UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO ESCOLA DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS Jucélia Souza Santos O AUTISMO INFANTIL E A EDUCAÇÃO ESCOLAR GUARULHOS 2010 UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO ESCOLA DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS Jucélia Souza Santos O AUTISMO INFANTIL E A EDUCAÇÃO ESCOLAR Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Universidade Federal de São Paulo como requisito parcial para obtenção do grau em Licenciado e Bacharel em Pedagogia. Orientadora: Prof.ª Dr.ª Renata Petri GUARULHOS 2010 Santos, Jucélia Souza O autismo infantil e a educação escolar / Jucélia Souza Santos. – Guarulhos, 2010. 49 f. Trabalho de Conclusão de Curso (graduação em pedagogia) – Universidade Federal de São Paulo, Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, 2010. Orientador: Renata Petri Título em inglês: Childhood autism and school inclusion. 1. Autismo Infantil 2. Inclusão Escolar 3. Intervenção 4. Psicanálise I. Título Jucélia Souza Santos O AUTISMO INFANTIL E A EDUCAÇÃO ESCOLAR Guarulhos, 06 de dezembro de 2010. _________________________________ Prof.º Dr.º Renata Petri Universidade Federal de São Paulo _________________________________ Prof.º Dr.º Daniel Revah Universidade Federal de São Paulo _________________________________ Mestre Doutoranda Daniela Waldman Teperman Pesquisadora CNPq DEDICATÓRIA Dedico este trabalho à Andréa Milite da Silva (em memória), que com sua fé inabalável ainda me dá todos os dias um motivo para ir cada vez mais longe. AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus que tão encarecidamente me deu coragem e sabedoria para chegar até aqui. À professora Renata Petri pela orientação e pela paciência. À minha mãe e ao meu pai que, apesar da curta formação escolar, contribuíram com sua ampla sabedoria para minha constituição como sujeito social. Obrigada mãe pelas incontáveis noites de espera. Obrigada pai pelo café com leite e pão com margarina. Aos meus irmãos Elton, Edson e Patrícia por tantos momentos de escuta e desabafos. À minha cunhada Célia pelas inúmeras dicas, contribuições, incentivos, amizade, carinho e chá com pipoca. Aos maiores operadores de projeção que conheço e grandes amigos que tanto amo: Ricardo Costa, Ricardo Pereira, Wilson Brocchi, Paulo Miranda e Kleber Cardoso por estarem comigo no início desta jornada. Às Meninas Fantásticas, que amo incondicionalmente: Adara, Rayanne, Renata, Michele, Cinthya, Andréa (em memória) e Marco. Sem vocês eu jamais teria conhecido o sabor do vestibular. À Daniela Matos (Secretária da Unifesp) pela paciência e amizade. A João Carlos (KIG), meu namorado, companheiro e amigo que brigou muito para que eu escrevesse este trabalho, justificando que a tentativa é a metade do caminho para a vitória. À Sandra pelo colo, pelos puxões de orelha e por ter lido este trabalho. Ao “Grupo”: Débora, Lucia, Raisa, Vagnum, Valéria, Virginia, Victor, Marlene, Edson e Keni pela amizade, pelo companheirismo e pela união que sempre nos manteve fortes. À Milie, Gisella, Talitinha, Talitona, Flávia, Beatriz, Carla Maio, Angélica, Lisandra, Tae, Rita e a todos aqueles com quem tive a oportunidade de trabalhar junto durante estes quatro anos de graduação. A Marcos Cezar, pelas caronas no primeiro ano. Às Educadoras: Claudia, Paula, Cris, Maria, Osani, Vanessa e Lidiane por doarem seus espaços e suas experiências durantes as horas de estágio. À Malu, que inspirou a realização deste trabalho. À AMA e ao Lugar de Vida por me receberem e pelas ricas informações que forneceram para a produção deste trabalho. E aos professores da Unifesp, responsáveis por todo conhecimento que adquiri para o exercício da profissão docente. EPÍGRAFE “Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. (...) O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida.” (Clarice Lispector) RESUMO Este trabalho pretende apresentar as possibilidades de inclusão escolar e a socialização da criança autista no ambiente da escola regular, usando como referência teórica a psicanálise. Não tem como objetivo apontar métodos que possam ser usados como modelo nesse processo, nem convencer de que a inclusão deva atingir a todas as crianças. A motivação deste trabalho é mostrar que a inclusão escolar e social não precisa depender sempre e somente de medidas administrativas para acontecer, ainda que este processo de dar à criança especial a oportunidade de estar incluída na escola e na sociedade se articule à questão jurídica e ao cumprimento de leis e declarações. Para tal, apresentaremos, primeiramente, a constituição do sujeito a partir da linguagem e da interferência do Outro primordial. Tomando como base teórica principal a psicanálise, mostraremos que este processo se dá essencialmente pela inserção da criança em uma cultura estabelecida pela linguagem e a importância da atuação e dos investimentos desse Outro primordial na construção da subjetividade. Faz-se também necessário apresentar o autismo infantil e suas características, a partir de teorias médicas que atuam como discurso prevalente na educação, bem como do olhar psicanalítico, para finalmente apresentar as possibilidades de incluir a criança autista partindo da abordagem dessas duas vertentes. Palavras-chave: autismo infantil, inclusão escolar, intervenção, psicanálise. ABSTRACT This paper analyzes the possibilities of school inclusion and socialization of autistic children in the regular school environment, using as theoretical reference for psychoanalysis. Is not meant to point out methods that could be used as models in this process, not persuaded that the inclusion must reach all children. The motivation of this work is to show that the educational and social inclusion need not depend forever and only administrative measures to happen, even though this process of giving the special child the opportunity to be included in school and in society is linked to the legal and compliance with laws and declarations. To this end, we present, first, the constitution of the subject from the language and the interference of another primary. Based on major theoretical psychoanalysis, we show that this process occurs mainly by inclusion of children in a culture established by the language and the importance of this activity and investment in other vital construction of subjectivity. It is also necessary to present the infantile autism and its characteristics, from medical theories that act as discourse prevalent in education as well as the psychoanalytical study to finally have the possibility to include a child with autism based on the approach to these two aspects. Keywords: autism, school inclusion, intervention, psycho-analysis. SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO 11 2 O SUJEITO DA PSICANÁLISE 13 2.1 A Função da Alienação e da Separação na Constituição do Sujeito 18 3 O AUTISMO INFANTIL 22 3.1 O Olhar da Psiquiatria sobre o Autismo Infantil 23 3.2 O Autismo Infantil Segundo a Psicanálise 26 4 A INCLUSÃO ESCOLAR DA CRIANÇA AUTISTA 30 4.1 Contexto Histórico 30 4.2 As Intervenções no Autismo Infantil 34 4.3 As Instituições 36 4.3.1 A AMA 37 4.3.2 O Lugar de Vida 38 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS 45 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 47 11 1 INTRODUÇÃO Ao nos valermos da psicanálise como referencial teórico para tratar da inclusão escolar de crianças autistas, ressaltamos que este saber não será usado aqui como um método adicional nem como um modelo que possa ser aplicado nas escolas regulares, mas como objeto que permite colocar em jogo os impasses do campo educativo, para que estes sejam dialogados. Por isso, partiremos dessa perspectiva para tratar da constituição do sujeito e da estruturação do psiquismo, para poder, por fim, discorrer sobre as limitações vividas pelas escolas e pelas crianças que não têm estruturada sua subjetividade, por terem, necessariamente dificuldades no laço com o Outro. A idéia de trabalhar sobre o tema da Inclusão Escolar de Crianças Autistas se baseia na necessidade de saber como este processo vem sendo feito após a efetivação legal da inclusão destas crianças na escola regular e não mais em instituições (ou clínicas) de tratamento como era realizado anteriormente. O uso da psicanálise como base teórica vem com o objetivo de mostrar que a educação de crianças autistas pode acontecer desde que sejam respeitados seus limites e consideradas as diferentes formas de aprendizado, pois este não virá diretamente a partir do “ler, escrever e contar”, mas da possibilidade da construção subjetiva e de sua circulação social. A psicanálise propõe a educação terapêutica como uma possível forma de intervenção, já que a educação e a socialização é um direito de todos, mas apresenta diversas limitações quando se trata da inclusão de uma criança que tem as limitações características do autismo, ou seja, uma criança com particularidades psíquicas e que não é capaz de fazer demandas ao Outro. Para chegar às propostas de intervenção, faz-se necessário uma abordagem da constituição do sujeito, a partir da psicanálise, que mostra que essa construção é feita pela linguagem e pela atuação de alguém que subjetive este processo que, para a psicanálise, trata-se efetivamente do Outro primordial, capaz de construir a estrutura simbólica naquilo que anteriormente, como propõe Lajonquière (1992), não era mais que um acúmulo de partes. Neste contexto, o Outro primordial, será aquele que se ocupará da função materna e, a partir de 12 operações lógicas que estruturam o psiquismo, cumprirá os processos de alienação e separação. A constituição do sujeito será tratada no primeiro capítulo. No segundo capítulo abordaremos o autismo infantil, como um quadro que se instala a partir da falha na instauração da operação da alienação, tendo como base teórica o discurso da psicanálise. Também faremos a abordagem da psiquiatria, hegemônica neste campo, para fazer um contraponto. No terceiro capítulo trataremos de diferentes formas de intervenção, propostas pela psiquiatria e pela psicanálise, usando as duas vertentes como referencial teórico para abordar a inclusão escolar de crianças autistas. Por fim, tomaremos a psicanálise como campo que possibilita que os impasses da educação sejam dialogados, a partir do encontro aluno-professor, pois este saber vê na escola um lugar capaz de dar à criança autista um lugar social. 13 2 O SUJEITO DA PSICANÁLISE A constituição do sujeito se dá a partir da introdução de um novo organismo no campo da linguagem. À luz da psicanálise, esse é o elemento fundamental dentro de uma cultura. Para que esse processo ocorra é necessária a ação de outro humano. Dessa forma, o sujeito é um produto da linguagem, o resultado da estruturação simbólica, passando a ser falado, nomeado e desejado por aqueles que o aguardam e serão responsáveis por ampará-lo e direcioná-lo de uma forma singular ao lugar que lhe fora reservado por esta relação primordial, marcada e sustentada pela existência da linguagem. A linguagem aqui mencionada não corresponde à função lingüística, nem tem o sentido de comunicação, ela é um sistema que se vale de significantes, e por isso, nos distancia da dos outros animais. Está situada anterior ao seu funcionamento como fala propriamente dita. É determinada como ordem de uma cultura organizada e marcada pela presença de um Outro da espécie, porque, quando o sujeito é inserido no espaço social, este universo já está constituído e pronto para integrá-lo às particularidades humanas. Portanto, a linguagem é um sistema que pré-existe ao nascimento da criança e é o que vai ratificar seu pertencimento a uma cultura. A representação simbólica deste Outro considerado pela psicanálise como primordial, é proposta por Lacan com grafia maiúscula da inicial, porque, além de se tratar de um semelhante da espécie, é ele quem ocupa o lugar de representante simbólico. A este Outro primordial está atribuída a função materna, que não precisa ser necessariamente realizada pela mãe biológica, mas este lugar deverá ser ocupado por um adulto com um interesse particularizado pelo bebê, ou seja, com um desejo não anônimo, capaz de inseri-lo no campo da linguagem. Bernardino (2006) ressalta que o bebê, enquanto organismo que recebe estímulos que o impulsionam a vida, não “adquire” a linguagem como uma habilidade do organismo, ou seja, ele não se desenvolve somente do ponto de vista genético, a partir de funções neurológicas ou até mesmo pelo contato com o 14 mundo externo, mas é a linguagem que “adquire” a criança, necessitando para isso do desejo e do olhar do Outro. Nesse sentido, Petri (2008) também nos fala que, [...] o saber e o desejo humanos não são herdados segundo a lógica de instintos previamente programados por milênios de evolução e sobrevivência da espécie, mas encontra-se antecipados nesse grande Outro sustentado pelos outros, sobretudo os pais como primeiros adultos significativos. Importa ressaltar que esses adultos ocupam-se da criança não como se ocupam de demais tarefas e afazeres, mas a partir de uma posição de implicação desejante (p.29). Ao nascer, este “filhote humano” se encontra em uma situação de desamparo e de incompletude. Se comparado aos outros animais, vemos que este organismo biológico é, de fato, dependente dos cuidados e do amparo de um adulto da espécie. Sem estes investimentos ele não seria capaz nem mesmo de sobreviver, diferente dos outros animais, que são providos de instinto, e que ao nascer, já têm previamente programada a capacidade de adaptação e a garantia de sobrevivência. Isso significa dizer, que este organismo que aspira à subjetividade é o tempo todo habitado por urgências vitais que não pretendem ser adiadas, em outras palavras, o filhote humano é totalmente incapaz de habituar-se ou mesmo de resistir a um total abandono por parte de seus semelhantes. Por isso, “[...] o papel do semelhante não é puramente imaginário, como no caso das outras espécies animais, mas é significante” (JERUSALINSKY, 1999, p.26). No entanto, podemos dizer que estas necessidades são fundamentais, pois elas atuam como condicionantes que transformarão este organismo em um sujeito. Segundo Petri (2008), para entrar na linguagem é necessário viver numa constante de desejos, ou seja, estar na condição em que o sujeito acredita ser o objeto de desejo do Outro. A autora propõe que este desejo está no cerne da dimensão psíquica, é definido pela psicanálise como pulsão, que é a força que faz o organismo tender para um objetivo, representado aqui como anseio que visa à satisfação total. A leitura proposta pela psicanálise é de que, para ser inserido no campo da linguagem, o sujeito deve permanecer na busca de um “objeto perdido”, ou seja, ele é de certa forma, direcionado a buscar por objetos que possam 15 preencher esta falta, pois jamais encontrará seu objeto primordial, porque este objeto está representado no objeto de desejo do Outro. Isso ocorre como uma espécie de troca, na qual o sujeito perde o objeto que ele acreditava satisfazê-lo, para fazer parte de uma cultura. Logo, a construção do campo pulsional é feita pela imersão na linguagem. Dessa forma, a criança só é alguém que deseja, porque alguém a desejou, transmitindo os significantes construídos pela cultura e a antecipou como desejante introduzindo-a no campo das significações, garantindo sua sobrevivência. Pode-se dizer, portanto, que é como se a criança ao chegar ao mundo, perguntasse se tem um lugar para ela, porque mesmo antes de nascer, ela já é necessariamente um objeto de desejo e de discurso. Lajonquière considera que, [...] a criança nasce à vida, mas para sustentar-se nela deve ser ratificada como vivo, como sujeito, pelos outros, pelo desejo historicizado desses outros no interior de um ordenamento simbólico, em resumo, o campo do Outro. Ou, de outra ótica, digamos que, para manter-se na vida, a criança precisa que outro a pulsione a viver (1992, p.155). Podemos ver a satisfação como um significante para uma determinada representação de desejo, pois, conforme Petri (2008), quando a mãe satisfaz no bebê, algo que acredita ser uma necessidade, ela o faz a partir de sua própria representação, tendo como referencial aquilo que lhe foi posto como significante, podendo entender a tensão demonstrada por ele como fome, sono ou qualquer outra necessidade que lhe foi atribuída pela cultura. Dessa forma, ela irá amparálo com uma demanda que ocasionará numa sensação de completude. Num primeiro momento, quando o bebê apela para que suas necessidades sejam atendidas, as respostas da mãe poderão ser as mais diversas, considerando que ele não entrou na linguagem e ainda não faz parte do campo simbólico, portanto, não é capaz de representar seu incômodo. Em outras palavras, não é capaz de associar suas necessidades àquilo que possa satisfazêlas. Dessa forma, ela o alimentará, causando assim a representação de um significante, neste caso, o alimento para saciar a fome. A fome passa a ser neste momento, um significante que a mãe interpreta no choro do bebê e o alimento é o que o bebê toma como objeto do seu desejo. Este objeto representado pelo 16 alimento virá acompanhado por uma série de complementos que se tornam reais ao desejo daquele instante. De fato, este organismo só passa a ter referenciais por causa dos investimentos que o Outro realiza. Ou seja, o alimento é associado ao seio, à imagem da mãe, à sua voz e aos seus movimentos, proporcionando estímulos que posteriormente vão constituir seu psiquismo, possibilitando a subjetivação da linguagem. Num segundo momento, quando reaparecem a angústia e a necessidade, o que satisfez anteriormente não mais atuará como o objeto original, deixando uma falta que não será mais preenchida quando seu desejo se fizer novamente presente. Esta falta advém da diferença entre a forma como o bebê foi atendido pela primeira vez em seu clamor e os próximos chamados que jamais serão atendidos do mesmo modo. Quando o desejo primitivo da criança foi atendido, ela não possuía nenhum referencial, a situação de falta na qual a criança se encontrava não a tornava capaz de relacionar o que ela sentia a um objeto determinado, por isso ela aceitou o que lhe foi oferecido. Logo, naquele momento seu desejo foi saciado por algo que, de certa forma, era inesperado, mas que a satisfez, e por alguém que passou a ser esperado. Esta pessoa esperada, de agora em diante, falhará sempre em sua oferta. Pois, ao atender o que ela considera como um chamado por seu nome, ela estará atendendo à sua própria pulsão, em outras palavras, ela passa a atender a uma força que tende a direcioná-la a um objetivo, que não precisa ser a satisfação do seu bebê, mas o que ela acredita ser bom para ele e, por isso, a deixa satisfeita, no entanto, a oferta feita pela mãe pode estar fora das necessidades dele. Assim, o que o adulto realiza na criança, são seus próprios desejos que anteriormente foram reprimidos, a partir de um objeto que lhe fora negado, possibilitando sua inserção em uma cultura. Esta falta que fará parte do sujeito a partir desta perda é o que dará sustento e articulação na busca constante pelo objeto que fora deixado, ou seja, é o impulso para a sobrevivência que o acompanhará por toda vida, uma ilusão que o leva a crer numa sensação de completude, que nunca será alcançada, mas que o lança para frente na tentativa 17 de reencontrar o objeto que lhe fora perdido. “Procurar o objeto da falta e tentar restaurar a perda original é a própria atividade da pulsão, e é essa atividade que está na origem da linguagem” (QUEIROZ, 2003, p.12). Nesse instante, o que se tem, é a impressão de satisfação de um desejo, que nada mais é que a sensação de realização do desejo primeiro, porém, do Outro. Ou seja, a meta que se objetiva alcançar está na satisfação do desejo do Outro, ou ainda, a satisfação está em ser o objeto de desejo do Outro, “[...] que é mais ou menos o mesmo que dizer que cada um de nós deseja ser desejado pelo Outro” (LAJONQUIÈRE, 1992, p.157), representando o que o Outro busca, tendo aí uma sensação de completude. A inserção nesse primeiro momento do campo pulsional, se dá através de vários significantes provindos da linguagem. Assim, podemos também pensar na fala dentro desta relação, que é endereçada ao sujeito de uma forma particular, considerada como uma espécie de “prosódia materna” (LAZNIK, 1998 apud QUEIROZ, 2003, p.19). Nesse processo, o Outro simbólico além de “responsável” pelos cuidados e investimentos direcionados a este bebê, é ele também quem fala em nome desse sujeito. Nesta fala, o sujeito é tratado como ser falante, alguém interpretado pela fala do Outro que o significa dentro do campo simbólico. Logo, o sujeito, até falar por si próprio é falado, ou seja, faz parte do discurso do Outro e, por isso, quando é apropriado pela linguagem refere-se a ele como outro, falando de si próprio em terceira pessoa, diz, por exemplo: “ele quer...”, “o nenê vai...”. Bernardino (2006) afirma que “é necessário alienar-se no desejo e nas palavras de um Outro da espécie para poder ter existência simbólica” (p.25), porque é esta fala direcionada que faz o bebê ser reconhecido como sujeito de desejo. Ou seja, é a palavra e o olhar do Outro materno que inscrevem o corpo no simbólico, tornando-o falante. Sendo assim, “a voz da mãe transmite uma palavra que introduz a criança pouco a pouco no mundo simbólico, no jogo de substituições e das nomeações” (QUEIROZ, 2003, p.19). Nesta relação que se constitui, é a linguagem que permite a significação das coisas, é ela ainda que marca a relação dinâmica entre o sujeito e seu semelhante. Queiroz (2003), a partir de Lacan, diz que “a linguagem sobrevêm à necessidade de conservar o objeto”, ela ressalta ainda “que é a nomeação que 18 faz com que os objetos, ainda que não infinitamente duráveis, perdurem e possam ser reconhecidos” (p.12). Dessa forma, “[...] para adquirir sentido, as palavras devem tomar corpo e serem metabolizadas numa imagem do corpo relacional. Sem isso, a criança terá dificuldade em compreender o sentido. As palavras tomam corpo na ‘fase do espelho’, quando são associadas às coisas” (QUEIROZ, 2003, p.28). 2.1 A Função da Alienação e da Separação na Constituição do Sujeito Com o propósito de complementar o que foi descrito até o momento, abordaremos as duas operações lógicas que estruturam o psiquismo, nomeadas por Lacan alienação e separação, associadas diretamente à função materna e à função paterna. A primeira dessas operações corresponde à condição que obriga o sujeito, de forma inconsciente, a submeter-se à alienação no Outro, que neste momento marca de linguagem e significado este organismo biológico. Ao ser colocada como centro da atenção e dos cuidados dos adultos dessa relação, a criança passa a receber investimentos que a deixa alienada às significações que estão pronunciadas nos desejos desses que supostamente lhe satisfaz. Assim, os adultos se ocupam da criança a partir de uma posição de implicação desejante. Vemos, portanto, ser construído aqui, uma espécie de “laço materno”, representado pela relação mãe-bebê, porque a criança está envolvida pelos significantes que o Outro inconscientemente lhe impõe, acreditando que seus próprios desejos estão sendo alcançados, da mesma forma que o adulto acredita ter adquirido a felicidade e a completude, tomando a criança como objeto de sua pulsão. Uma outra maneira de abordar este tempo que marca a transmissão da subjetividade, é através do que Lacan chama de Estádio do Espelho. A alienação sofrida será determinada pelo olhar da mãe, ou seja, como ela reflete a imagem do bebê, pois, ele “se vê” primeiro através dos olhos da mãe. Nesta relação, o olhar e o toque que vem do Outro é o que delimita ou mesmo determina suas 19 funções e limites em relação ao corpo deste Outro; é o que dá forma ao corpo visto antes como uma extensão do Outro primordial. Esta metáfora demonstra o que podemos chamar de relação especular (LAJONQUIÈRE, 1992), pois é caracterizada pelo olhar mãe-bebê, ou seja, são as marcas que esta troca representa. Porque, anterior a uma visualização de fato, na qual a criança encontra-se com sua imagem e tem plena noção do que é seu corpo e sua imagem, o olhar da mãe servirá como um espelho para que ela se reconheça. É através desta ação que a criança obterá a subjetivação de sua imagem e do seu corpo. Anterior ao reconhecimento de sua imagem, a criança é submetida a oferecer-se como um objeto do Outro, identificando-se como objeto de desejo, a partir da importância que este objeto tem para o Outro. Isso, pelo fato de não conhecer seus limites e suas propriedades como sujeito, estando alienado como parte deste Outro. Para que se instale uma imagem corporal, é preciso que haja investimentos que afirmem a imagem que é apresentada pelos significantes daquele que direciona o olhar a este corpo. Quando, a criança vê, pela primeira vez, sua imagem refletida num espelho, ela acredita estar diante de outra pessoa, pois esta apresenta um conjunto de formas e movimentos perfeitos, o que Lacan trata de uma “identificação imaginária” (LAJONQUIÈRE, 1992), por isso, a criança ainda está presa no real, sem subjetivação. Posterior a esta situação e com a intervenção do Outro, a criança percebe que não pode “agarrar” a imagem que vê, reconhecendo que esta imagem é do seu corpo e que os movimentos são seus. Essa identificação é construída a partir da subjetivação que lhe fora transmitida. Ou seja, o corte que é provocado por esta assimilação do que é real e do que é imaginário, virá a partir da imagem que o Outro descreve com o seu olhar, a imagem que é oferecida para o mundo. Quando, nesta relação, o Outro percebe que há novamente uma falta que precisa ser preenchida e que a presença do bebê que, por algum tempo, desviou sua atenção, já não completa mais este vazio, este Outro passa a buscar por qualquer elemento que atenue esta necessidade. Para a psicanálise este elemento que causa a falta, está representado na função paterna, que, assim 20 como na função materna, pode não ser efetivamente um pai biológico, mas qualquer outra coisa que possa desviar novamente a atenção do Outro primordial, que até o momento estava fixa no bebê, como algo que proporcionava a satisfação. A falta será o alicerce dessa transmissão. Em outras palavras, a mãe necessita de um objeto que atue sobre o seu desejo. Dessa forma, este bebê que servia, até então, como objeto de desejo será barrado pelo agente da função paterna que faz com que a mãe reencontre neste terceiro elemento o que buscava como objeto de seu desejo, fazendo com que, dessa maneira, o sujeito que se constitui possa se libertar. Assim, este objetivo é alcançado quando ocorre um “basta” nesta ligação, em outras palavras, quando o sujeito é capaz de atuar livremente, reconhecendo seu corpo e passando a falar por si próprio. Fazendo uso das palavras de Bernardino (2006), a linguagem, primeiramente, irá marcar e habitar o sujeito através das palavras e dos investimentos do Outro, e o fará ter a ilusão de tê-la “adquirido”. O processo de separação, que corresponde à segunda operação lógica que estrutura o psiquismo, permite que o sujeito seja “’desalienado’ do saber e das palavras desse Outro, para que ele tenha uma existência simbólica própria” (BERNARDINO, 2006, p.26), desvinculado desta necessidade de atender aos objetivos do seu Outro primordial. Logo, a conseqüência da estruturação psíquica, originada na separação, corresponde à “quebra” do laço materno para que seja construído o laço social, que permitirá a circulação do sujeito na cultura. A importância do Outro nesta troca está nos significantes que ele oferece e, naquilo que este organismo que se constitui como sujeito representa para ele. Conforme Lajonquière (1992), para que a unificação corpo imagem ocorra, é fundamental que o adulto sustente para a criança que aquele que está diante dela é sua própria imagem; é assim que os outros o vêem, é a este ser que os outros se referem. O sujeito, assim, recebendo os investimentos subjetivos do Outro, passa a se identificar com aquilo que este aponta, tornando-o capaz de ingressar no campo simbólico. Veremos mais adiante que a falha desta construção simbólica, estruturada na e pela linguagem, é capaz de produzir efeitos na constituição 21 psíquica, como é o caso do autismo infantil, que descrito a partir da psicanálise é causado pela falha na instauração da operação da alienação, na qual um dos dois, mãe ou bebê, não foi capaz de sustentar um reconhecimento recíproco. Dessa forma, a inserção no campo da linguagem ou no campo da significação só poderá ocorrer se o Outro sustentar este trajeto. Pois é no desejo e no discurso do Outro que o sujeito será constituído, tendo a linguagem como estrutura a partir da qual um ser humano pode se tornar um sujeito falante e desejante. 22 3 O AUTISMO INFANTIL A descrição das operações psíquicas necessárias para a constituição do sujeito, no primeiro capítulo deste trabalho, mostrou a importância da presença do Outro simbólico nesta estruturação. Sob o mesmo ponto de vista teórico será apresentado neste capítulo o autismo infantil, como uma das decorrências da não instauração de certas estruturas psíquicas. Com a finalidade comparativa, tomaremos também a descrição do autismo a partir da ótica da psiquiatria, como uma porta-voz do discurso genético desta patologia. Esta comparação faz-se necessária, pois os diagnósticos apresentados pela psiquiatria são ainda aqueles considerados dentro do campo médico e do educacional. Os estudos e pesquisas sobre o autismo são ainda muito recentes. Por isso, crianças com esses quadros foram por muito tempo associadas a um grupo vasto de deficiências mentais, apesar das diferenças no quadro de sintomas. Algumas das definições apresentadas sobre o autismo infantil, ainda suscitam polêmicas que divergem entre falhas orgânicas e psicogênicas. O termo autismo foi cunhado pelo psiquiatra suíço Bleuler, em 1911 (KUPFER, 2000), para descrever a fuga da realidade e o retraimento para o mundo interior de pacientes adultos acometidos de esquizofrenia. No entanto, em 1943, a nomenclatura autismo foi associada a um quadro de distúrbio do desenvolvimento característico em crianças, sendo isolado do grande grupo das psicoses infantis. Este quadro foi descrito como uma síndrome específica, pelo psiquiatra austríaco Leo Kanner, inicialmente sob o nome de “Alterações Autistas do Contato Afetivo”. Naquele momento, Kanner estabeleceu uma relação com a esquizofrenia, manifestada de uma forma precoce, em função de algumas características que são apresentadas por esta patologia, como o autismo extremo, a obsessividade, as estereotipias e a ecolalia. Em um estudo com onze crianças, Kanner descreveu algumas das características que eram semelhantes entre elas, como a incapacidade em manter relações sociais; o comprometimento na comunicação, sendo que aqueles que tinham linguagem não a usavam para tal função; interesses a atividades restritas; ótima memorização para atividades decoradas; pavor diante de ruídos 23 fortes ou atenção excessiva diante de objetos em movimento; tendência à repetição, apesar de serem dotadas de boas potencialidades cognitivas. Para Kanner, os prejuízos mais severos seriam “uma dificuldade profunda no contato com as pessoas, um desejo obsessivo de preservar as coisas e as situações, uma ligação especial aos objetos e as alterações de linguagem que se estendiam do mutismo a uma linguagem sem função comunicacional, incluindo a não inversão pronominal” (SCHWARTZMAN, 1995, p.4). Os primeiros estudos de Kanner teriam apontado como principais culpadas as mães destas crianças, consideradas por ele pessoas emocionalmente frias, distantes, até altamente intelectualizadas, com pouco interesse em suas crianças, o que a psicanálise tomaria como uma incapacidade de desempenhar a “função materna”. Kupfer (2000) salienta que essas observações de Kanner repercutiram rapidamente pelo mundo, principalmente entre os norte-americanos, país no qual trabalhou, causando fascínio e curiosidade, abrindo espaço para novos estudos sobre a patologia. Mas também causaram grande polêmica entre as famílias de crianças autistas, que protestavam dizendo que ninguém tinha o direito de acusálos pelas causas do autismo de seus filhos. Por isso, com o tempo e a partir de vários outros estudos, por ele mesmo realizados, estas conclusões tiveram de ser repensadas, e logo depois, em 1946, ele escreveu “Em defesa das mães”, pois suas observações tornaram-se negativas e inaceitáveis diante da reação das mães dessas crianças. A partir das hipóteses já levantadas sobre o autismo infantil, vários outros estudos foram feitos, ampliando suas causas e fazendo com que surgissem inúmeras formas de explicação. 3.1 O Olhar da Psiquiatria sobre o Autismo Infantil De acordo com as definições mais utilizadas e aceitas pela psiquiatria, o autismo está configurado como uma síndrome, na qual as crianças afetadas apresentam, desde idades muito precoces (particularmente antes dos três anos de idade), alterações caracterizadas por irregularidades qualitativas na comunicação, na interação social e no uso da imaginação. Estes desvios seriam 24 responsáveis pelo padrão de comportamento restrito e repetitivo, sendo consideradas também por esta vertente, condições de inteligência que podem variar de retardo mental a níveis acima da média. Apesar das características já delimitadas, o autismo ainda seria uma síndrome de causas desconhecidas. A crença mais comum é de que as origens do autismo estejam em anormalidades em alguma parte do cérebro, no entanto, ainda não definida. Dessa forma, o mais provável seria considerar o autismo como uma patologia de origem genética. Admite-se ainda, que esteja relacionado a problemas durante a gestação ou no momento do parto. De acordo com esta visão, não existiria de fato o que é definido como um autismo clássico, como é o caso da Síndrome de Asperger, mesmo que não exista uma explicação biológica ou genética para esta síndrome. Assim, o autismo seria sempre causado por falhas orgânicas e, por isso, poderia ser herdado, bem como, ser transmitido. Estas hipóteses levam a conclusões e dúvidas diversas. Muitos pais despertam a atenção para o desenvolvimento anormal da criança, que com idade avançada, não anda, não fala, não imita, não cria situações fantasiosas, além de não ter reações comuns de crianças na mesma idade, como acenar ou procurar o contato de seus semelhantes. Estes pais chegam a considerar que houve um período de normalidade em seus filhos, anterior ao quadro de autismo. Relacionam a eventos vividos pela criança, como uma cirurgia ou um trauma. Dessa forma, considera-se que a incidência do autismo varia de acordo com os critérios estabelecidos, sendo mais freqüente entre os meninos. Por ser considerada uma síndrome de origem genética, ela passaria a existir em decorrência de alguma patologia, ou seja, as características do autismo vão surgir como conseqüência de alguma doença de origem biológica ou traumática. Para que houvesse critérios no uso dos conceitos e para chegar a um diagnóstico comum, a Associação Americana de Psiquiatria e a Organização Mundial de Saúde, descreveram o autismo localizado dentro dos “Distúrbios Globais do Desenvolvimento”, sendo, por meio do Manual de Diagnósticos e Estatísticas de Distúrbios Mentais (DSM-IV, 1991 apud ASSUMPÇÃO, 1995, p.08) determinado como um “Distúrbio Abrangente do Desenvolvimento”, anteriormente abordado pelo DSM-III (1989 apud ASSUMPÇÃO, 1995, p.08) 25 dentro dos Distúrbios Globais do Desenvolvimento. Já pela Classificação Internacional de Doenças (CID-10, 1993 apud ASSUMPÇÃO, 1995, p.08) está denominado como “Transtornos Invasivos do Desenvolvimento”. Essas classificações caracterizam um desenvolvimento diferente do normal, que se manifesta até os três anos de idade, que, por isso é visto como precoce, apresentando particularidades no convívio social, na conduta e no diálogo. O diagnóstico que define o autismo, a partir destas divisões (DSM-III, DSM-IV e CID-10) determinou como principais sintomas, a incapacidade de integração social recíproca, a incapacidade qualitativa na comunicação verbal e não verbal e na atividade imaginativa e repertório de atividades e interesse acentuadamente restrito, sendo todos estes sintomas apresentados na primeira infância. Logo, para a psiquiatria, este transtorno do desenvolvimento seria a somatória daquilo que está embutido no sujeito, em suas características, ou, em outras palavras, como o seu genótipo o define associado àquilo que o meio no qual a criança vive proporciona. Ou seja, o indivíduo seria a totalidade de uma mistura biológica e ambiental, daquilo que vai determinar suas características. Isso porque o meio oferece estímulos capazes de causar variações significativas apreendidas como desenvolvimento. Para que isso ocorra de fato, é necessário que haja um sistema orgânico e psicológico capazes de receber, de forma adequada, os estímulos que lhe são oferecidos. Assim, se o organismo, em função de alguma falha biológica, decorrente de outra patologia, não responde de forma satisfatória aos estímulos, ou mesmo, se estes não são apresentados de forma adequada nem no momento oportuno, poderá haver aí um desenvolvimento insatisfatório, causando graves prejuízos de comportamento, de comunicação, de relação interpessoal. Sendo assim, o autismo, enquanto síndrome especifica, não aparece de forma isolada, mas passa a ser relacionado a outras patologias do desenvolvimento, o que amplia as causas, os sintomas e as proporções dos afetados, dificultando mais ainda as possibilidades de um diagnóstico. 26 3.2 O Autismo Infantil Segundo a Psicanálise Ao tratar da constituição psíquica a partir da linguagem como uma estrutura dentro do campo simbólico, é possível abordar questões que giram em torno da falha neste processo, acarretando distúrbios que levam a quadros como o autismo infantil. Diferente do que é proposto pela psiquiatria, nos estudos psicanalíticos, o autismo infantil está relacionado a falhas na função materna, ou seja, decorrente ao não cumprimento do processo de alienação. O autismo seria, dessa forma, o resultado de uma falha no reconhecimento recíproco entre a mãe e seu bebê. Digamos que, o que aparece de diferente aqui é a não instalação de estruturas psíquicas, causando assim a deficiência, ou seja, o oposto do que foi descrito anteriormente a partir da psiquiatria, que considera a falha orgânica como principal causa da síndrome. A partir do que já foi mencionado sobre a constituição do sujeito, o bebê busca no Outro um retorno para os seus investimentos, pois, será neste Outro simbólico que ele irá buscar respostas para aquilo que ele já investiu uma primeira vez. Segundo Kupfer (2000), o autismo está vinculado ao desequilíbrio do encontro materno com a criança; porque o equilíbrio depende tanto do investimento satisfatório da mãe como das condições da criança em se apropriar do “jogo simbólico” que lhe é oferecido. Precisamente, Kupfer ainda nos fala que, [...] o autismo não seria nem o efeito de uma falha genética, nem o efeito de ‘interações ambientais’, mas uma conseqüência da falha no estabelecimento da relação com o Outro, quer porque o Outro materno não esteve disponível, quer porque falhou no bebê a permeabilidade biológica ao significante (2000, p.99). A psicanálise nos mostra que o sujeito não se constitui a partir de funções genéticas e maturacionais, mas, necessariamente dos investimentos do Outro sobre uma estrutura biológica. Sendo assim, dizer que o organismo que receberá as investidas do Outro que o impulsionará a vida deve estar permeável aos significantes. 27 Logo, o que ocorre no autismo, é uma falha que pode estar no bebê (de forma orgânica ou psíquica), que o impede de “buscar” o Outro, não permitindo a existência de um contato. Ou ainda, que o Outro não seja capaz de disponibilizarse para esta busca, não admitindo, assim, o encontro. Dessa forma, a psicanálise afirma que a falha está necessariamente no desencontro causado pela mãe ou pelo bebê, sendo que um dos dois pode não estar disponível para o desenvolvimento desta relação, não ocorrendo o que a psicanálise chama de “encontro primordial”. Ao que parece, Kanner não teria feito observações exageradas a partir das causas do autismo infantil, pois, se for tirada a culpa das mães pela patologia de seus filhos, a psicanálise nos mostra que não é possível lhes tirar a responsabilidade. Isso porque, o corpo do bebê para sair da condição de organismo biológico precisa que o Outro materno “o pilote em direção ao mundo humano, que lhe dirija aos atos para além dos reflexos, e, principalmente, que lhes dê sentido” (KUPFER, 2000, p.99). Por isso, ainda que a psicanálise não descarte a hipótese biológica, não é possível discordar de que, mesmo que o Outro materno esteja diante de um “equipamento defeituoso” (KUPFER, 2000), ele poderá ser capaz de construir uma imagem simbólica neste corpo, colocando-o no lugar de sujeito. Mas se ambos falharem, porque a mãe não exerceu a função materna e porque o bebê não pôde absorvê-la, o organismo oferecido inicialmente não sairá desta condição. Laznik (2004) também trata desta questão, considerando que esta falha é irreversível, pois quando as estruturas psíquicas necessárias para a constituição do sujeito não são instauradas (pelo menos em tempo necessário), ela causa um grande prejuízo nesse processo. Laznik ao abordar o desenvolvimento infantil a partir da linguagem e da relação com o Outro primordial considera a existência de um “terceiro tempo do circuito pulsional”, no qual a criança se dispõe como o objeto de desejo materno, estando conseqüentemente alienada à linguagem. Ao olharmos a forma do autismo clássico, vemos, segundo Laznik (2004), o não estabelecimento da alienação, complementando com o que ela chama de “fracasso do circuito pulsional completo”. Cabe ressaltar aqui a forma como a 28 autora, a partir de Freud, descreve o processo dos três tempos propostos como circuito pulsional, no qual, no primeiro tempo deste circuito, a criança busca por um objeto, para poder dele se apoderar, este é representado pelo objeto oral, que o bebê acredita saciar sua necessidade. No segundo tempo, o bebê encontra satisfação em seu próprio corpo, chupando as mãos, os pés ou os dedos, o que para a psicanálise é uma “capacidade auto-erótica”. O que Laznik apresenta como importante no diagnóstico precoce de autismo é a não existência de um terceiro tempo desse circuito pulsional, no qual a criança deveria se fazer objeto do sujeito, ou seja, se fazer, aparentemente, passivo para poder fisgar o gozo deste Outro materno (LAZNIK, 2004). Podemos citar como exemplo o que Laznik descreve como uma imagem representativa deste momento, no qual [...] o bebê coloca seu dedo (do pé ou da mão) na boca da mãe, que vai fingir comê-lo de maneira muito prazerosa. Este momento particular de jogo é pontuado pelos risos maternos, enquanto ela comenta o valor gustativo do que lhe é oferecido pela atribuição de diversas metáforas gastronômicas onde o açúcar tem um lugar privilegiado. Tudo isso desperta em geral sorrisos na criança, o que nos indica que ela buscava justamente fisgar o gozo deste Outro materno (LAZNIK, 2004, p.28). Dessa forma, vemos que no autismo este terceiro tempo não acontece, porque a criança não tem interesse pelo Outro, e, portanto, não é possível falar de um verdadeiro auto-erotismo. Os dois primeiros tempos só serão, de fato, originados de uma pulsão se o terceiro tempo for concluído e os três reaparecerem reforçando o circuito. Laznik ainda nos fala que o segundo tempo pode ser enganador, pois o ato de sugar o dedo ou a chupeta ocasiona um procedimento auto-calmante, revelando uma situação em que não há a ligação erótica com o Outro. Para a psicanálise, sem a existência do Outro materno, não há a construção do psiquismo, não há o olhar direcionado, não há a formação do laço mãe-bebê, portanto, não ocorre a subjetivação que permitirá que o bebê se reconheça no Outro e se constitua na linguagem como sujeito. Da mesma forma, o que o colocaria em circulação social não está estruturado. Assim, é importante pensar a instalação do autismo a partir desta falha, para que a intervenção vá além de hipóteses genéticas ou biológicas. Laznik 29 ressalta que “não é a mesma coisa intervir com uma criança para tentar atenuar as conseqüências de um déficit cognitivo já instalado (ou em vias de ser) e intervir para (r)estabelecer o circuito pulsional completo, cujo não funcionamento causa este déficit” (LAZNIK, 2004, p.31). Logo, se há a pretensão do intervir nesse não funcionamento psíquico, que seja feito a partir da construção de sua estruturação, o que permitirá mais tarde a circulação social. Para Laznik, o diagnóstico do autismo é muito mais amplo do que pensar em questões puramente ambientais, já que o autismo é para a psicanálise um “registro puramente psíquico, sendo possível, apenas neste registro intervir” (LAZNIK, 2004, p.31). A psicanalista propõe que haja a intervenção para que se instaurem as estruturas psíquicas necessárias para a constituição do sujeito na linguagem, prevenindo a organização da síndrome autística. No entanto, sabemos que o autismo não possui uma cura, mas a intervenção pode possibilitar a não acentuação do quadro. 30 4 INCLUSÃO ESCOLAR DA CRIANÇA AUTISTA Vimos no capítulo anterior as definições que são dadas ao autismo infantil, pela medicina e pela psicanálise, determinado pela primeira leitura como uma patologia de origem genética e pela segunda, relacionado a falhas na função materna, ou seja, decorrente da não instalação de estruturas psíquicas. A partir dessas considerações, trataremos neste capítulo das possibilidades de escolarizar e socializar a criança autista, seguindo as mesmas bases teóricas e fazendo sempre um contraponto entre estas abordagens. Ao pensarmos no tratamento da criança autista, é importante considerar que todas as leituras que são feitas sobre o assunto vêm acompanhadas por preocupações de como intervir na alteração do quadro patológico, sejam elas a partir da medicina somente, ou comportando os aspectos educativo, pedagógico e terapêutico no processo de inclusão escolar e social. Por isso, tomaremos como referencial teórico a psicanálise, com sua concepção de sujeito, constituído na e pela linguagem. Em contrapartida, será apresentada também uma visão geral que aponte os aspectos positivos e as limitações de outras diferentes intervenções. 4.1 Contexto Histórico Considerando a valorização dos direitos do homem e do cidadão, idéia que foi reforçada na segunda metade do século XX, a educação destaca-se como principal condição de igualdade, sem que haja distinção de direitos e deveres entre os amparados por leis e declarações. O direito à educação tem como propósito formar uma escola capaz de acolher, igualmente, todas as crianças, inclusive as “diferentes”, no ambiente escolar. Este propósito foi proclamado na Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), sendo reafirmado pela Declaração sobre a Educação para Todos (1990) e pela Declaração de Salamanca (1994): O princípio fundamental da escola inclusiva é o de que todas as crianças devem aprender juntas, sempre que possível, independentemente de quaisquer dificuldades ou diferenças que elas possam ter. Escolas inclusivas devem reconhecer e responder às necessidades diversas de seus alunos, acomodando ambos os estilos e ritmos de aprendizagem e 31 assegurando uma educação de qualidade a todos através de um currículo apropriado, arranjos organizacionais, estratégias de ensino, uso de recurso e parceria com as comunidades. Na verdade, deveria existir uma continuidade de serviços e apoio proporcional ao contínuo de necessidades especiais encontradas dentro da escola (Declaração de Salamanca, 1994, p.11). O Estatuto da Criança e do Adolescente, criado no Brasil em 1990, ainda garante no Inciso III do artigo 54 ser “um dever do Estado assegurar à criança e ao adolescente atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino”. Contudo, vemos que surgem algumas ambigüidades no tratamento desses termos e instrumentos legais e normativos da educação, pois o discurso da inclusão que define que as escolas devem acomodar todas as crianças, independentemente de suas condições físicas, intelectuais ou emocionais, enfim, atendendo a proposta de igualdade de direitos, não possui mecanismos de ação que garantam que os direitos à educação sejam equiparados, pois, principalmente não garante que escola e educadores estejam preparados para trabalhar de forma singular com estas crianças e aceitar o diferente sem que para isso sejam necessárias leis que façam valer esse processo: “sem a igualdade de direitos, não há respeito possível às diferenças” (PATTO, 2005, p.16). Além disso, a diferença é reforçada dessa forma paradoxal no momento em que deveria ser usada como objeto impulsionador para a constituição de uma escola inclusiva. Kupfer (2005) ainda sublinha que a igualdade está na criação de oportunidades e na garantia do direito de estar na escola e fazer com que apareçam as diferenças necessárias para que sejam tratadas como iguais, ou seja, essas diferenças de que fala são aquelas que vão além daquilo que segrega pela homogeneização e que caracteriza, ou seja, são “as diferenças subjetivas na apreensão do mundo, já que são essas diferenças que permitem o surgimento de seus estilos e, portanto, do novo. Um novo singular que poderá retornar ao social para revigorá-lo” (KUPFER, 2005, p.23). Logo, o que ela trata é de direitos iguais para todos e não de um ensino igual para todos. A inclusão escolar tem sua origem em movimentos históricos e sociais, representando a possibilidade de circulação social e a escolarização regular de crianças com necessidades educacionais especiais. Estes movimentos tinham 32 como maiores interessados as próprias pessoas com deficiências e suas famílias, que lutavam por seus direitos de acesso à educação e à sociedade. Já “a criança especial é uma criação produzida no e pelo discurso social escolar posto em circulação no início da modernidade”, assim como assinalam Kupfer e Petri (2000, p.110). Esta criação teve como principal influência o saber médico e toda uma dimensão política, que determinava aqueles que tinham capacidade de compor o sistema escolar e, dessa forma, a sociedade; e os “anormais” a quem restou a segregação, fora da escola. Estas crianças, apesar das condições que lhes foi imposta, fora do discurso escolar, sempre fizeram parte do contexto social, ainda que à margem da sociedade, escondidas ou abandonadas à própria sorte. Podemos considerar os processos evolutivos pelos quais a educação escolar transitou, indo de métodos segregacionistas que praticavam a exclusão de pessoas consideradas diferentes da maioria da população, passando pela prática da integração social, que pregava a recuperação do “diferente”, tornando-o o mais próximo possível do “normal”, até a educação inclusiva, que pretende adaptar a sociedade, de maneira que esta ofereça condições a todos, sem distinção, de se prepararem para assumir seu papel social. Assim, durante boa parte do trajeto da educação especial, que hoje alcançou o patamar de educação inclusiva, a escola sustentou uma relação que limitava o sujeito a uma posição inferior que o impossibilitava de qualquer forma de participação em seu processo educacional. Podemos pensar que, os resultados dos movimentos sociais ainda não são de todo executados, mas temos hoje, pelo menos, o desafio de mudar esta realidade com a inclusão. Quando inicialmente pensava-se em processos de educar a criança especial, a idéia era educar o diferente entre seus iguais, ou seja, pensando na melhor das hipóteses, inserir essa massa de deficientes em classes especiais, nas quais poderiam “aprender” ou pelo menos estarem no meio escolar, fora dos asilos e da condição de aprisionamento as quais eram submetidos. Assim, o que levou ao conceito de escola inclusiva, foi a emergência de que crianças e jovens com necessidades educacionais especiais deveriam ser incluídas, ainda que em acondicionamentos educacionais feitos exclusivamente para estas crianças, considerando que “ir à escola é melhor que ir ao manicômio” (JERUSALINSKY, 1997 apud KUPFER, 2001, p.80). 33 No entanto, este processo de “inclusão” ainda estaria muito associado a marcas do discurso médico, que serviram (e ainda servem) para normalizar e categorizar as diferenças existentes no indivíduo, buscando sempre a cura para aquilo que não é normal. O discurso médico justificou durante um longo período “a exclusão dos ‘incapazes’ dos direitos sociais” (PATTO, 2005, p.10), prescrevendo quem deveria fazer parte da escola regular e quem seria encaminhado à escola especial, dessa forma, o médico era peça fundamental no ambiente escolar. Milmann (2001) considera que a escola regular, ainda que tenha passado por mudanças significativas como a retirada dos profissionais da saúde de seu interior, permanece atrelada a discursos hegemônicos, trocando o que ela chama de “clinicalização” por uma “pedagogização”. Ainda que tenha sido “restituído ao professor um lugar de saber sobre seus alunos” (p. 107), a autora considera que hoje há o risco de um “excesso pedagogizante”, pois vemos a ampla atuação da psicopedagogia, campo da educação como ciência, que vem atuando como um substituto da medicina normativa, nomeando todos os problemas de aprendizagem e categorizando as crianças especiais como escolarizáveis ou não. Vemos que o discurso da escola ainda é o de reconhecer a deficiência como uma particularidade do indivíduo, ou seja, o que ocorre com essa pedagogização é uma incalculável identificação de patologias, que fragiliza e tira do discurso o sujeito, que é constituído acima de tudo por singularidades e, por isso, “encontra-se em condições de sustentar seu desejo de aprender, com as diferenças que aí se revelarão” (MEIRA, 2001, p. 51). Dessa forma, vemos que a escola, ao ser colocada frente às diferenças que estão excessivamente na contramão do que se espera para a inclusão (como no caso da criança autista), demanda ao educador a responsabilidade de dar conta das diversidades a partir e somente de seu saber, já que não há subsídios suficientes para um trabalho coletivo. “Estas crianças, inúmeras vezes, não permanecem na rede escolar regular, por não encontrarem ali um lugar que leve em conta sua subjetividade para além do seu sintoma” (MEIRA, 2001, p. 44). Dessa forma, devemos considerar a inclusão de crianças autistas como um terreno assinalado pelas preocupações de proporcionar um direcionamento à igualdade de oportunidades, apesar de ainda estar marcada por concepções e 34 práticas segregacionistas e integracionistas. A decisão de colocar na escola regular o aluno com deficiência não o torna menos excluído, porque o simples fato de colocá-lo para dentro dos muros não garante que ele faça parte desse lugar. Meira (2001) ainda ressalta que na integração da criança especial deve ser levado em conta seu desejo de atravessar este processo: “aprender, participar da vida social da escola, brincar com os colegas, atender aos pedidos dos professores, são demandas com as quais todas as crianças se defrontam” (MEIRA, 2001, p.43). A inclusão escolar na forma de ensino que temos hoje deve ser pensada, primeiramente, a partir da estruturação da escola, ou seja, passar de formulações teóricas para a colocação deste aluno num espaço que lhe permitirá a socialização e a formação cultural, já que este é o propósito da educação para todos. Isso está representado em todas as modificações e movimentos que a escola e a sociedade devem realizar para apreender as diferenças. A partir deste breve percurso podemos afirmar que ainda que se tenha feito avanços importantes no tocante às leis que regulam a inclusão, há muito ainda a ser discutido, todo um caminho a ser trilhado. Veremos como isso vem sendo feito em relação às crianças autistas. 4.2 As Intervenções no Autismo Infantil Ao se tratar da inclusão da criança autista, há uma inconsistência no discurso daqueles que pregam uma educação igual para todos, considerando que todas as crianças são iguais, inclusive as diferentes. As leis que vemos serem criadas em prol dessa educação, como verificam Kupfer e Petri, “não vieram acompanhadas, pelo menos até recentemente, de providências que permitissem o seu adequado cumprimento [...] de medidas facilitadoras para a sua implantação” (2000, p.109). O que é determinado como uma educação inclusiva, ainda hoje, tem um caráter de incluir todas as crianças, com o objetivo principal de cumprimento das leis, e por isso vemos que o processo de inclusão não tem apresentado tantos avanços. 35 A pedagogia vigente, em nome de princípios democráticos, busca garantir a inclusão nos moldes da lei, no entanto, essas mesmas leis não possibilitam a garantia de que todas as crianças poderão usufruir igualmente da escola. Para Kupfer, No âmbito escolar, essa defesa se traduz no conhecido princípio segundo o qual “todas as crianças são iguais perante a lei”, com a conseqüente idéia de que a inclusão das crianças à margem do sistema escolar deve ser feita a qualquer custo. Assim, no campo da Educação Especial, afirma-se com veemência que, se as crianças são iguais perante a lei, então todas, absolutamente todas, devem estar na escola. Inclusão a todo custo, esse é o lema – inclusive para as crianças psicóticas e autistas (2005, p.17). Esta proposta de igualdade torna-se conflitante, pois aqueles que compõem a escola nem sempre estão de acordo ou preparados para manter um diferente dentro da sala de aula, principalmente quando se trata da inclusão de um sujeito tão diverso em sua estrutura psíquica. Além disso, o propósito de se pensar nas diferenças dessas crianças é o que faz saber que estas diferenças existem a partir das singularidades e particularidades psíquicas de cada criança. Porque, pensar numa inclusão a qualquer custo, é desconsiderar as impossibilidades que aparecerão neste percurso. Apesar de um dia termos empunhado a bandeira da igualdade, devemos ter em mente que não existe uma criança igual a outra, principalmente quando falamos de crianças autistas e, por isso, esse discurso deve ser repensado. Porque neste sentido, quando se discute a defesa da igualdade, as diferenças se tornam mais evidentes e são elas que passam a ser vistas quando se inclui um autista. Portanto, devemos levar em conta que a inclusão escolar poderá não ser a melhor solução em alguns momentos da vida de uma criança autista, por isso, esse é um processo a ser feito no caso a caso, verificando as condições dessa criança e daqueles que a receberão. Calligaris (1989, apud KUPFER; PETRI, 2000, p.116) considera que as limitações características do autismo são o que causa o principal entrave desse discurso e o fato de algumas crianças psicóticas ou autistas piorarem seu quadro ao entrarem na escola, reforça a visão generalizada de que a escola sempre terá esse efeito sobre as crianças. 36 Mas, ainda assim, podemos pensar naquilo que a escola é capaz de construir, no seu efeito que pode ser organizador, capaz de se estender ao tratamento, lembrando que o ensino vai além daquilo que a pedagogia determina (ler, escrever e contar), pois estar na escola pode ser uma garantia de ser marcado pela singularidade. 4.3 As Instituições Para avançar, então, na discussão sobre a inclusão da criança autista, vamos nos referir a experiências em curso na cidade de São Paulo, propostas por instituições que se ocupam deste problema. Estas instituições seguem linhas diferentes para o atendimento da criança autista. Tomaremos a AMA1 como instituição que representa o discurso médico e que desenvolve um trabalho sustentado no método TEACCH2, caracterizada por priorizar o atendimento institucional, tendo como objetivo colocar a criança autista como participante da sociedade. No entanto, seu discurso é de que a inclusão em escola regular pode causar resultados negativos, pois considera que este ambiente não é próprio para aqueles que apresentam as limitações características do autismo. A outra instituição que nos servirá como referência é a Pré-Escola Terapêutica Lugar de Vida3, que tem a psicanálise como referência teórica e que 1 AMA – Associação de Amigos do Autista. Criada por um grupo de pais em 1983, contrapondo a idéia de Kanner, de que o autismo seria o resultado da “frieza” dos pais em relação a seus filhos. Surgiu com o objetivo assistencialista de atender crianças e jovens autistas, em substituição ao atendimento escolar. 2 TEACCH (Treatment and Education of Autistic and related Communication handicapped Children) – método Norte Americano utilizado no Brasil principalmente pela AMA – Associação de Amigos do Autista. 3 A Pré-Escola Terapêutica Lugar de Vida é uma instituição para tratamento de crianças psicóticas e autistas que pertence ao Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Criada por Maria Cristina Machado Kupfer. Tem como propósito incluir em escolas regulares as crianças assistidas pela instituição. 37 propõe um tratamento intitulado Educação Terapêutica4 (KUPFER, 1997), definida a partir de três eixos: tratamento, escolarização e inclusão, ou seja, tratase de uma proposta dentro da psicanálise que procura, a partir de uma parceria com as escolas regulares, propor que as crianças autistas, sejam incluídas, desde que respeitadas suas limitações e potencialidades. O trabalho desta instituição é fazer com que as crianças que freqüentam o espaço possam vivenciar a experiência de fazer parte de um grupo social. 4.3.1 A AMA Na análise desses métodos de atendimento e de assistência à criança autista, percebemos o quanto são diferentes os modos de se inserir na sociedade aqueles que têm uma estruturação psíquica particular e, por isso, estão, muitas vezes, dentro do discurso que coloca como impossível qualquer forma de educação. Assim, vemos a necessidade de manter o contraponto, pois se usarmos como base teórica os sistemas conservadores que utilizam métodos voltados para o comportamentalismo (causa e efeito), como é o caso do método TEACCH, que tem como principal objetivo ajudar a pessoa com autismo a “funcionar” inserido na cultura a sua volta, vemos que são obtidos resultados que permitem uma adaptação ao meio, no entanto, isso ocorre de maneira fixa, sem que haja a possibilidade de desenvolver na criança uma autonomia subjetiva. No método TEACCH é feito um trabalho voltado para rotinas estruturadas, no qual está incluída a organização do ambiente físico, pois acredita-se que a melhor forma de ensinar e socializar crianças autistas é a partir de rotinas mecanizadas que vão manter constantes as atividades diárias, para que não haja eventualidades que possam prejudicar o desenvolvimento do trabalho. Todas as tarefas que modificam as atividades habituais são evitadas. 4 Termo cunhado para fazer parte de um tipo de intervenção junto a crianças com problemas de desenvolvimento é um conjunto de práticas interdisciplinares de tratamento, com especial ênfase nas práticas educacionais, que visa à retomada do desenvolvimento global da criança ou à retomada da estruturação psíquica interrompida ou à sustentação do mínimo de sujeito que uma criança possa ter construído (KUPFER, 2001, p.79). 38 No ambiente da AMA, onde os educadores apostam nesta metodologia, é dada prioridade ao atendimento institucionalizado, no qual pode vir a se alfabetizar a criança autista, mas não apostam como ideal a inclusão em escolas de ensino regular. Observamos que, para eles, a educação no ambiente escolar é prejudicial a qualquer tentativa de socializar o autista, tendo em vista a falta de preparo dos educadores e da escola. As crianças que são atendidas nestes espaços têm assistência psicológica e pedagógica, no entanto, voltada sempre para o comportamentalismo, ganhando uma aparência de adaptabilidade que elimina qualquer possibilidade de subjetivar o sujeito em questão. Estas instituições mantêm o olhar médico sobre o autismo e defendem apenas o atendimento dentro dos centros considerados de reabilitação, seja terapêutico ou educacional. Além desses métodos, a AMA prioriza uma série de técnicas de comunicação e de regras sociais para serem aplicadas durante o tratamento, que, apesar de não parecer fazer distinção entre as crianças atendidas e suas particularidades, são métodos que poderiam ser usados como uma ligação ou mesmo como um preparo para a entrada na escola regular. Não se trata de generalizar a inclusão, pensando processos em longo prazo, fazendo com que todas as crianças freqüentem a escola, como uma forma de seguir a legislação que aborda a questão, mas fazer com que as crianças se tornem capazes de desenvolver suas potencialidades e não fiquem limitadas a práticas uniformizadas. 4.3.2 O Lugar de Vida Pensando ainda sobre as possibilidades de escolarização da criança autista, no contexto de uma Educação Terapêutica, o olhar psicanalítico acerca das questões educacionais, tem como objetivo ver na escola um lugar capaz de desempenhar o papel do Outro simbólico, atuando na constituição e no devir do sujeito. O interesse desse processo é olhar a escola como um lugar que tem potencial para supor que ali existem sujeitos singulares, que estão além de suas diferenças e de seus diagnósticos, com estruturas que podem ser potencializadas a partir da relação entre os universos educativos e terapêuticos. 39 Diferente de se apoiar somente no discurso médico, o Lugar de Vida acredita que mais poderosa é a escola, quando seus efeitos são capazes de possibilitar a estruturação psíquica do sujeito. Sem entrar no mérito da inclusão escolar a qualquer custo, a psicanálise trata esta relação com a escola como um meio de beneficiar a criança autista inserindo-a no espaço educativo, o que permite que ela pertença a um lugar social que é próprio da infância. Pois, para Kupfer e Petri, Uma designação de lugar social é especialmente importante para as crianças que enfrentam dificuldades no estabelecimento do laço social, como é o caso das crianças psicóticas ou com transtornos graves. Mesmo decadente, falida na sua capacidade de sustentar uma tradição de ensino, a escola pode ser uma instituição poderosa quando lhe pedem que assine uma certidão de pertinência: quem está na escola pode receber o carimbo de “criança” (2000, p.115). Um dos eixos da educação terapêutica é possibilitar a inclusão e a permanência na escola regular a partir dessa abordagem interdisciplinar de práticas de tratamento e de práticas educacionais, sustentadas pela psicanálise, garantindo o encontro da criança autista com o professor, fazendo com que ela se torne parte e responsabilidade de toda a comunidade escolar. A psicanálise não deve ser entendida aqui como um método a ser adotado pela escola para educar crianças autistas, nem para fazer da escola um lugar onde estas crianças obterão a cura de suas patologias. A psicanálise busca, através da possibilidade de inclusão escolar, dar à criança autista um lugar social. “Ao indicar à criança um lugar social, atribui-se a ela um lugar de sujeito” (FRAGUAS; BERLINCK, 2001, p. 13). Logo, junto a esta proposta de que a escolarização de crianças autistas é além de um direito, a garantia de cidadania, há também a cautela de olhar para todos aqueles que estarão envolvidos com estas crianças, da relação com os adultos e com as outras crianças. Kupfer (2005) considera que o encontro dessa criança com o professor, num primeiro momento, “gera desconforto, angústia, em ambos, paralisando-os” (p.31). Por isso, ela assinala que o objetivo da escolarização da criança autista é a criação do laço social professor-aluno, tornando esta relação possível e produtiva. 40 A partir da psicanálise, a proposta da educação inclusiva é estabelecer ou resgatar a simbolização que a escola é capaz de produzir, pois “se não há laço, pode haver, por outro lado, enlace, entendido justamente como uma forma de circulação social possível” (ALBE; MAGARIÁN, 1991 apud KUPFER, 2001, p. 78). Que não seja por um aprendizado de fato, inicialmente, mas que a escola sirva como uma ferramenta que altere a posição do sujeito diante do discurso do Outro. Avaliando a diferença entre institucionalizar e escolarizar a criança autista, a educação terapêutica prevê como necessária a saída do ambiente de tratamento, permitindo que através de uma “pré-escolarização”, a criança seja preparada para o ingresso na escola regular e dela possa participar como qualquer outra criança. Pois, a escola, neste contexto, pode ser um representante simbólico do campo do Outro, um lugar no qual pode existir a aproximação à linguagem, elemento fundamental para a estruturação subjetiva, portanto, a criança deve usufruir desse lugar o tempo que for possível e necessário, para que desenvolva suas potencialidades. O trabalho de inclusão escolar do Lugar de Vida é feito pelo Grupo 5 Ponte , que torna possível a entrada de crianças autistas e psicóticas na escola regular, através de seu encontro com o professor e a escola. A proposta do Grupo Ponte não é provar que todas as crianças cabem no discurso da “educação para todos” e, por isso devem estar na escola, mas de garantir que a inclusão vá permitir sua circulação social e seu lugar como sujeito na linguagem. O encaminhamento escolar do Grupo Ponte é acompanhado no caso a caso, com a proposta de igualar para estas crianças o direito de estar na escola. A interligação entre escola e instituição terapêutica, como mostra o Grupo Ponte, permite uma melhor visualização da possibilidade de inclusão na escola. Diferente do que ocorre na AMA, as crianças não são permanentemente institucionalizadas, sem uma perspectiva de alta, mesmo considerando essa etapa do tratamento difícil. Pelo contrário, o tratamento é pensado como uma passagem pela instituição e, desse modo, também é uma passagem pela escola, possibilitando a saída dos dois lugares. Logo, as experiências do Grupo Ponte 5 O Grupo Ponte é uma criação da Pré-Escola Terapêutica Lugar de Vida e está em funcionamento desde 1993. Tem a função de acompanhar a inclusão de crianças e jovens atendidas no Lugar de Vida em escolas regulares de São Paulo. 41 também mostram o quanto é importante a separação quando se torna real a inclusão. Bastos (2001) chama a atenção para esse momento crucial de desfazer o laço professor-aluno que foi estabelecido, para que a escola possa funcionar como o previsto, um lugar social capaz de produzir efeitos terapêuticos. O compromisso do Grupo Ponte e do Lugar de Vida é o de criar possibilidades, através da escola, de estruturar o psiquismo destas crianças ou mesmo de resgatar algo que já estava em funcionamento, por isso, associada à terapia, a educação torna-se um meio pelo qual é visada a adaptação ao contexto social. O Lugar de Vida aponta a escola como um dos melhores referenciais para a construção do laço social, para uma educação de qualidade para todos. A escola passa a ser um lugar no qual é possível pensar como uma extensão terapêutica, já que seu principal instrumento é a palavra, onde os sujeitos falam e são falados, constituindo nesse ambiente sua significação. Sendo assim, se a institucionalização, ainda que a partir de meios assistencialistas, é capaz de colocar o autista em funcionamento, a escola mesmo que preservando as diferenças, pois não é possível apagá-las e supor que todas as crianças são iguais, é capaz de produzir efeitos de subjetivação nessas crianças, estabelecendo o laço social a partir da linguagem. Trata-se de considerar que as crianças a serem integradas ou incluídas em escolas sejam consideradas desde seu lugar estrutural, que não se restringe ao campo das deficiências, ou da observação fenomenológica dos sintomas que venham a apresentar. Se a criança for vista pelo professor, primordialmente, como sendo alguém que é portadora de desejos, de uma história, os caminhos para a aprendizagem estarão incluindo o que é fundamental no ser humano: a palavra (MEIRA, 2001, p. 49). A inclusão não se limita a olhar para todas as crianças de forma homogênea, de que todas as crianças são capazes de aprender no mesmo tempo, mas de considerar as dificuldades diante dos processos de aprendizagem e de socialização. Segundo Meira (2001), Caberia (aos professores e à escola), então considerar essas dificuldades, inerentes ao processo, propondo atividades que levem em conta a produção de saber em relação ao qual a criança é capaz de sustentar. Demandar a todas o mesmo nível de atividades seria denegar as diferenças que aí se impõem. Neste aspecto, operar-se-ia a segregação e a exclusão dessa criança, já que não há possibilidade de que atendam às demandas pedagógicas da mesma forma (p.47). 42 Logo, pensando sempre a educação escolar de uma forma positiva, de que “todas as crianças têm potenciais que podem ser estimulados” (KUPFER, 1996, p. 112), o Lugar de Vida também prevê que a inclusão escolar é um processo que leva cuidados e, não é homogeneizando uma turma que as patologias desaparecerão. Por isso, o trabalho realizado pela instituição é o de proporcionar a “travessia” entre a instituição (terapia) e a escola regular, mantendo uma proximidade que permitirá o acesso do professor ao aluno, não com manuais que expliquem suas particularidades e dêem dicas de como lidar com seus imprevistos, mas através da parceria e da escuta dos professores, tirando-os da posição de impotência em relação à criança que recebem. Como foi dito no primeiro capítulo deste trabalho, o sujeito, para sua constituição, necessita radicalmente do Outro. O Outro, representante simbólico dentro da cultura, que é capaz de produzir as significações necessárias que irão integrar o sujeito às particularidades humanas, sendo que este processo será sempre determinado pela linguagem. Para o Grupo Ponte, o professor teria esta função, a partir do momento em que a criança é tomada como “sua” aluna, produzindo uma relação de alienação muito semelhante à dessa criança com sua mãe, “vemos, não por acaso, que aquilo que leva a professora a tomar essa criança como sua aluna também diz respeito a algo de sua posição subjetiva que se enlaça nessa criança” (BASTOS, 2001, p.53). Sobre a posição dos professores, quase sempre a inclusão em escola regular torna-se impossibilitada pelo senso comum de se considerar que há uma necessidade de formação específica para o atendimento de crianças especiais. É óbvio que essa preparação não deve ser descartada, mas usá-la como instrumento que generaliza as situações de inclusão é o que possibilita a idéia fracassada de igualar as crianças incluídas, além de colocar o professor numa posição de incerteza em relação ao seu trabalho. Por isso, a inclusão é um processo que deve atender alunos e professores, pois é inegável a insatisfação desses profissionais quando recebem um aluno diferente em sua turma, mas em nome de princípios éticos e democráticos, não se manifestam contra. Para Bastos (2005), Em nome de princípios democráticos que pregam a educação para todos, o que se observa hoje na rede de ensino são inúmeros 43 profissionais transtornados pela falta de preparo ante uma tarefa que lhes parece hercúlea, e também mergulhados em dúvidas, ansiedades e incertezas sobre como viabilizar a concretização de tal proposta (p.134). O fato de receber na sala de aula um aluno que vai ao “extremo do diferente”, faz com que muitos professores tenham sua experiência colocada à prova, muitas vezes, por eles mesmos. É preciso que se deixe de lado o mito de que os professores devem ser especializados para que venham a atender melhor as crianças com dificuldades especiais. Isso acaba por gerar uma “exclusão” do professor que nunca se vê capaz de exercer o seu trabalho e impossibilitado de ocupar seu lugar de educador (BASTOS, 2001, p.50). Neste sentido, o trabalho do Grupo Ponte vai na direção de autorizar o professor a construir um saber-fazer com estes alunos diferentes, a partir de sua experiência. Logo, a possibilidade de criação do laço social, a partir do que a psicanálise veria como uma relação de alienação é necessária para garantir a permanência da criança na escola, já que o Grupo Ponte não oferece respostas aos seus questionamentos de como trabalhar com estes alunos, mas oferece espaço de escuta para seus diálogos e angústias, para que sejam compartilhados, permitindo assim a produção de um trabalho diferente do que é oferecido pelas teorias pedagógicas. No que tange à educação de um autista, como considera Braga (2005), o educador tem que tomar a inclusão como um trabalho possível, ocupando o lugar que lhe cabe, passando a ver o valor que pode ter a sua atuação em relação à criança, realizando com ela a mesma função que exerce em relação às outras crianças. Logo, não é um trabalho a ser realizado individualmente, a parceria existente na educação terapêutica é uma prova de que o trabalho conjunto traz ganhos tanto para as crianças incluídas como para os professores. A psicanálise no sentido de auxiliar a educação, não quer propor meios de exercer tal ciência, mas vê como necessário afastar o professor de manuais e controles de práticas educativas, que inviabilizaria o próprio ato educativo, visando assim a tomada de posição deste professor, que pode, então responsabilizar-se pelo seu ato, o que verificou-se como fundamental quando se trata da inclusão. 44 Não podemos tomar a experiência do Grupo Ponte como um modelo a ser adotado e seguido no contexto da educação escolar, mas como inspiração para se pensar nos dispositivos nos quais podemos lançar mão para inventar uma maneira da inclusão acontecer. 45 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Refletir sobre a inclusão escolar de crianças autistas é buscar no tecido social meios de potencializar sua subjetividade. Uma das respostas positivas que vem sendo apresentadas para questões que tratam da circulação social das crianças autistas nos dias atuais, está na estruturação do laço que essa inclusão pode possibilitar através do encontro com os outros. No entanto, apesar dos avanços apresentados na inclusão social, a partir do ambiente escolar, ainda há limitações que mantém estas crianças afastadas de uma escolarização de fato, na qual a atenção está voltada para sua patologia e não para seu lugar como sujeito social. Além disso, vemos que a presença da criança autista na escola ainda provoca desconforto e opiniões que divergem entre o direito dessa criança fazer parte desse contexto e as dificuldades, angústias e dúvidas que surgem quando se busca garantir este processo através de recursos e manuais pedagógicos, visando alcançar, dessa forma, uma educação homogênea. No entanto, como vimos no decorrer deste trabalho, não há casos (crianças) iguais entre si, bem como não se podem estabelecer formas prévias de procedimentos que se deverá ter com cada criança. Por isso, vimos que a seriedade de um trabalho de inclusão acontece quando este é efetivado no caso a caso, justamente porque as respostas da intervenção virão cada uma ao seu tempo, e dessa forma, também devem ser esperados os resultados negativos. É justificável que a questão da inclusão escolar mereça amparo legal, pois legitima o direito e garante lugar social aos que necessitam de tratamentos especiais. Porém, a ação fica a mercê das leis que se voltam para princípios gerais e normativos que categorizam as necessidades dentro de grupos a serem direcionados propondo uma inclusão. Neste sentido, quando a criança autista passa a fazer parte do discurso social, é a sua singularidade e, dessa forma, sua estruturação psíquica que devem ser vistas como propósito da inclusão escolar. Assim, vimos na educação terapêutica um meio de encontrar na singularidade da criança uma perspectiva para o seu reordenamento simbólico. 46 Além disso, a educação terapêutica aparece como um meio de escuta, que cria possibilidades a partir do discurso escolar e faz manifestar nas angústias dos educadores que recebem estas crianças, formas de construções simbólicas, ou seja, o laço professor-aluno poderá sustentar aqui a estruturação psíquica. Vale ressaltar que, mesmo dentro dos parâmetros legais de que todas as crianças devem estar na escola, as possibilidades criadas pela psicanálise de associar educação à terapia, não deve ser tratada como um método de ordenação com o qual vai garantir a presença de todas as crianças na escola, mas um meio de pensar a inclusão da criança autista, acima de tudo, de forma terapêutica. Deste modo, se concluirmos que a educação é uma possibilidade a ser pensada dentro das formas de intervenção, devemos apresentar as ressalvas de que a escola deve estar além do jurídico e do legislativo, mas na razão de sua existência, de criar possibilidades de convivência e de estruturação subjetiva e, acima de tudo, pensar que todas as crianças têm potenciais de aprendizado muito maior do que se supõem. 47 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ASSUMPÇÃO, Francisco Baptista Jr. Conceito e Classificação das Síndromes Autísticas. In: SCHWARTZMAN, J. S. Autismo infantil. São Paulo: Memnon, 1995. p. 03-16. BASTOS, Marise Bartolozzi. Impasses vividos pela professora na inclusão escolar. Estilos da Clínica. São Paulo: Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, v. 6, n. 11, 2. sem. 2001. p. 47- 55. ______. Inclusão escolar: inclusão de professores? In: COLLI, Fernando Anthero Galvão; KUPFER, Maria Cristina Machado (Org.). 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