WALLACE DO VALLE BARROS ELIMINAÇÃO DE DESPERDÍCIOS NA CADEIA DE SUPRIMENTOS ATRAVÉS DA ANÁLISE DO CUSTO TOTAL LOGÍSTICO: UM ESTUDO DE CASO EM UMA MULTINACIONAL JOINVILLE – SC 2006 UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SANTA CATARINA – UDESC CENTRO DE CIÊNCIAS TECNOLÓGICAS - CCT DEPARTAMENTO DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO E SISTEMAS WALLACE DO VALLE BARROS ELIMINAÇÃO DE DESPERDÍCIOS NA CADEIA DE SUPRIMENTOS ATRAVÉS DA ANÁLISE DO CUSTO TOTAL LOGÍSTICO: UM ESTUDO DE CASO EM UMA MULTINACIONAL Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Engenharia de Produção e Sistemas da Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Engenharia de Produção e Sistemas. Orientador: Evandro Bittencourt JOINVILLE – SC 2006 WALLACE DO VALLE BARROS ELIMINAÇÃO DE DESPERDÍCIOS NA CADEIA DE SUPRIMENTOS ATRAVÉS DA ANÁLISE DO CUSTO TOTAL LOGÍSTICO: UM ESTUDO DE CASO EM UMA MULTINACIONAL Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC de nome Curso de Engenharia de Produção e Sistemas como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Engenharia de Produção e Sistemas. BANCA EXAMINADORA Orientador: ______________________________________________ Dr. Evandro Bittencourt Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC Membro: ______________________________________________ Dr. Dario Nolli Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC Membro: ______________________________________________ Dr. Wilson José Mafra Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC Joinville, 26/07/2006 A todos os mestres, sejam eles do meio acadêmico ou profissional, que contribuíram substancialmente para o desenvolvimento dos meus conhecimentos. Aos meus pais e minha irmã, que sempre me incentivaram e me apoiaram nesta solene caminhada de evolução e conquistas. "Há aqueles que lutam um dia, e por isso são bons; Há aqueles que lutam muitos dias, e por isso são muito bons; Há aqueles que lutam anos, e são melhores ainda; Porém há aqueles que lutam toda a vida, esses são os imprescindíveis." BERTOLT BRECHT RESUMO Este trabalho objetivou o entendimento da importância do custo total logístico, onde considerou-se para o estudo de caso o desenvolvimento bibliográfico dos custos de estoque e frete. O detalhamento dos conceitos de logística e gestão de estoques foi relevante, visto que os custos individuais destas áreas são provenientes das políticas e estratégias adotadas pelas empresas para os mesmos. A abordagem deste tema foi escolhida por ser atualmente fundamental na gestão da cadeia de suprimentos, onde as empresas começam a identificar oportunidades substancias para adquirirem maior potencial competitivo, e sobre tudo, satisfazer as necessidades de seus clientes. A partir da identificação de desperdícios em transporte, passou-se a analisar o fluxo de suprimentos de determinado fornecedor, na busca de otimização das cargas e redução de custos em fretes, preocupando-se certamente com os impactos em custos de estoque. A análise de soluções baseadas no custo total logístico trouxe perspectivas interessantes, e os resultados conquistados após implementação da solução escolhida superaram as expectativas, excedendo em 12% o ganho financeiro previsto. O estudo de caso deu-se em uma multinacional do ramo de eletrodomésticos. PALAVRAS-CHAVE: Logística. Estoque. Custo total. Kanban. Desperdícios. LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1.0 – Escopo da logística empresarial............................................................18 Figura 1.1 – Visão geral das atividades logísticas dentro das atividades tradicionais da firma. ....................................................................................................................19 Figura 1.2 – Ciclo de Suprimentos ............................................................................24 Figura 1.3 – Ponto de reposição, quantidade fixa e período variável........................30 Figura 1.4 – Comportamento dos diferentes estoques no sistema de suprimento e distribuição quando controlados por ponto de reposição. .........................................33 Figura 1.5 – Redução dos estoques para expor os problemas do processo.............39 Figura 1.6 – Compensação de custos. ......................................................................43 Figura 1.7 – Efeito da densidade do material nos custos logísticos. .........................44 Figura 1.8 – Empurrar e puxar a produção. ..............................................................46 Figura 1.9 – Simbologia de Supermercado. ..............................................................48 Figura 2.0 – Cartão kanban de produção. .................................................................49 Figura 2.1 – Cartão kanban de requisição. ...............................................................50 Figura 2.2 – Cartão kanban de fornecedor................................................................51 Figura 2.3 – Painel porta-kanban ou Quadro kanban................................................52 Figura 2.4 – Controle de estoque pelo quadro kanban. ............................................52 Figura 2.5 – Dinâmica de funcionamento do quadro kanban. ...................................53 Figura 2.6 – Peso transportado por veículo, ao longo de 6 meses ...........................57 Figura 2.7 – Dinâmica de Funcionamento do Kanban Cubagem ..............................61 Figura 2.8 – Cronograma de implementação da solução. .........................................65 Figura 2.9 – Ficha proporcional ao volume das embalagens. ...................................66 Figura 3.0 – Quadro kanban cubagem ......................................................................67 Figura 3.1 – Peso transportado por veículo no primeiro mês do kanban cubagem...69 LISTA DE TABELAS Tabela 1.0 – Nível de Serviço x Número de Desvios Padrões ..................................36 Tabela 1.1 – Preço unitário da viagem por tipo de veículo (dados de custo unitário representativos em Reais (R$) e proporcionais). .........................................59 Tabela 1.2 – Resultados das soluções propostas.................................................63 Tabela 1.3 – Otimização de cargas após implementação da solução.......................70 Tabela 1.4 – Resultados obtidos x previstos. ............................................................71 SUMÁRIO INTRODUÇÃO ..........................................................................................................11 1 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA .....................................................................16 1.1 A CONCEPÇÃO LOGÍSTICA .........................................................................16 1.2 O CONCEITO DE LOGÍSTICA.......................................................................17 1.3 A IMPORTÂNCIA DA LOGÍSTICA .................................................................19 1.4 AS ATIVIDADES DA LOGÍSTICA ..................................................................20 1.4.1 Atividades Primárias ...................................................................................20 1.4.2 Atividades Secundárias...............................................................................21 1.5 ADMINISTRAÇÃO DE MATERIAIS................................................................23 1.5.1 Suprimentos ................................................................................................23 1.5.2 Objetivos do Estoque ..................................................................................24 1.5.2.1 Objetivos de Custos ................................................................................24 1.5.2.2 Objetivos de Nível de Serviço..................................................................25 1.5.3 Gestão de Estoques....................................................................................25 1.5.4 Conceitos de Gestão de Estoques..............................................................27 1.5.4.1 Classificação ABC ...................................................................................28 1.5.4.2 Estoques para Demanda .........................................................................29 1.5.4.3 Ponto de Reposição ................................................................................30 1.5.4.3.1 Cálculo do ponto de reposição ................................................................31 1.5.4.3.2 Cálculo do tamanho do lote de reposição ...............................................31 1.5.4.4 MRP (Materials Requirements Planning) ................................................32 1.5.4.5 Estoques de Segurança ..........................................................................36 1.5.4.6 Just in Time (JIT).....................................................................................37 1.5.5 Custos de Estoque......................................................................................40 1.5.5.1 Custos de Manutenção de estoque .........................................................40 1.5.5.2 Custos de Compra...................................................................................41 1.5.5.3 Custos de Falta de Estoque ....................................................................41 1.6 O CONCEITO DE CUSTO TOTAL .................................................................42 1.7 O PRODUTO..................................................................................................43 1.8 SISTEMA KANBAN ........................................................................................44 1.8.1 Conceito de Kanban....................................................................................45 1.8.2 Funções do Kanban ....................................................................................46 1.8.3 Funcionamento do Sistema Kanban ...........................................................47 1.8.4 Supermercado ............................................................................................47 1.8.5 As modalidades do Kanban ........................................................................48 1.8.5.1 Cartão Kanban de Produção ...................................................................49 1.8.5.2 Cartão Kanban de Requisição Interna.....................................................49 1.8.5.3 Cartão Kanban de Fornecedor ................................................................50 1.8.5.4 Painel Porta-Kanban ...............................................................................51 1.8.6 Dimensionamento do Sistema Kanban .......................................................53 2 ESTUDO DE CASO .......................................................................................56 2.1 2.2 2.3 2.4 2.5 LEVANTAMENTO DE DADOS E ANÁLISE DO PROBLEMA ........................56 NECESSIDADES E SOLUÇÕES LEVANTADAS...........................................58 ANÁLISE DAS SOLUÇÕES ...........................................................................63 IMPLEMENTAÇÃO DA SOLUÇÃO ................................................................65 ANÁLISE DOS RESULTADOS ......................................................................69 CONSIDERAÇÕES FINAIS ......................................................................................72 RECOMENDAÇÕES.................................................................................................74 REFERÊNCIAS.........................................................................................................76 11 INTRODUÇÃO As constantes mudanças no mercado têm exigido cada vez das indústrias agilidade, qualidade e atendimento. Os clientes já não aceitam mais produtos e preços impostos pelas empresas. Eles estão mais exigentes, seja na variedade de produtos, no preço ou na qualidade. E este cenário é consolidado através das inúmeras opções que o cliente tem a sua disposição. Existe um oceano de produtos, serviços, marcas, preços, enfim, uma variedade de opções que estão na vitrine à frente daqueles que as consome, disputando entre si pela escolha do consumidor. Dellaretti Filho e Drumond (1994, p. 16) resumem o objetivo de um processo na empresa como “Produzir um produto, que tenha a preferência do cliente”. Para alcançar este tão almejado objetivo, o de ser a preferência do cliente, as empresas precisam ir além das expectativas do cliente. Mais do que prover o design e usabilidade do produto, as empresas precisam disponibilizá-lo na hora e local desejado, com qualidade assegurada e preço justo, satisfazendo todas as necessidades do cliente. Para Campos (1989) a sobrevivência da empresa está baseada na satisfação total do consumidor. Segundo Dellaretti Filho e Drumond (1994, p. 16), “Esta satisfação se manifesta na forma de preferência do cliente”. Para satisfazer o cliente e assegurar a lucratividade, muitas empresas têm se preocupado em ir além da utilização de altos investimentos comerciais e operacionais ou técnicos e tecnológicos. Diversas empresas têm conseguido responder às necessidades do mercado e acompanhar as ligeiras mudanças e evoluções globais, através do aprendizado e aplicação de novas filosofias. Afinal, 12 para conquistar o consumidor, para superar os concorrentes é preciso ser diferente, e para isto é imprescindível fazer diferente. A partir da necessidade de se eliminar os desperdícios fabris, otimizando o trabalho, reduzindo custos e agregando maior valor ao produto, as empresas passaram a buscar conhecimentos, ferramentas e meios para se aperfeiçoarem e se tornarem mais competitivas no atual ambiente dos negócios, extremamente hostil. A indústria japonesa tem sido nas últimas décadas o maior mestre destas empresas aprendizes, sendo reconhecida mundialmente pelos seus métodos. TQM (Total Quality Management), 5S (5 Sensos), JIT (Just in Time) e Lean Manufacturing (Produção Enxuta) são exemplos claros que vemos disto e que apresentam pelo mundo todo evidentes e reconhecidos retornos operacionais e financeiros para aqueles que as colocaram em prática. Comumente estes conceitos são aplicados diretamente à manufatura, e quando não, acabam sendo iniciativas isoladas, o que não significa melhorias em todo o sistema industrial. É preciso ir além, é preciso aumentar o diferencial para conquistar espaço no mercado e dar sustentabilidade a isto, é preciso ter uma visão sistêmica de toda a cadeia. O foco na cadeia de suprimentos, para a otimização dos recursos e redução de custos, tem sido substancial para o aumento nas vendas e na lucratividade das companhias. 13 Objetivo Geral Dado o cenário descrito acima, este trabalho tem por objetivo fazer uma abordagem da cadeia de suprimentos, em uma visão sistêmica deste fluxo, analisando os custos de estoque e frete, propondo soluções de eliminar desperdícios e agregar maior valor ao produto. Objetivos Específicos Como objetivos específicos deste trabalho, podem-se destacar: • Apresentar os conceitos de logística e gestão de materiais; • Apresentar os custos existentes na logística e gestão de materiais; • Apresentar as melhorias proporcionadas pelo JIT e a ferramenta kanban; • Identificar e analisar oportunidades de melhorias na cadeia de suprimentos da empresa; • Propor soluções e testar hipóteses; • Implementar uma solução e avaliar os resultados na empresa focada. 14 Delimitação do Trabalho O presente trabalho se restringe a análise do custo total logístico, considerando os custos de estoques e transportes para levantamento de oportunidades de melhorias na cadeia de suprimentos. O estudo foi aplicado à um determinado fluxo de abastecimento de uma empresa multinacional do ramo de eletrodomésticos, envolvendo o fornecedor e a transportadora que participam deste processo. Estrutura do Trabalho O trabalho é dividido basicamente em duas partes, sendo que a primeira é um aprofundamento teórico e a segunda apresenta um estudo de caso prático. A primeira parte ainda subdivide-se em 8 capítulos, onde os quatro primeiros abordam a concepção, o conceito e a importância da logística, assim como suas atividades. O quinto capítulo apresenta a administração de materiais, detalhando desde seu objetivo até seus custos, passando pelos conceitos e métodos de gestão de estoques. O sexto capítulo refere-se ao custo total, onde é explanado o seu conceito e suas variáveis. No sétimo capítulo é apresentada a abordagem feita no produto, relacionando a sua densidade nas análises de estoque e frete. E por fim, a revisão bibliográfica detalha o funcionamento do kanban, importante ferramenta do 15 JIT, e seus benefícios. A segunda parte consiste na apresentação do estudo de caso aplicado à uma empresa multinacional do ramo de eletrodomésticos, onde foram utilizados os conceitos apresentados para a análise do problema e levantamento de soluções. É apresentado ainda a implementação de uma solução proposta, os resultados alcançados e conclusão do estudo de caso. Na seqüência encontram-se a conclusão, as recomendações e as referências utilizadas, que finalizam o trabalho. 16 1 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 1.1 A CONCEPÇÃO LOGÍSTICA A globalização é o grande provedor da alta competitividade no mercado, e exige cada vez mais das empresas um melhor desempenho, o aumento da qualidade e a redução de custos. Para se destacar neste novo contexto, as empresas precisam superar as expectativas dos clientes, apresentando características diferenciais. É neste momento que identifica-se a logística como fator fundamental dentre os vários setores da empresa, para redução de custos e excelência no atendimento ao cliente. Segundo Ching (1999, p. 17), Para que uma empresa possa sobreviver em um ambiente turbulento, precisa oferecer resultados – em quantidade, variedade, qualidade, preços e prazos – compatíveis com as necessidades e expectativas dos clientes [...]. Nesse contexto, a logística pode tornar-se um diferencial competitivo para a empresa. Entretanto, Ballou (1993) menciona quem nem sempre as empresas focaram o controle e a coordenação coletivas de todas as atividades logísticas. Ganhos substanciais nos custos somente foram conseguidos nos últimos anos, e com isto, a administração das atividades logísticas tem se transformado numa área de importância vital para as empresas. “A concepção logística de agrupar conjuntamente as atividades relacionadas ao fluxo de produção e serviços para administrá-las de forma coletiva é uma evolução natural do pensamento 17 administrativo” (BALLOU, 1993, p.18). 1.2 O CONCEITO DE LOGÍSTICA O conceito de logística nasceu nas Forças Armadas norte-americanas durante a Segunda Guerra Mundial, como estratégia de aquisição, transporte, estoque e fornecimento de materiais e suprimentos para o exército. Atualmente, o conceito de logística é muito mais abrangente, e compreende o planejamento e controle de todo o fluxo de produtos, desde a aquisição nos fornecedores até a distribuição e entrega no consumidor final. Ballou (1993, p. 35) cita, “Hoje, a logística é entendida como a integração tanto da administração de materiais como da distribuição física”. De acordo com Ching (1999, p. 16), Com o passar dos anos, esse conceito foi evoluindo e uma nova concepção entrou em vigor, e passou a existir a integração das diversas áreas envolvidas na produção, dimensionamento e layout de armazéns, alocação de produtos em depósito, transportes (roteirização, dimensionamento de frota de veículos), distribuição, seleção de fornecedores e clientes externos, surgindo um novo conceito que é conhecido como supply chain ou logística integrada. A partir da década de 70, o controle de custos, qualidade e produtividade passaram a ganhar extrema importância dentro das empresas, e as atividades logísticas foram diretamente afetadas por esse processo. A integração de vários processos dentro da empresa trouxe substanciais resultados para as empresas, criando um novo modelo de gestão de logística. A logística empresarial integra o 18 fluxo de suprimentos, operações de produção, gestão de estoques de matériasprima e produtos acabados, assim como o processo de transporte, armazenagem e distribuição dos mesmos (ver detalhes na Figura 1.0). Figura 1.0 – Escopo da logística empresarial Fonte: Ballou, 1993, p. 35 Para Ballou (1993, p. 24), A logística empresarial trata de todas atividades de movimentação e armazenagem, que facilitam o fluxo de produtos desde o ponto de aquisição da matéria-prima até o ponto de consumo final, assim como dos fluxos de informação que colocam os produtos em movimento, com o propósito de providenciar níveis de serviço adequados aos clientes a um custo razoável. 19 1.3 A IMPORTÂNCIA DA LOGÍSTICA Os custos logísticos têm papel fundamental no desenvolvimento do comércio. O desenvolvimento dos sistemas logísticos permite a redução de custos de movimentação e armazenagem, facilitando e estimulando o fluxo e o comércio de mercadorias. E tal situação cria um ambiente favorável para o crescimento e especialização desta área de trabalho, o que novamente permite o desenvolvimento dos sistemas logísticos e do comércio. Este ciclo permite a melhoria contínua do setor, e torna a empresa mais competitiva nacional e internacionalmente. Neste cenário, a logística atua dentro da empresa como interface entre compras e produção, e entre produção e marketing. Ballou (1993) comenta que para o bom gerenciamento ser facilitado, é preciso rearranjar as atividades existentes na firma. A Figura 1.1 mostra a interação existente entre produção, logística e marketing. Figura 1.1 – Visão geral das atividades logísticas dentro das atividades tradicionais da firma. Fonte: Ballou, 1993, p. 36 A Figura 1.1 demonstra claramente os objetivos de cada setor, sendo o de 20 marketing gerar lucro, o da produção de produzir com qualidade (seja produto ou serviço) e o da logística de transportar, movimentar, armazenar e gerir os estoques de materiais. Estrategicamente, a logística ocupa posição intermediária entre produção e marketing. Como é impossível dividir as funções de uma empresa sem alguma sobreposição de responsabilidade pelo menos em algumas delas, atividades de interface devem ser criadas. Estas são aquelas que devem ser gerenciadas por duas ou mais áreas (BALLOU, 1993, p. 37). Para Ching (1999), a logística deve fornecer o desejado pelo cliente, com níveis de custos aceitáveis e competitivos, deve proporcionar condições para uma movimentação mais rápida e eficaz, e deve contribuir para a gestão comercial da companhia. 1.4 AS ATIVIDADES DA LOGÍSTICA 1.4.1 Atividades Primárias São as atividades essenciais para o desenvolvimento da função logística. Contribuem com o maior peso para o custo total e o nível de serviço. Estas atividades são: a) Transporte: tem grande importância devido ao impacto sobre o custo total. Conforme Ballou (1993), transporte refere-se aos modos de movimentação de produtos. Os modelos para transporte são: rodoviário, ferroviário, aeroviário e marítimo; b) Gestão de Estoques: é sazonal e varia de acordo com a demanda 21 do mercado. Os estoques são necessários, pois atuam como amortecedores entre oferta e demanda, garantindo disponibilidade do produto. “Enquanto o transporte adiciona valor de ‘lugar’ ao produto, o estoque agrega valor de ‘tempo’” (BALLOU, 1993, p.25). Por ter peso significativo no custo total, o gerenciamento dos estoques deve manter o menor nível possível dos mesmos, sem afetar a disponibilidade; c) Processamento de Pedidos: é a atividade que inicia o processo de movimentação e entrega de produtos e serviços. É considerado um elemento crítico, pois segundo Ching (1999, p. 26), “determina o tempo necessário para a entrega de bens e serviços aos clientes”. Estas três atividades são consideradas centrais e críticas na logística, pois de acordo com Ballou (1993, p. 25), “[...] o resultado final de qualquer operação logística é prover serviço por conseguir mercadorias para os clientes quando e onde eles quiserem [...].” 1.4.2 Atividades Secundárias São atividades adicionais, mas não menos importantes, que exercem função de apoio às atividades primárias. São elas: a) Armazenagem: considera as questões relativas ao espaço físico para estocagem. Esta administração envolve fatores como localização, dimensionamento de área, e projeto e layout do espaço físico; b) Manuseio de Materiais: está relacionada à armazenagem, e compreende a movimentação dos materiais no local de estocagem. 22 Alguns fatores administrados nesta atividade são: equipamentos de movimentação, procedimentos de pedidos, eliminação de avarias na movimentação e balanceamento da carga de trabalho; c) Embalagem de Proteção: tem por objetivo proteger o produto. Uma boa embalagem deve garantir a movimentação do produto sem danificá-lo; d) Obtenção: refere-se à escolha das fontes de suprimento, garantindo a qualidade do material, programando a forma e as quantidades a serem compradas, e disponibilizando os mesmos para a movimentação logística. A obtenção tem caráter unicamente operacional no processo logístico, e não deve ser confundido com a função de compras, que está relacionada ao contexto comercial; e) Programação do Produto: é a atividade que gera a necessidade de produção, quando e onde o produto deverá ser produzido, de acordo com a sua lista de materiais. Não abrange a atividade diária da programação detalhada da produção; f) Manutenção de Informação: a base de dados é essencial para o planejamento e controle da logística. Manter uma base com informações importantes resulta numa administração eficiente e efetiva do desempenho e custo logístico. “É por meio da gestão das atividades primárias com as atividades de suporte que a logística empresarial vai atender ao objetivo de proporcionar ao cliente produtos e serviços que satisfaçam suas necessidades” (CHING, 1999, p. 26). 23 1.5 ADMINISTRAÇÃO DE MATERIAIS 1.5.1 Suprimentos O canal de suprimentos de uma empresa tem caráter fundamental na administração de materiais, principalmente no que diz respeito a custos de estoques, manuseio, transportes e nível de atendimento ao cliente. “A idéia básica da gestão da rede de suprimentos é identificar, em primeiro lugar, quais os critérios competitivos que o cliente final da rede (e não apenas os clientes imediatos da organização) valoriza” (CORRÊA E GIANESI,1993, p. 53). As atividades de suprimento seguem basicamente os passos descritos a seguir. A produção ou o sistema da empresa geram necessidades de suprimento. O setor de compra, através destas necessidades efetiva a ordem de compra de materiais para fornecedores previamente selecionados, de acordo com características como atendimento, qualidade e preço. O fornecedor ao receber estas ordens de compras, prepara o material a ser expedido, atendendo as quantidades solicitadas. Na data especificada o material será expedido (coletado pelo cliente ou enviado pelo fornecedor, conforme acordo comercial) para o cliente. Este por sua vez, no seu processo de recebimento inspeciona o material, e estando a qualidade garantida, o mesmo é alocado no estoque para atender a produção assim que requisitado. A Figura 1.2 demonstra o ciclo de suprimentos. 24 Figura 1.2 – Ciclo de Suprimentos Fonte: Ballou, 1993, p. 60 1.5.2 Objetivos do Estoque Segundo Shingeo (1996, p. 38), “[...], a presença de estoque tem o efeito de abrandar ou resolver uma série de problemas de produção. Na verdade, pode-se argumentar que ele tem um efeito narcotizante”. Isto significa que os estoques aliviam eventuais problemas de produção ou flutuações de demanda, que podem ser traduzidos como objetivos de custos e objetivos de nível de serviço respectivamente. 1.5.2.1 Objetivos de Custos Para Ballou (1993, p. 213) “[...] o controle de estoques é uma questão de balancear os custos de manutenção de estoques, de aquisição e de faltas”. Estes custos apresentados têm comportamentos opostos. Conforme aumenta o nível de estoque, também aumenta o custo da sua manutenção. Para diminuir o estoque, pode-se requisitar lotes menores, o que aumenta o custo de aquisição e transporte. Ou seja, é preciso balancear todos os fatores para alcançar o melhor custo total da cadeia. 25 1.5.2.2 Objetivos de Nível de Serviço Atender a demanda é imprescindível, mas por muitas vezes é difícil estabelecer os custos causados pela falta de produto. Ao fixar um índice de atendimento ao cliente (por exemplo, 97% das vendas devem ser atendidas imediatamente através de um estoque disponível), certamente haverá um impacto nos estoques de produtos. É necessário haver um equilíbrio entre os custos de aquisição e manutenção de estoques, e os custos de indisponibilidade de produtos. “Deve-se obter o maior equilíbrio possível entre a produção e o custo total de estoque, de um lado, e o nível de serviço prestado aos clientes, de outro lado” (CHING, 1993, p. 31). Abaixo seguem as finalidades do estoque, descritas por Ballou (1993, p. 205): • Melhoram o nível de serviço; • Incentivam economias na produção; • Permitem economias de escala nas compras e no transporte; • Agem como proteção contra aumentos de preços; • Protegem a empresa de incertezas na demanda e no tempo de ressuprimento; • Servem como segurança contra contingências. 1.5.3 Gestão de Estoques A visão tradicional das empresas, segundo Ching (1993), é de que os produtos devem estar estocados para atenderem variações de demandas, atenderem a produção de lotes econômicos mesmo que o tamanho do lote seja 26 superior ao necessário, ou para não perder vendas. Entretanto altos níveis de estoque representam grande perda financeira para as companhias. Material estocado é capital parado, incide em custos de manutenção, está sujeito à obsolescência, reduz a flexibilidade de produção e, ao contrario do que se imagina, pode gerar paradas de produção caso um grande lote seja rejeitado pela qualidade, por exemplo. Para Shingo (1996, p. 39) “[...], estoque é considerado um mal absoluto que dever ser totalmente eliminado”. Outro grande fator que influencia nos estoques, é o lote de materiais transportado. Ballou (1993) afirma que o custo total de transporte é menor quando cargas completas de veículos vão até uma única localização do cliente, e complementa dizendo que entregas feitas em volumes menores do que uma carga completa aumentam o custo global do transporte. Mas cargas completas podem representar quantidade desnecessária para o cliente, resultando em altos níveis de estoque. Para atender pequenos volumes de necessidade de materiais, as empresas optam por estratégias alternativas, como por exemplo, centros de consolidação ou distribuição de materiais, e sistema Milk Run de coleta ou entrega. Estes sistemas proporcionam reduções consideráveis no custo total logístico e aumentos nos níveis de serviço. Segundo Slack et al. (2002, p. 385), “Na tomada dessas decisões, equilibramos dois conjuntos de custos: o custo associado com sair para comprar [...] e os custos associados com a manutenção dos estoques”. Relacionado aos centros de consolidação ou distribuição, Ballou (1993, p. 42) conclui: “Os custos adicionais de estocagem são mais do que compensados pelo menor custo global de transporte”. Slack et al. (2002, p. 386) ainda conclui que “Em algum lugar entre esses extremos estará a estratégia de pedidos que minimizará os 27 custos totais e o esforço envolvido na compra [...]”. Uma gestão de estoques ideal consiste em obter, transportar, movimentar e armazenar de maneira otimizada, provendo a quantidade certa, na hora certa, no local adequado, atendendo os requisitos de qualidade e custos do cliente. Este conceito está dentro da concepção de um profissional da área de logística, segundo Ballou (1993, p. 40) “O profissional de logística deve preocupar-se em garantir a disponibilidade dos produtos requeridos pelos clientes à medida que eles desejem e se isto pode ser feito a um custo razoável”. 1.5.4 Conceitos de Gestão de Estoques O ideal para uma empresa seria eliminar definitivamente os estoques, atuando em um fluxo contínuo entre suprimento e demanda. Como existem muitas variações de mercado, não é possível prever e garantir o volume de demanda, o que impossibilita a extinção dos estoques. Estoques têm a função de atuarem como amortecedores entre o abastecimento e a demanda. Os estoques garantem disponibilidade de materiais para a demanda, seja de produção ou de consumo final. Porém, nem todos os materiais possuem perfil para serem mantidos em estoque, ou seja, o custo de armazenagem de determinados itens (esporádicos ou especiais, e de baixo volume, por exemplo), não compensa o custo de transporte, resultando em desperdícios para toda a cadeia de suprimentos. Para estes casos, o material deverá ser encomendando conforme necessidade, e enviado direto para a produção no momento exato em que será utilizado. Para determinar se um material deve ser mantido em estoque e a quantidade ideal a ser estocada, existem vários métodos de cálculo que atendem critérios como custos de obtenção, transporte, armazenagem, 28 produção e perdas financeiras com a não venda do produto acabado por indisponibilidade de matéria-prima. 1.5.4.1 Classificação ABC Também conhecida por Classificação de Pareto (autor deste tipo de análise), é um sistema que tem por finalidade classificar os itens analisados, ordenando-os por prioridade. A classificação de estoques é utilizada em termos financeiros, onde a curva ABC ordena os materiais pelos seus custos. Martins e Laugeni (2001, p. 35) descrevem que “Um dos objetivos da divisão dos itens consumidos em categorias é o estabelecimento de critérios gerais seja para o dimensionamento dos estoques, seja para o estabelecimento de critérios de controle”. A classificação ABC muitas vezes é citada como sendo a regra 80/20, e para Slack et al. (2002, p. 402) “É chamada assim porque tipicamente em torno de 80% do valor do estoque de uma operação é responsável por somente 20% de todos os tipos de itens estocados”. Comumente, a curva ABC se comporta da seguinte maneira: • Classe A: 20% dos itens que representam 80% do valor total em estoque; • Classe B: 25% dos itens que representam 10% do valor total em estoque; • Classe C: 55% dos itens que representam 10% do valor total em estoque. Obviamente que estes percentuais podem variar, mas em pequena escala, sendo de maneira geral muito próximos dos números apresentados. Segundo Moreira (1993, p. 468), “a metodologia ABC, é aplicável em qualquer caso de classificação de itens, de quaisquer naturezas e sob qualquer critério”. 29 1.5.4.2 Estoques para Demanda Considerado como um sistema de “empurrar” estoques, é simples e comumente usado. Basicamente o conceito deste método é manter os níveis de estoque proporcionais a sua demanda. Ching (1993) apresenta os seguintes pontos para este método: • Verificação da duração do tempo de ressuprimento para o item considerado; • Previsão da demanda do item em determinado período; • Determinação do período de segurança a considerar pela incerteza na previsão da demanda e o tempo de ressuprimento, necessário para compor o estoque de segurança. Como exemplo, considera-se como tempo de ressuprimento para um determinado item duas semanas e a cada quatro semanas faz-se a previsão de demanda. Devido às incertezas de previsão de demanda e tempo de ressuprimento, considera-se uma semana extra para estoque de segurança. O cálculo de estoque para demanda deste exemplo, é definido da seguinte maneira por Ching (1993, p. 42): A previsão mensal deve ser multiplicada por 7/4 (duas semanas de ressuprimento + quatro de previsão de demanda + uma de segurança / por quatro semanas de freqüência de previsão) [...]. O pedido de ressuprimento é calculado como a diferença entre o nível projetado de demanda e a quantidade de estoque disponível. É perceptível que os estoques serão sempre diretamente proporcionais à demanda. Ballou (1993, p. 219) faz a seguinte conclusão sobre o resultado deste método: “Isto não é conveniente, pois os estoques mantêm-se proporcionais à demanda mesmo quando esta cresce. Além disso, a forma com que o tempo de 30 ressuprimento e o erro de previsão foram estimados não é particularmente precisa”. 1.5.4.3 Ponto de Reposição Este método é também conhecido como o método do estoque mínimo, e seu objetivo é ter o ponto ótimo em nível de estoques, balanceando entre Estoque Elevado (maior custo de manutenção) e Estoque Baixo (risco de perda de vendas e/ou freqüentes paradas de produção). Para Slack et al. (2002, p. 387), “Essencialmente, essa abordagem tenta encontrar o melhor equilíbrio entre as vantagens e as desvantagens de manter estoque”. A Figura 1.3 demonstra claramente o instante em que o nível de estoque baixa até o chamado ponto de reposição (PR), onde inicia-se o processo de ressuprimento com o tempo ideal para não faltar material. A quantidade solicitada é conhecida como lote econômico de reposição (Q). Quantidade a ser reposta (para ser calculada) 0 Estoque (unidades) 0 Q 0 Q Q PR Para ser determinado →| TR |← Q = Lote de reposição ou ressuprimento TR = Tempo de ressuprimento PR = Ponto de reposição ou estoque mínimo →| TR |← →| TR |← Tempo Figura 1.3 – Ponto de reposição, quantidade fixa e período variável. Fonte: Ballou, 1993, p. 220 31 Moreira (1993, p. 473), diz que “Todo sistema de controle de estoques [...] deve prioritariamente responder a duas questões: quando se deve comprar o item (uma data) e quanto se deve comprar do item (uma quantidade)”, e logo em seguida conclui sobre o lote econômico de reposição, afirmando que este “Embora [...] realmente responda a essas duas indagações, ele é mais conhecido por responder à segunda delas, ou seja, quanto se deve comprar da mercadoria [...]”. 1.5.4.3.1 Cálculo do ponto de reposição O ponto de reposição tem por finalidade iniciar o processo de ressuprimento com antecipação para que o material esteja disponível em tempo hábil, evitando a falta do mesmo. Calcula-se o ponto de reposição da seguinte maneira: PR = Tres ⋅ D Onde PR = Ponto de Reposição Tres = Tempo de Ressuprimento (no período considerado) D = Demanda (no período considerado) Por exemplo, se o tempo de ressuprimento de determinado item for de 2 semanas, e a demanda semanal deste item é de 400 unidades, o PR será 2 x 400 = 800 unidades. 1.5.4.3.2 Cálculo do tamanho do lote de reposição O lote de reposição deve ter a melhor relação entre os custos de manutenção e os custos de aquisição, assumindo que as informações sobre demanda e tempo de ressuprimento sejam precisas. A fórmula do lote econômico de compra é: 32 Q= 2 DA EC Onde Q = Quantidade a ser reposta D = Demanda anual em unidades A = Custo de aquisição por pedido E = Custo de manutenção anual do item em % C = Custo do item Como exemplo, assume-se uma demanda semanal de 400 unidades, a um custo de R$ 50,00 pelo pedido também semanal. Cada unidade custa R$ 8,00, e a manutenção é de 25% do valor unitário ao ano. Temos então: Q= 2 ⋅ (400 ⋅ 52) ⋅ 50 0,25 ⋅ 8 Q = 1019,80 Ou seja, o lote ótimo de reposição é de aproximadamente 1020 unidades. Esta é a política de estoque definida através do ponto de reposição. Toda vez em que os estoquem caírem para 800 unidades, deve-se solicitar 1020 unidades para ressuprimento. 1.5.4.4 MRP (Materials Requirements Planning) Para que se tenha uma boa gestão de estoques, as técnicas de controle de estoques já vistas devem ser aplicadas à itens com demanda independente dos outros em produção. Itens com dependência de outros, tendem a acumular, quando utilizados os métodos estatísticos padrões de controle, o que gera estoques grandes e desnecessários. Itens com demandas dependentes são inúmeros e facilmente 33 encontrados, por exemplo, a fabricação de uma bicicleta depende da fabricação e montagem de duas rodas, que por sua vez dependem de dois aros e dois pneus, que consequentemente dependem de uma certa quantidade de aço e borracha respectivamente. Corrêa et al. (2001, p. 88) conceitua o MRP da seguinte maneira: Baseia-se na idéia de que, se são conhecidos todos os componentes de determinado produto e os tempos de obtenção de cada um deles, podemos, com base na visão de futuro das necessidades de disponibilidade do produto em questão, calcular os momentos e as quantidades que devem ser obtidas, de cada um dos componentes para que não haja falta nem sobra do referido produto. A Figura 1.4 demonstra o comportamento dos estoques na cadeia de (a) Depósito regional (produto final no armazém) Estoque suprimento, baseados no ponto de reposição. Ponto de Pedido (b) Estoque na fábrica (produto final na fábrica) Estoque Tempo Liberação da ordem de compra Ponto de Pedido (c) Estoque do componente (suprimento na fábrica) Estoque Tempo Liberação da ordem de compra Ponto de Pedido Tempo Figura 1.4 – Comportamento dos diferentes estoques no sistema de suprimento e distribuição quando controlados por ponto de reposição. Fonte: Ballou, 1993, p. 241 Para Ballou (1993, p. 242), “a chave para melhor programação da produção e para o planejamento logístico associado é aperfeiçoar os procedimentos de previsão de demanda e a liberação das ordens de reposição”. 34 O método de programação da produção baseado na demanda derivada é conhecido por cálculo das necessidades de materiais ou MRP (Materials Requirements Planning), e tem por objetivo atender os prazos de entrega dos pedidos aos clientes, procurando ter o mínimo necessário de estoques, e planejando de maneira adequada a compra de materiais e a produção de itens. O MRP II (Manufacturing Resources Planning ou planejamento dos recursos de manufatura) nasceu após a popularização do MRP, onde se percebeu que era possível aplicar os mesmos conceitos para o planejamento de outros recursos da produção, como por exemplo, capacidade de mão-de-obra e equipamentos. Corrêa apud Corrêa e Gianesi (1993, p. 105) afirma que, O princípio básico do MRP II é o princípio do cálculo de necessidades, uma técnica de gestão que permite o cálculo, viabilizado pelo uso de computador, das quantidades e dos momentos em que são necessários os recursos de manufatura (materiais, pessoas, equipamentos, entre outros), para que se cumpram os programas de entrega de produtos, com um mínimo de formação de estoques. O cálculo das necessidades de materiais é baseado em informações referentes à situação dos estoques e ao planejamento de produção. Estas informações são chamadas de registro básico do MRP, que compreende os seguintes elementos: • Período (time bucket): é o período considerado para planejamento pelo MRP. São utilizados de um dia até um mês, de acordo com a necessidade; • Necessidades brutas (gross requirements): é a previsão de demanda de um item, no período especificado; • Recebimentos programados (scheduled receipt): são os pedidos fixados, que representam uma reposição de estoque já programada para o início do 35 período em questão; • Estoque projetado disponível (projected available balance): a situação dos estoques e a projeção dos mesmos, no final do período; • Plano de liberação de ordens (planned order releases): são as ordens planejadas no início de cada período, e que deverão ser liberadas; • Tempo de ressuprimento (lead time): referente ao tempo decorrido entre o pedido de compra de um item e a sua disponibilização para utilização. O lead time de produção refere-se ao tempo desde o instante de uma ordem de produção até o final da sua produção completa, estando disponível para o uso; • Tamanho do lote (lot size): tamanhos de lotes especificados para produção ou distribuição, de acordo com características como custos fixos de produção, carga máquina, lote mínimo para transporte, etc. O MRP II tem por objetivo complementar o MRP, atendendo as necessidades de dimensionamento de capacidade de produção, envolvendo maquinários e recursos humanos. Corrêa et al.(2001, p. 139) faz a seguinte definição: “[...]; enquanto o MRP orienta as decisões de o que, quanto e quando produzir e comprar, o MRP II engloba também as decisões referentes a como produzir, ou seja, com que recursos, [...]”. Tubino (2000), coloca que o MRP gera as necessidades de montagem, fabricação e compras dos itens de forma direta, partindo do Plano Mestre de Produção. “[...] as técnicas estatísticas de controle de estoques geram certo nível de estoque regular, mesmo quando a previsão perfeita da demanda elimina o estoque de segurança.” (BALLOU, 1993, p. 242). 36 1.5.4.5 Estoques de Segurança Apesar de todos os controles existentes para uma adequada gestão de estoques, o processo produtivo ainda está sujeito a perdas de produção por falta de matéria-prima, devido a fatores como flutuações de demanda, variações no período de ressuprimento, problemas de qualidade e falta de abastecimento por problemas logísticos ou do próprio fornecedor, entre outros. Os estoques de segurança agem como amortecedores no abastecimento da produção, pois minimizam ou eliminam os impactos causados por erros na cadeia de suprimentos. Tubino (2000. p. 139) convenciona que [...] a determinação dos estoques de segurança leva em consideração dois fatores que devem ser equilibrados: os custos decorrentes do esgotamento do item e os custos de manutenção dos estoques de segurança. Quanto maiores forem os custos de falta atribuídos ao item, maiores serão os níveis de estoques de segurança [...]. A determinação do estoque de segurança é feita considerando-se o nível de atendimento admitido e o desvio padrão do item. O nível de atendimento é especificado em percentual, e para o cálculo do estoque de segurança deve-se usar a constante k, que representa o número de desvios padrões, conforme Tabela 1.0. Tabela 1.0 – Nível de Serviço x Número de Desvios Padrões Nível de Serviço 80% 85% 90% 95% 99% 99,99% Fonte: Tubino, 2000, p. 140 k 0,84 1,03 1,28 1,64 2,32 3,09 37 Segundo Tubino (2000), o estoque de segurança é obtido através da seguinte equação: Qs = k ⋅ σ Onde Qs = Estoque de segurança k = Número de desvios padrões σ = Desvio padrão Para exemplificação, vamos considerar uma demanda média de 1600 itens por mês, com um desvio padrão de 200 unidades. Para um nível de atendimento de 90%, o estoque de segurança seria: Qs = 1,28 ⋅ 200 Qs = 256 Ou seja, o estoque de segurança cobriria picos de demanda de até 1856 unidades (1600 + 256). Tubino (2000) afirma que para completar a administração de estoques, há necessidade de estabelecermos os níveis dos estoques de segurança do sistema. 1.5.4.6 Just in Time (JIT) O Just in Time (JIT) nasceu na Toyota Motor Company, no Japão, na década de 70. Este sistema busca atender prontamente à demanda com qualidade, apenas na quantidade necessária, no momento e local necessários. Isto tudo possibilita uma produção eficaz e sem desperdícios. O JIT é um dos pilares do Lean Manufacturing (Produção Enxuta), filosofia que objetiva otimizar processos e eliminar desperdícios, em um fluxo de melhorias 38 contínuas. A filosofia Lean Manufacturing cita 7 tipos básicos de desperdícios que devem ser eliminados: • Superprodução; • Espera; • Transporte; • Processamento; • Movimento; • Defeitos; • Estoques. O sistema Kanban é uma das ferramentas do JIT, onde são utilizados cartões para autorizar a produção e movimentação dos itens, conforme a demanda dos mesmos, sendo esse processo conhecido como “puxar” a produção. O sistema Kanban será detalhado no Capítulo 1.8. O JIT pode ser considerado muito mais do que métodos ou técnicas, sendo, pelo ponto de vista de Corrêa e Gianesi (1993, p.56), “[...] considerado como uma completa ‘filosofia’, a qual inclui aspectos de administração de materiais, gestão da qualidade, arranjo físico, projeto do produto, organização do trabalho e gestão de recursos humanos”. Esta filosofia pode ser traduzida pelos seguintes aspectos: • Redução de estoques; • Eliminação de desperdícios; • Produção em fluxo contínuo; • Redução do espaço de armazenagem; • Redução de lead time; • Melhoria do nível de serviço ao cliente; 39 • Melhoria da qualidade; • Melhoria contínua dos processos. Todas as empresas possuem variados tipos de problemas no seu fluxo de produção, como por exemplo, qualidade, preparação de máquinas, quebras de máquinas e gargalos. Para amenizar os impactos destes problemas são utilizados altos níveis de estoque, ou seja, os estoques buscam evitar a descontinuidade dos processos de produção. O principal objetivo do sistema JIT é o de melhorar continuamente o sistema produtivo. Fazendo uma analogia entre o sistema de produção e a navegação de um barco por um rio, consideramos que o nível da água é o nível de estoques, o barco representa o fluxo de produção, e as pedras no fundo do rio são os problemas existentes, conforme mostrado na Figura 1.5. Com grandes estoques, o fluxo produtivo segue sem sentir os problemas. A partir do momento em que se emprega o JIT, o nível de estoques diminui, ou seja, o barco começa a navegar mais próximo das pedras. A intenção é justamente essa, evidenciar os problemas para que se possa atuar de maneira rápida e efetiva neles, de modo a minimizá-los ou elimina-los. Desta maneira é possível ter baixos estoques, e um fluxo produtivo suave e contínuo. Estoques Problemas Figura 1.5 – Redução dos estoques para expor os problemas do processo. Fonte: Corrêa e Gianesi, 1993, p. 58 40 Corrêa e Gianesi (1993) descrevem as metas colocadas pelo JIT como sendo: • Zero defeitos; • Tempo zero de preparação (setup); • Estoques zero; • Movimentação zero; • Quebra zero; • Lead Time zero; • Lote unitário (uma peça). “Embora pareçam muito ambiciosas, se não inatingíveis, [...], estas metas garantem o processo de esforço para melhoria contínua e não aceitação ou complacência da situação atual.” (CORRÊA E GIANESI, 1993, p. 70). 1.5.5 Custos de Estoque Existem 3 tipos de custos associados aos estoques: custos de manutenção, custos de compra, custos de falta de estoque. 1.5.5.1 Custos de Manutenção de estoque “Estão associados a todos os custos necessários para manter certa quantidade de mercadorias por um período de tempo.” (BALLOU, 1993, p. 211). O custo de manutenção é composto por outros custos, dentre eles os mais importantes são: • Custo de oportunidade: é o custo referente ao retorno financeiro que a empresa teria aplicando no mercado o capital imobilizado em estoque; 41 • Custo de seguro: custo associado ao seguro contra incêndio e roubo, por exemplo, e que são diretamente proporcionais à quantidade de material em estoque; • Custo de armazenagem: é o custo apropriado pela armazenagem física, e varia de acordo com a quantidade de material estocado. • Custo de risco: é o custo associado às perdas relacionadas aos riscos de deterioração e obsolescência. 1.5.5.2 Custos de Compra “Incluem os custos fixos administrativos associados ao processo de aquisição das quantidades requeridas para reposição do estoque [...].” (CHING, 1993, p. 29). São basicamente compostos pelos seguintes custos: • Custo de processar pedidos de compra; • Custo de preparação da produção (set-up); • Custo de manuseio ou movimentação no recebimento e no almoxarifado; • Custo de verificação física (quantidade de materiais) e verificação burocrática (nota fiscal); • Preço do material comprado. 1.5.5.3 Custos de Falta de Estoque “São aqueles que ocorrem caso haja demanda por itens em falta no estoque.” (BALLOU, 1993, p. 212). Dependendo da situação em que ocorre a falta de materiais, pode ocorrer os seguintes tipos de custos de falta: 42 • Custos de vendas perdidas: é o custo referente ao cancelamento do pedido; • Custos de atrasos: custo associado ao atraso do atendimento do pedido. 1.6 O CONCEITO DE CUSTO TOTAL Os custos individuais das várias atividades presentes na cadeia de suprimentos, por muitas vezes apresentam comportamento opostos. Um exemplo clássico é a análise de estoque versus transporte. Para uma redução significativa em estoques, é necessário aumentar a freqüência de coletas de matéria-prima, e isto consequentemente aumenta o custo de frete, e vice-versa. Em muitas empresas estes custos são analisados separadamente, criando conflitos entre áreas ou perdas financeiras na conta final dos custos. O conceito de custo total objetiva encontrar o menor custo na somatória dos custos envolvidos na análise. O ponto onde se tem o menor custo total é exatamente onde os custos analisados se compensam (trade-off). Ou seja, observa-se na Figura 1.6 que o mínimo do custo total não é no ponto onde se encontra o mínimo de custo de estoque ou de transporte, e sim em um ponto intermediário entre eles. “O conceito do custo total reconhece que os custos individuais exibem comportamentos conflitantes, devendo ser examinados coletivamente e balanceados no ótimo.” (BALLOU, 1993, p.45). 43 Custos ($) Custo Total (custos de transporte + custos de estoque) Custos de tranporte Custos de estoque Freqüência de Coleta Figura 1.6 – Compensação de custos. Fonte: Primária (2006) É evidente que a administração dos custos de estoque e transporte em conjunto proporciona maiores reduções financeiras, comparadas aos resultados da administração individual de cada custo. Para Ballou (1993, p. 45) “A idéia do custo total foi importante para decidir quais atividades da firma deveriam ser agrupadas conjuntamente [...]. Além do mais, providenciou o argumento básico para o gerenciamento coletivo das funções logísticas, [...].” 1.7 O PRODUTO As características do produto, como o peso e o volume, influenciam diretamente na estratégia logística. Limitações físicas e custos de transporte e armazenagem dependem da densidade (peso/volume) do material em questão. Ballou (1993, p. 99) caracteriza a relação peso-volume de um material da seguinte maneira: 44 Produtos densos, ou seja, com relação peso-volume elevada, como aço laminado, material impresso e comida enlatada, apresentam boa utilização dos equipamentos de transporte e das facilidades de armazenagem. Tanto os custos de transporte como de armazenagem tendem a ser baixos. Entretanto, para produtos pouco densos, como isopor, batatas fritas e lâmpadas, a capacidade volumétrica do equipamento de transporte é preenchida antes de seu limite de carregamento em peso a ser atingido. A Figura 1.7 demonstra como os custos individuais (estocagem e transporte) e os custos totais, em percentagem do preço de venda, diminuem a medida que a Custo logístico como porcentagem do preço de venda aumenta densidade do material aumenta. Custo Total (transporte + estoque) Custos de tranporte Custos de estoque Razão peso-volume aumenta (kg/m³) Figura 1.7 – Efeito da densidade do material nos custos logísticos. Fonte: Ballou, 1993, p. 100 1.8 SISTEMA KANBAN O sistema kanban tem seu desenvolvimento todo creditado ao pioneirismo do Sr. Taiichi Ohnho, ex-vice presidente da Toyota Motors Company do Japão, juntamente com os engenheiros da mesma empresa, na década de 60. O objetivo do sistema kanban, segundo Tubino (2000, p. 94) é “tornar simples 45 e rápidas as atividades de programação, controle e acompanhamento de sistema de produção em lotes.” Da mesma forma que Kanban não significa inventário zero, também não é sinônimo de Just in Time, mas sim uma ferramenta utilizada para se atingir as metas Just in Time. Os termos Kanh e Banh são dois vocábulos do idioma Japonês, que significam respectivamente Cartão e Controle. Sendo assim, kanban significa o Controle através de Cartão, Sinal ou Registro Visível, enfim, através de uma Gestão À Vista. 1.8.1 Conceito de Kanban Kanban é uma técnica de administração de materiais e produção, visando a utilização de cada coisa no tempo certo e somente na quantidade mínima necessária. Este sistema permite controlar harmonicamente as quantidades de produção em todos os processos, através de dispositivos sinalizadores que autorizam e dão instruções para a produção ou para a retirada de itens em um sistema puxado de produção. Segundo Tubino (2000, p. 194), “[...], o sistema kanban caracteriza-se por ‘puxar’ os lotes dentro do processo produtivo, enquanto que os métodos tradicionais de programação da produção, [...], ‘empurram’ um conjunto de ordens para serem feitas no período”. A Figura1.8 demonstra os métodos de empurrar e puxar a produção. 46 Figura 1.8 – Empurrar e puxar a produção. Fonte: Tubino, 2000, p. 105 1.8.2 Funções do Kanban Pela característica de puxar a produção, o kanban tem algumas funções especiais, tais como: • Aciona o processo de fabricação, apenas quando necessário; • Não permite a produção para estoque com previsões futuras; • Paralisa a linha quando surgem problemas não solucionados; • Permite o controle visual do andamento do processo; • É acionado pelo próprio operador; • É uma ferramenta para garantir a distribuição programada das ordens de serviços; • É uma ferramenta para evitar o excesso ou a falta de produção/entrega de peças; • É uma ferramenta para controlar o inventário; • É uma ferramenta para descobrir e ampliar as fraquezas dos processos; • Permite a produção de peças com base em lotes pequenos; 47 • Permite a entrega de peças de acordo com o consumo; • Permite a identificação de peças. 1.8.3 Funcionamento do Sistema Kanban Para Tubino (2000), este sistema pode adaptar-se facilmente em diferentes situações de trabalho, mas para isto é necessário que algumas regras básicas sejam respeitadas e seguidas. As regras são 5, conforme descritas abaixo: • Regra 1: O processo subseqüente (cliente) deve retirar no processo precedente (fornecedor) os itens de sua necessidade apenas nas quantidades e no tempo necessário. • Regra 2: O processo precedente (fornecedor) deve produzir seus itens apenas nas quantidades requisitadas pelo processo subseqüente (cliente). • Regra 3: Produtos com defeito não devem ser liberados para os clientes. • Regra 4: O número de kanbans no sistema deve ser minimizado. • Regra 5: O sistema kanban deve adaptar-se a pequenas flutuações na demanda. 1.8.4 Supermercado Supermercado é o termo usado para o estoque controlado, intermediário entre os processos. O nome se dá justamente pela análise dos supermercados americanos, na década de 60, quando percebeu-se que todos os itens das prateleiras eram imediatamente repostos, a partir da retirada do mesmo por um consumidor. Este estoque controlado é calculado de maneira que: • O cliente encontre o que precisa; 48 • O fornecedor consiga repor o supermercado antes que os níveis mínimos de peças definidos sejam atingidos. • Itens que saem mais existem em maiores quantidades em locais privilegiados; • Itens que saem menos existem em menores quantidades nas prateleiras mais baixas; • Itens esporádicos somente sob encomenda; • As gôndolas nunca estão todas cheias ao mesmo tempo; • Aqueles itens que estão acabando são os próximos a serem repostos. A simbologia utilizada para representação do supermercado e da produção puxada pode ser visualizada na Figura 1.9. Supermercado Fornecedor Produção Puxada Cliente Figura 1.9 – Simbologia de Supermercado e de Produção Puxada. Fonte: Primária (2006) 1.8.5 As modalidades do Kanban O kanban é um sistema de Gestão à Vista, e de acordo com Tubino (2000, p. 196) “é baseado no uso de sinalizações para ativar a produção e movimentação dos itens pela fábrica.” Para Tubino (2000), os cartões kanban se dividem em dois grupos. O primeiro refere-se aos cartões kanban de produção, que autorizam a fabricação ou montagem de determinado lote de itens. E o segundo grupo refere-se aos cartões kanban de requisição, que autorizam a movimentação dos lotes entre cliente e fornecedor, sejam estes internos ou externos à empresa. 49 1.8.5.1 Cartão Kanban de Produção Também conhecido como kanban de processo, este cartão é utilizado para a autorização da produção de um especificado lote de itens. Para Tubino (2000, p. 197) “exerce as funções das ordens de fabricação e montagem emitidas pelos sistemas convencionais de PCP, [...].” A Figura 2.0 demonstra um exemplo típico de cartão kanban de produção, cujo modelo pode variar de acordo com as necessidades ou padrões da empresa. Processo Centro de trabalho Nº de item Nº prateleira estocagem Nome do item Materiais Necessários Código Locação Capacidade do contenedor Nº de emissão Tipo de contenedor ||| |||||||| |||||||| |||||||||| ||||| Figura 2.0 – Cartão kanban de produção. Fonte: Tubino, 2000, p. 198 1.8.5.2 Cartão Kanban de Requisição Interna Conhecido também como cartão kanban de movimentação, ele autoriza o fluxo de determinado lote de itens entre cliente e fornecedor internos. Os cartões kanban de requisição são utilizados quando os centros de trabalho consumidor e produtor estão distantes um do outro, funcionando como uma autorização permanente de transporte de itens para reposição no estoque do centro consumidor, desde que o mesmo empregue o referido lote de itens no seu processo produtivo (TUBINO, 2000, p. 1998). 50 Um modelo de cartão kanban de requisição interna é demonstrado na Figura 2.1. Nº de item Centro de trabalho precedente Nome do item Capacidade do contenedor Nº de emissão Tipo de contenedor Locação no estoque Centro de trabalho subseqüente ||| |||||||| |||||||| |||||||||| ||||| Locação no estoque Figura 2.1 – Cartão kanban de requisição. Fonte: Tubino, 2000, p. 199 1.8.5.3 Cartão Kanban de Fornecedor Este cartão kanban funciona como uma autorização de compra para o fornecedor externo, permitindo que este entregue determinado lote de itens conforme o consumo da empresa. “O uso do sistema kanban com fornecedores, [...], simplifica e racionaliza as atividades de reposição de estoques de curto prazo por parte dos fornecedores, [...].” (TUBINO, 2000, p. 199). Um exemplo de cartão kanban de fornecedor pode ser visualizado na Figura 2.2. 51 Nome e código do fornecedor Centro de trabalho para entrega Horários de entregas Nome do item Loca de estocagem Nº do item Capacidade do contenedor Nº de emissão Tipo de contenedor Ciclo de entregas ||| ||||| ||| |||||||| |||||||| |||||||||| ||||| Figura 2.2 – Cartão kanban de fornecedor. Fonte: Tubino, 2000, p. 200 1.8.5.4 Painel Porta-Kanban Também conhecido por Quadro Kanban, faz parte do conceito de Gestão à Vista, sinalizando o fluxo de consumo, produção ou movimentação dos itens em Kanban. O quadro kanban normalmente está disposto junto ao ponto de armazenagem ou de produção, comportando todos os cartões kanban. O painel porta-kanban de requisição ou de fornecedor é empregado para sinalizar as necessidades de reposição dos itens por parte dos fornecedores, internos ou externos, desta estação de trabalho. Enquanto o painel porta-kanban de produção sinaliza para essa estação de trabalho, quais itens estão sendo consumidos por seus clientes e qual prioridade ele deve dar à reposição destes itens (TUBINO, 2000, p. 200-201). O quadro é colorido, indicando o fluxo de consumo de cada item, nas cores verde, amarelo e vermelho, de baixo para cima, conforme mostrado na Figura 2.3. 52 Figura 2.3 – Painel porta-kanban ou Quadro kanban. Fonte: Primária (2006) Os itens são produzidos com base na proximidade dos cartões da zona vermelha. Estando literalmente no vermelho, aquele item está a zero no supermercado. A faixa verde é baseada no tempo de espera que a peça que terminou de ser produzida irá esperar para ser usada novamente. O dimensionamento da faixa amarela é baseado no tempo de fabricação da peça (Lead Time de Produção). Quanto mais perto da faixa vermelha, maior a prioridade para repor o item. A Figura 2.4 demonstra o nível de estoque conforme os cartões kanban são colocados nas faixas verde, amarela e vermelha do quadro kanban. Figura 2.4 – Controle de estoque pelo quadro kanban. Fonte: Primária (2006) 53 À medida que o cliente retira peças do supermercado os cartões de produção que acompanhavam as caixas são levados para o processo fornecedor e são colocados no quadro. O quadro deve mostrar para a Produção qual o item que deve ser produzido primeiro e qual o tamanho do lote a ser produzido. Conforme os cartões chegam ao quadro eles são inseridos primeiramente sobre a faixa verde, depois amarela e por fim a vermelha. Quando as peças vão sendo produzidas os cartões são retirados primeiramente da faixa vermelha, depois da amarela e por fim verde. O processo de colocação e retirada de cartões do quadro kanban é mostrado na Figura 2.5. A B C D A (a) Colocação dos cartões B C D (b) Retirada dos cartões Figura 2.5 – Dinâmica de funcionamento do quadro kanban. Fonte: Primária (2006) 1.8.6 Dimensionamento do Sistema Kanban O dimensionamento do Kanban é a parte crucial no que diz respeito a implantação do sistema, pois é nesta fase que o kanban ganha confiança de quem irá operá-lo. É este dimensionamento que especifica a quantidade de material que será mantida no supermercado (estoque controlado). Primeiramente, é preciso estabelecer o tamanho de lote para cada item, e isto dependerá basicamente de dois fatores relevantes. O primeiro deles é o tempo de setup. Altos tempos de setup representam grandes lotes e pequenas freqüências de 54 produção. O segundo fator está relacionado com a variedade dos contenedores utilizados. É importante minimizar o número de tipos de embalagens e padroniza-las. Definidos estes pontos, é possível determinar a quantidade total de lotes (cada lote terá um cartão kanban), de acordo com a expressão abaixo: D D N = ⋅ Tprod ⋅ (1 + S ) + ⋅ Tmov ⋅ (1 + S ) Q Q Onde N = Número total de cartões kanban D = Demanda média diária do item (itens/dia) Tprod = Tempo total para produção de um lote (cartão kanban), em percentual do dia, incluindo tempo de setup Tmov = Tempo total para movimentação de um lote (cartão kanban), em percentual do dia, entre supermercado e ponto de consumo S = Fator de segurança, em percentual Através desta equação determina-se o número de cartões kanban de produção e de movimentação respectivamente, somados. Pode-se calcular separadamente, de acordo com a necessidade do sistema. Como exemplo, iremos considerar um item com demanda de 250 peças por dia, acondicionadas em contenedores com 40 peças cada. A produção de um cartão kanban (um contenedor com 40 peças) é feita em 2 horas, considerando o tempo de setup. Isto representa 31,25% de um dia de trabalho (2,5/8 = 0,3125). A movimentação deste item, do supermercado até o ponto de consumo, é feito de hora em hora, ou seja, 12,5% de um dia de trabalho (1/8 = 0,125). Será aplicada uma segurança de 15% neste sistema (1 hora e 12 minutos). 55 300 300 N = ⋅ 0,3125 ⋅ (1 + 0,15) + ⋅ 0,125 ⋅ (1 + 0,15) 40 40 N = 2,70 + 1,08 Sendo que os cartões kanban sempre deverão ser números inteiros, e que o arredondamento para este cálculo sempre deverá ser para cima, teremos um total de 5 cartões kanban, sendo: N = 3 cartões kanban de produção + 2 cartões kanban de movimentação. 56 2 ESTUDO DE CASO Este capítulo tem por objetivo analisar o fluxo de abastecimento de matériaprima, sob uma visão sistêmica da Cadeia de Suprimentos, considerando o Custo Total Logístico. O estudo foi feito em uma empresa multinacional do ramo de eletrodomésticos, situada no estado de Santa Catarina. A análise compreendeu uma rota com veículo dedicado ao fornecimento de matéria-prima proveniente do estado de São Paulo, cujo valor do material em estoque e custos de transportes somados colocava o fornecedor em uma posição representativa no ranking dos maiores em custo total na cadeia de suprimentos da empresa. 2.1 LEVANTAMENTO DE DADOS E ANÁLISE DO PROBLEMA A necessidade do estudo surgiu a partir da identificação de freqüente ociosidade nos veículos que transportam este material, reportadas pela equipe de recebimento de materiais. Foram coletadas diversas fotos para comprovar o desperdício de ocupação das cargas. 57 A partir deste ponto, foi feita uma verificação detalhada em cima de dados numéricos e precisos. Foi constatada uma alta variação de peso transportado por veículo no fluxo de fornecimento de matéria-prima. Os dados de peso transportado por veículo foram fornecidos pela transportadora, e a análise foi feita baseada em um histórico de 6 meses transporte da matéria-prima. A Figura 2.6 mostra o comportamento dos transportes realizados no período. Kg Peso Transportado por Veículo 22.500 20.000 17.500 15.000 12.500 10.000 7.500 5.000 2.500 - Número de Viagens Figura 2.6 – Peso transportado por veículo, ao longo de 6 meses Fonte: Primária (2006) Independentemente do peso a ser transportado, o veículo utilizado era uma carreta de 3 eixos, do tipo baú estendida, com capacidade para transportar até 26.000 Kg. Através dos dados mostrados na Figura 2.6 é perceptível que havia grandes desperdícios pela constante subutilização da capacidade máxima do veículo utilizado. O peso médio coletado no perído foi de 10.580,98 Kg, com peso máximo transportado de 19.420,97 Kg, e mínimo de 1.928,08 Kg. 58 2.2 NECESSIDADES E SOLUÇÕES LEVANTADAS Sob o ponto de vista logístico, a situação ideal para transportes é de que haja o aproveitamento total da capacidade do veículo utilizado. Como já foi visto, sabe-se que custos de transporte são conflitantes com custos de estoque, e a análise de otimização do frete foi feita considerando o Custo Total Logístico. Uma opção interessante levantada para minimizar estas perdas com fretes, foi a de utilizar veículos diferentes de acordo com quantidade de peso a ser transportada no dia. Por exemplo, se o material a ser coletado representar 5.000 Kg, poderá ser utilizado um veículo do tipo Toco com capacidade máxima para 6.000 Kg aproximadamente e com um custo inferior ao de veículos com maior capacidade. Quando o peso da material a ser coletado for de 25.000 Kg, seria utilizada uma carreta, cujo custo seria mais adequado para esta quantidade. Sabemos que de acordo com a freqüência e volume fornecido mensalmente, a utilização de um veículo com maior capacidade possível passa a ser mais interessante, pois o aumento do custo de frete por veículo é menor que o aumento das suas respectivas capacidades. Outro ponto importante analisado foi a questão de que a carreta utilizada possuía um custo por viagem muito vantajoso, pois o veículo fazia viagens do tipo Casada. A viagem do tipo Casada compreende em utilizar o mesmo veículo para entregar matéria-prima na empresa, e retornar da mesma com produtos acabados para a mesma região em que houve a coleta de material. Para este tipo de viagem, as transportadoras proporcionam descontos consideráveis, pois garantem a utilização do veículo nos trechos de ida e volta, para uma mesma região. Detalhando o estudando, utilizou-se a Tabela 1.1, referente ao custo unitário 59 da viagem por veículo (sem descontos), alocando o veículo ideal para cada carga transportada, com base nos dados históricos de pesos transportados. Nos dias em quem foram coletados até 6.000 Kg alocou-se o custo de coleta de um veículo Toco, para os dias em que coletou-se até 14.000 Kg alocou-se o custo de um Truck e acima disto, alocou-se os custos de uma carreta. Tabela 1.1 – Preço unitário da viagem por tipo de veículo (dados de custo unitário representativos em Reais (R$) e proporcionais). Capacidade em peso (Kg) Custo unitário por viagem Toco 6.000 1,00 X Truck 14.000 1,13 X Carreta 25.000 1,59 X Tipo de veículo Fonte: Primária (2006) Na comparação dos custos reais no período, onde foram utilizadas carretas, chegou numa economia de aproximadamente 23% em frete, que poderia ter sido obtida. Isto significa que teríamos um potencial muito próximo, entre 20 e 25%, de redução em custos de transporte para os carregamentos futuros. Diminuir a freqüência de entrega foi outra alternativa sugerida. O objetivo desta idéia é o de nivelar os carregamentos numa freqüência menor à praticada, na qual havia ociosidade dos veículos. O impacto da redução de freqüência é o aumento de estoque, pois a cada dia em que não há coleta de materiais, é necessário no mínimo mais um dia de estoque, desconsiderando o estoque de segurança. Isto porque é preciso suprir a produção nos dias em que não haverá matéria-prima chegando na empresa. Neste caso é necessário aplicar o conceito de Custo Total, encontrando o ponto de equilíbrio entre custos de estoque e de frete. 60 Baseado no histórico de pesos coletados (figura 2.6), na capacidade máxima volumétrica do veículo (75m³) e no máximo peso transportado considerando uma carga completa em volume do item mais pesado deste fornecedor (23.500 Kg), estimou-se uma redução em aproximadamente 35% no número de viagens feitas, e também no custo mensal de frete. Baseado nestes números, conclui-se que a freqüência ideal seria de 3 vezes por semana, e não mais diariamente (5 vezes por semana). Esta alteração causaria um aumento em aproximadamente 10% de material em estoque, e o mesmo aumento percentual em seu custo de oportunidade por mês. Na análise do custo logístico total, verifica-se que o ganho na cadeia seria uma redução de 25% da soma dos custos de frete e estoque. E por último, visando atender a filosofia JIT, foi levantada a opção de implementação do Kanban. Conforme já foi visto, o kanban é uma ferramenta do Just in Time, que objetiva puxar a produção, reduzindo estoques, melhorando a qualidade, reduzindo leadtime e otimizando todo o fluxo de produção. De qualquer maneira, o fornecimento conforme demanda não garantiria a máxima ocupação do veículo, pois na programação diária o volume de material necessário poderia variar de maneira a continuarmos com o desperdício em fretes. Sabemos que a opção do kanban traz melhores retornos para toda a cadeia de suprimentos, e para conciliar as vantagens desta ferramenta com a necessidade de otimização de transporte, foi sugerida uma determinada adaptação. A customização foi chamada de Kanban Cubagem, e consiste em fazer a solicitação do kanban, apenas quando o volume consumido for suficiente para completar a carga de um veículo. O funcionamento de atualização do quadro kanban acontece normalmente, ou 61 seja, a partir do momento em que um kanban é retirado do supermercado, o cartão kanban respectivo deste item para o quadro, seguindo a ordem de atualização das faixas, do verde para o vermelho. A diferença é que para cada kanban existe no quadro uma ficha que representa o peso ou o volume deste contenedor, e uma área que representa a capacidade máxima do veículo em peso ou volume, conforme densidade do material a ser transportado. Para cada cartão kanban que entra no quadro é necessário utilizar uma ficha que represente o mesmo em sua restrição de densidade, colocando-a na área que representa a capacidade do veículo. Quando esta área estiver completa com fichas de densidade, significa que o total de cartões kanban existentes no quadro são suficientes para completar um veículo. A Figura 2.7 demonstra a dinâmica de funcionamento do Kanban Cubagem. Para este modelo foi necessário adaptar a fórmula padrão de dimensionamento do kanban, vista no Capítulo 1.8. Nesta adaptação foram consideradas algumas variáveis importantes, existentes no novo processo e não contempladas pelo processo comum de kanban. Supermercado Quadro Kanban - Pull System Capacidade Veículo Cartões Kanban Figura 2.7 – Dinâmica de Funcionamento do Kanban Cubagem Fonte: Primária (2006) 62 O cálculo foi feito de acordo com a seguinte fórmula: D N = ⋅ (Tveic + Tmov + Tinsp ) ⋅ (1 + S ) Q Onde N = Número total de cartões kanban D = Demanda média diária do item (itens/dia) Tveic = Tempo total para completar a carga do veículo, de acordo com a demanda prevista Tmov = Tempo total para movimentação dos kanbans solicitados, desde o fornecedor até o cliente Tinsp = Tempo total necessário para a inspeção de qualidade dos lotes recebidos S = Fator de segurança, em percentual De acordo com o dimensionamento do kanban, projetou-se uma redução em torno de 26% no estoque de matéria-prima, comparado ao atual estoque dimensionado pela política de estoque da empresa. Considerando que o kanban só seria solicitado a partir do momento em que houvesse uma carga completa, e através da projeção futura de demanda, calculou-se a freqüência com que haveria entrega de uma carreta otimizada e atendendo à demanda. Este número ficou em aproximadamente 4 vezes por semana, o que representa uma redução média em 20% nos custos de frete. Na análise do custo total, a redução final em relação ao atual valor foi estimada em aproximadamente 25%. 63 2.3 ANÁLISE DAS SOLUÇÕES Os resultados de todas as análises estão demonstrados na Tabela 1.2: Tabela 1.2 – Resultados das soluções propostas Solução Roteirização de veículo adequado as necessidades diárias Redução de freqüência de coleta (de 5 para 3 vezes semanais) Implementação do kanban cubagem Impacto no Custo de Impacto no Custo de Estoque Frete Impacto no Custo Logístico Total 0% -23% -23% 10% -35% -26% -27% -20% -25% Fonte: Primária (2006) Observa-se que realmente, se buscarmos a otimização através apenas um ponto isolado em toda a cadeia poderemos não apenas deixar de lado outros potencias, como também podemos impactar negativamente em algum outro ponto. Outro fator importante verificado através das soluções apresentadas, é a de que neste caso, os ganhos no Custo Total Logístico são muito aproximados, o que fez com que a análise retornasse aos custos individuais para que se pudesse chegar a uma solução ideal. A análise individual dos resultados de cada uma das 3 opções levantadas foi a seguinte: Roteirização de veículo adequado às necessidades diárias: sem impactos no estoque, e estimativa de redução em 23% no custo de frete, e representou o menor ganho no custo total, redução em 23%. Considerando o volume mensal de matéria-prima adquirida deste fornecedor, conclui-se que a melhor relação custobenefício seria a contínua utilização de um veículo maior, pois o aumento no custo 64 do frete é percentualmente menor que o aumento da capacidade do veículo, já mostrado na Tabela 1.1. A análise detalhada do histórico de pesos transportados indica que grande parte dos veículos com baixa ocupação foi devido ao segundo carregamento do dia enviado para atender à necessidade planejada, ou seja, claramente seria possível manter veículos grandes bem ocupados. Esta solução ficou como 3ª opção de escolha. Redução de freqüência de coleta: apresentou a melhor redução no custo total, em torno de 26%, e considerável redução de custo de frete, 35%. Em contrapartida, o aumento nos custos de estoque em 10% é um impacto negativo, e apesar da melhor redução no custo total, ele deve ser considerado. Como já vimos, os estoques são um mal que deve ser eliminado sempre que possível, e que vão contra as metodologias de Just in time e Lean Manufacturing, que vêm sendo implantadas na empresa. Como a diferença entre as reduções no custo total está muito próxima da ultima solução levantada, optou-se por deixar esta como a 2ª opção de implementação. Implementação do kanban cubagem: mostrou a segunda melhor redução no custo total, com 25% de ganho, mas muito próxima da melhor redução estimada. Apesar da redução em frete ser menor que as opções anteriores, ainda assim é representativa. O impacto no estoque apresentando uma redução de 27% do mesmo foi fator fundamental e decisivo para escolha em 1ª opção desta solução. Muito mais do que o equilíbrio na compensação dos custos conflitantes, esta solução apresentou um considerável custo total com a redução simultânea e também significativa em cada um dos custos da soma (frete e estoque). 65 2.4 IMPLEMENTAÇÃO DA SOLUÇÃO Definida e validada a solução do kanban cubagem, partiu-se para o plano de ação e cronograma de implementação do sistema, mostrado na Figura 2.8. O primeiro passo foi o alinhamento do novo processo com o fornecedor e também com a transportadora. É importante estar claro para todos os parceiros envolvidos, a sistemática deste novo processo, para evitar problemas como falhas na comunicação, não entendimento das solicitações kanban, atrasos nas coletas e entregas dos materiais. Na seqüência foi revisado o dimensionamento do kanban, feito anteriormente para a análise de soluções. A revisão é necessária, pois a demanda é variável e deve ser revista a cada 15 dias aproximadamente, evitando assim que se mantenham estoques acima do necessário previsto para a quinzena, ou então, que o supermercado dimensionado não responda à algum pico da puxada de materiais. Cronograma de Implementação Semana 1 Semana 2 Semana 3 Reunião com fornecedor Reunião com transportador Dimensionamento do kanban Dimensionamento da cubagem Treinamento de kanban para funcionários do almoxarifado Definição local para supermercado e quadro kanban Construção do quadro kanban Desenvolvimento dos cartões kanbans Composição do supermercado Início do sistema puxado Acompanhamento e Ações corretivas Resultados Figura 2.8 – Cronograma de implementação da solução. Fonte: Primária (2006) Semana 4 Semana 5 Semana 6 Semana 7 Semana 8 66 Outro dimensionamento executado na implementação, foi o da cubagem. Este dimensionamento se refere ao percentual de volume ocupado pelos kanbans no espaço físico disponível pelo veículo utilizado. Para cada tipo de embalagem utilizada para os materiais do fornecedor em questão, foi desenvolvida uma ficha com espessura diretamente proporcional ao volume equivalente da respectiva embalagem. Para o caso estudado, os materiais são acondicionados em três tipos diferentes de embalagens, sendo utilizadas 3 tipos de fichas com espessuras diferentes. A Figura 2.9, mostra um dos modelos de fichas utilizadas. Figura 2.9 – Ficha proporcional ao volume das embalagens. Fonte: Primária (2006) A escolha do dimensionamento do veículo ser feito por volume e não peso foi feita a partir da análise dos tipos de materiais transportados. A densidade dos itens fornecidos era variável, sendo que alguns itens eram representativos em peso e outros em volume. Após simulações, constatou-se que se houvesse necessidade de carregamento apenas do item com maior densidade, o veículo teria 100% de ocupação volumétrica, mas aproximadamente 90% da capacidade máxima de transporte em peso. A utilização destas fichas se dá no momento em que o kanban é solicitado pela produção, e o seu cartão é colocado no quadro kanban. Assim que o cartão vai para o quadro, uma ficha correspondente a este kanban é colocada em um pino, até alcançar o nível máximo de ocupação correspondente ao volume disponível no 67 veículo utilizado. A Figura 3.0 detalha o quadro kanban cubagem. Nível de Carga Completa . Fichas Figura 3.0 – Quadro kanban cubagem Fonte: Primária (2006) Os responsáveis pelo controle do supermercado e pelo funcionamento e manutenção do quadro e dos cartões kanban, são as pessoas da área de almoxarifado. Por isso é fundamental o treinamento dos funcionários que estarão diretamente envolvidos com a operação. As pessoas são a base para a conquista de bons resultados, elas precisam ser envolvidas e ter o conhecimento de todos os novos fluxos e operações que estão sendo implementadas. Foi repassado para estes funcionários durante uma semana, todos os conceitos de produção puxada, assim como os detalhes da ferramenta kanban e do funcionamento desta pelo método de cubagem. Contando ainda com o apoio do almoxarifado, foi definido o local adequado para alocação do estoque, ou seja, o supermercado. Paralelamente, providenciou-se o quadro e os cartões kanban, com as devidas pessoas responsáveis por este tipo de recurso. 68 A etapa de composição de supermercado refere-se à adequação do estoque atual para o dimensionado pelo kanban. Isto significa que, em relação ao estoque dimensionado, todo o excesso foi consumido e o faltante foi requisitado para o fornecedor. Com isto, conseguimos ter um estoque controlado, menor que anteriormente, e que atenderia a demanda. No mesmo período, o fornecedor providenciou a composição do supermercado que ele deveria manter para atender as solicitações kanban da empresa. Estas etapas eram pré-requisitos para o início do sistema puxado. Com elas finalizadas, deu-se inicio então ao funcionamento do kanban. A partir do início do kanban cubagem, houve o acompanhamento detalhado durante um mês. Desta maneira, caso houvesse alguma anomalia seria possível tomar as devidas providências o mais rápido possível, visando estabilizar o novo processo. Poucos problemas críticos surgiram neste período, sendo que todos eles eram apenas referentes ao fluxo de informações, que foram identificados e resolvidos rapidamente. Concluída a etapa de acompanhamento e ações corretivas, ao termino do primeiro mês de funcionamento do novo processo, este já apresentava estabilidade de operação. A última etapa foi a verificação dos dados do mês e os resultados obtidos. 69 2.5 ANÁLISE DOS RESULTADOS A base de pesos transportados no mês foi novamente fornecida pelo transportador e analisada. A Figura 3.1 mostra a situação dos carregamentos no primeiro mês de funcionamento da solução implementada. Kg Peso Transportado por Veículo 25.000 22.500 20.000 17.500 15.000 12.500 10.000 7.500 5.000 2.500 - Número de Viagens Figura 3.1 – Peso transportado por veículo no primeiro mês do kanban cubagem. Fonte: Primária (2006) Nota-se que as variações de pesos transportados ainda são freqüentes, o que pode ser constatado através da análise do desvio padrão. Comparado ao desvio padrão histórico de 4.282,98 kg (a partir dos dados da Figura 2.6) o primeiro mês apresentou um desvio padrão de 4.239,74 kg. Mas isto deve-se ao tipo de material deste fornecedor, cuja densidade varia entre peso e volume, dependendo do item. Porém, a média de pesos transportados aumentou em 19%, representando uma melhoria no coeficiente de variação em 16%. Em uma visão mais detalhada verifica-se que houve importantes melhoras na utilização da capacidade do veículo. A Tabela 1.3 resume esta otimização de carregamento. 70 Tabela 1.3 – Otimização de cargas após implementação da solução. Peso Transportado Antes Depois Otimização Média 10.580,98 12.538,56 19% Máximo 19.420,97 22.790,36 17% Mínimo 1.928,08 4.628,11 140% Desvio Padrão 4.282,98 4.239,74 -1% Coeficiente de Variação 40% 34% -16% Fonte: Primária (2006) Constatadas as melhorias operacionais, passamos a verificação dos resultados financeiros. Na análise de estoques, verificou-se uma redução em 13% comparada ao mês anterior. Este número é praticamente a metade dos 27% previstos nos cálculos apresentados, cerca de 48% a menos. Em análise aprofundada, descobriu-se que o objetivo proposto não foi atingido devido ao mix de produção efetuado no mês da implementação. O volume de materiais sem perfil kanban foi maior do que o previsto, gerando uma necessidade de aumento do supermercado destes itens. Com isto o estoque médio do mês foi maior do que o planejado, mas ainda assim houve uma redução significativa de matéria-prima, resultado este que demonstra a eficácia do sistema kanban. Em contrapartida, o resultado em redução de custo frete foi maior do que o previsto, apresentando uma redução real de 31%. Este número representa um ganho 55% maior do que os 20% previstos nos cálculos de análises de soluções. Isto significa que a otimização física das cargas foi maior do que a esperada, resultando positivamente nos ganhos financeiros previstos. Apesar das reduções de custos de estoque e frete, o custo total não seria exatamente conforme esperado, pois houve variações negativas e positivas 71 conforme já comentado. O custo total logístico do mês foi então calculado, e comparado ao histórico apresentou 28% de redução, consideráveis 12% a mais do que os 25% previstos. A Tabela 1.4 mostra o comparativo entre resultados obtidos e previstos: Tabela 1.4 – Resultados obtidos x previstos. Kanban Cubagem Impacto no Custo de Impacto no Custo de Estoque Frete Impacto no Custo Logístico Total Resultados Previstos -27% -20% -25% Resultados Obtidos -13% -31% -28% Diferença -48% 55% 12% Fonte: Primária (2006) Nota-se que as variações percentuais entre estoque e frete são muito próximas, mas que isto não anula a variação do custo total logístico. O ganho final maior do que o previsto deixa claro que, neste caso, o frete tem peso muito maior em relação ao estoque. Mas como já é de nosso conhecimento, isto não é regra, e por isso a importância da análise do custo total. A análise feita em uma visão sistêmica da cadeia de suprimentos permitiu a eliminação de desperdícios em diferentes pontos do fluxo. Os estudos baseados no custo total permitem o equilíbrio entre os custos envolvidos na cadeia, evitando assim falsos ganhos para a empresa, quando a análise é feita em pontos isolados. Os resultados obtidos foram excelentes, pois houve melhoras no fluxo de abastecimento com a implementação do kanban, otimização de ocupação de veículos e reduções de custo de estoque e frete, e consequentemente ganhos reais financeiros na cadeia de suprimentos da empresa. 72 CONSIDERAÇÕES FINAIS A incessante busca pela preferência do consumidor tem feito com que as empresas entrem em uma corrida infindável. Cada vez mais exigentes, os consumidores têm aumentado a velocidade desta corrida. Preocupadas em estarem a frente, objetivando a preferência e satisfação do cliente, as companhias precisam inovar. As estratégias para ganhar mercado precisam ir além das tradicionais baseadas no marketing, por exemplo. As empresas devem deixar de ver seus setores e a si próprias isoladamente, é necessário adotar uma visão sistêmica de toda a cadeia. Na gestão da cadeia de suprimentos, as ações devem ser feitas para agregar valor ao produto, e eliminação de desperdícios é a chave para isto. Para atingir esta meta, muitas empresas têm se espelhado na indústria japonesa, e adotado filosofias que são reconhecidas globalmente, como o TQC, 5S e Lean Manufacturing, por exemplo. Neste novo caminho, diversas companhias conseguiram conquistar espaço no mercado e dar sustentabilidade a esta situação. O presente trabalho teve por objetivo eliminar desperdícios na cadeia de suprimentos através da análise do custo total logístico. Para atingir o objetivo proposto foi elaborado um estudo de caso. Com base nos estudos realizados, foram levantadas, analisadas e testadas hipóteses para eliminação dos desperdícios encontrados em determinado fluxo de 73 abastecimento da empresa. A identificação de ociosidade no transporte efetuado para abastecimento da empresa, e o alto custo de estocagem e frete deste fluxo levaram a um estudo detalhado do mesmo. Três hipóteses para otimizar as operações e reduzir custos foram levantadas: • Roteirização de veículo adequado às necessidades diárias; • Redução de freqüência de coleta; • Kanban cubagem. Após calcular os ganhos financeiros e identificar as necessidades operacionais para cada proposta, chegou-se a conclusão de que a melhor decisão seria a implementação do kanban cubagem por apresentar maior facilidade de implementação, atendimento da filosofia Lean e reduções substanciais de custos tanto em estoque como em frete. Escolhida a solução, partiu-se para a implementação da mesma, que seguiu um cronograma detalhado. Nesta fase foi necessária a interface com fornecedor, transportadora, e ainda a interação entre setores da empresa. Houve o esclarecimento detalhado do novo processo para todos os envolvidos, e treinamento específico para todos os funcionários que iriam operacionalizar o sistema. Ao final de um mês de operação com o kanban cubagem, fez-se novamente o levantamento de dados e então a análise dos resultados. Devido às variações na demanda de produção, alguns itens necessitaram de aumento no supermercado, o que impactou negativamente nas reduções dos custos de estoque. Apesar do ponto negativo, ainda assim houve redução considerável dos estoques. As reduções em frete superaram os números previstos, e isto ficou evidenciado com os números de melhoria de ocupação dos veículos. Os resultados finais foram excelentes, pois ganhos operacionais e financeiros 74 foram conquistados já no primeiro mês após a implementação da nova solução. O objetivo de eliminar desperdícios na cadeia de suprimentos através da análise do custo total logístico foi atingido com sucesso. Com isto, concluímos que o estudo foi em todo seu contexto proveitoso, provendo um fundamental conhecimento do gerenciamento da cadeia de suprimentos, aprofundado nas gestões de transporte e estoques. Os conceitos discutidos puderam ser constatados com sucesso através do estudo de caso desenvolvido em uma multinacional do ramo de eletrodomésticos. Os conhecimentos adquiridos com o estudo podem ser considerados como substanciais para o desenvolvimento acadêmico e profissional. RECOMENDAÇÕES Para o desenvolvimento de estudos futuros, objetivando a otimização de recursos e redução financeira, é fundamental o envolvimento de todas as partes que operam no processo. Um perfeito alinhamento entre todos os participantes ativos do sistema evitará decisões infundadas e precipitadas, e delineará o caminho para o sucesso do projeto. Considerando o enfoque do presente trabalho, para o desenvolvimento de estudos futuros recomenda-se ainda: • Ter como base para as decisões o custo total da cadeia; • Considerar todos os custos existentes e mensuráveis em uma análise de 75 custo total; • Calcular e testar hipóteses até encontrar o trade-off do custo total; • Estar ciente de que em determinadas situações alguns custos terão que ser penalizados para que haja o ganho máximo ao final de toda a cadeia; • Considerar os impactos operacionais em conjunto com os financeiros nas análises das soluções levantadas; • Garantir que o novo sistema escolhido será sustentável; • Acompanhar o andamento do projeto após sua implementação, identificar falhas ou possibilidades de falhas, e atuar sobre elas para correção ou eliminação; • Garantir, após a implementação e ações corretivas, que o novo sistema está estabilizado e padronizado. A eliminação de desperdícios pode ser identificada em qualquer área, setor ou processo, e a análise do custo total é perfeitamente aplicável em qualquer situação de qualquer natureza, quando existirem dois ou mais custos envolvidos. 76 REFERÊNCIAS BALLOU, Ronald H. Logística empresarial: transportes, administração de materiais, distribuição física. 1. ed. São Paulo: Atlas, 1993. CAMPOS, VICENTE F. Gerência da qualidade total: estratégia para aumentar a competitividade da empresa brasileira. Belo Horizonte: Fundação Christiano Ottoni, 1989. CHING, Hong Y. Gestão de estoques na cadeia de logística integrada – supply chain. São Paulo: Atlas, 1999. CORRÊA, Henrique L.; GIANESI, Irineu G. N., CAON, Mauro. Planejamento, programação e controle da produção. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2001. CORRÊA, Henrique L.; GIANESI, Irineu G. N. Just in time, MRP II e OPT – um enfoque estratégico. 2. ed. São Paulo: Atlas, 1993. DELLARETTI FILHO, Osmário; DRUMOND, Fátima B. Itens de controle e avaliação de processos. Belo Horizonte: Fundação Christiano Ottoni, 1994. MARTINS, Petrônio G.; LAUGENI, Fernando. Administração da Produção. São Paulo: Saraiva, 2001. MOREIRA, Daniel A. Administração da produção e operações. São Paulo: Pioneira, 1993. SHINGO, Shigeo. Sistemas de produção com estoque zero: o sistema Shingo para melhorias contínuas. Porto Alegre: Bookman, 1996. 77 SLACK, Nigel; CHAMBERS, Stuart; JOHNSTON, Robert. Administração da produção. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2002. TUBINO, Dalvio F. Manual de planejamento e controle da produção. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2000.