Negativo, Repetição e Resistência[1] Isa Maria Lopes Paniago[2] Terezinha de Camargo Viana[3] Universidade de Brasília – UnB Freud (1937) orienta o analista a dirigir seu interesse para os obstáculos que se colocam no caminho da análise, no lugar de se preocupar com a “cura”, em primeiro plano. Nesse sentido, a superação das resistências continua sendo a função essencial da análise, mesmo que haja variação na forma de abordá-la. A clínica com pacientes que apresentam ideação ou tentativas de suicídio, ou comportamentos impulsivos e de autolesão tem apontado para padrões de repetição que se caracterizam por uma forma complexa de resistência. Porém, são repetições de experiências desagradáveis, como o cortar-se ou tentar suicídio, que indicam uma outra lógica do funcionamento psíquico, que não a do princípio do prazer, ou uma dificuldade de recordar. Essa atuação parece se originar da impossibilidade de expressão pela palavra, não pela força do recalque, mas por uma falha na constituição de um mecanismo psíquico que lhe organize. Quando Freud (1912) utiliza a metáfora do negativo fotográfico como tentativa de explicar a fundação do inconsciente, nos revela as suas marcas constituintes, que podem permanecer negativas dependendo de encontrar ou não resistências. A experiência com esses pacientes é atravessada por essas marcas que parecem “não reveladas”, mas ativas, indicando em negativo o sofrimento psíquico. A repetição como forma de resistência grave, indica uma falha, aparentemente impossível de ser elaborada sem o outro. Palavras-chave: Resistência, repetição, sofrimento psíquico. A resistência é, reconhecidamente, um dos maiores desafios do trabalho da análise. Especialmente no trabalho com pacientes de difícil acesso (Joseph, 1975), ou na clínica dos casos-limite (Figueiredo, 2003), onde o analista é convocado a atuar diante de comportamentos impulsivos ou de autolesão, ou diante de ideação ou tentativas de suicídio. Trata-se de uma clínica que exige uma outra postura do analista, já que a interpretação parece ser precoce diante das rígidas defesas do paciente, ou seu silêncio pode ser percebido como um desamparo insuportável, tornando a relação analítica imóvel e onde o paciente permanece, mas aprisionado. Para Freud (1940[1938]) esse tipo de resistência é de difícil combate, já que esses pacientes parecem não visar outra coisa senão a autolesão e a autodestruição, e parecem não tolerar “o restabelecimento mediante o nosso tratamento e lutam contra ele com todas as suas forças” (p.194). Não se pretende com este ensaio fazer uma análise desses casos limite, mas, utilizá-los como pista para compreender a resistência na clínica atual, e mais ainda, para compreender como o analista pode se portar (ou suportar) diante dessa resistência que revela o imenso sofrimento psíquico e que parece indicar o limite do analisável. Antes de ser uma oposição à análise, a resistência que se apresenta como negatividade pode se tornar o caminho para novas formas de ação. Freud, em Análise Terminável e Interminável (1937), nos diz que “em vez de indagar como se dá uma cura pela análise... se deveria perguntar quais são os obstáculos que se colocam no caminho de tal cura” (p. 236). É nesse sentido, que se pretende tomar a resistência como parte do tratamento, ao conferir-lhe positividade integrando-a como característica do paciente, como possibilidade de comunicação. Nesse mesmo texto, Freud (1937) insiste em como o aparelho psíquico não tolera o desprazer, desviando-o a todo custo, a ponto de sacrificar a realidade, caso esta acarrete desprazer. Muitas vezes, vemos na clínica experiências que desembocam numa outra lógica do funcionamento psíquico que não incluem a possibilidade de prazer, e parecem até mesmo independer dele. São pacientes que tentam desesperadamente quebrar o setting analítico, com atuações que invadem o outro. O fragmento de caso trazido aqui como ilustração é um dentre tantos outros casos que deram origem à reflexão deste ensaio e que provêm de um trabalho de atendimento a universitários, no período de dois anos (2004 e 2005), com objetivo de fazer intervenção em crise, sendo que passada a crise dava-se seqüência ao trabalho de psicoterapia de orientação psicanalítica. Talvez a característica da intervenção em crise como medida de acolhimento desses pacientes tenha como efeito a possibilidade de ampla manifestação de comportamentos mais regredidos daqueles pacientes. Uma vez que vinham encaminhados por professores, ou colegas preocupados com sua segurança, de maneira que essa condição de serem literalmente levados pelo braço, já impunha uma situação de proteção. No encaminhamento, era relatado como esses pacientes manifestavam comportamentos impulsivos, como destruição de portas, cadeiras ou outros objetos, agressão a seus pares, e muitos com comportamento de grave risco de suicídio ou com auto-mutilações. Mesmo depois de contornada a crise, durante o processo psicoterapêutico havia um sentimento comum de excesso, de transbordamento, independentemente dos tipos de organização psíquica apresentados, fossem mais histéricos, borderlines ou mais melancólicos. Como uma marca que se mantém incognoscível, mas que retorna, se repete, e impede sentido às interpretações ao longo do processo. É como se o vínculo que mantém o paciente em tratamento fosse resultado de um estado de fusão, que longe de produzir mudanças, o apazigua sem conduzir a lugar algum. As associações ocorrem, mas como uma exterioridade que parece não pertencer ao paciente, mas a um outro, que provavelmente lhe dirá o que fazer. O inconsciente se mostra nas marcas desse sofrimento, mas apesar de serem pacientes bastante intelectualizados, sua fala é pura resistência, e suas recordações são todas atuadas, repetidas. Estranhamente, essas atuações não parecem indicar apenas uma dificuldade em recordar pela força do recalque, mas parecem indicar que há algo que não pode ser lembrado, pois não foi representado, o trabalho terapêutico consistiria em remontar sim ao passado, mas bem junto do paciente que a partir de suas repetições, parece pedir nomes, sentido, o que parece ser bem diferente de despertar lembranças, mas dar sentido às marcas inconscientes. Para ilustrar esse estado de excesso não verbalizado, temos o caso de uma paciente de 24 anos que se atrasava invariavelmente em todas as sessões, ou faltava e depois ligava com insistência para remarcar uma nova sessão, aludindo crises em relação às quais talvez não suportasse esperar até a próxima sessão. Quando conseguia uma sessão extra, ou chegava faltando pouco tempo para acabar a sessão, apresentava um sabor perverso, já que o que quer que sua terapeuta fizesse seria insatisfatório. Transgredia o setting a todo o tempo. Esse comportamento estendia-se fora da relação transferencial, onde acreditava que encontraria amor incondicional em seus professores ou chefes. Seu comportamento é bem marcado pela histeria: seduzia e se portava como uma menina comportada, prestando contas de suas ausências e atrasos, manipulando com promessas de mudanças, mas a intensidade com que transgredia o setting e solicitava sua terapeuta indicava um funcionamento borderline, de forma que ou ela atuava, ou colocava sua terapeuta a atuar diante de qualquer limite que estabelecesse para manter o setting. A releitura do texto freudiano Uma Nota sobre o Inconsciente na Psicanálise de 1912 nos remeteu à experiência de estado de desamparo que vem da clínica com pacientes de difícil acesso, ao mesmo tempo em que nos trouxe pistas de que as resistências podem impedir marcas inconscientes de se tornarem conscientes, além de permanecerem nesse estado de forma ativa. Nesse texto, Freud (1912) faz uma analogia entre o inconsciente e a fotografia: O primeiro estágio da fotografia é o ‘negativo’; cada imagem fotográfica tem de passar pelo ‘processo negativo’, e só alguns desses negativos, que foram aprovados, são admitidos ao ‘processo positivo’, que afinal termina na imagem fotográfica (pág. 87). O negativo indica, então, a existência de um elemento que precisa passar pelo processo de “revelação” para chegar à consciência. Freud descreve também que pode ser que esses elementos permaneçam inconscientes, dependendo de encontrar ou não resistência. Esse é um texto onde Freud ainda estava muito próximo das experiências com a hipnose e onde procura explicar a distinção consciente e inconsciente através dos experimentos com sugestão pós-hipnótica. Lembra que se uma intenção de executar uma atividade qualquer – como uma ordem dada por um médico – tornou-se consciente assim que o momento determinado chegou é porque estava latente ou inconsciente na psique. No entanto, se a intenção de executar o ato não aparece na consciência, mas apenas sua representação, é porque todas as idéias associadas a essa representação permanecem inconscientes. Para Freud, esses experimentos dão uma visão dinâmica do fenômeno, já que a representação psíquica da ordem recebida permanece ao mesmo tempo inconsciente, mas ativa, ou seja, capaz de transformar a representação em ação. A análise dos fenômenos neuróticos também comprova essa característica de que as idéias inconscientes são ativas. Diante dessa relação entre o negativo e o inconsciente, gostaria de trazer para reflexão o conceito de repetição que é central neste ensaio. Por um lado, porque a repetição está envolvida com a fundação do inconsciente, e, por outro, como podemos observar na clínica, particularmente com as categorias de pacientes já descritas aqui, a repetição atravessa o curso da análise indicando um apego a sua própria doença, caracterizando um espaço vazio, uma negatividade, já que nada resta ao analista. O aparelho psíquico torna-se vivo pela repetição, que indica a falha que lhe dá origem. Já em 1895, no Projeto, Freud explora esse fenômeno da repetição e sua relação com a memória inconsciente: os neurônios ficam permanentemente modificados, mas continuam mantendo as mesmas condições de recepção às novas excitações. Há uma facilitação que permite a condução de energia entre os neurônios, e assim, o escoamento de energia armazenada no aparelho psíquico que produz satisfação. A memória é representada pelas diferenças nas facilitações entre os neurônios. As primeiras marcas da experiência de satisfação remetem ao primeiro circuito que se repetirá, como uma busca compulsória da satisfação, que provoca a alucinação do objeto de satisfação. Como a alucinação do objeto não produz descarga completa, entra em cena o princípio da realidade e se instala a repetição dos caminhos facilitados. É pelo desaparecimento dos traços que constituem o sujeito que eles são inscritos. Seguindo um outro rastro teórico, que não o da fundação do inconsciente, mas agora que discorre sobre o seu funcionamento, temos na obra freudiana a repetição vista de outra forma. Em Recordar, Repetir e Elaborar, de 1914, Freud descreve que o importante no início da psicanálise era levar o paciente a recordar, com o abandono da hipnose, procurava-se descobrir o que o paciente deixava de recordar, e procurava-se interpretar as resistências. Depois, o foco era estudar tudo o que se achasse presente no momento, na superfície da mente do paciente, igualmente identificando as resistências e tornandoas conscientes ao paciente. Para Freud, tratava-se de preencher lacunas na memória. É instigante a notação de Freud de que “Quando o paciente fala sobre estas coisas ‘esquecidas’, raramente deixa de acrescentar: ‘Em verdade, sempre o soube; apenas nunca pensei nisso’” (p.164). Demonstra claramente a metáfora do negativo, descrita aqui anteriormente: o “sempre o soube” podia estar como negativo, superada a resistência ele vem à tona. Mas, como temos defendido aqui, é possível que o fato de o analista percorrer o caminho com seu paciente é que trouxe sentido e permitiu seu saber, não que houvesse uma lembrança antes recalcada. É claro que este é ainda um momento de reflexão. Para Freud, parece não haver diferença se um evento psíquico foi esquecido depois de ter sido consciente, ou se nunca se tornou consciente. Nossa experiência, no entanto, parece revelar que há sim uma grande diferença. O que nos faz concordar quando ele relata em seguida um tipo especial de experiências, que considera da máxima importância, onde lembrança alguma pode ser recuperada via de regra. São “experiências que ocorreram em infância muito remota e não foram compreendidas na ocasião” (p.165). Para certos casos (pacientes com uma longa história de doença), Freud descreve: “podemos dizer que o paciente não recorda coisa alguma do que esqueceu e reprimiu, mas expressa-o pela atuação ou atua-o (acts it out). Ele o reproduz não como lembrança, mas como ação; repete-o, sem, naturalmente, saber que o está repetindo” (p.165). Enquanto o paciente está em tratamento, ele não pode fugir a esta compulsão à repetição, e esta é a sua maneira de recordar. Quanto maior a resistência, mais a repetição (atuação) substituirá o recordar. O tratamento diante de uma transferência positiva desenterra lembranças tal como na hipnose, quase sem resistências. Se e quando a transferência torna-se hostil, “o recordar imediatamente abre caminho à repetição” (p.167). Cabe ao analista a tranqüilidade de entender tal experiência e estar preparado para esse longo caminho “nas trevas” do passado de seu paciente. Onde ele suportará esse lugar de ataques hostis, estando junto ao seu paciente já que lhe orientou a criar coragem para dirigir sua atenção para sua doença – “sua enfermidade deve... tornar-se um inimigo digno” (p.168). Certamente, o tratamento tende a uma deterioração, inclusive com reflexos fora do setting. Há uma luta constante com o paciente, “para manter na esfera psíquica todos os impulsos que este último gostaria de dirigir para a esfera motora” (p.168), e é um sucesso se consegue fazê-lo. A regra fundamental, no entanto, é dar ao paciente tempo para conhecer melhor sua resistência, para que possa elaborá-la, o que pode revelar-se uma prova de paciência para o analista, como nos lembra Freud. Então, a repetição se faz presente em lugar do recordar, que é possível apenas em estados nos quais as resistências tenham sido elaboradas. Na clínica, quando a relação transferencial vai sendo demarcada por essas repetições, é de uma forma impactante, já que o lugar que resta ao terapeuta é o vazio, um buraco, onde não há conexões, há barulho, há angústias, mas soltas, indicando provavelmente o sofrimento do desamparo. É como se a doença, como o que resta, fosse ao mesmo tempo o que destrói e o que salva silenciosamente, pois não encontra tradução, mas mantém, estranhamente, o paciente em estado de apaziguamento. No entanto, longe de indicar ganhos secundários, ou evitação de dor, ou impossibilidade de recordar, essa repetição está ligada a experiências claramente desagradáveis, indicando uma outra lógica de funcionamento psíquico, tal qual descrita por Freud em Além do princípio do prazer (1920), quando descreve a compulsão à repetição ligada à pulsão de morte. Se não há uma tensão externa que capture o sujeito da inércia provocada pela pulsão de morte, de sua parte não há desejo de mudança e sua tendência é “repetir o mesmo curso de vida” (p.48). Entender a repetição na clínica é fundamental para permitir que o analista possa suportar ao vazio que é convocado na transferência e que lhe indica uma busca pelo que ficou perdido e sem sentido no passado do paciente, mas que está ativo. A compulsão à repetição tratada em Além do Princípio do Prazer (1920) parece aproximar-se mais da experiência inquietante que tentamos traduzir aqui, já que para esses pacientes, a dificuldade parece não estar em recordar. No entanto, a clínica com pacientes borderlines ou de difícil acesso parece se caracterizar por uma falência inclusive na repetição, já que o passo adiante tomado por esses pacientes, quando não são suficientemente acolhidos, é o da mutilação ou o suicídio – da atuação à passagem ao ato – e isso é muito mais primitivo do que recordar (o quê?) ou do que uma tentativa de evitar desprazer, totalmente incoerente com as ações da mutilação ou do suicídio. Tudo isso é assustador por escapar do setting teóricoclínico, deixando o analista (terapeuta) numa condição de total desamparo diante da compulsão ao sofrimento. Parece que estamos falando de estruturas, de pacientes muito menos organizados do que previa Freud quando falava de recalques e resistências fortes. Parece indicar uma outra ordem de pedido de ajuda, ou será que atravessa a inabilidade do analista (terapeuta)? Em Além do Princípio do Prazer, Freud (1920) revela uma compulsão “suficientemente poderosa para desprezar o princípio do prazer” (p.13). Para ele, a experiência geral contradiz a idéia de que haja dominância do princípio do prazer (porque não é uma experiência que procura eliminar o desprazer) no curso dos processos mentais, há, no máximo, uma forte tendência nesse sentido. Antes de prosseguir nessa lógica, Freud esclarece a relação da compulsão à repetição com a resistência, que é fundamental para a forma de atuação do analista. O reprimido não oferece resistência alguma aos esforços do tratamento. ... ele próprio (o inconsciente reprimido) não se esforça por outra coisa que não seja irromper através da pressão que sobre ele pesa, e abrir seu caminho à consciência ou a uma descarga por meio de alguma ação real (p. 30). Para evitar confusão, usando então uma terminologia dinâmica, ele prossegue: “podemos dizer que as resistências do paciente originam-se do ego” (p.30). Essas resistências funcionam sob a influência do princípio do prazer. A compulsão à repetição só se manifesta durante o tratamento depois que a repressão “foi afrouxada” – a lógica então é a do desprazer para um dos sistemas (o ego) e, ao mesmo tempo, prazer para outro (inconsciente). O princípio do prazer está relacionado também a essa experiência. Mas, nesse texto, o que intrigava a Freud era o fato de que a compulsão à repetição também está ligada a experiências que não rememoram prazer. Especialmente intrigava-o os casos em que uma pessoa tenha uma experiência passiva, onde não interfere na experiência, como no exemplo citado por ele da mulher que se casa sucessivamente com três maridos, sendo que cada um dos três adoecem logo depois, e ela teve que cuidar de cada um em seu leito de morte. Talvez, nem tão passiva assim. Pode-se supor que realmente exista na “mente uma compulsão à repetição que sobrepuja o princípio do prazer” (p.33). Essa é uma hipótese de algo que parece “mais primitivo, mais elementar e mais pulsional do que o princípio do prazer” (p.34). Freud refere-se à pessoa em análise, cuja compulsão à repetição na transferência dos acontecimentos da infância, comporta-se de modo bastante infantil, mostrando que os traços de memória reprimidos de suas primeiras experiências “não se encontram presentes nele em estado de sujeição, mostrando-se elas incapazes de obedecer ao processo secundário” (p.47). O sujeito encontra-se no processo primário mesmo. Freud apresenta de forma instigadora a compulsão à repetição como um atributo também universal das pulsões. É uma visão das pulsões que impressiona por apresentar a novidade de reconhecer a natureza conservadora da substância viva: como um impulso a restaurar um estado anterior de coisas. Se as pulsões são conservadoras, adquiridas historicamente e tendem à restauração de um estado anterior de coisas, Freud defende que o desenvolvimento orgânico deve ser atribuído a influências externas, que devem ser “perturbadoras e desviadoras” (p.48). Será que estaria aí o papel do analista ao suportar uma reação terapêutica negativa, por exemplo, quase sempre característica da atuação do paciente, como uma influência externa que o desvia do curso “natural” que seria o abandono do tratamento ou a sua total paralisação (serviço da pulsão de morte)? Quando o paciente em análise repete, não é possível interpretar, apenas, a sua atuação, para que ele a elabore, porque lá há um vazio que antes precisa ser preenchido. Tal como Freud bem descreve: ... as pulsões de vida têm muito mais contato com nossa percepção interna, surgindo como rompedores da paz e constantemente produzindo tensões cujo alívio é sentido como prazer, ao passo que as pulsões de morte parecem efetuar seu trabalho discretamente (p.74). O enigma que se apresenta neste ensaio é o de que a repetição dos padrões de sofrimento aqui descritos não pode ser entendida pela via da pulsão de morte, embora a agressividade e destrutividade sejam marcantes em direção à morte, ou ao fim. Mas, por outro lado, esse paciente em análise, não tem nada de silencioso ou discreto, seu apelo é bastante visceral, como a pulsão de vida que rompe a paz. Há algo que se busca. Certamente. Mas, saber o quê depende de qual é a disposição do analista para suportar os ataques ao setting, com a certeza de que o trabalho de análise fará o paciente retornar ao lugar que o faz sofrer. Talvez por isso a paciente de 24 anos, citada aqui, ao retornar a esse lugar de sofrimento, ou mesmo por chegar já nesse lugar, apresente seu desejo de “fique comigo”. Fédida (2002) refere que esses pacientesborderlines “pressentem, no ‘apego’ transferencial, a ameaça desmedida de um aniquilamento, devido à dependência total de um outro humano, por definição mortal e, por natureza, incapaz de tornar-se o exclusivo outro de si” (p.116). Sua insistência era a de descobrir o que representava para sua analista. Cuidava excessivamente da sessão para captar o que sua analista fazia, se pensava nela, como pensava nela, utilizando-se dos atrasos, dos telefonemas para justificar sua ausência. Em um ano de tratamento, essa foi sua demanda, e, ao não suportar o enquadre se afasta mantendo contato telefônico esporádico. Em sua última solicitação por telefone, diz: “Estou no limite, preciso retornar”. Uma sessão foi marcada. Ela não compareceu. É um bom início de investigação, que tomado pela via do negativo pode indicar o caminho de “revelação” que sugere um trabalho teórico relativo à fundação do inconsciente e da importância do outro na constituição do aparelho psíquico, onde uma falha parece levar à repetição. Sem fim. Referências bibliográficas: FÉDIDA, P. (2002). Dos benefícios da depressão: elogio da psicoterapia. São Paulo: Escuta. FIGUEIREDO, L.C. (2003). Psicanálise: elementos para a clínica contemporânea. São Paulo: Escuta. FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. (1950 [1895]) Projeto para uma psicologia científica, vol. I. (1912) Uma nota sobre o inconsciente na psicanálise, vol. XII. (1914) Recordar, repetir, elaborar, vol. XII. (1920) Além do princípio do prazer, vol. XVIII. (1937) Análise Terminável e Interminável, vol. XXIII. (1940 [1938]) Esboço de psicanálise, vol. XXIII. JOSEPH, B. (1975). O paciente de difícil acesso. In: Melanie Klein hoje: desenvolvimento da teoria e técnica / editado por Elizabeth Bott Spillius; tradução de Belinda Piltchen Haber. Rio de Janeiro: Imago, 1990. [1] Trabalho para apresentação no II Congresso Internacional de Psicopatologia Fundamental e VIII Congresso Brasileiro de Psicopatologia Fundamental. [2] Psicóloga e Doutoranda em Psicologia da UnB. [3] Psicóloga Clínica e Professora Doutora dos Programas de Pós-graduação em Psicologia e Psicologia Clínica e Cultura da Universidade de Brasília, afiliada ao Laboratório de Subjetivação e Psicanálise – Lapsus, do Departamento de Psicologia Clínica da UnB.