FERNANDO REZENDE (abriI12004) o ESTADO DA NAÇÃO 1- JUSTIFICATIVA A comunicação do governo com a sociedade brasileira padece de dificuldades inerentes a qualquer esforço de promoção de um amplo entendimento, por grupos sociais dotados de graus distintos de conhecimento e informação,. de situações complexas como aquela que caracteriza a problemática do desenvolvimento. brasileiro. A questão não é nova e não aflige apenas a presente Administração. Nesta, ela toma-se mais exigente, em face das enormes expectativas de mudanças e rupturas que se formaram com a transição do poder. Assim, o sentimento de frustração é diretamente proporcional à dificuldade da maioria para compreender as restrições que condicionam a satisfação dos anseios do povo por uma mais rápida melhoria nas condições que determinam o seu bem-estar. Diversas instituições que se dedicam ao estudo e à análise dos problemas do país, públicas e privadas, entre elas as principais universidades, tomam público o resultado desse trabalho por meio de revistas especializadas, periódicos, seminários conr:ecimento técnicos e debates assim disseminado é restrito relatórios na mídia, mas o acesso em face do hermetismo ao da linguagem, da parcialidade do enfoque, ou do caráter particular dos interesses envolvidos. De outra parte, os relatórios produzidos pelos organismos que se dedicam à coleta e organização das estatísticas nacionais não são, e nem poderiam ser, instrumentos de consulta generalizada e passíveis de fácil interpretação. As dificuldades de comunicação do governo com a sociedade geram conflitos, tumultuam o debate e impedem o estabelecimento de um diálogo construtivo, ------- --- . ------ ---- que contribua para o fortalecimento das instituições democráticas, a normalidade da vida política governamentais. e a constante Importa, pois, revisão adotar das novas políticas iniciativas e das para práticas suprir as deficiências de comunicação. o novo projeto do IPEA dirige a atenção para esse problema. Ele pretende, não apenas oferecer uma visão abrangente dos problemas nacionais, em linguagem acessível ao público não especializado, embora amparada no indispensável rigor analítico, como também informar a sociedade brasileira sobre as políticas adotadas e suas conseqüências, tendo em vista os anseios da população brasileira por crescimento e justiça social. Tendo um caráter anual, o Estado da Nação também servirá para que os eleitores acompanhem o trabalhó' de;seus governantes e avaliem o seu desempenho. o projeto não tem caráter partidário e nem irá pautar-se por ideologias. Sua temporalidadeultrapassa compromisso o mandato dos atuais e dos futuros governantes. Seu é com a transparência dos fatos e com a qualidade da sua interpretação. Cabe mencionar, por fim, a oportunidade desse projeto e as condições existentes para a sua realização. A par do reconhecimento da necessidade de uma publicação com as características da que aqui se propõe e da inserção do IPEA no núcleo do poder federal, destaca-se a capacidade do IPEA para adicionar ao conhecimento e recursos próprios aqueles disponíveis em uma extensa rede de instituições acadêmicas e de pesquisa, públicas e privadas, com a qual já mantém um antigo e estreito relacionamento. 2- OBJETIVOS o projeto em questão tem os seguintes objetivos: • Fornecer um retrato anual, nítido e abrangente, da realidade brasileira, nas dimensões econômica, social, política e cultural. • Contribuir para um diálogo franco e construtivo do governo com a sociedade sobre os problemas e as questões que interessam ao futuro do país. • • Contribuir para a definição de metas econômicas e sociais. Fornecer aos eleitores informações relevantes para o acompanhamento da ação de seus governantes e a avaliação de seu desempenho. • Gerar material para a edição de uma versão simplificada para utilização na rede pública de ensino como complemento do material didático. 3- NATUREZA E CARACTERíSTICAS DO PROJETO A perspectiva multidisciplinar sob a qual o retrato da situação brasileira será gerado é uma das características mais importantes do projeto. Não se trata de apresentar visões parciais, geradas a partir de abordagens específicas determinados campos do conhecimento - a economia, a sociologia, de a demografia, a administração e a ciência política -, mas sim de compor esse retrato a partir da compreensão da interdependência dessas distintas dimensões do desenvolvimento. Para tanto, é necessário abandonar o caminho mais fácil de reunir análises sobre temas específicos, produzidas por especialistas das áreas mencionadas, em um texto que, carecendo de um enfoque uniforme, resume-se a uma coletânea de capítulos assinados que refletem interpretações pessoais do objeto em questão. O que se pretende aqui é produzir um documento de cunho institucional, construído a partir de contribuições individuais, mas ancorado em uma preocupação fundamental de esclarecer questões da maior relevância para o diálogo do governo com a sociedade. Em assim sendo, torna-se necessário conciliar a diversidade de opiniões com a uniformidade mencionada. Se o que se pretende é oferecer análises e interpretações que estimulem um diálogo franco e construtivo do governo com a sociedade, é importante que a mensagem contida no documento seja clara e objetiva. Caberá ao conselho editorial (ver abaixo) propor a linha a ser adotada quando houver divergência elaboração do documento, de opiniões entre os técnicos cabendo a última palavra envolvidos à Diretoria. na A predominância da visão institucional não significa sufocar a liberdade intelectual e nem coibir a diversidade reconhecimento de pensamentos e interpretações, apenas o de que ela é indispensável em um projeto desta natureza. Nesse caso, a versão final do documento será fruto de um esforço coletivo, mas ela não expressará posições individuais, e sim o ponto de vista da instituição tal como apropriada pela sua direção. Um aspecto selecionado importante do documento é a apresentação de indicadores socioeconômicos de um conjunto que, além de subsidiarem a análise realizada sirvam para estabelecer comparações internacionais sobre as principais questões de interesse para o debate sobre o desenvolvimento do país. 4- COMPOSiÇÃO E ESTRUTURA DO DOCUMENTO Para permanecer fiel ao espírito da proposta, a organização do documento adotará função uma seqüência de questões inter-relacionadas, estabelecidas em do tema geral adotado para o volume do ano. Abandona-se, em decorrência o tradicional formato setorial, que divide os capítulos em função do objeto de análise - o econômico, o social, o institucional - para privilegiar a compreensão das múltiplas inter-relações que se estabelecem entre eles e a importância dessa abordagem para os objetivos do projeto. Assim, e tendo em vista que o tema central do volume deste ano é a retomada do crescimento, com foco na inclusão social, nas perspectivas dos jovens e no futuro do país, o trabalho deverá ser organizado em tomo das seguintes questões (cada uma delas deverá compor um capítulo do livro): 4.1- Os Desafios do Desenvolvimento no Mundo Globalizado Explorar os desafios do desenvolvimento brasileiro à luz da nova ordem mundial, marcada pela liberalização comercial e financeira e pela formação de blocos regionais. Enfatizar o caráter incerto e recorrente de crises que demandarão a .. continuidade dos esforços voltados para a blindagem do país e para a remoção dos entraves à competitividade interna e internacional. 4.2- Estabilidade ou Crescimento: Um Falso Dilema Destacar a importância da estabilidade macroeconômica e institucional para a geração de bases sólidas para o crescimento da economia. A consolidação de um ambiente favorável para a elevação da taxa de investimentos para patamares compatíveis com a sustentação de índices de crescimento superiores a 5% nos próximos microeconômicos anos. Aprofundar o entendimento do crescimento (aspectos institucionais. dos requisitos Continuidade dos esforços de ampliação da inserção externa e de melhoria de produtividade e competitividade. Distribuição de renda e crescimento. 4.3- As Múltiplas Faces da Exclusão Social Revelar a diversidade de causas da exclusão social e a insuficiência de abordagens de propugnam uma ênfase exclusiva na focalização das políticas sociais. Direitos universais, derivados da cidadania, e demandas assistenciais. Explorar os motivos da reversão da tendência a sucessivos avanços no sentido da mobilidade social (os jovens de hoje em dia já não têm expectativas de alcançarem uma situação melhor do que a desfrutada por seus pais). Novas características do mercado de trabalho e os requisitos de empregabilidade da força de trabalho. Necessidade de adaptação do sistema educacional e das políticas de qualificação profissional. 4.4- Democracia, Cidadania e Inclusão Social Explorar a importância do fortalecimento das instituições democráticas para o sucesso de uma proposta de crescimento com aumento da inclusão social. Comparar a participação por meio dos mecanismos de representação social com o crescente reforma movimento de mobilização popular. Discutir a importância da política representatividade para o aperfeiçoamento das da sociedade da democracia na formulação e a maior e implementação das políticas públicas. 4.5- Conhecimento e Inovação: O Caminho do Futuro Salientar a distância entre a capacidade do país em gerar conhecimento e a correspondente capacidade para transformar esse conhecimento em inovação de métodos e de processos produtivos. Explorar os motivos subjacentes e indicar as opções para reverter essa situação. A importância da inovação para o futuro do país. A inovação como eixo principal da nova proposta de política industrial. 4.6- Regionalismo, Integração e Metropolização: O Território e a Federação Analisar os impactos regionais da globalização economlcos regionais e suas conseqüências. e da formação de blocos Apontar as perspectivas de ampliação das disparidades regionais na ausência de novas estratégias. Mostrar a importância do entendimento da nova geografia econômica para o desenho desta estratégia. Destacar o caso especial das metrópoles e o papel das cidades mundiais na economia global. 4.7- Patrimônio e Valoração Ambiental A importância da desenvolvimento. preservação ambiental em uma nova estratégia de Análise de riscos ambientais. Meio ambiente e comércio internacional. Proteção, preservação e recuperação. Reciclagem industrial. 4.8-Responsabilidades do Estado, Cooperação Intergovernamental e Parcerias. As prioridades do Estado em uma nova etapa do desenvolvimento brasileiro '(educação, saúde, segurança-inclusive jurídica e infra-estrutura) e a importância da cooperação na federação eda formação de parcerias. Continuidade das reformas institucionais e do esforço de recuperação da capacidade de ação do Estado. Recuperação do investimento público e formação de parcerias públicoprivado. 5- EXECUÇÃO DO PROJETO Conforme mencionado, a execução do projeto requer a mobilização de uma equipe de colaboradores, internos externos, a quem caberá desenvolver estudos que permitam a abordagem interdisciplinar dos problemas do desenvolvimento. Para tanto é indispensável montar ema estrutura executiva que seja: • ágil, de modo a imprimir uma dinâmica compatível com prazos exíguos; • não burocratizada, pois a realização do projeto envolve imensa articulação institucional; • profissional, pois a adequada realização do projeto requer compromisso com o projeto e padrões técnicos amplamente reconheciqos; • multidisciplinar, para absorver o conhecimento gerado por profissionais de distintas áreas do conhecimento; ~ • pluralista, para lidar com a diversidade de pensamento existente na sociedade brasileira; • não partidária, para impedir que o trabalho seja apropriado por esse ou aquele partido que ocupe o governo em dado momento. Tendo em vista a dimensão do projeto, estimamos que a equipe técnica permanente deve ser composta, além do coordenador geral, de um coordenador assistente, um gerente administrativo e seis coordenadores temáticos. Para assegurar a diversidade de visões dos problemas, será importante, ainda, contar com dois consultores externos para cada um dos temas a serem tratados. Os coordenadores temáticos comporão, juntamente com o coordenador geral, o conselho editorial do projeto.