XIII Encontro de Iniciação Científica
IX Mostra de Pós-graduação
06 a 11 de outubro de 2008
BIODIVERSIDADE
TECNOLOGIA
DESENVOLVIMENTO
EPH0113
MANIFESTAÇÕES CULTURAIS DEVOCIONAIS EM PARAIBUNA-SP:
COMUNICAÇÃO E TRADIÇÃO
SILVA, LETÍCIA F.¹*
ORIENTADOR: MS. ANDRÉ LUIZ DA SILVA¹
¹ UNIVERSIDADE DE TAUBATÉ –
DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL
*[email protected]
RESUMO
Esta pesquisa tem como objeto de estudo as formas populares de comunicação existentes no
interior de um grupo de folguedo popular conhecido por Moçambique, localizado na cidade de Paraibuna.
O objetivo geral dessa pesquisa é mapear os grupos de folguedos populares existentes em Paraibuna e
realizar um estudo de caso com o Batalhão de Moçambique do Bairro Alferes Bento, por ser este, um
grupo representativo das características culturais singulares da cidade. O objetivo específico é definir
como é a comunicação interna do grupo, como é a comunicação com outros grupos e como é a
comunicação com o Poder Público Local. Definiremos também se é apenas o Mestre do Moçambique o
responsável por esse processo ou se há outros atores que desempenham este papel. A metodologia
utilizada para a realização dessa pesquisa é a etnografia, abordando o problema em três dimensões:
perguntamos aos sujeitos o que eles fazem, observamos o que eles fazem e perguntamos às pessoas o
que elas pensam sobre o que fazem. A descrição tradicional do folguedo Moçambique contém elementos
que podem ser identificados no Batalhão estudado, como a devoção a São Benedito e Nossa Senhora do
Rosário. Concluímos que o Batalhão é um grupo tradicional do catolicismo popular brasileiro. Pode-se
perceber, no entanto, que os integrantes do grupo admitem a mudança como algo natural para a
sobrevivência e não vêem nela algo prejudicial para o desenvolvimento do grupo.
Palavras chave: cultural popular, comunicação popular, moçambique.
INTRODUÇÃO E OBJETIVOS
Este projeto tem como tema principal o estudo das formas populares de comunicação existentes
no interior de um grupo de folguedo popular. Esta manifestação típica da cultura caipira do estado de São
Paulo é especialmente encontrada no vale do Paraíba, SP. A cidade de Paraibuna, com mais de
dezesseis mil habitantes em 2007, está localizada entre São José dos Campos e Caraguatatuba (no litoral
norte de São Paulo). A cidade possui uma Fundação Cultural (F. C. “Benedicto Siqueira e Silva”) que se
responsabiliza pelos projetos culturais do município. Nas diretrizes da FCBSS, uma atenção especial é
devotada à cultura popular tradicional e às manifestações culturais típicas da cidade. No Vale do Paraíba,
o Moçambique, como outras manifestações tradicionais, vem passando por um processo de grandes
transformações, provocadas, principalmente, pelos meios de comunicação de massa e pelo
reordenamento dos investimentos públicos na área (cf. LOPES, 2006).
A comunicação é um produto funcional da necessidade humana de expressão e relacionamento e
não existe por si mesma, como algo separado da vida da sociedade. Sociedade e comunicação são uma
coisa só. Não poderia existir comunicação sem sociedade, nem sociedade sem comunicação
(BORDENAVE, 1996, p. 45 e 16). Os membros de uma mesma sociedade compartilham idéias,
experiências e sentimentos através da comunicação, portanto, a cultura só existe e se transforma porque
há comunicação.
Se é verdade que a cultura se processa pela comunicação, não podemos esquecer que, a
comunicação social é um fenômeno cultural, sem a aquisição da cultura, isto é, sem a significação
partilhada, o único meio de comunicação entre dois indivíduos seria a transmissão de informações
genéticas, biológicas. Por isso, outro conceito importante para a realização deste estudo é o de cultura.
Em sua definição antropológica clássica, cultura é toda produção humana, material e simbólica,
que é transmitida de geração a geração, através do processo de aprendizagem. Nesta acepção, cultura
são os objetos, os costumes, as crenças, os valores, as práticas que um indivíduo adquire pelo fato de
viver numa sociedade. Tudo que é produzido pelo homem e é comunicado/transmitido aos seus
descendentes é cultura (cf. LARAIA, 1999). Porém, isto ainda não diz tudo sobre o que é a cultura. Pois
ela também é todo o modo de vida de um povo, e mais importante, a natureza, o universo, que não foi
produzido pelo homem só pode ser lido (isto é, apropriado) por meio da cultura. Assim, Laraia (1999) vai
afirmar que a cultura é como um óculos que os grupos utilizam para ver a realidade, para ordenar o
universo. Esta concepção nos remete para a questão do significado e isto implica entender a cultura não
mais apenas como uma coisa, mas também como um processo. Portanto, cultura é um processo através
do qual o homem dá significado à realidade: à natureza, às relações sociais e a si próprio (cf. LARAIA,
1999).
A ciência em que o conceito de cultura tem sido mais debatido e ressignificado é a antropologia.
Condensando o debate no interior da antropologia, Laraia (1999) afirma que, no século XX, o conceito de
cultura passou a incorporar a dimensão simbólica inerente à condição humana, nesta visão, cultura é o
processo pelo qual os homens dão significado àquilo que fazem. Ela é considerada um processo inerente
a todas as relações e comportamentos humanos. Ou seja, além de produto da atividade humana, a
cultura é produtora deste mesmo ser humano. Neste sentido, todos os seres humanos possuem cultura.
Este seria o conceito antropológico de cultura.
Entretanto, é profícua a discussão sobre o conceito de cultura popular, pois existe na sociedade
um uso do conceito de cultura que opõe cultura erudita/oficial e cultura popular, cuja definição
antropológica mais geral pode não revelar.
Para Antonio Augusto Arantes (2004), muitos autores pensam a “cultura popular” como “folclore”,
ou seja, práticas e concepções consideradas tradicionais e que existem da mesma maneira no presente
como no passado. Tratar a cultura popular como folclore representa que ela não se modifica e qualquer
modificação seria empobrecedora. Para Paula Montero (2003), a noção de tradição acaba levando os
críticos a adotarem-na como sinônimo de cultura.
Há também uma confusão entre cultura popular e cultura de massa, que tende a considerar aquilo
que é popular como expressão da cultura de massa: simplificação padronizada de padrões culturais “mais
elevados” difundidos em larga escala (cf. BOSI, 1991). Entendemos que a cultura popular não é nem
folclore, nem cultura de massa. Ela não diz respeito só ao passado, nem significa que tem difusão em
larga escala na sociedade contemporânea. Ela até pode ser tradicional ou ter ampla difusão através da
indústria cultural, mas não se reduz a isto (cf. GARCIA CANCLINI, 1987). A cultura popular diz respeito a
questões contemporâneas, forma uma totalidade que agrega um feixe de expressões que abarcam
elementos da tradição, do presente, dos meios de comunicação social, da religiosidade, do local, da
memória coletiva e da história de vida dos seus portadores.
O popular não deve ser tratado como algo tradicional e imutável, pois está em constante
mudança. A cultura popular,como qualquer outra cultura, é dinâmica e criativa. (cf. LARAIA, 1999;
ARANTES, 2004; MONTERO, 2003; GARCIA CANCLINI, 1987).
O fato de que grupos tradicionais possam ser identificados não implica em dizer que eles não se
transformem, que não tenham sua dinâmica. A cultura tem na mudança seu aspecto fundamental, por
isso, nada do que é cultural pode ser definido como algo pronto e acabado. É possível preservar versos,
danças, gestos, movimentos, objetos e outras características exteriores, porém é impossível evitar a
mudança pois mesmo que sejam preservados os símbolos, o contexto em que eles são utilizados se
altera: “Embora se procure ser fiel à ‘tradição’, ao ‘passado’, é impossível deixar de agregar novos
significados e conotações ao que se tenta reconstruir. Isso é inevitável, porque a própria reconstituição é
informada por e é parte de uma reflexão sobre a história da cultura e da arte que, em grande medida,
escapa aos produtores ‘populares’ de cultura.” (ARANTES, 2004, p.19).
Objetivo geral: realizar um estudo de caso com o “Batalhão de Moçambique São Benedito e
Nossa Senhora do Rosário do Bairro Alferes Bento”, por ser este, um grupo representativo das
características culturais singulares da cidade. Ele é, hoje, o mais antigo e o melhor estruturado Batalhão
de Moçambique em atividade na cidade. Para a realização desse projeto foi necessária a discussão dos
conceitos de comunicação e comunicação popular.
Objetivos específicos: definir como é a comunicação interna do grupo, como é a comunicação
com outros grupos tradicionais locais e como é a comunicação com o Poder Público Local. Discutir a reelaboração do papel e do significado do mestre de Moçambique na contemporaneidade.
METODOLOGIA
A metodologia utilizada para a realização dessa pesquisa é a etnografia, abordando o problema
em três dimensões. Inicialmente, perguntamos aos sujeitos pesquisados o que eles fazem; a seguir,
observamos o que eles realmente fazem; e finalmente, perguntamos às pessoas o que elas pensam
sobre o que fazem (qual o significado que elas dão ao que fazem). Realizamos uma comparação para
verificar se o que eles disseram é o que eles fazem. Para isso observamos o grupo e fizemos algumas
entrevistas para embasar a discussão sobre os processos de comunicação no grupo de Moçambique.
Foram realizadas três entrevistas com pessoas representativas do grupo, cinco observações de
apresentações e uma visita a mestres de moçambiques de bairros distantes do centro. A intenção é
caracterizar a representação dos integrantes do grupo sobre sua atividade e entender como essa
construção relaciona-se com as formas de comunicação próprias do grupo.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
O Batalhão do Alferes Bento possui 37 integrantes, sendo 9 crianças e 28 adultos (5 destes
afastados por problemas de saúde ou por outros motivos). O mestre do grupo é responsável por conduzir
o canto e toca caixa quando algum tocador falta nas apresentações. De sua família, sua filha, esposa, pai,
mãe, irmã e sobrinho participam do Batalhão.
Há integrantes que já estavam no grupo antes do atual mestre começar a dançar. Algumas
pessoas que estão atualmente, pediram para participar após assistirem a uma apresentação. Outros
integrantes participam do grupo por outros motivos ou por participarem do grupo de Folia de Reis ou da
Dança de São Gonçalo. O atual mestre do moçambique também é mestre da Folia de Reis, Folia do
Divino e Dança de São Gonçalo, além de liderar um grupo de forró e música sertaneja caipira.
Em 2007, o mestre do Batalhão do Alferes Bento enviou um projeto ao PAC (Programa de Ação
Cultural da Secretaria do Estado da Cultura), participando do concurso de apoio a projetos de promoção
da continuidade das culturas tradicionais. Foi contemplado com R$10.000 para investir e estimular os
moçambiques de Paraibuna. Com essa verba, ele compra roupas e instrumentos para três moçambiques.
O objetivo desse projeto foi o de possibilitar que os Batalhões dos bairros Remedinho dos Prazeres e
Ribeirão Branco retomassem suas atividades de maneira integral, uma vez que, por falta de equipamento,
esses grupos deixassem de realizar apresentações. Ele também pretende estimular a continuidade do
Batalhão do Alferes Bento, do qual já renovou quase todas as roupas e acessórios.
Durante as observações pode-se perceber que as pessoas do grupo são descontraídas durante
as viagens e antes das apresentações. Conversam sobre assuntos pessoais, brincam umas com as
outras, cantam e se divertem. Porém, após colocarem as fitas e acessórios da dança e escutarem o apito
do mestre a postura muda. Ficam mais sérios e vão se organizando para a reza antes da dança.
Na análise das entrevistas, em alguns aspectos, como a devoção a São Benedito todos tiveram
respostas parecidas. Quando perguntadas sobre o papel da Fundação Cultural elas também tiveram
discursos semelhantes. Para a coordenadora da comissão municipal de folclore e tradição popular: “até
então andávamos paralelos à Fundação Cultural. Nós não tínhamos acesso lá dentro.” Para a mãe do
mestre: “Agora tá bom, antes a gente não podia entrar lá dentro. Agora, a gente chega, pode entrar, pode
olhar.”
Em outros aspectos, as respostas foram diferentes. É o caso da participação de jovens no grupo.
Para a coordenadora de folclore e tradição popular, as crianças que estão atualmente no grupo quando
ficarem jovens irão continuar, basta dar incentivo e dizer que eles fazem parte do grupo. Mas, para a mãe
do mestre: “essa criançada, na hora que arruma namorada eles cai fora”. Na saída do grupo para a
apresentação no evento Revelando Vale do Paraíba uma das crianças, com cerca de 10 anos, disse que
não iria dançar mais com o grupo, pois sentia preguiça. Uma das meninas que entraram pela primeira vez
na Festa de São Benedito, já não foi na próxima apresentação, por falta de interesse. Outra criança, com
12 anos, parou de acompanhar o grupo, pois começou a trabalhar nos finais de semana.
O mestre do Batalhão é o mediador da comunicação interna do grupo e com a sociedade. Ele é o
responsável por avisar os integrantes do grupo as datas das apresentações, seja por telefone ou
pessoalmente. Nas apresentações em Paraibuna e em outras cidades, o mestre busca o contato com os
representantes do evento e com outros mestres de grupos participantes. Com relação ao contato com o
poder público, é ele o principal responsável por solicitar o transporte para o grupo e cobrar o apoio.
Durante a dança, é o mestre que organiza o grupo e dá o sinal (com um apito) para que o grupo cante ou
encerre uma coreografia. Na maioria dos casos, a coordenadora da comissão de folclore e tradição
popular, contribui para esses processos de comunicação, por ter bom relacionamento com todos os
integrantes do Batalhão e com os representantes do Poder Público Local.
A descrição tradicional do folguedo moçambique contém elementos que podem ser identificados
no Batalhão de Moçambique do Alferes Bento, como: o grupo é formado por duas fileiras, ou alas,
conforme a coreografia; os integrantes usam um boné sem aba com fitinhas ou medalha de santos na
cabeça, fitas cruzadas nos ombros e guizos amarrados abaixo dos joelhos; os movimentos da coreografia
se fazem sempre com o manejo dos bastões que, ao serem batidos pelos integrantes do grupo, servem
também como instrumentos rítmicos; os participantes dançam e cantam ao mesmo tempo, abordando
assuntos religiosos, acompanhados por diversos instrumentos musicais; junto aos tocadores, vem a
bandeira, com as imagens de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário. (cf. IKEDA; PELLEGRINI
FILHO, 2004, p. 202).
CONCLUSÕES
O fato de que o Moçambique se apresente como um grupo tradicional e que de fato possa ser
identificado como tal pela população da cidade, não implica dizer que eles não se transformem, que não
tenham sua dinâmica. Como vimos, a cultura tem na mudança seu aspecto fundamental, por isso, nada
do que é cultural pode ser definido como algo pronto e acabado. Como afirma Garcia Canclini, é possível
preservar versos, danças, gestos, movimentos, objetos e outras características exteriores, porém é
impossível evitar a mudança,pois mesmo que sejam preservados os símbolos, o contexto em que eles
são utilizados se altera. Na mesma linha, Arantes irá dizer: “Embora se procure ser fiel à ‘tradição’, ao
‘passado’, é impossível deixar de agregar novos significados e conotações ao que se tenta reconstruir.
Isso é inevitável, porque a própria reconstituição é informada por e é parte de uma reflexão sobre a
história da cultura e da arte que, em grande medida, escapa aos produtores ‘populares’ de cultura.”
(ARANTES, 2004, p.19).
A descrição tradicional do folguedo Moçambique contém elementos que podem ser identificados
no Batalhão de Moçambique do bairro Alferes Bento. A devoção a São Benedito e Nossa Senhora do
Rosário pode ser identificada em várias situações. Nas entrevistas, as pessoas também citam a devoção
interferindo na vida pessoal. O Batalhão do Alferes Bento é formado por pessoas com idéias diferentes,
mas que se juntam por serem devotos de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário. Pode-se concluir,
portanto, que o Batalhão é um grupo tradicional do catolicismo popular brasileiro. O popular não deve ser
tratado como algo tradicional e imutável, pois está em constante mudança. Nas entrevistas, observações
e primeiras análises pode-se perceber que os integrantes do grupo estudado admitem a mudança como
algo natural para a sobrevivência e não vêem nela algo prejudicial para o desenvolvimento do grupo.
REFERÊNCIAS
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