A (RE) PRODUÇÃO DO ESPAÇO URBANO: UMA ANÁLISE DAS AÇÕES DOS AGENTES PRODUTORES DO ESPAÇO TURÍSTICO NA CIDADE DE NATAL / RN Alexandre Alves de Andrade1 Paula Juliana da Silva2 Luane Karoline Assis Barbosa3 RESUMO: Fundada por interesses políticos e econômicos do Governo de Portugal, Natal foi se desenvolvendo sem nenhuma norma de ordenamento e planejamento. Estavam muito mais preocupados em demarcar terras do que, de fato, estabelecer critérios que trouxessem para a população um desenvolvimento urbano sustentável. Com a participação na Segunda Guerra Mundial, a cidade foi palco de uma significativa expansão urbana e uma elevada concentração da população na capital. Nesse contexto, a partir da década de 1970 o setor terciário apresenta uma significativa expansão. Com isso, muitos serviços e comércio foram surgindo e espalhando-se em determinados áreas da capital. Nesse contexto, a cidade de Natal consolida-se como uma cidade turística, principalmente por apresentar atributos naturais favoráveis para essa atividade. Assim, analisando o fortalecimento dessa atividade em Natal, foi proposta esta pesquisa com o objetivo de analisar as ações dos produtores do espaço urbano turístico e a segregação socioespacial ocasionada por esta atividade na Avenida Roberto Freire, no bairro de Ponta Negra, nas praias urbanas e Via Costeira. A metodologia utilizada para o desenvolvimento deste trabalho está pautada em pesquisas bibliográficas e visita in loco. Esperamos, assim, contribuir com as discussões sobre a temática estudada, bem como ampliar as análises a respeito da ação do turismo como a principal atividade econômica da cidade. PALAVRAS-CHAVE: Produção do espaço; Turismo e Segregação ANALYSIS OF TOURISM ACTIVITY AS MODELING OF THE URBAN AREA OF THE CITY OF NATAL / RN ABSTRACT: Founded by political and economic interests of the Government of Portugal, Natal has evolved without any provision for the development and planning. Were much more concerned to demarcate the land instead establish criteria that would bring the population to sustainable urban development. With participation in World War II, the city has witnessed a 1 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do RN/ E-mail: [email protected] Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do RN/ E-mail: [email protected] 3 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do RN/ E-mail: [email protected] 2 Número de ISBN: 978-85-61693-03-9 1 significant urban expansion and a high concentration of population in the capital. In this context, from the 1970s the service sector presents a significant expansion. With this so many services and trade have been rising and spreading in certain areas of the capital. In this context, the city of Natal is consolidated as a tourist town, mainly for natural attributes conducive to this activity. Thus, analyzing the strength of this activity in Natal, was proposed this research with the aim of analyzing the actions of the producers of urban space tourist and spatial segregation caused by this activity in the Avenues Roberto Freire, in Ponta Negra. The methodology used for the development of this work is guided by literature searches and in loco visit. We hope thus to contribute to discussions on the subject studied, as well as expanding the analysis on the effect of tourism as the main economic activity in the city. Keywords: Production of space; tourism and segregation 1- INTRODUÇÃO A Cidade do Natal foi fundada no ano de 1599, seguindo interesses políticoeconômico do Governo de Portugal. Durante muitos anos a cidade não passava de um povoado demarcado por cruzes, símbolo do poder administrativo e religioso que vigorava neste período. A cidade cresceu sem nenhuma preocupação de ordenamento, tão pouco de critérios que estabelecesse um desenvolvimento urbano sustentável. Sem tais critérios para seu ordenamento a cidade chega ao século XX com as mesmas características que apresentava no século XVIII. A partir da Segunda Guerra Mundial, Natal ganha impulso no seu desenvolvimento urbano seguindo a influência das Tropas Americanas que se instalaram em solo Potiguar. Segundo Ferreira apud Silva (2003) tal participação atraiu não só investimento em infraestrutura e modificações no modo de vida das populações, mas também inicia na cidade o Mercado de Terras com a criação dos primeiros loteamentos Tais modificações em um curto intervalo de tempo fizeram com que a cidade tivesse uma mudança em sua paisagem. Mudança essa, provocada pela grande concentração urbana, fazendo com que os órgãos oficiais consideram-se a cidade como tendo 100% de sua área urbana na década de 80. Consoante a realidade supracitada, nossa pesquisa tende a apresenta a ação unitária e conjunta dos principais agentes responsáveis pelas modificações no espaço urbano da Cidade do Natal, atualmente, em relação ao setor terciário fomentado em grande parte pelo turismo, a partir das ultimas décadas do século XX, e suas intervenções na população, principalmente Número de ISBN: 978-85-61693-03-9 2 nas camadas menos favorecidas, com a segregação do espaço. Destacaremos também, a atividade imobiliária como atração para o desenvolvimento destas ações. 2- A PRODUÇÃO DO ESPAÇO URBANO NATALENSE Antes de tecermos sobre o desenvolvimento desta pesquisa é importante compreender o que é espaço e como ele está configurado na cidade potiguar. Assim, o espaço é modelado conforme a ação dos agentes sociais nele inseridos, constituindo assim um processo de urbanização, seja através de expansão urbana ou através de melhorias em infra-estrutura. O espaço é um produto histórico-temporal impresso pelas marcas daqueles que o habitam, ou seja, a sociedade constrói seu próprio espaço. Para, Milton Santos (1997, pág. 71) “o espaço é o resultado da ação do homem sobre o próprio espaço”. Sendo assim, o espaço é moldado, não pelo desejo da coletividade, e sim na busca de suprir os interesses das classes hegemônicas guiadas pelo capitalismo que encontram forças na ação, principalmente, dos promotores imobiliários, do Estado e nos Empresários do setor de turismo, sendo este ultimo o principal agente (re)produtor do espaço urbano da cidade do sol. Neste contexto, sabe-se que a cidade de Natal desponta como uma cidade onde há um grande desenvolvimento do setor turístico, isso se dá, principalmente pelos seus atributos naturais e pela ação de alguns agentes produtores do espaço urbano na capital. Assim, percebe-se que nos últimos anos, essa ação vem se acentuando. A cidade passou a ser alvo de interesses dos grandes empresários do setor imobiliário e do Estado. Eles, por sua vez, investem seu capital nas áreas onde há uma melhor infraestrutura e um maior fluxo de turistas. No caso da cidade, nos corredores – Av. Roberto Freire, no bairro de Ponta Negra, entorno das praias urbanas e Via Costeira. Por outro lado, a população residente nestas avenidas e entorno sofrem com o aumento do padrão de vida, especulações imobiliárias e imóveis caros. Como ressalta Silva (2007, pág. 34) O entorno desse espaço turístico concentra uma diversidade de serviços, que se constituem desde supermercados a Shoppings Centers, como também, restaurantes, agências de viagens, entre outros serviços distribuídos ao longo da Avenida “Engenheiro Roberto Freire” (antiga Estrada de Ponta Negra), Número de ISBN: 978-85-61693-03-9 3 avenida esta que liga os bairros da região sul da cidade à praia de Ponta Negra. Neste contexto, o turismo passa a ser um dos principais responsáveis pela (re) ocupação dos espaços urbanos, bem como ditando sua funcionalidade e os direcionando a determinados seguimentos sociais, causando assim uma segregação socioespacial. Sendo estes espaços pensados, nos moldes capitalistas, pelos empresários do setor turísticos em parceria com os promotores imobiliários que exercem forte influência junto ao Estado. 3. OS AGENTES PRODUTORES DO ESPAÇO TURÍSTICO E SUAS IMPLICAÇÕES. Entre os principais agentes que atua no processo de (re) produzir o espaço urbano de acordo com Corrêa (1989) são: Os proprietários do meio de produção, os proprietários fundiários, os promotores imobiliários, o Estado e os grupos sociais excluídos, este ultimo, segundo ele, produz o espaço na medida em que constroem favelas e se apossam de terrenos públicos. Assim, percebe ainda que além desses agentes na cidade do Natal, em relação ao turismo temos a ação dos empresários envolvidos na atividade turística, que se apropriaram das belezas naturais locais para se desenvolverem, além dos turistas, nacionais e estrangeiros que são os principais beneficiados pela configuração espacial que a referida atividade se desdobra em elaborar. Diante disso, esse estudo limitará, conforme Silva (2007), em apresentar os principais agentes produtores do espaço turístico apenas, o Estado, os promotores imobiliários, os empresários do setor turístico e os próprios turistas. - O Estado - esse agente tem um importante destaque na produção do espaço turístico. Para Silva (2007, p.27); [...] enquanto produtor do espaço turístico, o Estado tende a atuar tanto como proprietário fundiário, concedendo terrenos públicos para implantação da atividade turística, como também, no papel de agente imobiliário, na implantação de infra-estrutura necessária para a atividade Assim, como protagonista do setor imobiliário ele age em parceria com outros agentes visando os interesses de ambos, ou seja, ele é o principal responsável por estimular mediadas Número de ISBN: 978-85-61693-03-9 4 que melhor beneficie a ação desse agente. Tais benefícios vão desde implantação de serviços públicos como: calçamento, água, esgoto, iluminação, coleta de lixo, etc., até melhorias viárias (CORRÊA, 1969, p.24). Sobre isso, relata Harvey (1981, p.54): Atualmente, é muito difícil que qualquer empreendimento imobiliário de grande escala ocorra sem contar com uma substancial ajuda e incentivo por parte do governo local ou por parte de uma ainda mais forte coalizão de forças que constituam a gestão local. Entretanto, o Estado também se beneficia com essa ação, pois passa a obter lucro através da cobrança de impostos e circulação do capital. - Os promotores imobiliários – esses agentes têm uma significativa importância no processo de produção do espaço turístico. São eles que produzem e fazem circular as mercadorias imobiliárias (FONSECA E COSTA, 2004). Enquanto produtores do espaço voltado para os turistas, eles são responsáveis por realizar diferentes atribuições, tais como: incorporação, financiamento, construção e corretagem imobiliária. É importante ressaltar que esses agentes podem, muitas vezes, desempenhar diversos papeis ao mesmo tempo, ou seja, um construtor pode desempenha o papel de incorporador ou promotor imobiliário ou pode agir financiando a forma de comercialização do imóvel. Desta forma, os incorporadores, enquanto promotores imobiliários atuam na promoção e incorporação do imóvel. São eles que adquirem o terreno estabelecendo programas para sua melhor utilização. Além de, tomar decisões quanto: a construção, a propaganda e a venda das unidades. Ademais, vale salientar que esses agentes não operam na construção do terreno, mas são responsáveis por coordenar a transformação do espaço urbano a ser ocupado. Por sua vez, as construtoras como promotores imobiliários têm seu papel de construir e buscar melhorias que permita a melhor utilização do espaço urbano. Sendo assim, essa função de construtor vai de acordo com normas estabelecidas pelos incorporadores, visto que são estes que contratam construtores para trabalharem na produção do imóvel. Os corretores também são considerados promotores imobiliários, na medida em que atuam na comercialização, entre os incorporadores e o comprador, do imóvel. Conforme Corrêa, (1969, p.21) são eles que transformam o capital-mercadoria em capital dinheiro. Número de ISBN: 978-85-61693-03-9 5 Além destas funções temos os financiadores que são responsáveis pelos investimentos provenientes de pessoas físicas e jurídicas que aliados aos incorporadores visam à comprar do terreno e a construção do imóvel. Diante das funções apresentadas acima, abordaremos, mais precisamente, a ação desses agentes, bem como suas conseqüências na reprodução do espaço urbano na cidade de Natal. É nítido que essas ações ocorrem, praticamente, por toda a cidade, mas com maior destaque para as áreas onde a atividade turística é mais acentuada, ou seja, na zona sul da cidade. Destaque para o bairro de Ponta Negra e Cidade Alta. É nessa parte onde estão concentrados o maior fluxo de turistas estrangeiros e a maior renda per capita da cidade. Segundo dados da SEMURB (2007) as pessoas que lá residem ganham em media 11(onze) salários mínimos. Com isso, essas áreas tornam-se cada vez mais valorizadas e os promotores imobiliários juntamente com o poder público voltam-se, totalmente, seus olhares para essas áreas. Por outro lado, não há nenhum interesse dos promotores imobiliários em atuar na produção de imóveis para as classes menos favorecidas. Isso se dever ao fato dessas áreas possuírem baixos níveis de salários. Em Natal, estas classes estão concentradas, mais precisamente, na zona norte e oeste da cidade (SEMURB, 2007). Diante disso, cresce o número de pessoas que não tem acesso à casa própria ou até mesmo não tem condição alguma de pagar um imóvel. Neste caso vão formando favelas e cortiços sem nenhuma infra-estrutura decente de moradia. Acarretando, com isso, a segregação da cidade. Porém, os promotores a fim de atender essa parte da população utilizam-se de algumas estratégias, tais como: à produção de residências para satisfazer a demanda solvável e a obtenção de ajuda da parte do Estado no sentido de tornar viáveis as construções de residências para as camadas populares, com créditos para os promotores imobiliários e créditos para os futuros moradores (CORRÊA, 1969, p.22). - Os empresários do setor turístico – eles fazem com que o setor de serviços ganhe um maior destaque, principalmente, porque atuam na implantação de estabelecimentos - hotéis, pousadas, restaurantes, agências de turismos - infra-estrutura e equipamentos turísticos. Diante disso, pontua Silva (2007, p.27): “esses empresários atuam no sentido de buscar junto Número de ISBN: 978-85-61693-03-9 6 ao Poder Público, benefícios para a atividade e captar investimentos para o setor turístico, organizando-se na forma de associações”. - Os turistas - Conforme Silva (2007, p.26): [...] “cabendo a estes a função de serem os consumidores, por excelência, do espaço turístico, e para quem a urbanização turística se destina, sendo responsáveis diretamente pela criação de novos destinos e atrações turísticas, através da exploração de suas motivações pelo mercado turístico” Diante disso, percebe que os turistas participam da produção do espaço urbano turístico na medida em que são os principais sujeitos na qual a atividade turística direciona seus investimentos. Principalmente, os agentes do setor imobiliários e os empresários do setor turístico. 4. O TURISMO COMO ATIVIDADE DE SEGREGAÇÃO EM SOLO POTIGUAR Conhecida como Cidade do Sol, Natal se configura como uma cidade turística por apresenta cerca de 300 dias de insolação, clima sub-úmido com temperatura agradável e média de 25ºC anual, belas praias e dunas, e gente acolhedora. Como aponta Silva (2007, pág. 34) o modelo da atividade turística apresentado em Natal se baseia na exploração de belezas naturais, praia e sol. Tais características fazem da cidade um local apto para o desenvolvimento da atividade turística, trazendo consigo os interesses de um grupo seleto, que busca áreas para investimentos, principalmente, no setor imobiliário, impulsionados pelos espaços destinados a atividade turística. Nos últimos anos todos os agentes produtores do espaço, utilizaram-se dessa atividade para moldar o espaço urbano da cidade. Diversos investimentos públicos e privados transformaram a pacata cidade litorânea em centro turístico mundial, cobiçado, principalmente, por incorporadores estrangeiros. Tais modificações no espaço urbano é fruto de um processo histórico, repleto de conflitos ideológicos que marcam visivelmente todas as regiões da cidade. Abordaremos, a seguir, as principais ações desenvolvidas pelos agentes (re) produtores do espaço urbano natalense. Em 1978 o governo do Rio Grande do Norte a fim de promover a produção e venda de imóveis, e atrair os turistas estrangeiros para a capital, implantou o Plano Urbano Turístico Número de ISBN: 978-85-61693-03-9 7 para a construção da Via Costeira. Sendo esta considerada um marco no desenvolvimento do turismo em Natal. Cujo projeto denominado de “Parque das Dunas/Via Costeira” – PD/VC estava inserido nas políticas pública dos Mega projetos. Nos anos 90 a cidade começou a se destacar em relação ao turismo regional e nacional. Foi nesse período que a capital incorpora suas áreas no PRODETUR-NE (Programa de Desenvolvimento do Turismo no Nordeste), principalmente as áreas litorâneas. Os investimentos do PRODETUR-NE consolidaram as obras de infra-estrutura na orla potiguar, sendo as áreas da praia de Ponta Negra e a Via Costeira, as beneficiadas (SILVA, pág. 30). A partir desse período, a cidade começa a presenciar mudanças em sua paisagem urbana. Percebe-se nas construções verticais mais acentuadas na zona sul e centro, aonde as construções horizontais vão cedendo lugar a novos empreendimentos imobiliários. Bem como, a presença de empresários ligados ao setor de turismo (donos de hotéis, pousadas, bares e restaurantes). Neste momento a cidade passar a dispor de espaços destinados aos turistas e com isso os moradores locais ficaram as margem do processo de urbanização pelo qual passou esta área. Complementa Fonseca (2005, pág. 131) apud Silva (2007, pág. 31) que: A partir da melhoria do produto turístico potiguar, propiciada pelos investimentos do PRODETUR/RN, ocorreu um aumento do fluxo de turistas internacionais e as redes hoteleiras internacionais passaram a se instalar no Rio Grande do Norte, como por exemplo, o Grupo Pestana (português). Destacamos que as políticas para desenvolvimento do turismo ocorrido em Natal, processadas pela política dos megas projetos turísticos que possibilitou a criação da Via Costeira, com o PRODETUR-NE/RN privilegiando a infra-estrutura básica consolidaram o produto turístico da cidade do sol. Os investimentos a cima citados geraram a especificidades de determinadas áreas da cidade, dotando-as de uma infra-estrutura de comércio e serviços como: hotéis, motéis, bares, restaurantes, locadoras de carros dentre outros. Estas ações, no entanto, não se processaram com a mesma intensidade por toda a cidade. Tais investimentos inseriram Natal no processo de globalização, consolidando a cidade no circuito internacional do Turismo com aponta Silva (2007). Assim o turismo também impulsiona um mercado imobiliário para suprir as necessidades locacionais para estadia dos turistas nacionais e internacionais. Número de ISBN: 978-85-61693-03-9 8 Constatamos a ação conjunta do Estado, fomentado políticas para implantação da atividade turística, e dos empresários do setor de turismo, que determinaram as áreas nas quais a atividade iria se desenvolver e consolidar- se, ditando desta forma novas funcionalidades dos lugares em nossa cidade. Neste contexto destacamos a Avenida Engenheiro Roberto Freire, que até a década de 1990 constituía apenas via de acesso da região administrativa sul as demais regiões da cidade. Porém a partir desse período a Avenida, já referenciada, passa a ser dotada de uma rede, conectada e articulada, de serviços que congregar uma gama de variedades. Atento a estas transformações que se processavam em Ponta Negra, onde se situa a Avenida supracitada Neverovsky (2005) apud Silva (2007, pág. 35) destaca: [...] o espaço turístico em Ponta Negra passou a atrair investidores do Setor de Serviços (hoteleiro, restaurantes, bares, boates, agências de viagem, etc), ligados à atividade, contribuindo para a firmação dessa área enquanto espaço turístico por excelência, com a oferta de variados serviços ligados ao entretenimento, contribuindo, assimpara o local, a imagem do mais novo ‘point’ da vida noturna da cidade. É importante salientar que essa atividade não agir de modo igualitário no espaço urbano, pois os investimentos e incentivos públicos e privado, estão voltados para as áreas do litoral da cidade – especificamente para os bairros situados na região administrativa sul. Enquanto que na zona norte e oeste da cidade esses investimentos, quase, não existem. O que resulta na segregação das classes sociais menos favorecidas da cidade, que não tendo acesso a estes espaços, pois a freqüentação a está áreas bem como aos empreendimentos que estão ai localizados requer certo poder aquisitivo, o que por sua vez torna as áreas ditas publicas como as praias, por exemplo, em áreas privadas. Segue algumas reflexões sobre o turismo nas praias urbanas da cidade de Natal 4.1 O TURISMO NAS PRAIAS URBANAS E A VIA COSTEIRA Ao longo do tempo a realidade cotidiana das praias urbanas de Natal tem se modificado mediante ao papel reconfigurativo do capitalismo. Outrora, praias que desempenhavam um Número de ISBN: 978-85-61693-03-9 9 papel de ambiente característico da classe média, hoje representam o modo de habitar e suas intrínsecas funções das classes mais baixas. Um exemplo bastante contundente são as praias do Meio e da Redinha. A praia do meio particularmente abriga, ainda que desativado, um dos grandes colossos do turismo em Natal: o hotel Reis Magos. Tempos atrás este desempenhava um papel estratégico para o turismo na orla leste urbana, beneficiada por suas belezas naturais e posição privilegiada próximo as principais vias de acesso da cidade. Porém, tendo à classe média eleito a praia de Ponta Negra como “novo point”, mesmo diante das mazelas sociais como drogas, prostituição, assaltos e etc., tal espaço tornou-se um protótipo da classe pobre. Vale salientar, que tais ações foram fomentadas por iniciativas do Estado e executada pelos empresários do setor turístico e promotores imobiliários. A praia da Redinha, antiga vila de pescadores, atrai freqüentadores de menor poder aquisitivo. Apesar das reformas feitas pelo governo e a construção da ponte Newton Navarro, tal característica continua preservada. Ponta Negra, pelo contrário, após eleita pela classe média ao longo do tempo recebeu estratégica infra-estrutura e hoje abriga um público seleto. Por mais incrível que possa parecer a praia de Ponta Negra não é lugar para o pobre. Conviver nos ambientes e arredores da praia tem um custo alto e padrões diferentes de cultura, comportamento e convivência. Ou seja, o capitalismo mostra sua face desigual e combinada ainda que de forma “indireta”. Ponta Negra é o lugar do turista estrangeiro, lugar onde o turismo sexual ganha projeção e articula em seu processo expansivo o tráfico de drogas e a criminalidade. A Via Costeira configura-se como o papel impulsionador do turismo. Sua construção realmente projetou a cidade a um dinamismo no setor terciário, abrindo um leque de investimentos. O capital internacional evidencia-se nos grandes complexos turísticos como hotéis e resorts, nas parcerias com o governo e empresários locais. A Via Costeira é o palco do capitalismo, é o espaço da classe rica que ao longo do tempo tem adquirido características privadas. A população local não é interessante a estes lugares, ela é paradoxal a infra-estrutura instalada. E os grandes empresários detentores de tal opinião buscam formas de segregar ainda mais tal espaço, como por exemplo, cercando toda área e inibindo o acesso as praias próximas aos complexos turísticos. Número de ISBN: 978-85-61693-03-9 10 Diante de tais aforismos percebemos o quanto habitar e pertencer são coisas totalmente distintas. Sendo o capital excludente, este busca formas particulares de organizar os espaços e estabelecer regras segregacionistas que ao longo do tempo se solidificam em verdades absolutas. CONSIDERAÇÕES FINAIS É nítido que a cidade está passando por transformações significativas em seu espaço urbano, sendo estas moldadas de acordo com os interesses dos agentes sociais – neste caso os promotores imobiliários e os empresários do setor de turismo - que atuam de modo desigual no espaço. Basta fazer um passeio na cidade para vermos a segregação sócio-espacial que esses agentes vêm causando. Há, no entanto, uma dicotomia. De um lado da cidade, presenciamos a construção de imóveis voltados, exclusivamente, para as classes ricas e para os turistas estrangeiros, acarretando a expulsão da população e comerciantes locais com a alta especulação de imóveis. E do outro, a expansão, cada vez mais acentuada, de favelas em áreas de proteção ambiental, áreas disputadas entre os empresários do setor imobiliários e dos agentes sociais excluídos por constituírem os únicos lugares disponíveis para a expansão imobiliária, além da posse de terrenos em áreas de risco por parte destes últimos. É importante também destacar a passividade do governo e a burlagem, por parte dos empresários, em relação à construção de empreendimentos em áreas de proteção ambiental, onde, muitas vezes, construtoras sem nenhum critério usufruem desses espaços visando, sobretudo, o seu lucro desmedido. Diante disso, quem mais é afetado por essa ação é a população que reside próximo a essas áreas e que muitas vezes, são forçadas a saírem de suas residências para simplesmente satisfazer os desejos incomensuráveis das classes capitalistas dominantes do espaço urbano natalense. Número de ISBN: 978-85-61693-03-9 11 REFERÊNCIAS CORRÊA, Roberto Lobato. Espaço Urbano. Ática. SP. 1969. FONSECA, M.A. P; COSTA, A.A. A Racionalidade da Urbanização Turística em Áreas Deprimidas: O Espaço Produzido para o Visitante. Natal: EDFURN, 2004. HARVEY, David. Do Gerenciamento ao Empresariamento: a Transformação da Administração Urbana no Capitalismo Tardio. Revista de Estudos Regionais e Urbanos. SP. 1981. LIMA, Natal Século XX: Do Urbanismo ao Planejamento Urbano. Natal: EDUFRNEditora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. 2001. MOTA, A. A; MENDES, C. M. Considerações Sobre as Estratégias e Ações dos Promotores Imobiliários na Produção do Espaço Urbano. 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