ABSTRACT: The study proposes that the projection of the double object construction
is associated with the asPectual interpretation of the predicate and involves a null
morpheme which is in complementary distribution with morphemes marked as
accusative and dative.
Algumas variedades do portugues do Brasil, notadamente 0 dialeto mineiro,
apresentam urn tipo de C(onstru~o) de O(bjeto) D(uplo), 0 qual alterna com a
constnl~O com a P(reposi~o) explicita (cf. Scher (1996); Salles (1997); Gomes
(1998». Confira-se (1) e (2), respectivamente:
(I)
Maria deu 0 Jooo 0 livro
(2) Maria deu 0 livro aolpro (=para+o) Jooo
Mary gave John the book
Mary gave the book to John
Os dados do portugues do Brasil tornam-se mais interessantes na medida em que
parecem representar urn afastamento em relac;aoas linguas do grupo rom3nico, no qual
COD MO e encontrada - d. (4), do frances:
Urn ponto relevante e que a altemancia entre COD e a construc;ao com P
explicita MO e uma propriedade geral dos predicados bitransitivos. Conforme
demonstrado em Green (1974), COD esta restrita em ingles aos casos em que se
depreende a interpretac;aode posse (d. (5»:
John brought Mary flowers
1.
trouxe Maria flores
b.
*John brought the table flowers
trouxe a mesa flores
1.
Tais fatos suscitam as seguintes questOes : (i) por que a proj~o de COD esta restrita
aos casos em que se depreende a interpreta930 de posse?; e (ii) por que as linguas
variam com rela930 'a possibilidade de projetarem COD?
Assumindo a correla930 entre a interpreta930 aspectual do predicado e 0
licenciamento de argumentos (cf. Roberts (1987), Tenny (1994», pretendo investigar a
hip6tese de que a proj~o de COD esta associada a interpreta930 aspectual do
predicado. Tal hip6tese e refor~
pel0 fato de que a alternancia dativa nao e
encontrada em constru~s
nominais (cf. (6», nas quais nao Wi interpreta930
aspectual:
(6)
*the gift (of) Johnlhim of the book
*a entrega (d)o Joao/ele do livro
Outra hip6tese a ser investigada e a de que existe uma correla930 entre a ocorrencia de
COD e a sintaxe dos pronomes objetos.
o artigo esta organizado como a seguir: em (1), discutirei alguns estudos
relativos a alternancia dativa; em (2), discutirei primeiramente 0 problema da proj~o
sintitica dos argumentos, em segui(fa. discutirei 0 problema da varia930 com respeito a
ocorrencia de COD nas linguas dos grupos rom3nico e germ3nico; em (3), apresentarei
a conclusao.
Muitas arnilises tern sido propostas para dar conta dos fatos acima. No campo
da gramatica gerativa, destacam-se os estudos de Kayne (1984), Larson (1988), Hale &
Keyser (1993), entre outros.
Em Larson (1988), por exemplo, adota-se a
perspectiva derivacional: prop5e-se que COD deriva da constru930 com P explicita,
mediante urn processo abstrato de apassiviza930 no dominio de SV comparavel ao que
ocorre no dominio da sentenca. Assumindo que V e 0 objeto indireto formam urn
constituinte que seleciona 0 objeto direto na posi930 de especificador, Larson prop5e
que tal proj~o ocorre encaixada na proje93o de uma nuc1eo verbal nao realizado
foneticamente, 0 verbo /eve, para 0 qual 0 V mais baixo e movido, cf. (7):
Na deriva930 de DOC, 0 objeto direto e demovido de sua posi930 original sendo
licenciado em adjun930 ao SV mais baixo, enquanto 0 objeto indireto e movido para a
posicao do objeto direto ja que as propriedades de marca930 de Caso de P sao
absorvidasD.
Urn ponto que permanece obscuro na arnilise de Larson e 0 que determina 0
processo de apassiva930 no dominio de Sv. Alem disso, nao fica claro como 0 objeto
direto demovido·da"posic;ao de especificador do SV mais baixo e licenciado na nova
posiCao, considerando-se que as propriedades de marcac;ao de Caso tanto do verbo
quanto da preposic;aoforam absorvidas.
A ideia de projetar a construc;ao bitransitiva em uma configurac;ao como em
(7) e adotada em Hale e Keyser (1993), no contexto de uma teoria da estrutura
argumental em que os papeis tenuiticos sao analisados como propriedades de
configuracoes sinUiticas projetadas por nucleos lexicais. Nesse sentido, as construcoes
bitransitivas (locativas ou possessivas) sao analisadas como projecoes dos nucleos
lexicais P e V, COD envolvendo enmo uma P nula.
o problema da aruilise de Hale e Keyser (1993) e que, assumindo-se que a
configurac;aoem (7) corresponde a uma interpreta~o especifica (ja que corresponde a
papeis tematicos especificos), nao M como captar a correlac;ao entre COD e a
interpretac;aode posse.
Dos estudos discutidos, adotarei a estrutura proposta em Larson (1988), hem
como a proposta de Hale e Keyser (1993), segundo a qual as construcoes bitransitivas
sao projecoes de P e V, COD envolvendo uma P nula.
As investigacoes sobre 0 aspecto verbal remontam a granuitica grega.
Arist6teles propOsuma taxonomia verbal baseada na noc;aode delimita~o do evento,
uma propriedade temporal interna do evento descrito pel0 verbo: assim, predicados
podem ter urn ponto final definido, sao os chamados predicados telicos, ou nao, os
chamados atelicos, tambem referidos como predicados terminativos e durativos,
respectivamente.
Entretanto, a distinc;ao entre terminativo e durativo nao e uma propriedade
exclusiva do verbo. Conforme ilustrado em (8), a distinc;ao se define
composicionalmente pela interac;ao das propriedades verbais e nominais do predicado
(cf. Dowty (1979); Verkuil (1993); Schmitt (1996»: se 0 complemento e quantificado,
o predicado e interpretado como terminativo (cf. 8a); se 0 complemento nao e
quantificado, 0 predicado e interpretado como durativo (cf. 8b):
Leandro comeu a manga em 5 minutos
Leandro comeu manga *em 5 minutos
De acordo com Tenny (1994), os fatos em (8) podem ser considerados em termos da
noc;aode medir 0 evento: em (8a), mas nao em (8b), 0 argumento a manga funciona
como uma escala na qual 0 evento progride, permitindo que ele seja medido. Com
relac;aoas construcoes bitransitivas como em (9), Tenny propQeque alem do padrao de
caIculo aspectual acima, existe urn outro padrao, em que dois argumentos sao
envolvidos:
Nesse caso, 0 primeiro argumento constitui a escala na qual 0 evento progride, e 0
segundo determina 0 ponto final da escala. Os argumentos nos referidos padrOes
ocupam as posicOes sinUiticas de objeto direto e indireto.
MiDha proposta e que a altemancia
dativa admite dois padrOes de
interpreta~o aspectual: (i) na constru~o com P explicita, tem-se 0 padI'ao em que dois
argumentos sao envolvidos: 0 argumento interpretado como possuido prove a escala e 0
possuidor, projetado no PP, determina 0 termino; (ii) em COD, tem-se 0 padrao em que
urn argumento apenas e envolvido: 0 argumento interpretado como possuidor prove a
escala e determina 0 termino do evento. 0 padrao em (ii) e por sua vez incompativel
com a interpreta~o locativa: considerando que na interpreta~o locativa, 0 argumento
meta ou alvo e interpretado como urn ponto no espa~, esse argumento nao pode ser
interpretado como provendo a escala conforme exigido em (ii), dai a impossibilidade
de se ter COD com construcOes locativas.
Assumindo-se
os padrOes (i) e (ii), pode-se explicar a diferenca de
interpr~o
em (10), do ingles segundo a qual em (lOa), mas nao em (lOb), e possivel
inferir que as criancas aprenderam (cf. Green (1974) 0 :
(l0)
(ll)
a Mary
taught French to the children
Mary taught the children French
A interpreta~o associada a (lOb) sO e possivel em termos do padrao em (ii), em que 0
argumento relevante (the children) prove a escala e 0 termino do eventoD.
Resta discutir a quesmo da varia~o com rela~o
ocorrencia de COD nos
grupos germ3nico e romamco. A hip6tese que you investigar e a de que existe uma
correla~o entre a ocorrencia de COD e a sintaxe dos pronomes objeto. Sabe-se que os
pronomes objeto no portugues do Brasil, notadamente no dialeto mineiro, apresentam
caraeteristicas sinUiticas que 0 distinguem do portugues europeu. Entre os diversos
fatos observados, verifica-se a ocorrencia de construc;Oes do tipo Maria lhe
viulencontrou ao lado de Maria the deu 0 livro indicando que a distin~o entre 0
acusativo e 0 dativo nao e marcada de forma inequivoca no sistema pronominal (cf.
Salles (l997) e referencias ali citadas).
MiDha proposta e que existe uma correlacao entre a ocorrencia de P nula
numa dada lingua e a realiza~o morfo16gica da distin~o entre acusativo e dativo no
sistema pronominal. Essa hip6tese se confirma entre as linguas dos grupos romamco e
germ3nico, conforme ilustrado no quadro a seguir:
a
+/-acusat./dat.
19 romamcas
alemao
islandes
Ingles
holandes
19.escandinavas
dialeto mineiro
+
+
+
Vale ressaltar que essa abordagem revela-se em consonancia com os pressupostos
minimalistas, segundo os quais a varia~o linguistica esta associada a propriedades
morfologicas das linguas (cf. Chomsky (1993), (1995».
o estudo discutiu as condi~i5es que determinam a proj~o da altemancia
dativa, bem como 0 problema da vari~o na ocorrencia de DOC entre as linguas dos
grupos romanico e germanico, considerando em particular 0 caso do portugues do
Brasil, ilustrado em (1) e (2). Foi demonstrado que a proj~o de DOC corresponde a
urn padnio de interpreta~ao aspectua1 incompativel com a interpreta~o locativa, na
medida em que impi5eque 0 argumento interpretado como meta seja capaz de medir 0
evento, provendo a escala (0 que nao e possivel se 0 argumento e interpretado como urn
ponto no espa~). Quanto a vari~o na ocorrencia de DOC, foi proposto que 0
morfema nulo P associado a DOC esta em distribui~o complementar com morfemas
marcados para a distin~o morfo16gica entre 0 caso dativo e acusativo. Uma questao
relevante e por que a ocorrencia do morfema nulo P esta associada a distin~o
morfologica entre 0 caso dativo e acusativo. Deixo essa questao em aberto para
investiga~ao futura
o Uma vantagem da configura~o em (8) e que os objetos intemos ocorrem em
posi~ assimetricas na estrutura sintatica, 0 que permite explicar 0 contraste em (i) e
(ii) do ingles, em que a liga~ entre 0 antecedente e 0 anMorico requer que 0 primeiro
esteja numa posi~o assimetrica em rela~o ao Ultimo (cf. Barss & Lasnik (1986»:
(i)
a.
John showed Mary to herself
1. mostrou M. a ela propria
b.
*John showed herself to Mary
1.
mostrou ela propria a M.
(ii)
a.
John showed Mary herself
b.
*John showed herself Mary
o A diferen~ de interpreta~o esta associada a propriedades lexicais do verbo teach
que nao sao encontradas em verbos como give (dai nao haver diferen~ de
interpreta~ao com give). Tais propriedades tem uma contraparte sintatica, a saber 0
fato de que 0 verbo teach OCOrrecomo monotransitivo com qualquer urn dos
complementos, conforme ilustrado em (i):
(i)
a.
Mary taught French
b.
Mary taught the children
o A mesma analise se aplica aos casos da chamada altemancia locativa, ilustrada em
(i) e (ii):
Joao carregou areia no caminhao por duas horas/?*em duas horas
Joao carregou 0 caminhao corn areia *?por duas horas/em duas horas
A diferenca de interpretacao e constatada por meio do teste corn a eXl'ressao adverbial,
o qual demonstra que a interpretacao terrninativa e rnais natural corn (ii), do que corn
(i). Para urna discussao da contraparte inglesa desses casos, veja Jackendoff (1990).
RESUMO: 0 estudo discute a ocorrencia de constru90es de objeto duplo no portugues
do Brasil. PropOe-se que a proje9iio dessas constru90es esta associada a
interpreta9iio aspectual do predicado e envolve um morfema nulo que se encontra em
distribui9iio complementar com morfemas marcados como dativo e acusativo
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Dissertacao de doutorado, University of Wales.
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ABSTRACT: The study proposes that the projection of the