LETRAMENTO LITERARIO:
EDUCAÇÃO INFANTIL
UMA
EXPERIENCIA
ESTETICA
NA
Janete Fernandes
[email protected]
Alexandra Oberzinner Chaves
[email protected]
Terezinha Fernandes Martins de Souza (UFMT)
[email protected]
Considerações Iniciais
Este relato de experiência socializa os resultados de uma prática pedagógica de
letramento literário em uma sala de aula de educação infantil. Tal experiência teve como
objetivo a formação leitora da criança, na perspectiva da experiência estética, que
possibilita ao leitor posicionar-se diante da obra literária, identificá-la, questioná-la e
expandir os seus sentidos. Foi desenvolvida pelas duas primeiras autoras deste texto1,
no interior de um projeto interdisciplinar, realizado no Centro de Educação Infantil –
CEI - Bertha Müller, em Blumenau – SC, com crianças do Jardim I.
A metodologia usada para o desenvolvimento da experiência foi baseada na obra
“Letramento Literário: teoria e prática”, de Rildo Cosson (2006), traduzida para fins de
análise neste trabalho às especificidades da educação infantil, por tratar-se de uma obra
que se destina a outros níveis de ensino.
Para a organização pedagógica da vivência literária na sala de aula a opção foi
pela sequencia expandida, proposta pelo autor citado2, o qual orienta desde a seleção da
obra literária (cânone, contemporaneidade dos textos, diversidade e pluralidade de
gêneros); a sistematização metodológica, com etapas como: motivação, introdução,
leitura, interpretação, expansão e avaliação; as técnicas para trazer o texto literário para
o contexto vivenciado pela criança (técnica da oficina, que permite a ludicidade e o
caráter de aprender e se desenvolver fazendo; técnica do andaime, como uma metáfora
que expressa a possibilidade de troca de conhecimentos e aprendizagens entre o grupo
1
As duas primeiras autoras são as professoras que a época estiveram a frente do trabalho relatado neste
texto. A terceira autora foi a professora responsável pela orientação do trabalho desenvolvido em sala de
aula, no sentido metodológico do letramento literário, bem como pela orientação quanto a elaboração
deste texto.
2
Cosson (2006) propõe três exemplos de sequencias a serem aplicadas no ensino fundamental e médio,
sendo duas sequencias básicas e uma sequencia expandida. A diferença é que a última possibilita a
expansão da atividade utilizando as técnicas da oficina, do andaime e do portfólio.
envolvido e; a técnica do portfólio, que permite o registro e a avaliação das etapas da
atividade literária).
Desenvolver uma prática pedagógica na perspectiva do letramento literário
visando a formação leitora da criança é imprescindível, pois possibilita além de levar a
criança a ler e conhecer obras literárias diversas, aprender a posicionar-se como leitora,
identificar os elementos componentes das obras e narrativas, elaborar questionamentos
acerca de suas temáticas, dentre outros aspectos. E como experiência estética contribui
para a criança extrapolar os sentidos, por meio das descobertas, imaginação, fantasia e
transgressões, conforme veremos no texto apresentado a seguir.
1.0 – Letramento Literário: uma releitura da fábula “Maria-vai-com-as-outras”
O trabalho “Letramento Literário: uma experiência estética na Educação
Infantil”3 foi realizado com o intuito de incentivar a prática da leitura literária na sala de
aula, a qual pode-se dizer, é um marco referencial no trabalho desenvolvido na
educação infantil4.
Seguindo essa direção, a instituição em que a experiência relatada neste texto foi
desenvolvida, realiza projetos que visam o trabalho de aproximação diária da criança
com a leitura literária na perspectiva da formação leitora e estética da criança5.
Nessas práticas literárias cotidianas conhecemos a obra literária “Maria-vai-comas-outras”6, de Silvia Orthof7, do gênero infantil fábula contemporânea, rica em
3
A experiência relatada neste texto foi realizada no Centro de Educação Infantil – CEI “Bertha Muller”,
situado a Rua Pomerode, 2447, Bairro Salto do Norte, Blumenau - SC, com a turma do Jardim I,
composta por 22 crianças com idade entre 3 e 4 anos.
4
No CEI Bherta Muller as atividades literárias são realizadas pelas educadoras diariamente, sejam elas
histórias dramatizadas, contação de história, leitura com uso de formas animadas (fantoches, dedoches,
etc), procurando proporcionar às crianças momentos literários de alegria e prazer. A ideia é estimular e
despertar o gosto pela leitura literária o mais cedo possível. Os livros ficam a disposição das crianças,
para empréstimo, de modo que o CEI conta com um bom número de pequenos frequentadores na
biblioteca.
5
O trabalho de releitura da fábula “Maria-vai-com-as-outras”, nasceu dentre outras atividades, em um
projeto interdisciplinar. Neste projeto foram trabalhadas diversas obras literárias com as crianças e esta
prática ganhou vários contornos, destacando a criação de sacolas literárias, sendo que para cada história
lida e trabalhada em sala de aula, ao fim de cada semana, as crianças levavam para casa kit’s com livros e
objetos confeccionados (fantoches, personagens, CD, DVD, entre outros) os quais, de certo modo,
contextualizavam as histórias lidas, ouvidas e recriadas.
repetições, rimas e onomatopéias. Desse modo, não escolhemos a obra, ela nos
escolheu, foi um grato encontro, o qual permitiu ir muito além da leitura, da releitura e
da atribuição de novos sentidos.
Para desenvolver o trabalho de leitura literária em sala de aula, buscamos auxilio
nas proposições de Rildo Cosson (2006), o qual propõe o conceito de letramento
literário, como possibilidade do professor mediar o processo de construção da criança
como leitora, via textos literários, possibilitando, ainda, a reflexão sobre o lugar da
literatura na escola e sua função como experiência estética.
Para desenvolver a vivência literária na sala de aula, utilizamos a sequencia
expandida, proposta por Cosson (2006), em que o primeiro passo é a seleção da obra
literária, neste caso, foi “Maria-vai-com-as-outras”. É interessante ressaltar que para o
letramento literário, é igualmente importante nesta seleção de obras8: o cânone, a
contemporaneidade dos textos, a diversidade e a pluralidade de gêneros literários.
Para a sistematização metodológica do trabalho com a sequencia expandida,
Cosson (2006) sugere algumas etapas para a atividade literária, sendo: motivação,
introdução, leitura, interpretação, expansão e avaliação. O tempo destinado a cada etapa
depende do envolvimento das crianças na atividade literária. As etapas que percorremos
serão apresentadas em uma sequencia linear, para efeito de organização diática, todavia,
na prática da sala de aula estas etapas se entrecruzaram e permearam umas as outras.
6
Era uma vez uma ovelha chamada Maria. Onde as outras ovelhas iam, Maria ia também. As ovelhas iam
para baixo Maria ia também. As ovelhas iam para cima, Maria ia também. Um dia, todas as ovelhas
foram para o Pólo Sul. Maria foi também. E atchim! Maria ia sempre com as outras. Depois todas as
ovelhas foram para o deserto. Maria foi também. - Ai que lugar quente! As ovelhas tiveram insolação.
Maria teve insolação também. Uf! Uf! Puf! Maria ia sempre com as outras. Um dia, todas as ovelhas
resolveram comer salada de jiló. Maria detestava jiló. Mas, como todas as ovelhas comiam jiló, Maria
comia também. Que horror! Foi quando de repente, Maria pensou: “Se eu não gosto de jiló, por que é que
eu tenho que comer salada de jiló?” Maria pensou, suspirou, mas continuou fazendo o que as outras
faziam. Até que as ovelhas resolveram pular do alto do Corcovado pra dentro da lagoa. Todas as ovelhas
pularam. Pulava uma ovelha, não caía na lagoa, caía na pedra, quebrava o pé e chorava: mé! Pulava outra
ovelha, não caía na lagoa, caía na pedra e chorava: mé! E assim quarenta duas ovelhas pularam,
quebraram o pé, chorando mé, mé, mé! Chegou a vez de Maria pular. Ela deu uma requebrada, entrou
num restaurante comeu uma feijoada. Agora, mé, Maria vai para onde caminha seu pé (Sylvia Orthof).
7
Esta obra literária suscita o trabalho com temas como auto-estima, submissão, insegurança, medo,
pluralidade cultural, ética, cidadania, problemas da vida, entre outros.
8
Em relação a seleção de obras literárias para crianças, é interessante ver Nelly Novaes Coelho (2009), na
obra “Literatura Infantil: teoria, análise e didática”. A autora sugere que a categoria leitora está vinculada
a faixa etária e a outros três fatores: idade cronológica, nível de amadurecimento biopsíquico-afetivointelectual e grau ou nível de conhecimento/domínio do mecanismo da leitura. A autora faz a seguinte
divisão para a sugestão de obras muito interessantes: 1) pré-leitor: a) da primeira infância – 15/17 meses
aos 3 anos; segunda infância – a partir dos 2/3 anos; 2) Leitor iniciante – a partir dos 6/7 anos; 3) Leitorem-processo – a partir dos 8/9 anos; 4) leitor fluente – a partir dos 10/11 anos e 5) leitor crítico – a partir
dos 12/13 anos.
O momento da motivação foi onde preparamos a crianças para a recepção da
leitura literária, explorando elementos da fábula como a temática, brincadeiras, cantigas
de roda e outras atividades lúdicas relacionadas. Estas atividades provocaram muita
alegria e aguçaram a curiosidade das crianças para conhecer a história.
Na introdução realizamos a apresentação da autora e de sua obra. Neste momento
lemos a biografia da autora da obra, contamos curiosidades sobre sua vida. Situamos a
obra no tempo e espaço de sua produção pela autora. Exploramos a perigrafia da obra
(capa, formato, ficha catalográfica, ilustrações, etc). E, ainda, utilizamos algumas
estratégias para aguçar a curiosidade das crianças quanto ao enredo da fábula. É neste
momento que o professor apresenta o ilustrador, caso as ilustrações da obra não sejam
do próprio autor do texto literário, fala das técnicas utilizadas nas ilustrações, justifica a
escolha, caso a obra não tenha sido selecionada juntamente com as crianças, dentre
outros aspectos relevantes.
No momento em que realizamos a leitura da obra “Maria-vai-com-as-outras”,
ficou visível o entusiasmo e o encantamento das crianças pela história. Exploramos a
recriação oral dos aspectos da estrutura composicional da narrativa, do vocabulário, das
repetições e onomatopéias, da temática e das ilustrações da fábula. As crianças
mostraram-se curiosas para saber que alimento era aquele que a ovelha Maria comeu e
não gostou e demonstraram-se solidárias com as ovelhas que caíram e quebraram seus
pés.
Na interpretação da fábula, percebemos por meio das interações das crianças
umas com as outras, que passaram a atribuir sentidos a narrativa, chamando a atenção
umas das outras em situações de imitação, de indecisão e outras ações, comportamentos
e atitudes. Passaram a demonstrar autonomia ao fazer suas escolhas, pois a narrativa
permitiu vivenciar a crítica em relação a suas ações cotidianas, falavam com segurança
sobre a importância de agir com independência, por encontrarem-se ainda na fase em
que a imitação está muito presente. Ao realizar determinada atividade que ainda tinham
certa dificuldade, verbalizavam “vou fazer do meu jeito”, ou seja, do jeito que sabiam
fazer naquele momento.
Para expandir a sequencia de atividades utilizamos a técnica da oficina, do
andaime e do portfólio, conforme orienta Cosson (2006). A técnica do andaime
permeou todas as etapas da atividade literária, pois como uma metáfora que expressa a
possibilidade de troca de conhecimentos e aprendizagens entre o grupo envolvido
(professoras e crianças), estiveram em interação e trocas mútuas e contínuas.
A técnica da oficina possibilitou trazer o texto literário para o contexto vivenciado
pelas crianças, explorando a ludicidade e o caráter de aprender e se desenvolver
fazendo, ou seja, as crianças exerceram o papel de personagem, autor e narrador ao
mesmo tempo, usando a imaginação e a criatividade para as recriações.
Muitos momentos ricos em aprendizagens e trocas aconteceram nas oficinas. Um
dos momentos especiais desta etapa foi proporcionado pela visita da ovelhinha de
estimação do seu Pereira, zelador do CEI, em que as crianças puderam usar os sentidos
para tocá-la, sentir a maciez do pelo, alimentá-la com milho e mamadeira, ouvir e imitar
seu mé, mé. Confeccionamos fantoches de vara com a ovelha Maria; dramatizamos a
história; exibimos o filme “Curta Pular”, que mostrava como se realiza a tosquia;
levamos objetos feitos com
lã de ovelha para a sala de aula para as crianças
manusearem e observarem; pesquisamos sobre a alimentação e habitat das ovelhas;
entre outras atividades e curiosidades.
No decorrer do trabalho um assunto foi puxando o outro, novos caminhos e novas
possibilidades foram surgindo, a atividade foi tomando grandes e significativas
proporções, percorrendo o objetivo da formação leitora e vivencia estética, permitindo o
posicionamento crítico sobre a obra literária por meio das recriações de sentidos.
Entre as inúmeras atividades realizadas, a partir da obra literária “Maria-vai-comas-outras”, propusemos às crianças a construção de um livro, para que a partir da
releitura fosse possível a construção de uma espécie de paródia da mesma, algo que de
fato pudesse representar a nossa intenção de trabalhar a literatura na perspectiva do
letramento literário, tendo as crianças como protagonistas. Para materializar esta
intenção, utilizamos a técnica do portfólio, ou seja, lançamos mão de todos os registros
e avaliações das etapas anteriores, visando a ampliação e a extrapolação.
Propusemos rodas de conversas, a partir das quais fomos mediando o diálogo com
as crianças, provocando-as e desafiando-as. Procuravamos sempre retomar situações do
dia a dia no CEI, de suas casas, da relação com os colegas, entre outras situações do
universo mais próximo das crianças acrescidas pela riqueza do seu imaginário.
Buscamos identificar as inquietações e considerações suscitadas por elas, a partir da
leitura da obra, passando por um processo de intertextualização e de recriação de
sentidos para a construção textual história que estava sendo criada por elas.
Tudo o que dizia respeito à construção do livro foi sendo compartilhado, como:
escolha dos personagens9, tempo, espaço, características físicas dos personagens, nomes
dos personagens, vestimentas, situações e conflitos que seriam vivenciados pelos
personagens (enredo)10. Em alguns momentos foi difícil conter a euforia das crianças,
todos queriam expressar sua opinião e falar ao mesmo tempo. Observamos que
dialogavam com intertextos (filmes infantis, acontecimentos familiares e da rotina do
CEI, etc) para compor o enredo. E assim, permeada por idas e vindas, entremeadas a
ricas e intensas contribuições, trocas e negociações a história se construiu11.
Por fim, foi necessário pensar nas ilustrações12 para compor a história junto ao
texto escrito, de autoria das crianças13, no ir e vir da construção da narrativa por meio do
texto oral, registrado por nós professoras nas rodas de conversa.
Em todos os momentos da atividade literária desenvolvida, em especial na etapa
da construção do livro, as crianças foram muito participativas, se mostraram críticas e
curiosas. Crianças que ainda não escreviam convencionalmente seu nome ou que tinham
seus desenhos na fase dos rabiscos14 ou garatujas se esforçaram ao máximo, superando9
Na hora da escolha dos nomes dos personagens, as crianças sugeriram nomes bem familiares para elas,
se reportavam a brincadeiras, personagens e até a fantoches que regularmente viam na sala de aula, já
para o personagem adulto surgiu nomes de tios, pai e avô.
10
Aproveitamos um acontecimento envolvendo um grupo de meninos no parque do CEI (um dos meninos
subiu no alto da casinha, que tem sete degraus, pulou lá de cima e se ralou todo nas pedras). Este fato foi
também retomado como intertexto da fábula“Maria-vai-com-as-outras”, pelas crianças, em relação a
passagem em que as ovelhas pularam do alto do Corcovado, para dentro da lagoa, mas caíam todas na
pedra e quebravam o pé. As crianças decidiram então incluir este acontecimento na sua história.
11
A história criada pelas crianças com a mediação das professoras teve o título “Luizinha vai-com-osoutros”. Como uma paródia, o intertexto temático com a fábula original “Maria-vai-com-as-outras”
manteve-se, a estrutura da narrativa (curta, clara e objetiva) também manteve relação com a original.
Todavia, deixou de ser uma fábula (em que os personagens são em sua maioria animais), para dar lugar a
personagens humanos (crianças e adultos), caracterizando-se pelo realismo lúdico, como uma
possibilidade de materializar um conto contemporâneo.
12
Para fazer as ilustrações retomávamos o texto escrito com as crianças (para pensar os espaços, os
personagens, as ações, etc), realizamos passeios pelo parque do CEI para observar tudo o tinha por lá e
que poderia inspirá-los para os desenhos que iriam ilustrar cada cena da história. Ao ilustrar uma cena
(em que a bola rolou para rua, uma das meninas quis desenhar a rua da sua casa, onde segundo ela, tinha
umas bolinhas (sinalizadores) no meio da rua, e que seu pai havia dito que se o carro andasse rápido, em
cima dessas bolinhas, poderia furar o pneu). Este é apenas um exemplo, dentre tantos outros, que as
crianças traziam e que revela a presença do cotidiano na composição do enredo da história e das suas
ilustrações. A técnica utilizada para a ilustração dos desenhos do livro (de autoria das crianças) foi pintura
a lápis e caneta hidrocor, recorte e colagem no texto e posterior digitalização.
13
O discurso narrativo oral das crianças era autoral, ou seja, todas eram autoras da narrativa naquele
momento. Bakhtin (2011) ao referir-se a prosa literária, compreende a autoria numa visão dialética, onde
o autor é aquele que dirige a visão do leitor e sua atividade de compreensão do texto. A autoria coletiva
das crianças estava presente em seu discurso oral, havia preocupação com os princípios estruturantes da
narrativa (início, meio, fim), mas havia também momentos transgressores destes princípios, para dar lugar
a imaginação e fantasia, característicos da faixa etária, todavia, sem perder os efeitos de sentido.
14
Vigotsky (1998), no texto “A pré-história da linguagem escrita”, argumenta que a linguagem tem papel
fundamental no desenvolvimento cultural da criança, destacando a função da oralidade, dos gestos e
mímicas, do jogo ou representação simbólica e dos rabiscos e desenhos para a construção da escrita da
se para contribuir com a construção coletiva. Ao mesmo tempo se colocavam como
autoras, ilustradoras, narradoras e personagens da história.
Percebendo o entusiasmo das crianças para dar continuidade aquela atividade, foi
necessário planejar com elas um encerramento a altura da criatividade, aprendizagem
lúdica e estética da experiência literária por elas vivenciada. Decidimos então editar o
livro15. Era hora de finalizarmos o trabalho e lançar o livro. Pensamos juntos na
culminância do trabalho, a organização de uma grande festa16, para coroar o percurso
realizado. Este percurso nos mostrou que ao propor estratégias para o ensino da
literatura na sala de aula, na perspectiva do letramento literário, Cosson (2006) aponta
caminhos aos profissionais da educação infantil, como oportunidade de enriquecimento
da prática pedagógica, da experiência pessoal e profissional e como possibilidade de
realizar experiências literárias significativas e, principalmente, encantadoras para as
crianças.
Considerações Finais
A experiência literária desenvolvida com crianças do Jardim I, do CEI Bertha
Müller, em Blumenau – SC, apresentada neste relato, demonstra que a sistematização
metodológica proposta por Cosson (2006), para o trabalho com letramento literário em
outros níveis de ensino, é exequível e perfeitamente adequada quando aplicada às
especificidades da educação infantil.
Com este trabalho foi possível perpassar todas as etapas previstas para o
desenvolvimento de uma sequencia expandida e trabalhar com a literatura na
perspectiva da formação leitora, favorecendo o contato com obras literárias diversas,
criança. Segundo Vigotsky (1998, p. 157) “desenhar e brincar deveriam ser estágios preparatórios ao
desenvolvimento da linguagem escrita das crianças”.
15
Para tanto, buscamos parceria com os pais e com a direção do CEI. Em reunião mostramos o trabalho
em andamento e eles nos deram total apoio, se prontificaram a buscar ajuda financeira nas empresas na
qual trabalhavam para nos auxiliar na realização da edição do livro. Enviamos o projeto do livro a uma
empresa, a qual contribuiu com um valor considerável. Foi necessário pesquisar sobre normas técnicas
para elaboração, revisão e impressão da obra. Não imaginávamos que editar um livro envolvesse tantos
detalhes. Nesta etapa as rodas de conversa com as crianças continuaram diárias, afinal a construção era
coletiva e envolvia decisões e negociações também coletivas.
16
Realizamos um grande evento para o lançamento do livro e o momento de autógrafos. Confeccionamos
os convites, fizemos lista de convidados, pensamos no número de convites para cada família e no
coquetel. Nesta etapa a participação e o trabalho conjunto foi fundamental para que a sessão de autógrafos
com as famílias, amigos e funcionários do CEI, fosse um sucesso.
suscitando a discussão sobre temas e problemas da vivencia cotidiana e, ainda,
desenvolvendo o senso estético das crianças.
O trabalho possibilitou perceber a linguagem da criança como fundamental para
seu desenvolvimento cultural, bem como a importância da literatura no processo de
formação do leitor. Neste contexto, a prática pedagógica com o letramento literário
aponta para a valorização das múltiplas linguagens da criança, em que estão presentes o
discurso narrativo oral, a leitura de imagens, os gestos, a mímica, o jogo, a
representação simbólica, as brincadeiras, os rabiscos, os desenhos, a autoria coletiva, a
imaginação e a fantasia.
Os resultados deste trabalho foram muito significativos, pois extrapolaram os
objetivos previstos inicialmente, com desdobramentos que envolveram também a
comunidade escolar, sendo possível perceber a importância do letramento literário na
perspectiva da experiência estética na educação infantil e suas contribuições para a
formação do leitor literário.
Referencias
BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. S. Paulo: Martins Fontes, 2011.
COELHO, Nelly Novaes. Literatura Infantil: teoria, análise e didática. São Paulo:
Ática, 2009.
COSSON, Rildo. Letramento literário: teoria e prática. São Paulo: Contexto, 2006.
ORTHOF, Sylvia. Maria-vai-com-as-outras. São Paulo: Ática, 2008.
VIGOTSKY, Lev Semenovitch. Pensamento e Linguagem. São Paulo: Martins Fontes,
2005.
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