezes, mais seletivos do que aqueles que interagem por ligações de alta energia. Isso acontece porque as ligações fracas exigem um encaixe mais preciso do ligante no sítio de ligação do receptor (Silverman, 1992 apud Abreu, 2008). 24 1.4.3 – O receptor de adenosina A1 (RA-A1) e a modelagem por homologia Até recentemente, não havia, na literatura, dados de cristalografia ou RMN sobre a estrutura 3D dos receptores de adenosina. A relação estrutura/função só era possível até então através da modelagem por homologia, utilizando métodos computacionais para construir os modelos 3D (Ben et al., 2010). Entretanto, a determinação de estruturas 3D de receptores são especialmente mais difíceis por serem proteínas inseridas em membrana. A cristalização desse tipo de proteína é difícil por causa da natureza anfipática da sua superfície e devido à baixa concentração nos tecidos. Essas dificuldades, por vezes, inviabilizam os experimentos de difração de raio-X e a determinação da estrutura por ressonância magnética nuclear (RMN) (Sherbiny et al., 2009; Ben et al., 2010). Inicialmente, para descrever as características estruturais dos receptores de adenosina usando ferramentas computacionais, utilizavam-se aproximações baseadas em proteínas e ligantes já conhecidos, comparando-os e sobrepondoos na tentativa de maximizar a predição das interações receptor-ligante (Ben et al., 2010). Em 1975, Henderson e Unwin relataram a estrutura cristal da bacteriorodopsina (bacRho), uma bomba de prótons da Halobacterium salinarium (H. halobium), que possui 7 domínios transmembranares formados por α-hélices e origina a classificação da primeira família dos RAPG (Ben et al., 2010) (Figura 11). Assim, os primeiros modelos por homologia dos receptores de adenosina foram baseados na bacRho, mesmo com a ausência de similaridade funcional e baixa similaridade de sequência (Ben et al., 2010; Rivkers et al., 1999). A construção do modelo do receptor de adenosina através da bacRho ocorreu através da mutação dos aminoácidos para corresponder aos resíduos dos receptores de adenosina, sendo a estrutura otimizada através da rotação das hélices, de minimização de energia e de dinâmica molecular (Ben et al., 2010). O primeiro modelo do receptor de adenosina A1 (canino) foi publicado por Ijezerman et al em 1992, usando a bacRho como molde e revelando a importância dos resíduos de His251 e His278 para afinidade dos ligantes (Ben et al., 2010, apud IJzerman et al., 1992). O modelo canino foi utilizado para docking, 25 mas apresentava limitações devido à baixa similaridade com a bacRho (Ben et al., 2010, apud IJzerman et al., 1992). Figura 11 – Comparação das estruturas cristais da bacteriorodopsina (A), da rodopsina bovina (B) e do receptor β2-adrenérgico (C) com resolução de 3,5 Ǻ, 2,40Ǻ e 2,20Ǻ, respectivamente. Os sete domínios transmembranares estão demarcados pelas caixas revelando ainda a conformação mais aberta do receptor β2-adrenérgico. As estruturas secundárias são mostradas em rosa α ( -hélices), azul (loops) e verde (folhas β-pregueadas). A primeira evidência da estrutura dos RAPG com 7 domínios transmembranares surgiu em 1993, com o trabalho do grupo de Henderson, que relatou um mapa de projeção eletrônica da rodopsina visual, uma cromoproteína da retina, que atua via proteína G (Ben et al., 2010, apud, Henderson et al., 1975). Estudos de mutagênese em 1994 mostraram a importância do resíduo 277, uma treonina no RA-A1 de humanos, no reconhecimento e na interação com a porção da ribose e da adenosina. Nesse mesmo ano, o RA-A2a foi construído pelo mesmo método utilizado para o RA-A1 (Ben et al., 2010, apud IJzerman et al.,1994). Muitos modelos de receptor de adenosina foram publicados com base nas características gerais da rodopsina (mapa de densidade eletrônica de baixa 26 resolução) e do modelo de RAPG da família da rodopsina proposto por Baldwin (Ben et al., 2010). Em 2000, foi publicado o cristal da rodopsina bovina (BRho) (código PDB = 1F88), que representou um marco para os estudos computacionais dos receptores de adenosina, pois mostrou, de fato, a estrutura com 7 domínios transmembranares dos receptores RAPG e forneceu um molde mais fiel para a modelagem molecular comparativa dos receptores de adenosina (Figura 11) (Martinelli e Tuccinardi, 2008; Ben et al., 2010). A BRho apresenta características importantes, tais como, uma ligação dissulfeto conservada na maioria dos RAPG, presença de loops intra e extracelulares, além do domínio N-terminal (Ben et al., 2010). Depois do relato sobre esta estrutura cristal, outros surgiram envolvendo difração de raio-X e RMN e que foram utilizados para modelar os receptores de adenosina (RA). Em comparação com a bacRho, a BRho possui maior identidade com a sequência dos RA (14% contra 8% da bacRho), o que permitiria uma melhor predição destes receptores. Os modelos de RA produzidos a partir da BRho puderam ser utilizados para evidenciar o papel dos resíduos da segunda alça extracelular na ligação de compostos, possibilitando estudos de docking e desenho de fármacos (Ben et al., 2010). Alguns modelos do RA-A1 foram construídos a partir do alinhamento da BRho com outros subtipos de RA, construção dos domínios transmembranares a partir da mutação dos resíduos e refinados com ferramentas de mecânica molecular (Ben et al., 2010). Em 2008 foram relatados as estruturas dos receptores β2-adrenérgico (β2A) humano e β1-adrenérgico de peru. Para a construção do receptorβ2 -A, foi introduzido um segmento da lisozima T4 na região da terceira alça intracelular, o que facilitou a nucleação do cristal. Esse cristal apresenta hélices transmembranares conservadas, confirmando uma região comum dos RAPG classe A (Ben et al., 2010). O receptor β2-A apresenta uma conformação mais aberta em relação à BRho, em particular, na região extracelular do sítio de ligação dos ligantes (Figura 11). Outra diferença observada entre esses receptores é a presença de duas 27 ligações dissulfeto na segunda alça extracelular e um segmento α -hélice extra, presente no receptor β2-A (Ben et al., 2010). Em 2008 foi publicado finalmente o cristal do receptor de adenosina A2a, que apresenta alta similaridade com os outros três subtipos (RA-A1, RA-A2b, RAA3). O alinhamento feito com as sequências primárias do receptor A2a (PDB = 3EML) e do RA-A1 mostrou um valor de identidade igual a 48% (Figura 12). RA-A2a DYKDDDDAMGQPVGAPPIMGSSVYITVELAIAVLAILGNVLVCWAVWLNSNLQNVTNYFV 60 RA-A1 --------MPPSISAF----QAAYIGIEVLIALVSVPGNVLVIWAVKVNQALRDATFCFI 48 * .:.* .:.** :*: **:::: ***** *** :*. *::.* *: RA-A2a VSLAAADIAVGVLAIPFAITISTGFCAACHGCLFIACFVLVLTQSSIFSLLAIAIDRYIA120 RA-A1 VSLAVADVAVGALVIPLAILINIGPQTYFHTCLMVACPVLILTQSSILALLAIAVDRYLR108 ****.**:***.*.**:** *. * : * **::** **:******::*****:***: RA-A2a IRIPLRYNGLVTGTRAKGIIAICWVLSFAIGLTPMLGWNNCGQPKEGKNHSQGCGEGQVA180 RA-A1 VKIPLRYKMVVTPRRAAVAIAGCWILSFVVGLTPMFGWNNLSAVERAWAANGSMGEPVIK168 ::*****: :** ** ** **:***.:*****:**** . :.. . . ** : RA-A2a CLFEDVVPMNYMVYFNFFACVLVPLLLMLGVYLRIFLAARRQLNIFEMLRIDEGLRLKIY240 RA-A1 CEFEKVISMEYMVYFNFFVWVLPPLLLMVLIYLEVFYLIRKQLN----------------212 * **.*:.*:********. ** *****: :**.:* *:*** RA-A2a KDTEGYYTIGIGHLLTKSPSLNAAKSELDKAIGRNTNGVITKDEAEKLFNQDVDAAVRG 300 RA-A1 ------------------KKVSASSGDPQKYYG---------------------------227 .:.*:..: :* * RA-A2a LRNAKLKPVYDSLDAVRRAALINMVFQMGETGVAGFTNSLRMLQQKRWDEAAVNLAKSRW360 RA-A1 -----------------------------------------------------------RA-A2a YNQTPNRAKRVITTFRTGTWDAYRSTLQKEVHAAKSLAIIVGLFALCWLPLHIINCFTFF420 RA-A1 ----------------------------KELKIAKSLALILFLFALSWLPLHILNCITLF 259 **:: *****:*: ****.******:**:*:* RA-A2a CPDCSHAPLWLMYLAIVLSHTNSVVNPFIYAYRIREFRQTFRKIIRSHVLRQQEPFKA--478 RA-A1 CPSC-HKPSILTYIAIFLTHGNSAMNPIVYAFRIQKFRVTFLKIWNDHFRCQPAPPIDED318 **.* * * * *:**.*:* **.:**::**:**::** ** ** ..*. * * RA-A2a -------A1 LPEERPDD 326 Figura 12 - Alinhamento das sequências primárias dos receptores de adenosina RA-A1 e RA-A2a (PDB = 3EML) feito no programa ClustalW. Os resíduos de aminoácidos estão marcados: idênticos com (*), similares com (:) e análogos com (.). 28 A estrutura do RA-A2a confirma parcialmente as características mostradas pelos cristais do receptor β2-A, com uma conformação mais aberta ao nível extracelular e a segunda alça extracelular voltada para o meio extracelular (Ben et al., 2010), Além disso, o RA-A2a apresenta três ligações dissulfeto. Para a construção de modelos de RA-A1 baseados na estrutura cristal disponível de RA-A2a, algumas características precisam ser consideradas, incluindo a presença dos resíduos Cys80, Cys169 e Cys269, Cys263 no RA-A1, alinhados de forma a sugerir a presença de apenas duas ligações dissulfeto, diferente do A2a, que apresenta três destas ligações. A conformação do RA-A2a também é importante, visto que esse RA foi co-cristalizado com o antagonista ZM241385 e com moléculas de água, fornecendo uma rede de ligações de hidrogênio que mantém o complexo receptor-ZM241385 (Ben et al., 2010; Jaakola et al., 2008). Segundo Ben e colaboradores, estudos de redocking realizados com o cristal do RA-A2a ou modelos baseados no A2a não mostram resultados similares quanto às interações (receptor-ZM2413185), devido à ausência das moléculas de água (Ben et al., 2010). O fato de não existirem modelos do RA-A1 disponíveis em banco de dados gera uma dificuldade nos estudos in silico para o desenho de novos fármacos ligantes deste RA. Devido a sua grande importância no SNC, a modelagem por homologia torna-se uma ferramenta importante para a realização de estudos estruturais, de relação estrutura-atividade e de interações com ligantes com esse receptor que permitam uma maior compreensão da atividade deste receptor. 29 2 – Objetivos 2.1 – Objetivo geral Analisar e comparar estruturalmente os receptores de adenosina A1 e A2a in silico, incluindo suas interações com ligantes através da construção de diferentes modelos, a fim de contribuir para a compreensão de suas estruturas e para o desenvolvimento de novos ligantes mais potentes e seletivos. 2.1 – Objetivos específicos - Analisar a estrutura tridimensional do receptor de adenosina RA-A1 a partir da construção e comparação de modelos por homologia, utilizando como moldes as estruturas cristais do receptor de adenosina A2a (RA-A2a), da bacteriorodopsina (bacRho), da rodopsina bovina (BRho) e do receptor β2adrenérgico (β2-A). - Comparar os modelos de RA-A1 com seus moldes e com o receptor cristalizado de A2a, considerando sua conformação e distribuição de carga, através do cálculo do valor quadrático médio (Root Mean Square – RMS) e do mapa de potencial eletrostático respectivamente. - Analisar as interações do modelo do receptor de adenosina A1 construído a partir do cristal do RA-A2a com o agonista (adenosina) e com o antagonista (ZM241385) através dos estudos de docking, identificando os resíduos envolvidos na interação ligante-receptor e comparando-os com aqueles observados no molde (RA-A2a). 30 3 - Material e métodos 3.1 – Construção dos modelos por homologia A construção dos modelos por homologia do receptor de adenosina A1 (RA-A1) iniciou-se com a seleção de proteínas moldes (templates), baseada na similaridade da sequência primária e/ou da funcionalidade. As sequências FASTA foram obtidas do servidor Swiss Prot (http://swissmodel.expasy.org/) e os códigos utilizados foram P02945 (bacRho), P02699 (BRho), P07550 (β2-A), P30542 (RAA1) e P29274 (RA-A2a). Após essa avaliação, foi feita uma busca no banco de dados de estruturas de proteínas PDB (http://www.rcsb.org/pdb/) (Altschul et al., 1990), sendo selecionadas as estruturas cristalográficas da bacteriorodopsina (PDB = 1BRD), da rodopsina bovina (PDB = BRho), do receptor β2-A (PDB = BRho) e do receptor de adenosina A2a (PDB = 3EML). Na análise das estruturas selecionadas, o cristal do RA-A2a não apresentava alguns resíduos pertencentes à segunda alça extracelular, o que foi completado por homologia, antes da utilização como molde. Após a análise prévia e inclusão dos aminoácidos, o receptor foi validado utilizando os programas Prochek e Verify 3D e o alinhamento das estruturas (original e completa) e o cálculo do RMS foram realizados. Os resultados da validação foram bons, permitindo que a estrutura do receptor completo pudesse ser utilizada como molde para o RA-A1 (Figura 13). Os modelos de RA-A1 foram construídos utilizando os moldes no programa MODELLER 9.9 (Sali et al., 2011), onde a energia da estrutura é minimizada no mesmo ambiente. Após a construção, utilizando as estruturas cristais do RA-A2a, bacRho, BRho e β2-A, os modelos foram validados pela análise do gráfico de Ramachandran e pela análise do score 3D-1D, usando os programas Procheck e Verify-3D, respectivamente, ambos disponíveis no servidor NIH MBI Laboratory for Structural Genomics and Proteomics (http://nihserver.mbi.ucla.edu/SAVES/). 31 Estrutura do RA-A2a Resíduos nas regiões da molécula(%) Favoráveis Permitidas Desfavoráveis Original (PDB = 3EML) 92,6 7,4 0 Completo 93,1 6,9 0 RMS (Ǻ) 0,08 Figura 13 – Comparação das estruturas original/cristal (verde) e completa (vermelho) do receptor de adenosina RA-A2a quanto a proporção (%) aminoácidos em regiões favoráveis, permitidas e desfavoráveis (acima) e utilizando o gráfico de análise do Verify3D (abaixo). 3.2 – Docking das estruturas dos receptores com os ligantes e análise das interações As estruturas tridimensionais dos ligantes (agonista - adenosina e antagonista - ZM241583) foram construídas no programa Spartan’08 (Wavefunction Inc. Irvine, CA, 2000) e submetidas à análise conformacional sistemática, utilizando as opções padrões e o campo de força MMFF disponível no programa Spartan. As estruturas escolhidas para o docking foram aquelas que apresentaram a conformação de menor energia. O Molegro Virtual Docker (MVD) foi o programa utilizado para o docking, sendo necessário testá-lo antes de iniciar o encaixe dos ligantes nos modelos. Para isso, realizamos o redocking (re-encaixe) do ZM241385 ao receptor A2a completo, sendo as interações observadas comparadas às da estrutura cristal original (PDB = 3EML). As interações apresentadas entre o ligante e a estrutura 32 completa do RA-A2a foram semelhantes àquelas da estrutura cristal, indicando que o programa MDV poderia ser utilizado para moléculas em questão. Os complexos formados pelo ligante e as estruturas dos receptores de adenosina (modelos do receptor A1 e cristal do receptor A2a) foram construídos usando docking automático no programa Molegro Virtual Docker 4.3.0 (Molegro Bioinformatics Solution, 2011), considerando as estruturas dos receptores rígidas e dos ligantes flexíveis. Para analisar as interações entre os ligantes e os receptores foi feito um corte de 6Ǻ a partir das pontas dos ligantes. Os programas Swiss -PdbViewer v.4.0.1 (Guex et al., 2008) e PDBsum (http://www.ebi.ac.uk/thornton- srv/databases/pdbsum/) foram utilizados para analise dos resíduos em contato e os tipos de interações. 3.3– Cálculo de valor quadrático médio (Root Mean Square – RMS) Após a minimização de energia, os modelos foram sobrepostos e alinhados, usando apenas os carbonos α (Cα) da estrutura referente a cadeia protéica principal, sendo o valor de RMS calculado utilizando o programa SwissPdbViewer v.4.0.1 (Guex et al., 2008). Os modelos e seus respectivos moldes também foram sobrepostos e alinhados para calcular o valor do RMS. 3.4- Mapa de potencial eletrostático (MPE) Para comparar as estruturas minimizadas dos modelos e moldes quanto à distribuição das cargas, o MPE foi determinado usando-se o programa Swiss-Pdb Viewer v.4.0.1. Para isso, utilizou-se o método computacional de Coulomb, considerando somente resíduos carregados e a constante dielétrica do solvente (80.000), valor padrão do programa. Nos mapas, as regiões carregadas negativamente, positivamente ou neutras foram representadas respectivamente pelas cores vermelha, azul e branca. Além do MPE dos modelos e dos moldes, os ligantes utilizados no docking também tiveram sua distribuição de cargas analisadas no programa Spartan’08, 33 usando o campo de força MMFF (Molecular Mechanics Force Field, Campo de Força de Mecânica Molecular). 34 4 – Resultados 4.1 – Alinhamento de sequências, construção e análise dos modelos do receptor de adenosina A1 (RA-A1) Para a análise da estrutura primária do RA-A1 e dos moldes, foi feito um alinhamento múltiplo das sequências primarias dessas estruturas 3D, utilizando o programa ClustalW. Esse alinhamento resultou nos valores de identidade que revelam uma similaridade sequencial em que o melhor molde para a modelagem do RA-A1 seria a estrutura cristal do RA-A2a (Tabela 5 e Figura 14). Tabela 5 - Comparação dos valores percentuais de identidade resultantes do alinhamento múltiplo das sequências primárias entre o receptor de adenosina A1 (RA-A1) e os moldes utilizados, incluindo as estruturas cristais da bacRho, da BRho, do receptor β2-A e do RA-A2a. Molde (código PDB) Identidade com RA-A1(%)* bacRho (1BRD) 8 BRho (BRho) 14 β2 – A (BRho) 24 RA-A2a (3EML) 48 * Valores obtidos a partir do alinhamento múltiplo das sequências FASTA dos cristais com a sequência FASTA do RA-A1. O alinhamento das sequências primárias do RA-A1 com o RA-A2a, a bacteriorodopsina, a rodopsina bovina e o receptor β2-A revelou uma variação entre 8 e 48% de identidade (Tabela 5). Ao observarmos o resultado do alinhamento, podemos perceber que alguns resíduos são altamente conservados em todas as sequências, como descritos na literatura, com destaque para a cisteína, cuja importância envolve a formação de ligações dissulfeto intracadeia, que estabiliza a estrutura dessas proteínas. 35 36 Os modelos do receptor de adenosina A1 foram construídos a partir de cristais selecionados a partir do banco de dados de proteínas (Protein Data Bank, PDB) como descrito na seção de material e métodos. As estruturas cristais do receptor A2a (PDB = 3EML), da bacteriorodopsina (PDB = 1BRD), da rodopsina bovina (PDB = BRho) e do receptor β2-adrenérgico (PDB = 1RH1) foram escolhidas tendo em vista que possuem algum nível de similaridade com o receptor de adenosina e/ou que já foram relatadas como moldes para construção de modelos, o que permite a comparação estrutural e análise dos moldes e modelos gerados. Depois de construídos, os modelos foram validados pela análise do gráfico de Ramachandran, usando o programa Procheck (Laskowski et al., 1993) (Tabela 6). Tabela 6 – Distribuição dos resíduos de aminoácidos observados no gráfico de Ramachandran para os modelos do receptor de adenosina A1 (RA-A1) e para os moldes utilizados (RA-A2a, bacRho, BRho e β2-A). Resíduos (%) Estruturas Moldes Modelos RA-A2a Regiões favoráveis 92,8 Regiões permitidas 7,2 Regiões desfavoráveis 0 bacRho 96,6 3,4 0 BRho 79,2 19,6 1,2 β2-A 94,6 5,3 0 RA-A1 (RA-A2a) 94,9 5,2 0 RA-A1 (bacRho) 92,1 7,8 0 RA-A1(BRho) 89,3 10,4 0,3 RA-A1 (β2-A) 93,2 6,8 0 A análise dos valores obtidos demonstra que os modelos apresentam uma boa estereoquímica, uma vez que cerca de 89,3 – 94,9% dos resíduos adotam ângulos de torção ψ e φ semelhantes aos moldes. Dentre os modelos construídos, 37 aquele que utilizou a rodopsina bovina como molde apresentou apenas um resíduo, na região desfavorável (0,3%) e que não faz parte do sítio de ligação do agonista, o que provavelmente não deve comprometer a análise da interação com o ligante. Além do gráfico de Ramachandran, o programa Verify 3D também foi utilizado para validação dos modelos (Figura 15). O programa Verify 3D avalia a compatibilidade entre a estrutura tridimensional de uma proteína e a sua própria sequência de aminoácidos, além de estabelecer um score total relacionado à qualidade do modelo (Lüthy et al., 1992). Os valores apresentados pelos modelos do RA-A1 foram maiores que zero e semelhantes aos obtidos para os moldes em sua maioria, com exceção do modelo baseado na bacteriorodopsina, que apresentou uma diferença maior de scores negativos (Figura 15). Contudo, os resíduos envolvidos não são descritos como importantes para a interação receptor-ligante. De forma interessante, alguns modelos apresentaram valores ainda maiores que o próprio molde utilizado (Figura 15). A análise do score dos resíduos individualmente mostra valores apropriados para todos os modelos. A análise da estrutura tridimensional dos modelos incluindo suas estruturas secundárias mostra uma conservação das sete alças transmembranares em todos os model. Contudo, essas alças no modelo da bacteriorodopsina são mais curtas que as dos outros modelos (Figura 16). De forma interessante, para nenhum dos modelos foi gerado uma região enovelada do C-terminal, apesar de presente nos receptores de adenosina A2a e β2-adrenérgico (Figura 16). O alinhamento estrutural dos modelos mostrou um desvio de RMS pequeno que variou entre 1,28Ǻ, e confirmando 2,11 a conservação estrutural (Tabela 7). A distribuição de cargas na estrutura tridimensional dos modelos foi avaliada através da análise dos mapas de potencial eletrostático. O perfil de distribuição de cargas foi semelhante entre os diferentes modelos construídos para RA-A1, com uma maior distribuição de cargas positivas (azul), caracterizando um perfil mais básico (Figura 17). 38 39 Figura 16 - Comparação das estruturas tridimensionais dos modelos do receptor de adenosina A1 baseados nas estruturas cristais do receptor de adenosina A2a (RA-A2a), da bacteriorodopsina (bacRho), da rodopsina bovina (BRho) e do receptor β2-adrenérgico (β2-A). As estruturas secundárias dos moldes e dos seus respectivos modelos estão mostradas em rosaα ( -hélices), azul (alças) e verde (folhas β-pregueadas). 40 41 Tabela 7 – Comparação dos valores de RMS (Ǻ) resultantes do alinhamento dos modelos de RA-A1 utilizando como molde o receptor de adenosina A2a (RA-A2a), a bacteriorodopsina (bacRho), a rodopsina bovina (BRho) e o receptor β2adrenérgico (β2-A). Modelos Estruturas RA-A2a RA-A1 RA-A1 (A2a) (bacRho) 0,30 --- RA-A1 (BRho) 1,53 Moldes RA-A1 RA-A2a bacRho BRho (β2-A) 1,32 0,0 1,87 1,71 β2-A 0,79 bacRho 1,84 --- 1,84 1,84 1,87 0,0 2,13 1,15 BRho 1,64 --- 0,78 1,61 1,71 2,13 0,0 1,62 β2-A 1,33 --- 1,58 0,78 0,79 1,15 1,62 0 RA-A1 (A2a) 0,0 2,02 1,56 1,28 0,30 1,84 1,64 1,33 Modelos RA-A1 (bacRho) 2,02 0,0 2,11 2,10 --- --- --- --- de RA-A1 RA-A1 (BRho) 1,56 2,11 0,0 1,60 1,53 1,84 0,78 1,58 RA-A1 (β2-A) 1,28 2,10 1,60 0,0 1,32 1,84 1,61 0,78 Moldes Os modelos baseados no RA-A2a e no receptor β2-A apresentam distribuição de cargas semelhantes aos moldes, em contraste como os modelos baseados na bacteriorodopsina e na rodopsina bovina. Na maioria dos modelos, a região próxima ao sítio de ligação apresenta uma grande quantidade de cargas positivas e neutras, favorecendo possíveis interações eletrostáticas e ligações de hidrogênio, bem como interações hidrofóbicas entre resíduos neutros e apolares. Um ponto interessante a ressaltar é o fato de que a região do sítio de ligação, no modelo baseado na bacRho, apresenta apenas cargas positivas, diferente dos outros modelos que apresentam cargas positivas, negativas e resíduos neutros (Figura 17). 42 4.2 – Docking e análise das interações dos complexos formados pelos modelos do receptor de adenosina A1 (RA-A1) 4.2.1 – Construção dos ligantes do tipo agonista (adenosina) e antagonista (ZM241384) Para realizar os estudos de docking foram escolhidos os ligantes adenosina como agonista e o ZM241385 como antagonista (Figura 18). B A Figura 18 – Mapa de potencial eletrostático da conformação mais estável dos ligantes adenosina (A) e ZM241385 (B), com rotação de 0º a 270º. As cargas positivas estão em azul, enquanto que as negativas estão em vermelho. Esses ligantes foram construídos e submetidos a uma análise conformacional para obtenção da conformação de menor energia, como descrito na seção de material e métodos. A análise do mapa de potencial eletrostático dos ligantes mostra uma distribuição de cargas que aponta diferentes regiões carregadas passíveis de interações com os receptores (Figura 18). 43 4.2.2 - Docking e análise das interações entre a adenosina e os modelos do receptor de adenosina A1 (RA-A1) Os modelos do RA-A1 recém construídos foram utilizados para a realização do docking da adenosina (agonista endógeno). Um corte de 6Ǻ a partir da adenosina foi realizado para análise das estruturas sendo possível observar em todos os modelos, resíduos interagindo com o ligante em uma rede de interações (Tabela 8 e Figura 19). Entretanto, os resíduos considerados importantes em estudos de mutagênese para a interação receptor-ligante não foram encontrados no modelo construído com base na bacRho (Tabela 8). Tabela 8 – Resíduos dos modelos de receptor de adenosina A1 que realizam interações com a adenosina no compexo receptor-ligante. No corte de 6Ǻ, foram identificados resíduos descritos pela literatura como importantes para a interação receptor-agonista (em itálico) (Ben et al., 2010; Giordanetto et al.,2003; Olah e Stiles, 2000, Rivkees et al., 1999) e resíduos que foram identificados em pelo menos dois modelos. Resíduos de aminoácidos dos modelos RA-A1 baseados em Interação A2a bacRho Ligação de hidrogênio Val62, Ile69, Val83,Phe171 Hidrofóbica Leu65, Ala66 Trp146, Pro191, Ala84, Glu170 Pro192, Leu195, Phe241, Phe243 Ile274, His278 van der Waals Tyr12, Glu16, Leu61, Ile67, Leu68, Asn70, Ile71, Gly72, Pro73, Met82, Cys85, Pro86, Val87,Cys169, Glu170,Glu172 Thr270,Tyr271 Thr277 Thr75, Tyr76 His78, Thr79, Ile128, Ala129, Glu130, Met143, Trp188, Val 189, Leu190, Leu193, Leu194, Met196, Phe242, Leu245, Thr257, Pro261, Lys265 BRho β2-A Cys80, Val83 Val152 Ile69, Asn70, Gln74 Ala60, Pro64 Ala84, Cys85 Val87, Arg154 Trp156, Ala158, Ile274,Phe275, His278, Ala66, Gly72 Thr79, Met82 Ile274, His278 Gln9, Ile67, Thr79, Leu81, Leu61, Val62, Met82, Val83, Ile63, Ile67, Pro86, Leu88, Leu68, His78, Leu149, Ser150, Leu81, Val83, Ala151, Glu153, Ala84, Cys85, Arg154, Ala155, Pro86, Val87, Ala157, Asn159, Thr270, Phe275 Thr270, Tyr271 44 B A A Phe275 His 278 Glu16 His 278 a Ile274 a Ile274 Thr277 Leu65 a Val87 a Val87 Pro86 Cys169 Ile69 Pro86 Cys85 Cys80 Cys85 Leu88 Cys169 Leu65 C Ile69 Cys85 Pro86 His 278 a Val87 Figura 19 – Corte de 6Ǻ da região de ligação do agonista adenosina nos modelos dos receptores de adenosina do tipo A1, que mostra os resíduos considerados importantes por estudos de mutagênese e que só foram identificados nos modelos de RA-A1 baseado no receptor de adenosina do tipo A2a (A), na rodopsina bovina (B) e no receptor β2-adrenérgico (C). Os resíduos que interagem com a adenosina segundo Terán et al., 2004 e Giordanetto et al., 2003 estão coloridos em lilás. Os resíduos ácidos estão em vermelho, os básicos em azul, os polares em verdes e os apolares em amarelo. Na adenosina, em vermelho, o oxigênio; em azul escuro, o nitrogênio; em branco, o carbono; e em azul claro, o hidrogênio. a Resíduos encontrados interagindo com a adenosina nos trabalho de Terán et al., 2004, Giordanetto et al., 2003 e Yuzlenco e Kiec-Kononowicz, 2007. 45 O modelo baseado na bacteriorodopsina apresenta um tamanho menor das α-hélices, o que imputou ao ligante um local de ligação com uma profundidade maior no receptor, diferente dos demais modelos. A conformação das alças e a distribuição de cargas, que não apresentou o mesmo padrão, quando comparada aos outros modelos, também pode influenciar as interações. O alinhamento estrutural dos modelos RA-A1 baseados na estrutura cristal do RA-A2a, da BRho e do receptor β2-A revelou resíduos comuns presentes na região do corte de 6Ǻ (Figura 20 e Tabela 8). Com esse alinhamento podemos observar que nove resíduos de aminoácidos estão presentes em todos os modelos em questão, incluindo Ile67, Ala84, Cys85, Pro86, Val87, Ile174 e His278. Observando a Figura 20, notamos ainda que os resíduos Val83, Ala84, Cys85 e Ile67 dos modelos não se alinham de forma idêntica, indicando diferenças na conformação da estrutura 3D desses modelos. 4.2.3 - Docking e análise das interações entre a adenosina e a estrutura cristal do RA-A2a e comparação com o modelo do RA-A1 baseado no RAA2a O docking do agonista com a estrutura cristal do RA-A2a também foi realizado e a análise das interações em um corte de Ǻ6 a partir da adenosina mostrou também alguns aminoácidos considerados importantes em estudos de mutagênese para a interação receptor-ligante (Figura 21). Ao comparar os resíduos encontrados no corte Ǻ de dos 6 complexos ligante-receptor formado pela adenosina e pelas estruturas cristais do RA-A2a e do modelo RA-A1 (RA-A2a), podemos perceber que a maioria dos aminoácidos encontrados são apolares, o que favorece as interações hidrofóbicas entre o receptor e o ligante (Figura 21 e 22). O alinhamento estrutural dos complexos formados pela adenosina e pelo modelo do RA-A1 (RA-A2a) ou pela estrutura cristal do RA-A2a foi realizado para verificar a presença de resíduos idênticos (Figura 23). Na análise do corte de 6Ǻ a partir da adenosina do complexo ligante-receptor, foram encontrados resíduos de aminoácidos idênticos, similares e distintos (Figura 23). . 46 Ile67 Ile67 Val83 Ile67 Val83 Ala84 Met82 Val83 Ile274 Ala84 Ala84 Cys85 His278 Val87 Cys85 Pro86 Figura 20 – Alinhamento das estruturas 3D dos modelos do RA-A1 baseado nas estruturas cristais do RA-A2a (verde claro), da rodopsina bovina (vermelho) e do receptor de β2-adrenérgico (amarelo), mostrando os resíduos que aparecem em todos os modelos no corte deǺ6 a partir da adenosina, incluindo os resíduos Ile67, Met82, Val83, Ala84, Cys85, Pro86, Val87, Ile274 e His278. As estruturas secundárias estão mostradas em rosa (α-helice), verde escuro (β-pregueada) e azul (alças). 47 Interações Resíduos de aminoácidos Ligação de hidrogênio Ile66, Phe168, Asn253 e Tyr271 Interação hidrofóbica Ser67, Leu167, Glu169, Leu 249, Met270, Ile274 van der Waals Ala63, Thr65, Thr68, Gly69, Ala81, Val84, Cys166, Leu167, Met174, Met177, Ile252, His264, Leu267, Ser 277 a Ile274 a Glu169 a Val84 a Asn253 Figura 21 – Análise da região de ligação do agonista na estrutura cristal do RAA2a. (Esquerda) Resíduos considerados importantes por estudos de mutagênese para a interação receptor-ligante do RA-A2a. Todos os resíduos interagem com o antagonista ZM segundo Jaakola et al., 2008. O resíduo ácido está em vermelho, o polar em verde e o apolar em amarelo. Na adenosina, o oxigênio está em vermelho,; em azul escuro, o nitrogênio; em branco, o carbono; e em azul claro, o hidrogênio. (Direita) Tabela de resíduos do RA-A2a que realizam interação com a adenosina. Em negrito, estão os resíduos presentes na lista de aminoácidos descritos como importantes para a interação receptor-agonista (Ben et al., 2010; Giordanetto et al.,2003; Olah e Stiles, 2000, Rivkees et al., 1999). a Resíduos encontrados interagindo com um agonista seletivo 2-(3-[1-(pyridin-2-yl)piperidin-4-yl]ureido)ethyl6-N-(2,2-diphenylethyl)-5-N-ethylcarboxamidoadenosine-2-carboxamide (UK-432097) do RA-A2a no trabalho Xu et al., 2011. 48 Figura 22– Comparação dos resíduos presentes no sitio de ligação em um corte de 6Ǻ a partir do ligante (adenosina) nos complexos envolvendo o modelo do RA-A1 baseado no RA-A2a (esquerda) e a estrutura cristal do RA-A2a (direita). Em vermelho, resíduos ácidos; verdes, os polares em e os apolares em amarelos. Adenosina está colorida por átomos: oxigênio (vermelho), nitrogênio (azul escuro), hidrogênio (azul claro) e carbono (branco). 49 Glu169 Glu172 Leu167 Glu170 Phe168 Phe171 Cys166 Cys169 Gly69 Glu72 Ile66 Ile69 Adenosina Met270 Thr270 Thr68 Ile71 Val84 Val87 Tyr271 Tyr271 Ser277 Thr277 Thr65 Leu68 Ser67 Asn70 Ile274 Ile274 Receptores Resíduos Idênticos RA-A2a RA-A1 (A2a) Tyr271, Ile274, Ala63, Ile66, Tyr271, Ile274, Ala66, Ile69, Ala84, Val87, Phe171, Ala81, Val84, Phe168, Glu172, Cys169 Glu169, Cys166 Similares Ser67, Ser277 Asn70, Thr277 Distintos Thr65, Thr68, Gly69, Leu167, Met270 Leu68, Ile71, Glu72, Glu170, Thr270 Figura 23 – Comparação dos complexos ligante-receptor formados pela adenosina e pelo modelo do RA-A1 (RA-A2a) (rosa) ou pela estrutura cristal do RA-A2a (verde) observados em um corte deǺ 6a partir da adenosina em um alinhamento estrutural. A parte superior da figura mostra a localização dos resíduos de aminoácidos idênticos, similares e distintos citados na parte inferior. Adenosina está colorida de acordo com os átomos: oxigênio (vermelho), nitrogênio (azul escuro), hidrogênio (azul claro) e carbono (branco). 50 4.2.4 - Docking e análise das interações entre o antagonista ZM241385 e o modelo do RA-A1 baseado na estrutura cristal do RA-A2a e comparação com o complexo antagonista - molde O composto ZM241385 é um antagonista do receptor de adenosina A2a, sendo escolhido para a análise porque foi cristalizado junto com a estrutura do RA-A2a, o que facilita o estudo comparativo das interações receptor-ligante entre RA-A2a e RA-A1 e porque apresenta diferença de afinidade entre os receptores RA-A2a e o RA-A1 (Jaakola et al., 2008). Este antagonista apresenta afinidade maior pelo RA-A2a (Ki = 1 nM) do que pelo RA-A1 (Ki = 255 nM) o que poderia gerar uma diferença estrutural detectável (Ongini et al., 1999). A análise dos complexos e das interações entre o ligante ZM241385 e o modelo RA-A1 (RA-A2a) ou a estrutura cristal do RA-A2a foi realizada. Em um corte de Ǻ 6 a partir do antagonista foram encontrados alguns resíduos de aminoácidos considerados importantes para a interação receptor-ligante por estudos de mutagênese (Figura 24) (Ben et al., 2010; Giordanetto et al.,2003; Olah e Stiles, 2000, Rivkees et al., 1999). Além disso, podemos observar nesse corte que há predominância de resíduos apolares (Figura 24), com o resíduo Ile274 dos dois receptores envolvido com o ligante. Observando a figura 25, podemos perceber que, em um corte deǺ 6a partir do ZM241385, foram encontrados aminoácidos idênticos, similares e distintos compondo a região das estruturas do modelo do RA-A1 (RA-A2a) e da estrutura cristal do RA-A2a. Na comparação das interações dos ligantes (agonista - adenosina e antagonista - ZM241385), percebe-se que alguns resíduos se repetem na interação do agonista e do antagonista: a) idênticos – ILe66/Ile69, Ala81/Ala84, Val84/Val87, Cys166/Cys169, Phe168/Phe171, Glu169/Glu172, Tyr271/Tyr271 e Ile274/Ile274; b) similar – Ser67/Asn70 e c) distintos – Leu167/Glu170 e Met270/Thr270. 51 52 Tyr271 Tyr271 Ile274 Ile274 Val84 Val87 Met270 Thr270 Leu267 Ser267 Ser67 Asn70 His264 His264 Phe168 Phe171 Glu169 Glu172 Ala81 Ala84 Ile66 Ile69 Cys166 Cys169 Leu167 Glu170 Receptores Resíduos RA-A2a RA-A1 (A2a) Ile66, Ala81, Val84, Cys166, Ile69, Ala84, Val87, Cys169, Idênticos Phe168, Glu169, His264, Phe171, Glu172, His264, Tyr271, Ile274 Tyr271, Ile274 Similar Ser67 Asn70 Distintos Leu167, Leu267, Met270 Glu170, Ser267, Thr270 Figura 25 – Comparação dos complexos ligante-receptor formados antagonista ZM241385 e pelo modelo do RA-A1 (RA-A2a) (rosa) ou pela estrutura cristal do RA-A2a (verde) observados em um corte deǺ6a partir da ZM241385 em um alinhamento estrutural. A parte superior da figura mostra a localização dos resíduos de aminoácidos idênticos, similares e distintos citados na parte inferior. O ZM241385 está colorido de acordo com os átomos: oxigênio (vermelho), nitrogênio (azul escuro), hidrogênio (azul claro) e carbono (branco). 53 5 – Discussão O receptor de adenosina A1 (RA-A1) desempenha diversas funções no sistema nervoso central (SNC), estando relacionado a quadros clínicos, tais como, epilepsia e desordens cognitivas (Jacobson e Gao, 2006; Fredholm, 2010). Dentre os subtipos do receptor de adenosina, o subtipo A1 (RA-A1) é o que apresenta a maior afinidade pelo agonista endógeno, a adenosina (Clementina e Giuseppe, 2010; Jacobson, 2009; Ciruela et al., 2006; Dunwiddie e Masino, 2001). Devido ao grande número de funções mediadas pela adenosina, os receptores de adenosina se tornaram importantes alvos para o tratamento de doenças. Entretanto, a ampla distribuição desses receptores nos diferentes tipos celulares, a existência de quatro subtipos e a variabilidade de respostas fisiológicas requer agonistas e antagonistas que apresentem um grau de seletividade significativo (Poulsen e Quinn, 1998). O desenvolvimento de novos fármacos ainda apresenta um alto custo e requer um tempo considerável. Dessa forma, a utilização de métodos computacionais para o processo de reconhecimento molecular receptor-ligante passou a ser uma área de interesse, pois pode proporcionar uma redução no tempo e no custo da produção de novos fármacos (Morgon e Coutinho, 2007; Huguenin, 2009). Existem vários métodos computacionais capazes de predizer estruturas tridimensionais, desde aqueles que prevêem estruturas protéicas sem utilizar bases estruturais experimentalmente determinadas (ab initio), quanto àquelas que utilizam informações experimentais de estruturas já determinadas (modelagem comparativa). Como as estruturas 3D das proteínas são mais conservadas do que as suas sequências, a estrutura conhecida experimentalmente de uma proteína pode ser usada como molde para gerar um modelo para outras proteínas da mesma família (Hillisch et al., 2004; Nayeem et al., 2006). A modelagem comparativa ou por homologia tem se mostrado como um método capaz de construir modelos 3D de forma confiável, que podem ser 54 posteriormente utilizados, por exemplo, para desenhar fármacos (Koop e Schwede, 2005). Neste trabalho, foram construídos quatro modelos do receptor de adenosina do tipo A1 (RA-A1), utilizando diferentes moldes estruturais definidos experimentalmente, incluindo as estruturas cristais do receptor de adenosina do tipo A2a (RA-A2a), da bacteriorodopsina (bacRho), da rodopsina bovina (BRho) e do receptor de β2-adrenérgico (β2 -A) visando a comparação dos seus padrões estruturais e seu comportamento frente a ligantes. Assim, após a construção dos modelos, esses foram utilizados em um estudo de docking, no qual foram usados os ligantes adenosina (agonista) e ZM241385 (antagonista). Os mesmos ligantes foram utilizados para a realização do docking com a estrutura cristal do receptor de adenosina A2a (RA-A2a), a fim de comparar as interações entre os ligantes e os diferentes receptores. 5.1 – Construção e análise dos modelos do receptor de adenosina A1 Os modelos do receptor de adenosina A1 (RA-A1) foram construídos a partir das estruturas cristais do receptor A2a, da bacteriorodopsina, da rodopsina bovina e do receptor β2-adrenérgico. A bacteriorodopsina foi utilizada para a construção do modelo, apesar da baixa identidade (bacRho = 8%), pois é descrita na literatura como a primeira estrutura cristal a ser utilizada com molde dos receptores de adenosina. As estruturas cristais da rodopsina bovina e do receptor β2-adrenérgico também apresentaram uma baixa identidade com o RA-A1 (BRho = 14% e β2-A = 24%), mas foram utilizados para permitir a comparação das estruturas geradas. A estrutura tridimensional do receptor de adenosina A2a também foi utilizada, sendo considerada um bom molde, tendo em vista que apresenta 49% de identidade sequencial. Com base nos resultados dos cálculos do RMS, que foi determinado para comparar os moldes e seus respectivos modelos, podemos inferir a conservação da estrutura tridimensional dos modelos de forma geral. A única exceção foi o modelo baseado na bacteriorodopsina, cuja estrutura 3D é tão diferente do molde, 55 que impossibilitou o alinhamento das estruturas e o cálculo do RMS direto apesar de se observar a presença das 7α -hélices transmembranares. Este dado reforça que a modelagem por homologia não impõe o enovelamento do molde, mesmo quando a margem de identidade é baixa e aponta que modelos do tipo rodopsina devem ser cuidadosamente analisados, pois tendem apresentar diferenças estruturais que não devem ser ignoradas. Essa observação é análoga a existente na literatura para o receptor RA-A2a, que contraindicou o uso da rodopsina como molde para a modelagem comparativa deste subtipo de receptor desde que foi relatado a estrutura do receptor β2-adrenérgico (Yuzlenko and Kieć-Kononowicz, 2009). O RMS entre os moldes variou entre 1,28 e 2,11 Ǻ, sendo o menor valor observado entre os modelos baseados na estrutura cristal do RA-A2a e do receptor β2-A e o maior valor, entre os modelos baseados na bacRho e na BRho. De forma interessante, os valores dos RMS apresentados entre as estruturas cristais do RA-A2a e do receptor β2-A e entre a bacRho e a BRho seguem o mesmo padrão dos modelos, cujos valores são, respectivamente, 0,79Ǻ e 2,13Ǻ. Outro parâmetro importante observado neste trabalho foi o mapa de potencial eletrostático (MPE), que mostra a diferença entre as estruturas quanto à distribuição de cargas. Com relação à semelhança entre a distribuição de cargas entre os modelos e seus respectivos moldes, os modelos baseados no RA-A2a e no receptor β2-A apresentam uma distribuição de cargas semelhantes, com maior proporção de cargas positivas aparentemente seguindo a funcionalidade destas moléculas. Os modelos baseados na bacRho e no BRho apresentam uma distribuição de cargas diferentes dos respectivos moldes, que possuem uma distribuição de cargas negativas maior quando comparada com os outros modelos. A característica básica (carga positiva) dos modelos de forma geral é justificada, uma vez que se trata de um receptor de membrana, inserido portanto em um ambiente rico em cargas negativas devido à composição fosfolipídica da mesma. Sendo assim, as cargas positivas estabilizam o receptor na membrana permitindo e mantendo sua inserção nesta estrutura celular (Bogdanov et al, 2009). 56 Ainda em relação à distribuição de cargas, podemos perceber que o modelo do RA-A1 construído a partir da bacteriorodopsina apresenta, na região do sítio de ligação, uma maior quantidade de cargas positivas, diferente dos outros modelos, que apresentam cargas positivas, negativas e resíduos neutros. Novamente esses dados corroboram a orientação de análise criteriosa para a escolha desse molde como base estrutural para o modelo do RA-A1. Para validar os modelos construídos utilizamos os programas Prochek e Verify 3D. Os gráficos de Ramachandran gerados pelo Prochek, para a maioria dos modelos, apresentaram mais de 90% dos resíduos em regiões favoráveis, sendo que apenas o modelo baseado na BRho apresentou uma porcentagem abaixo de 90% (89,3%). Segundo a literatura, esse valor torna-se aceitável uma vez que o próprio molde apresenta apenas 79,2% dos resíduos em regiões favoráveis. Esse mesmo modelo apresenta um resíduo (Val187) na região desfavorável, mas distante do sítio de ligação do receptor aos ligantes, o que provavelmente não compromete a interação dos ligantes com essa molécula. Assim como o modelo baseado na BRho apresenta uma maior porcentagem de resíduos na região favorável em relação ao molde, o modelo baseado no RA-A2a, com 94,9% dos resíduos nessa região, também apresenta um valor maior que o seu molde (92,8%). Com relação aos gráficos montados com os valores obtidos no Verify 3D, apenas o modelo baseado na bacRho apresentou uma maior quantidade de valores negativos em relação ao molde, reforçando a diferença provavelmente significativa entre a bacRho e o receptor humano já indicada pela baixa identidade. Ambas as validações mostraram os modelos com valores aceitáveis segundo a literatura (Santos, 2002). Com relação à estrutura secundária dos modelos, observamos que àqueles baseados na bacRho, na BRho e no receptor β2-A apresentam uma conformação mais aberta na região das 7 α -hélices transmembranares quando comparados ao modelo construído a partir do RA-A2a. Isso poderia ter implicações nos estudos de docking, pois com um espaço maior disponível, aumenta a chance do ligante realizar interações com resíduos de aminoácidos que ele provavelmente não realizaria em uma situação real. 57 Outro ponto a ressaltar é em relação ao tamanho dasα -hélices, que se mantém conservado em quase todos os modelos do RA-A1, com exceção do construído a partir da bacRho, cujas α-hélices são menores em relação aos outros modelos. Também podemos observar que não há uma conservação entre as folhas β-pregueadas, que estão presentes em quase todos os modelos, exceto naquele baseado no receptor β2-A. Nos outros modelos, as folhas β-pregueadas não se encontram na mesma posição, o que poderia causar alguma alteração na interação-receptor ligante. Como não existem modelos do RA-A1 disponíveis em bancos de dados, os resultados, quanto à estrutura dos modelos, não puderam ser diretamente comparados Apenas dois modelos dos receptores de adenosina, incluindo a do receptor de adenosina A3 e do receptor de adenosina A2a estão descritos na literatura para estes subtipos de receptor (Kim et al., 2003). Kim e colaboradores descrevem a construção da modelo 3D do RA-A1 utilizando a BRho como molde (Kim et al., 2003). O cálculo do RMS, obtido a partir do alinhamento da estrutura do modelo RA-A2a e a estrutura utilizada como molde (BRho), mostra uma conservação da estrutura com valores de RMS (1,34Ǻ) próximos ao observado quando se alinha esse modelo com a estrutura cristal do RA-A2a descrita na literatura (1,51Ǻ). Isso revela que a estrutura do modelo não é muito diferente da estrutura cristal do RA-A2a, podendo-se perceber na análise das estruturas a conservação das sete α -hélices, das alças intra e extracelular e do sítio de interação com os ligantes, apresentando uma diferença na porção c-terminal, que está presente no estrutura cristal, mas não está presente no modelo do RA-A2a. Esses resultados reforçam o fato de que a modelagem por homologia tem sua funcionalidade, permitindo que os modelos gerados a partir dessa técnica podem ser utilizados na análise de interações entre ligantes e para a construção de novos fármacos. A identidade entre os RA-A2a e a BRho é igual a 16%, um valor tão baixo quanto o apresentado para o RA-A1 (14%). Apesar disso, a estrutura do modelo do RA-A2a baseado na BRho é semelhante à estrutura cristal do RA-A2a posteriormente relatada, podendo-se concluir que a modelagem por homologia é 58 uma ferramenta capaz de predizer uma estrutura mesmo que o molde apresente baixa identidade de sequência. Ainda que a BRho tenha sido utilizada por muito tempo como molde para os receptores de adenosina, o ideal relatado pela literatura ainda é a utilização de moldes com maior identidade e similaridade funcional. No caso do RA-A1, a melhor opção seria o RA-A2a, cuja identidade é de 49% e trata-se de um receptor com a mesma funcionalidade, diferente da BRho, que é uma cromoproteína ou do receptor β2-adrenérgico que interage com outro agonista, a adrenalina. 5.2 – Análise das interações receptor-ligante 5.2.1 – Análise das interações da adenosina com os receptores (RA-A2a e os modelos do RA-A1) Estudos de mutagênese descritos na literatura mostram a importância de alguns resíduos para a interação receptor-ligante no receptor de adenosina A1, incluindo os resíduos Phe182, His250, Asn253, Ile274, Ser277, His278 e Ser281 para o RA-A2a; e os resíduos Glu16, Cys80, Pro86, Val87, Leu88, Cys169, Thr277, His278 (Ben et al., 2010; Giordanetto et al.,2003; Olah e Stiles, 2000, Rivkees et al., 1999). Para verificar se tais resíduos aparecem interagindo próximos ao sítio de ligação nos modelos, realizamos um estudo de docking, no qual foram escolhidos como ligantes a adenosina (agonista) e o ZM241385 (antagonista). Esse antagonista foi selecionado tendo em vista que ele está presente na estrutura do cristal do RA-A2a, o que facilita a comparação entre os complexos gerados com o cristal do RA-A2a e com o modelo do RA-A1 (RA-A2a) e sua seletividade pelo RA-A2a. A comparação dos complexos foi feita apenas entre a estrutura cristal de RA-A2a e o modelo do RA-A1 baseado em RA-A2a, uma vez que esse modelo parece ser o mais adequado, devido principalmente à similaridade entre o modelo e o seu molde. 59 Para a análise das interações, foi feito um corte deǺ6a partir do lig ante que revelou que, com relação aos modelos, quase todos apresentaram resíduos descritos como importantes para a interação receptor-ligante. A única exceção foi o modelo baseado na bacRho, que não apresentou nenhum resíduo considerado importante, o que indica uma estrutura diferente das demais como já esperado. Esse modelo apresenta α-helices mais curtas e uma estrutura mais aberta do que as outras resultando em uma dificuldade de estabilizar o ligante no sítio de ligação do receptor, similar ao observado para o modelo de RA-A2a construído com base na rodopsina bovina (BRho) (Ben et al., 2010; Giordanetto et al.,2003; Olah e Stiles, 2000). Os resultados obtidos a partir da análise das interações foram comparados aos disponíveis na literatura. No trabalho realizado por Yuzlenco e KiecKononowicz (2007), o estudo de docking feito com antagonistas revelou a participação dos resíduos Thr270, Ala273, Ile274, Thr277, His278 e Tyr288 na formação do sítio de ligação, similar ao observado com os nossos modelos. Outro resultado semelhante foi o da interação hidrofóbica existente entre o resíduo Val87 com o anel da adenina presente no trabalho de Terán et al., 2004. Além disso, o resíduo Ile274 aparece no corte deǺ 6feito a partir da adenosina em todos os modelos do RA-A1 realizando uma interação hidrofóbica. Esse resultado é semelhante ao apontado por Giordanetto et al., 2003, que cita a interação desse resíduo com a porção adenina do agonista endógeno. Dentre todos os modelos do RA-A1, apenas o modelo baseado no BRho não apresenta essa interação com a porção adenina, indicando que a rodopsina bovina não é a melhor opção para a geração de modelos para o RA-A1 de forma similar ao descrito para RA-A2a (Yuzlenko e Kieć-Kononowicz 1999). Dentre os resíduos importantes descritos por mutagênese, os modelos do RA-A1 baseados na BRho, no receptor β2-A e no RA-A2a apresentaram, em comum, os resíduos Cys85, Pro86, Val87, Ile274 e His278. Resultados semelhantes são descritos nos trabalhos de Yuzlenko & Kiec-Kononowicz, 2008; Terán et al., 2004 e Giordanetto et al., 2003. Além desses resíduos, os modelos também apresentam outros importantes para a interação receptor-ligante: Glu16, 60 Leu65, Ile69, Cys 80, Leu 88, Cys 169 e Thr277 apontados por Ben et al., 2010; Giordanetto et al.,2003; Olah e Stiles, 2000 e Rivkees et al., 1999. Em todos os modelos, o resíduo His278 é capaz de realizar uma interação hidrofóbica, sendo esse resíduo considerado importante tanto para a interação com agonistas, quanto para antagonistas (Yuzlenko e Kiec-Kononowicz, 2008). Ao observar o número de resíduos importantes para a interação receptor-ligante, podemos perceber que o modelo baseado no RA-A2a apresenta a maior participação resíduos quando comparado aos outros modelos. Os modelos RA-A1 baseados nos RA-A2a, na BRho e no receptor β2-A foram alinhados neste trabalho, revelando nove resíduos de aminoácidos presentes em todos os modelos em questão (Ile67, Ala84, Cys85, Pro86, Val87, Ile174 e His278). Nesse alinhamento, notamos que os resíduos Val83, Ala84, Cys85 e Ile67 dos modelos não estão completamente alinhados, indicando uma diferença conformacional na estrutura tridimensional desses modelos, o que pode indicar uma diferença na análise de interações com antagonistas. Para analisar as interações existentes entre a adenosina e o receptor A2a foi feito um corte de Ǻ a6 partir do ligante. Nesse corte, três resíduos considerados importantes para a interação receptor-ligante estavam presentes (Glu169, Asn253 e Ile274). De forma importante, os dois primeiros também são observados interagindo com o antagonista ZM241385 (Jaakola et al., 2008). Os resultados obtidos neste trabalho também são semelhantes aos do trabalho de Xu et al. (2011), que mostra, no sítio de ligação do agonista seletivo UK-432097, os resíduos de aminoácidos Val84, Phe168, Glu169, Trp246, Leu249, His250, Asn253, His264, Met270, Tyr271, Ile274 e His278. Dentre esses aminoácidos, apenas os resíduos Trp256, His250 e His278 não são observados no corte de Ǻ 6 feito neste trabalho a partir da adenosina. Outro resultado semelhante ao trabalho de Xu et al. (2011) foi em relação ao tipo de interação encontrada entre o receptor e o agonista, os resíduos de aminoácidos Val84, Leu249, Met270 e Ile274 que realizam interações hidrofóbicas enquanto os resíduos de aminoácidos Asn253 e Tyr271 realizam ligação de hidrogênio. Ao compararmos os resíduos encontrados no corte de Ǻ6 dos complexos formados pela adenosina e a estrutura cristal do RA-A2a ou o modelo do RA-A1 61 baseado no RA-A2a, podemos perceber que a maioria dos aminoácidos encontrados são apolares. Esse perfil também é observado nos outros modelos do RA-A1 definindo esta caracterítica como importante característica a ser considerada durante a racionalização de novos ligantes. Para verificar a presença de resíduos idênticos entre o RA-A2a e o seu respectivo modelo do RA-A1 foi feito o alinhamento estrutural dos receptores. No corte de 6Ǻ a partir da adenosina, foram encontrados resíduos de aminoácidos idênticos (Ala63/Ala66, Ile66/Ile69, Ala81/Ala84, Val84/Val87, Cys166/Cys169, Glu169/Glu172, Phe168/Phe171, Tyr271/Tyr271 e Ile274/Ile274), similares (Ser67/Asn70 e Ser277/Thr277) e distintos (Thr65/Leu68, Thr68/Ile71, Gly69/Glu72, Leu167/Glu170 e Met270/Thr270), definindo, talvez, os idênticos como aqueles que conservam a reatividade independente do modelo. Dentre esses resíduos de aminoácidos, alguns são descritos na literatura como importantes para a ligação do agonista, tais como Ile69, Cys169, Ile274 e Thr277 em RA-A1 e Ile274 em RA-A2a. 5.2.2 – Análise das interações entre o ZM241385 e os receptores RA-A2a e o modelo do RA-A1 baseado em RA-A2a O ZM241385 é um antagonista seletivo do RA-A2a, que apresenta uma afinidade de 1 nM para o RA-A2a e de 255 nM para o RA-A1 (Ongini et al, 1999). O estudo de docking do antagonista ZM241385 foi realizado utilizando apenas a estrutura cristal do RA-A2a e o modelo do RA-A1 baseado no RA-A2a, que apresenta o maior grau de identidade. A análise das interações entre os receptores e o ZM foi realizada a partir de um corte de 6Ǻ do antagonista. Alguns dos resíduos considerados importantes, por estudos de mutagênese, para a interação receptor-antagonista foram encontrados incluindo Glu16, Leu65, Ile69, Cys85, Cys169, Thr277 e His278 para o modelo de RA-A1 e Val88, Glu169, His250 e Ile274 para RA-A2a (Ben et al., 2010; Giordanetto et al.,2003; Olah e Stiles, 2000 e Rivkees et al., 1999). Para verificar a presença de resíduos idênticos foi feito o alinhamento estrutural do RA-A2a e do modelo do RA-A1 baseado no RA-A2a, sendo 62 observada a presença de aminoácidos idênticos (Ala66/Ile69, Ala81/Ala84, Val84/Val87, Cys166/Cys169, Phe168/Phe171, Tyr271/Tyr271, Ile274/Ile274), um similar (Ser67/Asn70) e alguns distintos (Leu167/Glu170, Leu267/Ser267, Met270/Thr270). Ao compararmos os resultados da análise da interação com o agonista e com o antagonista, notamos que há uma mudança conformacional no receptor. Dentre essas mudanças podemos citar a que resulta na presença do resíduos Pro73 e Pro64, que são vistos no corte de 6Ǻ a partir do agonista, mas não no antagonista. Em relação ao antagonista, no corte deǺ6a partir do ZM241385, podemos observar a presença dos resíduos His264, Lys265, Pro266, Ser267 e Ile268 que não são vistos no corte deǺ6a partir da adenosina provavelmente devido ao maior volume ocupado pelo ZM241385. Os resultados obtidos a partir do estudo de docking são semelhantes aos resultados descritos na literatura e comprovam a importância de determinados resíduos para a interação receptor-ligante. Entretanto, os dados do docking com o antagonista não conseguiram revelar o motivo de forma explicita sobre a seletividade de ZM241385. Sabendo que as moléculas de água são componentes importantes para interações com receptores e que esta pode estar auxiliando na definição das características de seletividade do ZM241385, este resultado aponta a necessidade de realizar os estudos de docking na presença de moléculas de água para viabilizar estas interações e observar se novas pontos de ligação com o receptor são geradas pela presença da mesma. 63 6- Conclusões 1) Quanto a análise da estrutura tridimensional do receptor de adenosina RA-A1 a partir da construção e comparação de modelos por homologia, utilizando como moldes as estruturas cristais do receptor de adenosina A2a (RA-A2a), da bacteriorodopsina (bacRho), da rodopsina bovina (BRho) e do receptor β2adrenérgico (β2-A), concluímos que: - Os modelos construídos apresentam a conservação das sete α-hélices transmembanares, com diferenças na disposição das alças intra e extracelulares e nas regiòes das estruturas β-pregueadas. - Os modelos baseados na estrutura cristal da bacteriorodopsina, da rodopsina bovina e do receptor β2-adrenérgico possuem uma conformação mais aberta na região próxima ao sítio de ligação de fármacos, o que poder ter implicações no estudo de docking de ligantes. - No modelo construído a partir da bacteriorodopsina, nota-se que o tamanho das α-hélices é menor quando comparado às dos outros modelos, deslocando o sítio de ligação do agonista. Assim a bacteriorodopsina não é um bom molde para a construção de modelos para o receptor de adenosina A1 devido a baixa identidade existente entre as sequências primárias entre ela e o receptores RA. 2) Quanto a comparação dos modelos de RA-A1 com seus moldes e com o receptor cristalizado de A2a, considerando sua conformação e distribuição de carga , através do cálculo do valor quadrático médio (Root Mean Square – RMS) e do mapa de potencial eletrostático respectivamente , podemos concluir que: - A partir do cálculo do RMS e do mapa de potencial eletrostático, observamos que os modelos se assemelham aos respectivos moldes, mas a distribuição de cargas varia, mais significativamente no caso da bacteriorodopsina e da rodopsina bovina, que apresentam uma quantidade maior de cargas negativas provavelmente por causa da diferente funcionalidade. 64 3) Quanto a analise das interações do modelo do receptor de adenosina A1 construído a partir do cristal do RA-A2a com o agonista (adenosina) e com o antagonista (ZM241385) através dos estudos de docking. - A partir dos estudos de docking foi possível confirmar a presença de resíduos importantes na interação receptor-ligante descritos por estudos de mutagênese, incluindo os resíduos de aminoácidos Glu16, Leu65, Ile69, Cys85, Pro86, Cys169, Thr277 e His278 para o RA-A1 e os resíduos de aminoácidos Thr88, Glu16 9, Asn181, Phe182, His250, Asn253 e Ile274 para o RA-A2a. 65 7 – Referências bibliográficas Abreu, P. 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