UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES PÓS-GRADUAÇÃO “LATO SENSU” PROJETO A VEZ DO MESTRE UMA INTERVENÇÃO MAIS AFETIVA E APAIXONANTE DO PROFESSOR INFLUENCIA NA FORMAÇÃO DE NÍVEL SUPERIOR? Por: Ana Lúcia Souza da Silva Orientadora Prof. Mary Sue Carvalho Pereira Rio de Janeiro 2003 2 UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES PÓS-GRADUAÇÃO “LATO SENSU” PROJETO A VEZ DO MESTRE UMA INTERVENÇÃO MAIS AFETIVA E APAIXONANTE DO PROFESSOR INFLUENCIA NA FORMAÇÃO DE NÍVEL SUPERIOR? Apresentação de monografia à Universidade Candido Mendes como condição prévia para a conclusão do Curso de Pós-Graduação “Lato Sensu” em Docência do Ensino Superior. Por: Ana Lúcia Souza da Silva. 3 AGRADECIMENTOS ....aos amigos e parentes, que deram suporte ao meu empreendimento; ao Ms. Nilson Guedes de Freitas por sua orientação na organização inicial de minhas idéias e à Prof. Mary Sue de Carvalho Pereira por seu desempenho e carinho na orientação da finalização deste trabalho...... 4 DEDICATÓRIA ...dedico aos meus pais, Julia e Lázaro, por terem me fornecido a vida e a minha filha Paola, por ter me fornecido a iluminação de minha alma... 5 RESUMO Este trabalho visa reconhecer e dar embasamento teórico a intervenção mais afetiva e apaixonante do professor, que por sua atuação mais interativa e emocional com os alunos e o curso, pode tornar as capacitações técnica e social do corpo discente melhores e mais críticas. No desenvolvimento de seus capítulos procura provocar uma reflexão no corpo docente do ensino superior, a respeito do lugar que vem o ser humano e o trabalho humano ocupando nas suas preocupações acadêmicas, faz um apanhado sobre a situação da educação no Brasil e perpassa por questões como globalização, valorização do magistério, paradigmas na formação docente, as competências do educador, o perfil esperado do novo educador em tempos de mudanças e a necessidade de mudança paradigmática para o nascimento deste novo educador e do despertar dos ‘mestres’ , a partir daí, busca abrir uma discussão do trabalho humano do professor, em sala de aula, por suas interações afetivas e compromissadas com a orientação da formação do corpo discente a partir da mudança de seu paradigma pessoal e profissional, e da importância do despertar da figura do ‘mestre’ no educador, no sentido de estimular seus alunos a prosseguirem conscientes da importância de suas ações para o meio ambiente e a sociedade e torná-los, também, apaixonados pela profissão escolhida. A paixão pelo que faz e ensina, dentro de um equilíbrio emocional, dará cor e vida às visões de futuro dos seus alunos, por que não dizer discípulos, fundamentando e qualificando a aplicação de seus conhecimentos no mundo profissional. Palavras chaves: Educação. Paixão. Educador. Paradigma. Afetividade. 6 METODOLOGIA A observação das críticas crescentes quanto à qualidade do profissional graduado no ensino superior, vindas de profissionais presentes no mercado de trabalho e professores, todos em convívio direto com muitos destes recémgraduados, levaram a identificação do problema proposto. A metodologia utilizada no trabalho foi a pesquisa bibliográfica em fontes de autores como SALTINI (2002), ALVES (2000) e FREIRE (1979 e 1996) entre outros famosos e não famosos, pesquisa esta feita no intuito de trazer à reflexão os aspectos teóricos e práticos já existentes, através de livros, artigos publicados e leis que indicam na direção da resposta ao problema salientado. 7 SUMÁRIO INTRODUÇÃO ................................................................................................................ 8 CAPÍTULO I .................................................................................................................................11 A EDUCAÇÃO NO BRASIL E O PROFESSOR.........................................................................12 CAPÍTULO II ................................................................................................................................26 O PROFESSOR E O EDUCADOR...............................................................................................27 CAPÍTULO III...............................................................................................................................49 O DESPERTAR DOS ‘MESTRES’ ..............................................................................................49 CONCLUSÃO ...............................................................................................................................62 ANEXOS .......................................................................................................................................67 BIBLIOGRAFIA ...........................................................................................................................86 DISCOGRAFIA.............................................................................................................................88 WEBSITEGRAFIA .......................................................................................................................88 FILMOGRAFIA ............................................................................................................................88 ÍNDICE..........................................................................................................................................89 FOLHA DE AVALIAÇÃO ...........................................................................................................90 8 INTRODUÇÃO Carlos Fontes, em artigo para o site Navegando na Educação, indica que até meados dos anos sessenta tinha-se como referência o modelo de ‘Bom Professor’, um modelo moral e político visto como um sacerdote ao serviço do saber. Ser professor era conseqüência de uma vocação ou missão, e não o exercício de uma profissão. Na sociedade em que vivemos, onde as regras em todas as áreas são ditadas pelo capitalismo, em que o ensino também foi atingido, passou-se a visar eficiência e lucro, em detrimento da importância do prazer pelo ensino e aprendizagem. Pretende-se com o presente trabalho reconhecer que uma intervenção mais afetiva e apaixonante do professor, por sua atuação mais interativa e emocional com os alunos e o curso, pode tornar as capacitações técnica e social do corpo discente melhores e mais críticas. Com relação às especificidades, considera-se duas qualificações básicas para docência: as ‘acadêmicas’ (dos saberes e saberes-fazer) e as ‘pedagógicas’ (metodologias e técnicas para o exercício da atividade). O que se verifica largamente é que no ensino fundamental a pedagogia prevalece sobre a primeira. No ensino médio / técnico, as duas coexistem, contudo as acadêmicas tendem a se tornar nucleares. Já no ensino superior, as qualificações pedagógicas são desprezadas. Na prática atual de educação superior, verifica-se que o aluno formado profissional, entra no mercado de trabalho e na sociedade ativa como o produto de um processo pedagógico (se é que podemos dizer que existe este processo) comprometido apenas com a lógica do mercado, da técnica pela técnica, sem meditação e sem compromissos com valores em prol da felicidade humana. Qual é a qualidade de gente (produto da ação pedagógica) que se disponibiliza para a sociedade e para as organizações? 9 É papel dos professores de ensino superior ter responsabilidade social em sala de aula, por meio de uma relação Eu-Tu que favorece de um modo coerente a atualização, em prol de uma harmonia da pessoa com o mundo. Uma atuação pedagógica pautada numa relação professor x aluno mais intensa, emocionante e envolvente, que demonstra paixão pelo curso, disciplina e interfaces com o plano social, promoverá a formação de melhores pessoas e profissionais. Não obstante, verifica-se ainda um elevado índice de evasão escolar, causado pela desmotivação ou falta de conforto, aconchego, em sala de aula. Evidenciados pela ausência de um professor, um ícone, que passe paixão pelo que ensina e faz, que contagie os alunos com sua energia positiva, fornecendo não a motivação, que é pessoal, mas a incentivação, expectativa, curiosidade, interesse em conhecer mais e mais sobre os assuntos tratados em sala. Segundo Rubem Alves, o professor é um especialista no domínio de técnicas, enquanto o educador traz consigo a vocação, a paixão de ensinar. Extrapolando esta dualidade professor / educador, concordando com um relato de Jamil Idaló Jr. – estudante, encontramos o ‘mestre’, que ao invés de alunos tem discípulos. Ele, o ‘mestre’, pode ser considerado como um orientador, posto que sua atuação sinaliza para o profissional que deverá se formar ao final do curso. São estes ‘mestres’ ( tão ausentes, mas tão necessários!), que inserem no contexto curricular peculiaridades ímpares, vivências únicas, que auxiliam na melhor compreensão do conteúdo do conhecimento estudado e, ainda, contribuem para a formação de novos homens (e mulheres), agentes ativos de modificações sociais em prol da felicidade humana de todos. Contudo, para que se verifique esta maior interação afetiva do professor com os alunos, no sentido de estimulá-los a prosseguir conscientes da importância de suas ações para o meio ambiente e a sociedade e torná-los, também, apaixonados pela profissão escolhida, ao dar cor e vida às suas visões de como deverão aplicar seus conhecimentos no mundo profissional, 10 faz-se necessária uma mudança de paradigma não só quanto à sua formação, mas principalmente quanto à sua atuação interpessoal e intrapessoal. O primeiro capítulo discorrerá sobre a relação entre a educação no Brasil e o professor, onde em tempos de capitalismo globalizado, a educação de nível superior atravessa problemas relacionados à valorização do magistério e à preocupação com a humanização da formação superior. O segundo capítulo analisará a dualidade entre professor e educador em sala de aula, discorrendo sobre os paradigmas na formação docente, as competências que devem ser desenvolvidas na docência e o perfil esperado do novo educador – o ‘mestre’. O terceiro e último capítulo levanta a questão e necessidade do despertar dos mestres, a partir de uma mudança de paradigmas, profissional e pessoal, trazendo a paixão para a sala de aula e, por fim, mostra que a figura do ‘mestre’ já é real nos tempos de hoje, apresentando exemplos dessa paixão de ensinar. Todo o conteúdo desse trabalho está pautado em pesquisa bibliográfica de grandes autores como Rubem Alves, Paulo Freire e Cláudio Saltini, entre outros; artigos sobre questões inerentes ao assunto, no campo educacional e entrevistas selecionadas em revistas e sites renomados. 11 CAPÍTULO I A EDUCAÇÃO NO BRASIL E O PROFESSOR ...Deus é maior que todos os obstáculos. 12 A EDUCAÇÃO NO BRASIL E O PROFESSOR “Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. TÍTULO I Da Educação Art. 1º. A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais.” Qual seria a resposta mais apropriada para a mais comum das perguntas, na área da educação: “O que o Sr. (a) acha da educação no Brasil?” O que se espera é aquela mesma resposta, denunciando falta de verbas, a condição indigna dos professores, o baixo índice de aproveitamento dos alunos, o alto índice de evasão etc. Mas isto todos já sabem. E será que apenas com mais verbas estaremos melhorando a educação no país? Não. É preciso, principalmente, mais inteligência e emoção, pois educação se faz assim. Na verdade, apesar de todas as condições adversas, há muitos professores que amam seus alunos e sentem prazer em ensinar. Dessa forma, conseguem transpor todas as coisas ruins e ao se darem, por amor à profissão e aos alunos, se auto-carregam de ainda mais amor e aprendem, e ensinam , e aprendem... Em um país democrático, nada é mais importante para seu povo que a educação. Ter um povo educado não significa que devam possuir diploma superior, simplesmente. É necessário ter capacidade de pensar, discernir e agir. Os conhecimentos adquiridos devem ser aplicados com ética, respeito ao próximo e ao meio ambiente, consciência de desenvolvimento sustentável e cidadania. 13 Os professores e as escolas estão formando pessoas neste nível? Não. Direcionando para o nível superior, os profissionais formados saem com determinado tipo de conhecimentos, mas em sua grande maioria não têm formação crítica – humanista. Estão cheios de informação, mas não sabem pensar e não têm o homem e o meio em que vivem como suas principais fontes de inspiração para o agir. “Mas sempre foi ensinado assim”, dizem alguns professores. A rotina e repetição de conteúdos e metodologias, do modo de ensinar, levam a paralisação e estagnação. Segundo os gregos, o conhecimento só se inicia quando o familiar deixa de ser familiar, quando nos espantamos diante dele, quando ele se transforma num enigma. Tem quem considere que, nas instituições de ensino superior – IES, esses costumes e rotinas já estão enraizados e o processo de deformação já atingiu um ponto irreversível. Será? Se assim for, então para que continuar vivendo, se não há o que mudar, o que aprender, o que melhorar? Não, sempre haverá um novo caminho a tomar, basta que haja vontade, determinação e muita paixão para a mudança do paradigma estagnado. Consta no Plano Nacional de Educação – PNE, que à União atribui-se o papel de atuar na educação superior, função esta prevista na Carta Magna. E as universidades públicas têm importante papel a desempenhar, seja na área de pesquisas, como padrão de referência no ensino da graduação e, ainda, na qualificação dos docentes de instituições públicas e privadas, para que atinjam as metas previstas na Lei de Diretrizes e Bases – LDB, quanto à titulação docente. Diz também que as IES têm muito a fazer, abrindo horizontes para um futuro melhor para a sociedade brasileira, reduzindo desigualdades, a medida que a elas compete primordialmente a formação dos profissionais do magistério. Em seu Capítulo 4 – relativo a Educação Superior –o PNE prevê a implantação de planos de capacitação dos servidores técnico-administrativos das instituições públicas de educação superior, e ainda, fala em estímulo, com 14 recursos públicos federais e estaduais, às instituições de educação superior para constituição de programas especiais de titulação e capacitação de docentes. As nossas IES passaram a ser avaliadas e qualificadas pelo número de artigos científicos que seus cientistas publicam em revistas internacionais em língua estrangeira, quantidade de professores pós-graduados, mestrados, doutorados, pós-doutorados, na nota alcançada no tão discutido Provão etc. E se houvesse critérios que as avaliassem por sua capacidade de fazer o povo pensar, não seria interessante? Assim, assistimos a uma série de conflitos na arena em que se transformou a educação em nosso país. Por um lado o governo e as instituições de ensino privadas pressionam os professores no sentido de se especializarem e se aperfeiçoarem continuamente, por outro, na maioria, nem um nem outro dão condições reais para que isso ocorra. Tal tipo de exigência é altamente desejável, pois todo professor é acima de tudo um aluno, e deve estar sempre aprendendo para poder, em sala de aula, ser capaz de ensinar a aprender. Quando um professor se satisfaz com o que ‘já sabe’, a alma de seu trabalho está morta, e educação tem a ver com vida, prazer. Verificamos isto ao nos depararmos com um professor nato, aquele que trabalha sob as piores condições, aquele que sabe que dinheiro nenhum paga o prazer de uma boa aula, aquele que resiste em se aposentar, aquele que possui o ‘furor pedagógico’, que sente que os alunos só terão esta chance de aprender, neste momento de vida... Essa melhoria da qualidade de vida, com vistas a um horizonte de futuro melhor para o povo, depende muito da atuação dos professores, em também ajudar na formação do sujeito (o aluno). Entendendo-se por sujeito alguém que é capaz de pensar, decidir e atuar por conta própria, com suas capacidades sensoriais, afetivas, imaginativas e racionais envolvidas nos processos de perceber, compreender, decidir e agir. E para isto, eles devem se utilizar dos processos que mais estiverem em consonância com o grupo, inundar a sala de 15 aula de amor pelos alunos e paixão pelo que faz e ensina e, principalmente, não terem medo de se expor ou errar. ''É triste falhar na vida; porém, mais triste é não tentar vencer''. (Franklin Roosevelt) ''Fracasso é a oportunidade de começar de novo inteligentemente''. (Henry Ford) ''Cada fracasso ensina ao homem algo que necessita aprender''. (Charles Dickens) I.1 - O capitalismo globalizado e a educação superior Na primeira metade de nosso século, assistiu-se à emergência do capitalismo monopolista. Com isso, modificou-se o método dominante de produção da mais valia absoluta (capitalismo concorrencial) para a mais valia relativa, onde a maquinaria domina o processo de trabalho, caracterizando-se a submissão real do trabalho ao capital. Atualmente, a partir do último quarto de século, com a revolução tecnológica (informática, biotecnologia, robótica e a sofisticação dos aparelhos orientadores da opinião pública e agenciadores de comportamento), as megaorganizações e os super-desenvolvimento dos capitais especulativos, uma série de novas determinações surgiram, e o capitalismo não pode mais ser compreendido conforme anteriormente descrito. Nesta passagem do capitalismo monopolista ao capitalismo globalizado também se verifica uma modificação no método dominante de produção. A extração de mais valia virtual se torna a mola propulsora da acumulação quando o trabalho científico se transforma na principal fonte de valor econômico, produzindo informações que, como bens intangíveis, são propriedades privadas do capital. Não raro, se verifica uma abordagem voraz de determinada empresa do mercado sobre alguém, por vezes até bem situado profissionalmente, através de ofertas financeiras irrefutáveis. A detenção do conhecimento passou a ser fator preponderante de domínio de mercado. Vale, nesta selva de pedra, inclusive, “encantar” um profissional detentor de certo conhecimento que pode 16 aumentar o poderio da concorrência, mesmo sem ter um lugar específico para ele, mas só para retirá-lo do mercado. Outro aspecto importante dessa nova fase do capitalismo é que não mais se refere apenas a um sistema produtor de mercadorias, mas também de subjetividades – modelizando semioticamente desejos, afetos, necessidades, padrões estéticos, éticos e políticos, intervindo diretamente no inconsciente das pessoas com a finalidade de reproduzir seus próprios ciclos (Guattari,1987, p.213). O capitalismo, portanto, captura as utopias das pessoas sob sua lógica de dominação e lucro. Ele atua no inconsciente e move o desejo, a angústia, o medo das pessoas; altera a sensibilidade que é modelada pela lógica do capital e o desejo de alteridade é desviado para o consumo de produtos, para a posse de objetos, ficando as relações coisificadas – o desejo de ter um grupo de amigos é desviado para a posse de um tênis da moda, por exemplo. Ele também cria moldes estéticos para a subjetividade: dando padrões de feio e belo, o que dá status ou não (o tipo de roupa que devemos vestir, ou que objetos devemos portar para sermos reconhecidos como importantes no nosso grupo) etc. Dá, também, moldes a dimensão da ética: mutila nossa sensibilidade perante o sofrimento alheio, nos desumaniza, altera noções de justo e injusto, responsabilizando cada pessoa por sua exclusão, escondendo as causas estruturais dessa exclusão. Logo, se alguém fica desempregado é porque não estudou para trabalhar com tecnologias mais avançadas e complexas, sendo responsabilizado por sua própria exclusão; se estuda e consegue o emprego, o conseguiu porque estudou, se estuda e não consegue o emprego é porque não estudou o bastante; contudo essa ideologia esconde o fato de que mesmo se todos estudassem o bastante, não haveria emprego para todos, pois não é a qualificação do trabalhador que gera postos de trabalho. O capitalismo globalizado também produz imaginários, gerando certas esperanças impossíveis de se cumprir, utopias alienadas etc. Ele transforma qualquer coisa em valor de troca, já que a globalização envolve elementos de produção e comercialização, relacionando-se à economia e às finanças. 17 Na educação superior, esse capitalismo vem atingir diretamente professores e alunos. No caso dos primeiros, tendo em vista que as IES passaram a ter classificação / qualificação melhor conforme o número de profissionais de ensino possuidores de diplomas, títulos, publicações internacionais etc., e ainda, pela falta de um plano de cargos e salários bem estruturado e que remunere efetivamente o exercício da profissão de docência, os professores se despem de sua função principal, a de ensinar e ajudar na formação do aluno para a vida em sociedade, para se transformarem em objeto de desejo das instituições de ensino privadas, que existem em maior número. Quando procuram um aperfeiçoamento não visam uma melhor atuação em sala de aula, mas sim vislumbram ser possuidores de um objeto (diploma, título, publicação, certificado de orientação formal de aluno de pós-graduação, entre outros) que lhes dê reconhecimento, status pessoal e maior pontuação à instituição que o acolha. No caso das instituições públicas, o objeto servirá para uma maior pontuação de currículo dentro de um concurso público - com salários maiores, gratificações de estímulo à docência, segurança e estabilidade de emprego e salário garantido no final do mês – para professor titular , adjunto ou outra especificação que o valha. Quanto aos alunos, estes já chegam enraizados nesse sistema capitalista deformador de consciências. Já adentram à sala de aula envolvidos nesse processo consumidor do Eu pensador, estão muito preocupados também em possuir um objeto (o diploma) que eles foram levados a achar que tem valor por si só. Que o ‘simples’ fato de concluir um curso superior já os colocam no mercado de trabalho, e mais, que sem este objeto eles não se estabelecerão socialmente, muito menos conseguirão emprego. É nesta sociedade capitalista globalizada em que vivemos que nossas crianças estão crescendo, e se formando. Um futuro mais digno para elas requer uma promoção e renovação, não por substituição de um modelo de educação existente por outro dito melhor, mas sim pelo aprimoramento do modelo existente em prol da melhoria do ensino brasileiro, principalmente o universitário. Cabe, ainda, uma reformulação do sistema atual de controles burocráticos. Principalmente, se faz necessária uma permanente avaliação dos 18 conteúdos programáticos dos currículos dos cursos superiores, para que a educação superior possa enfrentar as rápidas transformações por que passa a sociedade brasileira. I.2 - A valorização do magistério Segundo o Plano Nacional de Educação – PNE, cujo objetivo central visa a melhoria da qualidade de ensino, esta só poderá ser alcançada com uma promoção, simultânea, da valorização do magistério. E para que isto ocorra, indica que deve haver uma política global de magistério com atenção voltada para a formação profissional inicial; as condições de trabalho, salário e carreira; e a formação continuada, tudo concomitantemente. O profissional de educação, no início de carreira, está cheio de planos e idéias. Contudo, ao se depararem com a realidade do dia-a-dia na sala de aula são, muitas vezes, tomados pelo desânimo. Ser professor é uma arte, se não a mais bela, a mais brilhante e emocionante. Mas ao longo dos anos, vem aumentando a pressão sobre a atividade do professor (sem contar as condições administrativas e financeiras adversas), quer pelo acréscimo de atribuições e responsabilidades a ele incutidas, quer pela expectativa de resultados dos alunos. As mudanças da vida cotidiana das pessoas, advindas em grande parte do progresso industrial e avanço das telecomunicações, tanto no lado familiar quanto no social em geral, são fatores determinantes dessa cobrança. No que diz respeito à família, houve uma transferência de responsabilidades para o professor-educador. Em função do progresso industrial e da mídia, ocorreu um aumento das necessidades de consumo, logo do custo de vida, o que determinou a entrada da mulher (mãe) no mercado de trabalho para possibilitar a sobrevivência da família neste novo contexto social. Conseqüência disto, a educação dos filhos foi, quase totalmente, repassada aos professores que deveriam suprir os anseios dos pais na formação sóciocultural dos filhos e as expectativas de conhecimento cultural e questionamentos sociais dos filhos. Com esta condição ocorrendo desde as 19 suas formações de base, estes alunos chegam ao nível superior com menos preparo pessoal do realmente necessitariam. O avanço das telecomunicações colaborou bastante para que chegássemos a um quadro de depreciação da profissão. A Internet, apesar de todas as suas qualidades, traz uma tendência ao individualismo, nela o aluno se sente auto-suficiente – “ - Professor para quê?” Já a televisão, e outros meios de comunicação, veiculam diariamente notícias e histórias mostrando as facilidades com que algumas pessoas obtiveram ‘sucesso financeiro’, mascarando, por vezes, a vida como ela realmente é para a maioria, que associada ao elevado nível de desemprego e às baixas remunerações levam o aluno a pensar: “- Estudar para quê?”. Não obstante, a própria estrutura do ensino no país estimula a depreciação do docente, através de suas reformas de ensino descontinuadas e altamente politizadas são, via de regra, genéricas e abstratas, priorizando metas quantitativas, onde o que importa são os índices sociais a serem exportados para a comunidade internacional e a assinatura do programa curricular que lhes deu origem. A maioria das reformas propostas e colocadas em prática caracteriza-se por enfatizar mudança nos meios, recorrendo a novos recursos da tecnologia educacional, e por condicionar os fins da educação às necessidades da produção e do desenvolvimento econômico do país. Nessa perspectiva, o professor aparece como um mero aplicador de regras, planos e normas concebidas por especialistas e, como tal, não é ouvido nem considerado no que diz respeito às mudanças possíveis no seu campo de atuação, além de muitas vezes ser considerado pelo fracasso da escola e do sistema. E, ainda, a maioria não se baseia (ou baseou) na centralização de decisões e descentralização das ações o que faz engessar escola e professor, principalmente se pensarmos nas grandes diferenças regionais dentro de nosso extenso país. As desigualdades regionais mostram-nos uma realidade ainda mais difícil, quando podemos verificar que a nossa situação, se não 20 estivermos nos grandes centros, poderia estar pior, com ainda menos respeito pelo profissional formador e orientador de tantos outros futuros profissionais. Diante dessas, e outras, circunstâncias, vemos que ano após ano muitos professores abandonam o magistério. Criar condições que mantenham esse entusiasmo, dedicação e confiança nos resultados de um trabalho pedagógico é de suma importância e necessidade, para que os professores vislumbrem perspectivas de crescimento profissional e continuidade no processo de formação, não só para a obtenção de títulos, mas porque querem e podem fazer ainda mais pelos alunos. É preciso encontrar um modo de revitalizar a experiência de educadores e educandos, que não seja pela busca desenfreada por títulos e pontos na escala dos órgãos de financiamento. A nova Lei de Diretrizes e Bases – LDB (Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996) referencia esta valorização em seu texto: “TÍTULO VI -Dos Profissionais da Educação Art. 67. Os sistemas de ensino promoverão a valorização dos profissionais da educação, assegurando-lhes, inclusive nos termos dos estatutos e dos planos de carreira do magistério público: I - ingresso exclusivamente por concurso público de provas e títulos; II - aperfeiçoamento profissional continuado, inclusive com licenciamento periódico remunerado para esse fim; III - piso salarial profissional; IV - progressão funcional baseada na titulação ou habilitação, e na avaliação do desempenho; V - período reservado a estudos, planejamento e avaliação, incluído na carga de trabalho; VI - condições adequadas de trabalho. Parágrafo único. A experiência docente é prérequisito para o exercício profissional de quaisquer outras 21 funções de magistério, nos termos das normas de cada sistema de ensino.” Como previsto pela lei, esta valorização profissional deve ser embasada por eficiente melhoria das instituições de ensino, quer no tangente aos espaços físicos, instrumentos e materiais pedagógicos e de apoio aos meios tecnológicos, quer no que diz respeito à formulação das propostas pedagógicas, à participação dos profissionais da educação na elaboração do projeto pedagógico e nos seus conselhos e, principalmente, quanto à formulação de planos de carreira e remuneração do magistério e demais profissionais a ela vinculados. Todos aqueles envolvidos no processo de educação no país devem buscar e primar pela “melhoria da qualidade do ensino, indispensável para assegurar à população brasileira o acesso pleno à cidadania e a inserção nas atividades produtivas que permita a elevação constante do nível de vida...” Um compromisso que, no entanto, “não poderá ser cumprido sem a valorização do magistério, uma vez que docentes exercem um papel decisivo no processo educacional.” (PNE) I.3 - O lugar do ser humano na educação tecnológica “Quando se procede de uma classe social abastada tem-se duas possibilidades: ou não olhar para nada ou participar de uma possível transformação da realidade” Walter Salles, diretor de Central do Brasil Transformar a realidade de nosso país, através de um processo eficaz de ensino-aprendizagem, para acompanhar o processo de mudança que marca o mundo atual, é papel importante da educação. Para reflexão, podemos perguntar: a educação hoje serve para o adestramento ou para dar ao formando uma correta visão do homem e do mundo? O ensino é um processo interativo e não uma simples instrução, condição mais próxima do ‘adestramento’. Esta interatividade torna inevitável 22 uma adaptação e correção constantes do papel do educador e do sistema educativo ao longo da evolução do educando e de toda a humanidade. Platão (ano V A.C.) dizia que os vícios nos métodos de ensino podem levar a uma falsa certeza ou a um saber falso, que é pior que a própria ignorância. Em outras palavras, aprender mal é pior do que não aprender. As falsas ‘verdades’ causam mal maior do que a ignorância. Pedro Poveda, sacerdote de Linhares – Espanha cuja existência orientou-se por um compromisso a favor da formação humana, principalmente dos mais pobres. Educador que fez de sua vida uma obra de fé no humanismo e na educação popular, sempre considerou que um dos aspectos mais importantes para o sucesso de uma metodologia de ensino é a simplicidade. Dizia ele: “Dê-me uma vocação e eu lhe darei uma escola, um método, uma pedagogia”. Para ele, mesmo carecendo de métodos adequados, de salas de aula confortáveis ou recursos didáticos necessários, o processo pedagógico não chega a estar comprometido se existir o fundamental: a vontade de ensinar e o gosto pela atividade docente. Afinal grandes educadores nunca precisaram mais do que discípulos. A humanidade vive um processo acelerado de modificações e rupturas, assim sendo, a educação, o conhecimento e a informação assumem papel significativo neste processo de transição. A educação permanente surge como uma proposta pedagógica estratégica que a insere na vida e dota os educandos com ferramentas intelectuais que permitirão a adaptação às incessantes transformações e às constantes solicitações do mercado de trabalho e à evolução dos conhecimentos, tudo em prol de uma melhoria da vida em sociedade e do meio ambiente em que vivem. O foco central do processo é a aprendizagem efetivamente adquirida pelo aluno e que se reflete no desenvolvimento do indivíduo, como cidadão, de modo que esses processos privilegiem a aquisição de conhecimentos úteis, da capacidade de raciocínio, de aptidões e de valores. O desafio das novas situações e as exigências de adaptação, de participação e de responsabilidade estimulam o homem a preparar-se física, 23 intelectual e afetivamente para lidar com essas exigências. Como resposta aos desafios da globalização, torna-se necessário qualificar profissionais para o mercado, contudo deve ser acrescentado a essa qualificação um componente de solidariedade como uma exigência ética. Deve-se ter um visão plena da educação, que possibilite a realização da pessoa, para que, na sua totalidade, aprenda a ser. A Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI, segundo seu coordenador Jacques Delors, vê a educação ao longo de toda a vida de uma forma mais completa, dizendo que ela se sustenta em quatro pilares: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver juntos e aprender a ser. Como as tecnologias são complexas e práticas ao mesmo tempo, elas vêm exigindo uma nova formação do homem que remeta à reflexão e compreensão do meio social em que ele se situa. A LDB traz referências explícitas e implícitas sobre tecnologia, mostrando a necessidade de revisão da educação superior, uma vez que ela vem sendo desafiada por novas oportunidades tecnológicas e sociais. O que se pretende é chamar a atenção para o fato de que não são tão isoladas as áreas de educação, tecnologia ou das relações sociais. Pontos significativos, como a ética, precisam ser pensados na sociedade contemporânea em virtude dos avanços científico-tecnológicos que vivemos. Não se trata apenas do conhecimento, mas do resultado desses conhecimentos na vida de todos. Assim, podemos assumir que a educação tecnológica serve para formar o indivíduo, na qualidade de pessoa humana, mais crítico e consciente para ter a possibilidade de construir novas tecnologias, fazer uso da crítica e da reflexão sobre sua utilização de forma mais precisa e humana e, convivendo com o outro e participando da sociedade em que vive, ter condições de transformar essa sociedade em termos mais justos e humanos. Etimologicamente, educação provém dos vocábulos latinos – educare e educere -, tendo o primeiro o significado de orientar, nutrir, decidir num sentido externo, levando o indivíduo de um ponto em que se encontra para outro que 24 se deseja alcançar; refere-se a promoção do surgimento de dentro para fora das potencialidades que o indivíduo possui. A questão do educere, se volta mais para o indivíduo no seu aspecto múltiplo de formação. Na nossa sociedade, em quase todas as instituições ouvimos falar de ‘crise’, advinda da situação que estamos vivenciando, em virtude de novos valores e princípios que vão sendo estabelecidos. Poderíamos entender a crise como um período de transição, em todas as áreas, na busca de novos modelos paradigmáticos. A educação vive também sua crise, seja ela caracterizada pelos objetivos e finalidades de suas propostas, seja pelos seus procedimentos ou metodologias a serem seguidos. Com que modelo ela está comprometida? Dominar técnicas modernas? Fazer com que o aluno saiba utilizar o computador? Adequar o aluno às normas vigentes no campo político-social? Formar o cidadão? Preparar a escola para competir com a televisão e internet? Enfim, qual o modelo de educação que existe nos dias atuais? Estamos em plena transição de modelos. Na verdade, falta um certo entrosamento entre os conhecimentos tecnológicos adquiridos em sala de aula e a interferência nas relações pessoais e sociais, que a aplicação prática dos mesmos pode causar. A prática existente do Eu-Isso nos leva a um produto de processo pedagógico comprometido apenas com a atual lógica do mercado, da técnica pela técnica, sem meditação e sem compromisso com valores em prol da felicidade humana. Em face dessas novas mudanças que vêm ocorrendo em todas as áreas, há que se estabelecer novos paradigmas para a compreensão e interpretação dos fatos. Torna-se urgente pensar uma forma de conciliar os conhecimentos que estão emergindo com uma filosofia de educação. A dimensão interdisciplinar – em termos de unir educação e tecnologia – deve ter como objetivo não dividir os saberes nem hierarquizá-los, mas sim trabalhá-los como um todo capaz de integrar conhecimento, razão e emoção, em benefício do desenvolvimento pessoal e social do homem. Isso implica mudanças nas propostas pedagógicas e organizacionais do ensino superior, na formação inicial e continuada dos professores e na práxis pedagógica. 25 Estudos recentes das tendências contemporâneas da educação brasileira têm nos indicado a Pedagogia histórico-crítica como um dos modelos que melhor correspondem às nossas necessidades e interesses e que, também, possibilitam a formação mais crítica e adequada de nossos educandos. Cabe aqui apenas enfatizar que há necessidade de integração dos aspectos cognitivos com os afetivos e emocionais, pois ainda prevalecem os aspectos cognitivos sobre os outros nesse modelo. Não podemos pensar e fazer educação desvinculada do processo de produção e das relações sociais, ou ainda, sem uma estreita relação com o projeto de sociedade. Assim é que a educação precisa estar voltada para a realidade, mais exatamente para transformá-la, para melhor. Cabe à educação o papel de respeitar a cultura de seu povo, de sua gente e de sua história, trabalhando com os dois lados desta história: o conhecido e o novo. Em tudo isso que foi dito, a essência do aprendizado tem que ver com o professor, aquele que administra, que testemunha, enriquece e dá vida a uma série de processos que levam o aluno a aprender; a ele deve-se pedir a ‘mágica’ de orientar o aluno para sua formação pessoal e profissional em duas óticas: disciplina e curiosidade. O professor deve, entre outras coisas, saber mostrar ao aluno a beleza e o poder de pensar. Essa é a maneira de ver a educação hoje, neste contexto de um mundo globalizado e portanto materialista, onde o homem se torna um indivíduo coisificado por não saber pensar. É assim que este movimento, que nos leva a refletir sobre a qualidade e o perfil dos profissionais formados pelas instituições de ensino superior, como e para que eles são formados, remete-nos aos professores, que como docentes são pressionados a formar com rapidez, no menor tempo possível e com a melhor e mais atualizada preparação. É papel dos professores de ensino superior ter responsabilidade social em sala de aula, ou fora dela , como educadores e formadores dos indivíduos que são, para melhor preparar seus alunos para sua atuação na vida profissional e social. 26 CAPÍTULO II O PROFESSOR E O EDUCADOR “Nada pode pela felicidade de outrem, aquele que não sabe ser feliz ele próprio” Georges Synders 27 O PROFESSOR E O EDUCADOR Para Rubem Alves, “o professor trabalha sem interesse e sem prazer, apenas para obter um salário e usufruir dele”. A realidade da grande maioria dos docentes de nossas escolas. A preocupação com a questão do salário, se vai ou não suprir suas necessidades, se sobrepõe ao compromisso e responsabilidades com a pessoa do aluno. Professor é uma profissão. Na abordagem Zen, Osho (1999) faz-se clara a diferenciação entre professor e ‘mestre’: o professor é aquele que ensina, é uma pessoa estudada, erudita – conhece os escritos, porém pode ainda não se ter conhecido. Ele pode dar instrução, informação, mas não pode trazer uma transformação ao educando. Seu trabalho é direto. Já o ‘mestre’ traz a transformação do seu discípulo, para que ele próprio descubra a própria luz. O trabalho dele é indireto, pois funciona como um agente catalisador – sua presença ajuda, facilita, orienta. Sua atuação é tal como o sol da manhã, que simplesmente cria um clima magnífico para que as flores se abram e os pássaros cantem. Portanto a iluminação do discípulo não é trabalho direto do ‘mestre’, ela acontece através dele, da sua graça, orientação, pois ele cria um campo de energia que favorece seu acontecimento. Difícil é o detalhamento do atributos do conceito de profissão. Na língua portuguesa, adquiriu um sentido amplo de ‘ocupação’ ou ‘emprego’. Já para os anglo-saxões, o termo é empregado para designar profissões liberais como médico, advogado ou engenheiro. Sendo assim, os atributos dessas profissões liberais foram transformados em requisitos para todas as atividades profissionais que visem constituir uma profissão. Sendo esses: o saber especializado – ligado às práticas específicas que o profissional precisa dominar, e que foram adquiridas através de uma formação estruturada; a orientação de serviço – não exerce sua atividade por motivos altruísticos, pauta-se em interesses particulares; código deontológico – que regula o conjunto de deveres, obrigações, práticas e responsabilidades, decorrentes do 28 exercício da profissão; e, associação profissional – cujo objetivo central é o de manter e velar pela ocupação e seus padrões pré estabelecidos. Mas, como todas as profissões, a de professor possui algumas especificidades, a saber: as acadêmicas – dos saberes e saberes-fazer; e as pedagógicas – metodologias e técnicas utilizadas no exercício de suas atividades. No ensino superior, as qualificações pedagógicas são desprezadas, na grande maioria dos casos. Quanto ao educador, este mesmo autor o define como aquele que abraça a causa da educação com vontade e tem paixão pelo que faz. O educador é vocação, que nasce de um grande amor, de uma grande esperança. Sua questão maior está na motivação de seus alunos, na construção constante de novos saberes. Contagia os alunos com esperança e com a possibilidade da transformação de tudo em algo melhor. O educador, com sua ‘estória’ pessoal, uma identidade especial acentuada por suas experiências de vida, ‘embebedam’ de prazer e curiosidade seus alunos. Para ele, cada aluno é uma figura importante neste cenário, possui nome e estória. Ele se relaciona com o grupo e com cada um, ao mesmo tempo. A emoção é uma constante em suas atividades, de vida e de ensino. Com ele tudo fica mais colorido, belo e possível. Comparando as características de um e outro, professor e educador, nestes moldes, vemos que o primeiro foi engolido pelo ‘sistema’, tornou-se um mero funcionário, sujeito a medição de produtividade e controle, sendo gerenciado e administrado conforme sua excelência funcional, que é julgada de acordo com os interesses institucionais. Educação, para esses professores, significa submeter os alunos a um adestramento e a uma renúncia dos seus conhecimentos prévios – eles devem dominar o ambiente da sala de aula com seu saber, poder e autoridade. Já os educadores, que possuem uma identidade própria, e ímpar, consideram que a interioridade de cada aluno faz muita diferença, pois definem sua paixão, visão futurista, esperança e soluções, por mais utópicas que sejam. E, por seus métodos sempre 29 inovadores, diferenciados, alegres e livres, eles se evidenciam como péssimos funcionários e acabam por perder espaço nas instituições de ensino, tornandose cada vez mais ausentes. Assim sendo, nossos professores – gerenciados – têm suas atividades (seja em sala de aula, na pesquisa etc.) passíveis de mensuração e avaliação, mas seu ensino fica difícil de ser avaliado. E, se em um país onde não se consegue avaliar a educação, não há como pensar em educadores nesse processo, conforme disse Rubem Alves (2000, p.23): “com seus conceitos utópicos e existência prática proibida e, por isso mesmo, existência teórica impossível”. Em suma, apesar da ausência dos educadores no contexto educacional de hoje, o lugar deles estará garantido onde houver um aluno pronto a sair do lugar comum do ensino atual para entrar numa esfera superior , onde não há espaço para a mesmice e a criatividade gera um ambiente alegre e descontraído, cheio de amor e emoção. II.1 - Principais paradigmas na formação docente “Paradigma de Formação Docente: matriz de crenças e princípios acerca da natureza e objetivos da escola e da sua formação, que origina formas específicas de formação de professores. Os programas de formação que se integram num dado paradigma, são suportados por um conjunto de pressupostos comuns que diferenciam os objetivos prosseguidos em função de cada paradigma.” Carlos Fontes “Para que formar professores?” é uma questão que deve ser alvo de reflexão quando se pretende a construção de uma proposta de formação docente. No mínimo, por respeito à natureza da sua função formadora, posto que cabe a eles criar condições para que os educandos possam conquistar autonomia, desenvolver a inteligência, a afetividade, o julgamento moral e a responsabilidade social. 30 No pensamento de Kenneth M. Zeichner, todo programa de formação é assentado numa dada postura ideológica. E que nenhum dos paradigmas surgiram de forma isolada, pelo contrário, o que tem predominado são os paradigmas híbridos. Ele distingui quatro paradigmas principais: Paradigma Comportamentalista. Concepção de formação assentada numa epistemologia positivista e na psicologia comportamentalista, valorizando a dimensão tecnicista do ensino. O formação é baseada na aquisição de um conjunto de técnicas pelo professor, para aplicá-las no processo de ensinoaprendizagem dos alunos. O sucesso do professor é medido pelo domínio destas técnicas. Neste paradigma, está subentendida a idéia da educação como uma ciência a ser aplicada. O professor entra como um simples executor de leis e princípios do ensino eficaz que foram concebidos e experimentados por especialistas. Formação centrada nas técnicas de ensino. Paradigma Personalista. Concepção fundamentada numa epistemologia fenomenológica, na psicologia perceptiva e desenvolvimentista, mas também em princípios humanistas. Com programas de formação feitos à medida das necessidades e preocupações dos professores, centrando-se na formação do "eu" de cada professor. Os professores mais competentes e maduros são referências, por serem julgados naturalmente mais eficazes. Ao contrário do anterior, os conhecimentos e as competências dos futuros professores não estão definidos à priori, embora haja uma preocupação com a reorganização das percepções e convicções dos futuros professores. Ignora o professor no processo formativo. Paradigma Tradicional-Artesanal. Neste, o ensino é visto como uma arte e os professores como artífices. A formação dos professores é encarada como um processo de aprendizagem construído por tentativas e erros, que todavia pode ser facilitada com a ajuda e a sabedoria dos seus praticantes mais experientes. Trata-se do clássico modelo de mestre-aprendiz. Os futuros professores também, como nos paradigmas anteriores, são vistos 31 como meros receptores passivos, não participando da determinação dos conteúdos e orientação dos programas de formação. Paradigma do professor reflexivo. Este baseia-se no pressuposto que não há receitas antecipadas válidas para qualquer situação. Cada professor e contexto educativo é único e irrepetível. Neste, a formação de professores, ao contrário de fornecer receitas, deve preparar os professores para desenvolverem capacidades de analisarem os efeitos do que fazem junto dos alunos, escolas e sociedade. Usa como pressuposto a idéia de que quanto maior for a consciência de um professor sobre as origens e conseqüências das suas ações e das realidades que as constrangem, maior é a probabilidade de o professor poder controlar e modificar quer as ações quer os constrangimentos. Tem como tarefa fundamental desenvolver as capacidades dos futuros professores para a ação reflexiva, o "espírito crítico" sobre a sua prática e o contexto social e educativo vigente. No processo de formação docente, é primordial a aquisição da identidade de professor. Todo indivíduo busca sua identificação social através de sua relação dialética com a sociedade. Sem o referencial do outro, ele não se reconhece, e não se reconhecendo, não se identifica. Em outras palavras, se ao ‘olhar’ para a sociedade (espelho) não recebe de volta a imagem que projetou, parte em sua busca. Se o que percebe são reflexos confusos, desnorteia-se e perde-se. É nessa busca de identificação que devem estar pautadas as buscas de formações e atualizações pelos professores. A progressão dos modelos de organização da formação, ao longo dos anos, vêm propiciando cada vez mais esta busca. A Formação Integrada e a Seqüencial. A primeira integra componentes científicos e pedagógicos. Existem muitas modalidades deste modelo. A formação seqüencial é uma variante da primeira. Nesta, a formação científica surge separada da formação pedagógica, embora esta seja dada na sua seqüência. 32 A Formação Dual. A formação científica e a formação pedagógica são encaradas como duas formações distintas, podendo ocorrer em momentos bem desfasados. A Formação em Exercício e em Serviço. Destinada a professores em exercício, a formação pedagógica é feita nas próprias escolas, possibilitando uma articulação entre a teoria e a prática. A formação em serviço deriva-se da formação em exercício. Neste caso, a formação é realizada numa instituição superior. Este modelo substituiu o anterior em 1988. No processo de formação pedagógica, um profissional de educação poderá exercer postos de docência, coordenação, direção, pesquisador etc., conforme o enfoque do curso formador. Direcionando o olhar para os pesquisadores e os professores, vemos uma diferença básica entre eles que reflete diretamente sobre sua prática. O professor sempre está se deparando com obstáculos, ao contrário do pesquisador. Isto porque o professor tem um ‘contrato didático’ com a turma, que deve ser respeitado, e o investigador não, sendo assim, pode agir mais livremente. Nóvoa (1995) dirige-se ao foco da questão sobre formação, no que diz respeito a formar e formar-se. “ Há uma diferença fundamental entre formar e formarse. Até hoje os professores têm sido formados por grupos profissionais diversos, sem que as suas próprias práticas de debates e de troca de experiências tenham alguma vez sido valorizadas. É tempo de os professores pensarem em formar-se, assinalando-se as dimensões pessoais (o eu indivíduo) e as dimensões profissionais (o eu coletivo) nas quais este processo deve alicerçar-se”. Falamos sobre a formação de professores, profissionais da educação, mas onde se encontra o educador, citado anteriormente, neste processo? Não há como falar de ‘formação do educador’, pois ele, para alguns, é apenas ilusão, utopia; para as instituições ele é ‘persona non grata’, que foge totalmente ao padrão que elas pregam de um ‘bom professor’; mas para alguns ‘eleitos’ , ele está apenas adormecido. 33 Não há pois o que formar ou gerenciar, ele está apenas a espera de ser acordado. “E, para acordá-lo, uma experiência de amor é necessária” (Alves, 2000, p.27). O mesmo autor questiona porque razão não nos entregamos às paixões, tão doces e irracionais, já que são “o segredo do sentido da vida” (Ibidem, mesma página). O educador: fonte viva de paixão, amor e sonhos, aquele que ousa falar e escrever, e acredita que ele faz a diferença; que além dos valores éticos possui coragem, pois a sua atuação envolve a formação de sujeitos ávidos de atuarem na sociedade; e sempre se expõe ao abrir seu coração e se entregar ao ato de educar, ele já está formado por natureza e é o que podemos chamar de ‘belo adormecido’ da educação. II.2 - As competências na docência A noção de competência não é algo novo. Atualmente seu uso está cada vez mais difundido nos discursos educacionais, e merece reflexão. Entretanto, deixemos de lado as origens dessa noção, partamos para algumas definições mais pertinentes. No dicionário AURÉLIO, competência é: (1) “Faculdade concedida por lei a um funcionário, juiz ou tribunal para apreciar e julgar certos pleitos ou questões. (2) Qualidade de quem é capaz de apreciar e resolver certo assunto, fazer determinada coisa; capacidade, habilidade, aptidão, idoneidade”. Ao transferir a definição apresentada no Aurélio para o campo da docência, podemos dizer que competência docente é a qualidade de apreciar e resolver os assuntos da função docente. Falta-nos apenas definir o que é ‘função docente’. PERRENOUD (1993) vem tratando, nos dias atuais, a competência pedagógica aliada a uma nova abordagem das práticas pedagógicas de formação de professores e da profissão docente. Seus trabalhos permitem a apropriação de novos enfoques sobre desigualdades sociais presentes nas práticas. Dentre outros, são importantes seus argumentos sobre: a formação do professor, 34 tendo por base uma imagem explícita e realista da profissão; desenvolvimento pessoal e autodomínio; diferenças e mudanças e a complexidade da formação. NÓVOA (1992), nos seus estudos, trata de formação e de profissão docente, e mostra que, historicamente, a formação não pode separar o eu pessoal do eu profissional, uma vez que esta profissão é impregnada de ideais, afetividade e valores e muito exigente quanto à persistência e ao relacionamento humano. ZEICHNER (1993) investiga a relação entre a teoria e a prática docente e a questão do professor reflexivo. Apoiando-se nas contribuições de SCHÖN, ao enfrentar as complicadas situações da sala de aula, ZEICHNER avança, ao considerar que a reflexão do professor sobre a sua prática deve ultrapassar os limites da sala de aula, da disciplina e da escola e levar em conta o contexto sócio-econômico, político e cultural, do professor e do aluno. Ao estimular o professor a alcançar o contexto e as condições sociais, políticas e econômicas que influenciam suas concepções e ação, ZEICHNER aponta para a reconstrução das suas ações. Agora, vejamos o que diz a Lei nº 9.394, a respeito da formação dos profissionais de educação. “TÍTULO VI Dos Profissionais da Educação Art. 61. A formação de profissionais da educação, de modo a atender aos objetivos dos diferentes níveis e modalidades de ensino e às características de cada fase do desenvolvimento do educando, terá como fundamentos: I - a associação entre teorias e práticas, inclusive mediante a capacitação em serviço; II - aproveitamento da formação e experiências anteriores em instituições de ensino e outras atividades.” A partir das definições de competência, direcionadas para a docência, e levando-se em consideração o que exige a lei quanto a formação dos profissionais de educação, podemos traçar uma linha de raciocínio sobre o assunto. 35 Vivemos nos últimos tempos sob o impacto de alterações e rupturas de paradigmas científicos, éticos e culturais, produzidos ao longo da chamada modernidade, trazendo as crises de identidade. A aplicabilidade prática dos ensinamentos adquiridos pelos professores, nos cursos de formação básica e continuada, torna-se alvo de análises por parte de investigadores. Evidencia-se a dificuldade de associação entre teoria e prática, o que impulsiona a uma ação ditada pelos vícios da repetição do hábitus. Os docentes ativos, incentivados à luta concorrencial por recursos de pesquisa, são levados a privilegiar o individualismo de suas investigações, retirando-se da sala de aula, dedicando tempo reduzido ao esforço formador dos profissionais da nova geração. Já a formação profissional e pessoal dos alunos no ensino superior fica problematizada em virtude das seguintes situações: a primeira, está centrada na indecisão do jovem em relação à carreira que deseja seguir, muitas vezes a escolha vocacional acontece muito cedo e o mercado torna-se restrito diante da globalização da economia e de seus reflexos no mundo em desenvolvimento; a segunda, é o advento do “novo” em relação à formação pessoal do aluno, onde questões como a aquisição do domínio da linguagem acadêmica, a incorporação de atitudes e valores próprios da carreira escolhida, o conhecimento dos espaços físicos, a mudança de grupo social com formação de novas amizades, são significativas para a construção do seu conhecimento e formação de novos conceitos; e a terceira diz respeito à hegemonia da universidade, questionam se a universidade ainda possui a exclusividade dos conhecimentos que ensina e que produz ou se as empresas não seriam mais ágeis e capazes para formar os profissionais de que precisam. A compreensão, por parte dos professores, da emoção inerente à introdução da novidade na vida dos alunos, permite abreviar por meio de 36 comunicação adequada, o tempo de adaptação e a maneira pela qual ela se dá. Assim, o docente possibilitará condições ao aluno de adquirir autonomia, criatividade e curiosidade de espírito e no ensino, definindo suas aptidões para a área escolhida. A forte relação estabelecida entre o professor e o aluno constitui o cerne do processo pedagógico, é a fonte de energia necessária para as trocas de conhecimentos inerentes ao processo educativo. O trabalho docente deve estar centrado na apresentação dos conhecimentos sob a forma de problemas a resolver, situando-os num contexto e numa perspectiva que possibilitasse ao aluno a sua solução e o estabelecimento de relações com outros conhecimentos e situações mais abrangentes. A relação pedagógica estabelecida nesse processo permite o pleno desenvolvimento da personalidade do aluno, o respeito à sua autonomia e, neste ponto de vista, a autoridade de que os professores estão revestidos não se baseia numa afirmação de poder, mas no livre reconhecimento da legitimidade do saber. Vem se discutindo, com mais intensidade, a questão da formação de professores, tomando-a como base em questões, como, o problema da defasagem entre a preparação oferecida pelas escolas de formação de professores e a realidade da atividade prática futura. É criticada a inadequação dos cursos na preparação de profissionais competentes para o exercício de suas atividades. Mas, poucas são as reflexões que buscam constatar quais deveriam ser os conhecimentos apreendidos, as atividades e comportamentos a serem adquiridos e as necessidades concretas da clientela a que a escola deveria, competentemente, responder. No atual paradigma de formação de professores – o reflexivo, a competência é considerada como a capacidade de agir eficazmente, em um determinado tipo de situação, apoiada no conhecimento, mas sem limitar-se a ele. Nesse sentido, para se adquirir competência, toma-se como base a combinação entre o conhecimento construído e armazenado e o conhecimento prático reflexivo, criando condições para que os educandos desenvolvam suas capacidades, o que envolve a ação-reflexão-ação sobre a prática. 37 Sobre essas competências, serão comentadas as opiniões de dois autores importantes. MASETTO (1998) identifica as seguintes competências específicas: 1. “A docência em nível de ensino superior exige do candidato, antes de qualquer coisa, que ele seja competente em uma determinada área do conhecimento”. (A referida competência constitui o domínio do conhecimento básico de uma determinada área, além de uma experiência profissional. O conhecimento e prática profissional adquiridos deverão ser constantemente atualizados). 2. “A docência no nível superior exige do professor domínio na área pedagógica”. (O domínio na área pedagógica constitui o ponto mais carente dos professores de nível universitário, ou porque não tiveram oportunidade de entrar em contato com essa área, ou porque a vêem como algo supérfluo ou desnecessário para a atuação na docência). Segundo MASETTO (1998), não podemos falar de profissionais de educação que não dominem, pelo menos, quatro grandes eixos: O conceito de processo ensino-aprendizagem; O professor como conceptor e gestor do currículo; A compreensão da relação professor / aluno e aluno / aluno; A teoria e a prática básica da tecnologia educacional. 3. “O exercício da dimensão política é imprescindível no exercício da docência universitária”. (O professor, para desempenhar a atividade docente, na qualidade de cidadão, deve ter uma visão de homem, de mundo, de sociedade, de cultura, de educação e de política e deve ser alguém comprometido com o seu tempo, sua civilização e sua comunidade). Para PERRENOUD (1999), a noção de competência designa a capacidade de mobilizar diversos recursos cognitivos para enfrentar um tipo de situação. Essa definição insiste em quatro aspectos: 38 1. As competências não são saberes, ou atitudes, mas mobilizam, integram e orquestram tais recursos; 2. Essa mobilização só é pertinente em situação singular, mesmo que se possa tratá-la em analogias com outras situações, já encontradas; 3. O exercício da competência passa por operações mentais complexas, subentendidas por esquemas de pensamento que permitem determinar (mais ou menos consciente e rapidamente) e realizar, de modo mais ou menos eficaz, uma ação relativamente adaptada à situação; 4. As competências profissionais constroem-se, em formação, mas, também, ao sabor da navegação diária de um professor, de uma situação de trabalho à outra. Ainda segundo esse mesmo autor, a competência é entendida como um processo de construção e reconstrução contínuo e permanente, realimentado continuamente pela diversidade das práticas. Sua abordagem por competências convida os professores a refletirem nas suas práticas, a partir das seguintes referências: 1. Considerar os conhecimentos como recursos mobilizados (constitui recurso para identificar e resolver problemas, para preparar e para tomar decisões. Só vale quando disponível no momento certo e quando consegue “entrar em sintonia” com a situação); 2. Trabalhar regularmente por problemas ( um estudante será levado a construir competências de alto nível somente confrontando-se, regular e intensamente, com problemas numerosos, complexos e realistas, que mobilizem diversos tipos de recursos cognitivos); 3. Criar meios de ensino (situações interessantes e pertinentes, que levem em conta a idade e o nível dos alunos, o tempo disponível, as competências a serem desenvolvidas); 39 4. Negociar e conduzir projetos com seus alunos (a negociação é uma forma não só de respeito para com os alunos, mas, também, um desvio necessário para implicar o maior número possível de alunos em processos de projeto ou solução de problemas, para isso o professor deve saber ouvir as sugestões e as críticas dos alunos, lidando corretamente com as situações); 5. Adotar um planejamento flexível e indicativo e improvisar (tudo dependerá do nível e do envolvimento dos alunos, dos projetos implementados, da dinâmica do grupo na aula); 6. Implementar e explicar um novo contrato didático (o papel do aluno é envolver-se, participar de um esforço coletivo para elaborar um projeto e construir, na mesma ocasião, novas competências); 7. Praticar uma avaliação formadora em situação de trabalho (a avaliação formativa integra-se quase que “naturalmente” à gestão das situaçõesproblema); e 8. Dirigir-se para uma menor compartimentação disciplinar (uma ou mais ancoragens disciplinares e uma forte reflexão epistemológica são necessárias para conduzir projetos de ação sem desviar-se do projeto de formação que dá sentido ao curso). O referencial em que PERRENOUD se inspirou tenta, pois, apreender o movimento da profissão, insistindo em dez grandes famílias de competências. Contudo, devemos admitir que nenhum referencial pode garantir uma representação consensual, completa e estável de um ofício ou das competências que ele operacionaliza. A seguir serão apresentadas, de maneira sucinta, as dez famílias do seu livro ‘10 Novas Competências para Ensinar’. 1. Organizar e dirigir situações de aprendizagem. É despender energia e tempo e dispor das competências profissionais necessárias para imaginar e criar outros tipos de situações de aprendizagem, que as didáticas contemporâneas encaram como situações amplas, abertas, carregadas de sentido e de 40 regulação, as quais requerem um método de pesquisa, de identificação e de resolução de problemas. 2. Administrar a progressão das aprendizagens. Significa um processo estratégico concebido em uma perspectiva de longo prazo, cada ação sendo decidida em função da sua contribuição almejada à progressão ótima das aprendizagens de cada um. 3. Conceber e fazer evoluir os dispositivos de diferenciação. Diferenciar o ensino significa organizar diferentemente o trabalho em aula, aplicando em uma escala maior os reagrupamentos, as interações, as regulações, o ensino mútuo e as tecnologias da formação. 4. Envolver os alunos em suas aprendizagens e em seu trabalho. Cada professor espera alunos que se envolvam no trabalho, que manifestem desejo de saber e vontade de aprender. A motivação ainda é tida, com demasiada freqüência, como uma preliminar, cuja força não depende só do professor, mas, de condições necessárias de ordem didática, epistemológica e relacional. 5. Trabalhar em equipe. É uma questão de competência e pressupõe, igualmente, a convicção de que a cooperação é um valor profissional. Mas, saber trabalhar em equipe é também, paradoxalmente, saber não trabalhar em equipe quando não valer a pena. A cooperação é um meio que deve apresentar mais vantagens do que inconvenientes. 6. Participar da administração da escola. Os professores não são os únicos atores da educação chamados a construir novas competências. O pessoal administrativo também deve aprender a delegar, pedir contas, conduzir, suscitar, caucionar ou negociar projetos, fazer e interpretar balanços, incitar sem impor, dirigir sem privar. 7. Informar e envolver os pais. No cotidiano escolar, são os professores que encarnam o poder da escola, opinando sobre o caráter restritivo de seus horários, de suas disciplinas, dos “ deveres” que ela atribui, das normas de excelência, da avaliação e da seleção que decorrem disso. Onde as coisas dão 41 certo, observa-se, em geral, uma grande capacidade de cada parceiro em considerar o ponto de vista e as expectativas do outro. Informar e envolver os pais é, portanto, uma palavra de ordem e, ao mesmo tempo, uma competência. Esta competência está mais voltada para os primeiros níveis de ensino. 8. Utilizar novas tecnologias. A escola não pode ignorar o que se passa no mundo. As novas tecnologias da informação e da comunicação transformam espetacularmente não só nossas maneiras de comunicar, mas também de trabalhar, de decidir, de pensar. Seu uso, porém, não deve ser colocado como no centro da evolução da profissão de professor, particularmente na escola de ensino fundamental. 9. Enfrentar os deveres e os dilemas éticos da profissão. Falar da educação para a cidadania implica não se limitar a boas intenções, mas, criar-se situações que facilitem verdadeiras aprendizagens, tomadas de consciência, construção de valores e de uma identidade moral e cívica. 10. Administrar sua própria formação contínua. Esta competência condiciona a atualização e o desenvolvimento de todas as outras. A formação contínua demanda uma renovação, um desenvolvimento de competências adquiridas na formação inicial e, às vezes, a construção, se não de competências inteiramente novas, pelo menos de competências que se tornam necessárias na maior parte das Instituições. Efetuando uma análise final, considerando-se tudo que foi relatado anteriormente, podemos chegar a compreensão de que apesar de tudo e todos, um bom profissional de ensino , além de dominar o conteúdo da sua disciplina e ter clareza de seus objetivos, deverá estar em dia com os assuntos gerais, da atualidade, trazendo a discussão para dentro da sala de aula de uma forma clara e livre. Assim estará não só construindo o conhecimento, mas aplicando-o nas questões da vida, valorizando a visão crítica e o pensamento, contribuindo para a formação do caráter, da ética, acentuando a visão da vida em sociedade, onde o direito de um termina quando começa o do outro. Tudo 42 isto associado a uma postura ética e moral, não necessariamente perfeita pois o professor não é um Deus e sim humano como qualquer pessoa, mostrando que aquilo que fala é coerente com o que faz. As técnicas pedagógicas devem ser adequadas ao grupo e às necessidades da disciplina, com uma metodologia atual, iterativa e prática. A visão do grupo como um todo propicia a iteração entre eles, facilitando a relação aluno-aluno, que associada a acessibilidade e tolerância do professor, com sua linguagem compatível de bom comunicador, e respeito pelo conhecimento que o aluno traz, produz uma bela relação professor-aluno. Todos sob a direção do educador, que deve estar motivado e feliz, passar paixão pelo que ensina e faz, contagiando os alunos com sua energia positiva e alegria, fornecendo não a motivação, que é pessoal, mas incentivação, expectativa, curiosidade, interesse em conhecer mais e mais sobre o assunto e esperança, pois nada está concluído e podemos sim alterar a nossa realidade. O (re) conhecimento da realidade social, do meio cultural, dos alunos associado às suas próprias experiências de vida, são essenciais. Dessa forma sua autoridade em sala será definida, na base do respeito pelo conhecimento, experiência, afinidades e posicionamento pessoal diante do grupo. O saber improvisar e adaptar-se às novas situações é inerente à sua função docente. A busca de novos procedimentos, a partir de um conhecimento sobre as necessidades e demandas do grupo, faz parte do ato reflexivo sobre sua própria atuação. Ele deve estar em evolução contínua com relação à sua atuação em sala de aula e à sua formação, que deve ser continuada. II.3 - O perfil de um novo educador Como uma primeira consideração, surge como preocupação a reflexão acerca dos paradigmas que permeiam a utilização de novos meios didáticos na educação, já que a diferença didática não está no uso ou não das novas 43 tecnologias, mas na compreensão das suas possibilidades. Mais ainda, na compreensão da lógica que permeia a movimentação entre os saberes no atual estágio da sociedade tecnológica. As possibilidades de configuração do profissional da educação pela interação virtual, num processo de interlocução de saberes coletivos que se formam e transformam pela navegação nas ‘infomarés’ da informação, deve ser uma perspectiva abordada. Uma formação que não pode acontecer pela adição da educação com as novas tecnologias, uma formação que esteja embasada e refletida pela teoria e prática do educador. A excessiva individualidade, característica marcante do profissional da educação que tem dificuldades em socializar os materiais e textos que produz, são postos em cheque pela ética da rede. Quando disponibiliza informações elas já não são somente suas, fazem parte do mundo virtual. Essa predisposição à socialização dos conhecimentos e produções que podem ser vivenciadas na rede pode criar uma cultura nova entre os docentes: a ‘entreajuda’ e a ‘fraternura’. A essência está nas possibilidades de interação que permite e nas novas formas de partilhar que pode influenciar. O educador precisa buscar a superação do individualismo pedagógico, no qual ele busca soluções isoladamente para resolver as questões do processo ensino-aprendizagem. Uma mudança de percepção do mundo e do funcionamento cognitivo, implica em preparo do educador, em acesso aos conhecimentos de sua área, das concepções de aprendizagem e da utilização dos meios tecnológicos. Um profissional capaz de mediar a interação aluno-computador ganha cada vez mais espaço nos meios acadêmicos. A causa disso é que sem esse profissional, devidamente capacitado, o potencial, tanto do aluno quanto do computador, certamente será subtilizado. Na sua intervenção, o que deve ocorrer é a percepção da disciplina sendo desenvolvida, trabalhada através da informática como meio e não como um fim. 44 Continuando a discorrer sobre o tema, o novo educador deve estar ciente que sua responsabilidade social como docente – orientador de consciências, só começa a ter sentido e efetivamente pode se expressar quando ele abre um canal de diálogo com o grupo e se inclui na atitude Eu-Tu, no seu projeto pedagógico pessoal. O educador deve estar consciente de que nada está acabado, tudo evolui no tempo. E, pensando assim, deve tomar consciência da sua própria inconclusão. Essa atitude facilita sua visão do educando, de forma mais humana e pessoal. Ele deve ensinar a pensar certo, para isto deverá pensar certo também, devendo então ter dúvidas, questionar e nunca estar demasiadamente certo de suas certezas, pois ele deve assumir não ser o único possuidor da verdade. “Nenhuma formação docente verdadeira pode fazerse alheada, de um lado, do exercício da criticidade que implica a promoção da curiosidade epistemológica, e do outro, sem o reconhecimento do valor das emoções, da sensibilidade, da afetividade, da intuição ou advinhação. Conhecer não é, de fato, adivinhar, mas tem algo a ver, de vez em quando, com adivinhar, com intuir. O importante, não resta dúvida, é não pararmos satisfeitos ao nível das instituições, mas submetê-las à análise metodicamente rigorosa de nossa curiosidade epistemológica”. (FREIRE, 1996, p.51) A humildade na hora de revelar o desconhecimento de dado assunto, revela uma conduta coerente com sua consciência de ‘ser inconcluso’. Ensinaraprender deve ser tomado como base para a transformação da realidade. A sua prática educativa deve mostrar uma postura política, sempre respeitando a visão do aluno, indispensável para desbancar a desesperança. O novo educador deve deixar bem claro a seus alunos que a realidade não precisa necessariamente ser a que vivemos, podemos lutar por mudá-la, faz parte de nossas opções de vida e de liberdade. E, primordialmente, o perfil de um novo educador não pode ser privado da componente da afetividade. O despertar, o estímulo e o desenvolvimento do gosto pelo querer bem, com alegria e paixão, devem estar presentes em cada 45 fala, ato e sentimento do educador. O que não diminuirá sua seriedade e credibilidade como docente. Antes, ele deve ter a coragem de estar aberto a este envolvimento com o grupo, pois desta forma ficará totalmente exposto e suscetível a todo tipo de crítica, ao erro – que é inerente ao ser humano. Exporse é um risco, mas o retorno de suas ações será altamente compensatório e produzirá um clima intenso de amor, realização e conivência entre ele e o grupo. Tudo porque o amor é a energia mais poderosa do universo. O amor é uma energia aglutinante, é a força que une, que liga. Por meio dessa energia sentimos que fazemos parte da criação e que, ao mesmo tempo, podemos criar também. O novo educador se concretiza na figura do ‘mestre’, aquele que ao invés de alunos tem discípulos. Este ‘mestre’, que insere no contexto curricular peculiaridades ímpares, vivências únicas, que auxiliam na melhor compreensão do conteúdo do conhecimento estudado e, ainda, contribuem para a formação de novos homens (e mulheres), agentes ativos de modificações sociais em prol da felicidade humana. O ‘mestre’, aquele que os alunos não cansam de escutar , horas a fio, pois mesmo só ele falando, há muita troca de informações e idéias pela energia que flui no ambiente. “A relação afetiva que se estabelece, não é piegas, é um vínculo entre seres humanos, é uma relação de afeto no contexto da educação (Eu-Tu). A partir desse pressuposto, não acreditarei jamais que a televisão ou computador possam educar. Para que haja conhecimento e que este evolua para um ‘saber ‘precisamos estabelecer uma relação humana, sem a qual não há possibilidade alguma de o indivíduo crescer.” (SALTINI, 2002, p.70) Uma ideologia é necessária, sem ela a vida torna-se sem sentido. Para eles, que as têm bem definida, fica mais simples mostrar o mundo. Mas, muitos 46 não compreendem seus comportamentos, atitudes e pensamentos, por mais simples que sejam. Saltini (2002, p.75) diz que “...não adianta mostrar o mundo a quem não tem capacidade lhe dar significado, interagindo assim com ele. É preciso mostrá-lo a quem busca simbolizá-lo, inventá-lo, pois, para esse sujeito, um simples sorriso é o suficiente para dar-lhe vida...” Os alunos, em desenvolvimento constante, buscam satisfazer suas necessidades interiores, gerando certo interesse em tudo que possa estar envolvido nesse processo. Eles buscam seu equilíbrio interno, sempre em interação com o meio em que vivem. Esta ideologia serve para promover e fundamentar uma nova atitude do educador, um novo gesto, uma nova ‘postura’ (SALTINI, 2002, p.85). Nada mais salutar do que atender às curiosidades e interesses de seus alunos, intercambiando os conhecimentos (cognitivo) e o prazer (afetivo) em discorrer sobre eles e sua aplicabilidade na vida e no meio em que vivemos. Em se tratando de Ideologia, na nossa educação, podemos buscar sustento na música de Cazuza: IDEOLOGIA. “Meu partido, é um coração partido E as ilusões, estão todas perdidas Os meus sonhos, foram todos vendidos Tão barato que eu nem acredito, ah, eu nem acredito Que aquele garoto que ia mudar o mundo, mudar o mundo Freqüenta agora as festas do “Grand Monde” Meus heróis morreram de overdose Meus inimigos estão no poder Ideologia, eu quero uma p’ra viver O meu prazer, agora é risco de vida Meu sex and drugs, não tem nenhum rock’n’roll Eu vou pagar a conta do analista Pra nunca mais ter que saber quem sou eu Ah, saber quem eu sou Pois aquele garoto que ia mudar o mundo, mudar o mundo Agora assiste a tudo em cima do muro, em cima do muro Meus heróis morreram de overdose 47 Meus inimigos estão no poder Ideologia, eu quero uma p’ra viver” 48 CAPÍTULO III O DESPERTAR DOS ‘MESTRES’ “Nunca mostres o teu poema a um não poeta” Ditado Zen 49 O DESPERTAR DOS ‘MESTRES’ O ato de despertar requer uma reflexão quanto ao posicionamento atual da grande maioria dos nossos educadores. É importante fixarmos que na relação professor – aluno, para ocorrer um desenvolvimento, torna-se necessário a harmonia, o respeito e a percepção. Mas o que vemos, corriqueiramente, são professores das faculdades, em sala de aula, discursando para seus alunos. Enquanto fala, seus alunos entram e saem da sala constantemente. Vê-se, claramente, uma falta de respeito mútuo, por parte dos alunos com relação a pessoa do professor em sala e pelo que ele tenta expor; por parte do professor, pelo fato de que ele não está preocupado com o que pensam seus alunos, apenas faz seu discurso. “De acordo com o pensamento de Piaget, o principal objetivo da educação seria criar homens capazes de inventar coisas novas e não apenas meros repetidores daquilo que as outras gerações fizeram. A meta deveria ser formar homens criativos, inventivos e descobridores; pessoas capazes de criticar, que vão em busca de verificação e não aceitam tudo o que lhes é proposto.” (SALTINI, 2002, P.59) Vivemos durante muitos anos dentro de uma sociedade fechada, em que seu ponto de decisão está fora dela, dentro de outra sociedade – a matriz. Seus governantes são a elite dominante, que se sobrepõe ao povo e o transforma em objeto. A sua estrutura, rígida e autoritária, não permite mobilidade vertical ascendente, nem tampouco descendente. É uma sociedade de castas, onde há uma dicotomia entre o trabalho manual e o intelectual. O filho de um sapateiro dificilmente será médico, assim como um filho de médico não pode chegar a ser sapateiro, por preconceito do pai. A educação é direcionada conforme os interesses da elite dominante, que procura manter os mais pobres dentro de suas castas dando-lhes a educação necessária para isto. Aqueles que despontam dentro do grupo, e visam ascender à casta superior, são considerados problemáticos e normalmente são perseguidos e desmotivados (FREIRE, 1979). 50 Esse paradigma de educação dominante tem como marcas a supervalorização do conteúdo como verdade absoluta, pronta e acabada, a aprendizagem como sinônimo de adestramento com caráter terminal, a desvalorização das experiências, do entorno. Inscreve-se igualmente, a hierarquização, a excessiva burocratização, a rigidez curricular, a normatização exacerbada, relações de poder autoritárias e a supervalorização do consenso como instrumento de manutenção do status quo dominante. Uma educação e uma escola reprodutoras da diferenciação social e da exclusão, privilegiando no homem, a sua mente. Neste processo autoritário, muitos professores acabam sendo envolvidos, às vezes sem perceberem, e manipulados pelos detentores do poder para agirem conforme seus interesses. Exemplificando, observamos que muitos professores consideram a informação como um dos principais elementos na escola, associando conhecimento e saber ao educando. Podendo até indicar os motivos da crise da educação tradicional, que valoriza o aspecto informativo e não o transformador. O fator de maior importância na educação é o desenvolvimento do pensamento crítico, sem ele nada terá valor. Qualquer produto, para ser transformado, necessita de maquinaria adequada, criatividade e energia. A energia está relacionada a parte afetiva, da emoção. É preciso boa dose de energia para movimentar, trabalhar uma estrutura existente a fim de modificá-la. O homem é um ser movido pelas suas pulsões, traduzidas em aspectos amorosos, sentimentais, emocionais, afetivos, que funcionam como contatos energéticos unindo seus elementos pessoais. O despertar do ‘mestre’ deverá estar assim embasado, pois é de maior importância o desenvolvimento de pensamento crítico e ninguém consegue pensar se não tiver a emoção (energia) adequada para mobilizar seu pensamento. O ensino implica sempre uma escolha de uma dado paradigma, e qualquer opção implica sempre a escolha de um dado modelo de sociedade. Portanto, a relação afetiva a ser desenvolvida no contexto educacional não deve ser piegas, mas sim um vínculo entre seres humanos numa relação 51 dialogal Eu-Tu. O ‘mestre’ será despertado dentro do educador quando este buscar o prazer em dar aula no afeto trocado com os alunos, que se transformará em interesse na aula e provocará interação com o meio ambiente e social. Este despertar tem a ver com a iluminação do ser educador, e está fadado a ser súbito pois não se trata de aquisição. Isto é chamado de transmissão especial, nada é transmitido ao iluminado, mas algo transpira e o milagre acontece. A abordagem Zen é muito especial porque trata do estado de consciência mais comum: a mente comum, a simplicidade da vida, espontaneidade, observação, estado meditativo, sensibilidade, consciência alerta. Osho (1999, p.36) nos revela que “Este acordar imediato, este súbito acordar, é um dos maiores problemas para os outros, para os que não compreendem o Zen e sua abordagem. Para estes, a realização significa um fenômeno gradual, mas para o Zen é sempre súbito, é sempre imediato. E ele pode ser imediato pela simples razão de que se trata da sua natureza que se abre. Qualquer ponderação que você permita penetrar lá dentro de você, será capaz de fazer o milagre.” Este despertar, de tão desejado, já foi alvo de artigos, livros e filmes. Um exemplo clássico é o filme “Mr. Holland: Adorável Professor” , que mostra a transformação de um sujeito comum, desejoso de mais tempo para sua profissão – músico – e de ganhar dinheiro simultaneamente, em um professor que ascendeu a ‘mestre’ na sua sala de aula. Uma história muito feliz em sua composição, pois mostra claramente o milagre. Um homem comum, de vida comum como tantos outros, se transforma de súbito, como que iluminado por sua vida. Após passar por várias adversidades administrativas e desestímulos à continuidade na sua nova ocupação, resolve-se pela mudança de atitude como docente e deixa fluir o que possuía de melhor em seu interior: ele mesmo, transfigurado na sua paixão 52 pela música e na sua postura amorosa com seus alunos. Sua recompensa maior foi a realização de seus alunos em sua disciplina e o que isto melhorou nos posicionamentos pessoais seus e deles. III.1 - A necessidade da mudança de paradigma O despertar do ‘mestre’ vislumbra-se num novo caminho, firmado em velhas utopias, que investiga a construção de uma educação verdadeiramente cidadã, que busca recuperar a totalidade do ato de educar que, fincado nos princípios de um paradigma emergente, acate a necessidade de apreender a complexidade que envolve a educação em sua orgânica interatividade com a realidade. Essa nova forma de ver o ato de educar faz gerar a ênfase na diferença, no múltiplo, provocando rupturas na forma de pensar e fazer o ato pedagógico, as relações sociais de exercícios do poder, a forma de encarar o conhecimento e a afetividade. A educação contemporânea, é assim desafiada a assumir um compromisso com o futuro, "uma educação contestadora, superadora dos limites impostos pelo Estado e pelo mercado, portanto uma educação muito mais voltada para a transformação do que para a transmissão cultural" (Gadotti, 2000, p. 13). Uma educação centrada no aprendizado como processo contínuo, que alie conhecimento abstrato com experiência, que valorize a divergência, a criatividade, a autonomia, o discernimento, o contexto, que encoraje a explosão dos sentimentos, o desenvolvimento das relações sociais, que se aproprie da tecnologia como forma de liberação e de libertação do homem. Educar com base nesse paradigma exige, dos educadores, enxergar o mundo de forma mais holística, sistêmica, que "...reconhece a interconectividade, a interdependência e a interatividade de todos os fenômenos da natureza, e o perfeito entrosamento dos indivíduos e das sociedades nos processos cíclicos da natureza... tudo é relativo, apenas provável, incerto e, ao mesmo tempo complementar" (Moraes, 2000,p.136). 53 No processo de aprendizagem, o professor deve ter coragem de abrir-se aos desafios de uma educação renovadora, contrastante com a tradicional. E, a influência das emoções devem basear sua nova práxis. Ao se falar em inteligência emocional, temos que ter em mente três emoções positivas: alegria, prazer e amor. Essas três emoções é que permitem ao indivíduo relacionar-se bem consigo mesmo e com o outro, e saber lidar com esses sentimentos contribuem para a formação do indivíduo pró ativo (guiado por seus valores, selecionados e interiorizados). Na área educativa, assim como nas demais torna-se, portanto, fundamental aprender a "ler" as emoções das pessoas que estão inseridas em nosso meio, e para isso nada melhor do que nos colocarmos no lugar do outro, tentando entender o que a outra pessoa está sentindo, e assim, podermos compreender melhor suas atitudes. A partir dessa compreensão é que o professor está apto a auxiliar o seu aluno a tomar consciência de suas emoções. Só com a tomada de consciência é que se pode unir razão e emoção. Por outro lado, existem as emoções negativas, que são basicamente três: raiva, medo e tristeza. Dentro de uma sala de aula, não é difícil encontrar esses sentimentos nos alunos, assim como em um grupo de professores não é difícil perceber tais emoções. Vemos que os maiores problemas no relacionamento humano são causados pela falta de controle emocional. Quando o professor não sabe lidar com seus próprios sentimentos, dificilmente conseguirá lidar com os sentimentos de seus alunos, principalmente diante de tantas atitudes que os aborrecem devido a um comportamento indesejado no momento da aula, como a indisciplina, o deboche, as conversas paralelas, o desinteresse pelo conteúdo que está sendo trabalhado. Portanto, para não se violentar nem violentar o outro, o professor necessita que as emoções positivas - alegria, prazer e amor - superem as negativas - raiva, medo e tristeza. Bomtempo (1997) diz: “A pouca atenção dispensada às aptidões do coração vem sendo apontada como uma das causas do mal-estar social, hoje caracterizado pela depressão, angústia, estresse, hipertensão e ansiedade, que atormentam o ser humano, faminto de afeto e 54 compreensão, buscando um pouco que seja de carinho e atenção”. (p. 6) Salienta-se que, além de docentes tecnicamente bem preparados e com boas condições de trabalho, que levem um projeto pedagógico inovador e apoiado tecnologicamente, é necessária uma relação afetiva entre educadores e educandos que permita conhecê-los, acompanhá-los, orientá-los. Para se ter um projeto completo, com chances reais de sucesso, há que se ter alunos motivados, preparados intelectual e emocionalmente, com capacidade de gerenciamento pessoal e grupal. Uma vez que continuemos a fazer o que vimos fazendo, vamos continuar obtendo os resultados que vimos obtendo. Se quisermos ter realmente alguma resposta diferente, que garanta alguma possibilidade de sucesso, temos que ousar fazer algo diferente. Introduzir de forma efetiva as dimensões política e afetiva, garantindo a permanência dos eixos cognitivo e técnico, exige uma postura docente diferenciada. Com uma auto-estima elevada, deve ter consciência do seu papel como fator essencial de um processo de melhoria da qualidade de vida de todos, não só suas ou de seus estudantes, como da sociedade. III.2 - A presença da paixão em sala de aula Para Wallon, a personalidade é constituída por duas função básicas: afetividade e inteligência. A afetividade vinculada às sensibilidades internas e orientada para o mundo social, para a construção da pessoa; a inteligência, por outro lado, vinculada às sensibilidades externas, e orientada para o mundo físico, para a construção do objeto. A afetividade assume assim papel fundamental no desenvolvimento humano. É um domínio funcional, anterior à inteligência. A afetividade é um termo amplo que engloba a emoção, o sentimento e a paixão, sendo estes distintos entre si. Surgem em seu tempo, conforme as condições maturacionais de atividades, o raciocínio. São às vezes confundidos, apesar de possuírem formas de expressão bem diferentes. As reações 55 emocionais são ocasionais, instantâneas, diretas; os sentimentos caracterizamse por reações mais pensadas e duradouras; já as paixões são permeadas pelo raciocínio, pela noção de realidade externa e pela busca da transformação de seus desejos em realidade. A paixão tem a ver com autocontrole. Aparece após os três anos de idade e tem o poder de conter a emoção. O sentimento e a paixão envolvem a representação, e esta extingue a emoção na medida em que a transforma em paixão. Wallon propõe três mecanismos pelos quais a emoção age sobre o mundo social, quais sejam: 1. Contagiosidade : capacidade de contaminar o outro, de transmitir prazer ou desprazer. 2. Plasticidade : expressão corpórea dos sinais da emoção (rubor, contração muscular etc.) 3. Regressividade : capacidade da emoção de fazer regredir o raciocínio. O autor lembra que foi a emoção que possibilitou ao homem a formação de grupos, através de sua capacidade de despertar o espírito de colaboração e cumplicidade de interesses. A emoção era então o único trunfo de que dispunha o homem contra a ignorância diante da natureza. O grande desafio é que se mantenha o equilíbrio entre emoção e inteligência. A emoção deve ser submetida à atividade intelectual, evitando sua absolutização e/ou desequilíbrio. A dissolução da emoção ocorre exatamente pela transformação da emoção num objeto de atividade mental. Pode-se dizer então que há uma relação de complementaridade entre emoção e inteligência, e que o predomínio exacerbado de alguma das duas pode ser prejudicial no sentido de um desequilíbrio no desenvolvimento do sujeito. 56 Se o desenvolvimento humano perpassa por condicionantes históricos, sociais e culturais, e estando este desenvolvimento configurado integralmente nos âmbitos afetivo e cognitivo, as mesmas condições são válidas para a aprendizagem, ou melhor, para o processo então dinâmico, dialético, sócioconstrutivo e inacabado de ensino-aprendizagem. Este apresenta-se assim como um fenômeno social, que deve abarcar não apenas variáveis de ordem intelectual, epistemológica, mas também a afetividade como constituinte do homem, precedente e integrada ao âmbito cognitivo. Costa (1995) elaborou a Escala do Desenvolvimento Pessoal e Social. Para ele, essa escala é composta por degraus ou níveis, onde na base se encontra a Identidade. O topo da pirâmide culmina com a Plenitude. Um perfil de desenvolvimento desejável para um educador. Essa hierarquia de sentimento e/ou necessidades está organizada da seguinte forma: Identidade: Para compreender-se e aceitar-se e compreender e aceitar os demais, o ser humano precisa ser compreendido e aceito. Auto-estima: Só é capaz de amar verdadeiramente o próximo quem antes for capaz de amar a si mesmo. Auto-conceito: É a auto-estima projetada no campo da racionalidade, permitindo à pessoa formar uma idéia positiva de si própria. Auto-confiança: Apoiar-se, em primeiro lugar, nas próprias forças e saber que pode contar com elas. Visão de futuro: Só poderá ter uma visão positiva do futuro quem for capaz de encará-lo sem medo. Querer-ser: O sonho, a vocação e a vontade de crescer são frutos naturais de uma atitude básica desejante diante da vida. Projeto de vida: É o sonho com degraus, com metas, prazos e consciência dos esforços e dos recursos a serem investidos na consecução de um objetivo de vida. Sentido da vida: É aquela linha pontilhada que une o ser ao querer-ser na vida de cada pessoa. Resiliência: Capacidade de resistir à adversidade e de utilizá-la para crescer que, desenvolvida ou não, cada pessoa traz dentro de si. Autodeterminação: O ser humano, quando a tem, é capaz de decidir por si mesmo e de traçar seu próprio caminho. 57 Auto-realização: O ser humano não precisa chegar onde quer para relizar-se. Basta ter a certeza de que está no caminho certo. Plenitude: São aqueles momentos de culminância na vida de uma pessoa em que o ser e o querer-ser se encontram. Essa escala demonstra que as necessidades primordiais do homem, após satisfeitas as suas necessidades vitais, estão relacionadas ao seu interior, e quando o autor coloca a Identidade na base da pirâmide hierárquica, percebemos que a aceitação é que será o auge do trabalho pedagógico, para que todos os outros degraus possam ser alcançados. Aqui fica clara a necessidade de uma relação bem afinada entre educador e educando. É imprescindível que se considere, no ato educativo, a relação que o sujeito estabelece como objeto e suas implicações afetivas. Consequentemente, a natureza da experiência afetiva (boa, ruim, prazerosa, desagradável) depende da qualidade da mediação, a qual tem como principal (mas não único) agente o educador. Estas considerações estendem-se ao planejamento educacional, incluída aí a relação professor-aluno. O ponto central transcende a questão de "o que ensinar" e migra à problemática de "como ensinar". Pode-se enumerar sinteticamente cinco decisões que devem ser tomadas pelo educador que decide conduzir o seu trabalho de forma a contemplar as implicações afetivas do mesmo, notadamente na relação que se estabelecerá entre o aluno e o objeto de conhecimento estudado. 1. A escolha dos objetivos • Os objetivos têm que ser relevantes, não pragmáticos; • A escola não pode estar divorciada da realidade, e deve ter como referência o exercício da cidadania e a inserção social. 2. O aluno como referência • Partir daquilo que o aluno já sabe, ou seja, de sua experiência individual, social, histórica e cultural, (aprendizagem significativa). para levá-lo ao novo aprendizado 58 3. Organização dos conteúdos • Respeitar a lógica de organização do conhecimento da área, evitando-se uma deterioração das relações entre os alunos e objeto estudado. 4. Como ensinar? • A escolha dos procedimentos e atividades de ensino envolve a relação professor-aluno no que ela tem de mais visível; • As atividades não podem estar desvinculadas do objetivo e devem ser motivadoras; • Atenção ao desenvolvimento da atividade: clareza nas instruções, intervenções oportunas do professor, feed-back etc. 5. Como avaliar? • A avaliação deve ser a favor do aluno; • O processo de ensino-aprendizagem é um processo interdependente, ou seja, não depende só do aluno ou do professor; • Os resultados da avaliação devem servir para rever e alterar as condições de ensino, visando o aperfeiçoamento do processo de apropriação do conhecimento pelo aluno. Na busca por significado o educador estrutura, organiza a consciência de seu viver pedagógico. Num ato criador ele dá forma e vida aos desejos, precisando para isto estar concentrado – corpo e alma envolvidos – para desenvolver na educação esse desejo que traz o germe da paixão. Paixão que precisa ser educada ... pelo exercício de sua arte. III.3 - A vez do ‘mestre’ A postura do educador é sempre posta em discussão. Os resultados dos processos de aprendizagem colocam à prova todo o sistema de educação, mas são os educadores que aparecem de frente, e servem de anteparo para as críticas e culpas. Num contexto geral, faz-se urgente a mudança de atitude e postura do educador, diante das mudanças da sociedade, do mercado globalizado, do próprio educando. Mas, apesar de todas as adversidades, já encontramos hoje em dia muitos educadores dignos de serem chamados 59 ‘mestres’, mesmo sem serem pós-graduados. Eles (as) figuras reais em nosso tempo histórico, referenciados a seguir, nos dão a clareza do que é ter paixão em ensinar. Claudete Luiz de Oliveira, no início dos seus cursos ela é ‘a professora de matemática’, exigente e verdadeira ‘carrasca’ , na visão de seus alunos. Sua simpatia transformadora converte temor em amor e, após formados, estes agradecem por terem sido alunos dessa ‘mestra’. Sua paixão pela disciplina começou cedo, desde menina ela já adorava dar aulas e marchar na semana da Pátria. Com trinta e dois anos de dedicação ao magistério, sempre mantevese atualizada. Seus ex-alunos sempre dizem que ela é inesquecível e, segundo ela própria, eles também o são não só pelas recordações que lhe trazem mas também por seu amor à eles.(Alessandra Bergman, Canguçu na Internet) A ‘mestra’ Eliane Marques, traz vida e paixão ao ensino de História do Brasil, na UNIUBE, ao quebrar o mito de que nossa História é mentirosa. Faz uso de jargões próprios para contar a História de forma interessante e busca na curiosidade o tempero certo de suas aulas. Não obstante, expõe de forma clara sua opinião sobre assuntos antes explorados de outras formas por historiadores, ao anunciar: “Eu, Eliane, amiga de vocês ...” . Com este procedimento pessoal em sala, consegue que seus alunos tenham “orgasmos intelectuais” e, conseqüentemente, uma melhor compreensão do conteúdo do conhecimento estudado. Sua dinâmica de aula elimina a mesmice e sua preocupação com a formação continuada lhe traz novas abordagens históricas. Toda sua ação é voltada para aprendizagem da turma em um todo, e não de alguns. (Jamil Idaló Júnior, estudante do 2° ano de História da UNIUBE/2003) Fabiana Aparecida Assumpção, ‘mestra’ do Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência – PROERD, Campinas / SP, resgata a auto-estima de seus alunos e vê como recompensa maior a declaração, pelos mesmos, de que gostam mais de si mesmo depois do curso. Seu sucesso em sala está no seu jeito de ensinar: cuidadosa, conversadeira, curiosa e carinhosa. Sempre atenta e pronta a aprender, e compartilhar seus novos conhecimentos com os colegas. Os alunos não querem perder sua aula, e 60 lamentam quando não pode comparecer. A paixão que tem pelo que faz cativa seus alunos. Sua receita: “O educador tem de amar o que faz e quem está diante dele. Tem de se valorizar e acreditar que aquilo que está passando para o aluno é muito importante, seja qual for a matéria”. (Célia Trazzi Cassis, MEC / TVEscola – Revista 28) Sua história de vida é dessas que dão um romance. Maria da Penha Macedo de Jacobina, 71 anos, que explica sua energia e entusiasmo na pura paixão pela profissão exercida desde os quinze anos. Gosta de iniciar o aluno em sua aprendizagem, seja no ensino médio ou superior. Possui larga experiência em material alternativo, e considera balela não dar aula por não ter material. No ‘seu’ laboratório na Fundação Cecierj cada material presente transporta para um momento ocorrido, história de sua vida, que faz seus olhos brilharem de emoção. Há muito que contar! Possui um projeto inovador – Ciência na Praça – em que realiza experiências com a comunidade e para isto faz uso de seus materiais alternativos. Sua vontade em ver o Brasil crescer é a chama sagrada de sua atuação pedagógica. (Karla Hansen, Jornal do Portal – Educação Pública / 2003) “A recompensa? Quando os olhinhos brilham, vale todo o sacrifício! A paixão não acaba nunca, acho que só quando eu fechar o olho ela acaba. Enquanto eu estiver andando e com capacidade mental, não pretendo parar. Até já aprendi a escrever com a mão esquerda para se um dia eu perder a capacidade de escrever com a direita, tanto é a doença de dar aula. Eu adoro estar em sala de aula”. (Maria da Penha Macedo de Jacobina) Rubem Alves nos revela que a educação é absolutamente apaixonante, e que educar é uma arte que se ensina com amor. Paixão para uma vida, que deve ter no aluno a preocupação do educador. O educador deve possuir um olhar para cada aluno, porque está lidando com ser humano. Os alunos devem ser seduzidos para o fascínio de seu objeto, e que sem a sedução não haverá vontade em aprender. E cita Adélia Prado, grande pedagoga: “...não quero faca e nem queijo, eu quero é fome”, o que representa a primeira tarefa do educador: fazer o aluno ter fome do que se pretende ensinar. (Margarida Ribeiro, estudante do 7° período de Jornalismo, da Uniube) 61 Também no Aikido, filosofia japonesa, existe a presença do ‘mestre’, em que todos os praticantes ou quem ensina devem se empenhar em ter a intenção de levar os outros pela mão e os guiar para um ‘lugar’ ideal. Todo ‘mestre’ - professor, além de trabalhar também deve progredir espiritual e moralmente. Deve ‘olhar’ de modo a abrir seu coração e mostrar-se como exemplo para seus alunos. Como educadores-pesquisadores de nossa própria prática, articulando os saberes que queremos ensinar e a leitura do grupo para quem ensinamos, entremos todos no jogo da criação, como estes nossos ‘mestres’ reais já o fazem ou fizeram. Com o mesmo peso e a mesma inquietude sensível e investigativa do artista frente a uma tela em branco ou um bloco de pedra. E com a mesma paixão e ousadia... 62 CONCLUSÃO O presente trabalho teve o foco voltado para a formação de nível superior, no que diz respeito à influência da intervenção do professor em sala de aula. Muito se houve falar da qualidade do profissional, de qualquer área que seja, não só quanto a sua qualificação técnica / específica, mas sobretudo quanto ao seu posicionamento sócio – cultural. O nível de qualidade geral desses recém-formados tem preocupado aqueles que têm contato direto com eles, tanto durante a sua formação como na sua atuação, enquanto profissionais. Vê-se uma ausência de envolvimento político-social, falta de interação com o próximo e com o meio ambiente, um não comprometimento com o resultado de suas ações. Chegamos à conclusão que falta-lhes a ‘educação’, fonte inesgotavél de conhecimento, sabedoria, desenvolvimento sustentável discernimento, ética, consciência de e cidadania, não simplesmente a posse de um diploma, como foi dito no primeiro capítulo. Professores e escolas são responsáveis pela qualidade de seus formandos, e para que tenham êxito em suas jornadas precisam se capacitar dia após dia. Tomar o caminho mais adequado, quiçá novo, com muita vontade, determinação e paixão ao visar a mudança de um paradigma estagnado. A escola , cada vez mais, finca pé na ilusão da efetividade, da eficiência, do resultado, sem se dar conta de que a figura do professor vem sendo massacrada pela desmotivação, pelo estresse da disputa de títulos, pelo deboche e estresse de um aluno rico de informações soltas e desordenadas, de um aluno que vive um festival de culturas mal assimiladas, fascinado pelos ‘enfeites’ culturais globalizados e interessado quase que exclusivamente no diploma. A questão da competência do professor vem desafiando todas as tendências e propostas pedagógicas. Temas transversais, aprendizagem 63 sociointeracionista, construção do conhecimento, são um grande erro se pensadas de formas distanciadas das relações de afeto que se interpõem entre todos os membros da comunidade educativa. Com isso, a valorização da conduta do professor, presença indispensável a todo projeto pedagógico, voltada para a sua natureza humana, a sua pessoa, prestigiando seu caráter, com espaço para sua franqueza, busca a capacitação com foco no aspecto cultural de sua formação pessoal. Conforme o mesmo primeiro capítulo e considerando-se que o ensino é um processo interativo e não uma simples instrução, o papel do professor – educador - e do sistema educativo necessitam de adaptação e correção constantes ao longo da evolução do educando. Uma educação permanente dota os educandos das ferramentas intelectuais necessárias a sua adaptação ao mercado de trabalho e à evolução dos conhecimentos, em prol da melhoria da vida em sociedade e do meio ambiente em que vivem. É preciso ficar claro que as áreas de educação, tecnologia e das relações sociais devem interagir entre si na busca não apenas do conhecimento em si, mas do resultado da ação conseqüente a esse conhecimento na vida de todos. Cabe ao educador, entre outras coisas, saber levar ao aluno a beleza e o poder de pensar e envolvê-los afetivamente com a profissão que irão abraçar futuramente. De acordo com a abordagem Zen, conforme o segundo capítulo, existe uma clara diferenciação entre professor e ‘mestre’, sem fazer menção a diplomas: o professor, pessoa erudita, estudada, pode dar informação, mas não transforma o educando – um trabalho direto; já o ‘mestre’ traz a transformação do seu discípulo, orientando para que ele próprio descubra a própria luz, num trabalho indireto, catalisador, pois ele cria um campo energético que favorece esse acontecimento. Esse educador – ‘mestre’ é aquele que abraça a causa da educação com vontade e muita paixão, pelo que faz e para quem faz. Ele possui uma identidade especial marcada por suas experiências de vida, embebedantes de prazer e curiosidade. 64 Quando essas características pessoais são associadas às especificidades acadêmicas e pedagógicas temos a plenitude das aulas, o contágio dos alunos pela esperança e com a possibilidade da transformação do hoje num amanhã melhor. Infelizmente, verificamos que no ensino superior as qualificações pedagógicas são desprezadas pela maioria dos docentes, que só se preocupam com o conteúdo – que eles consideraram adequado, sem preocupação com o público alvo – e evitam se envolver mais proximamente com seus alunos, para não dar muita confiança. Estes, engolidos pelo ‘sistema’, viraram meros funcionários. A fragilidade da informação moderna se contrapõe a toda forma de inflexibilidade didática. O resgate de um educador – ‘mestre’, cheio de idéias, de experiências, de informações, de dúvidas, de angústias, de postura políticosocial substituirá, com louvores, a perda de um professor culto de erudição, cheio de personalismo e de verdades imutáveis. Evidencia-se, então, a inadequação dos paradigmas existentes na formação docente. Não que eles estejam totalmente equivocados, mas necessitam de adaptação às nossas novas realidades. Não só com a formação docente deve-se ter atenção, mas também com a atualização daqueles já formados e em exercício da função. O que será muito bem vindo pelos educadores, sempre que colocada de forma positiva e possível de ser realizada. A competência do educador para a formação de um bom profissional de nível superior se dará através do domínio não só do conteúdo, mas acima de tudo das relações interpessoais e intrapessoais dentro e fora da sala de aula. A construção do conhecimento será conseqüência de uma discussão aberta em torno de todos os assuntos, acadêmicos e sócio-político-cultural, contribuindo para a formação do caráter, da ética e acentuando a visão da vida em sociedade, conforme nosso segundo capítulo. O perfil desse novo educador – ‘mestre’ surge na mudança de percepção do mundo e do funcionamento cognitivo / afetivo. Esse ‘mestre’ deve estar ciente de sua função de mediador, orientador de consciências, ao 65 abrir um canal de diálogo com o grupo se incluindo na relação ( Eu –Tu ). Ciente de que nada está acabado, e tomando consciência da sua própria inconclusão. E, primordialmente, o estímulo e o desenvolvimento do gosto pelo querer bem, com alegria e paixão, devem estar presentes em sua fala, ato e sentimento. Uma vez adultos, de que professores nos lembramos? Com que professores aprendemos alguma coisa? Certamente com aqueles que contavam histórias, que nos envolviam com informações insólitas, que dispunham de uma personalidade cheia de afeto, de pequenas e / ou grandes emoções, às vezes até pelo contraditório de sua natureza. Para trazermos essa experiência para o ensino superior, precisamos compreender a necessidade de mudança. E ainda, que qualquer produto para ser transformado necessita de maquinária adequada, criatividade e energia. A energia está relacionada com a parte afetiva, da emoção, e é ela que trabalhará a estrutura existente a fim de modificá-la. Os contatos energéticos do ser humano são acionados por suas pulsões, traduzidas por seus sentimentos afetivos, e são capazes de mobilizar os seus pensamentos. A cada dia sentimos que ao homem restará o afeto, a boa convivência, o bom entendimento, sem o que a vida e o planeta não mais existirão. O chão da escola não pode prescindir de calor humano, e não há porque excluir o ensino superior, mesmo porque todo o fundamento da qualidade está centrado no lado humano e criativo das pessoas. O resto são apenas ferramentas, acessórios. Não se pode, numa corrida pela efetividade e marketing de resultados, abrir mão das relações de afeto, comprometido com a formação em sala de aula. Cada vez mais, o homem bem sucedido é aquele amável, afetuoso, sociável e flexível. Vemos isso marcado nas culturas mais antigas, onde todos são educadores – pais, tios, avós – permeando afeto em culturas orais complexas e consistentes e que sobrevivem até os dias de hoje e para sempre. Dessa forma, visamos neste trabalho identificar, explicar e exemplificar as mais importantes teorias e abordagens disponíveis sobre o tema proposto. 66 Tivemos aqui, contudo, a intenção de chamar atenção para o fato detectado e propiciar uma visão geral e abrangente dos aspectos inerentes à compreensão do tema, bem como dar a importância para a tomada de consciência pelos profissionais de educação quanto aos efeitos da intervenção afetiva e envolvente do professor sobre os formandos de nível superior. Considerando-se as idéias acima, podemos concluir que não só o desenvolvimento cognitivo dos formandos de nível superior é importante para suas vidas ativas, como profissional e ser social que são. A vida profissional requer muito conhecimento específico, contudo sem a sensibilidade, afetividade e envolvimento pessoal com as próprias ações os resultados dos trabalhos executados pelo homem não terão a qualidade necessária ao convívio social e a própria existência humana. Sem esse ícone da afetividade, emoção, agindo sobre todas as ações, questionando sobre o que se faz, o porquê se faz e para quem se faz, não se construirá positivamente nada que possa ter futuro, ou melhor, não se possibilitará um futuro. Uma intervenção mais afetiva e envolvente dos professores do ensino superior, traz de volta para a sala de aula o calor humano, tão aconchegante. Em cima desse mesmo tema sugere-se ainda, como objetivo para outras pesquisas, questões como o desinteresse em sala de aula, a evasão após os primeiros meses dos cursos e quanto a identificação com o curso de formação em si. 67 ANEXOS Índice de anexos Anexo 1 >> Comprovantes de Atividades Extra-Classe; Anexo 2 >> Conteúdo de revistas especializadas; Anexo 3 >> Entrevistas; Anexo 4 >> Internet; 68 ANEXO 1 COMPROVANTES DE ATIVIDADES EXTRA-CLASE 69 70 ANEXO 2 REVISTAS ESPECIALIZADAS 1 Revista VEJA Educação – 26/09/2001 A didática tem de ser envolvente Para melhor educar, o professor deve aproximar-se do universo do aluno Por Gabriel Chalita (htpp://www.vejaabril.com.br/idade/educacao/jovens/p_061.html). O que está acontecendo com a escola hoje? Pode parecer estranho, mas, para responder, vamos ver o que ocorreu com ela há mais de 2 000 anos. Sócrates, um gênio da história do pensamento, resolveu inventar um método diferente de ensinar – partiu do conceito de que cada um tem o conhecimento dentro de si e que o mestre é tão-somente um instigador desse conhecimento. Trata-se de fazer o parto das idéias. Como a velha parteira ou o novo médico fazem. Sem forçar. Pacientemente. Sócrates ainda está na moda, posto que a educação continua um processo de gestação, nutrido pelo conhecimento, consciência crítica e liberdade de escolha. Os desafios de hoje, no entanto, são imensos. Os mestres deste século 21 encontram gigantescas dificuldades para educar, pois os adolescentes, cada um a seu modo, desfilam comportamentos – às vezes inconvenientes – próprios do processo de crescimento. Alguns professores apenas criticam os alunos e cruzam os braços. Outros preferem conhecer suas histórias e ficam fascinados com a genialidade, o carisma, o afeto que descobrem. Porque por trás dessa rebeldia demonstrada na apatia ou no afrontamento estão belíssimos seres em formação. O adolescente é um estopim – não é criança nem adulto. Alguns são sufocados por mimos desmedidos, outros estão à deriva, carentes de amor e de atenção. Na escola, o desfile de autoridades, acompanhado de uma boa dose de busca neurótica de disciplina, contribui pouco para que tenham referenciais e encontrem alento nessa fase tumultuada da vida. Urge que não apenas pais, mas também pedagogos, descubram uma nova forma de lidar com a questão. Em vez de um professor rigoroso do ponto de vista comportamental, talvez seja melhor investir no professor como parceiro mais experiente, entusiasta de conquistas. O olhar de quem enxerga cada jovem individualmente, de quem conhece a história de cada um. Se o conhecimento e os bons modos são fundamentais, a forma de transmiti-los precisa ser sedutora. A sedução começa com a valorização, e a relação frutifica no respeito. Assim, o professor se torna amigo, sem deixar de ser referencial, sem banalizar sua missão de educar. 71 A didática também pode ser envolvente. Em vez de longas fórmulas para decorar, problemas que envolvam áreas distintas do conhecimento e fontes diversas como livros, internet, colegas. Em vez do mecânico, o lúdico. Em vez do teórico, o prático contido numa música de Chico Buarque de Holanda, num poema de Drummond, em textos de jornais e revistas, em filmes. O aluno, estimulado, se transformará em um pesquisador ávido. São maiores as chances de que venha a ler Machado de Assis, por sentir-se seduzido pelo prazer da leitura, e não porque foi obrigado. No reverso de toda a agressividade que grassa em tempos hodiernos, que tal o professor discutir com os alunos mitos e lendas sobre amor? – e como adolescente gosta de falar de amor! O professor é o líder capaz de resgatar essa essência extraordinária do adolescente, a grandeza do vôo. Só percebam que adolescente não gosta de conselho, gosta de amizade partilhada, de compreensão, de ternura. Isso não significa que o professor não possa ter um script. Pode. Mas ele deve portar-se como se estivesse no teatro, onde o andamento da peça sofre influência do espectador. Não como no cinema, que despreza a audiência. Com todo o potencial tecnológico desenvolvido para informar, a solução ainda está no humano. É o mestre que, ao conhecer e buscar compreender o aluno, poderá auxiliá-lo a encontrar meios de ser feliz. E esse tem de ser o maior dos objetivos da educação. Gabriel Chalita é professor universitário e escritor 72 2 Revista TV Escola – Nº 28, p. 48 Uma Mestra bem especial Célia Trazzi Cassis www.mec.gov.br/seed/tvescola/revistas/Revista28/PDF/ultima.pdf 73 ANEXO 3 ENTREVISTAS O Educador além do seu tempo Rubem Alves mostra que educar é uma arte que se ensina com amor Margarida Ribeiro 7 período de Jornalismo www.revelacaoonline.uniube.br/a2002/educacao/educador.html No dia 15 de março, o auditório da ABCZ (Associação Brasileira de Criadores de Zebu) reuniu centenas de pessoas para prestigiar um dos intelectuais mais famoso e respeitado do País, Rubem Alves. Esta personalidade brasileira com as suas multifacetas - pedagogo, poeta, filosofo, cronista, contador de estórias, ensaísta, teólogo, acadêmico e psicanalista - tem enriquecido a nossa Educação com vasta obra para adultos e crianças. Suas literaturas têm servido de subsídio também para trabalhos nas igrejas, consultório psiquiátrico e outros fins de ajuda. Rubem Alves tem o dom de fazer das palavras e das idéias brinquedos e instrumentos divertidos para transmitir conhecimentos. Deste modo ele fala de uma educação que perpassa todo o universo humano. Ensina que o verbo educar deve ser conjugado com o amor e paixão. Sobre seu interesse pela educação brasileira, o próprio Rubem irá nos comunicar através desta entrevista. Revelação: Como surgiu o seu interesse pela educação? Rubem Alves: Eu sempre tive vontade de ensinar, mas o interesse concentrado foi quando era professor em Lavras, interior de Minas. Nesse período comecei a pensar nos problemas da educação, o assunto passou a ser parte da minha vida, é a coisa que mais me domina, o tempo todo estou pensando nisto. Revelação: Sobre as suas obras, quantas já tem publicadas? Rubem Alves: Eu devo ter mais ou menos trinta livros para crianças e trinta para adultos. Os livros têm sido usados muito em igreja, em hospitais infantis para preparar as crianças para cirurgia. Quando os escrevi foi pensando somente na minha filha, de repente descobri que estavam sendo aproveitados em empresas, em situações de terapias, viraram teatros e agora vão virar Cds. Revelação: Qual obra que tem mais do seu pensamento de forma sistemática? Rubem Alves: A obra que circunda o meu pensamento saiu de circulação e vai reentrar na bienal, se chama "O poeta, o guerreiro e o profeta". Revelação: Como o senhor vê os atuais livros de literatura? Rubem Alves: A gente ainda tem grandes autores, por exemplo Saramago e Guimarães Rosa. Há muitas obras bonitas sendo produzidas, mas também há muito lixo. Shopenhauer dizia que parte da sabedoria de ler é a sabedoria de saber escolher 74 o que no ler. Ele falou isto no século XIX, imagina a quantidade de lixo que existe nas livrarias! Revelação: Como o senhor avalia a forma de incentivo do Governo, com o Programa Bolsa-Escola? Rubem Alves: Para mim esses esforços são louváveis, mas a grande questão da educação não passa por aí, mas pelas cabeças dos professores. Educação não se faz com prédios com material escolar, mas ela se faz com professor apaixonado. Revelação: Esta seria a prioridade para educação? Rubem Alves: Para mim a prioridade que tenho é seduzir os professores. O que acontece freqüentemente, é que, com a rotina e o passar do tempo, eles ficam amargos e começam a fazer contagem do tempo para a aposentadoria. Aí perdem o encantamento com as crianças e os adolescentes. Revelação: E qual é o grande segredo da educação? Rubem Alves: O grande segredo é a paixão do professor. Se você tiver um professor apaixonado, ainda que ele não saiba muita didática dará um jeito. Revelação: O senhor falou que há dois tipos de olhos na educação. Gostaria que comentasse um pouco sobre o olhar do atual educador? Rubem Alves: A educação do primeiro olho, vê as coisas do finito, é o que a maioria das nossas escolas fazem o tempo todo, ensinar a ciência, ensinar as coisas da vida, ver o mundo. A educação do segundo olho mostra as coisas eternas. Com o primeiro olho ensinamos a ciência, com o segundo a poesia. Gastor Maschelar, se dedicou a vida inteira a educar o primeiro olho, e escreveu livros eruditos sobre a filosofia das ciências. De repente ele passou a educar o segundo olho e escreveu "A chama de uma vela". A vela para iluminar precisa se consumir. Quando Maschelar fala da vela, não se refere a conhecimentos modernos, mas ele abre um terceiro olho, o da sensibilidade. Revelação: Como se desenvolve a sensibilidade dos educadores e educandos? Rubem Alves: Através da literatura. O conselho que eu daria é ler literatura. Na minha área de psicanálise é muito importante conhecer a alma humana, e o conhecimento vem não é da leitura de Freud, ela ajuda, mas na medida que buscamos a literatura, então se descobre o drama da existência humana, vivida com todas as suas dores e alegrias. Revelação: Qual a grande tarefa do educador? Rubem Alves: A grande tarefa é dizer "está ali, está ali – perceba! Olhe!" –Fernando Pessoa diz, não basta não ser cego pra ver as árvores e as cores, há pessoas que têm vistas excelentes e não percebem nada. É preciso ensinar os nossos alunos a enxergar o mundo. Revelação:Que conselho o senhor daria aos novos educadores? Rubem Alves: Que a educação é absolutamente apaixonante. Paixão para uma vida. Em primeiro lugar eu diria que eles se considerem afortunados por serem tocados por esta vocação. Segunda coisa, é preciso que amem as crianças. Freqüentemente os professores têm a preocupação com um programa. Meu filósofo favorito, Nietzsche, 75 dizia que o verdadeiro educador é aquele que leva a sério questões relacionadas com seus alunos, inclusive a si mesmo. Logo a preocupação do educador não pode ser com o programa, deve ser com o aluno, e por isso, ele deve ter um olho para cada aluno, porque está lidando com ser humano e não com o número para exame. A primeira tarefa do educador é seduzir o aluno para o fascínio do seu objeto. Se ele não for seduzido não terá vontade de aprender. A Adélia Prado, uma grande pedagoga dizia, "não quero faca e nem queijo, eu quero é fome". Significa que a primeira tarefa é fazer o aluno ter fome do que você pretende ensinar. 76 ANEXO 4 INTERNET www.educacaopublica.rj.gov.br/jornal/materia.asp?seq=116 1 Jornal do Portal – Governo do Estado do Rio de Janeiro EDUCAÇÃO PÚBLICA - 11/6/2003 Professora Penha: fonte inesgotável de energia é paixão por ensinar Karla Hansen Quem vê não acredita, ou custa. A figura pequena, magra, de cabelos brancos, da professora Maria da Penha Macedo de Jacobina, 71 anos, atravessa o corredor da Fundação Cecierj, apressada, carregando um carrinho, com uma pilha de caixas de madeira, mala e outras tralhas, para mais uma viagem. O destino? Barra do Piraí, Praça da Ciência Itinerante, um programa da Fundação Cecierj/Consórcio CEDERJ, há nove anos uma das maiores paixões da professora. Aliás, essa é a palavra que melhor explica o porquê de tanta energia e entusiasmo: é pura paixão pela profissão exercida desde os 15 anos de idade. Mas Penha não gosta de aparecer. Acha "uma perda de tempo" entrevistá-la. Melhor seria, orienta, participar de uma de suas oficinas, ouvir o depoimento de seus alunos, "eles são mais importantes que nós!" Ela se refere aos estudantes dos cursos da Fundação Cecierj/CEDERJ, oriundos das escolas pedagógicas do Estado mas, também, ao grande público, que participa das Praças da Ciência, tanto nas escolas, quanto nas comunidades. Claro, há muito de modéstia nessa tentativa de rejeitar o próprio mérito e fugir dos "holofotes". Mas isso só lhe confere mais valor. É, a grandeza de um rei se conhece por seus súditos e feitos... Sua história de vida é dessas que dão um romance, ou se preferem, um filme. Filha de agricultores de Minas Gerais, veio aos 9, para estudar no Rio de Janeiro. Aqui, foi para o internato do "Sacre Coeur de Marie", colégio tradicional para moças. "Tinha que ser um colégio religioso, minha família era católica, apostólica e mineira", justifica. Acostumada à simplicidade da vida no interior de Minas, Penha não se adaptou aos rígidos padrões de comportamento, às aulas de francês e de "educação refinada", da escola. Logo no primeiro dia, teve seu maior desgosto: "fiquei esperando servirem feijão com arroz". Ela fazia parte da "gangue", como se autodenominava o grupo de meninas de famílias pobres que, além de estudarem, ajudavam na limpeza do internato. A professora lembra que o problema não era o trabalho, isso não a incomodava, "tirava tudo de letra". O pior, era conviver com a "educação estúpida", que a obrigava a reverenciar cada freira que passasse: "bom jour, ma mére, abaixar...". Conta que, uma vez no alto da escada, tinha que esperar a freira subir até o andar em que ela estava, para, então, ter permissão para descer. Penha não se conformava: preferia descer, escorregando pelo corrimão! Depois, por castigo, a freira a fazia subir a escada de novo. Ficou só um ano e meio. ". Eu não podia ficar naquele colégio mesmo, não admitia aquelas coisas!" Do "Sacre Coeur" foi para outro internato de freiras, o "Imaculada Conceição", onde uma freira a "domou", conta. Nessa escola, Penha foi aluna de uma professora de química que realizava experiências em sala de aula e levava as alunas para conhecer indústrias, "uma coisa bem inteligente para aquela época, de 1949". Foi aí que descobriu o gosto pela matéria. Aos quinze anos, como estudante do ginásio, já dava aulas de matemática e 77 ciências, à noite, num curso para domésticas, da Igreja da Glória, no Largo do Machado. Era um tempo, também, em que ela trabalhava como técnica de laboratório numa escola particular, e acabou se apaixonando de vez pela profissão em que está até hoje. Como primeira opção de graduação, o curso de Engenharia de Estradas de Rodagem, mas a idéia foi prontamente recusada por seu pai - queria que a filha fosse normalista, "ideal de todo pai mineiro". Como já gostava de química e prometeu a ele ser professora, fez o vestibular para a Faculdade de Química da antiga Universidade do Brasil, hoje UFRJ. Depois de formada, Penha se tornou professora da Universidade por 40 anos, bem como do Ensino Médio de escolas públicas e particulares do Estado do Rio. Nessa época, Penha ficou viúva, precocemente, tinha apenas seis anos de casada e "uma família para cuidar, cinco filhos, dois adotados." Universitários ou alunos do Ensino Médio? "Eu gosto mesmo é de iniciar o aluno! De pegar o aluno no primeiro ano do ensino médio e levar a turma até o terceiro. E na faculdade, como trabalhei em várias unidades (na biologia, na química), também gostava de trabalhar no núcleo básico." Além de preferir e ter se dedicado a quem está começando a aprender, Penha teve seu trabalho reconhecido (prêmio do SBPC) por sua experiência com materiais alternativos, ". Isso é o que eu gosto!", fala sem esconder o entusiasmo. "Durante os meus 32 anos trabalhando para o Estado, sempre ouvi: "ah, eu não dou aula porque não tem material! Eu não dou aula porque o material é caro." "Isso é balela! reclama a professora. " Você não dá aula porque não quer dar aula, existe o material alternativo!" diz, orgulhosa. Ela e sua equipe do CEDERJ só trabalham com material alternativo, feito com o que ela chama de "material de fim de feira", que substituem equipamentos e produtos necessários a um laboratório de química, quase sempre muito caros. Nesta altura da entrevista, Penha se levanta e pega um exemplar para me mostrar: uma estrutura simples de madeira sustenta três "funis", feitos com a parte superior de garrafas de plástico de refrigerante. Cada um deles tem uma quantidade de terra de cor e textura diferentes, são demonstrações de tipos de solo. Esse é apenas um singelo exemplo das inúmeras criações que saem de "seu" laboratório na Fundação Cecierj e seguem para as Praças da Ciência, uma espécie de palavra mágica para a professora: a simples menção faz os seus olhos brilharem. Há muito o que contar! Penha aponta uma pilha de caixas no fundo do laboratório. Cada uma delas tem uma identificação diferente: "oficina de vela", "oficina de pão" etc. São essas caixas que viajam, quase toda semana, para as "Praças da Ciência", em municípios do interior do Estado do Rio. Nas oficinas montadas nesses eventos, as alunas (professoras do ensino fundamental) aprendem não só a fazer a vela ou o pão, elas aprendem "toda a química que existe na vela ou no pão", e mais, descobrem mil e uma maneiras interessantes de dar aula de ciências. O interesse pelas oficinas é tão grande que, muitas vezes, no dia seguinte ao de uma das "Praças da Ciência", turmas inteiras de professoras vêm ao Cecierj, à procura dos cursos. Elas querem mais! Além desse trabalho, a professora também está no projeto "Ciência na Praça", em que as experiências são realizadas com a comunidade, e onde o movimento também é muito grande. Atualmente, Penha está todos os dias no laboratório de química do Cecierj "chego aqui às oito e saio às oito", ri. Às quartas, viaja para as "Praças da Ciência", onde trabalha, no mínimo, oito horas por dia. Seus filhos chegam a brigar com ela, querem que pare de trabalhar e, enciumados, cobram sua presença como mãe e avó de dez netos... "Natal, Páscoa, aniversário, tudo bem, eu vou, mas no resto, quem pariu Mateus que o embale, ela rebate. A fonte de tanta energia? É vontade que o Brasil cresça! Essa é a chama sagrada! E para que essa chama nunca se apague, nem a falta de recursos a intimida: "a gente pede aqui, pede ali, tira dinheiro do próprio bolso, somos mendigas da educação..." " A 78 recompensa? Quando os olhinhos brilham, vale todo o sacrifício!" Já no final da entrevista, com o gravador desligado, Penha se levanta e pega uma grande caixa de papelão para me mostrar o material produzido em uma das Praças da Ciência. De dentro, ela tira um a um os materiais: um chocalho - feito com um cilindro de papelão, fechado, com grãos de feijão ou arroz - que reproduz o som da chuva. Um copo de plástico, com um fio de lã preso ao fundo, que imita o som de uma galinha (a preferida das crianças!); um "bilboquê", feito com garrafa de refrigerante, fita adesiva e algumas bolas de gude; a metade de uma esfera, de papel cartolina, como um casco de tartaruga, que se vira por força da gravidade. Esses "brinquedos" são confeccionados pelos alunos que, ao mesmo tempo em que se divertem, aprendem noções básicas de ciência, como ondas sonoras e força da gravidade, só para citar esses exemplos. E essa paixão não acaba? "A paixão não acaba nunca, acho que só quando eu fechar o olho ela acaba. Enquanto eu estiver andando e com capacidade mental, não pretendo parar. Até já aprendi a escrever com a mão esquerda para se um dia eu perder a capacidade de escrever com a direita, tanto é a doença de dar aula. Eu adoro estar em sala de aula!" 2 Revelação On-Line - UNIUBE EDUCAÇÃO Professora Eliane Marquez traz vida e paixão ao ensino da História do país Jamil Idaló Júnior - 2 ano de História www.revelacaoonline.uniube.br/educacao03/saber.html Enfim, descobrimos o Brasil! A grande discussão atual e um dos paradigmas da educação neste inicio de século é a postura do professor/educador. Segundo Rubem Alves, o professor é um especialista no domínio de técnicas, enquanto o educador traz consigo a vocação, a paixão em ensinar. Nessa mesma linha de raciocínio, Carlos Rodrigues Brandão diz que o objeto central do ensino é o aluno, e não o conhecimento, que para o primeiro devem ser dadas todas as atenções, para que ele possa ter um maior discernimento sobre o segundo. Extrapolando esta dualidade professor/educador, encontramos o mestre. Pois se o professor/educador tem alunos, o mestre tem discípulos. E é exatamente centrada na figura da mestra Eliane Marquez, da qual me sinto honrado e orgulhoso de ser seu discípulo, que discorrerei minha narrativa. A maioria dos estudantes de História se interessa pela disciplina por causa da Idade Média. A arquitetura gótica de seus castelos e igrejas, os interessantes embates de espadachins, o deslumbrante vestuário da época e o enigmático poder da Igreja sobre a sociedade do medievo são símbolos que povoam a imaginação e que fazem seus estudantes optarem por esta Ciência. A História do Brasil, quase sempre, está em segundo plano: é apenas uma coadjuvante ofuscada pelo brilho da História Geral. Isto porque nunca assistiram a uma aula da mestra acima citada! Sua preocupação em nos ensinar "a História que não foi contada" ou o "outro lado da História do Brasil", quebra o mito de que nossa História é mentirosa. Quando sou questionado por outras pessoas do porquê de estudar uma disciplina tida como enganosa, respondo-lhes que isto não é verdade, que a maioria do povo não conhece realmente nossa História. Pois nossa oligarquia dominante, de posse de uma ideologia positivista, quase sempre mascarou nossas verdades. Concomitantemente a isto, os jargões utilizados pela referida mestra, tais como: "vou contar uma fofoca histórica", quando aborda fatos de figuras históricas ilustres, que não aparecem na 79 historiografia, ou "Agora vocês vão levar um susto", quando sabe que vai dizer algo contraditório ao que conhecíamos anteriormente, ou até mesmo quando diz "Eu, Eliane, amiga de vocês...", quando quer dar sua opinião pessoal sobre assuntos que foram explorados de outras formas por historiadores anteriores a ela, inserem no nosso contexto curricular peculiaridades ímpares, que nos auxiliam numa melhor compreensão do conteúdo do conhecimento estudado. Pois seu objetivo é fazer com que tenhamos "orgasmos intelectuais". Sua variação de dinâmica de aula também contribui de modo efetivo para que não fiquemos numa mesmice, que tornaria as aulas desinteressantes. Soma-se a isso sua preocupação com a formação continuada, sempre procurando novas abordagens históricas de assuntos muito explorados e levando-as à sala de aula para nossa apreciação. Tudo o que foi acima citado contribui para despertar em nós um grande interesse em estudarmos nossas raízes, para que de posse desses conhecimentos tenhamos condições de contribuirmos para transformarmos o real. Entretanto, a meu ver, o grande mérito da mestra é a sua preocupação com a aprendizagem da turma em um todo, pois de nada adianta alguns aprenderem e outros não. Talvez ao citar estes fatos, tenha dado a impressão de querer elogiar em demasia minha professora, mas isto não é verdade. A verdade é que perder 10 minutos de sua aula é uma grande perda. E que a mesma é um exemplo a ser seguido por todos nós. Tomo a liberdade de plagiá-la, dizendo que, ao falar de sua pessoa através do jornal-laboratório do curso de Comunicação Social, estou realizando uma "fofoca histórica!" E que imagino que, quando ela ler este artigo no Revelação, "vai levar um susto!" 3 Jornal do Portal da Cidade de Canguçu Canguçu, 09 de setembro de 2003 Texto e Fotos: Alessandra Bergmann Você está aqui: Alessandra Bergmann » matérias » Claudete, a inesquecível. Por onde anda Claudete, a inesquecível ? “Meus ex-alunos sempre dizem: Sou inesquecível”. Com certeza, o nome Claudete aliado à palavra matemática, traz as mais diversas recordações para quem foi estudante em Canguçu. Ainda mais sendo aluno da Escola João de Deus Nunes. Era impossível não escutar a frase: “Bah! Vais pegar a Claudete em matemática”. Em outras palavras, ou vais aprender matemática, ou vais rodar, para voltar a ser aluno dela de novo. 80 Quem era aluno da professora Claudete já sabia, os finais de semana não seriam mais os mesmos porque tinha muito tema para fazer. Geralmente umas cinqüenta questões de matemática para serem resolvidas. E ninguém se arriscava a entregar a professora pelo menos, a metade do exercício completo. Essa era a forma encontrada para o aluno aprender a matéria. Segundo a professora Claudete, só se aprende matemática exercitando, como muitas outras coisas na "Adoro perfumes. Alguns alunos me chamavam de vida. Para isso, o aluno tinha que ter disciplina. Por ser professora cheirosa." exigente, ela se tornou a verdadeira carrasca na mente dos estudantes. Mas sua simpatia transformou os temores em amor. Os mesmos que a odiaram, hoje agradecem por terem sido seus alunos. A paixão pela matemática começou cedo. Aos cinco anos de idade Claudete Luiz de Oliveira já sabia contar até cem. Desde menina, já brincava de dar aula e adorava marchar na semana da pátria. Talvez venha daí o gosto pela disciplina. Filha de Canguçu, esta libriana mal se formou na faculdade e começou a lecionar. Foram 32 anos de dedicação em sala de aula, ensinando centenas de canguçuenses a difícil arte de tirar da matemática, o proveito para a vida. Dificilmente parou de estudar. Quando não estava fazendo alguma especialização, andava em palestras, encontros educacionais ou até mesmo fazendo algum curso. Hoje, aposentada, com 53 Cuias com o brasão do município: passatempo que virou anos, está prestes a realizar o sonho de morar em Porto negócio. Alegre e fazer seu mestrado. No ano passado, Claudete ficou noiva. Segundo ela, o casamento com o militar reformado João Carlos Trindade Garcia, ainda não tem data marcada. Atualmente, Claudete está se dedicando a venda de artesanato que é utilizado como lembrança de Canguçu. São cuias e bombas para chimarrão personalizados com o brasão do município. Nas horas vagas, além de cuidar da casa, costuma ler ou promover reuniões com amigos e a família.Segundo ela, está vivendo agora uma nova fase da vida. “tenho muita saudades dos alunos. "Eu conheço a minha fama, mas tenho ela porque conheço a matemática." 81 –“Amo todos e espero que eles nunca me esqueçam, aliás, eles sempre dizem que isso é impossível de acontecer”comenta. QUALIDADE? honestidade. DEFEITO? (risos) exigente demais. SONHO? Vou realizá-lo. Ir morar em Porto Alegre. CIDADE? Porto Alegre. PASSA TEMPO? Ler, cuidar da casa. LIVRO QUE ESTÁ LENDO? A arte da felicidade. MANIA? De limpeza, sou neurótica com sujeira. PERFUME? Crasy FILHOS? Agora... passô. O QUE NÃO ABRE MÃO? De estudar, saber mais, tenho sede de estar sempre atualizada. MOMENTO DIFÍCIL? Tem dois. Quando morreu meu pai e quando minha casa foi roubada. MÚSICA? Todas da Joana. PLANOS FUTUROS? Fazer um mestrado. FATO INESQUECÍVEL: Foi com uma turma de alunos em prova. Um deles havia preparado a maior cola que vi até hoje, tão grande que o aluno nem conseguiu consultá-la. Eram duas folhas de ofício, cheias de operações numéricas dos dois lados. O aluno pôs no bolso. Eu, por duas vezes escutei um barulho como se alguém estivesse desembrulhando alguma coisa. Na terceira vez, fiquei atenta e percebi quem era. Pedi a cola para o aluno, que, logo foi se defendendo: - Eu nem colei professora. Foi o dia que mais ri na minha vida porque quando abri a cola, além de me surpreender com o tamanho, estava escrito em letras garrafais “C-o-l-a d-e m-a-t-e-m-á-t-i-c-a” e em seguida o nome do aluno. SAUDADE? Ah! Dos meus alunos, é claro. 4 Revista Nova Escola Edição n° 142 – Maio de 2001 www.jcwilke.hpg.ig.com.br/novoa4.htm Quer aperfeiçoar sua prática pedagógica? O especialista português garante que o melhor caminho é debater com os colegas Paola Gentile Fotos Paulo Rascão "O educador que acaba de se formar não pode ficar com as piores turmas nem ser alocado nas unidades mais difíceis, sem acompanhamento"Só o profissional pode ser responsável por sua formação. Esse é um processo pessoal incompatível com planos gerais centralizadores" 82 M anter-se atualizado sobre as novas metodologias de ensino e desenvolver práticas pedagógicas mais eficientes são alguns dos principais desafios da profissão de educador. Concluir o Magistério ou a licenciatura é apenas uma das etapas do longo processo de capacitação que não pode ser interrompido enquanto houver jovens querendo aprender. Quem defende isso é um dos maiores especialistas mundiais em formação de professores, o português Antonio Nóvoa. Catedrático da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa e presidente da Associação Internacional de História da Educação, ele garante que o melhor lugar para aprender a lecionar melhor é a própria escola. "A produção de práticas educativas eficazes só surge de uma reflexão da experiência pessoal partilhada entre os colegas", diz ele. Nesta entrevista, concedida por e-mail da capital portuguesa, Nóvoa afirma ainda que a bagagem teórica terá pouca utilidade, se você não fizer uma reflexão global sobre sua vida. Como aluno e como profissional. NOVA ESCOLA> A formação dos professores é apontada por muita gente como uma das principais responsáveis pelos problemas da educação. O senhor concorda com isso? Antonio Nóvoa< Embora tenha havido uma verdadeira revolução nesse campo nos últimos vinte anos, a formação ainda deixa muito a desejar. Existe uma certa incapacidade para colocar em prática concepções e modelos inovadores. As instituições ficam fechadas em si mesmas, ora por um academicismo excessivo ora por um empirismo tradicional. Ambos os desvios são criticáveis. NE> O difícil acesso às novidades é um dos empecilhos para incorporá-las à dinâmica da sala de aula? Ou as práticas de ensino mudam numa velocidade impossível de acompanhar? Nóvoa< O equilíbrio entre inovação e tradição é difícil. A mudança na maneira de ensinar tem de ser feita com consistência e baseada em práticas de várias gerações. Digo que nesta área nada se inventa, tudo se recria. O resgate das experiências pessoais e coletivas é a única forma de evitar a tentação das modas pedagógicas. Ao mesmo tempo, é preciso combater a mera reprodução de práticas de ensino, sem espírito crítico ou esforço de mudança. É preciso estar aberto às novidades e procurar diferentes métodos de trabalho, mas sempre partindo de uma análise individual e coletiva das práticas. NE> Como definir um bom programa de educação continuada? Nóvoa< O aprender contínuo é essencial em nossa profissão. Ele deve se concentrar em dois pilares: a própria pessoa do professor, como agente, e a escola, como lugar de crescimento profissional permanente. Sem perder de vista que estamos passando de uma lógica que separava os diferentes tempos de formação, privilegiando claramente a inicial, para outra que percebe esse desenvolvimento como um processo. Aliás, é assim que deve ser mesmo. A formação é um ciclo que abrange a experiência do docente como aluno (educação de base), como aluno-mestre (graduação), como estagiário (práticas de supervisão), como iniciante (nos primeiros anos da profissão) e como titular (formação continuada). Esses momentos só serão formadores se forem objeto de um esforço de reflexão permanente. NE> Todas as fases têm a mesma importância para o educador? Nóvoa< Se tivesse de escolher a mais decisiva, ficaria com a dos anos iniciais da profissão. Infelizmente, não se dá a devida atenção a esse período. É ele que define, positiva ou negativamente, grande parte da carreira. Para mim é inaceitável que uma pessoa que acabou de se formar fique encarregada das piores turmas, muitas vezes sem apoio nem acompanhamento. Quem está começando precisa, mais do que ninguém, de suporte metodológico, científico e profissional. NE> Ou seja, apenas ler sobre as novas teorias pedagógicas não é suficiente para se manter atualizado? Nóvoa< Há alguns anos surgiu o conceito de profissional reflexivo como uma forma de valorizar os saberes experimentais. Ele teve mais influência na pesquisa educacional do que nas atividades concretas de formação, mas foi importante na reorganização das práticas de ensino e dos modelos de supervisão dos estágios. No entanto, sempre me recordo das palavras do educador americano John Dewey: "Quando se diz que um professor tem dez anos de experiência, será que tem mesmo? Ou tem um ano de experiência repetido dez vezes?" Só uma reflexão sistemática e continuada é capaz de promover a dimensão formadora da prática. NE> Quais critérios o professor deve considerar ao buscar formas de se atualizar? Nóvoa< Como eu já disse, há dois pólos essenciais: o professor como agente e a escola como organização. A preocupação com a pessoa do professor é central na reflexão educacional e pedagógica. Sabemos que a formação depende do trabalho de cada um. Sabemos também que mais importante do que formar é formar-se; que todo o conhecimento é autoconhecimento e que toda a formação é autoformação. Por isso, a prática pedagógica inclui o indivíduo, com suas singularidades e afetos. 83 NE> E a escola? Nóvoa< Ela precisa mudar institucionalmente. O desenvolvimento pessoal e profissional depende muito do contexto em que exercemos nossa atividade. Todo professor deve ver a escola não somente como o lugar onde ele ensina, mas onde aprende. A atualização e a produção de novas práticas de ensino só surgem de uma reflexão partilhada entre os colegas. Essa reflexão tem lugar na escola e nasce do esforço de encontrar respostas para problemas educativos. Tudo isso sem cair em meras afirmações retóricas. Nada vai acontecer se as condições materiais, salariais e de infraestrutura não estiverem devidamente asseguradas. O debate sobre a formação é indissociável das políticas de melhoria das escolas e de definição de uma carreira docente digna e prestigiada. inseri-lo em sua dinâmica pessoal e articulá-lo com seu processo de desenvolvimento. Não quero tirar a responsabilidade do governo, mas sua intervenção deve se resumir a garantir meios e condições. NE> Qual é a maneira mais eficiente de aprender a ensinar? Voltando a ser aluno? Observando? Praticando? Nóvoa< Tudo isso é importante, mas novas práticas de ensino só nascem com a recusa do individualismo. Historicamente, os docentes desenvolveram identidades isoladas. Falta uma dimensão de grupo, que rejeite o corporativismo e afirme a existência de um coletivo profissional. Refiro-me à participação nos planos de regulação do trabalho escolar, de pesquisa, de avaliação conjunta e de formação continuada, para permitir a partilha de tarefas e de responsabilidades. As equipes de trabalho são fundamentais para estimular o debate e a reflexão. É preciso ainda participar de movimentos pedagógicos que reúnam profissionais de origens diversas em torno de um mesmo programa de renovação do ensino. NE> Saber trabalhar em grupo, então, é mais uma competência que o professor deve ter? Nóvoa< Sim. São as equipes de trabalho que vão consolidar sistemas de ação coletiva no seio do professorado. Não se trata de adesões ou ações individuais, mas da construção de culturas de cooperação. O esforço de pensar a profissão em grupo implica a existência de espaços de partilha além das fronteiras escolares. Trata-se da participação em movimentos pedagógicos, da presença em dinâmicas mais amplas de reflexão e da intervenção no sistema de ensino. No passado, esses movimentos tiveram um papel insubstituível na afirmação social da classe. Hoje, são decisivos para a renovação. NE> De que forma o governo (no caso da rede pública) e a própria escola (no caso da particular) podem agir para melhorar a formação dos professores? Nóvoa< Eles devem criar as condições básicas, com infra-estrutura e incentivos à carreira. Só o profissional, no entanto, pode ser responsável por sua formação. Não acredito nos grandes planos das estruturas oficiais. Esse é um processo pessoal incompatível com planos gerais centralizadores. É no espaço concreto de cada escola, em torno de problemas pedagógicos ou educativos reais, que se desenvolve a verdadeira formação. Universidades e especialistas externos são importantes no plano teórico e metodológico. Mas todo esse conhecimento só terá eficácia se o professor conseguir NE> Uma das recomendações da educação moderna é o trabalho interdisciplinar, por projetos. Como adquirir prática nessa maneira de ensinar? Nóvoa< O próprio trabalho em equipes pedagógicas pode ser um começo. Se insistirmos na produção de um saber profissional, emergente da prática e de uma reflexão sobre ela, teremos naturalmente uma produção conjunta. Para isso, a escola tem de organizar momentos interdisciplinares de trabalho que não caiam no vazio curricular, mas que promovam uma integração dos conteúdos de várias matérias. NE> Existe algum método na educação continuada que alie todos esses aspectos que o senhor preconiza? Nóvoa< Sim, vários programas integram essas preocupações de forma útil e criativa: seminários de observação mútua, espaços de prática reflexiva, laboratórios de análise coletiva das práticas e os dispositivos de supervisão dialógica, em que os supervisores são parceiros e interlocutores. Para além dos aspectos teóricos ou metodológicos, essas estratégias sublinham o conceito de deliberação, que por sua vez exige um espaço público de discussão. Nele, as práticas e as opiniões singulares adquirem visibilidade e são submetidas à opinião dos outros. Ao fazer isso, chama-se a atenção para o conjunto de decisões que os professores tomam a cada instante, no plano técnico e moral. Em outras palavras, a articulação entre teoria e prática só funciona se não houver divisão de tarefas e todos se sentirem responsáveis por facilitar a relação entre as aprendizagens teóricas e as vivências e observações práticas. 84 NE> Paulo Freire escreveu que a formação é um fazer permanente que se refaz constantemente na ação. "Para se ser, tem que se estar sendo", disse ele. O que o senhor acha dessa afirmação? Nóvoa< A formação é algo que pertence ao próprio sujeito e se inscreve num processo de ser (nossas vidas e experiências, nosso passado etc) e num processo de ir sendo (nossos projetos, nossa idéia de futuro). Paulo Freire explica-nos que ela nunca se dá por mera acumulação. É uma conquista feita com muitas ajudas: dos mestres, dos livros, das aulas, dos computadores. Mas depende sempre de um trabalho pessoal. Ninguém forma ninguém. Cada um forma-se a si próprio. NE> O estágio deve favorecer a mistura de prática com reflexão? Nóvoa< Sem dúvida. O potencial formador de cada um depende das ponderações feitas com os colegas, com quem está sendo observado e com o supervisor. Sem isso, a observação transforma-se em exercício mecânico, sem interesse. É essencial estudar os processos de organização do trabalho escolar, da gestão das turmas e da sala de aula, bem como as formas de utilização dos métodos de ensino e a capacidade de resposta às situações inesperadas. As competências para realizar essa análise são individuais e coletivas. A pertinência do estágio reside na compreensão da contribuição específica dos professores e na identificação da cultura profissional docente. NE> Como aproveitar melhor a prática de supervisão? Nóvoa< É essencial estimular a produção escrita e divulgá-la. Só a publicação revela o prestígio social da profissão e a formalização de um saber profissional docente. Sempre me espantei com o fato de haver tantos textos teóricos e metodológicos sobre ensino e Pedagogia e tão poucos descrevendo práticas concretas. Se queremos renovar a profissão e as estratégias de formação temos de dar visibilidade às práticas. Isso começa no período de estágio e continua por toda a vida. NE> Qual é, na sua opinião, o perfil ideal do professor do século XXI? Nóvoa< Não gosto de fazer futurologia. Acho esse terreno repleto de armadilhas e banalidades. A paixão pelo futuro freqüentemente significa déficit do presente. Por isso, falo de apenas um aspecto: neste século, devido à complexidade do fenômeno educativo, à diversidade das crianças que estudam e aos dilemas morais e culturais que seremos chamados a enfrentar, teremos de repensar o horizonte ético da profissão. Acredito que os próximos anos serão marcados pela instabilidade e pela incerteza. A atitude ética não depende só de cada um de nós, mas da possibilidade de uma partilha efetiva com os colegas. Precisamos reconhecer, com humildade, que há muitos dilemas para os quais as respostas do passado já não servem e as do presente ainda não existem. Para mim, ser professor no século XXI é reinventar um sentido para a escola, tanto do ponto de vista ético quanto cultural. 85 BIBLIOGRAFIA ALVES, Rubem. Conversas com quem gosta de ensinar. Campinas, São Paulo: Papirus, 2000. BOMTEMPO, Luzia. Escola no Coração. Um conjunto de atividades para desenvolver nos alunos a inteligência emocional. Amae Educando. 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Gravação em vídeo. 88 ÍNDICE AGRADECIMENTOS ...................................................................................................... 3 DEDICATÓRIA................................................................................................................ 4 RESUMO ........................................................................................................................ 5 METODOLOGIA ............................................................................................................. 6 SUMÁRIO .......................................................................................................................................7 INTRODUÇÃO ................................................................................................................ 8 CAPÍTULO I .................................................................................................................................11 A EDUCAÇÃO NO BRASIL E O PROFESSOR.........................................................................12 I.1 - O capitalismo globalizado e a educação superior ..............................................................15 I.2 - A valorização do magistério ..............................................................................................18 I.3 - O lugar do ser humano na educação tecnológica ...............................................................21 CAPÍTULO II ................................................................................................................................26 O PROFESSOR E O EDUCADOR...............................................................................................27 II.1 - Principais paradigmas na formação docente.....................................................................29 II.2 - As competências na docência ...........................................................................................33 II.3 - O perfil de um novo educador ..........................................................................................42 CAPÍTULO III...............................................................................................................................48 O DESPERTAR DOS ‘MESTRES’ ..............................................................................................49 III.1 - A necessidade da mudança de paradigma .......................................................................52 III.2 - A presença da paixão em sala de aula .............................................................................54 III.3 - A vez do ‘mestre’ ............................................................................................................58 CONCLUSÃO ...............................................................................................................................62 ANEXOS .......................................................................................................................................67 ANEXO 1 ..................................................................................................................................68 Comprovantes de Atividades Extra-Clase .................................................................................68 ANEXO 2 ..................................................................................................................................70 REVISTAS ESPECIALIZADAS ..............................................................................................70 ANEXO 3 ..................................................................................................................................73 ENTREVISTAS.........................................................................................................................73 ANEXO 4 ..................................................................................................................................76 INTERNET................................................................................................................................76 BIBLIOGRAFIA ...........................................................................................................................86 DISCOGRAFIA.............................................................................................................................88 WEBSITEGRAFIA .......................................................................................................................88 FILMOGRAFIA ............................................................................................................................88 ÍNDICE..........................................................................................................................................89 FOLHA DE AVALIAÇÃO ...........................................................................................................90 89 FOLHA DE AVALIAÇÃO Nome da Instituição: Universidade Cândido Mendes Projeto “A Vez do Mestre” Título da Monografia: Uma intervenção mais afetiva e apaixonante do professor influencia na formação de nível superior? Autor: Ana Lúcia Souza da Silva Data da entrega: 28 Out. 2003 Avaliado por: Conceito: Avaliado por: Conceito: Avaliado por: Conceito: Conceito Final: