IV Encontro Nacional da Ulepicc-Brasil – Rio de Janeiro/RJ – 9 a 11/10/2012
O Reposicionamento da Mídia Regional no Sistema Midiático Brasileiro1
Pâmela Araujo Pinto2
Resumo:
O objetivo principal deste trabalho é refletir sobre o lugar da mídia regional no Brasil. Propõe-se uma
nova leitura da configuração midiática do país, na qual esta é formada por um conjunto de sub-sistemas,
de referência nacional e regionais, que somados compõem a mídia brasileira. Para expor esta mudança
nas tensões de forças entre as mídias de referência nacional e os vários arranjos de mídia nas outras
regiões, recorreu-se à geografia para apontar o impacto das transformações geopolíticas do país no âmbito
midiático. A análise das perspectivas tradicionais utilizadas por pesquisadores para descrever a
comunicação regional foi o ponto de partida para reflexão de uma proposta mais adequada ao cenário
atual. Este artigo alerta para necessidade de um olhar mais crítico sobre o regional, tema negligenciado
nos debates destinados à compreensão da mídia brasileira.
Palavras-chave: mídia regional; geopolítica; sistema midiático brasileiro.
Abstract:
The main objective of this paper is to reflect on the place of regional media in Brazil. It is proposed a new
reading of the media configuration of Brazil, in which it is formed by a set of sub-systems, from national
and regional reference, which together they forming the Brazilian media. To expose this change in the
tensions forces between national reference media and various media arrangements in other regions, we
used geography to point the impact of geopolitical changes in the country, within the media. The analysis
of traditional perspectives used by researchers to describe the regional communication was the starting
point for consideration of a proposal more suited to the current scenario. This article alerts to need for a
more critical look about the regional, neglected issue in discussions aimed at understanding the Brazilian
media.
Keywords: regional media; geopolitics; Brazilian media system
1 - INTRODUÇÃO
Este artigo propõe-se a discutir a mídia regional, tema negligenciado nos estudos
brasileiros de comunicação, enxergando-a como elemento formador da mídia produzida
neste país, e não um acessório de menor expressividade. A polarização entre mídia
central, composta por grupos de comunicação de alcance nacional, e as mídias
1
Trabalho apresentado no GT1 – Políticas de Comunicação, IV Encontro Nacional da ULEPICC-BR.
2
Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense e membro do
Laboratório de Pesquisa em Mídia e Democracia (Lamide/UFF). Mestre em Comunicação pela UFF (2010).
Jornalista (Comunicação Social ) pela Universidade Federal do Maranhão (2007). Email: [email protected]
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periféricas já não oferece uma explicação satisfatória para entendermos a diversidade da
mídia brasileira. Assim, busca-se superar a naturalização do regional como um espaço
menor do contexto midiático, e expor que a análise dos diversos cenários que juntos
formam este eixo são determinantes para entender a comunicação no Brasil e,
sobretudo, para problematizar as relações entre mídia e política no país.
Com um propósito conceitual, este texto apoia-se em um diálogo com a
geografia para explicar a formatação relacional do sistema midiático em sua primeira
seção: a) A influência do espaço na configuração midiática brasileira, na qual propõe-se
uma estruturação baseada na ideia de sub-sistemas midiáticos regionais que formam um
conjunto nacional; Em seguida, as perspectivas “super local” e do “relacional
assimétrica”mapeiam os modos de descrição do cenário regional pelos pesquisadores
em comunicação: b) Perspectivas tradicionais do papel da mídia regional; Na terceira
secção, Ponto de partida para o novo lugar da mídia regional, discute-se o
reposicionamento das empresas de referência nacional para com a temática regional,
visto que o crescimento de empresas e grupos de mídia não é coerente com o lugar
secundário até então atribuído ao jornalismo regional. Nesta parte, apresenta-se uma
divisão dos tipos de mídia regional com intuito de subsidiar discussões futuras. As
considerações finais apontam para um debate contínuo sobre a diversidade do regional e
sua importância no sistema midiático do Brasil. Temas de uma agenda de pesquisa
presente e futura derivados da tese, em construção, que originou as reflexões deste
texto.
2 – A INFLUÊNCIA DO ESPAÇO NA CONFIGURAÇÃO MIDIÁTICA
BRASILEIRA
Na construção da tese que originou este artigo, decidiu-se empreender um estudo
analítico e exploratório da ideia de mídia regional, buscando ampliar o conceito e
propor uma tipologia capaz de sintetizar sua complexidade e variedade no âmbito
brasileiro. Tornou-se necessário repensar a configuração midiática atual, considerada
tradicionalmente a partir da dicotomia mídia central, situada nas capitais São Paulo, Rio
de Janeiro e Brasília, e as mídias periféricas, que agregam grupos midiáticos descritos
como regionais, situados para além deste eixo central. Um primeiro esforço para este
reposicionamento conceitual foi realizado na dissertação As interfaces do jornalismo
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nacional e regional no Brasil: Roseana Sarney e o caso Lunus 3, defendida em 2010, no
Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense.
Neste trabalho desenvolveu-se a ideia de uma geopolítica da imprensa brasileira, na
qual se constatou que apesar das diferenças estruturais, a interface entre estas mídias é
permeada por paralelos e interdependências. Ilustrou-se que as definições de jornalismo
nacional e jornalismo regional são flexíveis e, portanto, podem ser invertidas de acordo
com o contexto no qual os veículos estão inseridos. As lacunas deixadas neste trabalho
estimularam a construção de uma agenda de pesquisa sobre a mídia regional, para maior
aprofundamento da temática.
Nesta primeira pesquisa, mostrou-se que a relação de dependência das margens
de um centro radiador de poder reflete o processo de organização política, fundamental
para estabelecer o papel de cada região nas decisões políticas e econômicas do país. Na
República Velha, o presidente Campos Sales (1898 - 1902) elaborou um pacto não
escrito onde a força política dos atores do centro era consolidada com o apoio de atores
regionais. Transformou a figura dos presidentes de província, sem autonomia, em
governadores de estado, com poder de decisão e total apoio do governo federal. Surgiu
então a Política dos Estados, amplamente acolhida pelos chefes regionais que viraram
adeptos da nova sistemática, na qual a periferia legitimava, pelo voto, o poder central e
este concedia autonomia, cargos e verbas aos chefes estaduais. Segundo Lessa (2001),
tal política significou um congelamento da competição nos estados, pois os grupos
detentores de poder, no momento de realização do pacto, adquiriram condições de
“eternização” nos governos. Houve um engessamento da competitividade garantida pela
democracia. Desta forma, a Política dos Governadores reforçou o papel desempenhado
pelos estados ao longo da vida da República, atribuindo o protagonismo aos estados
localizados no centro, em detrimento dos estados periféricos que ficam margeados dos
processos decisórios. Estes são responsáveis apenas por corroborar as decisões políticas
centrais, não importando as estratégias utilizadas localmente para estabelecimento de
sua força representativa. Implantou-se uma tradição política reforçada por outros
governantes nas demais fases da vida republicana brasileira.
Este contexto político estimulou a formação de polos de poder com influência
3
O Caso Lunus foi o nome dado à operação da Polícia Federal na empresa Lunus, de propriedade da governadora do
Maranhão, Roseana Sarney. Na ocasião foi encontrado R$ 1,34 milhão, dinheiro que seria usado na campanha da précandidata do PFL (Partido da Frente Liberal), Roseana, à presidência da República, em 2002.
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em outras esferas, como a geográfica. Por isso, uma compreensão mais aprofundada da
estrutura geográfica do país é essencial para uma elaboração consistente sobre as
configurações midiáticas. Ao longo das mudanças técnicas e científicas ocorridas nos
últimos séculos, o mapa deste território foi redesenhado: passou da configuração de
arquipélagos isolados, dependentes das relações econômicas externas, em meados do
século XIX, a um país interligado (fisicamente), em diferentes estágios de
desenvolvimento, dependente de uma região polarizadora interna, na primeira metade
do século XX, (SANTOS, 2009). A integração nacional “física” iniciou com a
implementação de melhorias no setor de transporte e a criação de meios de
comunicação, decorrentes da industrialização do país, e concretizou-se depois da
Segunda Guerra Mundial. A integração “simbólica” amadureceu no período da ditadura
militar, iniciada em 1964, com programas socioeducacionais nacionalistas. Estas
mudanças ocorreram a partir das regiões Sudeste e Sul, onde as formas produtivas
capitalistas foram incorporadas pioneiramente, proporcionando um desenvolvimento
localizado que as diferenciaria de outras partes do território.
Na década de 1970, Santos (2009) elaborou o conceito de região concentrada,
formada pelos estados das regiões Sudeste e Sul, para descrever esta parte do Brasil,
onde uma divisão do trabalho mais intensa garantiu a presença conjunta das variáveis
mais modernas, enquanto no resto do país, a modernização foi seletiva. As metrópoles
de São Paulo e Rio de Janeiro foram classificadas com polo da região concentrada.
Santos (2009) aponta São Paulo como uma metrópole onipresente no território
brasileiro, por produzir e coordenar fluxos de informação indispensáveis ao trabalho
produtivo de outras partes do país. O lugar de centro político do Rio de Janeiro,
enquanto capital republicana, passou a ser ocupado por Brasília, a partir da década de
1960. A nova capital federal também cumpriu uma função de conexão dos estados, no
processo de “interiorização” da integração do país. De acordo com Santos (2006, 2009),
São Paulo ocupou a liderança econômica e Brasília se tornou o centro político. Numa
perspectiva radical, o autor alçou o Rio de Janeiro um lugar nostálgico de memória
política do país. O autor não atribuiu ao Rio de Janeiro um caráter de centro cultural,
pois mesmo diante destes reposicionamentos, a cidade é um polo de referência da
produção cultural e concentra, juntamente com São Paulo, os principais grupos
midiáticos e de entretenimento do país. Sendo, portanto, ainda, uma referência,
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juntamente com São Paulo e Brasília.
Segundo Caparelli (1982, p. 80), a ocupação deste polo central pelas cidades do
Rio de Janeiro como São Paulo, no início do século XX, possibilitou o uso estratégico
destes espaços na implantação de veículos com perfil pretendido nacional. Nestas
capitais também estavam sediadas as filiais de empresas internacionais e sedes de
empresas nacionais, bem como as agências de publicidade. No final dos anos 1950, já
havia quase 300 agências, a maioria localizada no Rio e em São Paulo. De 1947 a 1953,
o volume investido em jornais e revistas aumentou cerca de 400% (RIBEIRO, 2007, p.
179). Estes dois centros econômicos foram pioneiros na transmissão de radiodifusão:
em 1923 foi instalada a primeira emissora de rádio no Brasil, a Rádio Sociedade, no Rio
de Janeiro; e a primeira televisão do país, a TV Tupi-Difusora, foi inaugurada em 1950,
em São Paulo. Um ano depois, foi criada a TV Rio, no Rio de Janeiro. A partir de então,
as duas cidades se consolidaram enquanto sedes da produção televisiva e como
referência de produção radiofônica, pois além do aporte econômico das regiões, também
aglutinaram veículos de comunicação que passaram a ter circulação em outros estados.
Neste polo estabeleceu-se uma lógica padronizada de emissão de conteúdos para
os veículos comerciais, exercida do eixo central para as diferentes mídias regionais,
acentuadamente nas décadas de 1960 e 1970, com o projeto de integração nacional da
ditadura militar. Este projeto propiciou infraestrutura necessária à integração do país por
meio de redes de radiodifusão, iniciada pela transmissão da Rede Globo, que passou a
integrar emissoras independentes e a implantar estações retransmissoras por todo o
território nacional (BOLAÑO, 2004). De acordo com o autor, entre 1965 e 1970 temos
a passagem de um mercado relativamente competitivo para outro de característica
oligopólica, bastante concentrado e centralizado. A fixação dos investimentos
publicitários nos veículos da região Sudeste ocasionou uma dupla concentração (de
capitais e geográfica), impedindo a divisão das verbas para outras emissoras e
consolidando a formação de oligopólios metropolitanos - com pretensões nacionais.
Santos (2009b, p. 278) lembra que a regionalização decorre tanto de uma
organização supranacional regulada, quanto o resultado local, à escala subnacional, das
forças desencadeadas sob a égide do mercado pelo processo de globalização. O autor
sugeriu uma divisão simplificada do país em quatro: a região concentrada, descrita
acima, o Nordeste, o Centro-Oeste e a Amazônia. Contudo, Santos apontou que para
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além desta divisão tradicional, formaram-se outros sub-espaços que configuraram uma
nova regionalidade, resultantes de uma nova geografia regional desenhada na base da
nova divisão territorial do trabalho (...) que é tanto mais complexa quanto maior o
número de produtos e a diversidade de sua produção (SANTOS, 2009, p. 44).
Santos (2009) descreveu um novo perfil para a região, dinâmico, na qual esta
concilia aspectos de sua tradição em um sistema produtivo globalizado. Ou seja, pode
conviver com sistemas homogêneos e dependentes e ou ser autônomo, relacionando-se
estrategicamente com a região de centro. Esta relação pode alterar as diferenças entre as
regiões, oriundas da complexa organização territorial e urbana do Brasil e com isso
inverter a lógica de dependência – gerando com isso novos mapas geopolíticos e
econômicos. A metropolizações das regiões Centro-Oeste e Nordeste são exemplos
desta possibilidade. Até 2002, o país tinha 33 regiões metropolitanas, situadas em 15
estados, contabilizando 410 municípios (IBGE, 2002). Este novo perfil das dinâmicas
regionais diminui a atração exercida pelas metrópoles da região concentrada, descrita
por Santos. Apesar da significativa influência mantida sob os demais estados, as cidades
de Rio de Janeiro e São Paulo passaram a dividir seu protagonismo com outras regiões,
tidas como emergentes - produtoras de bens econômicos e simbólicos de modo mais
independentes. Neste cenário de redistribuição de polarização, a mídia regional tornouse um instrumento útil de verificação dos novos impactos que cada região,
internamente, externamente e em referência ao âmbito nacional.
No Brasil, a diversidade percebida nas esferas socioculturais e econômica reflete
no âmbito midiático, pois mesmo estando sob leis, regulamentações, idioma e sistema
político compartilhados por todas as 27 unidades federativas, há diferentes tipos de
mercado, de formação de grupos midiáticos, de gestão, de laços com a política, que
tornam mais amplo o conceito de mídia regional, e, portanto, diminui as chances desta
ser identificada por meio da análise de um único veículo, sem uma contextualização
maior. Busca-se superar a perspectiva na qual a mídia regional é tida com um conjunto
heterogêneo de grupos que carrega traços de sua cultura, para buscar entendê-la a partir
dos laços internos e externos de seu funcionamento com os demais sub-sistemas.
A ideia de regional está sendo diretamente influenciada pelas mudanças na
forma de diferenciar os sistemas centrais e periféricos em um contexto geopolítico
nacional/internacional - o que traz consequências como o empoderamento dos sistemas
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regionais. O presente estudo considera esta modificação de forças na tensão entre o
centro e as margens na formatação regional brasileira. Reconhece a força de seu centro,
mas atenta para o empoderamento de sua periferia heterogênea. Acredita-se que nesta
relação entre o centro e as margens não haja um laço nacional padrão para com as
regiões, mas vários tipos de laços, atendendo as especificidades de cada região. É
importante destacar a relatividade dos termos centro e periferia, pois segundo
Albuquerque (2008), as grandes empresas midiáticas brasileiras ora atendem à ideia de
centro, quando servem de modelo para grupos menores, ora estão na condição de
periferia, ao tomar como referência determinado modelo estrangeiro. O mesmo acontece
quando sistemas considerados periféricos servem de parâmetro, para veículos ainda
menores, assumindo a condição de centro – o que é possível ocorrer no Brasil, dada a
dimensão do país e o descompasso tecnológico existente entre os meios de comunicação
difundidos nas cinco regiões. No entanto, as empresas de referência nacional enfatizam
sua proeminência diante dos cenários regionais, negligenciando, ainda, esta relatividade.
Isso corrobora a hipótese de que as mídias feitas em várias partes do país tenham
significação e estejam agrupadas em sub-sistemas integrantes do sistema midiático
nacional, portanto, sendo influentes no contexto da comunicação brasileira. Assim
teríamos os sub-sistemas das regiões Norte, Sul, Nordeste, Sudeste, Centro-Oeste que
somados originariam um conjunto diverso da mídia brasileira. A análise de qualquer um
destes sub-sistemas, isoladamente, prejudica a compreensão do conjunto, por este só
existir a partir de suas interconexões. A supervalorização dos sub-sistemas localizados
em uma região central impede o entendimento do conjunto, dada a sua dimensão e
variedade. Por outro lado, o isolamento dos sub-sistemas das regiões periféricas reforça
uma avaliação simplificada da complexidade dos laços e perfis deste conjunto.
A próxima secção aborda as principais descrições do regional na literatura de
comunicação do país: a relacional assimétrica, que valoriza excessivamente a mídia de
referência nacional, e a super local, com destaque isolado das mídias regionais.
3 – PERSPECTIVAS TRADICIONAIS DO PAPEL DA MÍDIA REGIONAL
Influenciada pela concentração midiática, a compreensão de uma mídia central
produtora de conteúdos, oposta à mídia regional “reprodutora” ganhou espaço nas
reflexões sobre a mídia brasileira e, paralelamente, demarcou uma lacuna na
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compreensão dos eixos regionais formados em todo o país. A temática da mídia
regional foi pouco explorada na pesquisa em comunicação, o que resultou em estudos
escassos e simplificações sobre a questão. Entretanto, já nas décadas de 1970 e 1980
pesquisas registraram a tentativa de compreensão do papel do regional no contexto
midiático brasileiro, como a dissertação de Wilson da Costa Bueno “Caracterização de
um objeto conceitual para a análise da dicotomia imprensa industrial/ imprensa
artesanal no Brasil” (1977) e o livro de Gastão Thomaz de Almeida, “A imprensa do
interior: um estudo preliminar” (1983). A falta de bibliografia e a dificuldade de
obtenção de dados sobre a atuação dos diferentes tipos de mídia e empresas nas cinco
regiões brasileiras foram apontadas como obstáculos para o amadurecimento das
investigações deste circuito midiático feito para além de um centro econômico, cultural
e político. Esta lacuna proporcionou um entendimento simplificado sobre a mídia
regional, descrita, majoritariamente, sob duas perspectivas: uma primeira, que a percebe
a partir de uma interação dependente com a mídia nacional, nomeada de “relacional
assimétrica”, e uma segunda, que a aborda de forma positiva e supervalorizada, aqui
definida como “super local”.
A primeira perspectiva percebe a mídia regional mais amplamente, todavia,
condiciona sua existência às assimetrias com a mídia nacional. Contraposições de
conceitos como “artesanal” e “industrial” (BUENO, 1977), “jornalismo de província” e
“grande imprensa” (GOMES, 2007) reforçaram ao longo dos anos uma concepção do
ambiente regional a partir de suas lacunas e não de suas características ou atuação.
Dicotomias deste tipo inferiorizam a questão da mídia regional sem apresentar uma
justificativa concreta sobre a sua formatação, apontando apenas as diferenças com
padrões vigentes em circuitos midiáticos centrais, tidos como referência. Bueno (1977)
construiu sua hipótese sobre o ambiente regional reconhecendo suas diferenças em
relação aos jornais do tipo industriais, apesar de discordar da “ideia corrente de que o
jornal artesanal é menos jornal do que o jornal industrial” (BUENO, 1977 apud
ALMEIDA, 1983, p.20).
Trinta anos depois, autores como Gomes utilizam esta dicotomia como suporte
de reflexão sobre o regional, conforme ilustrou o conceito de “jornalismo de província”,
criado para identificar o jornalismo regional, em oposição ao conceito de jornalismo
nacional, diferenciados pela abrangência, infraestrutura, perfil editorial comprometido
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com os preceitos éticos e a capacidade de formação de um campo social: “na grande
imprensa constituiu-se um campo jornalístico que não se deixa substituir pelo campo
político, oferecendo-lhe resistências e filtros e dobrando o interesse do campo político
aos interesses da empresa ou dos ambientes profissionais do jornalismo” (GOMES,
2007, p. 63). O autor defende que no jornalismo de província os interesses jornalísticos
não sobrevivem aos interesses privados de grupos políticos. Além de Gomes, outros
autores ainda constroem referenciais da mídia regional apontando as deficiências desta
em relação ao parâmetro “idealizado” das empresas nacionais, principalmente ao
discutir os laços entre mídia e política. Muitas vezes deixam de perceber que no âmbito
nacional também se realizam trocas simbólicas que privilegiam relações econômicas e
políticas. A própria relação entre as empresas com distribuição nacional e os variados
sistemas regionais implica em trocas assimétricas, nas quais os grandes grupos precisam
destes suportes locais para garantir a cobertura de suas redes, a fim de abranger todo o
território.
A segunda perspectiva aborda a mídia regional de forma particularizada e
individual, situando-a em um modelo provinciano e localizado, nos quais se privilegia
um tipo de atividade midiática, a exemplo das pesquisas sobre os jornalismos feitos em
determinadas cidades, estados ou regiões. Funciona como uma resposta positiva a
inferioridade atribuída à mídia regional. Ao mesmo tempo em que o viés “super local”
valoriza o jornalismo de forma isolada, em detrimento de uma reflexão sobre o seu
papel no contexto das mídias regionais, proporciona sua marginalização ao condicionalo como “menor”. Esta perspectiva generaliza a produção do âmbito regional sem
ampliar a problematização dos diferentes níveis de desenvolvimento das mídias
regionais, apenas a credencia como “pequena imprensa”. Subdivisões como “local”,
“comunitário”, “do interior” são utilizadas para agrupar o tipo de jornalismo produzido
à parte do sistema midiático com suportes de abrangência nacional, funcionando como
termos autoexplicativos para tudo que está além de um circuito central. Tais adjetivos
isolam estes “outros jornalismos” com base nas suas essências geográficas ou
identitárias, anulando a busca de suas particularidades e, principalmente, dificultando a
percepção de que integram circuitos dos sub-sistemas midiáticos formadores da mídia
brasileira.
Na maioria das vezes, as perspectivas “relacional assimétrica” e “super local”
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são contadas a partir de pesquisas de autores da região Sudeste, ocasionando uma
supervalorização das mídias instaladas nas capitais dos estados de Rio de Janeiro e São
Paulo, tratadas como nacionais, em detrimento de uma abordagem que aponte as
especificidades de outros locais (BARBOSA e RIBEIRO, 2009). Esta ocorrência
reforça a polarização entre as diferentes mídias, reduzidas ao agrupamento de nacional e
regional.
Estas duas leituras do cenário regional são insuficientes para representar o
crescimento e a articulação interna e externa dos variados arranjos midiáticos no Brasil.
No tópico seguinte, elabora-se uma tentativa de superação, com a proposta de divisão
dos tipos de mídia regional, que compõem os sistemas midiáticos sub-nacionais,
elaborada como uma primeira tentativa de sintetizar o âmbito regional comercial.
4 – PONTO DE PARTIDA PARA O NOVO LUGAR DA MÍDIA REGIONAL
No Brasil, muitos pesquisadores trabalham a ideia de inferioridade da mídia
regional como uma espécie de verdade absoluta, uma lei vigente no âmbito da
comunicação de qualquer país. Tenta-se naturalizar este conceito de inferioridade do
regional, sem perceber que a relação intramidiática varia de acordo com a cultura
comunicacional e a estrutura geográfica e socioeconômica de cada país. Na França,
atribui-se ao jornalismo regional um lugar de destaque, sendo este responsável por
constantes inovações e o segundo maior empregador dos jornalistas franceses (NEVEU,
2006, p. 56). Discordando desta perspectiva limitada sobre o regional, pretende-se
investigar a contribuição e o papel dos sub-sistemas regionais. Para tanto, recorreu-se às
teorias de comunicação comparada como aportes metodológicos para entender a
configuração midiática do país.
O estudo apresentado neste artigo é uma comparação interna aprofundada, que
considera a diversidade dos sub-sistemas midiáticos, relacionando-os de modo a
valorizar suas formas de interação internas e externas, nas esferas da comunicação e da
política. Uma referência central para esta abordagem é a obra Comparing media
systems: three models of media and politics (2004), de Hallin e Mancini, na qual os
autores analisaram 18 países e seus respectivos sistemas midiáticos e políticos em
referência a quatro dimensões comparativas: mercado das mídias; o paralelismo
político, a natureza das ligações entre as mídias e os partidos políticos; o
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profissionalismo jornalístico; a intervenção do Estado no sistema das mídias, que
resultou na elaboração de três modelos, baseados no conceito weberiano de tipos
ideais,tendo em vista a heterogeneidade dos países e dos grupos: a) Sistema Pluralista
Polarizado ou Mediterrâneo: com baixa circulação de jornais, voltado para elite, e por
uma
grande
interferência
de
instituições
políticas.
Com
baixo
nível
de
profissionalização e o paralelismo político elevado. O Estado fornece subsídios à
imprensa, por meio de reduções de impostos e cotas publicitárias; b) Sistema
Corporativista Democrático ou Norte-Europeu: tem o maior índice de circulação de
jornais e possui mídias ligadas a grupos políticos e civis. Articula liberdade de imprensa
coma intervenção forte do Estado nas mídias; c) Sistema Liberal ou Atlântico Norte:
diferencia-se pelo desenvolvimento precoce e forte dos jornais comerciais, no final do
século XIX. Nos EUA, Canadá e Irlanda, a neutralidade política tornou-se a posição
típica da imprensa. A partir desta sistematização, os autores concluíram que os sistemas
estavam tendendo a uma homogeneização que levaria ao tipo ideal do sistema Liberal.
Por outro lado, apontavam que os países do mundo não inseridos na proposta de
modelo, tinham características em comum com o sistema Pluralista Polarizado.
O uso deste estudo para pensar o caso brasileiro é interessante para avaliarmos
como pesquisadores se situam em referência a mídias externas e como abordam a
diversidade do país, em suas análises. A hipótese da tendência pluralista polarizada nos
demais países, para além dos focados na pesquisa, foi considera sob dois enfoques em
relação ao Brasil: Azevedo (2006) reconhece o país como pertencente ao tipo Pluralista
Polarizado, citando o passado autoritário, a democratização recente e o estado
intervencionista como semelhanças. Já Albuquerque (2011) criticou a proposta
apontando a normatividade do termo “modelo”, ou seja, quando este é utilizado para
definir países ocidentais funciona como um “modelo de”, quando aplicam o termo a
países não ocidentais, muitas vezes, torna-se um “modelo para”. O autor atenta para a
função do modelo Pluralista Polarizado, definido negativamente em relação aos demais
modelos, sendo uma espécie de modelo padrão para tudo que não se encaixa como
Liberal ou Corporativista Democrático. Albuquerque (2011) aponta diferenças decisivas
para argumentar o não encaixe do país no modelo Pluralista Polarizado, a exemplo do
predomínio de empresas privadas nas empresas de radiodifusão; a não aplicação do
paralelismo político (sobretudo pela atuação fraca dos partidos políticos e do destaque
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da figura do presidente), e o papel reivindicado pela mídia como fiadora da democracia.
Contudo, nem Azevedo e nem Albuquerque levam em consideração as
diferentes realidades midiáticas do país, que dificilmente permitiriam um encaixe em
um dos modelos de Hallin e Mancini, de forma integral. Ocorre, de certo modo, a
mesma normatização ao se definir os eixos de centro e margem, reconhecendo o
regional como um “modelo para” o que não é central. Nestas análises comparativas,
percebe-se que o espaço tido como nacional é pouco problematizado e o âmbito
regional é simplificado. Não há uma reflexão maior sobre as estruturas existentes no
“vácuo” deixado por estes dois eixos. Características do modelo atual do cenário
midiático dificultam a sua compreensão, a exemplo da estrutura das redes de
radiodifusão e a propriedade cruzada4 que complexificam a separação exata da atuação
dos grupos no Brasil. Outras duas questões importantes dizem respeito à convivência de
diferentes tipos de suportes em um mesmo espaço (retransmissoras de redes nacionais
de televisão e grupos/veículos independentes dos modelos em rede) e às diferenças
econômicas entre as regiões possibilitam uma gramática complexa para definir o
regional brasileiro - com diferentes proporções e relações.
Compreende-se que o regional não é vivenciado da mesma forma em cada
estado ou região, tanto do ponto de vista da produção de conteúdo por parte de grupos
empresariais, como pelo consumo das informações pelo público. Quando se fala em
regional há diferentes significados para a mesma ideia, não sendo o contexto de mídia
regional da região Norte, necessariamente, semelhante ao da região Sul. O mercado de
jornais impressos sinaliza a diferença de perspectivas, um reflexo da variação das
relações sociais, políticas e econômicas: enquanto a região Norte contabiliza 40 jornais,
distribuídos em sete estados, o Sul soma 148 impressos diários, em três estados,
conforme dados da Associação Nacional dos Jornais (ANJ). Apenas os estados do
Amazonas, de Rondônia e do Pará têm uma média acima ou igual a cinco jornais de
circulação (diária), nos demais estados o número de impressos de maior relevância e
perenidade na circulação oscila entre três a quatro. Na região Sul o número de
impressos diários são 60, no Paraná; 46, em Santa Catarina e 42, no Rio Grande do Sul
(ANJ, 2012).
Mesmo diante destes impasses, reconhece-se uma mudança no posicionamento
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É a possibilidade de um mesmo grupo empresarial controlar jornais, revistas, emissoras de rádio e de televisão em
um mercado.
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da mídia regional, tanto no âmbito do espaço interno, ou sub-nacionais, como
externamente, no espaço de referência central. Em 2012, o crescimento da mídia
regional foi atestado tanto nos setores públicos como nos privados. A Secretaria de
Comunicação Social da Presidência da República (SECOM) informou, no seu portal,
que em 2003 havia 499 veículos cadastrados na secretaria e em 2011, o número passou
para 8.519 (SECOM, 2012). O aumento se deu pela política de comunicação
regionalizada implantada na gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, (2003 –
2010), por meio dos Decretos n° 4.799/2003 e n° 6.555/ 2008. Empresas privadas como
o jornal Estado de São Paulo e o portal de informações das Organizações Globo,
G1.com, também adotaram estratégias de valorização do regional, por reconhecerem a
expressividade mercadológica deste seguimento: a) O Estado de São Paulo passou a
veicular a coluna semanal “Pelo Interior”, desde 14 de março de 2012, nos cadernos
Cidades e Metrópole, com informações do interior de São Paulo; b) a secção G1
Regiões, cresceu, passando a ter 21 sites individuais dos estados brasileiros e do Distrito
Federal. Sendo os estados de Minas Gerais (com dois sites voltados para o interior
mineiro – Sul de Minas e MG – Triângulo Mineiro) e São Paulo (com dez sites de
informações das principais cidades do estado) contemplados com sites de suas
mesoregiões. Todos os sites estão vinculados às afiliadas de TV da Rede Globo em cada
estado ou região. Segundo as Organizações Globo, o público de usuários do conteúdo
regional é de 15 milhões, de um total de 25 milhões de internautas que acessam o
G1.com, criado em 2006 (FONSECA, 2012).
Diante deste novo cenário, ainda em andamento, busca-se construir categorias
capazes de empreender uma síntese de características que contemple a variedade dos
sub-sistemas regionais de mídia comercial. Observa-se que não há uma diferenciação
capaz de segmentar a complexidade da variação de veículos inseridos em um mesmo
recorte. Com intuito de organizar os variados contextos de mídia a fim de definir, mais
claramente, os laços mantidos entre esta instituição e outras esferas sociais, propõe-se
agrupar as mídias, a partir das suas respectivas áreas de atuação e abrangências
geográficas. Assim, dividem-se os grupos e veículos que formam a mídia regional
brasileira em três categorias principais:
1) Supraestaduais – formado por grupos de mídia cuja atuação ultrapasse os limites
do estado de origem. Enquadram-se nesta categoria os grupos RBS, com 60
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IV Encontro Nacional da Ulepicc-Brasil – Rio de Janeiro/RJ – 9 a 11/10/2012
veículos (radiodifusão, mercado editorial, internet) cobrindo os estados do Rio
Grande do Sul e de Santa Catarina. É a terceira maior organização de mídia
privada do país; a Rede Amazônica, o maior grupo midiático da região Norte,
com 13 veículos (radiodifusão) no Acre, Amapá, Amazonas, Rondônia e
Roraima; e a Organização Jaime Câmara, detentora de 24 veículos distribuídos
nos estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso e no Distrito Federal. O grupo
denomina-se o maior da região Centro-Oeste. Os grupos supraestaduais possuem
afiliação com empresas de referência nacional;
2) Estaduais – agrega grupos cuja atuação coincide com os limites do estado. Na
maioria das vezes o estadual é definido pelo que é feito nas capitais e,
posteriormente, distribuído nos demais municípios. O Grupo A Tarde,
localizado em Salvador, é um exemplar desta categoria. Além do jornal A Tarde,
possui uma rádio FM, agência de notícias, web TV, duas revistas, A Tarde
Móbile, o jornal Massa!, Avance Telecom, A Tarde Educação e uma gráfica. O
jornal A Crítica, em Manaus, de propriedade do grupo Galderano, detentor de
seis veículos de radiodifusão, é outro exemplo de veículo estadual. Produzido
em Manaus, circula por todo o Amazonas. Neste segmento, os grupos podem ser
afiliados a grupos de referência nacional e ou afiliados a grupos sub-nacionais;
3) Sub-estaduais – composto por veículos e ou grupos de abrangência mais restrita,
com cobertura pontual em alguns municípios. O Diário de Tocantins, na cidade
de Marabá, com circulação e influência na região dos Carajás, no Pará, é um
exemplo. Assim como o Diário do Norte do Paraná, que atinge 60 municípios no
interior do estado, a partir de sua sede em Maringá. Pertence ao grupo O Diário,
detentor de uma rádio, uma editora, empresa de comunicação, portais de internet
e empresa de sonorização. Os suportes sub-estaduais podem ser afiliados a
grupos sub-nacionais, tanto como podem ser independentes de afiliações.
Esta divisão é o primeiro passo para a definição de categorias capazes de
contemplar a diversidade do regional no Brasil. Percebe-se a necessidade de
correlacionar estes três tipos de mídia regional a questões como: a) os laços entre as
empresas midiáticas no âmbito nacional e regional e b) os vínculos mantidos entre
grupos/veículos com políticos ou instituições políticas. Esta análise ainda está sendo
aprimorada, com suporte da metodologia comparativa dos sistemas de mídia e política e
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das perspectivas da Economia Política da Comunicação.
Não é o propósito da pesquisa apresentada neste artigo esgotar as discussões
sobre o regional, sobretudo porque abarcará seu aspecto comercial e não entrará nas
outras dimensões a exemplo da comunitária, o que possibilitará a ocorrência de várias
lacunas. Sua contribuição prioritária será apontar um novo modelo analítico que não
anule o regional e ou o simplifique como um problema localizado, sem interferência em
outros contextos de mídia, mas o coloque em condição de debate, apontando para além
de suas características, a fim de expor seu impacto no panorama comunicacional
brasileiro. A diversidade da mídia brasileira é ainda pouco refletida, pois se tornou
“refém” de conceitos que a colocaram em circuitos “fechados”, sem interlocução
intrarregional ou extrarregional.
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O Reposicionamento da Mídia Regional no Sistema Midiático