Revista Brasileira de Ensino de Fı́sica vol. 20, no. 3, Setembro, 1998 201 Criação de um Dipolo: O Proto-Potencial Vetor (Creation of a dipole: the proto-potential vector) G. F. Leal Ferreira Instituto de Fı́sica, Universidade de São Paulo Caixa Postal 369, 13560-970, São Carlos, SP, Brasil Recebido 3 de novembro, 1997 Os campos gerados na criação de um dipolo são obtidos e em especial o que chamamos de protopotencial vetor do qual derivam os campos elétrico e magnético. Vendo o movimento de uma carga como a criação continua dipolos ao longo da sua trajetória os potenciais de Liénard-Wiechert são reobtidos. Expressão do campo elétrico dada por Feynman, sem demonstração, no Volume I de suas Lectures, é deduzida. The fields generated in the creation of a dipole are obtained specially, as we call it, the proto-potential vector, from which both fields, the electric and magnetic, derive. Looking the movement of a charge as a continuous creation of dipoles along the path, the Liénard-Wiechert potentials are found. An expression for the electric field presented by Feynman, without proof, in the first volume of his Lectures, is obtained. 1. Introdução O dipolo oscilante é o paradigma da emissão de radiação nos textos introdutórios de Eletromagnetismo. Um caso igualmente simples de ser estudado é o da criação instantânea de um dipolo, com os campos transientes e permanentes a ela associados. É mesmo mais fundamental, já que um sistema de correntes no espaço e no tempo pode ser obtido dela por superposição. E mais, pela matemática da função delta, podemos obter os campos de uma carga em movimento, numa abordagem alternativa à usual, embora mais longa. Na formulação do Eletromagnetismo confrontamo-nos com dois campos - o elétrico e o magnético -, cada um a grosso modo associado a suas fontes, cargas e correntes, que em fenômenos dependentes do tempo, geram os potenciais retardados. Mas, pela condição de Lorentz, os dois potenciais - o vetorial e o escalar -, relacionam-se numa equação do tipo de continuidade, reminiscente da equação da continuidade corrente-carga, o que vai permitir, por uma transformação de calibre, a definição de um proto-potencial vetor do qual unicamente derivam os campos elétrico e magnético . No presente trabalho achamos os campos associados à criação do dipolo, o proto-potencial vetor, os potenciais de Liénard-Wiechert e tambem o campo elétrico associado a uma carga em movimento de forma a reproduzir equação que Feynman apresenta sem demonstração no Cap.28, Eq.28.3, vol.I de suas Lectures [1]. 2. Campos de criação de um dipolo 2.1 O Potencial vetor Consideremos uma curva e seja s o seu comprimento de arco. Se em s = 0 e ao longo da tangente à curva cria-se o dipolo p~ em t = 0, a corrente linear J~s (s, t) será dada por (ver Fig. 1 na qual a curva foi omitida) J~s (s, t) = p~δ(s)δ(t) (1) e o potencial vetor A(~x, t) será no ponto ~x, contado a partir de s = 0, e no tempo t, ~ x, t) = A(~ Z ~ Js (t − r/c)ds r (2) ou seja ~ x, t) = p~δ(t − r/c)/cr A(~ (3) em que r = |~x|, c é a velocidade da luz e os deltas ~ se constitui representam a função δ de Dirac. Portanto, A G.F. Leal Ferreira 202 num pulso de intensidade p~ que se propaga esfericamente a partir do ponto de criação do dipolo. p~ · ê p~ · ê δ(t − r/c) + δ̇(t − r/c) (5) r2 cr em que se omitiu a dependência na posição e no tempo em Φ̇. ê é o versor do vetor posição ~x e δ̇ a derivada, em relação ao seu argumento, da função delta. Na Eq.5 usou-se ~ · (~ ~ , com p~ um vetor a identidade vetorial ∇ p · f ) = p~ · ∇f constante e f uma função escalar. Da Eq.5 acha-se Φ por integração no tempo: Φ̇ = p~ · ê r [Θ(t − r/c) + δ(t − r/c)]. (6) 2 r c Note-se que o potencial escalar apresenta, além do Φ= Figura 1. O dipolo p ~ é criado instantaneamente na origem O. Os campos são calculados no ponto ~ x, com ~x = rê, ê versor. ~k1 é o vetor componente de p ~ na direção normal a ê. 2.2 O potencial escalar termo dipolar para t ≥ r/c, termo pulsado, da ordem de 1/r, reminiscente do campo coulombiano e devido à discriminação entre os tempos de chegada dos sinais das cargas positiva e negativa, conforme o ponto de observação. Isto ficaria bem visı́vel se tivéssemos preferido usar os potenciais retardados das cargas criadas. 2.3 O campo elétrico de criação do dipolo Da condição de Lorentz ~ é obtido de O campo elétrico, E, ~ ·A ~ + Φ̇/c = 0 ∇ (4) em que Φ é o potencial escalar e Φ̇ sua derivada parcial em relação ao tempo, tira-se ~ ~ = −∇Φ ~ − 1 ∂A E c ∂t (7) Para o gradiente encontramos c h i p~ · ê p~ · ê ~ = Θ(t − r/c) + r δ(t − r/c) ∇ ~ ∇Φ − 2 δ̇(t − r/c)ê (8) c c2 r c r onde fundimos no termo em delta contribuições dos dois termos da Eq.6 e renunciando assim ao rastreamento detalhado da ~ ~ finalmente origem dos termos. Continuando, ∂ A/∂t obtém-se logo da Eq.4 e para o campo elétrico, E, h i p~ · ê p~ − p~ · êê ~ = − Θ(t − r/c) + r δ(t − r/c) ∇ ~ E − δ̇(t − r/c) c r2 c2 r (9) d O vetor no termo em δ̇ na Eq. 9 nada mais é do que a 2.4 O proto-potencial vetor componente p~ na direção normal a ê e que chamaremos de ~k1 (ver Fig. 1), ou seja, Definimos o proto-potencial vetor como aquele que gera ~ ·E ~ =0 tanto o campo elétrico como o magnético. Como ∇ p~ − p~ · êê = ~k1 (10) em todo o espaço, excluindo a singularidade, um novo ~ p (~x, t), com ∇ ~ ·A ~ p = 0, pode ser definido tal que A Revista Brasileira de Ensino de Fı́sica vol. 20, no. 3, Setembro, 1998 − ~p 1 ∂A ~ =E c ∂t 203 (11) ou seja, Z ~ p (~x, t) = − A t ~ x, t0 )dt0 E(~ (12) −∞ Pela Eq. (9) obtém-se ~ ~ p = ctΘ(t − r/c)∇ ~ p~ · ê − δ(t − r/c) k1 A 2 r cr (13) É interessante que o proto-potencial vetor guarda memória do tempo de criação do dipolo e não do tempo em que o sinal o alcançou. Poder-se-ia dar algum sentido fı́sico a isto? ~ p é Nao sabemos. Notemos tambem 1) que o rotacional de A ~ Eq. 4, gerando portanto o mesmo igual ao rotacional de A, campo magnético e 2) que se usarmos a Eq. 13 como ponte para se obter o (super) vetor potencial de uma distibuição Figura 2. No instante genérico t2 a carga q, situada em ~ x1 com velocidade ~ν , cria o dipolo ~ν dt2 · ê é o versor de ~x − ~x1 e r o módulo deste. ~k é o vetor componente de ~ν na direção normal a ê. de correntes no espaço e no tempo, as suas singularidades, ligadas à densidade de corrente e carga instantaneas, devem 3.1 O potencial vetor de uma carga em movimento adicionadas. Vamos adaptar a Eq.3 ao problema presente. Em vez de t − r/c devemos por t̄, abaixo definido, já que o tempo de emissão é t2 e não zero: 3. Os potenciais de uma carga em movimento t̄ = t − t2 − r(t2 )/c Seja ~x1 = ~x1 (t1 ) a equação de movimento de uma carga q, contada de uma origem O (ver Figura 2). A ação emitida por q no tempo genérico t2 atingirá o ponto ~x no tempo t tal (16) para o potencial vetor no ponto ~x e no instante t, diretamente da Eq.3, ~ x, t) = 1 A(~ c que Z ∞ −∞ q~ν (t2 )δ(t̄) dt2 r(t2 ) (17) Relembremos que t = t2 + r(t2 )/c (14) Z ∞ δ(t̄(t2 ))f (t2 )dt2 = −∞ em que r(t2 ) é igual a |~x − ~x1 (t2 )|. f (t20 |df /dt20 | (18) onde t20 é a raiz da equação t̄ − (t2 ) = 0 e f uma função O movimento da carga pode ser visto como a contı́nua criação de dipolos elementares, de momento d~ p(t2 ), no regular. Da Eq. 13 e lembrando que t deve ser mantido constante tempo t2 , dt̄ = −dt2 − (dr/cdt2 )dt2 (19) Mas d~ p − (t2 ) = qd~x1 (t2 ) = q~ν (t2 )dt2 sendo ~ν a velocidade de q. (15) r= p (x − x1 (t2 ))2 + ... e com o ı́ndice r indicando grandezas retardadas, (20) G.F. Leal Ferreira 204 dr/dt2 = −~ν (t2 ) · êr (t2 ) (21) em relação ao tempo atual, e não em relação ao tempo retardado. Os termos em Θ, δ e δ̇ da Eq.9 o gerarão os três termos e então µ ¶ ~ν (t2 ) · êr (t2 ) dt̄ = −dt2 1 − c (22) Agora, a raiz de t̄ − (t2 ) = 0 dá o tempo retardado tr , correspondente a t e ~x e finalmente da Eq.28. O primeiro deles, com a função Θ, dará o campo retardado, exatamente como fornecido pelo primeiro termo da Eq.24, no cálculo do potencial escalar. Passemos ao o termo em δ na Eq.9. 4.1 Cálculo do termo em delta q~νr ~= A . c(1 − ~νr · êr /c)rr (23) Seguindo as Eq.14-16 e 19-22, e integrando-se no tempo ~ 2 dado por t2 , temos E 3.2 O potencial escalar de uma carga em movimento ~ ~ν · êr ~ 2 = − q rr ∇ E K c rr2 A Eq.6 gera dois termos ·Z ∞ Φ=q −∞ Θ(t̄)d~x2 · ê(t2 ) + r2 (t2 ) Z ∞ dt2 −∞ rδ(t̄) c ¸ (24) O primeiro, Φ1 com a função degrau, integra as açoes pregressas do tipo dipolo ao longo de sua trajetória. Como resultado, dará o potencial da carga q na posição retardada, ou seja, Φ1 = q rr q~νr · êr ¢ Φ2 = ¡ 1 − ~νrc·êr rr lembrando que o gradiente é tomado em relação a ~x, ponto de observação. Mas por identidade vetorial com ~ν constante e êr /rr2 irrotacional, tem-se ~ = ~νr · êr = (~νr · ∇) ~ êr ∇ rr2 rr2 ~ ~er = dxr ∂ êr (~νr · ∇) rr2 dtr ∂x rr2 ~er d êr =− rr2 dtr rr2 (32) dt ~νr · êr =1− =K dtr c (33) d dt d = dtr dtr dt (34) ~ (~νr · ∇) (26) Mas, pelas Eqs 14 e 21 (27) com K = 1 − ~νr · êr /c de agora em diante. e sendo 4. O campo elétrico de Feynman chega-se finalmente ao segundo termo da Eq.28. No Cap.28 do livro I de suas Lectures [1], Feynman dá a seguinte expressão para o campo elétrico de uma carga em 4.2 Cálculo do termo em delta ponto movimento, sem demonstrá-la: · ¸ 2 ~ = q êr + rr d êr + 1 d êr E rr2 c dt rr2 c2 dt2 (31) e como ∂/∂x = −∂/∂xr e então da Eq.31 segue A soma de Φ1 e Φ2 dá o potencial retardado conhecido q Φ= Krr (30) e tomando eixos coordenados com o eixo x apontando na direção de ~νr , temos (25) Usando agora as Eq.18-22 na integral com a δ(t̄), temos para Φ2 (29) (28) Seguindo os mesmos passos, ~ 3, componente do campo, E ~3 = − q E c2 Z ∞ δ̇(t̄) −∞ temos para essa ~k(t2 ) dt2 r(t2 ) (35) na nossa notação. Na verdade, ele emprega o versor −êr , da direção com que o ponto de observação vê a posição em que o vetor ~k representa o vetor ~k1 , Eq.10, com p~ indo retardada de q, permitindo interpretação mais sugestiva em ~ν (Fig.2). Antes de integrarmos por partes para se obter da fórmula. Na Eq.28, as derivadas temporais são feitas a delta devemos atualizar a derivada para a variável t2 pondo Revista Brasileira de Ensino de Fı́sica vol. 20, no. 3, Setembro, 1998 dt2 δ(t2 ) (36) dt̄ usando-se o resultado na Eq.19 e integrando em dt2 , tem-se δ̇(t̄) = ~3 = − E ~k(tr ) q d K(tr )c2 dtr K(tr )rr (tr ) (37) Vamos mostrar que esta expressão reproduz o terceiro termo da Eq.28. Mudemos a derivada em relação a tr , em derivada em relação a t com o auxı́lio da Eq.33. Temos então que provar a igualdade ou que d ~kr d d êr =− dt Kr rr dt dt (38) ~kr dêr =− dt Kr r r (39) Mudando a derivação para a variável tr usando a Eq.33, vem ~kr dêr = rr dtr (40) relação que segue diretamente da definição de êr . Adicionado nas provas: na [4] apresenta-se dedução alternativa do campo de Feynman, Eq.28. 5. Conclusões Usualmente pensamos que só a Mecânica Quântica tem seus mistérios de interpretação. Mas o próprio Eletromagnetismo os tem. Vejamos: a definição de suas grandezas fundamentais, os campos, se faz com o auxı́lio de uma carga imaginada em cada ponto do espaço, com uma dada velocidade, e da força que a solicitaria. Enquanto isto pode ser considerado perfeito do ponto de vista matemático, do ponto de vista fı́sico, a primeira vista, é insatisfatório. Feynman diz que como há força quando a carga está ali, alguma coisa fica quando ela é retirada [3]. Pode ser que não haja outra saida. A própria ambiguidade de prevalência entre os campos (de força) e os potenciais, os últimos se 205 expressando de forma inteligı́vel pelos potenciais retardados e os primeiros com a potencialidade de exercer força (os campos de força são neste sentido também potenciais) é embaraçosa. Neste trabalho chegamos ao proto-vetor potencial do qual podemos extrair os campos elétrico e magnético do elemento de corrente e daı́, por superposição, aqueles de uma distribuição no tempo e no espaço (sem outras discussões se o ponto é exterior). Mas acontece que ele é apenas um potencial. Acreditamos que num ensino de Fı́sica menos formal estas dificuldades deveriam ser expostas com clareza, o que talvez viesse a trazer, no futuro, alguma luz ao assunto. Tudo isto sem prejuizo do ensino da teoria com a mesma tecnicidade com que se faz o da Mecânica Quântica. Finalmente, o longo caminho percorrido na Seção 4 deste para a identificação dos termos da fórmula de Feynman nos mostra como foi ele engenhoso na obtenção deles. Agradecimentos O autor agradece bolsa de pesquisador concedida pelo CNPq. Referências 1. R.P. Feynman, R.B. Leighton e M. Sands The Feynman Lectures, Addison-Wesley, Reading (1966) Vol.I, Cap. 28. 2. E.V. Bohn Introduction to Electromagnetic Fields and Waves, Addison-Wesley, Reading (1968) Cap.II. 3. R.P. Feynman, R.B. Leighton e M. Sands The Feynman Lectures, Addison-Wesley, Reading (1966) Vol. II, Seção 1-2. 4. A.R. Janah, T. Padmanabhan e T.P. Singh, Am.J.Phys. 56, 1036 (1988).