Comunicação, Controle Público e Participação Popular no Sistema Único de Saúde São [email protected] Revista Acadêmica do Grupo Comunicacional de São Bernardo www.metodista.br/unesco/GCSB/index.htm Ano 1 - nº 2 - (julho/dezembro de 2004) Textos originais, revisados pelos membros do conselho editorial Comunicação, Controle Público e Participação Popular no Sistema Único de Saúde Valdir de Castro Oliveira* (UFMG) Resumo Este trabalho discute o papel da comunicação e da informação nos conselhos municipais de saúde e analisa de que maneira diferentes atores sociais exercem o papel de discutir, fiscalizar e interferir no funcionamento do Sistema Único de Saúde. A nossa hipótese é a de que as relações sociais assimétricas presentes naquela instâncias determinam os seus processos comunicacionais e informacionais dificultando do controle social. O objeto empírico do estudo foram os conselhos de saúde de 14 municípios da Região Metropolitana de Belo Horizonte quando analisamos os seus processos interacionais. A principal conclusão a que chegamos foi a de que a maioria dos conselhos é carente de instrumentos e de adequados processos de comunicação e informação e que há uma consciência dos conselheiros de que se deve investir mais e melhor nesse campo para facilitar o exercício de suas funções. Palavras chaves: Conselhos de Saúde, Controle social, Participação Popular I - Os conselhos de saúde e o controle social A idéia de controle social hoje faz parte das proposições de democratização do Estado e da busca de participação da sociedade nas políticas públicas. No campo da saúde isso tem acontecido através de variadas instâncias, como as associações profissionais, as organizações públicas e privadas, o Ministério Público e, principalmente, através dos conselhos de saúde que Comunicação, Controle Público e Participação Popular no Sistema Único de Saúde envolvem um grande número de cidadãos nas funções de fiscalizar e deliberar sobre o funcionamento do Sistema Único de Saúde em todo o país. Historicamente, os conselhos de saúde na sociedade brasileira fazem parte de um amplo processo de movimentação social que desde a década de 70 vêm convergindo para transformar e reconfigurar democraticamente o espaço público e a relação da sociedade civil com o Estado. Neste contexto Maria da Glória Gohn identifica três tipos fundamentais de conselhos que surgiram no Brasil de 1970 a 1995: os Conselhos Populares, os Conselhos Comunitários e os Conselhos Temáticos Institucionalizados. Os primeiros surgiram através de iniciativas dos movimentos populares; os segundos foram criados ou propostos por ações que envolvem o povo/governo; os terceiros surgiram por exigências constitucionais, embora espelhem lutas anteriores de outras formas de participação popular, como é o caso dos conselhos de saúde cuja gênese remonta as ações populares da década de 70 na cidade de São Paulo quando reivindicavam a melhoria dos serviços e a participação nas decisões das autoridades da área de saúde. Os conselhos temáticos institucionalizados previstos pela Constituição Federal de 1988 envolvem em sua composição diversos segmentos sociais. De lá para cá inúmeros conselhos foram criados, como os de Educação, de Turismo, da Criança e do Adolescente, de Tarifas, de Assistência Social, de Segurança, de Saúde, entre inúmeros outros, envolvendo representantes do Estado e da sociedade civil (associações comunitárias, movimentos sociais, representantes de usuários, trabalhadores, etc.). Eles se constituem como novos espaços públicos propiciados pela reestruturação do Estado provocada pelas forças políticas com base no pressuposto de que ele (o Estado) deve acolher a participação da sociedade como forma de controle social e interferência na definição e performance das políticas públicas. Com a democratização do país a partir de 1985 e a promulgação da Constituição Federal em 1988, a descentralização do sistema de saúde foi proposta e efetivada com a criação do SUS que prevê diferentes funções e responsabilidades para cada esfera de governo (municípios, estados e a União) com a responsabilidade de implementar e supervisionar as políticas de saúde, nutrição, controle epidemiológico, vigilância sanitária, entre outras coisas. Foi previsto também que os diferentes níveis de governo estabelecessem parcerias com diferentes atores sociais ligados, direta ou indiretamente, à saúde, como os prestadores de serviços (hospitais, laboratórios, conveniados, profissionais), os trabalhadores e os usuários do sistema de saúde. Assim, como parte dos conselhos temáticos institucionalizados, os conselhos de saúde estão previstos institucionalmente e, em princípio, não dependem da mobilização da população para funcionarem. No entanto, no exercício de suas funções, demandam do cidadão, das comunidades e das organizações com eles envolvidos crescente capacidade para atuar politicamente e promover negociações ou acordos, resolver conflitos, fiscalizar ou estabelecer prioridades para o campo da saúde. Assim caberia aos conselhos de saúde interferir na formulação das estratégias e no controle operacional das políticas de saúde na instância correspondente, inclusive nos aspectos econômicos e financeiros no âmbito das três esferas gestoras do SUS (federal, estadual e municipal). Comunicação, Controle Público e Participação Popular no Sistema Único de Saúde Especificamente, está legalmente previsto que o exercício do controle social pelos conselhos de saúde dar-se-á através das funções deliberativa, fiscalizatória e consultiva, de maneira tripartite e paritária, ou seja, de acordo com a composição legal, que é invariável, de cada conselho, seja em nível federal, estadual ou municipal. Nessa composição os usuários devem ocupar 50% de suas vagas, enquanto os representantes dos trabalhadores da saúde (médicos, enfermeiros, funcionários técnico-administrativos, porteiros, motoristas, ou qualquer outro trabalhador) devem ocupar 25% das vagas enquanto o gestor (governo) e prestadores de serviços ao SUS teriam direito a ocupar os outros 25%. Significa que os conselhos são pluralistas e paritários Está previsto ainda que os conselhos devem atuar de forma independente da instância executiva (secretarias municipais, estaduais ou Ministério da Saúde) exercendo as funções de fiscalizar o funcionamento e a aplicação dos recursos financeiros do sistema de saúde (função fiscalizatória); definir as políticas e as prioridades de saúde, avaliar e deliberar sobre plano de saúde do gestor (função deliberativa) e avaliar ou opinar sobre convênios ou outras questões da saúde (função consultiva). Do ponto de vista legal a institucionalização dos conselhos de saúde como instância de controle social foi feita através de vários dispositivos legais, a começar pela Constituição de 1988 que, em seu artigo 194, inciso VII, estabelece o "caráter democrático e descentralizado da gestão administrativa, com a participação da comunidade, em especial dos trabalhadores, empresários e aposentados", o que vai determinar e regulamentar, através das leis federais 8080/90 e 8142/90, entre outros documentos legais, a constituição dos conselhos como instância de participação da sociedade no Sistema Único de Saúde. A participação da sociedade ocorre, conforme expressam esses documentos, em três níveis: federal, através do Conselho Nacional de Saúde; estadual, através dos conselhos estaduais de saúde e, municipal, através dos conselhos municipais de saúde. Com isso os conselhos ganharam face institucional para exercer o controle social que, segundo Antônio Ivo de Carvalho, é um termo originário da sociologia e da psicologia servindo para designar os processos de influência do coletivo sobre o individual, mas que na idéia da reforma sanitária foi alterado visando significar o processo e os mecanismos de influência da sociedade sobre o Estado, com base no pressuposto de que a sociedade representava o interesse geral e o Estado os interesses particulares, de acordo com o contexto político em que foi formulado, isto é, nas décadas de 70 e 80 (Carvalho, 1997). Mas nem sempre o exercício das funções dos conselhos ocorre como previsto legalmente porque envolve diferentes formas de relações de poder representadas pelos segmentos que o compõem. Isso acontece porque a estruturação e o funcionamento dos conselhos ocorrem em torno de complexas competências simbólicas e de relações de poder que expressam diferentes interesses e diferentes feixes de força política, quer sejam originários do governo, dos grupos corporativos, das comunidades, do mercado econômico ou dos indivíduos que o compõem. É por isso que podemos dizer que, se por um lado, os conselhos temáticos institucionalizados significam uma perspectiva democrática de reconfiguração do espaço público e uma inegável conquista política da sociedade civil, por outro lado, a concretização de suas proposições dependem de que maneira ali funcionam os núcleos de poder. Significa dizer que o funcionamento dos conselhos é marcado pela maneira como os representantes do governo, dos trabalhadores e dos usuários interagem e promovem ações nesse ambiente político. Comunicação, Controle Público e Participação Popular no Sistema Único de Saúde Muitos representantes do governo ou do sistema privado apenas toleram os conselhos, porque estão previstos institucionalmente. Na prática são refratários a esta forma de controle social e, em consequência, agem buscando reduzir o seu papel fiscalizador ou deliberativo a meros rituais de legitimação de políticas e decisões supostamente democráticas. É por essa razão que Gohn propõe que esses importantes canais democráticos sejam repensados criticamente para que de fato cumpram as funções a eles atribuídas (Gohn, 2000). Infelizmente, algumas formas de análise simplificam demasiadamente o funcionamento dos conselhos impedindo perceber com mais clareza os potenciais democráticos de que são portadores, ora superestimando o seu papel, ora subestimando-o. No primeiro caso, esse tipo de análise superestima o papel dos conselhos, mas negligenciado ou colocando em segundo plano a estrutura em que estão inseridos, com base no princípio de que eles, por si mesmos e com base na legislação que os ampara legalmente, podem promover o efetivo controle da sociedade civil sobre o Estado e interferir decisivamente na formulação de políticas públicas de interesse social e coletivo. Superestimados em suas funções políticas, esses atores sociais esquecem que os conselhos são portadores de limites e alcances estabelecidos pelo Estado e que as políticas públicas no atual contexto social são profundamente marcadas pela idéia de regeneração e modernização do Estado a partir das relações econômicas ou do mercado (produção e consumo) e não das necessidades sociais, fortalecendo assim a idéia do Estado mínimo do projeto neoliberal. Já no segundo caso, o tipo de análise feita é o de subestimar o papel dos conselhos por entendêlos como instância destituída de real capacidade para intervir no debate público, no controle social ou na formulação de políticas públicas efetivas e eficazes no que diz respeito às reais demandas da sociedade. Igualmente muitos governos e autoridades públicas e gestores da saúde subestimam os conselhos pelo fato de não simpatizarem com os seus poderes fiscalizatórios ou porque julgam ser os conselheiros, principalmente os representantes dos usuários, como tecnicamente despreparados para perceber com clareza a lógica de funcionamento e as necessidades do sistema de saúde. Em conseqüência avaliam que os conselhos deveriam ser apenas instâncias homologatórias das decisões do gestor (a instância entendida como sendo tecnicamente preparada para promover o bem comum) ou, no máximo, como instância corretiva das ações por ele desencadeadas (feedback), atendendo assim muito mais à formalidade legal do sistema do que propondo formas de alteração nas relações de poder entre governo e sociedade. Já outros argumentam que os conselhos são instâncias inócuas para melhorar politicamente o funcionamento do sistema de saúde porque costumam ser transformados em instâncias de conflitos, de impasses político-partidários ou servindo como trampolim político para muitos de seus membros, deixando em plano secundário as reais necessidades de discussão e decisão sobre as questões de saúde. Vera Silva Telles afirma que essas avaliações negativas dos conselhos contribuem para paralisar metodologicamente o seu funcionamento e que deveriam ser entendidos no contexto maior da luta pela cidadania e pelos direitos sociais. No entanto, alerta que no atual contexto político Comunicação, Controle Público e Participação Popular no Sistema Único de Saúde brasileiro, tanto a cidadania quanto os direitos sociais, ao invés de se ampliarem estão sendo encolhidos ao lado da reposição de antigas formas de exclusão social e a emergência de outras. E o que é pior, argumenta Telles, naturalizando as distâncias sociais no Brasil como se fossem parte de uma ordem natural das coisas, fora das tramas sociais. Afirma que a "a figuração social pública da questão social e de um horizonte simbólico que projeta a pobreza em uma espécie de paisagem que incomoda a todos, mas que, tal como a natureza, se estrutura fora e por fora das tramas sociais. É um modo de encenar a pobreza como algo externo a um mundo propriamente social" (Telles,1999:11) Dessa maneira, a pobreza, os direitos e a injustiça social são transformados em uma espécie de paisagem: " Transformada em paisagem, a pobreza é trivializada e banalizada, dado com o qual se convive – com um certo desconforto, é verdade -, mas que não interpela responsabilidades individuais e coletivas."(Telles, 1999, 11). Este diagnóstico contrasta com as lutas a favor da cidadania e contra as injustiças sociais dos anos 70 e 80 quando os movimentos sociais se organizaram, os sindicatos projetaram-se no cenário público, deixaram suas marcas em conquistas importantes na Constituição de 1988 e se traduziram na construção de espaços plurais de representação de atores de atores coletivos reconhecidos como interlocutores válidos no cenário público nacional". Os fóruns públicos nos quais questões como direitos humanos, raça e gênero, cultura, meio ambiente e qualidade de vida, moradia, saúde e proteção à infância e à adolescência e as ONGs foram multiplicados e passaram a ser levados em conta numa gestão partilhada e negociada da coisa pública (Telles, 1999). No entanto, quando entramos nos anos 90 passamos a viver a contradição de termos uma "democracia consolidada, aberta ao reconhecimento formal de direitos sociais, garantias civis e prerrogativas cidadãs reivindicados, mas que convivia (como continua convivendo) cotidianamente com a violência, a violação dos direitos humanos e a incivilidade nas relações sociais". (Telles, 1999: 17). Essa contradição é o que vai exigir dos analistas sociais maior acuidade para entender em que medida o processo social de superação das injustiças sociais e a consolidação da cidadania está de fato avançado ou sendo obstaculizado pela reconfiguração das relações sociais do mundo globalizado e politicamente dominado pelo projeto neoliberal, o que tem levado à erosão de muitos direitos e de conquistas pela cidadania, onde o exercício do controle social é uma de suas expressões. Para Telles o desafio hoje é o de melhor compreender de que maneira essa erosão dos direitos vem sendo forjada e quais são as possibilidades de construção entre o Estado e a sociedade de "arenas públicas que dêem visibilidade aos conflitos e ressonância às demandas sociais, permitindo, no cruzamento das razões e valores que conferem validade aos interesses envolvidos, à construção de parâmetros públicos que reinventam a política no reconhecimento dos direitos como medida de negociação e deliberação de políticas que afetam a vida de todos" (Telles, 1999:163) Foi para melhor conhecer esses processos que propusemos analisar a dinâmica dos conselhos municipais de saúde da Região Metropolitana de Belo Horizonte, ou seja, a partir da hipótese de Comunicação, Controle Público e Participação Popular no Sistema Único de Saúde que a ação dos atores sociais nos conselhos nem sempre ocorre de maneira eficaz e harmoniosa pois os interesses, as perspectivas e as percepções dos atores sociais ali presentes são diferenciados e nem sempre convergentes. Mas, por outro lado, trabalhamos com a hipótese de que ali pode ser também constado o esforço e a preocupação dos conselheiros para que de fato os conselhos funcionem tal como legalmente previsto. Foi assim que através da pesquisa eles apontaram para inúmeros problemas de comunicação, de informação e nas relações entre diferentes conselheiros, variáveis estas que dificultam o funcionamento dos conselhos, embora não apresentassem estas dificuldades como impossíveis de serem superadas, ou seja, avaliando os conselhos na perspectiva de uma instância em contínuo processo de construção do controle social ou púlico. II – Comunicação, informação e controle social Uma vez explicitada o contexto, as características e a natureza do funcionamento dos conselhos de saúde, estabelecemos aqui a premissa de que eles não podem existir fora de práticas discursivas constituídas por diferentes modos de produção, circulação e recepção de bens simbólicos que implicam no estabelecimento de redes internas e externas de comunicação e de informação. O pressuposto é o de que o processo de controle social, como uma dimensão da práxis política e social, não pode ser separado da dimensão comunicativa, pois segundo Hanna Arendt, é através do discurso que os homens se fazem políticos e tudo o que fazem, sabem ou experimentam só tem sentido na medida em que pode ser discutido, ou seja, "só podem experimentar o significado das coisas por poderem falar e ser inteligíveis entre si e consigo mesmos" (Arendt, 1993:12). Significa que a práxis política não pode ser desenvolvida sem a presença de práticas discursivas. No entanto, estas só existem quando engendradas no contexto social e este, por sua vez, determina o poder de cada ator social nos atos comunicativos. Assim, o poder e/ou característica de um dado discurso, está diretamente vinculado à localização social dos interlocutores e de acordo com as competências culturais, simbólicas e políticas de que são portadores. Essas variáveis é que tornam possível estabelecer e explicitar o elo de ligação entre a ação, o significado da ação e das relações sociais gerando o que Paulo Freire chama de práxis. Isto quer dizer que não existe ação social isolada de uma forma qualquer de comunicação. É o que leva Bakthin a afirmar que os discursos, como elementos centrais da comunicação, estão presentes em todo ato consciente, em todo ato de compreensão e em todos os atos de interpretação (Bakthin, 1981). Sendo assim podemos indagar aqui: de que maneira a comunicação e a informação dificultam ou facilitam a prática política de controle social prevista na implantação, efetivação e funcionamento dos conselhos de saúde? Partindo do princípio que o exercício do controle social feito pelos conselhos ocorre no espaço público, salientamos aqui que este exercício tem como contrapartida fundamental a idéia de visibilidade no sentido de que diversos atores sociais podem ver e compartilhar desse processo, na perspectiva de Hanna Arendt ao afirmar que "tudo o que vem a público pode ser visto e ouvido por todos". Sem visibilidade e compartilhamento não há projeto político ou ação pública. Ser visto e ouvido pluralmente (diversidade de opiniões e de interpretações) pelos outros é uma Comunicação, Controle Público e Participação Popular no Sistema Único de Saúde forma de constituição da realidade e da pluralidade humana. Significa que tanto a realidade a pluralidade só ganham existência se puderem ser publicamente configurado, ou seja, visto e ouvido por muitos, ou seja, debatida por diferentes atores sociais. O debate é a expressão da pluralidade, forma de ação e esforço pelo aparecimento público e como expressão da dimensão política da potencialidade dos homens agirem em conjunto Por essa razão o poder não pode prescindir da palavra e do diálogo, ou seja, da comunicação, para construir e interferir no espaço público e organizar politicamente os interesses coletivos. Mas, embora possamos entender a comunicação como uma variável política fundamental para a efetivação da idéias de democracia, muitas vezes à maneira de como ela é implementada pode resultar em formas de dominação política e de inibição do controle social. Para isso temos que pensar em uma forma de comunicação que leve em conta, como já dizia Paulo Freire, a presença ativa e curiosa dos sujeitos na construção, admiração e re-admiração do mundo, isto é, de um mundo que não seja estranho a eles (alienação). Para isso defende que a comunicação verdadeiramente democrática e passível de tornar o homem responsável pelo seu próprio destino e capaz de problematizar o mundo, se dá através da relação diálógica onde "todo ato de pensar exige um sujeito que pensa, um objeto pensado, que mediatiza o primeiro sujeito do segundo, e a comunicação entre ambos, que se dá entre signos lingüísticos" (Freire, 1971:66). No entanto, Freire lembra que o ato comunicativo eficiente se dá apenas quando os sujeitos são reciprocamente comunicantes e que a comunicação seja percebida dentro de um quadro significativo comum ao outro sujeito: "Se não há este acordo em torno dos signos como expressões do objeto significado, não pode haver compreensão entre os sujeitos, o que impossibilita a comunicação." (Freire: 1971:68). O exercício do controle social só pode ocorrer em um determinado campo cultural ou político quando existem informações disponíveis e capacidade das pessoas em interpretá-las adequadamente (o que implica na organização pedagógica dos fluxos informacionais), portanto, dando-lhes um significado e uma base para a ação. Estamos partindo aqui do princípio de que os indivíduos são capazes de transformar determinados estímulos informacionais e comunicacionais em formas cognitivas tanto para conhecer a realidade que os cerca quanto para agir sobre ela, o que gera uma forma particular de percepção sobre os acontecimentos que ocorrem nesse ambiente. Essa questão faz parte daquilo que Berger e Luckmann assinalam como sendo um processo intersubjetivo onde os indivíduos produzem e constroem significados através de várias formas de interacão social cujo resultado mais visível é a produção de regras institucionais, organizacionais e procedimentais que justificam ou invocam uma determinada ação. Esse processo, que podemos chamar de reflexividade, é uma das maneiras que os indivíduos tem para atribuir sentido à ação e ao mundo cotidiano em que estão envolvidos e é de fundamental importância para se determinar o grau e a qualidade da participação dos indivíduos na dinâmica das instituições e dos grupos sociais (Berger & Luckmann: 1985). Assim, podemos reiterar que o grau e a qualidade da participação não ocorrem em um vazio social e cultural, mas sim em uma rede de poder e de forças simbólicas onde os indivíduos interagem a partir de diferentes situações e inserções nos processos comunicativos, já que a Comunicação, Controle Público e Participação Popular no Sistema Único de Saúde interação social está relacionada com a posse de diferentes recursos materiais, simbólicos e discursivos para efetivar ações. Quando os indivíduos entram em uma relação de conflito essas variáveis aparecem de maneira mais cristalina, assim como as evidências de que alguns têm mais recursos que os outros, inclusive para alterar substantivamente determinadas situações. Esse quadro sócio-cultural interfere na dinâmica. Por exemplo, nos conselhos de saúde, o conselheiro-usuário é, muitas vezes, originário de uma camada popular ou de uma comunidade rural e, ao chegar ao Conselho, traz consigo tanto os traços culturais dessa origem quanto as marcas e os distintivos ideológicos presentes em seu horizonte histórico e perceptivo, como o capital e a competência cultural que possui (educação, embaraço/desembaraço com as regras da linguagem, a simbologia comportamental) que tanto podem aproximá-lo quanto distanciá-lo das questões colocadas nas pautas dos conselhos de saúde. Em relação aos conselheiros dos outros segmentos podemos dizer que a representação ocorre de maneira diferenciada. Por exemplo, o representante do corpo médico fala por uma categoria específica cujos contornos simbólicos e técnicos são perfeitamente visíveis e legitimados no plano social, isto é, suas expectativas e formas de atuação são delimitadas por uma atividade clara e hierárquica de poder a respeito das questões da saúde, e que são corporativamente compartilhadas por seus pares. No caso dos prestadores de serviços, a representação ainda é mais simples e clara, pois está diretamente relacionada com seus interesses, em que pese a possibilidade de emitir pareceres políticos sobre outras questões do sistema de saúde. Já a visibilidade social e de poder dos representantes dos usuários é bem mais difusa e sujeita a outras variáveis que nem sempre facilitam a sua participação. Por exemplo, as barreiras simbólicas impostas pela hierarquia social que separam um segmento do outro e se revelam no comportamento, na maneira de falar e de articular conceitos e idéias que nem sempre coincidem com a lógica do discurso abstrato, burocrático ou técnico. Essas diferenças são visíveis através da linguagem onde as moedas culturais têm diferentes valores de troca, sendo sua cotação baixa quando se trata dos conselheiros-usuários, limitando assim as possibilidades de provocar mudanças substantivas na política de saúde. E, independentemente das intenções dos sujeitos, é através dessas formas sutis de comunicação que se reafirma uma razão autoritária que pode comprometer, significativamente, a idéia de controle social. Significa dizer que os papeis sociais e as formas de percepção, tanto no sentido vertical (hierarquia e competência simbólica) quanto horizontal (identificação por segmento e competência simbólica) influenciam e determinam o grau de participação dos membros dos conselhos de saúde. Em primeiro lugar porque a participação se dá através de uma forma de construção social (percepção, valoração e formas de expressão) como resultado do processo interacional que acontece entre os indivíduos. Em segundo lugar porque cada membro do grupo faz uma interpretação pessoal de cada situação, como uma construção cognitiva, onde os papeis sociais e os fatos requerem uma interpretação ativa por sua parte, tanto para agir quanto para se retrair diante das questões colocadas pelo ambiente social. A questão é saber de como se dá essa dinâmica no ambiente dos conselhos municipais de saúde. Pressupomos que as maneiras de como os conselheiros avaliam a constituição dos processos participativos, as formas de interação e a própria estrutura de funcionamento dos conselhos em termos de comunicação e informação são fundamentais para entendermos esse ambiente e as tendências que apresentam em relação às suas funções. Por exemplo, a respeito das convergências e divergências entre os conselheiros ou da disponibilidade ou não da Comunicação, Controle Público e Participação Popular no Sistema Único de Saúde informação, das assimetrias interpostas nos processos interacionais e da percepção sobre os resultados práticos alcançados pelos conselhos. A análise desses quadros podem apontar para as principais dificuldades de funcionamento dos conselhos e das carências que apresentam em relação à comunicação, à informação e ao controle social. Foi dessa maneira que propusemos estudar alguns dos aspectos comunicacionais e informacionais que envolvem o funcionamento de alguns conselhos da Região Metropolitana de Belo Horizonte e que, a seguir apresentamos, ainda que parcialmente, alguns dos resultados desse estudo. III – Resultados da análise empírica 3.1. O perfil dos conselheiros Para conhecermos a composição e o funcionamento dos conselhos de saúde da Região Metropolitana de Belo Horizonte fizemos um diagnóstico baseado em entrevistas abertas, aplicação de questionários com os conselheiros dos três segmentos, além de participar das plenárias realizadas pelos 14 conselhos municipais visitados pela equipe da pesquisa. O levantamento de dados foi feito apenas nos conselhos centrais, excluindo os conselhos distritais e locais, durante o ano de 2000. Os municípios pesquisados foram: Ibirité, Betim, Mário Campos, Pedro Leopoldo, Mateus Leme, Raposos, Nova Lima, Ribeirão das Neves, Belo Horizonte, Brumadinho, Caeté, Esmeraldas, Contagem e Vespasiano. Duzentos e trinta conselheiros responderam aos questionários, sendo a maioria representantes dos usuários (131, o que corresponde a 57% dos entrevistados), seguidos dos trabalhadores (59, o que corresponde a 26%) e gestores e prestadores de serviços (40, o que corresponde a 17%). Desse universo pesquisado, 47% dos conselheiros são do sexo masculino e 53% do feminino, o que mostra ser a instância dos conselhos uma arena democrática onde homens e mulheres buscam resolver os problemas públicos da área de saúde. Tendo como base o perfil das profissões detectadas pela pesquisa nos conselhos de saúde em relação aos representantes dos usuários constatamos que a variedade por ele apresentada espelha o universo da sociedade civil. Os dados apresentaram os seguintes resultados: os aposentados são predominantes nos conselhos, com 17%, seguidos dos professores (10%), comerciantes (8%), donas de casa (7%), empregadas domésticas (5%), lavradores (5%) e funcionários públicos (5%). Do universo total encontramos ainda 43% de pessoas espalhadas em um leque variado de profissões como artistas plásticos, lavradores, operários, faxineiros, técnicos em computação, cabeleireiro, costureiras, donas de casa, dentistas, empresários, entre outras profissões. Já em relação à escolaridade dos conselheiros, esta se apresenta de maneira assimétrica, colocando o usuário em desvantagem se analisarmos do ponto de vista das desigualdades sociais e das dificuldades de acesso à educação que mantém uma correlação positiva entre grau instrucional e consciência crítica. Os conselheiros usuários são os que apresentam os mais baixos níveis de escolaridade, seguido dos trabalhadores que ficam em desvantagem em relação aos representantes do gestor. Ainda que não possamos absolutizar as conseqüências e interferências dessas discrepâncias dos níveis de escolaridade na dinâmica dos conselhos, é Comunicação, Controle Público e Participação Popular no Sistema Único de Saúde possível entender que elas funcionam como uma espécie de capital simbólico que pode reiterar relações assimétricas de poder, ainda que determinadas por um tipo de estrutura externas aos conselhos. Com relação à idade dos conselheiros, também pudemos verificar a predominância de pessoas acima de 40 anos na composição dos conselhos, ou seja, 63%, o que demonstra ser ali um espaço onde pessoas já com possíveis experiências profissionais e de vida atuam. Também do universo pesquisado pudemos constatar que 63% dos conselheiros são casados e 23% são solteiros, enquanto divorciados, separados ou em outras situações ocupam 14%. Quanto à situação ocupacional dos representantes dos usuários obtivemos os seguintes dados: 35% são aposentados, sendo que 15%, apesar dessa situação, ainda trabalham. Já 45% estão empregados. Do universo de 131 pessoas que responderam aos questionários, 21 (16%) informaram estar estão desempregadas, espelhando, mais uma vez, a situação dramática de parte da sociedade civil em relação às condições de vida a que está negativamente submetida. Do ponto de vista da renda individual dos conselheiros, a discrepância se mostra forte, reiterando as assimetrias econômicas. A renda individual da maioria dos conselheiros-usuários fica em torno de uma renda bem menor se comparada com os representantes dos outros segmentos. 3.2. O funcionamento dos conselhos De acordo com o universo pesquisado, a maioria dos conselheiros ocupa esse cargo há pouco tempo, sendo que 46% estão no conselho há um ano, enquanto 22% até dois anos e 10%, há mais de dois anos. Se por um lado esses dados revelam que novas pessoas ocupam o conselho a cada conferência de saúde ou período, por outro lado, pode revelar sérias dificuldades nos conselhos, já que a experiência acumulada para resolver os conflitos ou problemas no cotidiano do Conselho não se apresenta em função do perfil trabalhado. Mas, se por um lado, esses dados sobre a rotatividade dos conselheiros, podem revelar alguns aspectos negativos, por outro lado, eles podem ser considerados irrelevantes se observarmos que os conselheiros nunca são totalmente novos nos conselhos, pois eles participam de préconferências e conferências de saúde, das associações ou movimentos comunitários que o indicam para concorrer a uma vaga de conselheiro e, geralmente, essas indicações são precedidas de discussões ou de algum tipo de inserção dessas pessoas no campo da saúde. Mas também pessoas ligadas a partidos políticos se fazem presente nos conselhos, o que pode garantir uma maior identidade política aos conselhos, transformando-o em espaço de conflito e/ou de consensos. Do universo pesquisado, 41% responderam ser filiados a algum partido político, sendo predominante os partidos de esquerda, sendo que o PT tem a maior preferência por parte dos usuários e dos trabalhadores, seguido do PC do B, PFL, PSB, PMDB, PL e PSDB. Já os representantes do gestor se mostram distribuídos entre o PFL, PSB e PSDB. Essa distribuição mostra, de certa maneira, de como a organização social e política se apresenta de maneira diferenciada nos conselhos, sendo que os partidos que propõem mudanças nas relações sociais aglutinam majoritariamente tanto os usuários quanto os trabalhadores. Isso Comunicação, Controle Público e Participação Popular no Sistema Único de Saúde mostra também aqui possíveis origens de alguns dos conflitos vivenciados pelos conselhos, conforme dados apurados e apresentados mais a frente. Já os usuários, como possíveis representantes da sociedade, não estão no conselho apenas em função de si mesmo. Os dados obtidos mostram que a maioria está sempre ligada a alguma forma de organização social coletiva, seja um movimento social, seja uma associação comunitária. Significa que essas pessoas estão ali em nome dessas entidades ou ali se apresentam com a expectativa de resolver ou encaminhar problemas, reivindicações ou participar da formulação de projetos de saúde compatíveis com a necessidade do grupo que representa ou o elegeu para o conselho. Quanto à representação, a infra-estrutura e a autonomia dos conselhos, o representante dos usuários e presidente do Conselho Municipal de Saúde de Betim, além de vice-presidente do Conselho Metropolitano de Saúde, Osvaldo Tolentino, em entrevista no dia 16/8/2000, o grande desafio dos conselhos é o de instalar conselhos que realmente representem a sociedade. Ele aponta como as principais dificuldades é o fato da maioria não ter claro o seu poder que, aliado com a falta de infra-estrutura para o seu funcionamento tornam-se órgãos mais do governo do que da sociedade, o que compromete a sua credibilidade. " Alguma pessoas, por verem o conselho dentro de um prefeitura ou secretaria, acham que sua denúncia não será ouvida porque cairá nas mãos do governo. Esta característica tem que ser mudada porque o conselho precisa de sua independência para ter maior credibilidade entre a população: os conselhos têm que buscar autonomia, reivindicá-la para sua sobrevivência, para que possa ter o respeito da comunidade" explicou. Mas por outro lado, os membros dos conselhos mostram-se dedicados e, ao que parece, dispostos a acertar no que seriam as suas funções e responsabilidades. Por exemplo, com relação à assiduidade nas reuniões, constatamos que a maioria leva muito a sério a sua participação. A maioria dos três segmentos alegou nunca faltar (44%) ou raramente faltar (52%) às reuniões dos conselhos. Essa mesma análise positiva em relação à própria presença é reiterada quando os conselheiros são instados a avaliar a presença dos outros conselheiros (Faltam raramente: 69%, contra 24% dos que afirmam faltar freqüentemente). Cuidadosa também parece ser a atitude do conselheiro quando ele tem de faltar a alguma reunião. Não justifica a falta porque não admite faltar e quando assim admite, lembra que busca justificar essa falta perante o Conselho (52% admitiram apresentar justificativas relevantes). A maioria dos membros dos Conselhos também participam das comissões formadas, espaços estes que muito podem contribuir para o intercâmbio de diferentes experiências entre os conselheiros (51% participam de comissões, contra 44% que admitiram não participar de nenhuma comissão. Quanto ao processo de capacitação dos conselheiros, a maioria admitiu já ter participado (67%, contra 37% que admitiram não ter participado) de uma ou outra forma de capacitação ou forma de eventos que implica em decisões ou discussões coletivas a respeito da saúde, como cursos, conferências, viagens de intercâmbio, mobilizações fora do conselho. Comunicação, Controle Público e Participação Popular no Sistema Único de Saúde Quanto as funções do Conselho, a maioria dos conselheiros dos três segmentos converge no sentido de concordar que elas são as de fiscalizar o sistema de saúde, promover o controle social, exigir transparência administrativa (75%) e atuar na formulação de políticas públicas que atendam os interesses coletivos (10%). Mas será que os conselhos exercem efetivamente essas funções? A maioria dos três segmentos (73%) convergiu no sentido de que os conselhos efetivamente cumprem essas funções, contrapondo-se a 22% que entenderam o contrário, ou seja, que os conselhos não cumprem as funções previstas. Este imaginário quanto ao conselho é importante porque, independentemente de coincidir ou não com a realidade, mostra um sentimento positivo em relação à prática dos conselhos e uma disponibilidade, objetiva e subjetiva, para o seu aperfeiçoamento. Sob o funcionamento dos conselhos e o efetivo exercício do controle social, Simone Dutra Lucas, representante do gestor no Conselho de Belo Horizonte, diz que isso depende depende muito do perfil da administração em que estão situados. "Quando você tem um governante mais democrático, que de fato quer ouvir as reivindicações da sociedade, estes conselhos tendem a ter um perfil mais atuante, mais reivindicativo. Mas existem prefeitos, secretários de Estado e outros segmentos políticos ou administrativos que não querem ver os conselhos funcionando e, em conseqüência, dificultam o seu funcionamento ou politicamente fazem com que os conselheiros sempre votem os interesses do gestor. Em conseqüência, os conselhos perdem o seu papel de controlador do poder executivo" (Entrevista no dia 13/09/2000). Já para a socióloga Mercês Somarriba, da Fundação João Pinheiro, uma estudiosa das formas de organização e mobilização social, os conselhos, com uma proposta institucional de participação, visam estimular a população a "se organizar, para fiscalizar o Estado" Avalia ainda que, sob esse aspecto eles frutificam em solo fértil. Entretanto, podem correr o "risco de assumir um caráter puramente formal, pra cumprir o ritual de aprovação das contas, porque o Fundo Municipal de Saúde para receber recursos precisa prestar contas, e a prestação de contas tem que ser aceita e aprovada pelo Conselho" (entrevista ao autor). Também entende que há uma relação direta entre o funcionamento dos conselhos com o perfil das administrações e com as características de organização da sociedade civil. "Quando são eleitos administrações e governos mais democráticos, mais comprometidos com a participação popular, isso pode realmente frutificar melhor. Mas o que dificulta o funcionamento dos conselhos é basicamente o fato de que a sociedade brasileira é pouco organizada, tem pouca prática de se organizar, frente ao Estado, para exigir do Estado uma administração mais transparente, mais afinada com os interesses populares. (Mercês Somarriba, entrevista) E qual é a avaliação que os conselheiros fazem da atuação dos conselhos? A maioria (65%) julga que os conselhos tem uma atuação entre excelente e boa, enquanto 35% avaliação essa atuação como sendo regular ou ruim. O representante do gestor no Conselho Municipal de Saúde de Belo Horizonte, Eloi Luciano, faz uma avaliação crítica sobre a atuação dos conselhos. Considera, por um lado que eles são muito importantes enquanto instrumento de acompanhamento e de fiscalização do funcionamento das secretarias de saúde em qualquer instancia – estadual, federal ou municipal. Para ele os Comunicação, Controle Público e Participação Popular no Sistema Único de Saúde conselhos significam uma forma de monitoramento da implementação dos programas de saúde implantados, permitindo detectar problemas e promover a correção dos desvios. "Antes, se fosse da minha vontade, poderia criar um hospital de cirurgia plástica e contratar o Dr. Pitangui para fazer cirurgias lá uma vez por mês. Tudo a revelia do usuário. Hoje não, as ações do gestor passam pela avaliação do conselho, o que eu acho muito correto. Mas, por outro lado, avalia também que houve uma paralisação no avanço os conselhos porque eles se institucionalizaram muito em nível de participação e há pouca representatividade dos conselheiros em relação as comunidades que representam: " as pessoas desconhecem completamente os conselhos. As lideranças locais são as mesmas, são os presidentes das associações que acabam se profissionalizando enquanto conselheiros. Eu acho que os conselhos deveriam fazer uma política para atrair novas pessoas, porque só assim a gente anda", explicou Luciano. Quanto as reuniões ou plenárias dos conselhos, como instâncias de manifestação de conflitos, de cooperação, de interação e de prática discursiva, elas foram positivamente avaliadas pelos conselheiros. A maioria avaliou que são muito produtivas (24%) ou simplesmente produtivas (51%), enquanto 23% avaliaram ser elas pouco produtivas e 2% como sendo improdutivas. Segundo Simone Dutra Lucas isso não significa que ali tudo corre as mil maravilhas porque muitas vezes os conselheiros ficam muito presos a questões muito específicas, como a do medico que atendeu mal na unidade de saúde, se tem médico, se não tem médico, se cumpre o horário, se tratou bem ou mal o paciente, dificultando a discussão e o aprofundamento das questões em pauta. Avalia ainda que os segmentos se apresentam de maneira diferenciada nos conselhos e que nem sempre isso é positivo, porque confundem os foros de discussão ou de reivindicação: " As vezes os trabalhadores misturam um pouco o foro de reivindicação das questões trabalhistas deles, que na verdade deveriam estar sendo discutidas na Secretaria de Administração. Ao fazem isso trazem para dentro do conselho suas lutas sindicais, provocando o acirramentos entre os interesses dos trabalhadores, os interesses dos gestores e o interesse dos usuários (Simone Dutra Lucas, gestor, entrevista). Sendo os conselhos de saúde uma espécie de arena social, os conselheiros entendem ser natural que ali existam conflitos e o reconhecem explicitamente (76%). Apenas 22% entenderam nunca existir ali nenhum conflito. E quais as razões dos conflitos e desavenças nos conselhos? A maioria dos conselheiros apontou para as questões político-partidárias que ali predominam (60%), ou seja, reiterando a idéia de que, de uma maneira ou outra, os partidos conferem importância política aos conselhos e neles buscam interferir, gerando diversas formas de conflitos como reconhecem os conselheiros. De acordo também com nossos registros de campos, muitos conselheiros dos três segmentos criticam essa interferência político-partidária pelo fato de desviar a discussão das questões da saúde ou colocar um tipo de disputa entre partidos nem sempre muito claro para os Comunicação, Controle Público e Participação Popular no Sistema Único de Saúde conselheiros, principalmente os usuários não vinculados a nenhum tipo de partido político. Por esta razão muitos conselheiros avaliaram a presença político-partidária como um fator negativo em sua dinâmica. Além das interferências político-partidárias, foram apontadas ainda como causas dos conflitos e desavenças à discordância pessoal entre os conselheiros (16%), a falta de comunicação (13%) e a intromissão de outras instituições no interior dos conselhos (11%), como os sindicatos, por exemplo (questão reiterada principalmente pelos entrevistados do Conselho Municipal de Saúde de Belo Horizonte). Se os conflitos e desavenças podem ser considerados normais em uma instância democrática, não podem ser subestimados porque em alguns momentos podem travar ou dificultar o funcionamento dos conselhos. Segundo Osvaldo Tolentino, usuário do Conselho de Betim, os conflitos sempre vão existir, mas é necessário que os gestores, trabalhadores e usuários trabalhem juntos pelos interesses maiores da sociedade no campo da saúde, embora cada segmento se organize de maneira diferente. Mas avalia que os usuários ainda atuam de forma pouco organizada, o que dificulta o conselho cumprir suas funções: "Nós somos 50% do conselho, mas se não há interlocução entre nós, fica difícil nos organizarmos para defender propostas de interesse da sociedade ou do usuário. Nem sempre somos articulado. Quando acontece a reunião do conselho, o governo já vai articulado, o trabalhador também, enquanto o usuário entra na discussão desarticulado. Isso prejudica. Apesar de tudo, eu tenho visto um avanço muito grande por parte dos conselhos, o pessoal tem trabalhado mais unido. Nós devemos ficar atentos, porque nem sempre o que é bom para o governo é bom para o usuário. Temos que ser parceiros quando isso trazer benefícios para a população, caso contrário, temos que ser quase inimigos, não podemos deixar passar qualquer coisa prejudicial". (Entrevista) Mas muitos dos conflitos estão relacionados pela posse diferenciada do poder simbólico existente nos conselhos. Isso pôde ser observado através da intervenção do gestor nas plenárias dos conselhos cujo poder é tributário da sofisticação com que domina o discurso técnico e pelo fato de ser detentor de informações significativas sobre o funcionamento do sistema de saúde em comparação com o segmento dos trabalhadores e dos usuários. "Eles conhecem melhor a lei e têm um maior poder de convencimento, principalmente em relação aos usuários, fazendo com que estes se alinhem com os gestores, mesmo sem compreenderem bem o que está sendo votado" (Simone Dutra Lucas, gestor, entrevista). Essa relação desigual entre os segmentos também é apontada por Maria Filomena, usuária, do Conselho de Belo Horizonte. Segundo ela há um entrosamento melhor entre trabalhadores e usuários, mas o mesmo não se pode dizer em relação ao gestor. Muitas vezes o usuário costuma ser manipulado pelo gestor: "O gestor é mal intencionado, manipula mesmo, porque quer impor suas vontade ao conselho, principalmente ao usuário. Alguns usuários caem, outros não. Nós, que já enxergamos isso, estamos sempre vigilantes. Mas, o entrosamento entre usuário e trabalhador é bem bom, a não ser em situações específicas quando o entrosamento é dificultado. Quando pinta um gestor do tipo trator, que não Comunicação, Controle Público e Participação Popular no Sistema Único de Saúde respeita nada nem ninguém e se impõe como o onipotente, aí não tem jeito do conselho andar". (Maria Filomena, usuária, entrevista) Registramos ainda as seguintes causas dos conflitos e desavenças, como divergências de idéias e de interesses, discordâncias quanto à propostas entre gestor e os outros segmentos, falta de capacitação e conhecimento dos conselheiros, falta de articulação entre os conselheirosusuários, falta de integridade dos conselheiros, falta de representatividade dos conselheiros, brigas com prefeitos, pautas extensas de discussão nos conselhos, falta de apoio do gestor ao Conselho, falta de comunicação entre o Conselho Municipal e os locais, decisões tomadas mas não implementadas, etc. Essas variáveis, embora estatisticamente irrelevantes e atomizadas, são sintomáticas do que se passa no cotidiano dos conselhos de saúde e todas elas apontam para a questão das relações assimétricas de poder existentes nos conselhos ou das limitações simbólicas, culturais e políticas entre diferentes conselheiros. Quanto ao acesso à informação, o que pode ser considerado como um fator essencial para a tomada democrática de decisões e de controle social, alguns conselheiros o analisaram como fonte de problemas. Segundo ainda Maria Filomena, usuária de Belo Horizonte, uma das dificuldades é o fato do conselho enviar correspondência que nem sempre são repassadas aos conselheiros, principalmente quando ela é mediada por setores administrativos, como o gerente que não seja muito adepto do controle social, ou seja, dificulta a difusão da informação. Mas, segundo ela, isso não acontece freqüentemente. A maioria dos conselheiros julga que elas estão sempre disponíveis (68%), enquanto 28% julga que elas não são facilmente obtidas. Através de que meios os conselheiros recebem, mais freqüentemente, informações? Pelos resultados obtidos constatamos que as reuniões dos próprios conselhos foram considerados o principal meio para obtenção de informações, o que acontece através de reuniões, plenárias, conversas e debate. Também as correspondências foram avaliadas pelos conselheiros como importante instrumento de informação. Como a maioria deles não tem jornal ou boletim, torna-se fácil entender porque esses instrumentos ou veículos foram pouco citados. Mas em contrapartida, apontaram e reconheceram a carência de outros suportes comunicacionais como entraves para o funcionamento do conselho, apontando ainda a pouca disponibilidade do gestor para viabilizar instrumentos mais eficazes e transparentes de comunicação. A maioria dos conselheiros mostrou ter consciência sobre as deficiências do conselho com relação à sociedade e aos meios de comunicação (mídia). Pelas respostas, 31% avaliaram negativamente essa relação e 41% optam pela resposta regular. Apenas 25% acham que essa relação é boa. Mas, de uma maneira ou outra, esses dados mostram que os conselhos tem que investir mais nas informações que expliquem melhor à sociedade quais são as suas funções, formas de funcionamento e a importância que têm. A maioria dos conselheiros julga que a mídia tem um papel negativo em relação à saúde porque trabalha com fatos isolados. Segundo Osvaldo Tolentino, do Conselho de Betim, em uma cidade do porte de Belo Horizonte, com mais de dois milhões e meio de habitantes e uma complexa rede pública que atende grande parte dessa população, a mídia costuma pegar um fato isolado como se fosse a totalidade e a rotina do sistema. Segundo ele: "Não se leva em conta que foram realizados mais de um milhão de atendimentos. Mas o serviço é duramente criticado por causa de um fato isolado que ocorreu. A Comunicação, Controle Público e Participação Popular no Sistema Único de Saúde gente sabe que muitas coisas precisam ser melhoradas, que devemos avançar em alguns pontos, mas a mídia não respeita a atuação do setor público. As vidas que são salvas todos os dias não aparecem no noticiário. O que aparece é aquele fato isolado, que todos os veículos mostram e tratam como um escândalo" (Osvaldo Tolentino, usuário, entrevista). Ainda que avaliem muitas vezes negativamente o papel da mídia, consideram que ela é fundamental para alcançar a esfera pública, mobilizar a população, difundir as mais variadas informações. Mas apontam também que os conselhos devem se valer de outros instrumentos de comunicação para a mobilização popular no campo da saúde, como assinala Luciano Elói (entrevista), representante do gestor em Belo Horizonte: Eu acho que tanto a esfera estadual como a municipal têm que investir maciçamente na questão da participação popular. Deveríamos fazer cartilhas para atingir aqueles que usam ou não diretamente o SUS. O açougue onde você compra sua carne foi inspecionado pelo SUS. A vacinação é do SUS. Só que ninguém sabe nada disso, sobre o que é exatamente o sistema único de saúde. Então, por exemplo, em uma campanha de vacinação, era fundamental divulgar a importância da participação popular nos conselhos. Ou colocar um outdoor. A gente só vê propaganda do Ministério da Saúde na época do Carnaval, falando para usar camisinha. Por que então não colocar a questão do conselho municipal? E o que fazer para melhorar a comunicação com a sociedade? Foram muitas as sugestões e todas elas apontaram para a necessidade de criação de veículos de comunicação nos conselhos (com a predominância para a criação de jornal ou informativo do conselho) quanto para a melhor utilização dos veículos disponíveis, principalmente aqueles de caráter comunitário, como mostra a tabela abaixo, onde as sugestões de uso do rádio são relevantes. Divulgar e fazer saber o que acontece no conselho também aparece como uma necessidade premente. De acordo com as respostas dos entrevistados os conselhos deveriam melhorar a comunicação com a população através de rádio, TV e jornal e que os conselheiros participem mais das comissões locais. Propuseram também que seja promovida a capacitação dos conselheiros no campo da comunicação e feita a melhoria de sua infra-estrutura com a disponibilização de verba específica para este fim, assim como criar quadro de avisos, publicar as atas do conselho na imprensa e assegurar assessoria de comunicação aos conselhos. Também foi sugerido que os conselhos criem ou usem mais a mídia comunitária, entre outras indicações. Embora atomizadas e estatisticamente irrelevantes, essas respostas são sintomáticas para mostrar a importância que os conselheiros atribuem à comunicação e à informação e de como elas podem ser melhoradas e utilizadas pelos conselhos. Segundo Maria Filomena, representante dos usuários no Conselho de Belo Horizonte, a dificuldade na veiculação de informações impede que os conselhos consigam exercer plenamente as suas funções. Segundo ainda ela, há falta de informação nos conselhos e falta de conhecimento da população sobre eles: "A principal dificuldade é essa, o cidadão comum não sabe o direito que tem e tampouco sabe a importância dos conselhos de saúde. Ele chega no centro de saúde e se não é atendido, porque o Comunicação, Controle Público e Participação Popular no Sistema Único de Saúde médico não veio, ou não tem o médico, despeja toda sua raiva em cima dos trabalhadores. O certo seria ele ter consciência de que existe um espaço para falar e reclamar, de lutar junto com a gente. Então falta às pessoas informações sobre o SUS, das características de seu funcionamento. Sem informação como é que ele vai tomar consciência das coisas? (Maria Filomena, usuária, entrevista) E qual a relação da informação com a participação? Para Décio Ferreira, representante dos usuários de Belo Horizonte, as pessoas participam muito, são freqüentes nos conselhos mas, do ponto de vista numérico, as pessoas que assim o fazem não são muitas: "Não é uma grande quantidade, porque o bairro tem muita gente que não tem informação sobre o conselho, que não o conhece. Isso dificulta o controle social. O pessoal do bairro reclama muito do atendimento devido à demanda, que é muito grande. Eles têm dificuldades em serem atendidos, não por causa da incompetência dos profissionais, mas devido ao pequeno número deles. Já quanto às reclamações dos usuários, avalia que há um esforço para atendê-las, embora nem sempre isso aconteça de maneira satisfatória, como explica: "Geralmente os gestores procuram atendê-las, mas eu acredito que deveria ser criado uma espécie de caixa, onde as pessoas pudessem colocar suas reivindicações sem depender da presença dos gestores naquele momento. Porque nem sempre eles estão presentes, às vezes estão ocupados em outros lugares, prestando outros tipos de serviços. Então, eu acho que um box seria ideal para as pessoas irem pessoalmente colocar suas sugestões e reclames"(Décio Ferreira, entrevista) Esta declaração revela a interpretação e a preocupação dos conselheiros em propor ações que possam viabilizar a melhoria do sistema de saúde e os processos comunicacionais entre os usuários e os serviços a ele oferecidos pelo SUS. IV – Conclusões Assim pudemos constatar através da pesquisa que existe uma clara consciência por parte dos conselheiros sobre qual é ou deveria ser o papel dos conselhos no sistema de saúde em termos de comunicação, controle público e participação popular. Mostrou também que entendem claramente o papel da comunicação e da informação neste processo e na construção do imaginário popular sobre o SUS, principalmente através da mídia. No entanto, o desafio que permanece é o de fazer com que esse entendimento ou consciência sobre os conselhos passem de um estágio de denuncismo ou de meras interpretações ou constatações e passe para um estágio mais avançado onde os conselheiros possam desenvolver ações mais concretas e eficazes sobre o controle público. Por exemplo, não apenas mais constatando ou denunciando lacunas, mas também avaliando e instalando efetivamente meios e Comunicação, Controle Público e Participação Popular no Sistema Único de Saúde processos que facilitem a comunicação, a circulação de informações, além de investir na capacitação dos conselheiros de tal maneira que se possa diminuir ou amenizar as assimetrias simbólicas e cognitivas entre os diferentes atores que atuam nos conselhos como uma das maneiras de tornar a participação dos conselheiros mais eficiente, justa e verdadeiramente democrática, principalmente em relação aos segmentos populares. No entanto sabemos que isso não é fácil pois, de acordo com os resultados da pesquisa, pudemos constatar que a comunicação, a informação e o controle público são estabelecidos em um contexto de poder e que a distribuição desigual de poder entre diferentes segmentos sociais geram também formas de participação desigual. Como já dissemos anteriormente, por exemplo, o gestor, ao ter acesso mais facilmente a determinadas informações e pelo fato de deter o controle administrativo e funcional do sistema de saúde, faz com que ele tenha maior controle e influência tanto na dinâmica quanto nas decisões tomadas pelos conselhos de saúde. Também, sob este mesmo aspecto, estão os trabalhadores da saúde que levam vantagens em relação ao usuário, mas que também perdem para o gestor. A esse respeito a pesquisa empírica nos mostrou que os a maioria dos conselheiros representantes dos usuários é originária de estratos sociais bastante diferenciados dos outros segmentos (em termos de classe, capacitação sócio-educativa, de engajamento político, de condições de vida, de conhecimento técnico sobre a área). Às vezes representam uma associação comunitária, um grupo de portadores de certas doenças ou um movimento social e que, ao chegarem ao conselho, trazem consigo tanto os traços culturais dessa origem quanto as marcas e os distintivos ideológicos presentes em seu horizonte histórico e perceptivo, como o capital e a competência cultural que possuem (educação, embaraço/desembaraço com as regras da linguagem, a simbologia comportamental) que tanto podem aproximá-lo quanto distanciá-lo das questões colocadas nas pautas dos conselhos de saúde. Em relação a este tipo de quadro, a pesquisa conseguiu mostrar a importância fundamental de se estabelecer adequadamente diferentes formas de comunicação e fluxos informacionais para garantir efetivamente o exercício do controle social, principalmente se este exercício estiver verdadeiramente baseado na perspectiva democrática. Se assim for, eles devem ser pensados e projetados a partir de formas de comunicação mais dialógicas que permitam promover alterações na estrutura vertical de poder existentes nos ambientes dos conselhos que reafirmam diferentes formas de competência, como a do saber, do poder dizer e saber dizer e do poder fazer, como expressões de relações assimétricas de poder. A pesquisa mostrou ainda que os processos interativos dependem muito da visibilidade social e de poder dos quais alguns conselheiros são detentores, o que pode ser atestado, por exemplo, pela maneira de como em alguns conselhos, os conselheiros responderam ao questionário da pesquisa apenas após o consentimento dos secretários de saúde, também um conselheiro, conforme apontam os nossos registros de campo. Com relação às funções dos conselhos a pesquisa mostrou que nem sempre elas são cumpridas adequadamente, como as de fiscalizar a aplicação dos recursos financeiros, avaliar o funcionamento e a qualidade dos serviços prestados à população pela rede pública e privada de saúde, discutir, deliberar ou aprovar planos e projetos de saúde , emitir pareceres sobre convênios com entidades públicas e privadas com o SUS, conseguem ser plenamente exercidas. Mas o sentimento que os conselheiros expressaram é que elas podem ser cumpridas e que, para isso devem lutar para melhorar as condições de funcionamento dos conselhos (capacitação dos Comunicação, Controle Público e Participação Popular no Sistema Único de Saúde conselheiros, desenvolvimento de consciência sobre o que é ou não interesse coletivo, estabelecimento de adequados fluxos informacionais, melhor articulação entre os representantes e os representados no conselho, etc.). Também pudemos constatar que a melhoria nas condições de funcionamento dos conselhos dependem de como as relações assimétricas de poder e os conflitos ali existentes são tratados ou configurados, principalmente em relação entre as ações do governo (gestor) e os da sociedade representada nos conselhos (principalmente usuários). Quanto maiores as divergências, maior o clima de tensão e a dificuldade em estabelecer formas dialógicas de entendimento através de consensos livres e argumentativos para promover o controle social e definir as questões de interesse público e coletivo no campo da saúde. Mas foi significativo constatar também que há entre os conselheiros a consciência destes problemas e que, simultaneamente, há também um esforço mútuo entre os vários segmentos dos conselhos para superá-los. Ainda de acordo com os resultados da pesquisa ficou evidenciado que a maioria dos conselhos é carente de instrumentos formais de comunicação e informação. Nenhum deles parece ter conseguido viabilizar ou manter instrumentos de comunicação, como jornal, boletim, programas de rádio, etc., com exceção dos conselhos de saúde de Belo Horizonte e Brumadinho que mantiveram pelo período de um ano um jornal impresso com circulação mensal, mas que, por diferentes motivos, estavam paralisados quando foi realizada a pesquisa. A ausência destes instrumentos pode contribuir para dificultar o cumprimento das funções dos conselhos de saúde e impedir que a sociedade tenha conhecimento de sua importância. Em contrapartida, a presença desses e outros instrumentos formais de comunicação muito podem ajudar os conselhos a se tornarem mais conhecidos, divulgar mais e melhor o que fazem ou deixam de fazer. Ademais podem contribuir para melhorar a performance e a participação dos conselheiros nos debates e na compreensão das questões postas em pauta debatidas ou dos jogos de forças inerentes a este tipo de processo político. Assim se a ação dos conselhos é uma ação eminentemente política que se manifesta através de práticas comunicativas e formas de organização dos fluxos informativos, torna-se necessário, portanto, que haja investimentos nesse setor, embora a simples existência de instrumentos de comunicação e da informação, conforme já salientamos, não seja suficiente para garantir o funcionamento democrático dos conselhos tal como previsto legalmente. O que garante isso, em conjunto com instrumentos e políticas de comunicação, é a disposição dos vários segmentos ali representados em entender que a prática social é uma prática dialógica intersubjetivamente compartilhada para a ação política e a construção de significados relevantes da práxis social. Por isso reiteramos que os estudos sobre a disponibilidade/indisponibilidade de informações, as formas do bem dizer ou da compreensão de mensagens postas em circulação devem ser enfatizados mas sem negligenciar de que maneira a comunicação e a informação sustentam a práxis política interna dos conselhos e define os seus limites e alcances. Comunicação, Controle Público e Participação Popular no Sistema Único de Saúde V – Bibliografia ARENDT, Hanna. A condição humana. Tradução de Roberto Raposo; posfácio de Celso Lafer. – 6ª ed. – Rio de Janeiro, Forense Univsersitária, 1993. ARENDT, Hanna. A condição humana. Tradução de Roberto Raposo; posfácio de Celso Lafer. – 6ª ed. – Rio de Janeiro, Forense Universitária, 1993. BAKHTIN, Mikhail (Volichinov). Marxismo e filosofia da linguagem. Tradução de Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira. São Paulo, Hucitec, 1981. BERGER, Peter & LUCKMANN, Thomas. A Construção da realidade. Petropólis, Vozes, 1985 (9a. edição). CARVALHO, Antônio Ivo de. 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