Clara Huber Peed Onde nós estamos? Sobre a importância do debate acerca dos destinos da Modernidade para a psicanálise* pulsional > revista de psicanálise > artigos > p. 48-62 ano XVIII, n. 182, junho/2005 Este artigo se propõe a lançar as bases para a discussão sobre os destinos da Modernidade. Por um lado a sua suposta superação e, por outro, a possibilidade de que a Era Contemporânea esteja em continuidade e não em ruptura com ela. O objetivo do trabalho é desenhar os contornos da circunstância em que vivemos para avaliar em que medida o sujeito é ou não é mais aquele concebido pela psicanálise, objeto da prática psicanalítica. Para tanto, recorremos a alguns teóricos da Epistemologia, das Ciências Socioeconômicas e da Filosofia para examinar as homologias possíveis entre a psicanálise e o capitalismo tardio. > Palavras-chave: Modernidade, pós-Modernidade, capitalismo tardio, sujeito >48 This article discusses the bases for a discussion on prospects for modernity: on the one hand, its supposed end and, on the other, the possibility that the contemporary era might well continue without overcoming modernity. The objective of this article is to present the main lines of the circumstances in which we live to analyze to what extent the subject today is or is not the subject conceived by psychoanalysis and the object of analytical practice. In this discussion, a number of authors in the areas of epistemology, social science, economy and philosophy are called upon to establish possible parallels between psychoanalysis and global capitalism. > Key words: Modernity, post-modernity, global capitalism, subject *> Este artigo é parte de minha tese de doutorado, em andamento desde março de 2003. Nele estão condensadas muitas das questões que pretendo desenvolver, no âmbito da Pesquisa orientada pelo Professor Marcus André Vieira, As causas da dor – uma investigação sobre as declinações da angústia: trauma, estresse e pânico, no Departamento de Pós-graduação em Psicologia Clínica da PUC-RJ. A tese trata das relações entre a psicanálise e a contemporaneidade, pela via da análise do Witz freudiano. Para o Dr. Casemiro Na vida anímica do indivíduo, o outro conta, com total regularidade, como modelo, como objeto, como auxiliar e como inimigo e por isso, desde o começo mesmo a psicologia individual é simultaneamente psicologia social neste sentido mais lato, mas inteiramente legítimo. (Freud, 1923, p. 67) terizado por uma aceleração jamais vista, cujo efeito é a sensação de obsolescência dos instrumentos que, pelo menos no caso da psicanálise, haviam mantido muito de sua eficácia clínica desde o advento dessa disciplina. Sobre a especificidade dessa etapa da história se diz que: As instituições modernas diferem de todas as formas anteriores de ordem social quanto a seu dinamismo, ao grau em que interferem com hábitos e costumes tradicionais e a seu impacto global (...) a modernidade altera radicalmente a natureza da vida social cotidiana e afeta os aspectos mais pessoais de nossa existência. (Guiddens, 2002, p. 9) Muito embora a época que agora atravessamos pareça disruptiva com relação às etapas anteriores da História e, guardadas as suas especificidades, a afirmação de Guiddens pode ser entendida como uma espécie de reedição do que dizia Marx, quando descrevia o advento da ordem capitalista: Ao nascimento da mecanização e da indústria moderna seguiu-se um violento abalo em in- 1> “Um repensar da natureza da modernidade deve caminhar junto com a reformulação das premissas básicas da análise sociológica”. Guiddens, 2002, p. 9. 2> Esse termo é retirado de Ernest Mandel e utilizado por Jameson, 1997. Diz respeito à etapa que sucede o capitalismo industrial. pulsional > revista de psicanálise > artigos ano XVIII, n. 182, junho/2005 Em “Psicologia das massas e análise do eu”, Sigmund Freud explora a hipótese de que seja possível entender o funcionamento da coletividade por meio da lógica que rege o funcionamento do eu. Há um ponto, portanto, em que o que se passa com a cultura interessa a psicanálise. Esta, por sua vez, tanto para Freud quanto para Jacques Lacan, se constrói na aceitação do singular, da invenção que implica a constituição de cada subjetividade. Se admitirmos, dessa forma, que há conexões de estrutura entre o eu e a coletividade e que a psicanálise se define também por seu próprio questionamento, talvez possamos reconhecer como nossa uma tarefa que tem ocupado, desde os anos 1950 e, mais intensamente a partir dos anos 1970, grande parte dos cientistas humanos e sociais.1 Trata-se da tarefa de produzir mudanças na teoria capazes de acompanhar, na medida do possível, as mudanças radicais conseqüentes do advento do capitalismo tardio.2 Não haveria nada de novo com respeito a essa tarefa se, nas últimas décadas, essas mudanças não se tivessem carac- >49 pulsional > revista de psicanálise > artigos ano XVIII, n. 182, junho/2005 tensidade e extensão. Todos os limites da moral e da natureza, de idade e de sexo foram rompidos. O Capital celebrou suas orgias. (Marx apud Berman, 1987, prólogo – cap. II) >50 Diante do caráter dessas mudanças, na atualidade, explica-se uma condição mais ou menos generalizada de reavaliação de princípios nos mais diversos campos do saber, entre eles a psicanálise, por conta da questão da subjetividade contemporânea, que diz respeito, em linhas gerais, à dissolução do Outro tradicional, à proliferação das compulsões e às configurações inclassificáveis do sintoma, que desafiam o diagnóstico estrutural clássico. O que parece fazer impasse na clínica hoje é a dificuldade de operar, a partir do lugar do analista, segundo os ditames de sua ética, diante da dissolução das formas clássicas de autoridade e dessas configurações subjetivas cuja ancoragem na identificação é obscura, ainda difícil de localizar. Gostaria de introduzir aqui um breve comentário sobre a epistemologia contemporânea. Há epistemólogos, hoje, que, como sempre, têm se voltado para os efeitos disruptivos, em sua disciplina, do progresso da própria ciência. A partir de estudos como os do Grupo de História e de Teoria da Ciência,3 que fornecem uma perspectiva bastante ampla do panorama atual da epistemologia, podese localizar, nesse campo, um processo de questionamento de paradigmas desencadea- do, num sentido estrito, pela descoberta da física quântica e da teoria da relatividade. Essas descobertas impuseram aos epistemólogos a consideração de um universo de propriedades radicalmente novas, uma mudança da dimensão daquela operada por Galileu e Copérnico, cuja compreensão exigiu uma atitude epistemológica inimaginável no âmbito do universo newtoniano, até então o único conhecido. Não se trata de uma mudança no processo epistemológico, propriamente, mas da necessidade do epistemólogo de se adaptar à quantidade e à estranheza das conseqüências produzidas pelo curso da própria ciência. O que se pode dizer, sem precipitação ou mau uso dos conceitos, é que os critérios de cientificidade só podem operar, na circunstância contemporânea, por meios menos rígidos, portanto, menos seguros para o epistemólogo. Quanto a essa questão, é preciso notar, antes de tudo, que o interesse específico da psicanálise, como prática clínica, não coincide com o interesse das ciências sociais, no sentido da abordagem do indivíduo e nem mesmo com o interesse da epistemologia, no sentido da garantia de cientificidade. Mais do que isso, em princípio, nada do que perturba esses campos garante necessariamente que qualquer conceito psicanalítico precise de revisão. Contudo, nosso edifício teórico se sustenta numa certa concepção de sujeito que, por um lado, se articula, seja 3> Cf. sobre isso os artigos de Roberto Martins, como “A situação epistemológica da epistemologia”; “O que é a ciência do ponto de vista epistemológico?”; “Abordagem axiológica da epistemologia científica”; “O que é a ciência do ponto de vista da epistemologia?”, que se encontram na página do Grupo de História e Teoria da Ciência, http://www.ifi.unicamp.br/~ghtc/public.htm. os analistas não são desancoradas daquelas que causam espécie aos sociólogos ou aos epistemólogos que têm sido convocados a procurar, no Outro que já não consiste, as reentrâncias e aparições contingenciais que enlacem o indivíduo ou o próprio conhecimento. Com respeito às mudanças na cultura, tem havido um movimentado debate, no âmbito das ciências sociais, acerca do possível fim da modernidade e dos paradigmas que a sustentavam. Penso que valeria então nos determos um pouco na localização do que se entende por modernidade e nos argumentos que se têm construído tanto em favor de seu apogeu quanto de sua trágica derrocada. A via que escolhi para fundamentar meu argumento foi aquela aberta pelos autores que acreditam que atravessamos agora não a pós-modernidade, mas uma era que poderíamos chamar a Hiper4 ou a Alta Modernidade.5 Os motivos dessa escolha são clínicos. Trata-se, novamente, da tarefa de perguntar, diante de novas circunstâncias, o que é a psicanálise, de discutir a função dos conceitos e de ressituá-los em resposta aos acontecimentos da clínica, antes de declarálos obsoletos.6 Diante, então, de um sujeito típico contemporâneo, vítima dos chamados distúrbios ali- 4> Trata-se do termo cunhado pelo filósofo Gilles Lipovetski. 5> Esse é o termo utilizado por Guiddens, além de modernidade reflexiva. 6> Jacques-Alain Miller, no Seminário A fuga do sentido, proferido em Paris, em 1995, sugere que a chamada “crise da interpretação” teria imposto à função da interpretação que ela se estendesse, o que contudo não significa que a palavra não continue a oferecer-se para ser interpretada. Além disso, Miller afirma que se pode encontrar, a partir dos conceitos forjados pela psicanálise, os elementos para diagnosticar essa “crise” que, segundo ele, se refere à inclusão do gozo num terreno – o simbólico – antes caracterizado pela sua exclusão, mas não pela impossibilidade de operar com o instrumental da psicanálise. pulsional > revista de psicanálise > artigos ano XVIII, n. 182, junho/2005 pela via da consistência, seja da inconsistência, com o que chamamos de Outro e, por outro, com o campo do real ou da pulsão. De um lado está a relação com a alteridade atualizada pela linguagem em seus representantes e, de outro, a relação com o que exsiste à linguagem, com as espécies do novo e do espantoso. Nesse sentido mais estrito, o recurso à análise dos impasses e questionamentos dessas disciplinas é útil para que se possa considerar os problemas internos ao campo psicanalítico a partir de uma perspectiva mais ampla do que aquela que nos limita a constatar que algo do Outro não faz mais, como outrora fazia, âncora para os circuitos do desejo do sujeito, que agora aparece vítima de novos sintomas. Acredito, nesse sentido, que o exame do funcionamento da modernidade capitalista – a partir da constatação de que os universais têm sido relativizados, há pelo menos cinqüenta anos, inclusive no campo das ciências exatas – permitirá um passo a mais na direção da hipótese de que a inconsistência ou a impermanência do Outro não significam o fim do sujeito moderno, mas a revelação do que Slavoj Zizek (1999, p. 9) chamou “seu cerne verdadeiramente traumático”. Creio que as novidades q ue detectam >51 artigos pulsional > revista de psicanálise > ano XVIII, n. 182, junho/2005 >52 mentares, que se constitui na contramão da via indicada pelos ideais da cultura, que habita um corpo, por exemplo, cujos limites são determinados a partir do estranho uso simbolizante da seriação dos números da balança e não do recurso à imagem do Ideal, o que fazer? Devemos desistir de acompanhar sua busca pelas vias do desejo? Devemos, talvez, ensiná-lo sobre os benefícios do Ideal? Ou ainda, convencê-lo a deixar de subir na balança? Ou será que na própria composição dos operadores da constituição do sujeito, não encontraríamos elementos para situar, ali mesmo, no jogo com o mostrador da balança, os recursos subjetivos com os quais podemos contar em nossa clínica? O que está em jogo aqui é a radicalidade dos efeitos do fenômeno moderno, do declínio da função paterna que Lacan caracteriza melhor quando sugere uma pulverização dos Nomes-do-Pai, em inédita conjunção com o avanço do capitalismo. Se escolhi a vertente teórica a favor de uma continuidade entre o moderno e o contemporâneo é, antes de tudo, por acreditar que a revelação freudiana da sexualidade polimorfa e a formulação lacaniana do objeto a situam a psicanálise como arauto do declínio da função paterna e da febre do capital e não como a viúva desamparada deles. Quero dizer com isso que é possível que encontremos, em Freud e Lacan, quando falam da pulsão e da linguagem, ecos do que dizia Marx, quando falava do capital. Nesse sentido, embora haja quem situe Lacan entre os pensadores pós-modernos, penso que seu ensino constitui muito mais as bases para uma abordagem daquele cerne verdadeiramente traumático da modernidade do que para uma defesa do ultrapassamento do paradigma moderno que passo a examinar. O fenômeno moderno Guiddens7 define a modernidade como a era que sucede o feudalismo na Europa e que é marcada por instituições e comportamentos que ganharam impacto planetário no século XX, em especial após a Segunda Grande Guerra. Ela nasce na convergência (Eisenstadt, 1987, prólogo) dos efeitos ideológicos do Iluminismo8 com a proliferação da Ética Protestante9 e o impacto da Revolução Industrial, ponto de partida do modo capitalista de produção que considero o eixo fundamental da modernidade. Lipovetski, 10 inclusive, localiza o advento da modernidade no século XVIII, com sinais no XVI, associando diretamente a modernidade com o capitalismo, sistema que envolve, em sua 7> Cf. sobre esse parágrafo, o capítulo “Os contornos da alta modernidade”, Guiddens, op. cit. 8> O Iluminismo foi um movimento filosófico do século XVII, que atingiu a religião, a política e a ciência e abalou as estruturas da Era Medieval e dos dogmas cristãos. 9> Na Europa moderna, segundo Eisenstadt, a proliferação da ideologia do desenvolvimento econômico foi muito impulsionada pela santificação protestante da atividade econômica, do domínio das forças naturais e humanas, e da ciência e tecnologia. Cf.Eisenstadt, op. cit., p. 7. 10> Entrevista de Gilles Lipovetski a Marcos Flamínio Peres, editor adjunto do caderno “Mais!” da Folha de S. Paulo, 14 de março de 2004. Esses fatores levam, em todos os setores da existência, a uma condição marcada pela fragmentação e pela dispersão. Retirei do texto de Eisenstadt uma passagem que descreve a formação das sociedades modernas ... a expansão (...) da modernidade (...) desafiou as premissas simbólicas e institucionais das sociedades (...) exigindo respostas (...) e novos padrões de interação (...) abrindo novas possibilidades e opções. Essas respostas e padrões de interação engendraram uma grande variedade de sociedades modernas. Elas compartilham muitas características comuns mas, ao mesmo tempo, mostram grandes diferenças entre si, que se cristalizaram a partir de incorporações seletivas e de recristalizações e transformações das principais premissas institucionais e simbólicas tanto do Ocidente originário quanto de suas próprias civilizações de origem. (Eisenstadt, 1987, prólogo) Essa cena complexa que compõe a modernidade tem, como suporte ideológico, o paradigma da ciência moderna, resultante do corte epistemológico operado pelo cogito cartesiano. A ciência moderna é caracterizada, basicamente, pela matematização do conhecimento, pela depuração das qualidades sensíveis até a estrutura dos fenômenos. Em termos psicanalíticos isso significa que: A ciência rompe com o imaginário para atuar sobre o real sem que para isso seja necessário conhecer suas qualidades (...) O abandono da analogia, do imaginário do modelo, dá à ciência uma liberdade inédita para engendrar efeitos os mais insuspeitados. (Vieira, 2003, p. 92) Seu advento produziu efeitos generalizados e está diretamente ligado ao desenvolvimento do capital. O desprezo pelas qualidades sensíveis é uma característica do capitalismo. Ele inclui a expropriação dos meios de produção, a diferenciação constante dos produtos, a marginalização – produ- artigos ... a modernidade institucionaliza o princípio da dúvida radical e insiste que todo conhecimento tome a forma de hipótese – afirmações que bem podem ser verdadeiras mas que, por princípio, estão sempre abertas à revisão e podem ter que ser, em algum momento, abandonadas. (Ibid., p. 10) que, em meu entender, serve de metáfora para o processo que vai caracterizando, com o passar das décadas, o sujeito moderno: pulsional > revista de psicanálise > ano XVIII, n. 182, junho/2005 origem, a lógica da competição e a mercantilização da força de trabalho. Dele dependem os demais eixos que são a industrialização – uso generalizado das forças materiais e do maquinário de produção; a institucionalização da vigilância e do desenvolvimento das forças de organização da vida social; a administração dos meios de violência ligados ao fenômeno da industrialização da guerra e, por último, a massificação da informação. A forma política emblemática da modernidade é o Estadonação. O sistema político-econômico que advém da interação entre esses elementos implica “processos de reapropriação e de acesso ao poder (que) se misturam à expropriação e à perda”, à produção de “diferença, de exclusão e de marginalização” (Guiddens, 2002, p. 13-14). Ao lado disso, no registro subjetivo, Guiddens situa, como características da Era Moderna, profundas transformações no tempo e no espaço, articuladas aos mecanismos que ele intitula de desencaixe e que provocam mudanças sem precedente nas relações sociais, em especial no que se refere à generalização da cultura do risco: >53 artigos pulsional > revista de psicanálise > ano XVIII, n. 182, junho/2005 >54 ção dos restos, e, enfim, a mercantilização – a atribuição de preços pela via da equalização de todas as coisas como mercadorias. A inclusão, no mercado, da força de trabalho, por exemplo, como mais uma mercadoria, é um truque a partir do qual algo que antes não tinha preço entra no sistema das trocas, ainda que difira em natureza das mercadorias em geral. Trata-se, nesse sentido, de um mecanismo homólogo à equalização operada pela máquina significante. Tudo ganha preço no capitalismo, tudo ganha significação na linguagem, mesmo o que não tem preço, mesmo o que não tem palavra. A conseqüência disso é uma banalização do sagrado, do indizível, o declínio do Pai em todas as suas formas tradicionais. Vale notar aqui que a definição de Fredric Jameson do capitalismo tardio parte da idéia de que, nessa etapa, não se pode mais conceber um exterior, um lado de fora do sistema capitalista, assim como não há um fora da linguagem. No Seminário “A lógica do fantasma”, Lacan coloca como um dos axiomas da psicanálise, justamente o não há metalinguagem. A aliança do capitalismo com a ciência advém do fato de que ele depende da aplicação da racionalidade à vida em todos os seus aspectos. Max Weber, um dos fundadores da Sociologia, foi um dos que mais se dedicaram a essa especificidade da civilização capitalista que é a “tendência à racionalização generalizada da vida social” (Eisenstadt, 1987, p. 2). Weber examinou a burocratização das instituições que serviam ao au- mento das cidades e à complexificação das trocas, o desenvolvimento da ciência e a secularização das visões de mundo que conduziam ao que ele chamou de um desencantamento do mundo, a Entsauberung. Weber se preocupava com o efeito depressivo da racionalização, com o empobrecimento e com a mecanização do ser humano que ela causaria. Karl Marx, por sua vez um outro fundador da Sociologia, se dedicava a situar as conseqüências da ordem capitalista, mas, como teórico da ideologia, não acreditava num efeito depressivo ou num desencantamento. Marx reconhecia que o capitalismo destrói as crenças anteriores a ele, mas também que ele produz suas próprias crenças, seu próprio enquadre ideológico (Zizek, 2001a, cap. “The spectre of capital”). Ele também tratava da aplicação da racionalidade, mas do ponto de vista, da mercantilização, da transformação em mercadoria. Considerava que a atribuição de preços desnaturalizava, secularizava os objetos, mas que ela produzia uma fantasmatização, que ele chamava o fetiche da mercadoria.11 São dois aspectos do movimento da modernidade capitalista que deram origem a duas correntes de pensamento diferentes na sociologia, mas ambas atestam que esta era impõe a dissolução de todo constrangimento ao progresso das indústrias, ao crescimento das cidades, à produção do lucro. O movimento generalizado de racionalização implica a desconsideração dos sentidos an- 11> No volume 2 de O capital, de Karl Marx, há um capítulo intitulado “O fetiche da mercadoria”. ... a transmissão do material simbólico que representa um dos aspectos da tradição tornouse cada vez mais destacado da interação social e do espaço comum. A tradição não desaparece, mas ela se desancora dos espaços da vida cotidiana (...) não quer dizer que as tradições flutuem livremente, ao contrário, as tradições se manterão ao longo do tempo somente se forem ressituadas em novos contextos e ancoradas em novos espaços. (p. 187) Além disso, como observa Guiddens (2002, p. 10), sistemas tradicionais na modernidade convivem com “múltiplas fontes de autoridade, muitas vezes contestadas internamente e divergentes em suas implicações”. Há, assim, segundo Thompson (1995, p. 189), um paradoxo na relação da modernidade com a tradição, pois o ocaso da autoridade e dos fundamentos de ação tradicionais não levam ao declínio da tradição, e sim a um deslocamento de sua função e de sua natureza. “Os indivíduos passam a contar mais e mais com tradições mediadas (adotadas) e deslocadas como meio de dar 12> Tudo o que é sólido desmancha no ar , é uma frase de Marx que Marshall Berman tomou como titulo de seu livro. artigos A reflexividade A compreensão desse mecanismo exige a abordagem de uma questão fundamental da modernidade que é a do lugar da tradição. É visível que o declínio da tradição está implicado no fenômeno moderno, por conta da liberdade de pensamento conquistada pela ciência com relação aos dogmas místico-religiosos, pela racionalização da vida em geral e pela descoberta de que a mercadoria que interessa ao homem é aquela que não foi inventada ainda. Contudo, a questão da tradição é um pouco mais complexa do que parece. Assim como é com o Outro da psicanálise, sua inconsistência parece não implicar o desaparecimento de sua função. John Thompson (1995), num capítulo intitulado “O reancoramento da tradição”, define tradição como aquilo que é herdado do passado e compreende normas, meios de legitimação, visões de mundo e sentidos de identidade que não estão necessariamente conjugados o tempo todo. O autor mostra que o desenvolvimento das sociedades modernas é acompanhado de um declínio gradual dos fundamentos tradicionais de ação e do papel da autoridade tradicional, mas apenas nos sentidos normativo e de legitimação. Entretanto, demonstra-se que a tradição permanece na Era Moderna como meio de dar sentido ao mundo – o chamado aspecto hermenêutico – e como meio de criar o sentimento de pertença – o aspecto identitário. O mais importante aqui parece ser a transformação da tradição: pulsional > revista de psicanálise > ano XVIII, n. 182, junho/2005 teriores ao sentido de mercado. A produção do lucro é efeito e causa da deposição e da reciclagem constante das antigas formas de autoridade, de seus dogmas e de suas motivações. A sociologia, nesse sentido, tem se dedicado a investigar os correlatos subjetivos do progresso à custa da destruição, do desmanchar de tudo o que é sólido12 que marca a modernidade. Entre esses correlatos, o que considero mais importante é o mecanismo da reflexividade que, em meu entender, fornece elementos, não só para a análise do fenômeno moderno, mas também para a sua passagem para o contemporâneo. >55 pulsional > revista de psicanálise > ano XVIII, n. 182, junho/2005 artigos sentido ao mundo e de constituir o sentido da identidade”. Diante do declínio das formas antigas de autoridade, o sujeito moderno garante sua existência no mundo por meio do mecanismo da reflexividade. Trata-se de um termo muito trabalhado por Guiddens, como aparelhamento que permite ao eu responder às mudanças constantes do tempo em que vivemos. Vivendo no mundo globalizado, com o incremento gradual do desencaixe e do risco, o indivíduo, a todo momento, é confrontado com a mudança, obrigado a confiar na informação que ele jamais tem possibilidade de averiguar. Ao mesmo tempo, as instituições dependem da resposta reflexiva do indivíduo para sobreviverem numa circunstância em que não se encontram asseguradas pela tradição como antes. Nesse sentido, na obra de Guiddens, a reflexividade ganha o sentido da articulação entre o indivíduo, definido nos termos de um projeto reflexivo do eu, e o mundo globalizado: >56 ... o eu não é uma entidade passiva, determinada por influências externas; ao forjar suas auto-identidades, independente de quão locais sejam os contextos específicos da ação, os indivíduos contribuem para – ou promovem diretamente – as influências sociais que são globais em suas conseqüências e implicações. (Guiddens, 2002, p. 9) Robert Stam (1992, prefácio), teórico que trabalha com o mecanismo da reflexividade no cinema e na literatura, argumenta que a reflexividade já se encontra definida na obra de Locke, em 1690: “... é o conhecimento que a mente possui acerca de suas próprias operações e acerca do caráter dessas operações”. O autor a define como “a capacidade da mente de ser ao mesmo tempo sujeito e objeto para si mesma no processo cognitivo”. A palavra reflexividade significa movimento de volta sobre si mesmo, portanto, como afirma Stam, o termo não se relaciona especificamente ao fenômeno moderno, mas a qualquer pensamento sobre o pensamento. Contudo, Stam também observa que a tendência generalizada à reflexividade é um sintoma da Era Moderna, no sentido de sua afinidade com “o auto-escrutínio metodológico típico do pensamento contemporâneo” (ibid.), o que se percebe na concepção de termos como a enunciação, a meta-história, o feedback, entre outros muitos. Ela está presente em todo questionamento da verdade pelo pensamento, subverte as normas e convenções estabelecidas, é um elemento central da lingüística, da semiótica, da epistemologia. Todavia, a reflexividade não se reduz – e aí está a sua riqueza como conceito – à crítica e à derrubada das ficções. Ainda nas palavras de Stam, a reflexividade “desmistifica a ficção e a fé inocente nas ficções e faz dessa desmistificação a fonte para novas ficções” (ibid.). Ela favorece uma separação entre o sujeito e o discurso, mas não é um obstáculo ao discurso, à fantasia, o que corrobora o que Zizek (1999) dizia sobre a fantasmagoria do capital.13 Seguindo a lógica da reflexividade, tal como ela é tratada em Guiddens, pode-se concluir 13> A frase de Zizek sobre isso é: “O paradoxo da época contemporânea é que o processo (...) global que depõe e caça os fantasmas das gerações anteriores gera seus próprios fantasmas, sua espectralidade particular”. ... indiferenciação entre as culturas de elite e de massa, pela ausência de profundidade nas concepções de mundo, pela crise da historicidade, pela descentralização e pela heterogeneidade das relações sociais e, por fim, por características subjetivas que implicam o esmaecimento dos afetos e a fragmentação do sujeito.15 Os autores inspirados por essa idéia parecem ser afiliados a duas vertentes teóricas principais. Por um lado, uma certa interpretação metafísica da física quântica e a teoria da relatividade e, por outro, as teorias freudomarxistas da Escola de Frankfurt. Jameson, nesse sentido, defende a idéia de que o Pósmoderno é marcado pela descoberta de que nada há por trás das imagens, nenhum sen- 14> Gostaria de registrar aqui meus agradecimentos e minha admiração pelo excelente trabalho em curso no doutoramento de Daniela Romão Dias, que realiza uma extensa e rigorosa pesquisa intitulada Pósmodernidade e tecnologias digitais: registros de uma nova subjetividade , consultada na forma do Projeto de Doutorado da autora em 2002, orientado por Ana Maria Nicolaci da Costa, no Departamento de Pósgraduação em Psicologia Clínica da PUC-RJ. 15> Este parágrafo resume a tese de Romão Dias sobre a circunstância pós-moderna, a partir de seu estudo de Fredric Jameson e outros, em seu Projeto de doutorado, 2001. artigos O capitalismo tardio A conjunção de todos esses elementos da modernidade que expusemos até aqui, ao longo do tempo, resultou no que se entende hoje por globalização. A idéia da globalização precisa implicar multidimensionalidade. Ela designa um movimento “via de regra complicado, na direção da conjunção de diferentes formas de vida” (Robertson, 1992, p. 27), incluindo os arranjos necessários para que essas formas de vida encontrem seu lugar e formem sua identidade nesse novo contexto. A globalização implica uma diferenciação crescente em todas as suas esferas e causa um impacto no terreno do saber e do conhecimento que leva à formulação das teorias sobre o que se chama a pós-modernidade, termo cunhado por Lyotard (1989) nos anos 1980. Poderíamos14 então caracterizar a pósmodernidade – pela etapa tardia do Capitalismo, por uma pulsional > revista de psicanálise > ano XVIII, n. 182, junho/2005 que seu incremento corresponde a um enrijecimento do narcisismo. Isso é razoável na medida em que o eu, como processo reflexivo, ganha autonomia com relação ao eu cujo Outro aparentava mais consistência. Contudo, o eu reflexivo é criado no desencaixe, na separação entre o que se espera e o que se constata a cada momento. Portanto, em meu entender, trata-se de uma versão do eu que comporta também uma tendência afim ao sujeito, tal como Lacan o concebe em seu ensino, um elemento que marca no âmbito do eu a presença da falta a ser que move a cadeia da linguagem. E um elemento, por um lado, carregado de um peso de gozo que o enquadra numa cena fantasmática inconsciente, mas, por outro, é também um operador vazio, produtor dos chistes e atos falhos que subvertem a fixidez do eu. O sujeito como subversor, como aquilo que coloca sempre uma nova questão e deve responder a ela, é afim à indeterminação, à diferenciação constante, característica da máquina capitalista. >57 artigos pulsional > revista de psicanálise > ano XVIII, n. 182, junho/2005 >58 tido oculto a ser revelado, nenhuma profundidade – os conteúdos ligados às representações são apenas outras imagens – “... já não existe nenhuma lógica profunda para se manifestar na superfície, num tempo em que o sintoma se transformou na própria doença” (Jameson, 1997, p. 16). O mercado chega ao apogeu do processo da equalização, tornando equivalentes o profundo e o superficial e, com isso, contaminando de superficialidade as obras de arte, as figuras do sublime e do sagrado. Ao lado da superficialidade, há a característica da fragmentação do sujeito, correlata do ocaso dos discursos universais, das figuras do absoluto. Vem daí uma referência à esquizofrenia como estilo – uma subjetividade fundada na experiência de significantes materiais sem conexão histórica, rompida a cadeia das significações como se conhece (Ibid., p. 53). Gilles Deleuze, por exemplo, postula, em oposição ao universo representacional clássico, uma relação com os objetos nos termos de um devir constante, uma subjetividade fundada no que ele chama de territorializações e reterritorializações, na contramão das identificações e das chamadas grandes narrativas, entre as quais ele inclui o Édipo. Em geral, os teóricos do pós-modernismo se encontram bastante ligados à tarefa de questionar o caráter ideológico das instituições e da Verdade. François Lyotard (1986, p. XI) defende que nossa época é tributária da noção de desordem, o que a opõe às épocas anteriores, dedicadas ao estabelecimento de ordens ideológicas universais. Além disso, esse autor postula que o que faz corte entre as épocas é que o saber se desvincula da narrativa histórica que sustentava a hierarquia das mestrias e se volta para a performance do sistema, não mais para o Bem Comum. Isso imporia ao conhecimento e ao saber que se submetessem ao capital e à política, e não mais aos ideais formulados no campo da filosofia. Há metamodernidade? O debate sobre o fim da modernidade tem, enfim, cinqüenta anos. Há quase cem, Marx chamava de “celebração de orgias” o avanço do capitalismo e Freud escrevia sobre o mal-estar que acometia o homem moderno, perturbado por estrutura pela distância entre a Lei e seus representantes.16 Há trinta, Jacques Lacan (1992) afirmava que o túmulo do Pai está, e sempre esteve, vazio. Como se pode notar, as descrições do que seria a pós-modernidade mostram que suas características giram em torno da fragmentação, da dispersão e da superficialidade. Contudo, pode a radicalização desses fenômenos justificar um corte maior na passagem do moderno para o contemporâneo? Nesse sentido, um primeiro ponto que considero importante se refere ao modo capitalista de produção. O sistema se manteve, desde o seu advento, chegando agora a sua etapa global. Isso em si já se opõe à tese de um corte maior, dado que se trata de um regime cujo funcionamento tende a envolver todos os aspectos da vida humana. O mercado tende a englobar, a estender 16> Refiro-me aqui especialmente aos textos “O mal-estar na civilização” e “Totem e tabu”. ... onde quer que deitasse raízes, a soberania moderna construía um Leviatã que cobria como um arco seu domínio social e impunha fronteiras territoriais hierárquicas para fiscalizar a pureza de sua identidade e para excluir tudo o que representasse o outro. (…) A transição para o Império surge do crepúsculo da soberania moderna. Em contraste com o imperialismo, o Império não estabelece um centro territorial de poder, nem se baseia em fronteiras ou barreiras fixas. É um aparelho de descentralização e de desterritorialização do geral que incorpora gradualmente o mundo inteiro dentro de suas fronteiras abertas e em expansão. O império administra entidades híbridas, hierarquias flexíveis e permutas plurais por meio de estruturas de comando reguladoras. (Ibid., p. 12-13) Creio que a dificuldade em se defender um fora da modernidade está na dificuldade de se situar um fora do capitalismo. A dispersão resulta da etapa final do declínio da função do pai, fenômeno que marca a origem da artigos Quanto ao declínio da autoridade, é preciso também examinar com cuidado se se trata de seu fim ou de mudanças em sua função. Nesse sentido, com respeito aos poderes hegemônicos na política, Antonio Negri, em Império (2000), defende uma nova forma de supremacia na sociedade global. O declínio dos Estados-nação, diz o autor, não significa que a soberania esteja em declínio (p. 12), em vez disso, ela tomou uma nova forma global que ele chama Império e que é diferente do imperialismo. O termo Império é usado como conceito e não como metáfora, pois não guarda semelhanças com nenhum outro império da história. O conceito de Império se refere à falta de fronteiras e limites para o poder imperial: pulsional > revista de psicanálise > ano XVIII, n. 182, junho/2005 seus meios à política, à cultura, à ciência. Mais do que isso, o capital tem a propriedade de usufruir das oposições que se criam a ele. Todo movimento que nasce aparentemente em oposição ao sistema, acaba tendo que se utilizar, para sua sobrevivência, dos meios que o próprio sistema provê. Com a passagem do tempo, se torna mais um elemento do sistema, mais uma mercadoria. Slavoj Zizek (2001b) se utiliza, a respeito disso, do exemplo do zen-budismo. Essa filosofia tem se difundido no Ocidente nas últimas décadas e, por princípio, se opõe frontalmente à vida febril característica das economias de mercado. Com o tempo, o zen-budismo transformou-se num instrumento, como os outros, para que os indivíduos, estando bem, produzam mais, segundo os ensinamentos dos mestres, vendidos em best sellers de auto-ajuda. O capitalismo, portanto, segue seu curso desde a invenção da máquina a vapor até seus dias de capitalismo global. Cada vez menos unidade, menos possibilidade de situar um Outro, senhor do sistema, que antigamente era representado pela figura do capitalista, suposto gozar dos lucros produzidos pela máquina, ou do chefe de estado da grande potência, suposto comandar o planeta. Quanto à crítica que os pósmodernistas fazem à i deologia, Zizek (1999) chama a atenção para o fato de que o desmascaramento de seu próprio caráter ideológico é atributo da modernidade e que, mais do que isso, não há um fora da ideologia a partir do qual se pudesse acusar de ideológica e alienante uma época e não outra. >59 artigos pulsional > revista de psicanálise > ano XVIII, n. 182, junho/2005 >60 modernidade e que suscitou a criação da psicanálise. A superficialidade tem relações com o avanço da mercantilização. A fragmentação, por sua vez, também é sintoma da Era Moderna. Desde os seus primórdios, ela se enraíza naquilo que se chama a divisão do sujeito. Quando Lacan formula a hipótese da foraclusão generalizada, ele já considera a fragmentação como condição estrutural da subjetividade. Em sua “Alocução sobre as psicoses da criança”, Lacan (1967) afirma que o fim do imperialismo, a globalização, marca “uma subversão sem precedentes”, baseada na segregação característica da pluralização dos impérios. A época, diz Lacan, “é a primeira a suportar o questionamento de todas as estruturas sociais pelo progresso da ciência”. O efeito disso é, segundo Lacan, que a “psicose exibe sua função de referência à liberdade”. O progresso da ciência, na ausência dos ideais que norteavam as ações humanas, engendra extraordinários progressos, mas engendra também “mudanças calamitosas na cultura” (Vieira, 2003a, p. 92). A calamidade advém quando os representantes do simbólico não se reconhecem como antes e se perdem as marcas do real no imaginário, que sofre uma hiperestasia. Zizek (1994) afirma que os discursos públicos que articulam a Lei, quando se dissolvem, deixam exposta a voz do Supereu. Isso quer dizer que se o simbólico é o terreno da ficção, da distância que se guarda do limite da fantasia que se diz ser a realidade, na ausência dos representantes do simbólico, essa distância entre fantasia e literalidade vai se esvaindo, junto com o lugar do objeto do desejo. O imaginário então vem recobrir, hiperestasiado, o lugar do vazio. O que resta disso é a condição psicótica, na qual a dúvida como recurso está ausente. Assim, se o sujeito burguês liberal era um sujeito capturado pelo conflito entre as pulsões e a interdição, mais ou menos representada pelas versões do pai, nas sociedades pós-liberais, continua Zizek, o agente da lei toma a forma de um hipnotizador, onipotente e difícil de situar (ibid., p. 16). Sem os mesmos véus, a lei se torna uma presença exterior ao sujeito, que não se enquadra na rede de seus afetos e crenças. O sujeito se vê confrontado com o significante na sua pureza de instância da letra, de nonsense (ibid., p. 20). O declínio das figuras paternas, que fornecem sentido ao que não tem, causa uma certa dissolução da realidade tal como nos acostumamos a constituí-la. Uma vez que as figuras do Outro garantem o acesso à realidade, se ele revela sua inconsistência, há impasse na construção da realidade, como a conhecemos, o que não quer dizer que essa construção seja impossível. Ora, para a psicanálise, o elemento representante da lei no psiquismo é o Nome-doPai. Sua função se articula à de um outro elemento, o falo. A composição desses termos resulta na construção da realidade por meio da fixação de um ponto de falta que permite a interpretação, a identificação e o laço social. O falo é um significante paradoxal, que indica que é preciso e possível significar. Sua presença em uns e ausência em outros marca, para o pequeno sujeito, a possibilidade da falta, que remete a criança à questão de ser ou não o objeto do desejo da mãe. Se a criança pode não ser esse objeto, é possível perguntar, a partir disso, o que ela é para o Outro que, representado por suas artigos sem estar predeterminado. Contudo, a psicanálise não fundamenta nenhum tipo de relativismo. Jacques-Alain Miller (2003, p. 8) em “O último ensino de Lacan”, observa que a marca do pensamento moderno é a idéia de autonomia da consciência. Autonomia com relação aos entraves de eras anteriores. A psicanálise retifica essa idéia e se institui como prova da dependência do sujeito “em relação às gerações das quais ele surgiu, em relação à linguagem que o precede, em relação a uma fixação de gozo à qual está coordenado na fantasia” (ibid., p. 38). Em consonância com o movimento moderno, mas advertida dos efeitos do inconsciente, a psicanálise então propõe a autonomia do simbólico, da máquina de linguagem. De início, a pulsão, o movimento inconsciente, foi referido à produção de sentido, depois à sua fuga. O Isso não goza em busca de nada, que o Outro possa reconhecer, ele goza do próprio falar. Aí está o impasse, diz Miller, em sustentar a lógica fálica (ibid., p. 12), pois o Nome-do-Pai se multiplica e assim se multiplicam as formas de se fazer sujeito. Vê-se, assim, que a psicanálise é afim ao múltiplo, às estratégias sem sujeito, à indeterminação. O sujeito reflexivo das sociedades globais, com o qual começamos a ter contato, pela via das compulsões, não conta com um significante mestre que dá sentido à sua missão no mundo. O que conhecemos dele é a versão ainda inviável, ainda um pouco sem lugar no mundo. Mas, a partir das formulações da psicanálise sobre os destinos do Pai tradicional, podemos admitir que a dispersão, a fragmentação e o para além do conflito com as interdições são afins ao cerne traumático do sujeito moderno e não significam seu fim. pulsional > revista de psicanálise > ano XVIII, n. 182, junho/2005 figuras, encarna “alguém que em algum lugar detém a verdade sobre o desejo”. E o caminho que se abre com essa pergunta que possibilita a vida e o laço social (Vieira, 2003b, p. 124). Nas sociedades contemporâneas, constatase, especialmente por meio da clínica psicanalítica, que o Outro deixa, gradualmente, de se fazer representar pelo pai e pelas instituições tradicionais. A pulverização dos Nomes-do-Pai significa que o que antes era dotado de aparente universalidade, como a figura do capitalista ou do presidente dos Estados Unidos, agora aparece aqui e ali, localmente. Se a culpa pelo fracasso da esquerda no Brasil não é do Roberto Marinho, se a oposição está em cada brasileiro, mas em nenhum realmente, o que fazer? Enfim, em que sujeitos poderíamos hoje supor a premissa fálica como crença subjetiva fundante? (Vieira, 2003a). O falo é definido por Zizek (1994, p. 202), por exemplo, como um elemento de ausência no centro da engrenagem da linguagem, que impede que ela se reduza a um conjunto de signos. Diz ele tratar-se do “significante reflexivo que garante, dentro do sistema, aquilo que ainda está por ser significado”. Um sujeito que não crê que alguém em algum lugar detém o segredo do desejo, não faz laço social, não se constitui como tal se não se servir do que Vieira (2003a) chama de um elemento que organize a rede do sentido e sua hierarquia. Se o pai não diz sobre o que deve ser, o que deve ser é determinado a cada vez, de acordo com o que for preciso aqui e ali. A psicanálise comporta, desde Lacan, teórico da pulverização do Nome-do-Pai, a idéia de que esse elemento funciona muito bem >61 pulsional > revista de psicanálise > artigos ano XVIII, n. 182, junho/2005 Está previsto, pelas conseqüências dessas formulações, que poderá haver vida inteligente na errância, na contingência, na subversão das identificações simbólicas.17 Mas essa conclusão, em meu entender será em muito facilitada se levarmos em conta como se mantêm as sociedades globais, como se mantêm o capitalismo, a modernidade e, por que não, o conhecimento. >62 Referências BERMAN, Marshall. Tudo o que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, Prólogo – cap. II. E ISENSTADT , Shmuel. Patterns of Modernity: Beyond the West. Londres: Frances Pinter, 1987. v. II. FREUD, Sigmund (1921). Psicologia de las massas y analisis del yo. Obras Completas. Buenos Aires: Amorrortu, 1995. v. 18, p. 63-136. GUIDDENS, Anthony. Modernidade e identidade. 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