CENTRO DE ENSINO SUPERIOR DO CEARÁ FACULDADE CEARENSE CURSO DE JORNALISMO CLAUDIO CESAR SOUZA TERAN FILHO RADIODOCUMENTÁRIO: LIBERDADE VIGIADA: É TEMPO DE SER LIVRE FORTALEZA-CE AGOSTO/2012 CLAUDIO CESAR SOUZA TERAN FILHO RADIODOCUMENTÁRIO: LIBERDADE VIGIADA: É TEMPO DE SER LIVRE Trabalho de Conclusão de Curso para obtenção do título de graduação em comunicação social, com habilitação em jornalismo, apresentado ao Centro de Ensino Superior do Ceará – Faculdade Cearense (FaC). Orientadora: Klycia Fontenele Oliveira FORTALEZA 2012 CLAUDIO CESAR SOUZA TERAN FILHO RADIODOCUMENTÁRIO: LIBERDADE VIGIADA: É TEMPO DE SER LIVRE Trabalho de Conclusão de Curso como prérequisito para obtenção do título de Bacharelado em Jornalismo, outorgado pela Faculdade Cearense – FaC, tendo sido aprovada pela banca examinadora composta pelos professores. Data de aprovação: ____/ ____/____ FORTALEZA 2012 CLAUDIO CESAR SOUZA TERAN FILHO RADIODOCUMENTÁRIO: LIBERDADE VIGIADA: É TEMPO DE SER LIVRE Trabalho de Conclusão de Curso como prérequisito para obtenção do título de Bacharelado em Jornalismo, outorgado pela Faculdade Cearense – FaC, tendo sido aprovada pela banca examinadora composta pelos professores. Data de aprovação: ____/ ____/____ Banca Examinadora _________________________________________________ Professor Ms Klycia Fontenele Oliveira _________________________________________________ Professora Ms Lenha Diógenes Aparecida _________________________________________________ Professor Esp Paulo Augusto dos Santos Paiva A todos aqueles que são e querem ser livres. AGRADECIMENTOS Em primeiro lugar, gostaria de agradecer às duas pessoas mais importantes da minha vida: meus pais, Claudio Cesar Souza Teran e Elena Araújo Teran. Muito obrigado por estarem ao meu lado em mais um ponto decisivo da minha jornada e por todo apoio, incentivo e confiança depositados em mim durante esses anos. Eu amo vocês. Em segundo, minha querida orientadora Klycia Fontenele. Nem sei por onde começar. Você sempre foi uma das minhas professoras favoritas e eu não poderia ter escolhido uma orientadora melhor. Primeiramente, muito obrigado por todos os livros emprestados, que serviram muito para compor a parte teórica deste relatório. Muito obrigado também por todo incentivo e, principalmente, toda dedicação que você teve durante esse semestre. Seu apoio foi fundamental para a realização deste projeto, uma experiência da qual eu nunca vou me esquecer. João Victor, Davi Jeremias e Luciano Maia, muito obrigado por aceitarem participar deste projeto e confiar em mim para compartilhar momentos tão pessoais. Espero que “Liberdade Vigiada” chegue a outros jovens homossexuais e que, ao ouvir o documentário, passem a ver vocês da mesma forma que eu: como verdadeiras inspirações. Aos meus radioatores Andrea Araújo, Davy Linhares, Gessyka Costa, Gláucia Aiezza, Ricardo Teixeira, Samya Nara, Silvia Marcela, Stefanny Rodrigues e Thiago Silva. Obrigado por aceitarem meu convite e se esforçado ao máximo para atingir as minhas recomendações. Foi um prazer poder contar com vocês neste projeto tão especial para mim. Muitos agradecimentos também para Denise Rocha (Psicóloga do Centro de Referência LGBT Janaína Dutra), Dedyanne Souza (do GRAB – Grupo de Resistência Asa Branca) por disporem de tempo para participar do radiodocumentário. Por fim, Fabio Leite, muito obrigado por toda compreensão e prestabilidade durante o processo de edição do radiodocumentário. Foram horas cansativas, mas que valeram muito no final do processo. Agradecimentos também a Alyne Virino (professora da disciplina de Projetos Experimentais II, por todo apoio, cobrança e troca de ideias), Tatyanne Linhares (por me “emprestar” seu irmão mais novo para a gravação do radioteatro), Matheus Lima e Sávio Barbosa (amigos que me ajudaram na escolha de músicas para o radiodocumentário). Por fim, embora não seja uma pessoa religiosa, gostaria de agradecer a Deus. Não tenho religião, mas não preciso dela para acreditar em Seu poder. Isso explica todas as coisas maravilhosas (e, muitas vezes, impossíveis) que consigo em minha vida. Muito obrigado por me guiar e proteger, mesmo que eu não seja o mais devoto dos fiéis. “Expresse-se, não se reprima” (Madonna). RESUMO “Liberdade Vigiada: É tempo de ser livre” é um radiodocumentario que aborda o cotidiano de três jovens homossexuais e o quanto a família e a sociedade os obrigam a, muitas vezes, ir contra sua própria natureza e estilo para evitar confrontos e preconceito. Para esse tipo de temática, o rádio se torna um veículo de comunicação único, já que, literalmente, dá voz a esses jovens para revelarem suas vidas, sonhos, angústias e, principalmente, do quanto é importante não ter vergonha do que se é e tentar ser fiel aos seus princípios, mesmo quando sua realidade não permite. Palavras-chave: Homossexualidade. Homofobia. Rádio. Radiodocumentário. ABSTRACT "Liberdade Vigiada: É tempo de ser livre" is a radiodocumentario that deals with the everyday life of three young gay men and as the family and the society are often go against their very nature and style to avoid clashes and prejudice. For this type of subject, the radio becomes a single communication vehicle, since it literally gives voice to these young people to reveal their lives, dreams, anxieties and, especially, of how important it is to not be ashamed of what it is and try to be faithful to his principles, even when your reality does not allow. Keywords: Homosexuality. Homophobia. Radio. Radio Documentary. SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO........................................................................................................ 12 2 HOMOSSEXUALIDADE: UM BREVECONTEXTO........................................ 14 2.1 Homofobia: Noções sobre um preconceito............................................................. 16 2.2 Homofobia no Brasil: Nordeste Homofóbico......................................................... 17 3 NAS ONDAS DO RÁDIO....................................................................................... 18 3.1 Radiojornalismo: O gênero informativo do rádio................................................... 19 3.2 Radiodocumentário: A reportagem aprofundada.................................................... 20 4 DIÁRIO DE CAMPO.............................................................................................. 23 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS.................................................................................. 27 6 REFERANCIAS...................................................................................................... 28 7 ANEXOS................................................................................................................... 29 12 1 INTRODUÇÃO Durante o 5º semestre de jornalismo, na disciplina de Laboratório de Jornalismo Impresso, fui designado para fazer uma matéria que abordasse o comportamento de jovens que frequentam pontos da cidade Fortaleza, conhecidos por abrigarem diversos tipos de pessoas. Alguns desses jovens eram homossexuais e me chamou a atenção o quanto sentiam medo e negavam posar para fotos para a matéria. A explicação era quase sempre a mesma: o medo da família, que ainda não sabia sobre a orientação sexual dos jovens. Nosso país ainda carece de medidas socioeducativas que sensibilizem a população para a situação dos homossexuais no Brasil. Pensando nisso, decidi realizar, como projeto de conclusão de curso, um radiodocumentario abordando jovens homossexuais, com idade entre 19 e 25 anos, que comentam sobre o processo de aceitação de suas sexualidades, passando pela reação dos familiares e como suas rotinas mudaram na sociedade. Mesmo gostando de ser homossexuais, Davi e João Victor, os mais jovens, ainda estão sob os olhos de seus familiares, que observam cada passo deles. Já Luciano, o mais velho dos entrevistados, passou muito tempo fingindo ser alguém que não é, e hoje, mesmo com as imposições de sua família e da sociedade, tenta ser quem ele realmente é. Tal temática é importante para se trabalhar com o rádio, já que, literalmente, este veículo dá voz a essas pessoas, que são tantas vezes marginalizadas no cotidiano. Outra decisão para trabalhar com um documentário radiofônico veio pelas boas experiências que tive com o meio durante o período de faculdade, sendo o rádio o responsável pelo meu início profissional no jornalismo. Além disso, o rádio possui um enorme apelo entre as massas, principalmente entre os jovens, que é o público para o qual esse projeto experimental se destina. Muitos acreditaram que o surgimento da televisão no Brasil seria o responsável pelo fim do rádio, porém, mesmo com a televisão e outras mídias, como a internet, não conseguiram acabar com a indústria do rádio, sendo ele um dos grandes meios de comunicação de todos os tempos. Por conta disso, o referencial teórico deste projeto contextualiza o rádio, com o apoio de autores como Vigil e McLeish, apresentando dados atuais que comprovam a popularidade radiofônica entre as massas, além de sua importância como veículo de comunicação, o uso do rádio para o jornalismo e sobre o formato radiodocumentário. Há também a contextualização da homossexualidade e da homofobia, desde os primeiros registros, até dados atuais que mostram o Nordeste como a região mais homofóbica 13 do Brasil. O referencial teórico também frisa como o rádio é um ótimo veículo para tratar sobre essa temática tão delicada. Em seguida, há o diário de campo, que mostra os bastidores por trás do radiodocumentário “Liberdade Vigiada: É tempo de ser livre” e a experiência que tive ao longo do semestre produzindo este projeto. E para finalizar, como anexos, os roteiros do radiodocumentário, spots e radioteatro que são ouvidos em “Liberdade Vigiada: É tempo de ser livre”. 14 2 HOMOSSEXUALIDADE: UM BREVE CONTEXTO A homossexualidade é um assunto que, no decorrer dos séculos, está envolvido por uma série de polêmicas, já tendo sido considerada doença mental por psicólogos e, até mesmo, antinatural por determinadas igrejas (TESON, 1989). Uma das definições para a homossexualidade1 é a preferência sexual por indivíduos do mesmo sexo (TESON, 1989). Tal definição, para o autor, é considerada vaga, pois o termo “preferência” faz alusão de que ser homossexual parte de uma escolha própria, sendo o correto dizer que a homossexualidade não é uma opção e, sim, uma orientação sexual. Por conta disso, esta é a terminologia utilizada no referencial teórico. Apesar das controvérsias sobre a temática, práticas homossexuais e a homossexualidade estão presentes desde os tempos mais antigos da humanidade, como exemplifica Filho (2008). De acordo com este autor, estudos de antropologia acerca da homossexualidade mostram que a prática de rituais homossexuais era comum há mais de 10.000 anos. A homossexualidade ritual era exercitada com fim de iniciação, ou seja, os jovens destas tribos, com idade de 12 e 13 anos, eram penetrados por seus tios maternos, sendo que o esperma de seu tio seria essencial para se tornarem fortes, e assim passar da infância para a fase adulta (FILHO, 2008, p. 12). Além disso, o autor cita estudos feitos sobre a Grécia Antiga e o Império Romano, onde práticas homossexuais também eram comuns. Na Grécia Antiga, por exemplo, os homens gregos, principalmente os mais velhos, possuíam o costume de se reunir nos ginásios para apreciar os corpos nus dos jovens atletas. Durante esse tempo, também era aceita a relação de adolescentes com homens mais velhos (surgindo o que hoje é conhecido como pederastia2). Ao completar 12 anos, o 1 O termo homossexualidade apareceu pela primeira vez em um panfleto anônimo alemão publicado em 1869, que se opunha a uma lei prussiana antissodomia. Mais tarde, no mesmo ano, o termo foi usado por um médico húngaro que defendia sua legalização; utilizava a palavra homossexualidade com cunho científico, tendo como objetivo falar do assunto de forma objetiva e sem cunho negativo (TESON, 1989). 2 A diferença de pederastia e pedofilia é que a pederastia é definida como “o relacionamento sexual entre um homem mais velho e um rapaz bem jovem” e a pedofilia como “prática de atos sexuais de um adulto com uma criança” (VIANNA, 2011). Disponível em: <http://www.rodrigovianna.com.br/radar-da-midia/folha-com-naosabe-a-diferenca-entre-pedofilia-e-pederastia.html>. Último acesso: 1/12/2012. 15 erômenos (adolescente) passava a ficar sob os cuidados de erastes (homem mais velho), sendo este homem escolhido pela família, com a finalidade de educar o adolescente. Durante o processo de aprendizado, o erômenos era seduzido por seu erastes, sendo o primeiro o passivo das relações sexuais até completar 18 anos. Quando adulto, aos 25 anos, o jovem poderia exercer o papel de ativo3 em uma futura relação pederástica. “Assim se perfazia o ciclo de que, aquele que um dia foi o erômenos se tornaria o erastes" (FILHO, 2008, p. 13). Os exemplos citados estavam ligados a questões culturais da época e não podem ser classificados como homoafetividade, que é um termo utilizado para definir relações homossexuais onde o principal mote é afetivo e não sexual (NOVAES, s/a). Já na Roma Clássica, a homossexualidade era tolerada, porém, sob algumas condições (BORRILO, 2010). O cidadão não podia deixar de cumprir com seus afazeres para com a sociedade, não podia tratar pessoas de cunho inferior como objeto de prazer e, mais importante, evitar ser o passivo nas relações sexuais, pois isso não afetava a virilidade do homem, sendo a esta prática sexual vista como destinada apenas às mulheres e escravos. O homem que assumisse constantemente o papel de passivo4 era alvo de zombarias. Essa constatação ainda pode ser observada em nosso cotidiano. Foi somente com a chegada da tradição judaico-cristã que houve a divisão das orientações sexuais em heterossexual e homossexual (RODRIGUES, 2004). Os religiosos logo passam a ser contra as relações ativo-passivas, transformando a heterossexualidade como o único comportamento adequado e normal. Rodrigues revela que o Cristianismo passa a perseguir os homossexuais de uma forma que ainda não havia sido praticada por nenhuma outra civilização, tornando a homossexualidade um crime e condenando à morte quem ousasse desobedecer à nova ordem. É importante salientar que mesmo passado tanto tempo, a perseguição contra homossexuais ainda existe, assim como a intolerância e a falta de informação sobre o tema. 3 Ativo e passivo constituem uma preferência sexual, onde o ativo é o sujeito que penetra e o passivo é o que deixa ser penetrado (RESENDE, 2011). Disponível em: <http://terapiaonline.weebly.com/2/post/2011/8/aquesto-da-preferncia-sexual-ativo-passivo-e-verstil-no-relacionamento-sexual-e-suas-consequncias.html>. Último acesso em 1/12/2012. 4 Para João Victor e Davi, dois entrevistados do radiodocumentario “Liberdade vigiada: É tempo de ser livre”, os homossexuais passivos ainda são vistos de forma depreciativa. Para eles, as pessoas creditam essa preferência sexual à feminilidade e, por conta disso, existe este preconceito. 16 2.1 Homofobias: Noções sobre um preconceito A palavra fobia5 é utilizada para designar o medo irracional mediante uma situação ou objeto específico. A homofobia é um termo utilizado para designar o medo ou a repulsa diante da homossexualidade ou da pessoa homossexual (FERRARI, 2011, s/p). Como o termo homofobia está empregado nesse sentido, alguns teóricos ainda discutem o emprego correto da palavra. Sendo assim, Ferrari (2011, s/p) dá um novo viés ao termo. Podemos entender a homofobia, assim como as outras formas de preconceito, como uma atitude de colocar a outra pessoa, no caso, o homossexual, na condição de inferioridade, de anormalidade, baseada no domínio da lógica heteronormativa, ou seja, da heterossexualidade como padrão, norma. Borrillo (2010) vai mais além e revela que a homofobia não só atinge os homossexuais, como também a todos aqueles que não seguem o chamado “heterossexismo6”, ou seja, “travestis, transexuais, bissexuais, mulheres heterossexuais de personalidade forte ou homens heterossexuais sensíveis” (BORRILLO, 2010, p. 16). O autor ainda divide a homofobia em quatros segmentos: - a homofobia irracional: onde há o medo diante do homossexual, causando no indivíduo uma resposta violenta; - a homofobia cognitiva: onde o indivíduo convive numa relação de tolerância com os homossexuais, porém, considera-o inferior a um heterossexual; - a homofobia geral: onde há a discriminação de pessoas em relação ao seu gênero e sexo; - a homofobia específica: forma de intolerância, especialmente dirigida aos gays e lésbicas. No Brasil, os casos de homofobia vêm sendo cada mais frequentes, sendo possível acompanhar casos em diversos veículos de comunicação. A homofobia presente no país o colocou em um preocupante ranking mundial. 5 Disponível em: < http://www.anaroxo.com/Terapia_Floral/Fobia.html>. Último acesso em: 08/08/2012. 6 Heterossexismo, segundo Borrillo (2010, p. 31), “é a crença na existência de uma hierarquia das sexualidades, em que a heterossexualidade ocupa a posição superior. Todas as outras formas de sexualidade são consideradas incompletas, acidentais, patológicas, criminosas, imorais e destruidoras da civilização”. 17 2.2 Homofobias no Brasil: Nordeste Homofóbico Uma pesquisa publicada pela organização não governamental Conexão G, em 2010, constatou que o Brasil estava no topo da lista de países mais homofóbicos do mundo, seguido por México e Estados Unidos. O país conseguiu a posição por registrar uma morte de homossexual a cada dois dias. Em 2011, o país bateu seu próprio recorde com 1,52 homossexuais assassinados a cada 48 horas. Em 2012, o GGB (Grupo Gay da Bahia) 7 já contabilizava 165 homossexuais mortos no primeiro semestre do ano, número 28% maior do que no mesmo período do ano passado. Segundo Machado (2012), o Nordeste é a região mais homofóbica do Brasil. A constatação, segundo a autora, tem como base os números divulgados pelo primeiro Relatório sobre violência homofóbica no Brasil, realizado pela Secretaria de Direitos Humanos da República (SDH) e lançado em 2012. Os dados do relatório foram feitos durante o período de janeiro a dezembro de 2011. Eles registraram 6.809 violações cometidas contra LGBT8s em todo Brasil. As violências psicológicas foram as mais relatadas, com 42,5% do total. Em seguida, veio a discriminação, com 22,3% e as violências sexuais, com 15,9% do total. Entre os estados brasileiros, os estados nordestinos aparecem nas primeiras posições, tendo Piauí em primeiro lugar, Ceará em terceiro e o Maranhão em quarto. “A cada 100 mil habitantes, o Nordeste tem 4,49 violações denunciadas e 0,24 homicídios noticiados na mídia. É oficialmente a região mais homofóbica do Brasil.” (Machado, 2012, p. 16). Com tantos casos de homofobia no Brasil e principalmente na região Nordeste, surge a importância de desenvolver projetos que sensibilizem a população a respeito do tema. Um veículo como o rádio possui a vantagem de trabalhar com essa temática, primeiro por ser um meio de comunicação popular entre as massas. Em segundo lugar por conseguir trazer anonimato para os entrevistados, já que o rádio utiliza apenas sons, o que ajuda a preservar e proteger aqueles que estão contando sua história. 7 A ONG GGB (Grupo Gay da Bahia) foi criada em 1980 e, até 2011, era a responsável por trazer dados sobre a situação homofóbica no Brasil. A pesquisa era feita com base nos crimes noticiados pela imprensa, e, por conta disso, sempre foi muito criticada devido à impossibilidade de comprovar os números apresentados. 8 LGBT é uma sigla que advém das palavras lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, travestis e transexuais. 18 3 NAS ONDAS DO RÁDIO Falar sobre um tema tão delicado como a homossexualidade pode ser bem adequado para uma mídia como o rádio. Além de dar certo anonimato para as fontes, já que o rádio não utiliza de imagens, os sons são capazes de provocar uma emoção ainda maior. Em um mundo repleto de mídias que precisam de imagens para passar informações, como cinema e televisão, o rádio se destaca por utilizar apenas o som como forma de difundir sua programação, sendo esta uma de suas principais características para atrair o ouvinte (MCLEISH, 2001). Ao contrário da televisão, em que as imagens são limitadas pelo tamanho da tela, as imagens do rádio são do tamanho que você quiser. Diferentemente da televisão, em que o telespectador está observando algo que sai de uma caixa “que está ali”, as paisagens e sons do rádio são criados dentro de nós, podendo ter impacto e envolvimento maiores (MCLEISH, 2001, p.16). Em 2012, o rádio completa 90 anos (Ibope, 2012). Mesmo com tanto tempo de existência, uma pesquisa feita pelo Levantamento Socioeconômico (LSE) do Ibope Media9 revela que o rádio está presente em nove de cada dez lares brasileiros, sendo ainda, um dos meios de comunicação mais importantes da atualidade. Tal pesquisa serve para ilustrar o quanto o rádio ainda é um meio de comunicação influente e popular. Durante a década de 1950, por exemplo, com o surgimento da televisão no país 10, o rádio foi dado como extinto (CALABRE, 2002). Porém, o rádio não só sobreviveu à televisão, como também à outra importante mídia, a internet. Isso serve para salientar a capacidade do rádio em se adaptar ao desenvolvimento tecnológico e às mudanças de hábitos culturais e cotidianos. 9 O Ibope Media é um grupo de pesquisa responsável por medir dados de audiência sobre as principais mídias do mercado, como rádio e televisão. Já o Levantamento Socioeconômico (LSE), do grupo Ibope Media, é uma pesquisa realizada todos os anos que coleta dados sobre características sociais, demográficas e econômicas das famílias nas principais regiões metropolitanas do Brasil. 10 Graças à concorrência com a televisão, durante a década de 1950, o rádio precisou passar por uma reformulação. Programas consagrados como as radionovelas e o Repórter Esso migraram para a televisão, por gerarem grandes despesas para os empresários do ramo (CALABRE 2002). 19 Uma pesquisa realizada pelo Target Group Index11, empresa do Ibope Media, mostra que a internet vem auxiliando na expansão do rádio. Na pesquisa, dados revelam que 8% de pessoas afirmam ter ouvido rádio pela internet nos últimos 30 dias, sendo que esse número sobe para 11% quando se leva em conta a idade: jovens de 12 a 24 anos. Ainda de acordo com a pesquisa, os aparelhos de celular também são responsáveis pelo aumento da audiência radiofônica. 49% das pessoas entrevistadas afirmaram sintonizar alguma estação utilizando o celular. O número sobe para 56%, entre jovens de 12 a 24 anos. A pesquisa ilustra o quanto o rádio é popular entre a juventude. Este público jovem é o foco do radiodocumentario “Liberdade vigiada: É tempo de ser livre”, que visa trazer conhecimento e informação sobre uma temática tão debatida e ainda tão cheia de preconceitos. 3.1 Radiojornalismo: O gênero informativo do rádio O jornalismo esteve presente no rádio desde suas primeiras tentativas de transmissão, já que as emissoras eram inauguradas realizando algum evento ou trazendo informações sobre sua existência (ORTRIWANO, 1985). A autora acredita que desde sua inauguração, em 07 de setembro de 192212, o rádio deixou de ser um experimento que causava encanto para se transformar em um meio de comunicação poderoso e presente na vida da população. A partir dessa data [07/09/1922], o rádio participou de todos os movimentos da vida brasileira. Ajudou a derrubar a República Velha, participou da Revolução de 32, fez extensos noticiosos sobre a Segunda Guerra Mundial. Desempenhou importante papel no Golpe Militar de 64, participou ativamente da redemocratização durante a Nova República e, pouco depois, fez ecoar país afora o processo de impeachment de um presidente da República (ORTRIWANO, 1985 p. 68). 11 Mais detalhes em <http://www.ibope.com.br/pt-br/noticias/Paginas/Radio-completa-90-anos-e-mantem-sua- popularidade-atraves-de-outras-midias.aspx>. Último acesso em: 25/08/2012. 12 Segundo a autora, Edgar Roquette Pinto, o pai da radiofonia brasileira, já havia experimentado o radiojornalismo mesmo antes de inaugurar a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro. Em 7 de setembro de 1922, já que em 1922, com a ajuda do cientista Henrique Morize, Roquette Pinto criou um transmissor experimental, em que, com sua voz, passou a ler notícias do jornal impresso e a executar músicas, advindas de seus discos de coleção. 20 Entre os muitos gêneros de programas radiofônicos, o gênero jornalístico merece ter uma posição de destaque. Vigil (2003) revela que o gênero jornalístico está ligado à realidade, aos acontecimentos concretos. Para o autor, esse gênero pode ser dividido em quatro subgêneros: informativo (onde estão inclusas as notícias simples e ampliadas, crônicas, biografias, boletins, entrevistas individuais e coletivas de imprensa, reportagens e matérias dos correspondentes), opinativo (comentários e editoriais, debates, painéis e mesas redondas, pesquisas, entrevistas de profundidade, bate papos etc.), interpretativo e investigativo (onde o formato mais utilizado é a reportagem, e também o radiodocumentario, que é uma reportagem mais ampla). E, por ser mais ampla, a reportagem dá ao repórter a chance de investigar e ir dar mais profundidade ao assunto abordado. 3.2 Radiodocumentario: a reportagem aprofundada Jung (2007) acredita que a reportagem é a essência do jornalismo. Diferente da notícia, em que as informações são passadas de um modo mais rápido e objetivo, a reportagem abre espaço para que o jornalista possa se aprofundar no tema, realizando um trabalho de pesquisa mais completo. “A reportagem é a responsável pela diferenciação do jornalismo, já que abre espaço para que o repórter investigue fatos, encontre novidades, gere polêmicas e esclareça seu público” (JUNG, 2007, p.93). Para se trabalhar com reportagem no rádio, Barbeiro (2003) aponta alguns quesitos feitos pelo jornalista José Hamilton Ribeiro, como: a originalidade do tema, objetividade, propriedade de edição, clareza, autenticidade, significância, personagens, emoção, empatia, audiência, correção do texto, gancho e conjunto, além do trabalho do repórter. O trabalho do repórter, por sinal, tem grande importância para a realização de uma reportagem radiofônica. Barbeiro (2003) orienta que o repórter deve preparar as perguntas antecipadamente e fazer com que elas sigam uma ordem lógica para que o raciocínio do entrevistado atraia a atenção do ouvinte. É necessário também que o repórter tenha em mente que a reportagem será montada, a partir de tudo que apurou. Juntamente com os depoimentos dos entrevistados, o repórter deve retratar o episódio da melhor maneira possível para o ouvinte, tendo cuidado para que seus julgamentos pessoais não atrapalhem o produto final. 21 O repórter tem de ser capaz de se envolver no tema sem ser consumido por este. Não é possível determinar qual a distância ideal a ser mantida entre o sujeito e o fato. Lágrimas, desgraças e miséria humanas são recheadas de emoção, porém esse não é o caminho para uma reportagem de qualidade. Podem ser componentes de uma situação que será relatada ao público, no entanto, não devem ser explorados, sob o risco de uma sensação ser transformada em sentimentalismo. O objetivo não é provocar repulsa, é levar à reflexão (JUNG, 2007, p. 78). Já o radiodocumentário pode ser definido como uma espécie de reportagem. Charles e Harris (1998) compartilham da mesma opinião ao afirmarem que o radiodocumentário passa pelo mesmo processo de uma reportagem. Existe a delimitação de um tema, a apuração de informações, a reunião de várias sonoras com opiniões divergentes sobre o mesmo assunto, uma abertura que deixa claro para o ouvinte sobre o que virá a ser abordado. Além da utilização de efeitos sonoros13, que são usados para atrair a atenção do público. Um bom documentário de rádio, ainda segundo os autores, deve contar com uma história que renda um desfecho, uma edição de imagens sonoras individualizadas e, claro, o uso de sons e palavras, que para eles, serão, muitas vezes, mais importantes do que a voz do locutor. “Essa é a essência do documentário. Use todos esses recursos e seu documentário será memorável.” (CHARLES & HARRIS, 1998, p. 166). Os radiodocumentarios, de acordo com Pessoa (2010), são bastante populares em países da África, Ásia, Europa e Estados Unidos, porém, no Brasil, a situação é diferente. A autora argumenta que o radiodocumentario não é frequente na programação das rádios brasileiras, sendo considerado por alguns especialistas como um gênero em extinção. A causa para a falta de investimento em radiodocumentario, ainda de acordo com a autora, seria o tradicionalismo presente nas emissoras de rádio brasileiras, tanto em frequência AM como FM, que preferem levar aos ouvintes formatos que se tornaram costumeiros, como radiojornais, boletins informativos, programas de debates e mesa redonda. Nem mesmo as emissoras all news, aquelas que concentram a quase totalidade da programação em jornalismo, despertaram a atenção para o documentário como programa informativo interessante para abordar detalhadamente temas que atraiam a atenção do público (PESSOA, 2010 p. 495). Outra questão seria o imediatismo característico do rádio. Como já comentando, o rádio é conhecido por divulgar as notícias mais rápido do que qualquer outro meio de 13 Sonoras são as gravações feitas pelos repórteres e que são utilizadas em matérias para rádio e televisão. Já os efeitos eonoros são sons criados artificialmente e que compõem a linguagem radiofônica. 22 comunicação. Uma reportagem ou um documentário, por necessitarem de uma grande pesquisa para serem realizados, acabam não se enquadrando neste padrão. Apesar das dificuldades apontadas para a realização de um radiodocumentário, esse formato é o mais indicado para um projeto como “Liberdade Vigiada: É tempo de ser livre”. Primeiro pelo fato de o documentário abordar um tema (no caso, homossexualidade) que merece ter uma apuração com mais profundidade e que, por não necessitar de imagens, traz mais conforto para os entrevistados, além de assegurar o seu anonimato. Outro ponto a ser destacado é que o radiodocumentário possui narrativas, podendo utilizar outros gêneros do rádio, como o dramático e o musical14. Essas características citadas estão presentes em “Liberdade Vigiada”, radiodocumentário que visa a ouvir jovens que superaram problemas em relação à sua sexualidade, e hoje, mesmo conseguindo se aceitar, precisam reprimir sua própria natureza, seja por conta do núcleo familiar ou por imposições da sociedade. Além do tema principal, o documentário também revela o que ajudou esses jovens a se aceitarem e suas visões dos homossexuais e do mundo. Há ainda as considerações de uma psicóloga e uma militante dos direitos LGBT sobre a homofobia presente na sociedade e em nosso estado. Músicas, radioteatro e spot educativo compõem ainda esta produção, alertando sobre a importância de respeitar e aprender a conviver com homossexuais. Mais detalhes sobre a experiência com este projeto pode ser lido no diário de campo. 14 O gênero dramático é caracterizado por um conflito dentro da história, que irá delinear os rumos dos personagens. Já o gênero musical, de uma forma ou de outra, sempre está presente em qualquer programa radiofônico, já que a música ajuda a entreter e alegrar o ouvinte que procura o rádio (VIGIL, 2004, p. 329). 23 4 DIÁRIO DE CAMPO A primeira preocupação ao começar a produzir o radiodocumentário “Liberdade Vigiada: É tempo de ser livre” foi encontrar os três entrevistados principais. Por se tratar de um tema delicado, foi necessário chegar a cada um deles com bastante calma, leveza e simpatia, explicando a temática do documentário e como seria o procedimento de entrevistas. Por sorte, os três entrevistados principais Davi Jeremias, João Victor e Luciano Maia concordaram em participar, sem muita resistência. Antes de iniciar cada entrevista, conversavamos um pouco para descontrair e deixá-los à vontade, já que a meta era que eles expressassem traços de suas personalidades sem que nada parecesse combinado ou forçado. João Victor foi o primeiro entrevistado e como única exigência pediu para que fosse trocado seu nome verdadeiro (João Victor é um pseudônimo). Pedido aceito, visto que o anonimato desta fonte não prejudicaria o objetivo o radiodocumentário e nem traria prejuízo ao entendimento do seu conteúdo. Mais do que que saber o nome dos entrevistados, o que interessavam eram suas histórias que se assemelham às histórias de muitos homossexuais. A entrevista durou aproximadamente 25 minutos. Alguns livros, como “Manual de Jornalismo em Rádio”, de Heródoto Barbeiro, pedem para que as entrevistas durem no máximo 10 minutos. Precisei ignorar o conselho para alcançar a emoção e os traços de subjetividade das fontes. Então, deixei livre a questão do tempo para que os entrevistados falassem o máximo possível, tanto para se sentirem mais à vontade, como também para não perder nenhuma informação, a ser revelada nos detalhes das variações de tons das vozes dos entrevistados. O segundo entrevistado foi Davi, cuja a entrevista mais longa: 40 minutos. Davi é do tipo de pessoa que gosta de dar várias respostas em uma. Com microfone na mão e o braço direito cansado, em nenhum momento parei os pensamentos de Davi. A sensação que tive foi de que ele estava esperando aquela entrevista há algum tempo, já que em muitos momentos suas palavras soavam como um desabafo. Impressionou-me a forma com a qual falou sobre temas tão difíceis, como o processo de aceitação de sua homossexualidade e sua relação com a família, em especial com a mãe. Quando pergunto se quer que seu nome seja alterado, Davi me responde prontamente: “Não. Pode colocar meu nome verdadeiro”. As entrevistas com João Victor e Davi me deixaram mais confiante para conversar com Luciano. A entrevista mais pareceu um bate papo entre amigos, já que Luciano estava bastante relaxado e entusiasmado ao responder as perguntas. Nem de longe me pareceu ser o 24 adolescente retratado por ele no documentário, que precisou se esconder por muito tempo por temer sofrer preconceito. Hoje, Luciano tem orgulho de sua sexualidade e é categórico ao afirmar que segue sua vida da forma que acha correta, sem se importar com os comentários negativos vindos de sua família ou da sociedade. Mesmo reclamando de alguns aspectos referentes ao mundo homossexual e querendo ter um filho heterossexual, Luciano adora o fato de ser gay. Além dos rapazes, procurei também especialistas no assunto homossexualidade/homofobia. Minha primeira parada foi no Centro de Referência LGBT Janaína Dutra15, onde conversei com a psicóloga Denise Rocha. Seguindo o mesmo processo que tive com João Victor, Davi e Luciano, conversei um pouco com Denise, explicando sobre o documentário e deixando-a mais relaxada. Ao final da entrevista, ela pediu uma cópia do documentário de rádio para anexar aos arquivos do Centro. Pedido este que foi prontamente atendido. Minha outra entrevista é com a militante Dediane Souza, do GRAB – Grupo de Resistência Asa Branca16. Dediane é travesti e tive uma grande preocupação em involuntariamente ofende-la, já que nunca havia conversado com uma travesti, e não sabia, por exemplo, se deveria chama-la no masculino ou no feminino. Apesar de alguns deslizes cometidos, Dediane foi extremamente compreensiva e solícita e contribuiu muito para a realização deste trabalho. Para realizar as entrevistas com João Victor, Davi Jeremias e Luciano Maia, adotei um tom mais descontraído, para deixa-los à vontade e mais seguros para falar sobre as temáticas abordadas. Já com Denise Rocha e Dediane Souza, adotei um tom mais sério, por se tratar de um assunto mais polêmico. Além das entrevistas, o radiodocumentário me deu a oportunidade de trabalhar com outros formatos radiofônicos como o spot, vinheta de passagem e radioteatro. Boa parte das vozes ouvidas nessas passagens é de alunos da Faculdade Cearense. A escolha de alguns desses nomes deu-se por já conhecer suas vozes no rádio, já outros aconteceu por conta do acaso. Para adiantar o processo, comecei a gravar esses trechos do radiodocumentário durante o período de entrevistas e da escrita do relatório técnico. A primeira gravação foi o 15 O Centro de Referência LGBT Janaína Dutra é um órgão criado pela Prefeitura Municipal de Fortaleza, que presta atendimento jurídico, psicológico e de assistência social gratuito, para a população LGBT. 16 O GRAB – Grupo de Resistência Asa Branca é uma organização não governamental, que ajuda no combate à discriminação de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e pessoas com o vírus HIV/AIDS no estado do Ceará. 25 spot testemunhal, que conta com a participação de Andrea Araújo. Minha recomendação a ela foi: “Preciso que você faça isso como se estivesse se livrando de um grande peso nas costas. Quero que soe como um desabafo.”. Com apenas uma tentativa, Andrea passou a emoção que eu procurava. As queridas amigas Gessyca Costa, Silvia Marcela e Stefanny Rodrigues também acertaram de primeira. São delas as vozes ouvidas no primeiro spot educativo, onde duas amigas soltam um comentário homofóbico e são repreendidas por alguém que as ouve. Para as assinaturas dos spots, convoquei Samya Nara, por já termos trabalhado em outro projeto de rádio da faculdade. Já a vinheta de passagem “Você está ouvindo Liberdade Vigiada: É tempo de ser livre”, foi gravada, de última hora, pelo colega de classe Ricardo Teixeira, que estava passando em frente ao estúdio, quando o técnico de som Fábio Leite o chamou para a gravação. É alguém a quem preciso agradecer eternamente pelo favor. Já o radioteatro foi a parte mais trabalhosa. Para gravar, chamei a amiga Gláucia Freitas, já que ela possui uma voz doce, porém, sabe deixá-la mais forte quando precisa se impor. Essa é uma característica importante para a mãe do radioteatro, que começa dócil, ao ver seu filho, e se descontrola ao ser indagada por ele. Gláucia não tem experiência como atriz e, como o personagem exigia dramaticidade, ela se mostrou um pouco tímida no começo. Para ajudá-la, também deixei minha vergonha de lado e gravei com ela como os dois personagens masculinos da história: o filho e o delegado. Isso a ajudou a entrar no clima e Gláucia deu seu melhor, contribuindo para um dos melhores momentos do radiodocumentário. Apesar de ter gravado com Gláucia, minha voz não poderia ser usada no radioteatro, já que minha voz foi utilizada na locução principal do radiodocumentário. Por conta disso, fui atrás de uma criança para o papel do filho, no caso meu vizinho Davy Oliveira, de oito anos. Trabalhar com criança é um desafio, já que crianças são extremamente tímidas, ainda mais na presença de um microfone. Com muita calma expliquei a Davy o que ele precisava fazer. Outra dificuldade encontrada foi que, assim como o personagem, Davy ainda não conhece o lado pejorativo da palavra “veado”. Ao ler a frase com ele, perguntei se Davy sabia o que era aquilo e ele me respondeu: “Sei. É um animal. Mas por que chamam o Renatinho assim?”. Respondi “Quase todo mundo tem um apelido. Às vezes, o apelido é carinhoso e a pessoa gosta. Mas tem gente que gosta de apelidar as pessoas com nomes feios, só para deixá-las chateadas. É isso que acontece com o Renatinho e você na história quer entender por que o chamam assim.” Cumprido meu papel (também) de educador, a gravação ocorreu sem problemas. 26 Assim como Ricardo, Thiago Silva também apareceu no projeto por conta do acaso. É ele quem interpreta o delegado. O técnico de som Fábio Leite, mais uma vez, foi à caça e trouxe Thiago para a gravação. Solícito, Thiago me perguntou como gostaria que sua voz soasse. Instruí: “Quero que faça uma voz grave, séria. Uma voz de reprovação, como se você quisesse mostrar aquela mãe que o filho dela não é quem ela pensa ser.” Thiago é mais alguém a quem irei agradecer o resto da vida. Com tudo pronto, hora de juntar o vasto material em um programa de 30 minutos. O roteiro é dividido em quatro blocos. O primeiro aborda o momento da descoberta e da aceitação dos entrevistados e de suas famílias com a sexualidade. O segundo mostra a importância dos meios de comunicação, como internet e música, para os jovens homossexuais. O terceiro bloco mostra as impressões que os três entrevistados principais têm sobre o mundo gay. E o último bloco discute a questão da homofobia, principalmente a homofobia no núcleo familiar. Decidi que eu mesmo faria a locução principal do radiodocumentário, por já trabalhar com locução em rádio. Na hora da edição, Fábio Leite, além de servir como técnico de som (e como descobridor de talentos), também teve um papel de amigo durante esse processo. Passamos uma sexta-feira, das 17h30 até às 22h editando o material bruto devido à sua boa vontade em me ajudar a obter o melhor resultado possível. Apesar da correria e do estresse na realização deste trabalho (algo que, creio eu, é comum em todo trabalho de conclusão de curso), sinto orgulho de poder ter feito “Liberdade Vigiada: É tempo de ser livre”. Espero que este projeto ultrapasse as linhas da faculdade e ganhe espaço em outros veículos. Além disso, e mais importante, espero que este documentário de rádio sirva de ajuda para jovens que passam pelos mesmos problemas enfrentados por Davi, Luciano e João Victor e que ajude a sensibilizar pessoas que são contrárias à homossexualidade. 27 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS “Liberdade Vigiada: É tempo de ser livre” fez com que se trabalhasse não só o lado jornalístico aprendido durante os quatro anos de curso, mas, também, meu lado humano. Durante a realização do documentário de rádio, minha preocupação não era apenas em tirar uma boa nota, mas também em criar um produto que levasse à consciência e à sensibilização. A homossexualidade é um assunto debatido ao longo dos séculos e que ainda carece de muitas informações. Os homossexuais apresentados no radiodocumentário são pessoas engraçadas, divertidas, sinceras e talentosas. Todos estudam, trabalham, são bons filhos e bons cidadãos. É injusto saber que todas essas características, que são dignas para qualquer ser humano, passam a ser desprezadas pela sociedade apenas por conta da orientação sexual deles. Pior ainda é saber que o preconceito, muitas vezes, acontece em dois lugares tão importantes na formação de um jovem: a escola e o ambiente familiar. Por conta disso, é importante a iniciativa de projetos que ajudem na conscientização não só da sociedade, mas também para os homossexuais, que não devem ter vergonha de sua orientação sexual e sim orgulho. Mesmo com as dificuldades apresentadas durante o radiodocumentário, João Victor, Davi e Luciano ensinam o quanto é importante ser fiel a quem você é. Uma lição que deve ser aprendida e valorizada por qualquer ser humano, independente de sua orientação sexual. Trabalhar com esse projeto também me fez utilizar algumas técnicas aprendidas durante os quatro anos do curso de comunicação social e me fez perceber o quanto o jornalismo é importante para levar ao grande público conhecimento, informação e, principalmente, esclarecimentos. 28 7 REFERÊNCIAS BARBEIRO, Heródoto. Manual de radiojornalismo. 4.ed. Rio de Janeiro: Campus, 2003. BORRILLO, Daniel. Homofobia - História e crítica de um preconceito. 2.ed. Minas Gerais: Autêntica, 2010. CALABRE, Lia. A Era do Rádio - Descobrindo o Brasil. 3.ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2002. CHANTLER, Paul e HARRIS, Sim. Radiojornalismo. 3.ed. São Paulo: Summus, 1998. FERRARI, Juliana Spninelli. Homofobia, 2011. In: PORTAL BRASIL ESCOLA. Disponível em: <http://www.brasilescola.com/psicologia/homofobia.htm>. Acesso em: 01/12/2012. FILHO, Francisco Carlos Moreira. O reconhecimento da união homoafetiva como entidade familiar. Presidente Prudente – SP, Faculdade de Direito de Presidente Prudente, 2008. (Monografia em Direito). Faculdade de Direito de Presidente Prudente, 2008. JUNG, Milton. Jornalismo de rádio. 2.ed. São Paulo: Contexto, 2004. MACHADO, Candice. Nordeste na dianteira da homofobia. Nordeste 21, Fortaleza, n. 40, novembro. 2012 MCLEISH, Robert. Produção de Rádio - Um Guia Abrangente de Produção Radiofônica. 2.ed. São Paulo: Summus, 2001. ORTRIWANO, Gisela Swetlana. Radiojornalismo no Brasil: Fragmentos de história. Revista USP, São Paulo, n.56, fevereiro, 2003. PESSSOA, Sônia Caldas. Radiodocumentário: gênero em extinção ou lócus privilegiado de aprendizado? In: KLÖCKNER, Luciano e FERRARETTO, Luiz Artur (org.). E o rádio? Novos horizontes midiáticos. 2.ed. Porto Alegre: Edipucrs, 2010. RODRIGUES, Humberto. O Amor entre iguais. 2. ed. São Paulo: Mythos, 2004. TÉSON, Nestor Eduardo. Fenomenologia da Homossexualidade Masculina. 3.ed. São Paulo: Edicon, 1989. VIGIL, José Ignacio López. Manual Urgente Para Jornalistas Apaixonados. 2.ed. São Paulo: Paulinas, 2004. 29 ANEXO ANEXO A – ROTEIRO DO RADIODOCUMENTÁRIO Radiodocumentário: Liberdade Vigiada: É Tempo de ser livre Produção: Claudio Cesar Souza Teran Filho Técnica: Fábio Leite Duração: 30 minutos 1º Bloco TEC: SOLTA CARACTERÍSTICA LOC1: Liberdade Vigiada: É Tempo de ser livre. Uma produção de Claudio Cesar Filho, estudante do curso de Jornalismo da Faculdade Cearense. TEC: DESCE CARACTERÍSTICA TEC: SOBE BG LOC1: Para um jovem homossexual, o que pode ser definido como “liberdade vigiada”? TEC: SOBE BG LOC1: Em “Liberdade Vigiada” vamos conhecer Davi, João Victor e Luciano, três jovens homossexuais que falam das relações com suas famílias e a sociedade. Como foi o processo de aceitação e o que mudou cotidianamente ao assumirem sua sexualidade? O que os ajudou durante esse processo? Como foi a reação e a relação dos familiares ao serem confrontados com a sexualidade dos filhos? TEC: SOBE BG LOC1: Você pode gostar ou não de homossexuais, mas uma coisa é certa: A homossexualidade nunca esteve tão em evidência como agora. Seja por meio de novelas ou através de jornais e internet, os homossexuais conquistam cada vez mais seu espaço na sociedade. TEC: SOLTA ÁUDIO "AUMENTOU O NÚMERO DE CASAIS GAYS QUE QUEREM OFICIALIZAR O CASAMENTO" TEC: SOLTA ÁUDIO "O SUPREMO RECONHECEU A CASAIS HOM OSSEXUAIS OS MESMOS DIREITOS DE UM CASAL HETERESSEXUAL.”. TEC: SOLTA ÁUDIO "CASAL HOMOSSEXUAL ADOTA CRIANÇA" LOC1: Só que mesmo em um bom momento, a homossexualidade é, e sempre foi, motivo de preconceito nas sociedades em geral, o que, muitas vezes, torna difícil para um jovem gay assumir sua orientação sexual em seu cotidiano. LOC1: Até mesmo jovens que são assumidos tendem a se reprimir em determinadas ocasiões e situações por conta do meio social em que vivem. Esse fato pode ser definido como uma “Liberdade Vigiada.”, que dá nome a este radiodocumentário. TEC: SOLTA SONORA DAVI JEREMIAS [06:38 – 06:48] LOC1: Para Davi, a descoberta de sua sexualidade foi complicada. Ele lembra sua infância, quando se percebeu homossexual e o quanto reprimiu isso ao longo dos anos. TEC: SOLTA SONORA DAVI JEREMIAS [01:31 – 01:45] LOC1: Após frequentar aulas de teatro, aos 17 anos, Davi passou a entrar em contato consigo mesmo, fato que o ajudou a aceitar melhor sua sexualidade. TEC: SOLTA SONORA DAVI JEREMIAS [03:24 – 03:43] LOC1: Após conseguir se aceitar, Davi decidiu contar para sua mãe sobre sua orientação sexual. TEC: SOLTA SONORA DAVI JEREMIAS [05:52 – 06:23] LOC1: A família também foi um empecilho para Luciano. Diferente de Davi, Luciano ignora os comentários e observações e se mantém fiel ao seu próprio estilo. TEC: SOLTA SONORA LUCIANO [03:09 – 03:34] LOC1: Mas nem sempre foi fácil para Luciano aceitar sua sexualidade. TEC: SOLTA SONORA LUCIANO [00:56 – 01:15] LOC1: Luciano então vivia em uma “Liberdade Vigiada”, já que era o único gay de seu círculo social e precisava esconder isso. TEC: SOLTA SONORA LUCIANO LOC1: Já para João Victor, a descoberta da sexualidade ocorreu de forma tranquila. TEC: SOLTA SONORA JOÃO VICTOR [01:46 – 01:53] LOC1: Contar para seus pais também não foi um problema TEC: SOLTA SONORA JOÃO VICTOR [03:38 – 04:17] LOC1: Mesmo com essa facilidade em se aceitar e contar para seus pais, João Victor não mora com eles, e por isso, é obrigado a esconder sua sexualidade dos outros parentes. TEC: SOLTA SONORA JOÃO VICTOR [05:41 – 06:01] TEC: SOLTA VINHETA TEC: SOLTA SPOT EDUCATIVO 01 TEC: SOLTA BG TEC: DESCE BG 2º Bloco LOC1: Estamos de volta com “Liberdade Vigiada”. Durante o processo de descoberta da sexualidade, as mídias exerceram um papel de apoio na vida de João Victor, Luciano e Davi. Para João Victor, o meio de comunicação que mais se destacou foi a internet, e mais precisamente as redes sociais. TEC: SOLTA SONORA JOÃO VICTOR [03:11 – 03:47] LOC1: Davi destaca que as mídias servem não só de apoio aos homossexuais, mas também para instruir o público sobre o assunto. TEC: SOLTA SONORA DAVI [09:47 – 10:43] LOC1: Uma dessas mídias que ajuda a levar essa normalidade a todos, é, sem dúvidas, a música pop. TEC: SOLTA MÚSICA – BRITNEY SPEARS: TILL THE WORLD ENDS LOC1: A música pop é o gênero preferido de muitos homossexuais. Sabendo disso, as cantoras pop trazem em suas letras e clipes diversas referências à vida e ao estilo homossexual. TEC: SOLTA MÚSICA – MADONNA: GIRL GONE WILD LOC1: Luciano reconhece a contribuição que essas cantoras trazem para os homossexuais. TEC: SOLTA SONORA LUCIANO [07:57 – 08:13] LOC1: Além dessa versão divertida, as cantoras pop também apostam em letras mais sentimentais, realçando o quanto é importante não ter vergonha e ser fiel a quem você é. Um exemplo disso é a canção “Beautiful”, de Christina Aguilera. TEC: SOLTA MÚSICA – CHRISTINA AGUILERA: BEAUTIFUL LOC1: Davi cita como a cantora Katy Perry o confortou em um momento muito importante de sua vida. TEC: SOLTA SONORA DAVI [03:30 – 03:54] TEC: SOLTA MÚSICA – KATY PERRY: I KISSED A GIRL TEC: SOBE BG TEC: SOLTA SPOT EDUCATIVO 01 TEC: SOLTA VINHETA DE PASSAGEM 3º Bloco LOC1: Estamos de volta com “Liberdade Vigiada”. No primeiro bloco, Davi, Luciano e João Victor revelaram como foi difícil tanto para eles como para as famílias aceitar sua sexualidade. Mas e sobre o Mundo Gay? O que eles pensam a respeito? TEC: SOLTA SONORA JOÃO VICTOR [00:17 – 00:39] LOC1: Davi também concorda com essa questão. Para ele, homossexuais efeminados possuem uma dificuldade maior para arrumar um relacionamento. TEC: SOLTA SONORA DAVI [14:26 – 14:57 / 15:23 – 15:36] LOC1: Já Luciano, acredita que há muita superficialidade no meio, o que contribui para a desunião do grupo. TEC: SOLTA SONORA LUCIANO [00:22 – 00:29 / 00:54 – 01:11] LOC1: E em relação a estereótipo? Será que os rapazes se enquadram em algum? TEC: SOLTA SONORA JOÃO VICTOR [05:50 – 06:19] TEC: SOLTA SONORA DAVI [05:54 – 06:13 / 06:30 – 06:42] TEC: SOLTA SONORA LUCIANO [09:39 – 09:56 / 10:08 – 10:24] LOC1: E como vai ser caso venham a terum filho homossexual? TEC: SOLTA SONORA DAVI [18:18 – 18:32] TEC: SOLTA SONORA JOÃO VICTOR [07:23 – 07:40] LOC1: Já Luciano pensa bem diferente de Davi e João Victor. TEC: SOLTA SONORA LUCIANO [02:35 – 03:21] TEC: SOBE BG TEC: SOLTA VINHETA TEC: SOLTA RADIOTEATRO 4º Bloco TEC: SOLTA ÁUDIO: MAIS UM CASO DE HOMOFOBIA... TEC: SOLTA ÁUDIO: IDOSO É BRUTALMENTE ESPANCADO... POR SER HOMOSSEXUAL TEC: SOLTA ÁUDIO: JOVEM TEVE O ROSTO DESFIGURADO... POR SER HOMOSSEXUAL LOC1: A homofobia está cada vez mais frequente em nossa sociedade. O estado do Ceará, por exemplo, está em quarto lugar em denúncias homofóbicas do Disque cem, sendo o estado Nordestino com mais ocorrências. Por que será que nosso Estado está nessa colocação? A psicóloga Denise Rocha dá a sua opinião. TEC: SOLTA SONORA DENISE ROCHA [06:01 – 06:33] LOC1: A militante Dediane Souza acredita que o Ceará estar na 4ª colocação, mostra também que as pessoas estão denunciando cada vez mais, o que é importante para o meio LG BT. TEC: SOLTA SONORA DEDIANE [00:24 – 01:20] LOC1: Dediane também revela onde acontecem os maiores casos de agressões a homossexuais jovens aqui no Ceará. TEC: SOLTA SONORA DEDIANE [02:16 – 02:29] LOC1: Parece mentira, mas o ambiente familiar é onde mais ocorrem casos de homofobia contra jovens no Brasil. Dados do Disque Cem mostram que 42% das agressões a homossexuais acontecem dentro de casa. Na maioria dos casos, a mãe é a principal agressora. Qual então deveria ser o papel da família ao ter um filho homossexual? TEC: SOLTA SONORA DENISE ROCHA [03:29 – 03:55 / 04:22 – 04:31] TEC: SOLTA SONORA DEDIANE [03:23 – 04:03] LOC1: Mesmo com a homofobia presente na sociedade e no núcleo familiar, a psicóloga Denise Rocha acredita que os homossexuais vivem um bom momento para se assumir. TEC: SOLTA SONORA DENISE ROCHA [01:06 – 01:34 / 03:09 – 03:16] LOC1: Dediane Souza também acha que é um bom momento. Para ela, os jovens não devem reprimir sua sexualidade. Pelo contrário. TEC: SOLTA SONORA DEDIANE [09:46 – 10:36] LOC1: Com essas dificuldades em jogo, será que nossos entrevistados achariam melhor ter nascido heterossexuais? TEC: SOLTA SONORA JOÃO VICTOR [07:54 – 08:19] TEC: SOLTA SONORA LUCIANO [04:34 – 05:20] LOC1: E Davi? Mesmo com a constante vigilância da mãe, Davi não vai deixar de aproveitar seu baile de formatura no final do ano. TEC: SOLTA SONORA DAVI [20:28 – 21:24] LOC1: Mesmo com toda essa produção, Davi não vai convidar os pais para seu baile de formatura para evitar uma possível situação desconfortável. El es vão perder a festa. TEC:SOBE BGLOC1: Chegamos ao fim de “Liberdade Vigiada”. Os depoimentos e histórias contadas durante o documentário servem para ilustrar que o mais importante de tudo é ser fiel e não ter vergonha de quem você é. Mesmo que o ambiente não seja o mais propício, há formas de se sentir confortável consigo mesmo, seja com o apoio de órgãos governamentais ou até mesmo com uma música de sua cantora favorita. Chega de medo e repressão. É hora de ser livre. TEC: PRETA GIL – SOU COMO SOU TEC: SOLTA CARACTERÍSTICA LOC1: Gostaria de agradecer à Klycia Fontenele, Alynne Virino, Fábio Leite, Davi Jeremias, Luciano Maia, João Victor, Denise Rocha, Dediane Souza, Andrea Araújo, Gláucia Freitas, Samya Nara, Gessyka Costa, Silvia Marcela, Steffany Rodrigues e Davy Oliveira. Sem a ajuda de vocês, esse radiocumentário não teria existido. LOC1: “Liberdade Vigiada: É Tempo de ser livre”, uma produção de Claudio Cesar Filho, sob orientação de Klycia Fontenele, para a conclusão do curso de jornalismo da Faculdade Cearense. Na técnica de som, Fábio Leite. ANEXO B – ROTEIRO SPOTs EDUCATIVOS Spot Educativo – 01 TEC: SOLTA SOM “BARULHO DE GENTE” LOC1: Não consigo decidir qual roupa levar. O que você acha dessa blusa, Amanda? LOC2: Não gostei, não. É muito gay. LOC1: Sério? LOC2: Sim. Totalmente gay. LOC3: Ei, você realmente não devia dizer isso. LOC2: Dizer o quê? LOC3: Dizer que uma coisa é gay, como se isso fosse algo ruim. Imagina se eu digo pra sua amiga que a blusa dela é “Totalmente Amanda”. TEC: DESCE SOM LOC3: Você se sentiria ofendida, não se sentiria? LOC4: Quando você diz “Isso é tão gay”, você percebe o quanto está sendo ofensivo? Pare e pense nisso. Spot Educativo - 02 LOC1: Meu nome é Maria Joaquina, e eu sou mãe do Marcos Henrique. Em agosto do ano passado, o meu filho me chamou pra uma conversa séria, e disse que era homossexual. Eu fiquei perplexa, mas respirei fundo e disse que aceitaria sem problemas. Quando Marcos Henrique me apresentou um namorado, eu fiquei histérica. Meu filho se afastou completamente de mim, e eu percebi que quem estava errada era eu, não ele. Antes de ser homossexual, Carlos Henrique é meu filho, e meu amor por ele é maior do que qualquer outra coisa. TEC: SOBE BG LOC2: A ideia de ter um filho gay pode não ser fácil de aceitar, mas a situação é bem mais difícil para quem é homossexual. Apoie e seja companheiro do seu filho. ANEXO C – ROTEIRO RADIOTEATRO Radioteatro TEC: SONS DE PASSOS TEC: SOM DE PORTA ABRINDO LOC1: Oi, mamãe! LOC2: Oi, meu filho. Como foi hoje na escola? LOC1: Ah, foi tudo bem. A professora começou a ensinar o alfabeto. TEC: SOM DE COPO SENDO ENCHIDO LOC2: Ah, é? Pois vá tomar banho, e me conte tudo na hora do almoço. LOC1: É... mamãe... Posso te fazer uma pergunta? LOC2: Claro, meu filho. O que houve? TEC: SOM DE COPO SENDO ENCHIDO LOC1: O que é um “veado”? TEC: TEMPO DE SILÊNCIO (05 SEGUNDOS) LOC2: Por que você quer saber disso? Alguém anda falando coisas pra você? LOC1: Não, mãe. É que assim, lá na minha classe tem um menino chamado Renatinho. Daí, os meninos da minha turma vivem batendo e maltratando ele. TEC: SOM DE COPO SENDO ENCHIDO LOC2: Bom, meu filho dá próxima vez em que os meninos baterem no Renatinho, você tem que ir junto e bater também! Você é homem. Homem que é homem não pode andar com gente assim. Faça como os seus amigos, e não deixe esse menino chegar perto de você! LOC1: Mas mamãe, o Renatinho é tão legal. TEC: SOM DE COPO QUEBRANDO LOC2: Mas eu não quero saber de você andando com esse menino, está me ouvindo Carlos Eduardo? Que absurdo, onde já se viu. Como uma escola deixa uma criança doente conviver com os alunos normais! Não ande com esse menino, e se ele chegar perto de você, é pra você bater e mandar ele nunca chegar perto de você, ta me entendendo? TEC: Som de mudança de tempo LOC2: Boa noite, seu Delegado. Eu sou Maria Imaculada, a mãe do Carlos Eduardo. Assim que me ligaram, eu vim correndo pra delegacia. Cadê o meu filho? Eu preciso ver o meu filho! LOC3: Boa noite, Dona Maria. Sinto informar, mas o seu filho ta muito encrencado. Foi preciso duas viaturas policias pra conter a população. Por pouco ele não foi linchado. LOC2: Mas, seu Delegado, meu filho é um rapaz bom. Ele nunca fez nada de errado! LOC3: Não é bem assim, dona. Seu filho e um grupo de amigos estavam andando pela praia, quando avistaram um casal homossexual de mãos dadas. Seu filho começou a falar várias ofensas pro casal. Um dos rapazes xingou o seu filho, que ficou descontrolado e partiu pra cima do rapaz, que foi espancado brutalmente pelo seu filho. TEC: BARULHODE CADEIRA SENDO AFASTADA LOC2: Eu não posso acreditar que o meu Carlos Eduardo possa ter feito algo assim. Eu sempre criei meu filho tão bem, seu Delegado. Sempre o ensinei a como se deve tratar as pessoas!