EN DIRECTOR Pe. José Mario O. Mandía | ANO 68 | Nº 7 | 19 de JUNHO de 2015 | SEXTA-FEIRA PT EN CH EDIÇÃO TRILINGUE | TRILINGUAL EDITION | SEMANÁRIO CATÓLICO DE MACAU | PREÇO 12.00 Mop www.oclarim.com.mo DUARTE ALVES, PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO DOS JOVENS MACAENSES MACAU E HONG KONG ORDENAM DOIS NOVOS PADRES «Temos que ter outra visão» ENTREVISTA PÁG. 4 Solidariedade Zonta LOCAL PÁG. 5 DESTAQUE PÁG. 2 RAUL PINEDO, JORNALISTA PERUANO «Jornalismo latino-americano perdeu valentia» Macau no eixo Angola-China LOCAL PÁG. 5 Paul Pun nos destroços do Nepal LOCAL PÁG. 5 MEDIA PÁG. 7 D E S TAQ U E O CLARIM | Semanário Católico de Macau | SEXTA-FEIRA | 19 de Junho de 2015 2 PT MACAU E HONG KONG ORDENAM DOIS NOVOS PADRES Apóstolos Carlos Cheung nasceu em Macau, mas vai ser ordenado em Hong Kong. Vincentius Haryanto nasceu na Indonésia, mas quis o destino que receba a estola das mãos de D. José Lai, bispo de Macau. No mês de São João Baptista a Igreja recebe dois novos pastores, provando que não está limitada pelas fronteiras políticas, pois é una, solidária e transnacional. Dois diáconos com ligação a Macau vão receber a ordenação sacerdotal, estando as cerimónias religiosas agendadas para amanhã e 27 de Junho. Natural de Macau, o diácono salesiano Carlos Cheung será amanhã ordenado, em Hong Kong, pelo cardeal D. John Tong, na catedral da Imaculada Conceição, pelas 15 horas. Carlos Cheung nasceu em Macau a 24 de Abril de 1983, tendo estudado em Hong Kong. No próximo dia 27 será a vez do diácono jesuíta Vincentius Haryanto receber a estola das mãos de D. José Lai, bispo de Macau, em cerimónia a realizar na igreja São Lourenço, pelas 15 horas e 30. Membro da Sociedade de Jesus, Vincentius nasceu em Surabaya (Leste de Java) em 1978, tendo chegado a Macau em 2013. Numa breve declaração a’O CLARIM, Carlos Cheung referiu «dois pilares importantes da educação filosófica de D. João Bosco: o Sacramento da Reconciliação e a Santa Eucaristia». Para ele, «a Liturgia Tridentina ajuda especialmente na adoração e a meditar em silêncio», sendo que «a Eucaristia é essencial para alimentar as vocações». Acrescentou ainda que «junto com a formação doutrinal é necessário promover o serviço e a oração». Questionado sobre o futuro, disse querer «divulgar o Evangelho, formar novas vocações e trabalhar com adolescentes da China». Depois de ordenado padre, Carlos Cheung irá celebrar a primeira missa na igreja de São Benedito, em Shatin (Hong Kong), pelas 7 horas e 30, no S E M A N Á R I O C C AT Ó L I C O D D E D M A C AU Domingo (21 de Junho). No dia 5 de Julho, pelas 12 horas e 30, celebrará missa na igreja de Maria Auxiliadora com recurso ao Rito Extraordinário. A primeira missa em Macau está marcada para as 9 horas do dia 19 de Julho, na igreja de São Lourenço. Curiosamente, Vincentius Haryanto também irá celebrar a primeira missa na igreja de São Lourenço, pelas 9 horas do dia 28 de Junho. Os dois diáconos cumpriram trajectos diferentes até abraçarem o sacerdócio. Enquanto Carlos ingressou no Seminário Salesiano, tendo prosseguido os estudos no Seminário do Espírito Santo e no Politécnico de Hong Kong, para além de ter leccionado, Vincentius entrou para a Sociedade de Jesus em 1988, onde iniciou os estudos religiosos. No seu já extenso currículo constam passagens por Jacarta, Taipé e Macau. Em Taipé foi ordenado diá- cono a 28 de Junho de 2014, na igreja da Sagrada Família. Actualmente trabalha na Escola Secundária Estrela do Mar e presta serviço religioso na igreja de São Lourenço. Carlos e Vincentius têm em comum a realização de várias acções junto de crianças e jovens – o primeiro, em Macau, nas Filipinas e em Timor-Leste; o segundo, na Indonésia, principalmente em zonas afectadas por catástrofes naturais. IGREJA UNA Carlos Cheung e Vincentius Haryanto são dois exemplos do esforço das dioceses de Macau e Hong Kong na procura de novas vocações que sirvam o seu maior propósito: ir ao encontro das populações, divulgar o Evangelho e servir os fiéis. A tarefa tem-se revelado mais difícil para Macau – em resultado da ausên- cia de alunos no Seminário de São José ao longo de vários anos – embora haja hoje sinais de alguma melhoria. Para tal tem contribuído o desempenho da Faculdade de Estudos Religiosos (Universidade de São José), cuja acção tem permitido encontrar e valorizar as novas vocações, dando-lhes os alicerces necessários para a vida sacerdotal. Igualmente importante é o reforço do diálogo e do intercâmbio entre as dioceses das duas regiões administrativas especiais, que se repercute nas dioceses de outros países da região. O regresso a Macau de Carlos Cheung para a celebração de uma missa na cidade que o viu nascer e o serviço que Vincentius Haryanto vem prestando à comunidade local é mais um sinal de que a Igreja é una, solidária e transnacional. J.M.E./B.K.I DIRECTOR: Pe. José Mario O. Mandía I ADMINISTRADOR: Alberto Santos | ASSISTENTE DA ADMINISTRAÇÃO: Wong Sao Ieng I EDITOR: José Miguel Encarnação I EDITOR-ADJUNTO:Benedict Keith Ip | REDACÇÃO: Pedro Daniel Oliveira, Joaquim Magalhães de Castro (Grande Repórter) I SECRETARIADO DA REDACÇÃO E FOTOGRAFIA: Ana Marques I TRADUÇÃO: May Shiu-Ling Ho | COLABORAÇÃO: João Santos Gomes, Pe. João Eleutério, Carlos Frota, Luís Barreira, José Pinto Coelho, Vítor Teixeira, Manuel dos Santos, Oswald Vas, Padres Claretianos I DIRECÇÃO GRÁFICA: Miguel Augusto I PAGINAÇÃO: Lei Sui Kiang I PROPRIEDADE: Diocese de Macau MORADA: Rua do Campo, Edf. Ngan Fai, Nº 151, 1º G, Macau I TELEFONE: 28573860 - FAX: 28307867 I URL: www.oclarim.com.mo I E-MAIL: [email protected] I IMPRESSÃO: Tipografia Welfare Ltd. D E S TAQ U E O CLARIM | Semanário Católico de Macau | SEXTA-FEIRA | 19 de Junho de 2015 3 PT D. SAVIO HON TAI-FAI CRITICA A GLOBALIZAÇÃO Um Mundo só para alguns D. Savio Hon Tai-Fai, secretário da Congregação para a Evangelização dos Povos, critica a globalização por não permitir que todas as pessoas tenham um lugar na sociedade. O arcebispo D. Savio Hon Tai-Fai considera que «a globalização tem um lado negativo, pois nem todas as pessoas encontram o seu lugar no mundo globalizado». Segundo o secretário da Congregação para a Evangelização dos Povos, «algumas pessoas acabam marginalizadas [no processo de globalização]», enveredando pela «globalização de superficialidade». «Num minuto, fazem uma coisa; noutro minuto, fazem outra. Não param para entrar no seu mundo interior. Esta superficialidade é alimentada pelo consumismo, sendo bastante difundida. Enquanto este estado de coisas tiver origens económicas afectará realmente muitos aspectos das nossas vidas», explicou. Estas declarações foram proferidas a’O CLARIM à margem da “Sixth Fu Jen Academia Catholica International Conference”, que teve lugar nos dias 29 e 30 de Maio, na Universidade Católica de Fu Jen (Taiwan), e foi dedicada ao tema “Inculturação da Igreja Católica desde o Vaticano II”. Nesse âmbito, D. Savio Hon Tai-Fai deu como exemplo o pensamento do cardeal D. Celso Constantini, um delegado pontifício que viveu entre 1876 e 1958. «Embora o cardeal Constantini admitisse que, de facto, os valores (como os dos chineses) fossem importantes, o homem necessitava de redenção e de ser elevado à Graça por Jesus Cristo», disse, justificando: «Os leigos devem viver a sua fé, devem santificar-se, devem seguir Cristo; receber os sacramentos; ler o Evangelho; envolverem-se no trabalho de evangelização. Esta é a obra de santificação. Quanto mais nos santificarmos, mais descobrimos áreas para a auto-reflexão». A terminar referiu ainda o que entende por “evangelizar”: «Evangelizar não é apenas aumentar o número de crentes. Não podemos simplesmente apontar para os números. A evangelização é, essencialmente, deixar Cristo atrair as almas para si mesmo. Ele é o nosso Salvador. Não somos nós que salvamos os outros com a nossa eloquência. Todo o católico deve ser uma plataforma de difusão da fé. O exemplo da nossa vida deve levar os outros a procurar Cristo. O mais importante é aqueles que não conhecem Cristo poderem conhecê-lo através de nós e não simplesmente servirem para aumentar o número de convertidos». J.M.E./L.R.M. EMIRADOS ÁRABES UNIDOS Vaticano inaugura segunda igreja católica O secretário de Estado do Vaticano inaugurou a segunda igreja católica em Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos, e destacou que «transformar o mundo num lugar melhor para todos» é um objectivo comum a cristãos e muçulmanos. «Como membros da sociedade onde vivemos sabemos que a nossa vida está estreitamente ligada à de quantos pertencem a outras religiões e culturas, com os quais compartilhamos o mundo», disse o cardeal D. Pietro Parolin. A nova igreja católica em Abu Dhabi testemunha um «esforço por construir» uma sociedade caracterizada pela «coexistência e pelo respeito recíproco», frisou. Neste contexto, destacou pontos comuns na promoção da «liberdade de religião» para todos, a «convivência pacífica» dos povos, numa fraternidade global das nações no «respeito e na aceitação recíprocas». Na cerimónia, divulga o jornal do Vaticano, L’Osservatore Romano, o pre- lado começou por agradecer primeiro ao Presidente dos Emirados Árabes Unidos, ao príncipe herdeiro e ao ministro da Cultura, da Juventude e do Desenvolvimento Social. «A nossa fé em Deus inspira-nos a irmos ao encontro uns dos outros», comentou. Depois da inauguração da igreja de São Paulo, situada no bairro periférico de Mussafah, D. Pietro Parolin celebrou a Eucaristia da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus. In ECCLESIA PADRE LANCELOTE RODRIGUES – Os padres Domingos Soares, Fernando Costa e José Legido celebram missa pelo 2º aniversário da morte do padre Lancelote Rodrigues, na capela do Cemitério de São Miguel Arcanjo, onde o “padre dos refugiados” se encontra sepultado. E N T R E V I S TA O CLARIM | Semanário Católico de Macau | SEXTA-FEIRA | 19 de Junho de 2015 4 PT DUARTE ALVES, PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO DOS JOVENS MACAENSES «Temos que ter outra visão» PEDRO DANIEL OLIVEIRA [email protected] O 3º Encontro da Comunidade Juvenil Macaense é visto por Duarte Alves como uma forma de dar a conhecer às novas gerações da diáspora as suas raízes. A’O CLARIM, o presidente da Associação dos Jovens Macaenses referiu que a comunidade macaense não está em risco, mas precisa olhar para o futuro com outra visão. O CLARIM – A Associação dos Jovens Macaenses realiza, entre amanhã [quarta-feira] e a próxima terça-feira, o 3º Encontro da Comunidade Juvenil Macaense, que reúne no território representantes das doze Casas de Macau espalhadas pelo mundo. Quais os objectivos? DUARTE ALVES – É um evento bastante importante para a nossa comunidade e para os jovens, porque não só nos aproxima da comunidade macaense da diáspora, como dá a oportunidade a quem está em Macau para trabalhar [por um ideal] e ficarmos a conhecer–nos melhor uns ao outros. Serve também para reflectirmos e discutirmos sobre a nossa comunidade, e sobre o que fazer para dar continuidade a este trabalho de modo a estarmos mais envolvidos no desenvolvimento e no dia-a-dia da RAEM. CL – E para quem vem de fora? D.A. – Passa por dar-lhes a conhecer Macau. A maioria é da segunda ou terceira geração de famílias macaenses a viver há muitos anos noutros países, e que sempre ouviu falar de Macau, mas do seu lado antigo. Mesmo assim, [são pessoas que] sentem uma grande ligação a Macau e consideram que as suas raízes também estão nesta terra. Por isso, aproveitam esta oportunidade para conhecer não só a cidade, como também a nossa comunidade jovem, partilhando o mesmo objectivo de manter viva esta ligação entre Macau e a comunidade macaense da diáspora. CL – Que diferenças nota entre os jovens e os mais velhos da comunidade local? D.A. – No meu ponto de vista, ao longo da História de Macau a comunidade macaense tem vindo a desenvolver-se, bem como o território. A geração anterior à nossa esteve muito activa no período da transição. A comunidade jovem, hoje em dia, está envolvida e inserida na RAEM. Os objectivos e a maneira de trabalhar têm que ser diferentes. Podemos olhar para o passado como referência, aprender e conhecer melhor o que foi feito, mas também temos que olhar para o futuro com outra visão para realmente podermos dar o nosso contributo para o desenvolvimento da RAEM. CL – Que importância atribui às Casas de Macau? D.A. – São bastante importantes para internacionalizar, ou dinamizar, o nome de Macau pelo mundo fora. Macau é bastante conhecida, em especial pela área económica e pelo Jogo. Macau não é só o Jogo. A nossa função é mostrar a estes amigos que vêm de fora a nossa comunidade e o que Macau tem para além do Jogo. CL – Em determinados nichos da diáspora fala-se o Cantonense e o Inglês, mas não o Português. É preocupante? D.A. – É engraçado porque todos os membros da comunidade macaense da diáspora também mantêm uma ligação à cultura portuguesa. Infelizmente, o Português pode não ser a língua mais falada, mas sente-se que é de grande importância para caracterizar a nossa comunidade. Podem não falar muito o Português, mas têm sempre o objectivo de conseguir dizer umas palavrinhas ou de pelo menos tentar entender o que se diz na língua portuguesa. Acredito também que, para quem vive nos Estados Unidos ou na Austrália, seja difícil manter vivo o Português, mas penso que o importante é saber que faz parte da história da comunidade. CL – Nos países de acolhimento, por via de uma forte aculturação, a terceira geração é algo desprendida da comunidade macaense. É também preocupante? D.A. – São eventos como este que fazem os jovens estar mais envolvidos e ter uma forte ligação. Se não for assim será muito difícil manter esta relação entre os jovens da diáspora e os que estão em Macau. CL – Terá Macau capacidade para ser o núcleo que congrega as comunidades espalhadas pela diáspora? Será que cada Casa de Macau faz esse papel? Ou haverá aqui um complemento? D.A. – Acredito mais no complemento. Obviamente, Macau é o berço da comunidade. É um trabalho que já tem vindo a ser feito pelo Conselho das Comunidades Macaenses. O sentimento que temos em comum com a diáspora é o de pertença a Macau e das raízes estarem no território. É o trabalho entre o Conselho das Comunidade Macaenses e as comunidades da diáspora que vem reforçar a relação entre Macau e as Casas de Macau no sentido de sabermos como todos juntos conseguimos dar um contributo à comunidade e à RAEM. CL – Além dos portugueses, também os macaenses têm cada vez menos preponderância na política em Macau. Actualmente, há apenas dois deputados macaenses, um dos quais o seu pai. Sente que a comunidade está em perigo? D.A. – Não. Não sinto que esteja em perigo. Há realmente um fosso entre gerações, talvez um vazio um bocado grande, mas também temos vários jovens muito activos na sociedade que devagarinho vão entrando na vida política. Claro que cada um entra na área em que está mais confortável e acha que pode dar o seu contributo. Acredito que o contributo não está em perigo. CL – Sente-se com capacidade para liderar a comunidade no futuro? D.A. – Um líder tem que ser escolhido pela comunidade. Não é algo que uma pessoa se auto-intitule. Estou concentrado em trabalhar e dar o meu contributo para a comunidade. Se no futuro a comunidade vir que posso ajudar de outra maneira, e eu sentir que sou capaz de concretizar esses objectivos, estarei então disponível para ajudar em tudo a comunidade e também a RAEM. O CLARIM | Semanário Católico de Macau | SEXTA-FEIRA | 19 de Junho de 2015 5 PT LOCAL CÁRITAS MACAU DOA 1,6 MILHÃO DE PATACAS AO NEPAL Paul Pun descreve o que viu PEDRO DANIEL OLIVEIRA [email protected] O secretário-geral da Cáritas Macau, Paul Pun, esteve entre 4 e 9 de Junho no Nepal, onde ficou a saber como está a decorrer a ajuda humanitária da Cáritas Internacional nas áreas afectadas pelo sismo ocorrido no passado dia 25 de Abril, no qual morreram mais de sete mil pessoas. «Fui a Katmandu e à zona de Bagmati. Vi edifícios totalmente destruídos e outros parcialmente destruídos. Havia alguns intactos. Pensei que a população estivesse privada de bons abastecimentos [de comida] e houvesse muita fome, mas na medida do possível as pessoas estão bem devido à ajuda humanitária», descreveu. «Há muitos voluntários indianos, nepaleses, austríacos, britânicos, americanos, australianos, alemães... Há apoio do Governo da China, do “World Food Program” e de várias ONG. O mundo está a tentar ajudar os nepaleses», salientou. «A Cáritas Macau já enviou para o Nepal cerca de 800 mil patacas e está próxima de reunir idêntico valor, que também será enviado para apoiar a actividade da Cáritas Internacional no terreno», revelou. «Iniciámos a campanha de angariação de fundos um dia após o sismo e as pessoas começaram a fazer os seus donativos nas missas, nas escolas, maioritariamente católicas, na comunidade da Cáritas e a título individual ou colectivo. Recebemos ainda uma verba da Diocese de Macau e continuamos a vender os nossos artigos em segunda mão no bazar de caridade», acrescentou. «O Nepal é um país pobre e ficou ainda VISITA DE JOSÉ EDUARDO DOS SANTOS À RPC mais pobre após este desastre natural. Penso que [as autoridades nepalesas] devem saber como utilizar o financiamento internacional, porque se não for gerido de maneira adequada as pessoas deixam de fazer donativos. Acredito que o financiamento não seja eterno, por isso devem gastá-lo com sensatez», explicou o secretário-geral da Cáritas Macau. Segundo Paul Pun é preciso estabelecer prioridades na reconstrução das áreas afectadas. «Não se pode correr o risco de olhar para umas povoações e descurar outras. É preciso aceitar as limitações do momento. Por isso, será importante que [as autoridades nepalesas] se certifiquem que as necessidades básicas da população estão a ser satisfeitas», frisou, exemplificando que «nesta primeira fase devem construir tendas para todos, em vez de casas só para alguns». A terminar, disse ser importante que o calendário escolar tenha continuidade, em vez das crianças ficarem em casa ou nos abrigos temporários. E quanto aos cuidados de saúde, percebe ser inviável a construção de hospitais. «As clínicas são a melhor solução, porém, não devem ficar em tendas, mas sim em edifícios sólidos». ZONTA CLUBE DE MACAU É HOJE OFICIALIZADO Macau no eixo Angola-China Mulheres de ferro O Presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, manteve encontros ao mais alto nível no recente périplo de seis dias à República Popular da China, tendo em vista a concretização de um novo pacote financeiro para o país africano enfrentar as dificuldades criadas pela redução do preço mundial do petróleo. O CLARIM sabe que também se falou de Macau. «A parte angolana aflorou a importância de inserir Macau no relacionamento bilateral com a China para que os empresários do território possam entrar nos projectos chineses que estão a ser concretizados em Angola. Gostaríamos que fosse utilizada a plataforma de Macau entre a China e Angola. É uma ideia que transmitimos aos empresários chineses», disse Belarmino Barbosa, delegado de Angola no Fórum Macau. «A intenção de englobar Macau foi manifestada no “Fórum de Negócios China-Angola”, realizado em Pequim a 12 de Junho, no qual estiveram presentes o Presidente José Eduardo dos Santos, os ministros angolanos dos Transportes, do Co- mércio, da Agricultura, da Educação, do Ensino Superior, da Energia e Águas, e empresários, tanto angolanos, como chineses», acrescentou o representante comercial de Luanda no Consulado-geral de Angola em Macau. Belarmino Barbosa enalteceu ainda a relação entre os dois Estados: «A relações bilaterais entre Angola e a China estão muito frutuosas e boas. Angola vê na China uma importante parceira para ajudar a desenvolver os sectores da agricultura, da indústria e da energia, entre outros». P.D.O. O Zonta Clube de Macau vai ser hoje oficializado em cerimónia a realizar no “Art Space” do MGM. A nova instituição tem como objectivo contribuir para o crescimento saudável da sociedade de Macau, promovendo o estatuto das mulheres e das crianças que têm uma voz menos ouvida. «Em geral, procuramos apoiar os grupos que precisam de mais atenção e ajuda. No caso das mulheres, queremos trabalhar para que se possa atingir a igualdade de género em Macau, reduzindo as desigualdades», referiu a’O CLARIM Christiana Ieong, presidente e fundadora do Zonta Clube de Macau. Embora só agora seja oficializada, a instituição já efectuou várias actividades a envolver membros da comunidade em Macau e, também, em ligação com o “Zonta International”. «Realizámos actividades para crianças desfavorecidas, particularmente dos orfanatos de Macau com saídas e festa de Natal. O núcleo da família é muito importante para nós, por ser fundamental para o bem-estar da sociedade», frisou. Para Christiana Ieong, «talvez a acção mais publicitada da nossa jovem associação foi a intervenção no debate da violência doméstica que se gerou em torno do projecto legislativo», porque «para além do nosso protesto quanto às palavras proferidas no hemiciclo por um deputado [Fong Chi Keong] conseguimos reunir dezenas de milhares de assinaturas em Macau, Hong Kong, Singapura e Japão, entre outros países, sobre a tolerância zero em relação ao assunto». P.D.O. LOCAL O CLARIM | Semanário Católico de Macau | SEXTA-FEIRA | 19 de Junho de 2015 6 PT CONHECER AS LEIS DE MACAU Perguntas frequentes sobre o arrendamento Tanto o proprietário como o arrendatário encontram sempre alguns problemas em relação ao arrendamento habitacional ou de loja, não sabendo como resolvê-los. Entre estes, incluem-se provavelmente os seguintes três problemas: Durante a vigência do contrato de arrendamento, poderá o proprietário proceder unilateralmente ao aumento da renda? Alguns proprietários pretendem aumentar a renda antes do termo do prazo do contrato de arrendamento. Nos termos do Código Civil, durante a vigência do contrato de arrendamento, geralmente, o proprietário e o arrendatário só podem proceder ao aumento da renda mediante acordo entre ambos. O acordo para aumentar a renda pode ser realizado por acordo prévio ou posteriormente. Há acordo prévio quando se estipula o aumento da renda no momento de celebração de contrato de arren- CARTOON damento. Quanto ao acordo posterior, este existe quando o aumento da renda não consta do contrato de arrendamento, podendo ambas as partes proceder por meio de negociação posterior ao acordo para aumentar a renda. Portanto, na falta de cláusula contratual relativa ao aumento da renda, se o proprietário pretender aumentar a renda, só poderá fazê-lo por meio de negociação posterior, havendo aumento da renda apenas após a obtenção do consentimento do arrendatário. Se não houver qualquer aumento da renda convencionada, o proprietário não pode proceder unilateralmente ao aumento da renda de harmonia com o aumento das rendas no mercado, no momento da vigência do contrato. Se o proprietário aumentar a renda, o valor da actualização da renda terá um limite? Independentemente da negociação para aumento da renda durante a vigência do contrato, ou da actualização da renda após o termo do contrato, a lei não estabelece um limite mínimo ou máximo em relação à proporção do aumento da renda, dependendo este inteiramente do acordo das partes, ou seja, do acordo entre o proprietário e o arrendatário. Da mesma forma, a lei também não estabelece um limite mínimo ou máximo em relação ao valor da renda que é fixada no início do contrato de arrendamento, dependendo esta do acordo das partes. O arrendatário recusa do despejo após o termo do contrato, o que poderá o proprietário fazer? Em relação ao arrendatário, além da obrigação de pagar pontualmente a renda mensal, existe também a obrigação de entregar o prédio ao proprietário após o termo do contrato. De facto, se o arrendatário se recusar a sair no termo do prazo do contrato, de acordo com a lei, o proprietário pode requerer uma acção de despejo no tribunal. A acção de despejo é uma acção que se destina a obrigar o arrendatário a desocupar o prédio, através da qual, o proprietário, além de requerer ao juiz que ordene o despejo do arrendatário, pode também pedir uma indemnização pelos danos causados pela recusa de sair do arrendatário. Se o arrendatário não entregar o prédio na data determinada, o tribunal pode emitir um mandado a pedido do proprietário, com vista à execução forçada para a devolução do prédio. Obs. O presente texto tem como referência principal os artigos 1029.° a 1044.° do “Código Civil” e os artigos 929.°, 931.° e 935.° do “Código de Processo Civil”. Texto fornecido pela Direcção dos Serviços de Assuntos de Justiça O CLARIM | Semanário Católico de Macau | SEXTA-FEIRA | 19 de Junho de 2015 7 PT MEDIA RAUL PINEDO, JORNALISTA PERUANO «O jornalismo latino-americano perdeu a valentia» JOAQUIM MAGALHÃES DE CASTRO Raul Pinedo destaca «a extirpação do terrorismo no Peru e a captura de Abimael Guzmán», líder do Sendero Luminoso. [email protected] XENOFOBIA E MEDO O peruano Raul Pinedo conta a’O CLARIM como é ser jornalista em terra alheia. Fala-nos ainda das suas origens sefarditas e não exclui a possibilidade de alguns dos seus antepassados terem ascendência portuguesa. Após a expulsão dos judeus da Península Ibérica, em finais do século XV, os judeus sefarditas espalharam-se pelos mais diversos recantos da Europa, tendo muitos deles rumado ao Novo Mundo, pois assim era conhecido o continente americano acabado de se revelar ao homem europeu. Entre as famílias judaicas instaladas em Curação, constavam os Pinedo. Pelos vistos, para eles essa ilha caribenha foi mero ponto de passagem. «O meu avô, Luis Pinedo, nasceu em Iquitos, a maior cidade na Amazónia peruana, que prosperou graças ao comércio da borracha», conta Raul Pinedo. Ora, em Iquitos, medrou desde sempre uma comunidade de cristãos-novos de matriz portuguesa, ainda hoje activa, ao contrário de outras de diferentes origens que, por ausência de transmissão das tradições e costumes, seriam totalmente assimiladas. «Famílias como a minha mantiveram-se firmes nas suas crenças, nunca renegando a sua herança espiritual, embora algumas tenham optado por regressar a Israel», informa o jornalista peruano. Mas será que Raul se considera um homem religioso? Não propriamente, embora, em Lima, reunisse habitualmente com elementos da comunidade sefardita e, actualmente, no Panamá, integra uma congregação fundada por judeus naturais de Curação. Pinedo celebra, não obstante, o “shabat” e as festividades do calendário lunar hebraico, e, «o mais importante de tudo», assume no seu dia-a-dia «uma atitude judaica». Raul Pinedo nasceu em Lima e, no final da Escola Primária, aos doze anos, foi morar com os seus pais para a Cidade do Panamá. Aí conclui o Ensino Secundário e, em 1996, ingressou na Universidade Católica Santa Maria La Antigua, onde estudou Administração de Empresas. No entanto, como o próprio confessa, «os números não eram Joaquim Magalhães de Castro a minha coisa», e, por isso, «abandonei a corrida», em meados de 1998. Acabara de completar dezoito anos e não tinha a mínima qual iria ser doravante o seu percurso profissional. Uma curta estada em Lima revelou-lhe o gosto pela escrita. De regresso ao Panamá, já em 2000, o professor responsável pelo Círculo de Leitura da Universidade Católica, ao qual pertencia, aconselhou-o a enveredar pelo jornalismo. «Aparentemente, tinha encontrado o meu caminho», admite Raul Pinedo. Seguindo o conselho do lente, matriculou-se na Faculdade de Comunicação Social da Universidade Nacional e, quatro anos depois, estava a trabalhar como “freelancer”. Foram os motivos económicos, «mais de uma simplesmente vontade de mudar», que levaram os pais de Raul a procurar novos horizontes no Panamá, um país, à época, «com boas oportunidades de negócio», ao contrário do Peru, avassalado por uma inflação galopante provocada pela instabilidade política e económica – na opinião de Pinedo – «gerada pelo terrorismo originário dos Andes peruanos». Curiosamente, a família abandonou Lima aquando a eleição de Alberto Fujimori para Presidente. Durante toda a década de 90, «esse controverso filho de imigrantes japoneses fez uma série de reformas», no fundo, pondo em prática o lema presidencial “Cambio 90”. Como pontos positivos da sua governação, Até há bem pouco tempo ser jornalista estrangeiro no Panamá era algo de bastante normal. As condições de trabalho e os benefícios eram iguais para todos os membros da classe, nacionais ou estrangeiros. «Quem escrevesse bem, logicamente conseguia algum destaque, garantindo uma posição promissora na agremiação», acrescenta Raul. Porém, tudo isso mudou nos últimos anos devido às «diatribes xenófobas» presentes nos discursos de alguns dos políticos do País, geradoras de sentimentos de inveja em todos os sectores da sociedade. O jornalismo, como é óbvio, não foi excepção. Após cinco anos de vivência no estrangeiro, Raul Pinedo, no seu regresso ao Panamá, foi confrontado com essa crescente onda de xenofobia. «Aos jornalistas estrangeiros fecham-lhes agora as portas, alegando que as vagas disponíveis são para os panamianos ou que a cota para recrutamento estrangeiro foi já excedida», diz. Obviamente, o jornalismo na América Latina, apesar das diferenças geográficas, tem pontos de contacto, mas que se assemelham, e muitos outros que se distanciam. De uma forma geral, peca, no entender de Raul, por «um excesso de complacência». E exemplifica: «No Perú, sempre que o actual Presidente da República, Ollanta Humala, se sente incomodado face a uma determinada pergunta, não hesita em mandar calar – literalmente – o jornalista. E o curioso é que este não só não insiste, como baixa o olhar e muito obedientemente se cala». No Panamá, por sua vez, impera a hipocrisia. Ao longo de toda a administração de Ricardo Martinelli (ex-Presidente da República) nenhum jornalista se atreveu a questioná-lo. As perguntas eram dirigidas aos responsáveis pelas Relações Públicas. Contudo, agora que está afastado do poder, os jornalistas caem sobre Martinelli quais lobos famintos. «Se o jornalista não questiona, qual é então a razão da sua existência?», pergunta Raul Pinedo. Segundo ele, o actual jornalismo latino-americano atravessa uma profunda crise. Na verdade, «perdeu a sua valentia, rendendo-se completamente aos interesses económicos». Não se fala aqui de jornalismo ideológico, «antes da total manipulação das noticias por parte dos próprios anunciantes», sendo esse o problema mais grave «enfrentado pela agremiação hoje em dia», tanto na América do Sul como nos países do Caraíbe. DESPORTO O CLARIM | Semanário Católico de Macau | SEXTA-FEIRA | 19 de Junho de 2015 8 PT FÓRMULA 1 – ÉPOCA DE 2015 Hulkenberg vence Le Mans MANUEL DOS SANTOS Qualquer pessoa com um mínimo de interesse no desporto automóvel está ciente das dificuldades com que a Fórmula 1 se tem debatido desde o início do segundo decénio do século XXI, enfrentado crise após crise, e muitas delas não são mais do que o seguimento da crise anterior mal resolvida ou apenas contornada. Confrontando-se com uma incrível dificuldade em arranjar soluções, as entidades mais ou menos oficiais, e mesmo a própria FIA - Federação Internacional do Automóvel, recorrem actualmente a pesquisas de opinião pelo mundo fora. O problema é que embora as respostas sejam apreciadas e atendidas quando razoáveis, as perguntas de quase todos os inquéritos conhecidos repetem-se, o que no final não nos dá uma visão alargada das possíveis soluções nascidas dessas pesquisas. Proceder-se a quatro pesquisas, umas atrás das outras, apenas alterando a colocação das perguntas, sem qualquer criatividade, não deverá ser o melhor para captar as ideias das milhares de pessoas consultadas. Uma vez mais a confusão e falta de ideias inovadoras deverá resultar em pouco mais do que um aglomerado de respostas, repetidas, sendo que muito poucas poderão ser aproveitadas. A Fórmula 1 cresceu demais, deixou de se preocupar com o interesse dos espectadores, tanto de bancada como televisivo, ao afastar-se dos circuitos tradicionais. A resposta ouvida a esta iniciativa, feita por alguns comentadores, de que o resto do mundo também tem direito a ter corri- das de Fórmula 1, é ridícula. Esquecem-se que a maioria, a esmagadora maioria dos espectadores, não tem possibilidades – financeiras e outras – de se deslocar pelo mundo fora para ver as corridas, o que não corresponde ao ideal da Fórmula 1 dos primeiros 45/50 anos. O resultado de inovações apressadas, alterações constantes aos regulamentos e tentativas falhadas de se implementar ideias sem pés nem cabeça, são problemas a juntar aos já existentes. Cada vez mais cara, com carros que não agradam aos espectadores, mais lentos em cerca de 6/7 segundos por volta, as multidões escasseiam cada vez mais. E multidões é o que não falta ao Campeonato do Mundo de Endurance (Resistência), com um calendário comedido de apenas oito provas – a “velhinha” 24 Horas de Le Mans mais sete provas de seis horas. Multidões que se viram no passado, desde que as provas de “endurance” começaram, muito antes da Fórmula 1 e dos Carros de Grande Prémio anteriores às Grandes Guerras, continuam fiéis ao longo dos tempos. Não que as corridas de resistência não tenham problemas, e por vezes graves, como o brutal acidente das 24 Horas de Le Mans em 1955, ou as corridas mono-marca do início dos anos 90, onde por falta de interesse das outras marcas apenas a Peugeot apresentou carros na única prova desse tipo no Circuito de la Sarthe. Organizada pelo Automóvel Clube do Oeste (Automobile Club de l’Ouest) a edição deste ano (a 83ª) foi ganha por uma equipa integrada por um piloto da actual fórmula 1, Nico Hulkenberg, que entrou para história da prova ao vencê-la na primeira tentativa. Há muitos pilotos que já ali- nharam incontáveis vezes nesta mítica corrida sem terem sequer chegado perto dos lugares do pódio, apesar de utilizarem carros altamente competitivos. Sem consultarmos qualquer livro ou arquivo, vem-nos à memória o nome de Mário Andretti, que venceu tudo o que havia para vencer nos Estados Unidos, foi Campeão do Mundo de Fórmula 1, mas nunca conseguiu vencer na “corrida mais longa”. O único piloto a conseguir vencer a tripla coroa, (Indianápolis, Mónaco e Le Mans) foi o inglês Graham Hill, que não se contentou em vencer apenas uma vez no Principado do Mónaco, repetindo a proeza mais quatro vezes. Hill foi Campeão do Mundo de Pilotos por duas vezes, venceu a famosa Indy 500 em 1966, e Le Mans em 1972. Por parte dos pilotos portugueses em Le Mans, só Pedro Lamy se destacou até agora, de entre uma mão cheia de nomes. Este ano – pensa-se que por não ter percorrido uma distância suficiente – a equipa de Pedro Lamy não se classificou, apesar ter terminado a corrida com 321 voltas. Ainda assim, o piloto português lidera a classe LMGTE, com duas vitórias no Mundial de Resistência. Em Le Mans, Lamy já conseguiu três segundos e um terceiro lugar na classe rainha, a LMP1. No passado fim de semana mais quatro pilotos lusos integraram equipas que disputaram a corrida de resistência francesa em diversas classes de veículos. O melhor classificado, com um óptimo sétimo lugar na classificação geral, foi Filipe Albuquerque. Os portugueses classificados foram Rui Águas, na 26 ª posição da geral num Ferrari Italia da classe LMGTE, e João Barbosa na 32ª posição da geral com um Ligier JS P2 da classe LMP2. Tiago Monteiro foi excluído por ter efectuado apenas 260 voltas ao circuito, que tem um perímetro de 13,629 quilómetros, sendo que a volta mais rápida foi estabelecida por um Audi no ano passado em 3 minutos, 17 segundos e 475 milésimas. Le Mans é o maior circuito do mundo com uma capacidade para 120 mil espectadores na recta da meta. Desta vez assistiram à corrida cerca de 230 mil pessoas. Se compararmos com a Fórmula 1, só há uma resposta: Não há comparação! Por falar em Fórmula 1, esta regressa já este fim de semana à Europa, para o Grande Prémio da Áustria, no Red Bull Ring, na cidade de Spielberg – terreno propício aos Mercedes, mas onde os Ferrari e talvez os Williams tenham uma palavra a dizer. !"#$%&#$'()*&+,-./0#$12 ENTREGUE ESTE CUPÃO NAS BILHETEIRAS DO CINETEATRO DE MACAU #$34567893 DATA DO SORTEIO: 25 DE JUNHO DE 2015 OPINIÃO O CLARIM | Semanário Católico de Macau | SEXTA-FEIRA | 19 de Junho de 2015 9 PT O L H A N D O E M R E D O R Nova Revolução Cultural PEDRO DANIEL OLIVEIRA [email protected] N o meu tempo de criança, quando residia em Portugal, tive a oportunidade de assistir à série “Os novos heróis de Shaolin”, que passou na RTP entre 1986 e 1987. Apesar de ser uma produção de Hong Kong, o enredo transportou-me para uma China imaginária (porque nada dela conhecia), onde na flor da minha inocência a solidariedade e cumplicidade entre pessoas com ideais comuns levaria a um “mundo melhor”, numa luta do bem contra o mal. Embora sem ter consciência disso, pois estava longe de saber que o meu destino seria viver no continente asiático, sei agora que terá sido por tamanha infelicidade que não houve continuidade neste tipo de “aculturação” televisiva sobre o Império do Meio. O que entrava lá em casa era, essencialmente, desenhos animados japoneses, americanos e produções franco-japonesas, entre as quais, “Conan, o rapaz do futuro”, “He-Man”, “Ulysses 31”, “Era Uma Vez... o Espaço” e “Tartarugas Ninja”, sem esquecer as séries americanas “Battlestar Galactica”, Espaço 1999”, “Buck Rogers no Século 25”, “MacGyver”, “Soldados da Fortuna” e “O Justiceiro” (do famoso Kitt), entre outras. A poderosa indústria de Hollywood moldou sobremaneira a minha forma de pensar desde a infância até à idade adulta, ao impregnar-me com estereótipos desajustados da realidade. Um claro exemplo foi saber que houve uma guerra no Vietname e pensar que os Estados Unidos saíram vencedores, quiçá pelo que me ficara gravado na memória sobre os filmes “Rambo II” e “Bom Dia, Vietnam”, magistralmente interpretados por Sylvester Stallone e Robbie Williams, respectivamente. Todavia, descobri mais tarde que os soldados americanos tiveram uma humilhante derrota no Vietname (e foram os principais responsáveis pelo florescimento do maior centro de prostituição no mundo, em Pattaya, Tailândia). Quando vi pela primeira vez “Rambo II” e “Bom Dia, Vietnam”, tinha entre 14 e 16 anos, pouco conhecia o mundo e nada sabia da China... a não ser pelo que visionava nuns filmes de “kung-fu”, em cassete “Beta”, que um amigo eximigrante na África do Sul me emprestava de vez em quando. VOLTE-FACE A República Popular da China é hoje uma importantíssima potência mundial com grande peso na Comunidade Internacional. Lidera muitos sectores à escala planetária e tem o seu programa espacial, inclusivamente com missões tripuladas, sendo o terceiro país a levar uma sonda à Lua, depois da ex-União Soviética e dos Estados Unidos. Atingido este desiderato com reconhecido sucesso, falta à China dar-se a conhecer ao mundo na vertente cultural, o que numa primeira instância só pode ser conseguido através da poderosíssima indústria cinematográfica e da televisão. Neste âmbito, não é descabido se se fundar uma espécie de Hollywood algures em Pequim ou Xangai, com mega produções financiadas por capitais nacionais para servir o mercado internacional, sobre as quais o resto do mundo terá a oportunidade de conhecer vários aspectos ainda desconhecidos da milenar civilização chinesa. Neste projecto convinha não descurar as películas de teor contemporâneo, tendo como protagonistas actores ocidentais, alguns conhecidos do grande público. Por fim, seria primordial se a China criasse os seus próprios heróis, alguns deles ocidentalizados, por forma a jogar uma grande cartada de afirmação mundial. Até porque já todos conhecemos o Homem Aranha, o Batman, o Super-Homem, o Iron Man... Aliada a toda esta megalomania com pernas para andar, Pequim não deve nunca descurar a promoção da sua identidade cultural, através da divulgação do que melhor tem na arte, na música e noutras vertentes culturais. A razão é simples: estando o público mundial melhor consciencializado sobre a China, certamente estará mais interessado em descobrir o seu lado mais cultural. Trata-se, afinal, de se dar a conhecer com toda a legitimidade, sem impor ditames económicos, o que em último recurso vai trazer-lhe ainda mais dividendos no exterior, por exemplo, em detrimento da desconfiança sobre a RPC que ainda paira na cabeça de muitos ocidentais (e não só) a viver no outro lado do planeta. Uma nota: O filme “The Bombing”, mega produção chinesa sobre a II Guerra Mundial, tendo Bruce Willis como estrela de cartaz, deve ser aproveitado pela China para se posicionar na vanguarda da indústria cinematográfica. Assim tenha o ensejo de fazer boa arte! MACAU Macau deverá ficar descartada de qualquer papel pri- mordial que tenha em vista o estabelecimento de uma indústria cinematográfica chinesa a pensar no mundo. A razão é simples: a ilha da Montanha está voltada para outros empreendimentos e a RAEM não só luta com falta de espaço, como tem grande défice de sensibilidade cultural (salvo algumas excepções). Cumulativamente, será descabido sediar no território uma hipotética associação cultural dos países Lusófonos, à imagem do Fórum Macau para as vertentes económica e cultural. Apresento duas razões de monta: 1 – A cultura nunca pode ser usada como “soft power” pela China, sob pena de estar a perder tempo com o que é importante. 2 – A liderança na cultura deve ser estritamente gizada e supervisionada pelo Governo Central, em Pequim. Macau pode e deve, isso sim, partilhar responsabilidades na promoção cultural com a lusofonia. C U LT U R A O CLARIM | Semanário Católico de Maca 10 PT MEMÓRIAS E FORTALEZAS NO Missangas, Norte-core JOAQUIM MAGALHÃES DE CASTRO [email protected] Antes de partir para o Norte, compete-me conhecer algumas das pessoas intimamente ligadas à Ilha de Moçambique e que ao longo processo lhe permitiria obter a distinção Património da Humanidade, em 1993. Uma dessas pessoas é Luís Filipe Pereira, colega de cátedra do reputado historiador Joaquim Romero Magalhães e actual presidente da Associação dos Amigos da Ilha de Moçambique. «–VAIS à Ilha?». Os moçambicanos nunca acrescentam a palavra Moçambique quando se referem à ilha que durante séculos foi refúgio vital, centro administrativo, atalaia de um estreito que dava acesso ao mundo efabulado das Índias. Luís Filipe Pereira considera a sua terra natal a jóia da coroa do País. Pede-me, por isso, que não fique mal impressionado com os aspectos menos agradáveis do local, como, por exemplo, o casario a degradar-se, ano após ano. «– Um olhar mais atento revelar-lhe-á agradáveis surpresas», diz. E convida: «– Não hesite em entrar nos pátios interiores de algumas das casas para apreciar belos pormenores de arte indo-portuguesa ou arcos em ogiva de clara inspiração manuelina». As missangas que a correnteza arrasta do fundo dos porões dos barcos naufragados até à praia de areia fina são um dos produtos locais que os jovens locais tentam vender aos turistas. «– Traziam-nas os portugueses da Índia», explica o professor. Originárias de diversas realidades geográficas como o Afeganistão ou a Pérsia, eram mandadas vidrar em Veneza e só depois integradas nos “tesouros” destinados aos chefes locais. Os mercadores tentavam dessa forma impressionar os nativos, testando-os simultaneamente, pois esperavam que em troca lhes disponibilizassem ouro ou qualquer pista que os conduzissem ao apetecido metal precioso. «– E quando acabará esse enorme manancial de missangas?», questiona o incansável Matteo. Acabará um dia, como tudo. Por ora, garante Luís Filipe Pereira, há ainda muita missanga. Segundo ele, estarão submersas no canal de Moçambique dezenas e dezenas de embarcações, pois já os textos antigos alertavam para a perigosidade do local, muito semelhante, no seu desenho FOTOS | Joaquim Magalhães de Castro geográfico, ao canal que separa Malaca da ilha da Samatra. Muitas dessas missangas são directamente desenterradas da areia, por pás e picaretas mais empreendedoras. «– Se visitar os museus ficará agradavelmente surpreendido», atira Pereira. A questão da venda das missangas leva-nos forçosamente à questão do saque ao património, triste realidade nos últimos anos. Fala-se, por exemplo, de alguns abusos por parte de uma empresa cubana de arqueologia subaquática sedeada na Ilha, mas o meu interlocutor refuta por completo qualquer suspeita nesse sentido. Recorramos a um lugar-comum, para mim modus operandis, cartilha de bolso: as pessoas são aquilo que há de mais importante no cardápio disponibilizado pelas viagens. A mesma opinião terá Sara Sousa Teixeira, arquitecta e perita em arte, membro da Associação dos Amigos da Ilha de Moçambique. Chama-me a atenção para os personagens típicos da Ilha que «com certeza irá encontrar». É o caso do carteiro «que veste sempre de azul ou cor-de-rosa e transporta a correspondência numa mochila quase desfeita, de tão velha». NORTE-COREANOS A BORDO Ainda mal-refeito desta ablução de novidades, eis-me de novo no aeroporto de Maputo, com vista para a pista. Ou melhor dizendo, com terraço no primeiro andar onde crianças de olhos iluminados e encarapinhados motivos geométricos a pentear-lhes o cabelo vêm ver os aviões pousar e levantar. O aeroporto do Funchal também é assim, só que ali o Atlântico está mesmo ao pé e há um horizonte montanhoso como barreira natural; enquanto neste paralelo, é o Índico o responsável pelo constante banho ao litoral de perfil suave, e, para o interior, estende-se um imenso país que me é desconhecido. As aeronaves estão a uns meros passos de distância, não sendo por isso necessário qualquer transporte adicional. Antes da partida dou-me ao luxo de bebericar uma cerveja “Manica” abrigado por um gigantesco guarda-sol observando o pessoal do abastecimento de comestíveis e bebíveis (sei que é mais fino dizer “catering”, mas recuso fazê-lo) e os da limpeza e manutenção que efectuam as indispensáveis afinações no aparelho Boeing das Linhas Aéreas Moçambicanas com destino a Pemba, com passagem por Nampula. Isto, claro, depois de efectuado o devido registo do voo na companhia dos restantes passageiros: cidadãos moçambicanos, de estirpe africana e indiana, três chineses e um grupo de seis norte-coreanos, dois homens e quatro mulheres, duas delas com um broche com a imagem do querido líder Kim Il Song espetado na camisa à altura do seio esquerdo. Não vale a pena tentar estabelecer contacto visual com estas criaturas, com as quais muito raramente deparamos, e só em locais específicos como a China, Mongólia ou até Macau. Parecem ter sido programados para não mostrar qualquer emoção e evitar o contacto com quem quer que seja oriundo de outra realidade política alheia à nação mais isolada do plane- au | SEXTA-FEIRA | 19 de Junho de 2015 11 C U LT U R A PT O LESTE DE ÁFRICA – PARTE 2 eanos e Moçambola ta. Mesmo o norte-coreano que trata dos bilhetes, exprimindo-se num Português sem mácula, limita-se ao essencial. Meia hora mais tarde, já no momento do embarque, consigo arrancar um breve sorriso de uma das moças, o que considero uma verdadeira vitória. Entre os passageiros, apercebo-me entretanto da presença de outros dois europeus, ambos envolvidos em projectos agrícolas no País. Aproveitam as alargadas férias da Páscoa para desfrutar de uma das mais belas praias do mundo – pelo menos é isso o que se diz a respeito dos areais brancos e do azul cristalino das águas que banham o litoral norte moçambicano. Infelizmente, ficar-me-ei apenas pela ilha que deu o nome ao País, pois o tempo que tenho à minha disposição não dá para mais. OS ZIGUEZAGUES DO LIMPOPO Sentado na fila 19 da aeronave da LAM observo através da portinhola circular os meandros do rio Limpopo no seu zigue- zaguear, uma vez ultrapassados os refugos suburbanos que adicionam aos dois milhões de habitantes registados oficialmente em Maputo algumas outras centenas de milhar, pois as cidades, para desgraça deste planeta, não param de crescer. Atrás de mim ouço Mandarim e à minha frente um Português condimentado a caril. Atingida a velocidade de cruzeiro, e já com o astro rei a preparar a sua despedida, reparo que o miúdo sentado na poltrona oposta olha extasiado – tal como eu – para uma lua cheia que nos surge em forma de um enorme globo laranja, exactamente à altura da luz de presença da asa direita da aeronave. Informa-nos o piloto que lá fora estão 44 graus negativos e em Nampula chove, o que me deixa de novo sob o efeito do síndrome das condições climatéricas adversas sempre que visito qualquer local com o intuito de o fotografar. Como material de leitura tenho à minha disposição os jornais O País, Savana, Notícias e ainda um exemplar da Ín- dico, revista de bordo das Linhas Aéreas Moçambicanas. Num artigo de opinião de O País, Lázaro Mabunda chama a atenção para «falência da ética e profissionalismo no jornalismo moçambicano». Uns parágrafos adiante, colho uma inspiradora e algo optimista: «Sofremos demasiado pelo pouco que nos falta e alegramo-nos pouco pelo muito que temos». A hospedeira responsável pelo serviço aos passageiros das últimas filas, perfeito exemplo do secular processo de miscigenação, é frequentemente requisitada pelos rapazes de uma equipa da televisão estatal sentados dois lugares à frente do meu, e que em Nampula farão a cobertura de um desafio de futebol do campeonato nacional, o Moçambola. Já aviaram várias latas de cer veja “2 Mahon” e umas quantas garrafinhas de dose simples de “Black Level”, provavelmente martelado. A cerveja vale trinta meticais, mas o lanche e o chá fornecidos são suficientes para aconchegar o estômago, até porque a viagem não é longa. OPINIÃO O N O S S O O CLARIM | Semanário Católico de Macau | SEXTA-FEIRA | 19 de Junho de 2015 12 PT T E M P O A outra Europa CARLOS FROTA (*) A s relações da Rússia com a Europa têm decorrido com as tensões que se conhecem. E o recente recrudescer dos combates na Ucrânia Oriental não vai – é o mínimo que se pode dizer... – no sentido da normalização. Prevê-se já o cenário sombrio de cada uma das partes estar servida de adversário para muitos anos. O que equivale a dizer que ficarão finalmente curados, o ocidente e o oriente europeus, da terrível orfandade de inimigo que a ambos legou o fim da guerra fria. O mais recente desenvolvimento da lógica de castigar o outro e ser castigado a seguir é a decisão da União Europeia de vedar o acesso do embaixador russo aos edifícios das instituições europeias em Bruxelas. E há sanções económicas contra sanções económicas, lista de indesejáveis, impedidos de viajar para o outro destino, contraposta a lista quase simétrica, de indesejáveis da parte contrária – assim se vai vivendo, nesse braço de ferro entre poderes que se defrontam e valores e visões do mundo que se antagonizam. Valores, disse? Visões do mundo? Pois é, a fronteira que se foi erguendo mais recentemente entre o Kremlin e as capitais da União Europeia tem um desenvolvimento não apenas administrativo ou aduaneiro, mas cultural... e ideológico! O que serve perfeitamente os desígnios de quem desejou, de ambos os lados, uma nova e verdadeira Guerra Fria. Fica satisfeito o complexo industrial-militar americano, para quem era insuportável a orfandade de inimigo. Com, cada vez mais, a ajuda russa, com a criação ideológica de um projecto alternativo de sociedade, fiel aos valores europeus tradicionais, e em confronto hoje com uma Europa que já não é a verdadeira Europa, a dos valores de referência, a da moral tradicional, porque na União Europeia se vive já num quadro civilizacional muito diverso, isto é, num tempo pós-europeu. Preservando a Rússia a matriz antiga, defendendo a autenticidade europeia (ou pelo menos o discurso que a sustenta e promove) é dotarse de um duplo argumento: o da Rússia superior e legítima. O Kremlin teoriza pois para fazer crer não só na sua diferença, mas na sua superioridade. E apresenta o País como o herdeiro legítimo da civilização europeia de pendor universal, contrapondo-se a uma Europa que perdeu a bússola e que é já pós-europeia! E, de repente, esbatem-se as acusações de expansão territorial à custa da soberania de outros (Crimeia); ou de se estar a fomentar uma guerra por intermediário dos separatistas de Donetsk. Porque uma outra legitimidade surge. E o projecto russo transforma-se – por milagre do discurso – no último bastião da civilização europeia, verdadeira, não conspurcada pelos seus desvios das últimas décadas, no centro do continente. É a reedição do Sacro Império Romano-Germânico, a suceder ao Império original, após a ocupação e saque da então capital do mundo. Um poder, uma sociedade, uma moral, pois. E uma Igreja, a Ortodoxa, disposta, pelos vistos, a caucionar tudo. Mas é preciso algo mais. O que é? O reconhecimento internacional desse projecto. E Roma e a Sé de Pedro foram, durante séculos, a instância política onde se chegava postulante e se saía reconhecido... Mas – engano de época... – esta não é já a Europa em que o Sumo Pontífice era a instância internacional a quem recorrer, pelos reis cristãos. Nem o Papa Francisco se prestaria a tal papel – o de notário de um projecto neo-nacionalista – por mais antecedentes que tenha tido na diplomacia vaticana de outrora. PUTIN NO VATICANO. E O PAPA NA RÚSSIA? É no contexto de crispação entre Rússia e Ocidente que se insere fatalmente a visita do Presidente Vladimir Putin ao Vaticano, em 10 de Junho. Poderá louvar-se a iniciativa, reduzindo a sua análise à constatação algo simplória de que a diplomacia russa, de súbito, deseja a paz e está, com esta visita, a dar passos nessa direcção. Mas ninguém acreditaria nisso. E toda a gente continuaria à procura dos reais motivos da improvável visita do líder russo ao Vaticano. Assim sendo, o que terá podido querer do Papa o Presidente Putin? Seguramente terá desejado que o Papa sirva de mensageiro da sua visão do mundo – no seu entender benigna – junto dos ocidentais, europeus e americanos incluídos. E das suas preocupações de segurança, insistindo os analistas em ver nas mais recentes atitudes russas a expressão mesma desse “complexo de cerco” que caracterizou os líderes de Moscovo no passado. Ao ouvido atento do Pontífice não terão escapado, entre linhas, ou melhor, entre frases, algumas das razões que assistem à Rússia pós-soviética, desde o fim da Guerra Fria. Mas a Comunicação Social internacional menciona a insistência do Papa junto de Putin quanto à necessidade de se respeitarem os Acordos de Minsk e da cooperação de Moscovo para uma solução global na Síria. Entre outros tópicos, numa conversa que foi longa. O papel do Santo Padre, decorrendo directamente do seu múnus, é naturalmente o de agir a favor da reconciliação entre povos e nações. Como aconteceu no mais recente caso de Cuba. Aliás este caso confirma que uma diplomacia discreta (e sem a obsessão de daí recolher louros) assegura resultados bem mais duradouros do que as conversações mediatizadas e, por isso, infrutíferas. Em termos gerais, de que armas dispõe o Papa como medianeiro? A resposta parece óbvia: a bondade mesma das suas propostas e iniciativas e, certamente, uma influência decisiva na hierarquia da Igreja e das opiniões públicas que lhe estão afectas. Um bilião e meio de pessoas em todo o mundo. Menos na Europa e nos Estados Unidos do que noutras regiões do planeta... O Vaticano tem, por seu lado, uma agenda própria? Claro que tem e nisso nada há nem de escondido, nem de repreensível : a reconciliação plena da Igreja Católica Romana com a Igreja Ortodoxa Russa. A questão impõe-se pois: Com Putin no Vaticano – o Papa Francisco na Rússia? E por que não? (*) Universidade de São José LITURGIA O CLARIM | Semanário Católico de Macau | SEXTA-FEIRA | 19 de Junho de 2015 13 PT NATIVIDADE DE S. JOÃO BAPTISTA – 24 de Junho No anúncio do Salvador que a missão de João Baptista é preparar a vinda de Jesus, Salvador. O EVANGELHO (Lc., A fim de melhor compreender a vocação de 1, 57-66. 80), que relata o nascimento de João, João Baptista, o profeta Isaías (PRIMEIRA deixa-nos entrever a austera formação a que o LEITURA: Is., 49, 1-6) recorda-nos a sua própria Senhor quis submetê-lo, levando-o a viver no vocação. Por sua vez, S. Paulo (SEGUNDA deserto «até ao dia em que se deu a conhecer ao LEITURA: Act., 13, 22-26) afirma claramente povo de Israel». INTRODUÇÃO ÀS LEITURAS Nascimento e missão Hoje, na festividade de João Baptista, a liturgia da festa sobrepõe-se à liturgia do XII Domingo do Tempo Comum. João Baptista foi o precursor. Anunciado a Zacarias, que aceitou o desafio que de Deus lhe vinha, gerado em Isabel, apesar da sua velhice, foi para Maria sinal de que para Deus não havia impossíveis. O anjo Gabriel pôde dizer a Maria que Isabel estava já no sexto mês da sua gravidez, aquela a quem todos chamavam estéril. É este menino envolvido em milagre que Deus chama para ser o precursor do Seu Filho Jesus. «Ele não era a Luz, mas veio para dar testemunho da Luz» (Jo., 1, 8). Ele pregou a penitência e baptizou na água, pro- clamando que Jesus baptizaria também no Espírito. Ele assumiu com humildade que era apenas uma voz e, enquanto tal, era preciso que Jesus crescesse e ele diminuísse (cf. Jo., 3, 30). Ele, na sua interpelação, fez exigências a Herodes e acabou condenado à morte na dança de Salomé e na vingança de Herodíades. É esta figura ímpar do precursor que a Igreja hoje celebra. Na Palavra de Deus, o profeta Isaías faz por antecipação o elogio do precursor; depois, Lucas, o evangelista, descreve o nascimento de João; e, finalmente, num maravilhoso discurso de Paulo revela-se que Jesus é descendente de David e proclamado por João como Salvador. HORÁRIO DAS MISSAS (DOMINGOS E DIAS SANTOS) 7:00 horas 7:30 horas 7:30 horas 8:15 horas 8:30 horas 9:00 horas 9:30 horas — — — — — — — — — 10:00 horas — — — 10:30 horas — 11:00 horas — 11:00 horas — — 11:00 horas — 11:15 horas — 12:00 horas — 16:30 horas — 17:30 horas — 18:00 horas — 20:30 horas — Fátima (C). Sé, S. Lourenço e St.º António (C). S. Lázaro (C). S. Francisco Xavier Mong-Há (C). St.º António. Sé, S. Lourenço, N.ª Sr.ª do Carmo Taipa (C); Fátima (C). S. Lázaro, S. Francisco Xavier (Mong-Há), S. José Operário (C). St.º António (P); S. Francisco Xavier Coloane (I, C); N.ª Srª do Carmo Taipa (I). Sto. Agostinho (Tagalog). Sé (P), Hospital de S. Januário (P); N.ª Srª do Carmo Taipa (P). S. Lázaro (I). Instituto Salesiano (I). Fátima (I). S. Agostinho (I); Fátima (vietnamita) S. José Operário (I). Sé (I); S. Fr. Xavier Mong-Há (C). S. Lázaro (P). S. José Operário (M). MISSAS ANTECIPADAS 17:00 horas 17:30 horas 18:00 horas 18:30 horas — — — — — 19:00 horas — 20:00 horas — S. Domingos (P). S. Fr. Xavier Mong-Há (I). Sé (P). N.ª S.ª do Carmo Taipa (I). S. Lázaro (C). Fátima (C). ABREVIATURAS C - Em Cantonense I - Em Inglês M - Em Mandarim P - Em Português FRANCISCO ASSINA 298ª ENCÍCLICA “Laudato si” O Papa Francisco publicou na passada quinta-feira a encíclica “Laudato si, sobre o cuidado da casa comum”, 298.º documento do género na história da Igreja Católica. A encíclica, grau máximo das cartas pontifícias, tem um âmbito universal, onde o Papa empenha a sua autoridade como sucessor de Pedro e primeiro responsável pela Igreja Católica. Entre os principais documentos do actual pontificado estão a encíclica “Lumen Fidei” (A Luz da Fé), na qual Francisco recolhe reflexões de Bento XVI, e a exortação apostólica “Evangelii Gaudium” (A Alegria do Evangelho). A palavra “encíclica” vem do Grego e significa “circular”, carta que o Papa enviava às Igrejas em comunhão com Roma, com um âmbito universal, onde empenha a sua autoridade primeiro responsável pela Igreja Católica. O Papa mais prolífico neste tipo de cartas é Leão XIII, com 86 encíclicas – embora muitos desses textos fossem, nos nossos dias, classificados como Cartas Apostólicas ou Mensagens; São João Paulo II escreveu 14 encíclicas e Bento XVI três. O título de uma encíclica é o começo do texto, na sua versão oficial em Latim, e procura, de forma genérica, ensinar sobre um tema doutrinal ou moral, avivar a devoção, condenar os erros ou informar os fiéis sobre eventuais perigos para a fé. Quando tratam de questões sociais, económicas ou políticas, são dirigidas, normalmente, não só aos católicos mas também a todos os homens e mulheres de boa vontade, prática iniciada pelo Papa João XXIII com a sua encíclica “Pacem in terris” (1963). A encíclica é uma forma muito antiga de correspondência eclesiástica, dado que na Igreja nascente os bispos enviavam frequentemente cartas a outros bispos para assegurar a unidade entre a doutrina e a vida eclesial. Bento XIV (1740-1758) rea- vivou o costume, enviando “cartas circulares” a outros bispos, abordando temas de doutrina, moral ou disciplina que afectavam toda a Igreja. Com Gregório XVI (18311846), o termo encíclica tornou-se de uso geral. In ECCLESIA ECLESIAL O CLARIM | Semanário Católico de Macau | SEXTA-FEIRA | 19 de Junho de 2015 14 PT DUAS PERGUNTAS O cadáver de Cristo? O braço de Cristo? PE. JOSÉ MARIO MANDÍA [email protected] Falámos na última semana de um Deus numa Trindade una. Uma dessas três Pessoas tornou-se homem de facto. Nasceu entre nós, com um corpo e alma humana, uma mente humana, uma vontade humana e um coração humano. Essa Pessoa foi (e ainda É) Jesus Cristo. Mas ele não se tornou apenas Homem. Ele tornou-se em si próprio alimento para a nossa alma, um alimento sem o qual não podemos viver. Ainda no último Domingo celebrámos essa verdade da nossa Fé, durante a Festa do Corpus Christi (“Corpo de Cristo”) ou do Corpus Domini (“Corpo do Senhor”). São Paulo escreveu aos Coríntios: «A taça do Santíssimo que nós veneramos não é a participação no Sangue de Cristo? E não é o pão que partimos a participação no Corpo de Cristo? (I Coríntios 10:16)» Hoje desejo apenas responder a duas perguntas que as pessoas me fazem, com respeito à mais sagrada de todos as Santas Ofertas. A primeira pergunta: porque é que a Igreja, durante tantos séculos, deu a Comunhão em uma única forma (a Hóstia Sagrada = Corpo de Cristo), e não duas formas (o Corpo e o Sangue). E a segunda: porque se discute tanto sobre a forma correcta de recebermos a Eucaristia. 1– Porque é que recebemos o Corpo e não o Sangue? Bem, deixem-me perguntar-vos: quan- do o padre distribui a Comunhão o que ele diz? “O Corpo de Cristo!”. A questão que se põe: É “O Corpo de Cristo” um corpo vivo, ou um cadáver? Eu penso que é um corpo vivo, porque de outra forma o padre deveria dizer “A carcaça de Cristo” ou “O cadáver de Cristo”. E como se sentiriam ao comer um cadáver? Assim, se é um corpo Vivo e não um cadáver, então tem que ter sangue. Não? O “Corpo de Cristo” não é apenas o Corpo de Cristo, mas também o Seu Sangue, a Sua Alma, o Seu intelecto, o Seu Coração, e mais a Sua Natureza Divina. É Jesus a 100%. Verifiquem o número 282 do Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, e os números 1373 a 1375 do Catecismo. 2– Porque se discute tanto sobre a forma correcta de receber a Comunhão? Vejam o que o Compêndio nos ensina. Ele pergunta-nos: “O partir do pão divide Jesus em pedaços?” E responde: “O partir do pão não divide Cristo em bocados. Ele está presente todo inteiro em cada uma das espécies eucarísticas e em cada uma das suas partes” (Compêndio do Catecismo 284). Nunca vos aconteceu que durante a Comunhão o padre verifique que não tem hóstias consagradas suficientes para distribuir a todos os fiéis? E, neste caso, o que ele faz? Ele divide as hóstias em partes mais pequenas. Mas ao distribuir as hóstias partidas será que ele diz, por exemplo, “O braço de Cristo?”, ou “O pé de Cristo?” Não! Ele insiste em dizer: “O Corpo de Cristo”. Jesus Cristo meu Senhor e Salvador, meu Criador e Redentor... e sendo assim como é que me deverei comportar? Deverei considerar a hóstia consagrada como um porco assado ou um punhado de batatas fritas? Ou talvez, eu pecador e pobre miserável que sou, deva antes cair de joelhos? (Tradução: António R. Martins) FAMÍLIA E FÉ Existe alguma educação neutra? PE. RODRIGO LYNCE DE FARIA (*) «QUERO para o meu filho uma educação neutra, livre de influências que são sempre perniciosas. Ele tem de descobrir por si mesmo o que está bem e o que está mal. Desse modo, nunca será manipulado por ninguém. Nem pela Igreja, que continua a ensinar hoje em dia umas ideias passadas de moda. Que exagero! Estamos em pleno século XXI! Abertura, compreensão, cedência nos ensinamentos que, se foram úteis no passado, agora têm de se adaptar aos novos tempos. Senão, ficam obsoletos. A doutrina da Igreja – desculpe a minha sinceridade – é composta por uns princípios que já ninguém entende, já ninguém acredita, já ninguém vive». São palavras de um pai de família quando lhe perguntaram se queria ou não que o seu filho tivesse aulas de religião na escola. Penso que contêm uma grande quantidade de chavões muito comuns hoje em dia. Comecemos com uma pergunta: existe alguma educação que seja neutra? Não. Não existe. A neutralidade educativa é uma ilusão. Se os pais não educam, outros o farão no seu lugar: a sociedade, o ambiente, os meios de comunicação. E atenção: esses “educadores” possuem uma influência enorme que nunca – absolutamente nunca – é uma influência neutra. Então, isso quer dizer que os pais devem transmitir valores cristãos aos filhos? Claro que sim. A fé e a moral cristã não estão nada obsoletas – muito pelo contrário! Renovam o ser humano porque lhe revelam a sua autêntica grandeza e o seu verdadeiro destino. São a chave da sua verdadeira felicidade já nesta Terra. Libertam os filhos da amargura de uma existência sem Deus. Uma existência sem sentido. Uma existência de ir andando não se sabe muito bem para onde nem porquê. Uma existência que acaba por absolutizar o momento presente procurando satisfazer todos os desejos – é impossível – hoje e agora. É o encontro com o amor de Deus – diz o Papa Francisco – que nos resgata da nossa auto-referencialidade. De vivermos centrados em nós próprios como se fôssemos o centro do Universo. E se os filhos são conscientes desse amor, entendem a temperança, a veracidade, a lealdade, a pureza, a honestidade não como valores obsoletos, mas como respostas ao amor de Deus por nós. Se os pais transmitem valores que vivem, os filhos entenderão que o amor de Deus por nós pode ser exigente – mas nunca é opressivo! É sempre libertador. Como diz J. Lorda, «nós admiramos aquilo que tem perfeição, serenidade, domínio, força. Maravilhamo-nos pelo voo majestoso de uma águia, mas não pelo voo desajeitado de uma galinha». Deus, quando nos exige, revela-nos que fomos criados para voar alto, como as águias. Não como as galinhas. É uma exigência que procede do Seu amor, não do desejo de nos roubar a felicidade. É uma exigência – aprendemos isso com os nossos pais – que nos faz felizes. (*) Doutor em Teologia ECLESIAL O CLARIM | Semanário Católico de Macau | SEXTA-FEIRA | 19 de Junho de 2015 PT 15 A PRESENÇA EUCARÍSTICA DE JESUS O Corpo de Cristo VÍTOR TEIXEIRA (*) [email protected] O Corpo e Sangue de Cristo, ou Corpo de Cristo apenas (Corpo de Deus), quando não Corpus Christi, é uma festa católica, uma “festa de guarda”, ou seja, de participação obrigatória na Santa Missa do dia. Corpus Christi é a expressão latina para a festa, pela qual é conhecida em muitos países fora do espaço lusófono. Realiza-se na quinta-feira seguinte ao Domingo da Solenidade da Santíssima Trindade. A origem da Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo é relatada desde o século XIII. Tudo começou numa revelação de uma visão, em 1208, por parte de uma monja agostinha, Juliana de Mont Cornillon (1193-1258), ao arcediago Jacques Pantaleón (1195-1264), cónego do Cabido da diocese de Liége, na Bélgica. Ora bem, aquele cónego seria mais tarde, em 1261, eleito Papa, com o nome de Urbano IV. A revelação era a de que a dita monja tivera visões de Jesus Cristo, em que ele lhe revelara o desejo de que o mistério da Eucaristia fosse celebrado de forma mais expressiva e universal. Já Papa, corria o ano de 1263, no Verão, o Papa Urbano IV, em Orvieto, Itália, onde estava a sua corte papal, tomou conhecimento de um milagre ocorrido em Bolsena, uma pequena cidade do Lázio, Itália, na diocese de Viterbo. Esse acontecimento ficou conhecido como o Milagre Eucarístico de Bolsena. Um sacerdote da Boémia, Pedro de Praga, que tinha dúvidas quanto à real presença de Cristo na hóstia e vinho consagrados, tinha ido a Roma, orar no túmulo de São Pedro, para tentar esclarecer e afastar de si as dúvidas. No regresso, naquele Verão de 1263, parara em Bolsena, quando as dúvidas voltaram. Eis então que, enquanto celebrava missa na igreja de Santa Cristina, no momento da elevação, viu sangue pingar da hóstia sobre si, aquando da fracção. Surpreso e atemorizado, saiu a correr para a sacristia, mas o sangue que escorrera para cima do corporal (pano onde se apoiam o cálice e a patena durante a missa), caía no chão e nas escadas do altar. Dali fora a Orvieto, para tudo relatar a instâncias que fizessem chegar ao Papa a notícia do acontecimento maravilhoso. Urbano IV, logo sabendo do milagre, ordenou alguns meses mais tarde que os objectos milagrosos fossem trasladados para Orvieto, ordenado para tal se fizesse grande procissão para o efeito. Estava-se no dia 19 de Junho de 1264, quando as relíquias daquele milagre foram recolhidas solenemente pelo Papa e depositadas na catedral de Santa Prisca, em Orvieto. Assim se realizou a primeira procissão do Corpo Eucarístico de Jesus Cristo, tanto quanto sabemos. A festa do Corpo de Cristo foi oficialmente instituída por Urbano IV com a publicação da bula Transiturus em 8 de Setembro de 1264, mandando que fosse celebrada na quinta-feira depois da oitava de Pentecostes. Numa quinta-feira porquê? Porque a Eucaristia foi celebrada pela primeira vez na Quinta-Feira Santa, logo a Solenidade do Corpo de Cristo se deve celebrar sempre naquele dia. Mas que se fizesse com dignidade, solenidade e para maior louvor de Jesus Cristo, ordenou o Papa. Assim, para maior esplendor da solenidade, Urbano IV recomendou que se criasse um Ofício para ser cantado durante a cele- bração. Escolheu-se mais tarde um Ofício e missa próprios para a solenidade compostos por São Tomás de Aquino, OP, intitulado de Lauda Sion (“Louva a Sião”), incluindo outros hinos e sequências, como o Pange Lingua (com a sua parte final Tantum Ergo), Panis Angelicus, Adoro te devote ou o Verbum Supernum Prodiens. O cântico deste Ofício, curiosamente, mantém-se até aos dias de hoje nas celebrações do Corpo de Cristo. Por outro lado, procurou-se desde sempre, neste esforço de esplendor da solenidade, que se providenciasse uma procissão «para testemunhar publicamente a adoração e a veneração para com a Santíssima Eucaristia, principalmente na Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo», conforme recomenda o Código de Direito Canónico (cânone 944), que recorda também que o prelado da diocese não se deverá ausentar da mes- ma nas datas em torno da festa do Corpo de Cristo. Em 1311, no Concílio de Vienne (França, 1311-12), o Papa Clemente V definiu as regras para regular o cortejo processional da festa no interior dos templos e até o lugar que as autoridades deveriam ocupar na procissão pública, o que afere da importância e solenidade que cedo ganhou o Corpus Christi. Neste incremento de solenidade, João XXII introduziu em 1316 a Oitava com exposição do Santíssimo Sacramento, mas seria Nicolau V a conferir o esplendor que a festa ganharia até aos dias de hoje, principalmente na sua vertente mais urbana, a partir do momento em que a procissão, com o próprio Papa, saiu à rua em Roma, em 1447, para gáudio da grande multidão de fiéis que acorreu a participar no cortejo, criando uma tradição, que saía agora dos templos e ganhava as ruas. Na actualidade o Corpus Christi é celebrado 60 dias após a Páscoa, podendo cair, deste modo, entre as datas de 21 de Maio e 24 de Junho. O Papa faleceria pouco tempo depois, em Outubro de 1264, recorde-se, poucos dias depois da publicação da bula, o que retirou força a este. Mas não desapareceu e deixou sementes. Na Alemanha, por exemplo, de onde irradiou a partir de Colónia, ainda antes de 1270, passando depois para França e daí à Itália, conhecendo-se a festa em Roma pelo menos desde 1350. Alguns historiadores, na sequência da visão de Juliana, apontam o começo da festa do Corpo de Deus ainda antes daquele milagre eucarístico de Bolsena. Referem que a religiosa promoveu a festa logo em 1208. Todavia, apontam a data de 1246 para o início da celebração, na diocese de Liége, na Bélgica. O Corpo de Cristo continua a ser festejado em todo o mundo católico, ainda que em muitos países se tenha deixado de reservar o dia feriado para o efeito, mas sem que se tivesse retirado esplendor e sentimento a esta solenidade de grande relevância religiosa e mesmo cultural e social. A procissão do Corpo de Cristo numa custódia continua a atrair fiéis e não crentes, numa forma da Igreja sair às ruas e abraçar o mundo, na celebração do mistério da Eucaristia, do sacramento do corpo e do sangue de Jesus Cristo, recordando também a caminhada do povo de Deus, peregrino, em busca da Terra Prometida. Antes o povo peregrino fora alimentado com maná, no deserto, depois, com a instituição da Eucaristia o povo, é alimentado com o próprio corpo de Cristo. (*) Universidade Católica Portuguesa PUBLICIDADE O CLARIM | Semanário Católico de Macau | SEXTA-FEIRA | 19 de Junho de 2015 16 PT O CLARIM | Semanário Católico de Macau | SEXTA-FEIRA | 19 de Junho de 2015 17 PT R OTA D O S 5 0 0 A N O S Chegados a Bequia JOÃO SANTOS GOMES [email protected] É com um misto de prazer e descontentamento que vos digo que já estamos nas Granadinas, mais propriamente na ilha de Bequia. Com prazer, por termos seguido caminho; descontentes, por termos deixarmos uma das ilhas que melhor nos acolheu até agora e onde nada faltava, desde boa comida a bom pão. Na semana passada explicava que deixaríamos Martinica directamente para o sul da ilha de São Vicente, mas já durante o caminho mudámos de planos e decidimos não parar em São Vicente, vindo directamente para esta ilha antes de seguirmos para Sul daqui a uns dias. Na nossa decisão pesou o facto de estar previsto mau tempo (três ondas tropicais consecutivas que traziam ventos fortes, muita chuva e mar grande) e de ao pararmos em São Vicente termos de ali ficar vários dias, algo que não estava planeado, devido aos ancoradouros não serem seguros. Daí termos decidido vir directamente para Bequia onde ancorámos em segurança durante a noite e no dia seguinte mudámos de local para ficarmos mais protegidos e mais perto da costa. É assim que procedemos sempre que chegamos a um local durante a noite que não conhecemos, não facilitando em termos de navegação. Baixamos âncora logo que temos profundidade suficiente e, durante a luz do dia, mudamos para um local que seja melhor, se tal for necessário. A velejada de Martinica para Sul foi – como se previa – calma, mas sempre com ventos fortíssimos e mar grande. Saímos depois de jantar e chegámos, no dia seguinte, mais ou menos à mesma hora, pelo que foram quase 24 horas seguidas de navegação, entre ilhas, sempre acima dos seis nós de velocidade. Para uma tripulação como a nossa é algo muito cansativo. Felizmente, tudo correu bem e nada se partiu. De Martinica para St. Lucia foram cerca de cinco horas de vela rápida mas tranquila, visto o mar ainda não estar muito agitado e os ventos estarem dentro do previsto, entre os 15 e 20 nós dentro do canal. Em toda a ilha de St. Lucia, durante a noite, tivemos ventos que nos permitiram navegar a 3, 4 nós de velocidade, algo que não esperávamos. Era previsto usar o motor e vela para passar a ilha de St. Lucia e chegar ao canal que separa esta da ilha de São Vicente mas não foi necessário. Na travessia deste canal, conhecido pelos seus ventos fortes e correntes acentuadas, também não foi necessário o uso de motor e as velas andaram sempre risadas ao máximo. Mesmo assim houve alturas em que se chegou aos sete nós! Já a travessia da ilha de São Vicente teve de ser feita à vela e a motor porque os ventos eram muito fracos. A ilha é demasiado alta e corta os ventos vindos do Atlântico. ESCOLHA SARDINHAS PORTUGUESAS Quando nos aproximámos do canal que separa São Vicente da ilha de Bequia, e como eram apenas mais 10 milhas e a tripulação estava desejosa de descansar e dormir, decidimos não desligar o motor e seguir com apenas a vela da frente levantada. A vela ia 70 por cento aberta e o “capitão” pensava que fosse suficiente porque o vento estava muito fraco. Acontece que mal deixámos de estar protegidos pela ilha o vento começou a entrar em rajadas tão fortes que o nosso veleiro começou a adornar quase 40 por cento (tudo o que passa de 45 por cento já mete água dentro do barco). Isto deu-se apenas com a vela da frente, imagino o que teria acontecido se a vela principal estivesse também içada. ESCOLHA PORTHOS Estando sozinho no leme e a restante tripulação a tentar dormir depois de termos jantado ainda em tempo calmo, tentei equilibrar o barco apontando mais ao vento e, ao mesmo tempo, tentando manter uma rota que nos levasse directamente ao destino. Afinal eram apenas 10 milhas. Felizmente o vento, apesar de forte (sempre acima dos 30 nós), era estável e constante, o que ajudou a manter uma rota certa. Apesar da inclinação ser acentuada e as ondas muito altas, a navegação até não foi muito desconfortável. O barulho do barco na água e do vento na vela, juntamente com o barulho do motor que ia ajudando a manter algum equilíbrio também sempre que o vento oscilava um pouco, era ensurdecedor. A minha mulher, passados alguns minutos e já com a bebé a dormir, veio ao poço perguntar se estava tudo bem porque se assustou com a sensação de velocidade que se sentia dentro do barco. Nessa altura íamos a fazer quase nove nós de velocidade, sendo que a velocidade do nosso veleiro (hull speed) é, no máximo, de sete. Fizemos a travessia do canal em menos de 50 minutos. Entretanto, temos estado a descansar e a tentar esperar que o mau tempo passe para que possamos seguir para Sul. Nos dias seguintes à nossa chegada vimos mais alguns barcos conhecidos chegar também em busca de protecção, nomeadamente um veleiro de uma família brasileira que conhecemos em St. Anne, o Arthi. Daqui iremos rumar mais ao centro das Granadinas, visitando as ilhas de Canuoan, Union e Tobago Kays. Depois Carriacou e, finalmente, Grenada. CADERNO DIÁRIO O CLARIM | Semanário Católico de Macau | SEXTA-FEIRA | 19 de Junho de 2015 18 Segunda 15 Terça 16 Império Violência Assistimos a uma época em que os impérios caem um por um. Desde o início do século XX caíram o austro-húngaro, o alemão, o francês, o britânico, o belga, o holandês, o português e o russo. Agora treme visivelmente o americano. É bem possível que neste terceiro milénio assistamos ao desaparecimento dos impérios temporais ligados ao racionalismo e à matéria. Será que o padre António Vieira tinha razão quando escreveu a sua “História do Futuro”, prevendo a vinda do Quinto Império? Será que Fernando Pessoa, o último rosa-cruz lusitano, nos quis deixar uma pista quando escreveu o horóscopo desta nação, prevendo a mor- Cerca de 27% dos jovens consideram normal a violência psicológica no namoro e 13% legitimam a violência física, segundo um estudo realizado em 32 escolas do Distrito do Porto onde foram inquiridos jovens entre os 11 e os 18 anos. Tudo isto prova que a violência se está a instalar em força entre a juventude e se tende a banalizar. A falta de valores, uma família e uma escola que incitam à competição pelas notas e pelo sucesso a qualquer preço em vez de estimularem o gosto pela aprendizagem e a criatividade, e te de Portugal para 1978 (data significativa para a tomada de decisão da integração de Portugal na Comunidade Europeia) e transmitiu esperança no Quinto Império? Não há dúvida, os impérios temporais estão a desaparecer. Depois do Reino do Pai (Antigo Testamento) e do Reino do Filho (os dois PT filmes e séries que promovem a violência contribuem para tais comportamentos desviantes. Não é só o Estado Islâmico. Estamos à beira da barbárie. Os jovens, e não só os jovens, estão perdidos no mundo, não encontram sentido na vida, não têm objectivos, daí que estabeleçam relações de dominação e de violência. Eis no que deu o império do dinheiro e do mercado: na selva, na lei do mais forte e do mais manhoso, na destruição do que há de mais belo, do amor, da arte, do conhecimento, da beleza. milénios do símbolo dos peixes) virá o Reino do Espírito Santo, já o dizem as antigas profecias. Os habitantes de Goa, como os do interior do Brasil, bem demonstram que não há necessidade da posse territorial por uma hierarquia estatal para salvaguardar a chama viva da alma portuguesa. Quarta 17 Livro Sempre que temos de recomeçar criativamente a subida da montanha temos de escolher porque porta dela vamos entrar, e portanto de que fontes e correntes nos refrescar e inspirar. Contemplando o céu pela manhã cedo, meditando por algum tempo e invocando os subtis seres, e portanto restabelecendo as ligações entre o céu e a terra, saberás por que porta e caminho avançares. Assim, antes de te decidires sente bem no coração o que te encantará e protegerá e o que te fará alma criativa, harmonizadora e feliz... A “Hypnerotomachia” é um dos mais belos livros de sempre da historia da tipografia, cujas edições quinhentistas francesas e italianas continham lindíssimas gravuras. Quinta 18 Infantilização Banca Hervé Falciani, o informático que revelou o esquema de evasão fiscal através das contas do HSBC, em Genebra, acusa as instituições financeiras internacionais de montagem de um modelo económico com “base” na crise e na dívida pública. Segundo Falciani, autor do livro “O Cofre-Forte da Evasão Fiscal”, o modelo económico do “banco privado” baseia-se sobretudo na dívida pública, actualmente o meio mais importante de financiamento. Leia O CLARIM na net A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse um menino de baixa idade ou um deficiente mental. Quanto mais se intente buscar enganar o espectador, mais se tende a adoptar um tom infantilizante. Por quê? Certamente porque se se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a www.oclarim.com.mo idade de 12 anos ou menos, então, por sugestão, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reac- ção também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos ou menos de idade. ENTRETENIMENTO O CLARIM | Semanário Católico de Macau | SEXTA-FEIRA | 19 de Junho de 2015 19 PT TDM Canal 1 13:00 13:30 14:30 18:20 19:10 19:40 20:30 21:30 22:10 23:00 23:30 00:50 01:40 Sexta-feira TDM News (Repetição) Telejornal RTPi (Diferido) RTPi (Directo) Telenovela: O Astro (Repetição) TDM Talkshow (Repetição) Telenovela: Paixões Proibidas Telejornal Vingança Telenovela: O Astro TDM News Cinema: Nós Por Cá Todos Bem Telejornal (Repetição) RTPi (Directo) Sábado 09:25 Regatas Internacionais de Barco-Dragão de Macau 2015 (Directo) 12:35 Telejornal RTPi (Diferido) 13:40 Regatas Internacionais de Barco-Dragão de Macau 2015 (Directo) 17:30 Telenovela: Paixões Proibidas (Compacto) 19:00 Quem Quer Ser Milionário 20:00 Palcos Agora 20:30 Telejornal 21:10 Conta-me Como foi 22:10 Um Lugar Para Viver 23:00 TDM News 23:30 Regatas Internacionais de Barco-Dragão de Macau 2015 (Resumo) 00:05 Pop Lusa 00:55 Telejornal (Repetição) 01:30 RTPi (Directo) Domingo 11:00 Missa Dominical Cinema: Nós Por Cá Todos Bem. Hoje, às 23:30 horas. 12:00 12:30 13:00 13:30 14:30 16:15 17:00 17:45 18:10 18:45 A Hora de Baco Especial Saúde TDM News (Repetição) Telejornal RTPi (Diferido) Zig Zag Super Miúdos Pit Stop Pela Sua Saúde Portugal Seis Estrelas Decisão Final A PARTIR DE 19/6/2015 B Bem-Vindos a Beirais Telejornal Contraponto Rios Sagrados Com Simon Reeve TDM News Construtores de Impérios Telejornal (Repetição) RTPi (Directo) 13:00 13:30 14:30 18:00 18:50 19:50 20:30 21:00 22:10 23:00 23:30 00:05 00:40 Segunda-feira TDM News (Repetição) Telejornal RTPi (Diferido) RTPi Directo Telenovela: O Astro (Repetição) Contraponto (Repetição) Telenovela: Paixões Proibidas Telejornal TDM Desporto Telenovela: O Astro TDM News O Extraordinário Mundo das Fibras Telejornal (Repetição) RTPi (Directo) 13:00 13:30 14:30 17:40 18:30 19:30 20:30 21:00 21:40 22:10 23:00 Terça-feira TDM News (Repetição) Telejornal RTPi (Diferido) RTPi (Directo) Telenovela: O Astro (Repetição) TDM Desporto (Repetição) Telenovela: Paixões Proibidas Telejornal TDM Entrevista Viver é Fácil Telenovela: O Astro TDM News 23:30 Portugal Aqui Tão Perto 00:30 Telejornal (Repetição) 01:00 RTPi (Directo) 13:00 13:30 14:30 18:20 19:10 19:40 20:30 21:00 21:40 22:10 23:00 23:30 00:05 00:35 Quarta-feira TDM News (Repetição) Telejornal RTPi (Diferido) RTPi (Directo) Telenovela: O Astro (Repetição) TDM Entrevista (Repetição) Telenovela: Paixões Proibidas Telejornal Montra do Lilau Literatura Agora Telenovela: O Astro TDM News Com Ciência Telejornal (Repetição) RTPi (Directo) 13:00 13:30 14:30 18:20 19:10 19:40 20:30 21:00 21:30 22:10 23:00 23:30 00:05 00:35 Quinta-feira TDM News (Repetição) Telejornal RTPi (Diferido) RTPi (Directo) Telenovela: O Astro (Repetição) Montra do Lilau (Repetição) Telenovela: Paixões Proibidas Telejornal TDM Talk Show Endereço Desconhecido Telenovela: O Astro TDM News A História Com Fernando Rosas Telejornal (Repetição) RTPi (Directo) C A PARTIR DE 19/6/2015 SALA 1 SALA 2 JURASSIC WORLD SPL 2: A TIME FOR CONSEQUENCES 14:30 | 16:45 | 21:30 19:15 (3D) 14:30 | 16:45 | 19:15 | 21:30 Um filme de: Cheang Pou-soi Com: Tony Jaa, Louis Koo, Simon Yam, Wu Jing, Zhang Jin Língua: Falado em Cantonês/Mandarin, com legendas em Chinês e Inglês Um filme de: Colin Trevorrow Com: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Irrfan Khan 141 19:40 20:30 21:00 22:00 23:00 23:30 00:05 00:40 A PARTIR DE 19/6/2015 B B A PARTIR DE 19/6/2015 SALA 3 SALA 3 THE LAST FIVE YEARS SAN ANDREAS 14:15 | 16:00 | 17:45 | 21:30 19:30 Um filme de: Richard Lagravenese Com: Anna Kendrick, Jeremy Jordan Um filme de: Brad Peyton Com: Dwayne Johnson, Kylie Minogue, Carla Gugino TEMPO www.smg.gov.mo SOL 28º Min. - 33º Máx. 20 | ÚLTIMA | SEXTA - FEIRA | 19 - 06 - 2015 Rua do Campo, Edf. Ngan Fai, Nº 151, 1º G, MACAU TEL. 28573860 FAX. 28307867 | www.oclarim.com.mo O índice de temperatura é Amarelo ( Quente ). Céu pouco nublado intervalado de períodos de muito nublado. Vento na escala Beaufort 3 a 4 de sul a sudoeste. Humidade relativa entre 60% e 90%. O índice UV máximo previsto é de 11, classificado de Extremo. TAXAS DE CÂMBIO http://https://www.bcm.com.mo MOP USD EUR 1 1 GBP JPY AUD NZD RMB HKD 1 100 1 1 100 1 7.9752 9.0931 12.6913 6.50 6.2392 5.5347 78.54 103.00 COSTA DA MEMÓRIA Ceuta versus Macau JOAQUIM MAGALHÃES DE CASTRO [email protected] A reivindicação de uma cristandade antiga em Ceuta foi o argumento de peso que levou o “cruzado” D. Henrique a mover mundos e fundos para retomar essas terras às sucessivas dinastias muçulmanas sucessórias ao Cristianismo. Com a ajuda, claro, de uma pragmática burguesia nascente que via no norte de África uma fonte de novos mercados. Mas antes da retomada do Infante, tentativas houve, insanas, da parte de monges franciscanos espanhóis que acabariam transformados em mártires. E se no estertor do mundo medieval eram o ouro e o espírito de cruzada (bem expresso no mito do reino do Preste João) os motores dos visionários e tresloucados que ficaram para a história, a mim movia-me, acima de tudo, esta mania de me sentir feliz sentindo-me estranho em terra alheia; mas também a consciência da necessidade de resgate daquilo que permanece – por mais desenquadrado que o termo possa aqui parecer – e nunca é apenas pedras e algumas palavras como alguns querem fazer acreditar, passando distraidamente pelos locais onde fomos ficando ao longo dos séculos. O local onde foi descoberta, em meados dos anos 70 do século passado, a basílica tardio-romana, seria transformado num moderno museu subterrâneo para onde foram transferidas cisternas utilizadas pelos romanos para a salga do peixe. Essa actividade era fundamental numa costa com abundância de pescado graças às fortes correntes marítimas e a esse encontro entre o Atlântico e o Mediterrâneo. Ali e no museu municipal da cidade, sede do Centro de Estudos Ceutis (em cujo catálogo de publicações se contavam obras de autores portugueses), deparei com inúmeras ânforas e despojos de navios naufragados ao longo dos tempos no movimentado corredor marítimo. São muitas as similaridades entre Ceuta e Macau. O jogo é apenas uma delas. Na Casa dos Dragões, interessante projecto de um arquitecto valenciano do século XIX, funcionou o primeiro estabelecimento de jogos de fortuna e azar da cidade: o Casino Africano. A jogatina desenrola-se actualmente no Joaquim Magalhães de Castro interior de um forte, parte integrante de um parque temático idealizado por reputado artista plástico. Poderia falar ainda das sete colinas, da península, da exiguidade do território, da multiculturalidade, da simbologia lusitana, das ligações marítimas, da areia preta da praia, da memória de Camões, etc. A manchete dos jornais do dia em que decidi partir de Ceuta anunciava a primeira visita à cidade dos reis de Espanha, o que não deixaria certamente de levantar alguma celeuma. A presença de três enclaves espanhóis no continente africano (Ceuta, Melilla e as ilhas Chafarinas) continuava a deixar algum amargor de boca nas relações hispano-marroquinas. Senti de imediato o Marrocos genuíno assim que entrei no autocarro número 7 que me conduziu à fronteira, rodeado por mulheres muçulmanas conversando animadamente, sentadas nos joelhos umas e de outras, ou até nas escadas, à falta de melhor lugar. Tudo facilidades no lado espanhol da fronteira. Indivíduos munidos de formulários de entrada em Marrocos faziam-se à gorjeta mesmo nas barbas dos polícias espanhóis, aparentemente pouco interessados em quem saía da cidade. Apenas os que entravam mereciam a sua cuidada atenção. No lado de lá, aguardavam-nos os patuscos polícias marroquinos – enfiados em uniformes alguns números acima do tamanho – e uns quantos desses “empreendedores” oferecendo-se para ajudar a preencher os formulários, como se isso fosse árdua tarefa. Cumpridas as formalidades, o recém-chegado tinha, como único e exclusivo meio de transporte público para Tetuão ou Tânger, uma frota de táxis colectivos, invariavelmente modelos antigos de automóveis Mercedes Benz. «– Há menos de um ano tudo isto não passava de um lamaçal». A observação era da Isabel, artista plástica que trocara a região de Cascais pelo interior profundo de Abrantes, e visita regular a Marrocos, pois aí residia o namorado Hassan, berbere do Sul. O cenário: a fronteira marroquina de Ceuta. Isabel foi o segundo estrangeiro com quem contactei nesse início de viagem. Curiosamente, o primeiro fora outro português, numa breve troca de palavras em busca de informações no vão de escada de uma das pensões inflacionadas de Ceuta. Um facto digno de registo, pois raramente me cruzo com compatriotas nas minhas deambulações. É certo que Marrocos fica mesmo ao lado, mas, mesmo assim, saliento o facto com agrado. Enquanto aguardava a chegada do namorado, Isabel, muito naturalmente, lançou o repto: «– Vamos para Chefchouen. Podes acompanhar-nos, se quiseres». Chefchouen é destino obrigatório de todos os visitantes além-Gibraltar, sobretudo os apreciadores de umas boas cachimbadas, não propriamente de tabaco. Por mero acaso, integrara-a no meu roteiro de viagem à última hora. Não pelas cachimbadas, mas devido a uma famosa ponte construída por cativos portugueses no século XVI. Obtivera a informação em Lisboa, um dia antes da partida, junto de um especialista nessas coisas de fortalezas e outras pedras. Por isso o convite da Isabel veio mesmo a calhar. Até porque – confesso – não me apetecia nada enfrentar um desses transportes públicos do tipo aperta-para-lá-que-dá-para-mais-um, o único disponível a partir da fronteira. Adiei, portanto, muito agradado, a desconfortável realidade que se adivinhava, segura e firme como o destino, nas semanas seguintes, e o banco de trás do velhinho Toyota da amiga Isabel soube-me que nem um sofá de paxá.