CENTRO UNIVERSITÁRIO FILADÉLFIA
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R349
Revista Terra e Cultura: cadernos de ensino e pesquisa, v.1,
n.1, jan./ jun., 1985. - Londrina: Unifil, 1985.
Semestral
Revista da Unifil – Centro Universitário Filadélfia.
ISSN 0104-8112
1. Educação superior – periódicos. I. Unifil – Centro
Universitário Filadélfia
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TERRA E CULTURA
Ano XXVIII – nº. 54 - Janeiro a Junho de 2012
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SECRETARIA
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EDITORIAL
A Revista Terra e Cultura: Cadernos de Ensino e Pesquisa publica sua edição de número
54, completando assim seus vinte e oito anos de existência. Mantendo sua tradição multidisciplinar,
publica artigos de três núcleos: o Núcleo de Ciências Biológicas e da Saúde, o Núcleo de Ciências
Humanas e Sociais e o Núcleo de Ciências Sociais Aplicadas. No que se refere ao núcleo de
ciências biológicas e da saúde, apresentamos artigos que abordam a prática esportiva amadora,
a alimentação escolar, as possibilidades de exercício físico pelas gestantes e a violência contra o
idoso, entre outros. Já no âmbito das ciências humanas e das sócias aplicadas, temos artigos da
área de educação, ecologia, comunicação, educação ambiental, dentre outros.
Espero que gostem e que aproveitem a leitura. Lembramos ainda que o envio de artigos
para a revista é contínuo, e podem ser encaminhado para o e-mail [email protected],
respeitando-se as normas do periódico, que podem ser encontradas no final da mesma.
Boa Leitura.
Prof. Dr. Leandro Henrique Magalhães
Editor da Revista Terra e Cultura
SUMÁRIO
NÚCLEO DE CIÊNCIAS BIOLÓGICAS E SAÚDE – NCBS
BENEFÍCIOS DO EXERCÍCIO FÍSICO PARA GESTANTES NOS ASPECTOS FISIOLÓGICOS
E FUNCIONAIS ......................................................................................................................... 11
Fernando Pereira dos Santos, Luise Fernanda Nogueira
COMPARAÇÃO DO ESTADO NUTRICIONAL E HÁBITOS ALIMENTARES DE
ESCOLARES DE UMA ESCOLA PÚBLICA E UMA ESCOLA PARTICULAR DA CIDADE
DE ALVORADA DO SUL –PARANÁ ....................................................................................... 21
Graziela Maria Gorla Campiolo, Eriane Regina Vertuan
FREQUÊNCIA DE LESÕES MÚSCULOESQUELÉTICAS EM ATLETAS AMADORES QUE
PRATICAM ESCALADA ESPORTIVA EM ROCHA NA CIDADE DE LONDRINA – PR .... 35
Roberta Ramos Pinto, Ludgero dos Santos Pereira, Rodolfo Poli Mignoni
O PREBIÓTICO AMIDO RESITENTE E SUAS PROPRIEDADES FUNCIONAIS ............... 45
Stephanie Dynczuki Navarro, Mariana de Oliveira Mauro, Rodrigo Juliano Oliveira
UTILIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO NUTRICIONAL E REVITALIZAÇÃO VISUAL DE
REFEITÓRIOS: CONSTRUINDO SAÚDE ATRAVÉS DA NUTRIÇÃO ................................ 51
Elis Carolina de Souza Fatel, Thaysa Marques Sotti, Helen Cristina da Silva, Juliana Nicolini, Juliana Hespanhol
Gorzoni, Franciele Cristina da Cruz, Márcia Maria Hermogenes de Oliveira, Mariana Ambrózio, Agricia Protano,
Ana Carolina Rossi, Grasiele Carolina Castilho, Edilaine, Deise Figueiredo, Edilaine dos Reis Gonçalves
VIOLÊNCIA CONTRA IDOSOS: ESTUDO EXPLORATÓRIO EM DELEGACIA
ESPECIALIZADA ...................................................................................................................... 57
Gabrielly Cristina Raminelli, Mariana Colnago Roco, Damares Tomasin Biazin
NÚCLEO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS - NCHS E NÚCLEO DE CIÊNCIAS
SOCIAIS APLICADAS - NCSA
A IMPORTÂNCIA DA CONSERVAÇÃO DE LEPIDÓPTERAS PARA OS PROCESSOS
ECOLÓGICOS ........................................................................................................................... 69
Luciana Zukovski, Luana Elizabeth Pinheiro Antunes Prado
DO SUJEITO SONHADOR AO SUJEITO CONTEMPLADOR: CONSIDERAÇÕES ACERCA
DE ‘O CONTÁGIO’ E ‘MINHAS JANELAS’ DE PAULO MENDES CAMPOS .................... 79
Claudia Vanessa Bergamini
EDUCAÇÃO AMBIENTAL A PARTIR DA CASA: O HOMEM E O SEU AMBIENTE ......... 87
Carmem G. Burgert Schiavon, Fernanda Turnes Edom
EFEITOS BIOLÓGICOS DA SPIRULINA SP. E SUAS POSSÍVEIS IMPLICAÇÕES NA
PREVENÇÃO DO CÂNCER ..................................................................................................... 97
Clisia Mara Carreira, Lúcia Regina Robeiro, Mariana de Oliveira Mauro, Rafaela Pomin, Rodrigo Juliano Oliveira
LEVANTAMENTO DA MASTOFAUNA ATRAVÉS DA COLETA E IDENTIFIÇÃO DE
PEGADAS DA RESERVA FLORESTAL DA NORTOX DE ARAPONGAS - PARANÁ ....... 107
Karina Keiko Nakao Harada, Willian Luiz da Cunha
O PLANEJAMENTO DE COMUNICAÇÃO DE MARKETING E LEMBRANÇA DE MARCA:
UM ESTUDO EXPLORATÓRIO ............................................................................................. 115
Fabiano Palhares Galão, Edson Crescitelli
OS QUATRO PILARES DA EDUCAÇÃO NAS ORGANIZAÇÕES DE APRENDIZAGEM:
UMA PONTE PARA O SUCESSO ........................................................................................... 133
Leila Miyuki Saito, Silas Barbosa Dias
NÚCLEO DE CIÊNCIAS BIOLÓGICAS E SAÚDE - NCBS
Fernando Pereira dos Santos, Luise Fernanda Nogueira
BENEFÍCIOS DO EXERCÍCIO FÍSICO PARA GESTANTES NOS
ASPECTOS FISIOLÓGICOS E FUNCIONAIS
BENEFITS OF EXERCISE FOR PREGNANT WOMEN IN PHYSIOLOGICAL AND
FUNCTIONAL ASPECTS
Luise Fernanda Nogueira1*
Fernando Pereira dos Santos2**
RESUMO:
Durante o período gestacional a mulher sofre diversas alterações fisiológicas e funcionais, e
conforme o decorrer da gestação passam a sofrer um comum desconforto gestacional. Este estudo
teve como objetivo transmitir de forma clara os benefícios que o exercício físico trás para a
vida da gestante durante essas aproximadamente 40 semanas, e com a finalidade de incentivar a
essa população e profissionais da área de saúde a uma prática de exercícios físicos estruturados
e orientados. Este trabalho se dá por um levantamento de material bibliográfico composto por
livros e artigos científicos. Este estudo conclui que o exercício físico trás benefícios para a
vida da gestante, desde a melhora postural da gestante até a facilitação para o parto, portanto o
exercício físico deve ser orientado e acompanhado por um profissional da área de educação física,
juntamente com o acompanhamento do médico, procurando desenvolver o melhor programa de
exercícios para a gestante conforme as fases da gestação.
PALAVRAS-CHAVE: Fisiologia, gravidez, exercício físico.
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ABSTRACT:
During pregnancy the woman undergoes several changes physiological and functional, and as
the course of pregnancy are to suffer a common discomfort related of this period. The aim of
this study was to conduct clearly the benefits of the physical exercise for pregnancy’s life during
these approximately 40 weeks, and with the purpose of encouraging the public and professional
of health to a practice of physical exercise programs that was structured and orientated. This
paper gives a survey of bibliographic material compost of books and scientific articles. The study
conclusion that physical exercise bring benefits to pregnancy’s life, ever the improvement in a
posture of the pregnant as far as the facilitation of the delivery, so the exercise should be guided and
supervised by a professional of physical education, together with the medical monitoring, looking
for developing the better exercise program for pregnant according to the stages of pregnancy.
KEYWORDS: Physiology, pregnancy, physical exercise.
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INTRODUÇÃO
O desenvolvimento deste trabalho partiu da necessidade de estudos sobre o tema, pois
atualmente são poucos os estudos que relatam sobre os benefícios que o exercício físico proporciona
para as gestantes, entretanto atualmente as gestantes estão procurando mais informações sobre as
alterações que estão ocorrendo no próprio corpo e a também buscam mais qualidade de vida com a
prática de exercícios físicos, além de que os profissionais de educação física que trabalham com esta
população, sentem falta de maior suporte científico para prescreverem programas de exercícios físicos
*
Acadêmica do Curso de Educação Física da UniFil
Docente do Centro Universitário Filadélfia - UniFil
**
TERRA E CULTURA - No 54 - Ano 28 - Janeiro a Junho de 2012
Benefícios do exercício físico para gestantes nos aspectos fisiológicos e funcionais
para esta população. Neste trabalho o objetivo foi de apresentar e estudar alguns aspectos fisiológicos
que são alterados durante a gestação, sendo eles: o sistema reprodutivo, compreendendo o crescimento
do útero; o sistema cardiovascular, estudando o aumento do volume total do sangue, o sistema músculo
esquelético, para assim compreender as adaptações do corpo em relação ao centro de gravidade, peso
e postura, o sistema respiratório, para compreender a oxigenação no corpo da mulher e o sistema
gastrintestinal, compreendendo os sintomas e alterações comumente adquiridos no período gestacional.
Assim, quando compreendido as alterações fisiológicas que ocorrem no corpo da mulher
quando sofrem um estresse maior, no caso quando são submetidas ao exercício físico, assim será
feito uma analise das alterações ocorridas e esclarecer o porquê o exercício físico trás benefícios
na área fisiológica da gestante.
METODOLOGIA
A pesquisa foi realizada por um levantamento da literatura científica, ou seja, material
bibliográfico sobre o assunto dos benefícios do exercício físico para gestantes com ênfase nos
aspectos fisiológicos e funcionais.
ALTERAÇÕES FISIOLÓGICAS, FUNCIONAIS E A ADEQUAÇÃO AO
EXERCÍCIO FÍSICO
De forma que o corpo da mulher sofre um estresse muito elevado devido as adaptações
naturais de uma gestação principalmente em relação aos sistemas fisiológicos e funcionais sendo
eles os sistemas cardiovascular, respiratório, gastrintestinal, reprodutivo, hormonal e músculo
esquelético, neste capitulo estudaremos a forma que estes sistemas do organismo da gestante se
adaptará ao exercício físico.
Deve ser levado em consideração que os exercícios físicos para a gestante devem ser
apenas de forma orientada e planejada por um profissional da área da saúde especializado, e
com o acompanhamento do medico da gestante, sendo que conste em seus objetivos apenas a
manutenção da aptidão física, a manutenção da saúde e a diminuição dos sintomas gravídicos.
13
ADAPTAÇÃO DO SISTEMA ENDÓCRINO AO EXERCÍCIO
Quando o exercício físico é relacionado as alterações hormonais o que mais deve se
levar em conta são a ocorrência dos altos níveis de glicose no sangue, pois como estudado
anteriormente ocorre uma diminuição a sensibilidade a insulina, sendo assim muitas mulheres
acabam desenvolvendo o diabetes mellitus durante o período gestacional.
Assim exercício físico contribui para manter os níveis glicêmicos, segundo Landi et al.
(2004) o exercício físico favorece a liberação de glicose pelo fígado, ocorrendo um aumento
da atividade simpatoadrenal e neuro-humoral, que resulta em um declínio da concentração
plasmática de insulina e aumento da concentração de nerepinefrina, epnefrina, catecolaminas,
endorfinas, prolactina cortisol e glocagon. Sendo assim, de acordo com Passos e Vasconcelos
(2009) dependendo da intensidade do exercício há uma influência sobre o fluxo sanguíneo regional
e equilíbrio térmico por meio hormonal. Então exercício físico é capaz de induzir os receptores de
insulina a uma maior sensibilização a insulina e proporciona o aumento da utilização da glicose,
assim diminuindo o risco de diabetes mellitus.
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Fernando Pereira dos Santos, Luise Fernanda Nogueira
ADAPTAÇÃO DO SISTEMA REPRODUTIVO AO EXERCÍCIO
Quando se é relacionado exercício físico e sistema reprodutivo o que podemos citar é
aumento significativo das mamas, sendo que segundo Katz (1999) as mamas se tornam maiores
mais pesadas devido a produção do leite, sendo assim com os exercícios corretos e sendo
executados de forma correta, a mulher terá um fortalecimento dos músculos do peito e costas,
ajudando assim no apoio das mamas.
Além disso, com o decorrer da gestação o útero também vai se tornando mais pesado e
com os exercícios que trabalhem o fortalecimento do assoalho pélvico, a mulher passara a ter um
maior controle nesta musculatura.
ADAPTAÇÃO DO SISTEMA GASTROINTESTINAL AO EXERCÍCIO
O período gestacional a mulher obtêm um deslocamento do estômago e intestinos além
de uma a leve redução do tônus muscular do intestino, o organismo da mulher passa a ter uma
maior absorção de água, então o sistema gastrointestinal passa a sofrer uma menor capacidade de
motilidade, sendo assim o alimento demora mais tempo para passar por todo intestino e as fezes
tem tendência de serem mais ressecadas. De acordo com os estudos de Katz (1999) o bom tônus
muscular irá contribuir para a gestante a manter as funções intestinais e outros órgãos.
ADAPTAÇÃO DO SISTEMA CARDIOVASCULAR AO EXERCÍCIO
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Já foi comprovado em diversos estudos o que (NIEMAN, 1999, p. 23) defende, tornando
mais fidedigno as suas observações, sendo que uma delas é que “a prática de exercícios físicos
torna o coração mais forte”, ainda, de acordo com Nieman (1999) o exercício físico proporciona
um débito cardíaco maior, liberando mais sangue e oxigênio para os músculos trabalhados.
De forma que a principal alteração do sistema cardiovascular da gestante é a redistribuição
do sangue. Segundo Passos e Vasconcelos (2009) as alterações mais importantes são no débito
cardíaco, frequência cardíaca e volume sanguíneo, contudo o débito cardíaco durante os três
primeiros meses é mais elevado e durante o terceiro trimestre, o débito cardíaco apresenta valores
mais baixos podendo ocorrer a possibilidade de pressão baixa. No volume sanguíneo ocorre
um mecanismo compensatório à hemoconcentração e ao aumento da extração de oxigênio pelo
mioendométrio, entretanto estudos mostram que o exercício regular diminui a redistribuição do
fluxo sanguíneo, podendo ocorrer sem diminuição do fluxo de sangue para o feto.
Devido ao exercício físico proporcionar para a gestante uma maior liberação de sangue e
oxigênio então o mecanismo compensatório de redistribuição do fluxo sanguíneo irá proporcionar
sangue e oxigênio suficiente para o feto durante o exercício físico.
De acordo com Matsudo e Matsudo (2000) para que o exercício seja benéfico para a
mulher, a frequência cardíaca da gestante deve ser em torno de 140 – 150 batimentos por minuto.
Helmrich e Ragland (1994 apud por BATISTA et al. 2003, p. 154) afirmam que,
a pratica regular de exercícios físicos reduz o estresse cardiovascular,
o que se reflete, especialmente, em frequências cardíacas mais baixas,
mais volume de sangue em circulação, maior capacidade de oxigenação,
menor pressão arterial, prevenção de trombose e varizes e redução ao
risco de diabetes gestacional.
TERRA E CULTURA - No 54 - Ano 28 - Janeiro a Junho de 2012
Benefícios do exercício físico para gestantes nos aspectos fisiológicos e funcionais
ADAPTAÇÃO DO SISTEMA RESPIRATÓRIO AO EXERCÍCIO
Para a prática do exercício físico o corpo necessita de uma maior demanda de oxigênio
para que sejam enviados aos músculos. Segundo Nieman (1999) durante os exercícios físicos
moderados, os indivíduos aerobicamente treinados possuem um melhor transporte e uma melhor
utilização do oxigênio. Sendo que os pulmões se tornam cada vez mais aptos a captar grandes
quantidades de ar durante o exercício físico, de forma que possam fornecer oxigênio suficiente
para os músculos que estão sendo trabalhados.
Sabendo que durante o período gestacional ocorre maior dificuldade na transferência
dos gases entre a atmosfera e as células, entretanto o exercício físico tem um impacto reduzido
na função pulmonar, mas os efeitos celulares e cardiovasculares são melhorados, de forma que é
possível o transporte do oxigênio para os tecidos com mais facilidade.
Assim captação do oxigênio torna-se necessariamente mais elevada durante o período
gestacional, isto ocorre devido a mulher necessitar de mais oxigênio, que serão distribuídos tanto
para ela quanto para o feto, de forma que quando a gestante pratica exercícios físicos moderados
regularmente ocorre uma melhora na sua capacidade aeróbia, melhorando assim esta distribuição
de oxigênio.
As gestantes que com o desenvolvimento de sua gestação tornam a utilizar a respiração
diafragmática, e quando submetem se a exercícios físicos moderados que são praticados
regularmente, estas por sua vez passam a ter melhor resposta em seus níveis de ventilação, sendo
que com os exercícios físicos conseguem proporcionar uma melhor captação, melhor transporte
e a melhor utilização do oxigênio, assim conseguindo distribuir quantidades de oxigênio ideais
tanto para o feto quanto para os músculos.
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ADAPTAÇÃO DO SISTEMA MÚSCULO ESQUELÉTICO AO EXERCÍCIO
A prática de exercícios físicos está relacionada a diversas alterações, segundo Nieman
(1999) exercícios aeróbios contribuem para o aumento no VO²máx, aumenta número de capilares,
combustíveis (carboidrato ou glicogênio e gordura), mitocôndrias e enzimas produtoras de energia
e mioglobina que tem função de armazenar e transportar o oxigênio, os exercícios aeróbios também
proporcionam o estímulo de fibras musculares de contração lenta, que assim proporcionam um
maior volume destas fibras, entretanto os exercícios de força aumentam o volume das fibras de
contração rápida. O exercício físico causará um estimulo nos músculos se tornam mais hábeis em
queimar gordura como combustível.
Os fatores mais significantes durante o período gestacional é o aumento do peso da
gestante, também em seus níveis de flexibilidade é aumentado, além da alteração do centro
de gravidade, então com base nessas alterações no corpo da gestante o exercício físico deve
ser planejado por um profissional especializado, sendo que tenha o objetivo do treinamento a
manutenção dos movimentos, equilíbrio.
Os exercícios físicos devem procurar fortalecer toda musculatura, desde os membros
inferiores que são de extrema importância devido o peso ser aumentado significativamente, quando
os membros inferiores estão mais fortes a grávida se sente mais segura em seus movimentos, como
na marcha, e também na sustentação de seu próprio peso, assim ajudando-a em seu deslocamento.
Também a musculatura do assoalho pélvico, para garantirem um maior controle nessa região, os
músculos da pelve também devem ter a atenção especial e devem ser devidamente trabalhados
“quando estes músculos estão tonificados e fortes, eles ajudam a manter o controle na hora do
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Fernando Pereira dos Santos, Luise Fernanda Nogueira
parto” YMCA e HANLON (1999, p.13-14). Enfim os membros superiores, para que aja uma melhor
sustentação das mamas, e melhora na postura da gestante, e diminuição dos sintomas gravídicos.
BENEFÍCIOS FISIOLÓGICOS E FUNCIONAIS DO EXERCÍCIO FÍSICO PARA A
GESTANTE
16
Como podemos perceber o exercício físico proporciona diversos benefícios para a vida
da gestante, principalmente em seus aspectos fisiológicos e funcionais. Para que possamos falar
de seus benefícios, é importante que seja esclarecida o conceito de exercício físico.
O Exercício Físico é uma atividade estruturada e planejada, que busca um gasto energético
acima do basal, assim tendo o propósito de melhorar e/ ou manter a aptidão física.
É importante citar que o exercício físico para gestantes deve ser planejado conforme o
período da gestação, assim se ajustando a cada fase, também deve ser prescrito e orientado por
um profissional de Educação Física, sempre com o acompanhamento do médico da gestante, de
forma que é de imensa importância esta relação para que o exercício venha a ter efeitos benéficos
e não de riscos para a gestante. Segundo Leitão et al (2000, p. 218) “A atividade física na
gestação é recomendada na total ausência de qualquer anormalidade, mediante avaliação médica
especializada”. Seguindo a mesma linha de pensamento Verderi (2006, p. 48) diz “É importante
que os exercícios sejam feitos sob orientação e aprovação médica, principalmente”.
O exercício físico durante o período gestacional deve ter apenas o objetivo de manutenção
da aptidão física e principalmente ser apenas visado para a saúde e não para um treinamento em
busca de rendimento, pois isto poderá trazer riscos a gestante. Contudo é de extrema importância
o que Verderi (2006, p.50) diz,
o certo é que cada gestante tem uma adaptação diferenciada nas questões
fisiológicas no decorrer do período gestacional. Sendo assim, o profissional
deverá considerar os fatores idade, nível de aptidão, alterações da gravidez
e estado de saúde da grávida para elaborar um programa de exercícios
terapêuticos específicos para as necessidades e possibilidades da mesma.
Assim serão apresentados os benefícios que a pratica do exercício físico regular em níveis
moderados e principalmente este sendo orientado por um profissional especializado proporciona
para a vida da gestante, estes benefícios que foram obtidos por diversos estudos relacionados a
gravidez e exercícios físicos.
BENEFÍCIOS DO EXERCÍCIO FÍSICO AO SISTEMA ENDÓCRINO
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O principal benefício do exercício físico para o sistema endócrino da gestante é
diminuição do Risco do Diabetes Mellitus. Como foi estudado no primeiro capítulo deste
trabalho entendemos que a somatomamotropina coriônica humana é um hormônio que passa
a ser secretado em níveis mais elevados durante o período gestacional, portanto este provoca
a diminuição à sensibilidade à insulina e da glicose, aumentando assim o risco de a gestante
desenvolver o diabetes Mellitus.
O exercício físico regular contribui no equilíbrio dos níveis glicêmicos, pois ocorre uma
indução dos receptores de insulina a uma maior sensibilização e aumento da utilização da glicose
de forma que diminui o risco do diabetes Mellitus.
TERRA E CULTURA - No 54 - Ano 28 - Janeiro a Junho de 2012
Benefícios do exercício físico para gestantes nos aspectos fisiológicos e funcionais
BENEFÍCIOS DO EXERCÍCIO FÍSICO AO SISTEMA REPRODUTIVO
Em relação aos benefícios que o exercício físico proporcionará ao sistema reprodutivo,
estaremos analisando neste trabalho a prevenção de incontinência urinaria.
Quando anteriormente estudado sobre as alterações fisiológicas do sistema reprodutivo,
podemos perceber que ocorrerá um aumento significativo das mamas, mas principalmente
o aumento do útero e da vagina, de forma que após a gestação poderá provocar incontinência
urinária.
Com os exercícios de fortalecimento do assoalho pélvico, Katz (1999) afirma que os
músculos passam a se tornar mais fortes, e assim a mulher também possui um maior controle
nessa musculatura, diminuindo a incontinência urinária. Ainda segundo os estudos de Katz (1999)
afirmam que como as mamas também se tornam maiores e mais pesadas devido a produção do
leite, com os exercícios corretos e sendo executados de forma correta, a gestante obterá um
fortalecimento dos músculos do peito e costas, ajudando no apoio dos seios.
BENEFÍCIOS DO EXERCÍCIO FÍSICO AO SISTEMA GASTROINTESTINAL
Conforme o desenvolvimento do trabalho foi estudado que durante o período gestacional
há uma redução da atividade gastrointestinal.
Durante a gestação a mulher passa a ter uma maior absorção de água, portanto suas
fezes passam a ser mais ressecadas, além disso, os intestinos sofrem uma leve redução no tônus
muscular, devido o seu deslocamento para dar espaço para o feto, então isto proporcionará uma
menor capacidade de motilidade, causando assim desconfortos intestinais para a gestante.
O exercício físico irá proporcionar maior alivio nos desconfortos intestinais, pois se
sabe que o bom tônus muscular adquirido com a prática de exercícios físicos regulares contribui
a manter as funções dos intestinos e outros órgãos.
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BENEFÍCIOS DO EXERCÍCIO FÍSICO AO SISTEMA CARDIOVASCULAR
No período gestacional um dos mecanismos do sistema cardiovascular que o organismo
da mulher utiliza para o desenvolvimento do feto, é o aumento do volume sanguíneo, assim
devido a esse fluxo sanguíneo ser elevado, ocorre um aumento do volume de ejeção sistólica que
influencia a um aumento na frequência cardíaca cerca de 10 a 15 batimentos por minuto. Então
o coração da gestante deve ser forte, pois este será responsável para bombear sangue tanto para a
gestante quanto para o feto.
Com os exercícios físicos ocorrerá uma melhora na circulação sanguínea, pois o
coração se torna mais forte, e assim tem a capacidade de bombear mais sangue e oxigênio para
atender não só o feto mas também os músculos e também contribui para a melhor irrigação das
regiões periféricas do corpo. Segundo Katz (1999) o corpo passa a ter mais facilidade para
distribuir as demandas de sangue.
Também o exercício físico proporcionará um maior controle na pressão arterial,
segundo Nieman (1999) o exercício relaxa os vasos sanguíneos, reduzindo a pressão arterial
de repouso, que naturalmente torna- se elevada, sendo devido aos efeitos do aquecimento do
corporal, da produção de acido lático entre outras substancias químicas, também a diminuição da
atividade nervosa, e por alguns hormônios e seus receptores.
Quando o exercício é praticado de forma regular e orientado, este proporciona a
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Fernando Pereira dos Santos, Luise Fernanda Nogueira
diminuição da redistribuição do fluxo sanguíneo, de forma que não aja a diminuição do fluxo de
sangue para o feto. Assim com o com todo o sistema cardiovascular saudável, ocorrerá a melhora
na irrigação da placenta, que afirmando isto Katz (1999, p.5) diz, “um sistema saudável é
importante porque o sangue do seu corpo deverá ser transportado para a placenta”. De forma
que o exercício proporciona uma melhor redistribuição sanguínea assim não faltarão sangue e
oxigênio suficiente para o feto.
BENEFÍCIOS DO EXERCÍCIO FÍSICO AO SISTEMA RESPIRATÓRIO
Durante o período gestacional ocorre certa dificuldade na transferência dos gases entre
a atmosfera e as células, portanto a captação de oxigênio é necessariamente maior durante este
período, devido a mulher precisar de oxigênio, pois o oxigênio será utilizado tanto por ela quanto
para o feto. De forma que com os exercícios físicos é possível proporcionar uma melhor captação,
transporte e a utilização do oxigênio, pois, quando a gestante pratica exercícios físicos regulares
ocorre uma melhora na sua capacidade aeróbia. Também ocorre a melhora na irrigação da
placenta, que Segundo Katz (1999, p.5) “um sistema saudável é importante porque o sangue do
seu corpo deverá ser transportado para a placenta”. Assim o exercício proporciona uma melhor
oxigenação para o corpo da gestante, não faltará oxigênio para o feto.
BENEFÍCIOS DO EXERCÍCIO FÍSICO AO SISTEMA MÚSCULO ESQUELÉTICO
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A postura da gestante se modifica a cada mês, sempre buscando a melhor adequação
do corpo, aquela postura que oferece menor sobrecarga nas articulações, também sabe – se que
a gestante sofre um aumento de peso, causando assim maior desconforto. O exercício físico irá
proporcionar para a gestante uma melhora na postura, sendo que os exercícios devem enfatizar
fortalecimento de diversas musculaturas, assim fortalecendo não apenas membros inferiores para
a sustentação do peso extra da gestante, mas fortalecer também os músculos abdominais, dorsais e
do assoalho pélvico, que fortes ajudam a gestante manter o alinhamento da postura, diminuindo as
lombalgias, e a acentuação da cifose torácica, de acordo com Katz (1999) estes músculos também
oferecem suporte e participam durante o trabalho de parto.
Devido a este essas adequações de postura, o eixo de equilíbrio da gestante passa a ser
alterado, e conforme o decorrer da gestação as gestantes perdem um pouco do seu equilíbrio,
sendo assim o exercício físico irá proporcionar para a gestante a ampliação do equilíbrio, os
exercícios físicos não devem ser apenas de fortalecimento muscular, mas dever ser feito em
conjunto com exercícios de alongamento e mobilidade, para assim favorecer a gestante obter uma
percepção corporal maior, assim contribuindo para que ela possa ter maior controle do seu corpo
em relação ao seu centro de gravidade.
Como se já estudado as gestantes tem um aumento do peso corporal elevado, sendo
assim o peso adicional considerado normal é de cerca de 11 kg, mas algumas gestantes chegam
a ganhar 30kg ou mais durante o período gestacional. A prática de exercícios físicos regulares
proporcionará a gestante o controle do peso corporal e menor incremento da adiposidade,
sendo que o corpo quando sujeito a exercícios físicos, passa a ter um gasto energético acima do
que é gasto quando em repouso, além de que os músculos que já estão adaptados ao exercício
se tornam mais hábeis em queimar gordura como combustível, agindo de forma que controla o
aumento da gordura corporal e mantém um peso corporal adequado para a gestante.
Normalmente o abdômen da gestante se dilata e a linha alba se divide, causando diástase
TERRA E CULTURA - No 54 - Ano 28 - Janeiro a Junho de 2012
Benefícios do exercício físico para gestantes nos aspectos fisiológicos e funcionais
do reto, assim os exercícios para a região abdominal contribuem para que o músculo reto
abdominail e a linha alba não venham a sofrer uma separação muito grande de forma que evite a
distensão dos tecidos e auxilie durante o parto.
Com todas as alterações funcionais já citadas acima percebemos que a gestante necessita
fazer exercícios em todas as regiões do corpo, mas devem dar uma atenção especial a região
pélvica, assim os exercícios físicos proporcionarão aos músculos um bom tônus muscular de
forma que possam que contribuir para o parto, segundo Katz (1999) o bom tônus muscular,
proporciona um melhor controle sobre esta musculatura, assim com o relaxamento da região
pélvica durante o parto normal irá facilitar a passagem do feto.
CONCLUSÃO
Enfim, devido a todo o conteúdo estudado durante este trabalho pode se afirmar que o
exercício físico proporciona diversos benefícios para a gestante, tanto nos seus aspectos fisiológicos
como nos aspectos funcionais, assim este trabalho buscou apenas mostrar os benefícios que o
exercício físico proporciona durante o período gestacional, de forma que atualmente ainda são
poucos os estudos relacionados aos benefícios do exercício físico para a gestante, desta forma
o trabalho contribui como uma base de informações tanto das mulheres que se encontram neste
período gestacional ou não, e principalmente como um material de consulta para profissionais da
área da saúde.
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Benefícios do exercício físico para gestantes nos aspectos fisiológicos e funcionais
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Graziela Maria Gorla Campiolo, Eriane Regina Vertuan
COMPARAÇÃO DO ESTADO NUTRICIONAL E HÁBITOS
ALIMENTARES DE ESCOLARES DE UMA ESCOLA PÚBLICA
E UMA ESCOLA PARTICULAR DA CIDADE DE ALVORADA DO
SUL –PARANÁ
COMPARISON OF NUTRITIONAL STATUS AND FOOD HABITS OF STUDENTS IN A
PUBLIC SCHOOL AND A SCHOOL OF THE CITY OF ALVORADA DO SUL, PARANÁ
Eriane Regina Vertuan3*
Graziela Maria Gorla Campiolo4**
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RESUMO:
O aumento da obesidade infantil em crianças tem sido um grande desafio no cuidado da saúde,
sendo um trauma psicológico, e é reconhecida como o principal fator de risco epidemiológico
para doenças crônicas mais comuns, a educação e orientação nutricional é um dos mais amplos
métodos de intervenção nutricional, tendo como propósito a educação, visando uma melhoria
do estado nutricional através da mudança de hábitos alimentares adequados, eliminação de
práticas dietéticas inadequadas, introdução de melhores práticas de higiene dos alimentos e o
uso eficiente dos recursos alimentares. O objetivo desta pesquisa foi avaliar o estado nutricional
e os hábitos alimentares dos escolares da 4º série de uma escola pública e uma particular
da cidade de Alvorada do Sul – Paraná. A amostra foi constituída de 26 escolares da escola
pública e 16 da escola particular, na faixa etária de 9 a 10 anos de idade, de ambos os sexos,
que responderam um questionário de frequência alimentar, e para melhor caracterização da
população alvo, para avaliação do estado nutricional de acordo com o índice de massa corporal
(IMC), de cada criança, foram realizadas as medidas de peso e altura as quais os indivíduos
estavam descalços em balança tipo plataforma, com capacidade de até 150 kg, onde foram
classificados como baixo peso (P<3), risco de baixo peso (P 3-15), normal (P15-85), risco de
sobrepeso (P 85-97) e sobrepeso (P>97), segundo OMS (2007). O sobrepeso foi encontrado
em 18,75% nos escolares da escola particular e em 26,92% nos escolares da escola pública.
De acordo com o consumo dos alimentos reguladores, os escolares de ambas as escolas tem o
hábito de consumir mais vegetais folhosos e frutas do que os legumes. Em relação ao consumo
de guloseimas o índice é alto, o refrigerante e o suco industrializado estão bem presente na
alimentação dos escolares de ambas as escolas, quanto ao consumo de água foi observado que
na escola particular 43,75% dos escolares consomem de 4-6 copos, e na escola pública 53,85%
consomem de 2-4 copos por dia, em relação ao tempo em frente à TV, computador e vídeo game
50% dos escolares da escola particular ficam de 0-2 horas, e 61,54% da escola pública ficam de
2-4 horas, e finalmente em relação à prática de atividade física visto que 31,25% dos escolares da
escola particular e 80,77% da escola pública praticam diariamente. Com isso, pode-se concluir
que o alto consumo de alimentos ricos em calorias e gorduras tiveram aumento significativo na
infância, atualmente as crianças e adolescentes têm mais acesso a estes alimentos tanto em casa
quanto na escola devido à mídia, sendo assim, é necessário uma reeducação alimentar, visando
melhorar o estado nutricional, já que através da educação alimentar é possível modificar hábitos
alimentares inadequados, e assim reduzir a morbidade e a mortalidade devido às deficiências
nutricionais e prevenir patologias futuras.
PALAVRAS - CHAVE: Escolares. Estado Nutricional. Hábito Alimentar.
*
Discente do Curso de Nutrição da Unifil. Orientanda do Trabalho de Conclusão de Curso (e-mail: [email protected]).
Docente do Departamento de Nutrição da UniFil (Centro Universitário Filadélfia) (e-mail: [email protected]).
**
TERRA E CULTURA - No 54 - Ano 28 - Janeiro a Junho de 2012
Comparação do estado nutricional e hábitos alimentares de escolares de uma escola pública e uma escola particular da
cidade de Alvorada do Sul – Paraná
ABSTRACT:
The increasing of obesity in children has been a major challenge in health care, and psychological
trauma, and it is recognized as a major epidemiological risk factor for the most common chronic
diseases. Education and nutritional counseling are some of the widest nutritional intervention
methods with the educational purpose, aiming at improving nutritional status by changing eating
habits, eliminating an inadequate diet, introducing improved food hygiene practices and efficient
use of food resources. The purpose of this research was to evaluate the nutritional status and diet
habits of students from the 4th grade in a public and private school in Alvorada do Sul city Paraná. The sample consists of 26 students from public school and 16 from private school, aged
from 9 to 10 years-old, and from both genders, who answered a food frequency questionnaire.
In order to improve the target population identification, and consequently the nutritional status
evaluation according to the body mass index (BMI), it was measured on a platform scale the
weight and height of each child. Children were classified as underweight (P <3), risk of low
birth weight (P 3-15), normal (P 15-85), risk of overweight (P 85-97) and overweight (P> 97),
according to WHO (2007). Overweight was found in 18.75% of private school students and
26.92% of public school students. According to the consumption of regulative food, students from
both schools have a habit of eating more leafy vegetables and fruits than vegetables. In relation to
sweets the consumption is high. The soft drinks and industrialized juice are present in the diet of
both schools. In relation to water consumption, it was observed that in the private school 43.75%
of students consume 4-6 cups, and in the public school 53.85% consume 2-4 cups per day. About
the length of time children spend in front of TV, computer and videogame, 50% of students
from private schools spend 0-2 hours, and 61.54% of public schools 2-4 hours. Finally, when the
physical activity was analyzed, it was noticed that 31.25% of private school students and 80.77%
public school students practice physical exercises every day. Therefore, it can be concluded that
elevated consumption of high caloric food and fat had a significant increase in childhood. It could
be explained by the fact that nowadays children and teenagers have more access to these foods
at home and at school. Consequently, people need a food reeducation to improve the nutritional
status, and through food education it can be changed the bad eating habits, reducing morbidity
and mortality due to nutritional deficiencies and preventing future diseases.
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KEYWORDS: Students. Nutritional Status. Food Habits.
1. INTRODUÇÃO
A obesidade é um distúrbio nutricional traduzido por um aumento de tecido adiposo,
resultante do balanço positivo de energia na relação ingesta-gasto calórico, que frequentemente
leva a prejuízos na saúde. O excesso de peso na criança predispõe às mais variadas complicações,
abrangendo as esferas psicossociais, pois há isolamento e afastamento das atividades sociais
devido à discriminação e à aceitação diminuída pela sociedade (SILVA et al., 2003).
Na infância a obesidade tem como importância a possibilidade de sua manutenção na
vida adulta. Se nas idades menores a morbidade não é frequente, no adulto a situação é de risco
e leva ao aumento da mortalidade, por associação com a doença arteriosclerótica, hipertensão
arterial e alterações metabólicas. No adolescente, somam-se a isso todas as alterações do período
de transição para a idade adulta, a baixa auto-estima, o sedentarismo, lanches mal balanceados em
excesso e a enorme suscetibilidade à propaganda consumista (SILVA; FARIAS, 2007).
Desta forma, promover o aumento da atividade física e o incentivo à aquisição de
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hábitos alimentares saudáveis, criando condições objetivas para sua realização, são os principais
componentes de políticas de uma vida saudável entre os adolescentes (SILVA; FARIAS, 2007). A
educação e orientação nutricional é um dos mais amplos métodos de intervenção nutricional, tendo
como propósito a educação das pessoas visando uma melhoria geral do estado nutricional através
da mudança de hábitos alimentares adequados, eliminação de práticas dietéticas inadequadas,
introdução de melhores práticas de higiene dos alimentos e o uso mais eficiente dos recursos
alimentares.
1.1. Antropometria
A antropometria consiste na avaliação das dimensões físicas e da composição global do
corpo humano. O peso e estatura são os parâmetros antropométricos usualmente utilizados para
avaliar a condição nutricional de crianças (BRASIL; DEVINCENZI; RIBEIRO, 2007).
De acordo com Sarni (2007), o exame antropométrico de um indivíduo em apenas um
único momento é suficiente para que seu crescimento seja avaliado e para que eventuais déficits
e, portanto, presumíveis processos de desnutrição sejam identificados.
1.2. Alimentação na Infância
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A alimentação nesta fase deve ser balanceada, pois dependemos dos alimentos que
consumimos, e nestes alimentos é que encontramos os nutrientes necessários para a manutenção
e funcionamento do organismo, bem como prevenir os fatores de riscos nutricionais e doenças
futuras (GARCIA, 2002).
A privação dos nutrientes essenciais nos primeiros anos de vida pode levar à diminuição
da velocidade do crescimento e do desenvolvimento, causando um tipo de desnutrição conhecida
por protéico-calórica. Durante a infância a desnutrição crônica, e algumas doenças, atrasam o
crescimento reduzindo o desenvolvimento ósseo e retardando a puberdade, a adaptação à baixa
ingestão de nutrientes, condições sanitárias deficientes, e doenças da infância, são frequentemente
caracterizadas por um menor potencial de crescimento, tornando os indivíduos menores do que
sua determinação genética (FERNANDEZ et al., 2000).
Há que se observa que nesta fase algumas crianças optam pelo comportamento sedentário
em frente à televisão, microcomputador. Na fase pré-escolar e escolar a criança está formando os
hábitos alimentares, definindo as suas preferências alimentares que são influenciadas pelo meio
ambiente pela mídia, e pelas próprias características físicas, sociais e psicológicas (BRASIL;
DEVINCENZI; RIBEIRO, 2007).
1.3. Educação Nutricional Na Infância
A educação nutricional é a base para o desenvolvimento de hábitos alimentares saudáveis,
sendo esta uma responsabilidade ampla dos diversos segmentos: escola, família e sociedade.
Crianças com capacidade de selecionar alimentos de modo a compor um perfil alimentar saudável
podem se manter nutridas e com menor risco para a vida futura. Estar atento ao comportamento
alimentar das crianças é colaborar com a formação de uma sociedade saudável e desenvolvida
(CELES; COELHO, 2000).
Segundo Mello (2002, p. 357) “O estado nutricional de uma população é um excelente
indicador de sua qualidade de vida”, portanto, o estado nutricional depende do consumo alimentar
TERRA E CULTURA - No 54 - Ano 28 - Janeiro a Junho de 2012
Comparação do estado nutricional e hábitos alimentares de escolares de uma escola pública e uma escola particular da
cidade de Alvorada do Sul – Paraná
e do estado de saúde da criança, sendo que esses fatores, por sua vez, dependem da disponibilidade
do alimento, do ambiente e dos cuidados com a criança. A educação nutricional tem ênfase no
processo de modificar e melhorar o hábito alimentar em médio e longo prazo.
É importante elaborar uma dieta que inclua muitos nutrientes e sabores diferentes,
assim como texturas e cores, e não só assegurará uma nutrição e desenvolvimento como também
estimulará a capacidade de fazer escolhas adequadas entre os diferentes alimentos.
A preocupação com uma melhor qualidade de vida tem desencadeado uma atenção maior
para a prática de educação alimentar. Neste processo o educador tem o papel de transformar bons
hábitos alimentares em momentos de prazer, onde a criança se sinta fascinada pelo alimento.
(CELES; COELHO, 2000).
A escola e educadores nutricionais devem trabalhar juntos, providenciando cenários,
desenvolvendo jogos e demonstrações que incentivam as habilidades críticas das crianças em
fazer escolhas alimentares saudáveis. O educador nutricional é uma pessoa treinada e capacitada a
promover os objetivos da Educação Nutricional: preparar as crianças para que elas sejam capazes
de fazer escolhas alimentares saudáveis e prepará-las como agentes multiplicadores, a fim de que
influenciem os hábitos alimentares da família (CELES; COELHO, 2000).
2. METODOLOGIA
Este estudo caracterizou-se como uma pesquisa descritiva com escolares matriculados na
4º série de ambos os sexos, na faixa etária entre 9 e 10 anos de idade de uma escola pública (Escola
Semente do Saber) e de uma escola particular (Colégio Monteiro Lobato), ambas localizadas na
cidade de Alvorada do Sul Estado do Paraná.
A escola pública possui três turmas de 4º série, sendo que foi escolhida uma turma de
forma aleatória, e somente uma turma da escola particular, os dados foram coletados durante o
ano de 2009, onde foram feitas a avaliação antropométrica e também a investigação dos hábitos
alimentares dos escolares. O universo de estudo foi constituído por 26 escolares da escola pública
e 16 da escola particular.
Todos os pais ou responsáveis pelos escolares que fizeram parte deste estudo, após serem
informados sobre o propósito desta investigação e os procedimentos adotados, assinaram um
termo de consentimento livre e esclarecido. Este estudo foi desenvolvido em conformidade com
as instruções contidas na Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde que normatizou a
pesquisa com seres humanos, sendo submetido à aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa do
Centro Universitário Filadélfia – UniFil.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Dos 16 escolares selecionados na escola particular, e 26 escolares selecionados na escola
pública, todos participaram do estudo.
TABELA 1 – Escolar do sexo feminino e sexo masculino do Colégio Monteiro Lobato
Escolar do sexo feminino e sexo masculino
Sexo feminino
Sexo masculino
%
43,75
56,25
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TABELA 2 – Escolar do sexo feminino e sexo masculino da Escola Semente do Saber
Escolar do sexo feminino e sexo masculino
Sexo feminino
Sexo masculino
%
46,15
53,85
Das 16 crianças da escola particular que participaram desta pesquisa, 43,75% eram do sexo
feminino e 56,25% do sexo masculino, a faixa etária variou de 9 aos 10 anos de idade (tabela 1).
Das 26 crianças da escola pública que participaram desta pesquisa, 46,15% eram do sexo
feminino, e 53,85% do sexo masculino, também com a faixa etária de 9 aos 10 anos (tabela 2).
GRÁFICO 1 - Estado Nutricional dos Escolares do Colégio Monteiro Lobato
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GRÁFICO 2 - Estado Nutricional dos Escolares da Escola Semente do Saber
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Na amostra, em relação ao estado nutricional dos escolares da escola particular 6,25%
apresentaram risco de baixo peso, 50% na faixa de normalidade, enquanto que o risco de sobrepeso
foi encontrado em 25% da amostra, e sobrepeso pode-se verificar em 18,75% dos escolares,
conforme mostra o gráfico 1. Na escola pública, o estado nutricional foi encontrado 50% também
na faixa de normalidade, 23,07% com risco de sobrepeso, enquanto que sobrepeso apresentou
26,92% dos escolares (gráfico 2).
De acordo com Brasil, Fisberg e Maranhão (2007) a obesidade é resultante do
desequilíbrio crônico entre a energia ingerida e a utilizada, a realidade atual tem demonstrado
aumento considerável da prevalência da obesidade nos países em desenvolvimento. O aumento
de indivíduos obesos parece estar mais relacionado às mudanças no estilo de vida e aos hábitos
alimentares (FERNANDES; GALLO; ADVÍNCULA, 2006).
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Comparação do estado nutricional e hábitos alimentares de escolares de uma escola pública e uma escola particular da
cidade de Alvorada do Sul – Paraná
GRÁFICO 3 - Consumo de vegetais folhosos, legumes e frutas pelos escolares do Colégio
Monteiro Lobato
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GRÁFICO 4 - Consumo de vegetais folhosos, legumes e frutas pelos escolares da Escola Semente
do Saber
Segundo o gráfico 3 o consumo diário de vegetais folhosos e legumes na escola particular
foi maior, 62,5% dos escolares consomem vegetais folhosos e 43,75% consomem legumes
diariamente, sendo 25% dos escolares consomem ambos os alimentos de 1 a 4 vezes na semana,
e 18,75% dos escolares afirmaram não consumir legumes. Já na escola pública, 53,85% dos
escolares consomem vegetais folhosos diariamente e 19,23% consomem legumes, o consumo
de legumes de 1 a 4 vezes na semana foi maior com 65,38% dos escolares e 34,61% consomem
os vegetais folhosos e 11,54% dos escolares não consomem vegetais folhosos, sendo 3,85% da
amostra não consomem legumes (gráfico 4).
De acordo com o consumo de frutas, 56,25% dos escolares da escola particular consomem
frutas diariamente, 37,5% consomem de 1 a 4 vezes na semana e 6,25% dos escolares não
consomem frutas (gráfico 3). Já na escola pública o consumo diário de frutas foi maior (61,54%)
dos escolares, 34,61% consomem de 1 a 4 vezes na semana, e apenas 3,85% dos escolares não
consomem frutas (gráfico 4).
Os minerais e vitaminas são necessários para o crescimento e o desenvolvimento normal.
Com uma alimentação variada e equilibrada, em geral a criança pré-escolar e escolar pode ingerir
todos os nutrientes necessários para garantir um crescimento adequado (BRASIL; DEVINCENZI;
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RIBEIRO, 2007). De acordo com Fiates, Amboni e Teixeira (2008) na adaptação da pirâmide
alimentar para o padrão brasileiro, indicam que o consumo diário de hortaliças não deve ser
inferior a 4 porções, e que o consumo de frutas deve incluir ao menos 3 porções por dia.
GRÁFICO 5 - Consumo de guloseimas pelos escolares do Colégio Monteiro Lobato
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GRÁFICO 6 - Consumo de guloseimas pelos escolares da Escola Semente do Saber
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De acordo com o gráfico 5, o consumo de guloseimas foi elevado, já que na escola particular
37,5% dos escolares consomem balas/gomas, e 12,5% consomem chocolate diariamente, de 1 a
4 vezes na semana, 62,5% dos escolares consomem chocolate, 37,5% consomem balas/gomas, e
62,5% dos escolares consomem sorvete, e somente 12,5% da amostra não consome balas/gomas
e 6,25% dos escolares não consomem sorvete. Na escola pública (gráfico 6), o consumo de balas/
gomas diariamente é maior, sendo 30,76% dos escolares, e 7,69% consomem o chocolate, de 1
a 4 vezes na semana 46,16% consomem chocolate, 38,47% consomem balas/gomas e 23,08%
consomem sorvete, e 11,54% dos escolares não consomem chocolate, 7,69% não consome balas/
gomas e 7,69% dos escolares não consome sorvete.
Segundo Fiates, Amboni e Teixeira (2008) a preferência infantil por guloseimas é
amplamente reconhecida e sofre influência tanto ambiental quanto genética. No entanto, tais
preferências estão cada vez mais divergentes das recomendações nutricionais, o que tem levado
ao aumento da incidência de sobrepeso e obesidade no mundo todo.
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Comparação do estado nutricional e hábitos alimentares de escolares de uma escola pública e uma escola particular da
cidade de Alvorada do Sul – Paraná
GRÁFICO 7 - Consumo de refrigerantes e sucos industrializados pelos escolares do Colégio
Monteiro Lobato
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GRÁFICO 8 - Consumo de refrigerantes e sucos industrializados pelos escolares da Escola
Semente do Saber
No gráfico 7, pode-se constatar que o hábito de consumir refrigerantes foi maior
na escola particular, 43,75% dos escolares consomem diariamente e 31,25% consomem o
suco industrializado, de 1 a 4 vezes na semana 43,75% consomem o refrigerante, e 50% dos
escolares consomem o suco industrializado, e somente 12,5% dos escolares não consome suco
industrializado. Já na escola pública, o consumo de refrigerante é menor, 19,23% dos escolares
consomem diariamente, e o suco industrializado é maior (53,85%) dos escolares, de 1 a 4 vezes
na semana 73,07% da amostra consomem o refrigerante, 30,76% o suco industrializado, e apenas
3,85% não consome refrigerante, e 11,54% dos escolares não consome o suco industrializado
(gráfico 8).
Estas mudanças observadas no padrão alimentar repercutem na ingestão elevada de
lipídeos e carboidratos simples, e trazem como consequência o aumento na prevalência da
obesidade e outras doenças crônicas não transmissíveis (RIVERA; SOUZA, 2006).
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GRÁFICO 9 - Consumo de água pelos escolares do Colégio Monteiro Lobato
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GRÁFICO 10 - Consumo de água pelos escolares da Escola Semente do Saber
No gráfico 9 foi analisado o consumo de água pelos escolares, e verificou-se um baixo
consumo nas duas escolas, sendo que na escola particular, 6,25% ingerem de 0-2 copos, 31,25%
dos escolares ingerem de 2-4 copos por dia, 43,75% ingerem de 4-6 copos, 18,75% dos escolares
ingerem de 6-8 copos. Já na escola pública, 23,07% ingerem de 0-2 copos, 53,85% dos escolares
de 2-4 copos, 7,69% ingerem de 4-6 copos, e 6-8 copos de água é consumido por 11,54% dos
escolares, e apenas 3,85% dos escolares afirmaram ingerir de 8 a 10 copos de água (gráfico 10).
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GRÁFICO 11 - Tempo em frente à TV, computador e vídeo game pelos escolares do Colégio
Monteiro Lobato
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Comparação do estado nutricional e hábitos alimentares de escolares de uma escola pública e uma escola particular da
cidade de Alvorada do Sul – Paraná
GRÁFICO 12 - Tempo em frente à TV, computador e vídeo game pelos escolares da Escola
Semente do Saber
De acordo com o gráfico 11, 50% dos escolares da escola particular permanecem em
frente à TV, computador e vídeo game de 0-2 horas, 37,5% dos escolares de 2-4 horas, e 12,5%
da amostra de 4 a 6 horas em frente à TV, computador e vídeo game. Já na escola pública (gráfico
12), 26,92% dos escolares ficam de 0-2 horas, 61,54% dos escolares ficam de 2-4 horas, e 11,54%
de 4 a 6 horas em frente à TV, computador e vídeo game.
Segundo Fiates, Amboni e Teixeira (2008) a ocorrência de sobrepeso e obesidade em
crianças tem sido tradicionalmente associada ao hábito de assistir à TV, pois este promove o
sedentarismo. Além disso, sabe-se hoje que os anúncios de alimentos veiculados na TV têm o
poder de, efetivamente, promover seu consumo, influenciando diretamente os hábitos alimentares
de crianças. o hábito de assistir à TV na infância ou na adolescência também foi associado
positivamente com a ocorrência de baixo condicionamento físico, fumo e hipercolesterolemia na
idade adulta.
GRÁFICO 13 - Prática de atividade física pelos escolares do Colégio Monteiro
Lobato
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Graziela Maria Gorla Campiolo, Eriane Regina Vertuan
GRÁFICO 14 - Prática de atividade física pelos escolares da Escola Semente do Saber
32
O gráfico 13 mostra a prática de atividade física dos escolares, na escola particular 31,25%
praticam atividade física diariamente, 25% de 0-2 vezes na semana, de 2-4 vezes praticam 31,25%
dos escolares, e 12,5% dos alunos afirmaram somente fazer as aulas de educação física na escola.
Já na escola pública (gráfico 14) a prática de atividade física diária é maior, 80,77% dos escolares,
7,69% pratica de 0-2 vezes na semana, 3,85% de 2-4 vezes na semana, e 7,69% só faz as aulas de
educação física na escola.
Segundo Rinaldi et al. (2008) a prática frequente de exercícios físicos diminui o risco de
obesidade, atua na regulação do balanço energético, influencia na distribuição do peso corporal,
preserva e mantém a massa magra, além de promover perda de peso corporal.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
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Assim, diante dos resultados encontrados no presente estudo, o excesso de peso mostrouse significativo em ambas as escolas, sendo um problema grave para a saúde, sendo que se pode
afirmar a relação com a mudança no estilo de vida e dos hábitos alimentares. Verificou-se na
pesquisa um baixo consumo pelos escolares dos alimentos presentes no grupo dos reguladores,
sendo esses alimentos indispensáveis para a manutenção da saúde. O consumo de guloseimas
mostrou-se bastante elevado na alimentação dos escolares, e verificou-se também que o suco
industrializado e o refrigerante estão bem presentes na alimentação desta população, sendo assim,
nota-se que os escolares estão substituindo a água por esses alimentos. Outro dado relevante foi
que a prática de atividade física prevaleceu maior na escola pública.
Diante desta problemática, pode-se afirmar que o estado nutricional adequado é
importante em qualquer fase da vida, mas tem um papel fundamental em crianças, pois é o
período de desenvolvimento, onde os níveis de crescimento se elevam, os hábitos alimentares se
modificam e há demanda de um maior aporte nutricional, portanto a alimentação das crianças em
idade escolar deve fornecer energia suficiente para promover o crescimento e desenvolvimento
adequado de acordo com a faixa etária, prevenindo assim a obesidade infantil e patologias futuras.
TERRA E CULTURA - No 54 - Ano 28 - Janeiro a Junho de 2012
Comparação do estado nutricional e hábitos alimentares de escolares de uma escola pública e uma escola particular da
cidade de Alvorada do Sul – Paraná
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Graziela Maria Gorla Campiolo, Eriane Regina Vertuan
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Comparação do estado nutricional e hábitos alimentares de escolares de uma escola pública e uma escola particular da
cidade de Alvorada do Sul – Paraná
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Roberta Ramos Pinto, Ludgero dos Santos Pereira, Rodolfo Poli Mignoni
FREQUÊNCIA DE LESÕES MÚSCULOESQUELÉTICAS EM
ATLETAS AMADORES QUE PRATICAM ESCALADA ESPORTIVA
EM ROCHA NA CIDADE DE LONDRINA – PR
MUSCULOSKELETAL INJURIES IN AMATEUR ROCK CLIMBING ATHLETES IN
LONDRINA – PARANA
Roberta Ramos Pinto 5*
Ludgero dos Santos Pereira6**
Rodolfo Poli Mignoni **
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RESUMO:
A escalada em rocha tornou-se uma modalidade esportiva nos meados do século XIX e é
considerado um esporte empolgante e desafiador que nos últimos anos tem crescido sobremaneira.
Há muitas lesões encontradas nos escaladores de rocha que dificilmente são encontradas em
indivíduos que não praticam esta modalidade esportiva. Essas lesões são pouco estudadas o que
torna o diagnóstico impreciso e o tratamento inadequado. O objetivo deste trabalho foi avaliar
a prevalência de lesões nos escaladores residentes em Londrina que praticam a modalidade de
Escalada Esportiva em Rocha. Foi aplicado um questionário elaborado pelos pesquisadores,
com questões referentes à pratica do esporte, provável ocorrência de lesões, além de possíveis
tratamentos realizados em 29 escaladores, sendo 26 homens, com média de idade de 26,9 e SD±
9,18, e média do tempo de escalada 46,3 meses e SD± 42,7 meses. Foram encontradas 35 lesões,
sendo que em 13 casos houve procura médica com consequente diagnóstico clínico. As lesões
foram, contratura no quadrado lombar direito, tendinite bilateral de flexores do 3º dedo, luxação
em ombro direito, artrite no 4º dedo direito, tendinite bilateral de bíceps braquial e tríceps, tendinite
dos flexores do 2º, 3º e 4º dedos direito e um caso de tendinite de todos os flexores dos dedos.
Os atletas que não procuraram investigação clínica relataram dor em ombro esquerdo, dor em
fáscia plantar direita, dor em região do retináculo do punho direito, dor em 3º dedo da articulação
interfalangiana proximal direito, dor em 4º dedo da articulação interfalangiana proximal direita,
dor bilateral em 3º dedo da articulação interfalangiana proximal, dores musculares em supraespinhoso, deltóide, bíceps braquial e tríceps braquial, bilateralmente, e dois atletas relataram
dores em região dos flexores de punho direito e esquerdo. Além disso, em 3 casos houve relato
de deslocamento de ombro esquerdo e 1 caso de deslocamento em ombro direito. Os resultados
encontrados indicam que as patologias com diagnóstico médico tais como, tendinite dos flexores
dos dedos, bíceps e tríceps braquial além da luxação em ombro estão de acordo com a literatura
encontrada. Apesar do reduzido número de sujeitos que compõem a amostra, pôde-se concluir que
os resultados encontrados corroboram parcialmente com a literatura científica, e outros resultados
poderiam concordar com a literatura se os atletas apresentassem uma investigação mais detalhada
das dores apresentadas principalmente durante a prática dos esportes.
PALAVRAS-CHAVE: Escalada, Lesões e Prevalência.
ABSTRACT:
The rock climbing became sportive modality in the middle of century XIX and is considered a
exciting and challenging sport that in the last years has grown excessively. It has many injuries
found in the climbers of rock that hardly are found in individuals that do not practice this
modality. There are few studies about these type of injuries which brings a unclear diagnosis
*
Mestre em Fisiologia do Exercício e Docente da UNIFIL - Londrina. E-mail: [email protected]
Fisioterapeutas graduados pela UNIFIL – Londrina
**
TERRA E CULTURA - No 54 - Ano 28 - Janeiro a Junho de 2012
Frequência de lesões músculoesqueléticas em atletas amadores que praticam escalada esportiva em rocha na cidade de
Londrina – Pr
and the incorrect treatment. The goal of this work is to evaluate the prevalence of injuries in the
climbers of Londrina city who practice the Rock Climbing Sport. A questionnaire elaborated by
the researchers was applied, with referring questions to the athletes, probability of occurrence of
certain injuries, and possible treatments carried through in 29 climbers, being 26 men, average of
age of 26,9 and SD±9,18, and average of the climbing time 46,3 months and SD±42,7 months.
It has been found 35 injuries, which 13 cases were properly diagnosticated. The injuries found
are contracture in the right lumbar square, bilateral tendinitis of flexors of 3º finger, displacement
in right shoulder, arthritis in 4º right finger, bilateral tendinitis of brachial biceps and tríceps,
tendinitis of the flexors of 2º, 3º and 4º fingers right and a case of tendinitis of all the flexors of the
fingers. The athletes withouth medical had told about pain in the left shoulder, pain in the right
foot fascia, pain in the retinaculum of the right fist area, pain in 3º finger of the interphalangeal
joint proximal right, pain in 4º finger of the interphalangeal joint proximal right, bilateral pain in
3º finger of the proximal interphalangeal joint, muscular pains in supraspinatus, deltoid, brachial
biceps and tríceps brachial, bilaterally, and two athletes had told about pain in region of the
flexors of right and left fist. Moreover, in 3 cases it had story of displacement of left shoulder and
1 case of displacement in right shoulder. The joined results indicate that as much the patologies
with medical diagnosis such as, tendinitis of the flexors of the fingers, brachial biceps and tríceps
beyond the displacement in shoulder, as well as the complaint told for the athletes. Despite
the reduced number of citizens that compose the sample, we can conclude that some results
corroborate partially with scientific literature, and others could contribute if the athletes presented
a clinic diagnosis.
KEYSWORDS: climbing, injuries, prevalence.
37
1. INTRODUÇÃO
A escalada em rocha tornou-se uma modalidade esportiva nos meados do século XIX. Com
o surgimento de melhoras cordas, calçados apropriados com sola termodinâmicas e o surgimento
de paredes artificiais levou a uma explosão no número de praticantes (TSUNODA et al., 2002).
É um esporte empolgante e desafiador que nos últimos anos tem crescido sobremaneira. No
entanto, há muitas lesões encontradas nos escaladores de rocha que dificilmente são encontradas
em indivíduos que não praticam este esporte ou que praticam outras modalidades esportivas.
Essas lesões são pouco estudadas o que torna o diagnóstico impreciso e o tratamento inadequado
(BERTUZZI, 2001; KUBIAK et al., 2006). O objetivo deste trabalho foi demonstrar e discutir
a prevalência de lesões nos escaladores residentes em Londrina que praticam a modalidade de
Escalada Esportiva em Rocha.
As atividades de escalada são divididas basicamente em nove modalidades, tais como:
Muro Artificial, Bouldering, Escalada Esportiva em Rocha, Escalada Livre, Tradicional ou
Clássica, Big Wall, Escalada Alpina, Alta Montanha, Cachoeiras Congeladas e Escalada Mista
(GREGO, 1998).
O sistema de graduação fornece ao escalador o nível de dificuldade que encontrará nas
vias, onde foram criados vários sistemas regionais de graduação. No entanto, existe uma escala da
União Internacional das Associações alpinas (UIAA), que vai de 1º a 10º grau, a escala francesa
até 8º grau, e a americana, muito usada pelo mundo todo, que vai de 1ª a 6ª classe, mas cujas 4
primeiras classes vão de caminhadas a pouco mais que uma escalaminhada que é uma caminhada
associada à escalada a qual tem um nível de dificuldade baixa podendo ser praticada por pessoas
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de todas as idades. Essa classe começa e termina realmente na classe 5, sendo suas subdivisões
acrescentadas de 5.1, 5.2, até 5.14, que são níveis aplicados as vias conforme sua dificuldade. A
classe 6 é reservada às vias impossíveis de escalar sem equipamento adequado. Atualmente, todos
os sistemas de graduação são abertos, não existindo exatamente um máximo possível do grau de
dificuldade (BECK, 1995).
O Brasil possui uma escala própria: de 1º a 8º grau, com subdivisões de 5º, 5º sup, 6º,
6º sup, e assim por diante até o 8º sup. Mas, a escala brasileira é na verdade uma leve variação
da escala internacional (UIAA), com a ressalva de que no Brasil ainda não surgiram realmente
escalas
Os membros superiores são altamente utilizados em escaladores profissionais de rocha,
e, portanto lesões nestas regiões são comumente relatadas, em especial, as articulações mais
afetadas, tais como punhos e interfalangeana proximais e tendões dos dedos. Grande parte das
lesões ocorre devido à biomecânica das pegadas durante a escalada, as quais são consideradas
movimentos repetitivos (ROHRBOUHG et al., 2000; MOUTET et al., 2004). O uso excessivo e a
sobrecarga nos membros superiores constituem a principal causa de lesões na escalada esportiva.
Aproximadamente 75% dos escaladores frequentemente apresentam síndromes de uso repetitivo
da extremidade superior ou lesões nesta região por enfatizar a escalada em paredes negativas ou
paredes artificiais. Os dedos e os punhos são as estruturas mais acometidas na escalada em rocha,
ou seja, contribuí com 60% das lesões (PETERS, 2001b).
O uso excessivo e biomecânica inadequada das mãos e dedos pode danificar estruturas
das articulações dessas regiões durante a escalada, particularmente cartilagens, em pegadas
específicas. A articulação interfalangeana proximal (AIP) e a articulação interfalangeana distal
(AID) podem ser lesionadas, embora a primeira seja a mais frequentemente envolvida (PETERS,
2001b).
A ruptura da polia A2 é a lesão mais comum na escalada, e geralmente é consequência
do estresse excessivo na polia A2 durante a pegada de reglete. Os dedos mais acometidos são o
anular e o médio, já que são estes os mais usados em pegadas menores (JEBSON & STEYERS,
1997; PETERS, 2001b). Também pode acontecer a ruptura das polias com a tentativa de se evitar
uma queda com os dedos fletidos (TSUNODA et al., 2002).
A compressão do nervo mediano dentro do túnel do carpo pode ser o resultado de
um escalador de rocha que realiza movimentos repetitivos, e flexão sustentada do punho. A
tenossinovite associada aos tendões dos dedos dos flexores é encontrada comumente.
As quatro lesões de cotovelo mais comuns nos escaladores são, epicondilite medial e
lateral, tendinite de tríceps braquial e o cotovelo do escalador, conhecido como dor na região
anterior de cotovelo. Antigamente o cotovelo do escalador foi erroneamente diagnosticado
como tendinite do músculo bíceps braquial, mas atualmente é considerado tendinite do músculo
braquial. Durante a manobra de hangboards, o atleta treina a escalada, em locais improvisados
para melhorar a força de membros superiores, podendo desenvolver tendinite da cabeça longa do
bíceps braquial (PETERS, 2001b).
Os problemas de ombro em escaladores são muito comuns porque a maioria das escaladas
é feita com os braços acima da cabeça. Lesões tais como, tendinite do supraespinhoso ou luxação
de ombro são relatadas neste ou mesmo a síndrome do manguito rotador pode estar presente
(PETERS, 2001b).
O fator limitante em escaladores é a força muscular dos flexores superficiais e profundos
dos dedos. Além do mais, todos os flexores de punhos, cotovelos e ombros são utilizados na
escalada e, especialmente quando o escalador estiver em uma posição de pegada. Junto com eles,
TERRA E CULTURA - No 54 - Ano 28 - Janeiro a Junho de 2012
Frequência de lesões músculoesqueléticas em atletas amadores que praticam escalada esportiva em rocha na cidade de
Londrina – Pr
há os extensores que são requisitados para providenciar e ajudar o máximo, dando mais força ao
escalador durante a pegada (PETERS, 2001a).
As lesões do membro inferior são menos comuns. Embora em uma literatura mais
antiga sobre o esporte escalada, os problemas específicos do pé sejam mencionados somente
ocasionalmente, publicações recentes descrevem uma taxa elevada de problemas relacionados
com o calçado.
Os escaladores compram frequentemente sapatilhas de escalada de tamanhos menores do
que os seus sapatos normais, cerca de dois números menores. A sapatilha menor prende o pé em
supinação, posição estável para aumentar a sensibilidade proprioceptiva do pé, pois são utilizadas
como se fosse uma segunda pele. Para obter este ajuste, quase 90% dos escaladores suportam a dor
durante e depois da escalada. As sapatilhas pequenas induzem também deformidades específicas
do pé, bem como problemas musculoesqueléticos, dermatológicos e compressões neurológicas
sendo que estas estão presentes em 65% dos escaladores.
Sapatilha para Escalada (PETERS, 2001b)
As algias dos tecidos moles incluem os pontos de alta pressão nas articulações
interfalangeanas do hállux, além de dor na inserção miotendinea do tendão calcâneo. Dores nas
unhas dos dedos do pé, hematomas sub-ungueais, deformidades das unhas e infecções nas mesmas
estão frequentemente presentes.
Os acidentes mais comuns em joelhos são as lesões meniscais, que ocorrem na maior parte
quando um escalador está se movendo acima de uma posição em que o joelho é hiperflexionado
e o pé inteiro é posicionado girado externamente, também conhecido como posição rã (PETERS,
2001b).
Foto: Posição de Rã (PETERS, 2001b)
Um estudo realizado com 83 escaladores evidenciou a presença de 5 casos de neurite da
região posterior do pé e 2 relatos por compressão nervosa superficial do dorso do pé (PETERS,
2001a).
Embora as fraturas sejam lesões comuns em montanhismo clássico e em rocha tradicional,
a incidência é baixa na escalada esportiva. Os acidentes que resultam em politraumatismos
são exceções. Não obstante, se uma queda de objetos não for adequadamente controlada, e os
equipamentos apropriados de segurança não forem utilizados tal como capacetes, fraturas do
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crânio ou outros ossos podem ocorrer. A região distal do rádio e o osso escafóide podem ser
fraturados quando um escalador tenta parar seu corpo ao colidir com a rocha ou contra uma
parede artificial (PETERS, 2001b).
2. MATERIAL E MÉTODOS
GRÁFICO I – Número de homens e mulheres escaladores;
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Foram estudados 29 escaladores amadores da cidade de Londrina, sendo 26 homens
(gráfico I), com média de idade de 26,9 e SD±9,18, e média do tempo de escalada 46,3 meses
e SD±42,7 meses, contendo média de Índice de Massa Corporal de 23,6. Foram inclusos atletas
amadores independente do tempo de prática do esporte que aceitaram participar do estudo,
assinando o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
Foram excluídos atletas com idade inferior a 18 anos, não residentes em Londrina, os
quais encontravam-se no 8º Encontro de Escalada de Londrina.
A abordagem foi quantitativa do tipo transversal, com aplicação de um questionário
elaborado pelos pesquisadores, contendo questões referentes à prática do esporte, provável
ocorrência de lesões além de possíveis tratamentos já realizados. Foram utilizados métodos
sistemáticos e explícitos para identificar, selecionar e avaliar criticamente pesquisas relevantes, e
coletar dados de estudos incluídos na revisão bibliográfica.
Após a aprovação do presente estudo pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Irmandade
Santa Casa de Londrina - BIOISCAL, de acordo com orientações da Resolução 196/96 do
Conselho Nacional de Saúde/MS, no dia 11 de Julho de 2007, foram iniciadas a aplicação dos
questionários durante os meses de julho a setembro de 2007.
Os questionários foram aplicados durante a prática dos atletas no Boulder “Patrulha
das Águas”, localizado na Rua da Canoagem, nº 200, Jardim Petrópolis, e alguns atletas foram
abordados durante o 8º Encontro de Escalada de Londrina, realizado na Pedreira Escola do Bairro
Cafezal II, em Londrina PR.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Por meio dos questionários aplicados pelos pesquisadores, foram encontradas 35 lesões
nos 29 escaladores estudados, sendo que em 13 casos houve procura médica com consequente
diagnóstico clínico (Tabela I).
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Frequência de lesões músculoesqueléticas em atletas amadores que praticam escalada esportiva em rocha na cidade de
Londrina – Pr
TABELA I: Número de lesões encontradas
Número de Lesões
35
Com Diagnóstico Clinico
13
Sem Diagnóstico Clinico
22
As lesões diagnosticadas foram, contratura no quadrado lombar direito, tendinite bilateral
de flexores do 3º dedo, luxação em ombro direito, artrite no 4º dedo direito, tendinite bilateral de
bíceps e tríceps braquial, tendinite dos flexores do 2º, 3º e 4º dedos direito e um caso de tendinite
de todos os flexores dos dedos (Tabela II).
TABELA II: Patologias encontradas com diagnóstico clínico
Lesões com Diagnóstico Clinico
Patologia Encontrada
1 atleta
Contratura de Quadrado Lombar direito
1 atleta
Tendinite Bilateral dos Flexores do 3º Dedo
1 atleta
Luxação de Ombro direito
1 atleta
Artrite do 4º Dedo direito
1 atleta
Tendinite Bilateral de Bíceps e Tríceps
Braquial
1 atleta
Tendinite dos flexores do 2º, 3º e 4º Dedos
direito
1 atleta
Tendinite de Todos os Flexores dos Dedos
41
Os atletas que não procuraram investigação clínica relataram dor em ombro esquerdo,
dor em fáscia plantar direita, dor em região do retináculo do punho direito, dor em 3º dedo da
articulação interfalangiana proximal direita, dor em 4º dedo da articulação interfalangiana proximal
direito, dor bilateral em 3º dedo da articulação interfalangiana proximal, dores musculares em
supra-espinhoso, deltóide, bíceps braquial e tríceps, bilateralmente, e dois atletas relataram dores
em região dos flexores de punho direito e esquerdo. Além disso, em 3 casos houve relato de
deslocamento de ombro esquerdo e 1 caso de deslocamento em ombro direito (Tabela III).
TABELA III: Relatos dos escaladores sem diagnóstico médico
Lesões sem Diagnóstico Clinico
Locais das Lesões
1 atleta
Dor em ombro esquerdo
1 atleta
Dor em fáscia plantar direito
1 atleta
Dor em retináculo do punho direito
1 atleta
Dor 3º dedo da AIP direito
1 atleta
Dor 4º dedo da AIP direito
1 atleta
Dor bilateral da AIP de 3º dedo
Dor bilateral dos músculos supra espinhoso e
deltóide
1 atleta
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Roberta Ramos Pinto, Ludgero dos Santos Pereira, Rodolfo Poli Mignoni
1 atleta
2 atletas
4 atletas
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Dor bilateral dos músculos bíceps e tríceps
braquial
Dor bilateral dos músculos flexores de punho
1 com deslocamento de ombro direito, e 3
com deslocamento de ombro esquerdo
PETERS (2001a) observou 62 lesões em tecidos moles ou síndrome por uso repetitivo
em membros superiores, em 83 atletas. Ainda, PETERS (2001b) constatou que 75% dos
escaladores apresentaram esta mesma síndrome, ou lesão nestas regiões corporais. Da mesma
forma, SCHOFFI et al. (2003) estudaram 604 escaladores de rocha, e encontraram 604 lesões, às
quais 67,2 % localizaram-se em membros superiores. Pela análise dos resultados dos questionários, a mesma lesão foi encontrada nesta
pesquisa, ou seja, dos 29 escaladores pesquisados, sete deles ou 92,3 % que souberam relatar o
diagnóstico preciso, disseram apresentar lesões em membros superiores, estando de acordo com
a literatura científica.
PETERS (2001b) relatou que lesões tendinosas no tríceps braquial e, até mesmo, no
bíceps braquial são encontradas nos atletas. No presente estudo, lesões como estas foram relatadas
somente por um atleta.
Este mesmo autor refere que a luxação de ombro pode ser encontrada nos praticantes
desta modalidade esportiva, porém neste estudo apenas um atleta relatou luxação com diagnóstico
preciso, no entanto outros quatro escaladores sofreram luxação, porém sem investigação clínica.
JEBSON & STEYERS (1997) e PETERS (2001b) relataram que os dedos mais acometidos
são o 3º e 4º, já que estes são os mais sobrecarregados em pegadas, principalmente a de reglete.
Segundo MOUTET et al. (2004) e KUBIAK et al. (2006), o 3º e 4º dedos são mais predisponentes
a ocorrência de rupturas, as quais são mais frequêntes nas bainhas A3 e A4. No entanto não foi
encontrada nenhuma ruptura destas bainhas na presente pesquisa, mas constataram-se patologias
nos mesmos dedos, tais como, tendinite bilateral dos flexores dos dedos e artrite do 4º dedo.
Além disso, foi encontrado contratura de quadrado lombar, patologia não citada em
nenhuma literatura científica revisada.
De acordo com PETERS (2001b), as lesões em membros inferiores são menos comuns,
no entanto dor em região plantar é mencionada devido ao uso da sapatilha geralmente com número
menor do que os sapatos normais. Foi encontrado em um atleta, dor em região de fáscia plantar
direita, sem diagnóstico clinico, provavelmente devido ao uso das sapatilhas para aumentar a
aderência à rocha, largamente utilizadas pelos atletas escaladores.
Muitos escaladores queixaram-se de lesões, porém sem diagnóstico clinico, sendo que
foram citadas algias em ombro esquerdo, em retináculo do punho direito, na AIP do 3º e 4º
dedos bilateralmente, algias nos músculos flexores de punho, supra-espinhoso, deltóides, bíceps e
tríceps braquial bilateralmente, e deslocamento bilateral de ombro. Na maioria dos atletas, houve
falta dos diagnósticos clínicos havendo apenas os relatos dos mesmos, dificultando uma análise
precisa das patologias. Portanto, sugere-se que nos próximos estudos seja considerado fator de
exclusão queixas sem diagnóstico, bem como confirmação através de exames complementares.
Ainda, sugere-se que em um futuro estudo seja realizado um projeto piloto contendo mais
informações, isto é, descrevendo o grau de dificuldade que o atleta escala, o membro dominante,
e não delimitar a região para pesquisa, procurando buscar o maior número de atletas para compor
a amostra estudada. Além disso, é importante relatar se o atleta é amador ou profissional, pois o
TERRA E CULTURA - No 54 - Ano 28 - Janeiro a Junho de 2012
Frequência de lesões músculoesqueléticas em atletas amadores que praticam escalada esportiva em rocha na cidade de
Londrina – Pr
tempo de prática, frequência, intensidade da modalidade, e a prática de outro tipo de exercício
físico podem estar associados ao número de lesões.
4. CONCLUSÃO
Apesar do reduzido número de sujeitos que compõem a amostra, pôde-se verificar que
mesmo a amostra estudada não sendo composta por atletas profissionais, foram encontradas
lesões largamente relatadas em estudos com atletas profissionais da escalada esportiva em rocha,
comprovando assim que neste esporte há alta incidência de lesões em membros superiores, já
que dos 29 atletas amadores estudados 72% apresentaram algum tipo de lesão ou queixa álgica
especificamente nos 3º e 4º dedos.
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Frequência de lesões músculoesqueléticas em atletas amadores que praticam escalada esportiva em rocha na cidade de
Londrina – Pr
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Stephanie Dynczuki Navarro, Mariana de Oliveira Mauro, Rodrigo Juliano Oliveira
O PREBIÓTICO AMIDO RESITENTE E SUAS PROPRIEDADES
FUNCIONAIS
RESISTANT STARCH, THE PREBIOTIC AND FUNCTIONAL PROPERTIES
Stephanie Dynczuki Navarro7*
Mariana de Oliveira Mauro8**
Rodrigo Juliano Oliveira9***
RESUMO:
Diversas doenças, principalmente o câncer, afetam a sociedade devido às crescentes atividades
antropogênicas que determinam mudanças prejudiciais nos estilos de vida, em especial, no
que tange a poluição em geral, os níveis de estresse, o sedentarismo e os hábitos alimentares
inadequados. A alimentação consiste na maior interação do homem com o meio ambiente. Dessa
forma, observa-se a necessidade de uma alimentação saudável que tenha possibilidades de
controlar e modular várias funções orgânicas e contribuir para a manutenção da saúde humana,
reduzindo o risco do aparecimento de doenças. Frente a estes fatos a presente pesquisa teve por
objetivo demonstrar os benefícios que podem ser proporcionados a partir da ingestão do amido
resistente, um prebiótico não digerido no intestino delgado humano, fermentado pela microflora
bacteriana do intestino grosso, e que pode determinar importantes funções na prevenção do câncer
de cólon/reto.
PALAVRAS- CHAVE: amido resistente, câncer, prebiótico.
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ABSTRACT:
Several diseases, particularly cancer, affect society due to increasing anthropogenic activities
that determine detrimental changes in lifestyles, especially when it comes to pollution in
general, levels of stress, sedentary lifestyle and poor eating habits. The food consists mostly
human interaction with the environment. Thus, there is a need for a healthy diet that has
possibilities to control and modulate many physiological functions and contribute to the
maintenance of human health, reducing the risk of developing diseases. In view of these facts
the present study aimed to demonstrate the benefits that can be provided from the ingestion
of resistant starch, a prebiotic is not digested in the human intestine, fermented by bacterial
microflora of the large intestine, which can result in important functions in preventing cancer
of the colon/rectum.
KEYWORDS: Resistant starch, cancer, prebiotic.
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Graduada em Biomedicina pelo Centro Universitário Filadélfia (UNIFIL) – [email protected]
Graduada em Biomedicina pelo Centro Universitário Filadélfia (UNIFIL). Mestre e Doutoranda em Biologia Celular e
Molecular, Instituto de Biociências de Rio Claro, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, IBRC/UNESP,
Rio Claro, São Paulo, Brasil – [email protected]
***
Graduado em Ciências Biológicas (Bacharelado/Licenciatura), Instituto de Biociências de Botucatu, Universidade Estadual
Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – IBB/UNESP, Botucatu, São Paulo, Brasil. Especialista em Análises Clínicas Aplicada à
Reprodução Humana, Faculdade de Medicina de Botucatu, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – FMB/
UNESP, Botucatu, São Paulo, Brasil. Mestre em Genética e Biologia Molecular, Centro de Ciências Biológicas, Universidade
Estadual de Londrina – CCB/UEL, Londrina, Paraná, Brasil. Doutor em Biologia Celular e Molecular, Instituto de Biociências
de Rio Claro, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, IBRC/UNESP, Rio Claro, São Paulo, Brasil. Professor
Adjunto I da Faculdade de Medicina “Dr. Hélio Mandetta”, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS, Campo
Grande, Mato Grosso do Sul, Brasil – [email protected]
*
**
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O prebiótico amido resitente e suas propriedades funcionais
INTRODUÇÃO
O século XX foi marcado por um aumento da expectativa de vida da população, uma
vez que, com o advento de medicamentos contra patógenos infecciosos, o número de mortes
por doenças agudas diminuiu significativamente. Em contrapartida, cada vez mais as doenças
crônicas degenerativas, tais como doenças cardiovasculares, doenças cerebrovasculares e
cânceres têm aumentado sua incidência em especial devido ao aumento das ações antropogênicas.
Diferentemente das doenças agudas, as doenças crônicas têm origens multifatoriais, e são cada vez
mais agravadas com a evolução da sociedade (FERGUSON, 1994) onde se observa a crescente
poluição ambiental, o aumento dos níveis de estresse, o sedentarismo e os hábitos alimentares
inadequados.
No Brasil, as estimativas, para o ano de 2010 e 2011, apontam para a ocorrência de
489.270 casos novos de câncer, ocupando o câncer de cólon/reto o quarto lugar neste ranking
(INCA, 2010). Ainda segundo o Instituto Nacional do Câncer – INCA (2010) para o ano de
2010 estima-se 13 mil novos casos de câncer de cólon/reto em homens e 15 mil novos casos
para mulheres. Estes dados correspondem a um risco estimado de 13 novos casos a cada 100.000
homens e 15 novos casos a cada 100.000 mulheres.
Diante deste fato, torna-se necessário o conhecimento dos agentes causadores destas
neoplasias bem como os potenciais agentes capazes de fazer a prevenção.
Segundo a World Cancer Research Fund (1997) e Chao (2005), dietas que possuem alta
concentração de proteínas, incluindo a carne vermelha ou processada, gordura animal, álcool e
carboidratos, assim como o histórico familiar (STEVENS, SWEDE & RESENBERG, 2006),
estão associados a um elevado risco de câncer de cólon/reto.
A alimentação representa a maior interação do homem com o meio ambiente. Para todo
alimento ingerido ou nutriente absorvido pode haver um potencial benéfico ou um risco para o
trato-gastrointestinal. O estado nutricional juntamente com a condição do corpo pode prevenir ou
auxiliar no combate à doença, ou inversamente, pode causar uma maior susceptibilidade à mesma
(HESKETH et al., 2006).
Etiologicamente o aparecimento de neoplasias se dá por inúmeros fatores, como a dieta,
o meio ambiente e fatores genéticos, mas há consideráveis evidências de que a flora bacteriana do
intestino está ligada ao desenvolvimento de câncer de cólon/reto. Tal fato aumentou o interesse
em dietas que contenham agentes que possam modificar a microflora e diminuir o potencial de
risco de câncer de cólon (BURNS, 2004; McBAIN & McFARLANE, 2001).
Estudos epidemiológicos e experimentais sugerem que o consumo de componentes
dietéticos, como o amido resistente, tem a capacidade de prevenir o câncer de cólon/reto (LE LEU
et al., 2007). Desta forma, surge o interesse de analisar esta fibra frente aos eventos mutagênicos
e carcinogênicos, além de outras ações biológicas deste alimento.
AMIDO RESISTENTE: CARACTERÍSTICAS E BENEFÍCIOS
Estrutura e Nomenclatura
O termo amido resistente foi sugerido inicialmente por Englyst, Kingman e Cummings
(1992). Estes pesquisadores constataram que muitos alimentos processados continham maior teor
aparente de polissacarídeos não amiláceos do que os produtos crus correspondentes. Análises
detalhadas revelaram que este aumento era devido a um composto formado n-glicoses, que podia
ser disperso em hidróxido de potássio. Sendo assim definiram amido resistente como sendo
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Stephanie Dynczuki Navarro, Mariana de Oliveira Mauro, Rodrigo Juliano Oliveira
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aquele que resiste à dispersão em água fervente e hidrólise pela ação da amilase pancreática e
da pululanase. Esta fração era constituída principalmente de amilose retrogradada, que também
parecia ser resistente à digestão (CHAMP & FAISANT, 1996).
A partir de 1992, a definição para amido resistente assumiu um caráter mais relacionado
a seus efeitos biológicos, representando a soma do amido e produtos de sua degradação que não
são absorvidos no intestino delgado de indivíduos saudáveis (FAISANT et al., 1993; CHAMP &
FAISANT, 1996; GOÑI et al., 1996).
Estruturalmente, o amido é um homopolissacarídeo composto por cadeias de amilose
e amilopectina. A amilose é formada por unidades de glicose unidas por ligações glicosídicas
α(1→4), originando uma cadeia linear. Já a amilopectina, é composta por unidades de glicose
unidas em α(1→4) e α(1→6), formando uma estrutura ramificada. Embora a amilose seja
definida como linear, atualmente se admite que algumas de suas moléculas possuem ramificações,
semelhantes a amilopectina (WANG & WHITE, 1994; ELIASSON, 1996).
As proporções em que estas estruturas aparecem diferem entre as diversas fontes, entre
variedades de uma mesma espécie e ainda, numa mesma variedade, de acordo com o grau de
maturação da planta (ELIASSON, 1996).
Por sua vez, o amido resistente é constituído por três tipos de amido: o tipo I, representado
pelo grânulo de amido fisicamente inacessível na matriz do alimento, fundamentalmente por
causa das paredes celulares e proteínas, pertencendo a este grupo grãos inteiros ou parcialmente
moídos de cereais, leguminosas e outros materiais contendo amido nos quais o tamanho ou a sua
composição impede ou retarda a ação das enzimas digestivas; o tipo II refere-se aos grânulos de
amido nativo, encontrados no interior da célula vegetal, apresentando lenta digestibilidade devido às
características intrínsecas da estrutura cristalina dos seus grânulos; e o tipo III consiste em polímeros
de amido retrogradado (principalmente de amilose), produzidos quando o amido é resfriado após a
gelatinização (ENGLYST, KINGMAN & CUMMINGS, 1992; COLONNA et al., 1992).
AMIDO RESISTENTE COMO FIBRA FUNCIONAL E SEUS EFEITOS NA SAÚDE
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O amido resistente é um componente natural da dieta. O consumo atual é de cerca de 3g/
pessoa/dia e é encontrado em alimentos não processados como grãos, batata crua, banana verde,
ou mesmo em alimentos processados e retrogradados como a casca de pão ou a batata cozida
resfriada (PEREIRA, 2007).
O amido resistente é a fração que não fornecerá glicose ao organismo, mas que será
fermentada no intestino grosso para produzir, principalmente gases e ácidos graxos de cadeia
curta. Devido a essa característica considera-se que os efeitos do amido resistente sejam, em
alguns casos, comparáveis aos da fibra alimentar sendo, por esse motivo, normalmente aceito
como um componente desta (CHAMP & FAISANT, 1996).
O principal interesse em relação ao amido resistente é seu papel fisiológico. Por não
ser digerido no intestino delgado, este tipo de amido se torna disponível como substrato para
fermentação das bactérias anaeróbicas do cólon (JENKINS et al., 1998).
Desta forma, essa fração compartilha muitas das características e benefícios atribuídos
à fibra alimentar no trato gastrointestinal (BERRY, 1986; MUIR & O’DEA, 1992). Como, por
exemplo, o consumo de amido resistente contribui para o aumento do volume fecal, apresentando
efeitos importantes na prevenção da constipação, diverticulose e hemorróidas, além de diluir
compostos tóxicos, potenciais formadores de células cancerosas (YUE & WARING, 1998),
compostos genotóxicos e mutagênicos, por exemplo.
TERRA E CULTURA - No 54 - Ano 28 - Janeiro a Junho de 2012
O prebiótico amido resitente e suas propriedades funcionais
Não sendo digerido no intestino delgado, o amido resistente também pode servir de substrato
para o crescimento de microrganismos probióticos, atuando como potencial agente prebiótico
(HARALAMPU, 2000). A metabolização desse tipo de carboidrato pelos microrganismos via
fermentação, resulta na produção de ácidos graxos de cadeia curta, como acetato, propionato e
butirato; gás carbônico, hidrogênio e metano; e diminuição do pH do cólon (ENGLYST et al.,
1987; CHAMP & FAISANT, 1996). A maioria desses compostos age na prevenção de doenças
inflamatórias do intestino, além de auxiliar na manutenção da integridade do epitélio intestinal
(JENKINS et al., 1998) e por consequência prevenindo do desenvolvimento do câncer.
Adicionalmente, o amido resistente contribui para o aumento do volume fecal, modificação
da microflora do cólon, aumento da excreção fecal de nitrogênio e, possivelmente, redução do
risco de câncer de cólon (JENKINS et al., 1998; YUE & WARING, 1998).
Em estudos utilizando populações mistas de bactérias obtidas de fezes humanas, ENGLYST
et al. (1987) observaram que 59% do amido fermentado foi recuperado como ácidos graxos de
cadeia curta, na proporção molar de 50:22:29 para acetato, propionato e butirato, respectivamente. O
decréscimo do pH resultante dessa fermentação pode, em parte, ser responsável pela pequena taxa de
transformação de ácidos biliares primários em metabólitos secundários mutagênicos e pela redução de
outras biotransformações bacterianas específicas no intestino grosso (CHAMP & FAISANT, 1996).
Dados obtidos por JENKINS et al. (1998), em estudos com humanos, mostraram que
a suplementação de amido resistente nas dietas resultou em maior concentração de butirato,
em comparação ao tratamento controle, constituído de baixo teor de fibra. Considerando que o
butirato é importante fonte de energia para as células epiteliais do cólon, sua maior produção pode
prevenir doenças colônicas, incluindo colite ulcerativa, as quais são provocadas por deficiência
de energia. Em adição, é atribuído ao butirato a supressão do desenvolvimento de células
cancerígenas e o aumento na proliferação de células da mucosa intestinal, o que pode diminuir o
risco de câncer de cólon, visto que pacientes com este tipo de doença apresentaram taxas reduzidas
de butirato durante a investigação inicial (ENGLYST et al., 1987; ASP, VAN AMELSYOORT
& HAUTVAST, 1996; JENKINS et al., 1998; YUE & WARING, 1998). Quanto ao propionato
e acetato, estes podem influenciar a gliconeogênese e a lipogênese hepáticas, respectivamente
(ENGLYST et al., 1987; ASP, VAN AMELSYOORT & HAUTVAST, 1996).
O amido resistente também tem sido associado a reduções nos níveis de colesterol LDL
e triglicerídeos na hiperlipidemia (JENKINS et al., 1988). Sacquet, Swede & Resenberg (1983) e
Morand et al. (1992), observaram que a inclusão de amido resistente a dietas de ratos reduziu os
níveis de colesterol e triglicerídeos plasmáticos.
Além disso, a utilização do amido resistente diminui o risco de doenças cardiovasculares
e contribui para a perda de peso, pois como se trata de uma fibra insolúvel, junto com ela, “arrasta”
moléculas de gordura e de açúcar que serão absorvidas pelo organismo mais lentamente. Além
disso, por ser considerado também como uma fibra solúvel, promove a sensação de saciedade por
um período maior de tempo (PEREIRA, 2007).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O conhecimento dos efeitos biológicos do amido resistente permite sua melhor utilização
na alimentação, inclusive em dietas diferenciadas, podendo complementar e/ou substituir a fração
da fibra de determinados alimentos, visando mimetizar os eventos enzímicos-químicos do trato
gastrointestinal, com a finalidade de melhoria.
A importância deste estudo revela-se na possível inserção de ingredientes na dieta e
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Stephanie Dynczuki Navarro, Mariana de Oliveira Mauro, Rodrigo Juliano Oliveira
equilíbrio desta, colaborando para a prevenção de possíveis neoplasias, sendo o amido resistente
um potencial prebiótico.
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TERRA E CULTURA - No 54 - Ano 28 - Janeiro a Junho de 2012
Elis Carolina de Souza Fatel, Thaysa Marques Sotti, Helen Cristina da Silva, Juliana Nicolini, Juliana Hespanhol Gorzoni,
Franciele Cristina da Cruz, Márcia Maria, Mariana Ambrózio, Agricia Protano, Ana Carolina Rossi, Grasiele Carolina Castilho,
Edilaine, Deise Figueiredo
UTILIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO NUTRICIONAL E
REVITALIZAÇÃO VISUAL DE REFEITÓRIOS: CONSTRUINDO
SAÚDE ATRAVÉS DA NUTRIÇÃO
USE OF NUTRITIONAL EDUCATION AND REVITALIZATION VISUAL CANTEENS:
CONSTRUCTING HEALTH THROUGH NUTRITION
Elis Carolina de Souza Fatel10*
Thaysa Marques Sotti
Helen Cristina da Silva
Juliana Nicolini
Juliana Hespanhol Gorzoni
Franciele Cristina da Cruz
Márcia Maria Hermogenes de Oliveira
Mariana Ambrózio
Agricia Protano
Ana Carolina Rossi
Grasiele Carolina Castilho
Edilaine dos Reis Gonçalves
Deise Figueiredo11**
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RESUMO:
É na infância que ocorrem processos de formação humana e educacional, neste sentido,
nutricionistas utilizam a educação nutricional como fonte de novos hábitos alimentares, buscando
além de tudo a prevenção de enfermidades futuras e através de conhecimentos voltados para
refeições coletivas, revitalizar ambientes destinados a este fim. Este trabalho deve por objetivo
influenciar crianças para bons hábitos alimentares através da educação nutricional, e ainda
revitalizar ambientes utilizados pelas mesmas, para um consumo alimentar satisfatório. Os
resultados alcançados foram à excelente aceitação destes bons hábitos e grande euforia ao novo
ambiente. Conclui-se, portanto, que a educação nutricional é uma excelente ferramenta para que
de forma lúdica, possa ensinar crianças como alimentar-se de maneira adequada e revitalizar é
algo inovador que traz além de euforia satisfação.
PALAVRAS-CHAVE: Nutrição, Refeitório, CMEI, Revitalização, Educação Nutricional
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ABSTRACT:
IT IS in childhood which occur processes of human formation and educational, in this sense,
nutritionists using nutritional education as a source of new eating habits, seeking in addition to
all the prevention of diseases future and through knowledge directed toward collective meals,
revitalise environments for this purpose. This work should aim influence children for good eating
habits through education nutritional, and revitalise environments used by the same, for a food
consumption satisfactory. The results achieved were the excellent acceptance of these good habits
and great euphoria the new environment. Concludes-if, therefore, that nutritional education is
an excellent tool that during play, can teach children as food-if appropriately and revitalise is
something innovative that brings beyond euphoria satisfaction.
Mestre, Docente dos cursos de Nutrição da Faculdade de Apucarana (FAP) e do Centro Universitário Filadélfia (UNIFIL).
Email:[email protected]
**
Discentes do curso de Nutrição da Faculdade de Apucarana (FAP)
Fonte Financiadora: Fundação de Incentivo à pesquisa (FUNPESQ)
*
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Utilização da educação nutricional e revitalização visual de refeitórios: construindo saúde através da nutrição
Análise físico-química da água do córrego Japira, localizado na cidade de Apucarana-Pr
KEYWORDS: Nutrition, refectory, CMEI, Revitalization, Nutritional Education
INTRODUÇÃO
A infância é a fase inicial da vida é onde ocorrem os processos de formação e crescimento
do indivíduo, neste sentido, a alimentação nesta etapa, é essencial para um desenvolvimento físico
adequado.
Neste estágio, é importante que ocorram hábitos alimentares sádios respeitando, desta
forma, horários para as refeições, assim como, boas escolhas para o consumo do mesmo. Assim,
acredita-se que a criança deve aprimorar o paladar para o consumo de cereais, frutas e hortaliças,
carnes, leguminosas, leite e derivados.
Portanto, analisa-se que no decorrer dos anos com o desenvolvimento da sociedade, o
tempo destinado a qualquer atividade é extremamente limitado, com isso, o tempo destinado a
alimentação também.
Dentro deste contexto, nutricionistas verificam que em grande maioria, devido há este
tempo estremado para alimentação, pais ofereçam aos seus filhos alimentos de fácil acesso e
preparo estes por sua vez, possuem um riquíssimo valor calórico e um baixo valor nutricional,
portanto, a intervenção nutricional neste aspecto é de grande valia.
Entretanto para solucionar está falha na alimentação infantil, nutricionistas utilizam
como forma de intervenção, a educação nutricional, está por sua vez busca encaminhar crianças
para bons hábitos alimentares, com o objetivo de garantir um futuro rico em saúde e livre de
enfermidades crônicas.
Sabe-se que o ambiente escolar é muito presente nesta fase, desta maneira, quando há
a oferta para as crianças de orientações sobre alimentação adequada, ocorre entre elas grande
aceitação.
Algo importante a ressaltar é, que quando o ambiente escolar mais precisamente os
refeitórios, possuem design favorável, ele por sua vez, se torna algo favorável para educação
nutricional, neste aspecto, a cor ideal para paredes, pisos, tetos e janelas, transform-se em
ferramenta base para educação nutricional na escola.
Contudo o objetivo desse trabalho foi além de vivenciar a educação nutricional em
duas CEMEIs, da cidade de Apucarana PR, revitalizar refeitórios para a boa aceitação da devida
educação.
53
MATERIAIS E MÉTODOS
O presente estudo foi desenvolvido por acadêmicas do curso de nutrição da Faculdade
de Apucarana FAP, do município de Apucarana PR, onde foram elaborados projetos de educação
nutricional e revitalização de refeitórios em duas CEMEIs de bairros diferentes, no ano de 2010.
As CEMEIs foram nomeadas como CEMEIs 1 e 2, para melhor controle das atividades
lá trabalhadas, com o total portanto de 190 alunos, divididos em 104 para CEMEI 1 e 86 para
CEMEI 2. Os alunos se encontravam em faixa etária entre 1 a 5 anos.
Foi aplicado check list, análise das refeições, cálculo dos cardápios, abordagem de
manipuladores através de palestras de curto prazo, porém de conteúdos valiosos de acordo com o
problema diagnosticado em cada CEMEI.
A partir das etapas citadas, foi dado início ao projeto de revitalização e educação
nutricional, contou-se com a colaboração de patrocinadores para o devido fim.
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Elis Carolina de Souza Fatel, Thaysa Marques Sotti, Helen Cristina da Silva, Juliana Nicolini, Juliana Hespanhol Gorzoni,
Franciele Cristina da Cruz, Márcia Maria, Mariana Ambrózio, Agricia Protano, Ana Carolina Rossi, Grasiele Carolina Castilho,
Edilaine, Deise Figueiredo
Assim de acordo com a necessidade de cada uma, no processo de revitalização, realizouse pintura nas paredes, reforma do piso, cadeiras e mesas, seguidas de decoração das mesmas,
com frutas elaboradas a partir de papel EVA de diferentes cores, foram instaladas novas cortinas,
tolhas e enfeites de mesa.
No processo de educação nutricional, utilizaram-se atividades como teatro com fantoches,
jogo da memória, jogo da pirâmide dos alimentos e quebra cabeça.
Entretanto além dos dois projetos, fora realizado também, a ato de ação social, com
doação de roupas e brinquedos.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
54
Nas atividades de educação nutricional, foram observadas as carências dos conhecimentos
voltados aos hábitos alimentares saudáveis, portanto, através das atividades elaboradas nas
duas instituições, pode notar a boa aceitação dos novos conhecimentos, conforme o trabalho já
realizado por Jaime et al, 2006, em uma determinada população.
Ainda neste contexto, segundo o CFN, 2005 o nutricionista ao realizar projetos e ações
de educação nutricional deve considerar a percepção, o conhecimento e as necessidades de cada
indivíduo.
O projeto de revitalização nos refeitórios Figuras 1 e 2, fora algo de grandiosa realização,
uma vez que, buscou, transformar aquele ambiente em um local tranqüilo e aconchegante para o
bom proveito das refeições consumidas por aquelas crianças.
Pois como Neto et al, 2008, acredita-se que a identidade visual de um estabelecimento,deve
garantir uma impressão positiva aos olhos de quem o vê.
A ação social nelas trabalhadas, foi um diferencial que proporcionou aos devidos
acadêmicos, um sentimento além do estudo, mas também, um ato de amor aqueles menos
favorecidos economicamente.
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Utilização da educação nutricional e revitalização visual de refeitórios: construindo saúde através da nutrição
Análise físico-química da água do córrego Japira, localizado na cidade de Apucarana-Pr
FIGURAS 1 – Fotos do desenvolvimento do projeto de revitalização de refeitórios de CMEIS,
realizado pelo curso de Nutrição FAP, 2010
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Elis Carolina de Souza Fatel, Thaysa Marques Sotti, Helen Cristina da Silva, Juliana Nicolini, Juliana Hespanhol Gorzoni,
Franciele Cristina da Cruz, Márcia Maria, Mariana Ambrózio, Agricia Protano, Ana Carolina Rossi, Grasiele Carolina Castilho,
Edilaine, Deise Figueiredo
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FIGURAS 2 – Fotos dos refeitórios pós revitalização e dos projetos de educação nutricional
CONCLUSÃO
Conclui-se, portanto que, educar é passar a outros conhecimentos adquiridos de forma
positiva assim, a educação nutricional é uma excelente ferramenta, pois através dela, de maneira
lúdica, crianças aprendem a alimentar-se de maneira adequada e revitalizar é algo inovador que
traz além de euforia satisfação.
AGRADECIMENTOS:
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1. Bonfim Tintas
2. Academia Mega Fitness
3. Teofilo Evangelista Ferreira - Eletro União
4. Gráfica: Á gráfica
5. Vereador Val – Apucarana PR
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Utilização da educação nutricional e revitalização visual de refeitórios: construindo saúde através da nutrição
Análise físico-química da água do córrego Japira, localizado na cidade de Apucarana-Pr
REFERÊNCIAS
CFN – Conselho Federal de Nutricionistas. Resolução CFN N° 358/2005. Dispõem sobre
as atribuições do Nutricionista no ámbito do Programa de Alimentação Escolar (PAE) e
dá outras providências. Brasília - DF, 2005.
JAIME, Patricia Constante; MACHADO, Flavia Mori Sarti; WESTPHAL, Márcia Faria
and MONTEIRO, Carlos Augusto. Nutritional education and fruit and vegetable intake:
a randomized community trial. Rev. Saúde Pública, v.41, n.1, p. 154-157, Nov 2007.
NETO, Pedro G. N. et al. Restaurante Universitário da UFMA: uma nova identidade
visual. Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação,
São Luis - MA, junho 2008.
VAZ. C. S. Alimentação de Coletividade uma abordagem gerencial. Manual Prático do
gestor de serviços de refeições coletivas. 2. ed., Brasília, 2003.
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Gabrielly Cristina Raminelli, Mariana Colnago Roco, Damares Tomasin Biazin
VIOLÊNCIA CONTRA IDOSOS: ESTUDO EXPLORATÓRIO EM
DELEGACIA ESPECIALIZADA
VIOLENCE AGAINST THE ELDERLY’S: EXPLORATORY STUDY IN SPECIALIZED
POLICE STATION
Gabrielly Cristina Raminelli12*
Mariana Colnago Roco13**
Damares Tomasin Biazin14***
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RESUMO:
O objetivo do estudo foi analisar os dados de violência e maus-tratos contra os idosos por meio de
documentos oficiais. A população do estudo foi composta por idosos que registraram denúncias
na Delegacia de Polícia de Proteção ao idoso em Presidente Prudente – SP, em um período de
12 meses, desde o início das atividades da Delegacia em janeiro de 2010. Estudo retrospectivo,
documental de abordagem predominantemente quantitativa, realizado no primeiro semestre de
2011. O levantamento de estatísticas mostrou que, na maioria dos casos denunciados (50%), quem
agride homens e mulheres com mais de 60 anos são seus próprios filhos ou parentes próximos, que
podem ou não morar na mesma residência. A maior parte das queixas foi feita por pessoas com
idade média de 72 anos (±10 d.p). Dentre os casos de violências, as ameaças e injúrias ocupam
o primeiro lugar (45% dos casos), seguido por algum tipo de lesão corporal (dolosa ou culposa,
26%) e abuso financeiro/material (13%). Portanto, os resultados apontam para a necessidade de
buscar estratégias que mantenha e preserve os cuidados aos idosos de maneira integralizada,
principalmente, àqueles em condição de dependência ou semi-dependência fragilizada e, ainda,
vítimas de violências e maus-tratos no seio da família ou nas instituições de longa permanência.
Palavras-Chave: Relações Familiares, Maus-Tratos ao Idoso, Saúde do Idoso.
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ABSTRACT:
The objective of this study was to analyze the data from violence and abuse against the elderly
by means of official documents. The study population consisted of elderly people who reported
complaints in the Police Protection for the elderly in Presidente Prudente - SP, in a period of 12
months from the beginning of the activities of Police in January 2010. Retrospective documentary
predominantly quantitative approach, carried out in the first half of 2011. The survey statistics
showed that in most reported cases (50%), who attacks men and women over 60 are their own
children or close relatives who may or may not live in the same household. Most complaints
were made ​​by people with an average age of 72 years (10 ± SD). Among the cases of violence,
threats and insults occupy the first (45% of cases), followed by some type of injury (intentional
or negligent conduct, 26%) and financial abuse/material (13%). Therefore, the results point to
the need to seek strategies to maintain and preserve the way of care for the elderly care system,
especially for those in a position of dependence or reliance on semi-fragile, and also victims of
violence and abuse within the family or in long-term institutions.
Enfermeira. Discente do Curso de Especialização em Saúde Coletiva e Saúde da Família do Centro Universitário Filadélfia
– UniFil. Contato: [email protected]
**
Enfermeira. Discente do Curso de Especialização em Saúde Coletiva e Saúde da Família do Centro Universitário Filadélfia
– UniFil. Contato: [email protected]
***
Enfermeira. Professora Doutora pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto.
Docente de Cursos de Especialização do Centro Universitário Filadélfia – UniFil. Pró Reitora de Pesquisa e Pós Graduação do
Centro Universitário Filadélfia – UniFil. Contato: [email protected]
*
TERRA E CULTURA - No 54 - Ano 28 - Janeiro a Junho de 2012
Violência contra idosos: estudo exploratório em delegacia especializada
Keywords: Family Relations, Abuse of the Elderly, Aging Health.
INTRODUÇÃO
O envelhecimento hoje é um fenômeno mundial. O aumento da expectativa de vida
não é mais uma vantagem dos países desenvolvidos. O significativo crescimento do número
de idosos nos últimos anos no Brasil e no mundo tem sua origem a partir das transformações
socioeconômicas, do avanço tecnológico, que propicia melhorias na qualidade de vida em geral e
em particular nos cuidados à saúde.
No Brasil, nos últimos 50 anos, pode-se analisar uma alteração da característica
populacional estabelecida, ou seja, houve redução das taxas de natalidade, provocando o
crescimento da parcela populacional, com idade de 60 anos ou mais.
Até recentemente a compreensão vigente era que a população idosa
indicava uma realidade de países desenvolvidos e que o Brasil era um
país de jovens. A situação atual é um pouco mais complexa, pois vivemos
em um país com grandes proporções de jovens, ao lado de uma crescente
população que atingiu e passa dos 60 anos de idade (BIAZIN, 2006, p.
16).
De acordo com o último censo demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE) a população brasileira de idosos corresponde a 9,1% do total de 160.336.471
habitantes, 14.512.803 estavam com 60 anos ou mais. Há estimativas que no ano de 2025 haverá
34 milhões de idosos no Brasil (IBGE, 2000).
Esse dado é relevante visto que a variação na distribuição etária de um país modifica o
perfil das políticas sociais, necessitando de estratégias e implementação de programas, serviços,
projetos e benefícios relacionados à promoção dos direitos humanos dos idosos, considerando
que parte desses idosos encontram-se em situação de abandono ou sendo vítima de maus-tratos
cometidos na maioria das vezes pelos seus próprios familiares.
O relacionamento diário dos idosos com pessoas mais jovens, e a dependência obrigatória
podem acarretar uma convivência conflituosa, sem diálogo, com muitas discussões, a ponto de
a relação entre ambos se tornar insustentável. Todos esses desentendimentos ocorreriam no
ambiente familiar, institucional e no convívio social. Portanto, nestas situações é comum acontecer
o fenômeno da violência contra o idoso (FLORÊNCIO; FERREIRA; SA, 2007).
Idosos tornam-se mais sucessíveis aos maus-tratos no domicílio à medida que apresentam
dependência física ou mental; entretanto, o que deve ser estimado são o nível de dependência e
a ocorrência de maus-tratos, que se agravam quando familiares e/ou cuidadores não-familiares
sem treinamento, e orientações lidam com várias situações diversas de cuidados em um convívio
familiar estressante (GAIOLI, 2004).
Geralmente, concorda-se que o abuso de idosos é um ato de acometimento
ou omissão (neste caso é comumente descrito como “negligência”),
que pode ser tanto intencional como involuntário. O abuso pode ser
de natureza física ou psicológica (envolvendo agressão emocional ou
verbal), ou pode envolver maus-tratos de ordem financeira ou material.
Qualquer que seja o tipo de abuso, certamente resultará em sofrimento
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desnecessário, lesão ou dor, perda ou violação de direitos humanos,
e uma redução da qualidade de vida para o idoso (ORGANIZAÇÃO
MUNDIAL DA SAÚDE, 2002, p.126).
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Bueno (1996) conceitua violência como qualidade de violento, ato violento, ato de
violentar, agressão. Violento é o que procede com ímpeto, que se exerce com força, tumultuoso,
em que há emprego de força bruta, agressivo, impetuoso, agitado.
Os abusos e negligência dentro do espaço domiciliar ocorrem em grande número. Tais
conflitos podem estar associados à presença de diversas gerações, problemas de espaço físico e
dificuldades financeiras. Além disso, geralmente a sociedade costuma se somar a um imaginário
que nota a velhice como decadência. A negligência pode ser entendida como a recusa, omissão ou
fracasso, por parte do responsável pelo idoso, em fornecer-lhe os cuidados necessários, sendo esta
a forma de violência mais comum, tanto no espaço doméstico quanto em ambiente institucional
(MINAYO, 2003).
Tal violência, em geral, se divide nas seguintes categorias:
- abuso físico: uso da força física para compelir os idosos a fazerem o que não desejam,
para feri-los, provocar-lhes dor, incapacidade ou morte;
- abuso psicológico ou emocional: agressões verbais ou gestuais com o objetivo de
aterrorizar os idosos humilhá-los, restringir sua liberdade ou isolá-los do convívio social;
- abuso financeiro ou material: exploração imprópria ou ilegal dos idosos ou ao uso não
consentindo por eles de seus recursos financeiros e patrimoniais. Esse tipo de violência ocorre,
sobretudo, no âmbito familiar;
- abuso sexual: ato ou ao jogo sexual de caráter homo ou hetero-relacional, utilizando
pessoas idosas. Esses agravos visam a obter excitação, relação sexual ou práticas eróticas por
meio de aliciamento, violência física ou ameaças;
- negligência: recusa ou á omissão de cuidados devidos e necessários aos idosos, por
parte dos responsáveis familiares ou institucionais;
- autonegligência: é a conduta da pessoa idosa que ameaça sua própria saúde ou
segurança, pela recusa de prover cuidados necessários a si mesmos;
- abandono: manifesta-se pela ausência ou deserção dos responsáveis governamentais,
institucionais ou familiares de prestarem socorro a uma pessoa idosa que necessite de proteção
(ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2002).
No que se refere aos profissionais da saúde, Gaioli (2004) afirma que estes não estão
devidamente capacitados a identificar e encaminhar casos de maus-tratos sofridos pela população
idosa, nas áreas de segurança e justiça, percebe-se que o serviço de apoio às vitimas ainda é
precário, sendo que muitas vezes, após realizarem uma denúncia e voltarem a seus lares, os idosos
são novamente maltratados, criando medo, preocupação e insegurança. Assim, os profissionais da
saúde devem discutir a temática, com o objetivo de ampliar sua qualificação neste tema e criar
novas propostas de intervenção, favorecendo um melhor diagnóstico das situações de violência.
Para Minayo (2003) tanto os profissionais que atuam na rede básica de saúde como
aqueles que atuam nos serviços de emergência necessitam de preparo específico para poderem
avaliar e estar atentos às situações de violência. Nesses locais devem observar os sinais deixados
por lesões e trauma em idosos que chegam aos serviços.
Ao longo dos últimos anos, o Estado brasileiro, construiu alguns dispositivos legais de
amparo ao idoso. Dentre a legislação vigente esta a Constituição Federal de 1988 que em seu
artigo 230 aponta a família, a sociedade e o Estado como responsáveis, tendo o dever de amparar
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Violência contra idosos: estudo exploratório em delegacia especializada
as pessoas idosas, assegurando sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e
bem-estar, garantindo-lhe o direito a vida (BRASIL, 1998).
Esses direitos são discriminados na Política Nacional do Idoso, criada a partir da Lei nº
8.842, em 04 de janeiro de 1994 (regulamentada pelo Decreto nº1.948/96), ficando definidas as
responsabilidades da família e da sociedade em níveis federal, estadual e municipal (BRASIL,
1994).
Em 1999 foi aprovada a Política Nacional de Saúde do Idoso (BRASIL, 1999), porém,
é importante destacar que o passo significativo só foi dado em 2003, com a aprovação do
Estatuto do Idoso, cujo objetivo é garantir o respeito aos direitos dos idosos. Além de reforçar os
direitos garantidos pela Lei 8.842, o estatuto determina sanções e penalidades em caso de nãocumprimentos da legislação (BRASIL, 2003).
Considerando a necessidade de que o setor saúde disponha de uma política atualizada
relacionada à saúde do idoso, o ministério da saúde aprova a Política Nacional de Saúde da
Pessoa Idosa (Portaria nº2. 528 de 19 de outubro de 2006), que tem por finalidade de recuperar,
manter e promover a autonomia e a independência dos idosos, direcionando medidas coletivas e
individuais de saúde para esse fim, e consonância com os princípios e diretrizes do Sistema Único
de Saúde (BRASIL, 2006).
Diante do exposto, o principal objetivo do presente estudo foi investigar a existência,
frequência e tipos de maus-tratos contra idosos, visando traçar um perfil preliminar das vítimas e
dos agressores, bem como dos encaminhamentos dados às denúncias, a partir do levantamento das
informações registradas na Delegacia de Polícia de Proteção ao Idoso em Presidente Prudente – SP.
MÉTODOS
Delineamento da Pesquisa
O estudo foi retrospectivo, documental de abordagem predominantemente quantitativa,
realizado no primeiro semestre de 2011, na Delegacia de Polícia de Proteção ao Idoso, situada em
Presidente Prudente – SP.
O estudo documental caracteriza-se como uma fonte de coleta de dados restrita a
documentos, escritos ou não, constituindo o que se denomina de fontes primárias. Estas podem
ser feitas no momento do acontecimento do fato ou fenômeno, ou posteriormente (MARCONI;
LAKATOS, 1991).
O campo de estudo foi assim delimitado, tendo em vista a implantação da Delegacia na
região do Oeste Paulista no início de 2010, que têm por atribuições, concorrentemente com as
demais unidades policiais civis, o atendimento, em suas respectivas áreas de atuação, de pessoas
idosas, que demandem auxílio e orientação, e seu encaminhamento, quando necessário, aos órgãos
competentes (DELEGACIA DE POLÍCIA DE PROTEÇÃO AO IDOSO, SP, 2007).
LOCAL DO ESTUDO
O município de Presidente Prudente localiza-se na região oeste do Estado de São Paulo,
foi fundado em 14 de setembro de 1917, pelo Coronel Francisco de Paula Goulart. Apresenta área
total de 562,107 Km2, composto por quatro distritos e a sede, subdivididos ainda em cerca de 220
bairros. A delegacia conta com uma equipe formada por seis profissionais sendo, um delegado
titular, três escrivães de polícia, um investigador e uma assistente social, com atendimento de
segunda a sexta-feira, das 8h00 às 18h00 horas.
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Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2010) a população
total em 2010 era de 205.340 habitantes. A renda média per capita é de R$ 14.652,00. O produto
interno bruto - PIB de Presidente Prudente é o 128º maior do Brasil, destacando-se na área de
prestação de serviços. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do município em 2000 era
de 0,846 (0,882 para educação, 0,848 para longevidade e 0,767 para renda), indicador de alto grau
de desenvolvimento humano. O Índice de Gini para o mesmo período era de 0,46, o qual reflete a
desigualdade social presente (IPEA/PNUD/FJP, 2000).
A publicação efetuada pelo IBGE em relação ao envelhecimento populacional no Brasil
(2002) relata que em Presidente Prudente 10,3% da população total tem mais de 60 anos, ou seja,
19491 mil habitantes, sendo 55% homens e 45% mulheres, sendo 98% residentes na zona urbana.
Dessa população idosa, a maioria (64,2%) são homens responsáveis pelo domicílio e apenas
35,8% são mulheres.
POPULAÇÃO DE ESTUDO
A população de estudo foi composta por todos os idosos que registraram denúncias
na Delegacia de Polícia de Proteção ao Idoso em Presidente Prudente – SP, em um período
de 12 meses. As 222 denúncias registradas no referido período, constituíram a população
investigada.
COLETA DE DADOS
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Foi solicitado ao Delegado responsável permissão para realizar o levantamento de
dados. Estes dados estão disponíveis ao público em geral, por isso não houve a necessidade
desta pesquisa ser encaminhada para apreciação de um Comitê de Ética em Pesquisa com Seres
Humanos. Utilizou-se informação constante em 222 processos investigativos, existentes na
referida instituição, no período de um ano, a começar em janeiro de 2010. Esses documentos
continham informações relacionadas à identificação da vítima, ao reclamado e à conduta realizada
pela delegacia.
Em razão da ausência de um programa informatizado para registro de informações
contidas nos processos, permaneceu-se em uma sala, nas dependências da delegacia, para que os
dados coletados fossem compilados manualmente, os quais são discutidos e analisados à luz do
referencial teórico que aborda o tema.
O tratamento dos dados obedeceu aos seguintes procedimentos:
a) Identificação da data e número de registro.
b) Identificação do sexo e idade da vítima.
c) Identificação da denúncia de maus-tratos segundo a tipologia sugerida por Minayo
(2004), a saber: maus-tratos físicos, psicológicos, abuso financeiro ou material, abuso sexual,
negligência, abandono ou autonegligência.
d) Identificação do perfil do agressor segundo sua relação com o idoso (grau de parentesco,
vizinho, entre outros) e sexo.
e) Identificação da instância para onde foi encaminhada a denúncia.
Foi utilizado o software BioEstat 5.0 (2007) para processamento e análise de dados.
Para ilustração dos resultados e caracterização da população estudada, formularam-se tabelas
de frequências simples (percentual) e medidas descritivas, como média, mediana e desvio
padrão.
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Violência contra idosos: estudo exploratório em delegacia especializada
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A Tabela 1 apresenta a frequência das variáveis estudadas sobre idosos atendidos na
delegacia de polícia. O estudo envolveu 41% idosos do sexo feminino e 59% do masculino, sendo
a média de idade de 71,9 anos (d.p. = 10). O perfil indica, ainda, que 50% das denúncias foram de
violência contra idosos na idade mediana de 69 anos.
TABELA 1 − Distribuição da frequência das variáveis pesquisadas
Variável
Frequência
Idade média (em anos)
71,9 (±10 d.p)
Sexo da vítima
Feminino
92 (41%)
Masculino
130 (59%)
Agressor
Filho
70 (31%)
Cônjuge
13 (6%)
Parente
28 (13%)
Vizinho
24 (11%)
Cuidador
08 (4%)
Desconhecido
55 (24%)
Tipo de Agressão
Maus tratos psicológicos (ameaças e injúrias)
101 (45%)
Maus tratos físicos (lesão corporal)
57 (26%)
Abuso financeiro/material
29 (13%)
Negligência
21 (9%)
Abandono
14 (6%)
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Localidade da ocorrência
Presidente Prudente
206 (93%)
Região Oeste Paulista
16 (7%)
Providências
Termo Circunstanciado
86 (39%)
Arquivado
69 (31%)
Encaminhamento
52 (23%)
Inquérito Policial
15 (7%)
FONTE: Delegacia de Polícia de Proteção ao Idoso, Presidente Prudente – SP, 2011.
Das informações constantes nos 222 processos investigativos, referentes a denúncias de
janeiro de 2010 a janeiro de 2011, constatou-se que 45% tiveram como causa ameaças e injúrias
de idosos por seus familiares, seguidos por algum tipo de lesão corporal (dolosa ou culposa, 26%),
abuso financeiro/material (13%) e negligência (9%), conforme os dados apresentados na Tabela 1.
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Quanto ao agressor, os filhos são os principais reclamados, sendo responsáveis por 31%
das denúncias de violência, seguidos de parentes (13%). No contexto familiar, as agressões contra
os idosos são praticadas, em geral, pelos filhos homens. Os filhos e os cônjuges dos idosos são
responsáveis por 50% dos casos de maus tratos e negligências no cenário doméstico. Pode-se
perceber a prevalência dos filhos, netos e a família de forma mais ampla como os principais
agressores domésticos dos idosos. Este fato é condizente com a literatura e, também, de forma
indireta, com a ausência de políticas públicas que auxiliem as famílias para com o cuidado de seus
idosos. (GUITA, 2003)
Os dados ainda mostram que, apesar de a delegacia estar localizada na região do Oeste
Paulista, a cidade de maior procedência dos registros é Presidente Prudente, com 93% das
denúncias.
Durante todo o período, foram registrados 86 Termos Circunstanciados na Delegacia do
Idoso de Presidente Prudente - SP. Registradas como Termos Circunstanciados, que traz um relato
dos fatos e a caracterização das partes, essas ocorrências podem ser rapidamente encaminhadas à
Justiça e as partes devem ser chamadas a comparecer a uma audiência.
Quanto ao motivo de arquivamento do processo, a maioria (31%) decorre do fato de o
caso ser encaminhado aos órgãos competentes, dentre eles às prefeituras, ao Ministério Público,
às delegacias da área, à Secretaria de Ação Social, à Secretaria de Saúde, para que se procedesse
à resolução do problema.
Outro motivo de arquivamento bastante frequente é relativo à improcedência da denúncia
e à melhoria do quadro de violência ou maus tratos ao idoso. Poucas vezes, em apenas cinco (2%)
processos, o arquivamento do caso partiu de uma iniciativa do próprio idoso.
Acredita-se que a divulgação da problemática da violência e dos maus tratos contra
idosos pode ajudar no aumento das denúncias, à medida que as pessoas que passam pela mesma
situação em suas casas sentem-se mais motivadas a procurar ajuda.
Os serviços de saúde públicos e privados passarão a ter de notificar às autoridades
competentes todos os casos de suspeita ou confirmação de violência praticada contra idosos.
A obrigação é determinada pela Lei 12.461/11, sancionada pela presidente Dilma Rousseff e
publicada no Diário Oficial da União no dia 27 de agosto de 2011. Segundo a nova lei, que altera
o Estatuto do Idoso (Lei 10.741/03), a informação deverá ser prestada à autoridade sanitária
e também à autoridade policial, ao Ministério Público e aos Conselhos Municipal, Estadual e
Nacional do Idoso. Considera-se violência contra o idoso “qualquer ação ou omissão praticada
em local público ou privado que lhe cause morte, dano ou sofrimento físico ou psicológico”
(BRASIL, 2011).
Instituições como as Delegacias de Polícia de Proteção aos Idosos e os Grupos
Especiais do Ministério Público, criados para exercerem um papel de defensores da
sociedade (dos idosos, das mulheres entre outros), transformaram a violência doméstica,
uma questão inicialmente individual e social, em domínio público. Por um lado é positivo
porque a sociedade passa a tolerar muito menos esse tipo de atitude. No entanto, ruim por
estar atrelado a consequências como a descaracterização dos papéis de cada um desses
organismos.
Tratar da delegacia do idoso não é considerar que a violência contra esse grupo se reduz
às queixas apresentadas nessas instituições, mas reconhecer que essas queixas tornaram evidente
a necessidade de mobilização da sociedade para reivindicar políticas públicas específicas, que
enfoquem o papel social do idoso, bem como privilegiem o cuidado e a proteção dessas pessoas
fragilizadas em suas famílias e nas instituições.
TERRA E CULTURA - No 54 - Ano 28 - Janeiro a Junho de 2012
Violência contra idosos: estudo exploratório em delegacia especializada
CONCLUSÃO
A violência contra idosos é um fenômeno de notificação recente no mundo e no Brasil.
A vitimização desse grupo social, no entanto, é um problema cultural de raízes seculares e suas
manifestações são facilmente reconhecidas desde as mais antigas estatísticas epidemiológicas. A
quantidade crescente de idosos oferece um clima de publicidade e de politização das informações
sobre maus tratos de que são vítimas tornando o problema uma prioridade na pauta de questões
sociais. No Brasil, a questão começou a ganhar visibilidade na década de 90, depois que a
preocupação com a qualidade de vida dos idosos entrou na agenda da Saúde Pública.
Portanto, observa-se a necessidade de buscar estratégias que mantenha e preserve os
cuidados aos idosos de maneira integralizada, principalmente, àqueles em condição de dependência
ou semi-dependência fragilizada e, ainda, vítimas de violência e maus-tratos no seio da família ou
nas instituições de longa permanência.
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TERRA E CULTURA - No 54 - Ano 28 - Janeiro a Junho de 2012
NÚCLEO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS - NCHS E
NÚCLEO DE CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS - NCSA
Luciana Zukovski, Luana Elizabeth Pinheiro Antunes Prado
A IMPORTÂNCIA DA CONSERVAÇÃO DE LEPIDÓPTERAS PARA
OS PROCESSOS ECOLÓGICOS
THE IMPORTANCE OF CONSERVATION OF LEPIDOPTERA FOR ECOLOGICAL
PROCESSES
Luana Elizabeth Pinheiro Antunes Prado15*
Luciana Zukovski
70
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RESUMO:
Os lepidópteros compõem a segunda maior ordem dos hexápodes, com aproximadamente
120.000 espécies descritas em todo o mundo. Para o Brasil são descritas aproximadamente
3.288 espécies de lepidópteras, distribuídas em seis famílias, tendo maior proporção de
espécies a família Nymphalidae. A rica diversidade de lepidópteras brasileiras pode ser
relacionada devido à ampla diversidade de ecossistemas, fisionomias vegetais, topografia,
condições climáticas. Entretanto, a degradação em todos os biomas brasileiros, devido à
perda da cobertura vegetal por ações antrópicas, acarretam em sérias consequências da
diversidade de lepidópteras, tais como perda de espécies com hábitos específicos, diminuição
de recursos alimentares, e entre outros acarretando em mudanças na composição e estrutura
das comunidades, comprometendo todo o equilíbrio ecológico. Portanto, a perda da cobertura
vegetal, alterações climáticas, fragmentação e entre outras alterações no ambiente, refletem
na diminuição de recursos essenciais para a sobrevivência e permanência de muitas espécies.
Muitas espécies de lepidópteros são comumente utilizadas como indicadores de qualidade e
ambiental, por serem capazes de responder de maneira rápida a qualquer alteração no habitat.
Atuam como importantes ferramentas para delimitar áreas prioritárias de conservação e
preservação ambiental.
PALAVRAS-CHAVE: Borboletas. Degradação. Fragmentação de Habitats. Bioindicarores.
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ABSTRACT:
The Lepidoptera are the second largest order of the Hexapoda, with approximately 3.288
described species of Lepidoptera, distribuited in six families, with higher proportions of species
in Nymphalidae. The rich diversity of Lepidoptera in Brazil may be related because of the
wide diversity ofof ecosystems, different vegetation types, topography, climatic conditions.
However, the degradation in all biomes, due to loss of vegetation cover due anthropogenic,
cause serious consequences on the diversity of Lepidoptera, such as loss of species with
specific habitats, diminished food, supplies, and others in causing changes in the composition
and community structure, involving the entire ecological balance. Therefore, the loss of
vegetation, climate change, fragmentation, and among other changes in the environment,
reflected in the decrease of resources essential for survival and persistence od many species.
Many species of Lepidoptera are commonly used as indicators of environmental quality and,
by being able to respond quinckly to any change in habitat. Serve as important tools for
defining priority areas for conservation and environmental protection.
KEYWORDS: Butterflies. Degradation.Fragmentation of Habitats.Bioindicative.
* Graduanda do curso de Ciências Biológicas da Faculdade de Apucarana.
** Docente de Ciências Biológicas da Faculdade de Apucarana
TERRA E CULTURA - No 54 - Ano 28 - Janeiro a Junho de 2012
A importância da conservação de Lepidópteras para os processos ecológicos
INTRODUÇÃO
Os lepidópteros são conhecidos popularmente como mariposas e borboletas e compõem
a segunda maior ordem dos hexápodes, com aproximadamente 120.000 espécies descritas em
todo o mundo (BARNES etal, 2005; BRUSCA & BRUSCA, 2007). Para o Brasil, são descritas
26.016 espécies de lepidópteras (BROWN & FREITAS, 1999), distribuídas em 71 famílias. A
família Nymphalidae apresenta maior proporção de número de espécies e diversidade quanto à
utilização de recursos alimentares, formas larvais e morfologia (BROWN & FREITAS, 1999;
SILVA, 2008).
A rica diversidade de lepidópteras no território brasileiro pode estar relacionada à ampla
diversidade de ecossistemas, fisionomias vegetais, topografia e condições climáticas (BROWN &
FREITAS, 1999). Tais características auxiliam o processo de especialização para muitas espécies,
tanto na utilização de recursos alimentares como no desenvolvimento e processo evolutivos das
espécies (BROWN & FREITAS, 1999).
Diante destas considerações, a degradação em todos os biomas brasileiros, em razão da
ocupação desenfreada da urbanização, o desmatamento para finalidade agrícola ou de pastagens
e dentre outras atividades, vem transformando paisagens naturais em ambientes degradados
(BROWN & FREITAS, 1999). Essas ações antrópicas são um dos principais fatores que
contribuem para a perda de espécies, diminuindo a diversidade de lepidópteras, além de expor
muitas espécies há várias ameaças (BROWN & FREITAS, 1999).
A perda da cobertura vegetal e a fragmentação do habitat aliado ao isolamento
dos fragmentos incidem em várias consequências sobre comunidades de lepidópteras, tais
como perda de espécies com hábitos específicos, diminuição de recursos alimentares, e
outros, acarretando em mudanças na composição e estrutura das comunidades (BROWN &
FREITAS, 1999). Portanto, os lepidópteros são comumente utilizados como indicadores de
qualidade e integridade ambiental, em razão do ciclo de vida rápido, especificidade de nicho
trófico durante diferentes fases de vida, de fácil visualização, marcação e identificação de
indivíduos (BROWN & FREITAS, 1999; PEREIRA & TEIXEIRA, 2007; LEWINSOHN
et al, 2005).
Além destas características, os lepidópteros respondem de maneira rápida e distinta às
alterações que ocorrem no ambiente. Diferentes reações na dinâmica populacional, tais como,
extinções locais, aumento populacional de espécies generalistas e flutuações, podem ser explicados
devido às novas condições impostas ao meio (BROWN & FREITAS, 1999). Assim, a presença de
espécies bioindicadoras pode servir como ferramenta para delimitação de áreas de conservação e/
ou proteção ambiental (BROWN & FREITAS, 1999).
Diante destas considerações, a ordem lepidóptera é constituída por espécies que
desempenham grande importância no ambiente. São de grande relevância por atuarem em
processos ecológicos, tais como predação, camuflagem, polinização e entre outros processos.
Além de servirem como instrumento de monitoramento para delimitação de áreas de conservação
e preservação ambiental (BROWN & FREITAS, 1999; PEREIRA & TEIXEIRA, 2007;
LEWINSOHN et al, 2005).
Assim o presente estudo objetivou em analisar a importância da lepidopterofauna para o
equilíbrio de ecossistemas, por meio de levantamentos de dados disponíveis na literatura brasileira,
analisando os efeitos de impactos ambientais sobre comunidades de lepidóptera e ressaltar
a importância destes utilizados como ferramentas para estudos de conservação e preservação
ambiental.
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BIOLOGIA E ECOLOGIA DE LEPIDÓPTERAS
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Os lepidópteros são conhecidos popularmente como mariposas e borboletas, apresentam
desenvolvimento indireto, passando por sucessivos estágios, até completarem a fase adulta
(BARNES et al, 2005; BRUSCA& BRUSCA, 2007). Cada estágio envolve uma série de
adaptações, que são representadas por diferentes fases de desenvolvimento sendo eles: ovo, larva,
pupae adulto (SILVA, 2008). A duração de cada fase do desenvolvimento pode variar de acordo
com a fisiologia e habito de cada espécie (BARNES et al, 2005; BRUSCA& BRUSCA, 2007;
SILVA, 2008).
Em cada fase de desenvolvimento, as características morfológicas, fisiológicas e
comportamentais, estão relacionadas ao ambiente, ao meio de obtenção e tipo de alimento
(BRUSCA& BRUSCA, 2007). Assim, os lepidópteros apresentam diferentes formas e funções
durante todo seu ciclo de vida (BARNES et al, 2005; BRUSCA & BRUSCA, 2007). E estas
características exercem função de grande importância na repartição de recursos, evitando a
competição intra-específica (BARNES et al, 2005). Interações resultam muitas vezes na exclusão
de uma espécie menos favorecida ou adaptada em relação à outra (SCHWARTZ & DI-MARE,
2001; TOWNSEND et al, 2006).
Quando várias espécies competem pelo mesmo recurso, podem apresentar também
diferenciação ou mesmo baixa sobreposição de atividade sobre a utilização do recurso
(VARASSIN & SAZIMA, 2000; SCHWARTZ & DI-MARE, 2001; TOWNSEND et al, 2006).
Esta diferenciação ou partilha de recursos, pode ser observada no âmbito temporal ou espacial.
Este processo favorece a coexistência de ambas as espécies (SCHWARTZ & DI-MARE, 2001;
TOWNSEND et al, 2006).
Os hábitos dos lepidópteros relacionados à exploração de recursos conferem a estes
insetos um papel relevante no equilíbrio ecológico. Estes hexápodes mantêm uma interação
com a maioria das plantas, as quais oferecem alimento, e em troca os lepidópteros atuam como
potenciais polinizadores, auxiliando e permitindo o fluxo gênico entre as populações e garantindo
a estabilidade das comunidades vegetais (FONSECA et al, 2006; BARP, 2006). A disponibilidade
de recursos alimentares exerce grande influência na estrutura da comunidade de lepidópteras
(FONSECA et al, 2006; SILVA, 2008), e que por sua vez, o comportamento dos visitantes
florais pode ser determinado pela distribuição espacial e abundância dos recursos disponíveis
(FONSECA et al, 2006; SILVA, 2008).
Os lepidópteros podem ser divididos sob diferentes critérios, podendo ser atribuídas
conforme o hábito das espécies, tamanho e origem, tipo de aparelho reprodutor, morfologia e
localização das asas, hábitos alimentares e entre outros (BROWN & FREITAS, 1999). No entanto
vale ressaltar que estas classificações podem ter relevância diferente dependendo do objetivo do
estudo para a ordem.
O Brasil apresenta uma diversidade de lepidópteras com 26.016 espécies, sendo que 13 %
são borboletas, e 87 % mariposas e ambas distribuídas em 71 famílias. Este número corresponde
um total de 60% de toda a diversidade da região neotropical (BROWN &FREITAS, 1999). Esta
grande riqueza está associada à complexidade de fisionomias vegetais, clima, topografia e entre
outras características, que propiciam a existência e diversidade das espécies brasileiras (BROWN
&FREITAS, 1999).
De acordo com Lewinsohn & Prado (2002), os inventários e levantamentos disponíveis
na literatura são concentrados nos biomas da Mata Atlântica, Cerrado e Amazônia, enquanto
no Pantanal e na Caatinga, existem poucos levantamentos de dados. Menciona-se, que mesmo
TERRA E CULTURA - No 54 - Ano 28 - Janeiro a Junho de 2012
A importância da conservação de Lepidópteras para os processos ecológicos
em regiões e biomas já inventariados, a cobertura geográfica amostrada se restringe a poucas
localidades. E pouco ou nenhum relato refere-se à biologia e ecologia das espécies, tais como
ciclo de vida, plantas hospedeiras, morfologia e sistemática, estrutura de comunidades, e uso de
micro-habitats (BROWN &FREITAS, 1999; UEHARA-PRADO et al, 2004).
No território brasileiro, algumas famílias de lepidópteras são comumente amostradas,
devido à facilidade de implementação de técnicas de baixo custo e eficácia (BROWN &
FREITAS, 1999; RIBEIRO, 2006). Estas famílias podem ser diferenciadas de acordo com o tipo
de habito alimentar ou mesmo o período de atividade (RIBEIRO, 2006). Portanto tais estudos
compreendem espécies frugívoras que se alimentam de frutas, material em decomposição, seiva e
entre outros (BROWN & FREITAS, 1999; RIBEIRO, 2006), e espécies de hábitos noturnos, que
são facilmente atraídos por armadilhas luminosas.
De acordo com Brown & Freitas (1999), mesmo diante do interesse pela conservação e
monitoramento ambiental, há uma carência de informações e materiais bases que auxiliam tomadas
de decisões para a conservação, principalmente para lepidópteros. É indispensável, portanto, a
realização de mais levantamentos sobre lepidópteras em todos em biomas (LEWINSOHN et al,
2005; DESSUY & MORAIS, 2007).
DEGRADAÇÃO AMBIENTAL E O DECLÍNIO DE LEPIDÓPTERA
A maioria das espécies da fauna e da flora que constituem o ecossistema depende da
conservação e da integridade do ambiente, para que possam realizar suas funções, garantir sua
permanência e sobrevivência no ambiente, além de contribuírem para o equilíbrio ecológico
(PRIMACK & RODRIGUES, 2001; MOULTON & SOUZA, 2006). Portanto a heterogeneidade
ambiental é um fator de grande importância para a manutenção da diversidade biológica, além de
propiciar a riqueza e diversidade das espécies (PRIMACK & RODRIGUES, 2001; MOULTON
& SOUZA, 2006).
Ambientes que apresentam uma diversidade de recursos, micro-habitats e maior
diversidade de condições físicas tendem a abrigar uma rica diversidade de espécies (PRIMACK
& RODRIGUES, 2001; TOWNSEND et al, 2006). Por essas razões, muitos estudos relacionam
a importância da heterogeneidade ambiental com o aumento da riqueza de espécies, e mais
especificamente, a relação da diversidade de estruturas vegetais em relação à riqueza faunística
do ambiente (TOWNSEND et al, 2006).
A degradação do ambiente natural, decorrente de muitas ações antrópicas, vem trazendo
sérias consequências em todos os tipos de ecossistemas (PRIMACK & RODRIGUES, 2001;
GARAY & DIAS, 2001). Estas alterações acarretam uma série de consequências ambientais,
tanto locais (perda da diversidade biológica), regionais e globais (mudanças climáticas, enchentes,
catástrofes) (GARAY & DIAS, 2001; PRIMACK & RODRIGUES, 2001).
A perda da cobertura vegetal transforma regiões florestadas em fragmentos de mata,
alterando todo o ambiente (LAURANCE, 2002; GARAY & DIAS, 2001; PRIMACK &
RODRIGUES, 2001; SANTIAGO et al, 2007). Isto resulta em uma série de consequências que
compromete e afeta comunidades biológicas da fauna e da flora em diferentes formas (GARAY &
DIAS, 2001; PRIMACK & RODRIGUES, 2001).
A retirada da cobertura vegetal impõe novas condições no ambiente, mudando toda a
estrutura vegetal, resultando na extinção de espécies de hábitos especializados, declínio em certas
populações, o qual não encontra suporte para garantir sua permanência no habitat (GARAY &
DIAS, 2001; PRIMACK & RODRIGUES, 2001).
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Algumas espécies que apresentam maior grau de sensibilidade perante as novas condições
tendem a sofrer queda de população, ou mesmo serem extintas do local (GARAY & DIAS, 2001;
PRIMACK & RODRIGUES, 2001). Em contraste, populações mais adaptadas às alterações
podem permanecer estáveis, ou mesmo ter um aumento gradativo em suas populações (GARAY
& DIAS, 2001; PRIMACK & RODRIGUES, 2001).
Portanto, devido à perda da cobertura vegetal e a degradação, toda a biota do ambiente sofre
uma série de alterações (ODUM, 1988), além de interferir nas condições do ambiente, alterando
o micro-clima interno, aumentando a incidência de luminosidade e outros fatores (GARAY &
DIAS, 2001; PRIMACK & RODRIGUES, 2001); tais mudanças podem ser determinantes para
muitas espécies (GARAY & DIAS, 2001; PRIMACK & RODRIGUES, 2001).
A fragmentação do ambiente é outro grande problema para o equilíbrio ecológico (GARAY
& DIAS, 2001; PRIMACK & RODRIGUES, 2001), pois consiste na redução do ambiente natural, ou
mesmo o restante do habitat é isolado em um ou mais fragmentos, os quais podem apresentar vários
tamanhos ou diferentes graus de isolamento (PRIMACK & RODRIGUES, 2001; LAURANCE,
2002). Entretanto, é oportuno mencionar que os efeitos sobre comunidades biológicas e mesmo
o declínio da biodiversidade em fragmentos de mata são decorrentes da proporção da perda de
cobertura vegetal, e não apenas da fragmentação do habitat (LAURANCE, 2002).
De acordo com Dessuy & Morais (2007), a diversidade e riqueza de lepidópteras está
diretamente relacionada com a área do habitat e com seu grau de isolamento, e associada a
uma variedade de condições internas (RIBEIRO, 2006; DESSUY & MORAIS, 2007). A maior
proporção de lepidópteras apresenta uma especificidade de micro-habitats, tipos de alimentos e
outras interações ecológicas estreitas e ao mesmo tempo complexas, relevantes para o equilíbrio
ecológico (BROWN, 1997; DESSUY & MORAIS, 2007). Como exemplo, interações entre
borboletas e plantas dotadas de flores, e relação presa e predador (DESSUY & MORAIS, 2007).
Com a fragmentação ou a perda da cobertura vegetal, a composição de espécies no habitat
é totalmente alterada, o que implica a redução dessas interações (BROWN, 1997; BROWN &
FREITAS, 1999; RIBEIRO 2006). A perda da cobertura vegetal diminui a variedade vegetal,
e há consequentemente uma redução no número de nichos tróficos, o que poderá resultar em
competição intra ou interespecífica (TOWSEND et al, 2006). A baixa demanda de recursos faz
com que diminua a colonização de algumas espécies, afetando, assim, a distribuição das plantas,
devido à baixa dispersão das espécies no ambiente (PRIMACK & RODRIGUES, 2001).
A perda da cobertura vegetal, juntamente com a fragmentação e os efeitos da fragmentação,
é um dos principais fatores que agem diretamente em comunidades de lepidópteras (BROWN &
FREITAS, 1999). Acarreta alterações das comunidades, deixando muitas espécies vulneráveis a
extinção (BROWN & FREITAS, 1999). Além de resultar na insuficiência de recursos naturais e
essenciais ao longo do curso de vida das espécies, podendo atuar como ambientes vulneráveis a
perda da diversidade de lepidópteras, expondo muitas espécies a diferentes categorias de ameaça
(BROWN & FREITAS, 1999).
LEPIDÓPTERA COMO BIOINDICADORES DE QUALIDADE DE AMBIENTE
No Brasil, estudos mostram que os lepidópteros são indicadores potenciais, principalmente
sobre os efeitos de fragmentação e redução de habitat (BROW & FREITAS, 1999). Entretanto,
muitos estudos relatam alterações e reduções nas comunidades devido à fragmentação, porém
não referem às possíveis causas dos efeitos sobre tais alterações (UEHARA-PRADO, 2004;
LEWINSOHN et al, 2005; RIBEIRO, 2006).
TERRA E CULTURA - No 54 - Ano 28 - Janeiro a Junho de 2012
A importância da conservação de Lepidópteras para os processos ecológicos
A conservação e manutenção de áreas extensas, bem como a manutenção da conectividade
dos fragmentos são de suma importância para auxiliar a interação entre metacomunidades e
metapopulações de lepidópteras (BROWN & FREITAS, 1999). As áreas extensas mantidas e
conservadas podem apresentar grande relevância para os lepidópteros, devido à alta mobilidade
do grupo, sendo imprescindível para populações pequenas e flutuantes, que dependem da
conectividade entre habitat para manter o fluxo gênico entre as populações (UEHARA-PRADO,
2004; BROWN & FREITAS, 1999).
Portanto, muitos grupos de lepidópteros têm grande utilidade e funcionalidade para
identificar paisagens alteradas de grande relevância biológica (BROWN, 1997; BROWN &
FREITAS, 1999), sendo amplamente utilizados como ferramentas para delimitar áreas de proteção
e conservação (UEHARA-PRADO, 2004; BROWN & FREITAS, 1999; RIBEIRO, 2006).
A coloração e o tamanho de muitas espécies, aliados a sensibilidade perante alterações,
fazem que muitos grupos sejam reconhecidos como indicadores de qualidade ambiental (BROWN
& FREITAS, 1999; LEWINSOHN et al, 2005). Além de suas características, os processos
ecológicos desempenhado pelas espécies, tais como desfolhadores, redutores de matéria orgânica,
presa de outros animais, hospedeiras de microorganismos, parasitas e parasitóides, além de sua
distribuição e diversidade estar relacionada à ciclagem de nutrientes, relação presa-predador e
dinâmica populacional de comunidades vegetais (BROWN & FREITAS, 1999).
Alguns lepidópteros são habitualmente utilizados no Brasil, por serem comuns, fácies de
encontrar e identificar, sendo excelentes ferramentas para estudos em diversas áreas e interesses,
tais como, reprodução sistemática, evolução, biogeografia, patologia, controle de pragas,
interações mutualísticas e entre outros (BROWN & FREITAS, 1999; RIBEIRO, 2006).
Nove famílias de lepidópteras brasileiras são consideradas como excelentes indicadoras
de qualidade ambiental, entre elas incluem cinco famílias de borboletas e quatro de mariposas
(BROWN & FREITAS, 1999). As famílias Papilionidae, Pieridae, Nymphalidae, Lycaenidae
e Hesperiidae, são representantes dos grupos de hábitos diurnos, enquanto que Saturniidae,
Sphingidae, Arctiidae e Geometridae compreendem as famílias de hábitos noturnos (BROWN &
FREITAS, 1999).
Os lepidópteros, assim como muitos outros invertebrados, atuam como provedores de
ecossistemas, no qual, a importância ecológica de muitas espécies é evidenciada pela manutenção
de comunidades ou populações biológicas funcionais (UEHARA-PRADO, 2004; LEWINSOHN
et al, 2005). Esta manutenção biológica funcional, pode-ser avaliada e compreendida como uma
condição para a conservação dos ecossistemas (UEHARA-PRADO, 2004; LEWINSOHN et al,
2005).
Muitos dos processos ecológicos, tais como a ciclagem de nutrientes, retenção e regulação
de fluxos de energia, papeis de polinização e entre outros, refletem diretamente a qualidade e
conservação do ambiente (LEWINSOHN et al, 2005). No entanto, a fauna nativa é essencial
para o funcionamento do ecossistema, sendo a principal ferramenta para garantir a diversidade e
conservação dos ecossistemas (LEWINSOHN et al, 2005).
CONCLUSÃO
Os lepidópteros compreendem a segunda, maior ordem de hexápodes, com
aproximadamente 120.000 espécies descritas em todo o mundo (BARNES et al, 2005; BRUSCA&
BRUSCA, 2007). Os lepidópteros são insetos holometábolos (BARNES et al, 2005; BRUSCA&
BRUSCA, 2007) e, em cada fase do ciclo de vida, os lepidópteros desenvolvem características
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morfológicas, fisiológicas e comportamentais de acordo com o tipo de habitat, maio de obtenção e
tipo de alimento (BRUSCA& BRUSCA, 2007). Estas características durante o desenvolvimento
são de grande importância, pois evitam a competição intra e interespecífica das espécies (BARNES
et al, 2005; BRUSCA& BRUSCA, 2007).
No Brasil são registradas aproximadamente 26.016 espécies de lepidópteras (BROWN
& FREITAS, 1999), sendo a família Nymphalidae apresenta maior proporção de espécies e
diversidade quanto à utilização de recursos alimentares, formas larvais e morfologia (BROWN &
FREITAS, 1999). A rica diversidade de espécies brasileiras pode ser atribuída devido à variação
climática, fisionomias vegetais, altitude, relevo e entre outras características,,além de apresentar
muitas espécies endêmicas em uma dada região ou bioma. Entretanto a lepidopterofauna do
Brasil, ainda permanece pouco estudada, sendo que a maioria dos estudos se concentra no bioma
Mata Atlântica e Amazônia, sendo estudado de forma desigual (BROWN & FREITAS, 1999).
Os hábitos dos lepidópteros podem estar relacionados a diversas situações que remetem ao
equilíbrio ecológico. Estes hexápodes mantêm uma interação com a maioria das plantas, as quais
oferecem alimento, e em troca atuam como potenciais polinizadores, auxiliando e permitindo o
fluxo gênico entre as populações e garantindo a estabilidade das comunidades vegetais.
Entretanto devido às alterações no ambiente, oriundos de ações antrópicas, este vem
refletindo diretamente na diminuição de recursos essenciais para a sobrevivência e permanência
de muitas espécies, principalmente aquelas que apresentam especificidade alimentar. Por esta
razão, muitas espécies de lepidópteros são consideradas excelentes bioindicadores de qualidade
de ambiente, podendo refletir as mudanças que ocorrem nos ambientes. A presença de espécies
bioindicadoras pode servir como ferramenta para delimitação de áreas de conservação e/ou
proteção ambiental (BROWN & FREITAS, 1999).
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Claudia Vanessa Bergamini
DO SUJEITO SONHADOR AO SUJEITO CONTEMPLADOR:
CONSIDERAÇÕES ACERCA DE ‘O CONTÁGIO’ E ‘MINHAS
JANELAS’ DE PAULO MENDES CAMPOS
THE SUBJECT DREAMER TO SUBJECT CONTEMPLADOR: CONSIDERATIONS ABOUT “O
CONTÁGIO” AND “MINHAS JANELAS” OF PAULO MENDES CAMPOS
Claudia Vanessa Bergamini16*
RESUMO:
Este artigo analisa duas crônicas de Paulo Mendes Campos, por meio das quais se buscou discutir
a ideia de sujeito contemplador, bem como a ideia de supervalorização da imagem que se faz do
outro. Para tanto, faz-se uma discussão acerca do modo como a intimidade e a vida do outro tem
sido tratada e projetada no séc. XXI. A partir das crônicas, considerações foram tecidas de modo
a ressaltar como o olhar do cronista, situado no séc. XX, vem atender às discussões tão raras ao
tempo atual.
PALAVRAS-CHAVE: crônicas, intimidade, imagem projetada, imagem real, contemplador,
mercadoria.
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ABSTRACT:
This article analyzes two chronicles of Paulo Mendes Campos, by means of which if it searched
to argue the idea of contemplador citizen, as well as the idea of supervaluation of the image that
if makes of the other. For in such a way, a quarrel concerning the way becomes as the privacy and
the life of the other has been treated and projected in séc. XXI. From the chronicles, considerações
had been weaveeed in order to stand out as the look of the cronista, situated in séc. XX, it comes
to take care of to the so rare quarrels to the current time.
KEYWORDS: chronicles, privacy, projected image, real, contemplator image, merchandise.
1. O ÍNTIMO NÃO É MAIS ÍNTIMO: CONSIDERAÇÕES SOBRE A INTIMIDADE
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Sabe-se que aquilo que é íntimo tende a ficar oculto (e deveria), mas, paradoxalmente, é
o que atrai o olhar do outro. Exemplo disso se vê na vida das celebridades, por um lado muitos
tentam esconder a intimidade e, por outro, a mídia busca expô-la sobremaneira.
Em 1998, quando a apresentadora Xuxa estava para dar à luz, o país todo acompanhou
o espetáculo, o show que a mídia transformou o nascimento da menina. Da mesma forma,
comentários e reportagens sobre o relacionamento das celebridades são espetáculos nas revistas,
sites e programas televisivos e viram mercadoria.
Cria-se, assim, um comércio para expor a vida íntima do outro. Revelar aquilo que era
para ser resguardado e, embora ainda existam muitas celebridades que primem pelo recato, tem se
tornado cada vez mais frequente a exposição da intimidade como recurso de marketing pessoal.
Citam-se as inúmeras publicações biográficas, autobiográficas e diários íntimos, além dos gêneros
comuns à internet como o blog e perfil de páginas de relacionamento, ou seja, a necessidade
em expor a intimidade fez com que fosse mudado até o gênero dos livros, sendo valorizados
aqueles que expõem a vida das celebridades ou fatos íntimos do cotidiano. “O sucesso editorial
Aluna do Programa de Pós Graduação – Mestrado em Letras da Universidade Estadual de Londrina (2010/2012). Especialista
em Literatura Brasileira (UEL/2008). Graduada em Letras Hispano-portuguesa (UEL/2006). Professora de Literatura nos
cursos de Letras e Pedagogia na Universidade Filadélfia/Londrina. BRASIL, Londrina, Paraná. [email protected]
Currículo Lattes http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4260393Z7
*
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Do sujeito sonhador ao sujeito contemplador: considerações acerca de ‘O Contágio’ e ‘Minhas Janelas’ de Paulo Mendes
Campos
das biografias e das autobiografias, por exemplo, excede as margens de um mero fenômeno de
mercado: há uma revalorização das histórias individuais e familiares, e um revigorado interesse
pelas vidas alheias” (SIBILIA, 2005, p. 45).
Bauman (2004) assinala que na era globalizada, em que a velocidade, seja de informações
ou contato, é de extrema importância, tudo passa a ser encarado como mercadoria e a intimidade
virou um alimento necessário à cultura de massa. À medida que a vida do outro é exposta como
mercadoria, o homem deixa de viver e passa a ser um sujeito contemplador, ou seja, observa, fala
e discute sobre a vida do outro, como se essas ações fossem necessárias à vida.
Como é intensa a substituição de assuntos que circulam na mídia, justamente por ela
precisar do novo para sobreviver, as pessoas noticiadas se tornam efêmeras. Por exemplo, o final
de um casamento só tem valor para a mídia até que surja outra história mais interessante. Da
mesma forma, um acidente, a morte de um artista ou mesmo as terríveis tragédias como a do Haiti
em 2010.
Bauman (2004) enfatizou que, à medida que as coisas e pessoas passaram a ser descartáveis,
intensificou-se um sentimento de medo; o homem tem medo de ser tornar dispensável, visto que
tudo é descartável, banalizado e até a identidade do homem deste contexto é variada. Stuart Hall
(2006) destacou que o sujeito moderno é fragmentado, sua identidade está sujeita ao plano da
história, da política, da representação e da diferença e, por isso, está em constante mudança.
O sujeito muda porque já não há um sentido estável de si, tudo é incerto e duvidoso.
As fronteiras que separam categorias como: gênero, sexualidade, raça e nacionalidade também
estão fragmentadas por conta de todas as mudanças sociais, políticas e históricas em curso. Essa
“pluralidade coloca o indivíduo de frente a uma multiplicidade de identidades, valores, ideais,
costumes e estilos de vida, a qual se por um lado pode fazer com que ele se sinta desorientado,
por outro, lhe dá a sensação de ser livre, de ter uma enorme gama de opções a serem escolhidas”
(CHAVES, 2004, p. 2).
E o amor, tão sublime sentimento, sofre também todas essas transformações, e há muito
deixou de ser concebido como eterno e ganhou status de temporário. Junto com esse status surge
o medo de amar de verdade e o medo de viver. Assim, é mais fácil contemplar a vida do outro por
meio dos recursos que a mídia oferece.
Sobre a liquidez que tomou conta dos relacionamentos, Bauman (2004) assevera que
os casais são semi-separados; as pessoas têm dificuldade para dividir espaços e, por isso, os
relacionamentos têm o menor nível de envolvimento possível; por outro lado, o homem está
sempre abrindo campos de interação (emails, páginas de relacionamento) e a internet tomou o
lugar do cinema e passou a ser o lugar para os encontros amorosos. O número do telefone, quando
pedido, já não é divulgado mais o número residencial e sim o número do celular, que pode ser
trocado num piscar de olhos. Até o computador, que antes era compartilhado pela família ou
pessoas que viviam juntas, passou a ser um objeto pessoal.
Bauman (2004) explica que a proximidade não exige mais a contiguidade física; e esta
não determina mais a proximidade, ou seja, é possível ser íntimo de alguém sem ter tido contato
físico com ele. E as pessoas que ainda optam pelo contato físico preferem os encontros ocasionais
a relacionamentos duradouros. Assim, “os encontros costumam ser mais efêmeros, geralmente,
organizam-se de acordo com as ocasiões e se esgotam na ação, no momento em que o objetivo ou
desejo é satisfeito.” (CHAVES, 2004, p. 76).
Nesse sentido, é preciso analisar o que é intimidade. A palavra se refere, conforme
dicionário Houaiss de Língua Portuguesa (2004, p. 425), à “qualidade do que é mais íntimo,
profundo, vida doméstica, particular, proximidade”. Já o dicionário Señas de Língua Espanhola
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se refere ao verbete como: “relación estrecha de afecto; parte reservada o más particular de los
pensamientos; afectos o asuntos interiores de una persona, familia o grupo” (2001, p. 720).
Enquanto o verbete é tratado pelos dicionários como o que é particular, secreto, a
intimidade tem sido cada vez menos resguardada, o homem se mostra em uma superfície visível
como se fosse objeto de design. Por esse motivo, não há mais limites entre o real e o fantasioso
quando se trata de intimidade. O que é verdadeiro? O que é fruto da mídia para projetar ou
aniquilar uma celebridade? Como um casal pode ter relação sexual, ato extremamente íntimo,
logo depois de se conhecer?
Essas questões ainda não têm respostas prontas, pois estas vêm sendo formuladas por
intelectuais que, percebendo as mudanças para tratar do que é íntimo ao longo dos tempos, em
especial no século XXI, voltaram-se para tais questões.
E a crônica? Qual espaço ela tem na era da intimidade? O gênero que tem por característica
tratar do cotidiano e partir de reflexões de caráter intimista acerca de um determinado acontecimento
também ganhou novo significado neste século, já que ela tornou-se constante em blogs e se ousa
dizer que é possível encontrá-la até mesmo em partes de autobiografias ou nas reportagens sobre
as celebridades, de modo que o maior suporte da crônica se amplia e deixa de ser o jornal.
Considerando que a crônica, como mencionado, é o gênero que trata de forma íntima
questões cotidianas, não é novidade encontrar crônicas do século XX que já abordavam questões
tão discutidas hoje. É o caso, por exemplo, de Caio Fernando Abreu, em cujos textos, crônicas ou
em contos, já estava presente o amor líquido tão característico do século XXI; Dalton Trevisan
com crônicas, nas quais a intimidade do casal é posta às claras ao leitor, e ainda muitos outros
cronistas já abordavam questões íntimas.
Pode-se então dizer que a crônica, por ser um gênero que se vale do cotidiano, acompanhou
as mudanças na concepção do que é íntimo, do que é o amor e de como as pessoas interagem neste
tempo. Não se quer aqui menosprezar outros gêneros, como o conto, o poema, o romance, pois
estes também servem para ilustrar as transformações sociais. Antes, porém, se quer enfatizar que
“a crônica está imersa na mídia” (SIMON, 2008, p. 70), renova-se a cada dia e acompanha com
dinamicidade os acontecimentos sociais.
Tecidas tais considerações, inicia-se a análise de duas crônicas, ambas de Paulo Mendes
Campos, a partir das quais se buscou discutir a ideia de sujeito contemplador, bem como a ideia
de supervalorização da imagem que se faz do outro.
2. DA MINHA JANELA EU VEJO...
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Paulo Mendes Campos costumava dizer que se baseava nas coisas que aconteciam
dentro e fora dele para compor suas crônicas. O mineiro, que não era diplomado, tornou-se
mestre na arte de escrever. Iniciou a faculdade de odontologia, a de veterinária e a de direito, não
concluiu nenhuma, nem concretizou o sonho de ser aviador. Cumpriu o que o pai, professor de
português, profetizara: tornou-se escritor, trabalhou como tradutor de obras literárias, repórter e
redator. Faleceu em 1991, no Rio de Janeiro, aos 69 anos, deixando mais de 20 livros de crônicas
publicados.
Aqui, serão analisadas duas delas: ‘O contágio’ e ‘Minhas janelas’, ambas publicadas
em 1962, no livro “Homenzinho na ventania” e republicadas na coleção Para Gostar de Ler, da
Editora Ática, no livro “Balé do Pato”.
Em ‘Minhas janelas’, tem-se o narrador em primeira pessoa, que de início já descreve o
que as janelas significaram a vida toda para ele:
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Do sujeito sonhador ao sujeito contemplador: considerações acerca de ‘O Contágio’ e ‘Minhas Janelas’ de Paulo Mendes
Campos
“Em geral as pessoas possuíram automóveis e se recordam de todos
eles. Eu possuí janelas e ajuntei para a lembrança um sortido patrimônio
de paisagens. Minha primeira providencia em casa nova é instalar meus
equipamentos de trabalho ao lado de uma janela: mesa, máquina de
escrever, dicionário, paciência”.17**
Observa-se que a primeira impressão que se constrói do narrador é a de alguém que muda
de endereço com certa frequência e, ao chegar à nova residência, orienta-se a partir da janela, visto
que é ela quem determina o lugar em que ele irá trabalhar e o narrador confirma isso ao dizer: “A
janela faz parte do equipamento profissional do escritor” (p. 119) e da mesma forma que substitui
a máquina de escrever, também substitui a janela quando esta já não oferece o que ele precisa.
Aqui, a pergunta que se faz é: seria esta crônica de caráter biográfico e o autor estaria,
portanto, descrevendo experiências próprias? Nesse caso, estaria no trecho o olhar do próprio
cronista? Acredita-se que, ao se considerar as fronteiras da crônica permeáveis, a distância entre
realidade e ficção se diminuem. Assim, é possível reconhecer um toque biográfico nesta crônica
e então a crônica em análise seria exemplo da crônica biográfica lírica que, segundo classificou
Candido (1992) é a narrativa em tom poético da vida de alguém.
O narrador dá indícios ao leitor de que ele pode ser um escritor, pois afirma que: “Sem
janelas, a literatura seria irremediavelmente hermética, feita de incompreensíveis pedaços de
vida, lágrimas e risos loucos, fúrias e penas” (p. 119).
A reflexão sobre as janelas revela o lugar que elas ocupam na vida do narrador, como se
fossem fonte única para a produção de seus textos e único modo para que a literatura não seja
hermética, complexa. Entende-se que o que ele vê (de dentro para fora), já que vê pelas janelas,
faz com que seja um ser contemplador, pois é a pessoa que olha a vida do outro, e o apego às
janelas é apego pelo que vê e não pelo que vive. Como se sua vida estivesse condicionada a ver.
Sobre essa postura do narrador, ou melhor dizer, do cronista enquanto sujeito que olha
e, a partir daí, escreve, pois imagina o leitor se tratar de um escritor; destacam-se os versos de
Fernando Pessoa, em Autopsicografia:
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O poeta é um fingidor. Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente.
O eu-lírico do poema explica que o artista é um fingidor, pois o que diz é a realidade
sentida e não a objetiva, experienciada, vivida e, no caso do narrador da crônica, ele não vive a
realidade, só a contempla. Essa ideia se confirma na passagem seguinte: “Não falo de mim, mas
do que foram as janelas por meu intermédio” (p. 119).
Destacam-se aqui as palavras de Averbuck (2003, p. 31): “Eu nunca escrevi um livro.
Eles é que se escrevem.” Nesse caso, as janelas permitem que sejam escritos. Nota-se que a
realidade observada pelo sujeito (neste caso o narrador) torna-se parte de suas vivências e, no
texto produzido, torna-se a realidade transformada.
Seria este narrador exemplo do sujeito do simulacro, ou seja, que valoriza a imagem em
detrimento do real? Sobre esse assunto, Debord (2005) enfatiza que o sujeito nos dias de hoje
prefere a imagem, a cópia, a impressão e a aparência à coisa em si.
**
Os trechos serão referenciados com o número da página, sendo que ao final há os dados do livro de onde o texto foi extraído.
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As reflexões acerca da janela continuam, mas agora num tom melancólico, ele relembra
sua infância, perdida no tempo em que “só chegava à janela em dia de chuva [...] para ver o
mistério espetacular das águas desatadas” (p. 120). Na época, criança, o narrador não reconhecera
“a importância das janelas” (p. 120), pois a vida oferecia outros atrativos e contemplá-la, somente
em dias de chuva.
Agora, já na fase adulta, ele conta que pelas muitas janelas das casas em que viveu viu
“muitas coisas, só não vi a linda mulher nua que os outros homens já viram pelas janelas. O resto
eu vi” (p. 120). E conta que as tantas mudanças de endereço que fez e que o fizeram ver de tudo,
deixaram-no cansado e, portanto, “não quero mais ir, quero ficar; não mais procurar, conhecer o
que já encontrei; para quem sou, as alegrias e tristezas que já tenho estão de bom tamanho’ (p.
120).
Em tom de despedida da janela do apartamento de Ipanema, o narrador descreve uma
vida de amor às janelas e não às pessoas, a demonstrar a ideia aqui já mencionada de que a
sociedade demonstra a capacidade de transferir quantidades cada vez maiores de energia e atenção
do aspecto material da vida para o aspecto não-material.
Tem-se, então, um apreço e supervalorização da janela, como elemento central de sua
vida e, para finalizar a crônica, o cronista confere a ela um tom lírico: “dou adeus para o meu mar
noturno, invisível e trágico, e adeus para este mar cheio de luz” (p. 122), despedindo-se da janela,
seu lugar fantástico.
3. IMAGINAÇÃO QUE CONTAGIA
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Em relação à crônica ‘O contágio’, observou-se que o cronista, por meio do narrador,
rememora um fato de sua época de inocência; rememora seus doze anos e a época em que em sua
rua veio morar a amante e conta que: “até o momento, o impacto dessa palavra vibrava em mim
nos retalhos de conversas entreouvidas e na tímida suspeição das fitas de cinema” (p. 84).
A imaginação do menino, certamente, norteou-se pelo sentido de ser a amante aquela que
“mantém relações sexuais com outra pessoa, amásio” (HOUAISS, 2004, p. 36). A partir dessa
concepção, o imaginário do menino encontrou elementos que o fizeram sonhar com a amante,
a ponto de amá-la sem nunca tê-la visto. Assim, a imagem que ele constrói da amante é um
fenômeno que brota de sua imaginação. Como se nota no trecho: “Não tinha posto os meus
olhos numa amante de carne, não era capaz de imaginá-la...” (p. 84), ou seja, a amante era uma
incógnita para o menino. Sobre esse assunto, Bauman (2004, p. 21) destaca que há dois seres no
amor, “cada qual a grande incógnita na equação do outro”.
Ainda sem ter posto os olhos na amante, a possibilidade de estar perto de uma o abrasa:
“Eu, eu fremia de pânico e desejo de acabar com a fraude da infância e abrasar-me. Pensar na
amante, saber que ela dormia e despertava, que se mirava no espelho, que se mostrava aos olhos
de homens que não tinham amantes...” (p. 84). Além de relatar desejá-la, o narrador relata também
o pânico que o toma em pensar que ela era vista por outros homens, os quais também a desejavam.
Sobre esse desejo, Bauman (2004, p. 24) relata que “desejo e amor encontram-se em
campos opostos, o amor aprisiona e o desejo quer possuir, quer consumir”, e é esta ideia de
sentir-se consumido que o cronista passa por meio do narrador e, em sua imaginação, esse desejo
consome os outros homens que não têm amantes.
A curiosidade e o desejo acerca da amante norteiam a crônica: “Um deputado era o
amante da amante...” (p. 85). O narrador sofre em saber que o deputado a toca, a possui e sonha
em com o dia em que “A mulher bela ia ser amante do menino sortudo...” (p. 86).
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Do sujeito sonhador ao sujeito contemplador: considerações acerca de ‘O Contágio’ e ‘Minhas Janelas’ de Paulo Mendes
Campos
As esperanças do menino são sustentadas pelos sorrisos da mulher: “Ela me sorria, doce,
como as amantes não sorriem. Como sorriem as águas escondidas” (p. 87). Nesse sentido, Bauman
(2004) assinala que há mudanças nas formas de amor, ocorridas ao longo do tempo, mudanças
na forma de amar e de conceber o amor. Para o narrador, o olhar da amante é indício de que ela o
deseja, até porque não se pode esperar outro sentimento vindo dela a não ser o amor entre homem
e mulher. Assim, estaria a mulher interessada em iniciar sexualmente o menino? Ou seria o desejo
do menino que o faria crer nessa possibilidade?
A segunda questão será respondida ao final da crônica, por meio da decepção do narrador
ao constatar que: “A amante queria ser minha mãe” (p. 87). A mulher, objeto de desejo do menino,
só o queria como filho, sentir o prazer em ter perto de si uma criança, a qual, embora com desejo
aflorado, era para a amante simplesmente o filho que ela ainda não tivera.
A ideia posta por Bauman (2004) de que se vive em um tempo de exclusão dos valores sociais
em detrimento dos individuais está presente no desfecho da crônica, pois a decepção do narrador revela
seu egoísmo e sua vontade de saciar seu desejo, sem preocupar-se com o desejo e os sonhos da mulher.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ainda que Paulo Mendes Campos tenha escrito as crônicas aqui analisadas em 1962, ao
lê-las, é possível identificar, no posicionamento do narrador, atitudes tão presentes no contexto
atual. Seja de sujeito contemplador, seja de sujeito que deixa o imaginário conduzir sua vida.
Em ‘O contágio’, a amante ocupa na vida do menino o lugar de um objeto intocável,
como um objeto de consumo, que um dia se torna palpável, mas que, neste dia, não o satisfaz e
daí vem a decepção. O menino não aceita o fato de a mulher querer ser somente sua mãe, justo
porque projetara outra imagem dela, bem diferente da imagem materna.
Já em ‘Minhas janelas’, o olhar do cronista voltou-se a um narrador contemplador, o
qual se alimenta das janelas, isto é, precisa delas para escrever, para ver a vida que corre lá fora.
Retomam-se aqui as ideias de Debord (2005) de que as pessoas já não vivem diretamente a
realidade concreta, justo porque esta realidade está mediada por imagens e muitos limitam a vida
e só têm acesso a elas. E como se viu, em ‘Minhas janelas’ o narrador prima por olhar pela janela.
Debord (2005) vai além e enfatiza ainda que o homem moderno se deixou conduzir
por caminhos que o tornam incapaz de experienciar o real. Ainda que de modo inconsciente, o
narrador não vive, contempla por meio das janelas.
Diante de tais considerações, deseja-se frisar que Paulo Mendes Campos compôs as
duas crônicas com temáticas que permitem perceber como a crônica enquanto gênero literário
tem atendido as necessidades da sociedade contemporânea e promovido reflexões acerca das
transformações sociais, de modo a contribuir para o entendimento da postura do homem em
tempos em que tudo é mercadoria e as relações pessoais acontecem sem contato físico, o homem,
tem se configurado, portanto, como um sujeito cada vez mais contemplador.
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Carmem G. Burgert Schiavon, Fernanda Turnes Edom
EDUCAÇÃO AMBIENTAL A PARTIR DA CASA: O HOMEM E O
SEU AMBIENTE
ENVIRONMENTAL EDUCATION FROM HOME: THE MAN AND HIS ENVIRONMENT
Carmem G. Burgert Schiavon18*
Fernanda Turnes Edom19**
RESUMO:
O objetivo do presente estudo consiste na investigação teórica acerca das relações entre o homem
e o ambiente onde vivemos, mostrando que os espaços físicos produzem estímulos capazes de
influenciar ou interferir no comportamento humano. Como o homem contemporâneo vive uma
era de extrema tensão econômica, psicológica e emocional, muitas vezes, não percebe que aquilo
que o rodeia pode ser um intensificador, positivamente ou negativamente, de suas atitudes. A
partir desta relação entre o homem e o espaço físico, mais especificamente, a nossa própria casa,
objetivamos evidenciar o funcionamento do comportamento humano e as estratégias para a
obtenção de uma melhor qualidade de vida. Adotando a visão e os fundamentos da Educação
Ambiental, evidenciamos como é possível a aquisição de uma melhor interação entre as pessoas e
os ambientes onde estas estão inseridas apenas reorganizando o seu próprio lar, amenizando desta
forma o estresse e a concorrência tão presentes no dia-a-dia.
PALAVRAS-CHAVE: ambiente; comportamento; educação ambiental; qualidade de vida.
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ABSTRACT:
The objective of this present work is the theoretical investigation of the relationships between man and the environment he lives in, showing that physical spaces generate stimuli capable of
influencing or interfering in human behavior. Once today’s man lives an era of extreme emotional,
psychological and economic tension, very frequently, he fail to realize that whatever surrounds
him can intensify his attitudes, positively or negatively. Starting from this relationship between
man and the physical space, more specifically, our own home, we aimed to demonstrate the
functioning of human behavior and strategies to achieve a better quality of life. By adopting the
outlook and foundations of the Environmental Education we show how it is possible to acquire
a better interaction between people and the environments they belong, simply reorganizing their
own home, thus mitinganting the stress and the competition so evident in our everyday lives. KEYWORDS: environment; behavior; environmental education; quality of life.
À GUISA DE INTRODUÇÃO
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Saber exatamente o que é ambiente é de fundamental importância para que possamos
identificar e analisar o comportamento da sociedade. Sendo todo e qualquer lugar que rodeia os
seres, o meio é diretamente ativo nesta relação homem/homem e homem/meio. Muito embora o
fato de passar despercebido por muitos, o ambiente é capaz de influenciar nosso comportamento,
sendo que as influências que nós humanos, percebendo ou não, sofremos a partir do espaço físico
em que estamos inseridos, como a casa, o trabalho, a escola e mesmo em outros espaços, como
Doutora em História (PUCRS) e Professora do Instituto de Ciências Humanas e da Informação da Universidade Federa do
Rio Grande (ICHI-FURG). Coordenadora do Programa de Educação Patrimonial da FURG. Contato: cgbschiavon@yahoo.
com.br
**
Graduada em Letras Português/Inglês pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Especialista em Leitura e
Produção Textual (IEB) e Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Educação Ambiental na mesma Universidade
(PPGEA/FURG). Bolsista CAPES/REUNI. Contato: [email protected]
*
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Educação ambiental a partir da casa: O Homem e o seu Ambiente
clínicas e hospitais, por exemplo, podem ser cientificamente relacionadas e até explicadas a partir
de estudos na área da educação ambiental, a qual concentrará a nossa análise, a partir de seus
fundamentos e trajetória.
Atualmente, nossas rotinas são permeadas por influências diversas, desde o avanço progressivo
da tecnologia a mudanças de valores, fazendo com que o indivíduo possua cada vez mais um dia-a-dia
estressante, mecânico. Neste contexto, os lares constituirão o nosso foco de análise, haja vista que
estes, muitas vezes, contribuem para um comportamento individual ou social negativo.
A educação ambiental busca uma relação mais saudável do homem com o meio, ou seja,
do morador com sua própria residência, afinal, a partir do conhecimento de questões como as
apresentadas acima, poderemos conhecer e analisar como funciona o comportamento humano,
avaliar suas causas, as relações sociais contemporâneas e estas com o meio. A partir da trajetória e
dos fundamentos da educação ambiental, avaliaremos o contexto atual e buscaremos alternativas
para fazer melhorias no espaço físico, natural ou construído, de forma a buscar um positivo
comportamento individual e social do homem diante a realidade, resultando em uma vida mais
feliz e em equilíbrio, e ciente da importância do ambiente, seja ele qual for, como um agente capaz
de interferir em nosso comportamento.
ASSIM CAMINHA A EDUCAÇÃO AMBIENTAL
Já há algum tempo o homem passou a preocupar-se com a natureza, ou seja, com o seu
próprio ambiente, e percebeu que suas ações não condiziam com a preservação do mesmo. De
qualquer maneira, a evolução estava a caminho e exatamente partir da década de 50 e 60 do século
XX, que esta se expandiu por meio dos avanços tecnológicos.
Tal preocupação com o futuro da natureza, e assim, com o próprio homem, passou a ser
mais intensificado, tendo em vista que os avanços acima mencionados fizeram com que o homem
mudasse a sua relação com o meio, pois sua percepção do mesmo já estaria se transformando e,
consequentemente, a qualidade de vida das pessoas estava prejudicada. Sobre este momento, Dias
esclarece os seus passos iniciais:
Em 1962 a jornalista Rachel Carson lançava seu livro Primavera
Silenciosa, que se tornaria um clássico na história do movimento
ambientalista mundial, com grande repercussão. Ela tratava da perda
da qualidade de vida produzida pelo uso indiscriminado excessivo
dos produtos químicos e os efeitos dessa utilização sobre os recursos
ambientais. Em formato de bolso, esse livro ganhou edições sucessivas
e atingiu o grande público dos países desenvolvidos, produzindo
discussões e inquietações mundiais a respeito da necessidade de
providências para reversão do quadro descrito. (DIAS, 1998, p.20).
De acordo com a citação de Dias (1992) notamos que a “inquietação” advinda da
necessidade de alteração na relação homem/meio ambiente, a partir de 1962 tomou corpo no
mundo inteiro, tornando-se o livro uma forma de alerta às populações acerca dos transtornos
que o homem estaria propiciando com o mau uso dos recursos naturais. Com o passar dos anos,
clubes, encontros e conferências foram realizados em razão desta causa e, próximo à década de
70, surge o termo Educação Ambiental e, com este, emerge a necessidade de proteção ao que é
mais sagrado: a vida do planeta.
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Mas afinal, o que é a Educação Ambiental? Muitas podem ser as respostas, entretanto,
raras são as práticas efetivas. Originalmente, o que se tinha, eram conceitos totalmente voltados
à preservação do planeta apresentando, de certa forma, uma visão reducionista do tema, haja
vista que os termos educação e ambiental são extremamente complexos. Partimos, portanto,
do pressuposto de que não é possível discutir a Educação Ambiental senão de modo ligado às
relações do homem com ele mesmo (seu comportamento) e da relação do homem com o meio.
Vejamos, a seguir, um conceito presente na década de 70 sobre a Educação Ambiental (EA):
Em 1970 a IUCN definiu a EA como um processo de reconhecimento de
valores e esclarecimentos de conceitos que permitam o desenvolvimento
de habilidades e atitudes necessárias para entender e apreciar as
inter-relações entre o homem, sua cultura e seu ambiente biofísico
circunjacente (DIAS, 1998, p.25).
No momento em que analisamos este conceito em relação a outros anteriores à década
de 70, percebemos a notória preocupação, agora mais complexa, do tema. Antes, a natureza
constituía o principal motivo de preocupação e manifestação, sem maiores encadeamentos com
todas as outras esferas que a circundavam, como a vida dos homens. À medida que o tema foi
sendo debatido, houve um importante amadurecimento das idéias, como podemos perceber no
conceito abaixo:
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Para Mellowes (1972) a EA seria um processo no qual deveria ocorrer
um desenvolvimento progressivo de um senso de preocupação com o
meio ambiente, baseado em um completo e sensível entendimento das
relações do homem com o ambiente a sua volta (DIAS, 1998, p.25).
Desse modo, destacamos que é neste sentido que a Educação Ambiental deve permear e
semear suas sementes na busca por uma melhor qualidade de vida, além de uma vida igualitária,
seguindo os passos de Loureiro (2004). Não obstante, na atualidade, as nossas ações a favor
do meio ambiente continuam mínimas, se comparadas ao terreno das discussões; talvez isto se
explique por ser um tema abrangente demais ou por motivos que até “Deus conheça”. O fato é que,
muito além de maltratarmos e explorarmos – de forma completamente inadequada – os recursos
naturais do meio do qual fazemos parte, maltratamos e exploramos a nós mesmos, haja vista
que “os modos de vida humanos individuais e coletivos evoluem no sentido de uma progressiva
deterioração” (GUATTARI, 1999).
Assim, esta nova maneira de ser e lidar com os outros representa a base das relações sociais
que, por sua vez, são pouco sinceras, coerentes e acolhedoras. Na maioria das vezes encontramse alicerçadas em conveniências, interesses materiais sendo apenas relações superficiais que,
somatizadas, trazem frustração e aquele contínuo sentimento de que “estou sempre pronto para o
ataque”, percebendo a vida como uma guerra. De qualquer forma, com tantas transformações na
sociedade, fomos construindo e enraizando nas nossas rotinas uma nova cultura, ou seja, aquela
caracterizada pelo individualismo, onde o ter se sobrepõe ao ser.
Segundo Carlos Loureiro (2004) devido às proporções que as ações do homem chegam,
torna-se impossível falar em Educação Ambiental de forma singular, e desse modo, ele critica que
ainda prevaleça o pensamente voltado apenas às questões ecológicas quando, na verdade, existe
muitos fazeres e pensares desta educação, enfim, a ambiental, conforme ele destaca abaixo:
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Educação ambiental a partir da casa: O Homem e o seu Ambiente
No quadro da ampla variedade de vertentes, tanto do pensamento
ambientalista, como das próprias correntes pedagógicas da educação,
existem propostas educativas voltadas à questão ambiental que se
inserem num gradiente que enseja a mudança ambiental conquistada
por intermédio de três possibilidades: a mudança cultural associada à
estabilidade social; a mudança social associada à estabilidade cultural;
e finalmente, a mudança cultural concomitante à mudança social
(LOUREIRO, 2004, p.11).
Desse modo, percebemos, com base na citação acima, que não há como dissociar a questão
atual da Educação Ambiental, no que se refere à cultura e à sociedade, pois são dois aspectos
dinâmicos, que se movimentam, se expressam e modificam qualquer realidade; enquanto que, a
nova cultura – aqui chamada de individualista – seca e estática, não implica em transformação
alguma, seja de maneira estética nas relações sociais ou nas relações do homem com o meio.
Sobre o sujeito histórico, aquele capaz de transformar, porém abafado por vertentes moralistas,
Loureiro “(...) alerta que é preciso coerência, porque essa corrente moralista, na prática, pode
estar esvaziando o terreno da ação política, por colocar na transformação do comportamento
individual uma centralidade que não corresponde ao seu papel na mudança social” (LOUREIRO,
2004, p.12).
É nesse ponto que queremos focar a nossa crítica e análise, pois o comportamento
individualizado vai contra a Educação Ambiental, tendo em vista que não é transformador, não
cria e não evolui. Com a consciência de que as transformações sociais ocorrem num nível coletivo,
e que, inversamente, criamos ao longo dos tempos uma sociedade individualista, traçamos um
paralelo entre a Educação Ambiental e o comportamento social avaliando, respectivamente, a
sua trajetória e os seus fundamentos juntamente com as relações da sociedade, entre si e com o
meio. Com maior enfoque na menor sociedade existente, aquela que reside num mesmo espaço,
podendo ser a família ou apenas moradores de uma mesma casa; em outras palavras, buscamos
compreender como acontece essa relação dos moradores com o seu próprio ambiente.
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O COMPORTAMENTO HUMANO E SUAS CAUSAS
Para que entendamos um pouco mais sobre as relações sociais entre os homens e estes
com o meio, é fundamental que façamos alguns esclarecimentos sobre o comportamento humano,
como ele ocorre e suas possíveis causas.
Nossa casa ou o lugar onde moramos e guardamos nossos pertences, além de nossa memória,
depois de nosso corpo, é o nosso mais restrito e íntimo ambiente. Interagimos com a nossa residência
e com as pessoas que ali habitam em boa parte do nosso tempo, portanto, é fundamental sabermos
o quanto esta inter-relação envolvendo a pessoa e o ambiente torna-se importante, pois está ligada,
diretamente, à qualidade de vida de cada indivíduo presente naquele espaço. Quanto mais tivermos a
consciência daquilo que nos rodeia, mais entenderemos o porquê de certas inquietudes, depressões,
ansiedades e até estresse. A partir do cuidado na relação como interpretamos aquilo ou quem nos
cerca, teremos o entendimento dos espaços, bem como dos seus efeitos sobre nós.
No momento em que paramos para pensar no comportamento humano, muitos aspectos
nos vêm à mente; tal fato decorre da sua extrema complexidade. Nenhum ser vivo é despido
de comportamento, desde os homens até as plantas, até mesmo minúsculos vírus possuem um
comportamento específico. O que sabemos é que todo e qualquer comportamento está relacionado
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com questões históricas, temporais e ambientais, tais considerações levaram Skiner a afirmar que
“todos nós conhecemos milhares de fatos sobre o comportamento. Realmente, não há assunto
com o qual pudéssemos estar melhor relacionados, pois estamos sempre na presença de pelo
menos um organismo que se comporta” (SKINER, 1978, p.27).
O homem tem suas características comportamentais modificadas ao longo de sua
evolução e isso se deve às grandes transformações culturais e ambientais, as quais, inclusive,
não estão dissociadas como comentadas anteriormente. Nas transformações culturais salientamos
o capitalismo crescente, no qual os bens materiais é que definem o caráter de alguém, pois, em
linhas gerais:
(...) partimos do entendimento de que o modo de organização da
sociedade vigente se baseia na aceleração da produção de riquezas
materiais alienadas para permitir a reprodução e acumulação do
capital; na apropriação privada e desigual do patrimônio natural; na
transformação dos bens de uso em bens de consumo (...). (LOUREIRO,
2004, p. 48)
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Desta forma, a inversão de valores implica numa corrida constante pelo ter, o que,
consequentemente acelera o ritmo da sociedade. Assim, o homem vive em busca do dinheiro,
do conforto, mas também de status; sem perceber ou, tardiamente percebendo, muda seu
comportamento e a qualidade estética, sentimental e subjetiva de suas relações interpessoais e
destas com o meio ambiente. Aqui podemos relacionar tal realidade com a educação, afinal, a “(...)
educação que procura entender a realidade objetiva sem considerar os sujeitos e a subjetividade
é objetivismo e negação da ação histórica (assim, o máximo que podemos fazer é interpretar o
mundo e não o transformar)” (LOUREIRO, 2004, p 29).
O ambiente no qual estamos vivendo hoje está em transformação, visto que o
comportamento humano encontra-se no meio de uma crise de transição; a sociedade parece não
saber mais que rumo tomar. Nesta direção, saber em que consiste o comportamento parece não
ser uma tarefa muito simples, tendo em vista que se trata de um processo cheio de minúcias e
sutilezas específicas de cada ser e de suas percepções sobre os outros seres e, ainda, sobre o meio
ambiente. Desse modo, concordamos com Skiner, no momento em que ele afirma que:
O comportamento humano é uma matéria difícil, não porque seja
inacessível, mas porque é extremamente complexo, desde que é um
processo, e não uma coisa, não pode ser facilmente imobilizado para
observação. É mutável, fluido e evanescente, e, por esta razão faz
grandes exigências técnicas engenhosidade e energia do cientista
(SKINER, 1978, p.27).
Pensamos incessantemente no comportamento humano e nas suas causas. Questionamonos se o ambiente onde, por exemplo, um indivíduo criminoso vivia quando criança era saudável e
limpo, se existia paz ao seu redor ou se ele tinha alimento para sustentar o corpo, se era espancado,
abusado e se os pais não cometiam os mesmos crimes que hoje ele comete. Loureiro (2004) em
suas reflexões diz que as relações sociais são muito mais complexas do que podemos supor,
especialmente, quando nos deparamos com as situações de desigualdade de classes e opressão,
pois vão ao encontro da idéia de educação emancipatória.
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Educação ambiental a partir da casa: O Homem e o seu Ambiente
O comportamento e suas respectivas causas são tão importantes que somos analisados
e analisamos a todo momento e, grande parte das vezes, fazemos sem perceber, a partir de uma
comunicação, verbal ou não, pois:
Estamos sempre envolvidos em algum tipo de processo emocional,
embora possamos, às vezes, disfarçar sua expressão. Podemos não
expressar a emoção, mas seguramente, a estamos vivendo dentro de
nossos corpos. De fato, os movimentos de nossos corpos comunicam
efetivamente nossos estados internos (FIAMENGHI, 1999, p.35).
Desse modo, as causas do comportamento são infinitas. A astrologia, numerologia,
genética, a religião, o partido político, a situação econômica e até mesmo a estrutura do corpo
do indivíduo muitas vezes é considerada responsável pelas suas ações comportamentais. Skiner
afirma que “qualquer evento conspícuo que coincida com a emissão de um comportamento
humano pode bem ser tomado como causa” (SKINER, 1978, p. 35).
Segundo o próprio Skiner, as causas do comportamento podem ser internas e outras
variáveis, ou seja, neurais, psíquicas e interiores conceptuais a aquelas definidas pelo meio.
Ainda, de acordo com Skiner, não há dúvidas de que o ambiente tem a capacidade de interferir
no comportamento humano, haja vista que “não se nega a importância, qualquer que seja a nossa
filosofia do comportamento, do mundo que nos cerca. Podemos discordar quanto à natureza ou
extensão do controle que o ambiente mantém sobre nós, mas que há algum controle é óbvio. O
comportamento deve ser apropriado à ocasião” (SKINER, 1978, p. 132).
EDUCAÇÃO AMBIENTAL E AS RELAÇÕES SOCIAIS DENTRO DE CASA
Após analisarmos a trajetória da Educação Ambiental e percebermos que o homem,
querendo ou não, está em constante processo comportamental, seja por suas causas internas ou
mesmo por interferência do meio; iremos agora atentar, mais especificamente, para as relações
do homem com o próprio homem e com o meio. Para tanto, traçamos um paralelo desta vez com
a realidade dentro de casa, afinal, muitas das questões problemáticas encontradas na sociedade,
acontecem no seio da família, no interior de cada residência, entre os seus moradores, pois os
agentes, passivos ou ativos da rua, são exatamente os mesmo de cada lar; em outras palavras, o
homem contemporâneo com seus valores éticos, estéticos e suas subjetividades.
Sobre subjetivismo, Guattari (1999) diz que, é o homem enquanto um ser envolvido
e envolvente no meio em que vive e não meramente um objeto neste meio ou pertencente do
mesmo, ou seja, “é a relação da subjetividade com uma exterioridade - seja ela, social, animal,
vegetal, cósmica - que se encontra assim, comprometida numa espécie de movimento geral de
implosão e infantilização regressiva” (GUATTARI, 1999, p.08).
De acordo com essa perspectiva, tais aspectos levantados por Guattari (1999) como o
empedramento dos sentimentos humanos acarretam na dificuldade em se obter qualidade nas
construções dos relacionamentos sociais. Os códigos, signos e palavras ainda são os mesmos, mas
a sensibilidade e os valores éticos do homem em relação ao meio, e especificamente, em relação
ao próprio homem, estão fragilizados.
O que é possível avaliar é que, para a mudança coletiva acontecer, não é necessário um
passe de mágica, apenas consciência, num primeiro momento individual para que, no segundo
momento, possa ser geral. Sobre este ponto, Dias (1992) afirma que a questão da contribuição
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individual para o início do processo de transformação social e emancipatória, tão defendida e
abordada por Loureiro (2004), consiste na “fórmula” para a aquisição de melhores comportamentos
e relações dentro de casa, pois, segundo ele:
De fato, as mudanças devem começar dentro de cada um de nós. Após
uma revisão de nossos hábitos, tendências e necessidades, podemos,
de certa forma, através da adoção de novos comportamentos, dar nossa
contribuição da degradação ambiental e para a defesa e promoção da
qualidade de vida (DIAS, 1998, p.248).
Neste sentido, para melhorarmos nossas relações dentro de casa, precisamos começar olhando
para nós mesmos, percebendo que a nova cultura criada por nós, a do individualismo, entrou em nossas
residências sem pedir licença e que muito pouco estamos fazendo para reverter este quadro.
Em função desse novo modelo de sociedade e de vida, não temos mais tempo para
dedicarmos tempo a nós mesmos e a quem amamos. Vivemos uma vida mecânica, literalmente,
“correndo atrás da máquina”, da casa e do carro, vivemos em busca de mais conhecimento,
promoções, títulos. Somos a cada dia homens mais intelectualizados, realmente sabidos, mas
não percebemos quando nosso companheiro ou companheira tem um problema, não notamos
que os filhos deixaram de ser criança e precisam de exemplos corretos e de orientação, não
sabemos sequer o maior sonho daquele que convive dia-a-dia do nosso lado, muitas vezes nem
nos conhecemos direito, portanto:
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O fato é que o exponencial desenvolvimento tecnológico a que estamos
assistindo vem se fazendo acompanhar de profundas regressões nos planos
social e cultural, com um perceptível embrutecimento das formas sensíveis
de o ser humano se relacionar com a vida (DUARTE JR, 2006, p.70)
Todas estas questões interferem diretamente nas percepções humanas e nas representações
sociais. E, a partir daquilo que o homem percebe, é que poderão ser desenvolvidos seus sentidos
e sentimentos. Se não existe essa percepção, por exemplo, de que grande parte das pessoas não
estão felizes, e sim muitas doentes, com depressão, síndrome do pânico e de outras patologias,
não há como iniciar um processo de transformação de preservação do homem e do seu meio
ambiente, tendo em vista que:
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Estimular o processo de auto-aperfeiçoamento estético tem grande
significado para o enriquecimento da vida espiritual do futuro egresso.
Se nas condições da revolução científico-técnica é paradoxal conceberse um especialista incapaz de se orientar entre os novos conhecimentos,
também o é concebê-lo sem a capacidade de discernir no mundo dos
valores estéticos, pois a autoridade cada vez maior da ciência e da técnica,
a “invasão” da matemática em praticamente todos os confins da atividade
social têm engendrado a ameaça da unilateralidade no pensamento e a
“robotização” da vida espiritual, isto é, de que fórmulas lógico-formais da
ciência se projetem ao mundo das emoções e sentimentos. A capacidade
de auto-aperfeiçoamento (auto-educação), por tal motivo torna-se um
imperativo da formação cultural integral (ESTÉVEZ, 2003, p. 99).
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Educação ambiental a partir da casa: O Homem e o seu Ambiente
Destacamos que esse quadro, no qual predomina o saber científico e objetivo, encontrase presente em nossos lares. Por mais absurdo que pareça, o ato de dialogar perdeu seu espaço
dentro de casa, os moradores, de um modo geral, pouco se conhecem, pois não conversam. Um
alto índice de famílias e/ou moradores não mantém a prática do diálogo e mesmo que queiram,
muitas vezes, por nem se conhecerem direito, não sabem como fazer isso.
Duarte Jr (1999) diz então que os afetos e os sentimentos constituem a base para uma
transformação que busca o diálogo, a conversa como um instrumento para tal, parece-nos ironia,
pois atualmente tais aspectos muitas vezes são considerados “luxo” dentro de casa, haja vista
que “ninguém modifica a consciência do mundo separado, pois, se assim fosse, seríamos seres
biológicos como psiquismo definido em si mesmo. Seríamos nômades, cuja ação comunicativa
perderia sentido – teríamos monólogos e não diálogos (LOUREIRO, 2004, p. 29). Assim, os laços
afetivos estão se desgastando e, talvez por esta razão é que vejamos tantas manchetes tristes nos
noticiários, as quais já se tornaram até “normais”, sendo que, antigamente, seriam surreais. Quem
poderia imaginar pais jogando os próprios filhos pela janela do prédio, filhos tirando a vida – de
forma cruel – de seus pais por dinheiro e assim, inúmeros casos extremamente preocupantes, os
quais “definem” o perfil – individualista – de uma parte da sociedade e das relações sociais que
estamos produzindo.
Com o individualismo predominante nas relações não há sensibilização, pouco pessoal
quanto mais social. Na atualidade, inevitavelmente, precisamos de sensibilização, de valoração
do abstrato, do subjetivo, do ser, para que tenhamos profundidade e verdade nas nossas interações.
Obviamente, não basta pensarmos na questão e não agirmos; não obstante, a ação está, diretamente,
ligada a uma reversão de valores atuais, os quais começam num nível inconsciente da psique
humana, ou seja, na utilização dos sentidos pelo sentir e não pela sua utilização mecânica, afinal:
95
O sujeito não é evidente: não basta pensar para ser, como o proclamava
Descartes, já que inúmeras outras maneiras de existir se instauram fora
da consciência, ao passo que o sujeito advém no momento em que o
pensamento se obstina em apreender a si mesmo e se põe a girar como
um pião enlouquecido, sem enganchar em nada dos Territórios reais
da existência, os quais por sua vez derivam uns em relação aos outros
(GUATTARI, 1999, p.17).
Sem a prática da conversação ou da expressão de seus sentimentos e emoções, não
poderemos caminhar rumo à evolução da humanidade, se o homem parece fazer questão de
se desintegrar, de se afastar dos outros, de viver o individualismo. Portanto, uma maneira de
reorganizar e desenvolver as relações sociais encontra respaldo no ato de conversar, talvez o
primeiro passo que desencadeará mudanças em nós mesmos, no seio de nossas residências e nas
nossas relações sociais estabelecidas fora do ambiente de casa.
Se nos conscientizarmos que nossa a casa deve ser o melhor lugar do mundo, pois ali
estão as pessoas que mais nos interessam, e o lugar é o ambiente onde nos sentirmos seguros,
valorizados e amados, estaremos fortalecidos para transformar as realidades que a vida nos impõe
na rua, no trabalho e dentro de nós mesmos. Afinal, como já discutimos anteriormente, o meio é
capaz de interferir em nosso comportamento, desta feita, um lar harmonioso desde a sua higiene,
organização espacial, mobílias, cores e bons relacionamentos interferirá positivamente nas nossas
ações. Segundo Lee (1977), apesar de uma casa ser um prédio simples, deve ser o mais flexível
que qualquer outro, pois ali moram diferentes pessoas com cognições e personalidades diversas.
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Carmem G. Burgert Schiavon, Fernanda Turnes Edom
Por tal motivo o autor afirma que por tão complexa, as imperfeições na sua edificação e na própria
organização da mesma, podem acarretar em sérias consequências:
O desenvolvimento das camadas interiores da personalidade tem por
berço a casa; as estruturas sociais do casamento e do parentesco aí
são alimentadas. À semelhança de nossas roupas, a casa torna-se uma
extensão do ser e da personalidade da família (LEE, 1977, p. 74).
Em outras palavras, o cuidado com os eventos dentro de casa, desde a sua organização
física e os relacionamentos ali existentes, definirá a sua personalidade e o seu comportamento
em qualquer setor da vida. Digamos que, uma residência bem organizada, aliada a moradores
que conversam com a intenção de interação e conhecimento do próximo, um desenvolvimento
saudável físico e psicológico dos indivíduos. E, estas mudanças, irão interferir de modo positivo
na sociedade em geral, podendo assim, proporcionar a mudança social tão almejada pela Educação
Ambiental e por seus estudiosos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
96
Na atualidade, a nossa sociedade não tem espaço, nem tempo para todas as questões
abstratas da natureza humana. Nosso tempo, espaço, pensamento e atitude estão voltados para o
desenvolvimento dos fatores profissionais e financeiros. O capitalismo – acirrado – apoderou-se
dos sentidos das pessoas, de suas percepções e de seus valores, e não parece querer devolvê-los.
Nesta direção, precisamos estabelecer (pôr em prática mesmo) uma transformação
comportamental e assim coletiva, como busca a Educação Ambiental a partir de seus fundamentos,
visando o equilíbrio entre o homem e o meio, aqui abordados – e entendidos – enquanto uma
visão sócio-ambiental.
Considerando as questões acima, concluímos que se pequenas mudanças forem feitas
na estrutura física e comportamental dentro das residências, a partir de um movimento singular
(em um primeiro momento), chegaremos ao futuro a uma transformação da sociedade e das suas
relações entre si e com o meio de modo a termos um homem mais feliz e com qualidade de vida.
REFERÊNCIAS
DIAS, Genebaldo. Educação Ambiental: princípios e práticas. São Paulo: Global, 1998.
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DUARTE JR., João Francisco. Os sentidos dos sentidos: educação dos sentidos (do)
sensível. Curitiba: Criar Edições, 2006.
ESTÉVEZ, Pablo René. A educação estética: experiências da escola cubana. São
Leopoldo: Nova Harmonia, 2003.
FIAMENGHI, Geraldo. Conversas dos bebês. São Paulo: Hucitec, 1999.
GUATTARI, Felix. As três ecologias. Campinas; São Paulo: Papirus, 1999.
LEE, Terence. Psicologia e meio ambiente. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1977.
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Educação ambiental a partir da casa: O Homem e o seu Ambiente
LOUREIRO, Carlos. Trajetória e fundamentos da Educação Ambiental. São Paulo:
Cortez, 2004.
SKINER, B. F. Ciência e comportamento humano. 4. ed., São Paulo: Editora Livraria
Martins Fontes, 1978.
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Clisia Mara Carreira, Lúcia Regina Robeiro, Mariana de Oliveira Mauro, Rafaela Pomin, Rodrigo Juliano Oliveira
EFEITOS BIOLÓGICOS DA SPIRULINA SP. E SUAS POSSÍVEIS
IMPLICAÇÕES NA PREVENÇÃO DO CÂNCER
SPIRULINA SP. BIOLOGICAL EFFECTS AND POSSIBLES IMPLICATIONS IN CANCER
PREVENTION
Clisia Mara Carreira20*
Lúcia Regina Robeiro21**
Mariana de Oliveira Mauro
**
Rafaela Pomini22***
Rodrigo Juliano Oliveira23****
RESUMO:
A escolha por uma dieta rica em alimentos funcionais, capazes de promoção e/ou manutenção
do estado de saúde nos seres humanos, pode contribuir para o não aparecimento de doenças
crônicas como o câncer. A cianobactéria Spirulina sp. é um alimento funcional utilizado a muitos
anos por alguns grupos sociais, dentre eles destacam-se os Astecas. Atualmente, os valores
nutricionais e terapêuticos desta alga são amplamente pesquisados com resultados positivamente
significativos na prevenção de anemias, desnutrição, obesidade, hipoglicemias, hipolipidemias
e ainda causa diminuição da replicação de determinados vírus. Apesar destas mais diferentes
atividades descritas, esta revisão bibliográfica teve por objetivo apresentar conhecimentos a cerca
da capacidade da Spirulina sp. apresentar atividades antimutagênica e antioxidante compatíveis
com a prevenção de danos no DNA e por conseqüência do câncer.
PALAVRAS-CHAVE: Alimentos funcionais, Spirulina sp., antioxidante, antimutagênica.
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ABSTRACT:
The choice of a rich diet in functional foods able to promote and / or health maintenance in humans,
can contribute to the not appearance of chronic diseases such as cancer. The cyanobacterium
Spirulina sp. is a functional food used for many years by some social groups, among these
stands the Aztecs. Currently, therapeutic and nutritional values of algae are widely researched
with significant positive results in prevention of anemia, malnutrition, obesity, hypoglycemia,
hypolipidemia and also causes a decrease in replication of certain viruses. Despite these many
different activities described, this literature review aimed to provide knowledge about the
Spirulina sp’s capacity of presents antimutagenic and antioxidant activities compatible with the
prevention of DNA damage and consequently cancer.
KEYWORDS: Functional foods; Spirulina sp.; antioxidant; antimutagenic.
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INTRODUÇÃO
A maioria dos ambientes naturais oferece grande variedade de alimentos para aqueles que
os habitam. Sendo assim, a alimentação deveria envolver, nos animais, a escolha por uma dieta
que proporcionasse maior equilíbrio entre os nutrientes e favorecesse o crescimento saudável. No
entanto, este equilíbrio não tem sido alcançado e a mudança no comportamento alimentar animal
Departamento de Ciências Farmacêuticas, Centro de Ciências da Saúde – CCS, Universidade Estadual de Londrina – UEL,
Londrina, PR.
**
Programa de Pós-graduação em Biologia Celular e Molecular, Instituto de Biociência de Rio Claro – IBRC, Universidade
Estadual Paulista – UNESP, Rio Claro, SP.
***
Centro de Estudos em Nutrição e Genética Toxicológica - CENUGEN, Centro Universitário Filadélfia – UniFil, Londrina – PR.
****
Coordenadoria de Educação Aberta e a Distância, Universidade Federal do Mato Grosso do Sul – UFMS, Campo Grande – MS.
*
TERRA E CULTURA - No 54 - Ano 28 - Janeiro a Junho de 2012
Efeitos biológicos da spirulina sp. E suas possíveis implicações na prevenção do câncer
bem como o aumento de apetite, ocorrem principalmente pelo déficit de determinados elementos
nutritivos na dieta (SHTONDA & AVERY, 2006).
Esta falta de adequação nutricional é compatível com o grande número de doenças que
acometem as diferentes populações e determinam mudanças no biótipo das mesmas. Na tentativa
de melhorar este quadro as pessoas são orientadas a fazerem uso de alimentos funcionais que
poderá auxiliar em mudanças que facilitarão o restabelecimento de quadros de adequação
alimentar e por conseqüência de saúde.
ALIMENTOS FUNCIONAIS
Pode-se encontrar na dieta dos seres humanos um grupo de alimentos ricos em nutrientes
que contribuem com o estado saudável do indivíduo e a estes se dá o nome de alimentos funcionais
(BORGES, 2001). Tais alimentos, para ser assim designados, devem fazer parte da alimentação
usual, de forma a não ser utilizado apenas com o intuito de tratar ou curar doenças. Consumido
desse modo, necessita proporcionar, em quantidade não tóxica, atividade metabólica capaz de
atuar na redução do risco de desenvolvimento de doenças crônicas, incluindo o câncer (MILNER,
1999) e alterações no DNA responsáveis pela ocorrência de síndromes genéticas (OLIVEIRA et
al., 2009).
Juntamente com os fatores genéticos e idade, a dieta é considerada importante fator de
risco para o desenvolvimento de tumores. Cerca de 50% dos cânceres tem relação direta com
hábitos alimentares (WILLIAMS et al., 1999) e, de acordo com o instituto americano de pesquisa
para câncer (AICR, 1997) 30 a 40 % de todos os cânceres podem ser prevenidos por meio de dietas
adequadas associadas a atividades físicas e manutenção do peso corporal. Supõe-se também que
os cânceres, em geral, ocorrem devido à instabilidade genômica e dentre estas se cita as mutações.
Logo, infere-se uma correlação indireta entre a prevenção de câncer e mutações por meio de
dietas.
Muitos alimentos são capazes de prevenir o aparecimento do câncer, dentre eles
se destaca os antioxidantes. Essas substâncias agem como protetores capazes de inativar
significativamente espécies reativas de oxigênio impedindo, dessa forma, os possíveis
danos oxidativos. A superóxido dismutase, catalase e glutationa peroxidase são exemplos de
antioxidantes naturalmente presentes nas células humanas. Além desses, antioxidantes como as
vitaminas E e C, carotenóides e polifenóis podem ser adquiridos por meio da ingestão de frutas
e verduras ( AGARWALL, 2000).
Além dos efeitos antioxidantes, são muitos os mecanismos capazes de inibir a mutagênese
e/ou carcinogênese por meio da ingestão destas substâncias. Tais mecanismos incluem a ativação
de enzimas envolvidas na desintoxicação cancerígena, alteração no metabolismo de estrógenos,
efeitos sobre metilação do DNA, reparação dos efeitos antiproliferativos, entre outros (MALIN
et. al., 2003).
As catequinas, encontradas nos chás verde e preto, por exemplo, são capazes de
inibir citocromo P450 e cicloxigenase, bem como induzir apoptose de células tumorais. Os
limonenos, presentes em frutas cítricas, atuam na ativação de proto-oncogenes enquanto
os retinóides promovem inibição de enzima tumoral, e ativam apoptose por indução das
caspases. Os resveratróis, localizados nas cascas de uva, causam indução de morte celular
cancerígena e são capazes de inibir a interação de hormônios androgênicos com seus
receptores, principalmente em células de câncer prostático (FERRARI & TORRES, 2002;
ISHII et al. 2008).
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Clisia Mara Carreira, Lúcia Regina Robeiro, Mariana de Oliveira Mauro, Rafaela Pomin, Rodrigo Juliano Oliveira
Frente a estas considerações e tendo em vista a vasta gama de componentes nutricionais
cujos efeitos anticarcionogênicos ainda não foram bem estudados, torna- se inegável a importância
do papel da nutrição no desenvolvimento de terapias contra o câncer (DONALDSON, 2004),
bem como em testes na área da genética toxicológica que sejam capazes de avaliar os efeitos da
dieta sobre a prevenção de danos no DNA e por conseqüência sobre seus efeitos antigenotóxicos,
antimutagênicos, anticarcinogênicos e antiteratogênicos. Assim, a presente pesquisa propõe-se a
conhecer um pouco mais sobre algumas algas que fazem parte de dieta humana e podem assumir
estas atividades preventivas anteriormente referidas.
CIANOBACTÉRIAS
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As cianobactérias são os organismos mais antigos existentes na Terra e remontam
registros fósseis de cerca de 3,5 bilhões anos atrás. Estas bactérias evoluíram e produziram uma
impressionante variedade de compostos biologicamente ativos (BERRY et al.,2008).
Erroneamente conhecidas como algas azuis, as cianobactérias, estão amplamente
distribuídas em ambientes aquáticos e terrestres incluindo habitats extremos como desertos,
fontes termais e regiões polares (STEWART et al., 2006).
Por serem organismos tão antigos, as cianobactérias são importantes para o estudo
primitivo dos organismos terrestres. Vários estudiosos aceitam a possibilidade de os cloroplastos
de plantas e algas terem derivado de um ancestral da cianobactéria que teria sido fagocitado
por células eucarióticas, resistido ao processo de digestão intracelular e permanecido dentro
destas por uma relação de simbiose. Outro fato que reforça esta teoria é acompanhamento do azul
esverdeado bacteriano na evolução eucariótica (TOMITANI et al., 2006).
Tradicionalmente o grupo é dividido em 5 subgrupos que incluem: (I) Chroococcales;
(II) Pleurocapsales; (III) Oscillatoriales; (IV) Nostocales e (V) Stigonematales. Ambos os
organismos do subgrupo I e II são unicelulares coccoides, porém as células da subdivisão I
dividem-se por fissão binária enquanto as do grupo II podem sofrer também múltiplas fissões
produzindo células pequenas e facilmente dispersas chamadas baeocytes. As células dos grupos
III e IV agrupam-se em filamentos de complexidade e morfologia variáveis (TOMITANI et al.,
2006).
Os filamentos de Oscillatoriales apresentam apenas células vegetativas, porém nos
subgrupos Nostocales e Stigonematales, as células podem diferenciar-se morfologicamente e
ultra-estruturalmente em: heterocysts distintos, que são células capazes de fixar nitrogênio em
condições aeróbias ou akinetes, células de repouso que sobrevivem à ambientes tais como frio e
dessecação (TOMITANI et al., 2006).
Algumas cianobactérias são importantes agentes na disponibilidade global de nitrogênio,
desempenhando, dessa forma, papel significativo no ciclo do nitrogênio, oxigênio e carbono. Em
determinadas condições esses organismos podem dominar o fitoplancton dentro de uma massa
aquática e sofrer evolução, denominadas blooms (MEEKSI et al., 2002).
Existem relativamente poucas referências científicas na literatura médica que relatem
o uso destas algas, uma vez que estes relatórios começaram em 1949. Porém, sabe-se deste esta
época que as cianobactérias podem produzir toxinas prejudiciais ao ser humano. Relatos são
descritos por pessoas contaminadas em exposição ocupacional ou recreativa. Os sintomas incluem
dermatites agudas, distúrbios gastrointestinais e erupções cutâneas pruriginosas (STEWART et
al., 2006). No entanto, apesar desta adversidade algumas cianobactérias tais como a Spirulina sp.
tem sido consumida na dieta humana.
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Efeitos biológicos da spirulina sp. E suas possíveis implicações na prevenção do câncer
EFEITOS BIOLÓGICOS DA SPIRULINA SP.
A Spirulina sp. é uma cianobactéria pertencente à família Oscillatoracea (Blinkova et
al., 2001). Sob o microscópio, a aparece arranjada em filamentos cilíndricos não ramificados de
cor azul esverdeada (CIFERRI, 1983). Por ser facilmente cultivada em águas alcalinas esse tipo
de alga aparece em grande quantidade na África, Ásia, América do Norte e Sul (DURAN et al.,
2007).
O microorganismo filamentoso e unicelular é capaz de substituir alimentos convencionais,
tamanha sua riqueza nutricional (DÃO-IUN et al., 2005). Relatos indicam seu consumo na
civilização Asteca, há mais de 1000 anos, e por nativos da África Central como aqueles que
viviam nas proximidades do Lago Chade (RAMIREZ et al., 2002).
Por seu elevado teor de aminoácidos, carotenóides e minerais como ferro, a Spirulina sp. é
amplamente utilizada comercialmente como aditivo alimentar (KHAN et al., 2005 ) e incorporada,
com resultados significativos, à dieta de crianças desnutridas (SIMPORE et al., 2006).
Simpore et al. (2006), realizou experimento a fim de avaliar o impacto de integração de
spirulina e misola (complexo de milho, soja e amendoim) na dieta de crianças subnutridas. 550
crianças foram incluídas neste estudo sendo que 455 apresentavam marasmo grave, 57 marasmo
de gravidade média e 38 Kwashiorkor (forma de desnutrição decorrente principalmente da falta
de proteínas) mais marasmo. A vigência do estudo foi de oito semanas e os resultados apontaram
significativa evolução nutricional e biológica das crianças em questão, tanto na administração
de Spirulina associada à refeição tradicional quanto na sinergia apresentada entre Sprirulina
associada a misola.
Simpore havia realizado ainda outro experimento em 2005, onde a Spirulina foi utilizada
como complemento nutricional em crianças subnutridas e imunodeprimidas pelo vírus HIV. No
experimento referido, dois grupos de crianças foram comparados: 84 estavam infectados com
HIV e 86 eram HIV-negativos, ambos subnutridos. O complemento foi introduzido à alimentação
por oito semanas e os resultados apontaram ganho de peso médio de 15 e 25g por dia nos doentes
infectados pelo vírus HIV e naqueles soro negativos, respectivamente. 81,8% das crianças não
infectadas se recuperaram enquanto 63,6% dos HIV positivo obtiveram êxito. Assim, observa-se
que a Spirulina é capaz de contribuir para a recuperação de peso em crianças infectadas pelo HIV
e ainda mais rápido naquelas que não possuem o vírus (SIMPORE et al. 2005).
Além de efeitos positivos nutricionais, a Spirulina também pode ser considerada um
importante agente terapêutico. Estudos apontam sua eficácia em prevenir anemias (KAPOOR,
1998), obesidade (DURAN et al., 1998) além de possuir propriedades hipoglicêmicas (PARIKH
et al., 2001), hipolipídicas (MAZO et al., 2004. IWATA et al., 1990 ) e efeitos na diminuição da
replicação viral (KHAN, 2005; AYEHUNIE, 1998).
Em pesquisa realizada por Kapoor et al. (1998) avaliou-se o efeito da Spirulina com
relação ao ferro presente no organismo de camundongos durante a gravidez e lactação. No
experimento proposto, as dietas contendo Spirulina tanto sozinha quanto em combinação com
glúten de trigo, resultou em maior depósito de ferro e aumento na quantidade de hemoglobina
durante a primeira metade da gravidez e lactação. Tal resultado foi significativamente maior do
que as dietas dos outros grupos que continham: caseína e glúten de trigo. Desta forma, observou-se
que a Spirulina demonstrou eficácia na melhoria do estado nutricional de ferro em camundongos
tanto durante gravidez quanto no período de lactação.
Parikh et al. (2001) realizaram experimento com o objetivo de avaliar o papel
hipoglicêmico e hipolipêmico da Spirulina em 25 indivíduos com diabetes tipo II. A eficácia da
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Clisia Mara Carreira, Lúcia Regina Robeiro, Mariana de Oliveira Mauro, Rafaela Pomin, Rodrigo Juliano Oliveira
suplementação com Spirulina (2 g/dia, durante 2 meses) foi determinada por meio dos níveis de
glicose no sangue, níveis de hemoglobina glicosilada e perfil lipídico dos indivíduos diabéticos.
Dois meses de suplementação resultaram em uma redução significativa da glicemia em jejum,
glicemia pós-prandial e significativa redução no nível de hemoglobina glicosilada. Referente
aos lipídeos, os níveis de triglicérides foram reduzidos. O colesterol total e fração bem como
colesterol de baixa densidade, apresentaram uma queda combinada com um aumento marginal no
nível de colesterol de lipoproteínas de alta densidade. Dessa forma, a Spirulina mostrou-se efetiva
também no controle do perfil glicêmico e lipídico de paciente portadores de diabetes do tipo II.
Ayehunie et al. (1998) comprovaram o efeito anti-retroviral da Spirulina por meio de
experimento realizado com vírus HIV. Nessa pesquisa, concentrações de Spirulina que variavam
entre 0,3 e 1,2µg/mL reduziram em cerca de 50% a replicação viral em linhagens de células T,
células mononucleadas do sangue e células de Langerhans demonstrando assim, que o composto
utilizado é capaz de proporcionar atividade anti-retroviral de grande potencial clínico.
Além destas atividades acredita-se que o consumo de Spirulina esteja associado à
prevenção de danos no DNA e câncer.
POSSÍVEL CORRELAÇÃO DO CONSUMO DE SPIRULINA SP. E A PREVENÇÃO DE
DANOS NO DNA E CÂNCER
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Vale ainda ressaltar sua ação imunossupressora (HAYASHI et al., 1994) e antimutagênica
(CHARMORRO-CEVALLOS et al., 2007) bem como suas propriedades antioxidantes
(MIRANDA et al., 1998) e a capacidade de diminuir a genotoxicidade de drogas (PREMKUNAR
et al., 2004).
No trabalho de Hayashi et al. (1994) foi possível observar aumento, tanto in vitro como
in vivo, de células fagocitárias em função da exposição à Spirulina. No experimento in vivo,
camundongos submetidos a uma dieta a base de Spirulina demonstraram aumento da proliferação
de células esplênicas. A cultura de células in vitro de baço associada a extrato de Spirulina
aumentou consideravelmente a quantidade dessas células bem como melhoria na produção de
macrófagos. Assim, os resultados gerais do trabalho demonstraram que a Spirulina é capaz de
aumentar a resposta imunitária, particularmente a resposta primária, ao estimular macrófagos,
fagocitose, e produção de IL-1.
Em experimento realizado por Chamorro-Cevallos et al. (2007) foi possível observar,
por meio do teste de dominante letal, efeito protetor da Spirulina em relação à indução de
mutagenicidade por ciclofosfamida em ambos os sexos de camundongos Swiss. Os animais foram
divididos em grupos e tratados com Spirulina via oral por duas semanas anteriores a administração
do quimioterápico em três diferentes doses: 200, 400 e 800mg/Kg. Posteriormente foram
avaliados dados referentes à incidência de gravidez, quantidade de corpos lúteos e qualidade dos
espermatozóides. Dessa forma demonstrou-se a diminuição dos danos em células germinativas
produzidos pela ciclofosfamida principalmente no grupo de animais tratados com a dose mais alta
da substância.
A atividade antioxidante de um extrato metanólico de Spirulina foi determinada in vitro
e in vivo no experimento de Miranda et al. (1998). A capacidade antioxidante in vitro, foi testada
em homogenato de cérebro (onde as células do tecido estudado são previamente homogeneizadas
para liberação de seu conteúdo) incubado com extrato de Spirulina, enquanto que a capacidade
antioxidante in vivo foi avaliada em plasma e fígado dos animais que receberam uma dose diária
de 5mg da substância. Após o tratamento, a capacidade antioxidante do plasma foi de 71% para
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Efeitos biológicos da spirulina sp. E suas possíveis implicações na prevenção do câncer
o grupo experimental e 54% para o grupo controle, demonstrando assim, aumento expressivo da
capacidade antioxidante em virtude da administração da Spirulina. Logo os resultados indicaram
que a Spirulina fornece proteção antioxidante para ambos os sistemas testados.
Outros relatos indicam que se aplicada via oral em camundongos Swiss a Spirulina nas
doses de 250, 500 e 1000mg/Kg obtem-se significativa inibição da genotoxicidade induzida
por substâncias como a cisplatina e o uretano. Além disso, descreve-se também redução da
peroxidação lipídica, concomitante ao aumento de enzimas do fígado bem como redução da
glutationa (PREMKUMAR et al., 2004).
Frente as considerações anteriores sobre a capacidade antigenotóxica, antimutagênica
e antioxidante do composto em questão talvez ainda seja importante fazer uma reflexão a cerca
da correlação em dano no DNA (eventos genotóxicos e/ou mutagênicos), desenvolvimento de
câncer e suplementação dietética aqui entendida como consumo de frutas, verduras, algas e outros
produtos chamados alimentos funcionais.
Em princípio, os pesquisadores reconheceram que a carcinogenicidade e mutagenicidade
dos agentes químicos eram correlatas, uma vez que a maioria dos carcinógenos químicos interage
com o material genético. Assim, estudos apresentaram informações suficientes para sugerir que
o câncer pode ser induzido por um evento mutacional (AMES et al., 1973; VOGEL, 1982), o
qual, em geral, é responsável pela ativação de proto-oncogenes e inativação de genes supressores
tumorais (McKELVEY-MARTIN et al., 1998).
Os proto-oncogenes são genes que estão envolvidos em funções celulares normais, mas
que são equivalentes a oncogenes carregados por alguns retrovírus. Em certos casos, mutações
ou a ativação aberrante dos mesmos, na célula, está associada à formação de tumores. A ativação
de um oncogene representa um evento de ganho de função, no qual um proto-oncogene celular
é ativado inapropriadamente. Isto pode envolver uma modificação mutacional da proteína, uma
ativação constitutiva da expressão do gene, a sua superexpressão ou a falha na inativação da sua
expressão no momento adequado (LEWIN, 2001).
Os supressores tumorais são detectados por deleções ou outras mutações inativadoras
que são tumorigênicas. A evidência mais convincente da natureza destes genes é fornecida por
certos cânceres hereditários, que se desenvolvem em pacientes que perderam ambos os alelos e,
portanto, não possuem um gene ativo. Uma mutação em um supressor pode representar uma perda
de função em genes que normalmente impõem alguns limites ao ciclo celular ou ao crescimento
celular (LEWIN, 2001).
Logo sugere-se que agentes químicos ambientais são importantes fatores tanto em termos
de desenvolvimento como de prevenção do câncer visto que eles podem causar mutações que
atinjam proto-oncogenese e/ou supressores tumorais. No entanto, por outro lado eles podem evitar
que estes eventos aconteçam e a estes alimentos, capazes de impedir os eventos mutacionais,
pode-se chamar antimutagênicos, quimiopreventivos e/ou anticarcinogênicos.
De modo geral, qualquer sustância capaz de reduzir a freqüência de mutações espontâneas
ou induzidas, independentemente do modo de ação, é considerada antimutagênica. Posteriormente,
as mesmas podem ser classificadas como bio-antimutagênicas ou desmutagênicas (GRÜTER
et al., 1990; WATERS et al., 1990). Apesar deste conhecimento e de trabalhos apresentaram a
atividade antimutagênica de Spirulina nenhuma descrição foi realizada a cerca de seu modo de
ação antimutagênico. Mas supõe-se atividade pelos dois modos visto que ela possui características
antioxidantes e por isso correlacionadas em especial com o processo de desmutagênese e por
interferir na replicação viral (replicação de material genético) supõe-se também capacidade de
modulação de enzimas envolvidas na duplicação do DNA e, portanto destaca-se uma atividade
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bioantimutagênica. Assim, faz-se agora necessário saber um pouco mais a respeito dos eventos
desmutagênicos e bioantimutagênicos.
As substâncias bioantimutagênicas atuam como moduladoras do reparo e replicação
do DNA. Agem em nível celular aumentando a fidelidade na replicação, estimulando o reparo
livre de erro ou ainda inibindo os sistemas de reparo sujeitos a erro (HARTMAN & SHANKEL,
1990; DE FLORA, 1998; SIMIC et al., 1998). E as desmutagênicas por sua vez são capazes
de inativar um agente mutagênico e caracterizam-se pela atuação do composto diretamente no
agente mutagênico, ou em seus precursores, inativando-os química ou enzimaticamente (KADA
& SHIMOI, 1987; HARTMAN & SHANKEL, 1990; FERGUSON, 1994; DE FLORA, 1998).
Esta atividade antimutagênica por hora discutida foi demonstrada em frutas e vegetais
e em outras várias substâncias obtidas a partir de fontes naturais. Soma-se a estes fatos estudos
epidemiológicos que apresentam um grande volume de evidências associadas a dados obtidos a
partir de estudos in vitro e in vivo, que apontam para a estreita relação entre constituintes da dieta
e a diminuição do risco de desenvolvimento de determinados tipos de cânceres. Assim, verificase que de modo geral, vegetais, frutas, fibras e alguns micronutrientes diminuem a incidência
de câncer; enquanto gorduras, excesso de calorias e consumo de álcool aumentam o risco de
desenvolvimento desta mesma patologia (GEBHART, 1974; AMES, 1983; KADA et al., 1985;
AMES, 1986; HARTMAN & SHANKEL, 1990; ODIN, 1997; LOHMAN et al., 2001).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
104
Ainda que sejam observadas inconsistências e que a interpretação dos dados sobre dieta e
atividade antimutagênica e/ou anticarcinogênica ainda não estejam totalmente esclarecidos, existe a
certeza de que a dieta alimentar está diretamente relacionada com a maior ou menor ocorrência de câncer,
o quê estimula a continuidade dos estudos. Soma-se a este fato a necessidade de se estudar a Spirulina
sp. neste contexto uma vez que ela já é utilizada na dieta humana a apresenta evidência diretamente
relacionadas à prevenção de danos ao DNA que poderiam correlacionar-se ao desenvolvimento do câncer.
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Karina Keiko Nakao Harada, Willian Luiz da Cunha
LEVANTAMENTO DA MASTOFAUNA ATRAVÉS DA COLETA
E IDENTIFIÇÃO DE PEGADAS DA RESERVA FLORESTAL DA
NORTOX DE ARAPONGAS – PARANÁ
SURVEY OF “MASTOFAUNA” THROUGH THE COLLECTION AND IDENTIFICATION OF
FOOTPRINTS OF NORTOX FOREST RESERVE. FROM ARAPONGAS -PARANÁ.
Karina Keiko Nakao Harada24*
Willian Luiz da Cunha25**
RESUMO:
O presente trabalho objetivou levantar, através da coleta e identificação de pegadas, a fauna de
mamíferos existente da Reserva Florestal da Nortox no Município de Arapongas. As coletas e
observação de dados foram realizadas de fevereiro a junho de 2011. O levantamento da fauna
foi realizado através de método indireto, envolvendo a busca por pegadas ou rastros deixados
por mamíferos ao longo das trilhas pré-existentes na área, ou através de armadilhas de pegadas,
com a confecção de contra- moldes para identificação das espécies existentes na área de estudo.
Durante o período de estudo foi possível identificar a presença de cinco ordens e oito espécies de
mamíferos silvestres.
PALAVRAS- CHAVE: Rastros. Mamíferos silvestres. Fragmentos.
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ABSTRACT:
This project aimed to research, through the collection and identification of footprints, the
mammal’s fauna which exists in Nortox Forest Reserve in the city of Arapongas. The collection and
observation data were conducted from February to June 2011. The fauna survey was accomplished
using the indirect method, involving the search for footprints or tracks left by mammals along
the pre-existing trails in the area, or through traps footprints, making mold to identify the species
from the area of study. During the survey period were able to identify the presence of five orders
and eight species of wild mammals.
KEYWORDS: Tracks. Mammals wild. Fragments.
INTRODUÇÃO
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O Brasil é o país mais rico em megadiversidade, possuindo mais espécies do que qualquer
outro no mundo. (CONSERVAÇÃO INTERNACIONAL, 1999).
Atualmente uma das maiores dificuldades de se preservar a diversidade biológica,
deve-se a grande alteração causada pelo homem sobre os ecossistemas naturais, resultando na
fragmentação desses ecossistemas. (VIANA; PINHEIRO, 1998).
A Caracterização da fauna, de qualquer região, impõe o conhecimento da sua
diversidade, com o levantamento das espécies e respectivas abundâncias,
com a indicação daquelas consideradas permanentes e migradoras, bem
como das variações estacionais mais evidentes. (PAIVA, 1999).
Karina Keiko Nakao Harada. Acadêmica do Curso de Graduação de Licenciatura em Ciências Biológicas da Faculdade de
Apucarana (FAP). Correspondência para: [email protected]
**
Willian Luiz da Cunha. Professor orientador. Mestre em Genética (UEM/PR). Graduação em Ciência Biológicas com Ênfase em
Biotecnologia pela Universidade Paranaense (UNIPAR) . E professor na Faculdade de Apucarana (FAP). E-mail: will.b.c@ibest.
com.br
*
TERRA E CULTURA - No 54 - Ano 28 - Janeiro a Junho de 2012
Levantamento da mastofauna através da coleta e identifição de pegadas da reserva florestal da nortox de
Arapongas - Paraná
Dentre as diversas metodologias conhecidas para a realização de levantamentos de fauna,
um dos métodos mais utilizados, pode ser realizado através da busca por vestígios indiretos. O
método de observação indireta visa analisar vestígios como pêlos, fezes, carcaças, ossadas, restos
de alimentação, fuçadas, dormitórios e pegadas. (DIAS; MICKCH, 2006; MEIGA; PIMENTA,
2008).
O levantamento de fauna foi realizado através do método de observação indireta, com a
posterior identificação das pegadas. Esse método possibilita comprovar a presença das espécies
que fazem uso da área, sem que necessariamente tenha ocorrido a visualização direta desse
animal, (CARVALHO; LUZ, 2008).
Para Carvalho e Luz (2008) as pegadas são as marcas deixadas por um animal, ao se
mover de uma área para outra. A qualidade desses registros vai depender do tipo de terreno e
época do ano (CARVALHO; LUZ, 2008).
Para Berlinck e Lima (2007), a utilização de métodos alternativos como a retirada de
moldes e contramoldes de pegadas ou rastros, podem auxiliar no processo de ensino aprendizagem,
em conceitos que envolvam ecologia e vida silvestre.
Sendo assim, a identificação de rastros e de pegadas também possui caráter educativo.
Ela pode ser utilizada para auxiliar discussões que envolvam conceitos relacionados à valorização
da biodiversidade local [...]. (BERLINCK; LIMA, 2007).
Segundo Cunha et al. (2009), através das identificações, podemos relacionar o papel que
os animais desempenham nos ambientes em que vivem, são eles que dispersão as sementes de
diversas árvores, controlam a população das espécies quando necessário e fazem a manutenção
do equilíbrio desses ambientes.
Segundo Berlinck e Lima (2007) o levantamento de fauna realizados através de rastros
podem ser utilizados, como auxílio nos estudos de educação ambiental e a valorizar a fauna local,
bem como despertar a curiosidade e estimular as pessoas conhecer as relações entre o ambiente
natural e o social.
Desta forma, este trabalho teve por objetivo Identificar a mastofauna existente na Reserva
Florestal da Nortox, através de metodologias baseadas em vestígios indiretos, foram estudadas
a ocorrência e abundância dos animais na reserva . O presente estudo pode contribuir para a
elaboração de estratégias de manejo na conservação dos remanescentes de vegetação e a da fauna
presente no local, (ALVES, 2009).
109
METODOLOGIA
O estudo foi realizado na Reserva florestal da Nortox, (23º 49` 32`` S – 51º 41` 70`` W),
fundada no dia 24 de fevereiro de 1995. Localiza-se na Rodovia BR 369, Km 197, em Aricanduva
distrito de Arapongas. A coleta e a observação de dados foram realizadas no período de Fevereiro
a Junho de 2011, obtendo um total de cinco meses de análise.
A Reserva Florestal da Nortox possui uma área de 81,33 ha, sendo totalmente reflorestada,
com diversos estágios de desenvolvimento, desde áreas bem preservadas a pontos com alto índice
de degradação.
Para a coleta e observação dos dados a área foi dividida em seis partes e foram
selecionados pontos de acordo com os diferentes ambientes existentes e de forma que os pontos
fossem dispostos em todo contorno da mata (figura 1).
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Karina Keiko Nakao Harada, Willian Luiz da Cunha
Figura 1- Visualização da Reserva Florestal da Nortox, com a disposição dos pontos de utilizados
para coletas de dados.
Fonte: Google EARTH. 2011.
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No primeiro momento, houve a caracterização do ambiente, levantando dados sobre a
área. Onde foram observados e selecionados seis pontos diferentes dentro da Reserva Florestal
da Nortox. Esses pontos de coleta foram demarcados com o auxílio de um GPS, sendo estes
denominados posteriormente como ponto A, B, C, D, E e F.
O levantamento de fauna realizou-se através de métodos de observação indireta, O
método indireto, envolveu a busca por pegadas ou rastros deixados por mamíferos ao longo das
trilhas pré-existentes na área ou através de armadilhas de pegadas, com a confecção de contramoldes para identificação das espécimes de mamíferos existente na área de estudo.
Para melhor observação das pegadas foram montadas armadilhas de pegadas, em parcelas de
areia com cerca de 050 x 0,50 metros cada, com altura de aproximadamente três centímetros, como citado
em Scoss (2002). Antes da instalação da parcela, a área foi limpa e a areia descompactada e umedecida.
O uso de atrativos, como banana, mamão, milho, sal grosso e bacon foram colocados no
centro das parcelas de areia, com a finalidade de atrair o maior número de indivíduos.
No dia anterior a coleta, cada armadilha foi previamente umedecida e cevada. E posterior
coleta dos moldes de pegadas. (SCOSS, 2002).
As pegadas encontradas em boas condições foram fotografadas com uma escala podendo
ser uma fita métrica ou caneta e moldadas em gesso. Esse método consiste no preparo de uma mistura
de gesso e água, que é despejada sobre o rastro. Os moldes em gesso servem para documentar
rastros, pois conservam as características encontradas no campo. (BORGES; TOMÁS, 2008).
O processo de identificação foi realizado, através de bibliografias especializadas, Manual
de Rastros da Fauna Paranaense, Pegadas: Séries de Boas Práticas e Guia de rastros e outros
vestígios de mamíferos do Pantanal, que auxiliam na identificação e no desenvolvimento do
trabalho.
TERRA E CULTURA - No 54 - Ano 28 - Janeiro a Junho de 2012
Levantamento da mastofauna através da coleta e identifição de pegadas da reserva florestal da nortox de
Arapongas - Paraná
RESULTADOS
Durante o período de estudo foi possível identificar a presença de cinco ordens, oito
espécies de mamíferos silvestres e uma espécie doméstica. Como descrito na tabela 1.
Tabela 1: Frequência de ocorrência de vestígios na área de estudos.
Ordem
Família
Espécie
Nome Popular
Carnívora
Canídea
Cerdocyon thous
Cachorro-do-mato
Canis familiaris
Cachorro- doméstico
Nasua nasua
Quati
Procyon cancrivorous
Mão-pelada
Procyonidae
Xenartra
Dasypodidae
Dasypus novemcinctus
Tatu-galinha
Artiodactyla
Tayassuidae
Tayassu pecari
Queixada
Cervidae
Mazama sp.
Veado
Perissodactyla
Tapiridae
Tapirus terrestris
Anta
Rodentia
Hydrochaeridae
Hydrochoerus hydrochaeris
Capivara
Fonte: Harada, 2011.
Pôde-se verificar com a realização do estudo uma diversidade significativa de espécies
que têm sua área de vida ou utilizam o fragmento florestal onde ocorreram os levantamentos.
A ocorrência de espécies foi considerada por área, analisando a presença e ausência,
como descrito na tabela 2.
111
Tabela 2: Ocorrência de animais por áreas no período amostral.
Áreas
Ocorrências
%
Área 1
0
0
Área 2
2
5,89
Área 3
12
35,28
Área 4
7
20,59
Área 5
8
23,53
Área 6
5
14,71
Total
34
100%
Fonte: Harada, 2011.
A tabela 2, evidência os índices de ocorrência de espécies por área, apontando um maior
acumulo de espécies concentradas na área 3, contrapondo com apenas 2 registros para área 2, que
representam respectivamente o maior e o menor numero de ocorrências.
Destacamos também área 1, que não apresentou nenhum registro, essa área esta inserida em
um mosaico de reflorestamento, o manejo constante dessa área possivelmente afasta os animais do local.
O baixo índice de ocorrências na área 2 deve-se ao fato de que esta área encontra em
avançado grau de perturbação, o que desfavorece o uso da mesma pelas espécies, além do efeito
de borda também no local existem ainda perturbações de atividades humana para esta área.
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Karina Keiko Nakao Harada, Willian Luiz da Cunha
17,647
17,647
17,647
8,823
8,823
Hydrochoerus
hydrochaeris
5,882
Tapirus
terrestris
11,764
8,823
Mazama sp.
Tayassu
pecari
Dasypus
novemcinctus
Procyon
cancrivorous
Nasua nasua
2,941
Canis
familiaris
20
18
16
14
12
10
8
6
4
2
0
Cerdocyon
thous
% de Ocorrência
O gráfico 1, demonstra a ocorrência de espécies na área de estudos, com destaque para as
espécies Cerdocyon thous, Nasua nasua e Dasypus novemcinctus, com 17,64% da ocorrência total
de espécies, seguida pela espécies Mazama sp. com 11,76%. As espécies Procyon cancrivorous,
Tapirus terrestris e Hydrochoerus hydrochaeris, todas apresentaram os mesmos índices de
ocorrência com 8,82% do total de ocorrências, a espécie Tayassu pecari, com 5,88% e por fim,
Canis familiaris com 2,94%.
Espécies
Gráfico 1- Abundância de espécies (% de ocorrência) por pegadas na Reserva Florestal da Nortox.
Fonte: Harada, 2011.
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CONCLUSÃO
O desafio de conservar a biodiversidade regional em paisagens intensamente cultivadas
tem como principal limitante o processo de degradação de fragmentos florestais.
Tamanho, forma, grau de isolamento, tipo de vizinhança e histórico de perturbações
apresentam relações com fenômenos biológicos e, consequentemente, afetam a dinâmica dos
fragmentos florestais. Isto se reflete no mosaico de eco-unidades que diferem entre si quanto à
diversidade, mortalidade e natalidade de espécies arbóreas e animais.
A análise da mastofauna desses fragmentos é fundamental para identificar estratégias
conservacionistas e prioridades para a pesquisa. Os resultados indicam a necessidade de se manejar
estes fragmentos e as paisagens em que estão inseridos, bem como desenvolver atividades de
educação ambiental com a população local com relação à importância da cobertura florestal para a
manutenção das espécies sejam animal ou vegetal e também para o desenvolvimento sustentável.
Tendo em vista as consequências da fragmentação, o manejo dos fragmentos florestais
visa manter a sua conservação o mais próximo possível do estado original. Para que o manejo seja
eficiente é necessário conhecer a ecologia da paisagem e das espécies que habitam tais fragmentos,
a estrutura e a dinâmica das populações que formam os fragmentos.
O estudo da ecologia da paisagem e a análise da estrutura da vegetação servem como
base para direcionar ações e decisões futuras que propiciem o equilíbrio e a sustentabilidade do
dessas áreas.
Dentre as nove espécies levantadas nas áreas de estudo, duas encontram-se na lista de
mamíferos ameaçados do estado do Paraná. De acordo com Reis et al., (2009), Tapirus terrestris
e Tayassu pecari, são espécies que sofrem com a destruição de habitats e a caça excessiva.
TERRA E CULTURA - No 54 - Ano 28 - Janeiro a Junho de 2012
Levantamento da mastofauna através da coleta e identifição de pegadas da reserva florestal da nortox de
Arapongas - Paraná
Os estudos realizados servem para reforçar a importância dessas áreas reservadas
a preservação. Todas essas áreas se bem manejadas podem representar um grande serviço
ambiental, melhor ainda, seria se tais áreas estivessem interligadas, formando os corredores de
biodiversidade, aumentando assim ás áreas de vida dessas espécies e também proporcionando
maiores chances de trocas genéticas entre populações que hoje se encontram isoladas.
Os trabalhos de identificação de fauna por coleta de vestígios indiretos pode ainda
funcionar como uma excelente ferramenta a ser utilizada em programas de educação ambiental
oferecidos pela empresa ou inda pela comunidade escolar da região, atribuindo maior valoração
às áreas de preservação e também as espécies que vivem e se utilizam de tais áreas.
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TERRA E CULTURA - No 54 - Ano 28 - Janeiro a Junho de 2012
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Levantamento da mastofauna através da coleta e identifição de pegadas da reserva florestal da nortox de
Arapongas - Paraná
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Fabiano Palhares Galão, Edson Crescitelli
O PLANEJAMENTO DE COMUNICAÇÃO DE MARKETING E
LEMBRANÇA DE MARCA: UM ESTUDO EXPLORATÓRIO
THE PLANNING OF MARKETING COMMUNICATION AND BRAND RECALL: AN
EXPLORATORY STUDY
Fabiano Palhares Galão26*
Edson Crescitelli27**
RESUMO:
Fazer com que uma marca seja lembrada em mercados competitivos requer das empresas esforços
constantes, especialmente aqueles ligados ao marketing e mais especificamente à comunicação,
sendo esse último 28*aspecto um elemento chave para que a lembrança da marca alcance níveis
satisfatórios. Uma vez que a comunicação de marketing pode contribuir para a lembrança de
marca, é de se esperar que, quanto mais efetivo for o planejamento de comunicação, maiores
serão os níveis de lembrança alcançados. O objetivo do estudo é identificar se o planejamento de
comunicação de marketing influencia nos índices de lembrança de marca. Para isso, utilizou-se
de levantamento bibliográfico sobre os temais centrais e complementarmente pesquisa de campo
com empresas do segmento de construção civil de Londrina-PR, citadas como as mais lembradas
na pesquisa “Top de Marcas 2009”. O estudo apontou que o uso dos diferentes elementos do
planejamento de comunicação pode influenciar nos índices de lembrança de marca.
PALAVRAS-CHAVE: comunicação de marketing, planejamento de comunicação, lembrança de
marca.
116
ABSTRACT:
Making a brand to be remembered in competitive markets requires constant efforts of companies,
especially those related to the marketing and more specifically to the communication, being the
last one a key aspect for the brand memory reaching satisfying levels.Once that the marketing
communication is able to contribute to the creation of the brand recall, it is expected that the more
effective the planning of the marketing communication, the higher the memory levels achieved
by the companies. The study aims to identify if the marketing communication planning influences
in the levels of brand recall.For that, we used the literature on central and complementary field
research with companies in the building sector of the city of Londrina-PR, mentioned as the most
remembered in the search “Top Brands 2009”. The study found that the use of various elements
of communication planning can influence the levels of brand recall.
KEYWORDS: marketing communication, communication planning, brand recall.
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INTRODUÇÃO
O atual ambiente de negócios é caracterizado por fatores que desafiam constantemente o
crescimento e a própria manutenção das empresas no mercado. Os avanços tecnológicos, a expansão
global dos negócios e a existência de produtos cada vez mais parecidos, são exemplos disso.
Diante desse cenário, faz-se necessário que as empresas busquem formas de se diferenciar
em relação à concorrência, visando o alcance de uma posição competitiva sustentável no mercado,
*
Doutorando em Administração pela FEA-USP. [email protected]
Doutor e docente em Administração pela FEA-USP. [email protected]
**
TERRA E CULTURA - No 54 - Ano 28 - Janeiro a Junho de 2012
O planejamento de comunicação de marketing e lembrança de marca: um estudo exploratório
e uma fonte de diferenciação considerada como a mais duradoura e valiosa para as empresas é a
marca. Para Schultz e Barnes (2001, p.32), a principal vantagem competitiva que a maioria das
organizações de marketing vai empregar no século XXI será o valor perceptível da marca.
Um dos indicadores que representam o valor das marcas no mercado e reflete o conjunto
de esforços realizados pelas empresas para a conquista deste valor de referência, refere-se ao
índice de lembrança que a marca possui em seu segmento de atuação, sendo essa dimensão
associada à habilidade do consumidor em identificar uma marca sob diferentes condições.
Fazer com que uma marca seja lembrada em mercados altamente competitivos requer das
empresas esforços constantes em vários sentidos, especialmente aqueles ligados ao marketing e
mais especificamente à comunicação de marketing, sendo esse último aspecto um elemento chave
para que a lembrança da marca alcance níveis satisfatórios, e também para criar associações de
marca fortes, favoráveis e exclusivas na memória dos consumidores (KELLER; MACHADO,
2006). Crescitelli, Mattar e Silva (2005) citam que o processo de comunicação deve manter a
marca viva na memória do seu público-alvo.
Uma vez que a comunicação de marketing pode contribuir para a criação de lembrança
de marca, é de se esperar que, quanto mais efetivo for o planejamento e a execução do programa
de comunicação de marketing por parte das empresas, maiores serão os níveis de lembrança
alcançados por elas no mercado. Essa suposição parte da premissa de que, segundo Keller e
Machado (2006, p; 158), “fica claro que programas de comunicação de marketing devem ser
executados cuidadosamente, se quisermos que tenham o efeito desejado sobre os consumidores”.
É dentro desse contexto que o presente estudo, de caráter exploratório, se desenvolve,
tendo por objetivo responder à seguinte questão de pesquisa: o planejamento de comunicação de
marketing influencia nos índices de lembrança de marca? Para investigar essa questão, utilizou-se
de levantamento bibliográfico sobre os temais centrais e complementarmente pesquisa de campo
com empresas do segmento de construção civil da cidade de Londrina-PR, citadas como as mais
lembradas na pesquisa “Top de Marcas 2009” realizada na cidade.
Em um primeiro momento o texto aborda a comunicação de marketing e os elementos
que constituem o processo de planejamento de comunicação. Os conceitos de marca, brand equity
e lembrança de marca são discutidos na seqüência, e em seguida, a metodologia do estudo é
apresentada, bem como as análises dos resultados e as considerações finais.
117
1. REFERENCIAL TEÓRICO
1.1 Comunicação de Marketing
Um dos conceitos clássicos de marketing refere-se ao composto de marketing, formado
por quatro variáveis de decisão que juntas auxiliam as empresas a alcançarem seus objetivos
de marketing. A comunicação de marketing enquadra-se na variável Promoção, a qual envolve
técnicas utilizadas para aumentar a consciência, reconhecimento, conhecimento, informações do
consumidor a respeito do produto, marca ou também da própria organização.
Vale lembrar que a comunicação da empresa também é direcionada para outros públicos,
além do cliente final, incluindo neste processo os acionistas, comunidade, governo, fornecedores,
etc. Fill (2002) define a comunicação de marketing como um processo gerencial pelo qual uma
organização estabelece um diálogo com suas várias audiências. Reforçando esse conceito,
Duncan e Moriarty (1998) afirmam que existe uma variedade de grupos de interesses além dos
consumidores que são envolvidos e afetados pelo programa de comunicação de marketing.
A comunicação de marketing tem um papel de destaque para as empresas, principalmente
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Fabiano Palhares Galão, Edson Crescitelli
em setores onde a competição é grande e a busca pela atenção do consumidor tem se tornado um
processo cada vez mais crítico, em virtude da proliferação de mensagens publicitárias (SCHULTZ;
TANNENBAUM; LAUTERBORN, 1994). Para Shimp (2009, p. 26), “a comunicação de
marketing é um aspecto crítico das missões de marketing das empresas e um importante fator
determinante de sucesso ou fracasso dessas empresas”. A comunicação de marketing ocorre por
meio da transmissão de mensagens por parte das empresas que são direcionadas ao mercado
(DUNCAN; MORIARTY, 1998, BELCH; BELCH, 2008). Neste processo, são várias as decisões
que precisam ser tomadas a fim de se atingir os objetivos pretendidos, como a definição do
público-alvo que ser quer alcançar, os investimentos que serão alocados, as formas e os meios
de comunicação que serão empregados, bem como os procedimentos de controle e avaliação dos
esforços (OGDEN; CRESCITELLI, 2007; SCHULTZ; BARNES, 2001). Percebe-se, portanto,
que essas decisões devem ser colocadas em prática de forma que o desempenho de todo o processo
seja satisfatório, e uma das formas de se alcançá-lo, é por meio da realização do planejamento de
comunicação, cujos conceitos e elementos serão discutidos na próxima seção.
1.2 Planejamento De Comunicação De Marketing
118
O planejamento é uma função organizacional, um processo sistemático, um exercício
mental, um conjunto de atividades e providências destinadas a alcançar um estado futuro
desejado e, como acontece com qualquer função administrativa, o planejamento desempenha
um importante papel no desenvolvimento e implementação de um programa de comunicação de
marketing. O planejamento de comunicação emerge a partir das decisões tomadas no âmbito do
plano de marketing elaborado para a organização. Para Belch e Belch (2008, p. 26) “comunicação
de marketing não é nada mais do que uma parte e deve estar integrada a todo o programa e plano
de marketing”.
Na visão de Anantachart (2004) o programa de comunicação deve ser construído de
forma que ele seja consistente com as práticas de marketing e consiga refletir o que deve ser feito
para que os objetivos de marketing e da empresa sejam alcançados.
Portanto, a comunicação de marketing e seus desdobramentos operacionais são fatores
condicionados ao direcionamento estabelecido pela área de marketing, que por sua vez determina
suas ações a partir das decisões tomadas no plano estratégico da empresa. Nesse sentido, Lupetti
(2007) cita que a comunicação de marketing deve apropriar-se de várias bases do planejamento
da gestão estratégica, objetivando a coerência do planejamento.
1.2.1 Componentes do planejamento de comunicação
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Shimp (2009) enfatiza que as comunicações de marketing devem ser: i) direcionadas
para um mercado-alvo específico, ii) estar claramente posicionadas, iii) ser criadas para atingir
um objetivo específico, e iv) realizadas de modo a alcançar o objetivo dentro dos limites de
orçamento. Derivam desta abordagem as decisões consideradas por Shimp (2009) como sendo
fundamentais para o desenvolvimento do planejamento de comunicação, que são a determinação
do público-alvo da comunicação, dos objetivos e do orçamento a ser alocado na comunicação.
Esses temas serão abordados na sequência.
Público-alvo: A definição do público-alvo exerce influência fundamental nas decisões
do comunicador sobre o que, como, quando, onde e para quem comunicar (KOTLER; KELLER,
2006), sendo tal definição considerada como o ponto de partida para o planejamento da
TERRA E CULTURA - No 54 - Ano 28 - Janeiro a Junho de 2012
O planejamento de comunicação de marketing e lembrança de marca: um estudo exploratório
comunicação. A comunicação de marketing é direcionada a uma série de públicos distintos, não
se limitando apenas ao consumidor final ou potencial. Assim, Crescitelli e Ikeda (2006) lembram
que é fundamental considerar como público-alvo do processo de comunicação não somente o
cliente final, mas sim, todos os diferentes públicos envolvidos no processo de comercialização, tais
como público interno, intermediários e influenciadores. Além destes, outros públicos de interesse
também são considerados como público-alvo da comunicação, podendo incluir organizações não
governamentais, associações de classe, governos, sindicatos, comunidades próximas à empresa.
Objetivos: Para Belch e Belch (2008), a determinação de objetivos no programa de
comunicação é importante porque eles facilitam a coordenação dos vários grupos que trabalham
em uma campanha (anunciantes e agências especializadas), guiam o desenvolvimento dos planos
de comunicação integrada e determinam um padrão de comparação para medir o sucesso ou falha
de uma campanha. Porém, apesar de sua importância, a definição do que vem a ser um objetivo
de comunicação é um tema controverso (FILL, 2002, p.312-313), e muitas vezes os objetivos de
comunicação são confundidos com objetivos de vendas (aumento de participação de mercado,
volume de vendas, lucros), surgindo com isso duas escolas de pensamento: aquela que defende
as medidas relacionadas a vendas como o principal fator, e outra que advoga a favor das medidas
relacionadas à comunicação com a principal orientação na definição dos objetivos.
Segundo Belch e Belch (2008), os objetivos de comunicação a partir da perspectiva
da segunda linha de pensamento, são determinados em termos da natureza da mensagem a ser
comunicada, ou ainda relacionados a quais efeitos de comunicação devem ser alcançados. Esses
fatores são definidos a partir da compreensão do contexto geral na qual a comunicação irá operar
(FILL, 2002). Ainda de acordo com Belch e Belch (2008), os objetivos de comunicação podem
incluir a criação de consciência ou conhecimento sobre um produto, a criação de uma imagem, ou
o desenvolvimento de atitudes favoráveis, preferências ou intenções de compra.
Orçamento: A decisão a respeito da determinação do orçamento é uma das mais difíceis
do processo (KOTLER; KELLER, 2006; BELCH; BELCH, 2008) e a prática empresarial adota
diversos critérios para cumprir essa etapa. O quadro 1 sintetiza alguns métodos a partir da revisão
da literatura.
Método
Descrição
Método do valor
disponível
A empresa determina a quantia a ser gasta em várias áreas,
como produção e operações e então distribui o que resta para a
propaganda e promoção.
Alocação arbitrária
O orçamento é baseado no que a gerência responsável pensa ser
necessário.
Porcentagem de
vendas
Neste método o orçamento promocional é baseado nas vendas do
produto.
Método de valor fixo
por unidade
O valor é determinado a partir de uma quantia predeterminada para
cada unidade vendida ou produzida.
Paridade competitiva
Os gerentes estabelecem as quantias do orçamento comparando a
porcentagem de vendas das empresas competidoras.
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Objetivos e tarefas
A empresa define os objetivos de comunicação a ser alcançados,
determina as estratégias específicas e tarefas a serem cumpridas
e estima os custos associados ao desempenho dessas estratégias e
tarefas.
Método da inércia
A empresa decide “deixar como está” e aloca sempre os mesmos
valores de comunicação.
Multiplicador de mídia
A empresa toma como base os gastos do ano anterior e multiplica
por um valor que representa o aumento dos custos, visando garantir
o mesmo impacto da comunicação.
Quadro 1: Métodos para determinação do orçamento de comunicação
Fonte: adaptado de Belch e Belch (2008); Fill (2002); Kolter e Keller (2006); Boone e Kurtz
(2009)
120
Além das decisões essenciais discutidas anteriormente, o planejamento da comunicação
abarca outros elementos que complementam o processo. São eles: a definição das ferramentas/
formas de comunicação que serão utilizadas, dos meios/canais pelos quais as mensagens serão
enviadas (VASCONCELOS, 2009) e das formas de avaliação das ações de comunicação.
Mix de comunicação: O conjunto das formas de comunicação é chamado de mix de
comunicação ou mix promocional. Cada uma das formas de comunicação possui características,
vantagens e desvantagens, sendo capaz de cumprir determinados objetivos. Cabe às empresas
decidir por quais delas utilizar e, principalmente como utilizar, sendo necessário para isso um
entendimento de como elas funcionam, quais os benefícios de cada uma, custos e também de que
maneira elas podem auxiliar a empresa a alcançar seus objetivos de comunicação. O quadro 2
sintetiza as características das modalidades de comunicação a partir da classificação de Ogden e
Crescitelli (2007).
Modalidade
Descrição
Tradicionais
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Propaganda
Forma de comunicação paga com patrocinador da mensagem
identificado.
Sua principal característica é criar a imagem, auxiliando no
posicionamento do produto. Seus efeitos são de médio e longo prazo.
Publicidade/
Relações Públicas
A publicidade utiliza a mídia de massa, assim como a propaganda,
porém não é paga. Tem por objetivo gerar notícias favoráveis na
mídia. Relações públicas têm a prioridade de manter a boa imagem da
empresa junto á comunidade.
Patrocínio
Está relacionado à construção de uma imagem por meio de associação
com outra já estabelecida.
Promoção de
vendas
É caracterizada por incentivos de curto prazo oferecidos ao mercado
visando o alcance de determinados objetivos (aumento de vendas,
busca por maior participação de mercado, lançamento de produtos,
dentre outros)
TERRA E CULTURA - No 54 - Ano 28 - Janeiro a Junho de 2012
O planejamento de comunicação de marketing e lembrança de marca: um estudo exploratório
Marketing direto
Permite comunicação personalizada. Visa a criar uma resposta
imediata e mensurável do mercado (ex: telemarketing, a venda direta,
a propaganda de resposta direta e as formas que utilizam meios
eletrônicos).
Venda pessoal
É uma comunicação individual (feita por telefone ou pessoal),
personalizada e interativa entre um comprador e um vendedor. É
considerada a forma mais eficaz do mix de comunicação.
Complementares
Product Placement
É a inserção de produtos em programas de televisão ou filmes, podendo
também ser encontrada na Internet, em revistas, livros e games.
Ações cooperadas
com o trade
Campanhas de comunicação de varejo desenvolvidas conjuntamente
pelo fabricante e pelo varejista.
Marketing digital
É o uso do poder das redes on-line, da comunicação por computador
e dos meios interativos digitais para atingir o público-alvo (ex: web
sites, mensagens em sites de busca, compras, notícias, ações de e-mail
marketing).
Eventos
São feiras, congressos, seminários, exposições, shows, etc. Podem ser
realizados tendo como foco o setor B2B ou destinados ao público em
geral.
Merchandising
Ações realizadas no PDV para influenciar decisões de compra,
organizar o tráfego na loja, expor os produtos e criar atmosfera da loja.
Folhetos/catálogos
Recebem menos atenção dos gestores de comunicação, com tendência
acentuada pela substituição destas peças por versões digitais.
Marketing de
relacionamento
Tem como essência a abertura e manutenção de um canal de
comunicação com os clientes.
121
Inovadoras
Advertainment
É a inserção de uma mensagem mercadológica em uma atividade de
entretenimento de tal modo que seja impossível desassociar uma da
outra.
Marketing viral
É uma modalidade recente fruto da Internet, na qual um usuário
“infectado” por uma mensagem dissemina para outros usuários..
Buzzmarketing
Aproxima-se do marketing viral, mas a diferença é que o marketing
viral é feito exclusivamente pela Internet, enquanto o buzzmarketing
não. A intenção é fazer com que determinado assunto ganhe relevância
entre as pessoas.
Quadro 2: Descrição das modalidades do mix de comunicação
Fonte: adaptado de Ogden e Crescitelli (2007)
Comunicação integrada de Marketing: A necessidade de se pensar no uso das formas de
comunicação de forma integrada e não fragmentada originou, no início dos anos 90, o conceito de
comunicação integrada de marketing (CIM). Para Souza (2004) e Akel Sobrinho e Catto (2006), um
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dos fenômenos mais importantes ocorridos no campo do marketing nos anos 90 foi a comunicação
integrada de marketing. Em termos conceituais a CIM pode ser compreendida por meio da proposta
de Shimp (2009). Para o autor, a CIM é um processo de comunicação que abrange o planejamento, a
criação, a integração e a implementação de diversas formas de comunicação (publicidade, promoção
de vendas, eventos, etc.) que são lançadas ao longo do tempo para os clientes ou clientes potenciais
almejados de uma marca. Um ponto interessante abordado por Shimp (2009) é que a CIM considera
todos os pontos de contato que um cliente tem com uma marca como possíveis canais de entrega de
mensagens. Dessa forma, podemos concluir que não somente as formas tradicionais e inovadoras
de comunicação devem ser levadas em conta pela empresa no planejamento da comunicação; além
destas formas, é necessário integrar a comunicação em outros pontos de contato, como as embalagens
dos produtos, o ponto de venda, as pessoas de contato, etc. Kotler e Keller (2006) enfatizam ainda
mais a necessidade da integração da comunicação ao pontuarem que a ampla gama de ferramentas
de comunicação, mensagens e públicos torna obrigatório que as empresas se encaminhem para uma
comunicação integrada de marketing.
Mídia:Os canais de comunicação que podem ser empregados para a transmissão das
mensagens constituem-se em mais uma decisão que complementa o processo de planejamento.
Schultz e Barnes (2001, p.339) defendem que a cuidadosa escolha da mídia é vital para a
efetividade da comunicação integrada, e esta escolha, para Coulter e Sarkis (2005), é desafiante
em virtude da ampla gama de alternativas disponíveis e da importância econômica desta decisão
para as agências de propaganda.
Assim, é preciso considerar que, na atualidade, as empresas podem utilizar diversos
outros meios de comunicação para atingir os diferentes públicos de interesse, não baseando
seu planejamento exclusivamente nos tradicionais veículos, como a TV, jornal, revistas e rádio.
Para Cravens e Piercy (2007), diante da saturação dos meios tradicionais, muitas empresas estão
destinando quantidades significativas de gastos publicitários dos meios de massa tradicionais para
mídias especializadas e mais focalizadas.
Avaliação: As formas de avaliação das ações de comunicação finalizam a série de decisões
do planejamento. Para Fill (2002) o processo de avaliação é um elemento chave da comunicação de
marketing, e possui as funções de assegurar que os objetivos da comunicação foram cumpridos, que
as estratégias foram eficientes e bem executadas, que o potencial de cada ferramenta promocional foi
utilizado, e que os recursos foram bem alocados. Uma das formas de avaliação está relacionada com
a mensuração dos resultados (SCHULTZ; BARNES, 2001), ou seja, ligada a aspectos quantificáveis
e envolve a análise do retorno sobre o investimento - ROI em comunicação. O maior problema
com esta abordagem de avaliação, segundo Crescitelli e Ikeda (2006) reside em se conseguir isolar
a variável comunicação das demais do composto de marketing (produto, preço e ponto), pois
todas atuam de forma simultânea e afetam os resultados de vendas obtidos em um determinado
período. Outra forma de avaliação relaciona-se com a avaliação dos resultados (SHIMP, 2009;
BELCH;BELCH, 2008), que tem por objetivos identificar o impacto causado pela comunicação,
sendo uma abordagem qualitativa. Neste caso, estão incluídas as pesquisas de recall, que avaliam
fatores como compreensão, identificação e retenção em relação a um produto/anúncio publicitário.
1.3 Marca
As marcas desempenham um papel de destaque no processo de gestão de marketing,
sendo consideradas como um elemento crítico para o sucesso das empresas (AAKER, 1998;
WOOD, 2000), especialmente em mercados competitivos, nos quais a conquista por diferenciais
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O planejamento de comunicação de marketing e lembrança de marca: um estudo exploratório
significativos dos produtos é cada vez mais complexa, restando nesse contexto a construção de
marcas de valor como um dos principais fatores na construção de vantagens competitivas.
A definição mais difundida do que vem a ser marca é a que foi determinada pela American
Marketing Association (AMA), citada por Kotler e Keller (2006, p.269) como sendo “um nome,
termo, sinal, símbolo ou design, ou uma combinação de tudo isso, destinado a identificar os
produtos ou serviços de um fornecedor ou grupo de fornecedores para diferenciá-los dos de outros
concorrentes”. Nesse conceito é possível identificar as duas funções básicas da marca, que é a de
identificar e diferenciar as ofertas das empresas.
Sob uma perspectiva mais ampla, Schultz e Barnes (2001) argumentam que uma marca é
mais do que um nome, termo, símbolo ou qualquer outra característica. Na visão dos autores, ela
representa o que o consumidor é e o que acredita que a marca oferece para ajudá-lo a reforçar o
seu lugar na sociedade. Abordagem semelhante é a adotada por Shimp (2009), ao citar que marca
é tudo o que determinada oferta de uma empresa representa, em comparação a outras marcas
em uma categoria de produtos concorrentes. Para o autor, uma marca representa um conjunto de
valores que uma empresa adota e transmite de forma consistente ao longo de um período de tempo
(SHIMP, 2009, p. 54).
Percebe-se, portanto, que a marca extrapola suas funções básicas e, conforme indica
Vargas Neto e Luce (2006), a marca é hoje considerada um patrimônio da empresa, não apenas
devido ao fato de ser uma propriedade exclusiva e vitalícia da organização, mas, especialmente,
por possibilitar a obtenção de vantagem competitiva e agregar valor para os produtos os quais
ela distingue. Esse valor agregado que a marca proporciona aos produtos é referido como brand
equity, ou valor de marca, sendo seu conceito e dimensões que o compõem, com destaque para a
lembrança de marca, os assuntos tratados na sequência.
123
1.3.1 Brand Equity
A literatura de marketing indica que existem duas abordagens na mensuração do valor da
marca. A primeira foca na determinação do valor financeiro da marca no mercado (KAPFERER,
2003; SCHULTZ; BARNES, 2001), baseada na motivação de estimar o valor da marca com os
propósitos contábeis, em termos de avaliação de ativos para o balanço patrimonial (KELLER,
1993). A segunda abordagem volta-se para a determinação do valor da marca conferido pelo
cliente (KELLER, 1993; SCHULTZ; BARNES, 2001; WOOD, 2000), utilizado para avaliar a
eficiência dos esforços de marketing da empresa, tratando-se do conceito de customer-based
brand equity. A abordagem baseada no valor de marca conferido pelo cliente é, segundo Schultz
e Barnes (2001, p.54), a que realmente importa para as empresas, pois grande parte do verdadeiro
valor da marca reside no cliente ou consumidor, pois é ele que determina o valor da marca para si,
em relação a outras ofertas disponíveis.
Devido à importância que o brand equity pode ter para a empresa, alguns estudos foram
desenvolvidos para estabelecer uma estrutura compreensível sobre quais são os fatores que o
constituem e as formas para proceder a sua mensuração. Dentre esses estudos, destacam-se os
desenvolvidos por David Aaker e Kevin Keller.
Keller (1993, p. 8) define customer-based brand equity como o “efeito diferencial do
conhecimento da marca na resposta do consumidor aos esforços de marketing da marca, assim,
o conhecimento da marca é elemento chave para a criação do brand equity. Para Keller (1993) o
conhecimento da marca é caracterizado por dois componentes: lembrança e imagem de marca. A
lembrança de marca relaciona-se ao reconhecimento de marca, entendido como a capacidade do
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consumidor em confirmar exposição prévia à marca, quando esta lhe é apresentada, e a lembrança
espontânea, sendo a capacidade de o consumidor lembrar-se da marca quando ele se depara com
a sua categoria de produto. A imagem da marca, segundo Keller (1993), é conceituada como
as associações vinculadas à marca mantidas na memória do consumidor. A tendência, a força
e a exclusividade dessas associações são dimensões que exercem um papel importante para
determinar a resposta diferencial que determina o brand equity.
Na abordagem de Aaker (1998) os ativos e passivos que atuam como base para brand
equity são agrupados em quatro categorias: lealdade à marca, conhecimento da marca, qualidade
percebida, associações da marca. A lealdade à marca da base dos consumidores é com freqüência
o ponto central do brand equity e uma medida da ligação do consumidor com a marca. Para Aaker
(1998) a lealdade reflete a probabilidade de o consumidor trocar ou não de marca, especialmente
se a concorrência realizar alguma mudança de preço ou nas características do produto.
Para Aaker (1998, p.64) o conhecimento da marca é a capacidade que um comprador
em potencial tem de reconhecer ou de se recordar de uma marca como integrante de uma certa
categoria de produtos. O mesmo autor cita que o conhecimento da marca envolve um intervalo
de sentimentos contínuo, que vai desde o desconhecimento da marca até a crença de que ela é
a única em determinada classe de produtos. Este intervalo é representado por quatro níveis de
conhecimento, sendo que o primeiro sugere o total desconhecimento da marca. O segundo nível
é o reconhecimento da marca, que é baseado em um teste de recall estimulado; o nível seguinte
está a lembrança espontânea da marca, sendo associada com uma posição mais forte da marca
e mais difícil de desenvolver do que o reconhecimento (AAKER, 1998, p .79). No último nível
estão as marcas mais lembradas em uma pesquisa de recall, sendo elas consideradas top of mind
da categoria.
A qualidade percebida é definida por Aaker (1998) como sendo o conhecimento que o
consumidor tem da qualidade geral ou superioridade de um produto ou serviço pretendido, em
relação a outras ofertas existentes. Para o autor, a qualidade percebida é intangível e representa um
sentimento geral sobre uma marca. Por fim, uma associação da marca é, para Aaker (1998), algo
conectado a uma imagem na memória, um conjunto de associações, normalmente organizadas de
alguma forma significativa. Essa imagem pode estar ligada a um símbolo, uma pessoa, sentimento
ou estilo de vida, que estejam vinculadas a uma marca.
Em resumo, pode-se afirmar que o valor de marca vai depender de que os clientes sejam
leais à marca, façam associações positivas e fortes relacionadas a ela, e percebam que a marca
possui qualidade superior.
1.4 O planejamento de Comunicação e a Lembrança de Marca
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Foi possível constatar que a lembrança de marca é um importante componente contemplado
nos dois modelos de brand equity apresentados, sendo, portanto, um fator que contribui para a
construção e manutenção do valor da marca. A revisão teórica do estudo de Khauaja e Mattar
(2006) aponta que um dos atributos que configuram uma marca sólida é o fato de ela ser lembrada
pelos consumidores potenciais. Para Aaker e Joachimsthaler (2007) a implementação de uma
estratégia de marca e sua construção se concentra, dentre outros fatores, na criação ou no aumento
de visibilidade da marca, a qual está ligada com o reconhecimento e a lembrança espontânea da
marca no processo de compra do cliente. Por conseqüência, a lembrança de marca emerge como
um dos objetivos dos programas de marketing da empresa. Shimp (2009) reforça essa condição
ao afirmar que é o nível mais profundo de consciência da marca, ou seja, a lembrança, que os
TERRA E CULTURA - No 54 - Ano 28 - Janeiro a Junho de 2012
O planejamento de comunicação de marketing e lembrança de marca: um estudo exploratório
especialistas em marketing almejam.
Essa busca da lembrança citada por Shimp (2009) ganha ainda mais destaque na medida
em que a lembrança de marca tem papel importante na tomada de decisão do consumidor, e
Keller e Machado (2006) enumeram três principais razões para isso: i) a lembrança de marca
influencia a formação e a força de associações de marca que compõem a sua imagem; ii) aumentar
a lembrança de marca aumenta a probabilidade de que ela venha a se tornar um membro do grupo
de consideração, e iii) a lembrança de marca pode afetar escolhas entre marcas presentes no grupo
de consideração.
A lembrança de marca pode ser alcançada por meio dos esforços de comunicação
da empresa (KELLER; MACHADO, 2006; SCHULTZ;BARNES, 2001; SHIMP, 2009;
VILLAREJO-RAMOS; SANCHEZ-FRANCO, 2005; MACDONALD; SHARP, 2003). No
que se refere especificamente à propaganda, estudos como os de Yoo, Donthu e Lee (2000),
Villarejo-Ramos e Sanchez-Franco (2005) e Sun, Tang e Shih (2008) apontaram que a percepção
do consumidor acerca do investimento em propaganda empregado pelas empresas influencia de
modo positivo as dimensões do brand equity, dentre elas, o conhecimento e a lembrança de marca.
Esses achados corroboram com a abordagem de Madhavaram, Badrinarayanan e McDonald
(2005) no que diz respeito ao papel da comunicação na construção do valor de marca. No modelo
teórico proposto pelos autores, a comunicação de marketing atua como um componente crítico
na estratégia global de brand equity. Ainda segundo Madhavaram, Badrinarayanan e McDonald
(2005, p.73) a comunicação eficaz é fundamental para permitir o conhecimento, lembrança de
marca e imagem, ou seja, brand equity
Porém, Aaker e Joachimsthaler (2007), lembram que esse processo não deve se resumir
apenas à propaganda, sendo importante criar uma variedade integrada de meios de comunicação
e construções de associações, bem como examinar todas as opções de comunicação disponíveis
para criar estruturas de conhecimento (KELLER; MACHADO, 2006). Isso se faz necessário em
virtude de que a lembrança está relacionada com a familiaridade da marca, e como atestam Keller
e Machado (2006), pode ser vista como uma função do número de exposições e experiências
relacionadas a ela acumuladas pelo consumidor. Aaker (1998, p.79) segue na mesma linha e
afirma que “a lembrança é difícil, requer ou uma profunda experiência de aprendizado ou muitas
repetições”.
O alcance de índices satisfatórios de lembrança de marca passa, portanto, pela realização
de esforços constantes e coordenados de comunicação, os quais se concretizam por sua gestão
eficiente. Nesse sentido, Crescitelli, Mattar e Silva (2005) reforçam que gerar lembrança de
marca em mercados competitivos requer ações consistentes e contínuas de comunicação com
uso de comunicação integrada de marketing, ou seja, tema único e eficiente, juntamente com o
uso do mix de formas de comunicação, que gere exposição adequada da mensagem em termos
de impacto e repetitividade. Nesse mesmo sentido, Belch e Belch (2008) reforçam que uma das
principais razões para o aumento da importância das comunicações integradas de marketing é o
fato de elas desempenharem um papel de destaque no processo de desenvolvimento e manutenção
do valor de marca. A integração das comunicações também é destacada no modelo de liderança
de marca proposto por Aaker e Joachimsthaler (2007, p.37). Neste caso, os autores argumentam
que o desafio é “ser percebido, ser lembrado, mudar as percepções, reforçar atitudes e firmar
relações profundas com os clientes”. Para isso, a boa execução precisa de ferramentas certas de
comunicação, incluindo mídias alternativas e interativas e um bom gerenciamento do programa
de comunicação, para que este apresente sinergia e consistência em termos de estratégia.
A partir dessas constatações infere-se que, um dos requisitos para que a lembrança da
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marca será alcançada, seja a partir da realização de um processo de planejamento de comunicação
que coordene e integre as diferentes formas e meios pelos quais as mensagens serão enviadas.
2. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
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Para complementar o estudo e identificar se o planejamento de comunicação de marketing
influencia nos índices de lembrança de marca, realizou-se um estudo exploratório descritivo. Os
dados foram coletados por meio de um questionário estruturado aplicado junto aos responsáveis
pelas ações de comunicação de quatro construtoras listadas na pesquisa “Top de Marcas Londrina
2009” como as mais lembradas na categoria Construtora. A referida pesquisa apontava 6 construtoras
com as mais lembradas, porém, duas delas se recusaram a participar da pesquisa. O mercado da
construção civil em Londrina tem apresentado resultados significativos nos últimos anos, elevando a
competição entre as empresas instaladas na cidade. Esse cenário competitivo tem levado as empresas
a investirem quantias significativas em diferentes formas e meios de comunicação, fazendo com que
o setor se torne um ambiente propício ao estudo do planejamento da comunicação.
O questionário foi dividido em duas seções: na primeira as questões buscaram compreender
os aspectos diretamente relacionados ao desenvolvimento do planejamento de comunicação:
público-alvo da comunicação, objetivos almejados, critérios de alocação de recursos, formas e
meios de comunicação, utilização de agências de comunicação, e métodos de avaliação dos esforços
de comunicação. A segunda seção buscou traçar um quadro geral das construtoras identificando
as responsabilidades pelo planejamento de comunicação da empresa, bem como caracterizar as
empresas segundo o segmento de atuação, porte e mercado de atuação. A pesquisa partiu da hipótese
de que, quanto mais efetivo for o planejamento e a execução do programa de comunicação de
marketing por parte das empresas, maiores serão os níveis de lembrança alcançados por elas no
mercado. Assim, foi necessário determinar uma forma de avaliar a efetividade do planejamento
de comunicação das empresas, envolvendo os elementos que o constituem e que foram citados na
revisão bibliográfica. Isso foi feito mediante a adoção de um critério de pontuação para cada elemento
do planejamento, de forma que, quanto maior a pontuação geral da empresa, obtida pelo somatório
de pontos de cada elemento, mais efetivo é seu planejamento de comunicação. A pontuação de cada
elemento foi dada em proporção direta à utilização por parte das empresas dos diferentes fatores
que constituem os elementos do planejamento, ou seja, a empresa que utiliza um maior número de
fatores, consequentemente terá pontuação mais alta nos elementos analisados, indicando assim uma
orientação maior da empresa para o planejamento.
O quadro 3 apresenta os elementos do planejamento de comunicação analisados, o critério
de pontuação adotado, os indicadores de cada elemento, o máximo de pontos possíveis em cada
um deles e o total máximo de pontos que as empresas podem alcançar.
Elementos do
planejamento
Público-alvo
Critério de
pontuação
Indicadores
Máx.
pontos
Para cada públicoalvo considerado
no planejamento foi
atribuído um ponto.
Cliente final (pessoa física ou jurídica),
funcionários da empresa e terceirizados,
prestadores de serviço, fornecedores,
grupos financeiros, governo (municipal,
estadual e federal), impressa e entidades de
classe.
10
TERRA E CULTURA - No 54 - Ano 28 - Janeiro a Junho de 2012
O planejamento de comunicação de marketing e lembrança de marca: um estudo exploratório
Objetivos
Para cada objetivo
declarado
relacionado à
comunicação foram
atribuídos 2 pontos.
Para os objetivos
ligados a vendas, foi
atribuído1 ponto.
Essa diferenciação
é baseada no fato de
que, segundo Belch
e Belch (2008),
o planejamento
de comunicação
deve ser baseado
em objetivos de
comunicação.
Criar consciência no mercado a respeito
dos empreendimentos da empresa,
despertar no mercado o interesse de
compra, criar sentimentos positivos sobre
a marca, reforçar a marca da empresa,
fazer com que a empresa seja a preferida
pelo mercado, fazer com que a empresa
seja uma das mais lembradas, gerar visitas
no show-room, ampliar a participação de
mercado, gerar vendas.
16
Critérios para
definição de
recursos
Um ponto atribuído
para algum dos
critérios adotados
Recursos disponíveis, média histórica,
paridade com a concorrência, objetivo e
tarefas, percentual sobre o faturamento,
alocação arbitrária.
1
Formas de
comunicação
Para cada forma
de comunicação
utilizada pela
empresa foi
atribuído um ponto.
Propaganda, patrocínio, publicidade,
promoção de vendas, marketing direto,
eventos, marketing digital, ações
para público interno, ações para trade
(imobiliárias), materiais de ponto de venda.
11
Quantidade
de agencias
de
comunicação
Para cada agência
citada como
sendo utilizada foi
atribuído um ponto.
Propaganda, promoção, marketing direto,
merchandising, relações públicas, eventos,
marketing esportivo/cultural, marketing de
incentivo.
9
Meios de
comunicação
Para cada meio
de comunicação
declarado como
sendo utilizado foi
atribuído um ponto.
TV aberta, TV fechada, rádio, jornal local e
nacional, revista local e nacional, outdoor,
cinema, painéis rodoviários.
10
Formas de
Avaliação
Um ponto atribuído
para alguma das
formas utilizadas
Fatores mensuráveis (incremento de vendas
/ marketing share), fatores subjetivos
(ganho de imagem / sensibilização do
público).
1
Total de
pontos
127
58
Quadro 3: Avaliação da efetividade da comunicação
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3. ANÁLISE DOS RESULTADOS
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As empresas foram caracterizadas segundo o porte, segmento de atuação (industrial e
residencial), tempo de mercado e mercado de atuação (local, regional, nacional). Por motivos
confidenciais as construtoras serão citadas no estudo como Construtora A, B, C e D. A Construtora
A é a mais antiga das quatro (45 anos de mercado), é a maior de todas, possuindo mais de 500
funcionários, e atua nos segmentos industrial e residencial em todo o território nacional. Além
disso, é uma das líderes na construção civil na região. A Construtora B está no mercado há 38 anos,
é de pequeno porte, seu segmento de atuação principal é o residencial e seu foco nas construções
é o mercado local. A Construtora C tem 24 anos de existência, é de médio porte e, assim como a
anterior, atua apenas no segmento residencial com abrangência local. A Construtora D é de porte
pequeno, atua tanto no segmento industrial e residencial, seu foco é no mercado local, e é a mais
nova das quatro, com 19 anos de mercado.
Os resultados apontam que a empresa que direciona os recursos de comunicação para
um número maior de públicos é a Construtora A, uma vez que todos os tipos de públicos foram
apontados como alvo da comunicação. Em outro extremo encontra-se a Construtora B. Nessa
empresa, a comunicação é direcionada apenas para o consumidor final. As outras duas empresas
direcionam seus recursos para pelo menos seis tipos de públicos distintos, deixando de lado os
grupos financeiros, o governo e as entidades de classe.
Quando questionados a respeito dos objetivos almejados pela comunicação, os
entrevistados das quatro construtoras tiveram um comportamento muito semelhante, Assim, as
construtoras buscam atingir objetivos ligados à comunicação de marketing em si, como criar
consciência e imagem de marca, e objetivos ligados a vendas, como ampliar a participação de
mercado e gerar vendas dos imóveis.
Apenas uma empresa não utiliza critérios para definição dos recursos, sugerindo
que a comunicação nesta empresa não seja tratada de forma estratégica (Construtora D). As
demais empresas pesquisadas utilizam critérios comuns na prática empresarial (recursos
disponíveis e percentual sobre o faturamento), mas que, em se tratando de comunicação,
não são os mais adequados, sobretudo para atingir os diferentes objetivos almejados citados
anteriormente.
A Construtora A é a que mais tem diversificado os investimentos entre as diferentes
formas de comunicação existentes. Nessa empresa, apenas a promoção de vendas não é utilizada,
assim como nas demais. A Construtora D afirmou utilizar apenas o patrocínio e ações de marketing
digital. Essa estratégia é de certa forma inconsistente, pois sugere que a empresa vem apostando
em poucas formas de comunicação, cada uma com características e funções diferentes, para
atingir objetivos amplos. A utilização do marketing digital (e-mail marketing e sites de Internet)
é a única forma de comunicação utilizada pelas quatro empresas, seguida da propaganda, do
patrocínio, marketing direto e de comunicação no ponto de venda, neste caso, compreendendo os
materiais utilizados no show-room das empresas. As Construtoras B e C alcançaram pontuações
intermediárias neste elemento do planejamento.
Uma vez que as quatro construtoras pesquisadas atuam no mercado local, os meios de
comunicação mais utilizados caracterizam-se por veículos com essa característica, especificamente
jornais, revistas e outdoor. As Construtoras A e C são as que mais diversificam seus investimentos,
utilizando pouco mais da metade dos meios listados. A Construtora D foi a única que afirmou não
utilizar nenhum meio de comunicação dentre a relação apresentada, sugerindo novamente que a
empresa vem destinando pouca atenção à comunicação.
TERRA E CULTURA - No 54 - Ano 28 - Janeiro a Junho de 2012
O planejamento de comunicação de marketing e lembrança de marca: um estudo exploratório
As agências de propaganda e de eventos são as empresas mais contratadas pelas construtoras
pesquisadas. A utilização de agências de propaganda é um resultado esperado, em virtude da utilização
da propaganda por quase todas as empresas. No caso dos eventos, as empresas contratadas fornecem
serviços de organização de eventos para lançamento dos empreendimentos, entrega dos imóveis e
eventos realizados durante a construção para a manutenção do relacionamento com os compradores. A
Construtora A novamente é a que mais diversifica suas ações de comunicação e busca utilizar o maior
número de agências especializadas. A Construtora D não utiliza agências especializadas em comunicação.
O último elemento analisado diz respeito às formas de avaliação dos resultados que são
utilizadas pelas empresas. Com exceção da Construtora D, que afirmou não avaliar os resultados,
as demais preferem utilizar fatores mensuráveis, como o aumento de participação de mercado
e incremento de vendas, não havendo por parte das empresas a preocupação na avaliação dos
resultados e efeitos da comunicação, como ganho de imagem, sensibilização do público, aumento
do conhecimento de marca, etc.
Com base nos resultados foi possível determinar a efetividade do planejamento de
comunicação por meio do processo de pontuação descrito anteriormente. O quadro 4 apresenta os
percentuais de lembrança de marca das empresas (baseados na pesquisa Top de Marcas Londrina
-2009) e a pontuação obtida por cada uma delas. Os resultados sinalizam que a utilização dos
diferentes fatores que constituem os elementos do planejamento de comunicação tem potencial
para contribuir com o alcance de maiores índices de lembrança de marca, uma vez que a ordem
das empresas no ranking das pontuações segue a ordem dos índices de lembrança.
A empresa líder de lembrança (Construtora A) foi também a que mais se destacou no
levantamento, apresentando um comportamento com caráter mais orientado para o planejamento
de comunicação do que as outras. Foi possível perceber certa consistência nas estratégias de
comunicação dessa empresa, uma vez que, segundo os dados coletados, os recursos destinados à
comunicação buscam atingir diversos públicos e objetivos, e para isso, a empresa tem se utilizado
de diferentes formas e meios de comunicação, além de contar com o apoio de empresas de
comunicação terceirizadas. Além disso, apenas nessa empresa as decisões de comunicação são
de responsabilidade da área de marketing. Nas demais, o processo decisório recai, ou sobre a
gerência de vendas, ou fica sob responsabilidade do proprietário da empresa. Esse resultado pode
indicar que nessas empresas a comunicação vem sendo gerenciada por setores não especializados,
o que, de certa forma, contribui para a pouca atenção dada à comunicação por parte delas e à
carência de uma aplicação dos recursos de forma mais integrada e planejada. Outro ponto que
diferencia a Construtora A das outras é que essa empresa os seus recursos de comunicação são
distribuídos segundo os segmentos de clientes nos quais ela atua (residencial e comercial).
Construtora
Pontuação obtida
% de lembrança
A
48
24,3%
B
31
1,5%
C
39
5,6%
D
20
1,0%
Quadro 4: Planejamento de comunicação x índice de lembrança
A Construtora D foi a que alcançou a menor pontuação e é a que apresenta o nível de
lembrança mais baixo. As respostas obtidas indicam que nesta empresa a comunicação parece não
estar sendo percebida e utilizada como um recurso estratégico. Além disso, os resultados apontam
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que a empresa busca atingir objetivos amplos de comunicação, porém, as práticas inerentes ao
processo de planejamento que seriam responsáveis por auxiliar a construtora no alcance desses
objetivos, não estão alinhadas com essa orientação. A Construtora C obteve 5,6% de lembrança
na pesquisa Top de Marcas Londrina-2009, ficando em segundo lugar no ranking e alcançando
39 pontos no presente estudo. Os resultados dessa empresa ficaram próximos ao da Construtora
B (31 pontos) em vários aspectos pesquisados, com exceção dos itens “público-alvo” e “meios
de comunicação”. Assim, pode-se inferir que a Construtora C vem buscando atingir um número
maior de públicos com sua comunicação e, para isso, se preocupa em utilizar diferentes meios
para atingi-los em comparação com a Construtora B.
Embora a pesquisa sinalize que o uso dos diferentes elementos do planejamento de
comunicação pode influenciar nos índices de lembrança de marca, uma análise mais criteriosa
nos resultados faz-se necessária. O ponto em questão diz respeito à desproporção entre a diferença
da pontuação obtida no planejamento entre a empresa A e as demais, que é relativamente pequena,
(com exceção em relação à empresa D, na qual a diferença foi substancial), e a diferença nos
índices de lembrança, a qual não se comportou da mesma forma. Nesse caso, observa-se que a
líder está significativamente distante das demais, registrando 24,3% de lembrança na categoria.
Em primeiro lugar, esse resultado pode indicar que a implementação do planejamento da
comunicação nas empresas menos lembradas não vem sendo efetivo, causando os baixos índices
de lembrança. Além disso, a empresa A é uma das mais tradicionais do mercado local e a que
mais lança imóveis na cidade, tendo assim, uma exposição de marca nos veículos de comunicação
muito maior do que as outras. Tal fato pode contribuir para o índice de lembrança alcançado.
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4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo teve por objetivo identificar se o planejamento de comunicação de
marketing influencia nos índices de lembrança de marca. Assim, partiu-se da hipótese de que,
quanto mais efetivo for o planejamento e a execução do programa de comunicação de marketing
por parte das empresas, maiores serão os níveis de lembrança alcançados por elas no mercado.
O estudo apontou que, dentre as empresas pesquisadas, o uso dos diferentes elementos do
planejamento de comunicação pode influenciar nos índices de lembrança de marca.
Algumas limitações do estudo merecem ser registradas. A primeira delas, e mais
importante, diz respeito à natureza exploratória da pesquisa, que impede a generalização dos
resultados obtidos. Além disso, a pesquisa ficou restrita apenas à possível influência que o uso dos
diferentes elementos do planejamento de comunicação pode exercer nos índices de lembrança de
marca. Portanto, deve-se destacar que outros fatores também podem influenciam na lembrança e
que não foram contemplados no estudo, como a tradição da empresa no mercado, os investimentos
destinados à comunicação, e até mesmo a qualidade percebida da marca no mercado estudado.
Outra limitação é baseada no fato de que a base para a análise dos índices de lembrança utilizada
no estudo foi originada a partir de uma única fonte de referência (Pesquisa Top de Marcas Londrina
2009), a qual também é cercada por suas próprias limitações.
No entanto, mesmo com suas limitações, espera-se que os resultados aqui apresentados
possam servir de referência para estudos futuros que busquem aprofundar a análise das relações
entre a efetividade do planejamento de comunicação com outras dimensões que constituem o
brand equity. Ademais, diante dos resultados que evidenciam a pouca utilização dos elementos
do planejamento por parte de algumas empresas, estudos posteriores poderiam ser realizados para
identificar os motivos da pouca importância dada a essa ferramenta gerencial.
TERRA E CULTURA - No 54 - Ano 28 - Janeiro a Junho de 2012
O planejamento de comunicação de marketing e lembrança de marca: um estudo exploratório
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TERRA E CULTURA - No 54 - Ano 28 - Janeiro a Junho de 2012
Leila Miyuki Saito, Silas Barbosa Dias
OS QUATRO PILARES DA EDUCAÇÃO NAS ORGANIZAÇÕES
DE APRENDIZAGEM: UMA PONTE PARA O SUCESSO
THE FOUR PILLARS OF EDUCATION IN LEARNING
ORGANIZATIONS: A BRIDGE TO SUCCESS
Leila Miyuki Saito29*
Silas Barbosa Dias30**
RESUMO:
As constantes mudanças nos cenários social, econômico e político geram uma inquestionável
necessidade por adaptações. O conhecimento técnico já não constitui o único caminho para o
sucesso. Neste contexto, a educação, responsabilidade não só das escolas e das famílias, assume
papel decisivo no desenvolvimento de profissionais competitivos e comprometidos com o sucesso
das empresas. Este artigo visa elucidar, por meio de uma revisão bibliográfica, como a educação
exerce seu papel na construção de organizações de aprendizagem. A ênfase está na relação
entre os Quatro Pilares da Educação e as teorias apresentadas por Peter Senge em seu livro “A
Quinta Disciplina”, como base para reflexão acerca das práticas organizacionais. Constatou-se
que através de um trabalho interdisciplinar de integração, conscientização e da valorização dos
recursos humanos é possível administrar conflitos, desenvolver profissionais e abrir espaço para
a inovação.
PALAVRAS-CHAVE: Educação. Organizações de aprendizagem. Recursos Humanos.
134
ABSTRACT:
The constant changes in the social, economic and political sceneries generate an unquestionable
necessity for adaptation. Yet, the technical knowledge isn’t the only way to success. In this
context, the education, responsibility not only of the schools and families, assumes a decisive
role in the development of competitive professionals committed to the organization’s success.
This article aims to elicit, through a bibliographical research, the role of education in building
learning organizations. The emphasis is in the relation between the Four Pillars of Education
and the theories presented by Peter Senge in his book “The Fifth Discipline”, as the basis for
reflection about the organizational actions. It was clarified that through an interdisciplinary work
of integration, awareness raising and appreciation of human resources it is possible to manage
conflicts, develop professionals and open room for innovation.
KEYWORDS: Education. Learning organizations. Human resources.
INTRODUÇÃO
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As transformações culturais, sociais, econômicas, políticas e tecnológicas criaram um
ambiente no qual a mudança organizacional torna-se imprescindível à medida que a sobrevivência
das empresas depende de sua capacidade de adaptação aos novos moldes do mundo globalizado.
Adaptação sugere aprendizagem. Não aquela dos bancos escolares, baseada na
transferência de conhecimentos que depois de acumulados e testados individualmente geram um
Graduada em Letras Anglo-Portuguesas (UEL) Especialista em Psicopedagogia Institucional (UNOPAR) Pós-graduanda em
Recursos Humanos: Gestão de Pessoas e Competências (UNIFIL)
e-mail: [email protected]
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Mestre em Estudos Ecumênicos pela Universidade de Genebra (Suiça). Docente na UniFil. Licenciado em Filosofia
(UMC). Doutorando em Teologia na Free University of Amesterdan. Coordenador do curso de especialização em Inteligência
Multifocal aplicada a Gestão de Pessoas.
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TERRA E CULTURA - No 54 - Ano 28 - Janeiro a Junho de 2012
Os quatro pilares da educação nas organizações de aprendizagem: uma ponte para o sucesso
valor que determina quem é o melhor. A ênfase está na aprendizagem incorporada ao cotidiano,
um processo coletivo no qual os indivíduos devem aprender a aprender em conjunto, gerando e
compartilhando conhecimentos.
Partindo dessa premissa e com vistas a dar um novo rumo à educação do século XXI,
Jacques Delors e sua equipe desenvolveram a pedido da UNESCO uma pesquisa que faz parte
do livro Educação: um tesouro a descobrir. O quarto capítulo, intitulado “Os Quatro Pilares da
Educação” (1998), traz aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver juntos e
aprender a ser como as quatro aprendizagens fundamentais que devem nortear a educação em
todas as fases da vida. Apesar de estarem centrados no processo de aprendizagem individual e no
melhoramento do sistema educacional, é possível traçar um paralelo entre os pilares e o ambiente
corporativo, o que torna pertinente a adoção dos Pilares como base para reflexão neste estudo.
Cabe destacar que a educação já não é responsabilidade apenas das famílias e das
escolas. O conceito de educação continuada nasceu da necessidade de constante atualização e
especialização exigida pelo acirrado mercado de trabalho. As empresas, por sua vez, estão cada
vez mais interessadas no conceito de aprendizagem organizacional como diferencial competitivo,
o que justifica a realização deste estudo.
Amplamente difundido, o conceito de Organizações Aprendentes, apresentado por Peter
Senge (2009, p. 27) em seu livro A quinta disciplina no início dos anos 90, define organizações
nas quais “se estimulam padrões de pensamento novos e abrangentes, (...) e as pessoas aprendem
continuamente a aprender juntas”.
O autor descreve cinco fatores que, se trabalhados em conjunto e por todos os membros
da equipe, atuam sobre a aprendizagem organizacional, possibilitando o desenvolvimento
das organizações de aprendizagem. São os modelos mentais, o domínio pessoal, a visão
compartilhada, a aprendizagem em equipe e o pensamento sistêmico.
Conforme Schikmann (2003, p. 16) “a aprendizagem organizacional implica chegar a
um consenso na compreensão dos conceitos envolvidos e harmonia na comunicação, de modo a
alinhar as ações individuais e as organizacionais”. Neste sentido, foram buscados na literatura os pontos de intersecção entre a educação e
o mundo corporativo, com o intuito de reunir ideias que comprovem que o sucesso das empresas
encontra-se atrelado à restauração da educação de qualidade, baseada em princípios e voltada
para a formação integral do indivíduo. Sem pretensão de esgotar o assunto, o foco deste trabalho
está na ligação entre as quatro aprendizagens e as disciplinas que, segundo Senge, são essenciais
à transição das empresas para organizações aprendentes. Desta forma, o objetivo deste estudo foi
elucidar, por meio de uma revisão bibliográfica, como a educação exerce seu papel na construção
de organizações de aprendizagem.
METODOLOGIA
Este estudo teve como base uma pesquisa bibliográfica nas áreas de educação,
administração e psicologia. Segundo Biazin e Scalco (2008, p.76) define-se por pesquisa
bibliográfica aquela “desenvolvida a partir de material já elaborado, constituído principalmente
de livros e artigos científicos”, caracterizando “uma análise aprofundada sobre o tema”.
Foram pesquisados livros-texto nacionais e internacionais, monografias, dissertações,
artigos publicados em periódicos, bases de dados e sites científicos nos últimos 15 anos. As
palavras-chave que nortearam a busca foram educação, organizações de aprendizagem e recursos
humanos.
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Para a análise dos materiais considerou-se a relação entre educação e ambiente
organizacional.
APRENDER A APRENDER
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Delors (1998) explica que aprender a conhecer, ou aprender a aprender, refere-se aos
processos cognitivos, tais como atenção, raciocínio lógico, compreensão, dedução e memória.
Aprender a aprender está relacionado à aquisição dos meios necessários à compreensão do
mundo e ao resgate do prazer em aprender, é um processo que deve acompanhar o indivíduo por
toda a vida, sendo evidentemente importante para sua carreira profissional, visto que as empresas
evoluem e o fator adaptação é primordial à sobrevivência no competitivo mundo globalizado.
No entanto, os cenários organizacionais estão repletos de casos nos quais as pessoas
resistem à mudança. Um dos fatores que leva à acomodação e à padronização de comportamentos
e atitudes é o que Senge (2009, p. 219) chama de modelos mentais: “imagens internas
profundamente arraigadas sobre o funcionamento do mundo, imagens que nos limitam a formas
bem conhecidas de pensar e agir”. Estes podem ser de simples generalizações a teorias mais
elaboradas.
De acordo com o autor, os modelos mentais exercem forte influência na forma como as
pessoas percebem e interpretam os fatos. No ambiente empresarial, eles devem ser trabalhados
pelos líderes, para que suas decisões não fiquem restritas à zona de conforto, e pelos demais
colaboradores, de modo que estejam abertos a novas ideias e atitudes.
Trabalhar modelos mentais sugere, portanto, a revisão de crenças e pressupostos. Trata-se
de aprender a desaprender, de praticar o desapego a antigas técnicas, posturas e atitudes, para que
haja espaço para a inovação. Conforme Postigo (2009) o sucesso de um projeto não depende de se
obter unanimidade de conceitos, mas é essencial que se entenda como estes se formam. Sem esta
prática reflexiva, a aprendizagem resume-se a atos reativos ao invés de generativos, sendo típico
esperar por momentos de crise para que se force a busca por soluções criativas e se tomem as
atitudes necessárias. Segundo Senge (2009, p. 236) é preciso que todas as pessoas “possam trazer
seus modelos mentais à tona e desafiá-los antes que circunstâncias externas as obriguem a fazê-lo”.
O conceito de organizações que aprendem está profundamente ligado à valorização
do elemento humano. Aprender a aprender em conjunto implica na reavaliação das práticas da
empresa, que deve estar centrada tanto na integração dos clientes, como na dos colaboradores.
APRENDER A FAZER
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Conforme Delors (1998) aprender a fazer é necessário para que se possa transformar o
meio em que se insere. Consiste essencialmente em colocar em prática os conhecimentos teóricos
adquiridos. Contudo, o autor afirma que o século XX acentuou o caráter cognitivo das tarefas e
o aprender a fazer já não consiste em aprender processos mecânicos e obter formação técnica.
Aprender a fazer não pode, pois, continuar a ter o significado simples de
preparar alguém para uma tarefa material bem determinada, para fazê-lo
participar no fabrico de alguma coisa. Como consequência, as aprendizagens
devem evoluir e não podem mais ser consideradas como simples transmissão
de práticas mais ou menos rotineiras, embora estas continuem a ter um valor
formativo que não é de desprezar (DELORS, 1998, p. 93).
TERRA E CULTURA - No 54 - Ano 28 - Janeiro a Junho de 2012
Os quatro pilares da educação nas organizações de aprendizagem: uma ponte para o sucesso
Pode-se dizer que já não basta ter uma formação técnica. O aprender a fazer evoluiu ao
estabelecer conexão com os outros três pilares uma vez que o mercado de trabalho passou a exigir
que os indivíduos estejam aptos a trabalhar em equipe, a cooperar, a comunicar-se com eficácia.
Ter iniciativa, assumir riscos calculados, saber resolver conflitos e ser flexível são mais algumas
das características que incorporaram o novo Saber Fazer.
Essa desmaterialização do trabalho faz com que se dê maior importância à competência
pessoal, em detrimento à qualificação profissional. Assim, estabelece-se o elo entre os pilares
aprender a fazer e aprender a conviver. Aprender a fazer junto pressupõe agir de forma
colaborativa, praticar a boa comunicação e manter bons relacionamentos interpessoais. Como
consequência, aprende-se a fazer melhor.
APRENDER A CONVIVER
As novas exigências do mercado de trabalho não se restringem a saber fazer. É preciso
saber fazer em conjunto. Saber compreender os outros, perceber a interdependência entre os
membros da equipe, administrar conflitos, participar de projetos comuns e ter prazer no esforço
comum são características que devem complementar o conhecimento técnico.
Deficiências em tais competências pessoais configuram um dos maiores desafios da
educação segundo Delors (1998), que consiste em aprender a viver com os outros.
No ambiente organizacional, trabalhar em grupo não significa apenas formar uma equipe
que preencha os requisitos de contratação. A integração entre os membros é fundamental e para
tanto, Delors (1998, p. 97) aponta que
se este contato se fizer num contexto igualitário, e se existirem objetivos
e projetos comuns, os preconceitos e a hostilidade latente podem
desaparecer e dar lugar a uma cooperação mais serena e até à amizade.
(...) Parece, pois, que a educação deve utilizar duas vias complementares.
Num primeiro nível, a descoberta progressiva do outro. Num segundo
nível, e ao longo de toda a vida, a participação em projetos comuns, que
parece ser um método eficaz para evitar ou resolver conflitos latentes.
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É perceptível a ligação existente entre aprender a fazer e aprender a conviver, uma
vez que o trabalho em equipe e as relações interpessoais exercem papel de destaque no ambiente
organizacional contemporâneo. No entanto, é comum que se tenha
relações de serialidade, aglomerados de pessoas anônimas que
não interatuam entre si e não têm objetivos comuns, mas objetivos
em comum. A passagem da série ao grupo implica na consciência
dos interesses comuns e do reconhecimento da interdependência
(GAYOTTO; DOMINGUES, 1996, p.22).
Mais uma vez, as disciplinas das organizações de aprendizagem e os pilares da
educação estão conectados. As relações de interdependência sugerem o resgate do pensamento
sistêmico, definido por Senge (2009, p. 106) como “uma disciplina para ver o todo. É um quadro
referencial para ver inter-relacionamentos, em vez de eventos; (...) é uma sensibilidade à sutil
interconectividade que dá aos sistemas vivos o seu caráter único.”
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Segundo o autor, o pensamento sistêmico começa com a reestruturação do modo de
pensar, ao abrir mão da procura por culpados e responsáveis. Sugere-se que todos compartilham a
responsabilidade dos problemas gerados por um sistema e que todos estão tanto sendo influenciados
pela realidade quanto influenciando-a continuamente.
O pensamento sistêmico, responsável pela percepção holística, deve caminhar junto ao
desenvolvimento da visão compartilhada. Senge afirma que a visão compartilhada permite
às pessoas sentirem-se conectadas, unidas em busca de um interesse comum. Imprescindível à
organização, pois mantém o foco e a energia necessários ao processo de aprendizagem generativa,
estimula a experimentação e o comprometimento, age positivamente sobre o relacionamento dos
colaboradores com a empresa e cria uma identidade comum.
São imagens que pertencem a pessoas que fazem parte de uma
organização. Essas pessoas desenvolvem um senso de comunidade que
permeia a organização e dá coerência a diversas atividades. Uma visão
é realmente compartilhada quando você e eu temos a mesma imagem
e assumimos o comprometimento mútuo de manter essa visão, não só
individualmente, mas em conjunto (SENGE, 2009, p. 255).
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A busca por objetivos comuns deve, necessariamente, passar por um alinhamento e
desenvolvimento da capacidade do grupo de criar os resultados almejados, o que caracteriza a
aprendizagem em equipe. Segundo Senge (2009) trata-se de uma disciplina coletiva, na qual o
grupo precisa aprender a utilizar o potencial de muitas mentes de modo que sejam mais inteligentes
que uma só mente.
A aprendizagem em equipe envolve o diálogo, a discussão e certa dose de criatividade
ao lidar com o que o autor chama de rotinas defensivas, ou seja, comportamentos que objetivam
proteger o indivíduo do constrangimento e da ameaça ocasionadas pela exposição de seus
pensamentos. Para muitos, essa exposição é uma ameaça, pois revela a necessidade de aprendizado.
Faz-se necessário o estímulo a posturas abertas e ao desbloqueio do fluxo de aprendizagem. Nesse
momento, torna-se pertinente lembrar a visão compartilhada.
Do exposto conclui-se que saber conviver com as diferenças é saudável e necessário
ao equilíbrio organizacional, pois como afirma Delors (1998, p.100) “a diversidade das
personalidades, a autonomia e o espírito de iniciativa, até mesmo o gosto pela provocação, são
os suportes da criatividade e da inovação”. Portanto, conflitos devem ser trabalhados de forma
que os membros da equipe conheçam-se uns aos outros como interdependentes e fazendo com
que se sobressaiam as semelhanças ao invés das diferenças. Assim, torna-se possível a busca por
objetivos comuns e a tensão cede lugar à cooperação.
APRENDER A SER
O fundamento que norteia o relatório aprender a ser, segundo Delors (1998, p. 99) é “o
temor da desumanização do mundo relacionada com a evolução técnica”. Tão verdadeiro quanto
atual, o quarto pilar da educação aplica-se também ao ambiente organizacional, onde ser o melhor
implica, por vezes, despir-se de valores humanos.
Aprender a ser não infere ser o melhor por exercer domínio sobre os outros ou sobre o
mercado concorrente. Esta aprendizagem visa resgatar o valor da criatividade, da imaginação e
da diversidade de personalidades. Considera-se que o propósito da educação é o desenvolvimento
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Os quatro pilares da educação nas organizações de aprendizagem: uma ponte para o sucesso
total do indivíduo, contemplando as dimensões do espírito, corpo, sensibilidade, sentido estético,
responsabilidade pessoal e espiritualidade. Incluem-se os valores, as atitudes e o objetivo de
formar indivíduos autônomos, capazes de estabelecer relações interpessoais, de se comunicarem
e evoluírem permanentemente, de intervirem de maneira consciente e proativa na sociedade.
Deste modo, estabelece-se a conexão entre o quarto pilar e o que Senge (2009, p. 179)
denomina de domínio pessoal, que é “a disciplina do crescimento e aprendizado pessoais”. De
acordo com o autor, esta disciplina permite que os indivíduos vejam sua realidade como aliada
na busca por seus objetivos. Pessoas com altos níveis de domínio pessoal não lutam contra as
mudanças, pois sabem trabalhá-las, impulsionados por seu constante desejo de aprender. São
curiosas, comprometidas e conscientes de sua ignorância, portanto, vivem em incessante processo
de aprendizagem. Não são acomodados, tampouco resignam-se face aos fracassos porque
compreendem que esses fazem parte de seu crescimento.
Domínio pessoal é a ação resultante da tensão obtida a partir da análise contínua do
que se deseja alcançar e da posição do indivíduo em relação ao seu objetivo. “Nesse contexto,
‘aprender’ não significa adquirir mais informações, mas sim expandir a capacidade de produzir
os resultados que realmente queremos na vida. É a aprendizagem generativa para a vida inteira”
(SENGE, 2009, p. 180).
Carmello (2008, p. 25) afirma que o propósito das mudanças é a “criação de coerência
entre o que se deseja ser (futuro) e o que se é realmente (presente) e para perceber que ainda não
se está agindo e funcionando de modo correspondente ao que se pode e quer ser.” Nesse sentido,
acrescenta-se a necessidade de aprender a ser resiliente.
De acordo com o autor, o comportamento resiliente apresenta-se na fluidez da
comunicação, na capacidade de reagir com flexibilidade e de recuperar-se diante de desafios e
situações desfavoráveis, nas atitudes otimistas, positivas e perseverantes e na manutenção do
equilíbrio durante e após os períodos de turbulência.
A resiliência estabelece conexão com a Inteligência Emocional, definida por Goleman
(1998 apud SINGH, 2006) como a capacidade de reconhecer seus próprios sentimentos e os dos
outros, de motivar a si próprio e de gerenciar emoções em si mesmo e em seus relacionamentos.
Segundo Orcelli (2010) ser emocionalmente inteligente implica utilizar as informações fornecidas
pelas emoções, modificando comportamentos e formas de raciocínio de modo que situações
possam ser revertidas favoravelmente.
A educação que visa o desenvolvimento total do ser humano deve contemplar o resgate
da ética. Na visão de Painter-Morland (2008) a ética demanda um equilíbrio contínuo e intuitivo,
marcados pelo caráter, os valores e os relacionamentos do indivíduo. Para a autora, agir eticamente
é, simultaneamente, ser compreensivo para com os outros, verdadeiro para consigo e decisivo na
ausência da certeza.
Do exposto, conclui-se que tanto o domínio pessoal como o aprender a ser englobam a
resiliência, a inteligência emocional, a empatia e o resgate da ética na formação de um ambiente
profissional positivo e desenvolvedor de pessoas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As empresas são redutos de diversidade. Seu propósito deve estar, antes de tudo,
centrado na integração das pessoas em busca de objetivos comuns que estejam alinhados aos da
organização. Esta sincronia só será alcançada se a aprendizagem com foco no desenvolvimento
global dos indivíduos for incorporada ao cotidiano de todos os níveis hierárquicos.
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Este estudo demonstra, portanto, que são vários os pontos de intersecção entre educação
e ambiente organizacional e que o papel da aprendizagem nas organizações vai além da oferta de
treinamentos, palestras e avaliações periódicas. Pelo fato de o sistema educacional ser orientado
apenas para o acesso ao conhecimento, a criação de projetos baseados nos quatro pilares da
educação aliados à prática das disciplinas de Senge podem ser de grande valia na construção das
organizações de aprendizagem, sendo esta uma proposta para estruturação e implementação de
trabalhos futuros.
Contemplar a educação como um todo é uma tarefa que transcende as paredes das salas
de aula. Disseminar uma cultura de valorização do ser humano na qual se ensina a agir de forma
colaborativa, a conviver com as diferenças, a perceber a interdependência, a buscar objetivos
comuns e a exercer a ética é dever de todos.
Conhecer, fazer, conviver e ser. Aspectos inerentes ao ser humano que estão perdendo
espaço à medida que o homem evolui. Propõe-se através deste estudo que o resgate desses quatro
elementos possa ser a chave para o desenvolvimento pleno dos indivíduos e, por conseguinte, de
melhores profissionais e de organizações de sucesso.
REFERÊNCIAS
BIAZIN, Damares Tomasin; SCALCO, Thais Fauro. Normas da ABNT & Padronização
para trabalhos acadêmicos. Londrina: Editora UniFil, 2008.
140
CARMELLO, Eduardo. Resiliência: a transformação como ferramenta para construir
empresas de valor. 2. ed., São Paulo: Gente, 2008.
DELORS, Jacques. Os Quatro Pilares da Educação. In: CARMELLO, Eduardo. et al.
Educação: um tesouro a descobrir. Cap. 4, p. 89-102, São Paulo: Cortez, 1998.
GAYOTTO, Maria Leonor Cunha; DOMINGUES, Ideli. Liderança – Aprenda a mudar
em grupo. Petrópolis - RJ: Vozes, 1996.
PAINTER-MORLAND, Mollie. Business ethics as practice: ethics as the everyday
business of business. New York: Cambridge University Press, 2008.
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POSTIGO, Ivan. Influências dos modelos mentais no sucesso e fracasso empresarial.
Artigonal, 2009. Disponível em: <http://www.artigonal.com/gestao-artigos/influenciasdos-modelos-mentais-no-sucesso-e-fracasso-empresarial-1307434.html>. Acesso em: 06
julho de 2011.
ORCELLI, Maria Cristina Stravolo. Competência Emocional no trabalho. 2010, 40f.
Monografia (Especialização em Recursos Humanos: Gestão de Pessoas e Competências)
– Centro Universitário Filadélfia – UniFil. Londrina, PR, 2010.
SCHIKMANN, Rosane. Características de uma Organização de Aprendizagem: Pesquisa
em uma empresa brasileira. 2003, 154 f. Dissertação (Mestrado em Administração) –
FGV/EAESP, São Paulo, 2003.
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Os quatro pilares da educação nas organizações de aprendizagem: uma ponte para o sucesso
SENGE, Peter M. A Quinta Disciplina: Arte e prática da organização que aprende.
Tradução de Gabriel Zide Neto, OP Traduções. 25. ed., Rio de Janeiro: Bestseller, 2009.
SINGH, Dalip. Emotional Intelligence at Work – A professional guide. 3. ed., New Delhi:
Response Books, 2006.
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Karina Keiko Nakao Harada, Willian Luiz da Cunha
NORMAS PARA PUBLICAÇÃO
A Revista TERRA E CULTURA é uma publicação semestral da UniFil, que tem
por finalidade a divulgação de artigos científicos e/ou culturais que possam contribuir para o
conhecimento, o desenvolvimento e a discussão nos diversos ramos do saber. Um artigo
encaminhado para publicação deve obedecer às seguintes normas:
1 – Estar consoante com as finalidades da Revista.
2 – Ser escrito em língua portuguesa e digitado em espaço 1 ½, papel A 4, mantendo
margens superior e esquerda 3 cm, e inferior e direita, 2 ½. Recomenda-se que o número de
páginas não ultrapasse a 15 (quinze).
3 – Tabelas e gráficos devem ser numerados consecutivamente e endereçados por seu
título, sugerindo-se a não repetição dos mesmos dados em gráficos e tabelas conjuntamente.
Fotografias poderão ser publicadas.
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4 – Serão publicados trabalhos originais que se enquadrem em uma das seguintes
categorias:
4.1 – Relato de Pesquisa: apresentação de investigação sobre questões direta ou
indiretamente relevantes ao conhecimento científico, através de dados analisados com técnicas
estatísticas pertinentes.
4.2 – Artigo de Revisão Bibliográfica: destinado a englobar os conhecimentos
disponíveis sobre determinado tema, mediante análise e interpretação da bibliografia pertinente.
4.3 – Análise Crítica: será bem-vinda, sempre que um trabalho dessa natureza possa
apresentar especial interesse.
4.4 – Atualização: destinada a relatar informações técnicas atuais sobre tema de
interesse para determinada especialidade.
4.5 – Resenha: não poderá ser mero resumo, pois deverá incluir uma apreciação crítica.
4.6 – Atualidades e informações: texto destinado a destacar acontecimentos
contemporâneos sobre áreas de interesse científico.
5 – Redação - No caso de relato de pesquisa, embora permitindo liberdade de estilos aos
autores, recomenda-se que, de um modo geral, sigam à clássica divisão:
Introdução - proposição do problema e das hipóteses em seu contexto mais amplo,
incluindo uma análise da bibliografia pertinente;
Metodologia - descrição dos passos principais de seleção da amostra, escolha ou
elaboração dos instrumentos, coleta de dados e procedimentos estatísticos de tratamento de dados;
Resultados e Discussão - apresentação dos resultados de maneira clara e concisa, seguidos
de interpretação dos resultados e da análise de suas implicações e limitações.
Nos casos de Revisão Bibliográfica, Análises Críticas, Atualizações e Resenhas,
recomenda-se que os autores observem às tradicionais etapas:
Introdução, Desenvolvimento e Conclusões.
6 – O artigo deverá apresentar título, resumo e palavras chave em português e inglês.
6.1 – o resumo e o abstract não poderão ultrapassar a trinta linhas;
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Levantamento da mastofauna através da coleta e identifição de pegadas da reserva florestal da nortox de
Arapongas - Paraná
6.2 – as palavras chave e keywords deverão ser de no mínimo três, e no máximo cinco.
7 – Caso haja necessidade de agradecimentos, o mesmo deve estar ao final do artigo,
antes das referências.
8 – Não serão publicados artigos de caráter propagandisticos ou comerciais;
9 – Os artigos deverão ser encaminhados para o e-mail - [email protected].
10 – As Referências deverão ser listadas por ordem alfabética do último sobrenome do
primeiro autor, respeitando a última edição das Normas da ABNT.
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12 – Identificar a ordem das autorias: autor principal e co-autores.
13 – Informar o e-mail do autor ou dos co-autores que deverão ser contatado pelo público leitor.
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Serão selecionados os artigos apresentados de acordo com a relevância a atualidade do tema, com
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Os artigos encaminhados são de total responsabilidade dos autores, sendo que as opiniões
expressas são de sua inteira responsabilidade, e não do corpo editorial.
Fica cedido os direitos autorais quando do envio do artigo para publicação.
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Karina Keiko Nakao Harada, Willian Luiz da Cunha
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