Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) Instituto Nacional do Semi-Árido (INSA) Aridez mental, problema maior Contextualizar a educação para construir o ‘dia depois do desenvolvimento’ no Semi-Árido Brasileiro1 José de Souza Silva2 EMBRAPA Algodão [email protected] (Trabalho em progresso, para discussão) Campina Grande-PB, 31 de Maio de 2010 1 Apresentação do autor no Painel “Educação Contextualizada para a Convivência com o Semi-Árido Brasileiro”, do Seminário Nacional sobre Educação Contextualizada para a Convivência com o Semi-Árido Brasileiro, realizado em Campina Grande-PB, de 31 de Maio a 02 de Junho de 2010. 2 Engenheiro Agrônomo com Mestrado em Sociologia da Agricultura e Ph.D. em Sociologia da Ciência e Tecnologia. Na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) é pesquisador da área de gestão das relações ciência-tecnologia-sociedade-inovação (CTSI) e formador em gestão da inovação institucional. De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento Introdução A inovação da inovação na educação, do contextual, mecânico e neutro ao contextual, interativo e ético “Se você viajar de avião, de Salvador para as terras do interior da Bahia, e observar a paisagem, irá deparar com uma brusca mudança. O ambiente úmido da orla marinha, povoado de graciosos coqueiros, e a extensa planície de densa vegetação são, repentinamente, substituídos, a menos de 90 quilômetros do mar, por uma plataforma imensa, de solo pedregoso, de coloração amarelo-avermelhada onde vegetam apenas os cactos e arbustos espinhosos e retorcidos. Uma paisagem seca e pobre, contrastando tristemente com o panorama vivo e alegre do mar e das matas que ficaram para trás. É a paisagem do sertão. Sua vegetação é a caatinga. O que caracteriza, realmente, essa vegetação, que se estende a perder de vista sobre as chapadas nordestinas, é a sua aparência ressequida, tortuosa e agressiva, como que torturada pelo sol calcinante e pela ausência de chuvas. O caboclo é o único ser humano capaz de sobreviver nessas terras. O sertanejo é apenas contratado pelo fazendeiro, um rico proprietário, que vive no litoral e que, muitas vezes, nem sequer conhece suas próprias terras. De aparência indolente e tostado pelo sol, com a pele esturricada como as próprias plantas espinhentas e retorcidas que o cercam. O principal meio de transporte no sertão nordestino é o jegue. Como não possui automóvel, o sertanejo leva um dia inteiro transportando, sobre a cabeça ou no lombo do jegue, uma lata d’água que mal dá para saciar a sede da família. A riqueza cultural do sertanejo, responsável pela sua regionalidade e baseada em tradições, observações e costumes milenares, deve ser objeto de estudo para oferecer-lhe explicações racionais e objetivas sobre a natureza da caatinga, em substituição às suas crendices e atitudes incoerentes e nocivas. A jacarezada é prato típico das regiões situadas às margens do Velho Chico e, segundo dizem, muito saboroso. Porque, o solo do Sertão não produz quase nada” 3. “temos exagerado...na influência das crises climáticas no atraso do polígono das secas. As condições adversas do meio não têm mais tanto poder inibidor de progresso, na era moderna, com os conhecimentos e o instrumental científico [atuais]. Muitos erros foram cometidos em nome da aridez generalizada. Entre eles está a adoção da solução hidráulica, geral, que não deu os frutos esperados” (Duque 1953:11). Pior do que a aridez das terras é a aridez das mentes. Quem conhece o Semi-Árido Brasileiro (SAB) em sua complexidade, diversidade, diferenças e contradições jamais o descreveria como o faz o Professor da Universidade de São Paulo (USP) citado nesta introdução. A falta de ética profissional e de honestidade intelectual, constitutivas das falsas verdades compartidas em seu livro, só floresce numa mente em avançado processo de desertificação cultural. Uma mente onde germinam sementes forâneas, semeadas por dominadores antigos e modernos, cujos frutos localmente irrelevantes são colhidos sempre em uma paisagem esterilizada pela homogeneidade imposta por modelos globais que violam histórias, saberes, desafios e sonhos locais. O citado autor é um fiel representante da educação descontextualizada que prevalece sobre a região, que reproduz a idéia de semi-árido dominante desde o tempo do Império, na qual o SAB é um “problema”, uma região inviável a ser tratada com o paradigma das “adversidades”. Mas, a pergunta que paira no ar é: se a educação contextualizada é a mais relevante, porque prevaleceu historicamente a educação descontextualizada, que ainda persiste na região? A institucionalização da educação contextualizada no SAB exige primeiro desqualificar a visão de mundo—concepção de realidade —que originou e ainda legitima a educação descontextualizada 3 Samuel Murgel Branco, Professor da Universidade de São Paulo (USP), em seu livro Caatinga: A paísagem e o homem sertanejo [Editora Moderna, 2003], adotado em escolas do Sudeste brasileiro; em Queiróz (2009:16, 17). 2 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento que nos legou a idéia de semi-árido hoje impregnada no imaginário de muitos líderes, gerentes, educadores, profissionais, políticos e intelectuais de todas as religiões, geografias e orientações ideológicas. Sem saber sua gênese histórica, intenção política e conseqüências epistemológicas, muitos não encontrarão razões relevantes para rejeitar sua irrelevância. O documento contribui nesta direção. A visão de mundo e o pensamento que instituíram o SAB como “região-problema” têm origem na ciência moderna, que viabilizou a consolidação do capitalismo a partir dos séculos XVI e XVII, e nos legou o paradigma clássico de inovação que penetrou e condicionou a natureza e dinâmica da “educação universal” que temos, mas que não queremos e devemos superar. O paradigma clássico—universal, mecânico e neutro—de inovação nos legou uma educação que aliena e domestica ao homogeneizar o SAB, ignorando a diversidade das relações, significados e práticas entre as diferentes formas e modos de vida na região. Chegou a hora de inovar nossa forma de inovar na educação, com uma alternativa paradigmática contextual, interativa e ética . No SAB, a educação contextualizada deve formar construtores—e não seguidores—de caminhos, a partir da pedagogia da pergunta, guiada pelo paradigma das potencialidades e inspirada pela filosofia da semi-aridez como vantagem (INSA 2008). Nossa tese é que a ‘idéia de desenvolvimento’, instituída como meta a ser alcançada por todas as nações, nos mantém reféns da dicotomia superior-inferior, criada a partir da noção de raça, que no passado classificou a humanidade em civilizados-primitivos, e no presente nos divide em desenvolvidos-subdesenvolvidos. Nossa educação descontextualizada reproduz esta dicotomia criada para a dominação, enquanto a educação contextualizada potencia a construção do ‘dia depois do desenvolvimento’ ao substituir ‘desenvolvimento’ como meta por ‘bom viver’ como fim; o objetivo é construir comunidades e sociedades felizes com modos de vida sustentáveis. A superação da aridez mental, resultante da educação colonial descontextualizada—alienadora, domesticadora —que temos, inclui uma desconstrução cultural e descolonização epistemológica. A desconstrução torna visíveis falsas verdades (culturalmente invisíveis) que inspiram e orientam ‘decisões e ações de desenvolvimento’. A descolonização revela a gênese histórica, a intenção política e a origem epistemológica destas ‘verdades do desenvolvimento’. A desconstrução e a descolonização devem incorporar o marco da etnografia institucional que analisa criticamente as relações entre poder (política) e saber (ciência) que afetam a vida (ética) cotidiana das pessoas comuns (Smith 2005). O enfoque foi aplicado com sucesso por pensadores críticos da América Latina, como o Antropólogo colombiano Arturo Escobar em A Invenção do Terceiro Mundo: “[...] a etnografia institucional [põe] ao descoberto o trabalho das instituições para prepararmos a tarefa de ver o que culturalmente aprendemos a ignorar. A participação das práticas institucionais na construção do mundo [...] nos prepara para discernir como vivemos e inclusive nos produzimos [...] dentro dos espaços conceituais e sociais tecidos...pelo monótono mas eficaz trabalho das instituições de todo tipo. Um trabalho etnográfico como este trata de explicar a produção da cultura feita por instituições que são, elas mesmas, o produto de uma cultura determinada” (Escobar 1998:218). Em sua corrente crítica, a etnografia institucional (Smith 2006) identifica o discurso hegemônico (fonte de realidade) e os dispositivos concretos e subjetivos que o viabilizam: regras políticas (fonte de poder), papéis epistemológicos (fonte de verdades), significados culturais (fonte de sentido), arranjos institucionais (fonte de padrões de comportamento), práticas institucionais (fonte de mudanças). Nesta perspectiva, o trabalho (i) sintetiza a emergência da ciência moderna no contexto da ascensão do capitalismo sobre o feudalismo; (ii) identifica idéias da Revolução Científica, que mudaram a forma de ver o mundo e de pensar sobre a natureza e a dinâmica da realidade, instituindo a descontextualização da vida e a matematização da existência; (iii) delineia o perfil do paradigma clássico de inovação da ciência que condicionou modos de interpretação e intervenção na época do industrialismo, estabelecendo a educação descontextualizada na África, América Latina e Ásia; e, (iv) reconstrói a presença do paradigma clássico no binômio civilizados- 3 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento primitivos, durante o colonialismo imperial, e no binômio desenvolvidos-subdesenvolvidos do atual imperialismo sem colônias. A conclusão comparte premissas críticas para inspirar esforço de desconstrução cultural e descolonização epistemológica que a idéia de semi-árido requer, e que a educação sobre o que é e como funciona o SAB necessita. A colonização cultural, a desertificação mental e o ‘dia depois do desenvolvimento’ “[...] as sociedades...‘avançadas’ precisam de mentes servis e colonizadas nas áreas mais ‘atrasadas’. No Brasil [e no Semi-Árido Brasileiro] isso é evidente. Colonizam-se as mentes dos dominantes [elites locais], que passam a defender mais os interesses do capital internacional do que os interesses da nação que habita” (Costa 2010: ...)4. “Nós, o povo soberano do Equador, reconhecendo nossas raízes milenares, forjadas por mulheres e homens de distintos povos, celebrando a natureza, a Pacha Mama, da qual somos parte e que é vital para nossa existência, invocando o nome de Deus e reconhecendo nossas diversas formas de religiosidade e espiritualidade, apelando à sabedoria de todas as culturas que nos enriquecem como sociedade, como herdeiros de...lutas sociais de liberação frente às...formas de dominação e colonialismo, [comprometidos] com o presente e o futuro, decidimos construir uma nova forma de convivência cidadã, em diversidade e harmonia com a natureza, para alcançar o bom viver, o sumak kawsai [...]” 5 Desenvolver ou não desenvolver? Esta não é a questão. Depois de cinco séculos de progresso e seis décadas de desenvolvimento, a humanidade nunca foi tão desigual e o planeta jamais esteve tão vulnerável. Neste contexto, desde os anos 1990, a América Latina é a região mais desigual do mundo. Se este é o estado atual da região, como reflexo da história do progresso no passado e da do desenvolvimento no presente, que futuro aspirar para o SAB, sob a idéia de semi-árido dominante no Brasil? A paisagem—natural, social e institucional—devastada pelo progresso, sob seu disfarce atual, o desenvolvimento, indica que se esgota o tempo para imaginar, negociar e construir outro futuro relevante, que terá inicia no ‘dia depois do desenvolvimento’, como propõe a ousada Constituição do Equador ao substituir o desenvolvimento como meta pelo bom viver como fim. Mas não será fácil; este dia deve nascer primeiro em nossa imaginação (compreensão) e coração (compromisso). A educação contextualizada deve emocionar a muitos; sem emoção não há paixão, e sem paixão não há compromisso. Contra isso existe o pensamento dominante. O pensamento social hegemônico na América Latina não é latinoamericano. Eram autóctones os construtores de caminhos em Abya-Yala (continente americano) até 1492, cuja construção incluía suas histórias, cores, aromas, sabores, emoções, saberes, sonhos, sons e desafios constitutivos dos modos de ser, sentir, pensar, fazer, produzir, consumir e falar dos povos originários. Desde 1492, caminhantes forâneos chegaram destruindo antigos caminhos e construindo outros com os ingredientes constitutivos de seus modos de ser, sentir, pensar, fazer, produzir, consumir e falar, criando violências, desigualdades e injustiças em nome do progresso ou do desenvolvimento que viabiliza a estratégia de (neo)colonização cultural que reproduz o sistema capitalista e o ideal de sociedade concebido pela civilização ocidental. A (neo)colonização cultural esteriliza a diversidade do pensamento crítico e criativo local e semeia o pensamento único, universal, do dominador. O problema da educação descontextualizada é que foi concebida para levar-nos a pensar como Eles 4 Nesta versão, as citações Costa (2010) correspondem ao texto Aspectos históricos e culturais do semiárido brasileiro desenvolvido para o curso de Especialização em Educação Contextualizada para a Convivência com o Semi-Árido Brasileiro, por José Jonas Duarte da Costa, Professor do Departamento de História e do Programa de Pós-graduação em História da UFPB. Aqui, as citações não incluem os números das páginas porque o referido texto ainda não foi concluído. 5 Extrato do Preâmbulo da (nova) Constitución de la República del Ecuador, vigente desde 2009 (Negrito no original). 4 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento para ser como Eles; um desafio da educação contextualizada é construir o dia a partir do qual pensaremos como nós para sermos nós mesmos. Este será o ‘dia depois do desenvolvimento’. Em países como o Brasil e regiões como o Semi-Árido Brasileiro (SAB), com experiência colonial, a colonização cultural transcendeu à colonização territorial, alienou mentes, desvalorizou saberes e domesticou corações. Gerado para viabilizar a dicotomia superior-inferior, o discurso colonial normalizou relações assimétricas de poder e naturalizou violências, desigualdades e injustiças. Legitimado pela idéia de progresso, o discurso justificou no passado a conquista do Novo Mundo. O “civilizado” tinha o direito à dominação e o “primitivo” a obrigação da obediência. Porém, como afirma Jonas Duarte, Historiador da UFPB, a resistência histórica de nossos indígenas à ocupação colonial do SAB indicava seu potencial para a sustentabilidade e sentido de seus modos de vida. Porém, prevaleceu o interesse do invasor: saquear as ‘potencialidades’ do SAB e divulgar suas ‘adversidades’. Instituiu-se a visão do SAB como região homogênea em termos de sua paisagem natural e de seu quadro de “problemas”. Ao penetrar, esterilizar e recriar os imaginários—técnico e social—locais, a colonização cultural instituiu a visão da região seca e pobre: “região inviável”. Dada a geopolítica—eurocêntrica —do conhecimento que prevalece desde 1492 com a expansão colonial do capitalismo, que fez os centros de saber coincidirem com os centros de poder, hoje a educação neocolonial continua reproduzindo e aperfeiçoando a visão do mais forte—civilizado/ desenvolvido—entre os mais débeis—primitivos/subdesenvolvidos. Esta cultiva um pensamento subordinado ao conhecimento autorizado pelo mais forte. O processo de desertificação mental piora com o mimetismo que nos induz a pensar como Eles para ser como Eles. A realidade local do autodenominado superior assume o status de realidade universal, enquanto nossos contextos históricos, materiais, culturais, institucionais locais perdem sua visibilidade e relevância, apesar de sua complexidade, diversidade, diferenças e contradições. No caso do SAB, ao reproduzir certa forma de ver a região, a educação neocolonial institui certo modo de inovação cuja principal característica é a descontextualização do “objeto” de transformação. Se a forma de ver o mundo condiciona a forma de nele atuar para transformá-lo, a cada visão de mundo corresponde uma filosofia de inovação que articula modos de interpretação e intervenção. Nos últimos séculos, a visão de mundo dominante foi concebida durante a Revolução Científica dos séculos XVI e XVII, na Europa ocidental, quando a visão—orgânica e divina —de mundo e o pensamento filosófico estabelecidos na Grécia antiga foram desafiados e depois superados pela visão—mecânica —de mundo e o pensamento—utilitarista—ocidentais. A partir daí, leis universais homogeneizaram—descontextualizaram—as realidades locais. Com a matematização do universo e da vida, o que não pode ser quantificado não existe, não é verdade ou não é relevante. Os saberes, paixões, experiências, desafios, aspirações, frustrações, desejos, histórias, significados, sonhos e potencialidades locais eclipsaram sob o efeito homogeneizador/descontextualizador de modelos globais dominantes em todos os campos do conhecimento, inclusive no da educação. Quando o projeto capitalista de expansão colonial incorporou essa homogeneização da realidade, a educação no Novo Mundo foi concebida sob a pedagogia da resposta para implementar a dicotomia superior-inferior concebida a partir da noção de raça. Camuflada na idéia de progresso, a referida dicotomia classificou a humanidade em civilizados-primitivos; hoje, disfarçada na idéia de desenvolvimento, nos hierarquiza em desenvolvidos-subdesenvolvidos. A geopolítica global do conhecimento estabelece que o relevante existe sempre em certos idiomas, é criado sempre por certos atores e nos chega sempre desde certos lugares, que nunca coincidem com nossos idiomas, atores e lugares. Sem história nem contexto, sem sonhos nem emoção, nossa educação forma receptores de valores, conceitos, teorias e modelos criados longe de nossa realidade e sem compromisso com nosso futuro. Somos formados como “inocentes úteis” que assumem todas as formas de desigualdades como “naturais”, para o que a escola nos prepara para sermos receptores de idéias, conceitos, teorias, paradigmas e modelos, cuja adoção exige apenas imitar, nunca criar nem criticar, porque para ser como Eles devemos apenas pensar como Eles. 5 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento Vamos à escola memorizar respostas que os desenvolvidos construíram para suas perguntas, a partir de seus valores locais e seus interesses globais. Este processo de colonização cultural forma seguidores de caminhos já existentes. Há apenas um modelo universal de sociedade— desenvolvida —que todos devem aspirar e podem alcançar. Basta aplicar as soluções globais que o poderoso generoso “transfere” para resolver problemas locais, com uma educação universal concebida para homogeneizar/descontextualizar/domesticar a realidade, que pode ser conhecida, quantificada e controlada de forma objetiva e neutra. Os sistemas de educação reproduzem e refletem a dicotomia superior-inferior que se expressa dentro dos países e de suas regiões. No Brasil, o Centro-Sul é aplaudido como desenvolvido, e o Norte-Nordeste é condenado como subdesenvolvido. Dentro do Nordeste, a região litorânea é “moderna”, só tem potencialidades; o SAB é “tradicional”, só tem adversidades. Esta intenção de homogeneizar de forma dicotômica a experiência humana, onde a sabedoria flui sempre de certa realidade superior para todas as demais realidades, inferiores, explica a predominância de práticas institucionais assimétricas e descontextualizadas em diversos âmbitos dos diferentes sistemas nacionais das sociedades, inclusive na concepção de pesquisas, formulação de políticas, gestão de processos educativos e execução de estratégias pedagógicas. O capitalismo, a Revolução Científica, a visão mecânica do mundo e a descontextualização da experiência humana “Essa é a lógica do sistema capitalista. Ele se desenvolve produzindo desigualdades. Para termos a riqueza mundial concentrada na Europa ocidental e na América do Norte é preciso ter a pobreza...na América Latina, África e Sul da Ásia. O desenvolvimento capitalista é desigual. Desde sua origem, se acentuando na medida em que o sistema foi dominado por grandes empresas corporativas no mundo todo. E ele se combina com uma parte ‘atrasada’, que alimenta a parte ‘desenvolvida’ com a mão-de-obra barata e um mercado consumidor à disposição, colonizado” (Costa 2010: ...). “A filosofia está escrita neste grande livro [a natureza] que permanece sempre aberto frente a nossos olhos; mas não podemos entendê-la se não aprendemos primeiro a linguagem e os caracteres em que foi escrita. Esta linguagem é a matemática, e os caracteres são triângulos, círculos e outras figuras geométricas” (Capra 1982:50). É impossível compreender a natureza do paradigma clássico de inovação, e de sua contribuição à descontextualização da realidade, sem entender primeiro o momento histórico que pariu a ciência moderna na Europa ocidental antes, durante e depois da Revolução Científica gestada nos séculos XVI e XVII. O capitalismo mercantil em expansão tinha muitas necessidades, entre elas, uma visão de mundo, desde a perspectiva do dominador, para instituir uma nova ordem natural, uma nova ordem social e uma nova ordem moral para “normalizar”—na experiência humana —a superioridade de sua racionalidade sobre a do sistema feudal (Bernal 1971; Busch 2000). O capitalismo emergente exigia um modo de inovação que transcendera a dimensão técnica da transformação da realidade material para mudar, também, a concepção de mundo da sociedade feudal; para que esta aceitara como necessárias, positivas e “normais” as condições que seriam criadas para facilitar o desenvolvimento e sucesso de um sistema cujo objetivo único é apenas acumular, sempre mais, a qualquer custo, ad infinitum. Por exemplo, a premissa religiosa de que “é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino do céu”, condenava o lucro e a usura, que não interessava ao capitalismo, que necessitava legitimar a acumulação como fim, o lucro como critério e o crescimento como estratégia (Polanyi 0000). Para instituir uma nova ordem mundial amigável ao capitalismo emergente na Europa ocidental, alguns atores formularam propostas concretas, que foram sintetizadas pelo Sociólogo Lawrence Busch em The Eclipse of Morality: science, state, and market: 6 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento “Francis Bacon propôs um mundo ordenado pela ciência natural, Thomas Hobbes, um mundo ordenado pela ciência do Estado e Adam Smith, um mundo ordenado pela ciência da economia [...] Desde tempos imemoriais, os seres humanos se preocupam com o problema da ordem. O desejo por ordem não é limitado a nenhuma forma particular de conhecimento. A ordem natural, a ordem social e a ordem moral necessitam igualmente de explicação, clarificação e segurança” (Busch 2000:3, 5). Segundo Bernal (1971), o capitalismo precisava ocidentalizar—homogeneizar —as regras do jogo da acumulação para facilitar sua penetração e estabelecimento nos quatro pontos cardeais do planeta. A homogeneização e a legitimação de sua racionalidade expansionista foram instituídas pela ciência moderna, dependente de financiamento para seu desenvolvimento. Para criar uma nova ordem de coisas ao seu favor, o capitalismo mobilizou as fontes de inovação disponíveis: do Renascimento italiano à Reforma alemã, das guerras religiosas no Velho Mundo às viagens marítimas para a conquista do Novo Mundo, da Restauração inglesa ao Iluminismo francês, e da Revolução (econômica) Industrial à Revolução (política) Francesa. Porém, a fonte de inovação preferida do capitalismo foi a ciência moderna ocidental (Bernal 1971). O Historiador francês Alexandre Koiré avaliou as mudanças conceituais da Revolução Científica como “a mais profunda revolução alcançada ou sofrida pela mente humana desde a antiguidade Grega”. O Historiador inglês Herbert Butterfield julgou que “a Revolução Científica reluziu mais do que qualquer acontecimento desde a emergência da Cristandade, e reduziu o Renascimento e a Reforma ao status de meros episódios” (Bernal 1971; Shapin 1998). A ordem científica instituída pela referida revolução estabeleceu um regime de verdades que foi disseminado (Basalla 1967) para criar as ordens natural, social e moral dominantes nos últimos séculos, através dos sistemas nacionais de educação e comunicação, e da formação de profissionais especializados na arte de “colonizar”, no passado, e na arte de “desenvolver”, no presente. A Revolução Científica dos séculos XVI e XVII, representada pela separação entre a Igreja católica e a ciência ocidental emergente, teve como pensamento dominante o da burguesia capitalista ascendente em sua época. A visão teológica de mundo da Igreja perdeu sua força e glamour para uma visão mecanicista, utilitarista e mercantil. Mais tarde, o crescimento da ordem capitalista trouxe consigo o processo de industrialização para o qual a ciência moderna deveria dar respostas e soluções práticas no campo da técnica. A noção de verdade passou a depender necessariamente da legitimação da ciência, e o método científico se transformou na medida da verdade. Só há uma verdade: a verdade científica (Bernal 1971; Capra 1982; Shapin 1998). No entanto, a natureza das contribuições do paradigma clássico tampouco pode ser entendida a partir de uma lista de suas características. É imprescindível conhecer a gênese histórica, intenção política e conseqüências epistemológicas das idéias que o constituem. Como é extensa a lista dos protagonistas da Revolução Científica, cujas contribuições já foram analisadas (Bernal 1971; Shapin 1998), aqui foram selecionados apenas alguns dos que geraram as premissas essenciais constitutivas da ciência moderna: Galileu Galilei, Francis Bacon, René Descartes e Isaac Newton. Outros foram selecionados porque contribuíram à penetração do paradigma clássico de inovação em outros campos do conhecimento: John Locke na política, August Comte nas ciências sociais e Frederick W. Taylor na ciência da administração. Algumas idéias essenciais da Revolução Científica Segundo Bernal (1971), o mecanicismo da ciência moderna começou a ser gestado bem antes da Revolução Científica. O Renascimento projetou Leonardo da Vinci, um apaixonado pelos artefatos mecânicos que podiam ter utilidade militar. Era um especialista também em Hidráulica e Mecânica, mas seu gênio era demasiado avançado para seu tempo. Não havia conhecimento quantitativo sobre dinâmica e estática que viabilizara a produção material da maioria de suas 7 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento propostas inovadoras, que ficaram imortalizadas nos seus desenhos. Concretamente, ele nunca logrou ultrapassar os limites das práticas tradicionais dos artesãos de seu tempo, mas diferia deles em sua criatividade desde o pensamento mecânico. Neste período o capitalismo emergente inovava o pagamento dos salários em dinheiro, o que gerou turbulências no sistema feudal que explorava o trabalho forçado. Era necessário criar um sistema de valores que legitimasse a agenda inovadora do capital mercantil, na qual os trabalhadores seriam libertados do jugo da terra para serem aprisionados pelo salário, que seria supostamente alto para premiar a eficiência, mas que dava apenas para reproduzir a força de trabalho. Foi neste contexto que alguns atores contribuíram à criação da nova visão de mundo, do novo pensamento e da nova ordem que o capitalismo emergente exigia. Galileu Galilei (1564-1642) A Revolução Científica teve início realmente quando Nicolau Copérnico (1473-1543) se opôs à concepção geocêntrica do universo, de Ptolomeu e da Bíblia, aceitada como um dogma por mais de mil anos. Com sua astronomia heliocêntrica, Copérnico destronou a Terra do centro do universo, e a pôs entre outros planetas que circundavam o Sol, um astro secundário na fronteira de um número infinito de galáxias. Como conseqüência, também destronou ao homem da sua arrogante posição central na criação de Deus (Bernal 1971). Certo de que sua teoria heliocêntrica teria um grande impacto na consciência religiosa, Copérnico retardou sua publicação até 1543, o ano de sua morte. Ainda assim, apresentou sua teoria como mera hipótese. Menos prudente do que Copérnico, Giordano Bruno (1548-1600) foi queimado pela Inquisição romana por promover o sistema heliocêntrico. Mas foi Galileu quem desqualificou a velha cosmologia quando estabeleceu a hipótese de Copérnico como teoria científica válida. Galileu Galilei, o Pai da Ciência Moderna, foi o primeiro a combinar a experimentação científica com a linguagem matemática para formular as leis da natureza (Capra 1982). Para que a natureza fora descrita cientificamente, Galileu postulou que os cientistas deveriam restringir-se ao estudo das propriedades essenciais dos corpos materiais, suas quantidades, formas e movimentos, que podiam ser medidos e quantificados. A sensibilidade, a estética, os valores, a qualidade, a subjetividade, os sentimentos, os motivos, as intenções, a consciência, o espírito, tudo desapareceu da paisagem científica, inclusive a experiência humana dependente do contexto e seus significados. Esta contribuição de Galileu levou à obsessão dos cientistas pela quantificação e a medição nos últimos quatrocentos anos. Sob a perspectiva da matemática e da geometria, o desinteresse pela história e o contexto deixou de instigar a curiosidade científica. Francis Bacon (1561-1626) Enquanto Galileu realizava seus criativos experimentos na Itália, Francis Bacon descrevia o método empírico da ciência na Inglaterra, formulando pela primeira vez uma teoria clara dos procedimentos do processo indutivo: realizar experimentos para retirar deles conclusões gerais a serem testadas outra vez por novos experimentos. Desenvolveu a Filosofia Experimental, e foi o primeiro a dar uma nova direção à ciência emergente rumo ao progresso da indústria material. Para ele, a idéia de entender a natureza era a única maneira de controlá-la para o lucro dos empreendimentos humanos. Saber é poder, quando é útil ao lucro e à acumulação, pensava ele. Em sua novela ficção Nova Atlântida, Bacon apresentou seu ideal para a organização da ciência, a Casa de Salomão, que mais tarde inspirou a criação de sociedades e institutos científicos na Europa. Ele propunha um mundo administrado no qual os cientistas informam ao Estado que conhecimento é bom e que conhecimento é mau. Também propôs que a ciência deve controlar a natureza para fazê-la útil ao homem, e que os cientistas devem eliminar a emoção e deixar-se manejar apenas pela razão: 8 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento “Para vencer a natureza é preciso obedecê-la. Para vencer é preciso obedecer, e para obedecer é preciso disciplinar a mente, eliminar todos os subjetivismos” (Filho e Chaves 2000:70). Desde seu utilitarismo e objetivismo, Bacon, em Novum Organum, queria destronar Aristóteles e o pensamento de outros “antigos”, para que uma “Nova América” de conhecimento fora possível, viabilizando viagens transoceânicas para “descobrir” novos continentes. O colonialismo ocidental se legitimou com sua obra. Bacon também foi um dos primeiros ideólogos do mundo-máquina, e sua atitude patriarcal marcou profundamente a emergência da ciência moderna. A natureza para Bacon era como uma mulher à espera de ser violada; seus segredos deveriam ser arrancados sob tortura—o experimento—com a ajuda de instrumentos mecânicos. O antigo conceito da Mãe Terra nutriente desapareceu por completo dos escritos de Francis Bacon (Capra 1982). Reduzida a um depósito passivo de recursos úteis para o capitalismo emergente, a complexidade da natureza perdeu sua importância para a relação simples de causa-efeito que dispensa preocupações com as demais variáveis do contexto. A descontextualização da realidade ganha mais um adepto em Bacon. Sob a ditadura da razão, Bacon não somente achava que poder é saber, mas também pensava que os homens racionais eram verdadeiros Deuses, como hoje os biólogos moleculares pensam que são Deuses porque descobriram e podem alterar o código da vida. Por tanto, podem inventar uma segunda Natureza, inclusive “fabricar” seres humanos. René Descartes (1596-1650) O Pai da Filosofia Moderna teve que lutar contra o sistema medieval de pensamento consolidado nas universidades oficiais da França, o que não o impediu de desenvolver o método dedutivo de pesquisa. Rompeu com o passado e consolidou um conjunto de conceitos para argumentar sobre o mundo material em termos exclusivamente quantitativos e geométricos. Obcecado pela dúvida, Descartes propôs um mundo ordenado e previsível: “...rejeitamos todo conhecimento que é meramente provável e consideramos que só se deve crer naquelas coisas que são perfeitamente conhecidas e sobre as quais não pode haver dúvidas...Toda ciência é conhecimento certo e evidente” (Filho e Chaves 2000:71). Como conseqüência de sua concepção mecânica do universo, Descartes valorizou apenas a parte física da realidade. Ele ignorou a dimensão moral e reduziu a experiência sensorial à Mecânica e à Geometria. O foco da ciência passou a ser tudo o que é quantificável, que resulta ser o que ele chamou de “qualidades primárias” da realidade. Com sua premissa Cogito ergo sum (Penso, logo existo), Descartes desenvolveu seu método analítico, que consiste em decompor certa realidade, problema ou pensamento em todas suas partes constitutivas, para recompô-la em um processo semelhante à desmontagem e remontagem de um relógio. O método de Descartes incluía a combinação de quatro regras: (i) a regra da evidência , que evita os preconceitos e qualquer precipitação, para acolher apenas idéias claras e distintas; (ii) a regra da análise, sob a qual os problemas devem ser divididos no maior número possível de partes para melhor resolvê-los; (iii) a regra da síntese, que distingue as verdades mais simples das mais complexas, o que presume a ordenação das partes segundo o critério da relação constante entre elas de modo que possam ser comparadas sempre com base na mesma unidade de medida; e (iv) a regra da enunciação, sob a qual se deve selecionar exclusivamente o que for necessário e suficiente para a solução do problema. A coerência deste conjunto de regras emergiu da visão cartesiana de um mundo mecânico, constituído de partes discretas, a ser descoberto pela Física: “Toda filosofia é como uma árvore. As raízes são a Metafísica, o tronco é a Física e os ramos são todas as demais ciências” (Capra 1982: 63). 9 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento Com seu método analítico—reducionista, mecanicista, racionalista—Descartes descontextualizou o próprio contexto da prática científica. Como conseqüência, descontextualizou todas as decisões e ações derivadas dos resultados da pesquisa científica. Isaac Newton (1643-1727) O golpe final da Revolução Científica à visão de mundo e ao pensamento dos “antigos” foi dado por Isaac Newton: a Lei da Gravitação Universal. O universo Newtoniano é um sistema mecânico que funciona segundo leis matemáticas exatas, sob a influência determinante da força da gravidade. Esta Lei natural explica e sustenta o padrão dos movimentos dos corpos celestes. No entanto, temendo o poder da Igreja, Newton explicava que esta máquina perfeita implicava na existência de um criador externo, o Deus monárquico que governava o mundo a partir do alto, impondo-lhe a Lei divina. Porém, ele não falava que os fenômenos físicos eram divinos e, pouco a pouco, o divino foi desaparecendo de seus escritos até que foi criado um vazio espiritual em sua ciência mecânica. Desapareceu o Deus celestial, ficando os monarcas terrenais administrando o mundo-máquina de Newton. Com Newton, o método cartesiano se transformou em sinônimo de método científico. Os aportes da Física Mecânica foram aperfeiçoados e sintetizados do sistema de Copérnico à racionalidade de Descartes. As leis mecânicas para a consagração do mundo-máquina foram institucionalizadas e canonizadas em equações matemáticas. Newton finalizou a “substituição da antiga imagem de um mundo qualitativo, orgânico, limitado e religioso, herdado dos Gregos e canonizado pelos teólogos da Igreja, por outro mundo, quantitativo, mecânico, infinitamente grande, ilimitado e dessacralizado” (Carvalho 1991:48, 49). Ele desenvolveu uma formulação matemática da concepção mecânica da natureza, em uma impressionante síntese das obras de Copérnico, Kepler, Galileu, Bacon e Descartes. Criou um método novo—Cálculo Diferencial—para descrever o movimento dos corpos sólidos, e foi muito brilhante realmente quando unificou a experimentação sistemática de Bacon, o método indutivo, com a análise matemática de Descartes, o método dedutivo. Segundo Isaac Newton, tanto os experimentos sem interpretação sistemática como a dedução a partir de princípios sem evidência experimental não conduziam a uma teoria confiável. Uma vez que a visão mecânica de mundo foi consolidada “cientificamente” no século XVIII, a Física se transformou naturalmente na referência para todas as ciências. Se o mundo é uma máquina e funciona como tal, para melhor entendê-lo e descobrir como ele funciona basta recorrer à Física mecânica de Newton (Capra 1982), para a qual o mundo-máquina existe de forma independente da história e do contexto. Como conseqüência da síntese newtoniana, a Física Mecânica se tornou o verdugo racionalista que, com golpes matemáticos e geométricos precisos, exterminou a história e o contexto da paisagem científica, des-historializando e descontextualizando a existência. Quando a Física de Newton foi institucionalizada como o paradigma a ser emulado pelas demais ciências, a natureza e dinâmica de todos os campos do conhecimento passaram a responder às suas premissas, descontextualizando tudo com seu “toque” matemático e geométrico. Outras idéias relevantes O espaço do documento não comporta uma exploração profunda nem mais ampla de outros pensadores que contribuíram diretamente à Revolução Científica, o que já foi realizado por outros autores (Bernal 1971; Shapin 1998). Nem há espaço para incluir atores que contribuíram para a consolidação, aperfeiçoamento e disseminação das idéias essenciais da referida revolução. Mas, 10 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento devemos citar três, pela importância de suas contribuições a características do paradigma clássico de inovação em outras áreas de interesse para o tema abordado aqui. Este é o caso de John Locke, August Comte e Frederick W. Taylor. Locke contribuiu à ciência política (ou à Arte do Estado), Comte às ciências sociais e Taylor à ciência da administração. John Locke (1632-1704) A teoria de Newton do universo e o enfoque racional dos problemas humanos tiveram impacto tão grande nas classes medias do século XVIII que o período de sua influência foi chamado de Iluminismo, a era da Ilustração, era das luzes. Um dos atores mais influentes desta era foi o Filósofo britânico John Locke, adepto fervoroso do pensamento de Descartes e Newton, a partir do qual desenvolveu uma concepção atomística da sociedade, descrevendo-a em termos de seu componente básico, o ser humano individual, átomo social. Locke reduziu os padrões observados na sociedade ao comportamento dos indivíduos. A análise da natureza humana de Locke foi derivada do pensamento do Filósofo Thomas Hobbes para quem a percepção sensorial é a base do conhecimento. Inspirado nesta teoria, John Locke propôs a metáfora da Tabula Rasa para comparar a mente humana, em seu nascimento. Como uma Tabula Rasa, onde nada existe ao início, a mente humana “grava” o conhecimento adquirido através da experiência sensorial. Locke estava também convencido de que as leis da natureza governavam a sociedade humana, leis semelhantes às que governavam o universo físico. Suas idéias foram a base do pensamento do movimento da Ilustração e tiveram influência no desenvolvimento do pensamento econômico e político. Os ideais de individualismo, mercados livres, governos representativos e direito de propriedade, que são atribuídos a ele, influenciaram o pensamento de Thomas Jefferson e estão refletidos na Declaração de Independência e na Constituição dos Estados Unidos (Capra 1982). August Comte (1798-1857) Como observador interessado em manter a ordem burguesa vigente, Comte criou uma corrente de pensamento denominada Positivismo, a tradição filosófica que monopolizou a consolidação de certas premissas essências da ciência moderna, estendendo a influência do regime de verdades de seu paradigma clássico de inovação ao âmbito das relações humanas, condicionando o desenvolvimento das ciências sociais. Sua proposta de uma nova filosofia e de uma reforma na ciência tinha como objetivo sustentar ideologicamente o poder conquistado pela classe burguesa. Para Comte, o conhecimento é baseado na observação dos fatos e nas relações entre eles. Estas relações são as descrições das leis que regem o fenômeno. O conhecimento só é possível quando se observa o concreto, de forma objetiva e neutra. Somente o que pode ser comprovado por meio da experiência é considerado científico. Os termos “útil”, “certo”, “positivo” e “neutro” descrevem certas qualidades do conhecimento “produzido” sob a filosofia de Comte (Filho e Chaves 2000). Segundo Comte, as ciências deveriam usar um método único, o método positivo. Neste método, o rigor metodológico, a estandardização das condições da experimentação, a possibilidade da repetição das experiências, a neutralidade científica baseada na objetividade (o abandono da subjetividade), a definição operacional do “objeto” de pesquisa, a ordenação e precisão dos dados, tudo era condição sine qua no para a prática correta da pesquisa científica. Comte assumiu a ordem natural como referência para o estudo da sociedade, que chamou Física Social e que, depois, foi denominada Sociologia. Para Comte, a sociedade é regida pelas mesmas leis universais, naturais, mecânicas, invariáveis e independentes da vontade humana, e pode ser estudada pelos mesmos métodos empregados pelas ciências da natureza. Ele queria ver na sociedade a mesma ordem imutável que percebia na natureza. Obcecado pela ordem social, Comte contribuiu à institucionalização da idéia de 11 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento progresso vinculada à questão da ordem. Acreditava que somente através da ordem era possível o progresso, e vice-versa. “Ordem e Progresso” foi o lema que Comte criou para seu movimento filosófico. O positivismo foi tão disseminado e seu impacto tão profundo e duradouro que seu lema—Ordem e Progresso— ficou institucionalizado na Bandeira do Brasil. A idéia de progresso está associada à imagem de uma linha contínua, como um rio seguindo seu curso sempre adiante, rumo à perfeição onde mais é sinônimo de melhor. A idéia de progresso assume que uma civilização se move rumo a um modelo perfeito de vida em sociedade onde o maior número de indivíduos é feliz. No entanto, Comte e seus seguidores nunca responderam satisfatoriamente às perguntas: Que é a felicidade? Pode o progresso assegurar a felicidade? Os positivistas que tentaram fazê-lo igualaram a maior felicidade ao maior conforto material e ao maior acesso ao progresso tecnológico. Frederick Winslow Taylor (1856-1915) Taylor não foi um filósofo, não foi um cientista, não participou da Revolução Científica nem contribuiu à sua consolidação. Porém, ele foi instrumental para a penetração de algumas das premissas—verdades—da referida revolução no campo da administração, com efeitos profundos na pesquisa e na educação, e principalmente na administração de fábricas e, depois, na gestão de organizações (privadas e púbicas), e de programas e projetos de “desenvolvimento”. Ele era muito interessado na gestão eficiente da produção industrial e no controle preciso dos obreiros, seus corpos e seus movimentos. Em 1872, Taylor realizou uma viagem à Europa para conhecer os métodos de administração das fábricas industriais e principalmente para familiarizar-se com as idéias e o pensamento em ascensão da ciência moderna, positivista. O mais atrativo para ele foi a metáfora do mundomáquina construída e cultivada por grandes nomes da ciência ocidental, como René Descartes, do qual foi um admirador fanático, principalmente de seu método analítico. Em 1909, ele realizou uma conferência na Escola de Negócios da Universidade de Harvard onde comparou seu método de pesquisa a uma organização militar, que para ele era a instituição que mais se aproximava do ideal da organização-máquina. Seus princípios da administração científica, resultantes de seu método cartesiano de pesquisa e gestão, representam a penetração das premissas da ciência moderna, e de suas verdades sobre a natureza e sua dinâmica, assim como sobre o ser humano, a sociedade e suas instituições, no mundo da administração pública e da gestão privada. Sua influência continua através de modelos racionalistas de gestão disfarçados sob novas etiquetas que hoje estão de moda: planejamento estratégico, reengenharia e qualidade total (Boje e Winsor 1993). A promessa da administração científica era controlar com precisão matemática o trabalho dos obreiros industriais em particular e as empresas em geral. Taylor cultivou a razão instrumental que se manifestava em sua fé na eficiência, tecnificação do planejamento, organização dos fatores de produção e a divisão do trabalho entre os que planejam e decidem e os que devem só executar. Refém da visão mecânica da realidade, herdada da ciência moderna, Taylor percebia aos obreiros como autômatos biológicos. No Congresso dos Estados Unidos lhe perguntaram seu conceito do trabalhador ideal, aquele que preencheria todos os requisitos dos princípios de sua “administração científica”. Comte respondeu assim: “Meu conceito do trabalhador ideal é o de ‘homem boi’, forte, submisso e estúpido: forte para produzir muito, submisso para cumprir ordens sem questioná-las, e estúpido para não perceber que é sobre-explorado. Ademais, o ‘homem boi’ é tão estúpido que não se presta para outro tipo de serviço” (De Souza Silva 2007:36). 12 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento Portanto, o paradigma clássico da ciência moderna emerge principalmente da articulação da realidade matemática e geométrica de Galileu, do utilitarismo e empirismo mecanicista de Bacon, do racionalismo e reducionismo mecanicistas de Descartes, da Física do mundo-máquina de Newton e da ciência objetiva, neutra e positiva de Comte. No campo do desenvolvimento, podese adicionar para o caso da educação a Tabula Rasa de Locke, que descontextualizou a realidade educativa do processo pedagógico, e o conceito de “homens bois” de Taylor que, transformado em “recursos humanos”, descontextualizou as histórias de vida de educadores e educandos. Dada a natureza dos referidos aportes, pode-se agora imaginar a natureza do paradigma clássico e de suas contribuições à educação, que foi des-historializada e des-contextualizada. O paradigma clássico de inovação da ciência moderna Se queremos compreender a natureza das contribuições do paradigma clássico de inovação da ciência moderna à educação que temos, é imprescindível entender o que é um paradigma. A maioria dos profissionais e dos educadores nem sequer está consciente de que a natureza e dinâmica de sua prática são influenciadas por verdades que o paradigma clássico instituiu sobre o que é a realidade e como esta funciona, no caso, sobre a natureza e dinâmica da educação em geral e do processo de aprendizagem em particular. Se certas verdades ontológicas, epistemológicas, metodológicas e axiológicas de um paradigma definem a natureza e dinâmica da realidade, o paradigma clássico de inovação, que emergiu durante a Revolução Científica dos séculos XVI e XVII, influenciou também o significado da idéia de progresso, da idéia de desenvolvimento, da “idéia de semi-árido” e do conceito e da prática da educação. Mas, o que é um paradigma? Paradigma: o conceito e suas dimensões constitutivas Depois da publicação em 1962 de A Estrutura das Revoluções Científicas, de Thomas Khun, um Físico, Filósofo e Historiador da Ciência, o conceito de paradigma ganhou imensa popularidade ao transcender as fronteiras do imaginário científico e invadir os imaginários técnico e social. Em termos gerais, um paradigma (Khun 1970) é um marco que articula uma constelação de “regras” para influenciar a forma de ser, sentir, pensar, fazer e falar de uma comunidade de seguidores. Para Khun, um paradigma científico define para a comunidade de seus seguidores os valores culturais a compartilhar, os temas relevantes a pesquisar, as perguntas críticas a responder, as teorias apropriadas a adotar, as regras metodológicas a seguir, os exemplos paradigmáticos de pesquisas já realizadas a emular e até a natureza dos resultados a lograr. Sob estas condições, ocorre o que Khun chama ciência normal, quando a coerência do conhecimento gerado está em correspondência com as premissas constitutivas do paradigma, e a dinâmica de seu avanço é de caráter acumulativo. Porém, cedo ou tarde, anomalias nos resultados de pesquisa emergem em contradição com uma ou mais premissas orientadoras do paradigma. Isso deflagra uma crise irreversível do paradigma, que perde sua credibilidade como fonte de inspiração e orientação, como ocorreu com o paradigma geocêntrico da astronomia, quando certos resultados mostraram que a Terra não era fixa nem o centro do universo. Este foi o paradigma desafiado e superado pelo paradigma heliocêntrico de Copérnico. Esta crise gera o que Khun denomina revolução científica, que transforma o pensamento científico dominante e abre espaço para a construção de outros candidatos a paradigma, um dos quais, em competição com os demais, substituirá àquele no qual a comunidade científica perdeu a confiança. Apesar de que Khun atribui excessiva autonomia à comunidade científica no processo político de substituição de paradigmas, ignorando a influência da sociedade nestas matérias, sua teoria é robusta e consegue demonstrar que o avanço do conhecimento científico não é acumulativo e 13 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento que os paradigmas não são eternos. Rupturas e emergências caracterizam melhor a história paradigmática do conhecimento científico em qualquer campo. Um paradigma é construído a partir de uma visão de mundo—concepção de realidade que é a fonte de coerência das verdades que este propõe para explicar a natureza e dinâmica da realidade. O conjunto dessas verdades é a lente cultural através da qual indivíduos, famílias, comunidades, grupos sociais, sociedades e até civilizações inteiras interpretam a realidade e nela atuam para transformá-la. Se uma premissa é uma crença, e uma crença é uma verdade que não necessita ser demonstrada, uma visão de mundo é um regime de verdades sobre o que é e como funciona a realidade. Então, derivado de uma visão de mundo, um paradigma é o meio através do qual uma concepção de realidade é implementada em sua plenitude. Todo candidato a paradigma concebe verdades na forma de respostas a perguntas críticas que estão vinculadas às dimensões—ontológica, epistemológica, metodológica e axiológica —que o constituem: • Dimensão ontológica. Refere-se à natureza da realidade; a pergunta crítica a responder é: que é a realidade? Perguntas como, Que é o semi-árido?, Que é ser Sertanejo no SAB, Que é a educação, Que é saúde e Quem sou Eu?, são perguntas de caráter ontológico. • Dimensão epistemológica . Refere-se à natureza do conhecimento e do processo para sua geração e apropriação; a pergunta crítica a responder é: que é relevante conhecer na realidade, através de que processo? • Dimensão metodológica. Refere-se ao método e à natureza do indagar (à natureza do diálogo com a realidade que se quer conhecer); a pergunta crítica a responder é: como conhecer o que é relevante conhecer na realidade? • Dimensão axiológica. Refere-se a valores éticos e estéticos e à natureza da intervenção; a pergunta crítica a responder é: que valores éticos e estéticos devem prevalecer na intervenção para conhecer o que é relevante conhecer na realidade? Para o paradigma clássico da ciência moderna, a fonte de coerência para suas respostas a estas perguntas críticas, a que todos os candidatos a paradigma devem responder, é a visão mecânica de mundo que o inspira, construída na Revolução Científica dos séculos XVI e XVII. Nesta visão, o universo é uma engrenagem perfeita, o mundo é uma máquina regular, precisa e objetiva, que pode ser conhecido, controlado e traduzido à linguagem matemática, sem nenhuma alusão à história ou ao contexto, à subjetividade ou à emoção, e muito menos ao potencial transformador da experiência humana sobre sua realidade, através de outras percepções, decisões e ações. É a partir de premissas como estas que o perfil do paradigma clássico da ciência ocidental pode ser delineado para revelar suas profundas implicações para a educação descontextualizada que hoje prevalece na maioria dos países da África, América Latina e Ásia. O perfil do paradigma clássico da ciência moderna e a emergência da educação descontextualizada “O problema do ‘modo [paradigma] clássico’ de inovação não é…sua origem européia, mas sim o fato de que, sendo uma concepção particular, desenvolvida desde certo lugar, por certos atores e em certos idiomas, haja sido imposto a todos como o único modo possível para a inovação para o desenvolvimento. [...] Se o ‘modo clássico’— eurocêntrico—não resultou...satisfatório para promover o bem-estar inclusivo, chegou a hora de inovar nossa forma de inovar” (Escobar 2005:18, 19) “Para Descartes como para Newton, o universo material é como uma máquina na qual não há vida, nem telos, nem mensagem moral...só movimentos e coisas ensambladas 14 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento que podem explicar-se de acordo com a disposição lógica de suas partes. Não só a natureza física, mas também os homens, as plantas, os animais são vistos como meros autômatos, regidos por uma lógica mecânica. Um homem enfermo equivale...a um relógio descomposto, e o grito de um animal ferido não significa mais do que o ruído de uma roda sem óleo lubrificante” (Castro-Gómez 2007: 82, 83). O perfil de um paradigma emerge de suas respostas às perguntas vinculadas às suas dimensões ontológica, epistemológica, metodológica e axiológica. O paradigma clássico da ciência moderna manteve o monopólio das respostas às referidas perguntas, construídas durante a Revolução Científica e instituídas como as únicas válidas a partir da Revolução Industrial que o capitalismo emergente estabeleceu para sua expansão. Os demais paradigmas específicos foram concebidos refletindo as premissas do paradigma clássico da ciência moderna incorporado à realidade da indústria capitalista em ascensão. Estes paradigmas foram amplamente aplicados a todos os campos do conhecimento e todas as esferas da experiência humana, como referência para sua compreensão do que é a realidade e como esta funciona. O monopólio das respostas instituídas pelo paradigma clássico foi assegurado por uma única tradição filosófica, o Positivismo, para a qual “só existe uma ciência”, aquela que aplica “o método científico”, o único capaz de gerar conhecimento objetivo e válido para todas as realidades. As respostas do paradigma clássico às perguntas paradigmáticas, que persistiram nos últimos séculos, mas que já não têm o monopólio da verdade, são as seguintes: • Que é a realidade? A realidade—o mundo—é uma máquina constituída de partes; para conhecer o todo basta desmontá-lo em suas partes constitutivas, até conhecer todas elas, inclusive a menor de todas (o átomo, no caso do universo, o gene no caso da vida), para remontá-lo ou reconfigurá-lo. A realidade concreta—objetiva —é como um relógio; pode ser decomposta para ser conhecida, e recomposta para ser controlada e manejada. Esta resposta des-historializa y descontextualiza a realidade em geral e a experiência humana em particular. Por exemplo, nesta percepção, tanto as políticas públicas quanto a educação são concebidas de forma abstrata, desvinculadas da diversidade, diferenças e contradições constitutivas da complexidade das múltiplas realidades locais em qualquer continente, região, pais, município ou comunidade. • Que é relevante conhecer na realidade? Existe apenas uma realidade concreta, objetiva. Nesta realidade fixa e independente, o relevante é conhecer as leis—naturais, universais, mecânicas, imutáveis—que regem seu funcionamento, através de um processo de decomposição do todo para que suas partes sejam sistematicamente analisadas, e suas relações traduzidas à linguagem matemática. O conhecimento da realidade é objetivo porque sua “produção” é inspirada em leis naturais e orientada pelo método científico. Estas leis e método condicionam a natureza da pesquisa e de sua gestão, para assegurar sua objetividade e neutralidade. A essência desta resposta é que, se as leis que regem o funcionamento da realidade são universais, as histórias e diferenças locais eclipsam sob o efeito homogeneizador das referidas leis, insensíveis à complexidade da realidade. • Como conhecer o que é relevante conhecer na realidade? A realidade objetiva é também independente da percepção humana. O método ideal para conhecer a realidade é aquele que separa o pesquisador do “objetivo” de pesquisa, para evitar que valores e interesses humanos “contaminem” a descrição da realidade como ela realmente é. Além disso, o método científico deve separar o “objeto” de pesquisa do seu “contexto”. O contexto é uma inconveniência, por possuir mais variáveis do que as que devem ser analisadas na relação causa-efeito. Como para cada efeito só há uma causa, onde A causa B, sempre em um só sentido, da causa ao efeito, o que se necessita é de uma hipótese sobre que causa o que, para isolar ambas variáveis e analisar o efeito e sua causa , em um lugar absolutamente controlado para estudar, manejar, descrever e controlar suas relações de 15 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento forma sistemática. A interação entre o pesquisador com atores humanos e não-humanos do contexto de pesquisa é uma inconveniência; os atores humanos podem contaminar os resultados com seus valores, enquanto o contexto pode alterar os resultados com a presença de variáveis que não participam da relação simples de causa-efeito. Esta dupla separação tenta realizar duas proezas absolutamente impossíveis. Por um lado, tenta separar o pesquisador do contexto da pesquisa , a realidade da qual ele passa a ser parte constitutiva no momento que começa a pensá-la para atuar sobre ela com seu método de observação, com seu modo de intervenção para indagá-la e com seu marco cultural de referência para descrevê-la. Por outro lado, o método tenta separar o problema estudado do contexto que o gerou. Mas é o contexto que o faz emergir e expressar-se de certa forma e não de outra, contexto este do qual é parte constitutiva, e que também oferece “pistas” para distinguir entre opções de solução aquela cuja coerência estará em maior grau de correspondência com as circunstâncias históricas, materiais, culturais, socioeconômicas, políticas, ecológicas, institucionais e éticas locais. • Que valores—éticos e estéticos—devem prevalecer na intervenção para conhecer o que é relevante conhecer na realidade? A dimensão axiológica é totalmente desnecessária na prática científica. O método científico faz uma “assepsia” político-ideológica no processo de pesquisa para afastar os valores e interesses humanos que podem contaminar seus resultados. Igualmente, o método científico evita que o contexto contamine o “objeto” de pesquisa ao evitar a intromissão de variáveis que não participam da relação simples de causa-efeito. O contexto é reduzido às variáveis indicadas na hipótese científica. Em um lugar absolutamente controlado, descontextualizado, só as relações entre as variáveis propostas pela hipótese científica são controladas e sistematicamente analisadas sob a aplicação meticulosa e precisa de certos procedimentos metodológicos e instrumentos científicos. A resposta indica que a pesquisa científica dispensa discussão sobre valores. Na concepção positivista da ciência, o método científico esteriliza qualquer vestígio de vida humana e não-humana, já que as plantas, os animais e até os seres humanos são percebidos como máquinas bioquímicas. Por isso, os “objetos” de pesquisa prescindem de atenção ou de preocupação ética, já que o contexto axiológico inexiste em um mundo vazio de valores, de sonhos, de desejos, de paixões, de decepções, em fim, de emoção. Concebidas no ventre da metáfora do mundo-máquina, as respostas do paradigma clássico às perguntas paradigmáticas compartilham a visão do universo como uma engrenagem perfeita; a universalidade do conhecimento científico; a existência de leis naturais, mecânicas e imutáveis que regem o funcionamento da natureza e da sociedade; a hierarquia constitutiva da ordem natural; o mecanicismo do funcionamento da realidade; o reducionismo “natural” do processo analítico que estuda apenas as partes da realidade; e a singularidade, objetividade e neutralidade do conhecimento “produzido” a partir da aplicação disciplinada do método científico. Nesta ordem de coisas, conclui-se que o paradigma clássico de inovação da ciência moderna se apresenta como universal em suas possibilidades, é mecânico na sua abordagem da dinâmica da realidade e reivindica ser neutro quanto aos seus impactos. Sua racionalidade instrumental elimina a relevância da história, contexto, complexidade, diversidade, diferenças, contradições, emoção, em fim, tudo vinculado à subjetividade, à espiritualidade. O humano, o social, o cultural, o ecológico e o ético estão ausentes do foco do referido paradigma; o que não é quantificável não existe, não é verdade ou não é relevante. Portanto, não deve constituir surpresa a resultante descontextualização de tudo que é penetrado, influenciado ou condicionado pelo paradigma de inovação da ciência moderna, desde a concepção de políticas até a execução de projetos, da formulação de programas educativos até a execução de estratégias pedagógicas. Porém, no contexto mais amplo da crise da civilização ocidental, tudo está sob questionamento, suas instituições, seu modelo cultural, seu sistema capitalista (Wallerstein 1999), sua idéia de 16 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento progresso (Dupas 2006), sua idéia de desenvolvimento (Attali et al. 1980), sua ciência (Restivo 1988) e seu método científico (Feyerabend 1975), seus modelos de gestão (Boje et al. 1996) e sua educação, criticada por Paulo Freire. Depois de cinco séculos da idéia de progresso e seis décadas da idéia de desenvolvimento, a humanidade nunca este tão desigual e o planeta tão vulnerável. É sob estes e outros questionamentos graves que os significados da contribuição do paradigma clássico da ciência moderna à educação devem ser interpretadas. Mas, para explorar o processo de descontextualização da realidade em geral e da educação em particular, é critico compreender a geopolítica do conhecimento que revela a gênese histórica, intenção política e origem epistémica da dicotomia superior-inferior. Esta foi estrategicamente disfarçada na idéia de progresso durante o colonialismo imperial, através do binômio civilizadosprimitivos, e camuflada na idéia de desenvolvimento durante o atual imperialismo sem colônias, iniciado depois da Segunda Guerra Mundial, através do binômio desenvolvidos-subdesenvolvidos. A geopolítica do conhecimento, a idéia de progresso/desenvolvimento e a descontextualização da realidade, desde 1492 “A história do conhecimento está marcada geograficamente...tem um valor e um lugar de origem [...] Os conhecimentos [produzidos] na África, América Latina ou Ásia não são...sustentáveis. O conhecimento, como a economia, está organizado em centros de poder e regiões subalternas...Não devemos pensar que o que vale como conhecimento está em certas línguas e chega de certos lugares. A geopolítica do conhecimento [impede] que o pensamento seja gerado em outras fontes [...] O pensamento crítico... deve ser um processo de descolonização intelectual [para] contribuir à descolonização de outras áreas, ética, econômica e política” (Mignolo 2003: 1, 2, 3, 23). “O nativo dessas bandas [Semi-Árido Brasileiro], batizado depois de índio, se utilizava dessas extensas áreas de terras, ao seu modo e sob sua forma que considerava mais adequada para...seu povo e...sua terra. A sabedoria indígena veio de seu aprendizado com a rica flora e fauna que a cobria e a habitava, pois nela e dela se consolidou um povo apegado ao lugar [seu território, seu contexto]...” (Costa 2010 ). “O neocolonialismo é um aperfeiçoamento do antigo sistema. Continua a dependência dos países periféricos em relação aos países centrais, cujo poder emana, não da força de suas armas, mas da pujança de suas economias e, sobretudo, da sua supremacia tecnológica e financeira [...] Alem disso, impõem padrões comportamentais e culturais estranhos aos países dependentes” (Ribemboim 2002:69, 70). “No futuro, as raças civilizadas quase certamente exterminarão e substituirão as raças selvagens em todo o mundo” (Darwin 2000:33) “[...] O mais forte não o será jamais bastante, para ser sempre amo e senhor, se não transforma sua força em direito e a obediência em dever” (Rousseau 1985:95). Rousseau reconhece, no Contrato Social, que o mais forte não está satisfeito em ser apenas o mais forte em sua relação com o mais débil. Ele institucionaliza relações assimétricas de poder para criar seu direito à dominação e estender ao subalterno a obrigação da obediência. O direito do mais forte há sido a fonte de inspiração mais efetiva do discurso, regras, papéis, arranjos, significados e práticas institucionais que estabeleceram as desigualdades globais desde 1492 (Dussel 1992; Escobar 1998, Mignolo 2000, 2003). A etnografia institucional investiga os vínculos entre a experiência social cotidiana e os processos trans-locais que organizam e coordenam esta experiência como parte dos dispositivos de poder— relações e práticas institucionais de controle-comando-dominação—da sociedade (Smith 1987; Brooks 1994; Campbell e Gregor 2002). Nesta perspectiva, a institucionalização internacional da desigualdade incorporou a América Latina desde o final do século XV, quando impérios da Europa 17 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento ocidental invadiram o que denominaram Novo Mundo com a estratégia de dominação para a exploração que instituiu seu imaginário para “naturalizar” sua superioridade e a inferioridade do Outro (Dussel 1992; Quijano 2000, 2007). A estratégia materializou-se na dicotomia superior-inferior—civilizados-primitivos—que viabilizou o projeto político-ideológico-epistêmico da Europa ocidental para criar uma ordem política, econômica e militar conveniente aos seus interesses globais e à sua ambição expansionista. A institucionalização da dicotomia superior-inferior implicou na emergência da colonialidade do poder, colonialidade do saber e colonialidade do ser 6, absolutamente críticas para a criação, consolidação e sustentabilidade do sistema-mundo—moderno/colonial—capitalista a partir de 1492 (Lander 2000; Mignolo 2007). Desde então, a natureza e dinâmica das relações ciênciatecnologia-sociedade-inovação (CTSI) foram influenciadas pela colonialidade do poder, do saber e do ser (Castro-Gómez e Grosfoguel 2007). A colonialidade do poder (Quijano 2007) expressa uma estrutura global de poder criada pelo colonizador para controlar a subjetividade dos povos colonizados. A invasão do imaginário do Outro e sua ocidentalização se deu através do discurso—moderno/colonial—que tenta destruir o imaginário do Outro ao mesmo tempo em que reafirma o próprio. O centro de seu núcleo ideológico está na idéia de raça. Existem raças superiores e raças inferiores, o que dá à raça superior o direito à dominação e exige das raças inferiores a obrigação da obediência, conforme o direito do mais forte criticado por Rousseau em sua pesquisa para escrever O Contrato Social. Na antiguidade, existia uma visão tripartite do mundo—África, Ásia e Europa —na qual a Europa aparece como uma cultura superior, visão esta reforçada pelo relato cristão da Idade Media que menciona uma Europa povoada pelo bom Jafé, o filho abençoado de Noé. Por isso, o discurso do colonialismo incluiu a América como uma extensão da Europa, ainda que inferior, para legitimar a “civilização” e “cristianização” deste continente. Com o discurso da pureza de sangue na Espanha do século XIV, emergia a primeira classificação social da população mundial, que ao início do século XVI inclui a união de cor e raça, e permite comparar para justificar certos modos de vida. Na geografia social do sistema capitalista emergente, nasce uma divisão racial do trabalho na qual a escravidão é a ocupação exclusiva do negro, a servidão é a ocupação obrigatória do índio e o trabalho assalariado é quase um monopólio do branco. O Estado gerencia a colonialidade do poder, da qual é também constitutivo. Em síntese, a colonialidade do poder é uma estrutura hegemônica global de poder e dominação que articula raça, trabalho, espaços e pessoas, de acordo com as necessidades do capital e para o benefício da raça superior. A colonialidade do saber (Lander 2000; Mignolo 2007) é uma geopolítica do conhecimento cuja hegemonia epistemológica surge do singular poder de dar nome pela primeira vez, criar fronteiras, decidir quais conhecimentos e comportamentos são ou não legítimos, e estabelecer uma visão de mundo dominante. Esta concepção é imposta aos colonizados para subalternizar suas culturas e suas línguas, o que é violência epistemológica para os que têm seu imaginário invadido e eventualmente destruído. Para isso, inventaram a ciência ocidental com o objetivo de criar uma justificativa científica do mundo e sua dinâmica, a partir da visão do colonizador (Blaut 1993). Também para comparar os modos de vida das várias raças, para justificar a missão das superiores de “civilizar”—ocidentalizar—às raças inferiores. A ciência da Europa foi criada para viabilizar o capitalismo através de inovações tecnológicas para transformar a realidade material e de inovações institucionais, sociais e políticas convenientes para os interesses globais do capitalismo emergente e da ambição expansionista dos impérios da Europa ocidental. 6 Os conceitos de colonialidade do poder, colonialidade do saber e colonialidade do ser foram desenvolvidos por pensadores desobedientes da América Latina que integram o Grupo Latinoamericano de Pesquisa sobre a Modernidade/Colonialidade. Seu pensamento foi analisado e sintetizado por Escobar (2003) e Pachón-Soto (2007a), e pode ser encontrado atualizado pelo próprio grupo em Castro-Gómez e Grosfoguel (2007). 18 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento Apoiados na razão e na experimentação, os cientistas querem ser Deuses. A natureza pode ser controlada quando expressada matematicamente na forma de leis universais. As ciências sociais podem decifrar as leis naturais do funcionamento da sociedade e suas instituições. A legitimação científica do mundo surge de um ponto de vista supostamente universal, objetivo e neutro, que Santiago Castro-Gómez conceitua como a hybris do ponto zero: “localizar-se no ponto zero é o começo epistemológico absoluto. Equivale a ter o poder de instituir, de representar, de construir uma visão sobre o mundo social e natural reconhecida como legítima e avalizada pelo Estado” (Castro-Gómez 2005:25). O cânon, o molde, o modelo, o padrão, o paradigma, em fim, o centro civilizado do mundo é Europa, superior, enquanto o resto é sua periferia, inferior. Para legitimar a superioridade de uns e estabelecer a inferioridade de outros, os impérios da Europa ocidental contaram com filósofos, como Kant, e com cientistas, como Linnaeus, que emprestaram sua credibilidade científica e competência epistemológica à iniciativa imperial de classificação social da humanidade a partir do critério de raça: “Gênero original: branco; Primeira raça: ...louro de frio úmido (Europeus); Segunda raça: vermelho cor de cobre (Americanos [indígenas]), de frio seco; Terceira raça: negra (Africanos) de calor seco; Quarta raça: amarelo cor de oliva (Índios [asiáticos]) de calor seco. Em países cálidos o ser humano amadurece primeiro, mas não alcança a perfeição das zonas temperadas. A humanidade existe em sua maior perfeição na raça branca. Os negros são inferiores, mas os mais inferiores são os povos americanos [indígenas]. Os...amarelos são os que têm menor talento” 7. “Karl Von Linnaeus...famoso catalogador de nosso conhecimento do mundo natural enumerou quatro importantes e originais grupos humanos...os Europeus, governados com base em leis, os americanos governados por meio de seus costumes, os asiáticos governados pela opinião, e os africanos governados com base no contingente e no arbitrário” (Mendieta 1998:148). A colonialidade do ser (Maldonado-Torres 2007) é a dimensão ontológica da colonialidade que se afirma na violência da negação do Outro. O ser europeu, superior, é um ser excludente, que não inclui a experiência colonial da não-Europa. A certeza do Ego conquiro (Eu conquisto) do conquistador (Dussel 1992) precede a certeza do Ego cogito de Descartes. Como disse Fanón: “Não basta ao colono limitar o espaço do colonizado; o colono faz do colonizado a quinta essência do mal. O colonizador desfigura e deforma o imaginário do colonizado” (Fanón 2003: 35, 36). Sob esta racionalidade cruel, os subalternos vivem dominados, sem esperança, com sua vida em perigo constante, sem utopia, sem futuro. A modernidade se consolida como paradigma da guerra, da violência, sob o qual o Outro é descartável, é um mero objeto de domínio, para ser apropriado e explorado (Pachón-Soto 2007a). A colonialidade do ser naturaliza a escravidão e a servidão, legitima o genocídio em nome do progresso (e de Deus) e banaliza a violência, a desigualdade e a injustiça. A colonialidade do ser emerge da colonialidade do poder, gerenciada pelo Estado, e da colonialidade do saber, liderada pela ciência moderna. O ser europeu emerge junto com a invenção do Outro, que pode e deve ser conquistado, domesticado e explorado. A Europa criou a modernidade e seu outro rosto, a colonialidade (Mignolo 2007), se posicionou por cima dela e se auto-proclamou modelo perfeito para a humanidade. O Outro do Novo Mundo (periferia) se encontra na minoria de idade: a incapacidade de servir-se do próprio entendimento sem a tutela de outro. Por exemplo, assim 7 Immanuel Kant em Sobre as Variedades das Diferentes Raças de Homens (De Souza Silva et al. 2006:82; grifo nosso) 19 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento pensava Sepúlveda, o contraditor de Bartolomeu de las Casas, quando se referiu aos indígenas da América, e Montesquieu, quando se referiu aos africanos, respectivamente: “com perfeito direito, os espanhóis imperam sobre os bárbaros do Novo Mundo e ilhas adjacentes, havendo entre eles tanta diferença como a que vai de monos a homens” (Sepúlveda, em Pachón-Soto 2007a:16). “Não é concebível que Deus, um ser tão sapientíssimo, haja posto uma alma em um corpo tão negro. É impossível supor que tais seres sejam humanos” (Montesquieu, em Pachón-Soto 2007a:28). Enquanto a institucionalização da dicotomia superior-inferior resultou na colonialidade do poder, do saber e do ser, sua implementação necessitou de uma “idéia” que conquistara as mentes e os corações de líderes de todos os continentes, religiões, ideologias e orientação política. A idéia de progresso foi esta idéia (Sachs 2000; Dupas 2006). Uma das conseqüências do sucesso desta idéia foi a sua dependência da corrupção, tanto para obter apoio nos países centrais quanto para viabilizar-se nas sociedades de sua periferia. Durante o processo planetário de disseminação da ciência moderna (Basalla 1967), os efeitos combinados da colonialidade do poder, do saber e do ser estabeleceram processos assimétricos para a geração, apropriação e aplicação do conhecimento, onde os benefícios fluíram das sociedades inferiores para as sociedades superiores. Geopoliticamente, o mais forte monopolizou o processo de geração de conhecimento e inovações, enquanto condenou os povos subalternos a serem povos sem história (Wolf 1982) nem saber (Mignolo 2007), reduzidos a meros receptores do “conhecimento” e das inovações geradas nos centros de poder e saber (Dussel 1992; Mignolo 2000). A institucionalização deste estado de coisas se deu com o apoio de uma educação—religiosa, técnica, científica, humanista—descontextualizada, concebida a partir da pedagogia da resposta que forja seguidores de caminhos existentes, criticada por Paulo Freire que propõe a pedagogia da pergunta (Freire 1986), que forma construtores de caminhos ainda não existentes. Nós vamos à escola aprender sobre nossa inferioridade e a superioridade do Outro, como parte integral de um fenômeno natural, como ensina a Rerum Novarum. Escrita pelo Papa Leão XIII e publicada pelo Vaticano, esta Encíclica ousa explicar a pobreza e a desigualdade como constitutivas de um fenômeno natural—“uns nascem favorecidos e outros desfavorecidos”—, e propõe como solução para a pobreza esmolas maiores aos menos favorecidos por parte dos mais favorecidos. Que educação poderia surgir deste contexto desigual, congestionado de relações assimétricas de poder, concebida a partir da visão mecânica de mundo dominante naquela época histórica? A educação domesticada e domesticadora que temos; não a educação libertadora que queremos. A concepção da educação descontextualizada tem início no período do colonialismo imperial, e sua persistência hoje é explicada pelos interesses hegemônicos do vencedor da Segunda Guerra Mundial, que instituiu a estratégia político-ideológica do imperialismo sem colônias. A “idéia de progresso” e a descontextualização da educação colonial “A América se revelou sempre e segue revelando-se impotente tanto no físico quanto no espiritual [...] Estes povos de cultura débil perecem quando entram em contato com povos de cultura superior e mais intensa. Os americanos vivem como crianças, que se limitam a existir, longe de tudo que signifique pensamentos e fins elevados” 8 8 Friedrich Hegel, Lições sobre Filosofia da História Universal; em Pachón-Soto (2007b:29) 20 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento “Nós devemos encontrar novas terras das quais podemos obter matéria-prima, ao mesmo tempo que podemos explorar a mão de obra escrava dos nativos das colônias, que serão lugares para os excedentes dos bens produzidos em nossas fábricas” 9 “[O objetivo de uma potência colonial deve ser] desestimular logo cedo qualquer sinal de desenvolvimento industrial em suas colônias, para obrigar a possessão estrangeira a olhar com exclusividade ao país central em busca de produtos manufaturados e a preencher, pela força, se for necessário, sua função natural, que é a de um mercado reservado para a indústria do país central” 10 “[...] Embora sob a idéia de civilização, o que moveu esses homens [os conquistadores da Europa ocidental no Semi-Árido Brasileiro, como em outras regiões conquistadas] foi uma organização estrutural, socioeconômica, a rigor, bárbara e desumana, pois escravizava, de alguma forma os ‘vencidos’; controlavam imensas glebas do território e destruíam, de todas as formas, o ecossistema ocupado” (Costa 2010 ). O discurso de uma Europa superior às demais regiões do mundo, a partir de 1492, inclui a idéia de progresso como sinônimo de colonização. Para justificar violências, desigualdade e injustiças próprias de seu projeto colonial, o poderoso generoso redefiniu o verbo colonizar como sinônimo do verbo civilizar. Porém, este era o discurso público, da conveniência. Em seu discurso oculto11, os impérios deixavam claro que a África, América Latina e Ásia não passavam de lugares a serem possuídos para a exploração inescrupulosa de mercados cativos, matéria prima abundante, mão de obra barata, mentes dóceis e corpos disciplinados. A idéia de progresso consolidou-se sob uma racionalidade evolucionista e positiva, significando a existência de um caminho único, progressivo e natural rumo à perfeição. Significava também que a Europa estava ao final do caminho, mas sentia a obrigação moral de estender sua “ajuda” aos imperfeitos—primitivos, selvagens, bárbaros—na longa caminhada rumo ao seu estado superior de civilização. “A colonização é uma das mais nobres funções das sociedades que lograram um estado avançado de civilização” 12 Diferentes esforços epistemológicos foram realizados por vários atores em distintos momentos da história para legitimar esta perspectiva evolucionista que justificava o colonialismo. Em A Metafísica , Aristóteles definiu a ciência como a teoria da natureza, sinônimo de crescimento no sentido evolucionista da teoria do ciclo de vida, que aplica à sociedade a lógica biológica: na realidade tudo nasce, cresce, decai e morre. Em Cidade de Deus, Santo Agostinho reconciliou a filosofia da história com a teologia Cristã, refletindo o “ciclo de vida” na história da humanidade. Em sua idéia da salvação como um plano de Deus, o mundo foi criado, havia crescido e havia progredido, mas estava decaindo e chegaria ao seu final. No final do século XVIII, Condorcet dividiu a história em dez “fases”, a última das quais permitiria a abolição das desigualdades entre as nações, o progresso e a igualdade dentro de cada nação e a real perfeição da humanidade. Nascia no coração do ocidente a idéia de que o progresso das sociedades, do conhecimento e da riqueza responde a um princípio natural com sua fonte independente de dinamismo. Deus está morto; o homem o substitui. Reina a razão ocidental. Em A Riqueza das Nações, Adam Smith apresenta o progresso da opulência material como a ordem natural das coisas, imposto por uma 9 Cecil Rhodes, britânico, homem de negócios, que usou seu nome para nomear a Rhodesia [hoje, Zimbabwe]; em De Souza Silva et al. (2006:95). 10 Um Delegado da Associação Francesa da Indústria e a Agricultura, 1899; em Rist (1997:61) 11 Sobre a distinção entre os discursos público e oculto, de dominadores e dominados, ver Scott (1995). 12 Leroy-Beaulieu, De la colonisation chez les peuples modernes; em Rist (1997:54). 21 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento necessidade derivada da inclinação natural do homem. A economia emerge como sinônimo de progresso. A lei da oferta e da demanda, regida pela “mão invisível” do mercado, é a lei natural através da qual as leis universais da realidade física se manifestam na economia. A ordem natural das coisas—progresso tecnológico, crescimento econômico—não pode parar. O progresso não é apenas uma opção, mas sim uma finalidade—e fatalidade—da história. A partir de 1492, para promover o “progresso” dos povos do Novo Mundo, do mundo do Outro inferior, a Espanha e Portugal fizeram uma “aliança estratégica” com a Igreja católica de Roma. A destruição do imaginário de outros povos não se faz por decreto, pela força. Por isso, o “império da cruz” foi convidado (de fato, corrompido) pelo “império da espada” para uma missão especial: enriquecer o discurso colonial, cuja promessa central era “civilizar” aos primitivos, com outra promessa, nova, atrativa e convincente: “salvar” suas almas. No Novo Mundo faltava não apenas o progresso tecnológico e material dos selvagens, mas também seu “progresso espiritual”. A mais ousada iniciativa de corrupção para viabilizar a referida estratégia foi mudar o sobrenome do espanhol Rodrigo Borjes para o sobrenome italiano “Borgia”. Isto o fez Papa, Alejandro VI. Foi ele quem dividiu a América entre os impérios espanhol e português: “A chegada à América foi...casual; acreditaram haver chegado à Índia, e ao ver que podiam entrar em conflito com os portugueses, ao perceber que havia habitantes em enormes quantidades, que lhes podiam servir de mão de obra, ao descobrir que havia riqueza, que tinham que justificar [a possessão] destas coisas, solicitaram ao Papa Alejandro VI escrever bulas nas quais dizia: como ele [o Papa] era o dono do mundo, como representante de Deus na Terra, dava as [terras do Novo Mundo] aos espanhóis e portugueses. E assim camuflaram esta dádiva com o pretexto de que dava as terras com seus habitantes, para que os...espanhóis e portugueses os cristianizassem e evangelizassem, causando o maior genocídio que havia visto a humanidade...em Nome de Deus” (Proaño 2000:65). Então, a aliança entre a Igreja católica e os Impérios Espanhol e Português resultou no nefasto Tratado de Tordesilhas, assinado em 7 de Junho de 1494, no povoado espanhol de Tordesilhas. O referido Tratado foi o marco “legal” que iniciou o processo de institucionalização internacional da desigualdade no continente americano. Confirmando a premissa de Rousseau, a raça superior exerceu o seu direito à dominação, enquanto as raças inferiores eram conquistadas e dominadas pela violência, para “aprender” que tinham a obrigação da obediência. Para ser “civilizado”, é imprescindível ser, sentir, pensar, fazer e falar como Eles. Se existem sociedades perfeitas, aos primitivos resta seguir no presente o caminho construído por Eles no passado. Para ser como Eles, um povo deve substituir seu imaginário inferior pelo imaginário do superior (Blaut 1993; Fanón 2003), e seguir seus conselhos, obedecer suas ordens e adotar seus modelos. Por isso, em nossa educação—descontextualizada—contemporânea, não é necessário criar. Basta imitar. Os “estúpidos” “homens bois” de Taylor não são críticos ou criativos. São uns autômatos biológicos sem história nem contexto, vinculados apenas à linha de montagem das fábricas industriais, incluindo aos expertos na arte de colonizar/desenvolver, que todavia são reféns da lógica descontextualizadora e esterilizante do paradigma clássico de inovação. Técnicas coloniais de dominação na época histórica do industrialismo Para transformar aos inferiores em superiores, o problema do colonizador é a ignorância dos primitivos, razão pela qual não lhe resta mais do que impor-lhes a civilização, ou corromper-lhes para transformar-lhes em “povos agradecidos”13. Mas, como a agenda oculta da época era só 13 “Povos agradecidos” são aqueles que, ao assumir que se beneficiaram com a “ajuda” estrangeira, facilitam o acesso a seus mercados, matéria prima abundante, mão de obra barata, mentes obedientes e corpos disciplinados, como é o caso hoje, por exemplo, de Costa Rica em relação aos Estados Unidos. 22 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento ampliar e diversificar os espaços para a acumulação de riqueza material e de poder político, econômico e simbólico, a corrupção foi uma das estratégias mais usadas durante o colonialismo imperial, o que continua de forma mais sofisticada nos dias de hoje. Entre as técnicas coloniais usadas para implementar e institucionalizar a dicotomia civilizados-primitivos, destacam-se: • Elites crioulas dependentes. Para criar o acesso inescrupuloso a mercados cativos, matéria prima abundante, mão de obra barata, mentes dóceis e corpos disciplinados, nos territórios conquistados, estabelecem-se elites locais ocidentalizadas generosamente beneficiadas com o saqueio das riquezas naturais e da energia humana local, onde seus interesses coincidem com os interesses do conquistador. • Dívidas externas-eternas (em nome do progresso). Para criar elites dependentes— obedientes, disciplinadas—estabelecem-se dívidas externas, para o progresso local, de tal maneira que estas se transformem em dívidas eternas, institucionalizando relações assimétricas de poder em processos internacionais de negociação. Isso aconteceu, por exemplo, com a Tunísia e o Egito na metade de 1800. • Exércitos das elites. Como a colonização não beneficia à maioria dos conquistados, criam-se exércitos comprometidos com a proteção das elites frente à revolta potencial de sociedades indignadas com a hipocrisia, violência, desigualdade e injustiça “normais” na implementação da ambígua “idéia de progresso/civilização”. • Educação domesticada. Como é impossível administrar sociedades com exércitos por tempo indeterminado, é imprescindível uma estratégia convincente de que a pobreza e a desigualdade são fenômenos naturais e independentes: alguns nascem favorecidos e outros desfavorecidos, segundo o Papa Leão XIII na Rerum Novarum, publicada em 15 de Maio de 1891, em defesa do capitalismo emergente e contra o apelo revolucionário do Manifesto Comunista de Marx e Engels. Os empreendimentos do conquistador na colônia são positivos; significa o progresso para todos, mas exige sacrifícios por parte da maioria. A educação colonial foi à estratégia para formar “inocentes úteis”, seguidores de caminhos já existentes, construídos pelos superiores. A pedagogia da resposta foi o segredo para construir uma educação domesticada e domesticadora, que não forma pensadores independentes, pois cultiva um pensamento subordinado ao conhecimento autorizado pelo mais forte. • Comunicação dominada. A melhor contraparte de uma educação domesticada é uma comunicação dominada, concebida para entorpecer e alienar consciências. A maioria da população não tem acesso ao ensino superior nas sociedades coloniais, o que justifica um sistema de comunicação capaz de controlar tanto quanto possível a informação e principalmente a interpretação dos “fatos” que serão “notícia relevante. Assim procedem a CNN em Espanhol na América Latina e a Rede Globo no Brasil, exemplos dos capitães de consciência que controlam as comunicações na época emergente. • Ciências coloniais. Foram criados cursos para ensinar a arte de colonizar, porque a colonização foi divulgada como uma missão muito nobre, já que os civilizados atendiam ao imperativo moral de compartilhar com os primitivos os segredos de seu sucesso. Até um prêmio foi estabelecido para os melhores estudantes das ciências coloniais no mundo. Uma parte do prêmio era entregue em dinheiro; a outra parte era o privilégio de fazer um curso de especialização no melhor curso de ciências coloniais do planeta, na França, Universidade de Sorbonne. • Destruição da economia local. Em uma colônia, deve-se destruir seu potencial para qualquer autonomia econômica. No Vietnam foi o sal, o ópio e o álcool; na Índia foi a 23 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento sua indústria têxtil; no Paraguai foi sua capacidade industrial incipiente; no Sudão foi cobrado um imposto altíssimo sobre seus cultivos alimentares e animais domésticos. Com outros nomes e sob outras estratégias, muitas destas práticas estão institucionalizadas hoje. Em muitos países, existem elites dependentes de dívidas eternas e protegidas por exércitos cujos inimigos não são externos, mas sim a população interna, como ocorreu durante as ditaduras militares na América do Sul. A qualidade total é aplicada à educação para que esta reproduza com mais eficiência a dicotomia desenvolvidos-subdesenvolvidos, em substituição à dicotomia civilizados—primitivos. As invasões militares contemporâneas substituem as velhas “invasões de conquista”, e incluem a destruição ou controle da infra-estrutura crítica para o desempenho da sociedade invadida, como atualmente no Iraque. Em muitos casos, já não são os exércitos que recebem a missão de invadir e controlar certas nações; enviam-se o Banco Mundial e o FMI, que são suficientes para minar a autonomia e potencialidades locais, ao mesmo tempo em que cria novos tipos de controle e estabelece outros tipos de dependência (Danaher 1994; Caufield 1996). Em síntese, a civilização moderna se auto-compreende como detentora de um maior progresso; sua superioridade lhe atribui o imperativo moral de civilizar aos inferiores; o modelo de progresso é o mesmo caminho seguido pela Europa ocidental; a violência contra o bárbaro que se opõe ao progresso é justificável; a salvação através da modernidade cria suas vítimas (o índio, o escravo, a mulher, a natureza); o bárbaro é culpado quando se opõe ao projeto civilizatório, o que justifica a inocência da iniciativa modernizadora; e, o Ego conquiro (Eu conquisto) é um direito do superior cuja nobre missão é estender sua civilização—o progresso—a terras ocupadas pelos inferiores (Galeano 1990; Dussel 1992; Quijano 2001, 2005), como confirmam as palavras de um diplomata francês ao início do século XX: “É necessário [...] aceitar como principio e ponto de partida o fato de que existe uma hierarquia de raças e civilizações, e que nós pertencemos à raça e à civilização superiores. A legitimação básica da conquista de povos nativos é a convicção de nossa superioridade, não apenas da superioridade mecânica, econômica e militar, mas também da nossa superioridade moral. Nossa dignidade...funda nosso direito de dirigir o resto da humanidade” 14. Ao final, porém, o progresso não é mais do que um mito (Dupas 2006). O projeto civilizatório foi viabilizado pelo Estado moderno (Quijano 2000), a ciência moderna (Basalla 1967) e a educação colonial. Mas, entre seus legados, a idéia de progresso naturalizou a dicotomia superior-inferior, descontextualizou a realidade com seus modelos globais, universais, para as colônias e banalizou a hipocrisia, violência, desigualdade e injustiça decorrentes de sua implementação. O Estado—eurocêntrico—foi introduzido nos trópicos para reproduzir as condições indispensáveis à institucionalização internacional da desigualdade em beneficio do mais forte e das elites locais. Contou com o apoio da ciência e sua geopolítica do conhecimento, para estabelecer o fluxo de idéias e inovações no sentido superior-inferior, e com a educação colonial e sua pedagogia da resposta, para formar ‘inocentes úteis’ convencidos de sua inferioridade e da superioridade do Outro. Esta educação anulou a relevância do contexto e das perguntas dos educandos locais, para privilegiar o contexto local e as respostas particulares dos conquistadores globais. Implicações para a educação colonial Em um contexto desfavorável à educação libertadora e sua pedagogia da pergunta, as premissas da dicotomia superior-inferior transformaram as relações entre poder (política) e saber (ciência) com profundas conseqüências para a vida (ética) cotidiana de milhões das sociedades tropicais. 14 Jules Harmand, diplomata e administrador colonial francês justificando a “missão civilizatória” dos impérios Europeus em 1910; em Magnoli (2009:28). 24 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento Na América Latina, como em outras regiões com um passado colonial, a educação assumiu o caráter autoritário das relações internacionais que impunham—como natural—a superioridade do conquistador e a inferioridade do conquistado. Esta educação refletiu a racionalização da vida 15, introduzida pela ciência com sua matematização do universo e universalização da natureza, com a correspondente descontextualização da experiência social e da educação para a vida. Sob a universalização do conhecimento objetivo e neutro, o aprendizado para a vida deixou de ser intermediado—problematizado—pelo mundo da vida cotidiana, como propunha Paulo Freire. São várias as implicações para a educação, dos valores, conceitos, teorias, paradigmas e modelos vinculados à idéia de progresso e implementados através do paradigma clássico de inovação. No campo de poder do chamado “desenvolvimento”16, as implicações para a educação são múltiplas e profundas. Entre outras conseqüências, a educação colonial, já sob questionamento, mas ainda vigente, reproduz: • Da ciência, as leis universais da natureza aplicadas à interpretação da sociedade e a intervenções para sua transformação, dando origem e legitimidade a modelos globais com aplicação universal nas realidades locais. Descontextualizando a realidade histórica e material, estas leis naturais descontextualizam o humano, o social, o cultural, o ecológico e o ético, dimensões constitutivas dos modos de vida em qualquer território, inclusive no SAB. Contudo, para a educação colonial, um modelo que não reflete uma lei universal descoberta pela ciência positivista não existe, não é verdade ou não é relevante. • De Galileu, a matematização da realidade física aplicada à compreensão da realidade humana, inclusive do processo de aprendizagem, onde tudo é quantificado, incluindo o esforço de memorização (e não de apropriação e transformação) dos educandos, sem contextualizar a relevância e os vínculos atuais e potenciais dos conteúdos do ensino com as realidades em questão. O que não é quantificado não existe, não é verdade ou não é relevante. • De Bacon, o utilitarismo mecanicista aplicado à dimensão material da vida, legitimando a civilização ocidental como a civilização do ter—e não do ser—e instituindo um contexto unidimensional onde as dimensões vinculadas à subjetividade do Ser ficam invisíveis, por não serem relevantes, ou são violadas como obstáculos aos interesses do capital. Para esta educação, o que não é útil ao lucro e à acumulação do capital não existe, não é verdade ou não é relevante. • De Descartes, o reducionismo mecanicista aplicado à ordenação do mundo, reduzindo-o à soma de suas partes constituintes e eliminando a riqueza das relações, significados e práticas constitutivas da interação local entre todas as formas e modos de vida. O que não é “parte” concreta de alguma “engrenagem”, ou não pode ser decomposto para ser racional e sistematicamente analisado, não existe, não é verdade ou não é relevante. • De Newton, o racionalismo mecanicista aplicado à existência, eliminando a imprescindível contribuição da emoção. Contudo, a emoção é a fonte da ação humana; a razão é usada apenas para regular as ações. Assim, uma educação sustentada apenas na razão, sem a contribuição do contexto emocional coletivo, cuja dinâmica depende do desempenho dos contextos histórico, material, cultural e espiritual, é uma educação que informa, mas não inspira, que habilita competências individuais, mas não constrói sonhos coletivos. O que não é racional não existe, não é verdade ou não é relevante. 15 Esta racionalização da existência continua, mais intensa e totalizante, pois já penetrou toda a sociedade, como foi amplamente demonstrado por Ritzer (1993), quem denuncia a “MacDonaldização” da sociedade. 16 Sobre o desenvolvimento como campo de poder, ver RIBEIRO (2008). 25 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento • De Comte, a objetividade e neutralidade do método científico aplicadas ao estudo da vida em sociedade, eliminando a participação do humano, do social, do cultural, do ecológico e do ético na construção da realidade. Mas todo empreendimento humano inclui valores, crenças, aspirações, experiências, saberes, frustrações, desafios, desejos, aspirações, paixões e sonhos, inclusive o empreendimento científico. Tudo que gera transformações, impactos, mudanças, e tudo que tem conseqüências imprevisíveis, não existe de maneira objetiva nem pode ser abordado de forma neutra. Por isso, a ética é imprescindível nos processos humanos, sociais. Contudo, para Comte, o que não existe de forma objetiva nem pode ser estudado de forma neutra não existe, não é verdade ou não é relevante. • O positivismo evolucionista da ciência moderna, que definiu o método científico como a única forma válida de gerar conhecimento relevante. Este método representava o último estágio do progresso—da evolução—do pensamento humano, eliminando do contexto epistemológico do processo educativo outros saberes igualmente relevantes. Mas, para o Positivismo, o saber que não foi “produzido” através da aplicação “rigorosa”, objetiva e neutra do método científico não existe, não é verdade ou não é relevante. • De Locke, a metáfora da Tabula Rasa aplicada à compreensão da aprendizagem, onde o aluno (Alumnum—sem luz, em Latim) não sabe nada enquanto o professor—iluminado— sabe tudo. Esta metáfora deu origem à premissa pedagógica mecanicista: o ato de ensinar assegura o ato de aprender. Assim emergiu a educação bancária , muito criticada por Paulo Freire, na qual a mente humana é “algo” vazio onde o professor deposita “conhecimento”. Esta prática pedagógica elimina a participação do contexto no processo de aprendizagem. Contudo, Humberto Maturana e Francisco Varela demonstram, em A Árvore do Conhecimento, que o ser humano aprende em interação com seu contexto, o que corresponde à premissa pedagógica de Paulo Freire de que os seres humanos se educam intermediados pelo mundo. Porém, para os racionalistas, o conhecimento que não pode ser “transferido” por um “transmissor” para um “receptor” que o “absorve” ou “adquire” não existe, não é verdade ou não é relevante. • De Taylor o conceito de “homens bois” aplicado na escola, sob a tradicional etiqueta de ‘recursos humanos’ derivada da engenharia, no caso de ter a visão mecânica de mundo como fonte de coerência, ou sob a etiqueta emergente de ‘capital humano’ derivada da economia, no caso de ter a visão mercadológica de mundo como fonte de inspiração. Em ambos os casos, os seres humanos são reduzidos a “algo”, “coisa” (recurso, capital). Os contextos material, histórico, cultural e psíquico-social, que têm contribuições críticas à formação da sua intuição e seu potencial crítico e criativo, são sumariamente eliminados do mundo dos significados. A educação colonial não consegue—ou não quer —perceber que somos talentos humanos, nem recurso nem capital. Nossa imaginação nos permite fazer perguntas nunca feitas antes, examinar antigos problemas desde ângulos jamais explorados, e propor o que ainda não existe, muito além do conhecimento existente e da experiência prévia. Mas, para engenheiros racionalistas, o mundo é uma máquina; tudo que nela entra se chama “recurso” (natural, financeiro, humano) e tudo que dela sai se chama “produto”. Já para economistas evolucionistas, o mundo é um mercado; tudo que nele entra se chama “capital” (natural, financeiro, humano) e tudo que dele sai se chama “mercadoria”. O resto não existe, não é verdade ou não é relevante. Existem muitas outras implicações críticas do paradigma clássico de inovação da ciência moderna para a educação colonial, geradas a partir de conceitos constitutivos da idéia de progresso, e a partir de categorias, parâmetros e critérios derivados da dicotomia civilizados-primitivos. Mas, no espaço deste documento é impossível explorar mais amplamente outras possibilidades. Porém, 26 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento cabe aos educadores e educandos o desafio de refletir sobre as implicações compartilhadas aqui, e de explorar outras implicações na sua realidade educativa particular. A “idéia de desenvolvimento” e a descontextualização da educação neocolonial “Nós devemos embarcar num programa ousado para tornar disponíveis os benefícios de nossos avanços científicos e de nosso progresso industrial para a melhoria e o crescimento das áreas subdesenvolvidas [...] O velho imperialismo— exploração para o lucro estrangeiro—não tem lugar em nosso plano. A maior produção é a chave para a prosperidade e a paz [...] A chave para produzir mais é uma aplicação mais vigorosa do conhecimento técnico e científico moderno” 17 “Esta crescente divisão entre a riqueza e a pobreza, entre a oportunidade e a miséria, é...um desafio a nossa compaixão [e] uma fonte de instabilidade. Nós devemos incluir a cada africano, cada asiático, cada latinoamericano, cada mulçumano, em um círculo crescente de desenvolvimento” 18 “Um dos...objetivos do nosso governo é assegurar que os interesses econômicos dos Estados Unidos se estendam em escala planetária” 19 “Nosso objetivo com o ALCA é garantir às empresas norteamericanas o controle de um território que vá do Pólo Ártico até a Antártida, livre acesso, sem nenhum obstáculo ou dificuldade, para nossos produtos, serviços, tecnologia e capital no hemisfério” 20 O discurso de um Estados Unidos superior aos países da África, América Latina e Ásia, a partir da Segunda Guerra Mundial, inclui a idéia de desenvolvimento como sinônimo de modernização e de globalização. Para justificar a hipocrisia, violências, desigualdades e injustiças do modernismo e do globalismo, o poderoso generoso definiu os verbos modernizar e globalizar como sinônimos de “desenvolver”. Mas este foi só o discurso público da conveniência. A semente da dicotomia superior-inferior, concebida a partir do critério de raça, já estava latente no discurso até dos Pais Fundadores daquele país, como se pode deduzir das palavras do próprio Abraham Lincoln: “[...] Se é para existir superiores e inferiores, eu prefiro que a posição superior seja designada à raça branca” (Magnoli 2009:126). Como se pode deduzir das palavras dos Secretários de Estado dos Estados Unidos citados acima, em seu discurso oculto, o vencedor da Segunda Guerra Mundial e seus aliados têm muito claro que a África, América Latina e Ásia são só lugares para seu acesso inescrupuloso a mercados cativos, matéria prima abundante, mão de obra barata, mentes dóceis e corpos disciplinados. Para facilitar o referido acesso, a idéia de desenvolvimento, como a idéia de progresso, segue a racionalidade evolucionista que assume a existência de um caminho natural rumo à perfeição progressiva, com “fases” discretas, objetivas e inevitáveis como ratificou Walter Rostow, em As Etapas do Crescimento Econômico: Um manifesto não-comunista , publicado em 1960. Como se pode facilmente deduzir, a “idéia de progresso/desenvolvimento” foi concebida com a intenção de dominação para a exploração, longe de nosso contexto e sem compromisso com nosso futuro. Com distintos nomes (progresso, desenvolvimento), esta idéia tem vários rostos (colonização, modernização, globalização), reivindica resolver problemas sociais (fome, pobreza), através de estratégias atrativas (empréstimos, cooperação), mas não cumpre suas promessas 17 Harry Truman, Presidente dos Estados Unidos, em seu discurso de posse no dia 20 de Janeiro de 1949; em Rist (1997:72, 73; grifo nosso). 18 George W. Buch, Presidente dos Estados Unidos, Discurso sobre o Desenvolvimento Global, na Reunião da OMC em Monterrey, México, em 14.03.2002; em De Souza Silva et al. (2006:108; grifo nosso). 19 Madeleine Albright, Secretaria de Estado dos Estados Unidos; em de Souza Silva et al. (2006:108). 20 Colin Power, Secretário de Estado dos Estados Unidos; em De Souza Silva et al. (2006:109). 27 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento (paz mundial, Objetivos de Desenvolvimento do Milênio–ODMs) feitas para legitimar suas mais graves conseqüências (violências, desigualdades e injustiças). A dicotomia desenvolvidos-subdesenvolvidos substitui a dicotomia civilizados-primitivos depois da Segunda Guerra Mundial com o discurso do Presidente Harry Truman no dia 20 de Janeiro de 1949. A mesma lógica foi usada em outra classificação da humanidade quando o Norte inventou o Terceiro Mundo através da publicação do artigo Trois Mondes, une planéte , do Demógrafo francês Alfred Sauvy, no l’observateur da França, em 14 de Agosto de 1952 (Rist 1997; Escobar 1998). O primeiro mundo era constituído pelo conjunto dos países industrializados do mundo capitalista sob a liderança dos Estados Unidos, o segundo mundo era constituído pelo conjunto dos países industrializados do mundo socialista liderado pela União Soviética, e o Terceiro Mundo era constituído pelo conjunto dos países não-industrializados da África, América Latina e Ásia. Isso porque a medida do desenvolvimento como meta era o grau de industrialização das nações. Embora a palavra “subdesenvolvido” e a expressão “Terceiro Mundo” já houvessem sido citadas antes, foi nas datas aqui referidas que elas assumiram o status de verdade institucional e política. Quando Harry Truman fez seu discurso público, estava criada a institucionalidade para a gestão da hegemonia dos Estados Unidos com a participação de seus aliados. De 1 a 22 de Junho de 1944, houve uma grande conferência em Bretton Woods, New Hampshire, EUA, para instituir uma rede de regras políticas, papéis epistemológicos e práticas institucionais cujo objetivo era sustentar os resultados da guerra em favor do vencedor da Segunda Guerra Mundial e seus aliados. Isso confirma a premissa de Michel Foucault de que a política internacional do vencedor da guerra é a continuação da guerra por outros meios, para assegurar que os benefícios dos resultados da guerra fluam sempre a seu favor (Foucault 2002). Lideram a rede o Banco Mundial (BM), o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Organização Mundial de Comércio (OMC). Outra conferência foi realizada em Junho de 1945 em São Francisco também nos Estados Unidos na qual foi criada a Organização das Nações Unidas (ONU). Com a sede da ONU em Nova York e a do Banco Mundial e do FMI em Washington, não havia dúvida sobre quem era a nova potência hegemônica no comando do significado da idéia de desenvolvimento como meta e, portanto, do chamado “desenvolvimento internacional”. Inicialmente, o FMI tinha como foco central os países industrializados do Norte e o Banco Mundial deveria ocupar-se apenas da reconstrução da Europa destruída pela guerra. A ONU se ocuparia da consolidação da paz mundial, unindo as nações desunidas prometendo “desenvolvimento” para todos os que aceitassem a “normalidade” da nova ordem mundial definida pelo vencedor da guerra e seus aliados. Depois, o BM, a ONU e o FMI convenientemente mudaram seu foco para o Sul. A agenda imposta pelos EUA foi a (re)colonização do chamado Terceiro Mundo por outros meios. No continente, foi extinta a União Pan-americana e foi criada a Organização dos Estados Americanos (OEA) para liderar uma rede institucional hemisférica que assegura a hegemonia dos Estados Unidos neste lado do mundo. Isso ocorreu no contexto do início da chamada Guerra Fria. O “comunismo” foi a etiqueta usada para construir a cultura do medo frente ao novo inimigo público Nº 1 da humanidade 21. Para conter a ameaça “vermelha”, foi criada a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Em nosso continente foi criado o Tratado Inter-Americano de Assistência Recíproca (TIAR) e a Escola Inter-Americana de Defesa (EIAD), que chegaram a apoiar cruéis ditaduras militares sob a estratégia de confundir nacionalismo com comunismo (Borón 2002). Estas organizações deveriam também reproduzir em suas práticas discursivas, técnicas e institucionais o novo credo do desenvolvimento institucionalizado com o discurso de Truman. Por exemplo, a ONU publicou em 21 Com o fim da Guerra Fria, depois da desintegração da União Soviética, a etiqueta de “comunismo” foi convenientemente substituída pela etiqueta de “terrorismo”, oportunidade caída literalmente do céu quando aviões comandados por terroristas se chocaram contra as Torres Gêmeas em Nova York no dia 11 de Setembro de 2001. 28 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento 1951 um documento oficial traduzindo a idéia de desenvolvimento como sinônimo de “progresso” econômico, doloroso, mas inevitável para o bem de todos: “...o progresso econômico acelerado é impossível sem ajustes dolorosos. As filosofias ancestrais devem ser erradicadas; os laços de casta, credo e raça devem romper-se; e grandes massas de pessoas incapazes de seguir o ritmo do progresso verão frustradas suas expectativas de uma vida cômoda. Poucas comunidades estão dispostas a pagar o preço do progresso econômico” (De Souza Silva et al. 2006:113; sublinhado nosso). Esta concepção da idéia de desenvolvimento como estratégia para camuflar a agenda oculta do sistema capitalista, crescimento econômico ilimitado, usada pelos civilizados no passado e pelos desenvolvidos no presente, ainda prevalece no mundo e na América Latina. No dia 8 de Maio de 2005, Roberto Artavia, Reitor do Instituto Centroamericano de Administração Pública (INCAE), o braço neoliberal da Escola de Negócios da Universidade de Harvard na América Central, que forma “gerentes gladiadores”—competitivos e egoístas—comprometidos com a visão de mundo do desenvolvido—superior —afirmou, no jornal La Nación, de São José, Costa Rica: “Desenvolvimento é uma palavra que tivemos que usar para disfarçar as mudanças desejáveis e necessárias, pois é muito fácil resistir à mudança, mas ninguém se opõe, pelo menos em público, ao desenvolvimento” (De Souza Silva et al. 2006:114; grifo nosso). Faladas candidamente por um dos representantes da chamada “comunidade internacional”, estas palavras revelam que a idéia de desenvolvimento foi concebida exclusivamente para camuflar a agenda oculta do superior no processo cínico de manipulação dos inferiores. As referidas palavras servem também para confirmar que Roberto Artavia já não é latinoamericano. Ele já não é, não sente, não pensa, não faz e nem fala como nós. Só um desenvolvido pode ser Reitor do INCAE. Por isso ele diz de maneira inclusiva “tivemos”. Roberto Artavia já é um superior , um deles. Seu mimetismo é tão preciso que ele reproduz até as contradições do discurso do desenvolvimento quando afirma, por exemplo, que as mudanças “disfarçadas” sob esta palavra são “desejáveis” e “necessárias”. Se assim fosse, a maioria das pessoas as desejaria e as consideraria necessárias, dispensando a estratégia de construir uma camuflagem semântica para as mesmas, que resultou ser um disfarce político-ideológico-epistemológico, e não apenas semântico. Só camuflamos o que não é conveniente para muitos, para que estes não se indignem com o que beneficia apenas poucos, enquanto exige o sacrifício da maioria, principalmente dos que não serão beneficiados. Para ser como Eles—os desenvolvidos—é indispensável ser, sentir, pensar, fazer, falar, produzir e consumir como Eles. Só o sistema de educação pode implementar um objetivo tão complexo e de tão longo prazo, ao longo de várias gerações. Por isso a educação colonial do passado renasceu como educação neocolonial, através de novas estratégias institucionais, como o INCAE de Roberto Artavia na Costa Rica, e de novas estratégias epistemológicas, como a recente iniciativa regional de acreditação de cursos nas universidades latinoamericanas, onde a ideologia da qualidade da educação eclipsa a questão de sua relevância. É possível ter algo irrelevante feito ou executado com alto grau de qualidade, assim como é possível ter algo relevante feito ou executado com um baixo grau de qualidade. Em outras palavras, a qualidade da educação não assegura sua relevância, que deveria ser estabelecida antes da aplicação da qualidade total. A agenda oculta da iniciativa é homogeneizar a educação universal proposta pelo Banco Mundial em seu Relatório do Desenvolvimento Mundial: Conhecimento para o Desenvolvimento de 1999 (World Bank 1999). Porém, para transformar inferiores em superiores, o problema dos neo-colonizadores passa a ignorância dos subdesenvolvidos; não lhes resta mais que impor o desenvolvimento, ou, como alternativa, corromper-lhes para transformá-los em (sub)desenvolvidos agradecidos. 29 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento Técnicas neocoloniais de dominação na época histórica emergente Como a agenda oculta dos invasores modernos continua sendo a acumulação de riqueza e poder, a corrupção é sua estratégia preferencial na atual era do imperialismo sem colônias. Eles mantêm antigas e criam novas e sofisticadas técnicas neocoloniais para implementar e institucionalizar a dicotomia desenvolvido-subdesenvolvido, entre as quais, destacam-se: • Espaços multilaterais. Proliferam os espaços multilaterais que se caracterizam por um funcionamento distante do escrutínio público e sem participação cidadã. Estes espaços descontextualizados ganharam muita fama com o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT, em Inglês), que se transformou na OMC em 1995. Estes são espaços autoritários onde são negociadas oficialmente as condições, relações e práticas para o sucesso da globalização neoliberal. Quanto maior é o número de espaços multilaterais menor é a autonomia das sociedades para influenciar o futuro relevante que lhes interessa e maior é a descontextualização das políticas, planos e programas, e da educação, saúde, etc. • Regras transnacionais. São definidas longe das realidades dos países vinculados aos seus impactos, e sem compromisso com o futuro das sociedades afetadas. Os Tratados de Livre Comércio (TLCs), que não são tratados, nem livres nem só de comercio (Mora 2004), são um exemplo da natureza desta técnica para a (re)colonização do chamado “Terceiro Mundo” por outros meios. Os TLCs institucionalizam e homogeneízam regras transnacionais favoráveis aos interesses globais e ambição expansionista das corporações transnacionais. Nacionalmente, estas regras universais debilitam a possibilidade de existir governos do povo, com o povo e para o povo, ao mesmo tempo em que estabelecem condições para a predominância de governos das corporações, com as corporações e para as corporações. • Arranjos institucionais supranacionais. Sobre os Estados-Nação paira o meta-poder de dispositivos institucionais criados para legitimar regras transnacionais concebidas nos espaços multilaterais. A OMC e a Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI) são exemplos emblemáticos de arranjos institucionais descontextualizados que emergem do esforço para a institucionalização internacional de novas desigualdades próprias da ordem corporativa mundial do século XXI. • Agentes internacionais das mudanças nacionais. Certos atores internacionais são legitimados na matriz institucional oficial global para atuar como agentes internacionais das mudanças nacionais, cuja missão é implementar regras transnacionais definidas em espaços multilaterais e institucionalizadas nos arranjos institucionais supranacionais. No âmbito global, o Banco Mundial e o FMI são os melhores exemplos deste tipo de ator, enquanto no nosso continente, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) é um dos exemplos a monitorar. São atores institucionais descontextualizados, representantes dos interesses globais e ambição expansionista de corporações transnacionais apátridas. • Ajustes estruturais. Para camuflar a (re)colonização por outros meios, os agentes internacionais das mudanças nacionais agem como arautos de mudanças e sacrifícios inevitáveis para viabilizar o direito ao desenvolvimento dos subdesenvolvidos. Porém, as referidas mudanças implicam em reestruturar as sociedades para que estas sirvam ao mercado global, ao invés de regular minimamente o mercado global para que este sirva às sociedades nacionais. Por isso, a medida do desenvolvimento já não é o grau de industrialização, mas sim o grau da abertura comercial ao mercado global, onde Chile é promovido como o perfeito exemplo de comportamento neoliberal a emular. 30 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento • Estudos de desenvolvimento. As ciências coloniais, que formaram expertos na ‘arte de civilizar’ os primitivos foram substituídas por estudos de desenvolvimento, cuja missão é formar expertos na ‘arte de desenvolver’ aos subdesenvolvidos. Depois do discurso de Truman em 1949, todos os esforços internacionais e nacionais, que antes giravam em torno da idéia de progresso e do projeto de colonização dos impérios ocidentais, foram reorientados em torno da idéia de desenvolvimento e do projeto de modernização e globalização do vencedor da Segunda Guerra Mundial. A idéia de progresso perdeu seu glamour após as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki, e da solução—científica — final para o problema judeu que resultou no Holocausto. Com a institucionalização da “idéia de desenvolvimento”, proliferaram os Institutos Internacionais de Estudos de Desenvolvimento, Centros de Estudos da América Latina, África e Ásia, e os programas, congressos, bolsas de estudo, conferências internacionais, teses, dissertações, cursos de especialização, os editais de financiamento, tudo para o desenvolvimento. A paisagem semântica do desenvolvimento varia apenas no adjetivo usado para qualificá-lo, uns us • Mercantilização da vida e privatização da existência. No mundo-mercado, tudo se vende e tudo se compra. Nesta lógica, quem tem mais dinheiro compra tudo—matériaprima, mão de obra, jogadores de futebol, commodities, petróleo, especialistas, água, empresas estatais, serviços públicos, bancos—de quem não tem dinheiro. No processo de descolonização territorial no qual as antigas colônias ganhavam sua “independência” política, os antigos conquistadores/colonizadores aprenderam que seu real objetivo não é “possuir” uma colônia, pois custa muito mantê-la e administrá-la. O que interessa mesmo é o acesso a seu mercado cativo, matéria prima abundante, mão de obra barata, mentes ingênuas, e corpos disciplinados e produtivos, o que é possível sem possuir a colônia como propriedade privada. Por isso, o processo de descolonização se transformou em (re)colonização por outros meios, um deles, a privatização dos recursos e dos serviços estratégicos para a existência humana. Quem controla estes recursos e serviços controla certos termos da negociações de outros fatores ainda não privatizados. Impérios antigos e novos estão intensificando seu esforço de (re)colonização tecnológica, econômicofinanceira, cultural e institucional dos países subdesenvolvidos, em desenvolvimento e emergentes que, para ser como Eles, são hipnotizados pelos cantos de suas sereias, se submetem aos seus caprichos, ou têm suas elites cooptadas por benefícios e privilégios. Não é necessário realizar um esforço de pensamento estratégico para concluir que estas técnicas neocoloniais de dominação estabelecem um governo mundial sem Presidente nem eleições onde os que aí decidem não são eleitos para que os eleitos aqui não decidam. Esta é a estratégia que o vencedor da Segunda Guerra Mundial e seus aliados usam para manter os resultados da guerra gerando benefícios exclusivos para eles. Portanto, a era de “desenvolvimento”, inaugurada por Truman em seu discurso de posse, não passa de (re)colonização por outros meios (Borón 2002). O desenvolvimento é um mito (Attali et al. 1980). A implementação desta estratégia é sustentada por processos de corrupção sem precedentes na história moderna da humanidade. Porém, a hegemonia não é um processo linear. Sempre há dissidências, resistências e iniciativas contra-hegemônicas (Sen et al. 2004). Este foi o caso do Movimento dos Países Não-Alinhados, que desafiaram a hegemonia dos Estados Unidos e seus aliados (Rist 1997). Houve intentos dos países do “Terceiro Mundo” de utilizar a ONU a seu favor. Por exemplo, em 1974, a Assembléia Geral da ONU adotou a Carta dos Direitos e Obrigações Econômicas e Sociais dos Estados, um marco legal que instituía o direito dos governos a: “regular e exercer sua autoridade sobre os investimentos estrangeiros [...] regular e monitorar as atividades das empresas multinacionais...e para nacionalizar, expropriar ou transferir a propriedade dos investidores estrangeiros” (Borón 2002). 31 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento Também foi elaborado um Código de Conduta para as Empresas Transnacionais e foi criado um Centro de Estudos da Empresa Transnacional (CEET). Esta iniciativa foi condenada e boicotada como “Terceiromundismo”. Os Estados Unidos e o Reino Unido saíram da UNESCO durante os Governos de Ronald Reagan e Margareth Thatcher, o pagamento das cotas financeiras da ONU foi retido, houve cortes profundos nos orçamentos das agências da ONU suspeitas de “Terceiromundismo”, a Carta foi abolida e o Centro de estudos foi extinto. “Nações Unidas” é um eufemismo para sua estrutura autocrática. Cinco países têm o poder de veto em seu Conselho de Segurança, e estes se apresentam como guardiões da paz no, enquanto sustentam uma bemsucedida indústria da guerra, deixando à ONU a missão impossível de unir as nações desunidas. Neste contexto cínico, onde prevalece a hipocrisia organizada, e a mentira foi transformada em filosofia de negociação pública, a essência das funções das organizações “Terceiromundistas” foi transferida para as organizações de Bretton Woods (Borón 2002). A erosão do Movimento dos Países Não-Alinhados foi viabilizada por uma sofisticada estratégia de corrupção, dentro dos mesmos países do Movimento, para desmoralizá-los desde suas entranhas, amputando seu espírito para domesticar sua vontade de mudar o mundo. Como conseqüência, a implementação da globalização neoliberal foi facilitada. A desigualdade aumentou na América Latina, que terminou a década de 90 como a mais desigual região do Planeta (Kliksberg 2005). É triste, mas temos que concordar com Wolfgang Sachs de que: “como o progresso, o desenvolvimento não tem um ponto de chegada. Sua atração reside em sua promessa de alcançar justiça sem redistribuição. Mas a justiça implica em mudar os ricos, não os pobres” (Sachs 1999:38). A opulência e a miséria são as faces da mesma moeda na América Latina. A região mais desigual do mundo é também a que contribui com o maior número de novos bilionários. A corrupção está presente neste processo como um dos mais efetivos fatores impulsores da maior desigualdade e injustiça. Com o final da Guerra Fria, depois da desintegração da União Soviética, os ideólogos do capitalismo e promotores da globalização neoliberal deflagraram uma estratégia planetária para substituir a ideologia do Estado pela ideologia do mercado. A referida estratégia exige um esforço de corrupção multidimensional sem precedentes, incluindo até a corrupção conceitual. No setor público, funcionários passam por uma lavagem cerebral para incorporar o evangelho do Deus-mercado. Pressionados para adotar uma visão mercadológica de mundo, os funcionários públicos já exibem novas estratégias discursivas e implementam novas práticas institucionais, tudo a partir da metáfora do mundo-mercado como a única fonte de coerência para explicar a natureza e dinâmica da realidade. A maioria das instituições, programas e projetos públicos são manejados hoje como se fossem empresas ou negócios privados. Nesta racionalidade, o contexto é reduzido ao espaço do mercado, os atores relevantes integram o seleto clube dos “clientes” e as necessidades prioritárias são as que se encaixam na definição economicista de “demanda”. O Deus mercado reina supremo, premiando os bons, os competitivos, e castigando os maus, os não-competitivos, cuja penitência é serem excluídos dos benefícios do crescimento econômico. Se no passado a educação colonial era constitutiva da idéia de progresso e viabilizou a dicotomia civilizados-primitivos, hoje a educação neocolonial é constitutiva da idéia de desenvolvimento e viabiliza a dicotomia desenvolvidos-subdesenvolvidas. Mudaram os nomes, os protagonistas e as estratégias, mas a intenção de dominação para a exploração persiste, intensificou-se e requer a formação continuada de “inocentes úteis”, que aprendem sem interação com seu contexto e memorizam as respostas dos desenvolvidos em um processo mimético que os pressiona a pensar como Eles para ser como Eles. Como poderia florescer uma autêntica educação libertadora na América Latina em meio a um contexto histórico tão hostil à sua prática? Depois de cinco séculos da idéia de progresso e mais de cinco décadas da idéia de desenvolvimento, sempre com o apoio 32 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento de uma educação descontextualizada, para alienar mentes e domesticar corações, nossa América Latina subiu ao pódio da mais desigual região do mundo, desde o final da década de 90. Em seu discurso de abertura da Conferência Anual do Banco Mundial sobre o Desenvolvimento na América Latina e o Caribe , 1996, “Pobreza e Desigualdade”, Shadid Burki, o Vice-Presidente para a América Latina do Banco Mundial declarou: “A região da América Latina e o Caribe tem a mais pronunciada disparidade nas rendas de todas as regiões no mundo”. O New York Times, em seu Editorial Growth Limits in Latin America , de 6 de Maio de 1997, apontou a mencionou como “a região que tem a maior brecha entre ricos e pobres”. Em 1998, na Assembléia Geral da OEA , o Presidente Rafael Calderas da Venezuela, país sede da reunião, afirmou que a “América Latina é a região com maiores desigualdades no mundo”. Em 1999, o Presidente do BID, Enrique Iglesias, afirmou em Paris que a “América Latina tem a distribuição de renda mais desigual do mundo” (De Souza Silva 2007). Em 2004, um relatório do Social Watch informou que a “América Latina apresenta os níveis mais altos de desigualdade na distribuição de renda do mundo”, e que “mais de 80% da população do mundo vive em países com uma distribuição de renda menos desigual que os países da região. No mesmo ano, um relatório conjunto da CEPAL, IPEA e PNUD, sobre a região em relação aos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODMs), destaca que nos países da América Latina “os coeficientes de Gini, que medem a desigualdade na distribuição de renda, superam as medias internacionais e da OECD”. Esta é uma fotografia social em preto e branco da América Latina, a região mais próxima do país autodenominado o mais desenvolvido do planeta, cuja “ajuda” regional não evitou o colapso do seu “desenvolvimento” (De Souza Silva 2007). A hipótese mais provável é que a natureza e a dinâmica da “ajuda” dos impérios antigos e atuais contribuíram para este estado de coisas. Suas estratégias visavam apenas abrir o acesso fácil e, se necessário, inescrupuloso, ao mercado cativo, matéria prima abundante, mão de obra barata, mentes obedientes e corpos disciplinados das sociedades latinoamericanas. Confirmando a realidade desumana da paisagem social da região, em 1999, os 20% mais ricos da população tinha acesso a 52.94% da renda, proporção superior à de todas as outras áreas do mundo, inclusive à da África do Norte e à do Oriente Médio. No outro extremo, os 20% mais pobres só tinha acesso a 4.52% da renda, a menor porcentagem no mundo, inferior à da África do Norte e à do Oriente Médio (Kliksberg 1999, 2005). Não se pode afirmar que na América Latina existe um bom esforço de desenvolvimento humano, quando a maioria dos grupos sociais está longe de ter uma vida digna na região. Os programas regionais oficiais de desenvolvimento humano, e a educação para o referido desenvolvimento, fracassaram, se consideramos o nosso atual estado de desenvolvimento humano e social. A região entrou no século XXI com os 10% de sua população mais rica recebendo 48% da renda total, enquanto os 10% de sua população mais pobre fica com apenas 1.6%. Usando o índice de Gini de desigualdade na distribuição da renda e no consumo, estudos do Banco Mundial revelam que a desigualdade na América Latina e o Caribe, da década de 1970 à década de 1980, foi, em média, de 20.4 pontos maior do que no Leste Europeu, a região que colapsou economicamente depois da fragmentação da então União Soviética (Ferranti et al. 2004). Não pode ser uma simples coincidência, nem fruto de geração espontânea. Depois de mais de cinqüenta anos de “ajuda” e influência da chamada “comunidade internacional”, sob a liderança do Banco Mundial e FMI (Danaher 1994; Caufield 1996), para desenvolver aos subdesenvolvidos (Danaher 1994), principalmente aos mais próximos geograficamente da potência hegemônica (Rosen e McFadyen 1995), o resultado seja o mais alto índice de desigualdade do planeta para a América Latina (Ferranti et al. 2004). 33 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento Implicações para a educação neocolonial Aceitando que a realidade de qualquer sociedade é socialmente construída, um desempenho tão negativo da região não pode ser natural nem surgiu no vazio. Que conceitos, teorias, paradigmas e modelos “universais” de desenvolvimento estão vinculados ao “desenvolvimento” da América Latina? Que grau de autonomia as sociedades latinoamericanas têm para definir ou influenciar o futuro que lhes interessa? São contextualizadas as políticas públicas para a educação na região? Qual a contribuição da educação ao péssimo desempenho do desenvolvimento humano e social? Que tipo de educação prevalece, a universal promovida pelo Banco Mundial ou a contextual? Em sua dimensão pedagógica, a educação é articulada a partir da pedagogia da resposta que forma seguidores de caminhos, ou da pedagogia da pergunta que forma construtores de caminhos? É contextualizado, o conhecimento gerado para o processo de formulação de políticas públicas para a educação na América Latina? O mais provável é que a maioria das respostas a estas e outras perguntas afins tenha caráter negativo. Porém, tudo isso está sob questionamento. Desde a década de 1960, a civilização ocidental, suas instituições e seus valores, conceitos, teorias, paradigmas e modelos vinculados à natureza e à dinâmica da época histórica do industrialismo estão em crise. Fumaça nas chaminés das fábricas industriais era símbolo de progresso; agora é símbolo de contaminação ambiental. A sociedade industrial, a obra-prima da civilização ocidental, construiu para si uma coerência de produção e consumo que não está em correspondência com as potencialidades e limites do Planeta. A sociedade industrial não é a referência para construir sociedades e modos de vida sustentáveis. Por isso, estamos todos vulneráveis, do cidadão ao Planeta. A humanidade experimenta uma mudança de época histórica, um momento turbulento de rupturas e emergências paradigmáticas. Por um lado, antigos conceitos, teorias, paradigmas e modelos perdem vigência, enquanto outros conceitos, teorias, paradigmas e modelos abrem espaço para outros modos de interpretação e intervenção, inclusive para a educação no SAB. É nesta realidade que a educação contextualizada está emergindo e ganhando legitimidade na região. Um dos exemplos mais consistentes, que emerge conquistando o status de paradigma educativo na região, é o da Rede de Educação do Semi-Árido Brasileiro (RESAB) 22, pela coerência e relevância de suas construções teóricas, práticas institucionais e estratégias pedagógicas. Mas, o que prevalece no Brasil e no SAB é uma educação descontextualizada que foi reorientada em torno da idéia de desenvolvimento a partir da década de 50, depois do discurso de Truman. A descontextualização da educação neocolonial se deve ao fato de que esta ainda se inspira na maioria das premissas da educação colonial, e é fortemente influenciada também por: • A dicotomia desenvolvidos-subdesenvolvidos aplicada tanto à interpretação da realidade internacional quanto à da nacional, o que implica em sua dependência das categorias e conceitos vinculados tanto à idéia de desenvolvimento quanto à classificação social da humanidade em superiores e inferiores. Desta dependência emerge uma educação que ensina aos “inferiores” que este estado de coisas é natural, mas pode ser superado; que os superiores são “poderosos generosos” que querem “ajudar-nos” a ser como Eles e, portanto, é preciso ser, sentir, pensar, fazer, falar, produzir e consumir como Eles, o que não pode ocorrer se valorizamos nosso contexto e nossas potencialidades. O que justifica a “ajuda” do poderoso generoso é a existência de problemas, de adversidades. 22 Para uma introdução às contribuições teóricas e práticas da RESAB, ver, por exemplo, Kuster e Mattos 2004; Martins et al. 2004; RESAB 2006). 34 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento • A universalidade de modelos globais aplicados às realidades locais, o que implica no mimetismo tecnológico, cultural e institucional. Como os modelos dos desenvolvidos são concebidos a partir de leis universais descobertas, validadas e legitimadas pela ciência moderna, o que foi bem sucedido na realidade do superior também será na do inferior. Se não for, explica-se pela incompetência gerencial ou falta de vontade política locais para implementar integralmente a solução generosamente transferida pelo superior. Os estudantes—inferiores—vão aos MBAs estudar os “cases” dos superiores, casos estes que jamais se repetirão nem sequer em seus contextos de origem. As histórias, os saberes, os valores, os sonhos, as experiências, os desafios, as aspirações e as potencialidades locais raramente são mencionados, e, quando são, geralmente é para comparar de forma negativa ou desvantajosa em relação aos mesmos aspectos na realidade do superior. • A lógica linear do processo de inovação aplicada ao processo educativo. Sob a lógica do paradigma clássico de inovação da ciência moderna, uns geram, outros transferem e os demais adotam as inovações geradas pelos primeiros, de forma mecânica e linear, sem interações críticas entre estes grupos de atores para permitir influências mútuas. No caso da educação neocolonial, a mesma lógica é aplicada no processo educativo, onde alguns—desenvolvidos—geram verdades a ser compartilhadas nos momentos educativos, outros—professores—transferem estas verdades aos estudantes—subdesenvolvidos—que as adotam, memorizam ou “adquirem”, “absorvem”, de forma mecânica o “transmitido”. Esta lógica é reproduzida tanto no âmbito internacional, onde certas verdades fluem dos desenvolvidos aos subdesenvolvidos, quanto no âmbito nacional, onde certas verdades fluem das “regiões mais desenvolvidas”, como o Centro-Sul do Brasil, às “regiões menos desenvolvidas”, como o Norte-Nordeste brasileiro em geral e o SAB em particular. • A filosofia de mudar as coisas para mudar as pessoas, e não a de mudar as pessoas que mudam as coisas. Tanto na visão mecânica de mundo como na concepção mercadológica da realidade, os seres humanos são reduzidos a coisas: “recursos” ou “capital”. Quando os educadores são reféns da metáfora do mundo-máquina ou da metáfora do mundomercado, eles percebem a si mesmos e aos educandos como mero “recurso” ou “capital, respectivamente. Como conseqüência, o contexto propício à crítica e à criatividade, que estimulam a curiosidade crítica e a exploração imaginativa, é eclipsado pelo mimetismo onde uns fingem que ensinam e outros fingem que aprendem. Muitos educadores ainda não perceberam que eles não mudam a realidade de sua sociedade, pois o seu trabalho consiste em mudar as pessoas que, mudando a si mesmos, podem mudar a realidade de seu contexto e, assim, contribuir para mudanças mais amplas em sua sociedade. Se os educadores fossem conscientes desta missão, conceituariam educação como processo de intervenção na formação de cidadãs e cidadãos para que estes mudem a sociedade, e tentariam educar-se na arte de mudar pessoas, que não é o mesmo que mudar coisas. A arte de mudar as pessoas que mudam as coisas exige domínio de tecnologia intelectual— tecnologia da interpretação, que maneja conceitos, teorias, paradigmas, metáforas, analogias (dispositivos heurísticos disponíveis para gerar compreensão); tecnologia social—tecnologia da interação humana, que mobiliza métodos participativos, técnicas de negociação, enfoques para o manejo de conflitos; tecnologia cultural—tecnologia da construção de significados, que mobiliza símbolos, códigos, rituais que dão sentido à existência; tecnologia política—tecnologia do poder , que mobiliza critérios e princípios para decidir sobre duas ou mais posições ou propostas em conflito; e tecnologia ética— tecnologia da vida, que mobiliza valores éticos e estéticos para o cultivo das condições, relações, significados e práticas que geram ou sustentam a vida. • A idéia de desenvolvimento, através do conceito de desenvolvimento sustentável, com as implicações de depender dos valores, parâmetros e categorias vinculados ao conceito de desenvolvimento. Muitos ainda não percebem que o problema não é o adjetivo, mas sim 35 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento o substantivo. Como “progresso”, a palavra “desenvolvimento” foi inventada de forma deliberadamente ambígua para que seu significado seja tão flexível que pode ser qualquer coisa; mas, quando algo pode significar qualquer coisa, significa nada. Os amos do universo, que lideram a chamada ‘Comunidade Internacional’, líderes do que se convencionou chamar ‘desenvolvimento internacional’, permanecem atentos às criticas ao “desenvolvimento”, e são criativos ao fingir demonstrar que aceitam estas críticas. O que fazem geralmente é apropriar-se do adjetivo proposto pelos críticos, ou inventar um que traduza os referidos protestos emergentes. No entanto, como progresso, a palavra “desenvolvimento” nunca deixou de ser “crescimento econômico”, porque este é a única estratégia que o sistema capitalista tem para perseguir seu objetivo sem sentido de acumulação ilimitada. Por isso os adjetivos incorporados a esta palavra não passam de uma camuflagem semântica para a manutenção do objetivo do sistema: acumulação do capital através de crescimento econômico infinito. Os adjetivos incorporados à palavra “desenvolvimento”, como ‘local’, ‘territorial’ e ‘sustentável’, serão manipulados até que signifiquem ‘crescimento econômico local’, ‘crescimento econômico que toma em conta o território’, e ‘crescimento econômico que se sustenta no tempo’, respectivamente. Isso está claro até no Relatório da Comissão Brundtland , lançado na Eco-92, Rio de Janeiro, publicado como livro, Nosso Futuro Comum. No Relatório, os expertos da hipocrisia organizada chamada ‘Desenvolvimento Internacional’ enunciam: “[...] A humanidade conta com a habilidade para tornar sustentável o desenvolvimento – assegurar que o mesmo atenda às necessidades do presente sem comprometer a habilidade de futuras gerações para atender suas próprias necessidades. O conceito de desenvolvimento sustentável implica limites – não limites absolutos, mas sim impostos pelo estado atual da tecnologia e da organização social sobre os recursos naturais.... Mas, tecnologia e organização social podem ser manejadas e melhorados para abrir espaço para uma nova era de crescimento econômico” (Rist 1997:181; grifo nosso). • Desenvolvimento como meta . A técnica de colonização cultural mais simples, mais efetiva e mais bem sucedida, que contribuiu à descontextualização da educação existente, foi a que institucionalizou, como meta, a través da ciência, educação e comunicação, a idéia de progresso no passado e a idéia de desenvolvimento no presente. Com sua lógica linear e perspectiva evolucionista, a técnica permeou o discurso hegemônico com a premissa de que só existe um modelo de sociedade perfeita, a civilizada no passado e a desenvolvida no presente, à qual todos devem aspirar e podem alcançar. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a meta para as sociedades do Sul é serem desenvolvidas como as do Norte. As divergências residem na forma de chegar lá, sem que se questione o fato de que, se isso fosse possível e desejável (que felizmente não é), ao final da “corrida ao desenvolvimento” todas as sociedades seriam idênticas, homogêneas. Para reproduzir esta premissa homogeneizante, as Nações Unidas nomeiam eventos/criam décadas, por exemplo, da “comunicação para o desenvolvimento”, da “educação para o desenvolvimento”. Tudo é para esta meta, nunca para a felicidade das comunidades e sociedades, que devem aprender a viver bem, convivendo com outras comunidades e sociedades, assim como com as demais formas de vida. A autodenominada comunidade internacional jamais se refere à sustentabilidade dos diferentes modos de vida de todas as formas de vida, humanas e não-humanas, mas sim à sustentabilidade deste Senhor misterioso e importante chamado desenvolvimento (“desenvolvimento sustentável”). Os que se comprometem com esta premissa, do desenvolvimento como meta, ainda que de forma inconsciente, iniciam um processo de descontextualização mental com implicações para a descontextualização de todos os seus empreendimentos, porque a referida meta não pode ser alcançada em seu contexto local, que passa a ser visto como portador de “obstáculos ao desenvolvimento”. Não resta outra opção senão aceitar que a nossa é uma “realidade-problema”, para cuja superação é imprescindível a “ajuda” daqueles cujo contexto é portador de “soluções para o desenvolvimento”. A educação (neo)colonial tem 36 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento como função reproduzir o desenvolvimento como meta nos imaginários dos atores sociais e institucionais, para o que deve descontextualizar a realidade local, para estabelecer a relevância da realidade perfeita desejada, a realidade Deles, nunca a nossa. Estas e outras implicações da penetração do paradigma clássico de inovação da ciência moderna na educação, através da idéia de progresso/desenvolvimento, têm profundas conseqüências para a concepção, apropriação e reprodução da idéia de semi-árido. Outros já estudaram muitas destas conseqüências (Albuquerque Júnior 1999; Costa 2010), o que não impede aos interessados mobilizarem sua imaginação para analisar estas conseqüências em sua realidade educativa. Nosso objetivo aqui foi reconstruir a origem da descontextualização mais ampla do mundo da vida, que inclui a educação, gerando razões relevantes para sua (re)contextualização. Mas, falta compartilhar uma lição da aplicação do enfoque filosófico-metodológico da etnografia institucional: falsas premissas—verdades—induzem a falsas promessas e soluções inadequadas A maioria das instituições oficiais globais, que atuam como “agentes internacionais das mudanças nacionais”, como o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento, concebem e apóiam programas de “desenvolvimento” a partir de falsas premissas, deliberadamente. Por isso, a pobreza, a fome, as desigualdades, as injustiças e outros problemas estruturais nunca são superados, justificando a existência destas instituições e a continuidade de seus programas. Sua “agenda oculta” é a reprodução das condições que sustentam a hegemonia do vencedor da Segunda Guerra Mundial. Tudo é facilitado pela geopolítica do poder e do conhecimento. Segundo Goonatilake (1984), se um mapa da desigualdade socioeconômica for colocado sobre um mapa da capacidade de gerar e usar conhecimento científico próprio, ambos coincidem. Por quê? O mais forte usa seu poder científico, econômico, político e militar para a institucionalização internacional da desigualdade que permite ao dominador o acesso inescrupuloso ao mercado cativo, matéria prima abundante, mão de obra barata, mentes dóceis e corpos disciplinados dos dominados, violando o humano, o social, o cultural, o ecológico e o ético. Um exemplo disso é oferecido pelo Banco Mundial. Em seu Relatório do Desenvolvimento Mundial—Conhecimento para o Desenvolvimento, 1998-1999, o Banco cinicamente propõe a continuação deste estado “natural” e “normal” de coisas: “Os países pobres diferem dos países ricos [...] porque têm menos conhecimento. A geração de conhecimento é muito cara, e [por isso] o conhecimento é gerado nos países industriais. [...] olhemos os problemas do desenvolvimento da perspectiva do conhecimento. Os países em desenvolvimento não necessitam reinventar a roda. Em vez de recriar o conhecimento já existente, os países mais pobres têm a opção de adquirir e adaptar [...] conhecimento [...] disponível nos países mais ricos. Adquirir conhecimento implica acessar e adaptar conhecimento...através de um regime aberto para o comércio, investimento estrangeiro e [licensing agreements], [...] assegurando que o pobre tenha acesso. A distribuição desigual da informação não pode jamais ser eliminada, mas pode ser melhorada” (World Bank 1999:1-14). Porém, se o poderoso se apresenta como generoso, querendo compartilhar os segredos do seu sucesso para nos “ajudar” a ser como Eles, suspeitemos. Como as promessas oficiais globais, feitas em nome do “desenvolvimento”, nunca foram cumpridas (Danaher 1994; Caufield 1996), assim como os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODMs) tampouco serão cumpridos, verifiquemos as premissas que sustentam suas promessas. Se forem falsas as premissas, as suspeitas estão confirmadas. Aproveitando as vantagens da institucionalização da geopolítica do conhecimento, o Banco Mundial promove a dicotomia desenvolvidos-subdesenvolvidos a partir de falsas premissas, que em seu Relatório de 1999, citado acima, são: (i) conhecimento é sinônimo de informação; (ii) o conhecimento científico é universal, neutro e válido em todos os contextos, independente do seu lugar de origem; (iii) o conhecimento científico gerado nos países inferiores é idêntico ao gerado nos países superiores, razão pela qual estes estariam necessariamente 37 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento reinventando a roda; (iv) existem países superiores que geram conhecimento científico relevante para todas as realidades, e países inferiores que são receptores do conhecimento gerado por aqueles; (v) a causa de todos os problemas complexos dos países inferiores é somente a falta de conhecimento científico; (vi) o que necessitam os países inferiores para ser como os superiores já foi gerado e está disponível para eles nos países ricos; (vii) a forma de acessar o conhecimento que os inferiores necessitam é comprando-o aos superiores; e (viii) a distribuição desigual da informação é um fenômeno natural que não se pode eliminar; apenas atenuar. Em síntese, o que o Banco Mundial diz de forma implícita é que, sob a ideologia do mercado, os ricos já não “ajudarão” aos pobres. Segundo a geopolítica do poder e do conhecimento, a lógica da mercadoria profanou o santuário do pensamento. Agora tudo se vende e tudo se compra, inclusive o saber do rico. Para transformar a pobreza em fonte de riqueza, os ricos definiram que, a partir de agora, para serem como Eles, os pobres devem pagar até para imitá-los. A Casa de Salomão, proposta por Bacon em Nova Atlântida, foi realidade nos países civilizados e continua hoje nos países desenvolvidos. É a única que sabe distinguir entre o certo e o errado para qualquer realidade, e gera conhecimento válido e inovações positivas para todas as nações. Seu maior compromisso é com as sociedades ‘menos favorecidas’, que devem, porém, comprar isso concebido para elas com o “carinho” muito especial das sociedades ‘mais favorecidas’. Conclusão A contextualização da educação para a convivência com o SAB e a construção do ‘dia depois do desenvolvimento’ “...no discurso oficial dos setores dominantes, a miséria da população trabalhadora era de responsabilidade das condições climáticas [...] Escamoteando-se as contradições... internas como processo causal da miséria das populações sertanejas, cria-se...uma desculpa: o clima. O discurso sobre o ecossistema semiárido foi assim trabalhado para expressar ao máximo suas fragilidades, suas dificuldades, escondendo por completo ...suas potencialidades, suas vantagens. [...] priorizaram-se as políticas de combate às secas...substituindo vegetação, subestimando possibilidades. Isso em detrimento de pesquisas e investimentos que desenvolvessem suas potencialidades” (Costa 2010: ..) “O problema do ‘modo clássico’ de inovação não é necessariamente sua origem européia, mas sim o fato de que, sendo uma concepção particular desenvolvida desde um certo lugar, por certos atores e em certos idiomas, haja sido imposto a todos [os países] como o único possível para a inovação do desenvolvimento [...] Se o modo clássico— eurocêntrico—não resultou satisfatório para promover o bem-estar inclusivo, chegou a hora de inovar nossa forma de inovar” (Escobar 2005: Prefácio, 18, 19) Tão ou mais importante do que superar a desertificação no SAB é extinguir a aridez mental que grassa no imaginário técnico e social sobre a região. A educação deve nutrir-se de conhecimento significativo—gerado no contexto de sua aplicação (dimensão prática) e implicações (dimensão ética)—e inspirar e orientar a geração de inovações relevantes—que emergem de processos de interação social com a participação dos que delas necessitam e serão por elas impactados. No entanto, o conhecimento significativo e as inovações relevantes estão cada vez mais raros no contexto da ciência comercial emergente (Lander 2005). A prática científica é descontextualizada. O que se estabeleceu foi uma ciência sem consciência (Morin 1984), que esteriliza a capacidade crítica e criativa, cuja natureza e dinâmica dependem da interação com o contexto que ser quer compreender para transformar. Refém de influências da visão mecânica de mundo, a maioria dos cientistas ainda aceita o verbo “produzir” para expressar o conhecimento gerado, construído, criado em interação com o contexto. O verbo “produzir” é da época do industrialismo, onde as máquinas “produzem” bens. O laboratório, visto como uma máquina pequena, também “produz” o seu bem mais valioso, conhecimento, apesar de que a “produção” de outro bem, patentes, está 38 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento cada vez mais valorizada com a ascensão da ideologia do mercado. Ainda hoje o critério mais crucial na avaliação e promoção de cientistas de todo o mundo é o numero de artigos científicos publicados em Inglês em Revistas Científicas legitimadas pelos países superiores, ainda que seu conteúdo não seja relevante para as realidades às quais supostamente se destina, como é muito freqüentemente o caso da absoluta maioria dos referidos artigos. Com isso, fica demonstrado que o fenômeno da aridez mental é generalizado. Penetrou e viceja até mesmo na classe mais privilegiada do sistema de educação, a classe dos cientistas, como é o caso do Professor da USP citado na introdução, que escreveu um livro sobre o SAB sem conhecer a região, e cuja idéia— distorcida, preconceituosa e injusta —de semi-árido temos que superar. A educação contextualizada deve contribuir à superação da aridez mental que reproduz a idéia de semi-árido concebida desde o tempo do Império, que eterniza o SAB como “região problema”. Outra idéia de semi-árido deve ser diferente e relevante para os mais de vinte e um milhões de habitantes da região. Outra imagem da região deve expressar sua natureza e dinâmica de forma mais emocional, como na citação seguinte, pois Bertrand Russel demonstrou que a fonte da ação humana é a emoção; nós usamos a razão apenas para regular as ações: “A seca existe no sertão nordestino. Sempre existiu. É um fenômeno natural. Persiste normalmente, em média, 9 meses. Assim como a mulher em gestação, para parir, com as primeiras chuvas, uma abundância de cores e sons, jamais visto em outro lugar do planeta. É preciso entender que, sem um não há o outro. Ou seja, sem a gestação do período seco não existe a exuberância do período chuvoso. A fecundidade do ambiente é assegurada por sua dinâmica própria de gerar e guardar a vida. Os dois momentos formam, portanto, um só semiárido” (Costa 2010 ). Mas, a pergunta implícita que tentamos responder é: se a educação contextualizada é relevante, por que prevaleceu—e ainda persiste de forma dominante—a educação descontextualizada, nos países e regiões com uma experiência colonial, como o Brasil e o SAB? A resposta que emerge da desconstrução cultural e descolonização epistemológica do paradigma clássico de inovação, no campo do desenvolvimento, é que a ciência moderna concebeu e instituiu uma visão mecânica de mundo que homogeneíza histórias e saberes ao universalizar e matematizar a existência, eclipsando a complexidade, diversidade, diferenças e contradições das realidades locais. Isso foi conveniente para o capitalismo emergente, com seus interesses globais e ambição expansionista, exigindo acesso fácil a mercados cativos, matéria prima abundante, mão de obra barata, mentes obedientes e corpos disciplinados existentes nos territórios colonizados, onde as dimensões humana, social, cultural, ecológica e ética foram sistematicamente violadas. Hoje, tudo isso persiste com novos impérios—corporações transnacionais—cujas estratégias são inspiradas pela visão mercadológica de mundo que ascende vertiginosamente no vácuo da globalização neoliberal, principalmente depois da desintegração da União Soviética e o colapso do bloco socialista do Leste europeu. No entanto, isso não acontece sem dissidências e resistências. Existem inclusive movimentos contra-hegemônicos, anti-sistêmicos (Sen et al. 2004). O conjunto dos movimentos sociais tenta resgatar a relevância da história e do contexto, bem como das dimensões humana, social, cultural, ecológica e ética violadas nos últimos cinco séculos. Em seu conjunto, estes movimentos questionam premissas da civilização ocidental e valores da sociedade industrial, cujo modelo de produção e consumo responde a uma coerência que não está em correspondência com as potencialidades e limites do Planeta (Röling 2003). Os movimentos sociais concebem e promovem uma visão contextual de mundo sob a qual a realidade emerge como uma trama de relações, significados e práticas entre todas as formas e modos de vida. Nesta concepção complexa da realidade, o contexto é a referência máxima, a interação a estratégia permanente e a ética o compromisso com todos os atores humanos e nãohumanos. Para os educadores, as premissas vão muito além. Não devem ser meros executores da educação contextualizada. Devem dominar bem a arte de mudar as pessoas que mudam a 39 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento realidade. Sua educação contextualizada deve inspirar a construção de novos sonhos e semear uma nova idéia de semi-árido, onde a convivência não signifique acomodação com o estado atual de coisas na região. Não será fácil. Desde a visão contextual de mundo, compartimos premissas para iniciar a desconstrução cultural e a descolonização epistemológica da educação neocolonial descontextualizada que prevalece no SAB. Trata-se de uma mostra do que os educadores e outros profissionais, comprometidos com outro futuro relevante para os mais de 21 milhões de atores sociais do SAB, necessitamos e podemos fazer parar construir o ‘dia depois do desenvolvimento’: • A dicotomia superior-inferior é uma invenção para a dominação e a exploração. Se esta dicotomia serve apenas para a classificação social da humanidade, a partir do critério de raça, e justificar a dominação de poucos sobre muitos para a exploração inescrupulosa de mercados cativos, matéria prima abundante, mão de obra barata, mentes obedientes e corpos disciplinados, violando o humano, o social, o cultural, o ecológico e o ético, chegou a hora de prescindir de conceitos, categorias e indicadores vinculados à idéia de desenvolvimento como meta, e a seus binômios classificatórios: civilizados-primitivos e desenvolvidos subdesenvolvidos. Nunca houve, não há nem haverá superiores-inferiores, porque sempre fomos, somos e seremos apenas ‘diferentes’. • A idéia de progresso/desenvolvimento impede a construção de um futuro relevante para o SAB. Se esta idéia foi concebida longe de nossa realidade e sem compromisso com nosso futuro, se depois de cinco séculos de progresso e seis décadas de desenvolvimento a humanidade nunca esteve tão desigual e o planeta tão vulnerável, se, neste contexto, a América Latina subiu ao pódio da região mais desigual do mundo, chegou a hora de substituir o desenvolvimento como meta, e imaginar e negociar outras idéias, como a do ‘bom viver’ como fim, onde o objetivo é construir comunidades e sociedades mais felizes e com modos de vida sustentáveis. A idéia do ‘bom viver’ como fim foi institucionalizado recentemente na nova Constituição da República do Equador, em substituição da idéia de desenvolvimento como meta, cujos indicadores são quantitativos, de ordem material e de natureza tecnológica. • O ‘bom viver’ é contextual e não universal. Se o ‘bom viver’ não implica em um estado de ‘subdesenvolvimento a ser superado’, nem um de ‘desenvolvimento a ser alcançado’, pois se refere a outra filosofia de vida, e se esta filosofia é contextual e não universal, na qual as histórias, experiências, saberes, sonhos, desafios e aspirações locais são as fontes de relevância e referência, e não os modelos globais—universais—que descontextualizam as realidades locais para impor comparações entre culturas, sociedades, e até continentes, para instituir a superioridades de uns sobre os demais, para estabelecer a dependência destes da “ajuda” daqueles, chegou a hora de substituir o desenvolvimento como meta, e de estabelecer a construção de comunidades e sociedades mais felizes como fim, o que só será possível a partir do ‘dia depois do desenvolvimento’. • As potencialidades do SAB superam suas adversidades. Se o paradigma das adversidades serve só para instituir a visão do semi-árido como “região-problema”, se este paradigma percebe apenas problemas que justificam a cooperação e o assistencialismo do poderoso ‘generoso’, se este paradigma imposto historicamente pelo dominador cria um imaginário que visibiliza apenas limitações e oculta possibilidades, chegou a hora de construirmos o paradigma das potencialidades para liberar energias intelectuais, emocionais e espirituais que mobilizem nossas riquezas naturais, culturais e institucionais, não para resolver uma lista infinita de “problemas de desenvolvimento”, como prevalece na grande maioria dos programas para o SAB, mas sim para viabilizar fins relevantes para os mais de vinte e um milhões de habitantes da região, como o ‘bom viver’ das comunidades e sociedades que 40 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento a constituem, e para construir modos de vida sustentáveis para as formas de vida que convivem com o semi-árido, pois a sabedoria reside em, sempre que estivermos frente a duas ou mais opções em conflito, e uma delas é a vida, decidir pela vida. • Uma mudança de época histórica exige inovar nossa forma de inovar. Se o modo clássico de inovação da ciência moderna fracassou em promover o bem-star inclusivo de todas as formas e modos de vida no planeta, se este paradigma se apresentou como universal em sua utilidade, assumiu uma lógica mecânica quanto ao funcionamento da realidade e reivindicou neutralidade quanto aos seus impactos, e se a humanidade experimenta uma mudança de época histórica desde a década de 60 (Castells 1999; De Souza Silva 2009), um momento de rupturas e emergências epistemológicas, chegou a hora de construir opções paradigmáticas para as quais o contexto é a referência, a interação é a estratégia e a ética é o compromisso para a construção de comunidades e sociedades mais felizes e com modos de vida sustentáveis, deixando a filosofia—universal, mecânica e neutra —de inovação por outra contextual, interativa e ética. • A pedagogia da pergunta é relevante para mudar as pessoas que mudam as coisas. Se a pedagogia da resposta “forja” meros receptores de idéias, conceitos, teorias, paradigmas e modelos que existem sempre em outros idiomas, são criados sempre por outros atores e nos chegam sempre desde outros lugares, que nunca coincidem com nossos idiomas, atores e lugares, se esta pedagogia informa mas não inspira, informa mas não forma, imita mas não critica, não cria e nem propõe, se esta exige apenas memorizar respostas para perguntas que não são localmente relevantes, se esta cultiva o pensamento único subordinado ao conhecimento autorizado pelo “superior”, e se não se pode educar nem transformar a realidade com respostas, mas sim com perguntas, porque o adulto não se compromete com a resposta que escuta, mas sim com aquela da qual participou de sua construção, e porque a maioria das respostas existentes são constitutivas da realidade insatisfatória que queremos superar, chegou a hora de revolucionar a educação para a convivência com a semi-aridez a partir da pedagogia da pergunta, porque se vamos renegociar os fins para seus mais de 21 milhões de habitantes, os caminhos já existentes não nos conduzem a estes fins, porque apontam ao “desenvolvimento” como meta. Tudo isso requer uma filosofia de inovação de mudar as pessoas que mudam as coisas, e não a de mudar as coisas para mudar as pessoas. Para instituir uma nova visão do SAB, é indispensável transformar os modos de interpretação e intervenção ainda dominantes entre a maioria dos atores sociais e institucionais com atuação no SAB. • A sustentabilidade implica em cultivar as condições, relações, significados e práticas que geram ou sustentam a vida . Se o planeta nunca este tão vulnerável, se a humanidade nunca esteve tão passível de extinção, e se tudo isso foi construído através da idéia de progresso no passado e da idéia de desenvolvimento no presente, chegou a hora de aprender inventando desde o local, para não perecer imitando desde o global, porque os modelos universais ignoram/violam as condições, relações, significados e práticas locais, rejeitando inclusive o conceito de “desenvolvimento sustentável” promovido pelo Informe da Comissão Brundtland, que nem sequer é um conceito, mas sim uma promessa que está em contradição com a conclusão geral do referido Informe, que confessa, ao final, que tudo que propõe é apenas para viabilizar uma nova era de crescimento econômico, a estratégia única do sistema capitalista cujo único objetivo é acumular ad infinitum, um objetivo que não inclui vida, insensível à história e ao contexto. Estas e outras premissas afins podem e devem ser incorporadas ao esforço para contextualizar a educação para construir o dia depois do desenvolvimento no SAB. Esta consciência cresce vertiginosamente tanto na academia quanto entre pensadores sociais. A síntese deste documento 41 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento pode ser encontrada no pensamento do violeiro, repentista e poeta popular Oliveira de Panelas, quando expressa sua visão do SAB e da educação para a região: “[...] Sabemos mais da metade Das terras continentais São áridas, são semi-áridas Mas algo nos satisfaz Dos Semi-Áridos do mundo O nosso é o que vale mais. [...] Livrai-nos, Senhor, livrai-nos Desses modelos globais Vamos crer em nossos santos Que têm poderes demais Para viabilizarem Os nossos sonhos locais. Nossa fonte de riquezas Do normal vai mais além Vendo a diversidade Que nosso sertão contém Tem o nosso semi-árido Vantagens que outros não têm. [...] Tu podes, e eu posso, juntos, Todos podemos fazer Um milagre no Sertão Pra ganhar e não perder “A semi-aridez é vantagem”, Ninguém disse, mas vai ser. [...] Jamais cabem numa síntese As vantagens do sertão O sol para a fotossíntese Água pra germinação Além da fé do seu povo Força e determinação. [...] A educação, no contexto Do sertão é diferente Não interessa a resposta Criada longe da gente Só interessa a pergunta Pensada por nós somente. A maior vantagem é O talento sertanejo Pela sua persistência Coragem, luta, traquejo, Pra conviver com a seca Povo mais sábio eu não vejo. Valorizando o contexto Enaltecendo o talento No sertão, a educação Ganhará um novo alento O sertanejo terá Educação a contento. [...] Os sanguessugas de fora Montavam frios esquemas Nos roubar, era seu forte. Saquear, era seus lemas. Levavam nossas riquezas Só divulgavam os problemas. Esta educação ensina Que não há superiores Pois todos temos talentos Não somos inferiores Somos todos estudantes Todos somos professores. Esses “santos” marreteiros Quando à nossa terra vêm, Deixam um, carregam dez, Nos dão dez, carregam cem, Depois, o pouco que deixam Terminam levando também. [...] O sertanejo é um sábio Já nasceu com o diploma Da vida, da natureza, Ecossistema, bioma. É ele quem mais conhece As regras desse idioma [...]”23 Mais sábio do que o Professor da USP, citado em nossa introdução, Oliveira de Panelas, vencedor do Prêmio “Melhor Repentista do Brasil”, numa competição nacional realizada no Memorial da América Latina, em São Paulo-SP, em 2000, iniciou sua contribuição à construção do ‘dia depois 23 Extrato de versos do Cordel Instituto Nacional do Semi-Árido: O Paradigma das Oportunidades do poeta, violeiro, cantador e repentista nordestino Oliveira de Panelas, em sua interpretação poética do Plano Diretor 2008-2011 do INSA, (Panelas 2008: 9-19). 42 De Souza Silva, José O dia depois do desenvolvimento do desenvolvimento’. Em sua epistemologia poético-social, Oliveira expressa sua independência de pensamento e seu compromisso com o modo de vida sertanejo, e jamais se compromete com o desenvolvimento como meta, mas sim com o bom viver e conviver do povo do SAB. Sem construir o ‘dia depois do desenvolvimento’, não florescerá entre nós o pensamento crítico, criativo e propositivo. Se continuarmos a pensar como Eles, para ser como Eles, como nos impõe a educação neocolonial, descontextualizada, sem pensar como nós, para sermos nós mesmos, como nos convida a educação crítica, contextualizada, seremos condenados aos efeitos da aridez mental. Este fenômeno aumenta com a prática da educação mimética que erode a paisagem intelectual dos que ainda cultivam o pensamento subordinado ao conhecimento autorizado pelo mais forte a que se refere Rousseau no Contrato Social. Este é justamente o caso do Professor da USP, já referido anteriormente, que, em sua santa ignorância sobre o que é o SAB e como este funciona, comparte um conhecimento irrelevante para o bom viver dos mais de 21 milhões de habitantes da região, um conhecimento que não expressa emoção, paixão nem compromisso com outro futuro relevante e possível para o SAB. Até quando? A que custo? 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