I. FREUD: FRAGMENTOS DE UMA VIDA
Freud: homem-céu e homem-terra
Percorrer o trajeto da vida de Freud é como andar
em um grande labirinto. Freud foi um homem múltiplo,
inquieto, ousado, sonhador, apaixonado, persistente,
espirituoso e, sobretudo, corajoso. Sua grande obstinação sempre foi a busca da verdade, e para isso nunca
poupou esforços. A vida de Freud instaurou no século
XX um verdadeiro divisor de águas. Ele inundou os
espíritos com inquietações, dando forma ao desejo humano. Era um homem capaz de grandes revoluções, e
tinha a coragem de mudar de margem caso acreditasse
que a verdade estaria do outro lado do rio.
Hoje são muitas as biografias sobre sua vida e dezenas de publicações sobre a imensa correspondência
que deixou, mostrando o quanto era sintonizado com
as questões cruciais do seu tempo e para além dele. Um
dos aspectos mais importantes da sua correspondência
foi justamente mostrar que a produção do conhecimento alimenta-se do contato entre duas pessoas.
Todo o seu percurso intelectual não o poupou,
contudo, dos típicos sofrimentos humanos: a sede de
reconhecimento social, a angústia diante da morte, a
dor de um câncer na boca que o acompanhou durante
muitos anos, a preocupação com sua condição financeira, sempre muito instável, os rompimentos com velhos
amigos. Mesmo seu casamento, marcado por uma paixão arrebatadora, transparente nas centenas de cartas
que enviou para sua amada, parece ter esfriado com o
tempo. Marta Freud estava longe de ser sua companheira na jornada intelectual. Passava os dias nos bastidores
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domésticos arrumando a casa e acertando todos os detalhes práticos que pudessem facilitar a vida do marido.
Paula Fichtl, a governanta da família, é categórica neste ponto: “O casamento deles é tranqüilo, pacífico, mas
não necessariamente feliz”. Freud animava-se muito
mais com sua cunhada Minna Bernays, com quem conversava muito sobre suas idéias.
Grande colecionador, era impulsivo ao construir
suas coleções, capaz de sacrifícios para adquirir um determinado objeto. As antigüidades eram sua paixão, e
a coleção que hoje pode ser visitada no Museu Freud,
na casa em que morou em Londres antes de sua morte,
mostra seu cuidado com a história e revela seu espírito de grande arqueólogo de idéias. O próprio Freud
situou a sua descoberta do inconsciente como a terceira
grande ferida narcísica da humanidade. O inconsciente
veio indicar um escuro interior que não conhecemos e
que nos determina, desbancando a voracidade da consciência de sua pretensa autonomia. Freud inscreveu seu
trabalho na tradição de um Copérnico, que revelou ao
mundo que a terra não era o centro do sistema solar,
e também de um Darwin, que mostrou que nada mais
somos que organismos um pouco mais desenvolvidos
que nossos ancestrais, os macacos. Aqui vemos Freud
como um homem-céu, inspirado e capaz de grandes
vôos. Ele foi um grande provocador e estava sempre
disposto a correr riscos nas suas obstinadas pesquisas
sobre a mente humana.
Em 1900, Freud publicou uma de suas obras mais
importantes, A interpretação dos sonhos, revelando o
mecanismo de produção dos sonhos e sobretudo as leis
de funcionamento do aparelho psíquico. Dessa forma,
aproximou a vida normal dos sonhos à psicopatologia.
Os sonhos eram até então considerados um assunto menor e relegados ao campo da magia e da especulação
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popular. Freud escreveu esse livro movido pela morte de seu pai ocorrida quatro anos antes, e nele revela
muitos dos seus sonhos e apresenta essas idéias como
produção científica. Um dos célebres e provocativos
enunciados desse livro continua vivo até hoje: “Os sonhos são realização de desejos”.
Na época em que foi lançado, o livro foi muito
mal recebido. Uma tiragem de seiscentos exemplares
levou oito anos para se esgotar. Poucos diriam que viria
a ser um dos textos mais importantes do século XX.
Freud também era um homem-terra: cíclico, inseguro, compulsivo em algumas de suas rotinas. Todo
mês recebia o alfaiate para tirar as medidas para um
terno novo. Desenhava, assim, o hábito colocado sobre o corpo como a pele que nos protege. Era metódico na organização de sua rotina, e sempre reservava
tempo para responder às correspondências no final do
dia e ao menos meia hora diária para seu momento de
auto-análise. Foi um grande leitor: dos clássicos da
literatura universal aos romances policiais que sempre estavam em sua cabeceira. Em muitos momentos
Freud aproximou o trabalho do psicanalista ao trabalho do detetive, bem como do arqueólogo, cujo desafio é reconstruir uma história a partir de um pequeno
vestígio nem sempre muito visível.
Homem de fronteiras
Freud foi um homem das margens, dos territórios
de fronteira. Nasceu em Freiberg, importante artéria
comercial na Moravia, em 6 de maio de 1856. Morou
os primeiros quatro anos de sua vida nessa pequena cidade de fronteira que hoje se chama Pribor (República
Tcheca).
Depois se mudou para Viena, também cidade
fronteiriça entre a Europa ocidental e oriental, onde
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permaneceu até quase o final de sua vida, quando foi
para Londres em exílio forçado.
O pai de Freud, Jacob Freud, era comerciante de
lãs. Era um homem espirituoso, com muito senso de
humor e bastante cético em relação às incertezas da
existência. De seu primeiro casamento teve dois filhos:
Emmanuel e Philip. Jacob perdeu a esposa e voltou a
se casar, então com Amalie Nathansohn, muito mais jovem que ele. Freud foi o primeiro filho de Amalie, que
o chamava de “Mein Goldener Sigi”, meu Sig de ouro.
Mais tarde, em A Interpretação dos sonhos, escreverá
sobre essa característica de ser amado pela mãe: “...as
pessoas que são preferidas por sua mãe adquirem na
vida uma confiança particular nelas mesmas e um otimismo invencível”.
Em 1931, as autoridades de Pribor organizaram
uma homenagem para celebrar o aniversário de 75
anos de Freud. A rua em que nasceu recebeu o nome
de Freudova e no edifício em que viveu foi colocada
uma placa: “Em 6 de maio de 1856, nasce nesta casa o
professor doutor Sigmund Freud, psicanalista de fama
mundial”. Para a cerimônia, Freud escreveu na “Carta
ao burgomestre de Pribor”, publicada em 1931: “De
uma coisa posso estar certo: bem dentro de mim, sob
muitos estratos, continua a viver o menino feliz de
Freiberg, o primogênito de uma jovem mãe que deste
ar e desta terra recebeu as primeiras indeléveis impressões”.
Bastidores da rua Bergasse, 19
Muitos são os relatos a que temos hoje acesso e
que nos permitem entrar um pouco mais no cotidiano
de Sigmund Freud e sua família. Eles moraram 47 anos
no número 19 da rua Bergasse, em Viena. Hoje o apar14
tamento é um pequeno museu dedicado a Freud. Como
todos os móveis e antigüidades estão em Londres, podemos ver apenas grandes fotografias que reproduzem
a atmosfera dos célebres tempos. Martin, um dos seis
filhos de Freud, publicou em 1956, no centenário do
nascimento do pai, um livro no qual relata em detalhes
muitos acontecimentos de sua vida.
São especialmente comoventes os belos relatos
que faz das inúmeras férias que passaram juntos. Freud
sempre reservava uma parte de suas férias para os filhos e alguns dias para alguma viagem sozinho ou com
um amigo. Martin lembra com emoção a dedicação
do pai nesses momentos e como propunha passeios,
brincadeiras e expedições sobretudo para a colheita de
cogumelos, de que tanto gostava. “Nesses momentos
era raro quando não se permitia estar conosco desde as
primeiras horas da manhã até o momento de nos colocar na cama”. Martin fala de sua surpresa com essa
energia do pai, quase equivalente à que destinava a seu
trabalho cotidiano: “Meu pai começava a trabalhar às
oito horas toda manhã e não era raro encontrá-lo em
seu escritório às três horas da madrugada”.
Outro relato surpreendente a que temos acesso
hoje é o de Paula Fichtl, que trabalhou com os Freud
por mais de cinqüenta anos. O acesso a essa história se
deve à perspicácia de um psicanalista americano, Detlef Berthelsen, que, ao tentar encontrar Anna Freud,
sem sucesso, em uma viagem a Londres, deparou-se
com Paula, figura fundamental no cotidiano da família
Freud e até então ignorada pela história da psicanálise.
Detlef gravou oitenta horas de registros sonoros
com ela e publicou parte desse depoimento depois da
morte de Anna Freud, em um livro que se chama Dia
a dia com a família Freud. Paula era empregada de
Dorothy Tiffany-Burlingham, que morava em um apar15
tamento em cima dos Freud. Em 1929, Dorothy, percebendo a dificuldade da família Freud em encontrar uma
nova empregada, propôs a Paula esse novo trabalho.
Dorothy, depois de um casamento fracassado, estabeleceu um duradouro e apaixonado vínculo amoroso com
Anna Freud, relação que perdurará por toda vida.
Freud sempre acolheu com bons olhos a relação
amorosa da filha e chegou a dizer em determinado momento para Paula: “Estou feliz com o fato de Anna ter
encontrado Dorothy e estar em boas mãos”. Dorothy
era filha de um importante comerciante de jóias de
Nova York. Teve quatro filhos, sendo que todos foram
encaminhados a Anna Freud para tratamento. Dois deles se suicidaram em idade adulta, assim como o marido de Dorothy. Aliás, foi Dorothy quem deu a Freud a
cadela chow-chow que ele tanto amava, Jofie. O apreço
que Freud tinha por Jofie era tão absolutamente significativo que ele costumava dizer o seguinte: “Aquele
de quem Jofie não goste tem alguma coisa de errado”.
Anos mais tarde, em Londres, Anna, Dorothy e a pediatra Josephine Stross fundaram a Jackson Nurseries, um
jardim de infância.
Paula, a governanta, era muito próxima a Freud.
Ele a tratava com regalias a ponto de causar inveja na
mulher Marta e na cunhada Minna. Muito observadora,
Paula deixou inúmeras imagens preciosas desses bastidores tão instigantes. Freud estava sempre cercado de
muitos pacientes, de livros, de visitas, das coleções de
antiguidades e também de algumas fotografias. A governanta lembra que havia três fotografias de mulheres em
seu gabinete e nenhuma delas era de sua esposa Marta.
Ali estavam: a princesa Marie Bonaparte, paciente e
amiga íntima da família, que fundou a Sociedade Psicanalítica de Paris, Yvette Guilbert, famosa cantora e
bailarina retratada em inúmeras pinturas de Toulouse16
Lautrec, e Lou Andreas-Salomé, amiga, admiradora e
discípula, mulher notável que Freud caracteriza como
“uma mulher danada com uma inteligência perigosa”
e com quem manteve intenso e rico contato intelectual
– sem dúvida, Lou Salomé era uma mulher profundamente enraizada na atmosfera intelectual de seu tempo.
A convivência íntima, bem como a admiração e afeto
que recolheu na companhia de alguns dos homens mais
notáveis do século XX, entre eles Nietzsche, Rilke, Tolstói, Turguêniev, Rodin e Freud, atestam sua perspicácia
e argúcia intelectual que, temperadas com sua beleza e
feminilidades originais, a destacam também como uma
das mais notáveis personalidades desse século.
Através do olhar de Paula, temos acesso ao Freud
meticuloso que recebia todos os dias o barbeiro para
aparar a barba e pentear seus cabelos. A quantidade de
livros que cercavam a vida de Freud era impressionante, e ela sabia que precisava cuidar deles como pérolas.
Freud lia muitos livros simultaneamente e marcava as
pausas de leitura colocando palitos de fósforos quebrados entre as páginas. E assim ia desenhando seus
inusitados diálogos entre as pesquisas sobre o funcionamento da vida psíquica e as múltiplas imagens da
criação humana que encontrava nos clássicos da literatura – textos que funcionavam como oxigênio para sua
imaginação inquieta.
Correspondência
Toda correspondência é uma espécie de secreção
produzida palavra a palavra, em um ritmo próprio, com
acelerações, pausas, precipitações, arrependimentos,
provocações, interrupções. Imagens que se encontram e
fazem contato na arquitetura da letra, da letra escrita, da
letra lida, do desencontro e equívoco de toda linguagem.
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