UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES
PÓS-GRADUAÇÃO “LATO SENSU”
PROJETO A VEZ DO MESTRE
UMA INTERVENÇÃO MAIS AFETIVA E APAIXONANTE DO
PROFESSOR INFLUENCIA NA FORMAÇÃO DE NÍVEL
SUPERIOR?
Por: Ana Lúcia Souza da Silva
Orientadora
Prof. Mary Sue Carvalho Pereira
Rio de Janeiro
2003
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UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES
PÓS-GRADUAÇÃO “LATO SENSU”
PROJETO A VEZ DO MESTRE
UMA INTERVENÇÃO MAIS AFETIVA E APAIXONANTE DO
PROFESSOR INFLUENCIA NA FORMAÇÃO DE NÍVEL
SUPERIOR?
Apresentação
de
monografia
à
Universidade
Candido Mendes como condição prévia para a
conclusão do Curso de Pós-Graduação “Lato Sensu”
em Docência do Ensino Superior.
Por: Ana Lúcia Souza da Silva.
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AGRADECIMENTOS
....aos amigos e parentes, que deram
suporte ao meu empreendimento; ao
Ms. Nilson Guedes de Freitas por sua
orientação na organização inicial de
minhas idéias e à Prof. Mary Sue de
Carvalho Pereira por seu desempenho
e carinho na orientação da finalização
deste trabalho......
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DEDICATÓRIA
...dedico aos meus pais, Julia e Lázaro,
por terem me fornecido a vida e a minha
filha Paola, por ter me fornecido a
iluminação de minha alma...
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RESUMO
Este trabalho visa reconhecer e dar embasamento teórico a intervenção
mais afetiva e apaixonante do professor, que por sua atuação mais interativa
e emocional com os alunos e o curso, pode tornar as capacitações técnica e
social do corpo discente melhores e mais críticas. No desenvolvimento de seus
capítulos procura provocar uma reflexão no corpo docente do ensino superior,
a respeito do lugar que vem o ser humano e o trabalho humano ocupando nas
suas preocupações acadêmicas, faz um apanhado sobre a situação da
educação no Brasil e perpassa por questões como globalização, valorização do
magistério, paradigmas na formação docente, as competências do educador, o
perfil esperado do novo educador em tempos de mudanças e a necessidade de
mudança paradigmática para o nascimento deste novo educador e do
despertar dos ‘mestres’ , a partir daí, busca abrir uma discussão do trabalho
humano do professor, em sala de aula, por suas interações afetivas e
compromissadas com a orientação da formação do corpo discente a partir da
mudança de seu paradigma pessoal e profissional, e da importância do
despertar da figura do ‘mestre’ no educador, no sentido de estimular seus
alunos a prosseguirem conscientes da importância de suas ações para o meio
ambiente e a sociedade e torná-los, também, apaixonados pela profissão
escolhida. A paixão pelo que faz e ensina, dentro de um equilíbrio emocional,
dará cor e vida às visões de futuro dos seus alunos, por que não dizer
discípulos, fundamentando e qualificando a aplicação de seus conhecimentos
no mundo profissional.
Palavras chaves: Educação. Paixão. Educador. Paradigma. Afetividade.
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METODOLOGIA
A observação das críticas crescentes quanto à qualidade do profissional
graduado no ensino superior, vindas de profissionais presentes no mercado de
trabalho e professores, todos em convívio direto com muitos destes recémgraduados, levaram a identificação do problema proposto. A metodologia
utilizada no trabalho foi a pesquisa bibliográfica em fontes de autores como
SALTINI (2002), ALVES (2000) e FREIRE (1979 e 1996) entre outros famosos
e não famosos, pesquisa esta feita no intuito de trazer à reflexão os aspectos
teóricos e práticos já existentes, através de livros, artigos publicados e leis que
indicam na direção da resposta ao problema salientado.
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SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ................................................................................................................ 8
CAPÍTULO I .................................................................................................................................11
A EDUCAÇÃO NO BRASIL E O PROFESSOR.........................................................................12
CAPÍTULO II ................................................................................................................................26
O PROFESSOR E O EDUCADOR...............................................................................................27
CAPÍTULO III...............................................................................................................................49
O DESPERTAR DOS ‘MESTRES’ ..............................................................................................49
CONCLUSÃO ...............................................................................................................................62
ANEXOS .......................................................................................................................................67
BIBLIOGRAFIA ...........................................................................................................................86
DISCOGRAFIA.............................................................................................................................88
WEBSITEGRAFIA .......................................................................................................................88
FILMOGRAFIA ............................................................................................................................88
ÍNDICE..........................................................................................................................................89
FOLHA DE AVALIAÇÃO ...........................................................................................................90
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INTRODUÇÃO
Carlos Fontes, em artigo para o site Navegando na Educação, indica
que até meados dos anos sessenta tinha-se como referência o modelo de
‘Bom Professor’, um modelo moral e político visto como um sacerdote ao
serviço do saber. Ser professor era conseqüência de uma vocação ou missão,
e não o exercício de uma profissão.
Na sociedade em que vivemos, onde as regras em todas as áreas são
ditadas pelo capitalismo, em que o ensino também foi atingido, passou-se a
visar eficiência e lucro, em detrimento da importância do prazer pelo ensino e
aprendizagem. Pretende-se com o presente trabalho reconhecer que uma
intervenção mais afetiva e apaixonante do professor, por sua atuação mais
interativa e emocional com os alunos e o curso, pode tornar as capacitações
técnica e social do corpo discente melhores e mais críticas.
Com relação às especificidades, considera-se duas qualificações
básicas para docência: as ‘acadêmicas’ (dos saberes e saberes-fazer) e as
‘pedagógicas’ (metodologias e técnicas para o exercício da atividade). O que
se verifica largamente é que no ensino fundamental a pedagogia prevalece
sobre a primeira. No ensino médio / técnico, as duas coexistem, contudo as
acadêmicas tendem a se tornar nucleares. Já no ensino superior, as
qualificações pedagógicas são desprezadas.
Na prática atual de educação superior, verifica-se que o aluno formado
profissional, entra no mercado de trabalho e na sociedade ativa como o produto
de um processo pedagógico (se é que podemos dizer que existe este
processo) comprometido apenas com a lógica do mercado, da técnica pela
técnica, sem meditação e sem compromissos com valores em prol da felicidade
humana. Qual é a qualidade de gente (produto da ação pedagógica) que se
disponibiliza para a sociedade e para as organizações?
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É papel dos professores de ensino superior ter responsabilidade social
em sala de aula, por meio de uma relação Eu-Tu que favorece de um modo
coerente a atualização, em prol de uma harmonia da pessoa com o mundo.
Uma atuação pedagógica pautada numa relação professor x aluno mais
intensa, emocionante e envolvente, que demonstra paixão pelo curso,
disciplina e interfaces com o plano social, promoverá a formação de melhores
pessoas e profissionais.
Não obstante, verifica-se ainda um elevado índice de evasão escolar,
causado pela desmotivação ou falta de conforto, aconchego, em sala de aula.
Evidenciados pela ausência de um professor, um ícone, que passe paixão pelo
que ensina e faz, que contagie os alunos com sua energia positiva, fornecendo
não a motivação, que é pessoal, mas a incentivação, expectativa, curiosidade,
interesse em conhecer mais e mais sobre os assuntos tratados em sala.
Segundo Rubem Alves, o professor é um especialista no domínio de
técnicas, enquanto o educador traz consigo a vocação, a paixão de ensinar.
Extrapolando esta dualidade professor / educador, concordando com um relato
de Jamil Idaló Jr. – estudante, encontramos o ‘mestre’, que ao invés de alunos
tem discípulos. Ele, o ‘mestre’, pode ser considerado como um orientador,
posto que sua atuação sinaliza para o profissional que deverá se formar ao
final do curso.
São estes ‘mestres’ ( tão ausentes, mas tão necessários!), que inserem
no contexto curricular peculiaridades ímpares, vivências únicas, que auxiliam
na melhor compreensão do conteúdo do conhecimento estudado e, ainda,
contribuem para a formação de novos homens (e mulheres), agentes ativos de
modificações sociais em prol da felicidade humana de todos.
Contudo, para que se verifique esta maior interação afetiva do professor
com os alunos, no sentido de estimulá-los a prosseguir conscientes da
importância de suas ações para o meio ambiente e a sociedade e torná-los,
também, apaixonados pela profissão escolhida, ao dar cor e vida às suas
visões de como deverão aplicar seus conhecimentos no mundo profissional,
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faz-se necessária uma mudança de paradigma não só quanto à sua formação,
mas principalmente quanto à sua atuação interpessoal e intrapessoal.
O primeiro capítulo discorrerá sobre a relação entre a educação no
Brasil e o professor, onde em tempos de capitalismo globalizado, a educação
de nível superior atravessa problemas relacionados à valorização do magistério
e à preocupação com a humanização da formação superior. O segundo
capítulo analisará a dualidade entre professor e educador em sala de aula,
discorrendo sobre os paradigmas na formação docente, as competências que
devem ser desenvolvidas na docência e o perfil esperado do novo educador –
o ‘mestre’. O terceiro e último capítulo levanta a questão e necessidade do
despertar dos mestres, a partir de uma mudança de paradigmas, profissional e
pessoal, trazendo a paixão para a sala de aula e, por fim, mostra que a figura
do ‘mestre’ já é real nos tempos de hoje, apresentando exemplos dessa paixão
de ensinar.
Todo o conteúdo desse trabalho está pautado em pesquisa bibliográfica
de grandes autores como Rubem Alves, Paulo Freire e Cláudio Saltini, entre
outros; artigos sobre questões inerentes ao assunto, no campo educacional e
entrevistas selecionadas em revistas e sites renomados.
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CAPÍTULO I
A EDUCAÇÃO NO BRASIL E O PROFESSOR
...Deus é maior que todos os obstáculos.
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A EDUCAÇÃO NO BRASIL E O PROFESSOR
“Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996.
Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional.
TÍTULO I
Da Educação
Art. 1º. A educação abrange os processos formativos que
se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana,
no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos
movimentos sociais e organizações da sociedade civil e
nas manifestações culturais.”
Qual seria a resposta mais apropriada para a mais comum das
perguntas, na área da educação: “O que o Sr. (a)
acha da educação no
Brasil?” O que se espera é aquela mesma resposta, denunciando falta de
verbas, a condição indigna dos professores, o baixo índice de aproveitamento
dos alunos, o alto índice de evasão etc. Mas isto todos já sabem. E será que
apenas com mais verbas estaremos melhorando a educação no país? Não. É
preciso, principalmente, mais inteligência e emoção, pois educação se faz
assim.
Na verdade, apesar de todas as condições adversas, há muitos
professores que amam seus alunos e sentem prazer em ensinar. Dessa forma,
conseguem transpor todas as coisas ruins e ao se darem, por amor à profissão
e aos alunos, se auto-carregam de ainda mais amor e aprendem, e ensinam , e
aprendem...
Em um país democrático, nada é mais importante para seu povo que a
educação. Ter um povo educado não significa que devam possuir diploma
superior, simplesmente. É necessário ter capacidade de pensar, discernir e
agir. Os conhecimentos adquiridos devem ser aplicados com ética, respeito ao
próximo e ao meio ambiente, consciência de desenvolvimento sustentável e
cidadania.
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Os professores e as escolas estão formando pessoas neste nível? Não.
Direcionando para o nível superior, os profissionais formados saem com
determinado tipo de conhecimentos, mas em sua grande maioria não têm
formação crítica – humanista. Estão cheios de informação, mas não sabem
pensar e não têm o homem e o meio em que vivem como suas principais
fontes de inspiração para o agir.
“Mas sempre foi ensinado assim”, dizem alguns professores. A rotina e
repetição de conteúdos e metodologias, do modo de ensinar, levam a
paralisação e estagnação. Segundo os gregos, o conhecimento só se inicia
quando o familiar deixa de ser familiar, quando nos espantamos diante dele,
quando ele se transforma num enigma.
Tem quem considere que, nas instituições de ensino superior – IES,
esses costumes e rotinas já estão enraizados e o processo de deformação já
atingiu um ponto irreversível. Será? Se assim for, então para que continuar
vivendo, se não há o que mudar, o que aprender, o que melhorar? Não,
sempre haverá um novo caminho a tomar, basta que haja vontade,
determinação e muita paixão para a mudança do paradigma estagnado.
Consta no Plano Nacional de Educação – PNE, que à União atribui-se o
papel de atuar na educação superior, função esta prevista na Carta Magna. E
as universidades públicas têm importante papel a desempenhar, seja na área
de pesquisas, como padrão de referência no ensino da graduação e, ainda, na
qualificação dos docentes de instituições públicas e privadas, para que atinjam
as metas previstas na Lei de Diretrizes e Bases – LDB, quanto à titulação
docente. Diz também que as IES têm muito a fazer, abrindo horizontes para um
futuro melhor para a sociedade brasileira, reduzindo desigualdades, a medida
que a elas compete primordialmente a formação dos profissionais do
magistério.
Em seu Capítulo 4 – relativo a Educação Superior –o PNE prevê a
implantação de planos de capacitação dos servidores técnico-administrativos
das instituições públicas de educação superior, e ainda, fala em estímulo, com
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recursos públicos federais e estaduais, às instituições de educação superior
para constituição de programas especiais de titulação e capacitação de
docentes.
As nossas IES passaram a ser avaliadas e qualificadas pelo número de
artigos científicos que seus cientistas publicam em revistas internacionais em
língua estrangeira, quantidade de professores pós-graduados, mestrados,
doutorados, pós-doutorados, na nota alcançada no tão discutido Provão etc. E
se houvesse critérios que as avaliassem por sua capacidade de fazer o povo
pensar, não seria interessante?
Assim, assistimos a uma série de conflitos na arena em que se
transformou a educação em nosso país. Por um lado o governo e as
instituições de ensino privadas pressionam os professores no sentido de se
especializarem e se aperfeiçoarem continuamente, por outro, na maioria, nem
um nem outro dão condições reais para que isso ocorra. Tal tipo de exigência é
altamente desejável, pois todo professor é acima de tudo um aluno, e deve
estar sempre aprendendo para poder, em sala de aula, ser capaz de ensinar a
aprender. Quando um professor se satisfaz com o que ‘já sabe’, a alma de seu
trabalho está morta, e educação tem a ver com vida, prazer. Verificamos isto
ao nos depararmos com um professor nato, aquele que trabalha sob as piores
condições, aquele que sabe que dinheiro nenhum paga o prazer de uma boa
aula, aquele que resiste em se aposentar, aquele que possui o ‘furor
pedagógico’, que sente que os alunos só terão esta chance de aprender, neste
momento de vida...
Essa melhoria da qualidade de vida, com vistas a um horizonte de futuro
melhor para o povo, depende muito da atuação dos professores, em também
ajudar na formação do sujeito (o aluno). Entendendo-se por sujeito alguém que
é capaz de pensar, decidir e atuar por conta própria, com suas capacidades
sensoriais, afetivas, imaginativas e racionais envolvidas nos processos de
perceber, compreender, decidir e agir. E para isto, eles devem se utilizar dos
processos que mais estiverem em consonância com o grupo, inundar a sala de
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aula de amor pelos alunos e paixão pelo que faz e ensina e, principalmente,
não terem medo de se expor ou errar.
''É triste falhar na vida; porém, mais triste é não tentar
vencer''. (Franklin Roosevelt)
''Fracasso é a oportunidade de começar de novo
inteligentemente''. (Henry Ford)
''Cada fracasso ensina ao homem algo que necessita
aprender''. (Charles Dickens)
I.1 - O capitalismo globalizado e a educação superior
Na primeira metade de nosso século, assistiu-se à emergência do
capitalismo monopolista. Com isso, modificou-se o método dominante de
produção da mais valia absoluta (capitalismo concorrencial) para a mais valia
relativa, onde a maquinaria domina o processo de trabalho, caracterizando-se a
submissão real do trabalho ao capital.
Atualmente, a partir do último quarto de século,
com a revolução
tecnológica (informática, biotecnologia, robótica e a sofisticação dos aparelhos
orientadores da opinião pública e agenciadores de comportamento), as megaorganizações e os super-desenvolvimento dos capitais especulativos, uma
série de novas determinações surgiram, e o capitalismo não pode mais ser
compreendido
conforme
anteriormente
descrito.
Nesta
passagem
do
capitalismo monopolista ao capitalismo globalizado também se verifica uma
modificação no método dominante de produção. A extração de mais valia
virtual se torna a mola propulsora da acumulação quando o trabalho científico
se transforma na principal fonte de valor econômico, produzindo informações
que, como bens intangíveis, são propriedades privadas do capital.
Não raro, se verifica uma abordagem voraz de determinada empresa do
mercado sobre alguém, por vezes até bem situado profissionalmente, através
de ofertas financeiras irrefutáveis. A detenção do conhecimento passou a ser
fator preponderante de domínio de mercado. Vale, nesta selva de pedra,
inclusive, “encantar” um profissional detentor de certo conhecimento que pode
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aumentar o poderio da concorrência, mesmo sem ter um lugar específico para
ele, mas só para retirá-lo do mercado.
Outro aspecto importante dessa nova fase do capitalismo é que não
mais se refere apenas a um sistema produtor de mercadorias, mas também de
subjetividades – modelizando semioticamente desejos, afetos, necessidades,
padrões estéticos, éticos e políticos, intervindo diretamente no inconsciente das
pessoas com a finalidade de reproduzir seus próprios ciclos (Guattari,1987,
p.213).
O capitalismo, portanto, captura as utopias das pessoas sob sua lógica
de dominação e lucro. Ele atua no inconsciente e move o desejo, a angústia, o
medo das pessoas; altera a sensibilidade que é modelada pela lógica do capital
e o desejo de alteridade é desviado para o consumo de produtos, para a posse
de objetos, ficando as relações coisificadas – o desejo de ter um grupo de
amigos é desviado para a posse de um tênis da moda, por exemplo. Ele
também cria moldes estéticos para a subjetividade: dando padrões de feio e
belo, o que dá status ou não (o tipo de roupa que devemos vestir, ou que
objetos devemos portar para sermos reconhecidos como importantes no nosso
grupo) etc. Dá, também, moldes a dimensão da ética: mutila nossa
sensibilidade perante o sofrimento alheio, nos desumaniza, altera noções de
justo e injusto, responsabilizando cada pessoa por sua exclusão, escondendo
as causas estruturais dessa exclusão. Logo, se alguém fica desempregado é
porque não estudou para trabalhar com tecnologias mais avançadas e
complexas, sendo responsabilizado por sua própria exclusão; se estuda e
consegue o emprego, o conseguiu porque estudou, se estuda e não consegue
o emprego é porque não estudou o bastante; contudo essa ideologia esconde o
fato de que mesmo se todos estudassem o bastante, não haveria emprego
para todos, pois não é a qualificação do trabalhador que gera postos de
trabalho. O capitalismo globalizado também produz imaginários, gerando certas
esperanças impossíveis de se cumprir, utopias alienadas etc. Ele transforma
qualquer coisa em valor de troca, já que a globalização envolve elementos de
produção e comercialização, relacionando-se à economia e às finanças.
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Na educação superior, esse capitalismo vem atingir diretamente
professores e alunos. No caso dos primeiros, tendo em vista que as IES
passaram a ter classificação / qualificação melhor conforme o número de
profissionais de ensino possuidores de diplomas, títulos, publicações
internacionais etc., e ainda, pela falta de um plano de cargos e salários bem
estruturado e que remunere efetivamente o exercício da profissão de docência,
os professores se despem de sua função principal, a de ensinar e ajudar na
formação do aluno para a vida em sociedade, para se transformarem em objeto
de desejo das instituições de ensino privadas, que existem em maior número.
Quando procuram um aperfeiçoamento não visam uma melhor atuação em
sala de aula, mas sim vislumbram ser possuidores de um objeto (diploma,
título, publicação, certificado de orientação formal de aluno de pós-graduação,
entre outros) que lhes dê reconhecimento, status pessoal e maior pontuação à
instituição que o acolha. No caso das instituições públicas, o objeto servirá para
uma maior pontuação de currículo dentro de um concurso público - com
salários maiores, gratificações de estímulo à docência, segurança e
estabilidade de emprego e salário garantido no final do mês – para professor
titular , adjunto ou outra especificação que o valha.
Quanto aos alunos, estes já chegam enraizados nesse sistema
capitalista deformador de consciências. Já adentram à sala de aula envolvidos
nesse processo consumidor do Eu pensador, estão muito preocupados
também em possuir um objeto (o diploma) que eles foram levados a achar que
tem valor por si só. Que o ‘simples’ fato de concluir um curso superior já os
colocam no mercado de trabalho, e mais, que sem este objeto eles não se
estabelecerão socialmente, muito menos conseguirão emprego.
É nesta sociedade capitalista globalizada em que vivemos que nossas
crianças estão crescendo, e se formando. Um futuro mais digno para elas
requer uma promoção e renovação, não por substituição de um modelo de
educação existente por outro dito melhor, mas sim pelo aprimoramento do
modelo existente em prol da melhoria do ensino brasileiro, principalmente o
universitário. Cabe, ainda, uma reformulação do sistema atual de controles
burocráticos. Principalmente, se faz necessária uma permanente avaliação dos
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conteúdos programáticos dos currículos dos cursos superiores, para que a
educação superior possa enfrentar as rápidas transformações por que passa a
sociedade brasileira.
I.2 - A valorização do magistério
Segundo o Plano Nacional de Educação – PNE, cujo objetivo central
visa a melhoria da qualidade de ensino, esta só poderá ser alcançada com uma
promoção, simultânea, da valorização do magistério. E para que isto ocorra,
indica que deve haver uma política global de magistério com atenção voltada
para a formação profissional inicial; as condições de trabalho, salário e carreira;
e a formação continuada, tudo concomitantemente.
O profissional de educação, no início de carreira, está cheio de planos e
idéias. Contudo, ao se depararem com a realidade do dia-a-dia na sala de aula
são, muitas vezes, tomados pelo desânimo. Ser professor é uma arte, se não a
mais bela, a mais brilhante e emocionante. Mas ao longo dos anos, vem
aumentando a pressão sobre a atividade do professor (sem contar as
condições administrativas e financeiras adversas), quer pelo acréscimo de
atribuições e responsabilidades a ele incutidas, quer pela expectativa de
resultados dos alunos. As mudanças da vida cotidiana das pessoas, advindas
em grande parte do progresso industrial e avanço das telecomunicações, tanto
no lado familiar quanto no social em geral, são fatores determinantes dessa
cobrança.
No
que
diz
respeito
à
família,
houve
uma
transferência
de
responsabilidades para o professor-educador. Em função do progresso
industrial e da mídia, ocorreu um aumento das necessidades de consumo, logo
do custo de vida, o que determinou a entrada da mulher (mãe) no mercado de
trabalho para possibilitar a sobrevivência da família neste novo contexto social.
Conseqüência disto, a educação dos filhos foi, quase totalmente, repassada
aos professores que deveriam suprir os anseios dos pais na formação sóciocultural
dos
filhos
e
as
expectativas
de
conhecimento
cultural
e
questionamentos sociais dos filhos. Com esta condição ocorrendo desde as
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suas formações de base, estes alunos chegam ao nível superior com menos
preparo pessoal do realmente necessitariam.
O
avanço das telecomunicações colaborou bastante para que
chegássemos a um quadro de depreciação da profissão. A Internet, apesar de
todas as suas qualidades, traz uma tendência ao individualismo, nela o aluno
se sente auto-suficiente – “ - Professor para quê?” Já a televisão, e outros
meios de comunicação, veiculam diariamente notícias e histórias mostrando as
facilidades com que algumas pessoas obtiveram ‘sucesso financeiro’,
mascarando, por vezes, a vida como ela realmente é para a maioria, que
associada ao elevado nível de desemprego e às baixas remunerações levam o
aluno a pensar: “- Estudar para quê?”.
Não obstante, a própria estrutura do ensino no país estimula a
depreciação do docente, através de suas reformas de ensino descontinuadas e
altamente politizadas são, via de regra, genéricas e abstratas, priorizando
metas quantitativas, onde o que importa são os índices sociais a serem
exportados para a comunidade internacional e a assinatura do programa
curricular que lhes deu origem. A maioria das reformas propostas e colocadas
em prática caracteriza-se por enfatizar mudança nos meios, recorrendo a
novos recursos da tecnologia educacional, e por condicionar os fins da
educação às necessidades da produção e do desenvolvimento econômico do
país. Nessa perspectiva, o professor aparece como um mero aplicador de
regras, planos e normas concebidas por especialistas e, como tal, não é ouvido
nem considerado no que diz respeito às mudanças possíveis no seu campo de
atuação, além de muitas vezes ser considerado pelo fracasso da escola e do
sistema.
E, ainda, a maioria não se baseia (ou baseou) na centralização de
decisões e descentralização das ações o que faz engessar escola e professor,
principalmente se pensarmos nas grandes diferenças regionais dentro de
nosso extenso país. As desigualdades regionais mostram-nos uma realidade
ainda mais difícil, quando podemos verificar que a nossa situação, se não
20
estivermos nos grandes centros, poderia estar pior, com ainda menos respeito
pelo profissional formador e orientador de tantos outros futuros profissionais.
Diante dessas, e outras, circunstâncias, vemos que ano após ano muitos
professores abandonam o magistério. Criar condições que mantenham esse
entusiasmo, dedicação e confiança nos resultados de um trabalho pedagógico
é de suma importância e necessidade, para que os professores vislumbrem
perspectivas de crescimento profissional e continuidade no processo de
formação, não só para a obtenção de títulos, mas porque querem e podem
fazer ainda mais pelos alunos. É preciso encontrar um modo de revitalizar a
experiência de educadores e educandos, que não seja pela busca desenfreada
por títulos e pontos na escala dos órgãos de financiamento.
A nova Lei de Diretrizes e Bases – LDB (Lei nº 9.394, de 20 de
dezembro de 1996) referencia esta valorização em seu texto:
“TÍTULO VI -Dos Profissionais da Educação
Art. 67. Os sistemas de ensino promoverão a valorização
dos profissionais da educação, assegurando-lhes,
inclusive nos termos dos estatutos e dos planos de
carreira do magistério público:
I - ingresso exclusivamente por concurso público de
provas e títulos;
II - aperfeiçoamento profissional continuado,
inclusive com licenciamento periódico remunerado para
esse fim;
III - piso salarial profissional;
IV - progressão funcional baseada na titulação ou
habilitação, e na avaliação do desempenho;
V - período reservado a estudos, planejamento e
avaliação, incluído na carga de trabalho;
VI - condições adequadas de trabalho.
Parágrafo único. A experiência docente é prérequisito para o exercício profissional de quaisquer outras
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funções de magistério, nos termos das normas de cada
sistema de ensino.”
Como previsto pela lei, esta valorização profissional deve ser embasada
por eficiente melhoria das instituições de ensino, quer no tangente aos espaços
físicos, instrumentos e materiais pedagógicos e de apoio aos meios
tecnológicos, quer no que diz respeito à formulação das propostas
pedagógicas, à participação dos profissionais da educação na elaboração do
projeto pedagógico e nos seus conselhos e, principalmente, quanto à
formulação de planos de carreira e remuneração do magistério e demais
profissionais a ela vinculados.
Todos aqueles envolvidos no processo de educação no país devem
buscar e primar pela “melhoria da qualidade do ensino, indispensável para
assegurar à população brasileira o acesso pleno à cidadania e a inserção nas
atividades produtivas que permita a elevação constante do nível de vida...” Um
compromisso que, no entanto, “não poderá ser cumprido sem a valorização do
magistério, uma vez que docentes exercem um papel decisivo no processo
educacional.” (PNE)
I.3 - O lugar do ser humano na educação tecnológica
“Quando se procede de uma classe social abastada
tem-se duas possibilidades: ou não olhar para nada ou
participar de uma possível transformação da realidade”
Walter Salles, diretor de Central do Brasil
Transformar a realidade de nosso país, através de um processo eficaz
de ensino-aprendizagem, para acompanhar o processo de mudança que marca
o mundo atual, é papel importante da educação. Para reflexão, podemos
perguntar: a educação hoje serve para o adestramento ou para dar ao
formando uma correta visão do homem e do mundo?
O ensino é um processo interativo e não uma simples instrução,
condição mais próxima do ‘adestramento’. Esta interatividade torna inevitável
22
uma adaptação e correção constantes do papel do educador e do sistema
educativo ao longo da evolução do educando e de toda a humanidade. Platão
(ano V A.C.) dizia que os vícios nos métodos de ensino podem levar a uma
falsa certeza ou a um saber falso, que é pior que a própria ignorância. Em
outras palavras, aprender mal é pior do que não aprender. As falsas ‘verdades’
causam mal maior do que a ignorância.
Pedro Poveda, sacerdote de Linhares – Espanha cuja existência
orientou-se por um compromisso a favor da formação humana, principalmente
dos mais pobres. Educador que fez de sua vida uma obra de fé no humanismo
e na educação popular, sempre considerou que um dos aspectos mais
importantes para o sucesso de uma metodologia de ensino é a simplicidade.
Dizia ele: “Dê-me uma vocação e eu lhe darei uma escola, um método, uma
pedagogia”. Para ele, mesmo carecendo de métodos adequados, de salas de
aula confortáveis ou recursos didáticos necessários, o processo pedagógico
não chega a estar comprometido se existir o fundamental: a vontade de ensinar
e o gosto pela atividade docente. Afinal grandes educadores nunca precisaram
mais do que discípulos.
A humanidade vive um processo acelerado de modificações e rupturas,
assim sendo, a educação, o conhecimento e a informação assumem papel
significativo neste processo de transição. A educação permanente surge como
uma proposta pedagógica estratégica que a insere na vida e dota os
educandos com ferramentas intelectuais que permitirão a adaptação às
incessantes transformações e às constantes solicitações do mercado de
trabalho e à evolução dos conhecimentos, tudo em prol de uma melhoria da
vida em sociedade e do meio ambiente em que vivem. O foco central do
processo é a aprendizagem efetivamente adquirida pelo aluno e que se reflete
no desenvolvimento do indivíduo, como cidadão, de modo que esses
processos privilegiem a aquisição de conhecimentos úteis, da capacidade de
raciocínio, de aptidões e de valores.
O desafio das novas situações e as exigências de adaptação, de
participação e de responsabilidade estimulam o homem a preparar-se física,
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intelectual e afetivamente para lidar com essas exigências. Como resposta aos
desafios da globalização, torna-se necessário qualificar profissionais para o
mercado, contudo deve ser acrescentado a essa qualificação um componente
de solidariedade como uma exigência ética. Deve-se ter um visão plena da
educação, que possibilite a realização da pessoa, para que, na sua totalidade,
aprenda a ser. A Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI,
segundo seu coordenador Jacques Delors, vê a educação ao longo de toda a
vida de uma forma mais completa, dizendo que ela se sustenta em quatro
pilares: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver juntos e
aprender a ser.
Como as tecnologias são complexas e práticas ao mesmo tempo, elas
vêm exigindo uma nova formação do homem que remeta à reflexão e
compreensão do meio social em que ele se situa. A LDB traz referências
explícitas e implícitas sobre tecnologia, mostrando a necessidade de revisão da
educação superior, uma vez que ela vem sendo desafiada por novas
oportunidades tecnológicas e sociais.
O que se pretende é chamar a atenção para o fato de que não são tão
isoladas as áreas de educação, tecnologia ou das relações sociais. Pontos
significativos,
como
a
ética,
precisam
ser
pensados
na
sociedade
contemporânea em virtude dos avanços científico-tecnológicos que vivemos.
Não
se
trata
apenas
do
conhecimento,
mas
do
resultado
desses
conhecimentos na vida de todos. Assim, podemos assumir que a educação
tecnológica serve para formar o indivíduo, na qualidade de pessoa humana,
mais crítico e consciente para ter a possibilidade de construir novas
tecnologias, fazer uso da crítica e da reflexão sobre sua utilização de forma
mais precisa e humana e, convivendo com o outro e participando da sociedade
em que vive, ter condições de transformar essa sociedade em termos mais
justos e humanos.
Etimologicamente, educação provém dos vocábulos latinos – educare e
educere -, tendo o primeiro o significado de orientar, nutrir, decidir num sentido
externo, levando o indivíduo de um ponto em que se encontra para outro que
24
se deseja alcançar; refere-se a promoção do surgimento de dentro para fora
das potencialidades que o indivíduo possui. A questão do educere, se volta
mais para o indivíduo no seu aspecto múltiplo de formação.
Na nossa sociedade, em quase todas as instituições ouvimos falar de
‘crise’, advinda da situação que estamos vivenciando, em virtude de novos
valores e princípios que vão sendo estabelecidos. Poderíamos entender a crise
como um período de transição, em todas as áreas, na busca de novos modelos
paradigmáticos.
A educação vive também sua crise, seja ela caracterizada pelos
objetivos e finalidades de suas propostas, seja pelos seus procedimentos ou
metodologias a serem seguidos. Com que modelo ela está comprometida?
Dominar técnicas modernas? Fazer com que o aluno saiba utilizar o
computador? Adequar o aluno às normas vigentes no campo político-social?
Formar o cidadão? Preparar a escola para competir com a televisão e internet?
Enfim, qual o modelo de educação que existe nos dias atuais?
Estamos em
plena transição de modelos. Na verdade, falta um certo entrosamento entre os
conhecimentos tecnológicos adquiridos em sala de aula e a interferência nas
relações pessoais e sociais, que a aplicação prática dos mesmos pode causar.
A prática existente do Eu-Isso nos leva a um produto de processo pedagógico
comprometido apenas com a atual lógica do mercado, da técnica pela técnica,
sem meditação e sem compromisso com valores em prol da felicidade humana.
Em face dessas novas mudanças que vêm ocorrendo em todas as
áreas, há que se estabelecer novos paradigmas para a compreensão e
interpretação dos fatos. Torna-se urgente pensar uma forma de conciliar os
conhecimentos que estão emergindo com uma filosofia de educação. A
dimensão interdisciplinar – em termos de unir educação e tecnologia – deve ter
como objetivo não dividir os saberes nem hierarquizá-los, mas sim trabalhá-los
como um todo capaz de integrar conhecimento, razão e emoção, em benefício
do desenvolvimento pessoal e social do homem. Isso implica mudanças nas
propostas pedagógicas e organizacionais do ensino superior, na formação
inicial e continuada dos professores e na práxis pedagógica.
25
Estudos recentes das tendências contemporâneas da educação
brasileira têm nos indicado a Pedagogia histórico-crítica como um dos modelos
que melhor correspondem às nossas necessidades e interesses e que,
também, possibilitam a formação mais crítica e adequada de nossos
educandos. Cabe aqui apenas enfatizar que há necessidade de integração dos
aspectos cognitivos com os afetivos e emocionais, pois ainda prevalecem os
aspectos cognitivos sobre os outros nesse modelo.
Não podemos pensar e fazer educação desvinculada do processo de
produção e das relações sociais, ou ainda, sem uma estreita relação com o
projeto de sociedade. Assim é que a educação precisa estar voltada para a
realidade, mais exatamente para transformá-la, para melhor. Cabe à educação
o papel de respeitar a cultura de seu povo, de sua gente e de sua história,
trabalhando com os dois lados desta história: o conhecido e o novo.
Em tudo isso que foi dito, a essência do aprendizado tem que ver com o
professor, aquele que administra, que testemunha, enriquece e dá vida a uma
série de processos que levam o aluno a aprender; a ele deve-se pedir a
‘mágica’ de orientar o aluno para sua formação pessoal e profissional em duas
óticas: disciplina e curiosidade. O professor deve, entre outras coisas, saber
mostrar ao aluno a beleza e o poder de pensar. Essa é a maneira de ver a
educação hoje, neste contexto de um mundo globalizado e portanto
materialista, onde o homem se torna um indivíduo coisificado por não saber
pensar.
É assim que este movimento, que nos leva a refletir sobre a qualidade e
o perfil dos profissionais formados pelas instituições de ensino superior, como e
para que eles são formados, remete-nos aos professores, que como docentes
são pressionados a formar com rapidez, no menor tempo possível e com a
melhor e mais atualizada preparação. É
papel dos professores de ensino
superior ter responsabilidade social em sala de aula, ou fora dela , como
educadores e formadores dos indivíduos que são, para melhor preparar seus
alunos para sua atuação na vida profissional e social.
26
CAPÍTULO II
O PROFESSOR E O EDUCADOR
“Nada pode pela felicidade de
outrem, aquele que não sabe ser feliz ele próprio”
Georges Synders
27
O PROFESSOR E O EDUCADOR
Para Rubem Alves, “o professor trabalha sem interesse e sem prazer,
apenas para obter um salário e usufruir dele”. A realidade da grande maioria
dos docentes de nossas escolas. A preocupação com a questão do salário, se
vai ou não suprir suas necessidades, se sobrepõe ao compromisso e
responsabilidades com a pessoa do aluno. Professor é uma profissão.
Na abordagem Zen, Osho (1999) faz-se clara a diferenciação entre
professor e ‘mestre’: o professor é aquele que ensina, é uma pessoa estudada,
erudita – conhece os escritos, porém pode ainda não se ter conhecido. Ele
pode dar instrução, informação, mas não pode trazer uma transformação ao
educando. Seu trabalho é direto.
Já o ‘mestre’ traz a transformação do seu discípulo, para que ele próprio
descubra a própria luz. O trabalho dele é indireto, pois funciona como um
agente catalisador – sua presença ajuda, facilita, orienta. Sua atuação é tal
como o sol da manhã, que simplesmente cria um clima magnífico para que as
flores se abram e os pássaros cantem. Portanto a iluminação do discípulo não
é trabalho direto do ‘mestre’, ela acontece através dele, da sua graça,
orientação, pois ele cria um campo de energia que favorece seu
acontecimento.
Difícil é o detalhamento do atributos do conceito de profissão. Na língua
portuguesa, adquiriu um sentido amplo de ‘ocupação’ ou ‘emprego’. Já para os
anglo-saxões, o termo é empregado para designar profissões liberais como
médico, advogado ou engenheiro. Sendo assim, os atributos dessas profissões
liberais foram transformados em requisitos para todas as atividades
profissionais que visem constituir uma profissão.
Sendo esses: o saber
especializado – ligado às práticas específicas que o profissional precisa
dominar, e que foram adquiridas através de uma formação estruturada; a
orientação de serviço – não exerce sua atividade por motivos altruísticos,
pauta-se em interesses particulares; código deontológico – que regula o
conjunto de deveres, obrigações, práticas e responsabilidades, decorrentes do
28
exercício da profissão; e, associação profissional – cujo objetivo central é o de
manter e velar pela ocupação e seus padrões pré estabelecidos.
Mas, como todas as profissões, a de professor possui algumas
especificidades, a saber: as acadêmicas – dos saberes e saberes-fazer; e as
pedagógicas – metodologias e técnicas utilizadas no exercício de suas
atividades. No ensino superior, as qualificações pedagógicas são desprezadas,
na grande maioria dos casos.
Quanto ao educador, este mesmo autor o define como aquele que
abraça a causa da educação com vontade e tem paixão pelo que faz. O
educador é vocação, que nasce de um grande amor, de uma grande
esperança. Sua questão maior está na motivação de seus alunos, na
construção constante de novos saberes. Contagia os alunos com esperança e
com a possibilidade da transformação de tudo em algo melhor.
O educador, com sua ‘estória’ pessoal, uma identidade especial
acentuada por suas experiências de vida, ‘embebedam’ de prazer e
curiosidade seus alunos. Para ele, cada aluno é uma figura importante neste
cenário, possui nome e estória. Ele se relaciona com o grupo e com cada um,
ao mesmo tempo. A emoção é uma constante em suas atividades, de vida e de
ensino. Com ele tudo fica mais colorido, belo e possível.
Comparando as características de um e outro, professor e educador,
nestes moldes, vemos que o primeiro foi engolido pelo ‘sistema’, tornou-se um
mero funcionário, sujeito a medição de produtividade e controle, sendo
gerenciado e administrado conforme sua excelência funcional, que é julgada de
acordo com os interesses institucionais. Educação, para esses professores,
significa submeter os alunos a um adestramento e a uma renúncia dos seus
conhecimentos prévios – eles devem dominar o ambiente da sala de aula com
seu saber, poder e autoridade. Já os educadores, que possuem uma
identidade própria, e ímpar, consideram que a interioridade de cada aluno faz
muita diferença, pois definem sua paixão, visão futurista, esperança e
soluções, por mais utópicas que sejam. E, por seus métodos sempre
29
inovadores, diferenciados, alegres e livres, eles se evidenciam como péssimos
funcionários e acabam por perder espaço nas instituições de ensino, tornandose cada vez mais ausentes.
Assim sendo, nossos professores – gerenciados – têm suas atividades
(seja em sala de aula, na pesquisa etc.) passíveis de mensuração e avaliação,
mas seu ensino fica difícil de ser avaliado. E, se em um país onde não se
consegue avaliar a educação, não há como pensar em educadores nesse
processo, conforme disse Rubem Alves (2000, p.23): “com seus conceitos
utópicos e existência prática proibida e, por isso mesmo, existência teórica
impossível”.
Em suma, apesar da ausência dos educadores no contexto educacional
de hoje, o lugar deles estará garantido onde houver um aluno pronto a sair do
lugar comum do ensino atual para entrar numa esfera superior , onde não há
espaço para a mesmice e a criatividade gera um ambiente alegre e
descontraído, cheio de amor e emoção.
II.1 - Principais paradigmas na formação docente
“Paradigma de Formação Docente:
matriz de crenças e princípios acerca da natureza e
objetivos da escola e da sua formação, que origina formas
específicas de formação de professores. Os programas
de formação que se integram num dado paradigma, são
suportados por um conjunto de pressupostos comuns que
diferenciam os objetivos prosseguidos em função de cada
paradigma.”
Carlos Fontes
“Para que formar professores?” é uma questão que deve ser alvo de
reflexão quando se pretende a construção de uma proposta de formação
docente. No mínimo, por respeito à natureza da sua função formadora, posto
que cabe a eles criar condições para que os educandos possam conquistar
autonomia, desenvolver a inteligência, a afetividade, o julgamento moral e a
responsabilidade social.
30
No pensamento de Kenneth M. Zeichner, todo programa de formação é
assentado numa dada postura ideológica. E que nenhum dos paradigmas
surgiram de forma isolada, pelo contrário, o que tem predominado são os
paradigmas híbridos. Ele distingui quatro paradigmas principais:
Paradigma Comportamentalista. Concepção de formação assentada numa
epistemologia positivista e na psicologia comportamentalista, valorizando a
dimensão tecnicista do ensino. O formação é baseada na aquisição de um
conjunto de técnicas pelo professor, para aplicá-las no processo de ensinoaprendizagem dos alunos. O sucesso do professor é medido pelo domínio
destas técnicas. Neste paradigma, está subentendida a idéia da educação
como uma ciência a ser aplicada. O professor entra como
um simples
executor de leis e princípios do ensino eficaz que foram concebidos e
experimentados por especialistas. Formação centrada nas técnicas de
ensino.
Paradigma Personalista. Concepção fundamentada numa epistemologia
fenomenológica, na psicologia perceptiva e desenvolvimentista, mas
também em princípios humanistas. Com programas de formação feitos à
medida das necessidades e preocupações dos professores, centrando-se
na formação do "eu" de cada professor. Os professores mais competentes e
maduros são referências, por serem julgados naturalmente mais eficazes.
Ao contrário do anterior, os conhecimentos e as competências dos futuros
professores não estão definidos à priori, embora haja uma preocupação
com a reorganização das percepções e convicções dos futuros professores.
Ignora o professor no processo formativo.
Paradigma Tradicional-Artesanal. Neste, o ensino é visto como uma arte e
os professores como artífices. A formação dos professores é encarada
como um processo de aprendizagem construído por tentativas e erros, que
todavia pode ser facilitada com a ajuda e a sabedoria dos seus praticantes
mais experientes. Trata-se do clássico modelo de mestre-aprendiz. Os
futuros professores também, como nos paradigmas anteriores, são vistos
31
como meros receptores passivos, não participando da determinação dos
conteúdos e orientação dos programas de formação.
Paradigma do professor reflexivo. Este baseia-se no pressuposto que não
há receitas antecipadas válidas para qualquer situação. Cada professor e
contexto educativo é único e irrepetível. Neste, a formação de professores,
ao contrário de fornecer receitas, deve preparar os professores para
desenvolverem capacidades de analisarem os efeitos do que fazem junto
dos alunos, escolas e sociedade. Usa como pressuposto a idéia de que
quanto maior for a consciência de um professor sobre as origens e
conseqüências das suas ações e das realidades que as constrangem, maior
é a probabilidade de o professor poder controlar e modificar quer as ações
quer os constrangimentos. Tem como tarefa fundamental desenvolver as
capacidades dos futuros professores para a ação reflexiva, o "espírito
crítico" sobre a sua prática e o contexto social e educativo vigente.
No processo de formação docente, é primordial a aquisição da
identidade de professor. Todo indivíduo busca sua identificação social através
de sua relação dialética com a sociedade. Sem o referencial do outro, ele não
se reconhece, e não se reconhecendo, não se identifica. Em outras palavras,
se ao ‘olhar’ para a sociedade (espelho) não recebe de volta a imagem que
projetou, parte em sua busca. Se o que percebe são reflexos confusos,
desnorteia-se e perde-se.
É nessa busca de identificação que devem estar pautadas as buscas de
formações e atualizações pelos professores. A progressão dos modelos de
organização da formação, ao longo dos anos, vêm propiciando cada vez mais
esta busca.
A Formação Integrada e a Seqüencial. A primeira integra componentes
científicos e pedagógicos. Existem muitas modalidades deste modelo. A
formação seqüencial é uma variante da primeira. Nesta, a formação
científica surge separada da formação pedagógica, embora esta seja dada
na sua seqüência.
32
A Formação Dual. A formação científica e a formação pedagógica são
encaradas como duas formações distintas, podendo ocorrer em momentos
bem desfasados.
A Formação em Exercício e em Serviço. Destinada a professores em
exercício,
a
formação
pedagógica
é
feita
nas
próprias
escolas,
possibilitando uma articulação entre a teoria e a prática. A formação em
serviço deriva-se da formação em exercício. Neste caso, a formação é
realizada numa instituição superior. Este modelo substituiu o anterior em
1988.
No processo de formação pedagógica, um profissional de educação
poderá exercer postos de docência, coordenação, direção, pesquisador etc.,
conforme o enfoque do curso formador. Direcionando o olhar para os
pesquisadores e os professores, vemos uma diferença básica entre eles que
reflete diretamente sobre sua prática. O professor sempre está se deparando
com obstáculos, ao contrário do pesquisador. Isto porque o professor tem um
‘contrato didático’ com a turma, que deve ser respeitado, e o investigador não,
sendo assim, pode agir mais livremente.
Nóvoa (1995) dirige-se ao foco da questão sobre formação, no que diz
respeito a formar e formar-se.
“ Há uma diferença fundamental entre formar e formarse. Até hoje os professores têm sido formados por grupos
profissionais diversos, sem que as suas próprias práticas
de debates e de troca de experiências tenham alguma vez
sido valorizadas. É tempo de os professores pensarem
em formar-se, assinalando-se as dimensões pessoais (o
eu indivíduo) e as dimensões profissionais (o eu coletivo)
nas quais este processo deve alicerçar-se”.
Falamos sobre a formação de professores, profissionais da educação,
mas onde se encontra o educador, citado anteriormente, neste processo? Não
há como falar de ‘formação do educador’, pois ele, para alguns, é apenas
ilusão, utopia; para as instituições ele é ‘persona non grata’, que foge
totalmente ao padrão que elas pregam de um ‘bom professor’; mas para alguns
‘eleitos’ , ele está apenas adormecido.
33
Não há pois o que formar ou gerenciar, ele está apenas a espera de ser
acordado. “E, para acordá-lo, uma experiência de amor é necessária” (Alves,
2000, p.27). O mesmo autor questiona porque razão não nos entregamos às
paixões, tão doces e irracionais, já que são “o segredo do sentido da vida”
(Ibidem, mesma página).
O educador: fonte viva de paixão, amor e sonhos, aquele que ousa falar
e escrever, e acredita que ele faz a diferença; que além dos valores éticos
possui coragem, pois a sua atuação envolve a formação de sujeitos ávidos de
atuarem na sociedade; e sempre se expõe ao abrir seu coração e se entregar
ao ato de educar, ele já está formado por natureza e é o que podemos chamar
de ‘belo adormecido’ da educação.
II.2 - As competências na docência
A noção de competência não é algo novo. Atualmente seu uso está cada
vez mais difundido nos discursos educacionais, e merece reflexão. Entretanto,
deixemos de lado as origens dessa noção, partamos para algumas definições
mais pertinentes.
No dicionário AURÉLIO, competência é: (1) “Faculdade concedida por lei
a um funcionário, juiz ou tribunal para apreciar e julgar certos pleitos ou
questões. (2) Qualidade de quem é capaz de apreciar e resolver certo assunto,
fazer determinada coisa; capacidade, habilidade, aptidão, idoneidade”. Ao
transferir a definição apresentada no Aurélio para o campo da docência,
podemos dizer que competência docente é a qualidade de apreciar e resolver
os assuntos da função docente. Falta-nos apenas definir o que é ‘função
docente’.
PERRENOUD (1993) vem tratando, nos dias atuais, a competência pedagógica
aliada a uma nova abordagem das práticas pedagógicas de formação de
professores e da profissão docente. Seus trabalhos permitem a apropriação de
novos enfoques sobre desigualdades sociais presentes nas práticas. Dentre
outros, são importantes seus argumentos sobre: a formação do professor,
34
tendo por base uma imagem explícita e realista da profissão; desenvolvimento
pessoal e autodomínio; diferenças e mudanças e a complexidade da formação.
NÓVOA (1992), nos seus estudos, trata de formação e de profissão docente, e
mostra que, historicamente, a formação não pode separar o eu pessoal do eu
profissional, uma vez que esta profissão é impregnada de ideais, afetividade e
valores e muito exigente quanto à persistência e ao relacionamento humano.
ZEICHNER (1993) investiga a relação entre a teoria e a prática docente e a
questão do professor reflexivo. Apoiando-se nas contribuições de SCHÖN, ao
enfrentar as complicadas situações da sala de aula, ZEICHNER avança, ao
considerar que a reflexão do professor sobre a sua prática deve ultrapassar os
limites da sala de aula, da disciplina e da escola e levar em conta o contexto
sócio-econômico, político e cultural, do professor e do aluno. Ao estimular o
professor a alcançar o contexto e as condições sociais, políticas e econômicas
que influenciam suas concepções e ação, ZEICHNER aponta para a
reconstrução das suas ações.
Agora, vejamos o que diz a Lei nº 9.394, a respeito da formação dos
profissionais de educação.
“TÍTULO VI
Dos Profissionais da Educação
Art. 61. A formação de profissionais da educação, de
modo a atender aos objetivos dos diferentes níveis e
modalidades de ensino e às características de cada fase
do desenvolvimento do educando, terá como
fundamentos:
I - a associação entre teorias e práticas, inclusive
mediante a capacitação em serviço;
II - aproveitamento da formação e experiências
anteriores em instituições de ensino e outras atividades.”
A partir das definições de competência, direcionadas para a docência, e
levando-se em consideração o que exige a lei quanto a formação dos
profissionais de educação, podemos traçar uma linha de raciocínio sobre o
assunto.
35
Vivemos nos últimos tempos sob o impacto de alterações e rupturas de
paradigmas científicos, éticos e culturais, produzidos ao longo da chamada
modernidade, trazendo as crises de identidade. A aplicabilidade prática dos
ensinamentos adquiridos pelos professores, nos cursos de formação básica e
continuada, torna-se alvo de análises por parte de investigadores. Evidencia-se
a dificuldade de associação entre teoria e prática, o que impulsiona a uma ação
ditada pelos vícios da repetição do hábitus.
Os docentes ativos, incentivados à luta concorrencial por recursos de
pesquisa, são levados a privilegiar o individualismo de suas investigações,
retirando-se da sala de aula, dedicando tempo reduzido ao esforço formador
dos profissionais da nova geração. Já a formação profissional e pessoal dos
alunos no ensino superior fica problematizada em virtude das seguintes
situações:
a primeira, está centrada na indecisão do jovem em relação à carreira
que deseja seguir, muitas vezes a escolha vocacional acontece muito cedo e o
mercado torna-se restrito diante da globalização da economia e de seus
reflexos no mundo em desenvolvimento;
a segunda, é o advento do “novo” em relação à formação pessoal do aluno,
onde questões como a aquisição do domínio da linguagem acadêmica, a
incorporação de atitudes e valores próprios da carreira escolhida, o
conhecimento dos espaços físicos, a mudança de grupo social com formação
de novas amizades, são significativas para a construção do seu conhecimento
e formação de novos conceitos; e
a terceira diz respeito à hegemonia da universidade, questionam se a
universidade ainda possui a exclusividade dos conhecimentos que ensina e
que produz ou se as empresas não seriam mais ágeis e capazes para formar
os profissionais de que precisam.
A compreensão, por parte dos professores,
da emoção inerente à
introdução da novidade na vida dos alunos, permite abreviar por meio de
36
comunicação adequada, o tempo de adaptação e a maneira pela qual ela se
dá. Assim, o docente possibilitará condições ao aluno de adquirir autonomia,
criatividade e curiosidade de espírito e no ensino, definindo suas aptidões para
a área escolhida. A forte relação estabelecida entre o professor e o aluno
constitui o cerne do processo pedagógico, é a fonte de energia necessária para
as trocas de conhecimentos inerentes ao processo educativo.
O trabalho docente deve estar centrado na apresentação dos
conhecimentos sob a forma de problemas a resolver, situando-os num contexto
e numa perspectiva que possibilitasse ao aluno a sua solução e o
estabelecimento de relações com outros conhecimentos e situações mais
abrangentes. A relação pedagógica estabelecida nesse processo permite o
pleno desenvolvimento da personalidade do aluno, o respeito à sua autonomia
e, neste ponto de vista, a autoridade de que os professores estão revestidos
não se baseia numa afirmação de poder, mas no livre reconhecimento da
legitimidade do saber.
Vem se discutindo, com mais intensidade, a questão da formação de
professores, tomando-a como base em questões, como, o problema da
defasagem entre a preparação oferecida pelas escolas de formação de
professores e a realidade da atividade prática futura. É criticada a inadequação
dos cursos na preparação de profissionais competentes para o exercício de
suas atividades. Mas, poucas são as reflexões que buscam constatar quais
deveriam ser os conhecimentos apreendidos, as atividades e comportamentos
a serem adquiridos e as necessidades concretas da clientela a que a escola
deveria, competentemente, responder.
No atual paradigma de formação de professores – o reflexivo, a
competência é considerada como a capacidade de agir eficazmente, em um
determinado tipo de situação, apoiada no conhecimento, mas sem limitar-se a
ele. Nesse sentido, para se adquirir competência, toma-se como base a
combinação entre o conhecimento construído e armazenado e o conhecimento
prático reflexivo, criando condições para que os educandos desenvolvam suas
capacidades, o que envolve a ação-reflexão-ação sobre a prática.
37
Sobre essas competências, serão comentadas as opiniões de dois
autores importantes.
MASETTO (1998) identifica as seguintes competências específicas:
1. “A docência em nível de ensino superior exige do candidato, antes de
qualquer coisa, que ele seja competente em uma determinada área do
conhecimento”. (A referida competência constitui o domínio do conhecimento
básico de uma determinada área, além de uma experiência profissional. O
conhecimento e prática profissional adquiridos deverão ser constantemente
atualizados).
2. “A docência no nível superior exige do professor domínio na área
pedagógica”. (O domínio na área pedagógica constitui o ponto mais carente
dos professores de nível universitário, ou porque não tiveram oportunidade de
entrar em contato com essa área, ou porque a vêem como algo supérfluo ou
desnecessário para a atuação na docência).
Segundo MASETTO (1998), não podemos falar de profissionais de
educação que não dominem, pelo menos, quatro grandes eixos:
O conceito de processo ensino-aprendizagem;
O professor como conceptor e gestor do currículo;
A compreensão da relação professor / aluno e aluno / aluno;
A teoria e a prática básica da tecnologia educacional.
3. “O exercício da dimensão política é imprescindível no exercício da docência
universitária”. (O professor, para desempenhar a atividade docente, na
qualidade de cidadão, deve ter uma visão de homem, de mundo, de sociedade,
de cultura, de educação e de política e deve ser alguém comprometido com o
seu tempo, sua civilização e sua comunidade).
Para PERRENOUD (1999), a noção de competência designa a
capacidade de mobilizar diversos recursos cognitivos para enfrentar um tipo de
situação. Essa definição insiste em quatro aspectos:
38
1. As competências não são saberes, ou atitudes, mas mobilizam, integram e
orquestram tais recursos;
2. Essa mobilização só é pertinente em situação singular, mesmo que se possa
tratá-la em analogias com outras situações, já encontradas;
3. O exercício da competência passa por operações mentais complexas,
subentendidas por esquemas de pensamento que permitem determinar (mais
ou menos consciente e rapidamente) e realizar, de modo mais ou menos
eficaz, uma ação relativamente adaptada à situação;
4. As competências profissionais constroem-se, em formação, mas, também,
ao sabor da navegação diária de um professor, de uma situação de trabalho à
outra.
Ainda segundo esse mesmo autor, a competência é entendida como um
processo de construção e reconstrução contínuo e permanente, realimentado
continuamente
pela
diversidade
das
práticas.
Sua
abordagem
por
competências convida os professores a refletirem nas suas práticas, a partir
das seguintes referências:
1. Considerar os conhecimentos como recursos mobilizados (constitui recurso
para identificar e resolver problemas, para preparar e para tomar decisões. Só
vale quando disponível no momento certo e quando consegue “entrar em
sintonia” com a situação);
2. Trabalhar regularmente por problemas ( um estudante será levado a
construir competências de alto nível somente confrontando-se, regular e
intensamente, com problemas numerosos, complexos e realistas, que
mobilizem diversos tipos de recursos cognitivos);
3. Criar meios de ensino (situações interessantes e pertinentes, que levem em
conta a idade e o nível dos alunos, o tempo disponível, as competências a
serem desenvolvidas);
39
4. Negociar e conduzir projetos com seus alunos (a negociação é uma forma
não só de respeito para com os alunos, mas, também, um desvio necessário
para implicar o maior número possível de alunos em processos de projeto ou
solução de problemas, para isso o professor deve saber ouvir as sugestões e
as críticas dos alunos, lidando corretamente com as situações);
5. Adotar um planejamento flexível e indicativo e improvisar (tudo dependerá do
nível e do envolvimento dos alunos, dos projetos implementados, da dinâmica
do grupo na aula);
6. Implementar e explicar um novo contrato didático (o papel do aluno é
envolver-se, participar de um esforço coletivo para elaborar um projeto e
construir, na mesma ocasião, novas competências);
7. Praticar uma avaliação formadora em situação de trabalho (a avaliação
formativa integra-se quase que “naturalmente” à gestão das situaçõesproblema); e
8. Dirigir-se para uma menor compartimentação disciplinar (uma ou mais
ancoragens disciplinares e uma forte reflexão epistemológica são necessárias
para conduzir projetos de ação sem desviar-se do projeto de formação que dá
sentido ao curso).
O referencial em que PERRENOUD se inspirou tenta, pois, apreender o
movimento da profissão, insistindo em dez grandes famílias de competências.
Contudo, devemos admitir que nenhum referencial pode garantir uma
representação consensual, completa e estável de um ofício ou das
competências que ele operacionaliza. A seguir serão apresentadas, de maneira
sucinta, as dez famílias do seu livro ‘10 Novas Competências para Ensinar’.
1. Organizar e dirigir situações de aprendizagem. É despender energia e tempo
e dispor das competências profissionais necessárias para imaginar e criar
outros tipos de situações de aprendizagem, que as didáticas contemporâneas
encaram como situações amplas, abertas, carregadas de sentido e de
40
regulação, as quais requerem um método de pesquisa, de identificação e de
resolução de problemas.
2. Administrar a progressão das aprendizagens. Significa um processo
estratégico concebido em uma perspectiva de longo prazo, cada ação sendo
decidida em função da sua contribuição almejada à progressão ótima das
aprendizagens de cada um.
3. Conceber e fazer evoluir os dispositivos de diferenciação. Diferenciar o
ensino significa organizar diferentemente o trabalho em aula, aplicando em
uma escala maior os reagrupamentos, as interações, as regulações, o ensino
mútuo e as tecnologias da formação.
4. Envolver os alunos em suas aprendizagens e em seu trabalho. Cada
professor espera alunos que se envolvam no trabalho, que manifestem desejo
de saber e vontade de aprender. A motivação ainda é tida, com demasiada
freqüência, como uma preliminar, cuja força não depende só do professor,
mas, de condições necessárias de ordem didática, epistemológica e relacional.
5. Trabalhar em equipe. É uma questão de competência e pressupõe,
igualmente, a convicção de que a cooperação é um valor profissional. Mas,
saber trabalhar em equipe é também, paradoxalmente, saber não trabalhar em
equipe quando não valer a pena. A cooperação é um meio que deve
apresentar mais vantagens do que inconvenientes.
6. Participar da administração da escola. Os professores não são os únicos
atores da educação chamados a construir novas competências. O pessoal
administrativo também deve aprender a delegar, pedir contas, conduzir,
suscitar, caucionar ou negociar projetos, fazer e interpretar balanços, incitar
sem impor, dirigir sem privar.
7. Informar e envolver os pais. No cotidiano escolar, são os professores que
encarnam o poder da escola, opinando sobre o caráter restritivo de seus
horários, de suas disciplinas, dos “ deveres” que ela atribui, das normas de
excelência, da avaliação e da seleção que decorrem disso. Onde as coisas dão
41
certo, observa-se, em geral, uma grande capacidade de cada parceiro em
considerar o ponto de vista e as expectativas do outro. Informar e envolver os
pais é,
portanto, uma palavra de ordem e, ao mesmo tempo, uma
competência. Esta competência está mais voltada para os primeiros níveis de
ensino.
8. Utilizar novas tecnologias. A escola não pode ignorar o que se passa no
mundo. As novas tecnologias da informação e da comunicação transformam
espetacularmente não só nossas maneiras de comunicar, mas também de
trabalhar, de decidir, de pensar. Seu uso, porém, não deve ser colocado como
no centro da evolução da profissão de professor, particularmente na escola de
ensino fundamental.
9. Enfrentar os deveres e os dilemas éticos da profissão. Falar da educação
para a cidadania implica não se limitar a boas intenções, mas, criar-se
situações que facilitem verdadeiras aprendizagens, tomadas de consciência,
construção de valores e de uma identidade moral e cívica.
10. Administrar sua própria formação contínua. Esta competência condiciona a
atualização e o desenvolvimento de todas as outras. A formação contínua
demanda uma renovação, um desenvolvimento de competências adquiridas na
formação inicial e, às vezes, a construção, se não de competências
inteiramente novas, pelo menos de competências que se tornam necessárias
na maior parte das Instituições.
Efetuando uma análise final, considerando-se tudo que foi relatado
anteriormente, podemos chegar a compreensão de que apesar de tudo e
todos, um bom profissional de ensino , além de dominar o conteúdo da sua
disciplina e ter clareza de seus objetivos, deverá estar em dia com os assuntos
gerais, da atualidade, trazendo a discussão para dentro da sala de aula de uma
forma clara e livre. Assim estará não só construindo o conhecimento, mas
aplicando-o nas questões da vida, valorizando a visão crítica e o pensamento,
contribuindo para a formação do caráter, da ética, acentuando a visão da vida
em sociedade, onde o direito de um termina quando começa o do outro. Tudo
42
isto associado a uma postura ética e moral, não necessariamente perfeita pois
o professor não é um Deus e sim humano como qualquer pessoa, mostrando
que aquilo que fala é coerente com o que faz.
As técnicas pedagógicas devem ser adequadas ao grupo e às
necessidades da disciplina, com uma metodologia atual, iterativa e prática. A
visão do grupo como um todo propicia a iteração entre eles, facilitando a
relação aluno-aluno, que associada a acessibilidade e tolerância do professor,
com sua linguagem compatível de bom comunicador, e respeito pelo
conhecimento que o aluno traz, produz uma bela relação professor-aluno.
Todos sob a direção do educador, que deve estar motivado e feliz,
passar paixão pelo que ensina e faz, contagiando os alunos com sua energia
positiva e alegria, fornecendo não a motivação, que é pessoal, mas
incentivação, expectativa, curiosidade, interesse em conhecer mais e mais
sobre o assunto e esperança, pois nada está concluído e podemos sim alterar
a nossa realidade. O (re) conhecimento da realidade social, do meio cultural,
dos alunos associado às suas próprias experiências de vida, são essenciais.
Dessa forma sua autoridade em sala será definida, na base do respeito pelo
conhecimento, experiência, afinidades e posicionamento pessoal diante do
grupo.
O saber improvisar e adaptar-se às novas situações é inerente à sua
função docente. A
busca de novos procedimentos, a partir de um
conhecimento sobre as necessidades e demandas do grupo, faz parte do ato
reflexivo sobre sua própria atuação. Ele deve estar em evolução contínua com
relação à sua atuação em sala de aula e à sua formação, que deve ser
continuada.
II.3 - O perfil de um novo educador
Como uma primeira consideração, surge como preocupação a reflexão
acerca dos paradigmas que permeiam a utilização de novos meios didáticos na
educação, já que a diferença didática não está no uso ou não das novas
43
tecnologias, mas na compreensão das suas possibilidades. Mais ainda, na
compreensão da lógica que permeia a movimentação entre os saberes no atual
estágio da sociedade tecnológica.
As possibilidades de configuração do profissional da educação pela
interação virtual, num processo de interlocução de saberes coletivos que se
formam e transformam pela navegação nas ‘infomarés’ da informação, deve
ser uma perspectiva abordada. Uma formação que não pode acontecer pela
adição da educação com as novas tecnologias, uma formação que esteja
embasada e refletida pela teoria e prática do educador.
A excessiva individualidade, característica marcante do profissional da
educação que tem dificuldades em socializar os materiais e textos que produz,
são postos em cheque pela ética da rede. Quando disponibiliza informações
elas já não são somente suas, fazem parte do mundo virtual. Essa
predisposição à socialização dos conhecimentos e produções que podem ser
vivenciadas na rede pode criar uma cultura nova entre os docentes: a ‘entreajuda’ e a ‘fraternura’. A essência está nas possibilidades de interação que
permite e nas novas formas de partilhar que pode influenciar.
O educador precisa buscar a superação do individualismo pedagógico,
no qual ele busca soluções isoladamente para resolver as questões do
processo ensino-aprendizagem. Uma mudança de percepção do mundo e do
funcionamento cognitivo, implica em preparo do educador, em acesso aos
conhecimentos de sua área, das concepções de aprendizagem e da utilização
dos meios tecnológicos.
Um profissional capaz de mediar a interação aluno-computador ganha
cada vez mais espaço nos meios acadêmicos. A causa disso é que sem esse
profissional, devidamente capacitado, o potencial, tanto do aluno quanto do
computador, certamente será subtilizado. Na sua intervenção, o que deve
ocorrer é a percepção da disciplina sendo desenvolvida, trabalhada através da
informática como meio e não como um fim.
44
Continuando a discorrer sobre o tema, o novo educador deve estar
ciente que sua responsabilidade social como docente – orientador de
consciências, só começa a ter sentido e efetivamente pode se expressar
quando ele abre um canal de diálogo com o grupo e se inclui na atitude Eu-Tu,
no seu projeto pedagógico pessoal.
O educador deve estar consciente de que nada está acabado, tudo
evolui no tempo. E, pensando assim, deve tomar consciência da sua própria
inconclusão. Essa atitude facilita sua visão do educando, de forma mais
humana e pessoal. Ele deve ensinar a pensar certo, para isto deverá pensar
certo também, devendo então ter dúvidas, questionar e nunca estar
demasiadamente certo de suas certezas, pois ele deve assumir não ser o único
possuidor da verdade.
“Nenhuma formação docente verdadeira pode fazerse alheada, de um lado, do exercício da criticidade que
implica a promoção da curiosidade epistemológica, e do
outro, sem o reconhecimento do valor das emoções, da
sensibilidade, da afetividade, da intuição ou advinhação.
Conhecer não é, de fato, adivinhar, mas tem algo a ver,
de vez em quando, com adivinhar, com intuir. O
importante, não resta dúvida, é não pararmos satisfeitos
ao nível das instituições, mas submetê-las à análise
metodicamente
rigorosa
de
nossa
curiosidade
epistemológica”. (FREIRE, 1996, p.51)
A humildade na hora de revelar o desconhecimento de dado assunto,
revela uma conduta coerente com sua consciência de ‘ser inconcluso’. Ensinaraprender deve ser tomado como base para a transformação da realidade. A
sua prática educativa deve mostrar uma postura política, sempre respeitando a
visão do aluno, indispensável para desbancar a desesperança. O novo
educador deve deixar bem claro a seus alunos que a realidade não precisa
necessariamente ser a que vivemos, podemos lutar por mudá-la, faz parte de
nossas opções de vida e de liberdade.
E, primordialmente, o perfil de um novo educador não pode ser privado
da componente da afetividade. O despertar, o estímulo e o desenvolvimento do
gosto pelo querer bem, com alegria e paixão, devem estar presentes em cada
45
fala, ato e sentimento do educador. O que não diminuirá sua seriedade e
credibilidade como docente. Antes, ele deve ter a coragem de estar aberto a
este envolvimento com o grupo, pois desta forma ficará totalmente exposto e
suscetível a todo tipo de crítica, ao erro – que é inerente ao ser humano. Exporse é um risco, mas o retorno de suas ações será altamente compensatório e
produzirá um clima intenso de amor, realização e conivência entre ele e o
grupo. Tudo porque o amor é a energia mais poderosa do universo. O amor é
uma energia aglutinante, é a força que une, que liga. Por meio dessa energia
sentimos que fazemos parte da criação e que, ao mesmo tempo, podemos criar
também.
O novo educador se concretiza na figura do ‘mestre’, aquele que ao
invés de alunos tem discípulos. Este ‘mestre’, que insere no contexto curricular
peculiaridades ímpares, vivências únicas, que auxiliam na melhor compreensão
do conteúdo do conhecimento estudado e, ainda, contribuem para a formação
de novos homens (e mulheres), agentes ativos de modificações sociais em prol
da felicidade humana.
O ‘mestre’, aquele que os alunos não cansam de escutar , horas a fio,
pois mesmo só ele falando,
há muita troca de informações e idéias pela
energia que flui no ambiente.
“A relação afetiva que se estabelece, não é piegas, é
um vínculo entre seres humanos, é uma relação de afeto
no contexto da educação (Eu-Tu). A partir desse
pressuposto, não acreditarei jamais que a televisão ou
computador possam educar. Para que haja conhecimento
e que este evolua para um ‘saber ‘precisamos estabelecer
uma relação humana, sem a qual não há possibilidade
alguma de o indivíduo crescer.” (SALTINI, 2002, p.70)
Uma ideologia é necessária, sem ela a vida torna-se sem sentido. Para
eles, que as têm bem definida, fica mais simples mostrar o mundo. Mas, muitos
46
não compreendem seus comportamentos, atitudes e pensamentos, por mais
simples que sejam. Saltini (2002, p.75) diz que
“...não adianta mostrar o mundo a quem não tem
capacidade lhe dar significado, interagindo assim com ele.
É preciso mostrá-lo a quem busca simbolizá-lo, inventá-lo,
pois, para esse sujeito, um simples sorriso é o suficiente
para dar-lhe vida...”
Os alunos, em desenvolvimento constante, buscam satisfazer suas
necessidades interiores, gerando certo interesse em tudo que possa estar
envolvido nesse processo. Eles buscam seu equilíbrio interno, sempre em
interação com o meio em que vivem. Esta ideologia serve para promover e
fundamentar uma nova atitude do educador, um novo gesto, uma nova
‘postura’ (SALTINI, 2002, p.85). Nada mais salutar do que atender às
curiosidades e interesses de seus alunos, intercambiando os conhecimentos
(cognitivo) e o prazer (afetivo) em discorrer sobre eles e sua aplicabilidade na
vida e no meio em que vivemos.
Em se tratando de Ideologia, na nossa educação, podemos buscar
sustento na música de Cazuza: IDEOLOGIA.
“Meu partido, é um coração partido
E as ilusões, estão todas perdidas
Os meus sonhos, foram todos vendidos
Tão barato que eu nem acredito, ah, eu nem acredito
Que aquele garoto que ia mudar o mundo, mudar o
mundo
Freqüenta agora as festas do “Grand Monde”
Meus heróis morreram de overdose
Meus inimigos estão no poder
Ideologia, eu quero uma p’ra viver
O meu prazer, agora é risco de vida
Meu sex and drugs, não tem nenhum rock’n’roll
Eu vou pagar a conta do analista
Pra nunca mais ter que saber quem sou eu
Ah, saber quem eu sou
Pois aquele garoto que ia mudar o mundo, mudar o
mundo
Agora assiste a tudo em cima do muro, em cima do muro
Meus heróis morreram de overdose
47
Meus inimigos estão no poder
Ideologia, eu quero uma p’ra viver”
48
CAPÍTULO III
O DESPERTAR DOS ‘MESTRES’
“Nunca mostres o teu poema a um não poeta”
Ditado Zen
49
O DESPERTAR DOS ‘MESTRES’
O ato de despertar requer uma reflexão quanto ao posicionamento atual
da grande maioria dos nossos educadores. É importante fixarmos que na
relação professor – aluno, para ocorrer um desenvolvimento, torna-se
necessário a harmonia, o respeito e a percepção. Mas o que vemos,
corriqueiramente, são professores das faculdades, em sala de aula,
discursando para seus alunos. Enquanto fala, seus alunos entram e saem da
sala constantemente. Vê-se, claramente, uma falta de respeito mútuo, por parte
dos alunos com relação a pessoa do professor em sala e pelo que ele tenta
expor; por parte do professor, pelo fato de que ele não está preocupado com o
que pensam seus alunos, apenas faz seu discurso.
“De acordo com o pensamento de Piaget, o principal
objetivo da educação seria criar homens capazes de
inventar coisas novas e não apenas meros repetidores
daquilo que as outras gerações fizeram. A meta deveria
ser formar homens criativos, inventivos e descobridores;
pessoas capazes de criticar, que vão em busca de
verificação e não aceitam tudo o que lhes é proposto.”
(SALTINI, 2002, P.59)
Vivemos durante muitos anos dentro de uma sociedade fechada, em que
seu ponto de decisão está fora dela, dentro de outra sociedade – a matriz.
Seus governantes são a elite dominante, que se sobrepõe ao povo e o
transforma em objeto. A sua estrutura, rígida e autoritária, não permite
mobilidade vertical ascendente, nem tampouco descendente. É uma sociedade
de castas, onde há uma dicotomia entre o trabalho manual e o intelectual. O
filho de um sapateiro dificilmente será médico, assim como um filho de médico
não pode chegar a ser sapateiro, por preconceito do pai. A educação é
direcionada conforme os interesses da elite dominante, que procura manter os
mais pobres dentro de suas castas dando-lhes a educação necessária para
isto. Aqueles que despontam dentro do grupo, e visam ascender à casta
superior, são considerados problemáticos e normalmente são perseguidos e
desmotivados (FREIRE, 1979).
50
Esse paradigma de educação dominante tem como marcas a
supervalorização do conteúdo como verdade absoluta, pronta e acabada, a
aprendizagem como sinônimo de adestramento com caráter terminal, a
desvalorização das experiências, do entorno. Inscreve-se igualmente, a
hierarquização, a excessiva burocratização, a rigidez curricular, a normatização
exacerbada, relações de poder autoritárias e a supervalorização do consenso
como instrumento de manutenção do status quo dominante. Uma educação e
uma escola reprodutoras da diferenciação social e da exclusão, privilegiando
no homem, a sua mente.
Neste
processo
autoritário,
muitos
professores
acabam
sendo
envolvidos, às vezes sem perceberem, e manipulados pelos detentores do
poder para agirem conforme seus interesses. Exemplificando, observamos que
muitos professores consideram a informação como um dos principais
elementos na escola, associando conhecimento e saber ao educando.
Podendo até indicar os motivos da crise da educação tradicional, que valoriza o
aspecto informativo e não o transformador. O fator de maior importância na
educação é o desenvolvimento do pensamento crítico, sem ele nada terá valor.
Qualquer produto, para ser transformado, necessita de maquinaria
adequada, criatividade e energia. A energia está relacionada a parte afetiva,
da emoção. É preciso boa dose de energia para movimentar, trabalhar uma
estrutura existente a fim de modificá-la. O homem é um ser movido pelas suas
pulsões, traduzidas em aspectos amorosos, sentimentais, emocionais, afetivos,
que funcionam como contatos energéticos unindo seus elementos pessoais. O
despertar do ‘mestre’ deverá estar assim embasado, pois é de maior
importância o desenvolvimento de pensamento crítico e ninguém consegue
pensar se não tiver a emoção (energia) adequada para mobilizar seu
pensamento.
O ensino implica sempre uma escolha de uma dado paradigma, e
qualquer opção implica sempre a escolha de um dado modelo de sociedade.
Portanto, a relação afetiva a ser desenvolvida no contexto educacional não
deve ser piegas, mas sim um vínculo entre seres humanos numa relação
51
dialogal Eu-Tu. O ‘mestre’ será despertado dentro do educador quando este
buscar o prazer em dar aula no afeto trocado com os alunos, que se
transformará em interesse na aula e provocará interação com o meio ambiente
e social.
Este despertar tem a ver com a iluminação do ser educador, e está
fadado a ser súbito pois não se trata de aquisição.
Isto é chamado de
transmissão especial, nada é transmitido ao iluminado, mas algo transpira e o
milagre acontece. A abordagem Zen é muito especial porque trata do estado de
consciência mais comum: a mente comum, a simplicidade da vida,
espontaneidade, observação, estado meditativo, sensibilidade, consciência
alerta. Osho (1999, p.36) nos revela que
“Este acordar imediato, este súbito acordar, é um
dos maiores problemas para os outros, para os que não
compreendem o Zen e sua abordagem. Para estes, a
realização significa um fenômeno gradual, mas para o Zen
é sempre súbito, é sempre imediato. E ele pode ser
imediato pela simples razão de que se trata da sua
natureza que se abre. Qualquer ponderação que você
permita penetrar lá dentro de você, será capaz de fazer o
milagre.”
Este despertar, de tão desejado, já foi alvo de artigos, livros e filmes. Um
exemplo clássico é o filme “Mr. Holland: Adorável Professor” , que mostra a
transformação de um sujeito comum, desejoso de mais tempo para sua
profissão – músico – e de ganhar dinheiro simultaneamente, em um professor
que ascendeu a ‘mestre’ na sua sala de aula.
Uma história muito feliz em sua composição, pois mostra claramente o
milagre. Um homem comum, de vida comum como tantos outros, se transforma
de súbito, como que iluminado por sua vida. Após passar por várias
adversidades administrativas e desestímulos à continuidade na sua nova
ocupação, resolve-se pela mudança de atitude como docente e deixa fluir o
que possuía de melhor em seu interior: ele mesmo, transfigurado na sua paixão
52
pela música e na sua postura amorosa com seus alunos. Sua recompensa
maior foi a realização de seus alunos em sua disciplina e o que isto melhorou
nos posicionamentos pessoais seus e deles.
III.1 - A necessidade da mudança de paradigma
O despertar do ‘mestre’ vislumbra-se num novo caminho, firmado em
velhas utopias, que investiga a construção de uma educação verdadeiramente
cidadã, que busca recuperar a totalidade do ato de educar que, fincado nos
princípios de um paradigma emergente, acate a necessidade de apreender a
complexidade que envolve a educação em sua orgânica interatividade com a
realidade. Essa nova forma de ver o ato de educar faz gerar a ênfase na
diferença, no múltiplo, provocando rupturas na forma de pensar e fazer o ato
pedagógico, as relações sociais de exercícios do poder, a forma de encarar o
conhecimento e a afetividade.
A educação contemporânea, é assim desafiada a assumir um
compromisso com o futuro, "uma educação contestadora, superadora dos
limites impostos pelo Estado e pelo mercado, portanto uma educação muito
mais voltada para a transformação do que para a transmissão cultural"
(Gadotti, 2000, p. 13). Uma educação centrada no aprendizado como processo
contínuo, que alie conhecimento abstrato com experiência, que valorize a
divergência, a criatividade, a autonomia, o discernimento, o contexto, que
encoraje a explosão dos sentimentos, o desenvolvimento das relações sociais,
que se aproprie da tecnologia como forma de liberação e de libertação do
homem.
Educar com base nesse paradigma exige, dos educadores, enxergar o
mundo de forma mais holística, sistêmica, que
"...reconhece a interconectividade, a interdependência e a
interatividade de todos os fenômenos da natureza, e o
perfeito entrosamento dos indivíduos e das sociedades
nos processos cíclicos da natureza... tudo é relativo,
apenas provável, incerto e, ao mesmo tempo
complementar" (Moraes, 2000,p.136).
53
No processo de aprendizagem, o professor deve ter coragem de abrir-se
aos desafios de uma educação renovadora, contrastante com a tradicional. E, a
influência das emoções devem basear sua nova práxis. Ao se falar em
inteligência emocional, temos que ter em mente três emoções positivas:
alegria, prazer e amor. Essas três emoções é que permitem ao indivíduo
relacionar-se bem consigo mesmo e com o outro, e saber lidar com esses
sentimentos contribuem para a formação do indivíduo pró ativo (guiado por
seus valores, selecionados e interiorizados). Na área educativa, assim como
nas demais torna-se, portanto, fundamental aprender a "ler" as emoções das
pessoas que estão inseridas em nosso meio, e para isso nada melhor do que
nos colocarmos no lugar do outro, tentando entender o que a outra pessoa está
sentindo, e assim, podermos compreender melhor suas
atitudes. A partir
dessa compreensão é que o professor está apto a auxiliar o seu aluno a tomar
consciência de suas emoções. Só com a tomada de consciência é que se pode
unir razão e emoção.
Por outro lado, existem as emoções negativas, que são basicamente
três: raiva, medo e tristeza. Dentro de uma sala de aula, não é difícil encontrar
esses sentimentos nos alunos, assim como em um grupo de professores não é
difícil perceber tais emoções. Vemos que os maiores problemas no
relacionamento humano são causados pela falta de controle emocional.
Quando o professor não sabe lidar com seus próprios sentimentos, dificilmente
conseguirá lidar com os sentimentos de seus alunos, principalmente diante de
tantas atitudes que os aborrecem devido a um comportamento indesejado no
momento da aula, como a indisciplina, o deboche, as conversas paralelas, o
desinteresse pelo conteúdo que está sendo trabalhado. Portanto, para não se
violentar nem violentar o outro, o professor necessita que as emoções positivas
- alegria, prazer e amor - superem as negativas - raiva, medo e tristeza.
Bomtempo (1997) diz:
“A pouca atenção dispensada às aptidões do
coração vem sendo apontada como uma das causas do
mal-estar social, hoje caracterizado pela depressão,
angústia, estresse, hipertensão e ansiedade, que
atormentam o ser humano, faminto de afeto e
54
compreensão, buscando um pouco que seja de carinho e
atenção”. (p. 6)
Salienta-se que, além de docentes tecnicamente bem preparados e com
boas condições de trabalho, que levem um projeto pedagógico inovador e
apoiado tecnologicamente, é necessária uma relação afetiva entre educadores
e educandos que permita conhecê-los, acompanhá-los, orientá-los. Para se ter
um projeto completo, com chances reais de sucesso, há que se ter alunos
motivados, preparados intelectual e emocionalmente, com capacidade de
gerenciamento pessoal e grupal.
Uma vez que continuemos a fazer o que vimos fazendo, vamos
continuar obtendo os resultados que vimos obtendo. Se quisermos ter
realmente alguma resposta diferente, que garanta alguma possibilidade de
sucesso, temos que ousar fazer algo diferente. Introduzir de forma efetiva as
dimensões política e afetiva, garantindo a permanência dos eixos cognitivo e
técnico, exige uma postura docente diferenciada. Com uma auto-estima
elevada, deve ter consciência do seu papel como fator essencial de um
processo de melhoria da qualidade de vida de todos, não só suas ou de seus
estudantes, como da sociedade.
III.2 - A presença da paixão em sala de aula
Para Wallon, a personalidade é constituída por duas função básicas:
afetividade e inteligência. A afetividade vinculada às sensibilidades internas e
orientada para o mundo social, para a construção da pessoa; a inteligência, por
outro lado, vinculada às sensibilidades externas, e orientada para o mundo
físico, para a construção do objeto. A afetividade assume assim papel
fundamental no desenvolvimento humano. É um domínio funcional, anterior à
inteligência.
A afetividade é um termo amplo que engloba a emoção, o sentimento e
a paixão, sendo estes distintos entre si. Surgem em seu tempo, conforme as
condições maturacionais de atividades, o raciocínio. São às vezes confundidos,
apesar de possuírem formas de expressão bem diferentes. As reações
55
emocionais são ocasionais, instantâneas, diretas; os sentimentos caracterizamse por reações mais pensadas e duradouras; já as paixões são permeadas
pelo raciocínio, pela noção de realidade externa e pela busca da transformação
de seus desejos em realidade.
A paixão tem a ver com autocontrole. Aparece após os três anos de
idade e tem o poder de conter a emoção. O sentimento e a paixão envolvem a
representação, e esta extingue a emoção na medida em que a transforma em
paixão.
Wallon propõe três mecanismos pelos quais a emoção age sobre o
mundo social, quais sejam:
1. Contagiosidade : capacidade de contaminar o outro, de transmitir prazer
ou desprazer.
2. Plasticidade : expressão corpórea dos sinais da emoção (rubor,
contração muscular etc.)
3. Regressividade : capacidade da emoção de fazer regredir o raciocínio.
O autor lembra que foi a emoção que possibilitou ao homem a formação
de grupos, através de sua capacidade de despertar o espírito de colaboração e
cumplicidade de interesses. A emoção era então o único trunfo de que
dispunha o homem contra a ignorância diante da natureza.
O grande desafio é que se mantenha o equilíbrio entre emoção e
inteligência. A emoção deve ser submetida à atividade intelectual, evitando sua
absolutização e/ou desequilíbrio. A dissolução da emoção ocorre exatamente
pela transformação da emoção num objeto de atividade mental.
Pode-se dizer então que há uma relação de complementaridade entre
emoção e inteligência, e que o predomínio exacerbado de alguma das duas
pode ser prejudicial no sentido de um desequilíbrio no desenvolvimento do
sujeito.
56
Se o desenvolvimento humano perpassa por condicionantes históricos,
sociais e culturais, e estando este desenvolvimento configurado integralmente
nos âmbitos afetivo e cognitivo, as mesmas condições são válidas para a
aprendizagem, ou melhor, para o processo então dinâmico, dialético, sócioconstrutivo e inacabado de ensino-aprendizagem. Este apresenta-se assim
como um fenômeno social, que deve abarcar não apenas variáveis de ordem
intelectual, epistemológica, mas também a afetividade como constituinte do
homem, precedente e integrada ao âmbito cognitivo.
Costa (1995) elaborou a Escala do Desenvolvimento Pessoal e Social.
Para ele, essa escala é composta por degraus ou níveis, onde na base se
encontra a Identidade. O topo da pirâmide culmina com a Plenitude. Um perfil
de desenvolvimento desejável para um educador. Essa hierarquia de
sentimento e/ou necessidades está organizada da seguinte forma:
Identidade: Para compreender-se e aceitar-se e compreender e aceitar os
demais, o ser humano precisa ser compreendido e aceito.
Auto-estima: Só é capaz de amar verdadeiramente o próximo quem antes for
capaz de amar a si mesmo.
Auto-conceito: É a auto-estima projetada no campo da racionalidade,
permitindo à pessoa formar uma idéia positiva de si própria.
Auto-confiança: Apoiar-se, em primeiro lugar, nas próprias forças e saber que
pode contar com elas.
Visão de futuro: Só poderá ter uma visão positiva do futuro quem for capaz de
encará-lo sem medo.
Querer-ser: O sonho, a vocação e a vontade de crescer são frutos naturais de
uma atitude básica desejante diante da vida.
Projeto de vida: É o sonho com degraus, com metas, prazos e consciência dos
esforços e dos recursos a serem investidos na consecução
de um objetivo de vida.
Sentido da vida: É aquela linha pontilhada que une o ser ao querer-ser na vida
de cada pessoa.
Resiliência: Capacidade de resistir à adversidade e de utilizá-la para crescer
que, desenvolvida ou não, cada pessoa traz dentro de si.
Autodeterminação: O ser humano, quando a tem, é capaz de decidir por si
mesmo e de traçar seu próprio caminho.
57
Auto-realização: O ser humano não precisa chegar onde quer para relizar-se.
Basta ter a certeza de que está no caminho certo.
Plenitude: São aqueles momentos de culminância na vida de uma pessoa em
que o ser e o querer-ser se encontram.
Essa escala demonstra que as necessidades primordiais do homem,
após satisfeitas as suas necessidades vitais, estão relacionadas ao seu interior,
e quando o autor coloca a Identidade na base da pirâmide hierárquica,
percebemos que a aceitação é que será o auge do trabalho pedagógico, para
que todos os outros degraus possam ser alcançados. Aqui fica clara a
necessidade de uma relação bem afinada entre educador e educando.
É imprescindível que se considere, no ato educativo, a relação que o
sujeito
estabelece
como
objeto
e
suas
implicações
afetivas.
Consequentemente, a natureza da experiência afetiva (boa, ruim, prazerosa,
desagradável) depende da qualidade da mediação, a qual tem como principal
(mas não único) agente o educador. Estas considerações estendem-se ao
planejamento educacional, incluída aí a relação professor-aluno. O ponto
central transcende a questão de "o que ensinar" e migra à problemática de
"como ensinar".
Pode-se enumerar sinteticamente cinco decisões que devem ser
tomadas pelo educador que decide conduzir o seu trabalho de forma a
contemplar as implicações afetivas do mesmo, notadamente na relação que se
estabelecerá entre o aluno e o objeto de conhecimento estudado.
1. A escolha dos objetivos
•
Os objetivos têm que ser relevantes, não pragmáticos;
•
A escola não pode estar divorciada da realidade, e deve ter como
referência o exercício da cidadania e a inserção social.
2. O aluno como referência
•
Partir daquilo que o aluno já sabe, ou seja, de sua experiência individual,
social,
histórica
e
cultural,
(aprendizagem significativa).
para
levá-lo
ao
novo
aprendizado
58
3. Organização dos conteúdos
•
Respeitar a lógica de organização do conhecimento da área, evitando-se
uma deterioração das relações entre os alunos e objeto estudado.
4. Como ensinar?
•
A escolha dos procedimentos e atividades de ensino envolve a relação
professor-aluno no que ela tem de mais visível;
•
As atividades não podem estar desvinculadas do objetivo e devem ser
motivadoras;
•
Atenção ao desenvolvimento da atividade: clareza nas instruções,
intervenções oportunas do professor, feed-back etc.
5. Como avaliar?
•
A avaliação deve ser a favor do aluno;
•
O processo de ensino-aprendizagem é um processo interdependente, ou
seja, não depende só do aluno ou do professor;
•
Os resultados da avaliação devem servir para rever e alterar as
condições de ensino, visando o aperfeiçoamento do processo de
apropriação do conhecimento pelo aluno.
Na busca por significado o educador estrutura, organiza a consciência
de seu viver pedagógico. Num ato criador ele dá forma e vida aos desejos,
precisando para isto estar concentrado – corpo e alma envolvidos – para
desenvolver na educação esse desejo que traz o germe da paixão. Paixão que
precisa ser educada ... pelo exercício de sua arte.
III.3 - A vez do ‘mestre’
A postura do educador é sempre posta em discussão. Os resultados dos
processos de aprendizagem colocam à prova todo o sistema de educação, mas
são os educadores que aparecem de frente, e servem de anteparo para as
críticas e culpas. Num contexto geral, faz-se urgente a mudança de atitude e
postura do educador, diante das mudanças da sociedade, do mercado
globalizado, do próprio educando. Mas, apesar de todas as adversidades, já
encontramos hoje em dia muitos educadores dignos de serem chamados
59
‘mestres’, mesmo sem serem pós-graduados. Eles (as) figuras reais em nosso
tempo histórico, referenciados a seguir, nos dão a clareza do que é ter paixão
em ensinar.
Claudete Luiz de Oliveira, no início dos seus cursos ela é ‘a professora
de matemática’, exigente e verdadeira ‘carrasca’ , na visão de seus alunos. Sua
simpatia transformadora converte temor em amor e, após formados, estes
agradecem por terem sido alunos dessa ‘mestra’. Sua paixão pela disciplina
começou cedo, desde menina ela já adorava dar aulas e marchar na semana
da Pátria. Com trinta e dois anos de dedicação ao magistério, sempre mantevese atualizada. Seus ex-alunos sempre dizem que ela é inesquecível e, segundo
ela própria, eles também o são não só pelas recordações que lhe trazem mas
também por seu amor à eles.(Alessandra Bergman, Canguçu na Internet)
A ‘mestra’ Eliane Marques, traz vida e paixão ao ensino de História do
Brasil, na UNIUBE, ao quebrar o mito de que nossa História é mentirosa. Faz
uso de jargões próprios para contar a História de forma interessante e busca
na curiosidade o tempero certo de suas aulas. Não obstante, expõe de forma
clara sua opinião sobre assuntos antes explorados de outras formas por
historiadores, ao anunciar: “Eu, Eliane, amiga de vocês ...” . Com este
procedimento pessoal em sala, consegue que seus alunos tenham “orgasmos
intelectuais” e, conseqüentemente, uma melhor compreensão do conteúdo do
conhecimento estudado.
Sua dinâmica de aula elimina a mesmice e sua
preocupação com a formação continuada lhe traz novas abordagens históricas.
Toda sua ação é voltada para aprendizagem da turma em um todo, e não de
alguns. (Jamil Idaló Júnior, estudante do 2° ano de História da UNIUBE/2003)
Fabiana Aparecida Assumpção, ‘mestra’ do Programa Educacional de
Resistência às Drogas e à Violência – PROERD, Campinas / SP, resgata a
auto-estima de seus alunos e vê como recompensa maior a declaração, pelos
mesmos, de que gostam mais de si mesmo depois do curso. Seu sucesso em
sala está no seu jeito de ensinar: cuidadosa, conversadeira, curiosa e
carinhosa. Sempre atenta e pronta a aprender, e compartilhar seus novos
conhecimentos com os colegas. Os alunos não querem perder sua aula, e
60
lamentam quando não pode comparecer. A paixão que tem pelo que faz cativa
seus alunos. Sua receita: “O educador tem de amar o que faz e quem está
diante dele. Tem de se valorizar e acreditar que aquilo que está passando para
o aluno é muito importante, seja qual for a matéria”. (Célia Trazzi Cassis, MEC /
TVEscola – Revista 28)
Sua história de vida é dessas que dão um romance. Maria da Penha
Macedo de Jacobina, 71 anos, que explica sua energia e entusiasmo na pura
paixão pela profissão exercida desde os quinze anos. Gosta de iniciar o aluno
em sua aprendizagem, seja no ensino médio ou superior. Possui larga
experiência em material alternativo, e considera balela não dar aula por não ter
material. No ‘seu’ laboratório na Fundação Cecierj cada
material presente
transporta para um momento ocorrido, história de sua vida, que faz seus olhos
brilharem de emoção. Há muito que contar! Possui um projeto inovador –
Ciência na Praça – em que realiza experiências com a comunidade e para isto
faz uso de seus materiais alternativos. Sua vontade em ver o Brasil crescer é a
chama sagrada de sua atuação pedagógica. (Karla Hansen, Jornal do Portal –
Educação Pública / 2003)
“A recompensa? Quando os olhinhos brilham, vale todo
o sacrifício! A paixão não acaba nunca, acho que só
quando eu fechar o olho ela acaba. Enquanto eu estiver
andando e com capacidade mental, não pretendo parar.
Até já aprendi a escrever com a mão esquerda para se
um dia eu perder a capacidade de escrever com a direita,
tanto é a doença de dar aula. Eu adoro estar em sala de
aula”. (Maria da Penha Macedo de Jacobina)
Rubem Alves nos revela que a educação é absolutamente apaixonante,
e que educar é uma arte que se ensina com amor. Paixão para uma vida, que
deve ter no aluno a preocupação do educador. O educador deve possuir um
olhar para cada aluno, porque está lidando com ser humano. Os alunos devem
ser seduzidos para o fascínio de seu objeto, e que sem a sedução não haverá
vontade em aprender. E cita Adélia Prado, grande pedagoga: “...não quero faca
e nem queijo, eu quero é fome”, o que representa a primeira tarefa do
educador: fazer o aluno ter fome do que se pretende ensinar. (Margarida
Ribeiro, estudante do 7° período de Jornalismo, da Uniube)
61
Também no Aikido, filosofia japonesa, existe a presença do ‘mestre’, em
que todos os praticantes ou quem ensina devem se empenhar em ter a
intenção de levar os outros pela mão e os guiar para um ‘lugar’ ideal. Todo
‘mestre’ - professor, além de trabalhar também deve progredir espiritual e
moralmente. Deve ‘olhar’ de modo a abrir seu coração e mostrar-se como
exemplo para seus alunos.
Como educadores-pesquisadores de nossa própria prática, articulando
os saberes que queremos ensinar e a leitura do grupo para quem ensinamos,
entremos todos no jogo da criação, como estes nossos ‘mestres’ reais já o
fazem ou fizeram. Com o mesmo peso e a mesma inquietude sensível e
investigativa do artista frente a uma tela em branco ou um bloco de pedra. E
com a mesma paixão e ousadia...
62
CONCLUSÃO
O presente trabalho teve o foco voltado para a formação de nível
superior, no que diz respeito à influência da intervenção do professor em sala
de aula. Muito se houve falar da qualidade do profissional, de qualquer área
que seja, não só quanto a sua qualificação técnica / específica, mas sobretudo
quanto ao seu posicionamento sócio – cultural. O nível de qualidade geral
desses recém-formados tem preocupado aqueles que têm contato direto com
eles, tanto durante a sua formação como na sua atuação, enquanto
profissionais. Vê-se uma ausência de envolvimento político-social, falta de
interação com o próximo e com o meio ambiente, um não comprometimento
com o resultado de suas ações.
Chegamos à conclusão que falta-lhes a ‘educação’, fonte inesgotavél de
conhecimento,
sabedoria,
desenvolvimento sustentável
discernimento,
ética,
consciência
de
e cidadania, não simplesmente a posse de um
diploma, como foi dito no primeiro capítulo.
Professores e escolas são
responsáveis pela qualidade de seus formandos, e para que tenham êxito em
suas jornadas precisam se capacitar dia após dia. Tomar o caminho mais
adequado, quiçá novo, com muita vontade, determinação e paixão ao visar a
mudança de um paradigma estagnado.
A escola , cada vez mais, finca pé na ilusão da efetividade, da eficiência,
do resultado, sem se dar conta de que a figura do professor vem sendo
massacrada pela desmotivação, pelo estresse da disputa de títulos, pelo
deboche e estresse de um aluno rico de informações soltas e desordenadas,
de um aluno que vive um festival de culturas mal assimiladas, fascinado pelos
‘enfeites’ culturais globalizados e interessado quase que exclusivamente no
diploma.
A questão da competência do professor vem desafiando todas as
tendências e propostas pedagógicas. Temas transversais, aprendizagem
63
sociointeracionista, construção do conhecimento, são um grande erro se
pensadas de formas distanciadas das relações de afeto que se interpõem entre
todos os membros da comunidade educativa. Com isso, a valorização da
conduta do professor, presença indispensável a todo projeto pedagógico,
voltada para a sua natureza humana, a sua pessoa, prestigiando seu caráter,
com espaço para sua franqueza, busca a capacitação com foco no aspecto
cultural de sua formação pessoal.
Conforme o mesmo primeiro capítulo e considerando-se que o ensino é
um processo interativo e não uma simples instrução, o papel do professor –
educador - e do sistema educativo necessitam de adaptação e correção
constantes ao longo da evolução do educando. Uma educação permanente
dota os educandos das ferramentas intelectuais necessárias a sua adaptação
ao mercado de trabalho e à evolução dos conhecimentos, em prol da melhoria
da vida em sociedade e do meio ambiente em que vivem. É preciso ficar claro
que as áreas de educação, tecnologia e das relações sociais devem interagir
entre si na busca não apenas do conhecimento em si, mas do resultado da
ação conseqüente a esse conhecimento na vida de todos. Cabe ao educador,
entre outras coisas, saber levar ao aluno a beleza e o poder de pensar e
envolvê-los afetivamente com a profissão que irão abraçar futuramente.
De acordo com a abordagem Zen, conforme o segundo capítulo, existe
uma clara diferenciação entre professor e ‘mestre’, sem fazer menção a
diplomas: o professor, pessoa erudita, estudada, pode dar informação, mas
não transforma o educando – um trabalho direto; já o ‘mestre’ traz a
transformação do seu discípulo, orientando para que ele próprio descubra a
própria luz, num trabalho indireto, catalisador, pois ele cria um campo
energético que favorece esse acontecimento. Esse educador – ‘mestre’ é
aquele que abraça a causa da educação com vontade e muita paixão, pelo que
faz e para quem faz. Ele possui uma identidade especial marcada por suas
experiências de vida, embebedantes de prazer e curiosidade.
64
Quando
essas
características
pessoais
são
associadas
às
especificidades acadêmicas e pedagógicas temos a plenitude das aulas, o
contágio dos alunos pela esperança e com a possibilidade da transformação do
hoje num amanhã melhor. Infelizmente, verificamos que no ensino superior as
qualificações pedagógicas são desprezadas pela maioria dos docentes, que só
se preocupam com o conteúdo – que eles consideraram adequado, sem
preocupação com o público alvo – e evitam se envolver mais proximamente
com seus alunos, para não dar muita confiança. Estes, engolidos pelo
‘sistema’, viraram meros funcionários.
A fragilidade da informação moderna se contrapõe a toda forma de
inflexibilidade didática. O resgate de um educador – ‘mestre’, cheio de idéias,
de experiências, de informações, de dúvidas, de angústias, de postura políticosocial substituirá, com louvores, a perda de um professor culto de erudição,
cheio de personalismo e de verdades imutáveis. Evidencia-se, então, a
inadequação dos paradigmas existentes na formação docente. Não que eles
estejam totalmente equivocados, mas necessitam de adaptação às nossas
novas realidades. Não só com a formação docente deve-se ter atenção, mas
também com a atualização daqueles já formados e em exercício da função. O
que será muito bem vindo pelos educadores, sempre que colocada de forma
positiva e possível de ser realizada.
A competência do educador para a formação de um bom profissional de
nível superior se dará através do domínio não só do conteúdo, mas acima de
tudo das relações interpessoais e intrapessoais dentro e fora da sala de aula. A
construção do conhecimento será conseqüência de uma discussão aberta em
torno de todos os assuntos, acadêmicos e sócio-político-cultural, contribuindo
para a formação do caráter, da ética e acentuando a visão da vida em
sociedade, conforme nosso segundo capítulo.
O perfil desse novo educador – ‘mestre’ surge na mudança de
percepção do mundo e do funcionamento cognitivo / afetivo. Esse ‘mestre’
deve estar ciente de sua função de mediador, orientador de consciências, ao
65
abrir um canal de diálogo com o grupo se incluindo na relação ( Eu –Tu ).
Ciente de que nada está acabado, e tomando consciência da sua própria
inconclusão. E, primordialmente, o estímulo e o desenvolvimento do gosto pelo
querer bem, com alegria e paixão, devem estar presentes em sua fala, ato e
sentimento.
Uma vez adultos, de que professores nos lembramos? Com que
professores aprendemos alguma coisa? Certamente com aqueles que
contavam histórias, que nos envolviam com informações insólitas, que
dispunham de uma personalidade cheia de afeto, de pequenas e / ou grandes
emoções, às vezes até pelo contraditório de sua natureza. Para trazermos essa
experiência para o ensino superior, precisamos compreender a necessidade de
mudança. E ainda, que qualquer produto para ser transformado necessita de
maquinária adequada, criatividade e energia. A energia está relacionada com a
parte afetiva, da emoção, e é ela que trabalhará a estrutura existente a fim de
modificá-la. Os contatos energéticos do ser humano são acionados por suas
pulsões, traduzidas por seus sentimentos afetivos, e são capazes de mobilizar
os seus pensamentos.
A cada dia sentimos que ao homem restará o afeto, a boa convivência, o
bom entendimento, sem o que a vida e o planeta não mais existirão. O chão da
escola não pode prescindir de calor humano, e não há porque excluir o ensino
superior, mesmo porque todo o fundamento da qualidade está centrado no lado
humano e criativo das pessoas. O resto são apenas ferramentas, acessórios.
Não se pode, numa corrida pela efetividade e marketing de resultados, abrir
mão das relações de afeto, comprometido com a formação em sala de aula.
Cada vez mais, o homem bem sucedido é aquele amável, afetuoso, sociável e
flexível. Vemos isso marcado nas culturas mais antigas, onde todos são
educadores – pais, tios, avós – permeando afeto em culturas orais complexas e
consistentes e que sobrevivem até os dias de hoje e para sempre.
Dessa forma, visamos neste trabalho identificar, explicar e exemplificar
as mais importantes teorias e abordagens disponíveis sobre o tema proposto.
66
Tivemos aqui, contudo, a intenção de chamar atenção para o fato detectado e
propiciar uma visão geral e abrangente dos aspectos inerentes à compreensão
do tema, bem como dar a importância para a tomada de consciência pelos
profissionais de educação quanto aos efeitos da intervenção afetiva e
envolvente do professor sobre os formandos de nível superior.
Considerando-se as idéias acima, podemos concluir que não só o
desenvolvimento cognitivo dos formandos de nível superior é importante para
suas vidas ativas, como profissional e ser social que são. A vida profissional
requer
muito
conhecimento
específico,
contudo
sem
a
sensibilidade,
afetividade e envolvimento pessoal com as próprias ações os resultados dos
trabalhos executados pelo homem não terão a qualidade necessária ao
convívio social e a própria existência humana. Sem esse ícone da afetividade,
emoção, agindo sobre todas as ações, questionando sobre o que se faz, o
porquê se faz e para quem se faz, não se construirá positivamente nada que
possa ter futuro, ou melhor, não se possibilitará um futuro.
Uma intervenção mais afetiva e envolvente dos professores do ensino
superior, traz de volta para a sala de aula o calor humano, tão aconchegante.
Em cima desse mesmo tema sugere-se ainda, como objetivo para outras
pesquisas, questões como o desinteresse em sala de aula, a evasão após os
primeiros meses dos cursos e quanto a identificação com o curso de formação
em si.
67
ANEXOS
Índice de anexos
Anexo 1 >> Comprovantes de Atividades Extra-Classe;
Anexo 2 >> Conteúdo de revistas especializadas;
Anexo 3 >> Entrevistas;
Anexo 4 >> Internet;
68
ANEXO 1
COMPROVANTES DE ATIVIDADES EXTRA-CLASE
69
70
ANEXO 2
REVISTAS ESPECIALIZADAS
1
Revista VEJA Educação – 26/09/2001
A didática tem de ser envolvente
Para melhor educar, o professor deve
aproximar-se do universo do aluno
Por Gabriel Chalita
(htpp://www.vejaabril.com.br/idade/educacao/jovens/p_061.html).
O que está acontecendo com a escola hoje? Pode parecer estranho, mas,
para responder, vamos ver o que ocorreu com ela há mais de 2 000 anos.
Sócrates, um gênio da história do pensamento, resolveu inventar um método
diferente de ensinar – partiu do conceito de que cada um tem o conhecimento
dentro de si e que o mestre é tão-somente um instigador desse conhecimento.
Trata-se de fazer o parto das idéias. Como a velha parteira ou o novo médico
fazem. Sem forçar. Pacientemente.
Sócrates ainda está na moda, posto que a educação continua um processo
de gestação, nutrido pelo conhecimento, consciência crítica e liberdade de escolha.
Os desafios de hoje, no entanto, são imensos. Os mestres deste século 21
encontram gigantescas dificuldades para educar, pois os adolescentes, cada um a
seu modo, desfilam comportamentos – às vezes inconvenientes – próprios do
processo de crescimento. Alguns professores apenas criticam os alunos e cruzam os
braços.
Outros preferem conhecer suas histórias e ficam fascinados com a
genialidade, o carisma, o afeto que descobrem. Porque por trás dessa rebeldia
demonstrada na apatia ou no afrontamento estão belíssimos seres em formação.
O adolescente é um estopim – não é criança nem adulto. Alguns são
sufocados por mimos desmedidos, outros estão à deriva, carentes de amor e de
atenção. Na escola, o desfile de autoridades, acompanhado de uma boa dose de
busca neurótica de disciplina, contribui pouco para que tenham referenciais e
encontrem alento nessa fase tumultuada da vida.
Urge que não apenas pais, mas também pedagogos, descubram uma nova
forma de lidar com a questão. Em vez de um professor rigoroso do ponto de vista
comportamental, talvez seja melhor investir no professor como parceiro mais
experiente, entusiasta de conquistas. O olhar de quem enxerga cada jovem
individualmente, de quem conhece a história de cada um. Se o conhecimento e os
bons modos são fundamentais, a forma de transmiti-los precisa ser sedutora. A
sedução começa com a valorização, e a relação frutifica no respeito. Assim, o
professor se torna amigo, sem deixar de ser referencial, sem banalizar sua missão
de educar.
71
A didática também pode ser envolvente. Em vez de longas fórmulas para
decorar, problemas que envolvam áreas distintas do conhecimento e fontes
diversas como livros, internet, colegas. Em vez do mecânico, o lúdico. Em vez do
teórico, o prático contido numa música de Chico Buarque de Holanda, num poema
de Drummond, em textos de jornais e revistas, em filmes. O aluno, estimulado, se
transformará em um pesquisador ávido. São maiores as chances de que venha a ler
Machado de Assis, por sentir-se seduzido pelo prazer da leitura, e não porque foi
obrigado.
No reverso de toda a agressividade que grassa em tempos hodiernos, que
tal o professor discutir com os alunos mitos e lendas sobre amor? – e como
adolescente gosta de falar de amor! O professor é o líder capaz de resgatar essa
essência extraordinária do adolescente, a grandeza do vôo. Só percebam que
adolescente não gosta de conselho, gosta de amizade partilhada, de compreensão,
de ternura. Isso não significa que o professor não possa ter um script. Pode. Mas
ele deve portar-se como se estivesse no teatro, onde o andamento da peça sofre
influência do espectador. Não como no cinema, que despreza a audiência.
Com todo o potencial tecnológico desenvolvido para informar, a solução
ainda está no humano. É o mestre que, ao conhecer e buscar compreender o aluno,
poderá auxiliá-lo a encontrar meios de ser feliz. E esse tem de ser o maior dos
objetivos da educação.
Gabriel Chalita é professor universitário e escritor
72
2
Revista TV Escola – Nº 28, p. 48
Uma Mestra bem especial
Célia Trazzi Cassis
www.mec.gov.br/seed/tvescola/revistas/Revista28/PDF/ultima.pdf
73
ANEXO 3
ENTREVISTAS
O Educador além do seu tempo
Rubem Alves mostra que educar
é uma arte que se ensina com amor
Margarida Ribeiro
7 período de Jornalismo
www.revelacaoonline.uniube.br/a2002/educacao/educador.html
No dia 15 de março, o auditório da ABCZ (Associação Brasileira de Criadores de
Zebu) reuniu centenas de pessoas para prestigiar um dos intelectuais mais famoso e
respeitado do País, Rubem Alves. Esta personalidade brasileira com as suas
multifacetas - pedagogo, poeta, filosofo, cronista, contador de estórias, ensaísta,
teólogo, acadêmico e psicanalista - tem enriquecido a nossa Educação com vasta
obra para adultos e crianças. Suas literaturas têm servido de subsídio também para
trabalhos nas igrejas, consultório psiquiátrico e outros fins de ajuda.
Rubem Alves tem o dom de fazer das palavras e das idéias brinquedos e
instrumentos divertidos para transmitir conhecimentos. Deste modo ele fala de uma
educação que perpassa todo o universo humano. Ensina que o verbo educar deve ser
conjugado
com
o
amor
e
paixão.
Sobre seu interesse pela educação brasileira, o próprio Rubem irá nos comunicar
através
desta
entrevista.
Revelação:
Como
surgiu
o
seu
interesse
pela
educação?
Rubem Alves: Eu sempre tive vontade de ensinar, mas o interesse concentrado foi
quando era professor em Lavras, interior de Minas. Nesse período comecei a pensar
nos problemas da educação, o assunto passou a ser parte da minha vida, é a coisa
que
mais
me
domina,
o
tempo
todo
estou
pensando
nisto.
Revelação:
Sobre
as
suas
obras,
quantas
já
tem
publicadas?
Rubem Alves: Eu devo ter mais ou menos trinta livros para crianças e trinta para
adultos. Os livros têm sido usados muito em igreja, em hospitais infantis para preparar
as crianças para cirurgia. Quando os escrevi foi pensando somente na minha filha, de
repente descobri que estavam sendo aproveitados em empresas, em situações de
terapias,
viraram
teatros
e
agora
vão
virar
Cds.
Revelação: Qual obra que tem mais do seu pensamento de forma sistemática?
Rubem Alves: A obra que circunda o meu pensamento saiu de circulação e vai
reentrar na bienal, se chama "O poeta, o guerreiro e o profeta".
Revelação: Como o senhor vê os atuais livros de literatura?
Rubem Alves: A gente ainda tem grandes autores, por exemplo Saramago e
Guimarães Rosa. Há muitas obras bonitas sendo produzidas, mas também há muito
lixo. Shopenhauer dizia que parte da sabedoria de ler é a sabedoria de saber escolher
74
o que no ler. Ele falou isto no século XIX, imagina a quantidade de lixo que existe nas
livrarias!
Revelação: Como o senhor avalia a forma de incentivo do Governo, com o
Programa
Bolsa-Escola?
Rubem Alves: Para mim esses esforços são louváveis, mas a grande questão da
educação não passa por aí, mas pelas cabeças dos professores. Educação não se
faz com prédios com material escolar, mas ela se faz com professor apaixonado.
Revelação:
Esta
seria
a
prioridade
para
educação?
Rubem Alves: Para mim a prioridade que tenho é seduzir os professores. O que
acontece freqüentemente, é que, com a rotina e o passar do tempo, eles ficam
amargos e começam a fazer contagem do tempo para a aposentadoria. Aí perdem o
encantamento
com
as
crianças
e
os
adolescentes.
Revelação:
E
qual
é
o
grande
segredo
da
educação?
Rubem Alves: O grande segredo é a paixão do professor. Se você tiver um professor
apaixonado, ainda que ele não saiba muita didática dará um jeito.
Revelação: O senhor falou que há dois tipos de olhos na educação. Gostaria
que comentasse um pouco sobre o olhar do atual educador?
Rubem Alves: A educação do primeiro olho, vê as coisas do finito, é o que a maioria
das nossas escolas fazem o tempo todo, ensinar a ciência, ensinar as coisas da vida,
ver o mundo. A educação do segundo olho mostra as coisas eternas. Com o primeiro
olho ensinamos a ciência, com o segundo a poesia. Gastor Maschelar, se dedicou a
vida inteira a educar o primeiro olho, e escreveu livros eruditos sobre a filosofia das
ciências. De repente ele passou a educar o segundo olho e escreveu "A chama de
uma vela". A vela para iluminar precisa se consumir. Quando Maschelar fala da vela,
não se refere a conhecimentos modernos, mas ele abre um terceiro olho, o da
sensibilidade.
Revelação: Como se desenvolve a sensibilidade dos educadores e educandos?
Rubem Alves: Através da literatura. O conselho que eu daria é ler literatura. Na
minha área de psicanálise é muito importante conhecer a alma humana, e o
conhecimento vem não é da leitura de Freud, ela ajuda, mas na medida que
buscamos a literatura, então se descobre o drama da existência humana, vivida com
todas
as
suas
dores
e
alegrias.
Revelação:
Qual
a
grande
tarefa
do
educador?
Rubem Alves: A grande tarefa é dizer "está ali, está ali – perceba! Olhe!" –Fernando
Pessoa diz, não basta não ser cego pra ver as árvores e as cores, há pessoas que
têm vistas excelentes e não percebem nada. É preciso ensinar os nossos alunos a
enxergar
o
mundo.
Revelação:Que conselho o senhor daria aos novos educadores?
Rubem Alves: Que a educação é absolutamente apaixonante. Paixão para uma vida.
Em primeiro lugar eu diria que eles se considerem afortunados por serem tocados por
esta vocação. Segunda coisa, é preciso que amem as crianças. Freqüentemente os
professores têm a preocupação com um programa. Meu filósofo favorito, Nietzsche,
75
dizia que o verdadeiro educador é aquele que leva a sério questões relacionadas com
seus alunos, inclusive a si mesmo. Logo a preocupação do educador não pode ser
com o programa, deve ser com o aluno, e por isso, ele deve ter um olho para cada
aluno, porque está lidando com ser humano e não com o número para exame.
A primeira tarefa do educador é seduzir o aluno para o fascínio do seu objeto. Se ele
não for seduzido não terá vontade de aprender. A Adélia Prado, uma grande
pedagoga dizia, "não quero faca e nem queijo, eu quero é fome". Significa que a
primeira tarefa é fazer o aluno ter fome do que você pretende ensinar.
76
ANEXO 4
INTERNET
www.educacaopublica.rj.gov.br/jornal/materia.asp?seq=116
1
Jornal do Portal – Governo do Estado do Rio de Janeiro
EDUCAÇÃO PÚBLICA - 11/6/2003
Professora Penha: fonte inesgotável de energia é
paixão por ensinar
Karla Hansen
Quem vê não acredita, ou custa. A figura pequena, magra, de cabelos brancos, da
professora Maria da Penha Macedo de Jacobina, 71 anos, atravessa o corredor da Fundação
Cecierj, apressada, carregando um carrinho, com uma pilha de caixas de madeira, mala e
outras tralhas, para mais uma viagem. O destino? Barra do Piraí, Praça da Ciência
Itinerante, um programa da Fundação Cecierj/Consórcio CEDERJ, há nove anos uma das
maiores paixões da professora. Aliás, essa é a palavra que melhor explica o porquê de
tanta energia e entusiasmo: é pura paixão pela profissão exercida desde os 15 anos de
idade.
Mas Penha não gosta de aparecer. Acha "uma perda de tempo" entrevistá-la. Melhor seria,
orienta, participar de uma de suas oficinas, ouvir o depoimento de seus alunos, "eles são
mais importantes que nós!" Ela se refere aos estudantes dos cursos da Fundação
Cecierj/CEDERJ, oriundos das escolas pedagógicas do Estado mas, também, ao grande
público, que participa das Praças da Ciência, tanto nas escolas, quanto nas comunidades.
Claro, há muito de modéstia nessa tentativa de rejeitar o próprio mérito e fugir dos
"holofotes". Mas isso só lhe confere mais valor. É, a grandeza de um rei se conhece por
seus
súditos
e
feitos...
Sua história de vida é dessas que dão um romance, ou se preferem, um filme. Filha de
agricultores de Minas Gerais, veio aos 9, para estudar no Rio de Janeiro. Aqui, foi para o
internato do "Sacre Coeur de Marie", colégio tradicional para moças. "Tinha que ser um
colégio religioso, minha família era católica, apostólica e mineira", justifica. Acostumada à
simplicidade da vida no interior de Minas, Penha não se adaptou aos rígidos padrões de
comportamento, às aulas de francês e de "educação refinada", da escola. Logo no primeiro
dia, teve seu maior desgosto: "fiquei esperando servirem feijão com arroz". Ela fazia parte
da "gangue", como se autodenominava o grupo de meninas de famílias pobres que, além
de estudarem, ajudavam na limpeza do internato. A professora lembra que o problema não
era o trabalho, isso não a incomodava, "tirava tudo de letra". O pior, era conviver com a
"educação estúpida", que a obrigava a reverenciar cada freira que passasse: "bom jour, ma
mére, abaixar...". Conta que, uma vez no alto da escada, tinha que esperar a freira subir
até o andar em que ela estava, para, então, ter permissão para descer. Penha não se
conformava: preferia descer, escorregando pelo corrimão! Depois, por castigo, a freira a
fazia subir a escada de novo. Ficou só um ano e meio. ". Eu não podia ficar naquele colégio
mesmo,
não
admitia
aquelas
coisas!"
Do "Sacre Coeur" foi para outro internato de freiras, o "Imaculada Conceição", onde uma
freira a "domou", conta. Nessa escola, Penha foi aluna de uma professora de química que
realizava experiências em sala de aula e levava as alunas para conhecer indústrias, "uma
coisa bem inteligente para aquela época, de 1949". Foi aí que descobriu o gosto pela
matéria. Aos quinze anos, como estudante do ginásio, já dava aulas de matemática e
77
ciências, à noite, num curso para domésticas, da Igreja da Glória, no Largo do Machado.
Era um tempo, também, em que ela trabalhava como técnica de laboratório numa escola
particular, e acabou se apaixonando de vez pela profissão em que está até hoje.
Como primeira opção de graduação, o curso de Engenharia de Estradas de Rodagem, mas
a idéia foi prontamente recusada por seu pai - queria que a filha fosse normalista, "ideal de
todo pai mineiro". Como já gostava de química e prometeu a ele ser professora, fez o
vestibular para a Faculdade de Química da antiga Universidade do Brasil, hoje UFRJ. Depois
de formada, Penha se tornou professora da Universidade por 40 anos, bem como do Ensino
Médio de escolas públicas e particulares do Estado do Rio. Nessa época, Penha ficou viúva,
precocemente, tinha apenas seis anos de casada e "uma família para cuidar, cinco filhos,
dois
adotados."
Universitários ou alunos do Ensino Médio? "Eu gosto mesmo é de iniciar o aluno! De pegar
o aluno no primeiro ano do ensino médio e levar a turma até o terceiro. E na faculdade,
como trabalhei em várias unidades (na biologia, na química), também gostava de trabalhar
no
núcleo
básico."
Além de preferir e ter se dedicado a quem está começando a aprender, Penha teve seu
trabalho reconhecido (prêmio do SBPC) por sua experiência com materiais alternativos, ".
Isso é o que eu gosto!", fala sem esconder o entusiasmo. "Durante os meus 32 anos
trabalhando para o Estado, sempre ouvi: "ah, eu não dou aula porque não tem material! Eu
não dou aula porque o material é caro." "Isso é balela! reclama a professora. " Você não dá
aula porque não quer dar aula, existe o material alternativo!" diz, orgulhosa. Ela e sua
equipe do CEDERJ só trabalham com material alternativo, feito com o que ela chama de
"material de fim de feira", que substituem equipamentos e produtos necessários a um
laboratório
de
química,
quase
sempre
muito
caros.
Nesta altura da entrevista, Penha se levanta e pega um exemplar para me mostrar: uma
estrutura simples de madeira sustenta três "funis", feitos com a parte superior de garrafas
de plástico de refrigerante. Cada um deles tem uma quantidade de terra de cor e textura
diferentes, são demonstrações de tipos de solo. Esse é apenas um singelo exemplo das
inúmeras criações que saem de "seu" laboratório na Fundação Cecierj e seguem para as
Praças da Ciência, uma espécie de palavra mágica para a professora: a simples menção faz
os
seus
olhos
brilharem.
Há
muito
o
que
contar!
Penha aponta uma pilha de caixas no fundo do laboratório. Cada uma delas tem uma
identificação diferente: "oficina de vela", "oficina de pão" etc. São essas caixas que viajam,
quase toda semana, para as "Praças da Ciência", em municípios do interior do Estado do
Rio. Nas oficinas montadas nesses eventos, as alunas (professoras do ensino fundamental)
aprendem não só a fazer a vela ou o pão, elas aprendem "toda a química que existe na
vela ou no pão", e mais, descobrem mil e uma maneiras interessantes de dar aula de
ciências. O interesse pelas oficinas é tão grande que, muitas vezes, no dia seguinte ao de
uma das "Praças da Ciência", turmas inteiras de professoras vêm ao Cecierj, à procura dos
cursos. Elas querem mais! Além desse trabalho, a professora também está no projeto
"Ciência na Praça", em que as experiências são realizadas com a comunidade, e onde o
movimento
também
é
muito
grande.
Atualmente, Penha está todos os dias no laboratório de química do Cecierj "chego aqui às
oito e saio às oito", ri. Às quartas, viaja para as "Praças da Ciência", onde trabalha, no
mínimo, oito horas por dia. Seus filhos chegam a brigar com ela, querem que pare de
trabalhar e, enciumados, cobram sua presença como mãe e avó de dez netos... "Natal,
Páscoa, aniversário, tudo bem, eu vou, mas no resto, quem pariu Mateus que o embale, ela
rebate. A fonte de tanta energia? É vontade que o Brasil cresça! Essa é a chama sagrada! E
para que essa chama nunca se apague, nem a falta de recursos a intimida: "a gente pede
aqui, pede ali, tira dinheiro do próprio bolso, somos mendigas da educação..." " A
78
recompensa?
Quando
os
olhinhos
brilham,
vale
todo
o
sacrifício!"
Já no final da entrevista, com o gravador desligado, Penha se levanta e pega uma grande
caixa de papelão para me mostrar o material produzido em uma das Praças da Ciência. De
dentro, ela tira um a um os materiais: um chocalho - feito com um cilindro de papelão,
fechado, com grãos de feijão ou arroz - que reproduz o som da chuva. Um copo de
plástico, com um fio de lã preso ao fundo, que imita o som de uma galinha (a preferida das
crianças!); um "bilboquê", feito com garrafa de refrigerante, fita adesiva e algumas bolas
de gude; a metade de uma esfera, de papel cartolina, como um casco de tartaruga, que se
vira por força da gravidade. Esses "brinquedos" são confeccionados pelos alunos que, ao
mesmo tempo em que se divertem, aprendem noções básicas de ciência, como ondas
sonoras
e
força
da
gravidade,
só
para
citar
esses
exemplos.
E essa paixão não acaba? "A paixão não acaba nunca, acho que só quando eu fechar o olho
ela acaba. Enquanto eu estiver andando e com capacidade mental, não pretendo parar. Até
já aprendi a escrever com a mão esquerda para se um dia eu perder a capacidade de
escrever com a direita, tanto é a doença de dar aula. Eu adoro estar em sala de aula!"
2
Revelação On-Line - UNIUBE
EDUCAÇÃO
Professora Eliane Marquez traz vida e paixão ao
ensino da História do país
Jamil Idaló Júnior - 2 ano de História
www.revelacaoonline.uniube.br/educacao03/saber.html
Enfim,
descobrimos
o
Brasil!
A grande discussão atual e um dos paradigmas da educação neste inicio de século é a postura
do professor/educador. Segundo Rubem Alves, o professor é um especialista no domínio de
técnicas, enquanto o educador traz consigo a vocação, a paixão em ensinar. Nessa mesma
linha de raciocínio, Carlos Rodrigues Brandão diz que o objeto central do ensino é o aluno, e
não o conhecimento, que para o primeiro devem ser dadas todas as atenções, para que ele
possa ter um maior discernimento sobre o segundo. Extrapolando esta dualidade
professor/educador, encontramos o mestre. Pois se o professor/educador tem alunos, o mestre
tem discípulos. E é exatamente centrada na figura da mestra Eliane Marquez, da qual me sinto
honrado e orgulhoso de ser seu discípulo, que discorrerei minha narrativa.
A maioria dos estudantes de História se interessa pela disciplina por causa da Idade Média. A
arquitetura gótica de seus castelos e igrejas, os interessantes embates de espadachins, o
deslumbrante vestuário da época e o enigmático poder da Igreja sobre a sociedade do
medievo são símbolos que povoam a imaginação e que fazem seus estudantes optarem por
esta Ciência. A História do Brasil, quase sempre, está em segundo plano: é apenas uma
coadjuvante ofuscada pelo brilho da História Geral. Isto porque nunca assistiram a uma aula da
mestra acima citada!
Sua preocupação em nos ensinar "a História que não foi contada" ou o "outro lado da História
do Brasil", quebra o mito de que nossa História é mentirosa. Quando sou questionado por
outras pessoas do porquê de estudar uma disciplina tida como enganosa, respondo-lhes que
isto não é verdade, que a maioria do povo não conhece realmente nossa História. Pois nossa
oligarquia dominante, de posse de uma ideologia positivista, quase sempre mascarou nossas
verdades.
Concomitantemente a isto, os jargões utilizados pela referida mestra, tais como: "vou contar
uma fofoca histórica", quando aborda fatos de figuras históricas ilustres, que não aparecem na
79
historiografia, ou "Agora vocês vão levar um susto", quando sabe que vai dizer algo
contraditório ao que conhecíamos anteriormente, ou até mesmo quando diz "Eu, Eliane, amiga
de vocês...", quando quer dar sua opinião pessoal sobre assuntos que foram explorados de
outras formas por historiadores anteriores a ela, inserem no nosso contexto curricular
peculiaridades ímpares, que nos auxiliam numa melhor compreensão do conteúdo do
conhecimento
estudado.
Pois seu objetivo é fazer com que tenhamos "orgasmos intelectuais". Sua variação de dinâmica
de aula também contribui de modo efetivo para que não fiquemos numa mesmice, que tornaria
as aulas desinteressantes. Soma-se a isso sua preocupação com a formação continuada,
sempre procurando novas abordagens históricas de assuntos muito explorados e levando-as à
sala de aula para nossa apreciação. Tudo o que foi acima citado contribui para despertar em
nós um grande interesse em estudarmos nossas raízes, para que de posse desses
conhecimentos tenhamos condições de contribuirmos para transformarmos o real. Entretanto,
a meu ver, o grande mérito da mestra é a sua preocupação com a aprendizagem da turma em
um todo, pois de nada adianta alguns aprenderem e outros não.
Talvez ao citar estes fatos, tenha dado a impressão de querer elogiar em demasia minha
professora, mas isto não é verdade. A verdade é que perder 10 minutos de sua aula é uma
grande perda. E que a mesma é um exemplo a ser seguido por todos nós. Tomo a liberdade de
plagiá-la, dizendo que, ao falar de sua pessoa através do jornal-laboratório do curso de
Comunicação Social, estou realizando uma "fofoca histórica!" E que imagino que, quando ela
ler este artigo no Revelação, "vai levar um susto!"
3
Jornal do Portal da Cidade de Canguçu
Canguçu, 09 de setembro de 2003
Texto e Fotos: Alessandra
Bergmann
Você está aqui: Alessandra Bergmann » matérias » Claudete, a inesquecível.
Por onde anda Claudete, a inesquecível ?
“Meus ex-alunos sempre dizem: Sou inesquecível”. Com certeza, o nome Claudete aliado à palavra matemática, traz
as mais diversas recordações para quem foi estudante em Canguçu. Ainda mais sendo aluno da Escola João de Deus
Nunes. Era impossível não escutar a frase: “Bah! Vais pegar a Claudete em matemática”. Em outras palavras, ou
vais aprender matemática, ou vais rodar, para voltar a ser aluno dela de novo.
80
Quem era aluno da professora Claudete já sabia, os
finais de semana não seriam mais os mesmos porque
tinha muito tema para fazer. Geralmente umas cinqüenta
questões de matemática para serem resolvidas. E
ninguém se arriscava a entregar a professora pelo
menos, a metade do exercício completo. Essa era a
forma encontrada para o aluno aprender a matéria.
Segundo a professora Claudete, só se aprende
matemática exercitando, como muitas outras coisas na "Adoro perfumes. Alguns alunos me chamavam de
vida. Para isso, o aluno tinha que ter disciplina. Por ser professora cheirosa."
exigente, ela se tornou a verdadeira carrasca na mente
dos estudantes. Mas sua simpatia transformou os
temores em amor. Os mesmos que a odiaram, hoje
agradecem por terem sido seus alunos.
A paixão pela matemática começou cedo. Aos cinco
anos de idade Claudete Luiz de Oliveira já sabia contar
até cem. Desde menina, já brincava de dar aula e
adorava marchar na semana da pátria. Talvez venha daí
o gosto pela disciplina.
Filha de Canguçu, esta libriana mal se formou na
faculdade e começou a lecionar. Foram 32 anos de
dedicação em sala de aula, ensinando centenas de
canguçuenses a difícil arte de tirar da matemática, o
proveito para a vida. Dificilmente parou de estudar.
Quando não estava fazendo alguma especialização,
andava em palestras, encontros educacionais ou até
mesmo fazendo algum curso. Hoje, aposentada, com 53 Cuias com o brasão do município: passatempo que virou
anos, está prestes a realizar o sonho de morar em Porto negócio.
Alegre e fazer seu mestrado. No ano passado, Claudete
ficou noiva. Segundo ela, o casamento com o militar
reformado João Carlos Trindade Garcia, ainda não tem
data marcada. Atualmente, Claudete está se dedicando a
venda de artesanato que é utilizado como lembrança de
Canguçu. São cuias e bombas para chimarrão
personalizados com o brasão do município. Nas horas
vagas, além de cuidar da casa, costuma ler ou promover
reuniões com amigos e a família.Segundo ela, está
vivendo agora uma nova fase da vida. “tenho muita
saudades dos alunos.
"Eu conheço a minha fama, mas tenho ela porque conheço
a matemática."
81
–“Amo todos e espero que eles nunca me esqueçam, aliás, eles sempre dizem que isso é impossível de acontecer”comenta.
QUALIDADE? honestidade.
DEFEITO? (risos) exigente demais.
SONHO? Vou realizá-lo. Ir morar em Porto Alegre.
CIDADE? Porto Alegre.
PASSA TEMPO? Ler, cuidar da casa.
LIVRO QUE ESTÁ LENDO? A arte da felicidade.
MANIA? De limpeza, sou neurótica com sujeira.
PERFUME? Crasy
FILHOS? Agora... passô.
O QUE NÃO ABRE MÃO? De estudar, saber mais, tenho sede de estar sempre atualizada.
MOMENTO DIFÍCIL? Tem dois. Quando morreu meu pai e quando minha casa foi roubada.
MÚSICA? Todas da Joana.
PLANOS FUTUROS? Fazer um mestrado.
FATO INESQUECÍVEL: Foi com uma turma de alunos em prova. Um deles havia preparado a maior cola que vi
até hoje, tão grande que o aluno nem conseguiu consultá-la. Eram duas folhas de ofício, cheias de operações
numéricas dos dois lados. O aluno pôs no bolso. Eu, por duas vezes escutei um barulho como se alguém estivesse
desembrulhando alguma coisa. Na terceira vez, fiquei atenta e percebi quem era. Pedi a cola para o aluno, que, logo
foi se defendendo: - Eu nem colei professora. Foi o dia que mais ri na minha vida porque quando abri a cola, além
de me surpreender com o tamanho, estava escrito em letras garrafais “C-o-l-a d-e m-a-t-e-m-á-t-i-c-a” e em seguida
o nome do aluno.
SAUDADE? Ah! Dos meus alunos, é claro.
4
Revista Nova Escola
Edição n° 142 – Maio de 2001
www.jcwilke.hpg.ig.com.br/novoa4.htm
Quer aperfeiçoar sua prática pedagógica? O especialista português garante que o
melhor caminho é debater com os colegas
Paola Gentile
Fotos Paulo Rascão
"O educador que acaba de se formar não pode ficar com as piores
turmas nem ser alocado nas unidades mais difíceis, sem acompanhamento"Só o profissional pode
ser responsável por sua formação. Esse é um processo pessoal incompatível com planos gerais
centralizadores"
82
M
anter-se atualizado sobre as novas metodologias de ensino e desenvolver práticas pedagógicas
mais eficientes são alguns dos principais desafios da profissão de educador. Concluir o Magistério ou
a licenciatura é apenas uma das etapas do longo processo de capacitação que não pode ser
interrompido enquanto houver jovens querendo aprender. Quem defende isso é um dos maiores
especialistas mundiais em formação de professores, o português Antonio Nóvoa.
Catedrático da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa e
presidente da Associação Internacional de História da Educação, ele garante que o melhor lugar para
aprender a lecionar melhor é a própria escola. "A produção de práticas educativas eficazes só surge
de uma reflexão da experiência pessoal partilhada entre os colegas", diz ele. Nesta entrevista,
concedida por e-mail da capital portuguesa, Nóvoa afirma ainda que a bagagem teórica terá pouca
utilidade, se você não fizer uma reflexão global sobre sua vida. Como aluno e como profissional.
NOVA ESCOLA> A formação dos professores é apontada por muita gente como uma das
principais responsáveis pelos problemas da educação. O senhor concorda com isso?
Antonio Nóvoa< Embora tenha havido uma verdadeira revolução nesse campo nos últimos vinte
anos, a formação ainda deixa muito a desejar. Existe uma certa incapacidade para colocar em prática
concepções e modelos inovadores. As instituições ficam fechadas em si mesmas, ora por um
academicismo excessivo ora por um empirismo tradicional. Ambos os desvios são criticáveis.
NE> O difícil acesso às novidades é um dos empecilhos para incorporá-las à dinâmica da sala
de aula? Ou as práticas de ensino mudam numa velocidade impossível de acompanhar?
Nóvoa< O equilíbrio entre inovação e tradição é difícil. A mudança na maneira de ensinar tem de ser
feita com consistência e baseada em práticas de várias gerações. Digo que nesta área nada se
inventa, tudo se recria. O resgate das experiências pessoais e coletivas é a única forma de evitar a
tentação das modas pedagógicas. Ao mesmo tempo, é preciso combater a mera reprodução de
práticas de ensino, sem espírito crítico ou esforço de mudança. É preciso estar aberto às novidades e
procurar diferentes métodos de trabalho, mas sempre partindo de uma análise individual e coletiva
das práticas.
NE> Como definir um bom programa de educação continuada?
Nóvoa< O aprender contínuo é essencial em nossa profissão. Ele deve se concentrar em dois
pilares: a própria pessoa do professor, como agente, e a escola, como lugar de crescimento
profissional permanente. Sem perder de vista que estamos passando de uma lógica que separava os
diferentes tempos de formação, privilegiando claramente a inicial, para outra que percebe esse
desenvolvimento como um processo. Aliás, é assim que deve ser mesmo. A formação é um ciclo que
abrange a experiência do docente como aluno (educação de base), como aluno-mestre (graduação),
como estagiário (práticas de supervisão), como iniciante (nos primeiros anos da profissão) e como
titular (formação continuada). Esses momentos só serão formadores se forem objeto de um esforço
de reflexão permanente.
NE> Todas as fases têm a mesma importância para o educador?
Nóvoa< Se tivesse de escolher a mais decisiva, ficaria com a dos anos iniciais da profissão.
Infelizmente, não se dá a devida atenção a esse período. É ele que define, positiva ou
negativamente, grande parte da carreira. Para mim é inaceitável que uma pessoa que acabou de se
formar fique encarregada das piores turmas, muitas vezes sem apoio nem acompanhamento. Quem
está começando precisa, mais do que ninguém, de suporte metodológico, científico e profissional.
NE> Ou seja, apenas ler sobre as novas teorias pedagógicas não é suficiente para se manter
atualizado?
Nóvoa< Há alguns anos surgiu o conceito de profissional reflexivo como uma forma de valorizar os
saberes experimentais. Ele teve mais influência na pesquisa educacional do que nas atividades
concretas de formação, mas foi importante na reorganização das práticas de ensino e dos modelos
de supervisão dos estágios. No entanto, sempre me recordo das palavras do educador americano
John Dewey: "Quando se diz que um professor tem dez anos de experiência, será que tem mesmo?
Ou tem um ano de experiência repetido dez vezes?" Só uma reflexão sistemática e continuada é
capaz de promover a dimensão formadora da prática.
NE> Quais critérios o professor deve considerar ao buscar formas de se atualizar?
Nóvoa< Como eu já disse, há dois pólos essenciais: o professor como agente e a escola como
organização. A preocupação com a pessoa do professor é central na reflexão educacional e
pedagógica. Sabemos que a formação depende do trabalho de cada um. Sabemos também que mais
importante do que formar é formar-se; que todo o conhecimento é autoconhecimento e que toda a
formação é autoformação. Por isso, a prática pedagógica inclui o indivíduo, com suas singularidades
e afetos.
83
NE> E a escola?
Nóvoa< Ela precisa mudar institucionalmente. O desenvolvimento pessoal e profissional depende
muito do contexto em que exercemos nossa atividade. Todo professor deve ver a escola não
somente como o lugar onde ele ensina, mas onde aprende. A atualização e a produção de novas
práticas de ensino só surgem de uma reflexão partilhada entre os colegas. Essa reflexão tem lugar
na escola e nasce do esforço de encontrar respostas para problemas educativos. Tudo isso sem cair
em meras afirmações retóricas. Nada vai acontecer se as condições materiais, salariais e de infraestrutura não estiverem devidamente asseguradas. O debate sobre a formação é indissociável das
políticas de melhoria das escolas e de definição de uma carreira docente digna e prestigiada.
inseri-lo em sua dinâmica pessoal e articulá-lo com seu processo de desenvolvimento. Não quero
tirar a responsabilidade do governo, mas sua intervenção deve se resumir a garantir meios e
condições.
NE> Qual é a maneira mais eficiente de aprender a ensinar? Voltando a ser aluno?
Observando? Praticando?
Nóvoa< Tudo isso é importante, mas novas práticas de ensino só nascem com a recusa do
individualismo. Historicamente, os docentes desenvolveram identidades isoladas. Falta uma
dimensão de grupo, que rejeite o corporativismo e afirme a existência de um coletivo profissional.
Refiro-me à participação nos planos de regulação do trabalho escolar, de pesquisa, de avaliação
conjunta e de formação continuada, para permitir a partilha de tarefas e de responsabilidades. As
equipes de trabalho são fundamentais para estimular o debate e a reflexão. É preciso ainda participar
de movimentos pedagógicos que reúnam profissionais de origens diversas em torno de um mesmo
programa de renovação do ensino.
NE> Saber trabalhar em grupo, então, é mais uma competência que o professor deve ter?
Nóvoa< Sim. São as equipes de trabalho que vão consolidar sistemas de ação coletiva no seio do
professorado. Não se trata de adesões ou ações individuais, mas da construção de culturas de
cooperação. O esforço de pensar a profissão em grupo implica a existência de espaços de partilha
além das fronteiras escolares. Trata-se da participação em movimentos pedagógicos, da presença
em dinâmicas mais amplas de reflexão e da intervenção no sistema de ensino. No passado, esses
movimentos tiveram um papel insubstituível na afirmação social da classe. Hoje, são decisivos para a
renovação.
NE> De que forma o governo (no caso da rede pública) e a própria escola (no caso da
particular) podem agir para melhorar a formação dos professores?
Nóvoa< Eles devem criar as condições básicas, com infra-estrutura e incentivos à carreira. Só o
profissional, no entanto, pode ser responsável por sua formação. Não acredito nos grandes planos
das estruturas oficiais. Esse é um processo pessoal incompatível com planos gerais centralizadores.
É no espaço concreto de cada escola, em torno de problemas pedagógicos ou educativos reais, que
se desenvolve a verdadeira formação. Universidades e especialistas externos são importantes no
plano teórico e metodológico. Mas todo esse conhecimento só terá eficácia se o professor conseguir
NE> Uma das recomendações da educação moderna é o trabalho interdisciplinar, por projetos.
Como adquirir prática nessa maneira de ensinar?
Nóvoa< O próprio trabalho em equipes pedagógicas pode ser um começo. Se insistirmos na
produção de um saber profissional, emergente da prática e de uma reflexão sobre ela, teremos
naturalmente uma produção conjunta. Para isso, a escola tem de organizar momentos
interdisciplinares de trabalho que não caiam no vazio curricular, mas que promovam uma integração
dos conteúdos de várias matérias.
NE> Existe algum método na educação continuada que alie todos esses aspectos que o
senhor preconiza?
Nóvoa< Sim, vários programas integram essas preocupações de forma útil e criativa: seminários de
observação mútua, espaços de prática reflexiva, laboratórios de análise coletiva das práticas e os
dispositivos de supervisão dialógica, em que os supervisores são parceiros e interlocutores. Para
além dos aspectos teóricos ou metodológicos, essas estratégias sublinham o conceito de
deliberação, que por sua vez exige um espaço público de discussão. Nele, as práticas e as opiniões
singulares adquirem visibilidade e são submetidas à opinião dos outros. Ao fazer isso, chama-se a
atenção para o conjunto de decisões que os professores tomam a cada instante, no plano técnico e
moral. Em outras palavras, a articulação entre teoria e prática só funciona se não houver divisão de
tarefas e todos se sentirem responsáveis por facilitar a relação entre as aprendizagens teóricas e as
vivências e observações práticas.
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NE> Paulo Freire escreveu que a formação é um fazer permanente que se refaz
constantemente na ação. "Para se ser, tem que se estar sendo", disse ele. O que o
senhor acha dessa afirmação?
Nóvoa< A formação é algo que pertence ao próprio sujeito e se inscreve num processo de ser
(nossas vidas e experiências, nosso passado etc) e num processo de ir sendo (nossos
projetos, nossa idéia de futuro). Paulo Freire explica-nos que ela nunca se dá por mera
acumulação. É uma conquista feita com muitas ajudas: dos mestres, dos livros, das aulas, dos
computadores. Mas depende sempre de um trabalho pessoal. Ninguém forma ninguém. Cada
um forma-se a si próprio.
NE> O estágio deve favorecer a mistura de prática com reflexão?
Nóvoa< Sem dúvida. O potencial formador de cada um depende das ponderações feitas com
os colegas, com quem está sendo observado e com o supervisor. Sem isso, a observação
transforma-se em exercício mecânico, sem interesse. É essencial estudar os processos de
organização do trabalho escolar, da gestão das turmas e da sala de aula, bem como as formas
de utilização dos métodos de ensino e a capacidade de resposta às situações inesperadas. As
competências para realizar essa análise são individuais e coletivas. A pertinência do estágio
reside na compreensão da contribuição específica dos professores e na identificação da
cultura profissional docente.
NE> Como aproveitar melhor a prática de supervisão?
Nóvoa< É essencial estimular a produção escrita e divulgá-la. Só a publicação revela o
prestígio social da profissão e a formalização de um saber profissional docente. Sempre me
espantei com o fato de haver tantos textos teóricos e metodológicos sobre ensino e Pedagogia
e tão poucos descrevendo práticas concretas. Se queremos renovar a profissão e as
estratégias de formação temos de dar visibilidade às práticas. Isso começa no período de
estágio e continua por toda a vida.
NE> Qual é, na sua opinião, o perfil ideal do professor do século XXI?
Nóvoa< Não gosto de fazer futurologia. Acho esse terreno repleto de armadilhas e
banalidades. A paixão pelo futuro freqüentemente significa déficit do presente. Por isso, falo de
apenas um aspecto: neste século, devido à complexidade do fenômeno educativo, à
diversidade das crianças que estudam e aos dilemas morais e culturais que seremos
chamados a enfrentar, teremos de repensar o horizonte ético da profissão. Acredito que os
próximos anos serão marcados pela instabilidade e pela incerteza. A atitude ética não depende
só de cada um de nós, mas da possibilidade de uma partilha efetiva com os colegas.
Precisamos reconhecer, com humildade, que há muitos dilemas para os quais as respostas do
passado já não servem e as do presente ainda não existem. Para mim, ser professor no século
XXI é reinventar um sentido para a escola, tanto do ponto de vista ético quanto cultural.
85
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FILMOGRAFIA
Mr. HOLLAND: Adorável Professor. Direção: Stephen Herek. Interscope /
Polygran Film Internacional, 1995. (140 min.) Color. Gravação em vídeo.
88
ÍNDICE
AGRADECIMENTOS ...................................................................................................... 3
DEDICATÓRIA................................................................................................................ 4
RESUMO ........................................................................................................................ 5
METODOLOGIA ............................................................................................................. 6
SUMÁRIO .......................................................................................................................................7
INTRODUÇÃO ................................................................................................................ 8
CAPÍTULO I .................................................................................................................................11
A EDUCAÇÃO NO BRASIL E O PROFESSOR.........................................................................12
I.1 - O capitalismo globalizado e a educação superior ..............................................................15
I.2 - A valorização do magistério ..............................................................................................18
I.3 - O lugar do ser humano na educação tecnológica ...............................................................21
CAPÍTULO II ................................................................................................................................26
O PROFESSOR E O EDUCADOR...............................................................................................27
II.1 - Principais paradigmas na formação docente.....................................................................29
II.2 - As competências na docência ...........................................................................................33
II.3 - O perfil de um novo educador ..........................................................................................42
CAPÍTULO III...............................................................................................................................48
O DESPERTAR DOS ‘MESTRES’ ..............................................................................................49
III.1 - A necessidade da mudança de paradigma .......................................................................52
III.2 - A presença da paixão em sala de aula .............................................................................54
III.3 - A vez do ‘mestre’ ............................................................................................................58
CONCLUSÃO ...............................................................................................................................62
ANEXOS .......................................................................................................................................67
ANEXO 1 ..................................................................................................................................68
Comprovantes de Atividades Extra-Clase .................................................................................68
ANEXO 2 ..................................................................................................................................70
REVISTAS ESPECIALIZADAS ..............................................................................................70
ANEXO 3 ..................................................................................................................................73
ENTREVISTAS.........................................................................................................................73
ANEXO 4 ..................................................................................................................................76
INTERNET................................................................................................................................76
BIBLIOGRAFIA ...........................................................................................................................86
DISCOGRAFIA.............................................................................................................................88
WEBSITEGRAFIA .......................................................................................................................88
FILMOGRAFIA ............................................................................................................................88
ÍNDICE..........................................................................................................................................89
FOLHA DE AVALIAÇÃO ...........................................................................................................90
89
FOLHA DE AVALIAÇÃO
Nome da Instituição:
Universidade Cândido Mendes
Projeto “A Vez do Mestre”
Título da Monografia: Uma intervenção mais afetiva e apaixonante do
professor influencia na formação de nível superior?
Autor: Ana Lúcia Souza da Silva
Data da entrega: 28 Out. 2003
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