PREFEITURA MUNICIPAL DE CABO FRIO Região dos Lagos – Estado do Rio de Janeiro Secretaria Municipal de Educação Cabo Frio 2006 2 Prefeito Dr. Marcos da Rocha Mendes Secretário Prof. Paulo Machado Massa Subsecretária Profa. Laura Porto Guimarães Barreto Departamento Técnico-Pedagógico – DETEP Profa. Tania Maria Gomes de Ávila Chefe da Divisão de Supervisão Escolar Profa. Neide Estelita Pereira Chefe do Serviço de 1a a 4a série Profa. Tereza Cristina Sherman de Souza 3 Elaboração 1 – Aline Alves Cardoso 2 - Clotilde Pinho Fiuza 3 – Gilda de Oliveira Ramos 4 – Iara Coutinho Gomes 5 – Ivanete Garcia Gomes 6 – Jamel Junia Ribeiro 7 – Luciana Andrade Guimarães 8 – Marco Antonio Machado Monteiro 9 – Márcia Tardelli Vieira 10 – Maria Amália dos Santos Silveira 11 – Maria de Fátima Silva 12 – Roseli Vidal de Oliveira 13 – Simone Pimentel Sherman 14 – Tereza Cristina Sherman de Souza Colaboradores Edna Henrique Lucena Fábio André Cardoso Coelho Gilda Maria Pereira de Souza Neide Estelita Pereira Orminda Mira Pina de Souza Patrícia de Souza Riscado Werneck Suely Magda Garcia Fernandez Tania Maria Gomes de Ávila 4 Mensagem do Secretário Municipal de Educação No exercício do magistério, são inúmeras as competências necessárias ao educador, todas elas de importância capital na busca do aprimoramento do ser humano em todas as suas potencialidades. Em cada etapa da aprendizagem, aprofundam-se conhecimentos e valores que irão formar cidadãos conscientes e capazes de transformar as sociedades. A você, professor, que ao alfabetizar nossas crianças, descortina-lhes o mundo, construindo o alicerce de todos os demais conhecimentos, nosso respeito e admiração. Paulo Machado Massa Secretário Municipal de Educação 5 APRESENTAÇÃO Sabemos que aprender a ler e a escrever não é um processo natural. Alfabetizar-se não é um simples resultado do desenvolvimento biopsíquico do indivíduo, tampouco da mera sucessão de frases geradoras da competência da leitura e da escrita. O domínio do código escrito pelas pessoas foi fruto de intervenções, fosse dos tutores da nobreza, dos colégios jesuítas ou das escolas na sociedade moderna. É primordial adotar processos sistematizados e ordenados, como pré-requisitos para qualquer programa de alfabetização eficiente, a fim de garantir que todas as crianças sejam inseridas no mundo da leitura e da escrita. Os gestores da educação, especialmente os municipais, precisam estar conscientes da prioridade da alfabetização e implementar ações efetivas em suas redes de ensino, envolvendo professores, diretores, alunos e pais de alunos. A garantia de programas eficientes de alfabetização é fundamental. Uma alfabetização de qualidade irá se refletir em toda a educação básica, influenciando na melhoria dos índices obtidos pelos alunos do Ensino Fundamental e Médio. Remetendo-se à realidade local, o Serviço de 1ª a 4ª série, Divisão de Supervisão Escolar, do Departamento Técnico Pedagógico da Secretaria Municipal de Educação, realizou uma pesquisa junto aos docentes das séries iniciais (1ª série), em que foi possível conhecer o seu perfil, a sua formação e também as suas práticas educacionais. A partir dos resultados obtidos, chegou-se à conclusão de que era necessário repensar sobre a proposta metodológica utilizada na Rede Municipal de Ensino. Tornou-se, então, imprescindível, a elaboração de um REFERENCIAL DE ALFABETIZAÇÃO para nortear a prática pedagógica dos professores das séries iniciais. Sugeriu-se, então, a formação de uma comissão, que foi composta por representantes dos diversos departamentos da SEME, por professores regentes em classes de alfabetização e por Supervisores Escolares que atuam em escolas da Rede Municipal de Ensino. Essa comissão teve como objetivo principal, reunir-se, periodicamente, visando à elaboração do referencial, denominado REDEALFA. O documento aqui apresentado tem como meta principal o redirecionamento do processo de ensino-aprendizagem nas primeiras séries (níveis 1 e 2), fornecendo apoio à prática pedagógica, servindo como suporte para auxiliar os docentes na avaliação, no planejamento e no uso de uma metodologia adequada. 6 O Referencial dividi-se em duas partes. A primeira tem por objetivos apresentar ao professor um breve histórico sobre o processo de educação no Brasil e a compreensão de algumas concepções teóricas envolvidas nesse processo. A Segunda parte desse documento destina-se, especificamente, à proposta metodológica adotada, ressaltando os princípios norteadores do REDEALFA, a questão do conhecimento, dos conteúdos, objetivos e da metodologia. Destaca-se, também, orientações para a elaboração do planejamento e avaliação escolar. Os docentes atuarão mediante metas bem definidas, fundamentadas numa proposta metodológica analítica, numa perspectiva sociointeracionista. Vale ressaltar que esse documento não se fecha nas propostas apresentadas. É necessário que no decorrer da sua efetivação, sejam encaminhadas para a Secretaria Municipal de Educação, sugestões, experiências, resultados alcançados, críticas e dúvidas, que servirão de estímulos para um constante repensar de todos nós, diretamente envolvidos no processo de implementação do REFERENCIAL. Espera-se, assim como todos os envolvidos na elaboração desse documento que acreditam na viabilidade do mesmo, também os professores alfabetizadores e as escolas, que tanto lutam pela qualidade da educação em nosso município, também acreditem. A implementação desse referencial em nosso Sistema de Ensino, representa, de fato, um grande marco político na história da Educação do Município de Cabo Frio. 7 SUMÁRIO PARTE I O que todo professor alfabetizador precisa saber 1. Breve histórico do processo de educação no Brasil 10 2. Alfabetização: Leitura e Escrita 13 2.1 - Ensinar e aprender na sala de aula 14 2.2 - Teorias da aprendizagem 14 2.2.1 2.2.2 2.2.3 2.2.4 3. Inatismo Empirismo Interacionismo Sociointeracionismo 15 15 16 17 2.3 - Principais idéias difundidas por alguns teóricos 2.3.1 Cèlestin Freinet 2.3.2 Henri Wallon 2.3.3 Jean Piaget 2.3.4 Emília Ferreiro 2.3.5 Howard Gardner 2.3.6 Paulo Freire 2.3.7 Lev Semenovich Vygotsky 18 18 19 21 22 25 27 28 2.4 - Síntese das Teorias 35 2.5 - A linguagem 37 Classificação dos métodos de ensino da leitura e da escrita 38 3.1 - Método Sintético 38 3.1.1 3.1.2 3.1.3 3.1.4 Processo Alfabético Processo Fônico Processo Silábico Comentários sobre os processos do método sintético 3.2 - Método Analítico 3.2.1 3.2.2 3.2.3 3.2.4 Processo de Palavração Processo de Sentenciação Processo de Conto Comentários sobre os processos do método analítico 4. O Planejamento 39 39 40 40 41 42 43 44 44 46 4.1 – Planejamento de ensino 47 4.1.1 – Tipos de planos 47 8 PARTE II Referencial de Alfabetização para as escolas da Rede Municipal de Ensino de Cabo Frio 1. Proposta metodológica analítica numa perspectiva sociointeracionista 1.1 - Princípios norteadores do REDEALFA 1.2 - A questão do conhecimento 1.3 - A questão dos conteúdos, dos objetivos e da metodologia 2. Objetivos para as 1as séries 2.1 - Objetivos gerais 2.2 - Objetivos específicos de Língua Portuguesa 2.3 - Conteúdos básicos de Língua Portuguesa 2.4 - Objetivos específicos de Matemática 2.5 - Conteúdos básicos de Matemática 2.6 - Objetivos específicos de Ciências 2.7 - Conteúdos básicos de Ciências 2.8 - Objetivos específicos de História 2.9 - Conteúdos básicos de História 2.10 - Objetivos específicos de Geografia 2.11 - Conteúdos básicos de Geografia 2.12 – Objetivos específicos de Educação Física 2.13 – Conteúdos básicos de Educação Física 2.14 – Objetivos específicos de Artes 2.15 – Conteúdos básicos de Artes 3. O Planejamento 3.1– Planejamento semanal 3.1.1 3.1.2 3.1.3 3.1.4 3.1.5 3.1.6 3.1.7 3.1.8 3.1.9 3.1.10 3.1.11 3.1.12 Educação lúdica Trabalhe em equipe Interdiciplinariedade A prática de ler textos diversos Produção de texto tendo o professor como “escriba” Escrita espontânea e a questão do erro Reescritura de textos Atividades para casa Atividades artísticas Análise estrutural de textos, palavras, sílabas Recursos materiais Ambiente alfabetizador 4. Avaliação na alfabetização 4.1 Instrumentos de Avaliação do Aluno 50 50 52 53 55 55 56 57 58 58 60 60 61 61 62 62 63 64 64 65 66 66 67 68 68 69 70 70 73 73 74 75 77 78 80 81 9 5. Perfil do professor alfabetizador 82 5.1 - Competências 82 5.1.1 5.1.2 5.1.3 83 83 84 Organizar e dirigir situações de aprendizagem Observar e avaliar alunos: trabalhar a partir dos erros Construir e planejar dispositivos e seqüências didáticas 5.2 - Critérios para seleção do professor alfabetizador 85 5.3 - Formação continuada 86 5.4 - Valorização 87 5.4.1 5.4.2 Valorização do professor alfabetizador e sua formação Definição das propostas de valorização 6. O papel do diretor 87 88 90 6.1 - O Diretor Escolar e a busca por uma Alfabetização de Qualidade 90 6.2 - Procedimentos a serem adotados pelo Diretor no REDEALFA 90 O papel da equipe técnico-pedagógica 91 8. A integração da família ao trabalho escolar 92 9. Quantitativo de alunos nas classes de alfabetização 93 10. Critérios para organização e distribuição das turmas 94 7. 10 PARTE I O que todo alfabetizador precisa saber 1 – BREVE HISTÓRICO DO PROCESSO DE EDUCAÇÃO NO BRASIL Historicamente, o processo de educação escolar no Brasil está marcado pela exclusão das camadas populares da sociedade. Uma rápida retrospectiva histórica mostra a língua escrita nos séculos XVI, XVII, XVIII e parte do século XIX como monopólio exclusivo dos jesuítas e da aristocracia, via de regra masculina. Assim, a distribuição do saber escrito no Brasil é marcada, historicamente, pela exclusão das camadas populares do processo escolar. A exclusão da escola atinge a todos que a ela não têm acesso pela falta de vagas gerada, principalmente, pela inexistência de políticas públicas adequadas às demandas sociais no Ensino Fundamental. Tal fato está ligado à baixa produtividade nas tarefas de ensino-aprendizagem que se concretizam nos mecanismos de seletividade intra-escolar: reprovação, repetência e evasão escolar. A saída da escola, já na primeira série do Ensino Fundamental, é o momento mais forte da seletividade escolar. A expansão quantitativa do acesso à escola, principalmente a partir dos anos 40, não garante por si só a permanência na mesma, porque o processo seletivo das classes populares está ligado ao fato de o currículo escolar refletir os interesses, as experiências e a cultura das classes dominantes e de utilizar o código elaborado pelas elites e incorporar pressupostos ligados às práticas e expectativas das mesmas. Embora essas práticas estejam contextualizadas, podem ser subdivididas, didaticamente, para melhorar entendimento: A abordagem psicolingüística – Nessa perspectiva, a explicação para o fracasso escolar está vinculada às diferenças individuais na capacidade de aprender. As crianças que não aprendem na escola são consideradas portadoras de déficits mentais, sensoriais ou neurológicos, com problemas de ordem perceptual motora, lingüística, afetiva ou intelectiva. Não aprender relaciona-se a problemas eminentemente pessoais e, assim sendo, o aluno é o responsável pelo fracasso escolar. 11 Abordagem biologicista – No enfoque individual do insucesso escolar, essa abordagem desdobra-se em duas perspectivas: por um lado, a que relaciona o fracasso à disfunção biológica e, por outro, o fracasso à desnutrição. Abordagem culturalista – A suposição central dessa análise sustenta-se no pressuposto questionável de que as crianças que não progridem na escola são produtos de um ambiente sócio-cultural desfavorecido, pobre em situações de estimulação, o que interfere negativamente em seu desenvolvimento lingüístico, cognitivo e psicomotor. Ao absolutizar manifestações culturais de uma só classe social, a escola discrimina outras formas de expressão e, nesse processo, criam-se deficiências sutilmente denominadas “diferenças” ou seja, há uma hierarquização de culturas e subculturas. A escola legitima e vincula padrões de comportamento das classes dominantes, submetendo os filhos das classes populares a um processo aculturado no qual seus valores, expressões e atitudes são corrigidos ou até sumariamente substituídos. Ao longo do processo histórico da popularização da língua escrita, a preocupação de como alfabetizar fez-se presente através da busca de métodos de ensino que facilitassem a aprendizagem. É comum a idéia de que, para se ter sucesso no processo de ensino da língua escrita, é preciso que se tenha feito uma opção pelo melhor método: sintético ou analítico. Os métodos sintéticos desdobram-se em processos alfabéticos, silábicos e fonéticos, ou seja, partem dos segmentos menores da fala (fonema, sílaba, letra) para chegar as palavras, frases, textos (unidades maiores e mais significativas). A prática pedagógica é associativa (empirista), apoiada no treino e na repetição. A leitura mecânica precede a leitura compreensiva, estabelecendo-se o total esvaziamento contextual da mensagem. Os métodos analíticos desdobram-se em processos de palavração, sentenciação e contos. Adotam procedimentos opostos aos métodos sintéticos, partindo de unidades maiores para chegar a unidades menores (fonemas, letras, sílabas). De certa forma, buscam uma alfabetização com sentido, significativa, mas centram a atenção em estratégias visuais. Por fim, reunindo os benefícios de um e do outro conjunto de métodos, criam-se os métodos mistos. Segundo Nize M. Campos Pellanda (apud MOLL, 1996), as opções de métodos e processos em alfabetização têm, além de conotações técnicas e didáticas, uma dimensão política e ideológica subjacentes. Dessa forma, ainda de acordo com Pellanda (ibid), os métodos analíticos foram mais usados antes de 1964, por envolverem percepções e 12 desenvolvimento crítico, relacionando o processo de alfabetização com o contexto da criança, o que poderia dar a ela uma certa abertura para se relacionar com a realidade de forma mais crítica. Já os métodos sintéticos conduzem a uma decodificação automática, que pode provocar o desinteresse da criança pela leitura e conseqüentemente o seu afastamento da realidade social. Com a opção das políticas públicas de Ensino Fundamental por um ou por outro tipo de método de ensino, na recente história brasileira, está vinculada ao contexto do Golpe Militar de 1964, os métodos sintéticos aparecem explicitamente como opção feita. Paulo Freire compara o método rígido de trabalho em que todos os passos devem ser seguidos à risca, sob pena do insucesso, a uma receita que precisa conter todos os ingredientes para despejar o saber de quem sabe ao suposto vazio de quem não sabe. Assim, a preocupação do professor alfabetizador com os métodos de ensino revela uma postura epistemológica que, segundo Paulo Freire, transforma a educação em um ato de depositar, no qual o educando é o depositário e o educador depositante. Vale aqui refletir que o mero fato de a pessoa reconhecer, traduzir em sons extensas listas de palavras escritas não significa que ela saiba ler. Conseqüentemente, não se pode considerar alfabetização como uma aquisição de hábitos automáticos, principalmente no momento em que tivemos oportunidades de refletir sobre todos esses pontos negativos na educação brasileira, principalmente em relação à alfabetização. A sociedade atual exige mudança. Dessa forma, esse conceito deve ser revisto, porque aprender a ler de forma competente é muito mais do que decifrar mensagens; trata-se de procurar um sentido e questionar algo escrito a partir de uma realidade. Para isso, devem ser colocadas em prática estratégias de leitura que auxiliem os alunos a interpretar e compreender os textos lidos, de forma mais autônoma. O professor deve estar consciente desses processos para auxiliar os alunos a construírem seu saber ler, formando competentes alunos leitores de textos. 13 2 – ALFABETIZAÇÃO: LEITURA E ESCRITA A criança do meio urbano, desde muito cedo, apresenta curiosidade e interesse pela linguagem escrita. A criança de classe média está exposta, de um modo geral, a um ambiente alfabetizador no próprio âmbito familiar. Normalmente, convive com a leitura e a escrita em seu cotidiano: seus pais são leitores – no mínimo lêem jornais –, passam muito tempo com seus filhos, respondem às suas perguntas e estimulam sua curiosidade. A criança que está exposta a experiências interessantes sobre a linguagem escrita – com materiais para escrever, oportunidade de falar e perguntar, disponibilidade do outro para ouvi-la e responder às suas perguntas, contato permanente com livros, palavras escritas, números e experiências positivas com a leitura, desenvolve seu interesse e curiosidade, construindo conhecimentos sobre a escrita, pois esta está incorporada à sua atividade cotidiana. Ler e escrever é tão natural quanto andar e falar. O mesmo não acontece com a criança das classes populares. Nas famílias de zona rural ou de setores urbanos socialmente marginalizados, as experiências com a linguagem escrita são muito diferentes da realidade das famílias de classe média. De um modo geral, a criança das classes populares não dispõe de materiais para ler e escrever, não possui lápis, papel, livros para colorir, livros e revistas para manipular. Muitas vezes não tem qualquer relação com a escrita em sua atividade cotidiana. Quando muito, possui uma relação precária com cartazes, placas, anúncios – que fazem parte do universo social urbano, que não lhe permite conhecer o valor da escrita e suas múltiplas funções. Em sua família não aparece a necessidade do uso da escrita – embora sejam grandes as expectativas de seus pais em relação ao aprendizado da leitura e da escrita. Essa aprendizagem se pauta na necessidade da criança de compreender o mundo natural e social no qual está inserida. Sendo, portanto, do processo de interação sujeito/mundo. Nesse processo, o mundo assume a condição de objeto, o que define quantitativa e qualitativamente o processo de construção de conhecimento pelo sujeito. Aprender a ler e a escrever, isto é, tornar-se alfabetizado significa adquirir uma tecnologia, a de codificar a língua escrita (escrever) e de decodificar a língua escrita (ler). Não basta, porém, adquirir essa tecnologia. É preciso apropriar-se do letramento, isto é, fazer uso das práticas sociais de leitura e escrita, articulando-as ou dissociando-as das práticas de interação oral, conforme as situações. 14 Segundo Magda Soares (2003): ...dissociar alfabetização e letramento é um equívoco porque, no quadro das atuais concepções psicológicas, lingüísticas e psicolingüísticas de leitura e escrita, a entrada da criança (e também do adulto analfabeto) no mundo da escrita se dá simultaneamente por dois processos: pela aquisição do sistema convencional de escrita – a alfabetização, e pelo desenvolvimento de habilidades de uso desse sistema em atividade de leitura e escrita, nas práticas sociais que envolvem a língua escrita – o letramento. Não são processos independentes, mas interdependentes, e indissociáveis: a alfabetização se desenvolve no contexto de e por meio de práticas sociais de leitura e de escrita, isto é, através de atividades de letramento, e este, por sua vez, só pode desenvolver-se no contexto da e por meio da aprendizagem das relações fonema-grafema, isto é, em dependência da alfabetização.(p15-21) 2.1 - Ensinar e Aprender na sala de aula Ensinar e aprender são duas tarefas constitutivas do fazer da sala de aula. Entretanto, o lugar e a ênfase que se dá a cada uma destas tarefas caracteriza as diferentes concepções teóricas que estão subsidiando a prática pedagógica. Na maioria das vezes, o professor trabalha em sua sala de aula sem se dar conta de que seu fazer é orientado por uma determinada perspectiva teórica. Assim, ao trabalhar com os diferentes conteúdos pode estar priorizando o ensinar ou o aprender, a transmissão ou a construção do conhecimento. Tomar consciência daquilo que faz, compreender o que e porque está fazendo algo, porque está usando determinada estratégia e não outra é fundamental para um trabalho sério e produtivo. 2.2 - Teorias da aprendizagem As diversas teorias de desenvolvimento apóiam-se em diferentes concepções do homem e do modo como ele alcança o conhecimento. Tais teorias, como em qualquer estudo científico, dependem da visão de mundo existente em uma determinada situação histórica e evoluem conforme se mostram capazes ou incapazes de explicar a realidade. Assim, para compreender a prática do professor, faz-se necessária a observação dos seguintes aspectos; dos seus atos que expressam que concepção ele tem: do conteúdo que espera que o aluno aprenda do processo de aprendizagem de como deve ser o ensino 15 A visão de desenvolvimento como processo de apropriação do homem da experiência histórico-social é relativamente recente. Durante longos anos, o papel da interação de fatores internos e externos não era destacado. Enfatizavam-se ora os primeiros, ora os segundos. Os filósofos e os cientistas criaram, assim, teorias ou abordagens INATISTAS que salientam a importância dos fatores endógenos e as teorias ou abordagens AMBIENTALISTAS – em que a especial atenção se dá à ação do meio e da cultura sobre a conduta humana. 2.2.1 - Inatismo Nessa tendência, também conhecida como apriorismo ou inativismo, a prioridade é do sujeito, ou seja, as formas de conhecimento estão nele pré-determinadas. Essa concepção defende que todo conhecimento que temos nasce conosco, ou seja, é inato, não necessitando ser apresentado a nós. Todos os conhecimentos são adquiridos a priori (anterior a experiência sensível). O sujeito nasce com os saberes. Um dos principais elaboradores dessa concepção foi o filósofo Descartes, fundamentando a teoria racionalista. Para Descartes, por exemplo, as idéias claras e distintas são idéias gerais que não derivam do particular, mas já se encontram no espírito, como instrumentos de fundamentação para a apreensão de outras verdades. São idéias inatas e, portanto, não estão sujeitas a erro, pois vêm da razão, independentes das idéias que vêm de fora, formadas pelos sentidos ou pela imaginação. Podemos exemplificar essa abordagem no processo de alfabetização, através das propostas metodológicas nas quais a escrita é colocada no espaço da sala de aula, dandose nomes aos objetos ou colocando livros e revistas à disposição para que a criança naturalmente deles se aproxime. Nessa concepção, o professor não intervém no ritmo de aprendizagem, pois acredita-se que o aluno aprende “naturalmente”. 2.2.2 – Empirismo A proposta empirista defende a prioridade do objeto ou a prioridade do meio na apropriação do conhecimento. Na origem dessa postura teórica, encontramos a tese da “tabula rasa” de JOAN LOCUKE, segundo a qual nascemos como folhas de papel em branco nas 16 quais os agentes do meio vão imprimir conhecimentos pela experiência auditiva, visual, tátil, gustativa e olfativa. A concepção que predomina nessa abordagem apresenta a aprendizagem como produto que é passivamente internalizado pelo indivíduo. No processo de alfabetização, a tendência epistemológica empirista manifesta-se fundamentalmente nas proposições dos métodos tradicionais de ensino. Esses apresentam a língua escrita como um produto acabado que precisa ser incorporado pelo alfabetizando em doses iguais, num tempo previamente determinado. Além disso, os métodos caracterizam práticas que imobilizam o aluno num espaço pedagógico, no qual o controle, rigidez e a disciplina, são a tônica do trabalho. O professor “funciona” como o controlador que, monopolizando o saber, o repassa a partir de uma ordem curricular, independentemente do contexto sócio-cultural do aluno e da sua lógica de aprendizagem. Enfim, o processo alfabetizador desenvolve-se a partir da sua concepção etimológica, desligada dos significados sociais e ritmos individuais dos sujeitos envolvidos. 2.2.3 - Interacionismo Essa concepção apóia-se na idéia de interação entre organismo e meio e vê a aquisição de conhecimento como um processo construído pelo indivíduo durante toda a sua vida, não estando pronto ao nascer, nem sendo adquirido passivamente graças às pressões do meio. No interacionismo, o organismo e o meio exercem ação recíproca. Uma influencia o outro e essa interação acarreta mudanças no indivíduo. É dada ênfase no processo de interação. Refere-se ao aluno sendo o CENTRO de seu próprio percurso em direção ao conhecimento. Seu desenvolvimento cognitivo e emocional se dá na relação e interação entre o sujeito e o objeto. A aprendizagem é o resultado do esforço de atribuir significados para o mundo, o que implica revisão de hipóteses sobre o objeto do conhecimento. A função do professor e da escola é provocar o desequilíbrio (a dúvida), gerando um conflito cognitivo no aluno. Esse conflito é importante para que ocorra: assimilação - quando integramos novos conhecimentos aos já existentes; 17 acomodação – reorganização e modificação de esquemas assimilatórios para ajustá-los a cada nova experiência; o equilíbrio – processo através do qual as estruturas mentais se reorganizam e se ampliam, tendo em vista superar situações desafiadoras e que resulta em uma maior compreensão da realidade. Muitos interacionistas reconhecem que o conflito leva as pessoas a um nível mais elevado de conhecimento e, por isso, recomendam aos educadores produzirem conflito cognitivo nos alunos, como uma forma de motivação do trabalho escolar. 2.2.4 - Sociointeracionismo Essa concepção enfatiza que o conhecimento é socialmente construído pelas e nas relações humanas. A convivência social é fundamental para o desenvolvimento humano. A aprendizagem que brota nas relações sociais ajuda a construir os conhecimentos que darão suporte ao desenvolvimento mental. A importância da cultura, da linguagem e das relações sociais na concepção sociointeracionista fornece a base para uma educação em que o homem seja visto na sua totalidade: na multiplicidade de suas relações com os outros; na sua especificidade cultural; na sua dimensão histórica, ou seja, em processo de construção e reconstrução permanentes. O sociointeracionismo enfatiza o homem como sujeito histórico que, através do trabalho, intervém no meio ambiente, cria cultura e se desenvolve. É pelo trabalho coletivo que o homem estabelece relações sociais com os outros e cria instrumentos que facilitam a transformação do meio em benefício de sua sobrevivência. Cada processo de construção de conhecimentos e desenvolvimento mental possui características individuais e particulares e as informações recebidas pelo educando sofrem uma reelaboração interna, específica em cada pessoa. O processo ensino-aprendizagem deve ter como ponto de partida o desenvolvimento real do aluno, aquilo que tem sentido, que parte da sua realidade. Porém, a escola tem o papel de fazer a criança avançar em sua compreensão do mundo. Visto isso, o educador tem também função importante nesse processo, pois as práticas pedagógicas devem permitir aos alunos não somente acessarem o conhecimento, mas também transformá-lo, inová-lo. O educador tem a função de mediador entre o conhecimento historicamente acumulado e o aluno. 18 2.3 - Principais idéias difundidas por alguns teóricos Os teóricos que destacamos a seguir partem do princípio de que é preciso compreender e se apropriar da ação do sujeito no processo de aquisição do conhecimento. Faz-se necessário que as informações contidas nas teorias desses estudiosos sejam conhecidas pelos professores alfabetizadores, oferecendo-lhes conhecimentos para entenderem melhor o seu próprio trabalho, possibilitando constituírem uma prática pedagógica coerente. 2.3.1 - Célestin Freinet Nasceu em 1896, numa vila no sul da França. Iniciou a carreira docente em 1920, construindo os princípios educativos de sua prática em que enfocava que “ninguém avança sozinho em sua aprendizagem, a cooperação é fundamental. Suas propostas de ensino estão baseadas em investigações a respeito da maneira de pensar da criança e de como ela constrói o seu conhecimento. Para este teórico, a sala de aula deve ser prazerosa e bastante ativa, pois o trabalho é o grande motor da pedagogia. O centro da pedagogia freinetiana é a forma como a criança aprende. Para Freinet uma experiência, qualquer que seja, deixa uma marca indelével e é com essas marcas que a criança constrói seu conhecimento. A aprendizagem através da experiência se faz mais eficaz, porque quando o aluno faz um experimento e dá certo, ele tende a repetir aquele procedimento e avançará na aprendizagem. Porém não avançará sozinho, precisará da cooperação do professor. Assim, verifica-se que a cooperação é um dos pilares da pedagogia de Freinet. Fica claro então que a interação professor aluno é essencial para a aprendizagem. O professor consegue essa sintonia levando em consideração o conhecimento já construído pelo aluno. Esse conhecimento é fruto do meio onde vive e colabora para desenvolver a prática pedagógica do educador. Para Freinet, aproximando as crianças aos conhecimentos da comunidade, elas podem transformá-los e, assim, modificar a sociedade em que vivem. Esse é um trabalho de cidadania, de democratização do ensino. Sua pedagogia traz embutida uma preocupação com a formação de um ser social que atua no presente. Para Freinet, os erros são sucessivas construções e, mesmo que possa haver noções incorretas, incompletas (do ponto de vista do adulto), elas são parte do processo de construção do conhecimento. 19 Uma das características mais marcantes de sua teoria é que não há receitas prontas, apenas procedimentos e princípios. Para Freinet as práticas pedagógicas não podem ignorar aspectos sociais e políticos. Algumas de suas propostas de trabalho são: aulas-passeio, jornal escolar, troca de correspondência, trabalhos em grupo, fichário, produção de texto / ilustrações pelos próprios alunos, livro da vida – registro dos acontecimentos no cotidiano do aluno, imprensa escolar, intercorrespondência escolar, biblioteca na sala, canto da natureza, auto-avaliação, planos de trabalho. “A escola prepara alunos, mas esqueceu de preparar homens” (Freinet) 2.3.2 - Henri Wallon Nasceu na França em 1879. Henri Wallon foi médico e psicólogo, especializou-se em psicologia infantil. Sua obra está centrada na noção de desenvolvimento afetivo e intelectual da criança. Em seus estudos, a evolução da criança dependia de vários fatores, pois acreditava em um indivíduo único. Wallon valorizou a interação com o meio social, pois através dela ocorre o desenvolvimento biopsicosocial. Na psicogenética de Wallon, a dimensão afetiva ocupa lugar central, tanto do ponto de vista da construção da pessoa quanto do conhecimento. A teoria da emoção é vista como instrumento de sobrevivência típico da espécie humana. A emoção fornece o primeiro e mais forte vínculo entre os indivíduos. O organismo reage à emoção. A emoção é visível, abre-se para o exterior através de modificações na mímica e na expressão facial. Assim como os sentimentos e os desejos, as emoções são manifestações da vida afetiva. A atividade emocional é simultaneamente social e biológica, realiza a transição entre o estado orgânico do ser e a sua etapa cognitiva, racional, que só pode ser atingida através do social. A emoção nutre-se do efeito que causa no outro, isto é, as reações que as emoções suscitam no ambiente funcionam como uma espécie de combustível para sua manifestação. Exemplo: imaginemos que, por um motivo qualquer, alguém chega ao trabalho contente e dando risadas à toa. A pessoa entra na sala de reuniões e depara-se com um clima 20 tenso, as pessoas brigando e muito irritadas. Desse conflito de emoções, dois resultados são passíveis: ou a pessoa alegre é contagiada pela tensão do ambiente e pára de rir ou, ao contrário, contagia o grupo com sua alegria. É importante esclarecer que na vida cotidiana é possível constatar que a elevação da temperatura emocional tende a baixar o desempenho intelectual e impedir a reflexão objetiva, porém a atividade intelectual voltada para a compreensão das causas de uma emoção reduz seus efeitos. Uma crise emocional tende a se dissipar mediante atividade reflexiva. Segundo Wallon, a linguagem é o instrumento e o suporte indispensável aos progressos do pensamento. Entre pensamento e linguagem existe uma relação de reciprocidade: a linguagem exprime o pensamento, ao mesmo tempo que age como estruturadora do mesmo. Wallon elegeu, como objeto privilegiado de seu estudo sobre a inteligência, o pensamento discursivo (verbal). A aquisição da linguagem representa uma mudança na forma de a criança se relacionar com o mundo. É grande o impacto da linguagem sobre o desenvolvimento do pensamento e da atividade global da criança. Com a posse desse instrumento, a criança deixa de reagir somente àquilo que se impõe concretamente a sua percepção; sua atividade passa a comportar adiantamentos, reservas para o futuro, projetos. Wallon considera que a educação deva atender à formação do indivíduo e da sociedade. Temos de valorizar a atividade da criança, conduzindo o ensino a partir dos seus interesses, mas deve haver também a intervenção do professor, pois não podemos negar a necessidade de sistematizar o ensino. Ele propunha o atendimento simultâneo das aptidões individuais e das necessidades sociais. A escola deve oferecer oportunidades de aquisição de conhecimentos e de expressão, havendo uma integração entre arte e ciência. É grande a importância que a psicogenética Walloniana atribui ao meio no desenvolvimento infantil. É do meio que a criança retira os recursos para a ação, por isso há necessidade de se planejar a estruturação do ambiente escolar. Se este for estruturado adequadamente, pode desempenhar um decisivo papel na promoção do desenvolvimento infantil. O planejamento das atividades escolares não deve se restringir somente à seleção de seus temas, isto é, do conteúdo de ensino, mas necessita atingir as várias dimensões que compõem o meio. 21 2.3.3 - Jean Piaget Nasceu na Suíça, em 1896. Biólogo e psicólogo, Piaget foi o formulador de uma teoria do desenvolvimento da inteligência humana: a epistemologia genética. Embora sua teoria não tenha intenção pedagógica, ofereceu aos educadores princípios importantes para orientar a prática educativa. Para Piaget, o aprendizado é um processo gradual no qual a criança vai se capacitando e alcançando níveis cada vez mais complexos do conhecimento, seguindo uma seqüência lógica de pensamento. Para este teórico, o sujeito humano estabelece, desde o nascimento, uma relação de interação com o meio físico e social e é essa relação que promove seu desenvolvimento cognitivo. Cabe aqui destacar o sentido de meio nas explicações piagetianas. Meio refere-se a tudo de que se dispõe para o indivíduo como desafio à sua inteligência e não com um sentido genérico relativo ao meio ambiente. Segundo o construtivismo piagetiano, não existe um conhecimento pré-formado, inato (oposição ao inatismo), nem o conhecimento é fruto exclusivo da acumulação de experiências (oposição ao empirismo). É, pois, num contexto de interação entre sujeito e objeto que se coloca a questão do conhecimento. Apesar da base interacionista de sua teoria, como biólogo Piaget não poderia negar um certo pré-formismo essencial, em termos biológicos, relativo à programação subjacente à formação individual dos membros de cada espécie. Na teoria de Piaget, o sujeito busca adquirir conhecimento, compreender o mundo que o rodeia, e trata de resolver as interrogações que este provoca; aprende através de suas próprias ações sobre os objetos do mundo. Os estímulos não atuam diretamente, mas são transformados pelos sistemas de assimilação do SUJEITO, que é o centro de todo o processo. A criança é SUJEITO ativo responsável pela construção do seu conhecimento. Piaget mostra que a forma de raciocinar e de aprender de todas as crianças passa por estágios estáveis de estruturação de pensamento em crescente complexidade psicogenética, que são: estágio sensório-motor – de 0 a 2 anos, aproximadamente. A ação envolve os órgãos sensoriais e os reflexos neurológicos básicos e o pensamento se dá somente sobre as coisas presentes na ação que desenvolve, ou seja, o conhecimento se dá pelo contato físico da 22 criança com o objeto. Exemplo: para a criança ter noção do que seja um lápis, é preciso tocálo, segurá-lo, levá-lo à boca e, dentro de seu desenvolvimento, rabiscar com ele; estágio pré-operatório – de 2 a 7 anos, aproximadamente. Nessa fase a criança se torna capaz de fazer uma coisa e imaginar outra. Ela faz isso, por exemplo, quando brinca de boneca e representa situações vividas em dias anteriores. estágio das operações concretas – de 7 a 9/12 anos, aproximadamente. A criança consegue refletir sobre o inverso das coisas e os fenômenos. Para que ela conclua um raciocínio leva em consideração as relações entre os objetos. Percebe, por exemplo, que 31=2, porque sabe que 2 + 1 = 3. Assim, a criança já é capaz de: reunir, dissociar, comparar, classificar e relacionar; estágio lógico-formal – a partir de 12 anos, aproximadamente. O adolescente pode pensar em coisas completamente abstratas, sem necessitar da relação direta com o concreto. Piaget explica que entre um estágio e outro existe um intermediário no qual convivem, em estado de desequilíbrio, as concepções do estágio anterior ou do posterior. 2.3.4 - Emília Ferreiro Psicolingüista argentina, orientada por Jean Piaget, inovou ao utilizar a teoria do mestre para investigar um campo que não tinha sido objeto de estudo piagetiano. A teoria elaborada por Ferreiro e Teberosky ordena as perguntas, as hipóteses e as respostas das crianças, os procedimentos de construção da escrita, os modos de interpretação do escrito e, em função deles, estabelece diferentes momentos ou processos de aquisição. Em cada momento ou nível, as crianças usam procedimentos de construção comuns e constelações de hipóteses diferentes das que usavam anteriormente e das que usarão no futuro. A apropriação da escrita pelas crianças evolui de acordo com a própria seqüência, a qual não está orientada pela idade cronológica do sujeito. Por exemplo, as escritas de nível diferenciado sempre antecedem as escritas de nível sílábico; no entanto, podemos encontrar escritas diferenciadas em uma ampla faixa etária, porque na apropriação influem aspectos como os hábitos e as funções que as crianças observam em seu contexto familiar e escolar com relação ao escrito; o fato de viverem ou não em ambientes alfabetizadores e letrados influenciará a possibilidade de disporem de maior ou menor acesso aos informadores e à informação escrita; as características e as necessidades individuais etc. (PÉRES e GARCÍ, 2001) 23 Aprendizagem é um processo de apropriação do conhecimento que só é possível com o pensar e o agir do sujeito sobre o objeto (a escrita) que ele quer conhecer. Portanto, a aprendizagem da leitura e escrita pela criança se dá a partir do contato entre esta criança e os objetos escritos. A pesquisa desenvolvida por Emília Ferreiro e Ana Teberosky está descrita em “Psicogênese da Língua Escrita”, que destaca o processo e a forma pelos quais a criança aprende a ler e escrever. As pesquisadoras consideram os “erros construtivos”, característicos das fases em que encontra a criança. As ponderações de Emília Ferreiro têm fundamentos científicos. Aos educadores cabe buscar a melhor maneira de ajudar seus alunos a construir sua aprendizagem e criar situações nas quais a criança possa questionar suas hipóteses e progredir na escrita. Para a professora Emília Ferreiro as crianças não chegam vazias à escola , sem saber nada sobre a língua. De acordo com sua teoria, toda criança busca a aprendizagem na medida em que constrói o raciocínio lógico. O processo evolutivo de aprender a ler e escrever passa por níveis de conceituação que revelam as hipóteses a que chegou a criança. até que esteja alfabetizada: Nível 1: hipótese pré-silábica: a criança não consegue relacionar as letras com os sons da língua falada; supõe que a escrita é outra forma de desenhar ou de representar coisas e usa desenhos, garatujas e rabiscos para escrever; usa letras do próprio nome ou letras e números na mesma palavra; supõe que a escrita representa os objetos e não seus nomes: coisas grandes devem ter nomes grandes, coisas pequenas devem ter nomes pequenos; tem leitura global, individual e instável do que escreve: só ela sabe o que quis escrever; supõe que para algo poder ser lido precisa Ter, no mínimo, de dois a quatro grafemas geralmente três (hipótese da quantidade mínima de caracteres); supõe que para algo ser lido precisa ter grafemas variados; Nível 2: intermediário I 24 a criança começa a ter consciência de que existe alguma relação entre a pronúncia e a escrita; começa a desvincular a escrita das imagens e do número de letras; só demonstra estabilidade ao escrever seu nome ou palavras que teve oportunidade e interesse de grafar. Essa estabilidade independe da estruturação do sistema de escrita; conserva as hipóteses da quantidade mínima e da variedade de caracteres; Nível 3: hipótese silábica: a criança já supõe que a escrita representa a fala; tenta fonetizar a escrita e dar valor sonoro às letras; pode ter adquirido, ou não, a compreensão do valor sonoro convencional das letras; já supõe que a menor unidade da língua seja a sílaba; supõe que deve escrever tantos sinais quantas forem as vezes que mexe a boca, ou seja, para cada sílaba oral corresponde uma letra ou um sinal; em frases pode escrever uma letra para cada palavra; Nível 4: hipótese silábico-alfabética ou intermediário II: a criança inicia a superação da lógica silábica; compreende que a escrita representa o som da fala; combina só vogais ou só consoantes, fazendo grafias equivalentes para palavras diferentes. Por exemplo, AO para gato e sapo ou ML para mola e mula; pode combinar vogais e consoantes numa mesma palavra, numa tentativa de combinar sons, sem tornar, ainda, sua escrita socializável. Por exemplo, CAL para cavalo; passa a fazer uma leitura termo a termo (não-global). Nível 5: hipótese alfabética: a criança compreende que a escrita tem uma função social: a comunicação; compreende o modo de construção do código da escrita; compreende que cada um dos caracteres da escrita corresponde a valores menores que a sílaba; 25 conhece o valor sonoro de todas as letras ou de quase todas; pode ainda não separar todas as palavras nas frases; omite letras quando mistura as hipóteses alfabética e sílábica; não tem problemas de escrita no que se refere a conceito; não é ortográfica, nem léxica. Emília Ferreiro ressalta que a análise e as representações sobre a escrita que o estudante faz é importante para o professor saber como agir. O fato de a criança aprender a ler e escrever lendo e escrevendo, mesmo sem saber fazer isso, é um dos princípios da teoria em questão. Nas escolas construtivistas, os alunos se alfabetizam participando de práticas sociais de leitura e de escrita. Apesar de ter proporcionado aos educadores uma nova maneira de analisar a aprendizagem da língua escrita, o trabalho da pesquisadora argentina não dá indicações de como produzir ensino. Definitivamente, não existe o “método Emília Ferreiro”, com passos predeterminados. Entende-se como alfabetizada a criança que dominou a base alfabética do sistema da escrita, que lê com compreensão e escreve textos com sentido possíveis de serem lidos, mesmo que apresentem erros de ortografia.(FERREIRO e TEBEROSKY, 1999). 2.3.5 - Howard Gardner Em 1983, este psicólogo americano publicou os resultados de suas pesquisas demostrando que somos portadores de múltiplas inteligências, fundamentando-as em novas visões do cérebro humano, obtidas através de avançadas tecnologias de ressonância magnética, de estudos de indivíduos prodigiosos em todo mundo, de pacientes com danos cerebrais, de autistas conhecidos primitivamente como “idiotas sábios” e de crianças e adultos normais perante diferentes desafios. . Segundo essa teoria, que chegou 11 anos depois ao Brasil, uma nova e envolvente visão sobre o potencial humano mostra-nos portadores de diferentes inteligências, ensina que estas podem ser aumentadas se receberem estímulos coerentes e serenos em momentos específicos, e que esses estímulos estão ao alcance de todas as pessoas que se dispuserem a proporcioná-los. Assim, os estudos de Gardner atiraram para longe a visão de que o ser humano é limitado por apenas uma, ou, eventualmente, duas inteligências. Esse teórico trouxe 26 para a nossa ação diária a descoberta de seres humanos amplos, holísticos, riquíssimos em sua diversidade e potencialidade. De acordo com Gardner, estas seriam as oito inteligências: Inteligência lingüistíca – habilidade de usar a língua falada e escrita para atingir objetivos. Expressa-se de modo muito marcante no orador, no escritor, no poeta ou no compositor que lidam criativamente e constróem imagens com palavras e com a linguagem. Inteligência espacial – capacidade de reconhecer e manipular uma situação espacial ampla ou mais restrita. Está diretamente relacionada ao sentido da visão, à tendência de perceber as muitas formas dos objetos. Manifesta-se no arquiteto, geógrafo e marinheiro, que percebem o espaço de forma conjunta e o administram na utilização e construção de mapas, plantas e outras formas de representações planas. Inteligência lógico-matemática – capacidade de realizar operações matemáticas e de analisar problemas com lógica. Está associada em desenvolver raciocínios dedutivos, em construir cadeias causais e lidar com números e outros símbolos matemáticos, expressando-se no engenheiro mas, sobretudo, no físico e nos grandes matemáticos. Inteligência musical – aptidão na atuação, apreciação e composição de padrões musicais. Está ligada à percepção formal dos sons e à música como forma de compreensão do mundo. Inteligência físico-cinestésica – potencial de usar o corpo para resolver problemas ou fabricar produtos. Manifesta-se na linguagem gestual e mímica. É identificada tanto pela exploração dos movimentos do corpo como pela sensibilidade tátil, olfativa ou do paladar. Inteligência intrapessoal – capacidade de a pessoa se conhecer, incluindo seus desejos, e de usar essas informações para alcançar objetivos pessoais. A dimensão intrapessoal pode ser sentida por todos que vivem bem consigo mesmos e mostram forte auto-estima. Inteligência interpessoal – capacidade de entender as intenções e os desejos dos outros. Revela-se no poder de bom relacionamento e na sensibilidade para a identificação de suas intenções, motivações e circunstâncias que os tornam diferentes de todos os outros seres humanos. É necessária para vendedores, líderes religiosos, políticos e, o mais importante, PROFESSORES. 27 Inteligência naturalista ou biológica – capacidade de reconhecer objetos na natureza. Está ligada à compreensão do ambiente e à paisagem natural. Os estudos de Gardner nos levam a refletir : ou recusamos as revelações de ciência e nos prendemos à concepção de que o ser humano é o que sua hereditariedade modela, ou abraçamos as novas revelações e nos transformamos em arquitetos de outros amanhãs, marinheiros de novas descobertas sobre nós mesmos. 2.3.6 - Paulo Freire Nascido em 1921, no Recife, formou-se em Direito, em 1959, mas nunca exerceu a profissão. O ensino era sua paixão. Mais do que um educador, Paulo Freire foi um pensador. Para ele, não havia educação neutra. Suas teses básicas sustentam que pedagogo deve cuidar de libertar o homem das alienações a que a consciência dominadora o submete. Tal conceito entende-se por conscientização. E para haver conscientização é necessário dar o primeiro passo, dado através da ALFABETIZAÇÃO. Paulo Freire construiu uma verdadeira concepção política do ato de educar adotando como princípios fundamentais à valorização do cotidiano do aluno e a construção de uma praxis educativa (aquilo que habitualmente se pratica), que estimule a leitura crítica do mundo. A escola para Paulo Freire não é apenas uma instituição responsável por transmitir conhecimentos e sim um centro de cultura aberto ao mundo, sendo influenciada pela sociedade. Nos diversos programas de alfabetização dirigidos por Paulo Freire, para adultos, o alfabetizador começava o seu trabalho saindo a campo com um caderno ou, se possível, com um gravador, atento a tudo o que via e ouvia. Misturava-se às pessoas da comunidade local da forma mais íntima possível. Não havia questionários nem roteiros a seguir: fazia perguntas sobre a vida das pessoas e seu modo de perceber o mundo. O objetivo era listar as palavras mais usadas pelos indivíduos que iam ser alfabetizados. Tudo devia ser explorado: palavras, frases, ditos, provérbios, modos peculiares de falar, de compor versos, de contar o mundo. Esse trabalho preliminar do alfabetizador visava revelar o mundo vivido pelos analfabetos, ou seja, como se apresentava o pensamento e a realidade social do grupo com o 28 qual se ia trabalhar. Enfim, a técnica de alfabetização proposta por Paulo Freire surgia como uma conseqüência natural da tomada de consciência dos problemas vividos pelo grupo. Dessa pesquisa, nasciam as palavras e os temas geradores, isto é, o miolo do método. As palavras geradoras deviam ser escolhidas considerando-se não apenas seu significado e relevância social para o grupo do círculo de cultura, mas precisavam, também, apresentar todos os fonemas da língua portuguesa. Essas palavras deviam codificar (representar) o modo de vida das pessoas do lugar. Mais tarde, elas seriam decodificadas, e a cada palavra seria associado um núcleo de questões ao mesmo tempo existencial (questões ligadas à vida) e político (questões ligadas aos determinantes sociais das condições de vida). Assim, por exemplo, para a palavra geradora GOVERNO, podiam ser discutidos os seguintes temas geradores: plano político, poder político, o papel do povo na organização social e participação popular. Esse contexto figurativo dava sustentação psicológica à palavra na mente do analfabeto. A palavra geradora funciona como chave. Ela era apresentada no contexto concreto, em que a palavra tijolo aparece escrita sobre o tijolo de uma parede. Paulo Freire insistiu no fato de que não inventou método de alfabetização algum. Aprender é um processo inerente ao homem, que tem necessidade de aprender, da mesma maneira que tem necessidade de se alimentar. Nesse processo em que o homem aprende a si mesmo e aos outros, existe a mediação do mundo. Esse é um processo natural, que alguns chamaram de processo global. A experiência de Paulo Freire demonstrou que, na língua portuguesa, não são necessárias mais do que duas dezenas de palavras geradoras para se completar a alfabetização inicial. O que é original em Paulo Freire é a ótica libertadora pela qual ele enxerga esse processo. Aprender faz parte do ato de se libertar, de se humanizar. Na alfabetização de crianças, a teoria é a mesma, variando muito o processo, na medida em que é preciso levar em conta o maior domínio da palavra no adulto e o forte impulso lúdico das crianças. 2.3.7 – Lev Semenovich Vygotsky Lev Semenovich Vygostsky nasceu em 17 de novembro de 1896, em Orsha, pequena cidade provinciana, na Bielo-Rússia. Suas obras são fontes de inspiração do 29 socioconstrutivismo ou do sociointeracionismo, uma tendência cada vez mais presente na postura dos educadores, pois a repercussão do pensamento de Vygotsky vem sendo uma espécie de renovação dos debates educacionais. Apesar de não ter elaborado uma pedagogia, Vygotsky deixou idéias sugestivas para a educação. Atento à natureza social do ser humano, que desde o berço vive rodeado por seus pares em ambiente impregnado pela cultura, defendeu que o próprio desenvolvimento da inteligência é produto dessa convivência. Para Vygotsky "na ausência do outro, o homem não constrói o homem”. Vygotsky vê o homem como sujeito ativo que tem um psiquismo e vive inserido num ambiente cultural, que se constrói de suas relações com o mundo natural e social. Esse homem é constituído de: - corpo: ser biológico – membro de uma espécie; - mente: ser social e participante do processo histórico. Os pilares básicos de sua teoria são: as funções psicológicas têm um suporte psicológico (material), pois são produto da atividade cerebral; o funcionamento psicológico que se fundamenta nas relações sociais entre o indivíduo e o mundo exterior, as quais se desenvolvem num processo histórico; a relação homem-mundo é uma relação mediada por sistemas simbólicos; Dentre suas principais idéias, destacamos alguns conceitos importantes: A relação indivíduo/sociedade. Vygotsky afirma que as características tipicamente humanas não estão presentes desde o nascimento do indivíduo, nem são mero resultado das pressões do meio externo. Elas resultam da interação dialética do homem e seu meio sociocultural. Ao mesmo tempo em que o ser humano transforma o seu meio, para atender a suas necessidades básicas, transforma-se a si mesmo. A origem cultural das funções psíquicas. As funções psicológicas, especificamente humanas, originam-se nas relações do indivíduo e seu contexto cultural e social. Isto é, o desenvolvimento mental humano não é 30 dado a priori, não é imutável e universal, não é passivo, nem tampouco independente do desenvolvimento histórico e das formas sociais da vida humana. A cultura é, portanto, parte constituída da natureza humana, já que sua característica psicológica se dá através da internalização dos modos historicamente determinados e culturalmente organizados de operar com informações. O cérebro O cérebro, produto de uma longa evolução, é o substrato material da atividade psíquica que cada membro da espécie traz consigo ao nascer. No entanto, essa base material não significa um sistema imutável e fixo. É entendido como um sistema aberto de grande plasticidade, cuja estrutura e modos de funcionamento são moldados ao longo da história da espécie e do desenvolvimento individual. Mediação São os instrumentos técnicos e os sistemas de signos construídos historicamente, que fazem a mediação dos seres humanos entre si e deles com o mundo. A linguagem é um signo mediador por excelência, pois ela carrega em si os conceitos generalizados e elaborados pela cultura humana. Processos psicológicos complexos Os processos psicológicos complexos se diferenciam dos mecanismos mais elementares e não podem ser reduzidos à cadeia de reflexos. Esses modos de funcionamento psicológico mais sofisticados, que se desenvolvem num processo histórico, podem ser explicados e descritos. Assim, ao abordar a consciência humana como produto da história social, aponta na direção da necessidade do estudo das mudanças que ocorrem no desenvolvimento mental, a partir do contexto social. O processo de mediação O conhecimento é sempre intermediado. Para Vygotsky, viver em sociedade é essencial para a transformação do homem: de ser biológico em ser humano. É por meio da aprendizagem com as relações experimentadas que se constroem os conhecimentos que vão permitir o desenvolvimento mental, uma vez que a criança nasce dotada apenas de funções psicológicas elementares (reflexos, a atenção involuntária), no que, 31 por meio da interação, transformam-se em funções psicológicas superiores (consciência, planejamento e deliberação). Essa evolução irá acontecer pela elaboração das informações recebidas do meio. Isso quer dizer que tais informações são sempre intermediadas, de forma implícita ou explícita, pelas pessoas que rodeiam a criança. É importante refletir que as informações intermediadas são reelaboradas individualmente, como uma forma de explicação interna, sendo, por este motivo, duplamente importante o papel da linguagem. Essa intermediação passa por duas mudanças qualitativas fundamentais. uma que se dá ao longo do processo de desenvolvimento do indivíduo e a outra, que ocorre ao longo da evolução da espécie. A utilização de marcas externas transforma-se em processos internos de mediação, ao que Vygotsky denomina de processo de internalização. Ao longo do desenvolvimento, o indivíduo deixa de necessitar de marcas externas e passa a utilizar signos internos, isto é, representações mentais que substituem o real. Segundo Vygotsky, a evolução intelectual é caracterizada por saltos qualitativos de um nível de conhecimento para outro. A fim de explicar esse processo, ele desenvolveu o conceito de “zona de desenvolvimento proximal”, que definiu como a distância entre o nível de desenvolvimento real, que se costuma determinar através da solução independente de problemas e o nível de desenvolvimento potencial, determinado através da solução de problemas, sob orientação de um adulto ou em colaboração com companheiros mais capazes. Vygotsky chama de desenvolvimento real o que a criança é capaz de fazer sozinha, por já ter um conhecimento consolidado. O desenvolvimento potencial é determinado por aquilo que a criança ainda não domina, mas é capaz de realizar, com o auxílio de alguém mais experiente. A zona de desenvolvimento proximal compreende a distância entre o desenvolvimento real e o potencial, que está próximo, mas ainda não foi atingido. Na escola, o professor e os colegas mais experientes são os principais mediadores. O professor precisa conhecer o desenvolvimento real da criança, mas não pode limitar-se a ele, pois é pelo auxílio direto, com explicações, pistas e sugestões, que o aluno avança, consolidando o desenvolvimento que era apenas potencial. No trabalho individual respeita-se a zona proximal de cada um, pois ela não é homogênea para todo o grupo. 32 Pensamento e linguagem O pensamento é uma língua aprendiz, é uma atividade mental, um processo cognitivo e, portanto, parte das funções psicológicas superiores. A linguagem é o sistema simbólico que mais facilita e desenvolve o pensamento. A linguagem tem duas funções básicas: * intercâmbio social: função da comunicação; * função generalizante; A função generalizante desenvolve dois processos mentais fundamentais e implicados no pensamento: * discriminação: para generalizar é preciso, antes, discriminar; * abstração: possibilidade de retirar os atributos essenciais; É através dessas funções que o indivíduo forma os conceitos e pode ir interpretando o mundo (conhecer os significados). A função generalizante torna a linguagem um instrumento do pensamento. Ela é fundamental para que o indivíduo possa, juntamente com a função de intercâmbio social, comunicar-se adequadamente (generalizar para entender o mundo e falar para expressar o pensamento). O desenvolvimento da linguagem e do pensamento, até a idade de dois anos, segue mais ou menos independente. Nesse período, a fase do pensamento é chamada de pré-verbal e a linguagem dessa fase é chamada de pré-intelectual, quando a criança ainda não domina a linguagem. A partir dessa idade, a linguagem e o pensamento começam a encontrar-se, segundo Vygotsky, atribuída à necessidade de intercâmbio dos indivíduos. É quando começa a aparecer, na criança, a função simbólica que lembra representação. O pensamento, nesse ponto do desenvolvimento, torna-se verbal, mediado por significados dados pela linguagem; ocorre, então, um salto qualitativo no desenvolvimento do pensamento verbal, que decorre da interação da criança com membros mais maduros da cultura na qual está inserida. Devemos atentar para o significado na relação pensamento e linguagem, pois é ele que define um modo de organização do real. É no significado que se encontram unidas as duas funções básicas da linguagem: comunicação e generalização. 33 Os significados são construídos ao longo da história dos indivíduos, ou dos grupos, e são eles quem propiciam a mediação simbólica entre o indivíduo e o meio físico e social, constituindo-se no filtro pelo qual o indivíduo vai compreender o mundo e ser capaz de agir sobre ele. Vygotsky distingue os seguintes componentes do significado: * significado, propriamente dito, que é coletivo, refere-se ao sistema de relações objetivas, o qual se forma no processo de desenvolvimento da palavra, constituindo-se em um núcleo relativamente estável de compreensão desta, compartilhado por todas as pessoas que a utilizam. * sentido, refere-se ao significado da palavra para cada indivíduo, composto por relações que dizem respeito ao contexto de uso da palavra e às vivências afetivas do indivíduo. A fala A fala, primeiramente ocorre no exterior – fala entre indivíduos, o diálogo com o outro – discurso socializado. Na medida em que isso ocorre, o indivíduo vai adquirindo os significados – fala interior, a fala não focalizada – que temos conosco e que ocorre sem ser verbalizada. Fala egocêntrica fica no caminho entre a fala exterior e a interior: é quando a criança precisa verbalizar, falando, para dirigir sua conduta ou pensamento. A aquisição da linguagem escrita Vygotsky afirma que não é somente através da aquisição da linguagem falada que o indivíduo adquire formas mais complexas de se relacionar com o mundo que o cerca. O aprendizado da linguagem escrita representa um considerável salto no seu desenvolvimento, pois promove modos diferentes e ainda mais abstratos de pensar, de se relacionar com o outro e com o conhecimento. Partindo desse pressuposto, Vygotsky faz importantes críticas à visão que considera a escrita apenas como habilidade motora. O aprendizado da escrita, esse produto cultural construído ao longo da história da humanidade, é entendido por Vygotsky como um processo bastante complexo, que é iniciado para a criança muito antes da primeira vez que o professor coloca um lápis em sua mão e mostra como formar letras. 34 A complexidade desse processo está associada ao fato de a escrita ser um sistema de representação da realidade extremamente sofisticado que se constitui num conjunto de símbolos de segunda ordem; os símbolos escritos funcionam como designações dos símbolos verbais. Sendo assim, o aprendizado da linguagem escrita envolve a elaboração de todo um sistema de representação simbólica da realidade. É por isso que ele identifica uma espécie de continuidade entre as diversas atividades simbólicas: os gestos, o desenho e o brinquedo. Em outras palavras, essas atividades contribuem para o desenvolvimento da representação simbólica (em que signos representam significados) e conseqüentemente, para o processo de aquisição da linguagem escrita. Vygotsky enfatiza a necessidade de investigação que procure desvendar a gênese da escrita, o caminho que a criança percorre para aprender a ler e a escrever. A função da brincadeira A brincadeira é um espaço de aprendizagem onde a criança age além do seu comportamento cotidiano e do das crianças de sua idade. Na brincadeira, ela age como se fosse maior do que é na realidade, realizando, simbolicamente, o que mais tarde realizará na vida real. Embora demonstre fazer apenas o que mais gosta, a criança, quando brinca, aprende a subordinar-se às regras das situações que reconstrói. Essa capacidade de sujeição às regras, imposta pela situação imaginada, é uma das fontes de prazer no brinquedo. No jogo de “faz-de-conta”, a criança experimenta diferentes papéis funções sociais generalizados a partir da observação do mundo dos adultos. Por meio do brinquedo, a criança aprende a atuar numa esfera cognitiva, que depende de motivações internas. Nessa fase, ocorre uma diferenciação entre os campos de significados e da visão. O pensamento, que antes era determinado pelos objetos do exterior, passa a ser regido pelas idéias. Ela poderá utilizar materiais que servirão para representar uma realidade ausente. Mesmo havendo significativa distância entre o comportamento na vida real e o comportamento no brinquedo, a atuação no mundo imaginário e o estabelecimento de regras a serem seguidas criam uma zona de desenvolvimento proximal, à medida em que impulsionam conceitos e processos em desenvolvimento. 35 2.4 - Síntese das teorias Teórico Freinet Wallon Piaget linha teórica contribuição o educando o educador *A criança constrói seu conhecimento no fazer e refazer de atividades; *educação à serviço de uma causa social; *o erro são sucessivas construções. *Ninguém avança sozinho em sua aprendizagem, a cooperação é fundamental; *salas de aula prazerosas e ativas; *aprendizado eficaz através da experiência; *valorização dos conhecimentos da comunidade; *formação de um indivíduo social ; *Ativos; *pesquisadores; *criativos; *autônomos; *produtores; *Atualizador da sua prática; *observador; *sensível *estimulador; *interativo; *incorpora à prática pedagógica aspectos sociais e políticos. *O desenvolvimento *A educação deve *Participação ativa; *Valoriza as biopsicosocial e o atender à formação do *autônomo atividades e os desenvolvimento indivíduo e da *integrado ao meio; interesses da criança; social ocorrem na sociedade; *geneticamente social; *estimulador; interação com o meio *para o Ser pleno: biológico, *criativo; social; desenvolvimento afetivo, social e *interativo; *A atividade intelectual deve-se intelectual; *mediador; emocional é valorizar a interação *integra arte e ciência; simultaneamente com os elementos da *enfatiza o trabalho social e biológica; cultura; coletivo; *a linguagem é o *a escola deve instrumento e o oferecer oportunidade suporte indispensável de aquisição de aos progressos do conhecimento e de pensamento; expressão; *a educação da emoção deve ser incluída entre os propósitos da ação pedagógica; *A criança como *Aprendizagem como sujeito ativo, processo ativo, responsável pela interativo; construção do seu *o erro como etapa conhecimento; importante do *conhecimento não conhecimento; está nos objetos, nem *a construção do nos processos saber parte do internos, mas na ação conhecimento menos do sujeito sobre os elaborado para o mais objetos; elaborado; *correlação entre *valorização do jogo; fases evolutivas e *a relação da criança aquisição de com o mundo físico e conhecimento; social promove o *a criança precisa desenvolvimento; entrar em conflito com *conhecimento= seu conhecimento construção individual; prévio e o que se apresenta novo; *É o centro do processo; *é ativo, individual e cognitivo; *construtor de conhecimentos, criando e elaborando hipóteses; *agente da própria aprendizagem; *Respeita o nível de desenvolvimento dos alunos; *proporciona um conflito cognitivo; *é consultor, orientador, mediador entre aluno e o objeto da aprendizagem (leitura e escrita); *organizador de situações; 36 Teórico Emília Ferreiro Gardner Paulo Freire Vygotsky Linha teórica contribuição o educando o educador *Construtivismo; *respeito ao nível de desenvolvimento dos alunos; *valorização das vivências anteriores; *diagnosticar quanto os alunos já sabem antes de iniciar o processo. *Mudanças apontadas *Sujeito do processo; pela psicolingüistica; *alunos se alfabetizam *estimulação de participando de situações concretas práticas sociais de relacionadas ao dia-aleitura e de escrita; dia; *pesquisadores; *estimulação a *autônomos; construção de textos; *criativos. *vivências de grupo. *Homem como portador de diferentes inteligências; *seres humanos amplos, holísticos, riquíssimos em diversidade e potencial; *A escola deve valorizar e estimular as diferentes habilidades dos alunos; *respeito às diferenças individuais; *importância da aprendizagem significativa; * é preciso que a criança seja levada a resolver problemas; *Visão libertadora da aprendizagem; *Processo educativo seria um ato político; *educação a serviço de uma causa social; *educação popular; *ensino dos conteúdos associado a uma leitura crítica da realidade; *Escola prepara o *Sujeito inter-ativo; *Provocador de aluno para tomar *ser social situações; decisões; *politizado; *pesquisador; *valorização do *crítico-social; *animador cultural cotidiano do aluno; *autônomo; num ambiente em que *palavras e temas *questionador ; todos aprendem em geradores que *construção partilhada comunhão; representavam o de conhecimento; *coerente entre o que modo de vida das diz e o que faz; pessoas eram motivadores da prática pedagógica; *educação para todos; *pedagogia centrada na atividade dos indivíduos em interação; *conhecimento = construção social; *o importante é *sujeito interativo da Facilitador da aprender para a vida; (re)construção (re)construção de *respeito aos valores coletiva de conhecimentos; culturais; conhecimentos; *colaborador *valoriza a escola, o *sujeito questionador, *mediador professor e a atuante, reflexivo *faciltador da intervenção interação entre os pedagógica; alunos; *o erro faz parte do *sujeito de presença processo de motivadora e não aprendizado impositora *Relação entre pensamento e linguagem; *as características humanas resultam da interação dialética do homem e seu meio sociocultural; *o conhecimento é intermediado *Centro do processo; *participação ativa; *sujeito da aprendizagem; *Estimulador; *criativo; *interativo; *mediador; *respeita o nível de desenvolvimento do aluno; *organiza atividades que favoreçam a reflexão do aluno sobre a escrita e a leitura; *Valoriza as diferentes habilidades dos educandos; *promove atividades diversas, que estimulam o desenvolvimento das diferentes inteligências; *propõe atividades práticas; 37 A visão de que, na nova concepção de aprendizagem da língua escrita, a criança se apropria da escrita de forma quase espontânea e independentemente de intervenção é, além de ingênua, inteiramente falsa: certamente muito mais que as concepções que a precederam, essa nova concepção exige uma direção e uma orientação pedagógicas que só podem ser exercidas se fundamentadas em um seguro conhecimento tanto do processo de aprendizagem quanto do objeto desse objeto - a língua escrita. Sabe-se de que o processo de codificação decodificação faz parte da aprendizagem da leitura e da escrita. No entanto, a alfabetização, por sua multidimensionalidade, envolve outros aspectos que se relacionam à codificação decodificação. Fala-se do processo de significação e de atribuição de sentidos: a apropriação da leitura e da escrita é um processo complexo de codificação do oral e de decodificação do escrito que se desenvolve, não pela memorização e repetição, mas sim através da elaboração de significados e da produção de sentidos. 2.5 – A linguagem A comunicação oferece diversos caminhos ao ser humano e a linguagem exerce uma função comunicativa. Por ser um meio de comunicação inter-humana privilegiada, a linguagem introduz o indivíduo na vida social, da qual torna-se um instrumento principal. A aquisição da linguagem depende da capacidade compartilhada entre o falante e o ouvinte, sendo que juntos irão desenvolver um sistema similar que será disponível para todos os outros indivíduos. Para a linguagem fazer-se presente é preciso que o indivíduo tenha uma habilidade em “manipular” palavras e/ou gestos. Desenvolver linguagem é uma construção interpessoal na qual o adulto contribui oferecendo habilidades lingüísticas para que a criança venha a promover novas habilidades. Dessa forma, para aprender a falar, uma criança deve ter tomado as oportunidades oferecidas pelos adultos em seu próprio mundo, para jogar esse jogo inúmeras vezes e sintonizar seu conhecimento lingüístico e seu detalhe interpessoal. A linguagem é, ao mesmo tempo, uma função e um aprendizado: uma função no sentido de que todo ser humano produz a fala e a linguagem constitui um instrumento 38 necessário para ele. E um aprendizado porque o sistema simbólico lingüístico que a criança deve assimilar é adquirido progressivamente pelo contato com o meio . A linguagem também é um meio socialmente privilegiado de representar fatos e acontecimentos que dizem respeito ao passado, presente e futuro. Essa linguagem está carregada de significados que correspondem a um contexto social. A linguagem e seu desenvolvimento acompanham todo o desenvolvimento global da criança e se manifesta por ações, gestos ou olhares. 3 - CLASSIFICAÇÃO DOS MÉTODOS DE ENSINO DA LEITURA E ESCRITA Método é o caminho para se atingir um objetivo. No cotidiano, ele está sempre perseguindo objetivos. Mas estes não se realizam por si mesmos, sendo necessária a atuação do professor, ou seja, a organização de uma seqüência de ações para atingi-los. Os métodos são, assim, os meios mais adequados para alcançar objetivos, requerendo o conhecimento de princípios e diretrizes, métodos, procedimentos e formas organizativas na direção do processo de ensino e de aprendizagem. Podemos dizer, então, que os métodos de ensino são as ações do professor pelas quais são organizadas as atividades de ensino para atingir objetivos do trabalho docente em relação a um conteúdo específico. Eles regulam as formas de interação entre o ensino e a aprendizagem, entre o professor e os alunos, cujo resultado é a construção de conhecimentos e o desenvolvimento das capacidades cognitivas e operativas dos alunos. Assim, a escolha e organização dos métodos de ensino devem corresponder à necessária unidade objetivos - conteúdos - métodos, às formas de organização do ensino e às condições concretas das situações didáticas. A escolha e a elaboração dos métodos de ensino têm como objetivo principal permitir e facilitar a aprendizagem da leitura e da escrita. Esse objetivo, porém, nem sempre foi alcançado e, como conseqüência, encontramos uma grande variedade de métodos e defensores de cada um. 3.1 - Método sintético Esse método baseia-se na concepção de que o ensino da leitura e da escrita deve começar pelos elementos que compõem a palavra: SONS, LETRAS e SÍLABAS. E à medida 39 que estes elementos vão sendo aprendidos, passam a ser combinados em unidades lingüisticas maiores, levando o aluno a formar sílabas, palavras e unidades maiores. Dentre outros, três processos são decorrente desse método: o alfabético, o fonético e o silábico. 3.1.1 - Processo Alfabético Iniciando pelo caminho das letras do alfabeto, este processo deu origem ao termo alfabetizar. Foi o primeiro processo empregado universalmente na aprendizagem da leitura. O processo alfabético, ou ABC, é, também, conhecido por soletração porque consiste em memorizar os nomes das letras do alfabeto. De início, o aluno aprendia o nome e a forma das letras em sua ordem alfabética. Depois, aprendia as combinações, formando sílabas e, depois, palavras. 3.1.2 - Processo Fônico Nesse processo, o aluno deve conhecer os fonemas, ou seja, os sons representados pelas letras ou grupo de letras (lh, nh, ch) e combiná-los formando sílabas, palavras e, finalmente, frases. A forma mais simples de se trabalhar o processo fônico consiste em apresentar as letras e os sons que lhes correspondem, geralmente começando pelas vogais e combinando-as, como, por exemplo: ai, oi, ei. Em seguida, as vogais são combinadas com as consoantes, como: da, de, di, do, du; ba, be, bi, bo, bu, etc. Já a pronúncia dos sons consonantais, isoladamente, além de ser difícil, traz uma outra dificuldade: a falta de interesse. Segundo alguns estudiosos a repetição de sons sem sentido, adormece a capacidade de compreender o que foi lido. Para superar essa falha, foram introduzidos alguns recursos. Um desses é o uso de figuras de animais ou pessoas que, em determinadas situações, produzem o som que se deseja sugerir. Exemplo: o som do zumbido de uma abelha: zzzzz, para mostrar o som representado por essa letra; o espanto de uma pessoa: ah, para mostrar o som da vogal a. Tanto o método alfabético como o fonético, de certa forma, estão apoiados numa teoria associacionista e consistem em começar com percepções elementares. 40 3.1.3 - Processo Silábico É um outro processo sintético, que parte das sílabas para as palavras, das palavras para as frases. Difere dos processos alfabético e fônico, por ser a sílaba a unidade fonética estabelecida como ponto de partida do ensino da leitura. Quando se ensina por esse processo, inicia-se com um treino auditivo, em que o aluno percebe que as palavras são formadas por estruturas silábicas simples (sílabas constituídas por consoante e vogal, tais como: ba, be, bi, bo, ,bu; la, le, li, lo, lu) , ou por sílabas mais complexas (sílabas constituídas por consoante, consoante, vogal: bla, ble, bli, blo, blu; consoante, vogal, consoante: bar, ber, bir...) Comumente, começa-se o ensino da leitura pelas vogais, com a ajuda de ilustrações e palavras. Para o estudo da vogal a, por exemplo, toma-se a palavra ave e uma gravura correspondente; para o estudo da vogal e, utiliza-se uma palavra com esta inicial, elefante, e uma gravura que represente a palavra. Procede-se dessa forma com as demais vogais. Em seguida, fazem-se exercícios de juntar cada vogal às diversas consoantes ( ba, be, bi..., da, de, di... ). Um aspecto a observar é a não-permanência da palavra-chave (apoiada na gravura). Após as sílabas serem destacadas, iniciam-se novas combinações, formando outras palavras. 3.1.4 - Comentários sobre os processos do método sintético Os processos do método sintético têm características bem distintas. Esses processos empregam o raciocínio indutivo, isto é, marcham da parte para o todo: têm como base psicológica uma das tendências que explicam o processo de aprendizagem. No caso da alfabetização, o método sintético está baseado na associação dos elementos (letra, som, sílaba). Do ponto de vista lingüístico, esses processos não partem de unidades significativas da língua e, conseqüentemente, podem conduzir ao desinteresse. Esse método chegou a ser visto, por muitos autores, como uma tortura para o aluno, principalmente no que concerne ao processo alfabético. O processo fônico traz dificuldade quanto à emissão dos sons das consoantes. Para alguns autores, o exercício fonético apresenta ruídos estranhos, assemelhando-se, às 41 vezes, a mugidos, grasnidos, etc. Muitas vezes, o nome da letra não correspondente ao som que deve ser emitido. Ex. f, j, etc. É importante a realização da análise estrutural da palavra, ou seja, a percepção dos sons dentro da estrutura sonora da palavra, como forma de superar as deficiências do método fonético, indo além do conhecimento das combinações da consoante e vogal. É importante observar, também, que uma mesma letra pode representar diferentes fonemas (sons). Por exemplo: BOLO E BOLA; CASA E SAPATO. Essas diferenças sonoras, evidenciadas conforme o contexto lingüístico, constituem dificuldades para o recémalfabetizado. Inicialmente, quando o aluno diz o nome da letra ou pronuncia, isoladamente, sílaba por sílaba, sua atenção está voltada para o reconhecimento da palavra, podendo ocorrer prejuízo na compreensão da leitura. Isso poderá interferir no desenvolvimento da habilidade de captar a idéia contida nas palavras, frases e textos. Com respeito aos processos alfabético, fônico e silábico, vale destacar: limitam o campo visual do aluno, prejudicando a velocidade e o ritmo da leitura; isso porque o aluno ao ler tende a perceber unidades menores, como as sílabas e as palavras, e não um todo maior, como as frases , textos. O grande número de pausas em decorrência desse tipo de leitura pode, em muito, quebrar a seqüência lógica das idéias, prejudicando a compreensão do texto; dão ênfase à leitura mecânica, à medida em que se ocupam mais no reconhecimento da representação gráfica; estão em desacordo com os princípios psicológicos da aprendizagem da totalidade, porque os elementos são apresentados, antecipadamente, antes que o aluno tenha percebido a situação em conjunto. Os processos sintéticos sobrecarregam a memória dos alunos nos primeiros estágios com unidades pouco significativas (letras, sons, sílabas), correndo o risco de desmotivação do aluno ou de torná-lo um leitor mecânico. 3.2 - Método analítico Caracterizam-se por iniciarem o processo de alfabetização partindo de unidades significativas da língua, ou seja, de palavras, frases, parágrafos ou textos. A criança deverá primeiro, ser capaz de perceber globalmente cada elemento significativo e, só depois, sua 42 atenção poderá vir a ser conduzida para as unidades. Dos métodos analíticos decorrem os seguintes processos, dentre outros: palavração, de sentenciação, do conto. 3.2.1 - Processo de Palavração Começa a leitura de uma palavra-chave e chega às sílabas. A palavra é trabalhada até que o aluno a reconheça numa lista de palavras. Em seguida, é apresentada ao aluno uma outra palavra-chave, que será comparada à primeira. A segunda palavra deve ser tão diferente que o aluno, mesmo tendo um ritmo de aprendizagem mais lento, perceberá que as duas palavras são distintas, podendo reconhecer a diferença entre ambas em pouco tempo. A letra inicial da segunda palavra deve ter o traçado bem diferente da primeira. Aconselha-se, no primeiro momento, a não trabalhar letras de perfis semelhantes, como m/n, p/b, g/p... Além do contraste gráfico, há de se levar em conta o contraste sonoro, evitando a proximidade de letras que representam os sons: p/b, d/t, f/v, g/z no estudo das palavras-chave. Não constituirá problema se a segunda palavra tiver o número de sílabas maior que o da primeira, pois isso ajudará o aluno a desenvolver a habilidade de perceber o contraste. Um ponto de partida para verificar se o aluno está acompanhando o processo de alfabetização é observar se ele reconhece que a palavra é formada de sílabas. O professor apresenta a primeira sílaba da primeira palavra, por exemplo, “vida”, e chama a atenção para a sílaba vi, como sendo parte da palavra. Em seguida, a sílaba é remetida de novo à palavra-chave. Com esse procedimento, o professor está utilizando a análise e a síntese. Em seguida, o professor faz o mesmo com a primeira sílaba da segunda palavrachave “lagoa”, chamando a atenção para a parte la da palavra lagoa. O contraste das duas sílabas vi-la ajuda na sua fixação. Além de aprender que as palavras são compostas de partes, o aluno deverá ter experiência de ler uma frase. Tendo os alunos aprendido as sílabas vi (vida) e la (lagoa), eles combinarão essas duas sílabas, formando nova palavra: vila. A partir daí, o aluno poderá ler, por exemplo, uma frase do tipo: A lagoa é a vida da vila. 43 O ensino das sílabas é feito por analogia, ressaltando as diferenças, por meio de diagramas. Exemplo: v i d a v i l a D a v i l a g o a v i l a v i o l a D í v i d a a l a g a d o No Brasil, em geral, as cartilhas que utilizam a palavração o fazem de forma dirigida, apresentando a palavra-chave no alto da página. Logo abaixo, a mesma palavrachave vem escrita separada, em sílabas. Ainda nessa página, são apresentadas palavras formadas por sílabas já conhecidas e, às vezes, expressões e frases contendo palavras da lição e outras formadas de sílabas já estudadas. Essa forma de apresentar o conteúdo em cada página, dirige o trabalho do professor, no sentido de conduzir o aluno à análise e síntese. Na atualidade, há uma grande variedade de processos de palavração com diferentes adaptações. 3.2.2 - Processo de Sentenciação É um estágio mais avançado do método analítico. O processo da sentenciação parte da frase ou sentença para chegar a palavras, sílabas e fonemas. Para se ter uma noção de como é trabalhado o processo da sentenciação, apresentamos as fases que o caracterizam: De acordo com o interesse dominante da classe, lança-se uma frase ao quadro e procede-se à decomposição dessa frase em palavras, chegando-se à discriminação dos fonemas, da seguinte forma: - apresentação da sentença; - reconhecimento da sentença; - reconhecimento das palavras na sentença; - reconhecimento das palavras fora da sentença; - reconhecimento das sílabas nas palavras; - descriminação das sílabas; - composição – novos vocábulos e sentenças; - descriminação dos fonemas (não há preocupação em fixar fonemas). 44 3.2.3 - Processo do Conto O processo do conto ou historieta, concebido, inicialmente, por volta de 1910, marcou uma fase de intensa reação ao método sintético, principalmente contra o processo fonético. Trata-se de uma modalidade do processo de sentenciação. É um processo que apresenta a unidade de pensamento mais completa, levando em conta que as histórias têm início, desenvolvimento e fim. Inicialmente, os alunos ouvem uma história e, com a ajuda do professor, vão tecendo comentários e fixando a ordem em que aconteceram os fatos. Em seguida, o professor apresenta frases, resumindo a história. Para se conhecer melhor como é trabalhado o processo de conto, apresentamos as fases que o caracterizam: - apresentação dos personagens da história; - narração da história pelo professor e repetição pelos alunos; - leitura, pelo professor, de frases escritas no quadro, repetidas mentalmente pelos alunos; - leitura das frases, inicialmente, pelo professor e, em seguida, pelos alunos; - divisão e reconhecimento das frases pelo seu perfil; - cópia das frases pelos alunos; - reconhecimento das palavras que constituem as frases; - reconhecimento das sílabas; - formação de outras palavras; - exercícios de fixação (a partir do reconhecimento de frases e palavras). 3.2.4 - Comentários sobre os processos do método analítico É comum afirmar-se que os processos analíticos - palavração, sentenciação e, principalmente, o do conto - são de fácil motivação. Tal afirmação decorre do interesse / necessidade que o educando sente ao trabalhar com unidades de maior significação, como aquelas que constituem o ponto de partida nos referidos processos de alfabetização. Um dos princípios que fundamentam o método analítico ou global é o conceito de globalidade. 45 O outro princípio que fundamenta o emprego do método global ou ideovisual, como o próprio nome indica, é a possibilidade de se fazer uma leitura de idéias, e não somente de sinais gráficos, uma vez que a menor unidade com que se trabalha é a palavra, e essa, por si só, já encerra um significado. Vale ressaltar que a distinção entre método sintético e analítico ou global é válida para efeito didático, pois, na realidade, não existem processos que sigam rigorosamente um único método de alfabetização, numa marcha exclusivamente sintética ou analítica. 46 4 - O PLANEJAMENTO Planejar é projetar um futuro e as maneiras eficazes para concretizá-lo. É também, um projeto do futuro que busca contribuições no passado. Daí, conclui-se que o planejamento visa à ação, sendo um processo que exige tomada de decisões, tanto no seu início, como no decorrer dele. O planejamento sempre foi um instrumento importante para o ser humano, em qualquer tarefa da sua vida em sociedade. Planejar torna possível definir o que pretendemos alcançar a curto, médio e longo prazo, prever situações e obter recursos, organizar as atividades; dividir tarefas para facilitar o trabalho e avaliar. Se qualquer atividade humana exige um planejamento, a educação não foge dessa exigência. O planejamento educacional é uma tarefa que inclui tanto a prevenção das atividades em termos da sua organização e coordenação em face dos objetivos propostos, quanto a sua revisão e adequação no decorrer do processo. Nem sempre nos damos conta de como o planejamento está presente em nosso diaa-dia. E, no contexto educacional, o planejamento torna-se o melhor caminho na busca da construção de práticas educativas sintonizadas com as atuais necessidades dos alunos e da sociedade. Para muitos, o planejamento é o cumprimento de uma exigência burocrática de diretores e supervisores de ensino. Muitos professores reclamam do tempo que “perdem” elaborando um plano de trabalho e, muitas vezes, nem chegam a consultá-lo ao longo do ano. Um documento preparado com esse espírito, com certeza, não tem função no cotidiano, pois não atende a uma necessidade prática. O planejamento é condição de eficiência do trabalho docente, porque: a) evita a rotina e a improvisação; b) promove a eficiência do ensino, porque é condição essencial para o êxito de todo e qualquer empreendimento; c) garante a maior segurança na direção do ensino; d) garante economia de tempo e energia; e) dá segurança ao professor, permitindo-lhe melhor orientação do processo ensino/aprendizagem; f) permite a pré-organização dos trabalhos práticos; g) permite ao professor a verificação dos assuntos que precisam ser revisados; 47 h) serve de base para as conclusões quanto à eficiência da metodologia aplicada. O planejamento leva toda atividade ao sucesso. 4.1 - Planejamento de ensino Na área da Educação, há vários níveis de planejamento que variam de abrangência e complexidade. Destaca-se aqui, o PLANEJAMENTO DE ENSINO. O planejamento de ensino é a previsão das ações e procedimentos que o professor vai realizar junto a seus alunos, e a organização das atividades discentes e das experiências de aprendizagem. Esse planejamento é o que mais diretamente está ligado ao ensino, visando objetivamente a efetivá-lo. Representa, em última instância, um trabalho de reflexão sobre como orientar o ensino para que o educando efetivamente alcance os objetivos da educação, da escola, do curso, das áreas de estudos e disciplinas. 4.1.1 - Tipos de planos: a) Plano de Curso – é a previsão do que será ensinado e de como serão construídos os conhecimentos, habilidades e atitudes por certa clientela, durante um período letivo. Não é um plano detalhado, mas um esboço de linhas gerais que serão especificadas nos planos de unidade e de aula. Entretanto, deve necessariamente preestabelecer: os objetivos a serem atingidos; os conteúdos a serem trabalhados; as atividades docentes e discentes; as atividades extraclasse; os materiais didáticos; a avaliação. b) Plano de aula – consiste na especificação das atividades previstas para cada aula, a fim de desenvolver orgânica e harmoniosamente as atividades que constam do plano de curso. Fundamentalmente, o plano de aula contém: Informações gerais; 48 Objetivos; Pontos essenciais numa seqüência lógica e integrada; Tempo disponível; Formas de incentivação; Técnicas didáticas; Recursos didáticos. 49 PREFEITURA MUNICIPAL DE CABO FRIO Região dos Lagos – Estado do Rio de Janeiro Secretaria Municipal de Educação PARTE II Cabo Frio 2006 Prefeitura de 50 1 – PROPOSTA METODOLÓGICA ANALÍTICA NUMA PERSPECTIVA SOCIOINTERACIONISTA Os docentes que atuam nas 1as séries da Rede Municipal de Ensino de Cabo Frio deverão desenvolver, em suas unidades escolares, um trabalho pedagógico emanado nos princípios de uma proposta metodológica ANALÍTICA e a partir da teoria SOCIOINTERACIONISTA. Para tal, torna-se necessário que os profissionais repensem a prática pedagógica, traçando caminhos reais que permeiem e oportunizem o ensino da leitura e da escrita, o aguçar do senso crítico, a criatividade, a sociabilidade e a expressividade dos educandos, para que atuem com sabedoria e justiça no mundo em que vivem. Nessa proposta, a aprendizagem é construída a partir da interação social. O indivíduo aprenderá a ler e a escrever participando de situações e práticas sociais que propiciem esse aprendizado. No sociointeracionismo, considera-se a escola como espaço privilegiado que visa à melhoria da sociedade e que deve associar o ser cognitivo ao ser emocional, histórico e social. As relações dialógicas entre as crianças e entre o professor e as crianças traduzem um partilhar que promove a cooperação, o trabalho coletivo e a construção de novos conhecimentos. Além disso, tais elementos constituem momento primordial do processo pedagógico. A escola não pode cultivar o individualismo, pois precisa formar um grupo solidário, em que muitos ensinam e muitos aprendem. 1.1- Princípios norteadores do REDEALFA . Apropriar-se do que o aluno já aprendeu nas suas experiências vividas. Fazendo parte do universo existencial dos alunos, os conhecimentos a serem trabalhados serão mais plenos de sentido. A partir desses conhecimentos, será possível programar e oferecer atividades que permitam aos educandos continuar pensando e aprendendo. Cabe ao educador gerar uma ponte educativa entre os conhecimentos reais que o aluno traz e os conhecimentos que pode e precisa alcançar, ou seja, deve propiciar que o indivíduo amplie o conhecimento que já possui, passando assim a ter um novo conhecimento; 51 Ênfase na elaboração da fala, da escrita e da leitura , como instrumentos simbólicos que repercutem no desenvolvimento mental. Compreender e trabalhar o erro como parte do processo de aprendizado. Ele deve ser apontado para que a criança o corrija. O erro deve ser visto pelo professor como parte de processo ensino-aprendizagem e jamais deve ser ignorado. O ato de errar não deve ser encarado como incapacidade, mas como indicador de que certos conhecimentos precisam ser estimulados. A correção é importante para que o aluno perceba a necessidade de melhorar e dedicar-se mais aos conhecimentos que ainda não domina. Nesse sentido, o trabalho em grupo, além de estimular a interação social, pode ser um bom momento para o amadurecimento de idéias e aprimoramento dos conhecimentos. Entretanto, o contato individualizado entre professor e aluno não pode ser dispensado. Criar situações de brincadeiras a fim de que a criança possa ter uma gama de possibilidades que estimulem seu desenvolvimento e a própria interação social. Propomos que o educador aproprie-se da ludicidade no seu dia-a-dia, a fim de garantir o alcance dos objetivos traçados, de forma prazerosa para o aluno. É importante que se construa um ambiente estimulador que induza a exploração e a construção do conhecimento e que desperte a motivação interna. Desenvolver atividades em grupo. No seu dia-a-dia, o professor deve envolver-se e envolver seus alunos em trabalhos de equipe para que possam aprender com os colegas e crescer juntos. Os trabalhos em grupo exigem dos educandos intensa capacidade argumentativa e exercitam valores como tolerância e respeito às diferenças. Tão importante como saber argumentar é ter a capacidade de ouvir. Propiciar um ambiente estimulante. Para se desenvolver qualquer proposta metodológica em alfabetização, primeiramente o educador precisa criar na escola espaços alegres, coloridos, diferentes e desafiantes. É possível transformar a sala de aula num ambiente alfabetizador onde se incluem também materiais de leitura, mas é preciso que a ação docente se dê no sentido de provocar a interação cognitiva e lingüística a partir da exposição das crianças aos materiais e, mais que 52 tudo, às situações de apropriação da linguagem escrita. Escritos, experiências de leitura e produção da escrita devem estar em exposição, assim como as pesquisas da turma; O professor deve ter cuidado com a sua própria fala, clareza no discurso e a clareza que sua comunicação está partindo sempre da realidade dos seus alunos; Desenvolver atividades específicas, atendendo à Zona de Desenvolvimento Proximal de cada aluno; Ler, ouvir e contar histórias; A leitura de histórias tem particular importância para o desenvolvimento do vocabulário e para a compreensão de conceitos, bem como para o conhecimento da linguagem escrita dos livros. 1.2 – A questão do conhecimento No sociointeracionismo, o professor tem o papel de mediador entre o saber socialmente sistematizado e o saber do próprio aluno. Deve-se partir do conhecimento que o aluno já possui, de seus gostos e sua cultura, e ajudá-lo a ir até a cultura elaborada. Ou seja, partindo dos diferentes sentidos que os alunos atribuem ao tema tratado, o professor propicialhes uma maior oportunidade para que cheguem a compreendê-lo de fato. Isso se dá porque o novo conhecimento provoca uma reestruturação dos esquemas mentais anteriores, alternando qualitativamente a estrutura cognitiva do aluno. O docente alfabetizador, na função de mediador entre o sujeito e o objeto de conhecimento, deve explicar, dar informações, questionar, corrigir os alunos e fazê-los explicar. Vejamos o que isso significa: explicar e dar informações - é muito mais do que fazer uma mera exposição. É buscar na estrutura cognitiva dos alunos as idéias relevantes que servirão como ponto de partida para o que se quer “ensinar”. É caminhar a partir dessas idéias, ampliando os esquemas mentais já existentes, modificando-os ou substituindo-os por outros mais sólidos e abrangentes. Isso se dá através de 53 exemplificações, enriquecimentos, troca de informações, pesquisas, entre outros; questionar e corrigir o alunos - é verificar se a fala foi compreendida e corrigir os erros que porventura ocorrerem. É um processo dinâmico, construído passo a passo pelos alunos em estreita interação com o professor. Vale ressaltar que, em termos cognitivos, o questionamento e a correção, por parte de quem ensina, desempenham um relevante papel na aprendizagem. Conhecendo seus alunos, o professor fará perguntas que irão provocar o desequilíbrio na sua estrutura cognitiva, fazendo-a avançar no sentido de uma nova e mais elaborada reestruturação; fazê-los explicar - - é o ponto alto de todo o processo. Fazendo o aluno explicar, o professor pode detectar se o que está sendo feito é uma aprendizagem real ou não. Ao ver seu aluno expor com suas próprias palavras o assunto tratado, conseguindo perceber possíveis relações com outros temas, exemplificando com dados tirados do seu cotidiano ou fazendo generelizações, o professor pode ter a certeza de que, naquele momento, o que se construiu em sala de aula foi uma verdadeira e significativa aprendizagem. O professor alfabetizador tem de manter uma estreita interação com os alunos. Formular questões, pedir exemplos, apresentar problemas de uma maneira nova, evitar a rotina, a cópia de modelos, enfim, usar recursos que levem os alunos a pensar e trabalhar mentalmente o conhecimento são exemplos de como deveria se dar essa interação. Através de sua ação mediadora, o professor orienta o processo pedagógico no sentido de favorecer a interação entre as crianças e, através dessa interação, desenvolver suas capacidades de investigação, observação e experimentação. Além de desenvolver também a curiosidade, o que permite às crianças realizar novas descobertas. 1.3 - A questão dos conteúdos, dos objetivos, da metodologia no REDEALFA Nessa proposta, não há de modo algum esvaziamento de conteúdos. A grande mudança está na postura do educador, no como se tornar um facilitador, estimulador, 54 colaborador, mediador, provocador de situações e orientador da (re)construção do conhecimento de seu educando. Para alcançar os objetivos traçados, o professor deverá organizar o processo de construção da leitura e da escrita de forma sistemática e metodológica. Magda Soares ressalta em seu texto “A invenção da Alfabetização” que não se pode ignorar ou menosprezar a especificidade da aquisição da técnica da escrita. Educação é por definição, um processo dirigido a objetivos. Se existem objetivos, temos de caminhar para eles e, para isso, temos de saber qual é o melhor caminho. Então, de qualquer teoria educacional tem de derivar uma metodologia, um caminho. (SOARES, 2003, s/l/d). E também esclarece a autora: ...devemos porém ter muito cuidado ao escolhermos uma metodologia, pois voltar para o que já foi superado não significa que estamos avançando. Avançamos quando acumulamos o que aprendemos com o passado, juntando a ele as novidades que o presente traz. A mudança não deve ser um retrocesso, mas um avanço. (SOARES, 2003, s/l/d). Cabe ao professor e à cada Unidade Escolar buscar uma metodologia a partir dos princípios emanados nesse Referencial e da proposta político-pedagógica da escola. Sabe-se que é fundamental para a educação buscar o “caminho”, o “como” fazer para se alcançar um determinado objetivo. Portanto, para efetivar essa proposta de alfabetização, o professor deve desenvolver seu trabalho nos OBJETIVOS, CONTEÚDOS e numa METODOLOGIA caracterizada por ações, práticas pedagógicas conscientes e coerentes com o REDEALFA. 55 2 – OBJETIVOS PARA AS 1as SÉRIES 2.1- Objetivos Gerais Sistematizar a língua escrita propriamente dita com o objetivo de aprimorar as construções elaboradas pelos alunos, referentes à estrutura dos textos em si e à ortografia das palavras, evidenciando sua função social Dominar a língua escrita: ler com fluência, expressividade e compreensão na busca do conhecimento; Saber expressar-se de diferentes maneiras, ou seja, usar a linguagem oral e escrita adequadas a cada ambiente: a coloquial, em situações de intimidade; ou a formal, que utiliza a norma culta (valorizada socialmente); Possibilitar à criança descobrir o sentido da escrita a partir dos mais variados tipos de texto (receitas, imagens, bulas de remédio, cartas, revistas, anúncios entre outros); Desenvolver atitudes favoráveis à leitura; Possibilitar à criança experiências em que possa comparar, experimentar, estabelecer relações, criar e trocar hipóteses para que possa (re) construir os conceitos matemáticos; Desenvolver na criança uma nova postura diante da relação homem-natureza, mostrandolhe que a diversidade de fatores permite a dinâmica de vida da natureza se estabeleça; Estimular a criança a observar, investigar, explorar e criar hipóteses sobre o porquê das “coisas” e dos fenômenos que estão ocorrendo ao seu redor; Permitir à criança construir a noção de vida em sociedade feita a partir das vivências e experiências concretas, associando-se o vivido ao conceitual e a vida cotidiana à vida escolar como um todo; Desenvolver na criança a percepção de sua inserção social, distinção entre outras e localização no seu contexto, construindo sua identidade social e cultural; Explorar as diferentes culturas existentes, conhecendo suas manifestações, reconhecendoas e respeitando-as; Propiciar a construção da identidade social, desenvolvendo sua capacidade crítica para o exercício pleno de sua cidadania; Garantir a apropriação da realidade e do saber universalmente produzido; Expressar-se por meio das artes mantendo uma busca individual e coletiva, integrando a reflexão, a sensibilidade, a emoção, a percepção e a imaginação; Relacionar sua manifestação artística à produção histórico-social em sua diversidade. 56 2.2- Objetivos específicos de Língua Portuguesa LÍNGUA PORTUGUESA Objetivos 1ª Nível 1 Compreender diferenças entre a escrita alfabética e outras formas gráficas (letras e desenhos, letras e rabiscos, letras e números, letras e símbolos gráficos como setas, asteriscos, sinais matemáticos, entre outros; X Conhecer e utilizar diferentes tipos de letras; X Conhecer e contextualizar as letras do alfabeto, dominando as relações entre grafemas e fonemas; X Dominar convenções gráficas: compreender a orientação e o alinhamento da escrita da língua portuguesa, compreender a função de segmentação dos espaços em branco e da pontuação de final de frases; X Reconhecer unidades fonológicas terminações de palavras, entre outros; X como sílabas, rimas, Saber decodificar e ler, reconhecendo globalmente as palavras; 1ª Nível 2 X X X Dominar as relações fonemas e grafemas presentes na nossa língua; X X Reconhecer diferenças entre a língua oral e a língua escrita em busca da escrita ortográfica; X X Reproduzir ou recriar textos lidos individualmente ou em grupo; X X Reconhecer conteúdos de textos diversos a partir das ilustrações, da diagramação e do conhecimento que tenha sobre o gênero; X X X X Participar efetivamente de situações de comunicação oral, expressando e ouvindo opiniões; X X Buscar informações no texto para interpretar, compreender e posicionar-se frente a ele. X X Ler oral e silenciosamente; 57 2.3 – Conteúdos básicos de Língua Portuguesa Alfabeto - Diferentes tipos de letras; - O emprego das letras em diversos contextos que envolvam a escrita; - O emprego das letras minúsculas e maiúsculas de forma contextualizada; - Correspondência letra/som; - Ordem alfabética; O trabalho com o alfabeto acompanha todo o processo de alfabetização, isto é, o educador deve se conscientizar de que esse trabalho é contínuo, não se encerrando num primeiro momento do aprendizado. Ampliação da linguagem oral e escrita - Práticas de leitura: leitura de nomes, palavras, símbolos, imagens; - Leitura de diferentes gêneros de texto; - Leitura, compreensão e interpretação de material lingüístico variado; - Reconhecimento das várias estruturas de linguagem a partir da diagramação, da ilustração e do conhecimento sobre o gênero; - Ampliação e (re) construção do vocabulário oral e escrito; - Diferenciação entre desenho e escrita; - Função social da escrita e seus diferentes usos (livros, cartas, convites, bilhetes...); - Escrita espontânea: individual e coletiva; - Escrita com letra minúscula e maiúscula; - Produção textual individual e/ou coletiva; - Reescrita de textos; - Pontuação; - Sinais gráficos; - Escrita alfabética e ortográfica de palavras e textos. 58 2.4 – Objetivos específicos de Matemática MATEMÁTICA Objetivos 1ª Nível 1 1ª Nível 2 Desenvolver as noções de classificação, seqüência (seriação e ordenação) e correspondência que contribuem na formação do conceito de número; X X Interpretar e produzir escritas numéricas, levantando hipóteses sobre elas, utilizando-se da linguagem oral, de registros informais e da linguagem matemática; X X Resolver situações-problema e construir, a partir delas, os significados das operações fundamentais; Desenvolver procedimentos de cálculo mental, escrito, exato e aproximado; X X X X Refletir sobre a grandeza numérica, utilizando diferentes instrumentos para produzir e analisar escritas; X X Desenvolver as noções espaciais e geométricas, identificando relações de posição entre objetos; X X Reconhecer grandezas mensuráveis (comprimento, massa, capacidade, tempo, temperatura) e não-padronizadas; X X X X Utilizar instrumentos de medida, usuais ou não-usuais. 2.4– Conteúdos básicos de Matemática Agrupamentos e reagrupamentos; Agrupamentos de base decimal: unidades e dezenas; Dúzia e meia dúzia; Relações numéricas (par e ímpar/ dobro e metade); Formas geométricas (linhas retas e curvas, retângulo, quadrado, triângulo, círculo); Simetria; Noções topológicas (região, fronteira, vizinho e limite); Números e numerais: conceito de número e numeral; 59 Função do número: código, quantidade, medida e ordem; Composição e decomposição de numerais; Contagem e escrita numérica: a) Seqüência numérica igualdade e diferença; antecessor e sucessor; ordem crescente e decrescente; maior/menor b) Classificação organização de classes de elementos, segundo vários atributos; pertinência; inclusão de classes; Noções de grandezas (comprimento, altura, distância e peso); Sistema Monetário; Medidas de tempo (hora exata, meia hora, dia, semana, mês, ano); Horário de verão; Gráficos e tabelas; Resolução de situações-problema e desafios matemáticos; Conceitos de adição e subtração: cálculo mental e sistematização; Conceitos de multiplicação e divisão (noções básicas); Instrumentos de orientação espacial e temporal: calendário, relógio, mapas... 60 2.6 – Objetivos específicos de Ciências CIÊNCIAS Objetivos 1ª Nível 1 1ª Nível 2 Desenvolver sentimentos de valorização e respeito por si mesmo e por todos os seres vivos do ambiente; X X X X Compreender as transformações que ocorrem no seu corpo e no corpo dos outros seres vivos; X X Perceber que os órgãos dos sentidos recebem estímulos ambientais; X X Comparar os objetos feitos pelo homem e os materiais do ambiente natural; X X Perceber a diversidade de materiais e recursos na natureza; X X Estabelecer relações entre as transformações de diferentes materiais do meio e a tecnologia desenvolvida pelo homem; X X Perceber os movimentos realizados pelo próprio corpo; 2.7 – Conteúdos básicos de Ciências A criança e a saúde - Identificação e reconhecimento do próprio corpo; - Exploração dos sentidos; Diferenças e semelhanças entre o corpo de meninos e meninas; Cuidados com o corpo; Prevenção de acidentes; Prevenção de doenças; Valorização de atitudes relacionadas à saúde e ao bem –estar individual e coletivo; Fases do desenvolvimento humano; 61 A criança e o Meio Ambiente - Interação com o meio; - A diversidade de ambientes (semelhanças e diferenças); - Vegetais (caracterísitcas, habitat, cuidados e importância); - Animais (características, habitat, cuidados e importância); - Noções sobre preservação dos seres vivos e do ambiente mais próximo em que vive; - Identificação dos recursos naturais (água, ar e solo). 2.8 – Objetivos específicos de História HISTÓRIA Objetivos 1ª Nível 1 1ª Nível 2 Situar a criança no tempo e no espaço; X X Promover o processo de auto-conhecimento na criança; X X Situar a criança no âmbito das suas relações imediatas; X X X X X X X X X X Desenvolver o respeito à individualidade e às diferenças culturais nas diferentes épocas; Perceber os vários espaços de ocupação humana; Promover a discussão sobre a evolução dos costumes e ambientes; Comparar os modos de vida dos diferentes lugares. 2.9 – Conteúdos básicos de História Identidade - Nome e sobrenome; História do nome; A criança no contexto familiar e os diferentes modelos de família; Documentos de registro (certidão e fotos); Os espaços do cotidiano - Família (costumes e valores, vida cotidiana de cada família, o “espaço” da criança na família, festas e rituais de passagem na família); 62 - Escola: história, localização, endereço e vizinhança; - Bairro; - Cidade; Vida Cidadã - O respeito ao outro; - Desenvolvimento do espírito coletivo; - Construção e vivência de normas e relação social; Cultura popular e manifestações folclóricas; Exploração dos recursos culturais do município; A evolução humana e suas invenções; Fatos históricos importantes (visão crítica). 2.10 – Objetivos específicos de Geografia GEOGRAFIA Objetivos Identificar os elementos naturais (do ambiente) e culturais (socialmente construídos); Identificar diferentes paisagens; 1ª Nível 1 X 1ª Nível 2 X X X X X Reconhecer seu próprio saber sobre o meio natural e social, interessando-se por enriquecê-lo; X X Desenvolver atitudes politicamente corretas com relação à preservação do ambiente; X X Observar, descrever e representar espaços conhecidos e diferentes paisagens; X X Aprimorar a capacidade de se deslocar no espaço e de representá-lo; X X Estimular as diferentes manifestações culturais e regionais. X X Conhecer limites e detalhes do espaço; 2.11 – Conteúdos básicos de Geografia Organização e orientação espaço-temporal: - Localização do corpo no espaço; 63 - Organização das paisagens; - Noções de cartografia: plantas, legendas e maquetes; - Noções de perspectiva e distância; - Pontos de referência; - Relações de seqüênciação (manhã, noite, tarde, ontem, hoje e amanhã); - Orientação através do Sol; - Instrumentos de medição do tempo; - Linha de tempo. Educação para o trânsito; Transportes; Formas de Comunicação; Trabalho (o trabalho e suas formas de organização/instrumentos de trabalho/profissões); Vida cidadã: - O respeito ao outro; - Desenvolvimento do espírito coletivo; - Construção e vivência de normas de conduta e relação social. Moradia: exploração do espaço físico (tipos de moradia, objetos de uso da casa, serviços necessários ao funcionamento da casa, materiais usados na construção dos diversos tipos de casa). 2.12 – Objetivos específicos de Educação Física EDUCAÇÃO FÍSICA Objetivos Desenvolver a criança de forma global numa perspectiva de desafios corporais; 1ª Nível 1 X 1ª Nível 2 X X X X X Aumentar os espaços para a compreensão de temas raciais e discriminatórios nos jogos; X X Formar a consciência histórica e corpórea, da representação corporal de gênero e da linguagem do aluno em cada contexto social; X X Destacar conceitos formadores comuns a todas as ações fundamentais na evolução humana até as expressões corporais como teatro e dança; Priorizar a solidariedade nas práticas corporais sócio-motrizes; 64 2.13 – Conteúdos básicos de Educação Física Esquema corporal; Consciência corporal; Controle do corpo; Imagem corporal; Orientação espaço-temporal; Estruturação espaço-temporal; Expressão corporal; Expressão geral; Equilíbrio; Coordenação viso-motora. 2.14 – Objetivos específicos de Artes ARTES Objetivos Descobrir sons do próprio corpo e do ambiente como elementos da linguagem musical; Descobrir por meio da percepção, movimentos e ritmos individuais e coletivos como elementos da linguagem corporal; 1ª Nível 1 X 1ª Nível 2 X X X Comparar sons, movimentos corporais, vozes humanas e sons da natureza e expressá-los através da linguagem visual, musical e corporal; Explorar experiências perceptivas por meio dos sentidos; X X X X Perceber formas e imagens através dos sentidos e recriá-las por meio da imaginação, fazendo uso de materiais diversos; X X Experimentar diferentes formas de locomoção, deslocamentos, níveis, planos, dimensões e expressá-las; X X Estinular o uso dos elementos formadores do universo no processo de sensibilização, ordenação e criação de imagens, gestos, sons e ritmos; X X Registrar visualmente através de diferentes materiais, as sensações obtidas no contato com os elementos formadores do universo; Participar expressivamente de jogos interativos, interpretandoos através de símbolos e imagens; X X X X Explorar o folclore como fonte de conhecimento, identificandoo culturalmente; X X 65 2.15 – Conteúdos básicos de Artes Cantigas de roda; Músicas tradicionais e clássicas; Expressão corporal de sentimentos, afetividade e verbalização; Jogos simbólicos (“faz de conta”); Percepção da variedade de ritmos e sons, buscando a exploração da voz; Leitura da arte, imagem real e virtual. Linguagem, simbolismo, movimentos artísticos e folclóricos; Cor, textura, forma, linha, espaço, luz e sombra; Representações visuais: - Pintura; - Modelagem; - Colagem; - Montagem (noções de planificação); - Desenho como ilustração do texto escrito e expressão autônoma. De acordo com Mairce da Silva Araújo (2003): Uma escola comprometida com as crianças das classes populares tem como uma de suas principais tarefas responder ao desejo da criança de aprender, construindo para isso um ambiente desafiador e significativo.Em tal ambiente, a escrita aparece plena de sentido, cumprindo sua função social, possibilitando que novos conteúdos de alfabetização, que se afinem com essa concepção, reafirmem a escola como um espaço de construção/reconstrução de conhecimento. Os conteúdos de alfabetização passam a ser infinidade de questões e indagações que a criança traz para a escola para dar conta de sua necessidade de construir/reconstruir conhecimentos sobre o mundo, a sociedade, a natureza e sobre si mesma. Conteúdos que possibilitem articular no trabalho pedagógico a realidade sociocultural das crianças, as características do desenvolvimento infantil e que também garantam o acesso aos conhecimentos acumulados historicamente pela humanidade. (GARCIA, 2003, p.102.) IMPORTANTE! Professor: relacionamos a seguir alguns conteúdos a serem trabalhados nas 1as séries níveis 1 e 2. Outros conteúdos poderão ser destacados, dependendo do interesse da sua turma sobre um determinado tema. A organização, seqüência, abordagem e aprofundamento dos conteúdos dependem da sua análise em relação ao conhecimento que seus alunos possuem 66 3 – O PLANEJAMENTO Para a efetivação deste REFERENCIAL de alfabetização, além da elaboração do PLANEJAMENTO ANUAL, o professor deverá se ORGANIZAR semanalmente da seguinte forma: O professor alfabetizador, que atua nas escolas da rede municipal de ensino de Cabo Frio, para planejar adequadamente suas atividades de ensino, precisa conhecer a realidade em que irá atuar, levando em conta as necessidades e expectativas da clientela escolar, as peculiaridades da comunidade, os recursos humanos, físicos e materiais que tem ao seu dispor, a organização do tempo e, principalmente, os princípios teóricos que norteiam este Referencial de Alfabetização. Uma vez ciente dos princípios educacionais que norteiam a alfabetização no nosso município, expressos nesse programa, cabe ao professor planejar as atividades que irá desenvolver com seus alunos, visando aos objetivos, emanados numa linha metodológica analítica e na teoria sociointeracionista . Esse planejamento deve estar diretamente ligado ao ensino/aprendizagem da leitura e escrita, visando a sua apropriação. Tal planejamento representa um trabalho de reflexão e acompanhamento sobre o processo, para que o educando efetivamente alcance os objetivos traçados. 3.1 - Planejamento semanal O docente que atua nas 1as séries nível 1 e 2 deverá elaborar o seu planejamento semanalmente. Esse planejamento consiste na especificação dos conteúdos, procedimentos, recursos didáticos e humanos e formas de incentivação previstos para cada semana de trabalho, que serão especificados como desenvolvimento das ações e deverão garantir, numa seqüência lógica e integrada, as propostas que constam desse Referencial. O planejamento semanal deve ser claro e preciso, isto é, os enunciados devem apresentar indicações bem exatas e sugestões bastante concretas para o trabalho a ser realizado. Ele deve, também, ser flexível, dando margem a possíveis reajustamentos sem quebrar a unidade e a continuidade, podendo ser alterado quando se fizer necessário. 67 Algumas atividades e procedimentos devem ser permanentes no planejamento, constituindo a rotina semanal, pois contribuirão para a eficácia desse Referencial. São elas: atividades lúdicas; trabalhos em equipe; atividades interdisciplinares; leitura de textos diversos; produção e/ou reprodução de textos coletivos e/ou individuais; escrita espontânea; Atividades para casa; Atividades artísticas; Análise estrutural de textos, frases, palavras, sílabas; Recursos materiais; Ambiente alfabetizador. 3.1.1 - Educação lúdica Considera-se que o “brincar” numa instituição educativa pode possibilitar uma amplitude de descobertas e soluções, pois, no brincar, podemos interagir o aluno aos conteúdos escolares . É importante salientar que, no universo escolar, a ludicidade deve contribuir para tornar o processo educativo mais agradável. Os trabalhos de Henri Wallon contribuíram enormemente para a definição da educação lúdica. Para este teórico, ao brincar, incorporam-se ao cérebro, por meio dos sentidos, impressões verdadeiras que vão aflorar no desenvolvimento cognitivo. O meio ambiente precisa estimular tanto a atividade mental como a emocional. O aluno não deve meramente passar pela escola. Essa etapa precisa ter significado para ele. A escola de hoje precisa ser ativa, isto é, deve mobilizar a atividade da criança. Com esse fim, poderá tirar partido de uma metodologia em que o lúdico esteja presente, estimulando ao máximo a atividade do educando, pois a ludicidade é uma necessidade efetivamente humana, uma vez que eleva os níveis de uma boa saúde mental. Por outro lado, o desenvolvimento de atividades lúdicas na escola pode ser visto como sinalização de um estado interior fértil, saudável, disponível para cooperar, para imitar, criar e recriar num processo contínuo de interação. 68 É indispensável que a escola seja para o aluno um espaço alegre. Todos clamam por um mundo melhor e mais agradável para se viver em grupo e é através da inclusão do lúdico no contexto escolar que estaremos oferecendo um espaço para que todos desempenhem papéis ligados a um processo mais feliz, de cooperação na vida social. 3.1.2 - Trabalhar em equipe A proposta pedagógica de se trabalhar em equipe privilegia o desenvolvimento das habilidades de trato social, o aumento da capacidade de aprendizado, da autoconfiança pessoal e da confiança no grupo. Além disso, promove melhores técnicas de raciocínio e pensamento nos estudantes, permitindo que o processo de aprendizagem se torne mais rico e motivador. Também estimula o desenvolvimento da expressão dos alunos, permitindo que estes expressem melhor suas idéias, justifiquem suas opiniões, argumentem e debatam. Através do trabalho em equipe, o estudante poderá contar com outras pessoas para apoiar a sua aprendizagem. Ao propor atividades em grupo à sua classe, o professor estará favorecendo que crianças aprendam a respeitar, a ajudar e a receber ajuda, a cooperar e a compreender os demais. 3.1.3 – Interdisciplinaridade O homem é um ser complexo, integral e a escola precisa compreender e trabalhar essa realidade. O aluno não é ora Português, ora Matemática, ora Ciências, ora Arte.... Não podemos separar as disciplinas em “gavetas”, como se não houvesse uma interdependência entre elas. A interdisciplinaridade é uma prática pedagógica que busca evitar a diluição das disciplinas em generalidade, pois todo conhecimento mantém um diálogo permanente com outros conhecimentos. Por isso, muitos conteúdos educacionais se identificam e se aproximam. É importante enfatizar que a interdisciplinaridade supõe um eixo integrador entre os conteúdos educacionais. Nesse sentido, ela deve partir da necessidade sentida pelo 69 professor e alunos de explicar, compreender algo que desafia uma disciplina isolada e atrair a atenção de mais de um olhar, talvez vários. 3.1.4 - A prática de ler textos diversos Segundo Ana Teberosky e Teresa Colomer (2003), numerosos estudos têm mostrado que, ao compartilhar a leitura de um livro com as crianças, não apenas se cria uma atividade prazerosa, mas também se organiza um importante momento de aprendizagem. Com essa atividade, as crianças aprendem que a linguagem dos livros tem suas próprias convenções e que as palavras podem criar mundos imaginários para além do aqui e agora. As leituras em voz alta para as crianças pequenas permitem que elas escutem, olhem, perguntem e respondam. São meios para que entendam as funções e a estrutura da linguagem escrita, e possam vir a ser, também, uma ponte entre a linguagem oral e a linguagem escrita. Sugerimos a seguir algumas práticas pedagógicas que poderão apoiar o trabalho com leituras: incluir a leitura como parte das rotinas escolares, de modo que a criança saiba onde sentar, o que fazer, como se comportar; se possível, preparar um lugar confortável e alegre na sala de aula; escolher as histórias segundo critérios de extensão, ritmo, nível de vocabulário e de conceitos; preparar a leitura com apresentações sobre o conteúdo, o título e o autor; envolver as crianças em perguntas e discussões; estimular a reconstrução oral; propor a reescritura do texto-modelo; colocar os livros ao alcance das crianças e promover a possibilidade de escolha, para que desenvolvam suas preferências; estimular o empréstimo e a regular circulação de livros de títulos diversos; Para se obter uma leitura interativa, o professor deve tentar fazer com que as crianças entrem no mundo do texto, que participem da leitura de muitas maneiras: olhando as imagens enquanto o professor lê o texto, aprendendo a reproduzir as respostas verbais, imitando, memorizando histórias. Ao escutar a leitura, as crianças aprendem que a linguagem escrita pode ser reproduzida, repetida, citada e comentada. (TEBEROSKY e COLOMER, 2003.) 70 3.1.5 - Produção de textos tendo o professor como escriba Quando o professor desempenha o papel de escriba, as crianças aprendem a participar como produtoras de textos, aprendem a ditar para que o outro produza um texto escrito. Ditando um texto e assistindo ao ato de escrita e de leitura, as crianças aprendem muitas coisas sobre a relação entre a escrita e a leitura, entre a linguagem oral e a escrita, bem como também aprendem a produzir (ou reproduzir) discursos extensos e coerentes. Aprendem a selecionar o conteúdo do texto e a ditar, a ajustar o que está escrito ao que se lê, a relacionar o que se disse, o que se escreveu e o que, efetivamente, se lê. Desempenhando o papel de escriba, o professor ajuda as crianças a diferenciar entre dizer e dizer para ser escrito (em termos de conteúdo), a controlar a extensão da emissão ditada, a repetir de forma literal, a recuperar a ordem seqüencial da emissão, a diferenciar entre o “já está escrito” e o que “ainda não está escrito” , enfim, a ajustar o oral e o escrito. (TEBEROSKY e COLOMER, 2003.) Sugerimos aqui que, no início da alfabetização, a própria criança produza o texto a ser escrito pelo professor. Esses textos podem ser: listas, reconto de fábulas, lendas, contos de fada, piadas, diálogos, cartas, receitas, embalagens de produtos, avisos, bilhetes e outros. Se queremos formar uma criança produtora de textos, é legítimo que ela seja produtora dos mais variados tipos de textos. Para atingir essa competência, é imprescindível que ela os conheça. 3.1.6 – Escrita espontânea e a questão do “erro” Para aprender a escrever, é fundamental que o aluno tenha muitas oportunidades de fazê-lo, mesmo antes de saber grafar corretamente as palavras. Quanto mais fizer isso mais aprenderá sobre o funcionamento da escrita. (PCN – Alfabetização) A escrita espontânea é uma situação privilegiada de atividade em que o aluno precisa escrever, mesmo que ainda não saiba escrever convencionalmente . Durante esta proposta, o professor estará oportunizando ao aluno pôr em jogo tudo o que sabe sobre a escrita para poder realizá-la. O docente deve incentivar seu aluno a desenhar, criar histórias e registrar idéias. Nesse momento, destaca-se o trabalho individual ou em parceria. O docente deverá, constantemente, estar atento e orientar a atividade proposta. O aluno que ainda não sabe escrever convencionalmente, precisa esforçar-se para construir procedimentos de análise e encontrar formas de representar graficamente aquilo que 71 se propõe escrever. É por isso que a escrita espontânea é uma boa atividade de alfabetização: havendo informações disponíveis e espaço para reflexão sobre o sistema de escrita, os alunos constróem os procedimentos de análise necessários para que a alfabetização se realize. Ao enfatizar o papel de ação e reflexão do aluno no processo de alfabetização, sugere-se a valorização do conhecimento, dos caminhos percorridos pelo aluno, o que favorece a intervenção pedagógica e não a omissão. Assim, o professor pode ajustar a informação oferecida às condições de interpretação em cada momento do processo. Permite inclusive considerar os ERROS cometidos pelo aluno, como “pistas” para guiar sua prática, para torná-la menos genérica e mais eficaz. No início da alfabetização, a criança pensa que a escrita é sempre a representação exata daquilo que fala. Segundo alguns estudiosos do conhecimento, os “erros” são “tateios cognitivos” que a criança percorre na busca de relações entre o que já domina e o que está aprendendo. No decorrer do trabalho, é essencial mostrar ao aluno que na fala existe mais liberdade de expressão e que no escrever precisamos ter um cuidado maior, já que a escrita depende de uma convenção social. Planejar intervenções pedagógicas sempre no sentido de levar o aluno a crescer, desafiando-o com situações em que precise pôr suas idéias em conflito com os colegas e professor, pensando sobre a escrita, permite ao professor dar ao aluno oportunidades de escrever permitindo repensar sobre o que escreveu. A visão sadia do erro possibilita sua utilização de forma construtiva. O ERRO pode e deve ser utilizado como fonte de “virtude” na aprendizagem servindo como ponto de partida para o avanço, à medida que são identificados e compreendidos e, sua compreensão é o passo fundamental para a sua superação e suporte para o crescimento, ou seja, caminho para o avanço. Cabe ao professor orientar a busca de fontes de consulta, colocar questões que apóiem a análise e oferecer informações específicas sempre que necessário. Tão importante quanto aprender a escrever é aprender a corrigir o que se escreve. A correção feita pelo professor deve ser sempre acidental e ocasional. O importante é a correção que o próprio aluno faz dos seus trabalhos... Não basta dizer ao aluno que ele errou, que seu texto está todo desarticulado ou algo semelhante. É preciso ensinar a ele como resolver essas dificuldades, como se autocorrigir... Essa é uma tarefa que vai sendo aprimorada aos poucos e, sem dúvida, leva anos para atingir um nível satisfatório. Mas é preciso que comece a se desenvolver desde as primeiras manifestações de escrita. 72 Nos primeiros textos, como o objetivo é simplesmente fazer com que o aluno passe da habilidade que tem de produzir textos orais para a habilidade de traduzi-los para textos escritos, o professor não deve nem sequer mencionar o fato de que o aluno precisa corrigir o que escreveu... no começo vale o que o aluno faz, do jeito que ele faz... Com o tempo, quando os alunos já estiverem mais à vontade com a escrita e a leitura, produzindo textos espontâneos, o professor começa a explicar-lhes que é preciso melhorar os textos, não só no aspecto visual-gráfico, como também levando em conta a ortografia e, acima de tudo, a estruturação do conteúdo do discurso. Esse é o momento das explicações técnicas adequadas. A partir daí, os alunos farão dois tipos de textos: aqueles para uso pessoal, que não precisam ser corrigidos e têm apenas uma única versão, e outros, que serão lidos por outras pessoas... Esses cuidados significam formas de respeito ao leitor e, portanto, uma prática pedagógica muito importante a que a escola precisa dedicar-se. Não há nada mais desagradável do que receber uma carta, um bilhete ou um trabalho mal escrito, mal organizado, ininteligível com relação às idéias e a grafia, sujo, mal planejado. Fazem parte da boa educação esses cuidados com a escrita. Dicas para se trabalhar a correção da escrita: É recomendável fazer atividades coletivas, freqüentes, de correção no quadro, com a participação de todos; Uma forma de melhorar a qualidade da escrita é escrever em duplas ou trios. Os demais devem estar atentos a como o “secretário” escreve para irem corrigindo conforme avançam; A correção deve partir de objetivos claros no momento de se começar a escrever. Isso é fundamental. Não é a mesma coisa o aluno propor-se a escrever uma lista do material que deve levar para a aula, ou tentar fazer um cartaz – que deve ser exposto – para anunciar uma atividade escolar. É preciso distinguir o que escreve para si ou para o outro; o que se escreve como rascunho e apontamentos ou o que se passa a limpo; trata-se de dar atenção à seqüência de idéias ou à ortografia; Ao corrigir, façamos o aluno pensar. Dar-lhe a solução não o ajuda, mas é bom fazer com que chegue a identificar o problema. Ao invés de apontar a letra errada, é melhor indicar- 73 lhe a palavra e que reflita sobre onde está o erro. Ao corrigir a construção, é melhor indicar-lhe o aspecto que pode melhorar sem lhe dizer como fazê-lo etc; Para que o aluno possa solucionar o problema, deve dispor de recursos para consultar dúvidas: cartazes nos quais possa comprovar as grafias e as dificuldades ortográficas mais importantes, dicionários de aula, livros sobre o tema, outros materiais de consulta. Tais recursos devem ser de fácil acesso e terem orientações sobre como utilizá-los. 3.1.7 – Reescritura de textos Toda produção escrita realizada pelo aluno deve ser motivo de análise e reflexões, pois é por meio delas que o professor obterá informações relevantes sobre o processo de aquisição da escrita. É preciso, antes de mais nada, redirecionar o olhar para a leitura dos acertos e não dos erros. É importante que o texto produzido pelo aluno seja reescrito por ele mesmo, a fim de que perceba os seus avanços e dificuldades. É interessante realizar atividades individuais, quando possível, e, em alguns momentos, atividades coletivas, selecionando um texto que reflita as dificuldades gerais. O objetivo da reescrita é contribuir para a percepção da necessidade de um texto com clareza e objetividade para ser entendido por quem for lê-lo. O aluno deve perceber que um texto escrito deve ser refeito para que seja adequado às suas finalidades. Questionar os alunos quanto aos aspectos, quanto à seqüência lógica, espaçamento convencional entre as palavras (grafia-padrão), sinais de pontuação, concordância entre outros, é fundamental condição para mostrar a utilização dos recursos lingüísticos indispensáveis ao entendimento correto do que se deseja transmitir. Dominar a língua escrita é saber agir sobre ela, pensar suas propriedades, analisála para ir construindo as relações e não memorizar apenas nomenclatura e regras arbitrárias. 3.1.8 - Atividades para casa Para a escola, o “para casa” pode ter vários objetivos. Dentre eles, podemos destacar: formar hábitos de estudo; criar responsabilidade; 74 fixar assuntos trabalhados em sala de aula; dar continuidade às tarefas iniciadas na escola; realizar pesquisas em livros, revistas, jornais que contribuam para o desenvolvimento de outras propostas iniciadas pelo professor; incentivar a leitura (com participação de um familiar que deverá ouvir a leitura ou ler para a criança); apresentar um desafio desenvolvendo o raciocínio; criar um relacionamento agradável entre a criança x escola x família. O “para casa” também pode ser considerado como um elo entre a escola e a família do aluno. Através dele, os pais têm a oportunidade de conhecer melhor a proposta pedagógica da escola e contribuir para a sua efetivação. Muitas vezes, é o único momento do dia em que a família está presente na vida da criança. A tarefa enviada para casa deve ser adequada, respeitando o desenvolvimento da criança, seus conhecimentos e individualidades. Para não se tornar um problema familiar, o “PARA CASA” tem que ser bem planejado, dosado e de competência do aluno. Não tem sentido propor uma enorme quantidade de tarefas que lhe ocupem parte considerável do tempo exclusivamente com cópia e exercícios repetitivos. É certo que o tempo de estudo é uma variável importante que incide na aprendizagem, porém o professor tem de levar em conta que a criança é “criança” e não pode passar o tempo livre ocupada com o dever. O docente não pode superar as limitações de uma escola de meio período com enormes quantidades de lições de casa. 3.1.9 - Atividades artísticas A ARTE tem uma função tão importante quanto a dos outros conhecimentos no processo de ensino e aprendizagem, favorecendo ao aluno se relacionar, de forma criativa, com as outras disciplinas do currículo. O aluno que exercita continuamente sua imaginação através da arte estará mais habilitado a construir um texto e a desenvolver estratégias pessoais para resolver um problema matemático. A criança demonstra sua criatividade através da expressão verbal, do desenho, da música, das brincadeiras. Ela é criativa quando lhe é permitido fazer aquilo que sente e que quer expressar . 75 Um desenho criado livremente por uma criança pode constituir um indicador de seu desenvolvimento emocional, intelectual e de sua capacidade criadora. As atividades artísticas em grupo proporcionam oportunidade às crianças, para observar e assimilar a experiência dos outros, integrar-se ao grupo, sentir seu trabalho valorizado pelos colegas, compartilhar o material. Essas atividades favorecem também o desenvolvimento afetivo, especialmente por facilitar a livre expressão e permitir a descarga de tensões, assegurando o equilíbrio emocional. Os trabalhos artísticos têm como objetivo satisfazer as necessidades infantis e desenvolver criatividade e autonomia. Pintura, desenho, recorte e colagem, trabalhos com sucata, modelagem, atividades de teatro, entre outros, todos enfatizados igualmente, contribuem para o pleno desenvolvimento infantil. 3.1.10 – Análise estrutural de textos, frases, palavras, sílabas Para o alcance do objetivo pedagógico de domínio da língua escrita, é mister ler com compreensão e entendimento na busca do conhecimento e escrever no sentido da comunicação, registro de pensamento, reflexões, críticas, conhecimento, história... O trabalho alfabetizador requer necessariamente contínuas análises, reflexões, intervenções determinadas e/ou experinciáveis a cada momento do desenvolvimento do processo. Porém, o princípio básico deve ser o respeito ao pequeno ser humano em desenvolvimento, à criança, e a credibilidade no poder de conhecimento que ela conquista através de suas criações e de orientações facilitadoras assimilando o saber elaborado. O importante é sempre assegurar a participação de todos, opinando, representando, criando, imitando, enfim, manifestando comportamento. Toda representação inclui um significado e a língua escrita, sendo um sistema de representação, envolve um processo de diferenciação dos elementos e das relações estabelecidas, entre eles, envolvendo a união de significantes e significados. Dessa forma, a busca de modos de representação da língua escrita, bem como de todo vivenciar cotidiano escolar e extra-escolar, deve ser uma constante em sala de aula, junto aos alunos. O envolvimento dos alunos com as diferentes representações possibilita o desempenho frente ao conhecimento que vai se aperfeiçoando através de descobertas. 76 Para a conquista de modos de representação silábicos, há necessidade de desencadear atividades de tematização silábica, isto é, a tomada de consciência das sílabas dentro do contexto palavra. Assim, essas atividades proporcionam indicadores silábicos nas construções de escritas. Concomitantemente à classificação, seriação e conservação de objetos, fatos, situações ocorridas em sala, desenvolvem-se prioritariamente o classificar, o seriar, o conservar letras, envolvendo questões que ajudam as crianças a descobrirem as leis que regem nosso sistema de escrita. Classificar símbolos socialmente instituídos como letras, os números, os sinais, os gestos, as siglas, as bandeiras, classificar, especificamente, no grupo de letras, as consoantes e as vogais; nas palavras, a quantidade e a qualidade das letras, focalizando a inicial e a terminal e o número de sílabas ou pedaços; seriar estabelecendo a ordem das letras e/ou das sílabas nas palavras; conservar sílabas nas diferentes palavras e assegurar identidade de sons e de letras seriam o embasamento norteadores de atividades voltadas à conquista da alfabetização. (BISCOLLA, 2002) E mais: Construindo a própria alfabetização, dialeticamente, cada aluno desenvolve atividades classificatórias, de seriação e conservação do nosso sistema de escrita, compreendendo-o como o mais importante modo de representação conquistado pelo homem. (BISCOLLA, 2002.) Dessa maneira, ao trabalhar a análise estrutural de textos, frases, palavras, sílabas, propõe-se: Atividades que explorem a função de segmentação dos espaços em branco e da pontuação de final de frase; Atividades que explorem a orientação e o alinhamento da escrita portuguesa; Exercícios de apreensão das relações entre fonemas e grafemas, com vista ao domínio das regularidades ortográficas; Exercícios de decodificação; Atividades que explorem unidades fonológicas como sílabas, rimas, terminações de palavras; Exercícios de análise e síntese de palavras; Exercícios de formação de palavras, frases, textos 77 Atividades que demandam escuta atenta de textos; Atividades voltadas para a compreensão global de textos ( discussão, resumo, formulação de resposta, reelaboração); Entre outros. O que poderíamos chamar de acesso ao mundo da escrita num sentido amplo é o processo de um indivíduo entrar nesse mundo, e isso se faz basicamente por duas vias uma através do aprendizado de uma “técnica”. Chamo a escrita de técnica, pois aprender a ler e a escrever envolve relacionar sons e letras, fonemas com grafemas, para codificar ou para decodificar. Envolve, também, aprender a segurar um lápis, aprender que se escreve de cima para baixo e da esquerda para a direita.A outra via, ou porta de entrada, consiste em desenvolver as práticas de uso dessa técnica. Não adianta aprender uma técnica e não saber usá-la. (...) Aprender a técnica, o código e aprender também a usar isso nas práticas sociais, as mais variadas, que exigem o uso de tal técnica - constituem dois processos, e um não está antes do outro. São simultâneos e interdependentes. (SOARES, 2003, p.1521.) 3.1.11 - Recursos materiais Em alfabetização não há necessidade de usar material sofisticado. O corpo das crianças, os objetos da sala de aula, o ambiente, o material de sucata, cartazes, jogos diversos criados pelo próprio professor e alunos constituem-se em ótimos recursos a serem explorados. Porém os materiais devem ser escolhidos em função dos objetivos a serem trabalhados. Não se pode alfabetizar usando um único jogo, livro, cartilha ou tipo de texto. Embora vários materiais possam se prestar a mais de um uso, nenhum material consegue contemplar todos os objetivos e momentos do processo de alfabetização. Numa classe bem organizada deve haver materiais para leitura compartilhada, para leitura individual e para atividades a serem desenvolvidas pelo aluno. São materiais de leitura e trabalho: livros ilustrados sem palavras, livros com poucas palavras, livros de tamanhos variados, livros de gêneros variados com temas de interesse das crianças, textos diversos, cola, tesoura, lápis de cor, pincéis, giz de cera, barbante, papéis diversos, jogos, bonecos, cartazes com letras, cartazes com letras e figuras, entre outros. Para a aprendizagem da leitura e escrita, a criança necessita vivenciar múltiplas atividades e estar em contato com inúmeros materiais. Podem-se utilizar os materiais que já 78 existem, mas muito produtivo é quando o professor e as crianças escolhem e fabricam os próprios materiais, que podem ser, por exemplo, versinhos escritos a mão para serem lidos, textos de revistas, poemas para recitar, peças de teatro para dramatizar, canções para cantar, receitas de bolo, cardápios, rótulos, cartas, cartões, etiquetas, listas de endereço e telefone, resultados esportivos, casos relatados, cartazes, avisos, mensagens, jornais, livros de literatura infantil, cartelas com nomes das crianças. Quanto mais diversificados e significativos forem os materiais a serem utilizados, mais estimulantes serão as situações de leitura e contato com a escrita. Utilize jogos com letras, palavras e frases, textos; Enriqueça as atividades com pesquisa em jornais, revistas, livros, gibis, folhetos; Confeccione com seus alunos instrumentos musicais; Ensine jogos de baralho simples, em que o sucesso seja obtido por associações (tipo Mico Doido) , mas também por deduções ( tipo dominó); Invente jogos e gincanas que estimulem a coordenação motora, como pular, equilibrar-se, subir, descer... Mostre a evaporação ao observar porque tecidos molhados secam mais depressa ao sol; Ensine a criança a recortar revistas. Brinque de separar a cabeça do corpo e das pernas e anime-a a construir novas combinações e fazer surgir novos personagens; Confeccione fantoches com os próprios alunos para se trabalhar a arte, dramatização, construção de textos, expressividade; Crie jogos diversos: quebra-cabeça, jogo da memória, forca, caça-palavra, cruzadinha, entre outros. 3.1.12 - Ambiente alfabetizador Segundo Maria de Fátima Russo e Maria Inês Aguiar Vian (1999), antes de entrar para a escola, a criança já está em contato com um importante meio alfabetizador: o ambiente que a cerca, com mil formas, cores e imagens. Contudo, para que esse ambiente se torne efetivamente um instrumento alfabetizador, a criança precisa estar preparada para percebê-lo e seu senso de observação e sua curiosidade precisam ser despertados. Ela precisa perceber que o valor social da escrita é a comunicação. 79 Por essa razão, um elemento importante do trabalho de alfabetização se refere à qualidade e à diversidade do material escrito que é disponibilizado no contexto escolar, ou seja, na criação e na manutenção, pelo professor, de um ambiente alfabetizador. Na escola, os alunos devem manusear revistas, jornais, livros, a fim de ter contato com as diversas formas de escrita. Com a orientação do professor, os alunos podem construir o material que, ao ser elaborado com suas próprias mãos, propicie mais uma maneira de trabalhar suas descobertas na apropriação da linguagem escrita. Os materiais escritos e expostos na sala de aula não podem estar limitados simplesmente em aproximar as crianças do código escrito. Muito mais que isso, eles são a base a partir da qual a professora provoca as interações lingüísticas e cognitivas que possibilitam as crianças construírem conhecimentos, tanto sobre a linguagem escrita, quanto sobre os conteúdos que mobilizam a curiosidade do grupo. Lembramos que cartazes superados, há muito tempo em exposição ou aqueles cujos objetivos já foram alcançados, devem ser retirados da sala de aula. A função do material exposto não é de mera decoração ou etiquetagem; deve-se estimular sua efetiva apropriação ou consulta, de acordo com o planejamento de ensino realizado pelo professor. Assim, as mudanças do material devem ocorrer, de forma dinâmica, conforme a sucessão e a duração das atividades que o professor vai desenvolvendo. Ao entrar em uma sala de aula e observar o que existe “pregado” em suas paredes, percebem-se os assuntos em estudo e o que os alunos estão aprendendo. Isso, é claro, se em suas paredes existirem textos, desenhos e outros materiais produzidos pelos alunos. Numa sala de aula onde os textos são expostos, mostra que, naquele ambiente, a leitura e a escrita são valorizadas. Quem nela entra, fica curioso para saber o que está escrito aqui e acolá. As salas de aula podem conter listas com nomes dos alunos; desenhos e produções escritas feitas por eles; um painel com notícias de jornal, poemas ou letras de música; listas dos livros e/ou histórias que já foram trabalhados; dicas para se resolver um problema de Matemática; a conclusão de uma pesquisa de Ciências. Cartazes de campanhas de saúde e de meio ambiente também podem fazer parte desse espaço. 80 4 - AVALIAÇÃO NA ALFABETIZAÇÃO A avaliação é considerada aqui como objeto de reflexão e fonte de informação para (re)formulação de práticas pedagógicas. A partir da avaliação será possível implementar intervenções necessárias e diversificadas de acompanhamento daqueles alunos que necessitam de “ajuda” em sua aprendizagem. Também será possível sinalizar o patamar de aprendizagens consolidadas pelos discentes. As ações avaliativas implementadas pelo professor necessitam abranger conteúdos de todos os campos de conhecimento pertinentes à escolarização inicial, ao conhecimento de mundo, às diferentes linguagens, à formação pessoal e social dos alunos e às suas capacidades relacionadas a dimensões corporais e motoras, cognitivas, sócio-afetivas, éticas, estéticas. A avaliação é, assim, um processo global e contínuo. O aluno deve ser avaliado em todas as etapas do processo de alfabetização, qualquer que seja a atividade desenvolvida. Para avaliar o aluno continuamente em alfabetização, é preciso que o professor: - tenha bem definida a metodologia escolhida; - utilize diferentes instrumentos para acompanhar o aluno em relação ao domínio das diferentes etapas. O Regimento Básico das Unidades Escolares de Educação Infantil e Ensino Fundamental da Rede Municipal de Ensino de Cabo Frio, destaca no Capítulo VI, Seção 1: Artigo 81 - O Sistema de avaliação nas unidades escolares do município tem por base a concepção da educação educativa, levando que considera o aluno sujeito e centro de toda ação em conta o contexto sócio-econômico cultural em que está inserido. Artigo 82 - A avaliação do processo ensino-aprendizagem deve ser entendida como um diagnóstico do desenvolvimento do educando, seus avanços e suas dificuldades, incidindo na ação dos educadores, redefinindo e redimensionando o processo educativo, visando ao seu constante aprimoramento. 81 Artigo 83 - A avaliação do desempenho é o resultado da apreciação de provas, trabalhos, pesquisas, atividades extraclasse e outros instrumentos selecionados pelo professor, levando-se em consideração os aspectos cognitivo, afetivo e psicomotor de sua aprendizagem, preponderando sempre o aspecto qualitativo sobre o quantitativo, observando o processo de construção do conhecimento, buscando o desenvolvimento integral do aluno. Artigo 84 - Os alunos da Educação Infantil, das Classes Especiais e da 1ª série níveis 1 e 2 do Ensino Fundamental regular diurno são avaliados através de relatório bimestral, elaborado com base nos objetivos traçados, com acompanhamento do Supervisor Escolar. 4.1 - Instrumentos de avaliação do aluno OBSERVAÇÃO E REGISTRO – são procedimentos fundamentais ao longo do processo de aprendizagem. Tais instrumentos exigem do professor uma apurada habilidade, pois todas as oportunidades devem ser aproveitadas para levantar informações sobre o aluno. Para que estas não se percam, é importante que sejam registradas. SONDAGEM DIAGNÓSTICA – verifica os conhecimentos que estão sendo processados pelos alunos, ao longo de seu desenvolvimento e de suas aprendizagens. Tal instrumento possibilita um conhecimento relevante sobre as hipóteses espontâneas da criança e as elaborações conceituais propiciadas pelas intervenções dos adultos que com ela interagem, em torno de seus objetos de conhecimento. PORTIFÓLIO – organização e arquivo de registros das aprendizagens dos alunos, com intenção de fornecer uma síntese de seu percurso ou trajetória de aprendizagem. QUADROS DE ACOMPANHAMENTO – Funciona como registros de observações e permitem ao professor ter visão individualizada do aluno e global da turma; planejar atividades que corrijam as dificuldades observadas; fazer auto-avaliação da sua atuação; Esses quadros devem ser elaborados a partir dos objetivos traçados pelo professor em acordo com a metodologia adotada. RELATÓRIO DESCRITIVO – Registro institucional, forma de avaliação oficial. 82 5 - PERFIL DO PROFESSOR ALFABETIZADOR 5.1 – Competências Alfabetizar é uma prática complexa, que requer habilidades e conhecimentos próprios. Diante desse fato, a equipe técnico-pedagógica da escola precisa escolher os professores que tenham uma identidade própria para atuar nas turmas de alfabetização. Preferencialmente, esses docentes não devem ser inexperientes e devem apresentar as competências que destacamos a seguir: O professor como mediador do processo Parece ser absolutamente impossível estimular e desenvolver nos alunos as competências propostas, sem uma mudança expressiva – ainda que não difícil – por parte do professor alfabetizador frente à classe. Sob a luz de Paulo Freire, a idéia de inacabamento da educação traz a sensação de movimento, o sentimento de não estar parado, de algo que se constrói. Nesse caminhar pulsante, a comunidade educativa transforma sua ação. Busca-se, hoje, compreender melhor o desenvolvimento do ser humano e o processo de ensino-aprendizagem com todas as suas nuances e possibilidades, não perdendo de vista as veias sociais, culturais e políticas. Teóricos e estudiosos como Wallon, Vygostsky, Piaget, Bahktin, Benjamin, Freire, Freinet, entre outros, vão alimentando (como sangue) as artérias desse pulsar. E, com eles, a educação descobre que o aluno também pulsa, é vida e tenta entender o ritmo de suas batidas. Afinal, educar é manter a consciência do inacabamento através do desenvolvimento de instrumentos (habilidades e competências) que garantam a curiosidade e a reflexão, a cooperação e a solidariedade, a ética e a estética. Assumir o compromisso de educar exige o repensar a prática e envolve mudança de foco do olhar. E nessa educação do olhar, alguns pontos são claros aos professores alfabetizadores: 83 5.1.1 - Organizar e dirigir situações de aprendizagem Conhecer os processos de aprendizagem do sujeito e buscar uma metodologia que favoreça e estimule a aprendizagem; Entender que os estímulos não atuam diretamente sobre o alfabetizando, mas são transformados pelos seus esquemas de assimilação e que, nesse ato de transformação, ele interpreta o estímulo, utilizando parte da informação recebida, sempre introduzindo algo de si; Interpretar aquilo que o educando quer representar na linguagem e descobrir os meios pelos quais ele se serviu para criar diferenciações entre as representações que fez; Transformar o ambiente de sala de aula em um ambiente rico, repleto de materiais e atos de leitura; Redefinir seu papel, deixando de ser o único que sabe ler e escrever. Como agente político, seu papel não deve se limitar à sala de aula, mas garantir, na sua esfera de atuação, o direito de todos da expressar socialmente, através da linguagem, sem discriminações; Tentar captar qual a seqüência e qual solução o alfabetizando considera aceitável, para poder pensar sobre o tipo de intervenção pedagógica que usará nesse processo; Ser provocador, aquele que busca desequilibrar cognitivamente o alfabetizando para favorecer as suas descobertas; 5.1.2 - Observar e avaliar os alunos: trabalhar a partir dos erros Como disse Paulo Freire, “errar é como procurar com os olhos à esquerda o objeto que à direita se deixou”. O erro do aluno é, talvez, a maior riqueza diagnóstica de seu caminho pela aprendizagem e o professor deve buscá-lo, não para punir ou sancionar, mas para dele fazer o caminho do acerto. Quando um médico ouve as batidas do coração ou o ritmo da respiração é em verdade “erros” que em seu corpo busca, para diagnosticar a falha e sugerir a correção. É difícil a um professor desenvolver essa função diagnóstica se não interroga, não pergunta, não indaga, não sugere situações-problema, não lança desafios, não inventa enigmas. Aprender, afinal de contas, não é estocar informações, mas reestruturar o sistema de compreensão de si mesmo, do outro e do mundo. 84 5.1.3 - Construir e planejar dispositivos e seqüências didáticas A importância do professor segundo tal aspecto é fundamental, uma vez que ele é quem, como mediador do processo, irá propiciar a interação aluno X aluno e aluno X professor em sala de aula. Criando situações problemáticas, estará permitindo o surgimento de momentos de conflito para o alfabetizando e, conseqüentemente, o avanço cognitivo; estará considerando o aprendiz como ser ativo, aquele que não espera passivamente que alguém venha a lhe ensinar alguma coisa para começar a aprender, uma vez que por si só compara, ordena, classifica, reformula e elabora hipóteses, reorganizando sua ação em direção à construção do conhecimento. No entanto, uma verdadeira situação de aprendizagem somente ocorre quando inscrita em um dispositivo possível e em uma seqüência didática prevista através de uma progressão. Se essa progressão não caminha, passo a passo, se o aluno não percebe a seqüência desses passos, a progressão desses “degraus”, é evidente que decora, mas não aprende, que estoca saberes, mas não os absorve. Muitas vezes a idéia de seqüência é clara para o professor, mas nem sempre é tão óbvia para o aluno que a está percebendo pela primeira vez. É necessário esclarecer toda a seqüência com serenidade e coerência, dentro da totalidade da formação dos alunos em um ciclo de aprendizagem. A dimensão da prática do professor alfabetizador refere-se à sua atuação em sala de aula, frente aos elementos impulsionadores do processo de alfabetização. Para isso, ele precisa estar qualificado, seja no domínio dos conceitos das teorias de aprendizagem, principalmente as que norteiam esse programa, como no processo de construção da escrita, nas estratégias de leitura e todos os conhecimentos que o habilitem a conduzir esse processo marcante: a alfabetização de crianças. O ensino da leitura e da escrita, com compreensão, exige do professor alfabetizador mais que o domínio dos métodos, conteúdos e técnicas próprias do processo de alfabetizar. Espera-se desse professor o conhecimento da Língua Portuguesa e da Literatura Infantil, indispensáveis ao exercício da sua função. Segundo Paulo Freire, existem qualidades que se tornam indispensáveis aos professores alfabetizadores, qualidades que vão se gerando na sua prática. 85 A humildade nos ajuda a reconhecer algo óbvio: ninguém sabe tudo, ninguém ignora tudo. Todos sabemos algo, todos ignoramos algo. Sem humildade, dificilmente conseguiremos ter o bom senso para poder partir de onde nos perdemos. Mas é preciso aliar a amorosidade, sem a qual o trabalho perde o significado, à humildade com que o professor atua e se relaciona com seu aluno. E amorosidade não apenas aos alunos, mas ao próprio processo de ensinar. A amorosidade vai exigir a coragem para lutar, para buscar o sucesso de todas as crianças. Uma das deficiências de um professor é a sua incapacidade de decisão. A indecisão revela falta de segurança, que por sua vez reflete ausência de conhecimento científico, clareza e compreensão da sua prática. Não se pode estar seguro do que faz se não se sabe como fundamentar cientificamente a sua ação, de por que faz, para que faz. O professor sempre deve buscar conhecimentos a respeito dos temas do seu ofício: o que é aprender, o que é ensinar, o que é linguagem escrita, o que é escrever e ler. A possibilidade de repensar o processo de ensinar e de aprender implica a desconstrução e a reconstrução da ação pedagógica, a fim de se redimensionar a prática escolar com competência. 5.2 - Critérios para seleção do professor alfabetizador Pertencer, preferencialmente, ao QUADRO DE PROFESSORES EFETIVOS da Rede Municipal de Ensino; ter experiência, preferencialmente, de no mínimo dois anos em turmas de 1ª série; apresentar as competências discriminadas nesse documento; assumir, em sua plenitude, o compromisso de sua formação continuada; trabalhar em equipe. O alfabetizador que trabalha em conjunto com os colegas, busca através dessa cooperação o crescimento de todos e torna suas aulas mais prazerosas e eficazes; identificar-se com o mundo lúdico da criança; auto-avaliar-se no uso das competências; 86 apresentar alguns conhecimentos sobre os princípios teóricos e metodológicos que norteiam a prática pedagógica em classe de alfabetização, adquiridos através da sua participação em cursos, palestras, oficinas, encontros e outros eventos. a escolha do professor alfabetizador deverá ser feita pela equipe técnico-pedagógica da unidade escolar, respeitando-se as competências previstas nesse documento. 5.3 - Formação continuada A formação continuada abrange todas as formas deliberadas e organizadas de aperfeiçoamento do profissional, tendo em vista sua qualificação e a melhoria de sua prática no contexto escolar. O alfabetizador necessita ter espaços e tempos próprios para sua formação continuada ou em serviço para que possa discutir suas experiências, atualizar-se, envolver-se em temas e procedimentos que possam contribuir para a superação de problemas e lacunas em sua prática docente. O professor também deve possuir conhecimentos teóricos que apóiem sua prática em sala de aula. A formação continuada pode ser feita por meio de cursos, discussões, reuniões leituras, trocas de experiências, palestras... Trocar experiências é um ponto favorável e essencial ao nosso desenvolvimento, pois, freqüentemente, aprendemos muito com nossos colegas. Ao compartilhar atividades e metodologias, dúvidas ou certezas, temos a grande chance de aprimorar nossa técnica. Segundo Celso Antunes: ... o uso das competências torna-se mais vivo e mais completo quando são enriquecidas por estudos, pesquisas, leituras, debates, por cursos que se assiste, por programas que se vê, por experiências que se troca. Desta maneira, o pleno uso das competências expostas e de ainda outras que no viver se aprende, paradoxalmente, se constrói com a mais inefável e imprescindível competência que a do próprio professor em administrar sua formação continuada, seu enriquecimento diário... (ANTUNES, 2001 p.78.) Nesses contextos, destacamos algumas ações de formação continuada que permitam ao professor a inserção consciente na proposta desejada pela Rede Municipal de 87 Ensino e o faça sentir verdadeiramente integrado a um processo educacional possível de ser realizado: Reuniões periódicas na própria unidade escolar e na “Casa do Educador” para troca de experiências, análise de problemas, estudo e discussão de textos, análise de materiais didáticos a serem utilizados; Intercâmbio entre escolas; Participação em Cursos oferecidos pela Secretaria Municipal de Educação, dentro e fora do município, que propiciem o desenvolvimento de atividades coletivas, participação de discussões, contatos, palestras. Esses cursos não devem se ater apenas à instrução, mas também criar oportunidades de desenvolvimento da comunicação, de formas de pensar e de agir, vinculadas às práticas pedagógicas; Leitura de livros , visando à qualidade de pensamentos e de práticas docentes voltadas à ação alfabetizadora e que consolidem o ensino e a aprendizagem da leitura e da escrita. 5.4 – Valorização 5.4.1 – Valorização do professor alfabetizador e sua formação A melhoria da qualidade do ensino, que é um dos objetivos centrais do Plano Nacional de Educação, somente poderá ser alcançada se for promovida, ao mesmo tempo, a valorização do magistério. Sem essa, ficam frustrados quaisquer esforços para alcançar as metas estabelecidas em cada um dos níveis e modalidades do ensino. Essa valorização só pode ser obtida por meio de uma política global de magistério, a qual implica simultaneamente, a formação profissional inicial; as condições de trabalho, salário e carreira; a formação continuada; Garantir um Programa de Alfabetização para a Rede Municipal de Ensino de Cabo Frio significa um grande marco na história da Educação Município, mas que precisa vir acompanhado de outras conquistas do nosso que possam resgatar o quadro do Magistério formado pelos profissionais que atuam como alfabetizadores. O trabalho do professor alfabetizador é bastante peculiar, tendo em vista a necessidade da sua dedicação permanente em busca, da apropriação, por parte dos conhecimentos e habilidades necessárias à aprendizagem dos alunos, da leitura e da escrita. 88 Para exercer sua função e obter bons resultados, esse profissional necessita investir na aquisição de materiais didáticos diversos e também na sua formação continuada, de suma importância em sua prática pedagógica. A melhor maneira de ampliarmos o sistema educacional público, em todos os níveis de ensino, é através do investimento na valorização dos professores. Segundo o Plano Nacional de Educação “é preciso que os professores possam vislumbrar perspectivas de crescimento profissional e de continuidade de seu processo de formação. (...) Salário digno e carreira de magistério entram aqui, como componentes essenciais.” (PLANO Nacional de Educação - Editora Folha Dirigida) A valorização do magistério implica, pelo menos, os seguintes requisitos: uma formação que assegure o desenvolvimento da pessoa do educador como cidadão e profissional, oferecendo-lhe condições de domínio dos conhecimentos (objeto de trabalho com os alunos) e dos métodos pedagógicos que promovam a aprendizagem; um sistema de educação continuada que permita ao professor um crescimento constante sobre a cultura letrada, dentro de uma visão crítica e da perspectiva de um novo humanismo; jornada de trabalho organizada estabelecimento de ensino de acordo com a dos alunos, concentrada e que inclua o tempo num único necessário para as atividades complementares ao trabalho em sala de aula; salário condigno, competitivo no mercado de trabalho, com outras ocupações que requeiram nível equivalente de formação. 5.4.2 – Definição das propostas de valorização: Atualização permanente dos professores alfabetizadores da Rede Municipal de Ensino de Cabo Frio, podendo ser organizada e implementada das seguintes formas: Período inicial do ano letivo de 2006; Encontros periódicos durante o ano letivo: a) na escola, com mediação do Supervisor Escolar; b) em cursos, palestras, encontros, oficinas e outros eventos promovidos pela Secretaria Municipal de Educação de Cabo Frio e também por outras Instituições; 89 c) na “Casa do Educador”, para estudos e pesquisas. Assinatura de revistas pedagógicas e livros. Prêmios de incentivo, tais como: bolsas de estudo, participação em cursos, palestras, encontros e outros eventos fora do município. O PNE prevê que " A formação continuada dos profissionais da educação pública deverá ser garantida pelas secretarias estaduais e municipais de educação, cuja atuação incluirá a coordenação, o financiamento e a manutenção dos programas como ação permanente e a busca de parceria com universidades e instituições de ensino superior." (...)A valorização do magistério depende, pelo lado do Poder Público, da garantia de condições adequadas de formação, de trabalho e de remuneração e, pelo lado dos profissionais do magistério, do bom desempenho na atividade.(...) (Plano Nacional de Educação – Editora Folha Dirigida [s/d]) 90 6 - O PAPEL DO DIRETOR 6.1 - O Diretor Escolar e a busca por uma Alfabetização de Qualidade A estrutura administrativa da escola é constituída de elementos que dependem diretamente da administração escolar. São elementos organizados de forma consciente e intencional para que os objetivos da escola sejam alcançados. As funções administrativas, exercidas pelo diretor são, sem dúvida, de fundamental importância para que a escola funcione de maneira satisfatória. Ele cumpre ordens superiores, mas na Escola deve ser líder, responsável pela busca de soluções e de caminhos que direcionem à educação justa, igualitária e compromissada com a qualidade. Antes de ser líder e administrador, o diretor é um educador, que vivencia o cotidiano escolar e seu olhar diferenciado para o processo de ALFABETIZAÇÃO promoverá uma mudança em todo contexto educativo. 6.2 - Procedimentos a serem adotados pelo Diretor no REDEALFA : De maneira objetiva e prática, alguns procedimentos serão estabelecidos de forma clara e precisa, em consonância com os objetivos propostos pela LDB e o REDEALFA: Acompanhar e avaliar junto à equipe técnico-pedagógica, durante todo ano letivo, as atividades desenvolvidas pelo professor alfabetizador; Contribuir, de forma concreta, para o desenvolvimento das atividades do professor alfabetizador, nas participações das reuniões pedagógicas, cursos de capacitação, aquisição de material pedagógico; 91 7 – O PAPEL DA EQUIPE TÉCNICO-PEDAGÓGICA 1. Analisar criteriosamente planejamentos pedagógicos das turmas de alfabetização; 2. Participar de reuniões pedagógicas, Conselhos de Classe, colaborando com o planejamento, organização e avaliação; 3. Orientar e subsidiar o professor alfabetizador para a realização e a utilização de estudos e pesquisas que visem à melhoria da qualidade de ensino; 4. Fazer cumprir o REFERENCIAL DE ALFABETIZAÇÃO PARA A REDE MUNICIPAL DE ENSINO; 5. Participar de atividades específicas da questão pedagógica (organização de turmas, número de alunos, escolha do professor com perfil para alfabetização; 6. Elaborar, bimestralmente, junto ao professor e supervisor escolar, tabelas e gráficos de rendimento das turmas de alfabetização, fazendo análise dos mesmos; 7. Articular-se com o professor- alfabetizador, acordando horários, locais, atividades que serão desenvolvidas ao longo do ano letivo; 8. Informar, com antecedência, ao professor alfabetizador das capacitações e encontros; 9. Dinamizar e assistir os professores alfabetizadores para que promovam uma ação integrada e cooperativa; 10. Reunir-se, periodicamente, juntamente com o professor e com os responsáveis pelos alunos das classes de alfabetização, esclarecendo o processo pedagógico desenvolvido pela U.E. Para AINSCOW ( 1997): ... a chave da prática reflexiva situa-se na área do trabalho em equipe, possibilitador de reflexão crítica entre professores (...) Tal consideração torna-se, portanto, fundamental para que a escola possa criar as condições que permitam a mudança institucional e social (...). (AINSCOW, apud Revista Integração, 2002). 92 8 - A INTEGRAÇÃO DA FAMÍLIA AO TRABALHO ESCOLAR Para se falar de integração da família ao trabalho escolar é preciso, primeiro, que a escola entenda um novo conceito de família. De acordo com a análise da Pesquisa Nacional por amostras de domicílio realizada em 1994: a família pode ser definida como: ... um núcleo de pessoas que convivem num determinado lugar, durante um lapso de tempo mais ou menos longo e que se acham unidas (ou não ) por laços sanguíneos, tendo como tarefa primordial o cuidado e a proteção de seus membros, estando dialeticamente articulados com a estrutura social na qual estão inseridos.” A partir deste entendimento, a escola poderá através de encontros, palestras, dinâmicas,etc. propiciar às famílias momentos de reflexão objetivando mostrar a estes responsáveis o seu papel para com as crianças. Momentos estes criativos, agradáveis, de ajuda, esclarecimento quanto às diversas dificuldades que se enfrentam na criação de uma criança. Mostrar-lhes que a criança precisa encontrar uma base afetiva, assistência à saúde, primeiros ensinamentos, enfim, cabe-lhes prover recursos necessários à sua sobrevivência. (Pesquisa Nacional, 1994). A escola deve, desde o início do ano, mostrar qual é a sua proposta de trabalho, de forma bem clara, para que todos possam entender e também se tornarem parte desse desenvolvimento. Cabe à escola auxiliar essas famílias na resolução de seus conflitos. Situações peculiares devem ser tratadas individualmente, para evitar constrangimentos e conseqüentemente o afastamento do responsável. Tanto a escola como a família devem demonstrar às crianças que são parceiras, unidas com o objetivo comum que é, dentre outros, o sucesso no desenvolvimento das crianças. 93 9 - QUANTITATIVO DE ALUNOS NAS CLASSES DE ALFABETIZAÇÃO Para assegurar a qualidade do trabalho desenvolvido nas 1as séries (níveis 1 e 2), cada turma não deve ultrapassar o quantitativo de 25(vinte e cinco alunos). Conforme prevê o Plano de cargos e Salários, o número de alunos para as 1 as séries Níveis 1 e 2 é de 25 por professor. Esse número é reinterado na Resolução SEME 0004/05, de 08 de setembro de 2005. 94 10 – CRITÉRIOS PARA ORGANIZAÇÃO E DISTRIBUIÇÃO DAS TURMAS As turmas das 1as séries das escolas da Rede Municipal de Ensino devem, preferencialmente, estar reunidas num mesmo turno, para que todos os envolvidos no processo possam desenvolver um trabalho de parceria, de cooperação. O alfabetizador que trabalha em conjunto com os colegas busca e proporciona através dessa relação o crescimento de todo o grupo, o que possibilita a formação de uma equipe coesa e a elaboração de aulas mais prazerosas e eficazes. 95 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALMEIDA, Geraldo Peçanha de. A produção de textos nas séries iniciais: desenvolvendo as competências da escrita. Rio de Janeiro: WAK, 2005. ANTUNES, Celso. Como desenvolver as competências em sala de aula. Rio de Janeiro: Vozes, 2001. . A construção do afeto. São Paulo: Augustos, 2003 ARROYO, Miguel G. Da Escola Carente à Escola Possível. São Paulo: Loyola, 1986. 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