ARS VETERINARIA, Jaboticabal, SP, Vol. 18, nº 2, 167-173, 2002.
ISSN 0102-6380
EFEITO DA HIDRÓLISE COM NaOH SOBRE A
DIGESTIBILIDADE IN VITRO DA MATÉRIA SECA DA
CANA-DE-AÇÚCAR (Saccharum officinarum L.)
(EFFECT OF SODIUM HIDROXIDE TREATMENT ON IN VITRO
DIGESTIBILITY OF DRY MATTER OF SUGARCANE)
M. D. S. OLIVEIRA1, M. A. A. QUEIROZ2, E. CALDEIRÃO3, V. BETT4, G. M. RIBEIRO2
RESUMO
O objetivo do trabalho foi avaliar o efeito de diferentes níveis de NaOH sobre a digestibilidade in vitro da matéria
seca ( DIVMS) da cana-de-açúcar (Saccharum officinarum L.). Utilizou-se cana-soca (2O corte), submetida a picagem e a
hidrólise (fermentação durante 24 horas) com os níveis de zero; 1,0; 1,5 e 2,0% de NaOH. Utilizou-se o delineamento
inteiramente casualizado com quatro tratamentos e dez repetições. A DIVMS foi obtida por meio de fermentador ruminal
ANKOM®. Houve diferença significativa entre os coeficientes de digestibilidade in vitro da matéria seca (DIVMS) da
cana-de-açúcar, sendo obtidas as médias de 60,03; 60,63; 64,31 e 63,07%, respectivamente, nos níveis de zero; 1,0; 1,5 e
2,0% de NaOH (p<0,01). Observou-se aumento na DIVMS (p<0,01) quando a cana-de-açúcar foi hidrolisada com os
níveis de 1,5 e 2,0% de NaOH, respectivamente, de 6,07 e 4,02% em relação ao nível zero de NaOH (p<0,01).
PALAVRAS-CHAVE: Bovino. Nutrição animal. Tratamento químico. Volumoso.
SUMMARY
The purpose of this study was to evaluate sugarcane (Saccharum officinarum L.) based on in vitro digestibility of
dry matter (IVDDM). The sugarcane treated with zero; 1.0; 1.5 and 2.0% of sodium hidroxide levels corresponding respectively N0; N1,0; N1,5 and N2,0 treatments. The IVDDM were obtained through “in vitro” digestion assay (ANKOM® ruminal
fermentation). The research was carried in completely randomized design, with four treatments and ten replications. The
results showed high coefficients of IVDDM of the different treatments and there were significant differences among NaOH
levels (p<0.01). The means for IVDDM were: 60.03; 60.63; 64.31 and 63.07% for the zero; 1.0; 1.5 and 2.0% of the
sodium hidroxide, respectively. It was observed a superiority of 6.07 and 4.02% in IVDDM for the N1,5 and N2,0 treatments
respectively compared to N0 treatment (p<0.01).
KEY-WORDS: Animal nutrition. Bovine. Chemical treatment. Roughage
1 Zootecnista Doutor do Departamento de Zootecnia da FCAV/Unesp Campus Jaboticabal. Via de Acesso Prof. Paulo D.Castellane,
s/n, CEP 14884-900. Jaboticabal, SP. E-mail: [email protected]. Pesquisador do CNPq.
2 Estudante do Curso de Zootecnia. FCAVJ/ Unesp. Bolsista da PAE
3 Técnico da Hidrocana – Faz. Santa Cruz.
4 Estudante do Curso de Pós-graduação em Produção Animal, FCAVJ/ Unesp.
167
OLIVEIRA, M. D. S., QUEIROZ, M. A. A., CALDEIRÃO, E., BETT, V., RIBEIRO, G. M. Efeito da hidrólise com NaOH sobre a digestibilidade in vitro da
matéria seca da cana-de-açúcar (Saccharum officinarum L.)./ Effect of sodium hidroxide treatment on in vitro digestibility of dry matter of sugarcane. Ars
Veterinaria, Jaboticabal, SP, Vol. 18, nº 2, 167-173, 2002.
INTRODUÇÃO
A cana-de-açúcar, entre as forrageiras mais
comumente utilizadas na alimentação de ruminantes,
caracteriza-se por apresentar baixo teor de proteína,
grandes quantidades de carboidratos solúveis (sacarose) e
carboidrato estrutural. As utilizações desses nutrientes são
bastante diferentes, isto é, o açúcar é rapidamente
fermentado no rúmen, enquanto os carboidratos estruturais
(fibras) são utilizados lentamente (Preston & Leng, 1980,
citados por RODRIGUES et al., 1992). Nesse sentido,
VALDEZ & LENG (1976) e BOBADILLA & ROWE
(1979) demonstraram que a digestibilidade da fração
fibrosa em bovinos é bastante baixa. Outro aspecto
relacionado com a fibra, em especial, com os volumosos
que constituem a maior proporção na dieta de bovinos, é a
ingestão voluntária da matéria seca e a digestibilidade. Face
à variabilidade existente na ingestão e na digestibilidade,
o desempenho animal poderá ser afetado, porque o consumo de matéria seca pelo ruminante está relacionado com
o teor de fibra em detergente neutro (FDN) da dieta. A
utilização de volumosos, como a cana-de-açúcar, com alto
teor de FDN ou baixa digestibilidade da fibra pode resultar em elevado tempo de retenção da digesta no rúmen,
afetando o consumo. Portanto, a digestibilidade, sendo
parte do valor nutritivo dos alimentos, assume destaque,
pois demonstra a capacidade de permitir que o animal
absorva em maior ou menor escala seus nutrientes (SILVA & LEÃO, 1979).
É preciso salientar que a cana-de-açúcar assume
destaque por ser uma forrageira que apresenta produtividade elevada (acima de 134 toneladas/ha, conforme CARVALHO, 1992), tornando-se bastante competitiva, uma vez
que o custo/ha do quilograma de matéria seca é baixo (OLIVEIRA, 1999).
Apesar da cana-de-açúcar ser caracterizada por
apresentar dois nutrientes em maior proporção, ou seja,
açúcares e material fibroso, a utilização desses é bastante
diferente pelos bovinos. A forma de utilização pode alterar o seu valor nutritivo e conseqüentemente o desempenho dos animais. Neste sentido, OLIVEIRA et al. (1996),
COSTA & FRANCO (1998) e FARIA et al. (2000) destacaram o efeito do tratamento físico (armazenamento póscorte) e químico (utilização de NaOH) sobre o valor nutritivo da cana-de-açúcar. Observaram alterações significativas possibilitando e viabilizando o tratamento da canade-açúcar do ponto de vista nutricional.
A influência da digestibilidade dos nutrientes da
cana-de-açúcar limitando a utilização deste volumoso
quanto à alimentação de ruminantes foi estudada por PATE
& COLEMAN (1975), PATE (1977), ORSKOV & DEB
HOVELL (1978), BOBADILLA & ROWE (1979), PATE
(1980) e PEIXOTO (1986). Todavia, os estudos foram
realizados visando avaliações de variedades específicas e
não do ponto de vista da melhoria da qualidade em termos
de digestão dos nutrientes.
A utilização do tratamento químico em volumosos
é bastante antiga; no entanto, houve intensificação nos estudos a partir da década de 70, principalmente no tratamento de palhadas. Nesse sentido, observou-se aumento
significativo na digestibilidade da matéria seca e da FDN
de diferentes tipos de palhadas (JAVED & DONEFER,
1970; CARMONA & GREENHALGH, 1972;
ANDERSON & RALSTON, 1973, OLOLADE et al.,
1973).
OLOLADE et al. (1973) observaram que o tratamento de palha de cevada com NaOH melhorou significativamente a digestibilidade da matéria seca, da matéria
orgânica, da fibra em detergente ácido, da FDN, da celulose e da energia bruta. Segundo JACKSON (1977) e
KLOPFENSTEIN (1978), os produtos alcalinos
solubilizam a hemicelulose e aumentam a digestibilidade
da celulose e da hemicelulose pela expansão da fração
fibrosa.
Com relação à cana-de-açúcar, são escassos os
trabalhos envolvendo o uso do NaOH para aumentar a
digestibilidade. A aplicação do NaOH sobre o alimento
pode ser feita por vários métodos, entre eles o da imersão,
da peletização, da ensilagem e da pulverização. O método
da pulverização foi sugerido por WILSON & PIGDEN
(1964), ou seja, o NaOH é dissolvido em água e
pulverizado sobre o alimento. Esses autores, utilizando o
método da pulverização, verificaram aumento na
digestibilidade da matéria seca do sabugo de milho tratado
com NaOH (10g/100g de sabugo).
ALVAREZ et al. (1977) e Castrillõn et al. (1978),
citados por ANDRADE et al. (1999), notaram, em ruminantes, aumento no consumo de silagem de cana-de-açúcar tratada com 4% de NaOH na matéria seca.
COSTA & FRANCO (1998) relataram que a
hidrólise, além de aumentar a digestibilidade da cana-deaçúcar, melhora seu consumo pelos animais. Observaram
que os bovinos ingeriram 50% a mais de cana-de-açúcar
hidrolisada em relação à silagem de milho. Outro aspecto
interessante, segundo os mesmos autores, é que o equipamento acoplado à picadeira móvel, proporcionando a
hidrólise da cana no próprio canavial, consegue uma economia superior a 25% em relação à silagem de milho,
mesmo fornecendo quase um quilo de concentrado a mais/
dia/cabeça. O fato da cana hidrolisada ser mais digestível
e portanto melhor consumida pelos bovinos proporciona
uma economia na quantidade de concentrado na ração.
Comparando-se com uma dieta à base de silagem de milho, pode ocorrer economia de 10 a 20% na dieta total por
168
OLIVEIRA, M. D. S., QUEIROZ, M. A. A., CALDEIRÃO, E., BETT, V., RIBEIRO, G. M. Efeito da hidrólise com NaOH sobre a digestibilidade in vitro da
matéria seca da cana-de-açúcar (Saccharum officinarum L.)./ Effect of sodium hidroxide treatment on in vitro digestibility of dry matter of sugarcane. Ars
Veterinaria, Jaboticabal, SP, Vol. 18, nº 2, 167-173, 2002.
meio do uso da cana hidrolisada. Os autores destacaram
que a hidrólise da cana com a solução de 50% de NaOH
(dose de 2% = 20 kg de NaOH/tonelada de cana) aumenta
a digestibilidade devido ao rompimento da lignina aderida
à parede celular, tornando a celulose disponível aos
microrganismos do rúmen. Esse material é transformado
pelas bactérias do rúmen em ácidos graxos voláteis que
são fontes primárias de energia para o animal. Outro
aspecto da hidrólise é o de aumentar o pH do rúmen, o
que previne a acidose (cana hidrolisada após 24h apresenta pH próximo a 8,0).
Para um bom desempenho dos bovinos
alimentados com rações à base de cana hidrolisada (único
volumoso), os mesmos devem receber diariamente 60 a
80 g de KCl (concentração de 60% de K), a fim de
compensar a relação Na:K na corrente sangüínea
(MANUAL HIDROCANA, s/d).
Resende et al. (1994), citados por ANDRADE et
al. (1999), relataram que o consumo máximo de matéria
seca pode não ser atingido pelo ruminante, tanto pelo enchimento do espaço do trato gastrintestinal como pelo
baixo teor de proteína bruta da dieta. Nesse contexto,
ANDRADE et al. (1999) observaram limitação do consumo de matéria seca por borregas devida ao baixo teor de
proteína bruta da cana-de-açúcar, mesmo sendo tratada
com 1% de NaOH. Encontraram médias de digestibilidade
aparente da matéria seca e da fibra em detergente neutro,
respectivamente, de 66,62 e 40,70%. Ao adicionarem rolão
de milho à cana tratada com NaOH, ou seja, 40; 80 e 120
kg/tonelada de cana, observaram queda na digestibilidade
aparente da matéria seca, cujas médias foram, respectivamente, de 64,50; 62,38 e 60,25%.
Procurou-se, no presente trabalho, determinar o
efeito da hidrólise com diferentes níveis de NaOH sobre a
digestibilidade in vitro da matéria seca da cana-de-açúcar.
MATERIAL E MÉTODOS
O experimento foi conduzido no Setor de
Bovinocultura de Leite e no Laboratório de Ruminantes,
pertencentes ao Departamento de Zootecnia da Faculdade
de Ciências Agrárias e Veterinárias, Campus de Jaboticabal
(FCAV)/Universidade Estadual Paulista (Unesp).
As plantas de cana-de-açúcar utilizadas no experimento foram obtidas de canavial pertencente à FCAV/
Unesp. Utilizou-se cana-soca (2O corte), sendo obtidas
amostras de 300 gramas constituídas de 10 amontoados
de cana picada (picadeira estacionária) e tratada (equipamento denominado hidrocana, o qual pulveriza uma solução de 50% de NaOH sobre a cana picada, ou seja, zero;
1,0; 1,5 e 2,0 kg de solução/100 kg de cana,
169
correspondendo aos níveis de zero; 1,0; 1,5 e 2,0% de
NaOH). Nessa ordem, estabeleceram-se respectivamente
os tratamentos N0; N1,0; N1,5 e N2,0. Após a fermentação de
24 horas, foram realizadas leituras de pH (fita graduada
em contato com a cana tratada), a fim de monitorar o valor próximo a 8,0. Na Tabela 1 é apresentada a composição bromatológica da cana-de-açúcar submetida aos diferentes tratamentos.
Os teores de matéria seca (MS), proteína bruta
(PB), extrato etéreo (EE), fibra bruta (FB), fibra em
detergente neutro (FDN), fibra em detergente ácido (FDA)
e matéria mineral (MM) foram obtidos conforme SILVA
(1990). Os teores de nutrientes digestíveis totais foram
obtidos conforme McDOWELL et al. (1974).
Para a digestão no fermentador ruminal
Ankom®, foi utilizado como doador do conteúdo ruminal
um bovino da raça Holandesa, com cânula ruminal permanente. O animal permaneceu numa baia contendo cocho
de alimentação, bebedouro e cocho para mistura mineral.
A fim de adaptar o animal à ração, o mesmo permaneceu
15 dias (primeira adaptação) recebendo cana-de-açúcar
picada à vontade e concentrado (2,0 kg/ dia) à base de
milho, farelo de soja, farelo de trigo, farelo de algodão e
mistura mineral. Posteriormente, recebeu durante seis dias
(segunda adaptação) cana-de-açúcar hidrolisada com 1,5%
de NaOH (sempre com 24 horas de fermentação), além do
concentrado utilizado durante a primeira adaptação. Em
ambas as adaptações o bovino recebeu 60 g de cloreto de
potássio por dia.
A colheita do conteúdo ruminal foi realizada
no período da manhã por meio de bomba de vácuo, sendo
o mesmo mantido em garrafas térmicas a 39ºC. Posteriormente, levou-se o conteúdo ruminal ao Laboratório de
Ruminantes, onde filtrou-se o mesmo em tecido de algodão, por pressão manual. O líquido obtido foi utilizado
para inoculação nos jarros de digestão do fermentador
ruminal, contendo os sacos de digestão com as amostras
(0,5 gramas/saco) e as soluções-tampões (composições são
apresentadas na Tabela 2).
O material foi incubado por 48 horas à temperatura de 39º C ± 0,5º C. Ao final da incubação, os jarros
foram abertos e drenados. Os sacos foram retirados e colocados em estufa a 60º C para posterior determinação
dos coeficientes de digestibilidade in vitro da matéria seca.
Foi utilizado o delineamento inteiramente
casualizado com quatro tratamentos e dez repetições
(BANZATTO & KRONKA, 1995). Efetuou-se a análise
da variância pelo procedimento GLM, e quando o valor
de F foi significativo, procedeu-se à comparação das médias pelo teste de Tukey, com auxílio do programa SAS®
(1990).
OLIVEIRA, M. D. S., QUEIROZ, M. A. A., CALDEIRÃO, E., BETT, V., RIBEIRO, G. M. Efeito da hidrólise com NaOH sobre a digestibilidade in vitro da
matéria seca da cana-de-açúcar (Saccharum officinarum L.)./ Effect of sodium hidroxide treatment on in vitro digestibility of dry matter of sugarcane. Ars
Veterinaria, Jaboticabal, SP, Vol. 18, nº 2, 167-173, 2002.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Na Tabela 3 estão expressos os valores dos coeficientes de digestibilidade in vitro da matéria seca
(DIVMS) da cana-de-açúcar submetida à hidrólise com
os níveis de zero; 1,0; 1,5 e 2,0% de NaOH.
Analisando os valores dos coeficientes da DIVMS
da cana-de-açúcar, de acordo com a Tabela 3, pode ser
observado que houve diferença significativa (p < 0,01)
em função dos tratamentos.
Notou-se que a DIVMS da cana-de-açúcar nos
níveis de zero e 1,0% de NaOH foi de 60,03 e 60,63%
(p>0,05), respectivamente, demonstrando que o nível de
1,0% foi pouco eficiente em melhorar a DIVMS da cana
hidrolisada. Por outro lado, os níveis de 1,5 e 2,0% foram
eficientes em aumentar a DIVMS; embora estatisticamente tenham sido semelhantes, houve superioridade de 6,07
e 4,02 % , respectivamente, em relação ao nível zero de
NaOH (p<0,01).
Na Tabela 4 são apresentados os resultados da
hidrólise da cana com 1% de NaOH obtidos por
ANDRADE et al. (1999) e no presente trabalho.
Verificou-se que houve uma diferença de 5,99
unidades porcentuais, o que representou uma superioridade
na digestibilidade da matéria seca de 9,88% em favor da
hidrólise obtida por ANDRADE et al. (1999). Tal superioridade pode ter sido devida a diversos fatores, entre eles:
variedade, maturação, duração do período de fermentação e pH. Apesar do nível de NaOH ter sido o mesmo,
notou-se diferença na composição bromatológica (Tabela
4). Convém destacar que o valor da digestibilidade aparente obtido pelo método in vivo em ruminantes é
correlacionado com a digestibilidade in vitro (TILLEY &
TERRY, 1963). OLIVEIRA et al. (1997) encontraram
Tabela 1 - Composição bromatológica da cana-de-açúcar submetida aos diferentes tratamentos.
T rat am ent os
% MS
_____________________________________________________________________
M S,%
PB
EE
FB
FDN
FDA
HC
EN N
MM
MO
NDT
N0
33,95
2,10
0,42
20,61
47,99
29,07
18,92
75,49
1,38
98,62
40,98
N 1,0
31,59
2,53
0,91
23,32
57,56
33,55
24,01
69,02
4,22
95,78
46,03
N 1,5
33,12
2,45
0,78
23,53
55,66
33,79
21,87
67,72
5,52
94,48
44,88
N 2,0
31,79
2,49
0,56
22,64
55,00
33,83
21,17
68,56
5,75
94,25
43,17
N0; N1,0; N1,5 e N2,0 correspondem, respectivamente, aos níveis de zero; 1,0; 1,5 e 2,0% de NaOH.
MS = Matéria seca , PB = Proteína bruta, EE = Extrato etéreo, FB = Fibra bruta,
FDN = Fibra em detergente neutro, FDA = Fibra em detergente ácido, HC = Hemicelulose,
MM = Matéria mineral, MO = Matéria orgânica, ENN = Extrativos não nitrogenados,
NDT = Nutrientes digestíveis totais.
Tabela 2 - Composição das soluções-tampões* utilizadas
na digestão in vitro.
Componentes
KH2 PO4
Tipo de solução tampão (g/litro)
____________________________
A
B
10,0
MgSO4 7H2 O
0,5
NaCl
0,5
CaCl2 .2H2 O
0,1
Uréia
0,5
Na2 CO3
Na2 S.9H2 O
15,0
1,0
valores maiores para a digestibilidade in vitro da matéria
seca, da proteína bruta e da energia bruta da silagem de
milho em relação às médias obtidas para a digestibilidade
in vivo com bovino. De qualquer maneira, mesmo no nível menor de NaOH, COSTA & FRANCO (1998) ressaltaram que a hidrólise da cana é mais interessante comparativamente à auto-hidrólise (pressão por vapor e temperatura elevada) do bagaço, justamente pelo fato da cana
apresentar teores elevados de sacarose. Além dos fatores
mencionados que podem afetar a eficiência da hidrólise,
outros são relacionados no MANUAL HIDROCANA (s/
d), como, por exemplo, a temperatura no local da hidrólise,
a regulagem do equipamento dosador da solução de NaOH,
a quantidade de cana picada em relação à pulverização da
solução de NaOH e a própria mão-de-obra, entre outros.
*Ankom®.
170
OLIVEIRA, M. D. S., QUEIROZ, M. A. A., CALDEIRÃO, E., BETT, V., RIBEIRO, G. M. Efeito da hidrólise com NaOH sobre a digestibilidade in vitro da
matéria seca da cana-de-açúcar (Saccharum officinarum L.)./ Effect of sodium hidroxide treatment on in vitro digestibility of dry matter of sugarcane. Ars
Veterinaria, Jaboticabal, SP, Vol. 18, nº 2, 167-173, 2002.
Tabela 3 - Efeito da hidrólise com NaOH sobre a digestibilidade in vitro da matéria seca (DIVMS) da cana-de-açúcar
(Saccharum officinarum L.).
T ra t a m e n t o s
___________________________________________
N 1 ,0
N 1 ,5
N 2 ,0
N0
D IV M S , %
6 0 ,0 3 a
6 0 ,6 3 a
6 4 ,3 1 b
6 3 ,0 7 b
EPM
CV %
0 ,4 7
2 ,3 4
Médias seguidas de letras iguais não diferem entre si pelo teste de Tukey (p > 0,05).
N0; N1,0; N1,5 e N2,0 correspondem, respectivamente, aos níveis de zero; 1,0; 1,5 e 2,0% de NaOH.
EPM = Erro padrão de média.
CV = Coeficiente de variação.
Tabela 4 - Comparação dos resultados obtidos com a hidrólise da cana-de-açúcar.
N ível de N aO H
% MS
_____________________________________
M S,%
PB
EE
FB
FDN
EN N
C D M S, %
N 1,0 a
24,87
3,39
0,37
22,65
46,09
64,97
66,62
N 1,0 b
31,59
2,53
0,91
23,32
57,56
69,02
60,63
a
ANDRADE et al. (1999), digestibilidade aparente da matéria seca da cana hidrolisada com 1% de NaOH, em ovinos.
Digestibilidade in vitro da matéria seca da cana hidrolisada com 1% de NaOH, em bovino.
MS = Matéria seca, PB = Proteína bruta, EE = Extrato etéreo, FB = Fibra bruta,
FDN = Fibra em detergente neutro, ENN = Extrativos não nitrogenados.
b
A cana-de-açúcar pode ser utilizada como volumoso único em rações para bovinos, e geralmente tem proporcionado bom valor nutritivo, haja vista os coeficientes
elevados de digestibilidade tanto da matéria seca como
das fibras em detergente ácido e neutro (PASTORI et al.,
1986; LOVADINI, 1971; RODRIGUES et al., 1992;
AROEIRA, 1993).
Convém salientar que a opção pela utilização da
cana-de-açúcar, como volumoso, para uso na alimentação
de bovinos deve levar em consideração a composição química e tecnológica (teor de FDN; relação FDN/Brix e %
de colmos), a digestibilidade da matéria seca, das fibras
em detergente ácido e neutro, além dos fatores mencionados por PUPO (1981), PEIXOTO (1986), BOIN et al.
(1987), TORRES & COSTA (1993) e SILVA (1993), envolvendo as características agronômicas (produtividade e
doenças, entre outras). Finalmente, deve-se atentar para
as formas alternativas de utilização, ou seja, aspectos relacionados, por exemplo, ao tratamento físico e/ou químico da cana-de-açúcar (RODRIGUES et al., 1992; OLIVEIRA et al., 1996; RODRIGUES & BARBOSA, 1998;
ANDRADE et al., 1999; FARIA et al., 2000), sempre visando aumento do valor nutritivo e conseqüentemente
melhor desempenho animal.
171
CONCLUSÕES
1. Os níveis de 1,5 e 2,0% de NaOH aumentaram a DIVMS
da cana-de-açúcar.
2. Devido ao fato da cana-de-açúcar ser bastante utilizada
pelos produtores, caso seja feita a opção pelo uso da cana
hidrolisada, aparentemente bastante promissora, recomenda-se a realização de novas pesquisas visando o desempenho animal (produção de leite e de carne), sobretudo uma
análise econômica dos benefícios da hidrólise.
AGRADECIMENTOS
À Fazenda Santa Cruz, na pessoa do Dr. Eduardo Caldeirão, por ter viabilizado a aquisição da picadeira
contendo o equipamento hidrocana para a hidrólise da
cana-de-açúcar.
ARTIGO RECEBIDO: OUTUBRO/2001
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matéria seca da cana-de-açúcar (Saccharum officinarum L.)./ Effect of sodium hidroxide treatment on in vitro digestibility of dry matter of sugarcane. Ars
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