JAIRA TEREZINHA DA SILVA RODRIGUES A SUBJETIVIDADE ENQUANTO PARTE CONSTITUTIVA DA QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL EM ESCOLAS QUE IMPLANTARAM OS CICLOS DE FORMAÇÃO NO MUNICÍPIO DE CRICIÚMA- SC E PORTO ALEGRE- RS CRICIÚMA, 2004 JAIRA TEREZINHA DA SILVA RODRIGUES A SUBJETIVIDADE ENQUANTO PARTE CONSTITUTIVA DA QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL EM ESCOLAS QUE IMPLANTARAM OS CICLOS DE FORMAÇÃO NO MUNICÍPIO DE CRICIÚMA- SC E PORTO ALEGRE- RS Monografia apresentada à Diretoria de Pós Graduação da Universidade do Extremo Sul Catarinense - UNESC, para obtenção do título de especialista em Didática e Metodologia do Ensino Superior. Orientadora: Msc. Professora Giani Rabelo. CRICIÚMA,2004 Dedico este trabalho a todos os educadores que lutam cotidianamente contra as amarras que os impedem de buscar uma práxis educativa verdadeiramente emancipatória. Agradeço a todos espontaneamente os educadores participaram que desta pesquisa, contribuindo para que a temática da subjetividade no espaço de formação tenha maior visibilidade. Agradeço a colegas de curso e profissão, familiares, professores e principalmente a Deus, por estarem comigo nesta importante tarefa. CONVITE JUCÉLIA GORETE DE OLIVEIRA PEREIRA Um dia me disseram que a escola era legal Que eu ia ter um monte de amiguinhos Ia aprender um montão de coisas novas que eu não sabia ainda. Que a professora seria “minha Professora” E que tudo seria só alegria. E foi, Eu me lembro ainda do friozinho na barriga Do coração acelerado no primeiro dia de aula. Tinha tudo o que me disseram: amiguinhos, professora, professor Livros, letras, números, lápis, caderno, recreio... AHHH, o recreio! Por muito tempo achei a melhor parte Lanchinho, pular, brincar com os coleguinhas Por mim podia até ter uma escola cheinha de recreio. Só não entendia muito bem quando alguém me criticava Por gostar tanto de lanchar e de brincar! Um bom tempo se passou até que pude perceber que Alguma coisa inquietava a professora Lá em casa o clima também não ficou muito bom É que eu tinha aprendido tantas coisas, mas... Não tinha aprendido tudo. Foi aí que eu lembrei do primeiro dia que cheguei na escola. Percebi uns coleguinhas que eram um pouco maiores do que eu. Pensei que eles comiam fermento! Eu já havia escutado isso em algum lugar, Quando os adultos achavam uma criança grande. Um dia, um deles me disse que era repetente. Eu até achei legal, quer dizer, pra ele seria tudo fácil, pensei! E nessa minha retrospectiva dos acontecimentos, Misturada a ansiedade de ver logo as férias, veio a minha sentença: Eu também seria repetente. Por mim tudo bem! Bem que no fundo gostaria de estar junto com meus amigos Tudo seria novo de novo Menos alguns amigos que eu já conhecia... Mas fazer o que? Sempre soube que chega uma época da vida da gente Que a escola se torna uma das coisas mais importantes Eu sabia disso! Mas de repente, me senti meio estranha em relação a isso Mas tudo bem, lá vou eu Começar tudo de novo, ou seria tudo de velho? Foi legal, me senti um pouco senhor de mim! Mas... Percebi que mesmo repetindo a mesma série Estava tudo diferente. E não era a escola, nem só a sala, o mural novo Nem tão pouco os coleguinhas, agora menores do que eu. Eu me sentia diferente Por mais que eu entendesse que o pé cresce Eu aprendi isso tentando usar o mesmo tênis do ano anterior, Fazendo um calo dolorido, me obrigando a fazer Educação Física Com o pé no chão Essa diferença era bem evidente, Até ganhei um tênis novo! Mas a diferença que eu mais sentia, apesar do calo no pé Era esse sentimento de me sentir diferente E não era diferença para melhor. Até que chegou um dia... Que eu não gostava mais de ir para a escola. Ou melhor, de ir eu gostava É de estar lá que eu me sentia estranho, afinal Eu tinha tantas obrigações Que eu não conseguia cumprir. Eu sentia o cansaço da professora se desdobrando sozinha A decepção da minha mãe, do meu avô... E eu que pareço tão esperta, inteligente. Mas as coisas da escola não consigo aprender Parece que vivo em dois mundos: o meu e o da escola. Chegou um tempo em que eu não podia mais responder A famosa pergunta: O que vai ser quando crescer? Eu já era grande Tudo estava confuso agora, eu não seria nada? Mas sei o que significa ser alguém. Saber, ser aceito, crescer, sonhar, conquistar... Mas o caminho para tudo isso se tornou muito longo Dificulta ter que estar com coleguinhas que não me entendem, Nem eu a eles, pois Não gostam de falar as mesmas coisas, de ver e ouvir, de brincar... Penso que o sonho acabou Quero desistir, tem gente que já desistiu de mim Não posso culpá-los pois eles se desculpam Isso até parece um jogo onde não há vencedores Só vencidos. Estou cansada, quero crescer logo, ser adulto, já que é isso que me falta Para entender melhor isso tudo. Mas, Mora aí o problema: como entender tudo Se nada sei? Acho que estou em um barco a deriva, sem rumo ou direção Me consola um pouco, saber que não sou a única Eu conheço uma menina, sem pai, mora com a avó Uma bem quietinha que também não sabe nada. Tem aquele meu amigo, Um que anda com o tênis da hora, Camisa de marca, fala pelos cotovelos Aquele que as meninas pequenas acham um gatinho E que as maiores também acham, mas não ligam muito Ele também está na turma dos pequenos Porque também não sabe nada. Tem uma que sabe bastante, ela faz cada texto legal É escolhida sempre para fazer a leitura. Essa sabe, mas está com os pequenos porque A mãe dela fez uma operação e ela teve que cuidar da irmazinha Parou de estudar e começou com os pequenos de novo. Tem outro lá, outro acolá, cada um com uma história Que carrega consigo, marcas de dificuldades e insucessos Conhecidos como burrinhos, mas com menos valor Pois o burro presta o seu serviço, enquanto Somos a carga. Foi quando uma coisa nova aconteceu! Agora sim a escola estava diferente! O que é isso? Respeitar os tempos de vida, escola inclusiva Processo de desenvolvimento, aprendizagem permanente, contínua? Isso é mudança É desejo, é sonho E realidade misturando dúvidas, desejos reflexão É gente que não começa a ser educador, Mas se faz educador, se forma como educador, Na prática e na reflexão sobre a prática. E eu? Estou aqui, degustando um novo sabor de escola Disposta a pagar uma dívida Resgatando meu desejo de aprender Pois foi isso que vim fazer aqui desde o começo. E você? Você está aí, ouvindo, refletindo, vivenciando Experimentando, criticando, ensinando, aprendendo, Sendo convocado Desafiado a deixar que o novo brigue com o antigo. E porque tudo isso? Porque eu sou gente, você é gente Juntos nos fazemos gente, humanos, humanizados, humanizando. Fazendo a escola da vida e a vida da escola Na boniteza desse sonho. Jucélia Gorete de Oliveira Pereira. Apresentou este poema no I Seminário dos Ciclos de Formação em Criciúma/ 2004. É educadora da Turma de Progressão da E.M.E.I.E.F. Professor Vilson Lalau Bairro Cristo Redentor, Criciúma/ SC RESUMO Este trabalho monográfico analisa a constituição da subjetividade de 14 educadores de 5 escolas organizadas em ciclos, nas Redes Municipais de Educação de Criciúma- SC e Porto Alegre- RS e objetiva defender o argumento de que o trabalho com a subjetividade do educador deve integrar os espaços de Formação Continuada. A escolha da temática em questão está relacionada a constatações empíricas vivenciadas pela pesquisadora ao atuar enquanto docente em espaços de Formação do Educador e pelo compromisso assumido junto ao Conselho Municipal de Educação de Criciúma - COMEC de acompanhar o processo gradativo de implantação dos Ciclos de Formação na Rede Municipal de Criciúma. As análises foram construídas tendo como referencial teórico à Psicologia Histórico Cultural, que compreende o homem enquanto um ser biopsicosocial. Neste sentido, busca relacionar os elementos constitutivos da subjetividade X objetividade presentes nas falas dos educadores pesquisados com determinantes sociais, políticos e econômicos presentes na história da educação brasileira, no processo de implantação dos Ciclos de Formação e em situações cotidianas expressas na relação subjetividade e trabalho, na queixa do educador, nos parâmetros éticos e morais instituídos na cultura escolar e na organização e consciência de classe destes coletivos. Os depoimentos analisados apontam para a necessidade de inclusão, nos programas de qualificação profissional, de espaços que possam contribuir com a socialização e objetivação da subjetividade dos educadores, sendo estes essenciais para instituir uma práxis educativa numa perspectiva emancipatória. Estes espaços devem estar pautados na reflexão crítica sistemática e disciplinada, do contexto sócio histórico em que a instituição/ educadores estão inseridos e contar com um olhar multi-profissional de áreas do conhecimento que fazem interface com a educação, entre elas a Psicologia Escolar e Educacional. O presente trabalho destaca ainda que o processo de qualificação profissional é uma conquista, especialmente marcada pela trajetória de cada escola e dos educadores que a constituem, e que quanto mais representativa dos desejos e necessidades deste coletivo, mais efetividade alcançará. Palavras chaves: Formação do educador, Ciclos de Formação, subjetividade, educação emancipatória. SUMÁRIO LISTA DE TABELAS..............................................................................................13 1. INTRODUÇÃO....................................................................................................14 2. EDUCADOR:UM SER HISTÓRICO SOCIALMENTE CONSTITUÍDO..............20 2.1. A origem da escola....................................................................................23 2.2. Constituindo-se educador no Brasil: da educação jesuítica ao profissional proletário....................................................................................................25 2.3. A formação do educador e a legislação.....................................................38 3. CICLOS DE FORMAÇÃO: UMA PROPOSTA EMANCIPATÓRIA PARA OS EDUCADORES.................................................................................................52 31. Rupturas necessárias para a efetivação da proposta...................................63 3.2. Perspectivas da formação docente nos ciclos de Formação.......................67 4. A SUBJETIVIDADE DO EDUCADOR ENQUANTO PARTE CONSTITUTIVA DA QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL NOS CICLOS DE FORMAÇÃO................75 4.1.Trabalho e subjetividade..................................................................................78 4.2. A queixa enquanto sintoma de uma subjetividade não trabalhada.............85 4.3. Subjetividade X Desenvolvimento moral e ético..........................................90 4.4. Organização do coletivo e consciência de classe.......................................96 CONSIDERAÇÕES FINAIS.................................................................................106 REFERÊNCIAS....................................................................................................111 ANEXOS..............................................................................................................114 ANEXO 01- FICHA DE IDENTIFICAÇÃO............................................................115 ANEXO 02-TERMO DE CONSENTIMENTO.......................................................116 ANEXO 03 -ROTEIRO DE INTREVISTA.............................................................117 LISTA DE TABELAS Tabela 1: Analfabetismo na faixa de 15 anos e mais. Brasil, período:1900 – 2000.......................................................................................................................29 Tabela 2: Rendimento médio mensal por profissão e região – 2001 ( em R$1,00)...................................................................................................................32 1. INTRODUÇÃO Pesquisar a subjetividade do educador, enquanto parte constitutiva da qualificação profissional é uma necessidade que alguns anos vem ganhando visibilidade em minha experiência profissional com a formação continuada de educadores. Em relação ao espaço de formação são muitos os pesquisadores que por meio de estudos e experiências afirmam: A formação em serviço produz efeitos na atuação docente e no desempenho escolar dos alunos, quando acontece de forma sistemática e contínua. Os educadores envolvidos no processo de desenvolvimento profissional, necessitam de acompanhamento e orientação regulares sobre sua prática, que lhes possibilitem refletir e buscar alternativas para as dificuldades do cotidiano escolar ( GONÇALVES, 2000,p.31). No entanto, me pergunto: em que medida as dificuldades do cotidiano do educador estão relacionadas com sua constituição enquanto sujeitos? Em que medida estas dificuldades são produzidas a partir da leitura de homem e mundo particularizada na subjetividade de cada educador? Em que medida as dificuldades de implementar uma proposta pedagógica voltada para a emancipação humana, reflete as dificuldades do educador em romper com as fissuras da educação tradicional na qual foi educado? Em que medida os altos índices de solicitação de licença para tratamento de saúde estão relacionadas com a impotência, frustração e stress do cotidiano escolar? Em que medida a compreensão que o educador tem de si ( sua constituição enquanto sujeito) e de sua realidade sócio-histórica (função social) é condição primordial para uma atuação perspectiva profissional numa ética, cidadã, emancipatória e humanizadora? Estas indagações, em relação aos motivos em realizar esta pesquisa, somaram-se também a uma tarefa que assumi enquanto integrante do Conselho 12 Municipal de Educação de Criciúma – COMEC, onde fui convidada a acompanhar o processo inicial de implantação gradativa dos Ciclos de Formação (1º e 2º ciclos), em quatro escolas da Rede Municipal de Educação de Criciúma. Analisando o projeto e visitando as escolas vivenciei sentimentos antagônicos de satisfação e preocupação. Satisfação pela iniciativa da Secretaria de Educação, em ver um projeto bem articulado com o Projeto Político Pedagógico, em podermos avançar em direção à Educação Inclusiva. Preocupação ao constatar o grande nível de ansiedade dos educadores. Esta alimentada pela grande responsabilidade social que o novo contexto exigia. Responsabilidade esta de ordem objetiva ( condições pedagógicas, físicas e técnicas) e de ordem subjetiva ( na experiência estavam sendo depositadas suas esperanças e a possibilidade de transformar a realidade educacional de muitas crianças fadadas ao fracasso e a exclusão escolar) e consequentemente, a ampliação do projeto em questão para toda a rede. Ao dimensionar estas motivações e relacioná-las com o cenário educacional brasileiro, constatei que estudar experiências de implantação dos Ciclos de Formação que já possuíam uma trajetória neste sistema, poderia contribuir para refletir sobre a temática aqui apresentada, referendando algumas hipóteses e desmitificando outras. Partindo então destes pressupostos é que estruturei a presente pesquisa. Assim, pesquisar a subjetividade enquanto parte constitutiva da qualificação do educador nos Ciclos de Formação foi o objeto de pesquisa definido. Como procedimentos metodológicos estabeleci que o estudo em questão constitui uma pesquisa de natureza qualitativa, exploratória e analítica. Para o levantamento das informações os instrumentos adotados foram a entrevista estruturada com educadores de escolas organizadas em ciclos das redes municipais de Criciúma e Porto Alegre, sendo a amostra por adesão, de acordo com a disponibilidade dos mesmos em participar. Por meio deste instrumento foram entrevistados então, 14 educadores, sendo 4 da escola Monte Cristo em Porto Alegre ( a escolha desta se deu por ser considerada referência no sistema implantado) e 8 educadores integrantes das escolas Archimedes Naspoline. Professor Vilson Lalau, Elza Sampáio dos Reis e Moacir de Menezes da Rede Municípal de Criciúma. Participaram também das entrevistas, 2 coordenadoras do projeto integrantes da equipe da Secretaria de Educação de Criciúma. Um outro instrumento utilizado foi o Diário de Campo, onde registrei participações em seminários nas duas cidades e espaços de formação continuada promovidos pela Secretaria Municipal de Educação de Criciúma. O método adotado para tratamento e categorização dos dados levantados na pesquisa foi a análise de conteúdo. As falas dos educadores participantes da pesquisa não foram identificadas nomimalmente, sendo este um critério estabelecido com participantes mediante termo de consentimento. Uma outra questão de ordem metodológica se refere a questão de gênero. Embora a maior parte dos educadores participantes da pesquisa serem do sexo feminino, utilizarei a terminologia genérica: educadores, em concordância com as normas da Língua Portuguesa. A presente pesquisa foi iniciada em novembro de 2003, por meio dos primeiros contatos com coordenadores dos ciclos nos dois municípios pesquisados. Após a autorização dos mesmos, foi agenda uma conversa com os diretores das cinco escolas. Estes disponibilizaram um espaço junto a equipe docente para que eu pudesse apresentar o projeto de pesquisa e realizar o convite aos professores para participarem da entrevista e acompanhar alguns momentos de formação continuada nas escolas. A partir do primeiro contato, foram muitas as idas nas instituições, uma vez que as entrevistas duravam em média 1 hora. Todas foram gravadas e realizadas individualmente. Estas necessitavam de horários livres dos educadores, algo muito raro no cotidiano escolar. As transcrições foram realizadas na íntegra, respeitando a autoria e a fidedignidade das mesmas. A categorização dos temas desenvolvidos neste trabalho monográfico são fruto de uma escuta ativa aos conteúdos de maior visibilidade nas falas dos educadores. O referencial teórico adotado parte dos pressupostos epistemológicos da Psicologia Histórico-Cultural, que concebe o homem enquanto ser “biopsicosocial”, ou seja, um sujeito que possui uma corporiedade, um psiquismo e é historicamente produzido. Neste sentido, o presente trabalho divide-se em três partes: No primeiro capítulo abordo a temática do educador enquanto um ser histórico e socialmente constituído. Nele procuro mostrar o quanto o educador dos Ciclos de Formação é produto e produtor da história da educação e do contexto cultural que permeia o processo educativo. Para tanto, exploro subtemas que discorrem sobre a origem da escola, a formação do educador brasileiro desde a Educação Jesuítica, até os dias de hoje. Analiso ainda, as implicações existentes em relação a formação do educador e a legislação instituída na história da educação brasileira. Esta é expressão legítima do contexto social, político e econômico do sistema capitalista e enquanto educadores trazemos suas marcas em nossa formação. No segundo capítulo, exploro a temática dos Ciclos de Formação enquanto uma proposta que possibilita a emancipação do educador. Para fundamentar esta idéia faço uma (re) construção de como esta forma de organização vem sendo compreendida, desde a década de sessenta, nos diferentes municípios brasileiros que fizeram esta opção. Referendo a intenção implícita nestas experiências de combater a lógica mercantilista da educação, substituindo-a por uma lógica humanizadora- fundamento base em que os ciclos estão pautados. Exploro ainda a idéia de que para efetivar esta mudança, algumas rupturas com a Educação Tradicional precisam ser feitas. Estas são de ordem objetiva e subjetiva. Para finalizar este capítulo aponto algumas perspectivas da formação docente nos Ciclos de Formação. Entre elas, a necessidade de um espaço para trabalhar a objetivação da subjetividade do educador em consonância com a proposta de educação dos Ciclos e o Projeto Político Pedagógico da escola. No terceiro capítulo problematizo algumas temáticas constitutivas da subjetividade do educador evidenciadas na pesquisa. Estas justificam a necessidade deste olhar na qualificação docente e aponta a contribuição da Psicologia Escolar e Educacional nesse processo. As temáticas de maior relevância exploradas discutem a relação entre subjetividade e trabalho, a queixa enquanto sintoma de uma subjetividade não trabalhada, o desenvolvimento moral e ético enquanto alicerce da constituição do sujeito e a organização do coletivo e consciência de classe enquanto parte desse processo de objetivação da subjetividade, bem como, para a efetiva implantação dos Ciclos de Formação. Com este trabalho espero contribuir com as muitas reflexões que permeiam os espaços de formação em serviço e as agências formadoras na graduação, somando esforços em direção a efetivação de um ideário que considere o caráter humanizador da educação, fortalecendo a luta contra a discriminação, a invalidação, a desqualificação, a classificação, a exclusão e o preconceito. O poema escolhido para introduzir este trabalho, além de ser de autoria de uma das educadoras das escolas pesquisadas, nos contextualiza um pouco esse processo de exclusão citado acima e ao qual os Ciclos de Formação apresentam-se como uma possibilidade de mudança. Porém, ao fazer uma análise de conteúdo do mesmo, percebi que o protagonista que narra sua trajetória pela escola, muda de papel a medida em que a narrativa é apresentada. Ora o protagonista é do gênero feminino, ora do gênero masculino. Ora é o estudante e em outros o educador. Em algumas passagens o autor da cena fala de seu processo de constituição enquanto sujeito, em outros, entra em cena um coletivo que trabalha junto e soma forças para que o sonho se concretize. Há um momento ainda em que o protagonista inclui na cena o outro, aquele que assiste o espetáculo de fora, convidando-o a refletir, convocando-o a desafiar-se na “briga do velho contra o novo” que ora se configura. Este poema é um exemplo concreto do tema que pretendo explorar nesse trabalho monográfico. É a subjetividade que precisa ser ouvida, verbalizada, objetivada, operacionalizada. É conteúdo simbólico, onde o educador ao se colocar no lugar do outro, do estudante que não aprende, se vê refletido, deparando-se com seus próprios limites, com seus desejos, com os limites impostos pelo contexto social ao qual todos estão inseridos. Como transformar esta condição de não saber em potência para a ação? É a pergunta que me acompanha nesta investigação. 13 2. EDUCADOR: UM SER HISTÓRICO SOCIALMENTE CONSTITUÍDO Ao investigar a subjetividade enquanto parte constitutiva da qualificação profissional do educador perguntei-me: o que leva uma pessoa a optar pelo magistério como profissão? Porque a área educacional é essencialmente feminina? A visão de homem e mundo do educador é reflexo do contexto político e social que está inserido? Em que medida a identidade1 do educador contemporâneo é historicamente constituída? Entrevistando alguns educadores sobre estas questões, percebi o quanto a educação é um processo pelo qual uma função se desenvolve e se aperfeiçoa pelo próprio exercício profissional. O ato de educar é ao mesmo tempo singularidade e pluralidade. O educador, sujeito individual, é também sujeito coletivo, que constitui sua identidade a partir de referências histórico cultural. Para alguns educadores entrevistados a escolha profissional se deu no espaço da graduação: Eu estava fazendo licenciatura em artes cênicas e comecei a fazer trabalhos com teatro de rua e de intervenção, no Cine Clube e Associações de Bairros e foi aí que foi se desenhando em min, minha função educativa. ( fala de educador participante da pesquisa) Eu não pensava em ser professora, porque já naquela época meu pai me dizia: ser professor é ganhar mau. Mas fui fazer algumas cadeiras ligadas a área de Ciências Biológicas, a fim de me aprofundar na área desejada: medicina. Então, comecei a gostar do que estava fazendo. ( fala de educador participante da pesquisa) 1 O conceito identidade neste trabalho é compreendido como sinônimo de constituição de sujeito, sendo que seu significado deve estar em direção daquilo que se faz aberto e inacabado. Neste sentido, é construção sócio-histórica, onde buscamos nossas referências nos outros que nos são significativos. Assim, nossa identidade é constituída de muitas identidades, sendo esta representativa do contexto em que estamos inseridos. 14 Para outros, a escolha profissional relacionou-se aos vínculos familiares e valores sociais da época: O magistério sempre foi uma das minhas opções, pois, tenho várias professoras na família e a educação sempre esteve junto. Com 16 anos, entrei para Educação Infantil, como recreacionista. Sempre adorei crianças, mas não optei pela Educação Infantil, porque havia pouco campo de atuação. ( fala de educador participante da pesquisa) Optei em dar aulas por influência de minha mãe e irmã. Como consegui vaga por indicação política, comecei a atuar. Desde o primeiro dia, embora sem formação, me senti muito bem como professora. ( fala de educador participante da pesquisa) Fui influenciada por minha mãe, que achava o magistério ideal como profissão para mulheres. ( fala de educador participante da pesquisa) Minha opção pelo magistério foi pelo desejo de ser professora e também porque havia me tornado mãe. Entrar para área da educação viria acrescentar na minha formação. O horário de trabalho das escolas, de meio período, também influenciou em minha decisão, pois teria tempo para dedicar-me a minha filha que acabara de nascer. ( fala de educador participante da pesquisa) Outros ainda, fizeram suas escolhas pautadas em processos identificatórios com educadores ou com a própria função educativa. Sempre quis ser professora, pois adorava ver minhas professoras darem aula. ( fala de educador participante da pesquisa) Minha escolha se deu na fase adulta, após ter a experiência de alfabetizar minha mãe. ( fala de educador participante da pesquisa) A decisão foi ao fazer o curso de magistério. Porém, só veio consolidar um sonho de criança e que a cada dia se tornava mais real. ( fala de educador participante da pesquisa) A opção foi decorrente de minha afinidade com crianças e com a educação em geral. ( fala de educador participante da pesquisa) Desde menina eu achava minhas professoras lindas. Pareciam que elas eram felizes e eu queria ser igual a elas.( fala de educador participante da pesquisa) A arte mediando a função educativa; o magistério como sinônimo de profissão de mulher, de meio período, conciliável com a função doméstica e materna; a má remuneração do educador; a opção por licenciaturas, em 15 detrimento da formação generalista, em função da maior oferta de vagas no serviço público; a política partidária interferindo no processo de contratação do educador; a fragilidade da formação dos educadores contratados e a qualificação em serviço como opção para reparar esta questão; o educador formador de opiniões, de sonhos e projetos de vida; uma importante referência pessoal e profissional para seus alunos. Estas e outras questões recortadas da história de vida dos educadores entrevistados, são exemplos importantes para entendermos o quanto o contexto sócio histórico é determinante na constituição de nossa identidade profissional. Relacionando estas falas com a história da educação, vemos que o educador contemporâneo traz a marca das articulações políticas, econômicas e culturais historicamente instituídas na sua formação. Estas estão cravadas em sua subjetividade e precisam ser significadas e resignificadas para que estes possam romper com velhos paradigmas . Ricardo Antunes ao discorrer sobre a temática consciência de classe afirma: O desafio maior esta em aprender tanto a dimensão da consciência cotidiana e suas formas de manifestação, como em buscar compreender também quais seriam as outras possibilidades de ação coletiva, próximas de uma apreensão mais totalizante, menos fragmentada e significativa ao todo social. (ANTUNES, 1996, p.98) Neste sentido, a compreensão do contexto histórico cultural em que estamos inseridos, amplia as possibilidades de objetivação de nossa subjetividade e assim, pode instrumentalizar o educador na construção de uma alavanca metodológica que supere a experiência imediata e o potencialize para uma ação mais crítica, autônoma e transformadora. 16 Com o objetivo de significar estas fissuras registradas pelo tempo e a partir delas, projetar novas perspectivas para a educação escolar e para o educador é que proponho um “breve passeio” pela história da institucionalização da educação. 2.1. A origem da escola Na antigüidade, tanto grega como romana, a origem da escola coincide com a instituição da propriedade privada da terra. Os não proprietários assumem o encargo de manter a si e aos senhores. Surge uma classe ociosa, que não precisa trabalhar para viver. A palavra escola, em grego, significa o lugar do ócio. A educação, que até então fazia parte do cotidiano de todos, passou a ser diferenciada. Para a classe proprietária , era praticada em ginásios: local dos jogos dos que dispunham do ócio. Para os que tinham que trabalhar, era o próprio trabalho: o manuseio físico da matéria, da natureza, dos objetos. No grego, a origem da palavra ginástica é a mesma da palavra ginásio: exercícios físicos como lazer. Na idade média, o principal meio de produção continuou sendo a agricultura, embora tenha modificado a forma de trabalho: na antigüidade o trabalho escravo e na idade moderna, o trabalho servil. Surgem as escolas paroquiais, catedralícias e monacais que se destinavam à educação da classe dominante. 17 Nestas escolas, o educador tinha formação genaralistas, pautada na Filosofia, na literatura, na retórica e na arte. Ocupava lugar de destaque nos espaços de representação social. As atividades que constituíam a educação dessas classes objetivavam ainda a ocupação do ócio, através da aprendizagem da cavalaria e exercícios físicos ligados às atividades guerreiras. Aqui a educação ganha um novo sentido: “ ócio com dignidade”, como afirma Saviani (1994, p.149). Ocupar o ócio com os estudos significava não precisar trabalhar para suprir as necessidades da existência. Sobre isso a autor afirma: “Ocupar o ócio com dignidade é ocupá-lo com atividades consideradas nobres e não com atividades consideradas indignas”. A maior parte da população, continuava se educando pelo trabalho. Surge uma outra atividade econômica: o artesanato. Este era uma espécie de indústria rural, que produzia inicialmente, instrumentos rudimentares que a vida do campo demandava. Com a criação de novos ofícios e uma economia feudal fortalecida, as atividades mercantis foram ampliadas. Os mercados de troca deram origem às cidades e ao termo burguês: habitantes do burgo, ou seja, da cidade. Através do comércio, o capital acumulado foi investido na produção, dando origem as indústrias. Esse processo desencadeou o modo de produção moderno: o sistema capitalista. Na modernidade, a base do desenvolvimento econômico passa a ser à indústria e inicia-se o processo de subordinação e urbanização do campo. As relações de classe, dominantes na idade média, também se modificaram. Aqui tanto a nobreza quanto a servidão eram passadas de pai para filho e as relações deixam de ser naturais para serem predominantemente sociais, ou seja, a 18 sociedade deixa de se organizar segundo direito natural para organizar-se segundo direito estabelecido formalmente por convenção contratual. Saviani (1994, p.151), em relação a noção de liberdade, diz que essa forma de organização social está ligada a ideologia difundida no liberalismo. Para ele, “A liberdade está estritamente vinculada à propriedade. Considera-se o trabalhador como proprietário da força de trabalho e que vende essa força de trabalho mediante contrato celebrado com o capitalista”. A sociedade contratual, baseada nas relações formais, centrada na indústria e nas cidades, impõe a necessidade do conhecimento e do desenvolvimento científico. Este exige a generalização da escrita e, consequentemente da escola. Surge então a escola pública: escolarização básica universal, gratuita, obrigatória e laica. 2.2.Constituindo-se educador no Brasil: da educação jesuítica ao profissional proletário Nós fomos educados naquela tempo da Turra, da Taxinomia de Blon, pautados no planejamento estruturado a partir de conteúdos e atividades fragmentadas. Estes foram os instrumentos aprendidos na universidade. Para romper com esta formação só quando na vida temos a possibilidade de pensar outras coisas. Infelizmente, a maior parte dos educadores não conseguem superar. Enxergam o mundo e vivem nele, a partir das referências que obtiveram na universidade. Então, o lugar do qual olham o mundo e consequentemente seus alunos é o lugar do desigual e não como pessoas com possibilidades. Para alguns professores, os alunos representam apenas um instrumento de contra-cheque. ( fala de educador participante da pesquisa). O processo educacional formal no Brasil iniciou-se em 1549, por meio da iniciativa real que fundou o Governo Geral das Capitanias. Esta organização 19 modificou a forma de colonização, trazendo para o Brasil famílias inteiras. Com elas, chegaram as crianças e os primeiros professores: os jesuítas. Os jesuítas eram religiosos que faziam voto de pobreza pessoal, castidade e obediência cristã. Os padres ou presbíteros, cursavam filosofia e teologia para o exercício do ministério sacerdotal. No Brasil, tinham como missão a expansão do cristianismo e a defesa do catolicismo romano. Em 1551, Manoel da Nóbrega fundou o Colégio dos Meninos de Jesus, em Salvador no Estado da Bahia. Freqüentavam o colégio crianças portuguesas, alguns índios curumins e crianças mamelucas, filhas de portugueses com índias. Em regime de internato, eles aprendiam as primeiras letras e eram encaminhados para os estudos secundários de gramática, latim, retórica e filosofia. De 1553 a 1758, os colégios jesuítas se multiplicaram em todas as Capitanias do Brasil . Os colégios eram oficialmente estatal e gratuitos, assim como toda a rede de escolas primárias. Só não estudavam os africanos, ainda não alforriados. Em 1758, a riqueza acumulada pelos jesuítas, em centenas de fazendas do norte ao sul do Brasil, despertou a cobiça do Marquês de Pombal, quando teve que saldar dívidas com os banqueiros ingleses. Assim, os bens dos jesuítas foram confiscados e estes foram expulsos do Brasil. Com a expulsão dos jesuítas em 1759, a Coroa Portuguesa ficou devendo às Colônias uma outra forma de prover a instrução pública. Apenas em 1772, foi proposto por Marquês de Pombal, um sistema em substituição à educação jesuítica. Este sistema propôs uma política de oferta direta da instrução gratuita através de professores assalariados, em todos os níveis de ensino. 20 Quem eram os professores? Como estes eram contratados? Como o novo sistema educacional funcionava? Qualquer pessoa, desde que soubesse de letras, artes e ciências – um pouco mais que os estudantes, poderia se candidatar ao cargo de professor. Este deveria apresentar-se ao presidente da Câmara de Vereadores, com uma lista dos prováveis alunos. O Presidente da Câmara lhe exigia um requerimento por escrito e encaminhava-o para Lisboa, de onde viria a provisão régia de sua nomeação, uma vez comprovada sua adiplência com à Coroa. O professor reunia os alunos em qualquer espaço comunitário disponível, ou até mesmo em sua casa. Ao final de cada mês, procurava a Câmara para receber os seus vencimentos - um valor entre dez a trinta réis - que provinha de um cofre municipal mantido pela cobrança do “ subsídio literário”- pequena taxa cobrada dos comerciantes do lugar para manutenção das escolas. É nesse contexto que nasce o professor assalariado no Brasil. A fragilidade do novo sistema educacional público possibilitou a ampliação da iniciativa privada, administrada por religiosos, patrocinadores ou professores autônomos, além de professores que lecionavam em conventos ou ofereciam aulas particulares pagas. A modernização do ensino, era comandada pelas escolas privadas bem sucedidas. O final do século XIX, por volta de 1834, em Olinda, Pernambuco, organizou-se o primeiro Seminário de Educação. Este reuniu congregações religiosas que também mantinham escolas no Brasil, bem como, outras instituições educativas. A temática explorada foi a revolução metodológica, introduzindo-se ali a 21 necessidade de bibliotecas e laboratórios, como também, uma metodologia voltada para a investigação científica. “O professor não é somente o que instrui, que transmite conhecimentos já aprendidos, mas o que ensina o aluno a aprender, a pesquisar, a construir coletivamente o conhecimento”,(MONLEVADE,2001,p.29), diz o autor ao reconstituir em seus estudos os acontecimentos do evento. Este movimento semeado em Olinda, não foi adiante. Além da dificuldade de comunicação entre as instituições educativas das diferentes províncias, a indústria era proibida na época e, como diz Monlevade ( ibid,p. 29) “a ciência só progride se ela ganha a prática e se insere na cadeia econômica da produção”. Em 1822, com a proclamação da independência política do Brasil, foram eleitos deputados constituintes em todas as Capitanias. Entre estes estavam José Bonifácio e Padre Diogo Feijó, que tinham como propostas: a ampliação das escolas públicas nas cidades, vilas e povoados; a fundação de Universidades e o aumento dos vencimentos dos professores que recebiam baixos salários. Como resultado, foi publicado no Diário Oficial do Império a criação de muitas escolas primárias. Em 15 de outubro de 1827, foi sancionada a primeira lei educacional do Brasil. Molevade transcreve alguns artigos, com o objetivo de caracterizar os professores no Império: Art. 1º Em todas as cidades, vilas e lugares mais populosos haverão escolas de primeiras letras que forem necessárias. Art. 3º Os Presidentes das Províncias, em conselho, taxarão, inteiramente, os ordenados dos Professores, regulando de 200$000 a 500$000 anuais, em atenção às circunstâncias da população e à carestia dos lugares. 22 Art. 5º Para as escolas de ensino mútuo se aplicarão os edifícios que houverem com suficiência nos lugares delas, arranjando-se com os utencílios necessários às custas da Fazenda Pública, e os professores que não tiverem a necessária instrução deste ensino irão instruir-se em curto prazo, e à custa de seus ordenados, nas escolas das capitais. Art. 6º Os professores ensinarão a ler, escrever, as quatro operações, as noções mais gerais de geometria prática, a gramática da língua nacional, e os princípios de moral cristã e de doutrina da religião católica apostólica romana, proporcionados à compreensão dos meninos: preferindo para as leituras a Constituição do Império e a História do Brasil. Art. 7º Os que pretenderem ser providos nas cadeiras serão examinados publicamente, perante os presidentes, em Conselho; e estes proverão o que for julgado mais digno, e darão parte ao governo para sua legal nomeação. Art. 11º Haverão escolas de meninas nas cidades e vilas mais populosas, em que os presidentes, em conselho, julgarem necessário este estabelecimento. Art. 12º As mestras, além do declarado no artigo 6º, com exclusão das noções de geometria, e limitado a instrução de aritmética só as quatro operações, ensinarão também as prendas que servem à economia doméstica, e serão nomeadas pelos Presidentes, em Conselho, aquelas mulheres que sendo brasileiras e de reconhecida honestidade, se mostrarem com mais conhecimentos, nos exames feitos na forma do artigo 7º. Art. 13º As mestras vencerão os ordenados e gratificações concedidos aos mestres. (I LEI EDUCACIONAL DO BRASIL IMPÉRIO In: MONLEVADE 2001, p. 31 – 33) . De 1822 a 1834, poucas escolas foram instaladas, pois embora houvessem candidatos a docência e legislação, faltavam verbas para o pagamento dos salários. Em 1834, por meio de Ato Adicional à Constituição Imperial, as Províncias ficaram legalmente responsáveis de prover o ensino público gratuito, cobrando impostos sobre vendas e consignações das indústrias e comércios. Tal medida mostrou-se eficiente junto as Províncias ricas e urbanizadas, ampliando o número de escolas. Já nas províncias mais pobres, faltavam professores qualificados e salários dignos. Já naquela época, os cursos que formavam professores organizados pelas províncias eram procurados apenas pelas mulheres, tendo em vista os baixos salários. 23 Porém, a população brasileira continuava majoritariamente analfabeta, dado que vem ao longo dos anos sendo reparado e que pode ser visualizado na tabela que segue. Tabela 1- Analfabetismo na faixa de 15 anos e mais. Brasil, período: 1900 – 2000 População de 15 anos de idade e mais Ano Total população Analfabeta Taxa analfabetismo 1900 9.728 6.348 65,3 1920 17.564 11.409 65,0 1940 23.640 13.269 51,1 1950 30.188 15.273 50,6 1960 40.233 15.964 39,7 1970 53.633 18.100 33,7 1980 74.600 19.356 25,9 1991 94.891 18.682 19,7 2000 19.533 16.295 13,6 Fonte: IBGE – Censo Demográfico de 24 Diante deste contexto, os educadores da época mesmo possuindo um grau mínimo de instrução, gozavam de certo prestígio social. Embora, como relata Monlevade ( 2001, p.34) ao estudar historiadores da época “o magistério era ocupação para moças ricas e moços pobres”. O período entre 1834 a 1988 marca uma nova fase na Educação brasileira. A população brasileira amplia-se: de 35 para 150 milhões de habitantes. O processo de urbanização intensifica-se e o índice de mortalidade infantil era baixo em relação as altas taxas de natalidade. Os habitantes com idade inferior à 20 anos, constituíam 60% da população. Uma outra questão importante era o alto índice de repetência, que aumentava a cada ano o número de matrículas e consequentemente, a necessidade de mais professores. Esta nova realidade social originou uma inevitável explosão no sistema educacional, que obrigou o governo a assumir esta demanda, no período anterior, absorvida pela iniciativa privada. Adequar-se ao contexto foi inevitável. A criação de milhares de escolas primárias e secundárias fez-se necessário. O padrão de construção mudou: no lugar de pequenas escolas isoladas, grandes construções. Uma nova estrutura administrativa ficou evidente: porteiros, auxiliares de secretarias, bibliotecários, vigias, agentes de limpeza, merendeiras, os inspetores de alunos e os especialistas em Educação. Em relação a qualificação do professor, intensificou-se a oferta dos cursos Normais e as licenciaturas públicas e privadas. Mesmo assim, segundo dados pesquisados por Monlevade ( 2001,p.53), “quase metade dos 25 professores do Nordeste nas décadas de 1950 e 1960 eram leigos, às vezes com menos de cinco anos de escolaridade”. A partir de 1834, também modificou-se a forma de financiamento da educação. A máquina fiscal é aperfeiçoada e a arrecadação dos impostos passa a ser administrada por meio dos Fundos de Participação de Estados e Municípios (FPE E FPM) e por meio dos Impostos de Renda e sobre Produtos Industrializados. ( IR e IPI) Como ainda acontece hoje, o grande problema estava na destinação destes impostos, diante das diferentes demandas da sociedade. Criou-se uma política para defender a prioridade à Educação, por meio da vinculação dos impostos ao desenvolvimento do ensino, ampliando gradativamente o percentual da taxa destinada à educação, dos governos Federais, Estaduais e Municipais. A falta de profissionais qualificados para atender a grande demanda educacional e a histórica baixa remuneração do profissional da educação, foram conseqüências determinantes para chegarmos ao contexto educacional que temos hoje. De 1988 para cá, pouca coisa mudou. Gradativamente, o prestígio social de outrora, foi sendo substituído pela desvalorização generalizada do magistério. Como afirma Monlevade (2001,p.41) “as professoras de hoje não tem a marca da elite colonial ou da seleção da competitividade capitalista: elas são a cara do povo brasileiro, negras, índias, mestiças e brancas, de olhos de todas as cores”. Ao definir as professoras de hoje, o autor quer destacar o grande percentual de mulheres que atuam no magistério, cerca de 90% do total de 26 docentes, que cada vez mais, duplicam ou triplicam suas jornadas de trabalho, para sobreviver. A presença das escolas particulares existentes no Brasil desde a época do Império, vem ocupando um espaço significativo do mercado educacional brasileiro. Segundo dados estatísticos apresentados no Plano Nacional de Educação/2001 este percentual representa: 25,4% na Educação Infantil, 10% no Ensino Fundamental, 20,5% no Ensino Médio e 36,1% no Ensino Superior. Em relação aos profissionais que trabalham nestas instituições é possível constatar que a maior parte deles são os mesmos das redes estaduais e municipais, que atraídos pelos melhores salários, dividem o seu tempo com a rede privada. O contrato de trabalho que aparentemente é mais digno, é estabelecido dentro da relação capitalista de produção, onde é possível verificar a presença de mais valia, como comprova Monlevade, por meio de um exemplo: Acompanhemos o exemplo da professora regente de uma turma de 4ª série do ensino fundamental numa escola de Cuiabá. Número de alunos: 32. Preço da mensalidade: R$ 140,00. Pagam mensalidade integral: 20 alunos. Têm bolsa integral: 2. Têm meia bolsa, ou seja, pagam meia mensalidade: 10. Faça a conta da receita e veja se não dá R$3.500,00 mensais, ou R$ 42.000,00 anuais. Ora, a professora ganha R$ 600,00 por mês, R$ 7.800,00 por ano, incluindo o 13º salário. Os encargos sociais e os tributos, por menos isenta que seja a escola, somariam o dobro da remuneração da professora, o que resulta em R$ 15.600,00 anuais. Com quanto ficou o dono da escola da receita gerada pelo trabalho da professora? Exatamente R$ 26.400,00( MONDEVADE 2001, p.59). Quanto a remuneração salarial do educador na escola pública, segundo pesquisa realizada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas EducacionaisINEP, percebe- se uma grande variação entre os vencimentos salariais nas diferentes regiões do Estado, bem como, nos diferentes níveis de ensino. Um 27 outro dado importante que a pesquisa revela é a baixa remuneração do educador público brasileiro, comparado a outras profissões, também de caráter público, conforme tabela abaixo: Tabela 2 – Rendimento médio mensal por profissão e região – 2001 ( em R$1,00) Tipo de profissionais Nºde giões geográficas ( 40 horas semanais) profissionais no Brasil Professor de Educação Nordes Brasil Norte Centro Sudeste Sul te - Oeste 201.232 22,78 388,89 232,79 522,44 435,87 749,61 881.623 461,67 443,17 293,18 599,19 552,72 567,38 521.268 599,85 600,99 372.18 792,82 633,92 593,52 139.575 849,16 753,20 546,70 1.092,85 738,27 834,86 Professor de nível médio 348.831 866,23 826,28 628,08 979,16 804,32 872,20 Sub- 517.038 868,73 817,55 723,52 986,19 747,23 910,93 60448 898,80 215,33 1.150,16 946,56 712,65 875,47 316.716 911,82 661,40 679,31 1.072,50 926,14 1.103,37 502.895 1.202,86 986,87 774,85 1.411,18 1.057,85 1.223,93 Infantil Professor de 1ª a 4ª série Professor de 5ª a 8ª série Funções adm. de nív. sup. em educ. oficial das Forças Armadas Professor pesquisador no ens. sup. Agente administrativo Público Administrador empresas de 28 Técnico em nível superior- 421.318 1.310,56 1.053,94 72.743 1.510,64 1.344,46 1.320,40 1.457,90 1488.02 89.387 2.091,56 2.129,41 1.674,46 2.250,53 1.949,68 2.321,03 Economista 44.772 2.254,66 1.700,77 2.009,08 2.027,19 1.641,35 3.592,64 Auditor 68.870 2.408,40 3.512,94 1.584,94 2.588,47 1.986,35 3.133,88 Advogado 271.241 2.496,76 3.893,83 2.245,35 2.413,04 2.597,39 2.768,25 136.977 2.565,47 1.800,30 2.252,08 3.086,95 2.122,77 2.190,10 Delegado/perito 13.973 2.660,52 2.753,91 1.347,25 2.615,73 3.714,45 5.969,61 Médico 257.414 2.973,06 4.429,82 2.576,78 2.81,77 Juiz 10.036 8.320,70 5.905,38 8.038,88 9.018,42 9.750,00 7.331,08 794,02 1.586,97 1.308,30 1.876,79 público Polícia civil Oficial das Forças 2.087,23 Armadas Professor de nível superior 3.260,41 4.110,87 Fonte: Pesquisa Nacional por Amostra de domicílios (PNAD)- 2001. Nota: 1)Valor em R$ de setembro de 2001 Tomando como ponto de reflexão a trajetória da institucionalização da educação, até aqui descrita, chegamos à discussão central deste texto, ou seja, a constituição do educador no Brasil: da educação jesuítica ao educador proletário . O perfil profissional mudou. Abnegação, sacrifício, bondade, paciência, sabedoria, doação são virtudes que caracterizavam o educador do passado. Hoje, o contexto exige do profissional da educação outras características: profissionalização, autonomia, postura investigativa, criticidade, compromisso social, saber lidar com o não saber. É exigido de nós, consciência do profissional que nos tornamos, ou seja, um proletário, pois ser um profissional proletário – aquele que trabalha em troca 29 de seu salário, que vive dele, foi nossa maior conquista legal nos últimos 503 anos, tendo em vista a histórica dificuldade de ao menos sobreviver dos serviços educacionais. Neste conceito também está implícito a relação de exploração a qual somos submetidos desde sempre, tanto no setor público quanto no setor privado, e a clareza de que são múltiplas as causas que constituem as deficiências da escola. Paralelo a questão econômica, a desqualificação profissional também tem sido percebida na perda do prestígio social e nas precárias condições de trabalho. Nos tornamos uma categoria profissional passiva, alienada, impotente, ineficaz, desarticulada, desqualificada, conformada com a condição de submissão. Será a questão econômica a única responsável por tamanho estrago? Será a feminilização da função, uma conquista profissional das mulheres ou um símbolo da desvalorização social? A baixa exigência para o ingresso no magistério, que por muitos anos permitiu inclusive o acesso de leigos, é uma justificativa implícita para a má remuneração? Será a jornada em tempo integral, a conseqüência direta da acentuada cultura da desprofissionalização? Como explicar a insuficiente formação geral do educador? Esta é expressa por sua desatualização em relação às questões educacionais da atualidade, à profissão e ao seu papel social. É expressa pela evidente falta de leitura, produção científica e textual, como também, a sua dependência dos livros didáticos. O que fazer diante deste caos? Além destas questões ligadas a formação do educador, também podemos nos questionar o quanto a escola hoje não tem dado conta de sua 30 principal função: o acesso ao conhecimento, desencadeando altos índices de reprovação e exclusão escolar, bem como, os deficientes resultados qualitativos e quantitativos, quando comparadas com outras escolas, no contexto mundial. Neste sentido, os Ciclos de Formação também apontam para as necessárias mudanças no contexto educacional. Os mesmos professores que no início deste capítulo falavam dos motivos que os levavam a fazer suas escolhas profissionais, estas tão intimamente relacionadas com os determinantes sociais até agora explicitados, também expressam outros motivos e percepções, que pontuam um crescimento pessoal e profissional, bem como, a necessidade e algumas possibilidades de mudança deste sistema que está posto. É o que mostra os depoimentos que seguem: Em uma escola particular que trabalhei, fiz greve, e no final do ano fui demitida. Depois de um ano foram atrás de min de novo e eu disse: olha se vão me demitir nem me contratem, porque se tiver greve eu faço. ( fala de educador participante da pesquisa) Trabalhei em uma escola particular que pagava muito bem, mas dava poucas condições de autonomia no trabalho, então, fiz minha opção pala escola pública( fala de educador participante da pesquisa). A entrada para os ciclos de formação, para min e um certo grupo de professores aqui da escola, fazia parte de um desejo de fazer coisas diferentes, de transformar um monte de coisas que vivíamos na estrutura seriada( fala de educador participante da pesquisa). A escola precisa estar organizada para avançar. No momento em que os profissionais possuem reuniões pautadas por avisos ou por temas que não se concluem, no momento que ao nos posicionarmos contrários á uma idéia, a exposição é levada para o pessoal, a discussão acaba. A escola tem que discutir o porque está aqui, que embora parte de uma rede, pertence a um bairro e precisamos saber que bairro é este, que tipo de alunos temos e o que faremos com isto( fala de educador participante da pesquisa). Em minha trajetória profissional, fiz parte do sindicato, da associação de professores e sempre participei de lutas por melhores condições de 31 trabalho. Uma vez , uma pessoa me perguntou se os Ciclos eram uma conquista da Administração Popular. Eu disse que era o resultado de toda uma luta anterior da própria categoria e que este governo efetivou( fala de educador participante da pesquisa). Tornar uma profissão mais atrativa requer, com certeza, a possibilidade da obtenção de melhores salários. Afinal estamos inseridos em um sistema capitalista de produção. Porém, a questão financeira embora central, não representa a única explicação para a problemática da crise educacional que vivemos hoje. A valorização do magistério precisa passar pelo viés pedagógico de sala de aula. Não podemos mais admitir que os educadores de hoje continuem reproduzindo a política classificadora e excludente do passado. A valorização do magistério passa pela implantação de políticas públicas eficientes de formação continuada, que contemplem a realidade de cada comunidade. Passa pela organização de coletivos, tanto na instituição educativa, quanto da própria categoria por meio dos sindicatos, ambas visando ampliar a consciência que o educador tem de si, de sua classe profissional, do contexto social, político e econômico em que a educação está inserida, bem como, do mundo em que vive. O educador não pode continuar a ser visto como o problema, mas sim, como peça fundamental para a superação da realidade educacional, historicamente instituída . Ao educador deve-se atribuir a responsabilidade de sair da queixa lamento e reclamo e pensar por meio do juízo crítico, alternativas que lhes 32 possibilite reconstruir suas trajetórias e inaugurar um novo capítulo na história da educação. Para avançar neste processo de mudança; o investimento na formação torna- se urgente. É assumindo coletivamente nossa verdadeira identidade, nosso fazer, que vamos conquistar tempos melhores e superar limites. 2.3. A formação do educador e a legislação No item anterior, Monlevade nos presenteia com um resgate do primeiro documento oficial, que estabeleceu as diretrizes educacionais em relação a qualificação do educador, no período imperial. Quase dois séculos se passaram e algumas questões postas nesse documento, são muito atuais, ao considerarmos as medidas tomadas pelos nossos governantes e expressas nos documentos oficiais da atualidade. Assim, faz-se necessário revisitar nas legislações do país, as políticas normatizadas em relação a formação do educador. Talvez, esta retrospectiva nos ajude a entender as reais condições que tivemos, para nos tornarmos os profissionais que somos. Como foi exposto anteriormente, a expansão da escola pública no Brasil, se deu por meio das escolas primárias. As escolas secundárias e o ensino superior possuía uma demanda relativamente pequena, atendida pelos liceus públicos nas capitais das Províncias (Estados a partir de 1889), ou pelos colégios particulares. As primeiras escolas de formação de professores no país, institucionalizadas como tais, foram as escolas Normais, ainda no período 33 Imperial. Scheibe ( 2002, p.14) diz que “como pré-requisitos para ingresso nestas escolas, exigia-se a idade média de 18 anos, bons antecedentes e saber ler e escrever. O preparo didático e profissional do mestre era reduzido praticamente à compreensão do método do ensino mútuo”, ou seja, “um ensino apoucado, estreitamente limitado em conteúdo ao plano de estudos das escolas primárias” (TARUNI apud SCHEIBE 2002,p.14). Somente nas duas décadas finais do Império, com o início da instrução elementar é que foi permitida a freqüência de mulheres nos cursos. Já nesse momento, o magistério feminino começou a apresentar-se como solução para o problema de mão-de-obra para a escola primária, pouco procurada pelos homens, possivelmente pela sua reduzida remuneração. O quadro social, político e econômico da chamada Primeira República (1889-1930) pouco favoreceu o ensino. Subordinado aos interesses dos grupos dominantes das regiões produtoras e exportadoras de café, o governo gerenciou uma política educacional desigual, em seus diferentes Estados. Um marco na tentativa de garantir uma base comum brasileira para a formação de professores foi a I Conferência Nacional de Educação, convocada pelo Governo Federal de 1941, que teve como finalidade analisar os anteprojetos de organização do ensino primário e normal, elaborados por comissão instituída em 1938, com o objetivo de assessorar o governo em sua ação centralizadora. Segundo o autor foi proposta da comissão: [...]a transferência de alunos entre os estabelecimentos oficiais de ensino normal do mesmo tipo ou equivalente;o registro no Ministério de Educação dos diplomas dos atuais professores normalistas por escolas oficiais ou reconhecidas a fim de adquirirem tais diplomas validade para o exercício da profissão em qualquer parte do território nacional ( TANURI apud SCHEIBE, 2001, p. 16). 34 A Lei Orgânica do Ensino Normal ( Decreto – Lei nº 8.530/46), assinado logo após a ditadura de Vargas, regulamentou o ensino normal em dois ciclos: o curso para formação de regentes para o ensino primário e o curso de segundo ciclo, para formar o professor primário, a ser ministrados nas escolas normais e nos Institutos de Educação. Esta lei estabeleceu, portanto, o que prevaleceu na maior parte dos Estados brasileiros até a Lei 5692/71. Para Scheibe (2002, p. 17), com esta nova lei, “a preocupação central com o currículo da Escola Normal, foi deslocada dos conteúdos a serem ensinados para os métodos e processos de ensino”. Ao ser promulgada nova Constituição em 1946, poucos meses depois de ser aprovada a Lei Orgânica do Ensino Normal, é retomada no país uma orientação descentralizadora e liberal, ou seja, cada estado é livre para regulamentar o seu ensino primário e normal. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1961 não trouxe mudanças significativas para o Ensino Normal, conservando-se a partir dela diretrizes semelhantes aprovadas na Lei Orgânica. O autor destaca como principais diretrizes “a equivalência legal de todas as modalidades de ensino médio que passou a vigorar, bem como, a descentralização administrativa e a flexibilidade curricular” (TANURI apud SCHEIBE,2002 p.18). Em relação ao Ensino Superior, a institucionalização dos cursos de formação de professores, começou a ser implantada efetivamente na década de 1930. Nos anos vinte, começa-se a fomentar a formação específica para os professores em Faculdades de Filosofia, Ciências e Letras. Esta discussão, 35 coincidiu com os debates pela fundação de nossas primeiras universidades. Considera-se como um marco a criação da Universidade do Distrito Federal (UDF), instituída por Anísio Teixeira, em 1935. Esta propunha uma Universidade que integrasse todos os níveis de formação do educador, porém, tal proposta foi vencida pela idéia de formação especializada em áreas. Multiplicam-se então, em todos os Estados cursos para formação de professores secundários, com licenciatura em Filosofia, Sociologia, História, Geografia, Matemática, Biologia, Física, Química, Letras, Literatura, Educação Artística e Educação Física. Até a década de trinta, funcionavam em Faculdades Federais e Estaduais. Nas décadas de 1940 e 1950 a Igreja católica fundou várias Universidades nas principais cidades brasileiras e a partir de 1960, foram instituídas, por instituições totalmente privadas. O curso de Pedagogia, foi implementado pelo Conselho Federal de Educação, por meio do Parecer CFP 251/62. Este estabelece o currículo mínimo do curso. Posteriormente, o parecer 252/69, garante a possibilidade de exercício do magistério primário pelos seus egressos, por meio da modificação do currículo mínimo. Nos anos 80 e 90 o curso de Pedagogia passou por novas modificações curriculares, desta vez, com o objetivo de ajustar o curso, à tarefa de preparar o professor para a docência nas séries iniciais. A Lei 5.540/68, que propôs a reforma para o ensino superior, trouxe modificações ao currículo do Curso de Pedagogia, fracionando-o em habilitações técnicas para a formação de especialistas. Assim, surgem os professores secundários licenciados, com habilitação em curso superior específico, 36 correspondente a uma ou mais disciplinas do currículo dos cursos ginasiais e secundários. A Lei 5692/71, que estabeleceu Diretrizes e Bases para o primeiro e segundo graus, transformou a Escola Normal numa das habilitações para o segundo grau, no interior da profissionalização obrigatória que foi adotada para todo o ensino. A autora faz uma análise das diretrizes desta Lei e conclui: Diluída numa das habilitações profissionais do segundo grau, a habilitação específica para o magistério, instituída pela 5692/71, enterrou a Escola Normal tradicional, fazendo desaparecer os Institutos de Educação e as Escolas Normais. Esta habilitação regulamentada pelo Parecer do CFP 349/72, foi organizada de forma a apresentar um núcleo comum de formação geral e uma parte de formação especial [...] Previu-se também a possibilidade de fracionamento do curso em habilitações específicas, em três ou quatro séries, ou seja, a habilitação para o magistério em escolas maternais e jardins-de-infância; em 1º e 2º séries; em 3ºe 4º séries, entre outras, com conteúdos correspondentes a cada uma delas.(SCHEIBE 2002,p.19) Com esta análise é possível perceber a forte tendência tecnicistas que caracterizou o pensamento educacional neste período, por meio da fragmentação dos cursos e do próprio currículo. Tal fragmentação causou prejuízos para a formação geral de educador, que até hoje possui dificuldades de estabelecer relações entre os conhecimentos das diferentes áreas, entre teoria e prática. Esta dificuldade é pontuada pelos professores entrevistados que trabalham com os Ciclos 3 e 4, correspondentes ao Ensino Fundamental de 5ª a 8ª séries. Tais dificuldades estão fortemente instituídos na cultura tecnicista da escola e na formação fragmentada do educador que constituem, verdadeiras barreiras a proposta de ciclos implementada na rede municipal de Porto Alegre e Criciúma, conforme relatam as professoras. 37 Como a implantação dos ciclos de formação em Porto Alegre iniciou- se em 1996, nosso regimento foi fundamentado na antiga LDB, que por exemplo estabelecia os períodos escolares2. No início, achávamos que no cotidiano isto poderia ser rompido, mais não, ficamos mantendo tudo igual. Até tentamos trabalhar com horários, antes e depois do recreio, mas depois, começou uma carga horária somente baseada em períodos. As pesquisas que a gente fazia na comunidade, não fazemos mais. Só conseguimos manter a estrutura dos encontros onde planejávamos em conjunto, por volta de três anos( fala de educador participante da pesquisa). Eu trabalho com o terceiro ciclo, com História e Geografia. Temos uma base que necessita ser quebrada, que vem la da 5692/71, mas que a escola ainda mantém. Apesar dos muitos movimentos para tentar quebrar a estrutura dos 50 minutos por disciplina, onde entra um professor, este sai e vem outro e o aluno até pegar o caderno e se organizar, perde muito. Os professores querem tudo bonitinho, controlado, com os alunos prontos esperando. Nas terças feiras que temos reuniões, os períodos são de 30 minutos. Não há projeto que resista a esta situação. Interdisciplinariedade não existe, ainda trabalhamos com as gavetinhas, onde o aluno vai abrindo e fechando. O professor em contra partida, segue reclamando que o aluno é indisciplinado, entre outras coisas, enquanto que na verdade, somos nós que fazemos isto( fala de educador participante da pesquisa). Ao analisarmos o conjunto de legislação que entraram em vigor no Brasil, é possível concluir que estas regulamentaram o funcionamento e controle do magistério, tanto no Ensino Médio, quanto no Ensino Superior. Em relação a implantação específica de políticas públicas para a qualificação profissional e formação do educador, nada foi instituído, embora perceba-se um significativo avanço na expansão da institucionalização da educação no território nacional. Para a autora, é importante destacar o sentido político conservador que marcou as reformas educacionais do final da década de 60 e início da década de 70. O contexto em que se realizou a reforma universitária e logo a seguir a Reforma do Ensino de 1º e 2º Graus (1971) foi de séria crise política ( SCHEIBE, 2002,p.21). Para ela, a Revolução de 1964, que instalou o regime militar no Brasil, interrompeu o processo de democratização. A universidade foi bastante atingida e 2 Períodos escolares é o mesmo que hora aula de 45 minutos para cada disciplina do currículo escolar. 38 sua abertura em direção a movimentos populares, interrompida, por meio de um processo de ruptura política também no ensino superior, a partir da instauração da Lei 5540/68, que também apresentava uma clara tendência autoritária e tecnicista. No final dos anos 70, iniciou-se um forte movimento pela reformulação dos cursos de formação dos educadores no Brasil. A discussão iniciou-se pelo curso de Pedagogia, que se propunha a capacitar os denominados “ especialistas” em educação e estendeu-se as licenciaturas que visavam formar o professor polivalente para as séries finais do 1º grau, por meio de uma frágil formação, chamada de licenciatura curta. Tal movimento existe até hoje e busca alternativas para construir, de forma unificada, uma formação docente com qualidade social. Em 1983, no Encontro Nacional do Projeto de Reformulação de Recursos Humanos para a Educação, realizado em Belo Horizonte, foi produzido um documento que estabeleceu alguns princípios, até hoje perseguidos como um referencial para a formação docente. Scheibe ao analisar tal documento, seleciona as principais proposições: Todas as licenciaturas deverão ter uma base comum, já que formam professores e que a docência constitui a base da identidade profissional de todo educador; a base comum nacional dos cursos de formação de educadores não deve ser concebida como um currículo mínimo, ou um elenco de disciplinas, e sim como uma concepção básica da formação do educador, definido um corpo de conhecimento fundamental; a problemática da licenciatura em áreas de conteúdo específico deve ser trabalhada em conjunto pelos professores responsáveis pela formação pedagógica e pela área específica, envolvendo inclusive entidades profissionais e sociedades científicas; é preciso repensar a formação pedagógica, tornando-a mais sólida e menos fragmentada, ampliar sua carga horária sem prejudicar a área específica e desenvolvê-la ao longo do curso; nas instituições onde coexistem cursos de licenciatura e bacharelado, na mesma área, deve ser evitada a separação inicial entre os cursos, evitando-se a discriminação do curso de licenciatura; a relação teoria-prática-teoria é desejável ao longo do curso, permeando todas as disciplinas; a formação do professor das áreas específicas, considerandose a referida base comum, deve incluir: disciplinas relativas ao conteúdo específico, à formação pedagógica e disciplinas “integradoras( SHEIBE, 2002, p.23). 39 A Nova LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, marco representativo da institucionalização das muitas reformas educativas levadas a efeito nas últimas décadas, aponta pela primeira vez na legislação do país (título VI, art. 61 a 67) uma matéria referente a formação dos profissionais da educação. Em seu art. 62 apresenta: A formação de docentes para atuar na educação básica far-se-á em ensino superior, em curso de licenciatura, de graduação plena, em universidades e institutos superiores da educação, admitida, com formação mínima para o exercício do magistério da educação infantil e nas quatro primeiras séries do ensino fundamental, a oferecida em nível médio, na modalidade normal (LDB,1996,p.34). Conforme prevê a Lei, a formação de profissionais da educação em Curso Normal Superior ou em curso de Nível Médio visa preparar os educadores para atuarem na Educação Infantil e quatro séries do ensino fundamental, o que inclui a educação especial e a educação de jovens e adultos. Embora admitida ainda a formação em nível médio para o exercício profissional, dispõe também, em seu art. 87, a afirmação de que, ao finalizar a década em que a LDB foi promulgada (ano de 2006), “somente serão admitidos professores habilitados em nível superior ou formados por treinamento em serviço”. Assim, a formação do magistério, quando em nível médio, ganha nova especificidade: o Parecer do CFE nº 349/72 perde vigência, requerendo-se novas funções e locus para a Escola Normal. Tal apontamento demonstra a necessidade de qualificar o profissional da educação, o que é bom. Também aponta um grande desafio as universidades, que carregam o estigma histórico que sempre foi atribuído às faculdades de educação e professores que atuam nos cursos de Pedagogia e licenciaturas, conforme pontua Freitas: 40 O momento exige, mais do que nunca, a superação dessa tradição negativa para que se possa impedir que hoje se coloque como solução para a formação dos docentes do ensino básico no país instituições de ensino superior autônomas e desvinculadas da proposta de um ensino universitário, substituindo-se as possibilidades que oferecem as Faculdades de educação pelos Institutos Superiores de Educação e os Cursos de Pedagogia pelas Escolas Normais Superiores (SCHEIBE, 2002, p.13). A preocupação apontada pelo autor resulta da dualidade expressa na lei: ao mesmo tempo que explicita a obrigatoriedade de uma formação de ensino superior, aponta a possibilidade da formação em nível médio; ao mesmo tempo que legitima o ensino nas universidades, abre a possibilidade para que os mesmos cursos possam ser oferecidos em Institutos Superiores de Educação, sem a obrigatoriedade da pesquisa e da extensão. A preocupação denunciada por Freitas se efetiva, ao considerarmos o oferecimento em nosso Estado, pela UDESC, dos Cursos de Pedagogia à distância, hoje aproximadamente 6.000 vagas nos diferentes municípios catarinenses. Embora seja uma instituição reconhecida, não tem oferecido a seus estudantes as condições mínimas exigidas para uma formação universitária decente, ou seja: um acervo bibliográfico, o acesso à tecnologia de qualidade, tendo em vista a proposta de um ensino à distância. A grande expansão desses serviços em todo o Estado, oferecido por um custo menor e sem a infra estrutura necessária e muito menos a histórica proposta defendida por Anísio Teixeira, para o ensino superior: a indissolubilidade do ensino, pesquisa e extensão. Iria Brzezinski (2001 p.89), no texto intitulado “ A formação e a carreira de profissionais da educação na LDB 9.394/96:possibilidades e perplexidades”, analisa os dispositivos da nova LDB no que se referem a formação e carreira profissional, tendo como ponto de referência, “o mundo do sistema oficial e o 41 mundo vivido”. A partir dessa análise aponta possibilidades e perplexidades no espaço socio-educacional brasileiro. Pontua que o sistema educacional brasileiro, historicamente está vinculado ao sistema global dominante. Antes, seguia determinações reais, hoje, segue os princípios e políticas neoliberais, impostos pelo sistema econômico internacional. Assim, uma distância gigantesca entre o imaginário social da população brasileira e o contexto real se estabelece. De um lado, as exigências do mundo globalizado, tais como: o uso de novas tecnologias; a refuncionalização do capital; as novas relações de trabalho, o aumento da produtividade; a aplicação de mecanismos financeiros; o fenômeno da globalização e da internacionalização do capital. De outro, o contraste social entre o muito e o nada. A qualidade de vida no plano educacional, saúde, e emprego torna-se insustentável. Para diminuir tal distância, novamente o sistema determina: a Educação, principalmente de nível superior, tem sido improdutiva e corporativista. É urgente a sua privatização, para melhorar sua produtividade e competitividade. Na efetivação de tal projeto, no plano oficial, muitas medidas oriundas do Projeto nº67/92 de autoria do Senador Darcy Ribeiro são pensadas e legitimadas na Nova LDB, a fim de assegurar um “profissional mais competente”. Por outro lado, no mundo real, educadores pensam via Fórum em Defesa da Escola Pública, o projeto de lei nº1258-C/88, que embora tivesse maior legitimidade popular, foi substituído pelo projeto citado anteriormente. As medidas legais, apontam avanços e retrocessos. Como avanços a autora destaca: uma visão mais ampla de educação formal e ensino regular; a organização de uma prática pedagógica tendo como 42 ponto de partida e chegada a dimensão social; o acesso e sucesso à educação como princípios básicos; o reconhecimento da relação teoria e prática na formação docente; a abertura para o rompimento do currículo fragmentado em disciplinas; a instituição de uma base comum nacional ultrapassando a idéia de currículo mínimo; a indicação da experiência docente como pré-requisito para exercício profissional de quaisquer funções do magistério continuada com licenciamento o direito dos profissionais à educação remunerado para o aperfeiçoamento profissional (BRZEZINSKI, 2001,p.87 –91). Como retrocesso, destaca: o tratamento do profissional de educação como um “semiprofissional”; a adoção da capacitação em serviço e do aproveitamento de formação e experiências anteriores como habilitação profissional; a falência dos cursos de formação de professores, sendo estes substituídos por um diploma de nível superior; o ensino a distância; uma indefinição da identidade do educador; o estabelecimento de uma formação mínima para profissionais de Educação Infantil e séries iniciais do Ensino Fundamental, na modalidade normal; a flexibilização sobre a responsabilidade dos Institutos Superiores de Educação desvinculados da pesquisa e extensão; a garantia de uma base comum nacional apenas para formação em Pedagogia; a formação do pedagogo fragmentada em áreas a critério das instituições de ensino; a obrigatoriedade da docência como base de formação no curso de Pedagogia; a valorização da função docente pela progressão apenas por tempo de serviço ( BRZEZINSKI, 2001,p.91 – 105). Iria ainda compreende que a valorização dos profissionais da educação passa pela definição de sua identidade, atualmente fragmentada. Para além da 43 mediocridade do mundo oficial, o educador necessita ter a ousadia de levar em frente as possibilidades que a lei revela, dando maior significado ao ideário profissional de cada educador. Enquanto profissional da Educação, penso que a autora fez uma analise detalhada acerca dos avanços e retrocessos contemplados na LDB, em relação a formação docente. Essas constituem considerações importantes para a compreensão das implicações da educação enquanto produto mercantil, parte de mais uma estratégia imposta pelo sistema, bem como, o movimento de resistência de alguns educadores buscando quebrar essa lógica. Porém, os aspectos aqui ressaltados discutem basicamente questões funcionais, contemplando superficialmente os aspectos políticos, filosóficos e epistemológicos de tal formação. Esses aspectos permeiam as entrelinhas do que é legalmente instituído, porém, constituem fator determinante no contexto real, vivido pelo profissional da educação. Para além do plano pedagógico, o educador necessita pensar sua identidade profissional, no contexto político, social físico e afetivo, tanto no aspecto individual, quanto no coletivo. Apesar de estar submetido à égide do capitalismo, pela primeira vez a legislação educacional brasileira contempla uma política para a formação e qualificação do educador. Com certeza, essa é uma conquista dos poucos educadores que organizados no coletivo, conseguiram assegurar. Isso me leva a pensar, do quanto conseguiríamos, se mobilizássemos a grande massa alienada de educadores, que historicamente, foram desapropriados do seu lugar de protagonistas, e 44 consequentemente, sentem-se na atualidade sem perspectiva pessoal e profissional. Como acordar os educadores desse sono imobilizante da alienação e auxiliá-los a assumir o lugar de atores sociais? Um caminho nos é apontado por Paulo Freire,(1996) quando destaca a necessidade de criar espaços para refletirmos criticamente a cerca de nosso fazer, de nossas ações, para então transformá-las. Acredito na possibilidade de uma grande revolução, partindo das pequenas mudanças possíveis que conseguimos fazer em nosso contexto profissional. Neste sentido, destaco algumas falas das educadoras entrevistadas de Criciúma, que iniciaram juntamente com o processo de implantação dos Ciclos de Formação, um espaço de formação continuada. Este, diferente de anos anteriores, convida os educadores a estudar a nova proposta, bem como, refletir e encaminhar as questões da práxis educativa, no locus profissional, ou seja, na própria escola. Esta possibilidade de refletir com o coletivo docente, a partir do contexto real da instituição, abre novas perspectivas profissionais e potencializa os educadores para a ação transformadora e participativa. No momento em que a escola faz sua opção pelos Ciclos de Formação a escola passa a ter um acompanhamento permanente da Secretaria de Educação e também uma assessoria de profissionais de Porto Alegre. Estas passaram a integrar nossa Formação Continuada, agora realizada com maior freqüência no espaço da escola. Esta iniciativa foi fundamental para modificar minha concepção e atuação docente( fala de educador participante da pesquisa). Nossa prática pedagógica tem se aproximado bastante do ideal desejado. Este avanço é resultado de uma busca constante do exercício açãoreflexão-ação. A escola em seu todo faz este movimento e passa por esta transformação. Percebo o coletivo mais comprometido, dando mais importância a sua Profissão. A qualidade das aulas e das relações são determinantes para a aprendizagem, uma vez que o processo educativo passa a ser mais significativo para todos( fala de educador participante da pesquisa). 45 Desde que iniciamos a implantação dos Ciclos de formação, temos recebido acompanhamento constante da Secretaria de Educação e isto faz que o nosso trabalho seja cada vez melhor. As mudanças que fiz foram as mais significativas em minha carreira, fazendo com que eu me sentisse mais motivada e esperançosa como profissional da educação( fala de educador participante da pesquisa). Ao focar o seu olhar em uma prática participativa, no trabalho de equipe, na observação, registro e reflexão da práxis, na história de vida das pessoas, na complexidade dos muitos encontros que se dão dentro da escola e dessa com a sociedade é que o educador poderá romper com essa prática ideologicamente comprometida e alienada. Como diz o autor, “ se a vocação ontológica do homem é a de ser sujeito e não objeto, só poderá desenvolvê-la na medida em que, refletindo sobre suas condições espaço-temporais, introduz-se nelas, de maneira crítica”( FREIRE, 1983, p.61). Na era do conhecimento, da tecnologia, da globalização, um novo perfil de homem e educação faz-se necessária. Agora, o mercado necessita um profissional dinâmico, criativo, que saiba administrar situações adversas, que tenha iniciativa, que trabalhe em equipe, que seja autônomo em seu fazer, enfim, emerge a valorização de uma formação integral, que contemple a dimensões humana, em todos os seus aspectos: físicos, afetivos, sociais, cognitivos. Ao voltar sua atenção para a educação – meio pelo qual nos aperfeiçoamos enquanto sujeitos, e para o educador, protagonista desse processo de educar, o sistema depara-se, na maioria das escolas, com um profissional mutilado, desagregado, sem identidade, sem projeto, sem perspectiva. O que fazer diante de tal realidade? Penso que a proposta dos Ciclos de Formação e Desenvolvimento Humano apontam caminhos possíveis para a transformação desta realidade e o investimento na Formação Continuada do educador no espaço 46 educativo, a exemplo do que está fazendo a Secretaria de Educação de Criciúma, é o primeiro passo. Assim, vamos conhecer agora, um pouquinho do contexto histórico em que os ciclos de Formação e desenvolvimento humano vem sendo implantado, implementado e discutido no cenário nacional. 47 3. CICLOS DE FORMAÇÃO: UMA PROPOSTA EMANCIPATÓRIA PARA EDUCADORES No último século, visando atingir a população absoluta em idade escolar, a escola básica brasileira tem passado por transformações significativas. Uma das causas de tais transformações, tem sido a busca incessante de superação dos altos índices de evasão e fracasso escolar, que segundo o FIBGE, “tem oscilado entre 60% e 50% nas estatísticas educacionais nas passagens das primeiras para as segundas séries do ensino fundamental durante o período de 1940 a 1980”(FIBGE, 1997). Uma outra questão significativa que permeia a necessidade de mudança é a função social da Educação Básica, como enfatiza Arroyo( apud MOLL 2004, p. 13) “ a Função social e cultural da escola diante da infância, da adolescência e da juventude é formá-las como totalidades humanas que têm direito de se constituir como humanos”. A formação do Educador, também é apontada como fator determinante para a concretização das mudanças, uma vez que Arroyo, ao citar a função social da Educação, atribui como “compromisso docente o desenvolvimento dessa totalidade de dimensões e processos” e diz que este é o “sentido histórico dado ao direito à educação básica Universal Obrigatória”(MOLL,2004,p.13). A efetivação de outras formas de organização escolar no sentido de trabalhar esta totalidade discente, implica o educador a buscar formas inovadoras de atuação, exigindo novas competências dos mesmos. 48 Perrenoud, ao analisar as políticas utilizadas para realização de reformas educacionais, classifica tais transformações em três tipos: As reformas do primeiro tipo referem- se as estruturas escolares no sentido restrito: etapas, organização do curso. As reformas de segundo tipo transformam os currículos e as reformas de terceiro tipo, são dirigidas para o cotidiano dos alunos e professores nas classes e nas escolas ( PERRENOUD,1990, p.11). Para este autor as reformas de estrutura e de programas ( 1ª e 2ª tipo) são legítimas, porém, só dão frutos se atingirem as práticas, a relação pedagógica o contrato didático, as culturas profissionais, a colaboração entre professores. “São as práticas profissionais que é preciso transformar”, diz Perrenoud (1990,p.11), ao definir práticas profissionais como “os valores, as atitudes, as representações, os conhecimentos, as competências, a identidade e os projetos de cada um”. Ressalta ainda, o fator humano que permeia a formação do educador. E é neste contexto de reformas e busca de superação destas e outras dificuldades do sistema de ensino, que a organização da escola em ciclos vem tornando- se realidade, tanto no Brasil quanto no exterior. Falando dessa necessidade de mudanças, assim se expressam as educadoras entrevistadas: Queríamos romper com os armários chaveados, com a falta de distribuição igualitária de materiais, com as coisas que não se tinha acesso, com os rituais escolares, como a sineta ou campainha. Enfim, romper com a estrutura seriada(fala de educador participante da pesquisa). Desde a época da escola seriada, nós tínhamos um grupo muito bom, que já identificava que a avaliação não podia ser classificatória. Existia uma incoerência. Aos poucos fomos compreendendo que o processo de avaliação não tem como fim a classificação e sim, a mudança da prática educativa. Então a proposta dos ciclos veio ao encontro (fala de educador participante da pesquisa). Ao fazer a opção por esta forma de ordenação, faz- se necessário outras mudanças, tais como: rever a concepção de educação escolar obrigatória, rever a 49 forma de organização curricular, apropriar- se da teoria de fundamenta o ciclo, aprendizagem que rever o processo de avaliação, instituir espaços de recuperação paralela, reorganizar a composição de turmas, articular nova regulamentação dos tempos e espaços escolares, articular espaços para estudo, planejamento e organização do coletivo de educadores, uma vez que a proposta de ciclos defende uma atuação cooperativa e de co- responsabilidade. A implantação dos ciclos assim instituída, caracteriza- se como uma reforma de terceiro tipo, segundo classificação de Perrenout pois exige da instituição e dos profissionais envolvidos uma adesão ideológica seguida de ações de mudança na prática educativa. Essa transformação exige uma nova relação com a profissão, desencadeando a necessidade de rever a formação dos educadores, hoje insatisfatória, para dar conta dessa realidade. Porém, como enfatizou Krug, na fala de abertura do Seminário de Ciclos de Formação em Criciúma/2004: “no Brasil hoje existem ciclos e ciclos”. Com esta fala a autora quis pontuar as diferenças intrínsecas nas propostas existentes. Assim temos a proposta defendida nos Parâmetros Curriculares Nacionais, onde os ciclos são estabelecidos de dois em dois anos, ou seja, a cada dois anos o estudante passa por uma avaliação e define-se então se ele passa ou não para o próximo ciclo. Temos os ciclos de aprendizagem, que estabelecem um conjunto de conteúdos que o estudante deverá atingir, vencida esta etapa, passa para a próxima. Neste caso, não se mantém a série mas a reprovação pode acontecer. E os Ciclos de Formação ou Desenvolvimento Humano, onde a democratização do saber acompanha o processo de desenvolvimento . Nela compreende-se que a aprendizagem acontece ao longo de nossa vida e portanto não se justifica uma 50 organização escolar pautada na seriação ou na reprovação e sim nas etapas evolutivas, ou seja: no primeiro ciclo à infância ( 6, 7 e 8 anos), no segundo ciclo à pré- adolescência ( 9, 10 e 11 anos), e no terceiro ciclo à adolescência ( 12, 13 e 14 anos). Krug dando seqüência em sua fala fundamenta que embora as propostas de ciclos como um todo defendem algumas rupturas básicas, tais como: a série dentro de um ano letivo; a não correspondência entre o ato de ensinar ao de aprender; a realização do processo avaliativo condicionado a reprovação, o que resulta o atual funil educativo, onde aproximadamente 5 milhões de adolescentes de 15 a 17 anos freqüentam o Ensino Fundamental, a proposta dos Ciclos de Formação avança um pouco mais. “Esta implica em mudar de óculos, ou seja, questionar: o que? Como? para que aprender? Uma mudança que se dá no olhar, no corpo, no processo de humanização” ( Seminário de Ciclos de Formação em Criciúma /2004). Historicamente os ciclos no Brasil , presentes em alguns ensaios de inovação pelos estados desde a década de 60, e em alguns de seus pressupostos, defendidos desde os anos 20, correspondiam à intenção de regularizar os altos índices de disparidade idade X série dos estudantes ao longo da escolarização. Cada proposta redefiniu o problema à sua maneira, tendo em vista as necessidades e o ideário pedagógico dominante da época. Independente das palavras de ordem de cada momento histórico, o desafio essencial permaneceu: passar da universalização das oportunidades de acesso ao provimento de condições de permanência do estudante na escola garantindo-lhe aprendizagem efetiva e educação de qualidade. 51 A proposta dos Ciclos de Formação, opção dos dois municípios pesquisados neste trabalho, teve seu início em caráter experimental no Estado de Minas Gerais, no município de Juiz de Fora, nos anos 70. Tendo em vista os resultados positivos em relação a redução da repetência e evasão escolar, foi ampliado para todo o ciclo básico em Minas Gerais em 1982 e implantado em São Paulo em 1992, tendo Paulo Freire como Secretário de Educação. Em Belo Horizonte, em 1996, por meio da iniciativa do então Secretário de Educação Miguel Arroyo. No mesmo ano, o sistema de organização da escola por ciclos é reconhecido na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, nº 9.394,1996 onde em seu artigo 23 assegura: A educação básica poderá organizar-se em séries anuais, períodos semestrais, ciclos, alternância regular de períodos de estudos, grupos nãoseriados, com base na idade, na competência e em outros critérios, ou por forma diversa de organização, sempre que o interesse do processo de aprendizagem assim o recomendar( LDB,1996,p.18). Em 1996 ainda, Porto Alegre inicia seu projeto Escola Cidadã, também com a implantação dos Ciclos de Formação. Em Santa Catarina, em 1997 respectivamente, Blumenau e Chapecó implantam o mesmo sistema. No ano de 2003 é a vez de Criciúma aderir ao sistema, implantando gradativamente o 1º e 2º ciclos em quatro escolas da rede municipal de ensino. Os Ciclos de Formação ou Desenvolvimento humano fundamentam-se nos princípios de Langevin Wallon, que defende que “a educação por ciclo se justifica pelo fato de que a educação deve ser adaptada ao Homem e não aos interesses particulares ou transitórios da economia, da política nacional ou internacional, das ideologias arraigadas em preconceitos, nacionalidades ou culturas” ( LIMA,2000,p.12). 52 Nesse sentido, reafirma o posicionamento de todos os municípios citados acima ao “defender que à escola seja um espaço de formação humana e não só de aprendizagem, onde o ser humano deva se desenvolver em sua totalidade, em todas as suas dimensões”(SECRETARIA MUNICIPAL DE CRICIÚMA, Projeto de implantação dos ciclos, 2003,p.13). Elba Siqueira de Sá Barreto, da Faculdade de Educação da USP, realiza uma pesquisa a cerca das características presentes em muitos ensaios de implantação dos Ciclos escolares no Brasil, bem como as justificativas para sua adoção. Ao revisitar textos antológicos da História da Educação brasileira, que registram as iniciativas da adoção dos ciclos em diferentes estados, conclui: • A implantação dos ciclos de formação é escolhida por gestões das redes públicas de ensino, das mais referentes matrizes partidárias, como uma alternativa importante para o enfrentamento do fracasso escolar; • As justificativas utilizadas para sua implantação povoam os argumentos dos governos que se auto denominam populares, numa convergência de idéias que vão construindo propostas que revelam consensos em termos do encaminhamento das políticas educacionais para o ensino fundamental; • Não há efetivamente um modelo de ciclos consagrado pelas experiências realizadas nos diferentes níveis de ensino; • Os sistemas de ensino e as escolas vem sendo convidadas a ensaiar formas inovadoras de implantação dos ciclos que permitam superar os efeitos prejudiciais a oferta de uma educação democrática e de qualidade que assegure efetivamente a todos o direito de aprender (BARRETO,1999, p.46). Em relação ao êxito deste processo de implantação, destaca duas questões fundamentais. Em primeiro lugar, considera que a qualidade de ensino está associada as condições mais efetivas para a implantação dos ciclos escolares. Neste sentido, a manutenção sistemática dos investimentos feitos juntos a seleção e distribuição de livros didáticos e equipamentos de ensino, as novas orientações curriculares, a capacitação dos professores, descentralização financeira, 53 administrativa e pedagógica e as inovações na gestão escolar precisam ser garantidos por períodos razoavelmente longos de tempo. Estas questões podem ser evidenciadas nos relatos das professoras entrevistadas nesta pesquisa. Segundo as professoras de Criciúma, que iniciaram o processo de implantação dos ciclos de formação em 2003, a garantia de uma orientação pedagógica mais efetiva por parte da Secretaria de Educação, a formação continuada na escola, o investimento em recursos humanos, a autonomia de gestão e a construção de uma proposta pedagógica pautada na realidade da comunidade, tem sido um diferencial importante para a garantia de um trabalho diferenciado nos Ciclos de Formação. Hoje temos um Projeto Político Pedagógico que direciona todas as nossas ações, incluindo a formação Continuada que para mim tem sido muito boa (fala de educador participante da pesquisa). Nossa escola optou por trabalhar com os Ciclos de Formação, após algumas reflexões feitas na construção do P.P.P. da escola. Como a Secretaria de Educação nos deu autonomia para “entrarmos de cabeça” neste projeto, mudanças significativas começaram a ocorrer (fala de educador participante da pesquisa). Me sinto mais competente trabalhando com os ciclos de formação. Aos poucos, com os subsídios obtidos na Formação Continuada e nas assessorias, a organização do trabalho e seus objetivos ficam mais claros. Embora compreenda que ainda temos muito a aprender, tenho a certeza de que estamos no caminho certo (fala de educador participante da pesquisa). Os mesmos diferenciais de mudança percebidos pelas professoras de Criciúma, também foram evidenciados pelas professoras entrevistadas de Porto Alegre, no início do processo de implantação dos ciclos. Hoje, após nove anos de efetivação deste novo sistema, seguem avaliando a importância destas diretrizes, porém lamentam a falta de continuidade das mesmas. Estas falas das professoras entrevistadas, vem corroborar as afirmações feitas por Barreto. 54 Ao longo dos anos o trabalho foi se modificando. A pesquisa realizada na comunidade, que muitos colegas não achavam importante, nos ajudava a conhecer o lugar em que os nossos alunos moram e a entrar em contato com a realidade. Esta deixou de ser feita. Com isto o trabalho volta a ter a estrutura individualizada de antes. Um trabalho que pode ser feito em qualquer escola, inclusive na seriada (fala de educador participante da pesquisa). A decisão de implantar os ciclos de formação para toda a rede, implicou na contenção de recursos humanos e uma série de outras coisas, que por exemplo a escola Monte Cristo vinha tendo, enquanto uma das primeiras escolas a implantar o sistema. O quadro diferenciado de recursos humanos que tínhamos, deixa de existir a partir do momento em que a Secretaria teve que estabelecer para a rede inteira a mudança. Esta questão foi um dos fatores que contribuiu com o retrocesso que estamos vivendo (fala de educador participante da pesquisa). A Segunda questão ressaltada pela autora, refere- se ao plano das representações sociais e da cultura pedagógica. Neste sentido, destaca a importância do envolvimento dos educadores, e esclarecimento da sociedade e o debate com as famílias no que se refere a flexibilização dos tempos escolares, com o intuito de implantar uma educação mais democrática. “ Sem a adesão desses diferentes segmentos sociais nenhuma medida, por mais defensável, que seja no plano do ideário político e pedagógico logrará sucesso no domínio das práticas que tem impacto nos processos de mudanças sociais”(BARRETO,1999, p.46). Em relação a esta questão, percebe-se que a política participativa foi um critério adotado nos dois municípios pesquisados. Em relação ao município de Porto Alegre, Krug (2001) aborda em seu livro todo o processo de gestão democrática que acompanhou o surgimento da escola por ciclos, nas três gestões da Administração Popular. “O projeto Escola Cidadã se propõe a expressar, na Escola Pública Municipal, os desejos de todos os segmentos que compõem as instituições: famílias, trabalhadores e trabalhadoras docentes e não docentes e estudantes” (KRUG,2001,p.93). 55 No município de Criciúma, também são ressaltados os seguintes critérios para a implantação dos Ciclos de Formação e ou Desenvolvimento Humano: Desejo de mudança por parte do coletivo da escola; Projeto da escola, apontando mudanças na sua organização e nas concepções de aprendizagem e de avaliação; proposta de trabalho apresentada na eleição de diretores; apoio ao projeto da Secretaria de Educação, que tem como eixos: gestão democrática, acesso, permanência e sucesso; qualidade social de vida; realidades diferenciadas no que tange às condições sócio-econômicas e culturais; condições da estrutura física. (SECRETARIA MUNICIPAL DE CRICIÚMA, Projeto de Implantação dos Ciclos de Formação, 2003,p.20). Krug (2001), em seu livro “Ciclos de formação: uma proposta transformadora”, relata um pouco mais sobre esta política da participação, desenvolvida em Porto Alegre. Esta foi se estabelecendo paralelamente a implantação dos Ciclos de Formação e está intimamente relacionada a transformação cultura da escolar, que necessariamente passa por uma transformação política e ideológica de seus protagonistas, tanto na esfera civil, quanto governamental. Para a autora “uma coligação partidária que se auto define identificada com forças políticas comprometidas com a necessidade de transformação das condições sociais e econômicas excludentes impostas pelo capitalismo à população”( KRUG,2001,p.85), contribuiu para essa nova articulação Estado x sociedade, ampliando a consciência social em todos os segmentos. São exemplo destas ações o orçamento participativo3, a criação dos Conselhos Setoriais4 e o Projeto Escola Cidadã 5. 3 O Orçamento Participativo é um método rigoroso e evolutivo de exercício democrático para a divisão das receitas despesas Municipais pala própria população. Possibilita a criação de fóruns de participação popular na discussão das políticas públicas e de aplicação do orçamento. 56 Outras ações específicas ao processo de democratização e descentralização nas instituições educativas, também foram efetivadas. Em relação a Secretaria Municipal da Educação foi necessário: Colocar a atividade – meio, a administrativa, a serviço da atividade fim, a pedagógica, Ao mesmo tempo era necessário superar o fragmentário, e criar mecanismos que conciliassem o administrativo com a política de idealização da participação e da democratização da escola. Neste contexto, a opção foi intensificar o trabalho político institucional, sem descuidar das questões especificas: dimensão pedagógica(AZEVEDO in KRUG 2001, p.95). Em relação a escola e seus segmentos promoveu- se a eleição direta de seus diretores, conforme Lei nª 7365, de 17 de Dezembro 1993, que estabelece como votantes os profissionais das instituições, os pais ou responsáveis e os estudantes acima de doze anos. Foram instituídos ainda, os Conselhos Escolares, conforme lei complementar nº292/93 que constituem o órgão máximo das escolas, com função consultiva, deliberativa e fiscalizadora. Este conselho é formado pelo diretor e representante docentes, estudantil e familiares, Segundo Azevedo, estes encontros possibilitaram: Socializar os conhecimentos necessários á gestão da escola. Ao mesmo tempo, permitiram a explicitação das diferenças de interesses entre os diversos segmentos. Permitiram principalmente aos alunos, professores e pais, a apropriação dos conhecimento que os instrumentalizam para o exercício do poder no interior da escola. Constitui também em espaço privilegiado , onde os segmentos poderão desenvolver concepções mais universais e menos corporativistas em relação à educação(AZEVEDO, apud KRUG, 2001, p.98). 4 Conselhos Setoriais são grupos constituídos por representantes governamentais e sociedade civil, que objetivam organizar interesses e operacionalizar necessidades, implementar e fiscalizar a ampliação das políticas públicas do Estado. 5 Se propõe a expressar na escola Pública Municipal, os desejos de todos segmentos que compõe as instituições: famílias, educadores, funcionários e estudantes, de uma forma democrática e participativa. 57 Uma outra ação envolvendo Secretaria Municipal de Educação e Escola, foi a efetivação do processo constituinte Escolar, que se entendeu no período de 1994 e 1995. Neste espaço todos os seguimentos representativos da educação pública discutiram sobre a escola que queriam o papel dos Conselhos Escolares. Ghanem, ao pesquisar a participação popular na gestão escolar em Porto Alegre, concluiu a respeito do processo Constituinte Escolar: A experiência constituinte escolar, de caráter inédito, permitiu uma mobilização ampla para debater publicamente a reorientação da escola municipal e mostrou que há pais e alunos interessados em problemas normalmente tratados somente em meios especializados... Este espaço significou um momento de afirmação da população usuária dos serviços como interlocutora desse debate( GHANEM, apud KRUG,2001,p.101). Como vemos, foram muitas as ações no sentido de garantir e ampliar a participação de todos os segmentos nas decisões pertinentes à organização do processo educativo. Porém, com o passar do tempo, é possível observar que estas não conseguiram garantir a continuidade das ações, no que se referem as mudanças implantadas por conta dos Ciclos de Formação. Neste sentido, Andréa Krug ao analisar documentos oficiais se posiciona, ao relatando o contexto políticoeducacional no município de Porto Alegre, a partir de 2001. Resultado de um contexto político interno ao Partido dos Trabalhadores, o setor majoritário que sustenta o atual governo municipal exclui das coordenações do projeto educacional pessoas que estavam ligadas à construção da Escola Cidadã. Desta exclusão resulta a mudança geral da Secretaria Municipal de Educação de Porto Alegre. São cerca de setenta pessoas que saem da Smed ao final de 2000 e mais de trinta são convidadas a se retirar, a partir de 2001. Trata-se de mais de uma centena de técnicos, consultores, assessores que davam sustentação a este projeto. O que é entendido como a desconstituição do acúmulo das administrações anteriores. Sabe-se, pelos documentos que circulam, que a marca “Escola Cidadã” foi substituída pela “Cidade Educadora”, que os Núcleos de Ação Interdisciplinares não foram mantidos e, em relação aos Ciclos de Formação, encontran-se diretrizes como “ o processo avançou na questão do acesso a rede de ensino e na diminuição de excluídos do sistema, faltando avançar na aprendizagem dos alunos ( KRUG, 2001, p.114). 58 O contexto político partidário interfere diretamente no trabalho que está sendo desenvolvido nas escolas. As educadoras entrevistadas percebem tal ruptura e apontam como retrocesso no trabalho pedagógico as fraturas administrativas não mais asseguradas. Neste sentido, é possível destacar algumas falas e posicionamentos. A qualidade do trabalho desenvolvido nos Ciclos dependem da visão que o grupo tem da educação. Esta pode ser burocrata ou pedagógica. Por exemplo: na visão burocrata o que importa é o cumprimento da carga horária, do conteúdo, dos três períodos semanais. Assim, se um professor falta, o professor itinerante faz a substituição dando aulas de Português, Matemática, História... Mesmo não sendo professor desta disciplina, tem que dar conta. Numa visão pedagógica, estes espaços poderiam ser aproveitados para o desenvolvimento de um projeto comum, com enfoque interdisciplinar, que tivesse relação com as temáticas estudadas e com a própria vida (fala de educador participante da pesquisa). Hoje em nossa escola temos a seguinte realidade: temos professores que gostam do que fazem. Temos um outro grupo que gostava do que fazia e hoje, esta muito cansado. Este cansaço não se refere a idade. Temos pessoas muito novas que se pudessem não estariam mais aqui Temos outros que mesmo que a escola apresente propostas legais, não estão nem ai. Estes estão na educação por conveniência, porque é só o que sabem fazer (fala de educador participante da pesquisa). Para parte dos profissionais, esta quebra veio legitimar a justificativa utilizada por alguns educadores conservadores de que “a proposta dos Ciclos de Formação não funcionou e que a organização seriada, ou parte dela, é mais apropriada”. Para os educadores que desejam e lutam pela mudança, vemos em suas falas a expressão de mais uma frustração com os caminhos tortuosos da Educação Brasileira. 3.1. Rupturas necessárias para a efetivação da proposta Na medida em que os Ciclos de Formação se constituem em uma nova proposta para a escola, proposta esta que compreende que a aprendizagem é um 59 direito assegurado por nossa cidadania e para tanto, necessita de uma concepção de desenvolvimento pautada na emancipação humana, faz-se necessário, romper com algumas práticas e referenciais teóricos advindos da pedagogia tradicional . Andréia Krug, em seu livro já citado, ao relatar em sua pesquisa, a compreensão da escola por ciclos de Formação na rede Municipal de Porto Alegre, aborda algumas rupturas, na busca de superação da escola tradicional seriada. Entre as rupturas, na prática docente, destacam-se: a) “A organização do ensino em Complexos Temáticos6 enquanto instrumento didático pedagógico que articula as fontes curriculares dos ciclos de Formação”(KRUG,2001,p.60). Falando sobre as dificuldades de utilizar este novo instrumento didático pedagógico, assim se posicionam as professoras pesquisadas: Nós temos os Complexos Temáticos, mas não sei como é feito o trabalho. Na minha área que é a sócio histórica, com qualquer Complexo Temático se faz um belo discurso, mas o que de fato está sendo trabalhado? Durante o processo a forma de estruturar os Complexos Temáticos foram mudando. A pesquisa na comunidade, deixou de ser feita, por alguns professores por não a considerarem essencial. Estamos vivendo um retrocesso conceitual e metodológico (fala de educador participante da pesquisa). Tenho dificuldade de trabalhar com os Complexos Temáticos. Fizemos tentativas, mas como é uma coisa nova, que depende do coletivo, de junto estudar, não demos conta. Hoje trabalhamos com projetos a partir dos dados que temos da realidade, Isto é o que conseguimos fazer (fala de educador participante da pesquisa). B) “A avaliação, que se constitui em um dos eixos e propõe mudanças que envolvem a organização geral do trabalho proposto”(KRUG,2001, p.65). 6 Partindo do conceito da Smed,1996, assim define os Complexos Temáticos: O termo Complexos Temáticos, sugerem semanticamente, tratar-se de uma designação proposta para assuntos ou relações profundas que levam à criação, a produção, ao desenvolvimento. Propõe uma captação de totalidade de dimensões significativas de determinado fenômeno extraído da realidade e da prática social( apud KRUG,2000,p.22). 60 Em relação a avaliação são muitas as falas das professoras entrevistadas. Em geral, é o que mais mobiliza as educadoras. Talvez, porque a avaliação no sistema tradicional sempre foi o fim da educação, porque constituiuse historicamente como instrumento de controle e poder, porque mostra concretamente o quanto a verdadeira função social da escola não está sendo trabalhada. Sobre o sistema avaliativo, antes e depois dos ciclos, assim se posicionam as educadoras entrevistadas: O norte da mudança era a questão da aprendizagem, da não reprovação e da inclusão. Chegou um ponto que não aceitávamos mais a exclusão através da repetência e uma série de alunos rodando em uma disciplina, segundo levantamento que tínhamos na secretaria, e no ano seguinte, reprovando em outra que já tinha sido aprovado anteriormente. Esta era uma situação até ilegal, além de imoral (fala de educador participante da pesquisa). Temos alunos com defasagem cultural e que estão avançando sem conhecimento, porque não podemos reter. Então eles estão indo e chegando na oitava série. Impotentes, estamos dando diploma para alunos de primeiro grau, semi-analfabetos. Enquanto educadores ficamos de pés e mãos amarradas, porque a mantenedora diz que isto é correto, que pelo menos o aluno não vai abandonar a escola. Me pergunto qual é o nosso papel? (fala de educador participante da pesquisa). A proposta dos Ciclos só não é dez em função da não reprovação e da não obrigatoriedade do laboratório de aprendizagem (fala de educador participante da pesquisa). A maior dificuldade tem sido a avaliação. Realizar de fato uma avaliação processual de cada criança, procurando perceber, compreender de que forma o aluno está ou não aprendendo não tem sido uma tarefa fácil (fala de educador participante da pesquisa). c) “A ampliação da visão de homem, mundo, educação e aprendizagem” ( KRUG,2001,p.96). O educador, ao reconhecer a escola como um espaço de cidadania, Nela necessita apropriar- se do projeto Político Pedagógico e ter um papel ativo na gestão da escola. Para isto, faz-se necessário romper com a cultura da não participação, da fragmentação, do individualismo, da alienação. Faz-se necessário reconstruir nossas referências internas, que estão pautadas neste 61 modelo de educação. Sobre a dificuldade de fazer estas rupturas, descrevem as professoras pesquisadas: No momento que não temos um instrumento de coerção, como a nota e a reprovação, no momento em que, enquanto educadores, somos o principal instrumento de sedução em relação a função educativa, nossa relação com o aluno se modifica. Alguns professores conseguem estabelecer uma relação construtiva, outros, reproduziram a questão da reprovação enquanto instrumento de poder por meio de recursos dissimulados para manter a coerção antes existente (fala de educador participante da pesquisa). Penso que a maior dificuldade de assumirmos nossa verdadeira função educativa está na forma como as pessoas encaram a profissão e a própria vida. Quando a Secretaria propõe os ciclos enquanto uma mudança que está fora e não dentro das pessoas, temos aqui um grande problema. A questão está além do pedagógico, envolve a visão de mundo de cada um. Tudo depende do que, enquanto professores, pretendemos com este aluno (fala de educador participante da pesquisa). A implantação de Ciclos de Formação se reflete em várias dimensões do processo de escolarização, dentre elas podemos destacar: gestão; currículo; avaliação; continuidade educativa; formação de coletivos; formação do educador. Quanto a formação que tenho...bem, sou fruto de uma escola tradicional onde o papel da escola era o repasse de conteúdos pré-estabelecidos. Com certeza várias dimensões que hoje preciso desenvolver em meus alunos, não as possuo (fala de educador participante da pesquisa). d) “A organização das turma com referência na idade e não somente no conhecimento adquirido”( KRUG,2001,p.24). Esta questão nos remete aos conceitos de homogêneo e heterogêneo que permeiam nossa formação, bem como, com nossa dificuldade em trabalhar com as diferenças. A reorganização dos agrupamentos por idade e não por conhecimento, as turmas de progressão, os laboratórios de aprendizagem, os professores itinerantes, o planejamento coletivo, enfim, esta nova estrutura que os ciclos propõem, exigem do educador uma postura de professor pesquisador, autor, construtor de sua práxis. Tudo isto é muito difícil, quando fomos a vida toda educados a reproduzir, copiar, obedecer, seguir modelos. Assim, no lugar do livro didático, faz-se necessário recorrer a habilidades tais como: criatividade, iniciativa, curiosidade, observação, reflexão, registro. 62 Neste sentido, relatam as educadoras entrevistadas, quando fazem uma avaliação de sua formação acadêmica em relação aos subsídios necessários para esta nova postura profissional: Os professores dos primeiros e segundos ciclos conseguem trabalhar de forma mais integrada, acho que é porque trabalham todas as disciplinas, mas nós do terceiro ciclo, temos maior dificuldade. Penso que estas questões vem lá da formação, que além de fragmentada em áreas do conhecimento, não vinculava o que se aprendia com a vida. Na faculdade saímos com o teórico, não aprendemos a lidar com as diferenças, com a indisciplina, com a inclusão, com os estereótipos, com a não reprodução (fala de educador participante da pesquisa). A gente sai da universidade com as coisas prontas, com receitinhas, para cada situação, uma alternativa. No momento em que vamos para a prática, onde as coisas são dinâmicas e não estáveis, o que se viu nos bancos escolares não se encaixam (fala de educador participante da pesquisa). Temos muitos alunos com comprometimento orgânico, onde considera-se a socialização da criança, pois não sabemos o como trabalhar com este sujeito as mesmas coisas que o grupo trabalha. Isto frustra, porque percebemos que o aluno não avança, que estamos excluindo ainda mais, porque socializar não é a única função da escola, e porque não sabemos o que fazer (fala de educador participante da pesquisa). Para apropriar- se das mudanças acima relacionadas, faz- se necessário romper com paradigmas fortemente instituídos no contexto social contemporâneo. Faz-se necessário um trabalho de grupo que trabalhe a subjetividade deste educador. Só assim, ao tomar consciência dos muitos mandatos que socialmente lhe é imposto, pode fazer um trabalho de expulsão e (re)significação de sua tarefa educativa. Neste sentido, é que proponho em minha pesquisa a importância de se trabalhar a subjetividade do educador no espaço da formação continuada. Só assim, este terá oportunidade de ao educar para a emancipação e cidadania, emancipar-se das amarras que lhe impedem de romper com velhos e ultrapassados paradigmas da educação tradicional. 63 3.2. Perspectivas da formação docente nos Ciclos de Formação Buscando refletir um pouco mais sobre as habilidades e competências do educador nos Ciclos de Formação, pesquisei sobre o assunto e participei de alguns espaços, onde tive a oportunidade de acompanhar avaliações e relatos dos educadores e estudiosos na área. Entre os espaços citados destaco: a Formação Continuada, com a coordenação de Krug( 2003) e o “Seminário sobre Ciclos de Formação da Região Sul” (2004), espaços promovidos pela Secretaria Municipal de Criciúma. Ambos realizados com a participação dos educadores das escolas Elza Sampaio dos Reis, Archimedes Naspoline; Professor Vilsom Lalau e Moacyr de Menezes do município de Criciúma. Participei também, do “Seminário Nacional das Escolas organizadas por Ciclos”, realizado em Porto Alegre. Este integrou as atividades do Fórum Mundial de Educação/2004 e contou com a participação das Secretarias Municipais de Educação de Porto Alegre, Chapecó, Criciúma, Indaial, Blumenau, São Paulo, entre outras. Este seminário objetivava avaliar o processo de implantação dos ciclos nas diferentes regiões e realizar alguns encaminhamentos a partir da avaliação feita. Dentre os temas debatidos destaca-se: o processo de avaliação e gestão escolar; as rupturas do sistema seriado; a concepção de educação e aprendizagem numa perspectiva histórica – social; questões metodológicas e forma de organização do ensino nos ciclos; as diferentes concepções de ciclos; o currículo e a participação da família, da comunidade, e do Estado. 64 Foram apontadas também algumas dificuldades: a descontinuidade dos ciclos nas séries finais do Ensino Fundamental; a ampliação do sistema para toda a escola ou rede; a constituição da identidade dos ciclos em cada lugar, tendo em vista o contexto de cada região; a formação inicial e continuada do educador; a falta de credibilidade da proposta no cenário nacional, reduzindo-a a idéia de promoção automática; a fragilidade dos educadores na efetivação das ações. Diante das dificuldades de ordem pedagógica, social e administrativa, estes se desmotivam e voltam a utilizar antigos referenciais; a adoção da proposta como política da educação e não como política partidária; a necessidade de apontar diretrizes ao Ministério da Educação, que explicitem os princípios defendidos na organização escolar por ciclos. Dificuldades similares são apontadas por outro autor, ao avaliar o processo de implantação dos ciclos em países europeus, como: Bélgica, Genebra, Suíça e França. Os ciclos são apenas uma intuição. Não somos capazes ainda de concebê-los e fazê-los funcionar promovendo uma ruptura clara e definitiva com a segmentação do curso em anos letivos com programas definidos. Embora tenha havido aqui e ali experiências de escolas sem séries desde o início do século, não se dispõe, no entanto, de nenhum modelo verdadeiramente convincente. ( PERRENOUD,1999,p.8). Moll (1999,p.101), ao organizar o livro “ Ciclos na escola, tempos na vida – criando possibilidades”, reúne uma série de artigos, que analisam o processo de implantação dos ciclos de formação em Porto Alegre e outras regiões do Brasil. Conclui que existe uma mudança em curso, “ uma mudança que quebra a lógica burocratizadora na escola da modernidade que permite que os tempos da vida inundem os tempos da escola”. Porém, questiona: “Em que medida professoras (es) podem colocar-se como sujeitos, como protagonistas desses processos que 65 implicam profundas mudanças conceituais e por conseguinte, mudanças na cultura escolar” ( MOLL, 2004,p.102). Analisa ainda, os nós estruturais da vida da escola, que trabalhados podem impulsionar as mudanças no âmbito da instituição escolar. Como principais dificuldades, destaca: o tensionamento dialético entre a função disciplinadora, reguladora e civilizatória assumidos pela escola desde a modernidade, contra a escola como um espaço de acesso a direitos sociais, de aprendizagens, de possibilidade de autonomia; a cultura da classificação e exclusão existente no interior da escola, relacionadas ao sistema de avaliação, as questões culturais e disciplinares que, desfocam o olhar do professor, criando um batalhão invisível de excluídos, rotulados como inaptos, incapazes, inoportunos. Estes acabam “perdendo o sentido de ir à escola ou o de estar na escola”, e o risco de “ travestir o velho de novo e empurrar o novo para o velho”diz Moll (2004,p.106), considerando a possibilidade legal de construção de grupos por afinidades, idades, ciclos. Porém, utilizando-se de velhos mecanismos institucionalizantes das políticas educacionais vigentes. As questões apontadas como dificuldades, tanto pelos educadores quanto pelos estudiosos na área, até aqui abordadas, são visíveis principalmente nas falas das educadoras pesquisadas da escola Monte Cristo de Porto Alegre. Ao analisar as falas das entrevistas feitas, percebe-se um discurso idealista nas falas das educadoras de Criciúma. Este mobilizado pela motivação de um processo de mudança que se inicia e pelo desejo de resignificação do espaço escolar e conseqüentemente, das práticas educativas. Quando a Secretaria de Educação de Criciúma, no final de 2002, nos acenou a possibilidade de organizar as escola sem ciclos, para nós foi como abrir as janelas e deixar a luz do sol entrar (fala de educador participante da pesquisa). Na escola organizada em Ciclos de Formação, percebemos as mudanças no dia a dia, o educador usando a teoria e ao mesmo tempo criando outras, porque passamos a ser sujeitos. Os avanços são muitos: o 66 comprometimento, a concentração do professor, a idéia do coletivo, o respeito a contribuição de cada um. Retrocessos não temos. O que se tem é que aprimorar, porque podemos sempre fazer melhor, estamos em processo (fala de educador participante da pesquisa). Já as educadoras de Porto Alegre, que iniciaram a implantação dos Ciclos de Formação em 1995, possuem uma visão mais crítica do processo. Fica evidente o engessamento do novo sistema ao velho, como pontua Moll. Uma outra questão percebida é que o coletivo da escola não foi trabalhado no sentido de garantir uma reflexão permanente a cerca das necessárias rupturas de um sistema tradicional para a escola organizada em ciclos. Alguns professores, mesmo acreditando que os ciclos de Formação constituem a melhor proposta, acreditam que os ciclos precisam de alguns ajustes. Estes apontam para o velho funcionamento da escola seriada. O que dizemos para os alunos aqui na direção é que, se ele chegou aqui, alguma coisa fez. Quando fiz faculdade ninguém me disse que eu teria que fazer contenções de alunos violentos. Não podemos expulsar, suspender e na realidade, não podemos mandar para casa. Algumas coisas temos garantido nas assembléias de pais outras administrativamente precisamos bancar (fala de educador participante da pesquisa). Quando vamos fazer a inclusão de aluno portador de necessidades especiais, até conversamos com os professores para que este aluno seja bem aceito. Mas ninguém nos perguntou se queremos trabalhar com este aluno. Este trabalho nos é imposto (fala de educador participante da pesquisa). São pequenas coisas que se fossem acertadas melhorariam o sistema como um todo. Temos um laboratório de aprendizagem para trabalhar o aluno que precisa, mais a presença não é obrigatória e ele não vem. O que acontece com os alunos maiores é que eles percebem que basta ter presença para avançar, então ele diz: “ não vou trabalhar, não tô a fim. Para sanar este problema estamos mandando embora e dando falta (fala de educador participante da pesquisa). Este trabalho com o coletivo necessariamente precisa abranger a dimensão da subjetividade de cada educador e do grupo, enquanto coletivo. É por meio da objetivação da subjetividade que o educador conseguirá avançar, romper com o velho. 67 Assim, o pano de fundo que permeia as reflexões sobre as necessárias mudanças no sistema educacional, é o educador. Propostas são pensadas e instituídas. Porém, o avanço só é possível a partir do investimento na formação do educador, como diz Arroyo (1999,p.144) “ Para o sistema seriado fomos formados e ele terminou nos formando e deformando” . Neste sentido, a nova organização do trabalho educativo dá visibilidade a formação do educador. Nos perguntamos pelo tipo de profissional que os ciclos requerem? Como preparar os educadores para trabalhar com os ciclos? Que aprendizagem estamos fazendo a partir das reflexões advindas das experiências vivenciadas nas diferentes regiões brasileiras? Buscando abordar o como a organização dos trabalhos em Ciclos de Desenvolvimento Humano nos leva a superar determinadas concepções e práticas de formação e qualificação e sobre o como se estabelece o conflito sobre as virtualidades formadoras de todo o percurso de desconstrução da estrutura seriada e de construção de uma estrutura centrada nas temporalidades, é que fundamenta Arroyo respectivamente, (1999) em seu artigo “ Ciclos de Desenvolvimento Humano e Formação de Educadores”. Uma primeira questão que deve ser superada é a crença de que “ o domínio da teoria precede à pratica” . O autor afirma que esta concepção tem marcado as políticas e currículos na educação brasileira, resultando na fragmentação do magistério em campos de atuação e na dificuldade de pensar as dimensões mais permanentes no ofício dos educadores “ Só interessa aprender o que os prepara para tarefas concretas, para intervenções pontuais”. Ressalta ainda que,” não se implantarão propostas inovadoras listando o que queremos inovar, 68 listando as competências que os educadores devem aprender e montando cursos de treinamento para formá-los”. Faz-se necessário trabalhar a identidade do educador e por meio desta “ chegar ao cerne do ofício de mestres, do papel social do educador, do que é a qualidade constitutiva, do que é historicamente identitário do pensar e agir educativos”. Para Arroyo, o que há de mais constante, mais permanente no velho e sempre novo ofício de educar é “o caráter humanizador, de formar mentes, valores hábitos, identidades, de produzir e aprender o conhecimento” ( ARROYO, 1999,p146 -153). Para tanto, o autor ainda afirma: Não é necessário acrescentar novas incumbências a serem treinadas previamente, mais de criar situações coletivas que propiciem explicitar e cultivar o papel, os valores e saberes educativos que cada educador já põe em ação em sua prática, nas escolhas que faz cada dia no trato com os educandos(ARROYO,1999,p.154). Ao questionar algumas educadoras de Porto Alegre, sobre os motivos que tem dificultado o êxito do trabalho nos ciclos, elas exemplificam com situações que referem-se a falta deste espaço de discussão: Temos escolas que contrariadas ciclaram e hoje possuem um avanço enorme. Elas conseguiram se apropriar da idéia dos ciclos e dar um salto enorme de qualidade. Da mesma forma, temos escolas que queriam ciclar, que tinham uma proposta toda diferenciada e tudo mais. Porém, não conseguiram manter um espaço de discussão coletiva e acabaram caindo nos vícios da escola tradicional (fala de educador participante da pesquisa). Quando cheguei por aqui perguntei: Temos o Complexo Temático, mas qual o conceito que se tem dessa palavra. Uma vez até me responderam “ Há, família é família” e aí eu disse: Bom, então encerrou a discussão. Porque se não vamos discutir o conceito que temos daquela palavra, vamos supor que nossos colegas, que nosso coletivo, pensa como nós, quando na verdade não pensa. As vezes a própria comunidade tem uma visão diferente da escola e essa discussão não foi feita ou foi feita a algum tempo e já se transformou e a escola segue utilizando concepções equivocadas (fala de educador participante da pesquisa). Vemos que os Ciclos de Formação avançaram ao reconhecer o desenvolvimento humano como eixo central no processo educativo, que não existe 69 um espaço específico, seja ele acadêmico ou de Formação continuada para capacitar o educador neste novo olhar. O ideal até é que tanto as agências formadoras, quanto as instituições educativas se responsabilizem por esta tarefa. Porém, o que é indispensável é que um trabalho para auxiliar o educador na tomada de consciência desse papel seja feito, que o grupo possa socializar suas dificuldades e superações e que ações sejam estabelecidas, pautadas em uma matriz comum, que defina as concepções de educação e aprendizagem. O importante é que o educador possa ter claro seu processo dentro deste contexto, exercitando assim seu crescimento pessoal e profissional. Arroyo diz que” o melhor processo de formação é explicitar, trazer à tona essas dimensões permanentes soterradas sob os escombros e o entulho burocrático, rotineiro de atribuições acidentais” ( ARROYO, 1999,p.154). Abordando a temática em questão. Perrenoud ressalta a importância que estes espaços de discussão sejam efetivados na própria escola e não por meio de grandes seminários ou cursos segmentados por áreas de formação. Neste sentido ele afirma: Quando se trata de modificar as práticas pedagógicas, nos defrontamos com resistências ativas ou estratégias de fuga de autores suficientemente autônomos e hábeis para rejeitar- aberta ou veladamente - toda inovação vinda de fora[...]. Não se pode mudar as representações, as práticas, as culturas profissionais por decreto ( PERRENOUD,1999,p.8). Assim, reunir os educadores de uma escola, investir em sua formação global, onde a determinação e o desejo pela efetivação da proposta dos ciclos, possibilitaria individualizar o percurso de formação dos alunos e dirigir suas progressões diferenciadas durante todo o ciclo. Desta forma, diz Perrenoud,(1999,p.8) “ teríamos um funcionamento baseado na experiência bem 70 como os saberes provenientes dela, que poderíamos descrever e propor a outras escolas”. Para ele, a formação do educador neste formato, se desenvolveria em torno de três eixos: Individualizar o percurso de formação; aprender a trabalhar melhor em conjunto e colocar as crianças no centro da ação pedagógica. Estes são indicativos para um professor pesquisador e não a busca de soluções prontas, como tão bem define Arroyo (1991), quando fala das características que imperam nos espaços de formação hoje existentes. Essa nova competência exige uma nova relação com a profissão, onde é central a questão da formação dos professores e a profissionalização dos mesmos. Desta forma, a tese defendida neste trabalho, que trata da necessidade de um espaço que trabalhe a subjetividade do educador, sendo esta constitutiva da qualificação profissional, tendo em vista uma práxis educativa voltada para a emancipação humana, é respaldada também por Perrenoud (1999,p.22), quando conclui: “A organização da escola em ciclos de aprendizagem e a individualização dos percursos de formação não são, reformas originais. Elas enfrentam um desafio que, sem ser novo, se torna urgente: passar da escolarização à formação de todos. 71 4. A SUBJETIVIDADE DO EDUCADOR ENQUANTO PARTE CONSTITUTIVA DA QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL NOS CICLOS DE FORMAÇÃO Ao aguardar um educador que seria entrevistado, uma cena me chama atenção. Um menino, por volta de 12 anos, espera cabisbaixo na porta da sala do diretor. Ao abrir a porta o diretor pergunta: O que você está fazendo aqui? O menino sem olhar para o diretor responde: Não sei, a professora foi quem mandou eu vir. A diretora então contra - argumenta: Se você está aqui é porque alguma coisa fez! Conheço muito bem o teu comportamento e sei do que você é capaz. Eu já te disse que aqui na escola quem manda é o professor. A você cabe cumprir com tuas tarefas e obedecer. Volta já para a sala, e eu que receba dos professores uma queixa só de você. Você vai ver do que sou capaz! O menino então, sem erguer a cabeça, volta para a sala de aula. Ao iniciar este capítulo, gostaria de definir alguns conceitos que considero centrais para a compreensão do mesmo. Partindo de uma perspectiva dialética de compreensão do homem e suas relações sociais, é possível definir “identidade” como “ constituição do sujeito”, sendo que seu significado deve estar na direção daquilo que se faz aberto e inacabado. Neste sentido, Manheirie define a subjetividade como “uma dimensão deste sujeito” em permanente mudança. A subjetividade é compreendida como uma dimensão do sujeito, assim como a objetividade que, relacionadas dialeticamente no contexto social, produzem o sujeito. Este, na medida em que surge passa a ser produtor destas relações, revelando-se como uma síntese inacabada ( MANHEIRIE, 2002,p.9). Uma outra dimensão importante, citada pela autora na definição anterior, é a objetividade que se manifesta, “a partir das relações vivenciadas, e se faz construtora de experiências afetivas e reflexivas, capazes de produzir significados singulares e coletivos”( MANHEIRIE, 2002 p.1). 72 A subjetividade e a objetividade atuam juntas na constituição de um sujeito. Existe uma tensão permanente, dialética entre estas duas dimensões. Ambas constituem o elemento básico da afetividade. Por afetividade compartilho a compreensão de Codo (2002,p.51), que a define como: “O conjunto de fenômenos psíquicos que se manifestam sob a forma de emoções, sentimentos e paixões, acompanhados sempre da impressão de dor ou prazer, de satisfação ou insatisfação, de agrado ou desagrado, de alegria ou tristeza”. Podemos dizer que a objetividade é a esfera da ação, da consciência, da transformação física, onde por exemplo, o sujeito transforma uma árvore em cabana para proteger-se das intempéries da natureza. Porém, quando o homem atua sobre a natureza, transformando-a para atender às suas necessidades, ele lhe atribui um significado. Esta significação é o que caracteriza o subjetivo no homem, pois abre a possibilidade para que ele possa investir o produto de seu trabalho de energia afetiva. Assim, podemos dizer que a subjetividade atua na esfera inconsciente e desejante do sujeito. Para se transformar em objetivo de vida, precisa ser objetivada, ou seja, significada pelo mesmo. Ao compreender a subjetividade enquanto parte constitutiva da qualificação profissional, quero defender a idéia de que para fazer as rupturas com a Pedagogia Tradicional e adotar os Ciclos de Formação Humana como princípio educativo, faz-se necessário trabalhar esta dimensão do educador, no espaço de Formação. Esta tese está fundamentada em Vygotsky (1996,p.368).que define o homem como síntese das relações sociais e neste sentido, “cada pessoa é em 73 maior ou em menor grau o modelo da sociedade, ou melhor, da classe a que pertence, já que nela se reflete a totalidade das relações sociais.” “Sou fruto da educação tradicional”, diz um dos professores entrevistados. Esta fala traduz o quanto somos constituídos, por meio de nossos valores, referências internas, paradigmas, por este modelo de educação. Também é verdadeiro, o movimento revolucionário que vem ganhando força no último século. Este aponta para um modelo de educação que assegure os direitos sociais dos sujeitos envolvidos. Porém, sabemos que, salvo algumas iniciativas inovadoras e alternativas, salvo algumas garantias asseguradas na legislação vigente, este segundo referencial encontra-se ainda no plano ideológico, na esfera do desejo de muitos educadores contemporâneos. Para que este projeto se efetive, os educadores necessitam de um trabalho onde esta dimensão da subjetividade seja objetivada, para então, tornar consciente, realizável, operativo o que se encontra obscuro. Na medida em que tanto a estrutura do sistema tradicional, quanto o projeto de “um outro mundo possível” fazem parte do educador que somos, podemos por meio de um processo de objetivação da subjetividade, ampliar o grau de consciência do educador que somos e avançar em direção do educador que desejamos ser. Buscando referendar esta compreensão, destaco alguns argumentos utilizados pelos professores pesquisados: Estamos imersos em uma realidade marcada pelo império do livre mercado, do consumismo, do isolamento, da fragmentação social, da competitividade, da desorganização da família, da passividade diante dos processos de exclusão, da intolerância. Se aceitamos a idéia de que “o homem é produto de seu tempo”, também é certo que produzimos a cultura que nos produz. Assim, “temos a opção de participar ativamente da 74 elaboração do novo Projeto Social ou de simplesmente suportá-la”, como diz Peres Gómez,2001 (fala de educador participante da pesquisa). Nós educadores sabemos o quanto falar de educação voltada à realidade, à transformação, é algo comum. Este é um discurso que a tempo ouvimos e pronunciamos. No entanto, percebemos o quanto o discurso está longe da prática. Felizmente hoje muitos educadores já vem incorporando esse novo jeito de tratar a educação. Jeito este sério, comprometido e ousado. Incluo-me entre estes educadores que ousam, que se preocupam com a aprendizagem das crianças e de como estes constróem o conhecimento (fala de educador participante da pesquisa). Estas falas também nos remetem a idéia de vir a ser, de busca, de projeto. Para Sartre (1984,p.151), “ O projeto define o sujeito, caracterizando a dialética do subjetivo e do objetivo”. Como subjetividade objetivada e que se transforma em ação, o projeto é este movimento do sujeito, que incluindo seu passado, caminha em direção ao novo, ao inexistente, num processo de superação que implica recusa e realização. Assim, o homem é seu passado, ele é o que já foi. Mas não é só passado, se projeta. O projeto com base no passado constitui o seu futuro e assim, é uma construção constante. Os Ciclos de Formação hoje representam uma proposta de educação que foge da lógica tradicional. Podemos dizer que é uma síntese da esfera desejante de muitos sujeitos e que foi objetivada como um projeto possível. Assim, deixa de ter um significante individual, constituindo-se em um projeto coletivo. Porém, integram este coletivo uma série de educadores que não fizeram sua opção por este projeto ou se fizeram esta escolha, encontram-se ainda muito presos as amarras do ensino tradicional que também os constituem. Trabalhar a subjetividade é em última instância, trazer a consciência estas amarras que os impedem de efetivar a proposta desejada. 75 4.1. Trabalho e subjetividade Segundo referenciais Marxistas, “o trabalho constitui categoria sociológica central na existência humana”. (ANTUNES,1995,p.10). Partindo desta compreensão, podemos dizer então que a atividade profissional é estruturante na constituição de um sujeito e integra as dimensões da objetividade e da subjetividade. Assim, ao analisar a relação existente entre educação e trabalho docente estaremos ampliando as possibilidades de auxiliar o educador em seu processo de profissionalização. A dimensão subjetiva do trabalho é expressada por Marx, quando este define esta categoria de forma genérica: O trabalho é um processo entre o homem e a Natureza, um processo em que o homem, por sua própria ação, media, regula e controla seu metabolismo com a Natureza. Ele mesmo se defronta com a matéria natural como uma força natural. Ele põe em movimento as forças naturais pertencentes a sua corporalidade, braços e pernas, cabeça e mão, a fim de aproximar- se da matéria natural numa forma útil para sua própria vida. Ao atuar, por meio desse movimento, sobre a natureza externa a ele e ao modifica- la, ele modifica, ao mesmo tempo, sua própria natureza. Ele desenvolve as potencialidades nela adormecidas e sujeita o jogo de suas forças a seu próprio domínio. Não se trata das primeiras formas aqui instintivas , animais, de trabalho... Pressupomos o trabalho numa dimensão que pertence exclusivamente ao homem. Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão e a abelha envergonha mais de um arquiteto humano com a construção dos favos de suas colmeias. Mas o que destingue, de antemão, o pior arquiteto da melhor abelha é que ele construiu o favo em sua cabeça antes de construi –lo em cera. No fim do processo de trabalho obtêm- se um resultado que já no início deste existiu na imaginação do trabalhador, e portanto idealmente. Ele não apenas efetua uma transformação da forma na matéria: realiza, ao mesmo tempo, na matéria natural seu objetivo, que ele sabe que determina, como lei, a espécie e o modo de sua atividade e ao qual tende subordinar sua vontade... Os elementos simples do processo de trabalho são a atividade orientada a um fim ou trabalho mesmo, seu objetivo e seus meios(MARX,1983,p.50). 76 Quando o educador se relaciona com seus alunos, quando planeja suas aulas, quando participa na elaboração de uma Proposta Pedagógica como a dos Ciclos de Formação, enfim, quando idealiza e executa seu trabalho, imprime nesta ação a sua marca. Além da energia física ele despende também uma energia psíquica, enquanto dá significação as coisas. O trabalho humano se dá justamente neste terreno de dupla troca entre objetividade do mundo real, que concretiza o ato para o sujeito, e a subjetividade do homem, que atribuí um significado ao mundo real ao modificá-lo através da sua ação. Quando um dos educadores pesquisados diz: “ a educação que acredito é aquela que dá oportunidade a todos os alunos de interagir no mundo em que vivem, é aquela que resgata a dignidade e constrói cidadania”, se diferencia de outros educadores. Ao mesmo tempo que entra em contato com o mundo real (o trabalho educativo) expressa sua subjetividade (educação desejada). Dotada de sua subjetividade, constrói sua individualidade ao exprimir suas vivências, experiências, frustrações, afetos, desafetos e sonhos que leva para a relação de trabalho. Um outro exemplo que ajuda a ilustrar esta relação é a fala de educadores do município de Criciúma, no ano em que a proposta de Ciclos de Formação foi implantada. Diante de suas expectativas internas que começam a ganhar forma por meio do novo projeto profissional idealizado ( subjetividade objetivada), diante do confronto deste plano subjetivo com o mundo real, este materializado nas expectativas dos educadores da rede que não fazem parte do projeto, das instâncias formadoras da comunidade criciumense que se mostram atentas ao novo fato social estabelecido, diante da responsabilidade e do desejo de 77 que o que foi idealmente planejado se concretize de fato... cria-se uma grande tensão interna. Esta geradora de sentimentos conflituosos, como a ansiedade, a dúvida, o confronto com o não saber, a insegurança. Desde que iniciamos o trabalho com os ciclos, estamos sendo alvos de muitos olhares: dos colegas que não estão inseridos neste processo, dos pais e até de nossos professores da universidade. Fico muito aguniada diante de dúvidas que não sei responder, da sensação de estar sendo olhada, da especulação e censura do outro, como por exemplo: Por que a Prefeitura de Criciúma está implantando um sistema que já não deu certo em outros lugares? Como fica a questão da avaliação? da promoção automática? dos registros oficiais? e no caso de transferência?... Quando não consigo responder, em seguida vem a crítica: Como que vocês estão trabalhando com este sistema e não sabem responder estas questões? (fala de educador participante da pesquisa). Quando o professor abordou esta questão, e foi autorizado a falar de seus sentimentos, houve muitas falas de colegas que na ocasião estavam juntos. Falas de identificações, de situações novas vivenciadas, suspiros... A ansiedade não trabalhada inibe a dimensão do pensar, mobiliza a impotência, o pânico. Um trabalho efetivo de Psicologia Escolar se faz necessário no espaço de formação, para que possa subsidiar o educador a oporacionalizar sua subjetividade de forma positiva. O trabalho engloba esta tensão entre a objetividade do mundo real e a subjetividade do sujeito que o realiza. O que vai caracterizar esta tensão são as características do próprio trabalho. Cada tipo de trabalho possui uma dinâmica própria, onde as possibilidades de expressão da subjetividade, vão variar em maior ou menor grau. Como o educador não trabalha sozinho, depende de uma estrutura social que envolve a família, o Estado e um coletivo de educadores para concretizar sua tarefa, depara-se com uma tensão permanente quando não consegue colocar 78 em prática os ideais de educação dos quais acredita. Este processo gera sofrimento psíquico. Muitas vezes para se proteger o educador rompe o circuito afetivo e opta por não vincular-se afetivamente. Um exemplo deste movimento pode ser assim caracterizado: “Um professor se enternece pelo esforço honesto de um aluno carente, dedica a ele o melhor de suas atenções, de repente a família o tira da escola, é preciso trabalhar, ajudar nas despesas da casa. O professor chama os pais, tenta argumentar, mais quem pode lutar contra as dificuldades reais de uma família. O educador pensa em conversar com autoridades, articular bolsa escola, mobilizar colegas e comunidade. Mas, estas coisas levam tempo, é preciso pegar o ônibus, não se atrasar na outra escola, escrever aquele relatório solicitado”. O circuito afetivo então se rompe por razões externas que rasgam a trama construída entre o eu e o outro, então o educador diz: “morro de pena, mas o que eu posso fazer?” Um outro exemplo que caracteriza esta tensão afetiva é descrita por um educador pesquisado ao relatar seu trabalho na turma de progressão: Não sabemos ainda quais são as habilidades e competências mínimas que cada turma precisa dar conta, ao longo do ano”, “O que fazer com os alunos que precisam da ajuda de outros profissionais, como a fono e a psicóloga, se não conseguem atendimento. Quando conseguem, não comparecem aos agendamentos feitos e perdem a vaga... Mas aqui na escola eles continuam vindo. Está em uma turma de progressão e precisa ser olhada. De que adianta nossa postura investigativa em relação a história de vida deste sujeito, se não sabemos o que fazer com estas informações? Precisamos de alguém que possa nos ajudar a decifrar tais códigos, transformando-os em encaminhamentos pedagógicos (fala de educador participante da pesquisa). Quando falamos da relação entre a subjetividade humana e a objetividade do trabalho supomos haver um ponto de equilíbrio que garante que o 79 homem se relacione com o mundo real, que reconheça a ação como sua e reconheça-se enquanto ser humano, em sua individualidade. Na lógica capitalista, o conceito genérico definido por Marx anteriormente ganha uma nova configuração. O trabalho é então caracterizado por ele como produtivo e improdutivo. Por trabalho produtivo/ abstrato se entende aquele que valoriza diretamente o capital e produz mais valia. Este necessita objetivar-se em mercadorias como unidade de valor de troca, equivalente a hora trabalho comparada com outra mercadoria. Como trabalho improdutivo/ concreto compreende-se toda atividade profissional que não produz mais valia, ou seja, o trabalho é consumido por seu valor de uso( utilidade do produto), não ganhando um depositário equivalente a troca em favor do capital(MARX 1983,p.115). Nesta nova configuração, o trabalho passa a ter uma relação homem natureza permeada por uma infinidade de mediadores, como: o salário, a técnica, a hierarquia, a burocracia, as normas, a produtividade, a valorização do trabalho pautada pelo lucro que cada atividade profissional produz. Assim, esta lógica capitalista a qual estamos todos submetidos, acaba imprimindo a necessidade de objetivação do trabalho, tendo em vista a produtividade. Este fenômeno é demarcado em nossa história, com o advento da Segunda revolução industrial, onde leis são criadas para impedir que os filhos e mulheres dos operários freqüentem a fábrica, cria-se departamentos fechados, limitando que os operários conversem durante o trabalho, restringindo o número de saídas de funcionários nos intervalos previstos. Este fenômeno, conhecido como ”Taylor-fordista” impôs uma divisão rígida de lugares e gestos, expulsando o afeto do trabalhador nas organizações e transformando o espaço profissional o mais objetivo possível. Fundamentado no marxismo, Codo faz uma análise deste processo, ainda presente em nossos dias ( inclusive na educação), por meio de Programas de 80 Qualidade Total. Para ele, a atividade profissional assim instituída sofre um processo de alienação em relação ao objeto do trabalho e ao processo do trabalho propriamente dito. O objeto do trabalho não pertence mais ao trabalhador. Este plasma sua subjetividade no objeto, mas ele pertence ao capitalismo. O objeto comparece perante o trabalhador não como uma objetivação de sua subjetividade, mais sim como um ente estranho, como um inimigo(CODO,2002,p.46). Analisando esta questão, avalio que este fenômeno impresso pelo mundo do capital e ainda hoje presente na cultura laboral, trouxe grandes prejuízos não só para o trabalhador, que tem seu desenvolvimento afetivo comprometido, como para o processo de trabalho propriamente dito. Pois, em função de sermos constituídos de subjetividade, esta pode ser cerceada, mas acaba sendo expressa, mesmo que de forma inadequada. Na educação são muitas as situações que podemos citar, reflexos deste movimento. Um exemplo bem presente é o movimento ativista que é adotado como prática nas escolas hoje. Para compensar os baixos salários e sobreviver, o educador se submete a uma extensa jornada de trabalho, atuando em duas ou três escolas, com cargas horárias de até 60 horas semanais. Seu objeto profissional que, em última instância pode ser entendido como a formação integral do homem, é reduzido à conteúdos descontextualizados e fragmentados. A práxis profissional que deve ser necessariamente pautada pela observação, registro, reflexão, planejamento e avaliação da pratica educativa é reduzida, muitas vezes, a pilotagem de livros didáticos. Mesmo os educadores mais conscientes acabam se percebendo neste movimento, que tem um ritmo que não é demarcado por ele e nem por seu grupo de trabalho, e sim, pela lógica mercantilista impressa pelo capital e a qual estamos todos alienadamente submetidos. 81 Expressando-se sobre esta percepção, assim relata uma das educadoras pesquisadas: “Tenho tido dificuldade em tirar tempo para leituras mais sistematizadas e percebo que se não tivermos um programa bem elaborado para um estudo mais teórico e sistematizado, vamos caindo no ativismo, numa prática pouco refletida.” A educação é uma das atividades humanas que possuem maior propensão ao desequilíbrio entre realidade objetiva e o mundo subjetivo, tendo em vista a complexidade da tarefa educativa. Um espaço para que o educador possa dar vazão a seus sentimentos e percepções, traz alívio à tensão, favorece o exercício reflexivo da auto avaliação, traz à consciência posturas e comportamentos incoerentes com a proposta desejada e auxilia o educador a operacionalizar dificuldades individuais e coletivas, ampliando assim, a efetivação de uma práxis coerente com seu objeto de trabalho. Ao contrário, se a energia afetiva ficar se acumulando por muito tempo, haverá um momento em que o educador se assemelhará a uma panela de pressão, pronta a explodir. Uma vez que não é possível investir no trabalho o afeto desejado, este acaba sendo voltado para o próprio corpo do educador. Um exemplo desta situação, são os altos índices de pedidos de afastamento para tratamento de sofrimento psíquico, hoje denominado como Síndrome Burnout. Segundo pesquisas esta síndrome ocorre em trabalhadores altamente motivados, que reagem ao stress laboral trabalhando ainda mais até que entram em colapso. Na definição de Faber “ Burnout é uma síndrome do trabalho, que se origina da discrepância da percepção individual entre esforço e conseqüência, 82 percepção esta influenciada por fatores individuais, organizacionais e sociais” ( FABER apud CODO,2002,p.241). Aumentar a resistência do profissional da Educação, por meio de atividades que lhe permita uma melhor administração de sua energia afetiva é uma forma inovadora de investir na promoção humana e na qualidade do trabalho educativo. 4.2. A queixa enquanto sintoma de uma subjetividade não trabalhada Para iniciar esta discussão, gostaria de aprofundar a idéia de sintoma, sendo este um conceito técnico, utilizado na Psicologia Sistêmica. Para melhor compreensão, vou explicar este conceito por meio de um exemplo metafórico. Uma criança está doente e tem muita febre. A mãe experiente, examina empiricamente seu filho e ao não constatar nada, medica a criança com um analgésico rotineiro. A febre passa, mas volta a aparecer assim que termina o efeito do medicamento. A mãe preocupada com a situação, leva ao médico. Este identifica a causa do sintoma, ou seja, uma infecção encoberta que esta ocasionando a febre. Quando a criança é medicada adequadamente o sintoma desaparece ela volta a sua rotina ainda mais forte, pois já possui em seu corpo as defesas necessárias para o enfrentamento de mais um vírus. Relacionando o exemplo dado com a educação, podemos dizer que o sintoma são as constantes queixas do educador em relação ao sistema, a família, a falta de condições de trabalho, a desmotivação... A causa deste sintoma é a falta de um espaço para que o mesmo possa expressar sua subjetividade, reconhecer- 83 se através da fala do outro e no coletivo ter a oportunidade de operacionalizar dificuldades pessoais e do grupo. Ao dar este exemplo, não quero reduzir toda a problemática vivenciada na educação hoje, as questões da subjetividade do educador. Uma compreensão mais contextualizada de meu entendimento, é expressa na temática anterior: trabalho e subjetividade. O que quero afirmar com este exemplo é que, até mesmo para assumir um posicionamento crítico diante do trabalho alienado, a subjetividade está em jogo. Fernández (1994) em seu livro “ A mulher escondida na professora”, faz uma leitura psicopedagógica desta questão e explora as fraturas que temos em nossa constituição enquanto sujeito, neste caso, vivenciando os papéis: de mulher, mãe e educadora. Afirma que a queixa é o “lubrificante da máquina inibitória do pensamento”. Neste sentido, compreende que, enquanto seres humanos, muitas vezes recorremos a queixa, “ esse lamento impotente que confirma e reproduz um lugar de dependência” para descrever ou para fazer uma suposta análise da realidade(FERNÁNDEZ,1994,p.107). Pontua ainda, que “a armadilha consiste na crença equivocada de que se está usando o juízo crítico, de que se está pensando ou analisando uma situação, quando somente se está convalidando”. Acredita que “o juízo crítico, que o pensar, implicam necessariamente em uma transformação do mundo interno que, segundo como se operacionalize, pode gestar uma transformação maior ou menor no mundo externo”( FERNÁNDEZ,1994,p.107). Quando Alicia condiciona a habilidade do pensar criticamente ao mundo interno do sujeito, ela está falando da objetivação da subjetividade. 84 Se formos nos reportar as muitas falas cotidianas que ouvimos dos educadores, aqui mesmo ao analisar as falas dos educadores entrevistados, são muitos os exemplos das queixas utilizados. Alícia faz uma diferenciação entre “queixa-lamento” e “queixa-reclamo”. Embora de natureza semelhante – ambas expressam um forte sentimento de impotência – a diferença está no tom e na resposta que demandam e ou esperam daquele que escuta. Quem escuta uma queixa-lamento, diz Alicia, “ é chamado somente a condoer-se e é difícil que, a partir do enunciado, possa pensar”. Já na queixa-reclamação existe um desejo hostil( agressividade sadia), tanto de quem enuncia quanto de quem escuta. Esta pode chegar mais facilmente a uma reflexão crítica. Fazendo um recorte das falas dos educadores entrevistados, podemos assim exemplificar este movimento. Queixa-reclamo: no momento em que se tem reuniões pautadas por avisos e por temas que não se concluem, se acaba com a discussão. Isto faz com que as pessoas que possuem visões diferentes, não se exponham ou no momento em que se expõem, a conversa é levada para o pessoal, porque só de vez em quando vai se conversar sobre isto. Então, na verdade, esta iniciativa é entendida como uma discussão entre pessoas e não entre idéias. (fala de educadora participante da pesquisa). Queixa-lamento: quando se vai para a prática é que se percebe algumas coisas que não se consegue dar conta. Um exemplo é a ausência da família e esta proposta precisa da família junto com a gente para dar certo. Agora mesmo, que não temos mais aquele parâmetro do boletim e da repetência é que a coisa se perdeu. Antes os alunos estudavam porque não queriam rodar. A repetência apavorava e então o aluno estudava um pouco mais. Agora, nem isto tem. A família trabalha pela manhã, à tarde e a noite. Cada vez mais a coisa fica pior. Os filhos andam por conta. Muitas vezes os filhos não vem para a escola e os pais nem sabem. (fala de educadora participante da pesquisa). No primeiro caso, a queixa-reclamação é como se fosse uma acusação dirigida a alguém. Quem faz a queixa espera daquele que escuta a entrega de uma solução, para além de compartilhar o entendimento do problema. Já na queixalamento apresentada, é como se o educador só se reconhecesse em função dos outros, neste caso a família. Deste lugar em que se coloca é difícil chegar à crítica 85 e posicionar-se de forma transformadora de si e das coisas que lhe rodeiam. Neste sentido, Esther Moncarz ( apud FERNANDÉZ, 1994,p.109), que também escreve sobre a queixa afirma que assim caracterizada “a queixa se apresenta como uma forma de contraviolência, frente a dificuldade de quem se queixa, de achar modos alternativos que lhe permita modificar condições de vida opressivas. Na atual conjuntura educacional, podemos dizer que a queixa do educador é mais uma manifestação de alienação, em favor da lógica neoliberal que se favorece e até incentiva a promoção da queixa. Entendendo a queixa como “lubrificante da máquina inibitória do pensamento”, é oportuno que o educador se queixe, pois enquanto se queixa não consegue reconhecer e analisar este sintoma, e assim se percebe impotente para encontrar soluções para a condição opressora e depreciativa na qual se encontra. Na mesma medida em que o educador desqualifica a tarefa educativa atribuindo ao “estudante que não está interessado em aprender ou a sua família que não lhe ajuda”, também desvaloriza a si, que trabalha com elas. Discutir e conhecer os atravessamentos ideológicos que suportam a tarefa educativa, dá ao educador a possibilidade de se autorizar a mudar sua realidade, bem como, mudar a forma como se insere na mesma. Trata-se de trazer à consciência ( objetivação da subjetividade) o processo de alienação ao qual está submetido e começar a ter autonomia para contar a sua história, a partir de si e não dos outros. Como diz Esther Moncarz, ( apud FERNANDÉZ, 1994,p. 110) “ para muitos educadores a queixa constitui uma transação, através da qual denunciam seu mal – estar. Ao mesmo tempo, confirmam o status quo com suas posturas resignadas, assegurando, assim, que nada mude”. 86 Desta forma, a queixa do educador promove a permanência e até o fortalecimento, da situação que a origina. É como se o que nos causa desmotivação, descontentamentos, gerassem ainda mais aborrecimentos. Sobre esta idéia de aborrecer-se, chatear-se, Alicia faz uma bela metáfora: Aburrir é um verbo da língua castelhana, cuja forma prenominal ( aburrirse) é de difícil tradução. Aburrimiento tem a ver com apatia, indiferença, mas é pior que isto. A indiferença implica em baixar a cortina, fechar-se frente a algo que não interessa, mas o aburrimiento é o fechar-se para nossa própria máquina desejante. È ignorar a possibilidade de ‘estar a sós’ e de começar a imaginar e a pensar nesse estar a sós. Aburrirse é acreditar-se vazio, é negar-se a imaginar e começar a pensar a partir daí. Aburrirse, jogando com o castelhano, eu diria que é fazer-se burro. ( FERNÁNDEZ,1994,p.111) Partindo deste contexto, qual seria então a tarefa da Psicologia Escolar ao trabalhar com a subjetividade do educador no espaço de formação? Uma das tarefas importantes é a de trabalhar a queixa. Uma vez que se crie um espaço coletivo que oportunize ao educador sair da queixa inicial, dar espaço ás perguntas, a observação, a reflexão, ao vazio das perguntas sem respostas e a suportar a ausência das supostas explicações superficiais que as queixas implicam, é possível transformar a queixa em juízo crítico, ou seja, “ transformar estes juízos préreflexivos, pré-críticos, identificatórios, em forma de juízos reflexivos, críticos, diferenciadores, que possibilitem o questionamento e a redefinição de sua identidade” ( MABEL BURIN apud FERNANDÉZ,1994, p.114) Trabalhar a queixa é em última instância, permitir-se a expulsar a violência sofrida que não se pode engolir. Trabalhar a queixa é escutá-la fazendo uso de nosso juízo crítico, é conectar-se com nossa agressividade sadia, buscando alternativas criativas e inovadoras para nossas dificuldades. 87 4.3. Subjetividade e desenvolvimento moral e ético Ao selecionar esta temática para análise, quero destacar a importância de se trabalhar a dimensão ética e moral do educador, por compreender que estas são constituintes da formação humana e portanto da nossa subjetividade. Não é possível pensar em uma proposta educativa como a dos Ciclos de Formação, se esta não for fundamentada na ética, no respeito à dignidade e na autonomia do educador. Para tanto, é preciso ser coerente. De nada adianta um discurso competente se a ação pedagógica é impermeável à mudanças. Aprofundando a compreensão destes dois conceitos, podemos dizer que a moral é a instância que regula os valores e comportamentos considerados legítimos por uma determinada sociedade. Já à ética, originária do grego- Ethos, “designa `a morada humana”. Neste sentido, podemos considerar que a ética é um conjunto de princípios e disposições que ajudam a balizar nossas ações , no sentido de tornar melhor nossa “morada humana” para que esta seja materialmente sustentável, psicologicamente integrada e espiritualmente fecunda. A moral cumpre seu papel social, na medida em que estabelece parâmetros de convivência com o outro. A ética por sua vez, exerce este papel quando assume uma postura crítica diante da moral da vida cotidiana por meio da reflexão. Entre a moral e a ética há sempre uma tensão permanente: a ação moral busca uma compreensão e uma justificação universal. A ética, por sua vez, exerce uma constante vigilância crítica sobre a moral, para reforçá-la ou transformá-la. Podemos dizer ainda, que a moral representada por nossos valores e convicções constitui nossa dimensão subjetiva, objetivada por meio de normas e regras. Já a 88 ética é determinada numa primeira instância, por nossa racionalidade, nossa consciência. Porém, para que nos proporcione um sentimento de bem estar, necessita ser coerente com aquilo que acreditamos, com o que nos é significativo e portanto, com nossa dimensão subjetiva. Uma vez fundamentada a estreita relação entre ética e moral e destas com nossa constituição enquanto sujeitos, faz-se necessário saber o como este processo se inicia e se desenvolve ao longo de nossa existência, para então discorrer sobre a importância de trabalhá-las na formação docente. Para os estudiosos da formação moral, três sentimentos iniciais caracterizam este processo: o amor, que representa nossa necessidade de afeição, pertencimento e valorização; o medo, em relação ao maior, o mais forte, aquele que possui o poder e o respeito, que no plano subjetivo é constituído de uma mistura de amor e temor. Este é experimentado por cada pessoa desde a infância e passa por uma aceitação interna, um sentido de obrigação em relação aos pais e adultos que convivemos. É o sentimento de respeito para com o outro que admiramos que estabelece a aceitação das primeiras normas e limites, ou seja, a origem de nossa formação moral. Num processo de desenvolvimento equilibrado, o respeito passa gradativamente de uma instância unilateral ( exterior ao sujeito que as aceita) para uma instância onde o respeito é mútuo. Nesse caso, aos poucos a criança vai substituindo suas relações embasadas unicamente na obediência, passando a fundamentá-las também na reciprocidade. Assim, a fonte da moral autônoma passa a ser interna, pois o sujeito já incorporou em sua subjetividade um código de ética próprio.” Faço as coisas porque assim desejo e acredito e não porque o outro 89 manda ou derermina”. Nesse processo, “vai ocorrendo a desmistificação do adulto, a criança vai percebendo que o adulto falha. Então diminui o temor pela perda do amor do adulto, e ela começa a querer o respeito por si”. (VINHA, 2000,p.49) A relação que antes era pautada na obediência (no medo de ser punido), agora passa a ser pautada na confiança ( no medo de “decair” aos olhos de quem se admira). Quando a educação, tanto familiar quanto escolar, fundamenta-se principalmente no temor, a moral tende a permanecer heterônoma. Esta é resultante de uma relação assimétrica entre adultos e crianças, que pautada no poder, no autoritarismo é geradora de obediência, medo e submissão. “No sujeito heterônomo, a fonte da obediência é exterior, pois são os outros que sabem o que é bom ou mal, certo ou errado”. ( VINHA, 2000,p.48). Aqui é o outro que regula minha moral, então basta este não ver o que faço de errado, inadequado. Esta prática estimula a falsidade, a mentira e a dissimulação. Uma terceira possibilidade ocorre quando uma relação é embasada somente no amor. Neste caso, o que acontece é a ausência total da regra. Esta situação muito presente em nossas escolas, são caracterizadas pela falta de limites de algumas crianças e adolescentes, em relação a seus pais e professores. Por serem os limites estruturantes da personalidade de um sujeito, bem como, representarem proteção física e psíquica, a falta dos mesmos são geradores de extrema insegurança. Isto acontece porque o sujeito não trabalha suficientemente sua impulsividade, a aceitação consentida às regras, a responsabilidade para com o outro, a descentralização de si e em última instância, a noção de realidade. As conseqüências diretas de uma formação moral mal conduzida constitui uma das maiores problemáticas da escola hoje. Estas são expressas pelas 90 manifestações de violência e indisciplina, ações muitas vezes reativas que denunciam a problemática em questão. São muitas as dificuldades do educador em estabelecer com seus colegas e estudantes uma relação que estabeleça o respeito mútuo e a reciprocidade como eixo norteador. São muitas as fraturas de nossa formação moral, fruto da educação autoritária que tivemos, fruto de uma cultura repressiva e individualista. Ao buscar uma nova referência educativa, que é o que propõe os ciclos, o educador se perde confundindo uma relação de autoridade ( extremamente importante na formação moral) com autoritarismo ou expontaneísmo. O exercício da autoridade docente por sua vez, tendo em vista as fraturas no processo de formação do educador, só é possível quando oportunizado um espaço grupal sistemático, onde este coletivo possa exercitar a (des) construção, o rompimento e a conscientização destes padrões rígidos dos quais está submetido. O grupo tem papel importantíssimo neste processo, tendo em vista que a formação moral e ética não pode ser ensinada e é por isto que os educadores entrevistados dizem: “ Temos muitos cursos, palestras e grandes conferências sobre a visão de educação, homem e mundo que os ciclos exigem, mas quando se chega na escola, continua tudo a mesma coisa”. A formação moral só pode ser transformada na relação. As situações da vida cotidiana, devidamente analisadas é que constituem o elemento base para a apropriação destes saberes. É aprendizagem contínua e processual, que nos acompanha ao longo de nossas vidas e quanto mais coerentes forem as diferentes interações, maiores serão as possibilidades de êxito. “A educação para o mundo humano se dá num processo de interação constante: nos vemos através dos outros. Vemos os outros através de 91 nós mesmos. Os outros são os nossos espelhos”(FICHNESER apud VINHA, 2000,p.218). Nas entrevistas realizadas foram muitas as falas que denunciavam estas dificuldades, destaco algumas a título de ilustração: Dentro da escola temos um ambiente que é favorável a essa política emancipatória. Mas a maior parte das práticas de sala de aula é frontal, com prejuízo no maior sentido e não tem, na maioria das vezes uma intenção realmente de emancipação. Alguns educadores que se colocaram no papel, exercitam essa prática diferenciada, mas o geral da escola não é isto (fala de educadora participante da pesquisa). Essa discussão subjetiva, dentro da escola não acontece. O que existe são momentos de reflexão proporcionado pela Secretaria de Educação que exploram esta questão de visão de mundo. Porém são poucos os professores que participam, uma vez que são horas extra classe e depois precisam ser repostas. Então, se os professores não participam destes momentos como é que vão se ver? Como fica esta questão em termos de unidade na escola?( fala de educadora participante da pesquisa). Na escola discute-se picuinhas e se de repente você procura fundamentar sua fala em um conceito, em uma situação o outro se arma e diz: “ Você está criticando o meu trabalho?” Então vem as ofensas, o não gostei, o estou chateada, ou então a fala: “O que você esta pensando que é? Agenda existe para discutir internamente as questões educativas. Porém, quando acontecem, são descontextualizadas de um projeto político, fragmentadas entre si (fala de educador participante da pesquisa). Os ciclos mudaram a forma, não o conteúdo. O que acontece com os alunos maiores é que basta ter presença para o aluno avançar. Então mesmo sendo exigentes com eles nos dizem: “Não vou trabalhar, não tô a fim”. Para sanar este problema, estamos mandando embora. Ligamos para a família e falamos que o filho não está querendo trabalhar e damos falta, porque a falta garante a repetência e aí ele fica novamente em nossas mãos. Em contra partida, eles chegam na sala e ficam sentadinhos e sabemos que se o aluno não participa, não se garante a aprendizagem. As vezes eu brinco com eles: se só olhar garantisse a aprendizagem, ligávamos a TV e estávamos desempregados. Eles riem de minha fala. Então infelizmente não estamos garantindo a aprendizagem (fala de educador participante da pesquisa). Em situações de conflito, nós já ligamos para a família. Quando não conseguimos um contato, o aluno permanece na escola mas mandamos um bilhete para a família comparecer no dia seguinte. Se a família não comparece, condicionamos à permanência do aluno na escola à presença dos pais e ficamos assim nesta cobrança permanente. Algumas famílias comparecem, outras não. Ano passado aconteceu com duas famílias, que por mais que chamávamos eles nunca vinham. Então, encaminhamos ao Conselho Tutelar e Falamos: fizemos a nossa parte, agora é com vocês (fala de educador participante da pesquisa). 92 Neste contexto algumas perguntas: O que interessa saber ao conhecer a origem do desenvolvimento moral, em relação a formação dos professores? Porque trabalhar a moralidade com os educadores que atuam nos Ciclos de Formação ou Desenvolvimento Humano? Para responder estas questões é necessário avaliarmos criticamente o modo de proceder dos muitos educadores que convivemos. Veremos então, que a maioria deles permanecem heterônomos. Conseqüências diretas dessa formação podem ser evidenciadas ao vermos muitos educadores responsabilizando os outros por suas atitudes, responsabilidades, reações e sentimentos ou quando estes justificam o seu agir pelo fato de que é isso que esperam deles. Uma outra questão importante é que se sua formação é basicamente autoritária, ele vai seguir educando a partir destes referenciais e aí, se não trabalhado, vai entrar em discordância com a proposta dos ciclos, que contempla uma perspectiva emancipatória de sujeito. A seguir ilustraremos algumas situações, relatadas pelos educadores pesquisados, que apontam para a necessidade de se realizar um trabalho efetivo no espaço de formação. Tenho claro uma coisa: sem imaginar é impossível inventar qualquer coisa nova e a imaginação depende de uma vivência que é diferente da burocracia do cotidiano e da normatização. Infelizmente nossa formação não oportunizou a expressão da criatividade e aí, nossas aulas são carentes de colorido, de sentido e de vida (fala de educador participante da pesquisa). Eu acho que o maior erro de Porto Alegre foi de ciclar todas as escolas do município. No início a decisão foi uma escolha, apesar de que em 1996, se tinha uma previsão de que até 2000, todas deveriam ciclar. Eu avalio de vário ângulos, mas acho que o pano de fundo, foi nossa obediência. Obediência esta que vem lá de Moisés. Obedecer a esquerda ou a direita, não interessa. Temos situações em que não se tem nada de autoral em determinada escola. Em contra partida, aquelas que tinham uma discussão interna, usaram esta nova estrutura para avançar. As escolas que não eram autoras do seu fazer, os ciclos entraram fácil e não funcionaram, pois era só mais uma obediência (fala de educador participante da pesquisa). 93 Nós precisamos é de um espaço onde o professor aprenda a ser coerente, de um espaço em que ele aprenda a buscar em si, na sua formação o professor autônomo, crítico, criativo, emancipado, político, cidadão. Eu tenho a impressão de que o educador tem clareza do homem que quer formar, pois isto é muito trabalhado nos cursos dados pela Secretaria de Educação, mais ele não é este sujeito e aí ele não consegue ser referência(fala de educador participante da pesquisa). Tratando da necessidade de autonomia moral e intelectual na formação docente, Freire também dá sua contribuição, respaldando a defessa da tese aqui apresentada, quando diz: O preparo científico do professor ou da professora deve coincidir com sua retidão ética. É uma lástima qualquer descompasso entre aquela e esta. Formação científica, correção ética, respeito aos outros, coerência, capacidade de viver e de aprender com o diferente, não permitir que o nosso mal-estar pessoal ou a nossa antipatia com relação ao outro nos façam acusá-lo do que não fez são obrigações a cujo cumprimento devemos humilde mas perseverantemente nos dedicar (FREIRE,1996,p.18). Esta citação de Paulo Freire nos remete também ao trabalho cooperativo, tanto no espaço de sala de aula, quanto na escola como um todo, no coletivo dos educadores. Assim, pensando o trabalho nos Ciclos de Formação, no avanço que esta proposta representa em termos qualitativos rumo a formação integral, bem como, as (des)construções que ainda são necessárias, visando este mesmo propósito é possível afirmar que dependendo da qualidade dessa interação, no que se refere as vivências sócio-morais, maior ou menor serão as possibilidades de um desenvolvimento estudantil e profissional voltado para a autonomia e reciprocidade. Uma educação pautada na autonomia e na reciprocidade no plano moral e ético objetiva educar para a autenticidade, solidariedade, para a tomada de decisões, para assumir a conseqüência de seus atos, enfim, para que de forma atuante e ativa, o estudante e ou educador participe de seu contexto, utilizando como referência um código de integridade que orientará suas atitudes. Uma 94 educação assim idealizada só será possível, se investirmos na formação moral e ética dos educadores. 4.4. Organização do coletivo e consciência de classe O trabalho com a subjetividade X objetividade na formação do educador não se dá somente no plano individual, pelo contrário, é por meio da organização do coletivo que as possibilidades de mudança se apresentam. Sair da individualidade e desenvolver uma consciência de classe é outro grande desafio a ser enfrentado na escola hoje. Entre os autores brasileiros que tratam desta questão, destaco Paulo Freire, Saviani e Iasi que fundamentam suas obras numa perspectiva Materialista Dialética de compreensão do homem e mundo. Freire( 1996,p.14) foi sem dúvida, um dos precursores desta discussão e afirma que “ a questão da formação docente ao lado da reflexão sobre a prática educativo-progressiva em favor da autonomia do ser dos educandos é temática central, sempre presente em suas obras”. Em seu livro Pedagogia da Autonomia, discorre sobre as habilidades e competências do educador, frente a tarefa educativa. Destaca que ensinar exige: rigorosidade metódica; pesquisa; respeito aos saberes e à autonomia do educando; criticidade; estética; ética; corporeificação das palavras pelo exemplo; aceitação do novo e rejeição de qualquer forma de discriminação; reflexão crítica sobre à prática; reconhecimento da identidade cultural; consciência do inacabado e de quanto somos condicionados; bom senso em defesa dos direitos humanos; compreensão 95 da realidade, convicção de que a mudança é possível; curiosidade e comprometimento; liberdade e autoridade; tomada de decisões e escuta; afetividade e disponibilidade para o diálogo. Se analisarmos as proposições que o autor aponta para ensinar, constataremos que entre elas, muitas se referem ao aprender docente, ou seja, estão diretamente relacionadas a formação do educador. Para além de uma perspectiva técnica, Paulo Freire aponta a necessidade de se trabalhar a subjetividade do educador conforme defendo neste trabalho. Sistematizando as proposições levantadas pelo autor, podemos dizer que ele levanta a necessidade de se reconhecer o caráter ideológico da ação educativa. O poder de ideologia me faz pensar nessas manhãs orvalhadas de nevoeiros em que mal vemos o perfil dos cripestes com sombras que parecem muito mais manchas das sombras mesmas. Sabemos que há algo metido na penumbra mas não o divisamos bem. A própria “miopia” que nos acomete dificulta a percepção mais clara, mais nítida da sombra. Mais séria ainda é a possibilidade que temos de docilmente aceitar o que vemos e ouvimos é o que na verdade é, e não a verdade distorcida. A capacidade de penumbrar a realidade, de nos “miopizar”, de nos ensurdecer que a ideologia faz, por exemplo, a muitos de nós, aceitar docilmente o discurso cinicamente fatalista neo-liberal que proclama ser o emprego no mundo uma disgraça do fim do século. Ou que os sonhos morreram e que o válido hoje é o “pragmatismo” pedagógico, é o treino técnico-científico do educando e não sua formação de que já não se fala. Formação que, incluindo a preparação técnico-científica, vai além dela (FREIRE,1996.p.142). Desenvolver esta capacidade de ver além das aparências, são construções que se faz no espaço coletivo, embasando a consciência de classe e consequentemente, “este outro mundo possível ” que tanto queremos. Por meio de uma escuta ativa das falas dos educadores entrevistados, foi visível a diferença no discurso dos mesmos, no que se refere a percepção ideológica de cada um. Alguns dos educadores, tinham esta referência construída em espaços como a organização sindical, grupos comunitários em artes cênicas, militância política, 96 grupos de estudos e associações de professores, ou até mesmo, uma participação em diferentes espaços na educação, como direção de escola, coordenação pedagógica na Secretaria Municipal de Educação, docência em vários níveis e situações de ensino. Estes expressavam com maior clareza seus posicionamentos e percepções, contemplando uma análise de conjuntura. Os educadores que não tinham esta construção encontravam-se em dois extremos: indiferentes à realidade e neste sentido completamente descomprometidos com a proposta dos ciclos ou possuíam uma visão romântica da mesma, acreditando que como mágica, esta dará conta de todos os problemas vivenciados na educação. Vejamos alguns exemplos que retratam este contexto, embora tenha clareza de que esta leitura foi feita na escuta do educador entrevistado como um todo. A escola que ia trabalhar ficava perto da minha casa, era organizada por ciclos as outras não, mas resolvi me adaptar a essa realidade, porque me favorecia. No momento em que toda a rede adotou o sistema, eu não precisei mais me adaptar, então comecei a trabalhar como achava que tinha que ser (fala de educador participante da pesquisa). Eu participei de diferentes espaços neste processo de implantação dos Ciclos de Formação. Teve um momento em que a secretaria teve que estabelecer para a rede inteira à mudança, mesmo que algumas escolas não estivessem prontas para a mesma. É claro que esta mudança resultou em uma série de medidas, entre elas, o quadro de recursos humanos diferenciado que tínhamos e que no momento em que toda a rede cicla, nossa escola passa a não ter mais. Porém, todas as outras escolas passam a ter algo diferente. Esta decisão foi tomada depois que mais de 50% da rede já havia ciclado. Foi uma decisão política que considerava que o próximo passo precisava ser dado. Considero que a secretaria tomou a decisão correta, pois se ela permitisse que essa discussão ficasse rolando eternamente, as escolas por conta própria não teriam tomado esta atitude. Hoje temos escolas que contrariadas ciclaram e possuem um avanço enorme. Conseguiram se apropriar da idéia e dar um salto de qualidade muito grande. Da mesma forma, temos escolas que queriam ciclar e por não conseguir manter um espaço de discussão, acabaram caindo nos vícios da escola tradicional. Então, podemos dizer que o retrocesso é um problema que está na cabeça das pessoas, na forma como as pessoas encaram a profissão e a própria vida (fala de educador participante da pesquisa). Toda a escola organizada em ciclos respeita a individualidade da criança pois entende que nem todos aprendem ao mesmo tempo e da mesma 97 forma, cada um tem sua hora de aprender. Agora, dá para acreditar novamente na educação (fala de educador participante da pesquisa). Saviani também dedica algumas obras a temática em questão. Um dos princípios que defende, refere-se ao desenvolvimento da consciência filosófica. Esta está relacionada com a idéia de Freire, de trabalhar a “miopia ideologica”. Para o autor, “passar do censo comum a consciência filosófica significa passar de uma concepção fragmentária, incoerente, desarticulada, implícita, degradada, mecânica, passista e simplista a uma concepção unitária, original, intencional, ativa e cultivada”.(SAVIANI, 1984 p.10) Para que o educador possa ampliar sua percepção da conjuntura ideológica em que está inserido, necessita em um primeiro momento de um coletivo organizado em sua escola. Esta experiência lhe fortalecerá e o sensibilizará para ampliar cada vez mais sua participação social, em direção da defesa da educação que acredita. Este movimento é indispensável para a organização de uma categoria profissional e para o desenvolvimento da consciência filosófica. A proposta dos Ciclos de Formação, assim como preconiza aos estudantes, exige também do educador uma formação que contemple a globalidade de suas dimensões, entre elas, a afetividade que é constituída e constituinte de subjetividade e objetividade. Somente se o educador estiver sendo trabalhado em sua intereza, como ressalta Saviani, é que terá este olhar do todo no seu ensinar, como destaca Freire. No livro “ O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência”, Mauro Luís Iasi (2002,p.20), faz um ensaio de revisão teórica e crítica que analisa a temática consciência e consciência de classe a partir dos aportes teóricos de Marx. 98 Em sua introdução, que versa sobre o dilema da consciência, o autor diz que “estudar o processo da consciência é refletir sobre a ação dos indivíduos e das classes em sua pretensão de mudar o mundo”( IASI, 2002,p.20) . Com esta afirmação o autor acredita que são os seres humanos concretos e as relações que estes estabelecem, que constituem as forças que mantém ou transformam uma sociedade. Porém, diante desta questão pergunta- se: “ Como os indivíduos moldados pela conformidade e o consentimento podem se rebelar contra a ordem que os moldou? Buscando refletir a cerca do paradoxo que se estabelece, recorre a literatura, onde William Shakespeare apresenta o famoso monólogo de Hamlet, destacando na cena o conflito do personagem entre o ser não ser, viver ou não viver, agir ou não agir. A questão existêncial apresentada por Shakespeare, segundo Iasi, nos remete ao dilema de sobreviver com o sofrimento do espírito, com as pedras e setas que a sorte nos oferece, ou rebelar- nos contra este mar de provações. Na análise do autor, a consciência do ser humano como indivíduo olha o mundo no qual deve sobreviver e repete este monólogo. Este “ olha a sociedade humana como algo estranho ao humano, como algo que lhe conduz a morte em vez de lhe garantir a vida”. Assim, o dilema permanece: “ buscar um ponto de equilíbrio ou insurgir-se? Insurgir-se e enfrentar a morte ou acomodar- se e lhe ver negada a vida?” ( IASI,2002, p.39). Por analogia, o dilema de Hamlet é o dilema da consciência militante.” Este deseja a transformação da sociedade, mas sente- se fraco diante das forças objetivas do mundo capitalista. Assim, “não basta que o movimento próprio da 99 objetividade aponte claramente para a dissolução da ordem da propriedade privada, é necessário produzir o sujeito da transformação e sua consciência”, por meio de um efetivo trabalho com sua subjetividade. O triunfo da sociedade das mercadorias e suas artimanhas liberais, nos rouba o sentido de nossa existência. Que importância teria, questiona Iasi, falar sobre consciência e consciência de classe? “ O espírito rebelde hoje deve lançarse num mar de reprovações que apresenta ser mais revolto do que nunca, na mesma medida em que olhamos para nossa frágil caravela e esta se apresenta como uma velha jangada. Navegar... ainda é preciso? Viver... ainda é preciso?”, afirma o autor ( IASI,2002,p.49). Nas falas dos educadores de Porto Alegre, que já vivenciam o processo de implantação dos Ciclos de Formação a oito anos e por isso possuem mais elementos para avaliar criticamente as contradições do mesmo, se reportam ao conflito existencial de que trata Iasi. Estes percebem o quanto um coletivo organizado pode fazer diferença na construção do novo ao qual a proposta dos ciclos sugere. Quem entra agora na estrutura dos Ciclos de Formação é inserido em um sistema que contempla uma série de conquistas de classe. Ele não pode simplesmente negar esta construção, optar em não trabalhar como a proposta dispõe e achar que esta escolha é sua. Não pode dispensar toda uma história anterior de lutas, de guerras. Quem entra na prefeitura hoje, acha que é tudo uma maravilha, em termos salariais e muito mais e esquece que já houveram épocas que o município pagava menos que o estado. Acho que estas são conquistas de um coletivo e precisam ser valorizadas (fala de educador participante da pesquisa). A navegação da consciência é algo que não podemos nos livrar. “É uma adaga que precisa ser usada para realizar a profecia ou esta se volta contra seu próprio peito”, diz Iasi ( 2002,p.58). A consciência da não identidade com a ordem, 100 a não correspondência dos valores desta ordem com a realidade em constante movimento produzem a consciência como uma roupa que serve a quem tem frio. Ou seja, a consciência continua a se produzir apesar dos devaneios ideológicos daqueles que querem dar forma permanente à sociedade atual. “ A consciência é filha dos movimentos e das contradições e não das certezas, quais quer que sejam”. Ela perpetua a luta pela emancipação e recoloca como centro os seres humanos. Para Marx e Engels(1977,p.22), no manifesto comunista, “ a história tem sido até aqui a história da luta de classes, luta que terminou sempre, ou por uma transformação revolucionária da sociedade inteira, ou pela destruição das classes em luta”. No que se refere ao processo de implantação dos Ciclos de Formação em Porto Alegre, podemos dizer que este conflito se evidencia. Diante da dificuldade de operacionalizar os ideais de educação da proposta no fazer do coletivo de muitas escolas, o processo como um todo vivencia um sentimento de morte. “ Do que adiantou lutar e acreditar que poderia ser diferente”, diz um dos professores. Em contra partida, esta situação pode ser antecipada em Criciúma, que inicia sua implantação dos ciclos e preventivamente pode investir no fortalecimento e organização de seus grupos de trabalho. Engel ( apud IASI,2002,p.87), dizia que só se filosofa verdadeiramente nas épocas de crise, que são estes os momentos em que se aprofunda o contraste entre opinião e verdade.“ A filosofia começa com a decadência do mundo real: supõe que não estou satisfeito com a minha vida”. 101 Esta constatação da necessidade de transformação é presentificada por meio das discussões que levam governos a fazerem suas opções pelos ciclos, porém, a mesma estrutura que oportuniza à mudança, deve dar sustentação no que for necessário para que a mesma tenha êxito. Aprender com os momentos de crise como pontua Engel é um fato. Porém, ao avaliar o processo do outro, também nos possibilita este aprendizado, assim como relata a Coordenadora Geral dos Ciclos em Criciúma: “ Não precisamos vivenciar a mesma trajetória dos outros municípios que implantaram os ciclos. Estamos atentos, tirando o que existe de bom em cada um e modificando o que não deu certo.” (ENGEL apud IASI,2002,p.89). Porém, sem a constituição de uma visão de mundo unitária e coerente, continuamos compondo de maneira bizarra nossa concepção de mundo, isto é, pegando ocasionalmente elementos de outros sistemas de idéias e valores como se fossem nossos, e assim nos tornamos impotentes para responder as questões colocadas por nosso tempo. Enquanto o educador tomar como sua, a consciência do outro ou do sistema, será incapaz de completa e verdadeira autonomia histórica. Esta se dá por meio de um espaço de reflexão e expressão das mesmas por meio do diálogo. Sobre a função social da palavra e seu poder de dar sustentação a realidade desejada, o autor argumenta: As palavras são tecidas a partir de uma multidão de fios ideológicos e servem de trama a todas as relações sociais em todos os domínios, é portanto clara que a palavra será sempre o indicador mais sensível de todas as transformações sociais, mesmo aquelas que apenas despontam, que ainda não tomaram forma, que ainda não abriram cominho para sistemas ideológicos estruturados e bem formados. A palavra constitui o meio no qual se produzem lentas e acumulações quantitativas de mudanças que ainda não tiveram tempo para adquirir uma nova qualidade (...) a palavra é capaz de registrar as fases transitórias mais íntimas, mais efêmeras das mudanças sociais. ( BEKHTIN,1986, p.46) 102 O estudo da consciência é uma maneira de aferir o grau de maturidade da luta de classes expressa na luta entre concepções de mundo antagônicas, como grau de amadurecimento de novas formas de consciência que lutam ainda sob o invólucro da velha sociedade. “ O dilema de Hamlet se resolve, como sempre, no agir ele esta condenado a ação, pois não pode apagar de sua consciência o que sabe, não pode simplesmente conviver com sua dor e sofrimento” (Iasi, 2002, p.39). A consciência é a manifestação subjetiva das relações assumidas pelos sujeitos como seres sociais. Neste contexto , instituições como a família, a escola e o trabalho, inserem os indivíduos em relações que são a base sobre a qual eles constituirão suas concepções de mundo. Na pesquisa realizada, foram muitas as falas que retratavam a educação desejada, por meio da visão de homem e mundo dos educadores entrevistados. A fala que relato a seguir, exprime um pouco do desejo idealizado que mobiliza estes educadores a seguir lutando pela proposta dos Ciclos de Formação e ou Desenvolvimento Humano: Desejo um mundo mais justo, feliz, solidário, sem muitas desigualdades, sejam elas sociais ou não. Um mundo onde o outro seja uma extensão do eu, isto é, eu somente serei feliz, se o outro estiver na mesma condição. Desejo um mundo onde homens e mulheres que ajudaremos a formar terão todas as suas dimensões levadas em consideração. Um mundo que considere o ser, mas não um ser egoísta. Um ser para estar a serviço de todos, para ter discernimento daquilo que ele realmente necessita para viver com dignidade e ser feliz. Para tanto, uma educação que considere aquilo que cada um traz, sua cultura, valores e limitações se faz necessária. Para respeitar esta diversidade, sem deixar ninguém para traz, temos que incorporar em nós e em nosso sistema de ensino, a idéia de que não existe apenas uma forma de aprender, que toda criança aprende, mais não do mesmo jeito e nem ao mesmo tempo (fala de educador participante da pesquisa). 103 Concluo este capítulo, que trata da importância de se trabalhar a subjetividade do educador no espaço de formação, reiterando o desafio lançado por Iasi ao concluir seu livro que nos aponta caminhos para um coletivo mais organizado e consciente. O desafio dos estudos práticos sobre as classe, assim como reflexões políticas que orientam em cada momento a luta de classes, é articular estas dimensões: homem e sociedade, de maneira a capitar a dinâmica das ações e reações recíprocas que se estabelecem entre o momento que constituem o todo. (Iasi,2002,p.222). 104 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS Busca-se, então, a ocupação de outro latifundio. O latifundio do saber. Tal qual o latifundio da terra, o latifundio do saber é vasto, está concentrado em poucas mãos e é altamente improdutivo para o conjunto da sociedade. È preciso cortar a cerca que o protege, para que as massas se apossem dele, tornem-no produtivo e o transformem em um instrumento para conquistar formas mais dígnas de viver (STÉDILE apud SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO DE CRICIÚMA,2003,p.1). A epígrafe destacada acima introduz o Projeto de Implantação dos Ciclos de Formação da Rede Municipal de Criciúma e sintetiza um dos princípios que norteiam esta forma de organização de escola. Educação para todos! ressaltam os autores. Mas a educação proposta não é aquela que tivemos no passado, enquanto estudantes e nem a que propomos hoje, na maior parte das escolas brasileiras. A educação defendida é aquela que respeita os tempos de vida do ser humano e que busca, de diversas formas, garantir a todos os estudantes o direito de aprender. A educação proposta é aquela que resgata a função social da Educação Básica, enfatizada por Arroyo de “formar totalidades humanas” e assim romper com as amarras do ensino fragmentado, descontextualizado, classificatório, sem significado e excludente que herdamos da modernidade. Para tanto, não basta mudar a forma de organização curricular, propor uma nova forma de planejamento e avaliação, inserir os pais nas decisões da escola, ter um novo olhar no processo de aprender... Todas estas questões são importantes, mas só podem ser efetivadas se houver um investimento na qualificação do educador. Pois, propor, querer, implantar ( ações do Estado) não garantem a efetivação, a realização, a transformação ( ações do educador). Como 105 o educador é também humano, dotado de subjetividade e constituído socialmente, onde exerce uma função social que não é objetiva, mecânica, que depende apenas do fazer, precisa também ser trabalhado em sua totalidade e esta inclui a dimensão do desejo e da subjetividade. Faz-se necessário desencadear um processo de desenraizamento dos paradigmas da modernidade tão fortemente instalados na identidade dos educadores contemporâneos. Mas, como isto é possível? Por meio de um investimento sério e comprometido com a formação do educador. Uma educação que almeja a autonomia e a emancipação humana necessita de um educador que possa observar, refletir, registrar, planejar e avaliar o seu fazer pedagógico. De educadores que se disponibilizem a trabalhar em grupo, trocar idéias, estudar junto, olhar o outro e a si com amorosidade e reconhecimento de sua natureza humana e portanto, ilimitada, infinita e incompleta. Precisa de educadores conscientes de seus limites e possibilidades, autônomos e críticos o suficiente para avaliar a distância entre a escola real e ideal, traçando assim, objetivos pessoais e coletivos que diminuam a distância do percurso a ser feito em direção do ideário estabelecido. Entre as estratégias que podem ser utilizadas esta a abertura de um espaço na formação para trabalhar a sua subjetividade. A dimensão da subjetividade é fator determinante na formação e qualificação profissional, quando se tem a compreensão de que é por meio da objetivação da subjetividade que “ constituímos nossas formas de ação e nossa consciência nas relações sociais ( GOIS, 1992,p.34). É inserido nesse cenário de múltiplas singularidades da qual 106 somos constituídos, que fazemos a nossa história e a dos outros que conosco caminham e que tornamos significativo para o outro, o que é significativo para nós. É nessa direção que esta pesquisa caminha. Digo isto, porque com ela apenas se identificou possibilidades, necessidades. Ela representa somente uma direção que pode ser oferecida ao educador em seu processo de formação. Para obter dados mais convincentes seria interessante uma continuidade onde a vivência do espaço proposto fosse o objeto de estudo. Esta pesquisa também aponta para uma redefinição do papel do Psicólogo Escolar/ Educacional na escola. O trabalho aqui proposto não se caracteriza como um trabalho de psicoterapia de grupo. Acredito que a Psicologia pode contribuir com a educação ao oportunizar espaços de promoção humana e não de diagnóstico e tratamento, no sentido curativo. Defendo que a Psicologia tem um enorme conhecimento acumulado que deve ser disponibilizado na perspectiva do trabalho educacional preventivo, ou seja, no planejamento e desenvolvimento das práticas pedagógicas, contribuindo assim, para o aprimoramento do trabalho do professor e dos administradores escolares. Em concordância com Gayotto e Domingues (1997,p.79), acredito que” o cotidiano é um espaço, um tempo, um ritmo. A problematização do cotidiano configura-se em uma experiência que supõe novas relações de poder, flexibilidade na assunção e atribuições de papéis, transformações na comunicação e na cooperatividade dos grupos” e com toda esta riqueza de possibilidades a serem exploradas, constitui o locus do trabalho a ser desenvolvido com os educadores, enquanto ponto de partida para se trabalhar com sua subjetividade do educador. 107 Ao realizar esta pesquisa com cinco escolas municipais de Criciúma e Porto Alegre, constata-se que estas escolas são constituídas de especificidades que as tornam únicas, embora integradas a redes que são representativas de uma “certa unidade ideológica”, a um sistema “comum”, porque todas públicas, atendendo uma parcela da população com características políticas, econômicas e sociais similares e ainda, imbuídas de um mesmo propósito: a Proposta dos Ciclos de Formação. Cada escola tem sua caminhada e isto faz uma grande diferença. A caminhada individual dos educadores que compõem o coletivo da escola também é um outro grande diferencial, pois percebeu-se o quanto os educadores com uma formação humana e profissional mais consciente e crítica, são indispensáveis no processo como um todo, contribuindo assim com a efetivação da proposta. O contrário também foi observado, não só nos educadores que se disponibilizaram a participar das entrevistas, mas principalmente na postura daqueles educadores alheios a minha presença e situações vivenciadas por meio de minha participação na escola, em outros espaços. É preocupante a falta de balizas consensuais quanto a definição de algumas diretrizes básicas que podem assegurar o processo de forma mais efetiva, bem como, a falta de um espaço para esta discussão. É fato que as escolas que possuem um espaço sistemático e personalizado de Formação continuada estão um passo a frente na educação que se propõem a praticar. Cabe ressaltar ainda, a dimensão histórica que os Ciclos de Formação demarcam. Eles representam, sem sombra de dúvidas um grande avanço, na medida em que buscam romper com a escola seriada. Isto já é um tanto complexo. Nesse sentido, a caminhada de cada escola e das redes de ensino envolvidas constituem por si só, um processo em andamento e para tanto, temos que exercitar 108 nossa “paciência impaciente”, como dizia Paulo Freire, ao se reportar a idéia de que nunca devemos nos contentar com o que temos, embora este seja representativo de um grande avanço. Duas questões neste trabalho se apresentam muito fortes, necessitando sem sombra de dúvidas, serem tratadas com seriedade. A primeira delas é a cultura da queixa e a Segunda é a forma como o educador ainda lida com a questão da moralidade e da ética. Ambas são no meu entender, extremamente nocivas a proposta emancipatória e humanizadora defendida nos Ciclos de Formação e constituem uma ameaça real, concreta, se não trabalhadas adequadamente. Finalizo este trabalho, com uma enorme satisfação, pois este não significa apenas a realização de uma tarefa a qual somos submetidos em um curso de especialização. Esta temática aqui trabalhada integra meus estudos fora da academia, fundamenta minha atividade profissional junto a formação docente, constitui parte de Minhas crenças em relação a visão de educação, homem e mundo que hoje defendo e para concluir, faz parte de um projeto de pesquisa que desejo seguir estudando. Neste sentido, gostaria de terminar dizendo que as considerações aqui corroboradas são, como tudo na vida, transitórias e sujeitas a novas e outras mais consistentes considerações. 109 REFERÊNCIAS ANTUNES, R. Os sentidos do Trabalho: ensaio sobre a informação e a negação do trabalho. 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IDENTIFICAÇÂO Instrumento nº _______ Cidade: Criciúma_________ Porto Alegre________ Local da entrevista__________________________________________________ Nome do entrevistado:_______________________________________________ e-mail__________________________fone:______________________________ Tempo de atuação no magistério________ Tempo de atuação no Projeto de ciclos:_______ Data: _____/_____/_____ Pesquisador: Jaira Terezinha da Silva Rodrigues Orientador: Giani Rabelo 114 TERMO DE CONSENTIMENTO Estou trabalhando em uma pesquisa, que está sendo realizada com educadores que atuam com Ciclos de Formação e Desenvolvimento Humano, nas cidades de Criciúma e Porto Alegre, com o objetivo de investigar a subjetividade do educador enquanto parte constitutiva da qualificação profissional, na práxis educativa. Esta pesquisa será apresentada em forma de monografia à Diretoria de PósGraduação da UNESC, para obtenção do título de especialista em Didática e Metodologia do Ensino Superior. Para essa pesquisa, será necessário fazer algumas perguntas sobre o aspecto profissional. Entretanto, quero lhe assegurar que sua identidade será preservada, não havendo qualquer ligação entre você e as informações que me der. Você não terá que responder a nenhuma pergunta que não quiser e poderá interromper em qualquer momento que desejar. Entretanto, suas respostas honestas serão muito importantes para a pesquisa em questão. Ficarei muito grata pela sua participação. A entrevista não deverá ultrapassar 60 minutos. Você está disposto (a) a participar? Assinatura do entrevistado Assinatura do entrevistador 115 ROTEIRO DA ENTREVISTA 1) Opção profissional pelo magistério. Como se deu essa escolha? Como foi sua trajetória de educador(a) ? Como você avalia essa experiência? Como foi o ingresso nos Ciclos de Formação? 2) Formação Profissional. Qual sua formação acadêmica? O que você faz para manter-se atualizado? Como você avalia essa formação continuada que vem recebendo? Você recebeu alguma formação específica para participar do Projeto de Ciclos de Formação? Que contribuições sua formação acadêmica e continuada lhe deram para qualificar sua atuação docente? Você é conhecedor dos principais conceitos/ pressupostos propostos para atuar nos ciclos de formação? Que conceitos você destacaria? Sua formação profissional explorou as dimensões afetivas, cognitivas, sociais, políticas, espirituais, físicas, culturais ? Em que medida essa formação contribuiu para a constituição da pessoa e do profissional que você é hoje? 3) Concepções de homem, mundo, educação e aprendizagem. Em termos ideais, como você idealiza o mundo que vivemos? O homem que formamos? A educação que praticamos? A forma que aprendemos? 4) Relação teoria e prática. Que características relacionadas na questão anterior, você percebe em você e em sua atuação profissional? Como você avalia o trabalho que vem desenvolvendo? Quais são os avanços e retrocessos? O que pode ser aprimorado? O que é necessário para uma boa atuação profissional na proposta de Ciclos de formação e desenvolvimento humano? 5) Compreensão do macro e micro sistema educacional. Que leitura você faz do sistema político, econômico e social brasileiro? Que relações você faz desse contexto com o sistema educativo? Como a educação e o educador poderia contribuir para a transformação dessa realidade? Que ações você pratica nessa direção? 6) Outras considerações. 116