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Revista de Estudos Psicanalíticos
Órgão Oficial da Sociedade de Psicanálise de Brasília
Volume 30, n. 2, 2012
ISSN 0100-1655
Editora: Maria Nilza Mendes Campos
Coeditora: Maria Luiza Gastal
Conselho Editorial:
Almira Correia de Caldas Rodrigues
Carlos César Marques Frausino
Teresa Cristina de Moura Peixoto
Warton Monteiro
Conselho Consultivo:
Antônio Muniz de Rezende sbpsp
Aurea Maria Lowenkron sbprj
Ana Rita Nuti Pontes sbpsp
Bruno Salésio da Silva Francisco sppel-sbprj
Estela Versiani ESCS
Jansy Berndt de Souza Mello
Luciane Falcão SPPA
Marion Minerbo sbpsp
Miguel Calmon Du Pin e Almeida sbprj
Raul Hartke sppa
Regina Orth de Aragão
Roosevelt Moisés Smeke Cassorla sbpsp
Sandra Maria Gonzaga sbprj
Telma Gomes de Barros Cavalcanti spr
Terezinha de Camargo Viana unb
Secretárias:
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Lannusa Evaristo Diógenes de Castro
Arte, produção e capa:
Impressão:
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71625-009 Brasília, DF
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Sociedade de
Psicanálise de
Brasília
Diretoria 2011-2012
Presidente: Luciano Wagner Guimarães Lírio
Diretora Científica: Cíntia Xavier de Albuquerque
Secretária: Maria Stella Winge
Tesoureira: Ana Velia Vélez de Sánchez Osella
Diretor do Instituto: José Vieira Nepomuceno Filho
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A466 Revista de Estudos Psicanalíticos
rgão Oficial da Sociedade de Psicanálise de Brasília
Ó
Volume 30, n. 2, dezembro 2012
Semestral
ISSN 0100-1655
1. Psicanálise periódicos. Sociedade de Psicanálise de Brasília
CDU: 159.964.2(5)
Sumário
Editorial .................................................................................................. 4
Maria Nilza Mendes Campos
Artigos
• Borderline – uma conferência.................................................................. 9
André Green
• O trauma em André Green ......................................................................................... 19
Claudia Amorim Garcia
• O trabalho no limite do analisável: destrutividade e enquadre interno
no analista ................................................................................................................... 31
Daniel Delouya
• Do negativo em Freud e Green: contribuições ao estudo dos casos-limite ..... 39
Márcia Teresa Portela de Carvalho e Terezinha de Camargo Viana
• Violência contemporânea, novas formas de subjetivação e de sofrimento
psíquico: desafios clínicos ................................................................... 55
Zeferino de Jesus Barbosa Rocha
• O declínio da interpretação e a contemporaneidade da psicanálise............... 67
Roberto Barberena Graña
• Embalando o sono do bebê – contendo as transferências das relações
iniciais pais-bebê ................................................................................ 83
Maria Cecília Pereira da Silva
• Expressões do reconhecimento e da sujeição na experiência intersubjetiva ... 97
Pericles Pinheiro Machado Junior
Tradução
• As Grandes controvérsias e o après-coup ............................................... 111
Rosine Jozef Perelberg
Leituras
• O luto nosso de cada dia ..................................................................... 139
Camila Flaborea
Resenhas
• A questão infinita ............................................................................. 151
Autor: Christopher Bollas
Resenhado por: Cláudia Aparecida Carneiro
• Balint em sete lições......................................................................... 155
Autor: Luís Claudio Figueiredo e cols.
Resenhado por: Maria Teresa Lopes
O r i e n t a ç ã o a o s c o l a b o r a d o r e s ....................................... 157
4
ALTER Revista de Estudos Psicanalíticos, v. 30 (2) 4-6, 2012
Editorial
O presente número trata de despedidas. É que, ao mesmo tempo em que edito
o último número na função de editora, a revista pretende tratar, mais especialmente,
da perda de um grande psicanalista – André Green.
Nos últimos tempos a psicanálise tem se despedido de alguns dos seus grandes
titãs. Além de nosso homenageado, perdemos Jean Laplanche, Joyce McDougall, e
mais recentemente, J. B. Pontalis, e com eles uma tradição de psicanalistas que tomaram para si a tarefa de não abandonar o legado primeiro deixado por Freud, apesar
das transformações e desafios impostos pelo mundo atual.
Nossa Sociedade no final da década de 1970 foi brindada com a visita de André Green, a foto da capa é um registro desse prestigiado momento. Na ocasião ele
proferiu uma Conferência na Universidade de Brasília, publicada no ano de 1977 no
então Jornal de Estudos Psicodinâmicos – Alter, bem como conduziu diversas supervisões à então primeira turma em formação do que viria a se tornar a Sociedade de
Psicanálise de Brasília. À época, Green começava a dedicar-se à questão que viria a
constituir-se tema privilegiado da psicanálise contemporânea – os estados limites.
Dada a importância e atualidade do tema, a referida conferência é aqui republicada
inaugurando este número da revista.
André Green articulou toda a sua obra de forma a, reconhecendo o valor da
metapsicologia freudiana, integrar o que de novo surgiu na psicanálise após Freud,
como Winnicott, Bion e Lacan. Dessa maneira, criando pontes e rompendo com a
tradição das escolas, inaugurando o que Figueiredo1 propõe como período pós-escolas, permitindo à psicanálise libertar-se da rigidez e do dogmatismo.
Sua obra se destaca sobretudo por um modelo de investigação que privilegia
a articulação entre a metapsicologia e a clínica. Legando conceitos inovadores que
viriam a se inserir no repertório psicanalítico, tais como, mãe morta, narcisismo de
vida e de morte, trabalho do negativo, duplo limite, loucura pessoal, situação enquadrante, reconheceu a importância do rigor no campo teórico, oferecendo-nos novas
ferramentas clínicas para os problemas atuais, de maneira a garantir que a herança
deixada por Freud seja reinventada a cada encontro analítico.
Neste número, contamos com artigos de vários autores que têm se dedicado a
dialogar com Green ao longo de seu percurso. Dessa forma, procuram manter viva
a ideia de uma leitura renovada da teoria e da perspectiva clínica, implícitas na obra
do autor.
Cláudia Garcia discorre sobre a concepção do trauma em André Green, abordando a centralidade da relação com o objeto primário no desencadear de situações traumáticas. A autora destaca os conceitos de objeto trauma, complexo da mãe
1 Figueiredo, L. C. (2009). As diversas faces do cuidar. São Paulo: Escuta.
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morta e trabalho do negativo na questão dos entraves ao trabalho do luto, que caracteriza a clínica do trauma.
Daniel Delouya destaca a contribuição de André Green para a clínica das
configurações e situações no limite do analisável dentro da tradição psicanalítica de
Freud a Klein, Winnicott, Bion e Lacan. Para tanto, lança mão de conceitos consagrados pelo autor, como o duplo limite, a loucura pessoal, a estrutura enquadrante,
o negativo etc., apresentando um material clínico para ilustrar tais desdobramentos
teóricos.
Em “Do negativo em Freud e Green: contribuições ao estudo dos casos-limite”
Terezinha de Camargo Viana e Márcia Portela destacam as contribuições téoricas de
Freud e Green sobre a concepção de negativo na psicanálise para a compreensão do
funcionamento psíquico dos casos-limite descritos na atualidade. As autoras partem
da noção do “não” simbólico para Freud e de sua importância para a constituição do
pensamento, alcançando a noção de “trabalho do negativo” em Green.
Na esteira das reflexões do impacto da atualidade nas novas patologias atuais,
encontra-se o artigo de Zeferino Rocha, intitulado “Violência contemporânea, novas formas de subjetivação e sofrimento psíquico – desafios clínicos”, uma instigante
investigação sobre os modos como a violência contemporânea vem condicionando
novas formas de subjetivação, que se desdobram em novas formas de adoecimento
psíquico, representando grandes desafios para a clínica psicanalítica da atualidade.
A questão da interpretação e seu lugar na psicanálise hoje é o tema do trabalho
de Roberto Grana “O declínio da interpretação e a contemporaneidade da psicanálise”. Nele o autor procede a uma crítica da interpretação tradutiva, que entende de
natureza doutrinária e alienante, para defender o minimalismo da intervenção analítica como característica da contemporaneidade da análise.
Maria Cecília Pereira da Silva, em seu trabalho “Embalando o sono – contendo as transferências das relações iniciais pais-bebês”, parte de três situações clínicas
para destacar a função da continência e a função de rêverie do analista na criação de
novas redes de sentido na relação pais-bebês, e maneira a favorecer o desenvolvimento dos vínculos iniciais e o exercício da parentalidade.
Pericles Pinheiro Machado Jr., em seu artigo “Expressões do reconhecimento
e da sujeição na experiência intersubjetiva” destaca um aspecto dos relacionamentos
sociais que tem sido objeto de reflexão de diversos pesquisadores do campo psicanalítico: o reconhecimento do Outro como semelhante e diferente, portador de uma
alteridade que ao mesmo tempo revela a estreita proximidade e a larga distância
existente entre duas pessoas, estabelecendo para tanto, um contraponto com o pensamento de Foucault sobre relações de poder e sujeição, e a teoria de Winnicott sobre
holding e dependência. Nele o reconhecimento da alteridade é discutido como uma
modalidade de experiência intersubjetiva mediada pelo respeito às diferenças e aos
limites do espaço psíquico em que se afirma a singularidade radical do Outro.
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Maria Nilza Mendes Campos
Trazemos, ainda, a tradução do artigo “As grandes controvérsias e o après-coup”, de Rosine Jozef Perelberg. Nele a autora, ao melhor estilo de Green, resgata
da psicanálise francesa o conceito de après-coup, propondo uma distinção entre o
que é conhecido de forma descritiva como après-coup e o que pode ser identificado
como après-coup no plano dinâmico. A autora salienta o uso do conceito na literatura
francesa, propondo a ideia de que o après-coup dinâmico encontra-se no cerne da
metapsicologia freudiana.
Encerro minha participação como editora agradecendo à Sociedade de
Psicanálise de Brasília pela confiança em mim depositada, aos autores e leitores que
prestigiaram a Revista Alter ao longo desses dois anos. Também gostaria de expressar
minha satisfação de ter contado com um conselho editorial dedicado e rigoroso, que
pode se constituir como um verdadeiro grupo de trabalho baseado na troca de ideias
e experiências. Agradeço, ainda, ao corpo de consultores que pode ser colaborador e
ao mesmo tempo competente. Meu especial agradecimento à nossa coeditora, Maria
Luiza Gastal, que ao meu lado, ajudou a percorrer esse novo desafio, de maneira a
que não perdêssemos de vista a dimensão do trabalho e do divertimento que toda
experiência criativa impõe.
Desejo sucesso à nova editoria e uma boa leitura a todos.
Maria Nilza Mendes Campos
Editora
ARTIGOS
ALTER – Revista de Estudos Psicanalíticos, v. 30 (2) 9-18, 2012
Uma conferência borderline1
André Green
Resumo
Em sua estadia em Brasília, no segundo semestre de 1976, o Dr. André Green, da Sociedade
Psicanalítica de Paris, pronunciou uma conferência sobre o borderline no auditório da escola
de Enfermagem do Distrito Federal, para um público de psiquiatras, psicólogos e psicanalistas.
Baseou sua palestra em um artigo que havia concluído recentemente sobre o tema dos “estados
limites” (borderline). O texto da conferência em inglês foi traduzido e adaptado para o português
por Jansy Berndt de Souza Mello, com a autorização do conferencista.
Espero que eu possa colaborar na construção de novas fronteiras entre a antiga cidade de onde venho e esta cidade nova. Quando coloquei minha cadeira fora do
palco, desloquei uma fronteira habitual, que era ali em cima e a rebaixei para o local
onde agora me encontro. Mesmo assim, a fronteira entre vocês e eu ainda nos distancia, principalmente devido aos lugares vazios e à distribuição irregular das pessoas
neste auditório. Pergunto-me qual seria o melhor modo para estabelecer um contato
com estes grupinhos esparsos de pessoas. Um problema semelhante observamos nos
casos borderline: tentamos entrar em contato com eles sem saber se nos estamos
dirigindo a uma parte da personalidade que nos pode responder ou se falamos para
partes vazias.
Nosso problema com os casos borderline é que, de fato, tal designação se refere
apenas a descrições clínicas sem que haja um conceito subjacente que permita compreendermos melhor o que é um borderline. Na literatura encontramos descrições
clínicas mais ou menos relevantes e os diferentes autores concordam, ainda mais ou
menos, sobre estas descrições clínicas. É só isso que temos. Além do mais, se considerarmos a literatura escrita pelos psicanalistas, desde Freud até a época atual, mesmo
quando estes autores concordam sobre os traços clínicos, as linhas de abordagem
diferem bastante entre si. Encontramos três tipos de contribuições da Psicanálise: a
freudiana, a kleiniana e a winnicottiana.
Minha principal dificuldade ao iniciar a redação do artigo que originou a
presente conferência foi tentar clarificar os elementos polimorfos que são uma das
principais características dos casos borderline. Quero dizer com isso que o polimorfismo é específico para tais casos. Consequentemente, tentei ir além de qualquer
abordagem fenomenológica para extrair do delimitado como borderline algo como
1 Artigo publicado originalmente em 1977 na revista Alter – Jornal de Estudos Psicodinâmicos, VII
(1).
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André Green
um conceito. Não vou incomodá-los agora com uma análise das principais contribuições da literatura psicanalítica, seja seguindo a diretriz freudiana (como em Otto
Kernberg, New York ou Jean Bergeré, Paris) ou a dos trabalhos de Klein e Bion. Não
vou também deter-me detalhadamente no enfoque de Winnicott, Marion Milner e
Masud Kahn. Se lhes dou estes nomes é para ajudá-los a descobrir esses autores e a
lerem seus artigos.
Em “Na perda da realidade das neuroses e as psicoses”, Freud (1924), propôs
uma diferença entre as neuroses e as psicoses. Ele afirmou que nas neuroses não se
desautoriza a realidade, apenas se a ignora, ao passo que nas psicoses esta realidade é
desautorizada e tenta-se substituí-la. Disse ainda esse autor que nas psicoses a transformação da realidade é executada sobre os precipitados psíquicos das relações anteriores a ela existentes, isto é, sobre os traços de memória, ideias e julgamentos que
tinham sido previamente derivados da realidade e através dos quais a realidade estava representada na mente. Essa citação nos mostra que não é suficiente considerar
o problema da psicose em termos de fantasias, conteúdos (quaisquer que sejam seus
elementos apavorantes), mas que devemos levar em conta o que Freud denomina
de traços de memória, ideias e julgamentos que haviam sido previamente derivados
da realidade e através dos quais a realidade poderia ser representada na mente. Em
outras palavras, a repressão da realidade que ocorre na psicose (uma concepção em si
difícil de ser entendida), não pode ser apenas considerada a partir da parte delirante
da personalidade, em termos de fantasias e de conteúdos, mas daquilo que acontece
com a representação da realidade na mente, nas ideais e julgamentos. Nesse mesmo artigo, Freud avalia, também, uma forma de se construir uma nova realidade na
mente, comparando o delírio às fantasias do neurótico (mas nas neuroses a fantasia
é algo que substitui algo análogo ao jogo das crianças). Nas neuroses há ligação a um
pedaço da realidade que é substituído por aquelas partes das quais o neurótico quer
defender-se por certo tipo de ação ou certo tipo de processo, classificado como simbólico por Freud. O mesmo não acontece com o psicótico, pois não se trata de simples ligação a uma parte da realidade externa que é trocada por alguma outra coisa.
Aqui nos defrontamos com o problema da perda de realidade e suas consequências
para a estrutura psíquica no que tange às ideias e julgamentos.
Uma das características mais surpreendentes dos casos de borderline está no
fato de que estes aparentemente funcionam segundo um sistema duplo, parece que
eles têm um espécie de dupla inscrição das experiências: numa se levam em conta a
realidade e o princípio da realidade, na outra não, é completamente delirante. Tanto
uma como a outra se apresentam conjuntamente, uma não se aproveita da outra
ou predomina sobre ela. Se o princípio da realidade fosse o predominante a parte
delirante da personalidade seria apenas uma parte fantástica, ao passo que se a parte
Borderline – uma conferência
delirante dominasse não estaríamos diante de um borderline, mas de um psicótico.
Os dois sistemas coexistem e caminham lado a lado na personalidade do borderline.
Para expor meu principal ponto de vista agora, preciso referir-me a outro artigo de Freud, “Sobre a negação” (1925), porque ali surge a questão do limite (border).
Neste artigo, Freud escreve que uma divisão primária é aquela entre o dentro e o fora
– aquilo que a criança quer trazer para dentro de si, introjetar, incorporar, aquilo que
é bom. Tudo que fica fora é identificado com o mau, com o que deve ser expelido e
que é estranho a ela. Isto foi denominado por Freud, a partir de sua própria tradição
filosófica, de “julgamento de atribuição”. Após este primeiro estágio, o julgamento
de atribuição é seguido pelo “julgamento de existência”. Freud inverteu a ordem
dos dois eventos (na lógica tradicional o julgamento de existência precede o de atribuição). No julgamento de existência não se tem que decidir o que é bom ou mau,
mas se existe ou não existe. Algo tem que ser qualificado pelo fato de existir ou não
independentemente de suas qualidades como bom ou mau. Nesse primeiro sistema
temos o que é prazeroso ou desprazeroso. Agora surge-nos outra distinção, entre
aquilo que pertence à realidade externa ou à realidade psíquica, ou seja, a distinção
entre o que é prazer e desprazer por um lado e o que é real de outro. Até o momento
só havia uma divisão vertical do tipo apresentado no esquema a seguir:
Depois de estabelecido este limite, outro border entra em ação. É o limite da
repressão. No limite da repressão, no nível do consciente, o que é desprazeroso no
nível consciente corresponde ao que é prazeroso no nível inconsciente. Há assim
uma inversão. O problema não está mais em dividir o que existe ou não existe, que
já foi conseguido, mas o que pode ser aceitável pelo consciente e não pode ser aceitável pelo inconsciente, no nível da realidade psíquica. Como consequência, há uma
inversão daquilo que é desprazeroso à consciência e que é prazeroso no nível do
inconsciente.
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André Green
No nível da realidade externa temos o uso do “sim” e do “não”. Portanto, se
aqui (1) tudo é sim, ali (2) tudo é não. Aqui (3), para obedecer ao julgamento de
existência, temos sim/ou/não no nível consciente, seja isto dentro ou fora, mas no
inconsciente (5) temos apenas o sim, como se o inconsciente fosse o modo de descobrir o funcionamento primário onde apenas funcionasse o princípio do prazer/
dor e onde o único problema seria o do julgamento de atribuição e não o julgamento
de existência. O funcionamento primário que fora abandonado para obedecer-se ao
princípio da realidade continua presente no inconsciente. Qual é o ponto central
desta questão?
Um dos pontos básicos é que, seguindo esta distinção, encontramos dois tipos
de objetos: o objeto fantasiado e o objeto externo (ou o objeto real). Claro, sabemos
que através da projeção o objeto fantasiado pode invadir o objeto externo (real), mas
nesse caso teríamos objetos internos fantasiados e objetos externos que estão separados pelo limite (border), um duplo limite, entre o dentro e o fora, o limite entre o
consciente e o inconsciente.
Na história da psicanálise surgiram muitas discussões sobre o papel desempenhado por estes objetos internos fantasiados. Algumas pessoas acreditam, por
exemplo, que a escola kleiniana coloca excessiva ênfase no papel desempenhado pelo
objeto interno fantasiado em detrimento ao objeto externo, A escola kleiniana diz
o contrário sobre as outras escolas, que estas enfatizam excessivamente os objetos
externos ou reais sem dar a devida ênfase ao objeto interno fantasiado. Esta é uma
discussão entre surdos-mudos.
Uma ideia nova, dentro desta teoria, foi apresentada por Winnicott com a descrição de determinado tipo de objeto. A importância deste objeto transicional é a de
que não há dúvidas sobre ele, sua existência ou não-existência, se é real ou não-real.
Diz Winnicott, a respeito do objeto transicional: “o objeto é e não é o seio”. Com
isso ele descreveu um novo tipo de objeto com um status paradoxal, o qual existe
e não existe sob o ângulo do julgamento de existência e que é uma mistura entre o
sim e o não. Essa é uma questão que não é para ser resolvida. Esta manhã, quando
vinha de São Paulo para cá, fiquei detido no aeroporto. Enquanto aguardava o avião,
observei um bebê de vinte a vinte e quatro meses de idade que estava muito nervoso,
gritando e chorando. A mãe, que estava presente, comportava-se de forma variada e
estranha. Ela cuidava da criança, colocava-a no colo, mas permanecia distante e fria,
talvez porque estivesse embaraçada com a barulheira do bebê. Mesmo com a criança
no colo, a mãe não se voltava para ela ou tentava dizer-lhe coisas, ela não abraçava o
bebê nem conseguia acalmar a criança. Em determinado momento a criança pegou
sua boneca, abraçou-a e parou de chorar. A criança estava mostrando à mãe o que
esta deveria fazer para acalmá-la, se queria vê-la em silêncio. A única forma de consegui-lo foi pelo uso do objeto transicional: claro que a criança sabia que a boneca era
Borderline – uma conferência
uma boneca, que não era uma criança de verdade. Mas a boneca era e não era uma
criança de verdade. A boneca era ela, a criança, e ela era a mãe. Este é um exemplo
daquilo sobre o que me estou referindo quando cito Winnicott, descrevendo um tipo
de objeto que é sim e não ao mesmo tempo, que existe e não existe. E o que acontece
com o paciente borderline? Com ele acontece exatamente o oposto.
Para o paciente borderline, o objeto não está nos termos de sim, ele não quer
introjetá-lo; o objeto não está em termos de não, ele não quer rejeitá-lo (re-jetá-lo)
ou seja, não projetá-lo, ele não afirma que o objeto não existe e ele não tem certeza se
o objeto existe. Ele também não diz que o objeto existe e não existe. Sua resposta não
é sim e/ou não. Sua resposta é nem sim nem não (neither yes nor no). Através do objeto transicional a criança tem a possibilidade de compensar a frustração de ter que
decidir se algo existe ou não, criando um terceiro tipo de objeto que é sim e não. Só
que o borderline não quer tal forma de compensação. No primeiro caso vimos uma
recusa positiva de escolher, no caso do borderline há uma recusa negativa de escolher. Segundo meu ponto de vista, esta é uma explicação para a dupla escala ou duplo sistema de inscrição que mencionei anteriormente. É por isso que a situação do
paciente borderline é tão difícil, porque nunca se sabe ao analisar tal tipo de paciente
(dando um bom número de interpretações e trabalhando tanto ao ponto de considerar que se conseguiu um progresso razoável), quando de repente surgirá a impressão no analista de que o trabalho está sem nenhum fundamento e que todos os
ganhos e progressos nos quais confiava parecerão terem sido desmanchados muito
rapidamente. Entretanto, por outro lado, quando o analista acredita que o paciente
vai passar por uma fase difícil, com uma verdadeira regressão psicótica, surpreende-se ao notar que o paciente conseguiu recuperar-se também rapidamente. Qualquer
avaliação sobre a evolução do trabalho com borderline é muito difícil.
Indo um pouco além deste ponto, já que não nos sobra tempo suficiente para
nos determos mais neste assunto, gostaria de propor-lhes dois diferentes parâmetros
que nos poderão ajudar a construir um conceito sobre o borderline. Antes de entrar
nisto, precisamos pensar sobre o que, exatamente, é um border (limite, linha de demarcação, fronteira).
Border, fronteira, limite – não é uma palavra muito complicada. No dicionário encontra-se, por exemplo: “linha de demarcação”. Por outro lado, no Dicionário
Oxford aparece algo diferente, uma das definições de borderline é a de alguém à beira
da insanidade.
Sabemos pela experiência que a linha entre a normalidade e a insanidade e a linha entre a neurose e a psicose não é uma linha, mas uma terra-de-ninguém. De que
forma o conceito de fronteira (border) nos pode ajudar? Pensando sobre fronteira
pode-se notar, segundo o pensamento moderno, que há diferentes tipos de fronteiras. Há uma fronteira exatamente em termos de sim e não, como, por exemplo, na
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André Green
membrana osmótica. Há também a intersecção de dois conjuntos, ou o que é chamado em matemática de ensemble aux bordes. É possível haver estranhas fronteiras,
como aquela vista no encontro de duas nuvens, pois só quando ambas se separam é
que se podem ver os limites de cada uma e que elas se tinham superposto.
Agora, ter uma fronteira é uma coisa, ser uma fronteira é outra coisa bastante
diferente. O borderline, todos sabemos, tem limites flutuantes em sua mente. A questão é que não sabemos o que é uma fronteira na mente. Conhecemos as fronteiras
de nosso corpo, os limites de nossa visão e audição, e sabemos que o envelope de
nosso corpo é outro tipo de fronteira. Mas o que pode ser uma fronteira na mente?
Não há resposta para isto. Por outro lado, temos que construir fronteiras hipotéticas
para a atividade psíquica. Para isto podemos usar de nossa experiência com os pacientes, segundo o modelo de uma situação psicanalítica, porque na situação clínica
de análise (sobre a qual ainda não se elaborou o suficiente), impomos fronteiras ao
paciente, primeiramente, no setting ou enquadre analítico; em segundo lugar o divã;
em terceiro lugar o ambiente, que é perceptualmente mais ou menos constante, pois
retiramos objetos da visão do paciente. Há uma fronteira entre o analista e o paciente e através dela tenta-se comunicação com o paciente, para além desta fronteira.
Também fazemos uma restrição da atividade motora do paciente: ele pode mover-se
no divã mas, a não ser que seja um paciente muito psicotizado, restringe sua movimentação ao divã. Observamos durante a transferência e a evolução da transferência
um relacionamento com este tipo de paciente, onde emergem não apenas os desejos,
instintos e derivativos particulares dele, como também o funcionamento mental. Isto
é da maior importância se lembrarmos da citação de Freud a respeito das ideias e
julgamento que foram derivados de sua relação com a realidade e as quais, através
de cada paciente na situação analítica, aparecem sob novos ângulos, já que a visão da
realidade deles está restrita à sala do consultório.
Pretendo agora tentar definir-lhes alguns dos limites, fronteiras, da atividade
psíquica e que constituem as fronteiras do psíquico. Definirei, em primeiro lugar,
dois parâmetros, que são de natureza não-psíquica. Estes dois parâmetros são: a exclusão para dentro da esfera somática e a expulsão através da ação. Esses dois parâmetros nos lembram algo familiar: quando me refiro à exclusão para dentro da esfera
somática preciso lembrar-me de que a psicanálise teve seu início com a histeria de
conversão e que existe uma diferença considerável entre a histeria de conversão, um
sintoma conversivo, e aquilo que chamo de exclusão para dentro da esfera somática.
Quando se analisa um sintoma conversivo, pode-se compreender como a atividade
simbólica de natureza psíquica pode ser transportada para dentro da esfera somática
de forma simbólica. Quando se tem um sintoma psicossomático verdadeiro ele não
é de natureza simbólica, mas é uma eliminação e uma evacuação do simbolismo.
Não diria que o sintoma psicossomático é verdadeiramente sem sentido, mas diria
Borderline – uma conferência
que o valor simbólico deste sintoma para a atividade psíquica está no nível mínimo.
Há uma transformação extraordinária da libido, que é uma linguagem do corpo em
termos de desejos, de “eu quero isto e recuso aquilo”, mas com os sintomas psicossomáticos o sentido foi expulso para fora. Mesmo se o analista encontra um significado, para o paciente não existe nenhum. Isto quer dizer que se há um sentido, um
significado, o sintoma não tem nenhum valor funcional para a atividade psíquica do
paciente. Passemos agora para a outra fronteira: expulsão através ação. Aqui também podemos lembrar-nos de que no começo da psicanálise, Freud descreveu as
parapraxias e que estas eram chamadas de “atos sintomáticos”, já que tais atos, antes
considerados como sem significado, foram demonstrados por Freud como tendo
um sentido oculto. Sentido disfarçado e inconsciente. No tipo de conduta que aqui
descrevo, e que ordinariamente chamamos de atuação (acting-out) encontramos o
mesmo problema como aquele sobre o qual vínhamos falando como sendo exclusão
para o somático. O paciente precipita-se ao acting-out como se ele antecipasse um
perigo. O paradoxo reside no fato de que, para evitar o perigo, o paciente acaba
colocando-se numa situação das mais perigosas. Aqui, novamente, a atuação pode
vir a ter um sentido, mais para o analista. Para o paciente é uma simples descarga,
uma evacuação de alguma coisa para poupar-se o trabalho de elaboração. Como nos
dois casos anteriores, o paciente cega-se aos dois fins do instinto (a fonte e a meta).
Nos dois casos, portanto, o conhecimento do trabalho mental provém de uma fonte
somática, o desejo. A transformação do desejo em uma ação com um objetivo específico com um objeto específico inexiste; em qualquer dos dois casos o processo que se
deriva de uma fonte somática é transformado em desejo com certo objetivo e o objeto fica decapitado. Resta apenas algo relativo a um processo que vai além da repressão (para o corpo ou para o mundo externo). Algumas vezes encontramos o uso de
um destes recursos, de outra vez o uso de ambos, tudo para evitar o funcionamento
mental. Estes são os dois limites da atividade mental – corpo e ação – que denomino
de “parâmetros não psíquicos”. Agora pretendo considerar o que está contido dentro
destes dois limites. Definirei dois outros parâmetros que são, para mim, mecanismos
básicos que buscam explicar o tipo de funcionamento mental relacionado ao tema
considerado hoje. O primeiro é a cisão ou splitting, porque o splitting é uma ação
básica que visa introduzir um mínimo de ordem em um universo caótico, numa experiência caótica. Qualquer tipo de limite introduz um começo de sentido em uma
situação. Isto que descrevi no quadro negro (o que está reproduzido no esquema
apresentado no início deste artigo) é uma forma de limite entre o que está dentro e
o que está fora; bom e mau; sim e não; mundo externo e interno. O excluído tende a
reaparecer na estrutura que conseguiu excluir a outra. Por exemplo, nesta primeira
divisão entre bom e mau, prazeroso e desprazeroso, o desprazer que estava no primeiro modo de funcionamento volta a aparecer e surge nova divisão entre o que é
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André Green
mental e o que é real. Esse é o princípio geral de funcionamento se há o desejo de se
sair do caos. Em primeiro lugar propõe-se um limite qualquer: seja ele, vocês, eu ou
qualquer outro tipo de limite. Mas no segundo caso, se coloquei vocês como exteriores a mim, tenho que tomá-los para dentro de mim novamente, se desejo manter-me
em contato com vocês. Não posso começar a citar poemas, por exemplo, pois todos
me considerariam um louco. Tenho que seguir uma ordem, porque acredito que
vocês me estejam acompanhando no que lhes exponho. Entretanto, com o paciente
borderline os elementos cindidos, splitados, que retornam na atividade mental são
considerados, antes de tudo, como perigosos, o que já conhecemos pela psicopatologia. A questão principal é que a cisão é radical e o paciente não vê nenhuma conexão
entre os eventos. Na verdade, todas as outras defesas descritas pela escola kleiniana
(identificação projetiva, projeção, onipotência, negação etc) são uma consequência
da cisão. Assim é que para mim, splitting, a cisão é o mecanismo básico que nos dá
uma notícia sobre este tipo de personalidade que nos impressiona como sendo uma
espécie de arquipélago, uma conjunção de núcleos sem ligação entre si. Mas há uma
diferença entre um arquipélago e o que aqui descrevo. No arquipélago as coisas importantes são as linhas, no caso aqui estudado seria o mar. Não o mar, mas a questão
do vazio entre os núcleos.
Passarei a descrever agora o segundo parâmetro de natureza psíquica. Depois
de ter descrito a cisão, splitting, passarei ao segundo, que é mais difícil de compreender. Chamo-o de depressão. O termo depressão, como o emprego, não tem nenhuma
relação com o estado afetivo de depressão. O uso que faço é o do vocabulário da
meteorologia: o tipo de depressão experimentada quando, por exemplo, se está no
avião e há uma queda de vácuo. O que se dá na mente do paciente com este tipo de
depressão é o que chamo de decatexia radical, ou seja, um des-investimento, como
se uma bomba de sucção criasse um vácuo imediato e artificial. Na repressão algo é
mantido para baixo, afastado, e isto serve para proteger o que está sendo reprimido
(além de que o que está sob a atividade da repressão continua submetido ao trabalho
mental e a transformações, como, por exemplo, dando origem a um sonho). Aqui,
refiro-me aos estados de vazio. Acredito que estes pacientes experimentem tal tipo
de característica observável na clínica. Algumas vezes o psiquiatra, psicólogo ou psicanalista ficam muito impressionados com a parte perturbada do paciente (diria, a
parte agitada e confusa dele) mas é fácil tentar olhar o que está sob esta atividade
do paciente, aquilo que em psicanálise se escreve como “briga com o mau objeto”,
agressão etc. Dentro de meu ponto de vista esses mecanismos são secundários, são as
derradeiras tentativas do paciente para se manter em contato com seu mundo mental (apesar de terrificante) como se uma relação com um mau objeto fosse melhor do
que nenhuma relação ou uma relação com objetos mortos. Se ouvirmos atentamente
a este tipo de pacientes, ouviremos queixas sobre estes estados de vazio e vácuo.
Borderline – uma conferência
Algumas vezes aparecem de forma mínima, como quando dizem que não conseguem concentrar-se nos estudos, ou pensar, ou não conseguem representar coisas
vividamente. É quase como se tivessem um buraco na cabeça. Estes são os menores
traços que encontramos, o que seria o equivalente de uma alucinação negativa afetiva do self, um sentimento de inexistência, uma sensação de que o mundo não tem
colorido. O elemento importante está na relação entre a depressão verdadeira (no
sentido normal), pois tais pacientes temem a depressão normal como se ao estarem
deprimidos, recolhidos neste tipo primário de depressão, uma ameaça a eles surgisse,
porque se não há sofrimento não há sensação de estar vivo.
Terminarei agora com os quatro parâmetros: os não psíquicos (exclusão para
o somático e exclusão através da ação) e os parâmetros mentais (splitting e depressão). O borderline não pode escolher o que é o que, falso ou verdadeiro, existente
ou não-existente e sua resposta é nem sim nem não. Estes pacientes se caracterizam
não apenas pelo fato de serem psicóticos em potencial (ou seja, mais doentes que os
neuróticos). Também se caracterizam pela sua incapacidade de ficarem psicóticos e
algumas vezes chegamos a desejar que ficassem verdadeiramente psicóticos porque
nesse caso poderíamos chegar até o mundo psicótico e eliminar esta situação de nem
sim e nem não. Estas pessoas, que nos parecem não estar verdadeiramente vivas,
parecem-se bastante com as pessoas normais, desempenham suas funções muito eficientemente, têm família, vão a coquetéis, trabalham em seu emprego, tudo isso no
nível do sistema onde acolhem a realidade. Já no divã emergem novos dados. Surge
a “loucura particular”. Se a psicanálise se iniciou com a noção do teatro particular
do histérico, agora precisa lidar com estes pacientes submetidos à sua loucura particular.
Tentei, como puderam ver, ir além da fenomenologia, de fornecer um catálogo de sintomas ou uma interpretação dos conteúdos da atividade da fantasia. Tentei
propor-lhes uma estrutura que possa ajudar a compreender o borderline, um modelo
conceitual sobre a melhor forma de compreendê-los em sua relação conosco.
Borderline – una conferencia
En su estadía en Brasília, en el segundo semestre de 1976, el Dr. André Green, de la Sociedad
Psicoanalítica de Paris, pronunció una conferencia sobre el borderline en el auditorio de
la Escuela de Enfermeros del Distrito Federal, para un público de psiquiatras, psicólogos e
psicoanalistas. Baso su palestra en artículo que había recientemente concluido sobre el tema de
los “estados limites” (borderline). El texto de la conferencia en inglés fue traducido y adaptado
para el portugués por Jansy Berndt de Souza Mello, con la autorización del conferencista.
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André Green
Borderline – a conference
Abstract: During his visit to Brasília in the second semester of 1976 Dr. André Green, Director
of the Institute of Psychoanalysis of the Paris Psychoanalytical Society held a conference about
the borderline, at the Escola de Enfermagem do Distrito Federal, for a public of psychologists,
psychiatrists, and psychoanalysts. His conference was based on an article that was recently
completed on the theme borderline. The present text was translated from the English by Jansy
Berndt de Souza Mello with the permission of the lecturer Dr. Green, although the text in
Portuguese was not revised by him.
© ALTER – Revista de Estudos Psicanalíticos
ALTER – Revista de Estudos Psicanalíticos, v. 30 (2) 19-30, 201219
O trauma em André Green
Claudia Amorim Garcia1
Resumo
O trabalho apresenta a concepção de trauma em Andre Green mostrando a centralidade da
relação com o objeto primário do desencadear de situações traumáticas. Os conceitos greenianos
de objeto trauma, complexo da mãe morta e trabalho do negativo são utilizados na construção
do argumento central que aponta para os entraves ao trabalho do luto que caracteriza a clínica
do trauma.
Palavras chave: objeto trauma; complexo da mãe morta; trabalho do negativo; luto;
representação.
A conceituação do trauma enquanto categoria psicanalítica deu-se através de
um longo trajeto que continua em curso, tendo se iniciado nos primórdios da psicanálise. Assim, já no texto sobre a etiologia da histeria, Freud (1896/1969c) reverencia
a contribuição de Breuer cuja hipótese de que os sintomas histéricos decorriam de
experiências traumáticas, posteriormente reproduzidas como símbolos mnêmicos,
atesta, inegavelmente, o caráter inaugural da então noção de trauma, que veio a se
consolidar como um conceito nodal da teoria psicanalítica de relevância incontestável nos tempos atuais. Sem menosprezar a árdua e complexa construção do conceito
de trauma no texto freudiano – e lembrando, sempre, o caráter emblemático dos
trabalhos de 1920 e 1926 neste processo – retomo algumas de suas últimas contribuições sobre esta questão que constam de “Moisés e o monoteísmo” (Freud, 1938) que
vem sendo objeto de prolíferas discussões no âmbito da psicanálise contemporânea,
e mais especificamente, temática central de pesquisa de André Green.
É na Parte C de “Moisés e o monoteísmo” que, fazendo uma analogia entre
a religião monoteísta e a neurose Freud postula que ambas apresentam uma origem traumática. O que seria traumático? pergunta. Retoma, então, sua tese já então familiar que considerava a serie complementar como requisito essencial para
qualquer situação de caráter etiológico. No contexto desta discussão, a articulação
entre o elemento quantitativo, representado pela fixação e frustração da libido enquanto fator disposicional (Freud, 1916/1969b), e os acontecimentos da primeira
infância é indiscutivelmente remarcada. As neuroses teriam sua origem nos traumas
etiológicos resultantes, não apenas de experiências precoces, esquecidas e ligadas a
1 Professora associada do Departamento de Psicologia da puc-Rio. Docente pesquisadora do
Programa de Pós Graduação em Psicologia Clínica da puc-Rio. Psicanalista do Círculo Psicanalítico
do Rio de Janeiro.
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Claudia Amorim Garcia
impressões de conteúdo sexual-agressivo, mas também do que então foi denominado de “danos precoces ao ego (mortificações narcísicas)” (Freud, 1938/1969e, p 93).
Esta conjunção entre o disposicional, enquanto pulsional, e o circunstancial, relativo
à relação com o objeto é definitivamente explicitada em Análise terminável e interminável (1937/1969) marcando a posição final de Freud sobre esta questão.
A etiologia de todo distúrbio neurótico é, afinal de contas, uma etiologia mista.
Trata-se de uma questão de os instintos serem excessivamente fortes – o que
equivale a dizer, recalcitrantes ao amansamento por parte do ego – ou de os
efeitos de traumas precoces (isto é, prematuros) que o ego imaturo foi incapaz
de dominar. Via de regra há uma combinação de ambos os fatores, o constitucional e o acidental. (Freud, 1937, 251)
Voltando a “Moisés”, chamam a atenção as referências constantes, mas pouco explícitas, ao caráter não representacional das situações traumáticas decorrente
do excesso pulsional a elas vinculado. Assim, experiências infantis muito primitivas
“escaparam de serem lidadas normalmente” e se tornaram traumáticas em função
do fator quantitativo, isto é, pelo “excesso de exigência” que teria resultado em reações patológicas fora do comum (Freud, 1938, p. 91) que levam a um esquecimento
radical. Nestes casos os eventos “esquecidos” assim devem permanecer, sendo então
substituídos por sintomas neuróticos, restrições do ego e modificações estáveis do
caráter (p. 95) Há traumas, no entanto, que podem apresentar efeitos positivos –
quando possibilitam a repetição da experiência traumática, decorrente da compulsão à repetição e da fixação (p. 94) – que consistiriam na melhor indicação à psicanálise (Freud, 1937). Este prognóstico positivo associado às etiologias traumáticas, na
realidade, vem sendo constantemente posto à prova pela psicanálise contemporânea,
com resultados nem sempre tão otimistas, às voltas com a problemática dos traumatismos precoces, tema pouco trabalhado no texto freudiano sobre o qual, no entanto,
já encontramos indícios em Moisés.
Um último ponto, ainda no trabalho de 1938 relevante para as discussões
atuais sobre o trauma, é explicitado na afirmativa de que as situações traumáticas
exibem uma grande intensidade psíquica e se dão independentemente de outros processos psíquicos, fora do teste da realidade.
São, poder-se-ia dizer, um Estado dentro de um Estado, um partido
inacessível, com o qual a cooperação é impossível, mas que pode alcançar êxito em dominar o que é conhecido como partido normal e forçá-lo a seu serviço. (Freud, 1938, p. 95)
O trauma em André Green
O traumático lembraria, então, um “Estado dentro de um Estado”, expressão
amplamente utilizada pela literatura pós freudiana justamente para assinalar o caráter clivado e não representacional das experiências traumáticas, objeto central de
interesse na clinica das patologias narcísicas contemporânea.
Mortificações narcísicas na origem, um Estado dentro do Estado enquanto
experiências não assimiladas, enquistadas no espaço psíquico e a articulação inquestionável entre pulsão e objeto, como parece aludir a menção à série complementar,
são algumas das questões que vem sendo amplamente discutidas, na sua articulação
com a temática do trauma, pela psicanálise contemporânea. André Green, especificamente delas se apropriou, retomando e ampliando seu escopo ao longo de, pelo
menos, 20 anos, no contexto de suas discussões sobre a patologia limítrofe.
De fato, a maior ou menor importância concedida à pulsão ou ao objeto no
desencadeamento de uma situação traumática tem sido tema de inúmeras controvérsias psicanalíticas. A concepção clássica freudiana é comumente considerada
como representante da vertente que privilegia a pulsão e os determinantes intrapsíquicos, em detrimento do papel atribuído ao objeto, tema central de pesquisa dos
teóricos das relações de objeto. A contribuição ferencziana, de relevância inquestionável e duradoura, desempenha papel predominante neste debate já que, para
muitos, Ferenczi retoma a posição inicial de Freud se reapropriando, à sua maneira,
da teoria da sedução, com o privilegio que concedia ao evento externo traumático,
sem abrir mão da dinâmica pulsional. Este debate se intensificou com os trabalhos
de Winnicott, que em muitos aspectos trazem a marca ferencziana, e apontam para
a função estruturante do ambiente na constituição psíquica, sem, no entanto, discutir a incidência do pulsional. De um lado aqueles que defendem a centralidade
da pulsão e do outro os partidários de uma posição em que os fatores ambientais e
a relação com o objeto são determinantes. A discussão fica, muitas vezes polarizada
entre os defensores de uma pretensa posição intrapsíquica, herdeiros próximos do
texto freudiano, e aqueles que privilegiariam uma posição supostamente intersubjetiva. O caráter estéril e pouco instigante do debate resulta, a meu ver, de uma leitura
reducionista e, muitas vezes, equivocada de ambos os lados, o que não faz jus ao legado freudiano. Recorro, então, a André Green que me parece representar exemplarmente uma posição dialética neste campo de controvérsias, em oposição ao caráter
muitas vezes dicotômico das discussões. Trabalhando principalmente em torno das
questões do narcisismo, campo central da problemática do trauma, Green privilegia
questões cruciais deixadas em aberto por Freud como o prejuízo representacional e
a impossibilidade do luto que resultam de situações traumáticas. Inicio, então, com
duas citações suas, emblemáticas de sua forma de pensar as questões psíquicas, e que
norteiam sua maneira de discutir o conceito de trauma. A primeira delas, de caráter
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Claudia Amorim Garcia
mais geral, consta das Conferências Brasileiras, de 1986, e de certa forma responde à
pseudo dicotomia pulsão/objeto.
na verdade, não se tem de escolher entre a teoria da pulsão e a teoria do objeto, mas sim de compreender que o objeto é o revelador da pulsão. O que nos
permite não ter que fazer uma escolha estúpida entre uma espécie de teoria
biologizante, pelo inatismo, e uma teoria dita do meio, que levasse em conta o
objeto, ao contrário, que uma revela a outra. (Green, 1990, p 72)
Esta postulação é inúmeras vezes retomada e ampliada ao longo do texto
greeniano. A hipótese de que a constituição psíquica se dá a partir de duas polaridades
independentes e interligadas, a linha objetal e a linha subjetal representa uma dessas
reafirmativas recorrentes que é levada às últimas consequências na sua discussão
sobre as situações traumáticas primitivas (Green, 2002).
A linha subjetal, herdeira direta do texto freudiano, tem como eixo central a
pulsão como matriz dos elementos que a compõem, e é constituída por uma gama de
estados psíquicos que incluem o eu freudiano e seus satélites como o self de Hartman
e Winnicott, o je (eu) de Aulagnier e também o sujeito lacaniano (Green, 2002, 156).
Cada caso clínico em questão requer o recurso a um estado específico. Neste sentido,
enquanto os casos limites colocam em relevo a noção de eu – seus limites, defesas,
investimentos, fragilidade narcísica – a neurose remete imediatamente à noção de
sujeito, pela intensidade de seus conflitos pulsionais e complexidade simbólica de
suas manifestações sintomáticas. A linha objetal, por outro lado, presente em Freud
e desenvolvida extensamente pela produção psicanalítica pós freudiana, se caracteriza pela multiplicidade de seus elementos que, por sua vez, apontam para diferentes
tradições teóricas: objeto fantasmático, objeto real, objeto do isso, objeto narcísico e,
sobretudo, objeto da transferência. Numa tentativa de apresentar o que designa de
fisiologia do objeto, Green (2002, p. 161) discrimina doze funções objetais principais
algumas das quais são fundamentais para o entendimento do trauma.
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a função do enquadramento, que permite e estimula a vida pulsional;
a função de ilusão que garante o caráter único e insubstituível de um investimento;
a função de satisfação, sempre provisória e parcial, que contribui na integração das pulsões destrutivas;
a função de substituição, que possibilita a criação dos objetos substitutos.
De uma forma geral, as funções do objeto podem ser resumidas em duas grandes forças – de atração e imantação – que, inevitavelmente atestam a articulação
O trauma em André Green
inequívoca entre pulsão e objeto, exemplarmente demonstrada pelo processo de
subjetivação que se dá a partir de sucessivos movimentos de apropriação subjetiva,
mais ou menos bem sucedidos.
A segunda citação, igualmente emblemática da posição de Green e encontrada
no Anexo Seminário trabalho do negativo, de 1988, aponta para a exigência da ação
negativizante sobre a pulsão no seu caráter de desmesura trazendo à tona, portanto,
a questão do excesso pulsional, o que nos remete ao tema do trauma em psicanálise.
A psicanálise encontra o negativo no fundamento de sua existência, porque sua
teoria repousa em uma positividade em excesso, aquela devida ao funcionamento pulsional com o qual o sujeito só pode compor negativando-a, ou pelo
jogo dos mecanismos de defesa, tornando a vida pulsional compatível com
as exigências da vida cultural, ela mesma o resultado de uma negação da vida
natural. (Green, [1988]1995, 391)
Então, o excesso pulsional é inevitável e, portanto, constitutivo, resultando
sempre da articulação entre pulsão e objeto, âmago da constituição subjetiva e origem também do trauma.
A articulação entre pulsão/ objeto e o excesso pulsional inevitável, evidenciados nas citações acima, são dois pilares que sustentam a argumentação greeniana na
apresentação do complexo da mãe morta, aqui tomado como o modelo paradigmático do trauma. Antes de mais nada, no entanto, o complexo da mãe morta é, sem
dúvida, um mergulho nas entranhas da dinâmica narcísica, mais especificamente, do
narcisismo negativo, tema de que se ocupou Green principalmente entre as décadas
de 1960 e 1980.
Não apenas o pulsional é sempre desmesura, demasia, que irrompe e traumatiza, mas o objeto também se apresenta, por excelência, enquanto fator traumático
como argumentou Green em Angústia e narcisismo (1979), trabalho contemporâneo
da Mãe morta, de 1980. É inevitável, portanto, o caráter traumático do encontro
entre pulsão e objeto que resulta da coalescência da pulsão com o objeto da qual o
eu se defende através do retraimento narcísico. O perigo traumático reside, tanto na
ameaça de efração pela sexualidade quanto pelo objeto, o que explica a importância
dos limites psíquicos tanto internos, entre as instâncias, quanto externos, entre o
eu e o outro, e remarca, inquestionavelmente, a imbricação pulsão/objeto. É, então,
no bojo da discussão sobre as diferentes modalidades de angústia, próprias das organizações narcísicas, que é lançada a hipótese do objeto-trauma segundo a qual o
objeto é sempre uma ameaça de desequilíbrio para o eu na sua constante tentativa de
preservação da unidade narcísica.
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Claudia Amorim Garcia
Dentro desta ótica, o objeto que está, no entanto, na origem do objetivo da
satisfação do isso é, na verdade, para o eu, de uma certa maneira, sempre causa
de desequilíbrio –, por assim dizer, um trauma. Se é verdade que o eu aspira
à unificação, e que esta unificação interna inclui a unificação com o objeto, a
reunião total com o objeto obriga o eu a perder sua organização.
(Green, [1979]1988, p. 151)
Então, o objeto é fonte de excitação, responsável por tensões libidinais contraditórias e, enquanto parte do mundo externo se mostra inalcançável, aleatório. O
objeto força o eu a modificar sua economia psíquica na medida em que, enquanto
objeto interno fantasmático, investido pela pulsão, ameaça de dentro, e enquanto
objeto externo se mostra imprevisível e fora do controle do eu. Antes de mais nada,
o objeto obriga o eu a trabalhar, abandonando sua quietude narcísica, em busca da
satisfação (Green, 1979).
Amável e detestável, nem fixo nem permanente, o objeto tem seus desejos
e objetivos que não coincidem com os desejos e objetivos do eu. Submetido às vicissitudes do objeto do qual não pode prescindir, o eu desenvolve defesas intensas
dentre as quais o retraimento e a identificação narcísicos ocupam lugar privilegiado
e encenam os dilemas inevitáveis entre a aproximação e o distanciamento do objeto, situação que se apresenta exepcionalmente aguçada nos casos limites. Com estes
pacientes o luto é impossibilitado e substituído por manifestações de um narcisismo negativo desobjetalisante regido pela busca do grau zero de tensão que promete,
quem sabe, finalmente, a libertação da dependência ao objeto.
Em 1980, um ano após Angústia e narcisismo, Green retoma esta discussão,
quando, então, apresenta sua hipótese sobre o complexo da mãe morta, questão que
desenvolve e amplia em trabalhos posteriores nos quais discute a constituição dos
casos limites e a importância do trabalho do negativo no processo de constituição
psíquica em que predominam as situações traumáticas primitivas.
O complexo da mãe morta, entendido como paradigmático de situações traumáticas primitivas, serve também de situação exemplar para a investigação dos problemas ligados ao luto o que atesta sua relevância para a investigação das patologias
narcísicas tão presentes na clínica contemporânea. Partindo da afirmativa de que
o processo de constituição psíquica se inaugura com a perda do objeto primário,
a que se segue o estabelecimento da posição depressiva, e que abre caminho para a
emergência de objetos substitutos, Green (1980) se propõe a discutir como se dão as
relações entre estes dois eventos inaugurais do psiquismo nas patologias limítrofes,
marca registrada de sua origem narcísica.
Lembrando que suas reflexões têm sempre sua fonte principal nas análises que
conduz, Green descreve, então, pacientes que não apresentam sintomas depressivos
O trauma em André Green
evidentes, mas uma problemática de cunho narcísico que afeta dramaticamente sua
vida profissional e sobretudo afetiva. No relato clínico surgem referências esparsas a
um possível episódio de depressão na infância, mas o que aparece em primeiro plano, na análise, são as exigências tirânicas do ideal do eu, às vezes acompanhadas por
injunções superegoicas violentas, que impedem a resolução de situações conflitivas,
prejudicam a capacidade de amar e de se valorizar, ou mesmo se sentir satisfeito com
realizações alcançadas. Uma sexualidade predominantemente autoerótica, através
do prazer sensual puro, com pobreza fantasmática e desprovida de sentimentos de
ternura denunciam o bloqueio da capacidade de amar destes pacientes que também
apresentam uma forte dissociação entre o soma e a psique. Por outro lado, a procura
do sentido perdido, ou nem construído, estimula o aparecimento precoce das capacidades intelectuais e sublimatórias que, por desempenharem uma função essencialmente defensiva, fracassam ao menor conflito ou impasse com que, inevitalmente,
todo sujeito se defronta.
O cenário clínico das análises nas quais se evidencia o complexo da mãe morta apresenta uma feição muito pouco comum no que se refere ao estabelecimento
da transferência. Nelas a neurose de transferência presente na análise das neuroses
clássicas dá lugar à depressão de transferência que contrasta vivamente com o comportamento do paciente fora da análise onde não se evidenciam sinais de depressão.
É através da depressão de transferência que se apresenta, então, a configuração de
um núcleo central depressivo, herdeiro de uma situação de depressão infantil muito
singular.
O que indica esta depressão da transferência é a repetição de uma depressão
infantil da qual creio ser útil descrever as características. Não se trata de uma
depressão por perda real de um objeto, ou seja, não está em questão o problema de uma separação real do objeto que teria abandonado o sujeito. O fato
pode existir, mas não é ele que constitui o complexo da mãe morta. O traço
essencial desta depressão é que ela se dá na presença de um objeto, ele mesmo
absorto num luto. (Green, [1980]1988, p 247)
Então, nestes casos, é a relação com uma mãe absorvida por um luto
interminável, por perda significativa, que afeta a criança. A morte de uma pessoa
querida, uma traição amorosa, falência financeira ou perda de status profissional
assim como um aborto secreto são acontecimentos que frequentemente deslancham
uma depressão materna. Seja qual for a causa em questão, a depressão materna implica numa diminuição de interesse pela criança, isto é, num desinvestimento materno,
inexplicável para a criança que se vê submetida a uma perda repentina e catastrófica,
depois de um período de felicidade inicial na relação com a mãe. Este traumatismo
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Claudia Amorim Garcia
narcísico, fruto de uma enorme decepção, não apenas redunda na sensação de perda
do amor materno, mas também afeta drásticamente a capacidade de compreensão e
atribuição de sentido, da criança.
Tudo teria terminado como nas civilizações desaparecidas das quais os historiadores procuram em vão a causa da morte levantando a hipótese de um abalo
sísmico que teria destruído o palácio, o templo, as edificações e as habitações,
das quais só restam ruínas. Aqui, o desastre limita-se a um núcleo frio que
posteriormente será superado, mas que deixa uma marca indelével nos investimentos eróticos dos sujeitos em questão. (Green, [1980]1988, p. 248)
A percepção da perda do amor materno desencadeia várias reações iniciais de
agitação, insônia, terrores noturnos mas também de alegria artificial como estratégia
para reanimar a mãe e restabelecer a relação com ela. Estas tentativas, se não percebidas e respondidas a tempo (Winnicott, 1971; Roussillon, 1999) acabam resultando
em dois movimentos cruciais: o desinvestimento do objeto materno e a identificação
com a mãe morta.
O desinvestimento do objeto materno se dá sem externalização da agressividade que retorna sobre o eu resultando num “buraco na trama das relações objetais”
(p 249). Caso a criança esteja adentrando o Édipo, agressividade que não pode ser
dirigida para mãe deprimida encontra, também, um bode expiatório na figura do
pai, culpado, então, pela depressão materna. Esta sequência de acontecimentos precipita a triangulação precoce que, no entanto, não se dá a partir da diferença sexual,
mas a partir das qualidades atribuídas ao objeto. É o que Green denomina de bi-triangulação edípica (Green, 1974)
Já a identificação com a mãe morta se apresenta como única forma dela se
aproximar, uma identificação mimética, no modelo canibalístico, o que resulta num
estado de alienação e aprisionamento na identificação primária com um morto vivo.
Já que ter a mãe como objeto de investimento se tornou inviável então ser como a
mãe morta se apresenta como uma saída possível. Posteriormente, situações amorosas futuras provavelmente vão desencadear, através da compulsão à repetição, reações de desinvestimento frente a um objeto percebido sempre como também passível de decepcionar. É possível que este movimento seja percebido no seu caráter
defensivo, mas a identificação com a mãe morte continuará inconsciente, demonstrando dramaticamente as marcas do trauma que persistem e a ameaça constante da
reencarnação da mãe morta em cada novo investimento amoroso ao longo da vida.
De fato, estes pacientes parecem sempre ameaçados do retorno da mãe morta que
dissolve as conquistas sublimatórias conseguidas e se interpõe a cada nova relação
amorosa que promete ser bem sucedida. Green usa a expressão “a mãe morta não
O trauma em André Green
deixa em paz” (p. 255) para se referir a estes sujeitos cativos de um amor congelado,
nas suas palavras, pelo desinvestimento radical do objeto primário que na realidade,
resultou na sua hipoteca à mãe morta.
Esta “loucura privada” (Green, 1990) é dramaticamente encenada em análise
através da oscilação constante entre a angústia de invasão e a angústia de separação
que estes pacientes demonstram na relação transferencial, em detrimento da angústia de castração da qual parecem distanciados. Estes movimentos exemplarmente
demonstram as tentativas no sentido de resgatar e reanimar o objeto materno, dele
se aproximando, e seu oposto, a necessidade de distanciamento e o sentimento de invasão de que se sentem possuídos pela constatação do aprisionamento na identificação alienante de que se tornaram objeto. Na verdade, a síndrome depressiva central
camuflada distintiva destas análises aponta para a angústia branca, que se diferencia
da angústia vermelha, expressão da angústia de castração, assim denominada pela
associação com uma ferida sangrenta (Green, 1979). No complexo da mãe morta,
por outro lado, o que está em jogo é a angústia branca que se dá em torno das perdas:
do seio, do objeto, da aprovação do superego, sempre ligada a ameaças de abandono.
A série branca, da qual a angústia branca faz parte, caracteriza a clínica do vazio ou
a clínica do negativo, na terminologia greeniana, e é constituída por apresentações
sempre pelo negativo, enquanto ausência (luto branco, psicose branca). A série branca se faz representar, na análise, através de sentimentos de vazio, principalmente,
e remete à situação originária de um desinvestimento radical pelo objeto primário
materno, centro da problemática que estes casos apresentam, e que deixa no seu rastro “buracos psíquicos”, preenchidos por intensa agressividade, resultantes do enfraquecimento dos investimentos eróticos. Configura-se, portanto, uma cena psíquica
onde predomina a desintrincação pulsional que libera a função desobjetalizante da
pulsão de morte (Green, 1986).
Voltando ao pressuposto inicial de que a origem do psíquico exige a perda do
objeto primário e sua substituição por objetos substitutos, enquanto representações
investidas pela pulsão, constatamos que o complexo da mãe morta evidencia justamente a situação oposta. No caso destes pacientes, nos quais a separação inicial não
foi possível e, portanto, o luto não se deu de forma satisfatória também se tornou
impeditiva a construção de um espaço psíquico que pudesse abrigar representações
e dar lugar a novos investimentos. Este estado de coisas demonstra, dramaticamente,
o efeito catastrófico das situações traumáticas primitivas, como aquela constituída
pelo complexo da mãe morta, e evidencia a violência interna a que estes pacientes estão submetido, evidência de um trabalho do negativo que não se deu (Green, 1993).
Nos Anexos 1 e 3 da coletânea O trabalho do negativo, de 1993, os desfechos
e consequências psíquicas nefastas destes casos, então entendidos como casos limites, são discutidos mais detalhadamente sob a ótica do trabalho do negativo. Se, nos
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Claudia Amorim Garcia
textos anteriores, a discussão se dava principalmente a partir do ângulo do eu e suas
defesas narcísicas, como reação a uma situação traumática, nos Anexos a pulsão,
enquanto pulsão de morte, e o ambiente ocupam o centro da argumentação. Tratase de um ambiente, numa perspectiva bastante winnicottiana, que facilita ou impede
que o processo de transformação do objeto primário em estrutura psíquica possa se
realizar. Por outro lado, e bem no estilo freudiano-greeniano, é ressaltada a função
primordial da pulsão de morte, enquanto trabalho do negativo, no desenlance deste
processo de estruturação que pode redundar na emergência dos casos limites, caso
falhe na sua função estruturante. Nos Anexos, portanto, estão presentes outros articuladores conceituais, ausentes do complexo da mãe morta, o que permite uma
análise mais aprofundada das vicissitudes do objeto primário e suas consequências
traumáticas para o processo de constituição subjetiva, e principalmente, sobre a
construção das representações e do pensamento.
Partindo da afirmativa de que falta, no texto freudiano uma referência precisa
sobre a função estruturante fundamental da pulsão de morte na relação com o objeto, Green (1986/1995, 1988/1995), então, se propõe a apresentá-la apontando para a
necessidade do trabalho do negativo na separação do objeto primário. Na verdade, o
negativo tem uma dupla face: é o que delimita o possível mas também o que destrói
o possível. Os destinos dos primórdios da constituição subjetiva enfaticamente encenam estes dois aspectos que resultam na inflexão do trabalho do negativo sobre o
objeto primário. Se tudo corre bem, como diria Winnicott, o destino esperado para
o objeto absolutamente necessário é se apagar, transformando-se em estrutura enquadrante, um espaço receptáculo do eu que circunscreve um vazio, matriz primordial dos investimentos futuros eróticos e agressivos. Este espaço, que não é sentido
como vazio já que preenchido pelos circuitos pulsionais, abriga o desejo e acolhe as
representações cuja emergência exige a construção de limites externos e internos.
Se, por outro lado, predomina um cenário traumático, como no caso do complexo
da mãe morta, este desfecho é inviabilizado e o objeto absoluto aprisiona e impede
o surgimento dos objetos substitutos, a construção das representações e finalmente
interfere tragicamente com o desejo. Neste sentido é bastante significativa a afirmativa greeniana, segundo a qual para poder dizer sim a si mesmo é preciso dizer não ao
objeto (Green, [1988]1995), possibilidade que parece não estar ao alcance dos casos
limites e organizações narcísicas que permanecem aprisionados no âmbito do narcisismo negativo, buscando alcançar o zero de tensão psíquica, na ilusão de, assim, de
livrar do objeto que os habita absolutamente, equívoco que apenas contribui para a
consolidação de um luto impossível.
O complexo da mãe morta serve de paradigma para o estudo das situações
traumáticas primitivas apresentando, portanto, um caráter extremado nas patologias
narcísicas graves. É também de inegável importância na compreensão dos quadros
O trauma em André Green
clínicos menos graves, mas submetidos a um mesmo processo, que configuram um
cenário clínico com que nos deparamos cotidianamente na análise de nossos pacientes o que indica, sem dúvida, a importância do trauma, e principalmente das situações traumáticas primárias, nas subjetividades contemporâneas, temática exaustivamente discutida por André Green a quem somos gratos pela enorme contribuição
teórico-clínica psicanalítica que nos deixou de herança.
Trauma in André Green
Abstract: This paper presents the definition of trauma in Andre Green emphasizing the
centrality of the relationship with the primary object at the onset of traumatic situations. The
greenian concepts of trauma object, the dead mother complex and the work of the negative are
used in the development of the main argument which points at the difficulties of the work of
mourning which characterizes the analysis of these patients.
Keywords: trauma object; dead mother complex; work of the negative; mourning;
psychic representation
El trauma en André Green
El trabajo presenta la concepción de trauma en André Green mostrando la centralidad de la
relación con el objeto primario en el desencadenar de situaciones traumáticas. Los conceptos
de Green de objeto trauma, complejo de la madre muerta y trabajo de lo negativo son utilizados
en la construcción del argumento central que apunta para los entrabes del trabajo de duelo que
caracteriza la clínica del trauma.
Palabras llaves: objeto trauma; complejo de la madre muerta; trabajo de lo negativo; duelo;
representación.
Referências
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Claudia Amorim Garcia
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© ALTER – Revista de Estudos Psicanalíticos
ALTER – Revista de Estudos Psicanalíticos, v. 30 (2) 31-37, 201231
O trabalho no limite do analisável: destrutividade e
enquadre interno no analista1
Daniel Delouya2
Resumo
O trabalho situa a contribuição de André Green para a clínica das configurações e situações
no limite do analisável dentro da tradição psicanalítica de Freud a Klein, Winnicott, Bion e
Lacan. Para tanto, e em homenagem a ele, delineia um percurso que lança mão de conceitos
consagrados pelo autor, como o duplo limite, a loucura pessoal, a estrutura enquadrante, o
negativo etc., além de uma ilustração clínica.
Palavras chave: estrutura enquadrante; duplo limite; capacidade negativa; interiorização.
André Green considerou que sua contribuição ao campo freudiano consiste
em ter encontrado diretrizes para o trabalho com pacientes no limite do analisável. O
que implica, segundo ele, maior exploração da metapsicologia (Green, 2000).
Quando, em certas terapias, o enquadre parece não funcionar, ou comprometido em seu efeito, estamos diante do limite do analisável. Não se trata aqui apenas da
interrupção do processo analítico, quando este se emperra ou se estanca – algo que
ocorre com frequência, e variada, ao longo de qualquer terapia analítica. Trata-se,
sim, de um impasse estrutural. Para compreendê-lo é preciso ressaltar a função do
enquadre na análise, e por que, como e quando ela fracassa.
O enquadre propõe um arranjo que coloca em evidência a força que é, em
última análise, a da pulsão. Assim, o enquadre se torna um campo de forças, que põe
em relevo a força da transferência e de seu ímpeto de transportar algo da história do
sujeito para o uso presente, no terreno da percepção e da experiência; onde estas, ao
exemplo de restos diurnos, impõem o trabalho psíquico, e ampliam, com isso, o repertório psíquico do sujeito. Como ser semelhante (nebenmench, Freud, 1895/1995),
o analista, vigia e guardião do enquadre, oferece-se de apoio ao recuo, no paciente,
ao seu acervo “interior”. Isso se efetua pelo transporte, através da e pela dupla e concomitante transferência, sobre a fala e sobre os objetos, convocando à cena “representações investidas de afeto” (Freud, 1915/1991a), consolidando e alargando, assim,
a inserção do sujeito no regime terceiro, da terceiridade (Green, 2010).
1
Intervenção no evento “Homenagem a André Green” em 26/5/2012 na sbpsp em uma mesa dedicada ao tema com título acima junto aos colegas A. M. Azevedo (sbpsp) e F. Urribarri (APA).
2 Membro efetivo e analista didata da sbpsp.
32
Daniel Delouya
No entanto, tal efeito do enquadre só se cumpre na condição de esboçar-se
no paciente certa dissimetria – por mínima que fosse – que é tributária de um duplo
limite (Green, 1990), traçando as fronteiras entre o eu e o outro e, de outro, com o
próprio inconsciente. Esta dupla e entrelaçada polarização condiciona, no sujeito, a
operação da negativa. A negativa é a mola do trabalho psíquico, onde o outro, nesse
caso o analista, serve de tela para que o paciente possa voltar-se à própria reserva
inconsciente para projetá-la no espaço ofertado pela análise de modo a colocar em
jogo os seus roteiros e suas personagens. O enquadre autorizaria, por assim dizer, a
manifestação e o trabalho da “loucura pessoal” (Green, 1990).
Como campo de forças, o efeito benéfico do enquadre fracassa ou se anula
em configurações onde tais forças acabam se extraviando: na psicose, pela via da
alucinação e vivências de despedaçamento; na psicossomática pela somatização; na
psicopatia, pelo agir e pelas passagens ao ato (Green, 2000).
Entretanto, existem situações e casos menos definidos enquanto casos clínicos, onde o enquadre perde o seu efeito ou não se instaura devido aos atentados
à constituição da capacidade negativa (Bion); essa que deveria fazer com que o paciente esquecesse, ou colocasse entre parênteses, a presença do analista, para voltar
a se impor um trabalho de algo já existente nele, interno e internalizado. Na obstrução dessa capacidade – de livre associação –, assiste-se a uma patologia do encontro
(Green, 2000). O paciente não se entrega ao recuo que o enquadre propicia, mas se
aferra à atualidade do encontro, já que a visada da regressão ameaça as fundações do
eu e por isso atropela o trabalho da transferência. O que se coloca, então, em questão, não é a volta e a retomada de uma suposta matéria internalizada, mas a própria
possibilidade de constituir o interno, de internalizar algo. Eis o limite nessas terapias.
Nelas, a interpretação, o sentido, é insuficiente, já que, muitas vezes, é o ato que se
faz necessário para assegurar ao paciente de sua existência. O que se torna premente
nesses sujeitos é a percepção e o agir, através dos quais eles buscam fazer-se existir
diante do analista, do outro.
A patologia do encontro pode acarretar uma consequência destrutiva no analista, atingindo a noção da própria dissimetria, isto é, de certa decalagem ou dimensão de profundidade que o colocaria em contato com a vida psíquica – o “interno”– dele e de seu paciente. Dito de outro modo, o analista acaba sendo arrastado
para a opacidade do atual, do perceptivo. Somente a existência de um enquadre, nele
internalizado, pode devolver-lhe certa eficácia nessa arena onde se perdem de vista
os vestígios do trabalho analítico. Pois essa situação de engessamento, algo que na
nossa tradição local qualificamos de adesão ao concreto, defronta-nos com a imagem de impenetrabilidade betonada que nos faz suspeitar, em paralelo, da história
do paciente, de vivências junto a um objeto, desprovidas de enigmas: sem sombra,
com pouca ou nenhuma penumbra de associações (Bion). Espanto-me, vez e outra,
O trabalho no limite do analisável: destrutividade e enquadre interno no analista
ao imaginar (nas ausências e a partir de ocorrências terceiras – comentário de outro
paciente, do porteiro etc.) que o paciente que frequenta nosso consultório há anos
(neste caso específico, alcançando o primeiro trimestre da segunda década de terapia) parece apenas ter adentrado a análise. Como se nada ou quase nada tenha se
transformado nele, assim como em mim junto a ele.
Tal impressão instantânea é, em grande parte, equivocada, já que lidamos,
aqui, com organizações defensivas maciças ante o vislumbre de um recuo. A batalha, no paciente, é, muitas vezes, contra o apagamento de sua existência ante o
outro semelhante (o analista). A lógica “ou ele ou eu”, de sobrevivência, se impõe
e, como alerta Winnicott, é importante não reagir a tal necessidade de alucinação,
de merecida onipotência, dando ao paciente a oportunidade de existir, e com isso
outorgar-lhe o direito em se afirmar, realizando: “agora sou eu, eu o apaguei: eu
existo”. A partir dessa travessia em destruir (Winnicott), poderá, ao constatar “eu o
destruí e ele sobreviveu”, adentrar outra lógica, onde poderia aceitar “eu e ele”, ou
seja, onde começa a se abrir a área terceira, a vida. A sobrevivência se garante, então,
para passar a viver agora em um mundo compartilhado. Aqui, o caminho é longo, e
o ponto de partida, que parecia nos defrontar com configurações clínicas de arrogância (Bion) e/ou de pseudomaturidade (Meltzer), demanda um tremendo trabalho no
analista. Enfim, há ainda sujeitos cuja luta parte de uma lógica ainda mais dramática:
“nem você, nem eu”. Um negativismo arraigado em traumas de difícil alcance e trato. Tal desesperança congênita (Winnicott), onde nenhum “sim” resiste ao sempre
certeiro e absoluto “não”, não é de todo desprovida de esperança. O resgate do enquadre na alma do analista pode propiciar a iniciação da trajetória delineada acima
até alcançar no paciente o plano de “eu e você”.
Em vários casos, a muralha de sobrevivência só se rompe através de eclosões
psicossomáticas esporádicas, outras de pânico etc., cujas ocorrências perigosas induziram o paciente à busca de tratamento e que ameaçam irromper a cada momento
em que o elemento inatual, que a análise convoca está prestes a colocar-se em cena.
Em outros casos, o vislumbre de uma moção regressiva, psíquica, desperta, além de
atuações dentro e fora da análise, reações masoquistas agudas que ameaçam evacuar
o esboço inicial de um insight. Nota-se, nesses casos, a falência da representação, ou
de uma viabilidade de transformação dos delegados psíquicos da pulsão (psychischetriebrepräsentanz) – impregnados na desesperada fissura que os compele à ação – em
representantes de experiência (vorstellungtriebrepräsentanz) ou de representações,
tecidas a partir da pulsão, mas já constituídas junto ao objeto (Freud, 1915).
Um jovem é acometido de um acidente cardíaco durante uma viagem a trabalho,
quando a esposa encontra-se no final da gravidez da segunda filha do casal. Passado
o susto, o médico recomenda a psicoterapia e ele aceita na condição da presença da
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Daniel Delouya
esposa. Nas entrevistas é a esposa que fala e ficamos sabendo que, quando ele contava
com três anos, sua mãe perdeu um feto menina nos últimos meses de gestação. [Que o
soma possa imitar um episódio cardíaco fatal no feto-irmã, talvez seja o nexo possível
com o acidente na véspera de nascimento de sua segunda filha.] Ele cresceu como filho
único sob o mando rígido e estreito da mãe (talvez porque ela visava, inconscientemente, garantias absolutas de vida ao filho, projetando nele, em face da perda da menina,
uma idealizada completeza). Rigidez ao qual a esposa atribui uma revolta enquistada
nele, de outrora, que vez e outra salta para fora em forma de acessos de ira. Explosões
ocasionais, mas que persistem, pondo o casamento em perigo, porque apavoram a
esposa pela transfiguração da pessoa introvertida do marido e de sua costumeira companhia dócil e complacente. Após um ano, a esposa, porta-voz do casal, se retira dos
encontros e ele permanece vindo duas vezes por semana. A cena muda de figura: ele
fala e só ele. É só ele que pode existir bloqueando – imagino – a reincidência de invasões. Predomina, então, o pensamento operativo, e, ao mesmo tempo, onipotente, de
arrogância onipresente e onisciente. Nenhuma possibilidade de interrompê-lo ou dele
me ouvir. Assim permanece durante anos, em uma armação betonada por detrás da
qual o medo – advindo da ameaça sobre sua posição no trabalho ou em reação às teimosias da filha primogênita –, acaba sofrendo uma reversão: transforma-se em uma
maquinação onisciente acerca do conjunto da empresa, e de outro, na busca de princípios rígidos de conduta a impor à filha, reeditando, assim, as de sua mãe da infância.
Na terapia, era preciso que eu sobreviva, não reagindo à tamanha avalanche, e que
essa só se amansava pelas ameaças de rompimento após as explosões em casa ou no
trabalho. Após quase nove anos, ele gera, pela primeira vez, um sonho, e de angústia.
Nele, vinha à sessão para encontrar, em seu lugar e horário, um colega de trabalho,
que na sessão anterior eu o apontei como pondo em risco uma posição que ele almejava conquistar. Sonho que constitui um marco de mudança que se instala, abrindo um
espaço ao vislumbre da área terceira, de “eu e você”. Já se passaram 13 anos, e, de fato,
o convívio denota a diminuição considerável da defesa onipotente inicial.
Como delineei acima, minha compreensão, inspirada em Green e ilustrada
pelo fragmento clínico, é a seguinte: no largo escopo de situações e de configurações clínicas, a alucinação da própria presença reflete, afinal, a demanda de existência cujos fundamentos encontram-se na estrutura do narcisismo primário. Falhas
variadas nessa investidura enquadrante por parte do objeto primário tornaram o
sujeito aderente ao espaço da presença e da atualidade. O trabalho malfeito junto
ao objeto impediu, em vários graus, o seu posterior e imprescindível apagamento
pela alucinação negativa para constituir o espaço psíquico próprio, cujo ofício é o de
investir os objetos internos e externos. A situação na terapia e na vida apela para um
enquadramento. Por isso coloca-se toda a relevância de um enquadre internalizado
O trabalho no limite do analisável: destrutividade e enquadre interno no analista
no analista. A demanda nesses casos é de respaldo, espelhamento, constitutivo de
um espaço, e da cultura do mesmo pela denominação, ou seja, o paciente almeja
“notícias de si” (Freud, 1895/1995), como subsídios de existência para constituir a
estrutura de fundo que lhe permita poder apagar a presença do outro e partir para
o sonhar, onde o investimento do outro se faz em duplo concerto: em um vai e vem
entre o inconsciente e os objetos lá fora, conforme a formula de juízo de existência
– “dentro e também lá fora” (Freud, 1925/1991e). Eis o estabelecimento de entrelaçamento concomitante do duplo limite (“o outro existe na condição de autorizar-me um espaço com pertences de mim mesmo”). Uma presença que, por enquanto,
precisa ser alucinada até o momento em que poderá ser apropriada. Eis, aqui, toda a
contribuição contemporânea para o que Winnicott denomina de sobrevivência, sobretudo a nossa diante dos processos destrutivos dos quais o próprio paciente tenta
defender-se, montando muros, ou melhor, demarcando um território em terreno
baldio. O enquadre nos remete, pois, à constituição da função enquadrante de origem da mãe, que Green indica, via Winnicott, Bion e Lacan, já em 1966-1967, no
trabalho intitulado Narcisismo primário: estrutura ou estado?
Quero ainda me deter sobre mais um ponto e de forma sumária. Entende-se
aqui que a destrutividade é oriunda do objeto, de suas incapacidades ou limites. A
pulsão de morte se dispõe como condição tanto para a vida como para a morte; é
o objeto que vai poder, em certa medida e até certo ponto, vertê-la para cá ou para
lá. Isto se realiza pelo investimento que incide sobre o entrelaçar das vias opostas
das pulsões, promovendo a potencialidade do masoquismo erógeno em constituir o
enquadre, o continente psíquico, e a sua cultura com seus conteúdos. Desde Freud
e até Green, passando por Winnicott, Bion e Lacan, constata-se a existência de dois
negativos, um constitutivo da vida psíquica, da noção da ausência, e o outro que a
desmantela. Green, para defini-los, vai oscilar entre os seguintes pares de oposição:
investimento/desinvestimento, ligação/desligamento e objetalização/desobjetalização. O negativo que constitui o psíquico é fruto da obra e de manejo, de empreendimento pelo objeto sobre o negativismo quase “natural e endógeno”, da pulsão de
morte na própria vida. Freud afirma que a tendência principal de retração, que rege
a pulsão de morte, constitui o interno, esse obsecado pelo mítico retorno ao silêncio.
São somente os ruídos da vida, convocados pelos meios externos (dos quais o objeto
faz parte, mas, ao mesmo tempo, é guardião), que permitem que frações do interno
(do retraimento) sejam utilizadas na estruturação e no tecer psíquicos. Porém, essa
transformação é limitada, e não só devido às estritas disponibilidades enquadrantes
do objeto.
Os limites existem na própria e crescente demanda cultural, contemporânea, cujas exigências sublimatórias colocam à prova a história do entrelaçamento
das pulsões em meio ao trabalho empreendido pelo objeto. A corrosão progressiva
35
36
Daniel Delouya
nesse vital entrelaçamento – imposta pela privação cultural de vias de escoamento
da agressão – agrava a situação do sujeito e exige colocarmo-nos a postos (Freud,
1923/1991d e 1930/1985). Green, ao chamar atenção para o enquadre internalizado
no analista – que segundo ele endossa o testamento de Freud sobre a imperiosidade da contínua análise no analista – nos incita a escutar a agonia desses pacientes.
Agonia cuja muda evocação da falha na estrutura enquadrante de outrora nos incentiva a fazer sobreviver e a alargar o exercício e a efetividade analítica junto a configurações cada vez mais críticas e crescentes no cenário contemporâneo.
El trabajo en el límite de analizable: la destructividad y el marco
interno en analista
Resumen: El trabajo intenta situar la contribución de André Green para configuraciones y
situaciones clínicos nos límites de la analizable, dentro de la tradición psicoanalítica de Freud
a Klein, Winnicott, Bion y Lacan. Para ello, y en su honor, esboza una ruta haciendo uso de
conceptos que ya están presentes entre nosotros del autor, como el límite doble, la locura
pessoal, la estructura enquadrante, el negativo, etc, acompañado de una ilustración clínica.
Palabras chaves: estructura enquadrante; limite doble; capacidad negativa; interiorizacion.
The work at the limit of analyzable: destructiveness and inside frame
in analyst
Abstract: In this article, Andre Green’s contribution to the work on the edge of analyzability is
contextualized within the psychoanalytic tradition since Freud and through Klein, Winnicott,
Bion and Lacan. For that, and in homage to such an important figure, we use some of his known
concepts such as the double-limit, private madness, negativity, detachment and containing
structure along with a clinical vignette.
Keywords: containing structure; double-limit; negative capacity; interiorization.
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O trabalho no limite do analisável: destrutividade e enquadre interno no analista
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Daniel Delouya
Rua Capote Valente, 439/104
05409-001 São Paulo, SP
[email protected]
© ALTER – Revista de Estudos Psicanalíticos
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ALTER – Revista de Estudos Psicanalíticos, v. 30 (2) 39-54, 201239
Do negativo em Freud e Green:
contribuições ao estudo dos casos-limite1
Márcia Teresa Portela de Carvalho2
Terezinha de Camargo Viana3
Resumo
As contribuições teóricas de Freud e Green advindas da concepção de negativo em psicanálise
permitem o aprofundamento da compreensão do funcionamento psíquico dos casos-limite
descritos na atualidade. Partindo da noção do “não” simbólico para Freud e de sua importância
para a constituição do pensamento, alcançamos a noção de “trabalho do negativo” em Green. O
trabalho do negativo cumpre, dentre outras, uma importante tarefa de realizar a perda do objeto
primário, processo crucial para os testes de realidade. Nos casos-limite haveria um fracasso
no trabalho do negativo, gerando uma dependência ou uma tentativa excessiva de exclusão
do objeto primário, que não pode ser perdido para ser reencontrado. Como consequência, o
autoerotismo se estabelece mal, havendo expressões do narcisismo negativo com o exercício da
função desobjetalizante.
Palavras-chave: trabalho do negativo, casos-limite, narcisismo negativo, autoerotismo.
Uma edição comemorativa sobre André Green faz jus a uma dos grandes pensadores psicanalíticos dos últimos tempos. Se o que há de novo em psicanálise é
Freud (Green, 1990), é porque autores como ele têm se empenhado em manter vivo
o pensamento freudiano.
Um de seus temas de estudo ganhou a denominação de trabalho do negativo
e diz daquilo que ele primeiramente formalizou como os mecanismos de defesa que
atuam com linguagens diferenciadas: “recalque, forclusão (ou rejeição), negação (ou
denegação), desmentida (ou recusa), cuja contextualização impõe a denominação
de conjunto de trabalho do negativo” (Green, 2010, p. 36). Tomando inicialmente de empréstimo esse construto teórico da filosofia hegeliana e de alguns autores
1 As ideias desenvolvidas neste artigo são provenientes de tese de doutorado Atualidade dos estados-limite: trauma e trabalho do negativo, defendida no Programa de Pós-Graduação em
Psicologia Clínica e Cultura da Universidade de Brasília (2011), financiada pela Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (capes).
2 Pesquisadora Colaboradora (Programa de Pós Graduação em Psicologia Clínica e Cultura,
Departamento de Psicologia Clínica UnB). Doutora em Psicologia pelo Programa de Pós Graduação
em Psicologia Clínica e Cultura UnB. Psicóloga clínica.
3 Professora Associada do Instituto de Psicologia, Coordenadora do Curso de Especialização
em Teoria Psicanalítica e do Programa de Pós Graduação em Psicologia Clínica e Cultura da
Universidade de Brasília.
40
Márcia Teresa Portela de Carvalho e Terezinha de Camargo Viana
psicanalíticos anteriores a ele, também contribuiu para reconfigurá-lo e mantê-lo
singularmente psicanalítico.
Para Green (1993/2010) os mecanismos de defesa são o cerne do que se pode
designar por trabalho do negativo quando tomamos apenas a perspectiva do funcionamento do Eu. E por isso propõe a expansão do sentido desse trabalho para a
esfera das pulsões primárias, especialmente a pulsão de morte, discutida em termos
da função desobjetalizante e do narcisismo negativo. “Esse último aspecto permite
lançar uma ponte entre a atividade do Eu e certas formas de atividade pulsional, se
concordamos com Freud sobre a ligação do narcisismo à esfera pulsional” (Green,
2010, p. 26).
Green (1993/2010) entende que, à ampliação do alcance do ato de negar na
obra de Freud ao domínio das pulsões de vida (Eros) e de morte (destruição), fez-se
necessário uma expansão da compreensão do negativo para além das fronteiras do
que até então tinha sido compreendido como a oposição consciente/inconsciente.
O modo de constituição das relações entre o sim e o não apresentado na primeira
tópica não sustentava mais o verdadeiro sentido da oposição latente/manifesto para
a psicanálise. Se o trabalho do negativo atua no inconsciente e se a negação, segundo
Freud, só existe na consciência, é preciso compreender as linguagens da negação, de
modo que “a hipótese da inexistência do ‘não’ no inconsciente signifique (algo diferente de) uma pura e simples ausência de negatividade” (Green, 1993/2010, p. 39).
Do mesmo modo, completando a fala de Green, é preciso entender que o
“não” da consciência significa algo diferente de uma pura e simples presença ou ausência de negatividade. Se todo não da consciência for considerado apenas um não
em oposição a um sim ou se, por outro lado, todo não da consciência for considerado
um sim que expressa um funcionamento inconsciente onde não existe não (o que
equivale a dizer que tudo é um sim), perdemos o principal da questão: saber sobre
as condições de estabelecimento e de transitividade desse não. Perdemos também o
verdadeiro sentido das interpretações psicanalíticas que acontecem por meio de um
laborioso trabalho de um “aqui em dois” (Pontalis, 1991, p. 88), que abrem espaços
“para esse estranho íntimo chamado desejo” (Pontalis, 1991, p. 12), preservando a
singularidade psíquica do humano.
A expansão do aparato teórico sobre o trabalho do negativo alcança as diferentes instâncias do aparelho psíquico. Diz Green:
a análise nos leva a distinguir o não do Eu, o não do Supereu e o não do Id. Eu
consideraria igualmente as incidências da resposta do objeto sobre a constituição das relações sim-não. (Green, 2010, p. 289, grifos nossos).
Do negativo em Freud e Green: contribuições ao estudo dos casos-limite
Os diversos sentidos apontados por Green (1993/2010) para o negativo –
como “oposição” (um antagonismo), onde cada um quer fazer desaparecer o outro;
como “contrários de valor equivalente e inverso”; como um “estado de uma coisa
que continua existindo mesmo quando não é mais perceptível pelos sentidos”, uma
“ausência”; ou como “tendo sido o que não é mais” ou a um “não tendo jamais chegado à existência”, um “nada” – interessam à psicanálise para referenciar leis inconscientes. Uma oposição, uma ausência e um nada mostram a existência das diversas
relações de forças existentes no e para o funcionamento psíquico. Mostram também
relações possíveis entre o psíquico e o somático, ou seja, as destinações pulsionais e
a materialidade psíquica.
O estudo desse tema ganha importância em função do que, na clínica psicanalítica, tem sido descrito já há algum tempo como os casos limites da atualidade e
se tornado gradativamente, mais e mais, objeto de observação e de compreensão dos
analistas (Green, 1988c; Green, 2008a; Cardoso & Garcia, 2010; Carvalho, 2012). É
conferida a esses casos a responsabilidade do alvoroço criado em torno da ideia de
que a sexualidade pode ser colocada em um plano secundário nos processos de análise, deslocando a atenção para o funcionamento das atividades do Eu. Recolocada a
questão, a clínica mais uma vez, e isso desde Freud, empresta-se para lembrar que é
do sujeito que sofre que se trata. E nesse sentido, diversos posicionamentos teóricos,
disputando sentidos e espaços, se enfrentam por intermédio daqueles que também
ousam dialogar. Green foi um desses teóricos.
Dentre os caminhos possíveis para o desenvolvimento do tema do negativo
em psicanálise, tomaremos como nosso o argumento desenvolvido pelo autor de que
existe nos casos limites um fracasso do trabalho do negativo, gerando uma dependência ou uma tentativa de exclusão excessiva do objeto primário, que não pode ser
perdido para ser reencontrado. Como consequência há, em diferentes escalas, a ação
da função desobjetalizante sobre o psiquismo e sobre os objetos internos e externos,
além de um prejuízo no desenvolvimento da função de simbolização.
Se o objeto não pode ser perdido, a função autoerótica também se estabelece
mal. O autoerotismo tem como função sustentar uma operação de transitividade entre o objeto primário e a criança, até que o próprio corpo (físico e mental) da criança
possa substituir o mundo externo. Nos casos limites, essa operação é falha e o objeto
primário pode até ficar como que entalado: a criança nem está dele acompanhada
nem pode largá-lo. Está preso naquilo que Green (2003, 2010) chama de analidade
primária.
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Márcia Teresa Portela de Carvalho e Terezinha de Camargo Viana
Das defesas primárias
Os estudos em torno das questões advindas da concepção de negativo e do
ato de negar são fundamentais na psicanálise para sua concepção de sujeito e para a
compreensão da constituição do psiquismo. Em psicanálise, toda ação psíquica pode
ser considerada trabalho psíquico. E desse modo, o trabalho psíquico do negativo é
aquele que vai garantir que um não possa ser considerado um limite e uma diferenciação para além de uma simples negativa.
No artigo denominado A negativa, escrito no adiantado de sua obra e, portanto, contemplando a organização psíquica da segunda tópica (Eu, Supra-Eu e Id) e da
nova teoria pulsional (Eros e pulsão de destruição), Freud (1925/2007d) reserva um
artigo especificamente sobre esse tema. Trata-se de um texto curto e complexo, onde
ele apresenta a importância do ato de negar.
O “não” simbólico estaria na base da constituição do pensamento, da construção psíquica dos espaços interno/externo, das relações entre representação e afeto,
do denominado teste de realidade e, finalmente, das relações existentes entre as pulsões (de vida e de destruição) e o trabalho do Eu para emitir juízos.
O “não” emitido como um juízo permite ao Eu deliberar sobre o que pode
estar dentro ou fora dele mesmo, ou seja, deliberar sobre se algo que foi percebido
pode ser acolhido ou expelido. Esse “não” também atua sobre a capacidade do Eu de
discernir se algo que “está disponível na forma de uma representação (Vorstellung)
pode ser reencontrado também na esfera da percepção (Wahrnehmung) (realidade)”
(Freud, 1925/2007d, p. 149), conferindo à percepção uma condição de ser uma construção psíquica.
A percepção e a representação, inicialmente indiferenciadas, diferenciam-se
em representação interna (subjetivo) e percepção (objetivo). É essa diferenciação que
permitirá ao sujeito reencontrar o mundo (o objeto) conforme surja a necessidade.
Isso é o que Freud chama de teste de realidade, que só “entrará em cena quando e
se os objetos, que outrora trouxeram satisfação, já tiverem sido perdidos” (Freud,
1925/2007d, p. 149). O objeto da satisfação precisa ser perdido para ser reencontrado. Em ambos os casos, o “não” é considerado um importante vetor de constituição
e delimitação de espaços internos e externos e constitui tempos diferenciados.
Freud diz que em ambos os casos, na perda e no reencontro, trata-se de uma
questão de dentro e fora, reportando-se à construção de uma realidade que pode ser
compartilhada, simbolizada. Essa operação resultará na destituição da supremacia
do princípio de prazer em prol da realidade, cedendo lugar a uma realidade compartilhada e à custa de um adiamento de satisfações pulsionais. Processo, como se sabe,
Do negativo em Freud e Green: contribuições ao estudo dos casos-limite
nunca totalmente alcançado. Freud entende que o “não” simbólico é a garantia do Eu
de que o processo de fazer surgir a função mental logrou êxito.
Se com o conceito de negativa Freud alcança os meandros do recalque, é com
o conceito de Verleugnung (desmentida, renegação, rejeição) que ele traz à cena os
mecanismos da Spaltung (cisão, divisão, clivagem), uma Ichspaltung (cisão do eu).
Segundo Green (2010), o conceito de desmentida foi introduzido na obra freudiana
em 1927/2007, em seu artigo Fetichismo. É um mecanismo de defesa que busca neutralizar a ameaça de castração.
Freud (1927/2007c) mostra o destino das ideias recusadas. Elas serão desmentidas, tendo como objetivo a manutenção da organização psíquica diante daquilo
que, como conteúdo percebido, restou como ideia. A ação de desmentir sustenta a
essência e a recusa da castração, a essência e a recusa do recalque. Trata-se de um
mecanismo que permite a sustentação de uma ideia e de seu contrário.
No entanto, sustentar a ambiguidade seria o mesmo que dizer que o Eu pode
dar conta de viver segundo as leis do inconsciente, ou seja, sem a presença do não.
Freud fala então de uma solução de compromisso, de uma ação muito enérgica que
precisa ser empreendida para sustentar a renegação da ideia percebida, qual seja, a
cisão do Eu.
Essa divisão psíquica do Eu traz à luz duas realidades que coexistem lado
a lado. Essa ideia está presente no capítulo VIII de seu texto intitulado Esboço de
Psicanálise (1940[1938]/1996a). Nele Freud reafirma a divisão do Eu e a constituição
de duas realidades: uma que leva em conta a realidade externa e outra que, sob uma
influência pulsional, desliga o Eu da realidade. O desligamento diz de uma tentativa
de manter a força despótica do Id de viver sob a égide do puro prazer. “A negação e a
simultaneidade estão aqui ligados uma à outra. O preço – a divisão do eu – terá que
ser pago” (Green, 1988b, p. 279, grifos nossos).
Trata-se de um processo complexo, pois o que Freud (1927/2007) está propondo é que mecanismos de organização psíquica até então descritos em pacientes
estruturalmente diferentes - neurótico, perverso e psicótico - podem coexistir num
sujeito normal. É o que vamos encontrar em seu artigo denominado A cisão do eu
no processo de defesa (1938/2007), onde Freud relaciona a renegação a um trauma
psíquico e um consequente “rompimento na tessitura do Eu”, que não mais cicatriza.
Green (2010) afirma que essa foi a primeira vez que Freud reuniu a esfera das
perversões à das psicoses, permitindo uma diferenciação. Ele diz: “as desmentidas
jamais são completas. Elas são acompanhadas da manutenção de um conhecimento – sem o qual não se poderia falar de verdadeira clivagem” (Green, 2010, p. 133).
Além do mais, diz Green (2010), a partir do texto “O eu e o id” (1923/2007), o Eu
passou a fazer parte de uma organização psíquica onde se precisa fazer referência
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a um intrapsíquico e a um interpsíquico. O Eu, sendo o grande mediador de todos
esses processos, deixa à mostra sua vulnerabilidade para tal.
Para Green (1993/2010), a cisão estaria mais ligada à manutenção de uma onipotência narcísica do que ao trabalho de não deixar ver o desejo que não pode ser
mostrado (recalque). É, portanto, uma resistência mais contundente, pois combina o
trabalho de resistir à manifestação do desejo deslocando a questão para o equilíbrio
narcísico. Além de esconder “o que” foi recalcado, esconde também “o como”.
Lembremos que Freud (1938/2007a), a propósito do estabelecimento do mecanismo da cisão em um menino, relata o temor desenvolvido por ele de ser devorado pelo pai. A criança, na tentativa de manter sua onipotência, desenvolve um
sintoma que pode fazê-lo deixar de existir. Pode-se pensar, nesse caso, que ele “experimenta” a possibilidade de uma morte iminente, bem como a ideia de que terá de
ter uma força de contraataque igual ou superior àquela do pai, o que pode gerar nele
um sentimento de impotência. Total desamparo.
É possível enxergar essa interpretação a partir de algumas palavras de Green:
A um desejo concebido usualmente como “perverso” acrescenta-se o temor de
vê-lo assumir proporções de uma onda que varreria tudo o que se interpusesse
entre ele e sua satisfação sem limite – transferindo então a perversão, como
que para deslocá-la e voltá-la contra ela mesma, para aquele que decreta sua
proibição. (Green, 2010, p. 139)
Só ao pai (a uma lei) é dado o poder de intervir sobre e proibir a força do desejo que tem como meta consumir-se até o fim, esgotado em sua própria morte. Dada
a impossibilidade de o pai real desejar e realizar tal feito (engolir o filho), pensamos
na possibilidade de tratar-se de um pai interno, bem mais poderoso e real, capaz de
barrar a força e realização de seu próprio desejo e de também mantê-lo vivo. Se a
operação recalcante nega esse desejo retirando dele sua carga afetiva, a operação da
desmentida desloca e transfere o desejo “perverso” para um outro capaz de mantê-lo,
ou seja, um outro poderoso o suficiente para realizá-lo em seu nome e protegê-lo.
O preço de tal operação pode ser sua própria “morte” psíquica, pois destituído
de sua onipotência, que é deslocada a um outro, não tem mais sentido ter desejos,
realizar desejos nem se sentir frustrado por não realizá-los. O não sentido caracteriza
uma vida vazia que procura mais por si mesma do que pelas possíveis frustrações em
não realizar-se eroticamente. O sentido, desse modo, está em manter o jogo da desmentida, crucial e absolutamente desinteressante na manutenção do jogo pulsional
erótico. As pulsões eróticas, agora vinculadas às pulsões de vida, dessexualizam-se
em prol da sobrevivência egoica. Dois gigantes se enfrentam pulsionalmente: a vida
Do negativo em Freud e Green: contribuições ao estudo dos casos-limite
e a morte. A satisfação pulsional aparece pelas vias dos sintomas que ameaçam a
integridade egoica.
O Eu então se livra do conflito por meio de uma perversão: elege um objeto e
paralisa a cena. A figura fixa, narrada e não historiada, pode ser entendida como um
fetiche. E o fetiche, como sabemos, é uma criação que tem a “intenção de destruir a
prova da possibilidade de castração de maneira a que o temor desta possa ser evitado” (Freud, 1940[1938]/1996a, p. 216). Desse modo, o “não” simbólico que permite
a criação de espaços de trânsito, tão importante para a constituição do psíquico,
perde-se em seu aniquilamento e naquilo que ainda resta de humano: o corpo.
Para Green (2010), uma autoridade é construída contra a satisfação do desejo,
que se opõe ao próprio Eu sob a forma de um objeto empossado de uma capacidade
de se tolher quanto à sua livre expressão. Esse trabalho é realizado por uma instância
denominada de Supra-Eu. Se o trabalho do negativo se opõe às leis impostas pela
satisfação pulsional, o Eu passa a se opor ao próprio objeto de satisfação, ou seja,
ele faz ressurgir o desejo por meio de um objeto do desejo que age coercitivamente
sobre sua liberdade. O Eu se vê obrigado a uma submissão a um objeto que não tem
forma, não se deixa pensar ou figurar, pois é a própria encarnação de uma entidade
legal interna coercitiva e até autopunitiva. Ao mesmo tempo, garantia de sua própria
sobrevivência. Mas essa lei não defende um bem precioso, um valor, uma ordem ou
uma ética. Ela sustenta perversamente a ilusão de uma onipotência narcísica.
Da função desobjetalizante e do narcisismo negativo
Green (1993/2010) propõe a expansão do sentido do trabalho do negativo dos
mecanismos de defesa para a esfera das pulsões primárias, especialmente a pulsão
de morte. Propõe discuti-la em termos da função desobjetalizante e do narcisismo
negativo. Segundo o autor, o funcionamento psíquico normal se mantém por meio
de uma oscilação permanente entre os efeitos das funções objetalizante e desobjetalizante (Green, 2008b). Esta afirmação procura abarcar o trânsito das pulsões de vida
e de destruição, ambas conservadoras.
Freud (1911/1996) diz, em seu texto denominado “Notas psicanalíticas sobre
um relato autobiográfico de um caso de paranoia”, que o narcisismo é “um estádio do desenvolvimento da libido entre o auto-erotismo e o amor objetal” (Freud,
1911/1996b, p. 68). Acrescenta dizendo que o narcisismo talvez seja indispensável
para um desenvolvimento normal do sujeito.
A leitura de Freud nos permite interpretar o narcisismo como tempos do desenvolvimento e da sustentação do Eu em que o sujeito consegue tomar a si próprio
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como objeto amoroso até o ponto em que se põe disponível para uma escolha amorosa que não ele próprio. Podemos pensar o narcisismo como tempos de evidência
do próprio amadurecimento do Eu no que se refere à sua capacidade para investir
libidinalmente no mundo externo e se recolher dele.
Ligar e desligar a libido são mecanismos próprios do Eu. Algo que combina
as “escolhas” homossexuais (identificatórias) e, posteriormente, heterossexuais. As
palavras homossexuais e heterossexuais nesse momento podem ser entendidas como
“escolhas” pré-genitais e genitais. Isso porque Freud (1911/1996) aponta para o fato
de que, alcançado o estádio de escolha heterossexual,
as tendências homossexuais não são postas de lado ou interrompidas; …
Combinam-se com partes dos instintos do ego e, como componentes “ligados”, ajudam a constituir os instintos sociais, … a amizade e a camaradagem.
(Freud, 1911/1996, p. 69)
Compreender o que acontece no processo de constituição do narcisismo é de
fundamental importância nos casos-limite, pois é consenso na literatura o fato de esses sujeitos apresentarem falhas na constituição narcísica e, como consequência, uma
fragilidade nas fronteiras do Eu. O caminho que escolhemos para estudar essa falha
constitutiva é aquele que reporta teoricamente ao que foi denominado de fracasso
do trabalho do negativo, “o que envolve por sua vez dificuldades nas experiências de
apagamento do objeto primário e resulta em prejuízos nos processos de simbolização” (Garcia, 2009. p. 106).
A partir dos escritos freudianos, Green (1988b) propõe ampliar as relações
entre pulsão de vida e ligação e entre pulsão de morte e desligamento. Diz Garcia
acerca do trabalho de Green:
A sua proposta nesse sentido é compreender a meta essencial da pulsão de vida
como sendo a de garantir uma função objetalizante, isto é, criar relação com
o objeto, interno e externo, assim como transformar estruturas em objeto. …
(garantindo) a simbolização. Em contrapartida, a meta da pulsão de morte é
realizar uma função desobjetalizante. No desligamento que ela empreende são
atacadas as relações com o objeto e também o próprio investimento.
(Garcia, 2009, pp. 106-107, grifos nossos)
Estas funções – objetalizante e desobjetalizante - oscilam de um polo, que vai
do amor de objeto à sublimação, a outro, onde a regressão revela uma substituição
dos investimentos de objeto por investimentos narcísicos provenientes do objeto. A
contribuição teórica de Green alcança o que ele chama de desinvestimento do próprio investimento, “chegando a uma última etapa cujos prolongamentos se perdem
Do negativo em Freud e Green: contribuições ao estudo dos casos-limite
no infinito (e) desinvestem o próprio Ego” (Green, 2008b, p. 271). A esse desinvestimento Green (2008b) denomina de narcisismo negativo, onde há o empobrecimento
e até um sentimento de autodesaparecimento do Eu.
Segundo Green (2008b), o narcisismo negativo está relacionado à pulsão de
morte e, portanto, tem como aspiração atingir um nível zero de excitação pulsional.
Os efeitos do narcisismo negativo podem alcançar diferentes níveis de autoaniquilamento, àquilo que, talvez, possamos chamar de uma recusa narcísica, pois o Eu
parece ser mantido por sua própria oposição.
A alucinação negativa da criança sobre a mãe:
a perda do objeto primário
Freud (1925/2007d) nos trouxe a ideia de que a perda do objeto primário articula-se a uma negatividade constitutiva, possibilitando sua substituição por muitos
outros objetos. Apresentando seus estudos em diálogo constante com a obra freudiana, Green (2010) traz à tona a função do objeto no trabalho do negativo e reapresenta
um construto teórico que ele diz ser anterior ao nascimento da psicanálise: a alucinação negativa, que remonta aos momentos do hipnotismo.
Segundo o autor, a alucinação negativa (denegação de um objeto percebido
como indesejável ou intolerável) é indispensável à constituição dos espaços psíquicos e nos remete ao estudo de suas relações com a percepção e com a representação
inconsciente. Alucinação negativa, percepção e representação inconsciente se unem
na obra de Green (2010) e mostram como o “objeto absolutamente necessário” precisa estar ausente para que ele possa ser simbolizado e inscrito no lugar daquilo que
falta. “como um valor de troca e não como um objeto substituto” (Green, 1988b, p.
133).
Retomada a importância do objeto, Green (2010) faz uma importante diferenciação para que se possa pensar o trabalho do negativo. Ele diferencia o objeto
desejante do objeto caução ou de enquadramento. Ele nos diz que a principal função
do enquadramento e, portanto, do objeto caução é constituir a estrutura psíquica
fazendo-se esquecer. O objeto caução é aquele que precisa ser perdido e reencontrado, e advém de um duplo processo: é “vítima” de uma alucinação negativa e precisa
se fazer esquecer em sua função de enquadramento. E é produto da excorporação
(ação do aparelho psíquico para expulsar aquilo que é sentido como dor e desprazer), produto de uma inibição de sua própria presença, “deixando-se perder e distanciar-se para reaparecer como objetos da atração e da repulsão”, em sua diferença
(Figueiredo, 2004, p. 18).
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Para Figueiredo (2004), a dupla função do objeto é paradoxal, pois ele está
presente para despertar a pulsão e para contê-la e também para se fazer distante
e substituível. Trata-se de sustentação das uma “presença ausente” inscrita no psiquismo como estrutura e vazia. Este vazio é o que permite as distâncias, ausências e
falhas dos objetos sem que isto implique uma ameaça de aniquilamento da estrutura
psíquica. Podemos pensar que este vazio, um espaço de possibilidades, é o que possibilita o trânsito psíquico. Segundo Green (2010), a alucinação negativa, aquela que
cumpre a função de enquadramento, é, do ponto de vista do Eu inconsciente, uma
“representação da ausência de representação” (Green, 2010, p. 211).
Vimos, então, que uma alucinação negativa nega uma perda que a realidade
afirma e que a simbolização de um objeto está relacionada à sua ausência. É o que
precisa acontecer com a criança em relação à sua mãe para que ocorra uma primeira
diferenciação eu-não-eu e Eu-Id. O negativo constitui o Eu separado do Id e faz a
mediação entre dois eus (o da mãe e o da criança). A capacidade da criança de apreender o objeto total e a consequente alucinação negativa dessa apreensão possibilita
que o objeto possa ser colocado “fora”. Neste processo o mais fundamental, segundo
Green (1988b), é a inversão das polaridades entre a criança e a mãe e o retorno contra si. Esta é tomada
no quadro vazio da alucinação negativa, e torna-se estrutura enquadrante para
o próprio sujeito. O sujeito edifica-se ali onde a investidura do objeto foi consagrada ao invés de seu investimento. Tudo está então no lugar para que o
corpo da criança possa vir a substituir o mundo externo (Green, 1988b, p. 135).
O corpo que foi inicialmente investido pelo objeto primário está pronto para
ser o lugar de autoinvestimento e substituto do mundo externo. “O Isso criou investimentos de objeto de que o Eu se apossa” (Green, 1988b, p. 133). Entra em questão
o autoerotismo, que marca um princípio de independência entre corpo e objeto. A
pulsão torna-se autoerótica a partir do momento em que a criança perde o objeto
de satisfação e se torna capaz de ver este objeto como um todo e não mais só parcialmente. A importância da constituição do autoerotismo diz da passagem de uma
busca de satisfação “fora” para uma busca de satisfação “dentro”, ou seja, no próprio
corpo da criança.
Para que o processo se instaure é necessário que o objeto primário cumpra
a sua função de falhar, ou seja, ausentar-se para que ele possa sair da condição de
objeto absoluto. A mãe precisa querer se separar, fazer-se esquecida. “A separação
reconstitui este par sobre o próprio corpo do sujeito (permitindo-lhe) contentar-se consigo mesmo” (Green, 1988b, p. 120). Uma vez descoberto o próprio corpo
como objeto que pode satisfazer a meta da pulsão, temos aqui um modo próprio de
Do negativo em Freud e Green: contribuições ao estudo dos casos-limite
satisfação pulsional. Freud (1915/2004) afirma que o objeto da pulsão é aquele por
meio do qual a pulsão pode alcançar sua meta, a satisfação. É um elemento variável
e não está originalmente vinculada a ela. “Em rigor, não é preciso ser um outro [fremd] objeto externo, pode muito bem ser uma parte do nosso próprio corpo” (Freud,
1915/2004, p. 149). Diferenciam-se as pulsões autoeróticas das pulsões sexuais.
O fracasso do trabalho do negativo:
a dependência do outro e a autossuficiência nos estados-limite
Quando há um fracasso no trabalho do negativo encontramos repercussões
diretas na constituição da imagem narcísica ou na constituição do pensamento, na
construção dos espaços internos e externos, nas relações entre representação e afeto,
no trabalho do eu para emitir juízo, alcançando o imprescindível teste de realidade.
Quando esse trabalho fracassa entendemos que o objeto primário falhou em sua função de se fazer esquecer, de se ausentar. As principais consequências desse fato são: o
fracasso para estabelecer o duplo limite (limite entre exterior e interior e limite entre
as diversas instâncias do aparelho psíquico), o sentimento de angústia de separação
e de intrusão, resultado de uma excessiva dependência do outro e/ou de uma necessidade de autossuficiência, a dificuldade para a realização do teste de realidade e a
expressão do narcisismo negativo com o exercício da função desobjetalizante.
O estabelecimento do duplo limite acontece em dois momentos distintos: o
primeiro momento, aquele que estabelece o limite entre o dentro e o fora, apresenta
“a função intrínseca do objeto (como) paradoxal: o objeto está lá para estimular, para
despertar a pulsão (autoerótica) e, ao mesmo tempo, para conter” (Green, 2010, p.
301). O objeto primário contém (“recolhe”) os excessos pulsionais intoleráveis e que
são jogados indiscriminadamente para fora pela criança. Esses excessos são reintrojetados no psiquismo da criança.
Partindo dos repetidos processos de reintrojeção do que foi expulso é que podemos falar no estabelecimento do segundo momento: forma-se o recalque. “O recalque trabalha a partir do mesmo modelo de aceitação e de recusa que foi instituído a
partir da relação com o objeto externo, de modo que, no final, o que é bom e ruim
para o Eu é o que era bom e ruim para o objeto” (Candi, 2010, p. 257). Se a relação
dos objetos foi internalizada e o sim e o não introjetados, o recalque pode se beneficiar de um limite entre o consciente-pré-consciente-inconsciente.
Mas isso se estabelece mal nos casos-limite, pois a função de estimulação e a
de contenção foram mal exercidas pelo objeto primário e, como consequência, mal
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internalizadas pelo sujeito. Se a ação de contenção é mal estabelecida, torna-se figura
o limite que se estabelece no nível intersubjetivo, que também não consegue fazer as
devidas diferenciações entre o sim e o não e entre o dentro e o fora. Segundo Candi
(2010), quando isso ocorre “o segundo limite se manifesta com toda sua potência
produzindo clivagens, retraimento, denegações, identificações projetivas, características da lógica pulsional e do que chamamos do negativo do trabalho do negativo”
(Candi, 2010, 258).
Trata-se de um modo de o sujeito se proteger de um excesso de excitações
que não consegue ser contido pelas vias de sua relação com o mundo externo. As
clivagens, nesse caso, não podem ser consideradas aquelas descritas por Freud como
fundamentais para o desenvolvimento do psiquismo. Estas clivagens trabalham no
sentido de impedir o trabalho de representação. O excesso de excitação volta a ser
expulso indiscriminadamente sem que haja uma reintrojeção adequada.
Como consequência, “a expulsão inicial causa um buraco que não é integrado
à cadeia dos pensamentos. Este vazio interno engolfante (…) se apresenta clinicamente sob a forma de um sentimento pontual de morte psíquica que se expressa nos
brancos ou sensações de cabeça vazia” (Garcia, 2007, p. 133). O sujeito, então, pode
alcançar aquilo que Green denomina de narcisismo negativo (Green, 1988a), aquele
que aspira a um nível zero de excitação, ou seja, um estado de não ser, onde não faz
sentido falar em desejo, apenas no trabalho da função desobjetalizante. Disso decorrem as angústias de separação e de intrusão.
Os estados-limite são caracterizados pela alternância entre o objeto perdido
e o reconquistado, resultando em intensas angústias nas experiências de separação e
de intrusão. Mas não se trata de uma angústia sinal e sim de uma angústia que mostra ao sujeito seu total desamparo. É como se nesses casos o status do objeto interno
estivesse constantemente ameaçado, constantemente destinado a desaparecer por
meio de uma fusão regressiva e por causa da fragilidade dos limites estabelecidos.
Contra esta ameaça, ou buscando a sobrevivência da perda, são realizadas tentativas para fazer existir o objeto a qualquer preço. Estas tentativas são necessárias
no esforço contra os sentimentos de fragmentação. O sentido de segurança, mesmo
que provisório, pode acontecer por meio de objetos substitutos: o próprio corpo do
sujeito ou algum objeto do mundo externo (Green,1973; Garcia, 2007). A alternância
existe, desse modo, entre a ameaça de ser invadido pelo objeto engolfante e a de ficar
sem a existência de um objeto de quem dependa para enxergar a realidade externa.
Figueiredo nos diz que para o bebê alcançar a triangulação, ele viverá a condição traumática de estar excluído da cena primária:
nossa tese … é de que algo equivalente à cena primária está na origem dos
transtornos borderline, desde que se entenda que esta experiência traumática
Do negativo em Freud e Green: contribuições ao estudo dos casos-limite
tenha ocorrido sob a dominância das relações diádicas, impedindo a aceitação mínima da realidade como limite, princípio de exclusão e de diferença.
(Figueiredo, 2004, p. 510)
Ele não suporta a exclusão e a nega. E se pensarmos também o contrário? Será
que não pode ser justamente a crença em sua própria exclusão e diferença, ainda em
condições muito incipientes e, portanto, “onipotentes”, que fez o paciente limite se
manter preso a uma condição traumática de exclusão e de desamparo? Não estaria
ele fixado nessa excessiva realidade e, como consequência, também fixado na cisão
entre o absoluto idealizado (outro) e o nadificado (ele mesmo)? Pensamos que essa
pode ser também uma hipótese de trabalho clínico, principalmente se pensarmos
naqueles que se isolam e não sabem como se incluir nas relações. E, desse modo, podemos pensar que existem sujeitos que recusam a exclusão e diferença e outros que
acreditam nela de forma extremada.
A dificuldade ou impossibilidade de realizar o processamento da realidade de
modo a sustentar um movimento contínuo entre o autoerotismo e a relação objetal,
constituindo e atualizando o narcisismo saudável, pode alcançar aquilo que Green
(1988b) chama de narcisismo negativo, com a ação da função desobjetalizante, aquela que ataca as relações com o objeto e o próprio investimento objetal. Quando a função desobjetalizante alcança uma supremacia sobre a função objetalizante há uma
preponderância de separação entre as pulsões de vida e de morte. Nesse caso,
a desintricação se apresenta sob a forma de angústias catastróficas ou impensáveis, de temores de aniquilamento, de desmoronamento, de sentimentos de
futilidade, de desvitalização, de morte psíquica, de sensações de abismo e de
buracos sem fundo. Estas manifestações expressam o trabalho do negativo na
sua radicalidade (Garcia, 2009, p. 112).
A função desobjetalizante ataca os próprios investimentos, o que significa um
ataque às funções objetalizantes que possibilitam a constituição do psiquismo, do
pensamento e dos processos de simbolização. Lançado à “morte psíquica” o sujeito
limite vive as sensações de abismo e de aniquilamento. Aspirar a um nível zero de excitação pulsional pode ser o caminho para que ele se livre das angústias catastróficas.
O nível zero de excitação pulsional é o que se pode chamar de trabalho negativo das
pulsões de destruição em sua expressão máxima.
Existe, no entanto, uma manifestação do trabalho do negativo patológico que
não alcança essa expressão máxima de desobjetalização. Segundo Garcia (2009), à
medida que o objeto não pode ser negativado ou esquecido, ele
51
52
Márcia Teresa Portela de Carvalho e Terezinha de Camargo Viana
adentra-se na esfera da dialética expulsiva que aqui se apresenta como a face
patológica do trabalho do negativo como excorporação. Sem possibilidade de
separação, o objeto não pode ser engolido ou cuspido e fica, portanto, entalado,
obstipado. (Garcia, 2009, p. 111, grifos nossos).
O amor/ódio do sujeito ataca o objeto e a ele mesmo e expressa essa impossibilidade de expulsá-lo ou de evacuá-lo naquilo que ele pode e precisa ser esquecido.
O sujeito não pode expulsar ou evacuar, porque não sabe o que deve ser expulso ou
evacuado e o que deve ser mantido. A excorporação é indiscriminada. Este trabalho
do negativo patológico demarca o que Green (1993/2010) denomina de analidade
primária.
Nesses casos, trata-se menos de problemas relacionados à constituição e reconhecimento da imagem corporal (oralidade), embora isso possa estar associado,
e mais dos problemas advindos da esfera do julgamento e, como consequência, do
processamento da realidade. As questões relacionadas ao risco, aos “ensaios” da vida,
não podem ser vividos como tentativas. Ou é acerto ou é erro. Entendemos que a
contribuição desse conceito está em sua condição de ser primário, como se pudéssemos falar em uma oralidade e uma analidade primárias. Em ambos os casos o que
está em foco são as questões relacionadas à constituição do autoerotismo e do narcisismo.
Del negativo en Freud y Green:
contribuciones al estudio de los casos-límite
Resumen: Las contribuciones teóricas de Freud y Green derivadas de la concepción del negativo
en psicoanálisis permiten la profundización de la comprensión del funcionamiento psíquico de
los casos-límite descritos en la actualidad. Partiendo de la noción del “no” simbólico para Freud
y de su importancia para la constitución del pensamiento, alcanzamos el concepto de “trabajo
del negativo” en Green. El trabajo del negativo cumple, entre otras, una importante tarea de
realización de la perdida del objeto primario, proceso crucial para la prueba de la realidad. En
los casos-límite habría un fracaso en el trabajo del negativo, generando una dependencia o un
intento excesivo de exclusión del objeto primario, que no se puede perder para ser recuperado.
Como consecuencia, el autoerotismo se instala mal, habiendo expresiones del narcisismo
negativo con el ejercicio de la función desobjetalizante.
Palabras-clave: trabajo del negativo, casos límite, narcisismo negativo, autoerotismo.
On the negative in Freud and Green:
contributions to the study of borderline cases
Abstract: The theoretical contributions of Freud and Green found in the conception of negative
in psychoanalysis allow a deeper understanding of the psychic functioning of the borderline
cases. Based on the notion of the symbolic “no” in Freud and on its importance for the
constitution of thought, we arrive to the notion of “work of the negative” in Green. The work of
the negative accomplishes, among others, an important task: to realize the loss of the primary
Do negativo em Freud e Green: contribuições ao estudo dos casos-limite
object, a crucial process for reality testing. In borderline cases there would be a failure in the
work of the negative, creating a dependency or an excessive attempt of exclusion of the primary
object, which cannot be lost to be regained. As a consequence, the self-erotism establishes badly,
with negative expressions of narcissism along the exercise of the deobjectfying function.
Keywords: work of negative, borderline, negative narcissism, self-erotism.
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Márcia Teresa Portela de Carvalho
SQN 116 Bloco “F” ap. 313
70773-060 Brasília, DF
[email protected]
Terezinha de Camargo Viana
SQN 208 Bloco “B” ap. 603
70853-020 Brasília, DF
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© ALTER – Revista de Estudos Psicanalíticos
ALTER – Revista de Estudos Psicanalíticos, v. 30 (2) 55-66, 201255
Violência contemporânea, novas formas de
subjetivação e de sofrimento psíquico:
desafios clínicos1
Zeferino de Jesus Barbosa Rocha2
Resumo: O presente artigo tem como objetivo investigar de que modo a violência contemporânea
vem condicionando novas formas de subjetivação, as quais implicam em novas formas de
sofrimento psíquico, que representam grandes desafios para a clínica psicanalítica de nossos
dias.
Palavras-chaves: Violência, subjetivação, sofrimento psíquico, clínica psicanalítica.
Introdução
Quando o homem moderno pensava
que tinha as respostas para todas as questões,
foram trocadas todas as perguntas,
e ele se encontra, agora,
diante de questões e de perguntas
para as quais ainda não tem resposta.
Eduardo Galeano
É meu propósito investigar, no presente artigo, de que modo a violência, que
marca o ambiente sociocultural contemporâneo, vem condicionando novas formas
de subjetivação, que, por sua vez, dão origem a novas formas de sofrimento psíquico,
as quais representam um grande desafio para a clínica psicanalítica de nossos dias.
A fim de conseguir esse objetivo, destacarei, na primeira parte, algumas manifestações da violência, características do nosso cenário cultural, as quais assumem
proporções que nos deixam perplexos e desamparados diante do cinismo de uma razão técnica, que só reconhece a ética lucro, e, dessa forma, termina nos condenando
1 O artigo foi primeiramente apresentado como trabalho na Reunião Científica da Associação
Brasileira de Medicina Psicossomática – Regional Recife no dia 5 de maio de 2010.
2 Professor responsável pela linha de pesquisa em Psicopathologia Fundamental e Psicanálise no
Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica da Universidade Católica de Pernambuco.
Sócio fundador e membro honorário do Círculo Psicanalítico de Pernambuco.
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Zeferino de Jesus Barbosa Rocha
a um impiedoso individualismo, indiferente às necessidades fundamentais dos que
são os mais injustiçados e infelizes.
Nas partes seguintes, analisarei as novas formas de subjetivação e de identificação que estão surgindo nesse novo contexto sociocultural, cujo sofrimento psíquico exige da clínica psicanalítica atual uma renovação teórica a fim de melhor compreender as novas patologias com as quais se defronta, renovando, ao mesmo tempo,
a sua capacidade de escutar os pacientes, que, ao mais das vezes, não conseguem
sequer verbalizar a dor que sentem por causa da sua total falta de sentido.
Finalmente, à guisa de uma conclusão, tentarei mostrar como esta crise atual
na qual estamos submersos, em vez de ser exorcizada como uma crise de desespero,
deve antes ser olhada como um desafio histórico, que precisa ser superado. Para
tanto, oportuno se faz não perder a esperança, que sustenta nossa disposição de luta,
mesmo quando temos que esperar contra a própria esperança, não esquecendo as
palavras com as quais Heráclito de Éfeso, no século VI a.C., nos advertia: “Se não se
espera, não se encontra o inesperado” (Frag. n.18, apud Diels, 1957, p.25).
I. A violência no contexto sociocultural contemporâneo
A violência sempre existiu e existirá entre os homens. Isso se deve ao fato de
ela ser uma das errâncias de nossa capacidade de desejar. Ao nascer, nós não escolhemos a natureza que nos define como seres racionais, mas a existência, na qual e pela
qual escrevemos a nossa própria história, esta será aquilo que dela fizermos, pois ela
depende de nossa capacidade de sonhar, amar e trabalhar. O animal, porque nasce
determinado a ser o que é, não corre o risco de se perder nos caminhos que lhe foram
traçados pela própria Natureza. O homem, por ter nascido livre, corre este risco. A
violência é uma das errâncias de sua capacidade de desejar e de sua liberdade.
Habitado pelas forças de moções pulsionais que tanto podem estar a serviço da
vida e do amor, quanto a serviço da morte, o homem traz inatas tanto as tendências
criadoras que dele fazem um colaborador na obra da construção do Mundo, quanto
as tendências destruidoras, que o tornam igualmente capaz de aniquilar aquilo que
ele próprio construiu e edificou. Quando o homem se deixa dominar por essas tendências de destruição, as obras de arte, criadas por ele para desafiar os séculos como
monumentos de perene beleza (aere perennius), podem, em alguns segundos, serem
destruídas pela fúria de sua razão enlouquecida.
Violência contemporânea, novas formas de subjetivação e de sofrimento psíquico: desafios clínicos
57
O desejo de destruição
Na violência, o homem não é apenas arrastado por um instinto que não pode
controlar e para que o ato humano seja violento, necessário se faz que ele seja movido
pelo desejo e tenha uma intenção destruidora. Como os demais atos psíquicos, esse
desejo de destruição pode ser consciente ou inconsciente, voluntário ou involuntário,
racional ou irracional; por isso a violência pode ser também racional ou irracional,
voluntária ou involuntária, consciente ou inconsciente. É o desejo de destruição que
distingue a violência dos demais fenômenos de agressividade.
O animal torna-se agressivo quando precisa defender seu território ou caçar
para sobreviver, mas não mata pelo prazer de matar nem pelo desejo de destruir sua
vítima, simplesmente porque ele não pode desejar. Ele é movido não pelo desejo,
mas pela necessidade. Portanto, é o desejo de destruição que dá à ação agressiva sua
dimensão verdadeiramente violenta. Por isso, propriamente falando, só pode existir
violência no contexto das ações e interações humanas, que são movidas pelo desejo e
quando esse desejo veicula intenções de destruição (Costa, 1986).
Vista nesse contexto, a violência não é um fenômeno atual e embora não
tenha sido sempre olhada da mesma maneira, ela sempre existiu na História da
Humanidade. E, no entanto, por mais conhecida que seja a sua natureza mais profunda sempre nos escapa e haverá de nos escapar, porquanto há um fundo de indeterminação no enigma da pulsão de morte, fonte dessas tendências destruidoras, que
nenhuma representação humana é capaz de simbolizar, ou de representar e muito
menos de explicar.
Violência no cenário cultural contemporâneo
Para poder refletir sobre a violência, tal como ela se manifesta no cenário atual dos nossos dias, vamos lembrar as grandes linhas que caracterizam esse cenário.
Hoje, quase com unanimidade, os filósofos da Cultura reconhecem que ele está sendo marcado pela dor de grandes rupturas e de grandes perdas, que afastaram o sujeito contemporâneo dos seus referenciais éticos, os quais fundamentaram a visão que
antes se tinha do Mundo, do Homem e da Vida.
A perda dos referenciais simbólicos e das crenças nas verdades absolutas deu
lugar a uma nova Weltanschauung marcada pelo relativismo e pelo individualismo.
De fato, o autocentramento do eu pós-moderno levou o sujeito contemporâneo a
uma exaltação da sua individualidade e, consequentemente, à dissipação do espírito
de solidariedade. Sem mais um Deus ou um Estado para cuidar de todos, a lei da
sobrevivência passou a exigir que cada um pense somente em si.
Desaparece, desse modo, o espírito de solidariedade, porquanto esta só é possível, quando o sujeito reconhece e valoriza a singularidade e a diferença do outro,
como fonte de enriquecimento e de aperfeiçoamento para a sua própria subjetividade
58
Zeferino de Jesus Barbosa Rocha
e identidade. Mas, para o olhar do eu narcisicamente autocentrado, o outro não é outrem, mas apenas o reflexo de sua própria imagem, ou, pior ainda, deve ser excluído
porque é diferente.
Ao lado dessas mudanças fundamentais que comprometem os ideais de solidariedade, surgem, no plano socioeconômico, a grande festa do consumo e a corrida
desenfreada pelo gozo do imediato, como uma tentativa desesperada de compensar
a ausência dos ideais perdidos. Sem perspectiva de futuro, o lema que o sujeito contemporâneo se dá é o de gozar do presente o mais que for possível.
Primazia do ter sobre o ser
Nessa cultura do consumo excessivo e imediato, subvertendo a noção de sujeito que antes era fundamentada sobre a primazia ontológica do ser, o poder econômico tem lugar de destaque, o qual, por sua vez, decreta e impõe o primado do ter sobre
o ser. Esta nova primazia do ter fomenta, de um lado, um espírito de ganância e de
competição exacerbados, que solapam as bases do espírito de solidariedade entre os
indivíduos e entre os grupos sociais e destrói as redes de sociabilidade antes existentes, tais como: as relações familiares e as relações amorosas e, de outro lado, favorece
a alienação do sujeito na hegemonia das aparências e no culto das imagens, fazendo
de nossa Cultura, o que Christopher Lasch (1983) designou como “cultura do narcisismo”, Jean Baudrillard (1991) como “a cultura do simulacro” e Guy Debord (1992)
como “a cultura do espetáculo”.
Nesse contexto cultural, o outro não é olhado no que tem de diferente nem de
singular, mas é simplesmente reduzido a um objeto de gozo descartável, o que não é
de admirar em um mundo, no qual o descartável vai dos copos plásticos aos ideais
políticos e religiosos. Porque vive em uma sociedade de indivíduos órfãos de ideais
e de verdades simbólicas, os homens contemporâneos correm atrás da sedução das
imagens que lhes são impostas de inúmeros modos e, na falta de identificações verticais e estruturantes, inventam identidades que lhes permitam viver intensamente os
instantes. Essas identidades são adotadas sem convicção alguma.
Na cultura tecnológica em que vivemos e na qual prevalece o primado do ter
sobre o ser, o sujeito sente-se ameaçado de destruição naquilo que o constitui como
singularidade e interioridade. O espírito individualista de competição − no qual o
outro é um verdadeiro inimigo e, portanto, alguém que deve ser superado a todo custo − domina todas as áreas de nossa vida social e cultural: a vida econômica, o mercado de trabalho, a vida acadêmica, a vida de magistério, a vida esportiva, o mundo
empresarial, o mundo artístico, e assim por diante. E esta é uma das características
marcantes da nossa realidade social.
Trata-se de um autocentramento desprovido de interioridade que se caracteriza pelo excesso de exterioridade e de exibicionismo, instituindo, assim, a hegemonia
Violência contemporânea, novas formas de subjetivação e de sofrimento psíquico: desafios clínicos
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da aparência, na qual o sujeito contemporâneo vale pelo que parece ser, e não por
aquilo que verdadeiramente é. Quando os homens perdem de vista seus ideais e o
sentido da solidariedade, quando um comodismo egoísta e um egoísmo comodista
destroem o sentimento das responsabilidades sociais, quando domina a apatia política e se generaliza o descrédito na liderança daqueles que nos governam, está irremediavelmente preparado o terreno para as mais terríveis formas de violência. Neste
contexto, a cultura da violência facilmente degenera, como destacou Costa (1986),
em uma “cultura da delinquência”.
Violência e delinquência
De fato, o delinquente vê o seu eu inflado pelo poder ilusório de uma pseudo-onipotência imaginária e, como todo ideal ilusório, o eu narcísico do delinquente
fecha-se nas suas ambições e não leva em consideração as exigências da realidade,
nem os limites que à sua liberdade coloca a liberdade do outro. Trata-se de um modo
de subjetividade inteiramente fechado, sem nenhuma consideração para os direitos
nem para os apelos da alteridade. O delinquente não tem Lei porque ele é a sua própria Lei. Uma confirmação disso nos é dada, todo dia, no modo arrogante e cínico
como ele atua, não só roubando, mas humilhando e torturando suas vítimas.
Violência e corpo
Em nossa sociedade atual, a violência exerce seu poder de domínio, de modo
especial, sobre o corpo. Paradoxalmente, ele nunca foi tão exaltado e, ao mesmo
tempo, tão violentado como na sociedade em que vivemos. Para seduzir os consumidores, ele e, sobretudo, o corpo feminino, são superexpostos ao olhar de todos com
todo o seu poder de fascínio e de sedução. Constrói-se, então, um ideal de beleza, em
nome do qual o corpo é submetido a verdadeiras torturas, e a maior delas é que o
ideal seja feito de modo a jamais poder ser atingido.
Quando é assim violentado, o corpo não é apenas invadido por um excesso
de estímulos, cuja resolução, somente uma ab-reação adequada poderia assegurar,
mas é invadido pela pulsão de morte, expressão do imenso poder de agressão e de
destrutividade da sexualidade desligada e do gozo sem limites. A angústia que o eu
experimenta, quando é assim violentado, é a angústia da morte.
Fragmentação dos laços afetivos
A violência contemporânea tem também consequências sobre os laços afetivos e amorosos. Refiro-me ao que Bauman (2003), no seu estudo sobre a pós-modernidade, chamou de “amor líquido”. Com esse nome, ele se refere às fragilidades dos
laços afetivos que dominam a nossa sociedade atual. Nela, destacam-se os “amores
nômades”, vale dizer, os amores sem obrigações nem compromissos. Não é difícil
60
Zeferino de Jesus Barbosa Rocha
perceber que esse estado de coisas se deve acima de tudo à fragilidade e à precariedade das identificações do sujeito contemporâneo.
No livro sobre a Identidade, o mesmo Bauman (2005) afirma que estamos perdendo cada vez mais a capacidade de estabelecer interações espontâneas com pessoas
reais, e que, por este motivo, dominam, hoje, as relações virtuais. E isso extende-se
também ao mundo das relações amorosas. Além do mais na sociedade capitalista
em que vivemos, os empregadores capitalistas não se queixariam dos operários sem
laços afetivos, pois, assim, eles seriam mais capazes de aceitar qualquer tarefa e se
tornariam, na feliz expressão de Siqueira (2009), “surfistas capazes de deslizar na
crista de qualquer onda”.
Na verdade, esses vínculos frágeis dão lugar à dura realidade de vidas partidas,
sem amor e sem perspectivas que lhes garantam um futuro. Não é de estranhar que
a depressão seja, então, o resultado de semelhante situação. Como não se tornarem
depressivos os sujeitos destituídos de futuro, de expectativas e de compromissos?
Quando assim se procede, necessariamente se perde a confiança em um projeto de
vida duradoura.
Desses vínculos frágeis, exemplificados no célebre “ficar” contemporâneo, o
efeito mais dramático é a solidão ou o isolamento. Bauman (2003) relaciona essa
instabilidade dos compromissos ao consumismo que não admite postergação à experiência de satisfação. O que não é de estranhar, pois na “modernidade líquida” os
freios institucionais são substituídos pelos desejos singulares.
Que isso nos baste para caracterizar a violência que vem marcando o contexto
sociocultural da contemporaneidade. Vejamos, agora, que novo tipo de sujeito e que
novas formas de sofrimento psíquico estão surgindo dessa situação e que desafios eles
representam para a clínica psicanalítica.
II. Novas formas de subjetivação e de sofrimento psíquico
É unânime, nos meios psicanalíticos, a convicção de que a subjetividade não
se constrói, apenas, no jogo dos processos intrapsíquicos. O nosso mundo interior
intrasubjetivo não é imune aos acontecimentos que se passam fora dele, vale dizer,
no contexto sociocultural em que estamos inseridos. E isto tem uma influência decisiva não só na construção e formação da subjetividade, mas pode também concorrer
para sua desestruturação.
Não é de estranhar, pois, que, nesse novo contexto, surjam novas formas de
subjetivação, ou, como disse Charles Melman (2003), “uma nova economia psíquica”
e que, nesta nova economia psíquica, a “perversão” figure como se fosse uma “norma
Violência contemporânea, novas formas de subjetivação e de sofrimento psíquico: desafios clínicos
61
social”, ou o que é ainda mais inquietante, como se desempenhasse o papel de um
“modelo identificatório”.
Robert Dufour (2005), por sua vez, referindo-se a esse sujeito contemporâneo
fala de um “esvaziamento subjetivo” e afirma que ele perdeu a sua capacidade de se
pensar como sujeito. O novo sujeito psíquico é um ser sem consistência interior, entregue a si próprio, uma vez que perdeu as referências essenciais nas quais antes se
ancorava. Entregue a si mesmo, ele já dá provas daquilo que Alain Ehrenberg (1998)
chamou: la fatigue d’être soi, vale dizer, a fadiga de ser si mesmo.
Tendo perdido seus referenciais identitários, órfão de ideais e de modelos
identificatórios, o sujeito contemporâneo corre atrás dos modelos que lhe são oferecidos e impostos pela mídia e pela moda. Ora, sob o peso das exigências de rendimento e de sucesso que esses modelos impõem aos seus fãs, o sujeito contemporâneo
debate-se com inúmeras novas formas de sofrimento psíquico, entre as quais vamos
destacar a depressão.
Um estilo de ser depressivo
Talvez seja a depressão o sintoma mais característico do homem na situação
contemporânea, em virtude da incapacidade em que ele se encontra de elaborar suas
perdas. Dir-se-ia que o sujeito de hoje caracteriza-se por um “estilo de ser depressivo”, pois para elaborar as perdas ele precisaria de um suporte familiar e sociocultural que hoje lhe falta. Sem este suporte, ele não consegue fazer uma simbolização
adequada da falta e, sem o luto da perda, é impossível criar o espaço, onde novos
investimentos poderiam ser feitos.
De outro lado, Alain Ehrenberg (2000) mostra que a depressão contemporânea é nutrida pela falta de estímulo e de força para responder às diversas demandas
com as quais o indivíduo se vê confrontado. A depressão torna-se, assim, a patologia
de uma sociedade na qual a norma não é mais fundada sobre a disciplina e a culpabilidade, mas sobre a responsabilidade e a iniciativa, e na qual a dor moral é, de certo
modo, substituída pela apatia.
O que torna o homem contemporâneo depressivo não é tanto a culpa oriunda de conflitos não resolvidos ou mal-resolvidos, mas o sentimento de insuficiência,
diante das exigências muito elevadas de desempenho que lhe são impostas, tanto no
plano da estética da existência, quanto no plano do rendimento profissional. O que
angustia o depressivo de hoje não é “saber o que é, ou não é, permitido fazer”, mas
“saber o que é possível fazer e não ser capaz de fazê-lo”. A depressão torna-se assim
uma patologia da insuficiência mais do que uma patologia da frustração ou da culpa.
Além do mais, tendo o grande Outro social perdido os seus atributos simbólicos, ele
se tornou um superego cruel e tirânico, que desculpabiliza o sistema e culpabiliza o
indivíduo por causa de sua incompetência.
62
Zeferino de Jesus Barbosa Rocha
Pode parecer estranho falar-se de uma “patologia da insuficiência”, quando
se trata do sujeito contemporâneo, uma vez que nos acostumamos a pensá-lo como
um sujeito narcísico, centrado em si mesmo e indiferente às demandas dos outros.
Todavia, como já foi dito, este autocentramento é desprovido de interioridade e, por
isso, constantemente se exterioriza no fascínio das aparências para poder gozar da
admiração dos outros.
Nessa nova forma de economia psíquica do sujeito contemporâneo, o desejo
que é sempre revelador da falta, é substituído, como já tivemos oportunidade de
dizer, pelo gozo sem limites dos prazeres excessivos e imediatos. E como desapareceram os referenciais simbólicos, o homem contemporâneo é cada vez mais exposto ao
impacto traumático desses estímulos e excitações, que se descarregam na realidade
de seu corpo.
E temos, assim, ao lado dos depressivos, os sujeitos panicados e a grande legião dos drogados, dos anoréxicos e dos portadores de doenças psicossomáticas.
Todos eles, a seu modo, descarregam no corpo a carga excessiva dos estímulos que
não puderam elaborar psiquicamente por causa da pane simbólica que os domina.
III. Desafios clínicos
Em um mundo, como o nosso, no qual predomina o espírito tecnológico da
produtividade para atender às demandas do consumo do modo mais rápido possível;
em um mundo onde as distâncias são cada vez mais reduzidas e no qual a velocidade
e a rapidez vão se tornando, no mercado, critérios de preferência e de escolha; em
um mundo assim, não resta muita chance para uma terapia, cujo pressuposto básico
é a não preocupação com o tempo, porquanto sua eficácia é marcada pelo ritmo de
uma outra temporalidade, a do tempo interior próprio de cada cliente que é uma
modalidade de tempo totalmente diferente do tempo cronológico; em um mundo
em que a técnica está cada vez mais desumanizando o humano, qual a chance de uma
terapia, cuja finalidade é modificar estruturalmente as pessoas, a fim de que elas possam assumir seus desejos e construir um estilo para suas existências? Pois bem, em
um mundo assim, não é de admirar que a Psicanálise e a clínica psicanalítica estejam
perdendo o seu prestígio. Mas, nem por isso, dela podemos prescindir.
Portanto, levando isso em consideração e para fazer face e se confrontar com
os desafios que a contemporaneidade levanta, a psicanálise e particularmente a clínica psicanalítica devem ser capazes de repensar muitos aspectos de seu arcabouço
teórico e de sua escuta clínica.
Violência contemporânea, novas formas de subjetivação e de sofrimento psíquico: desafios clínicos
63
E para tanto, mister se faz olhar a psicanálise como uma forma de saber em
evolução e não como um saber sistematizado e estabelecido. Uma teoria sempre
“aberta à revisão” (como queria Freud) para poder atender às exigências da clínica,
que ela também muda segundo o contexto sociocultural em que está inserida.
Breve, ver a psicanálise como uma teoria que sempre está se transformando e
não como uma doutrina dogmática imposta por um mestre, cujos discípulos nada
mais têm a fazer senão repetir o que ele disse. Repensar a teoria é ter coragem de
trabalhar não só o que a Psicanálise diz sobre as novas patologias da contemporaneidade, mas também perguntar o que essas patologias têm a dizer à Psicanálise, no
sentido de ajudá-la a repensar seu arcabouço teórico.
Além disso, a psicanálise, para responder aos desafios contemporâneos, deve
repensar seu modo de escuta para melhor acolher o grande número de clientes, que
a procuram esmagados pelo enigma de uma dor que eles não sabem dizer o que é,
porque não podem representá-la por meio das palavras. Para que esta escuta seja
mais acolhedora, não basta levar em consideração apenas as histórias individuais
dos clientes, mas o entorno social e cultural nos quais eles vivem. Mais do que interpretar os sintomas e os sonhos e todas as formações do inconsciente, necessário
se faz criar novos sentidos, ou melhor, abrir, pela interpretação e pelo trabalho das
representações (Vorstellungen) o espaço onde o Inconsciente possa fazer suas presentações (Darstellungen), abrindo, ao mesmo tempo, o campo da criatividade, no
qual o cliente possa assumir os projetos de seus desejos e se empenhar na realização
de seus sonhos.
No mundo contemporâneo, o imaginário social também não é mais o mesmo.
Faço minha a pergunta de Da Poian (1999): se o Inconsciente é o outro e se produz
na confrontação do campo do real e do social, que será o inconsciente amanhã nesse
mundo do produtivismo e do consumo, de tanto individualismo e de tão pouca solidariedade, nesse mundo do vazio interior e do colapso das identidades e do fascínio
das palavras vazias?
Portanto, o grande desafio clínico que nos aguarda é levar o sujeito que nos
procura, dominado pelo excesso da dor, a inventar uma nova maneira de ser, a partir das experiências vividas nas situações, que marcam a trajetória de seu existir no
Mundo. Ou, dizendo de outro modo, o grande desafio clínico é dar sentido à dor do
não sentido. Para tanto, o analista escuta(dor) e cuida(dor) tem que se confrontar
com o não-representável, esperando pacientemente que ele se torne possível de nomeação. E isso não poderá ser conseguido, se ele não acreditar na linguagem potencial do sofrimento.
E que me seja, então, permitido lembrar, mais uma vez, o trágico Ésquilo
(1982) que cunhou a expressão que se tornou clássica: páthos máthos, vale dizer,
sofrer e aprender. Assim olhado, o sofrimento revela que se, por um lado, nosso ser
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Zeferino de Jesus Barbosa Rocha
é marcado pela contingência dos limites, do nada e da morte, por outro, ele não é
menos aberto para o extraordinário milagre da vida.
IV. À guisa de uma conclusão
Anunciei, no início, que, no fim do artigo à guisa de uma conclusão, tentaria
mostrar como a crise que nos domina, constituída pelas novas formas de subjetivação e de sofrimento psíquico condicionadas pela violência contemporânea, não é
necessariamente uma crise de desespero, pois nosso momento histórico atual é um
momento de desafio e de esperança. Sendo o ser humano, na sua realidade ontológica, um ser capaz de pensar a questão do seu ser e de seu agir, segue-se que ele não
está irremediavelmente preso a nenhum momento histórico e deve, como lembra
Oliveira, M. (2001), assumir os desafios de superação diante dos obstáculos que a
vida e a história lhe oferecem.
Talvez, a esse propósito fosse oportuno lembrar o que Heidegger (2001) ensina quando define o Dasein – o ser-aí laçado no mundo - como um Seinkönnen, vale
dizer, como um poder-ser. Antes que uma realidade determinada, o ser humano é
um conjunto de possibilidades que estão sempre abrindo perspectivas para novos
horizontes de conquistas, por meio das quais o homem realiza seu projeto existencial
no Mundo.
E como este conjunto de possibilidades é fundamentalmente constituído pela
temporalidade, enquanto houver tempo, ele não termina jamais de se atualizar.
Nenhuma situação de desamparo, por mais difícil que seja, poderá esgotar esse conjunto de possibilidades que nos define. Só a morte – “a possibilidade da impossibilidade” − pode pôr um fim a esse poder-ser que é o Dasein, enquanto ser no mundo.
Se este é nosso fundamento ontológico, compreende-se que seja a esperança que
sustenta nossa capacidade de sonhar, alimenta as fantasias de nossos desejos e cria
nossos projetos de amanhã.
Em nossa realidade histórica, a consciência ecológica, nacional e internacionalmente imposta como absolutamente necessária para salvar nosso planeta da destruição, ajuda-nos a sustentar essa atitude de esperança. Foi preciso que chegássemos ao
extremo da deterioração do meio ambiente e que os físicos e cientistas nos advertissem do risco que estamos correndo, para que essa consciência ecológica conquistasse simpatia e adesão internacionais. Não poderia acontecer o mesmo com a nossa
consciência moral?
Se formos capazes de pensar um novo éthos para nossa civilização, um éthos
da cooperação no lugar desse triste éthos da competição que nos tiraniza, a crise social
Violência contemporânea, novas formas de subjetivação e de sofrimento psíquico: desafios clínicos
65
e política poderá adquirir a dimensão de uma crise de esperança e esperança não é
esperar, mas caminhar na direção de novos horizontes e de novos ideais. Pouco importa que eles não estejam sempre ao nosso alcance. O importante é caminhar. Mas,
como disse o poeta Mário Quintana: “que tristes os caminhos, se não fora a presença
das estrelas”.
Violencia contemporánea, nuevas formas de subjetivación e
sufrimiento psíquico: sus desafíos clínicos
Resumen: este artículo pretende investigar cómo la violencia contemporánea ha estado
produciendo nuevas formas de subjetivación, que, a su vez, implican nuevas formas de
sufrimiento psíquico, que plantean grandes desafíos a la clínica psicoanalítica de nuestros días.
Palabras clave: violencia, subjetivación, angustia, clínica psicoanalítica.
Violence contemporary, new forms of subjectivation and
psychic suffering: their challenges clinics
Abstract: The present article has the aim to investigate the way that the contemporary violence
is producing new forms of subjectivation, that imply new forms of psychic suffering, which
represent big challenges to the clinics of our days.
Keywords: Violence, subjectivation, psychic suffering, psychoanalytic clinics.
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Zeferino de Jesus Barbosa Rocha
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Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-graduação em Psicologia Clínica da Universidade
Católica de Pernambuco.
Zeferino de Jesus Barbosa Rocha
Rua Conselheiro Portela, 139, ap. 502 | Espinheiro
52020-030 Recife, PE
Tel: 81 3244-7647
[email protected]
© ALTER – Revista de Estudos Psicanalíticos
ALTER – Revista de Estudos Psicanalíticos, v. 30 (2) 67-82, 201267
O declínio da interpretação e a
contemporaneidade da psicanálise
Roberto Barberena Graña1
Resumo
O autor procede a uma crítica da interpretação tradutiva, ou decifrativa, apontando sua
natureza doutrinária e alienante, e defendendo o minimalismo da intervenção analítica como
característica da contemporaneidade da psicanálise. Posteriormente, o autor critica a versão
científico-tecnológica, que propõe um novo paradigma para o pensamento e a atividade clínica
do analista contemporâneo, o qual retoma a metapsicologia e a hermenêutica privilegiando o
formato histórico-genético-dinâmico da interpretação.
Palavras-chave: interpretação; decifração; indicação; presença; hermenêutica; metapsicología;
intersubjetividade; contemporaneidade.
Sobre ser/estar, testemunhar e intervir
Se a expansão desconstrutiva do campo reflexivo, discursivo, e por consequência operativo, da psicanálise contemporânea se viu sacudido por um acontecimento
que assumiu a dimensão de escândalo, este consiste, sem dúvida, na perda progressiva do valor teórico/descritivo e da eficácia prático/operacional de um dispositivo até
então considerado fundamental: a interpretação. A própria démarche freudiana teve
como efeito imanente, e talvez inadvertido e mesmo indesejado, a progressiva despotencialização heurístico/pragmática de um saber pretendido acerca do significado
que, em diferentes momentos, definiu a forma e orientou o sentido da ação clínica e
terapêutica, conduzindo do método da hipnose ao método da pressão e, por fim, ao
da associação livre.
Desde as primeiras décadas do século passado havia certo mal estar com os
pressupostos teóricos e com o agenciamento clínico do trabalho psicanalítico que
transparecia nos escritos, mais ou menos concordantes ou obedientes, dos primeiros colaboradores e discípulos do Mestre. Os mais inteligentes e criativos tendiam a
conflitar desajeitadamente com os pressupostos freudianos, já que, se o desconforto
intelectual era evidente, não se sabia, porém, como fazer frente à notável articulação
lógica do pensamento de Freud e à coerência demonstrada entre o desenvolvimento
da teoria e seus precipitados operacionais.
1 Membro titular da SBPPA. Doutor em literatura pela UFRGS.
68
Roberto Barberena Graña
Se os “desvios” de Jung, Adler e Rank foram, a seu tempo e justificadamente,
apontados como derivações equívocas que se orientavam a outros campos e fins e
se afastavam essencialmente dos pressupostos epistêmicos que definiam e delimitavam o campo de investigação da psicanálise, o mesmo não se observava no desenvolvimento teórico-clínico de Sándor Ferenczi. A percepção de Ferenczi de que
algo havia de impróprio ou improcedente na construção do saber psicanalítico e na
forma de operá-lo, seguida de algumas tentativas pouco exitosas de remodelá-lo (a
técnica ativa, a análise mútua, a teoria da genitalidade etc.), mas conduzindo por
fim a formulações maiores que estão na base da redescrição da teoria e do método
clínico da psicanálise na contemporaneidade, como as adaptações da técnica para o
tratamento de pacientes com patologias narcísicas ou “alterações do Eu” – os quais,
segundo Freud (1937), não se beneficiavam do tratamento psicanalítico –, a necessidade de oferecer a determinados pacientes um ambiente protegido e confiável que
oportunizasse a regressão e o reencontro com traumas primitivos e o aparecimento
de formas mais verdadeiras e espontâneas de ser, a formulação das interpretações em
linguagem apropriada ao nível regressivo e compreensivo do paciente, a importância da presença gentil, discreta, consistente e empática do analista (que contrastava
com a instabilidade e violência do ambiente familiar traumatogênico), a utilização
de recursos da análise de crianças para a comunicação com os pacientes regredidos,
e muitas outras, impuseram-se silenciosa, mas decisivamente, atendendo as necessidades de revisão do método para ajustá-lo a um novo tempo e a um novo sujeito que
manifestava o seu mal estar de forma notavelmente diferente2. Ferenczi apontava,
sobretudo, para a inevitabilidade – e mesmo a necessidade – da perda da aura clínica
na qual se sustentava o exercício autoritário de um saber psicanalítico que protegia o
analista do encontro vivo, espontâneo, autêntico – embora mediado pela transferência – com seu paciente, conduzindo-o a operar “tecnicamente” uma fria e distante
impessoalidade espetaculizada numa afetada estereotipia comportamental.3
O que, mais que tudo, tornava-se evidente, então, era o desconforto com a
ostentação de um conhecimento absolutizado que obscurecia a falta e elidia o lugar
da ignorância no interior da relação analítica, o que Lacan incessantemente denunciou como sendo o grande patrocinador do encerramento do sujeito no imaginário.
Aqueles que fizeram o melhor uso da leitura da obra de Ferenczi herdaram dele a
dúvida, nada cartesiana, acerca das pretensões ingênuas do ego humano com vistas
a um saber definitivo sobre aquilo que em essência o constitui. Ferenczi foi o pai do
que se conhece e designa hoje como psicanálise intersubjetiva ou psicanálise vincular. Michael Balint assimilou por via direta (visto haver-se analisado com Ferenczi)
a perspectiva ferencziana da análise e escreveu sua obra norteado por aqueles
2 Cf. Ferenczi, S. (1992).
3 Ferenczi, S. (1985).
O declínio da interpretação e a contemporaneidade da psicanálise
princípios4. Winnicott e Lacan, de outra parte, são os autores que mais decisivamente influenciam o pensamento psicanalítico contemporâneo inspirado nessa vertente,
e que conduziu a uma nova leitura de Freud com o uso dos óculos confeccionados
por Ferenczi.
Com Ferenczi, Winnicott, Lacan, Balint, Kohut, uma nova categoria, de ressonância metafísico-filosófica, ganha importância na teoria e na clínica psicanalítica:
o ser. Se Freud tinha todas as boas razões do mundo para evitar a referência a este
conceito, pois era mister prevenir a contaminação da linguagem psicanalítica pela
nomenclatura filosófica, sendo antes recomendável aproximá-la do discurso da ciência – a linguagem metapsicológica parece considerar essa exigência –, os freudianos
originários (como Ferenczi) e os contemporâneos (como Lacan e Winnicott) souberam distinguir a psicanálise das Naturwissenschaften5 e estiveram mais à vontade
para fertilizá-la interdiscursivamente servindo-se das contribuições ao conhecimento aportadas por áreas afins, como a filosofia, a linguística, a antropologia, a sociologia e a teoria literária.
As obras de Kant (o filósofo por trás do cientista Freud), Hegel, Kierkegaard,
Nietzsche, Husserl, Heidegger e, mais recentemente, Sartre, Merleau-Ponty, Deleuze,
Derrida, Barthes e Blanchot farão transversalidade no discurso psicanalítico que hoje
veiculamos, elíptica ou expressamente indicadas. A reconsideração pós-freudiana da
noção de ser, orientará agora a atenção do analista para as circunstâncias subjetivas, ambientais e relacionais nas quais o seu si-mesmo (self) e o do paciente fazem
presença viva na produção do acontecimento ao qual nos referimos como relação
analítica.
O ser é, não obstante, presença, e este é o ponto onde a crítica derrideana
(1967) da metafísica da presença falha em contribuir para a redescrição da situação psicanalítica, sendo, de outra parte, de grande utilidade no agenciamento das
desconstruções operadas pelas novas leituras de Freud – ideia inspirada na noção
heideggeriana de destruição (1989). O ser e a presença são condições de possibilidade da experiência da verdade, e a fortiori da realidade, em Winnicott, na medida
em que implicam a destruição, a relação e o uso do objeto6 (do Outro), conquista
maior do processo de subjetivação. O analista analisa com seu ser, dirá Winnicott,
com sua presença viva, psicossomática, empática, consistente, o que aparentemente
se opõe à posição lacaniana de que o analista analisa com sua falta de ser (manque à
être). A exortação lacaniana a todo psicanalista para que coma o seu dasein (1956),
favorecendo dessa forma a instalação do Outro (imago) na relação transferencial,
4 Cf. principalmente Balint, M. (1965, 1967).
5 Na filosofia de Dilthey (1911), as ciências da natureza.
6 Ver Winnicott, D.W. (1971) e Graña, R.B. (1998).
69
70
Roberto Barberena Graña
peca, deve-se necessariamente apontar, por uma inadvertida, embora coerente, ingenuidade “estruturalista”.
Quando Lacan recomenda ao analista fazer o morto (1958), ou silenciar em si
(Nasio, 1996), obviamente não está sugerindo – conforme o leio – que este emudeça
ou que se torne anempático ou impessoal (os relatos dos ex-analisandos de Lacan
são suficientes para demonstrar que ele tinha uma relação bastante “emocional” com
seus pacientes, às vezes passional), mas que induza em si próprio um estado de auto
opacidade capaz de estabelecer as condições ótimas para o exercício da psicanálise
– a exclusão do seu dasein, por assim dizer, que foi frequentemente confundida, no
meio lacaniano, com um silenciar real, um “nada falar”. Equivoca-se, porém, Lacan,
ao crer que no próprio ato de imposição de neutralidade ou de silêncio a si próprio o
ser do analista não participe ativamente.
O que o si-mesmo do analista institui, a título de neutralidade – um pretenso não ser, ou uma falta de ser – é nada mais, nada menos, que uma determinação
estilística emanada do mais profundo de seu ser. Le style est l’homme même: a máxima de Buffon encantava a Lacan e Winnicott, e o que ela afirma e sustenta é a
impossibilidade de o sujeito humano postar-se no mundo sem desenhar nele o seu
retrato, o que implica a inevitável imposição e atuação de um estilo – o agenciamento
ímpar de seu ser-no-mundo (Sein-in-der-Welt). Melhor diria Lacan se recomendasse ao analista engolir o próprio Eu (ich, moi, ego) ou excluir da cena analítica a ação
idiossincrática da sua “pessoa”, a atuação da soma de seus preconceitos e valores
pessoais, ao que Lacan costumava referir-se simplesmente como contratransferência. Pelo direito, ou pelo avesso, como demonstrei em outra oportunidade7, Lacan
encontra-se, grande parte das vezes, em consonância com Winnicott – basta saber
lê-los considerando suas respectivas origens e influências formadoras – embora ambos possam enunciar suas ideias aparentemente de forma bastante diversa ou antagônica.
Com as noções de ser (que não exclui a falta de ser), transcendência do si-mesmo8 (que é condição da verdade), consistência (que não exclui a ex-sistência),
verdade (como incessante intermitência de mostração e ocultação), o que denominei
de testemunho presencial9 – a convalidação do acontecimento pelo estar-aí do analista – assume a forma e a força de uma intervenção tanto ou mais poderosa que a
atividade interpretativa. Lacan usou (eventualmente abusou) do poder da presença,
embora encontrasse a ausência em tudo; os diversos depoimentos de seus alunos,
analisandos e supervisionandos o corroboram.10 O obstinado demonizador do ima7
8
9
10
Graña, R. (2011).
Cf. Heidegger (1996).
Graña, R. (2010).
Cf. Didier-Weill, A. e Safouan, M. (2007).
O declínio da interpretação e a contemporaneidade da psicanálise
ginário serviu-se, paradoxalmente, mais que ninguém da força impressiva, expressiva e analítica da imagem, no ensino e na atividade clínica. Nas sessões de análise,
cada vez mais breves e silenciosas, o que operava terapeuticamente implicava o ser, a
presença e a ação curativa da transferência suportada, ou do desejo do analista – que
a sustentava. Lacan jamais conseguiria comer o seu dasein, como aconselhava aos
analistas, tanto quanto Freud jamais praticaria a neutralidade clínica por ele recomendada.11
As advertências de Balint sobre a importância do analista anobstrutivo, de
Winnicott sobre o analista não intrusivo, e de Lacan sobre o analista não egoico
postulam, segundo entendo, não a eliminação de seu ser ou de seu ser-aí, mas a subsunção deste, atendendo aos requisitos concessionais, às exigências narcísicas inadvertidamente impostas pelo paciente ao analista nas etapas iniciais do tratamento (e
isto pode implicar alguns meses ou anos). O analista analisa – sintetizemos – com
seu ser e com sua falta de ser; não há aí contradição, embora esta posição conveniente
somente seja formulável sob a feição de um aporema. São parte dessa ação de presença do analista sua vitalidade, atenção e sutileza. O ajuste do analista ao que denominei requisitos concessionais do narcisismo do paciente exclui, necessariamente,
qualquer intervenção confrontativa, decifrativa ou explicativa. A confrontação é instrumento do psiquiatra ortopedeuta; a decifração, prerrogativa do exegeta; a explicação, dádiva do mestre. Atento à sugestão de Winnicott (1960) de que a intervenção
“alterativa” é a que se realiza no interior da órbita de onipotência do sujeito, propus
que as atitudes clínicas mais convenientes ao exercício libertário da análise (desprezo
aqui os arrebatos estruturalistas lacanianos que o levam – contra Sartre – a qualificar
a ideia de liberdade como um simples produto do discurso delirante: obviamente,
falo da liberdade humana tal como Kant fala de conhecimento humano, considerando tudo o que de uma forma ou outra os condiciona; se algo pode ser referido como
liberdade, porém – e o significante não está aí por acaso –, não integra o ser do coiote
ou do mustang) impliquem a indicação lúdica (destacando o sentido do playing no
pensamento winnicottiano) e o que foi antes referido como testemunho presencial (a
confirmação do événement pelo ser-estar-aí do analista).
A hermeneia grega enfeixa os sentidos de descrever, enunciar, esclarecer e decifrar. Que lhe atribuamos o significado unívoco, na tradução, de interpretação (no
sentido de descodificação) conforme à deutung freudiana, conduz à soldagem de
um significante a um significado bastante particular e embarga o efeito de spreading do sentido buscado por Lacan ao propor a formulação da interpretação como
assinalamento, pontuação, indagação ou escansão. O ato de tornar consciente o
11 Em seu Seminário... ou pior (1971-1972), recentemente traduzido para o português, ele se pergunta:
“Será que é o saber que cura, seja ele o do sujeito ou o suposto na transferência, ou será que é a
transferência, tal como se produz numa dada análise?”(p. 188).
71
72
Roberto Barberena Graña
inconsciente, ou de tornar patente o latente, produz um inevitável efeito chocante
que é compatível com a extração forçada de um saber acerca da quididade ou da
intimidade resguardada do sujeito/analisando. É desta forma sábia e soberba – que
hoje significamos como inabilidade ou imaturidade do analista – que por muito tempo se veiculou e exerceu um saber pretendido absoluto – mais que suposto – sobre
um inconsciente também concebido de forma absoluta, não contingencial, onde se
armazenariam todos os segredos de uma vida cuja chave o analista carregaria consigo, colocando-a, de tanto em tanto, ao alcance do olhar sofrente e sôfrego de seu
analisando.
Quando Michel Foucault (1988) critica a psicanálise, apontando-a como mais
um dos dispositivos do qual o poder se serve para controlar até seus confins a intimidade dos sujeitos, comparando a análise com a confissão católico/cristã e aduzindo
que ela libera o discurso sobre a sexualidade para melhor controlar o seu exercício,
quando Gilles Deleuze (1972) critica a psicanálise por seu encerramento no modelo edípico, que despreza tudo o que é da ordem da multiplicidade e da fragmentação e formata unificadamente o pensamento do psicanalista, ajustando-o ao padrão
convencional que despreza a potencialidade criativa e revolucionaria da dimensão
psicótica da subjetividade, é a esta psicanálise, eclesiasticamente regulamentada e
exercida, que eles se referem.
Em sua releitura do Homem dos lobos e do Pequeno Hans, Deleuze (1993)
critica a tendência de Freud a interpretar o material clínico de acordo com seus pressupostos teóricos, mesmo que uma operação de forçamento deforme o relato dos
sonhos ou das circunstâncias em que o sintoma se constituiu. Segundo diz, nada
justifica que o cavalo temido por Hanz seja tomado unicamente como uma representação do pai, quando tantos “outros” significativos ou fatores diversos eram também
partes componentes daquela complexa situação, ou que os cinco ou seis lobos do
sonho de Serguei sejam reduzidos a um único lobo, logo interpretado como uma representação simbólica do pai. O questionamento de Deleuze é por sua vez passível de
questionamento, sobretudo se o considerarmos à luz das redescrições da teoria e do
método clínico da psicanálise operadas pelas obras de Ferenczi, Winnicott e Lacan.
Sua crítica parece estar dirigida, sobretudo, a Freud; ao modelo edípico, à interpretação e à representação; seu conhecimento da obra de Lacan parece ser pequeno, embora se oponha veementemente à teoria do significante, e sua leitura de Winnicott
é incipiente, embora se utilize eventualmente da ideia de objeto transicional. Talvez
ele esteja, em sua crítica, mais próximo dos dois últimos do que chegou em seu tempo a poder perceber ou mesmo conhecer – mais que reconhecer.
A indicação lúdica é um recurso privilegiado para a intervenção não intrusiva
do analista que está em total sintonia com a afirmação de Winnicott de que as interpretações efetivas, ou alterativas, são aquelas formuladas no interior da órbita de
O declínio da interpretação e a contemporaneidade da psicanálise
onipotência do indivíduo (1960), e que prescindem ipso facto da noção de indivíduo
(veja-se a inadequação do pensamento fundado na metapsicologia, ou na noção de
instâncias, energias, conflitos ou mecanismos intrapsíquicos para a compreensão clínica de tais situações), ou seja, as que lhe são apresentadas como se pudessem estar
sendo simultaneamente criadas pelo próprio analisando e vividas como produções
subjetivas, intervenções que não sejam imediatamente identificáveis como externas
ou provindas de outro lugar que não do próprio si-mesmo (self) narcísico e onipotente do paciente. É nesse sentido que Winnicott (1971) sustenta a posição de que ao
interpretar pretende apenas deixar o paciente conhecer os limites da sua compreensão, pois acredita que é o analisando, e só ele, que possui as respostas para as questões (ou a ausência de questões) que estão na origem de seu sofrimento. A indicação
lúdica (Graña, 2010), que assume principalmente a forma da interpretação na metáfora, da intervenção não diretiva ou da interpretação a partir do papel atribuído ao
analista (imago), requer a prévia compreensão da noção de playing em Winnicott, ou
da ação “produtiva” (ou facilitadora, para Winnicott) operada pelo analista visando
o desvelamento acontecimental da verdade do sujeito na transferência.
O analista cuja experiência se limita ao trabalho clínico com pacientes adultos
encontra alguma dificuldade para entender como isto se processa e se instrumentaliza nas sessões de análise. Antes de tudo é necessário afastar a ideia de brinquedo da
sua original vinculação com a análise de crianças. Embora Winnicott se tenha inspirado, e muito, na sua experiência clínica com pacientes de pouca idade para elaborar
sua teoria do playing, este se relaciona enquanto recurso “técnico” mais estreitamente com a necessidade de “sustentação da indistinção” no trabalho analítico com os
pacientes ditos narcísicos, o que constitui a maior parte da clientela psicanalítica
na contemporaneidade. Ferenczi (1931) já demonstrava estar ciente disso quando
sugeria a utilização dos instrumentos comuns à análise de crianças no tratamento de
adultos traumatizados.
Se, como afirma Derrida (1967a) desde a sua cátedra filosófica, a diferença é
condição da vida, isto só se aplica à perspectiva ontológica de um sujeito simbolicamente constituído e reconhecido em sua condição individual. As caracteropatias
narcísicas ou transtornos do self, exaustivamente estudados por Winnicott e Kohut,
revelam ao clínico – imediata ou gradativamente – sua impossibilidade ou recusa
(questão discutível, já que não lidamos com sinônimos) de reconhecimento da existência autônoma do Outro. Nas circunstâncias traumáticas que se fenomenalizam
sob a forma clínica das perversões (cujo excesso se espetaculiza sexualmente) ou
assumem a feição clínica das sociopatias (cujo excesso se espetaculiza destrutivamente) constata-se sempre a agressivização, mais ou menos psicótica, da insurgência
vingativa atuada contra um Outro traumatogênico cuja violência imaginária (que
eventualmente independe de sua ação real) colocou sob ameaça de aniquilamento
73
74
Roberto Barberena Graña
o self nuclear ou o sujeito originário. Tais pacientes, porém, raramente acedem ao
consultório psicanalítico, sendo mais frequentemente examinados nas instituições
carcerárias ou nos institutos psiquiátricos forenses. Os que nos chegam, não seriam
já sujeitos perversos, como apontou Lanteri Laura (1979), ou sociopatas típicos.
Aqueles que mais comumente recebemos, porque se orientam espontaneamente ou sob recomendação não coerciva para a consulta psicanalítica, e a que costumamos referir-nos como portando patologias do self, ou do desejo, ou do vazio,
padecem mais frequentemente de hemorragias narcisistas decorrentes de traumatismos cumulativos que produziram uma torção constitutiva (ou “desenvolvimental”),
uma desfiguração das formas mais elementares, vitais e espontâneas do ser-no-mundo. Para estes refugiados na onipotência, ou dependentes de artifícios defensivos
qualificados por Winnicott de maníacos (que implicam a negação da miséria psíquica), a aceitação analítica da distinção (outredade) implica uma tarefa pessoal aparentada ao impossível.
É sob tais circunstâncias ou contingências da clínica psicanalítica, exatamente,
onde podemos dizer que a interpretação, concebida e formulada no estilo tradutivo,
decifrativo, decodificante vive hoje o seu ocaso ou o seu declínio. Se temos, como indicador da direção do tratamento, ou como propósito maior da análise, fazer emergir
a verdade do sujeito, esta se produzirá, certamente, no desvelamento de um oculto a
si, não implicando, porém, algo que esperava já para ser descoberto, mas a produção
pontual de um inexistente, de um inconsciente que é antes de tudo acontecimental,
de um insabido (l’insu que sait, dirá Lacan) cujo saber de si emerge com o acontecimento – que se eleva acima da estrutura ao modo de uma erupção ou excrescência –
e cujo nome é firmado pelo sujeito adventício que o próprio acontecimento produz.
Afastamo-nos, portanto, da metáfora arqueológica freudiana, a qual sugeria
que os fatos, os traumas, os significados, os objetos poderiam ser retirados das profundidades a que o soterramento repressivo os remetera e ser trazidos à luz em seu
estado original, evidenciando-se seu sentido à medida que o cinzel do arqueólogo
removia a crosta que os recobrira. Com Deleuze (1968), chegamos a saber que por
trás de todo simulacro haverá sempre outro simulacro, e por trás desse outro um
outro, sem que em nenhum momento cheguemos ao que se supunha estar em algum
lugar: a versão original. Apenas porque ela não existe. Constatação coincidente com
a afirmação de Lacan de que não há um significado a priori, de que no centro de toda
subjetividade há um buraco, e que o máximo que poderemos fazer ao longo de uma
longa análise é caminhar por suas margens ou circular por suas bordas. É esta a constatação que faz o escândalo do hermeneuta clássico, e que aproxima o trabalho clínico do psicanalista contemporâneo de um tatear errante, que assume logo a forma
de um tatear perscrutante (apoiado em assinalamentos, indagações, realçamentos,
esboços, tracejos, rabiscos, clarificações, interjeições), e que eventualmente enseja
O declínio da interpretação e a contemporaneidade da psicanálise
uma celebração (Ah!… ou: Sim!… ou: Aí está!). Toda a interpretação pretensiosa,
do ponto de vista do abarcamento de significados, de sua revelação e compreensão,
corre sempre o risco de enveredar pela sugestão; e é sobretudo em face disto que as
qualidades distintivas da intervenção psicanalítica na contemporaneidade serão o
minimalismo, a brevidade, a simpleza.
O que entendemos por Psicanálise Contemporânea?
Quando propus (Graña, 2011) que a psicanálise contemporânea, se é que ela
existe – já que Foucault (1969) pulverizou há algumas décadas as unidades discursivas – poderia ser enunciada como uma psicanálise pós-estruturalista, sustentei que
o movimento interno que possibilita avançar em meio à babelização crescente do
campo psicanalítico sugeria um caminho que articulava os escritos dos últimos dez
anos de Freud (tendo como sintagma Análise terminável e interminável [1937], cuja
extemporaneidade anunciava o trabalho a ser realizado nas décadas seguintes), com
os escritos da maturidade de Ferenczi (redigidos no início dos anos 1930, juntamente com o seu Diário Clínico [1932]) que introduziram a ideia de uma “análise
da relação”, plenamente desenvolvida por Lacan (primeiro autor a utilizar o termo
intersubjetividade em psicanálise) e por Winnicott, originando tudo o que se pode
hoje entender ou designar em análise como “contemporâneo”. Tal desdobramento
só pode ser considerado, a meu ver, se atentamos para a relação dos escritos psicanalíticos com a filosofia contemporânea, a literatura contemporânea ou a crítica
contemporânea, o que exige do analista que pretende abordar o tema uma ampliação
do círculo de seus Interessen na direção da prosa do mundo.
Isto instiga uma reflexão extemporânea, no sentido nietzscheano (Haverá dúvida de que a contemporaneidade do pensamento começa com Nietzsche?), ou seja,
um pensamento que transite por outros tempos e lugares para poder dizer daquilo
que no presente instantâneo se está vivendo12. Dir-se-ia, então, que o contemporâneo é o extemporâneo? Confirmemos, provisoriamente, na medida em que a voz que
diz da contemporaneidade apenas se poderá fazer ouvir quando fizer-se ausente da
estrutura que busca capturar. Somente esta voz demarcará o kairós da contemporaneidade na infinitude do aión.
Advirta-se, portanto, a impropriedade da aplicação da teoria de Thomas Kuhn
(1962), que endossa uma estrita perspectiva diacrônica – impropriedade na qual incorre Fernando Urribarri (2012) em um artigo publicado na Revista Brasileira de
Psicanálise sobre o pensamento clínico contemporâneo – para abordar a história
12 Ver Agamben, G. (2008).
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das ideias. A teoria do paradigma (na sua estrita acepção kuhniana) poderá talvez
aplicar-se à história da ciência ou da filosofia da ciência, e mesmo para tal fim sua
formulação e utilização são altamente discutíveis. A história do pensamento, porém, não está escandida pela emergência, vigência e obsolescência de paradigmas.
Nenhum grande filósofo é superado jamais (Heidegger, 1989). Desta ingênua e ignara convicção originam-se livros cujos títulos evidenciam da capo a sua obtusidade
filosófica, como: Platão estava errado, ou O erro de Descartes, ou sua obtusidade
psicanalítica, como: Freud, o crepúsculo de um ídolo, ou Lacan, do equívoco ao impasse, para nomear somente alguns títulos mais recentes. As universidades fervilham
hoje de teses sobre Platão, Aristóteles, Descartes, Hume, Kant, Hegel, Kierkegaard
– para fazer referência apenas àqueles que, no juízo leigo, “já estariam superados”. E
equivoca-se quem pensa que a totalidade destes novos estudos não avança além de
simples revisionismos, pois o que torna mencionável parte importante deles é o fato
de que estes escritos fazem trabalhar os filósofos de outro tempo fazendo-os dizerem
o novo sobre o tempo que vivemos.
Deve-se, pois, considerar os riscos assumidos ao pretender falar sobre a contemporaneidade desconsiderando o pensamento filosófico designado pelos próprios
filósofos como contemporâneo, o qual compreende os pensadores que no último
terço do século XX retomaram a tradição nietzcheana, como Deleuze, Foucault,
Derrida, Blanchot, Barthes, Badiou, Klossowski, entre outros. A filosofia tem como
tarefa principal fabricar conceitos, como afirma Deleuze (1991), os quais serão eventualmente exportados para outros campos. As disciplinas afins os enviesam e os fazem falar em um território diverso do originário. Falar de um pensamento psicanalítico contemporâneo, ainda que se o refira como “clínico” (não se sabe ao certo o
que esta dissociação visa legitimar), sem fazer menção a nenhum destes nomes, é no
mínimo perigoso.
O autor do artigo referido (Urribarri, 2012) diz-se, de início, preocupado com
a dimensão histórica (no sentido historiográfico que não interessava a Heidegger
nem a Foucault), que relaciona com a historiografia das ciências, das ideias e das
artes, confundindo campos que requerem perspectivas de investigação distintas por
contemplarem ontologias diversas, conforme adverti anteriormente. Logo, antecipa
que sua exposição estará baseada nas conclusões de um grupo de investigação da ipa,
do qual fez parte. No tópico que se segue, intitulado “Como funciona a mente do
psicanalista contemporâneo”, caberia, portanto, acrescentar “da ipa”, para melhor
circunscrever os limites de abrangência desse estudo. Segundo nos diz, a preocupação comum deste grupo era “superar os impasses (teóricos e clínicos) ligados à crise
dos modelos pós-freudianos” (p. 50). Registramos, de antemão, que a ideia de crise
está cotada negativamente como algo a ser superado, à semelhança de um sintoma
no curso do desenvolvimento das ideias psicanalíticas o qual precisamos debelar. A
O declínio da interpretação e a contemporaneidade da psicanálise
crise produzida pelo “reducionismo dos modelos pós-freudianos” será superada – o
autor nos esclarece – pelo seu reconhecimento e elaboração (como no tratamento analítico), permitindo ao psicanalista contemporâneo definir a sua identidade de
“contemporâneo” (supostamente uma identidade comum).
Logo chegamos a saber que, na sanha de alcançar tal objetivo (a superação)
apresentam-se “duas tendências principais: uma que tenta atualizar e renovar os modelos pós-freudianos, e outra que constrói um modelo especificamente contemporâneo” (p. 50). Partindo do pressuposto de que a especificidade marca o contemporâneo, o autor pretende, na sequência, traçar uma perspectiva histórica (na linha da
diacronia sucessionista) seguindo uma indicação de André Green, “segundo a qual
é possível distinguir três modelos históricos sucessivos na evolução paralela da teoria e da clínica psicanalítica: freudiano, pós-freudiano e contemporâneo, a cada um
dos quais corresponde um modelo teórico-clínico especifico” (p. 50). Que arriscada
cronometria!
Não poderei seguir uma leitura crítica que acompanhe cada parágrafo desse
artigo porque o espaço de que aqui disponho não me permite isto, embora a solene
sucessão de mal-entendidos que nele constatamos talvez assim o exigisse. Vejamos,
porém, bastante rapidamente, os pontos mais preocupantes, sobre os quais não poderei deixar de advertir o leitor.
Embora ciente de que a visão kuhniana do paradigma implica “a visão compartilhada por uma comunidade científica”, o autor despreza as importantes questões que envolvem o fato de a psicanálise não poder ser definida como uma “ciência”
para parte significativa de sua comunidade, e que o compartilhamento do paradigma
em psicanálise é uma mera ilusão de homogeneidade do campo discursivo, conveniente para quem o defende. A psicanálise espetaculiza hoje uma babelização, não
uma crise que precise ser curativamente superada.
Tomando como linha mestra o exame do fenômeno transferencial-contratransferencial, o autor define o paradigma freudiano em torno das psiconeuroses de
transferência, o analista como um intérprete da conflitiva edípica e a atitude analítica
como neutra – por adoção da metáfora do espelho –, o que o faz tomar a ideia de
espelhamento como sinônimo de frieza, distância e anonimato. Não entendendo o
sentido do faire silence en soi-même, acusa Lacan, de ser o responsável pela instalação
de uma regra de silêncio frio e impessoal na França, juntamente com Sacha Nacht
(p. 52).
Na sequência, o autor ocupa-se do paradigma pós-freudiano, onde inclui
Klein, Balint, Fairbairn, Lacan, Winnicott e Bion, caracterizando-o como voltado
para a relação de objeto e a intersubjetividade (alheio a que na intersubjetividade se
trata da relação entre dois sujeitos, e não entre sujeito e objeto, e sem relacionar esta
noção com Lacan, o seu introdutor), e tomando os conceitos de contratransferência
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e desejo do analista como sinônimos, evidenciando sua pouca familiaridade com a
obra de Lacan. Neste modelo, que assume a prática com crianças e psicóticos como
exemplo paradigmático – conforme o autor – observa-se uma perspectiva genética ou evolutiva, revaloriza-se o papel do objeto, a transferência-contratransferência
materna, e dá-se destaque especial ao mecanismo de identificação projetiva (com o
que, o desconhecimento da obra de Lacan é mais uma vez aparente, sobretudo quando o autor afirma que neste modelo o pré-verbal predomina sobre a linguagem e o
analista passa de decifrador a médium, acessando o “além da palavra”).
O terceiro paradigma é o que corresponde à psicanálise contemporânea – instrui o autor –, o qual pretende superar a “crise da psicanálise” deflagrada pelos autores pós-freudianos. Neste modelo clínico “as patologias fronteiriças constituem
os novos quadros paradigmáticos” (p. 56). O novo modelo parece, portanto, herdar
um problema que absorvera o anterior (o que não justificaria a mudança de paradigma!), pois a ele já se haviam orientado os esforços de Winnicott, Balint, Fairbairn e
Bion, pelo menos. Pretendendo melhor esclarecer o modelo, diz-se que neste “a teoria concebe o funcionamento mental como processo heterogêneo de representação,
que conecta e simboliza as relações entre o intrapsíquico (centrado na pulsão) e o
intersubjetivo (centrado no objeto)” (p. 56). Trata-se aqui de um enunciado obscuro
em todos os seus termos; sem falar na recorrência à noção de representação – que
é justamente o que cai em desuso no pensamento contemporâneo, como assinalam
Heidegger, Deleuze e Derrida, na filosofia, e Winnicott na psicanálise – ficamos sem
saber por que, por exemplo, o intrapsíquico está centrado na pulsão, e não no conflito, e o intersubjetivo está centrado no objeto, e não na relação.
Nos casos limite, diz-nos o autor, “as pulsões sexuais (com fixações pré-genitais e um funcionamento mais próximo do Id do que do Inconsciente) desempenham um papel fundamental, o que diferencia os casos borderline das psicoses (e
o modelo contemporâneo do pós-freudiano)” (p. 57). Como se pode observar, há
uma ressurreição de nomes/conceitos que aos poucos deixam de habitar os escritos
psicanalíticos, devindo metáforas mortas, esvaziadas de sentido ou da capacidade
de enunciação do novo (Spence, 1987), como “fixações pré-genitais”, oriundas do
modelo de desenvolvimento libidinal fásico, e mesmo “Id”, que em Lacan cede lugar
ao real ou ao sujeito originário, e em Winnicott é substituído pelo impulso vital ou
pelo self nuclear.
Tentemos concluir retornando ao problema da interpretação – nosso leitmotiv: o autor afirma que, no modelo contemporâneo, “tecnicamente passa-se da (sistemática) interpretação da transferência para a interpretação na transferência” – o
que, embora sendo um clichê, não deixa de nos animar – para complementar na
sequência: “A dimensão do ‘aqui-agora-comigo’ passa a articular-se com o ‘lá-em
outro momento-com outro”(p. 60), com o que retornamos triunfalmente ao formato
O declínio da interpretação e a contemporaneidade da psicanálise
da antiga e abandonada, por inoperante, “interpretação mutativa” de Strachey, com
a sua pretensão abarcativa das dimensões histórico-genético-dinâmicas da doença
do analisando. O que parece propor-se, finalmente, como protótipo autoral ou como
modelo teórico representativo do “pensamento clínico” do analista contemporâneo,
seu “paradigma”, como insiste em dizer o autor, é a metapsicologia pesada de André
Green, salpicada aqui e ali de conceitos winnicottianos, lacanianos e bionianos, os
quais decoram ricamente o “bolo contemporâneo” que o autor pretende nos servir.
Palavras ao sopé da letra
Para uma consideração conclusiva desta reflexão crítica in progress, sobre a
interpretação e a contemporaneidade da análise, cabe chamar a atenção do leitor
para a atual e frequente tendência a depreciar um determinado autor referindo-o
como “um pensador de seu tempo”. Todo grande pensador, porém, é pensador de
seu tempo e de todos os outros. Talvez possamos afirmar que, para a psicanálise contemporânea, Ferenczi – que não é sequer nomeado no artigo examinado na segunda
parte deste escrito – é um autor tão importante quanto Nietzsche para a filosofia
contemporânea. Sua obra é precursora da concepção intersubjetiva da análise, e está
relacionada ao movimento que decreta uma mudança do centro de gravidade do
pensamento psicanalítico pós-estruturalista, a qual se expressa em pelo menos três
níveis diversos, sugerindo:
1. uma desmetapsicologização: considerando que o ser do homem, seu self ou
dasein, é desde sempre “ser em relação”, extravertido, descentrado, ex-sistente (como propõe Lacan), a descrição do funcionamento “intrapsíquico” sob o qual se sustenta a realidade “interna” – importante em meados
do século XX, mas ainda realçada no artigo que examinei –, a conjuração
de representações, instâncias, maquinismos e energias, deixa de servir
para dizer de uma facticidade onde o estar fora e o estar dentro, como
ilustrou Lacan com seus objetos topológicos e apoiado na abolição da antinomia sujeito-objeto por Heidegger, perdeu utilidade para a descrição
do sujeito hodierno. Além disso, como já assinalara Paul-Laurent Assoun
(1981), a linguagem metapsicológica serviu, desde o início, como uma formação de compromisso com o energeticismo de Ostwald, o fisicalismo de
Helmholtz e o criticismo de Kant, autoridades incontestes em suas áreas de
conhecimento, no século IXX, e de cujas linguagens não convinha afastarse ao pretender dizer qualquer coisa de valor a respeito de qualquer coisa.
O analista contemporâneo, porém, transfere hoje a responsabilidade pela
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manipulação – concreta ou abstrata – de energias para os físicos, para os
químicos, ou para os terapeutas alternativos, holísticos etc.
2. uma despansexualização: ou seja, a linguagem sexualmente alusiva deixa
de servir para a descrição de situações, fenômenos ou relações que não estão atravessadas pelo sexual pulsional (que é equivocadamente assimilado
por Green ao genital, como apontou criticamente Laplanche [2002]). Isto
é observável desde a ridicularização, por parte de Lacan, de termos como
libido, ao qual refere-se como um mito fluídico, ou instinto de morte, no
qual encontra a mais ousada e temerária tentativa de enraizar no biológico
a destrutividade humana, os quais cedem lugar ao desejo (inclusive o de
morte) em sua obra13 – desejo que não é necessariamente desejo sexual –,
e igualmente pelo abandono, por parte de Winnicott, das noções de libido
e de instinto de morte – devido a sua inutilidade explicativa e conotação
biologizante – que perdem espaço para a noção de “força vital”, mais próxima do Eros platônico, daquilo que move, aproxima, liga, expande, passando o “sexual” a ser compreendido como uma das múltiplas formas de
expressão da vitalidade do ser do homem no mundo – talvez a que mais o
aproxima da plenitude impossível.
3. uma desedipificação: já que por conta de um ajuste da lente do psicanalista
sobre o desenvolvimento emocional primitivo, ou sobre as contingências
do sujeito originário, o complexo de Édipo e a angústia de castração passam a ser vistos, desenvolvimentalmente (Winnicott), como um precipitado tardio, uma reapresentação ou retranscrição de ameaças primitivas
ao self psicossomático, ao núcleo vivo da subjetividade – onde a questão
fundamental é ser/não-ser – ou, estruturalmente (Lacan), como a forma
ternária assumida pelas relações humanas desde o seu início, por efeito
da marca, da ação do significante, do simbólico (língua e cultura) sobre
o real. Em dois escritos, sem dúvida contemporâneos, Pellegrino (1990)
e Sinay (1993) criticaram o uso das expressões Complexo de Édipo e
Complexo de castração para tentar descrever, ainda que metaforicamente,
vicissitudes da ontogênese humana que não correspondem, intencional
e estruturalmente, às motivações da tragédia sofocleana, nem assumem,
13 Também em ... ou pior, livro 19 dos Seminários, Lacan pergunta-se: “Por que o psicanalista imagina
que o fundo daquilo a que ele se refere é constituído pelo sexo?” (p. 149), e logo procede a uma crítica do pansexualismo psicanalítico, ironizando: “Ficávamos reduzidos a pensar que o sexo estava
em toda parte – vocês, a natureza, o céu, a bagunça toda, tudo isso era o sexo.E as fêmeas de urubu
faziam amor com o vento”(p. 150), e finaliza: “Não é apenas por razões didáticas que eu gostaria de
produzir diante de vocês o que se pode dizer para rebater essa mitologia grosseira, afora o fato de
que isso talvez nos permita não só exorcizar Eros – refiro-me ao Eros da doutrina freudiana – , mas
também o querido Tânatos, com o qual nos chateiam há muito tempo”(p. 151).
O declínio da interpretação e a contemporaneidade da psicanálise
original e essencialmente, o sentido de uma ameaça de mutilação genital.
Provavelmente o sopro do contemporâneo em psicanálise implique também uma revisão das metáforas fossilizadas, ou uma renomeação e redescrição dos fenômenos, com a introdução de signos linguísticos capazes de
instigar um novo pensamento, na medida em que a cada novo significante
correspondem, necessariamente, significados novos.
El declive de la interpretación y la contemporaneidad del psicoanálisis
Resumen: El autor hace una lectura crítica de la interpretación traductiva, o decifrativa, señalando
su naturaleza doctrinal y alienante, y haciendo la defensa de la intervención minimalista como
característica del análisis contemporáneo. Posteriormente, el autor critica la versión científicotecnológica, que propone un nuevo paradigma para la actividad de pensamiento y la actividad
clínica del analista contemporáneo, el cual incorpora la metapsicología y la hermenéutica
privilegiando el formato histórico-genético-dinámico da la interpretación.
Palabras clave: interpretación; decodificación; indicación; presencia; hermenéutica;
metapsicología; intersubjetividad; contemporaneidad.
The decline of interpretation and the contemporary psychoanalysis
Abstract: The author makes a critic of translational interpretation, or decipherer interpretation,
pointing its doctrinal and alienating nature, and defending minimalism of intervention as
characteristic of contemporary psychoanalysis. After, the author criticizes the scientifictechnological version, which proposes a new paradigm for thinking and clinical activity of the
contemporary analyst, which incorporates metapsychology and hermeneutics privileging the
historical-genetic-dynamic interpretation shape.
Keywords: interpretation; decipherment; indication; presence; hermeneutics; metapsychology;
intersubjectivity; contemporaneity.
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Roberto Barberena Graña
Rua Prof. Annes Dias, 154/1201 – Centro
90020-090 Porto Alegre, RS
[email protected]
© ALTER – Revista de Estudos Psicanalíticos
ALTER – Revista de Estudos Psicanalíticos, v. 30 (2) 83-95, 201283
Embalando o sono do bebê – contendo as
transferências das relações iniciais pais-bebê
Maria Cecília Pereira da Silva1
Resumo
O que impede que um bebê relaxe e descanse entre as mamadas ou durante a noite? Por que não
se consola e não se acalma apesar de contar com pais dedicados e disponíveis? Que fantasmas
assombram o quarto do bebê? Há algum incômodo físico? Há algo que não esteja funcionando
bem? O que reclamam esses bebês? Seria reflexo de aspectos emocionais presentes na relação
pais-bebê? Seria fruto da projeção de aspectos inconscientes dos pais (não contidos) ou fruto
das características do bebê?
Neste trabalho procuro responder a essas questões a partir de três situações clínicas em que
destaco a função de continência do analista como uma forma atual de lidar com todas as
transferências projetadas na sala de análise. Enfatizo como a função de continência e a função
de rêverie do analista possibilitam novas redes de sentidos para as dificuldades presentes na
relação pais-bebê, ali, no momento da intervenção, favorecendo o desenvolvimento dos
vínculos iniciais e o exercício da parentalidade.
Palavras-chave: intervenção precoce, distúrbios de sono, relação pais-bebês, continência,
rêverie.
O que impede que um bebê relaxe e descanse entre as mamadas ou durante a
noite? Por que não se consola com as cantigas ou mesmo com a presença dos pais?
Por que não se consola com as cantigas ou mesmo com a presença dos pais? Seria
reflexo da combinação de aspectos emocionais presentes na relação pais-bebê? Seria
fruto da projeção de aspectos inconscientes dos pais ou das características do bebê?
A dificuldade de dormir é a queixa2 mais comum na Clínica 0 a 3. Procuro responder a essas questões a partir de três situações clínicas em que destaco a função de
continência do analista como uma forma atual de lidar com todas as transferências
projetadas na sala de análise. Mostro a importância da função de rêverie do analista, função esta que engloba a elaboração dos sentimentos contratransferenciais e os
processos intersubjetivos despertados no aqui e agora da sessão juntamente com os
conteúdos projetados sem significado.
1 Psicanalista, membro efetivo, analista de criança e adolescente da Sociedade Brasileira de Psicanálise
de São Paulo sbpsp. Pósdoutora e Doutora em Psicologia Clínica, Mestre em Psicologia da Educação
pela puc-sp. Membro do Departamento de Psicanálise de Criança e Professora do Curso Relação
pais-bebê: da observação à intervenção do Instituto Sedes Sapientiae. Coordenadora da Clínica 0 a
3 do Centro de Atendimento Psicanalítico da sbpsp.
2 Assim como dificuldades de sono temos recebido bebês que tem dificuldade com o desmame e não
aceitam o alimento sólido, outros que adquirem sem dificuldade o controle da urina, mas as fezes
só podem ser evacuadas na fralda revelando angústias de perda, ansiedade de aniquilação.
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Maria Cecília Pereira da Silva
Enfatizo como a função de continência e a função de rêverie (Bion, 1962) do
analista possibilitam novas redes de sentidos para as dificuldades presentes na relação pais-bebê, ali, no momento da intervenção, favorecendo o desenvolvimento dos
vínculos iniciais e o exercício da parentalidade.
Os pais de Maria Clara chegaram encaminhados pela pediatra quando tinha
um ano de idade e foi vista por quatro sessões3 com seus pais e sua irmã de 11 anos.
Maria Clara vinha apresentando um sono agitado, acordava várias vezes durante a
noite e só se acalmava quando mamava ao seio. Durante o primeiro ano de Maria
Clara sua mãe dormia com ela em seu quarto, enquanto o pai dormia com a filha
mais velha no quarto do casal, mas quando chegaram ao consultório estavam todos
dormindo no quarto do casal, o pai com a filha mais velha e a mãe com Maria Clara,
numa espécie de loft familiar. As mesmas dificuldades em dormir foram relatadas
como tendo acontecido com a filha mais velha até os 3 anos de idade, o que tornara
os pais muito ambivalentes em ter um novo bebê.
No segundo caso, os pais de Carmen nos procuraram4 porque ela era muito diferente de sua irmã Serena. Queixavam-se que ela, nos seus cinco meses e meio, não
dormia, era mais ligada, acordava chorando e demorava muito para se acalmar. Sua
natureza era mais intolerante, chorava o dia inteiro. “A gente brinca que ela é nossa
filha Almodovar, é muito carinhosa e muito brava, exagerada, chora e esperneia.”
No terceiro caso, os pais de Theo também não aguentavam mais. Disseram-me
que no início era refluxo, depois intolerância a lactose e até hoje, aos 6 meses, ele não
dorme, acorda a noite inteira e quando acorda urra desesperado.
O que impede um bebê tão pequeno de dormir? Por que não se consola e
não se acalma apesar de contar com pais dedicados e disponíveis? Que fantasmas
(Fraiberg, 1975) assombram o quarto do bebê? Há algum incômodo físico? Há algo
que não esteja funcionando bem? O que reclamam (Alvarez, 1994a) esses bebês? E
os pais chegam, como canta Dolores Duran, querendo a paz de criança dormindo.
Em geral no exame pediátrico nada se encontra. De fato, a dificuldade de se
acalmar e dormir, o choro intenso, é antes de tudo uma solicitação que mobiliza os
pais e profissionais a se voltarem ao bebê, imaginando quais possam ser suas possíveis necessidades. O bebê inconsolável angustia os pais e toda a família. (Silva &
Mendes de Almeida, 2009)
De outro lado, cada vez mais nos deparamos com dificuldades de comunicação
entre pais e bebês. Em tempos modernos os pais optam por terem filhos mais tarde e,
muitas vezes, mais distantes de suas vivências infantis. Ao lado disso as solicitações
externas competem com a entrada no estado de preocupação materna primária ou
3 Esse atendimento foi realizado por Maria Cecília Pereira da Silva e Magaly Miranda Marconato e
filmado por Mariângela Mendes de Almeida.
4 Esse atendimento foi realizado por Maria Cecília Pereira da Silva e Mariângela Mendes de Almeida.
Embalando o sono do bebê – contendo as transferências das relações iniciais pais-bebê
não favorecem o desenvolvimento das capacidades de rêverie e continência maternas. Ao lado da criança fantasmática, imaginada e narcísica, cujas representações
se constroem na mente dos futuros pais, elas são muito distintas de uma infância
autêntica, na medida em que as representações coletivas atuais da infância fazem
dela uma criança preciosa e relativamente tardia na vida dos casais, e se demanda
inconscientemente que seja perfeita e, rapidamente autônoma (Golse, 2004).
Diante dos desencontros afetivos entre pais e filhos, os bebês expressam sua
insatisfação reivindicando que suas necessidades sejam atendidas. Descartadas as
fantasias parentais de uma possível patologia física, o choro e os gritos do bebê muitas vezes são interpretados pelos pais como braveza ou raiva e no extremo por comportamentos agressivos, muitas vezes projetando seus aspectos inconscientes sobre
os bebês. Eles têm dificuldade em distinguir o que é uma reclamação (Alvarez, 1994a)
e o que é expressão de agressividade, sucumbindo diante dos ruídos de comunicação
na relação com seus filhos (Silva, 2010).
Parece não fazer parte do repertório das expectativas parentais que filhos tão
pequenos possam ser capazes de reclamar ou mesmo de expressar alguma insatisfação de forma incisiva e veemente, o que faz com que transformem rapidamente essa
forma de comunicação em um sintoma. Por outro lado, na luta para atender o desamparo do bebê, os pais experimentam emoções primitivas muito desconfortáveis
diante da efusiva reclamação de seus filhos, tendo que conter a própria agressividade
ou projetando-a sobre o bebê. Quando encontramos esse tipo de ruído na comunicação entre a criança e seus pais há fortes riscos de que se desenvolva alguma patologia
no bebê. (Silva, 2010)
De acordo com Serge Lebovici (1983), que desenvolveu as ideias de D.
Winnicott (1971) em relação às Consultas Terapêuticas,5 no trabalho conjunto com
5 O enquadre de intervenção nas relações iniciais pais-bebê fornece um campo privilegiado para
a expressão de diferentes níveis de conteúdos psíquicos, à medida que facilita a comunicação e a
continência tanto de material consciente, organizado por meio da experiência relatada, como de
elementos inconscientes, em estado bruto, que clamam por comunicação e integração. Os dois níveis de
discurso são colocados instantaneamente juntos e é parte do papel do terapeuta deixar-se surpreender
pelo que parece óbvio ou já cristalizado como padrão familiar. D. Winnicott (1971) quando se refere
a suas Consultas Terapêuticas, enfatiza nossa capacidade de ser surpreendido como permitindo que
um “momento sagrado” ocorra na sessão. Nesse sentido, momentos de sincronicidade e sintonia
emocional entre terapeutas e pacientes, nos quais importantes significados emergem, fornecem
representação para aspectos que não estavam integrados anteriormente. Esta noção também enfatiza
o trânsito e a permeabilidade entre os elementos conscientes e inconscientes que emergem durante
a sessão. A presença da criança se relacionando com os adultos e o uso de mediações como o brincar
e o material lúdico, facilitam a irrupção de conteúdo mais primitivo que busca representação. Nas
intervenções precoces com pais e crianças, poderíamos dizer que a interação pais-criança que de fato
ocorre na sessão (incluindo toda e qualquer forma de manifestação) corresponde à associação livre na
sessão analítica do adulto e ao brincar na análise de crianças. (Mendes de Almeida & outros, 2004)
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crianças e pais, um procedimento de intervenção ocorre a partir de um sintoma específico manifesto pela criança ou pelo bebê, que de alguma forma está interferindo
em seu desenvolvimento ou demonstrando um transtorno em sua interação com
seus pais.
Cada sessão consiste então, de uma observação multidimensional que permite
acesso: aos sintomas da criança e suas formas de funcionamento, aos fenômenos
inter e transgeracionais que caracterizam a relação pais-criança-família, ao ambiente
e ao cuidado parental, à personalidade da mãe e do pai, aos aspectos familiares e à
dimensão sócio-cultural. Os pais podem falar sobre seu filho e expectativas em relação a ele, sobre eles mesmos, sobre suas famílias, sobre seu passado, sobre comportamentos que se repetem e noções e valores estabelecidos. (Silva, 2002)
O terapeuta, enquanto observa a interação pais-criança, tenta compreender,
com ajuda dos pais e do bebê, as motivações conscientes e inconscientes de seus
comportamentos e conceitualizações. Enquanto ouve os pais falarem sobre seu relacionamento com a criança e enquanto observa o que vividamente ocorre no aqui e
agora da sessão, o terapeuta tem acesso à criança imaginária na mente dos pais, que
pode abrigar fantasias latentes relacionadas aos elementos transgeracionais e necessidades e conflitos infantis reeditados na relação pais-criança.
Ao se identificar com os diferentes parceiros na interação, o terapeuta transforma sua experiência em palavras de valor metafórico, que são então compartilhadas com a família. O que era até aquele momento impensável, e somente expresso através de ações, descargas individuais ou sintomas, pode então encontrar uma
representação por meio de pensamentos e palavras compartilháveis. (Mendes de
Almeida & outros, 2004)
Nesse contexto, as mudanças nem sempre são produzidas (pelo menos não
diretamente) nos pais ou na criança. É o relacionamento, a interação que muda. No
enquadre de intervenção, conforme os pais ampliam o contato com a criança observada, eles podem vir a modificar sua tendência a projetar suas próprias fantasias,
expectativas e confirmações narcísicas sobre a criança.
A intervenção conjunta com pais e criança promove um ato de incisão, que
pode ser metaforicamente representado por uma cirurgia. Ela pretende transformar
a interferência obliterativa na interação e relacionamento familiar, de maneira que
uma abordagem mais realística e menos contaminada dos incômodos da criança possam ser lidados de maneira a facilitar um desenvolvimento mais saudável. (Mendes
de Almeida & outros, 2004)
Embalando o sono do bebê – contendo as transferências das relações iniciais pais-bebê
Retomando os casos
Maria Clara
Ao longo das 4 sessões com a família de Maria Clara fomos descobrindo que
o pai, filho mais velho, teve que crescer precocemente para tomar conta de 7 irmãos, mas precisava estar sempre rodeado de pessoas, barulhos e movimentos para
se sentir seguro e acompanhado. Sentia medo de se ver sozinho com seus “barulhos
internos” e sua filha de 11 anos declarou: “Eu acho que ele está com medo de dormir
sozinho…” então assinalei: “Então é você que põe seu pai para dormir!” A mãe demonstrou entusiasmo e ressonância com as conexões e completou: “É isso mesmo,
ela põe o pai para dormir! E quando eu acordo durante a noite e olho ela está agarradinha com ele e ele está agarradinho com ela!”
Investigamos um pouco mais sobre os medos do pai: “é medo de assombração,
medo de coisas reais, da vida, como é?” Ele, então nos diz: “eu sempre tentei proteger minha filha do que eu tinha medo... o medo era desse ritual, ritual de passagem.
Falando da morte por exemplo, se eu fosse num velório eram 15 dias sem conseguir
dormir... Até hoje você vê como é o trauma, como que é, ah, nós temos que ir num
velório, eu vou, mas eu não vou lá ver a pessoa, eu não vou não...” A partir desse
momento a mãe e a filha mais velha se discriminam dizendo que não têm medo de
defunto.
E uma rede de sentidos se revelou quando apontei: “E dormir… morto parece
que está dormindo, né?” Pôde-se, então, identificar que o medo do pai era o medo da
morte e que ele acabava envolvendo a família num medo que era só dele.
Em outra sessão, a mãe nos surpreendeu trazendo memórias de sua infância
sofrida. Ela se recordou de sua relação com os avós. Ela vivia num sítio no interior de
São Paulo em que havia mais duas casas: numa morava seu avô paterno, que havia
tido um derrame; e na outra morava sua avó materna, com duas tias que eram anãs,
sendo uma delas deficiente mental. Emocionada, ela comentou sobre a impossibilidade de consolar o choro desesperado de suas tias, quando a mãe delas morreu e
elas foram retiradas da família para serem institucionalizadas. Nós pudemos então
compreender como as separações e o choro encontravam uma reverberação intensa
na mente da mãe, e ela procurava calar rapidamente qualquer choro de suas filhas,
evitando o reencontro com a situação traumática.
Neste momento repleto de emoções, observamos um movimento do pai de
acariciar a cabeça de Maria Clara, revelando a possibilidade de desenvolvimento de
sua função paterna também no suporte aos processos emocionais regressivos vividos
por sua esposa com a maternidade.
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Maria Cecília Pereira da Silva
Esse diálogo gerou uma nova rede de sentidos: a angústia da mãe diante das
situações de choro de suas filhas e a situação traumática que vivera com as tias anãs,
puderam então, encontrar uma representação. Tal intervenção representou uma situação de empatia metaforizante efetiva. Assim, os fenômenos transgeracionais puderam ser revelados e desvendados: discriminaram-se os medos do pai e as angústias
de separação da mãe.
Maria Clara, por sua vez, nos apresentava desde o início um quadro diferente
e uma qualidade de demanda singular. Enquanto o discurso manifesto estava sendo sobre quão difícil era para ela dormir, em várias ocasiões nas sessões, ela tentou
se acomodar com as almofadinhas no meio da sala, ou explorou com curiosidade
a textura macia do divã. Maria Clara demonstrava com sua atitude, seu desejo de
ser confortada e de adormecer, bem como sua confiança em seus recursos quando
auxiliada por um setting continente e com capacidade de rêverie no qual ela pudesse
ser discriminada das demandas inconscientes dos pais que não a deixavam dormir.
Ao fim de nosso segundo encontro, foi possível conversar com Maria Clara,
integrando as diferentes camadas emocionais: o nível observacional, o relacional e o
transgeracional. “Ei, Maria Clara, você gostou dessa conversa hein! Esse seu nome,
Maria Clara, tem tudo a ver com essa conversa. Porque, Clara! Tudo Claro! Você
veio clarear as ideias, iluminar, trazer luz, veio para explicar as coisas, tem muito
trabalho para você, hein!”
Na última consulta terapêutica (a quarta), um mês e meio depois da primeira,
os pais vieram com Maria Clara e nos contaram que ela estava dormindo muito bem
em seu próprio quarto, acordava uma vez por noite quando toma uma mamadeira.
Inaugurou-se o processo de separação com a instalação do desmame.
O pai nos contou que tem se percebido com menos medo, tem ficado sozinho
no trabalho e em casa, o que indica que está desenvolvendo sua capacidade de ficar
só. Observou que as filhas não têm medo – os medos são dele. A mãe brincou com
Maria Clara durante a consulta como se pudesse ter recuperado algo que havia se
perdido com a internação das tias anãs. Observaram que podem criar a própria história e se livrar de mandatos transgeracionais, que não precisam se perpetuar. Nascia
um casal criativo.
Maria Clara era a depositária de fantasias, de vivências violentas, de medos
terroríficos que diziam respeito a outras gerações. Maria Clara não podia dormir,
acordava para lembrar à sua mãe que ela ainda não tinha ido embora, acalmando-a diante de suas angústias de separação; e chorava para lembrar ao seu pai que ela
não estava morta, tranquilizando-o diante de seus medos aterrorizadores. E também poderíamos dizer que Maria Clara já estava identificada com as angústias e os
medos aterrorizadores de seus pais e com tudo isso não podia dormir. Esta intervenção possibilitou que os fenômenos transgeracionais fossem falados, conhecidos e
Embalando o sono do bebê – contendo as transferências das relações iniciais pais-bebê
reconhecidos como tais, e parece que cada coisa foi para o seu devido lugar – criou-se
um “berço” afetivo para Maria Clara e cada membro da família pôde ocupar seu lugar psíquico, assumir suas funções materna, paterna e fraterna. (Silva, 2002)
Carmem
Durante os 5 encontros que tivemos com a família de Carmem pudemos
compreender um pouco de sua história. Os pais casaram-se jovens e sentiam-se um
pouco sobrecarregados com as demandas de uma vida familiar. Enquanto narravam
sua história observávamos como Carmem era uma bebê com uma enorme competência motora, movimentando-se pelo tapetinho da sala e segurando os brinquedos.
Ao assinalarmos essas competências, permitiu-se que os pais falassem de segredos e
reconstituíssem a história das meninas, estabelecendo novas redes de sentido. Eles
narraram a história das gestações das duas filhas e de uma anterior que fora interrompida devido a um feto mal-formado. Assim, falaram sobre os medos de possíveis
patologias acometerem seus bebês. Com isso parece que Serena pôde aceitar a chegada da irmãzinha e os pais aceitaram que Carmem era uma menininha saudável,
desfazendo fantasmas parentais.
Nos momentos em que Carmem chorou, os pais logo interpretaram como
sono e o pai a embalou contendo-a em seus braços de uma forma bem forte, até que
ela adormecesse. Sabemos que a capacidade do recém-nascido de ser apaziguado e
consolado por uma intervenção do adulto varia de um bebê a outro e, se considerarmos que a função materna é provavelmente muito dependente da capacidade de
o bebê se consolar, as diferenças de cada criança vão intervir para facilitar ou para
dificultar a construção do vínculo mãe-bebê. (Silva & Mendes de Almeida, 2009)
Ao longo das consultas, sua mãe relatava como sentia que não era capaz de dar
conta das duas meninas. Nós víamos que ela de certa forma se sentia sem recursos
emocionais para regredir e se identificar com as necessidades da bebê e exercer sua
função materna. Ela estava transferindo essas funções para o marido que embalava
suas filhas e a ela própria, como se fosse mais um bebê. Nosso trabalho fora o de
restaurar essa função para que a mãe pudesse “maternar”. Filtrados os ruídos presentes na comunicação entre pais e filhas, já na terceira consulta, a mãe nos contou
que Carmem passou a dormir bem, acordando somente duas vezes por noite para
mamar e voltando logo a dormir. Serena correu feliz pela casa, alternando entre ser
uma mocinha que já vai à escola e a vontade de ser bebê, deitando por alguns minutos no berço de Carmem. A mãe relatou que após as consultas surgira aquele “encantamento” entre mãe e bebê. Gratificada em seu narcisismo, sentiu-se mãe de sua
bebê. Assim, a reclamação de Carmem encontrou o olhar apaixonado da mãe e se
acalmou, pois o que se refletia do olhar materno não era mais uma mãe aflita tomada
por angústias recheadas de fantasmas infantis e pelo medo de que sua bebê não fosse
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saudável. Parece que as expectativas de uma função materna idealizada puderam se
abrandar e a mãe encontrou disponibilidade emocional para atender as duas filhas.
Além disso, houve uma recuperação do espaço do casal: eles foram ao cinema
e jantaram a sós. (Silva, 2010)
Fundamentalmente o que pudemos observar nas consultas que se seguiram
foi que houve uma transformação no interior psíquico da mãe e na dinâmica de continência parental do casal, mais do que uma transformação localizada no externo:
Carmem ainda acordava, mas os pais, e principalmente a mãe, confiavam mais em
sua capacidade de acolhimento. Pudemos observar a reapropriação da função materna de uma forma genuína, espontânea e criativa, nos disse a mãe:
“Estou mais tranquila, estou mais fortalecida para tomar iniciativas que acredito serem as melhores.” Num primeiro momento não havia diferença entre gerações, as três mulheres pareciam filhas do papai. A mãe tinha perdido sua capacidade
de consolar suas filhas atribuindo ao pai essa função.
Na última consulta observamos que se instaurou no pai a capacidade de embalar a mãe nos momentos de estresse, permitindo que a função materna fosse resgatada e fortificada. Então pudemos ver todos subjetivados, com papéis definidos: pai,
mãe e filhas. E a mãe nos disse: “Uma das coisas que a gente procurou aqui com vocês
foi um espaço, era uma busca de parcerias… A gente tinha uma sensação de solidão,
assim de achar que sozinhos não vamos conseguir.”
O setting da intervenção na relação pais-bebês favoreceu a criação de um ambiente facilitador para o desenvolvimento emocional e para que os aspectos em sofrimento dos pais pudessem ser re-significados e contidos, deixando de ser projetados sobre as bebês. Criou-se um espaço mental para que os pais pudessem também
parentalizar Carmem e subjetivá-la enquanto distinta de Serena e deles próprios.
Carmem reclamava, reivindicava um olhar vivo e vital de sua mãe. Sua inquietude
buscava continência e acolhimento parentais.
Theo
Quando Theo chegou ao meu consultório encaminhado também pelo pediatra, aos cinco meses e meio, sua mãe não encontrava uma forma de fazê-lo dormir.
Sentia-se desvitalizada e incapacitada de exercer a função materna. Ela me contou
que no início Theo apresentava refluxo, depois suspeitou-se de intolerância ao leite
materno e procurou mudar a própria alimentação para evitar qualquer desconforto
ao bebê. Mas Theo continuava acordando várias vezes a noite e dormindo 20 minutos durante o dia. A mãe ainda relatou aflita que ele sempre acordava gritando muito
forte, de modo assustador. Na primeira consulta Theo chegou dormindo e quando
acordou sorriu para mim e se entreteve com brinquedinhos até o final da sessão.
Embalando o sono do bebê – contendo as transferências das relações iniciais pais-bebê
Na troca de olhares observo que ele faz movimentos circulares com a língua
de forma frequente. Estaria Theo numa experiência sensorial preenchendo toda sua
cavidade bucal como uma forma de apagar sua percepção da falta (Fonseca, 2008,
2011) ou seria resultado de um desencontro com um objeto que não atendia a suas
necessidades?
Na segunda consulta o bebê também chegou dormindo e acordou tranquilo
sorrindo para mim como se reconhecesse meu tom de voz e minha sala. Ao longo
da sessão com os brinquedinhos ficou mais impaciente, a tonicidade de seu corpo
era mais intensa e reclamava o olhar dos pais… fez coco…. mas os movimentos de
língua já não apareciam.
Investigo com os pais se havia alguma preocupação com relação ao filho. O pai
disse que não, mas a mãe com a voz trêmula e angustiada me contou que aos 20 anos
foi operada do coração. Apresentava um defeito congênito, mas que não indicava
sopro… ela se sentia muito cansada para subir escada ou fazer educação física, mas
não sabia que se relacionava com algo do coração. Teme que Theo tenha algo parecido, mas só poderá se certificar quando ele estiver com um ano. Quando perguntei
sobre a cirurgia ela se recordou de sua infância e disse que com onze anos sua mãe
se separou de seu pai e foi morar com o namorado. Ela foi criada pelo pai, após uma
separação litigiosa em que ele até hoje alimenta ódio e não divide o mesmo espaço
com a ex-esposa. Neste momento ela se emociona e mostra seu ressentimento de ter
sido deixada pela mãe: “uma mãe não deveria ser assim com uma filha de apenas 11
anos”. Já adulta, quando o pai se casou novamente ela foi morar com a mãe por rivalidade com a madrasta. Na época de sua cirurgia, seu pai que é médico, ficou transtornado por não ter identificado o problema da filha e não conseguiu ficar ao seu
lado durante e após a intervenção cirúrgica… foi acompanhada pela mãe e por sua
irmã… “Meu pai é muito difícil”, ela confessa. Pude conversar sobre a falta de um
modelo de continência para as diferenças, desconfortos, desencontros e frustrações e
como os gritos do Theo reatualizam suas experiências com “as bravezas” de seu pai,
que tanto a assusta. Ao mesmo tempo, os desconfortos de Theo frustram o modelo
de mãe idealizada que construiu para si. Além disso, pude apontar como Theo a ressegura de que ele tem um coração bem forte e vigoroso todas as vezes em que acorda
e grita forte. Durante a consulta também pude assinalar as competências de Theo,
desfazendo os fantasmas de que houvesse alguma patologia presente. Ela então se
queixa de se sentir desamparada quando o marido viaja dizendo que Theo sente falta
do pai… De fato a função paterna é a de embalar a dupla mãe-bebê (Barriguete et al.,
2004) e na sua falta a dupla se desmantela…
A mãe de Theo nos lembra como “o processo de ter um bebê requer um enorme ajustamento: novas introjeções, novas identificações por parte da mãe, não somente pela perda de sua identidade anterior e pela perda do bebê em seu interior,
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mas também pelo processo de digestão, de absorção do fato do nascimento, que é, a
seu modo, tão chocante quanto a morte.” (Alvarez, 1994b, p. 142)
Quando me contaram sobre a chegada de Theo, seu pai disse que quando sua
esposa desistiu da empresa em que trabalhava sugeriu-lhe se não seria o momento de
engravidar. Ele sempre adorou crianças e já não era tão moço para ter um bebê, estava com 40 anos. Intuí que havia alguma angústia de morte presente nessa declaração
e, na quarta consulta, quando relatou um pouco de sua história pude compreender.
Ele é o caçula de uma prole de 4 filhos. Sua mãe teve uma gravidez que não se completou, pois o feto morreu. No nascimento de sua irmã, também houve complicações
no parto e ela ficou com sequelas emocionais e cognitivas. Na sua adolescência se
angustiou quando seus pais brigavam e pensava que iriam se separar. Ao falar de
seus pais ele se emocionou ao se recordar que recentemente seu pai teve um derrame e suspeita-se de que ele esteja com Alzheimer. Pudemos pensar como a alegria
de ser pai convivia simultaneamente com o processo de elaborar a perda de seu pai.
Enquanto conversávamos sobre os fantasmas de morte do avô, Theo chorou. Nesse
momento vivo, no aqui e agora da sessão, pudemos constatar como o bebê é capaz de
perceber a aflição do papai (como assinala G. Wiliams6 o bebê muitas vezes se torna
receptáculo das angústias parentais), e assinalar que “o papai estava bem forte para
cuidar dele”. Então Theo começou a balbuciar e contar suas histórias…
Após esta consulta os fantasmas parentais que assombravam o quarto do bebê
puderam ser nomeados. Theo passou a dormir mais durante o dia, entre 2 e 3 horas,
e à noite… seu pai pôde desfazer seus fantasmas de morte e Theo pôde viver com sua
mãe o campo de ilusão ao sentir que seu pai poderia embalar esse momento fusional
inicial da dupla mãe-bebê. Sua mãe, por sua vez, desfez seus fantasmas de perder seu
bebê, ampliou sua continência ficando mais em casa e oferecendo uma rotina mais
constante… o que permitiu ao bebê construir a confiança no objeto, pois a constância, como diz Winnicott (1990), é fundamental…
Nosso papel no processo de parentalização torna-se então, não aquele de dizer
como é preciso ser pai ou mãe, ou mesmo como é preciso fazer, mas sim o de permitir que as capacidades dos pais surjam e que nós as sustentemos, dando sentido aos
percalços cotidianos da relação pais-crianças e prevenindo a instalação e cristalização de um sofrimento. (Silva, 2008)
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Gianna Williams (1997, 1999) aponta que nas situações em que os pais possuem patologias graves
ou são incapazes de conter suas projeções sobre o bebê, o bebê torna-se um “receptáculo” (e não
um continente) desses “corpos estranhos” dos pais (ao invés de conteúdos), pois ele ainda é incapaz
de metabolizar esses aspectos. Nesses casos, a falha da capacidade de continência é extremamente
danosa e pode originar o “terror sem nome”, como o reverso do modelo continente/contido (Bion,
1962). Então, tanto o observador como o terapeuta no trabalho de intervenção precoce vão facilitar
o processo de separação e de discriminação entre as projeções de aspectos inconscientes dos pais e
o bebê/criança pequena, enquanto uma pessoa com necessidades próprias. (Silva, 2011)
Embalando o sono do bebê – contendo as transferências das relações iniciais pais-bebê
Para concluir gostaria de assinalar que livros e orientações não faltam para as
famílias de Maria Clara, Carmen e Theo ou mesmo para outras famílias que procuram a Clínica 0 a 3, mas muitas vezes carecem de uma base de sustentação emocional
para que possam ser seguidas ou para que possam ser consideradas como significativas ou adaptáveis para cada momento da relação pais-bebês (Silva & Mendes de
Almeida, 2009). A continência e escuta dos aspectos emocionais e relacionais, cerne
de nossa formação, nos convidam a ir além da orientação e dos aspectos funcionais
para captar o que está nas entre linhas das queixas apresentadas pelos pais, reconhecendo os fantasmas presentes no quarto dos filhos e auxiliando-os a embalar o sono
de seus bebês.
Propiciando el sueño del bebe – continencia de las transferencias
de las relaciones iniciales padres-bebe
Resumen: ¿Qué es lo que impide que un bebé relaje y descanse entre las mamadas o durante
la noche? ¿Por qué no se consuela y no se calma a pesar de contar con padres dedicados y
disponibles? ¿Qué fantasmas asombran la habitación del bebé? ¿Hay algún incomodo físico?
¿Que reclaman eses bebes? Seria reflejo de aspectos emocionales presentes en la relación
padres-bebés? ¿Sería fruto de la proyección de aspectos inconscientes de los padres o de las
características del bebé?
En este trabajo procuro responder a esas cuestiones a partir de tres situaciones clínicas en
que destaco la función de continencia del analista como una forma actual de lidiar con todas
las transferencias proyectadas en la sala de análisis. Destaco como la función de continencia
y la función de rêverie del analista posibilitan nuevas redes de sentidos para las dificultades
presentes en la relación padres-bebé, allí en el momento de la intervención, favoreciendo el
desenvolvimiento de los vínculos iniciales y el ejercicio de la parentalidade.
Palabras-clave: Intervención precoz, disturbios del sueño, relación padres-bebés, continencia,
rêverie.
Rocking the baby – Containing the transfer of parent-infant relationship
Abstract: What stops a baby relax and rest between feeding or at night? Why not console and
not calm despite having dedicated parents and available? What ghosts haunt the baby’s room?
Are there any physical discomfort? What claim that these babies? It would be a reflection of the
emotional aspects present in the parent-infant relationship? Would result from the projection
of unconscious aspects of the parents or the baby characteristics?
In this work we try to answer these questions from three clinical situations in which I highlight
the analyst containing function as a current way to handle all transfers projected in the consulting
room. Emphasize how the continence function and the reverie function of the analyst allowing
significant realizations, clusters of meaning, to emerge, at the time of intervention, favoring the
development of initial parent-infant relationship and the exercise of parenthood.
Keywords: early intervention, sleep disorders, parent-infant relationship, containment, reverie.
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Maria Cecília Pereira da Silva
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Maria Cecília Pereira da Silva
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ALTER – Revista de Estudos Psicanalíticos, v. 30 (2) 97-108, 201297
Expressões do reconhecimento e da sujeição na
experiência intersubjetiva
Pericles Pinheiro Machado Junior1
Resumo
A partir da vinheta clínica de um início de análise, o autor propõe um ensaio sobre um aspecto
dos relacionamentos sociais que tem sido objeto de reflexão de diversos pesquisadores do
campo psicanalítico: o reconhecimento do outro como semelhante e diferente, portador de uma
alteridade que ao mesmo tempo revela a estreita proximidade e a larga distância existente entre
duas pessoas. Fazendo contraponto com o pensamento de Foucault sobre relações de poder e
sujeição, e a teoria de Winnicott sobre holding e dependência, o reconhecimento da alteridade
é discutido como uma modalidade de experiência intersubjetiva mediada pelo respeito às
diferenças e aos limites do espaço psíquico em que se afirma a singularidade radical do outro.
Palavras-chave: alteridade, holding, sujeição, Winnicott, Foucault.
You don’t know me
Bet you’ll never get to know me
You don’t know me at all
Feel so lonely
The world is spinning’round slowly
There’s nothing you can show me from behind the wall.
Caetano Veloso (1972)2
O encontro com o outro
O rapaz chega, instala-se no sofá e começa a falar. Ouço-o durante pouco
mais de uma hora. Combinamos um novo encontro. Ele volta, a cena se repete. Fala
e parece esforçar-se para condensar em alguns minutos toda sua história de vida.
1 Psicólogo e Psicanalista. Mestrando em Psicologia Social pela usp e Birkbeck College, University
of London. Pesquisador associado ao Laboratório de Estudos da Família, Relações de Gênero e
Sexualidade do Instituto de Psicologia da usp.
2 “Você não me conhece. Aposto que você nunca vai me conhecer. Você não me conhece mesmo.
Sinto-me tão só. O mundo gira lentamente ao redor. Não há nada que você possa me mostrar por
trás dessa parede.” Tradução livre da canção You don’t know me, lançada em 1972 por Caetano
Veloso no disco “Transa”, gravado em Londres durante o exílio político.
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Pericles Pinheiro Machado Junior
Ouço e sinto-me ora mais próximo, ora mais distante à medida que suas palavras se
revelam e descrevem fragmentos de sua realidade. Faço algumas perguntas, escuto
muitas respostas, acompanho desvios, perco-me nos rodeios. Vejo um rosto e, por
um momento, reconheço algo em sua expressão. Seria dúvida, angústia, curiosidade?
Prossigo a entrevista e sou levado pela correnteza de seus verbos. Encerramos o segundo encontro. Ele vai embora, separa-se e fico sozinho em minha sala durante algum tempo, aguardando o próximo atendimento que aconteceria após um intervalo.
O que houve nesses breves momentos de diálogo com alguém que acabo de
conhecer? Melhor dizendo, alguém que não conheço.
Esse primeiro contato com o rapaz me impele a pensar e a estabelecer alguma
ordem no caos de tantas palavras. E, ao mesmo tempo, percebo que qualquer esforço
de organização neste momento seria inútil. Sigo a intuição e deixo as imagens que
surgem em minha mente retomarem movimento. Ao recordar a cena de nosso diálogo, particularmente algumas frases pronunciadas pelo rapaz, vem à mente a música
do Caetano Veloso: you don’t know me. Sim, é claro que eu não o conheço.
No encontro seguinte eu o recebo na porta e cada um se dirige ao lugar designado pela disposição dos móveis na sala de atendimento. Minutos depois, ele se
levanta do sofá e, para minha surpresa, deita-se rapidamente no divã, deixando escapar um “ufa!” Perdemos o contato visual, ficamos novamente imersos nas palavras.
Sua interjeição me faz crer que ele se sinta aliviado ao sair do alcance do meu olhar.
Faço poucas intervenções, pontuo algo aqui e ali e assisto com especial curiosidade a maneira como ele se apresenta, pouco a pouco, a cada novo encontro. A
angústia oscila entre querer saber algo a seu respeito e o receio, intuído em diversos
momentos, de que alguma pergunta um pouco mais direta fosse percebida como invasiva. Sim, isso faz sentido dentro de mim, acomodo-me mais tranquilo na poltrona
e deixo suas palavras modularem o ambiente. Novamente ouço em pensamento trechos da música do Caetano: you don’t know me… you don’t know me at all.
Expressões do reconhecimento
Essa breve vinheta de um início de análise pode servir de ponto de partida
para pensarmos sobre um aspecto dos relacionamentos sociais que tem sido objeto
de reflexão de diversos pensadores no campo psicanalítico: o reconhecimento do
outro (Frosh, 2002; Benjamin, 1990; Butler, 2000; Allen, 2006). Mais especificamente, o reconhecimento do outro como semelhante e como diferente, portador de uma
alteridade que ao mesmo tempo revela a estreita proximidade e a larga distância
existente entre duas pessoas.
Expressões do reconhecimento e da sujeição na experiência intersubjetiva
Na língua portuguesa, o verbo reconhecer é utilizado para designar uma grande variedade de atos transitivos, isto é, que partem de um sujeito em direção a um
objeto. Algumas acepções desse verbo são3: conceber a imagem de uma coisa ou alguém que se revê; distinguir características de algo ou alguém; admitir como verdadeiro e real; observar; explorar; mostrar gratidão; constatar, admitir como legítimo; e, por
fim, rever a própria fisionomia ou traços morais em alguém. Portanto, reconhecer – e
por extensão, o reconhecimento – refere-se essencialmente à constatação de determinados aspectos do objeto que guardam algum tipo de semelhança com o sujeito,
mas que preservam diferenças individuais.
Em inglês, duas palavras são utilizadas para designar reconhecimento: recognise e acknowledge. Na primeira, identificamos o radical latino cognitio, a capacidade
de cognição, de aquisição de um conhecimento pela via perceptiva das experiências
sensoriais, das representações, pensamentos e lembranças (como em: eu a reconheci
na fotografia). O segundo vocábulo tem a raiz anglo-saxônica cnawlece, que se refere
tanto a um sentimento de respeito, honra, admiração (obteve reconhecimento pelas
suas contribuições), quanto à familiaridade e intimidade com algo ou outrem4 (ela se
reconheceu na angústia da amiga).
É curioso notar a diferença entre os dois termos. O reconhecimento associado
ao vocábulo recognise refere-se ao conhecimento racional, a um aspecto objetivo do
ato de entrar em contato com algo que pode ser descrito pelas suas características
específicas. Por outro lado, o reconhecimento de que trata o vocábulo acknowledge
indica um aspecto subjetivo da experiência, um conhecimento imediato que se processa sobremaneira pela via dos sentimentos.
A partir dessa analogia, o reconhecimento do outro pode ser entendido como
uma experiência objetiva de identificação de suas características individuais, associada a uma experiência subjetiva de familiaridade e respeito pelo outro. A alteridade,
nesse sentido, é estabelecida pelas relações de contraste, distinção e diferença que
possibilitam o discernimento das qualidades singulares do outro, ao mesmo tempo
que preservam a dimensão ontológica que une duas pessoas pelos laços de humanidade.
A capacidade de reconhecimento depende de um certo grau de amadurecimento da consciência de si que, como tal, aponta para uma dimensão ética dos relacionamentos. Sempre me recordo do sentimento de invasão que algumas pessoas
conseguem infligir ao impor sua verdade para dentro do outro. Isso pode acontecer,
inclusive, sem a pretensão de ferir ou ignorar a pessoa do outro, sua presença e importância. A dimensão ética do reconhecimento do outro como outro, da experiência de alteridade, depende em grande medida de um despertar consciente por parte
3Cf. Dicionário Houaiss Online (http://houaiss.uol.com.br).
4Cf. Online Etymology Dictionary (http://www.etymonline.com).
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Pericles Pinheiro Machado Junior
do sujeito. Ao contrário da situação invasiva, que pode ou não ter uma determinação
predominantemente inconsciente, o reconhecimento pressupõe uma intencionalidade que inclui os aspectos racionais de recognition, tanto quando as expressões sublimes de acknowledgement. Nas palavras de Stephen Frosh e Lisa Baraitser:
Este tipo de reconhecimento não é um evento meramente cognitivo, tampouco
um reflexo passivo ou espelhamento do que já está, de alguma forma, no outro.
Antes, é algo que se estende ativamente em direção ao outro, que cria aquilo
que encontra, mas também permite que o outro seja; é, neste sentido, para retomar o tema do sagrado utilizado anteriormente, um processo de santificação,
em que o que é encontrado no outro é igualmente acalentado especificamente
pela sua capacidade de ser diferente, sua alteridade. (Frosh & Baraitser, 2003)5
Na experiência de reconhecimento da alteridade, encontra-se implícita uma
capacidade do sujeito para lidar com as diferenças e as semelhanças, com a aproximação e o distanciamento entre este e o outro, cuidando para que os contornos
psíquicos (a individualidade do self) sejam mantidos, e não ameaçados por esse contato. Essa capacidade implica permitir a manifestação das diferenças em paralelo a
uma apreciação da semelhança estrutural entre duas pessoas (Benjamin, 1990). Há
um limite que deve ser preservado nesse contato, uma delimitação que representa a
autonomia e a liberdade de ambos no relacionamento. Eis aí o aspecto sagrado a que
Frosh e Baraister (2003) se referem: o outro em seu espaço interno deve ser respeitado como tal, preservado em sua autonomia e apreciado por sua singularidade. O
reconhecimento, no sentido de acknowledgement, se expressa pela contemplação do
outro com suas qualidades e idiossincrasias, o que, em contrapartida, evoca o sentimento de conexão com o outro pela constatação da semelhança de seus atributos
humanos, suas benesses e seus defeitos. O respeito pelo solo sagrado em que o outro
se estabelece é uma atitude ética, consciente e intencional.
Expressões da sujeição
A ameaça de ruptura desses limites pode ser sentida como uma invasão, o
desrespeito pelo espaço de liberdade e autonomia do outro. A conexão com o outro,
neste caso, ao invés de propiciar reconhecimento da singularidade de caracteres humanos, torna-se um meio de colonização do espaço interno do outro. As experiências criativas de troca, aprendizagem e amadurecimento tornam-se inacessíveis, predominando uma relação de subordinação do desejo de um sobre o outro.
5 Tradução minha.
Expressões do reconhecimento e da sujeição na experiência intersubjetiva
Colonizar o outro significa profanar seu solo sagrado, invadir seu espaço psíquico pela atribuição de significados que não lhe são próprios. Podemos pensar em
gradações desta colonização, desde situações que denotam um simples mal entendido (por exemplo, quem usa óculos deve ser inteligente) até configurações radicalmente excludentes, como no caso do racismo, da xenofobia e da misoginia (Frosh, 2002).
Nesta acepção, a imagem da colonização faz pensar em uma ocupação indébita, uma situação de dominação em que a própria existência do outro como ser
autônomo é negada e transgredida. A singularidade e os limites que caracterizam o
indivíduo são arrebatadas pelo olhar alheio, pela imposição de categorias que dizem
pouco ou nenhum respeito àquele que se vê assujeitado. Configura-se uma disparidade onde antes havia uma espécie de simetria: se o reconhecimento implica a
manutenção de uma ética relacional, em que um e outro encontram-se em pé de
igualdade pela afirmação e aceitação daquilo que os faz diferentes, a colonização implica a submissão do outro a um novo discurso. Impõe-se ao outro uma redefinição
de sua identidade no âmbito das relações sociais, muito embora a permanência do
outro nessa posição de assujeitado não seja necessariamente dada como garantida.
Há sempre a possibilidade de reações subversivas e, em alguns casos, violentas.6
O que essa descrição sugere é um estado de coisas em que o poder de um é
dirigido ao outro de fora para dentro, o que pode facilmente resvalar em uma visão
maniqueísta, uma idealização que – como é de costume para as idealizações – separa
o mundo em fortes e fracos, senhores e escravos, dominadores e subordinados. De
fato, o currículo da humanidade apresenta uma infinidade de eventos em que o uso
do poder para fins perversos parece ser a face mais visível desses fenômenos. O próprio termo colonização, utilizado para se referir ao ato da sujeição inibidora, denota
uma predominância do poder hegemônico sobre o outro e sua autonomia, uma ocupação territorial pelo que sujeita e a desterritorialização do assujeitado.
É neste contexto que Judith Butler (1997) retoma o pensamento de Foucault
para indagar as condições para o estabelecimento de relações de sujeição. Em um
primeiro momento, o exercício do poder sobre o outro é pensado como resultante de
uma imposição deliberada pelo mais forte, uma ação que determina a subordinação
do outro, relegando-o a um patamar de inferioridade (p. 2). Se, no entanto, tomarmos a perspectiva de Foucault em Vigiar e Punir (1975/1991) e analisarmos a ação
do poder, não apenas em sua dimensão externa mas também como ação constituinte
do sujeito,
6 Um filme que expressa graficamente a reversão de perspectiva nos limites da sujeição é “Dogville”,
de Lars von Trier (2004), em que a doce personagem principal (Grace), após uma longa jornada
de submissão aos interesses e crueldades dos moradores de uma vila, transforma-se na Nêmesis
que lhes devolve de um só golpe toda a violência que nela ficou contida (dis-Grace).
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Pericles Pinheiro Machado Junior
como aquilo que provê as próprias condições para sua existência e para a trajetória de seu desejo, então o poder não é apenas aquilo a que nos opomos,
mas também, de forma significativa, aquilo de que dependemos para nossa
existência e que se funda e se preserva naquilo que somos. (Butler, 1997, p. 2)7
A sujeição, portanto, é descrita tanto como colonização, no sentido de uma
atitude que rompe com a possibilidade de reconhecimento da alteridade, instalando
no outro uma espécie de controle por meio da atribuição de significados alienígenas
e da subversão de sua autonomia e desejo, mas também aponta, paradoxalmente,
para um ato de inauguração da subjetividade. Esta é uma formulação bastante ambígua que Foucault, segundo a análise de Butler (1997), não elabora em termos dinâmicos, tampouco explica de que modo o sujeito é formado pela submissão ao poder
do outro.
Seguindo ainda na trilha de Foucault, a palavra que designa sujeição em francês é assujettissement, sendo traduzida como subjugação em seu sentido mais forte.
Contida nessa palavra encontra-se o termo sujet, que se traduz como sujeito (como
em: voilà le sujet qui j’ai connu ‘y a longtemps), mas também como objeto (le sujet
dont nous nous occupons). Brincando um pouco com as palavras, depreendemos aqui
uma curiosa gramática em que sujeito e objeto criam-se mutuamente, engendram-se
a partir de um mesmo ato que estabelece posições subordinadas vazias de conteúdo,
mas estruturalmente interdependentes. Na gramática não há bandidos e mocinhos,
vilões e vítimas. O problema, portanto, parece ser menos a estrutura do agenciamento de poder implicado na sujeição, e sim o uso que se faz desse poder e a forma que
este assume no contato com o outro. Visto por esse prisma, ocorre-me pensar em
duas expressões da sujeição:
Como coerção, sujeitar significa submeter o outro a uma força que o intimida
e o reduz a um objeto parcial, saturado de significados projetados para dentro de seu
corpo. Essa é a primeira expressão da sujeição descrita por Butler e pode ser associada a todas as modalidades de relacionamento assimétrico em que o elo mais fraco
é submetido pelo mais forte. Configura-se uma equação em que as diferenças – de
poder, força, capital, potência – são polarizadas em positivo-negativo, mais-menos,
maior-menor, bom-mau, e uma das partes se impõe à outra em um esforço de negação, dominação ou mesmo aniquilação.
Como determinação, sujeitar é uma forma de conferir significado à ação do
outro, definindo parâmetros para a leitura de seus atributos. Nessa acepção, temos
novamente uma dupla cuja assimetria é marcada pela disposição do olhar de um
sobre o outro, em que o primeiro é possuidor de um suposto saber a respeito do
segundo. Entretanto, a qualidade desse saber pode se traduzir em uma perversão da
7 Idem.
Expressões do reconhecimento e da sujeição na experiência intersubjetiva
realidade do outro – como no preconceito, na discriminação e em todas as formas
de exclusão categórica –, mas também pode servir como ponto de referência para a
construção de um saber autêntico – por exemplo, na formação da identidade profissional, na educação e nas relações de amizade. Neste caso, o respeito pelo outro deve
estar presente, o que modifica desde o início o teor desse ato de sujeição, evidenciando sua faceta de suporte à construção do sujeito.
Em síntese, torna-se evidente que o aspecto vil da sujeição refere-se à colonização do outro, sua ocupação indébita e sua submissão a categorias e significados
que restringem sua liberdade e a expressão de sua singularidade. Por sua vez, o aspecto construtivo da sujeição pode estar referido a uma organização da subjetividade, o estabelecimento de uma lei que funda o sujeito ao inscreve-lo em um registro
humano, limitado, possível.
Reconhecimento e experiência intersubjetiva
As expressões do reconhecimento e da sujeição a princípio parecem revelar
apenas o antagonismo entre duas posições do sujeito perante o outro. Mas tomando
a perspectiva discutida por Butler a partir das ideias de Foucault, vemos que a sujeição por si não é necessariamente uma imposição aética do desejo de um sobre o
outro. Aqui estou pensando particularmente nas relações de cuidado com o outro,
como no caso da mãe com o bebê ou no relacionamento que se estabelece no curso
de uma análise. Essas situações denotam um aspecto da relação humana caracterizada pelo apoio e pela dependência, no sentido de um suporte fundamental para a
existência do outro.
Nesse contexto, Winnicott (1963/1983) fala da dependência absoluta do bebê
em relação à mãe, sem a qual sua sobrevivência física e psíquica torna-se ameaçada.
À medida que o bebê passa por vivências gradativas de satisfação de suas necessidades, intercaladas com momentos de frustração, integração e sobrevivência psíquicas,
apoiado a todo instante pela capacidade de holding da mãe, essa dependência absoluta evolui para uma dependência relativa e, posteriormente, a uma independência relativa. Não se chega jamais a uma independência absoluta, pois o alimento psíquico
deve ser continuamente fornecido no contato com o outro e nas trocas afetivas que
incluem manifestações de amor, ódio e conhecimento. Partimos da dependência plena para a independência incompleta, e ao longo dessa trajetória somos convocados a
nos engajar emocionalmente com o outro.
A hipótese da independência absoluta nos faz pensar em um estado de coisas em que o outro seja perfeitamente dispensável para o self, o que implicaria uma
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Pericles Pinheiro Machado Junior
retirada melancólica do desejo e a perda significativa do contato com a realidade
objetal. A dependência nos conclama a reconhecer a importância do outro, de sua
presença que confirma nossa própria existência e mantém viva a capacidade de formar vínculos amorosos, criar, trabalhar, produzir… e perder.
Onde há dependência, no sentido desse suporte necessário, encontra-se uma
relação assimétrica em que a potência de um coloca-se a serviço do outro. A mãe
que aborda o bebê com seu amor, que o amamenta, interpreta seu choro e responde
com alguma forma de acolhimento encontra-se necessariamente em uma posição
de predomínio de seu poder sobre o pequeno ser em formação, conforme podemos
depreender dos trabalhos de Winnicott (1958/1993) e Laplanche (1987/1992). As vivências intrapsíquicas do bebê são suportadas pelas experiências de reconhecimento
por parte da mãe que dele se ocupa, mas também das experiências de sujeição na
medida em que o olhar da mãe e os significados atribuídos às expressões emocionais
do bebê conferem contornos à subjetividade incipiente do ser em formação.
As teorias psicanalíticas que abordam a intersubjetividade partem do princípio de que o relacionamento estabelecido entre duas pessoas transcende os limites
da experiência intrapsíquica originalmente descrita por Freud. Do ponto de vista
teórico, o intrapsíquico e o intersubjetivo são duas dimensões da experiência que
coexistem e se complementam, possibilitando uma compreensão do impacto dos
relacionamentos humanos no desenvolvimento do sujeito, e da influência dos mecanismos psíquicos e fantasias de seu mundo interno, os quais determinam expressões
de sua vida psíquica e condicionam seus modos de interação com o mundo externo
(Benjamin, 1990).
Retomando a vinheta apresentada inicialmente, é possível identificar alguns
aspectos dessas duas dimensões na situação do encontro com o outro. O rapaz que
é recebido para as primeiras entrevistas de análise desperta no analista uma série de
impressões, sensações e imagens que, em parte, dizem respeito ao mundo interno do
analista e, em parte, resultam do encontro de duas subjetividades. O mesmo ocorre,
muito provavelmente, com o rapaz em relação ao analista, o que pode ser evidenciado em suas reações às palavras e pontuações das primeiras conversas, sua movimentação pela sala e a modulação das tonalidades emocionais em sua fala.
Na psicanálise, partimos do princípio de que o desconhecimento do analisante em relação ao analista seja o terreno fértil para o trabalho clínico que poderá
brotar e se desenvolver à medida que se instale a situação transferencial. O desconhecimento mútuo do analista e do analisante – algo de certa forma idealizado, pois
o percurso que leva um indivíduo a buscar o analista passa frequentemente pelo encaminhamento de um e a indicação do outro, envolvendo um terceiro que faça o elo
– possibilita a ambos a situação do estrangeiro, do estranhamento receptivo a partir
do qual poderá ter início uma narrativa única. Os graus de separação interpostos
Expressões do reconhecimento e da sujeição na experiência intersubjetiva
entre o analista e aquele que o procura são a condição essencial para que possa haver
o encontro, a experiência emocional, a diferença que engendra o reconhecimento do
outro como alguém diverso, cuja história jamais poderá se esgotar por mais que as
palavras e o olhar se esforcem por perambular em todos os meandros da existência
desse outro. Lembrando da música: bet you’ll never get to know me, you don’t know
me at all.
Todo movimento em direção ao outro desperta alguma reação. Na situação
clínica, o manejo desses movimentos é feito com cautela, não por uma questão de
assepsia mental, como se fosse possível haver neutralidade absoluta, mas pelo fato de
que a fala do analista pode inadvertidamente resvalar em uma perturbação excessiva do espaço psíquico do analisante. Recordamos aqui a temática do sagrado a que
Frosh e Baraitser (2003) se referem. O paciente em análise busca acknowledgement, o
reconhecimento do outro que possibilite a compreensão de sua própria experiência
emocional. A tênue linha que separa o conhecimento intelectual do reconhecimento
do outro não é pontilhada por palavras conscientes, e sim pela moção delicada de
significados inconscientes que possibilitem ao outro uma vivência de contato verdadeiro, marcada menos pelo impacto do olhar do analista do que pela sensibilização
de sua presença.
Há alguns anos, atendi uma senhora cuja experiência emocional era predominantemente marcada por angústias paranoides insuportáveis. Todo e qualquer
movimento ao seu redor era vivenciado como um terrível jogo de perseguição, um
complô universal articulado pelos homens (sobretudo e curiosamente os juízes de
futebol) para aniquilar qualquer indício de emancipação e prosperidade dos membros de sua família. Nessas condições, a comunicação com a paciente era invariavelmente atribulada por fantasias de envenenamento e perda de vitalidade: a água que
bebia tinha um gosto amargo e a fazia suspeitar que seus vizinhos tivessem colocado
um animal morto dentro da caixa d’água. Do mesmo modo, meu olhar ou o uso de
determinadas palavras eram às vezes experimentados como tentativas de controlar
magicamente seus pensamentos. Durante algum tempo, a única forma de contato
possível e tolerável por esta senhora era a presença silenciosa do analista e a continuidade dessa presença no tempo.
No trabalho de análise, o outro – o analista – é, às vezes, pressentido como
uma presença invasiva que ameaça colonizar o mundo interno do paciente, atribuindo às suas experiências emocionais sentidos e significados que alteram a percepção
de si. Ao mesmo tempo, o analista é procurado justamente por sua capacidade (suposta) de enxergar no outro algo além dos aspectos conscientes de seu conflito. A
sujeição se expressa aqui nas duas formas discutidas anteriormente: como risco de
colonização que incita a angústia, mas também como ponto de referência para a
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Pericles Pinheiro Machado Junior
construção de uma narrativa que possibilite ao outro um contato mais verdadeiro
com sua realidade psíquica e com a experiência da subjetividade.
A dimensão intersubjetiva representa esse campo de relacionamento em que
dois sujeitos experimentam a presença, o estranhamento, a diferença e o reconhecimento de características de um e de outro, mediados por fenômenos intrapsíquicos
de identificação, projeção, negação, introjeção, desidentificação etc. No contexto da
intersubjetividade, entende-se que:
o outro deve ser reconhecido como um outro-sujeito para que o sujeito experimente por inteiro sua subjetividade na presença do outro. Isto significa, em
primeiro lugar, que temos uma necessidade de reconhecimento e, em segundo, que temos a capacidade de reconhecer os outros em contrapartida – um
reconhecimento mútuo. Mas o reconhecimento é uma capacidade do desenvolvimento individual que só é desigualmente realizado. Em certo sentido, o
propósito de uma psicanálise relacional é explicar este fato. (Benjamin, 1990)8
A possibilidade de reconhecimento depende sobretudo do não saber, do estranhamento, da separação abissal que coloca um e outro a uma distância infinita,
mas que preserva (assim esperamos) a capacidade de detectar a presença do outro no
horizonte psíquico de um encontro provável. A diferença que nos separa do outro
é aquilo que nos permite estabelecer contato com este outro e reconhece-lo como
tal. O rapaz que chega para as entrevistas iniciais de análise deixa claro o desejo e
a angústia de estabelecer um relacionamento com o outro, evidenciados pela sua
presença e retorno nos horários combinados, pela sua fala carregada de emoções e
também pelo desvio do olhar do analista, quando decide subitamente sair do sofá e
deitar-se no divã.
O contato com o outro é mobilizador de uma infinidade de sentimentos que,
bem sabemos, são constituídos a partir das relações estabelecidas ao longo de toda
uma existência. Na linha de pensamento proposta por Jessica Benjamin, a dinâmica
intrapsíquica é o lugar das relações de objeto, onde o sujeito cria e recria sua realidade no contato com as fantasias que projeta interna e externamente, entre partes do
self e partes do objeto, até que se torne possível a experiência do objeto total. Neste
ponto, a dimensão intersubjetiva parece ficar mais evidente ou melhor delineada.
A experiência do sujeito com o outro não é apenas fruto de condensações, deslocamentos e representações do mundo objetal, mas inclui também o contato vivo com
a alteridade, ora tolerável, ora insuportável, mas sempre imprescindível para que se
produza sentido e amadurecimento das capacidades de relacionamento com o outro
8 Idem.
Expressões do reconhecimento e da sujeição na experiência intersubjetiva
como um outro sujeito, com vida própria e desejo incerto, presente e sempre pronto
para se despedir.
A música de Caetano Veloso que surge nos pensamentos do analista em contato com o desconhecido, expressa uma verdade e um alerta à medida que a relação
transferencial começa a se esboçar e dar indícios de um possível engajamento. You
don’t know me, bet you’ll vever get to know me; You don’t know me at all. Suportar
o não saber significa apreciar a capacidade do outro ser muito mais do que aquilo que se pode depreender no encontro de duas subjetividades. There’s nothing you
can show me from behind the wall – but please, show me from behind the wall. O
distanciamento é necessário a ambos para que seja possível uma aproximação à medida que o contato com o outro seja experimentado como suficientemente seguro,
preservando-se o respeito às diferenças e aos limites do espaço sagrado em que se
afirma a singularidade radical do outro. O desejo de reconhecimento, no entanto,
exige a saída de trás do muro e a confiança na incerteza de que o olhar do outro possa
servir ao conhecimento de si, não como uma verdade colonizadora, mas como uma
possibilidade ética.
Permitir, suportar, possibilitar… as palavras usadas para descrever os fenômenos do encontro e do reconhecimento não são indicativas de uma garantia, mas de
uma probabilidade que, a princípio, está aberta à realização.
Expresiones de reconocimiento y sujeción en la experiencia
intersubjetiva
Resumen: A partir de una viñeta clínica del comienzo de un trabajo psicoanalítico,
el autor propone un ensayo sobre un aspecto de las relaciones sociales que ha sido
objeto de reflexión por diversos investigadores en el campo del psicoanálisis: el
reconocimiento del otro como semejante y diferente, portador de una alteridad
singular que al mismo tiempo, revela la cercanía y la gran distancia entre dos personas.
Basándose en el pensamiento de Foucault sobre las relaciones de poder y sumisión,
y la teoría de Winnicott sobre el holding y la dependencia, el reconocimiento de la
alteridad se examina como un modo de experiencia intersubjetiva, mediada por el
respeto a las diferencias y los límites del espacio psíquico en el que la singularidad
radical de el otro se actualiza.
Palavras clave: alteridad, holding, sujeción, Winnicott, Foucault.
Expressions of recognition and subjection in the intersubjective experience
Abstract: From a clinical vignette of the beginning of a psychoanalytic work, the
author proposes an essay on one aspect of social relationships that has been object of
reflection by various researchers in the field of psychoanalysis: the recognition of the
other as similar and different, carrier of a singular otherness that at the same time,
107
108
Pericles Pinheiro Machado Junior
reveals the close proximity and the large distance between two people. Relying on
Foucault’s thought on relations of power and subjection, and Winnicott’s theory on
holding and dependency, the acknowledgement of otherness is discussed as one mode
of intersubjective experience, mediated by the respect for differences and boundaries
of the psychic space in which the radical singularity of the other is restated.
Keywords: otherness, holding, subjection, Winnicott, Foucault.
Referências
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(Trabalho original publicado em 1975).
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Winnicott, D. W. (1983). Da dependência à independência no desenvolvimento do indivíduo. In D.
W. Winnicott, O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artes Médicas. (Trabalho
original publicado em 1963)
Winnicott, D. W. (1993). Da pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro: Francisco Alves. (Trabalho original publicado em 1958)
Pericles Pinheiro Machado Jr. Av. São Gabriel, 626/52
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© ALTER – Revista de Estudos Psicanalíticos
TRADUÇÃO
ALTER – Revista de Estudos Psicanalíticos, v. 30 (1) 111-136, 2012111
As Grandes controvérsias e o après-coup1
Rosine Jozef Perelberg
A primeira vez que li as Grandes controvérsias, eu ainda estava em formação.
Naquele tempo, esses textos não tinham sido publicados, mas tive acesso a eles no
Boletim da Sociedade Britânica de Psicanálise. Como cresci no Rio de Janeiro, antes
de vir à Inglaterra, eu pertencia a uma tradição fortemente relacionada à psicanálise
francesa. Ao ler esses textos e discussões, percebi que o conceito de après-coup não
foi mencionado nenhuma vez. Pensei que poderia ser essencial para esclarecer as
diferenças fundamentais entre posições divergentes. Do ponto de vista descritivo,
descobri que alguns autores estiveram bem perto de delinear alguns aspectos desse
conceito. Parecia também que muitas das ideias sugeridas então eram mais claras do
que nunca a respeito de algumas diferenças. Há três anos, escrevi um pequeno artigo
sobre o après-coup no Boletim Interno da Sociedade Britânica de Psicanálise, onde eu
fiz as observações acima.
Bateson, citando a fórmula de Korzybski (1941) de que o mapa não é o
território, pergunta: “Quais são os elementos do território que se encontram no
mapa?” Sua resposta é que “o que aparece no mapa é realmente a diferença, uma
diferença de altitude, vegetação, estrutura da população, área etc.”. São, então, as
diferenças que aparecem no mapa. Existe um número infinito de diferenças e “desse
infinito, iremos selecionar um número muito limitado de diferenças que se tornam
informação. Na verdade, o que entendemos por informação – a unidade básica da
informação – é uma diferença que cria uma diferença” (Bateson, 1980).
Gostaria de propor, neste artigo, uma distinção entre o que é conhecido
de forma descritiva como après-coup e o que identificamos como après-coup no
plano dinâmico, evocando o que Freud estabeleceu entre inconsciente descritivo e
inconsciente dinâmico no modelo tópico da mente. Après-coup descritivo refere-se
à utilização desse conceito na literatura francesa psicanalítica na qual ele possui um
sentido de significação retrospectiva no desdobramento do “instante a instante” da
sessão. Minha abordagem aqui é a respeito do après-coup dinâmico, que me parece
estar no cerne da metapsicologia freudiana.
1 Agradeço a Jean Luc Donnet o convite para participar no Simpósio de Deauville e por seus
comentários sobre este texto. Sou muito grata, também, a Luiz Eduardo Prado de Oliveira que
me enviou a versão eletrônica dirigindo sua tradução do texto francês de Controvérsias. Agradeço
também Françoise Coblence, Marilia Aisenstein, Bernard Chervet, Monique Cournut, Danielle
Donnet também pelos seus comentários sobre este texto.
112
Rosine Jozef Perelberg
As Grandes controvérsias concentram-se em quatro textos e estendem-se
por uma série de dez reuniões de janeiro de 1943 a julho de 1944 (King e Steiner,
1996). Para essa discussão, vou me focar, mais especificamente, em dois textos que
foram discutidos em seis encontros. O primeiro, de Susan Isaacs, “As fantasias
inconscientes”, discutido durante cinco reuniões; o segundo, de Susan Isaacs e Paula
Heimann, diz respeito à “Regressão”. Pearl King sugeriu que esse último texto foi
discutido durante uma reunião apenas, devido ao fato de existir um grande consenso
sobre essas questões (1996). Minha impressão é diferente. Penso que o tema da
regressão foi abordado na maioria das discussões e que algumas diferenças essenciais
já haviam sido estabelecidas, como pretendo mostrar agora.
Ambos os textos, e as discussões deles resultantes, contêm, a meu ver, as
questões realmente fundamentais, que são a natureza das fantasias inconscientes e
suas relações com a temporalidade e a sexualidade, discutidas na psicanálise não só
naquela época mas também em debates no seio da Sociedade Britânica de Psicanálise
desde então. Creio que é útil rever essas discussões porque, em muitos aspectos, essas
questões foram discutidas de forma clara como nunca na Sociedade Britânica. André
Green, em seu prefácio à edição francesa, afirma que “essas Grandes controvérsias
são o documento mais importante na história da psicanálise” (p. xi). Gostaria de
abordar essas questões à luz do conceito de après-coup.
Minha apresentação será composta de três partes principais. Na primeira,
apresentarei o meu entendimento do conceito de après-coup na obra de Freud, mas
também das suas relações com os conceitos de fantasias e diferentes concepções de
tempo em Freud.
Na segunda, usarei esse conceito para iluminar os assuntos discutidos nas
Grandes controvérsias e indicar como ele poderia ter ajudado a esclarecer diferenças
entre ideias.
Na terceira, finalmente, vou dar exemplos clínicos que mostram como as
ideias que acabei de mencionar auxiliaram em minha prática clínica.
Gostaria de sugerir aqui que o conceito de après-coup é central para a
compreensão das formulações de Freud e opera como uma “iluminação geral” no seu
quadro conceitual, como diz Marx em sua introdução à “Crítica de uma economia
política”:
Em todas as formas de sociedade, é uma determinada produção e relatórios gerados por ela, que atribui a todas as outras produções e relatórios gerados por
eles sua posição e importância. É uma iluminação (Beleuchtung) geral, onde
todas as cores estão mergulhadas e o que modifica suas tonalidades específicas.
É um éter particular que determina o peso específico de todas as formas de
existência que surgem nele. (Althusser, 1968, pp. 63-64)
As Grandes controvérsias e o après-coup113
Essa citação indica a presença da estrutura nos seus efeitos, isto é, a noção
de causalidade estrutural. Althusser também afirma que o conceito de Darstellung
– essencial para a teoria marxista do valor – também a contém (Althusser, 1968,
p. 298?). No entanto, esse ponto de vista sugere também que, mesmo que a estrutura
esteja presente nos seus efeitos, não podemos vê-la, de modo que o conceito indica a
eficácia de uma ausência. Eu tendo a pensar assim o après-coup: como uma ideia tão
central para Freud que ilumina todo o resto.
1. Freud e o après-coup
Thomä e Cheshire salientaram que Freud usava frequentemente o adjetivo/
advérbio nachträglich e substantivo nachträglichkeit relacionados com a sua
concepção de temporalidade e causalidade psíquica. Eles comparam os termos da
“Freud Concordance” inglesa (índice baseado na Standard Edition) relacionados à
“diferido” e o uso que Freud fez desses termos chave em alemão. Não existe um índice
oficial para as correspondências e as obras teórico-clínicas de Freud em alemão. O
valor de algumas dessas comparações é, em todo caso, limitado, uma vez que não
só as Gesammelte Werke e a Standard Edition abrangem um território textual um
pouco diferente mas também os “Protocolos de quarta-feira” foram possivelmente
escritos às vezes por outra mão que não a de Freud. Faimberg sugere que a escolha da
tradução envolve “uma maneira particular de conceber a temporalidade e causalidade
psíquica” (Thomä e Cheshire, 1991) (Faimberg, 2005). Se o nome aparece apenas
cinco vezes em alemão, nachträglich aparece 188 vezes, enquanto existem apenas 46
referências a deferred na Standard Edition (Thomä e Cheshire, 1991).
Après-coup e fantasia inconsciente
O conceito de après-coup em Freud está intrinsecamente ligado às noções de
trauma, memória e fantasia inconsciente, que não podemos entender sem se referir
à metapsicologia freudiana.
Vou abordar essas questões pelos seguintes pontos:
1. O conceito freudiano de fantasia inconsciente está intrinsecamente
ligado à noção de après-coup em relação à sexualidade.
2. Os modelos freudianos da mente envolvem múltiplas dimensões
temporais. André Green (2000) fala de “heterogeneidade diacrônica
do aparelho psíquico.”
114
Rosine Jozef Perelberg
3. O conceito de après-coup está enraizado na metapsicologia freudiana.
Noções de tempo em Freud
Em 1961, em um ensaio, o antropólogo Edmund Leach sugere que o conceito
ocidental moderno de tempo abrange duas experiências de natureza completamente
diferente, que são as duas noções distintas e contraditórias de repetição e processos
irreversíveis. Ele contrasta esses conceitos àqueles existentes em algumas sociedades
primitivas, onde o tempo é experimentado como descontínuo, como resultado de
uma série de oscilações entre polos opostos. Essas três noções de tempo – repetição,
irreversibilidade e oscilação – estão presentes no funcionamento da mente e foram
discutidas por Freud em suas teorias sobre aparelho psíquico. Há nele um quarto
conceito, igualmente central, de tempo, que é o do après-coup (traduzido em inglês
como deferred action2), a partir do qual o presente e futuro dão sentido ao passado.
Freud sugere que o momento (diferente) em que são criados ego e id é
desencadeado pelo recalque. Mas quando é que o recalque acontece? É aí que uma
terceira noção de tempo deve ser introduzida. Em 1926, Freud disse que a maior
parte do recalque que lidamos em nosso trabalho terapêutico são casos de recalque
après-coup. O que ele quer dizer com isso é que “as experiências, impressões e traços
de memória são posteriormente revisados em
​​ função de novas experiências, de
acesso a um outro nível de desenvolvimento” (Laplanche e Pontalis, 1967, p. 33). A
noção de après-coup está associada à função de repetição. Freud escreve: “O que há
de essencialmente novo em minha teoria é a ideia de que a memória está presente
não uma, mas várias vezes e ela é composta de vários tipos de ‘sinais’” (p. 154).
Embora Freud tenha descrito de forma exaustiva sua teoria de après-coup em
“O homem dos lobos”, oferecendo o que pode ser considerada como uma perspectiva
mitológica de suas teorias sobre o tempo, não se consegue apreender a complexidade
dos diferentes modelos de temporalidade em Freud a não ser por meio da leitura de
muitos dos seus textos, cada um indicando uma nova dimensão que não pode ser
compreendida sem levar em conta as outras. Apenas com os textos metapsicológicos
de 1915 que a noção de après-coup adquire seu pleno significado. Retomarei essa
questão em breve.
Indicarei alguns pontos de referência na concepção de tempo em Freud:
1. 1898 – “Sexualidade na etiologia das neuroses”. “Nessas indicações, eu
só pude mencionar os principais fatores sobre os quais se fundamenta
2 Deferred action, literalmente “ação retardada”.
As Grandes controvérsias e o après-coup115
2.
3.
4.
5.
a teoria das psiconeuroses: o après-coup, o estado infantil do aparelho
sexual e de instrumento da alma … Como as manifestações das
psiconeuroses aparecem a partir de traços psíquicos inconscientes
por meio do après-coup, elas tornam-se acessíveis à psicoterapia…”
(1898/1989, p. 236).
1900 – “A interpretação dos sonhos” que aborda os temas da memória
e do estabelecimento de traços de memória, assim como a busca de
uma identidade de percepção.
1900 – “A interpretação dos sonhos”. “Um jovem que era um grande
admirador da beleza feminina….”
1905 – “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” que oferece o
modelo de desenvolvimento da oralidade, da analidade, da fase fálica
e da genitalidade.
1915 – “Os instintos e suas vicissitudes” que aborda a importante
questão das características das pulsões: “O sistema nervoso é um
aparelho que tem como função livrar-se dos estímulos que o alcançam,
restaurando-os ao nível mais baixo possível, ou um aparelho que
gostaria, se ao menos isso lhe fosse possível, manter-se absolutamente
sem estímulo.” (Obras Completas, V. 13, Paris, PUF, 1988, p. 166).
Das 46 referências a deffered no Índice inglês, 12 entradas (ou seja, mais de
um quarto) referem-se a esse único estudo de “Uma neurose infantil” (Thomä e
Cheshire, 1991). Em sua análise de “O homem dos lobos”, Freud discute como a
neurose é construída em duas escalas de tempo – foi a segunda escala que determinou
a constituição da fantasia e a escolha da neurose. Não se trata então de um efeito
linear, cumulativo, que teria resultado no sintoma, mas de uma reorganização de
traços de memória já existentes ligados a um novo estágio de maturação (1918).
Além disso, para Freud, isso passa a ser fundamentalmente ligado ao papel da
castração, a lei do pai que interdita a mãe como objeto de desejo. Esse conceito não
só exclui o determinismo linear, salientando assim a importância do presente na
reinterpretação do passado (uma ideia tão fundamental no trabalho analítico), mas
também coloca a sexualidade no centro das formulações teóricas.
[Freud já tinha exposto a teoria da ação deffered em “Estudos sobre a histeria”
(1895d), onde discute o que ele chamava “a histeria de retenção”. Ele também
fornece explicações muito elaboradas desses mecanismos na histeria, na segunda
parte do seu “Projeto”, publicado postumamente (1950a), também escrito em 1895.
Mas nessas afirmações iniciais da teoria, os efeitos das cenas primárias foram deffered
pelo menos até a puberdade, e as próprias cenas primárias nunca foram consideradas
como ocorrendo em uma idade tão precoce quanto no presente caso.]
116
Rosine Jozef Perelberg
1. 1915a – “Recalque”, Freud propõe o conceito de recalque originário.
Este é o núcleo do inconsciente, com as fantasias primárias da sedução,
da castração e da cena primária, que são constitucionais (transmitidas
de forma filogenética, embora essa ideia tenha sido reformulada na
psicanálise francesa).
2. 1915b – “O inconsciente”. Freud diz que “temos o nosso conceito
de inconsciente a partir da teoria do recalque”. É importante notar
que o inconsciente está ligado à noção de descontinuidade da nossa
vida mental, que por sua vez está ligada a questões de tempo e de
après-coup. Nesse texto, podemos encontrar uma reformulação do
que Freud escreveu a Fliess em 1897: “As fantasias são relacionadas a
coisas que foram ouvidas, mas entendidas, apenas, posteriormente.”
3. 1920 – “Além do princípio do prazer”. O conflito entre as pulsões está
agora entre os instintos de vida e morte. Um aspecto central deste
último é a compulsão à repetição.
4. 1920 – “Sobre a psicogênese de um caso de homossexualidade
feminina”, onde Freud desenvolveu a importante noção de que o
passado não pode “prever” o futuro.
5. 1925 [1924] – “Uma nota sobre o bloco mágico”, onde Freud introduz
a ideia de que a memória está presente não uma, mas várias vezes.
6. 1926 [1925] – “Inibições, sintomas e ansiedade”. A ansiedade é um
sinal que indica uma experiência anterior de perigo – o que Winnicott
voltou dizendo que a catástrofe que tememos já aconteceu. O futuro
contém uma repetição do passado.
A inclusão da fantasia inconsciente e o après-coup na metapsicologia
As fantasias inconscientes e o après-coup estão inscritos na metapsicologia
freudiana – o conjunto de textos que pode ser considerado divorciado de uma teoria
da prática – mas são a expressão de uma tradição intelectual, uma via que Freud
tomou emprestado na sua obra, essencial para a compreensão de suas formulações.
Na Grã-Bretanha e América, os textos metapsicológicos são, com raras exceções,
considerados como relíquias do passado. Na França, no entanto, esses textos estão
vivos e são parte de um debate intelectual. Como observou Jean Claude Rolland,
não se pode ler os textos metapsicológicos da mesma maneira que lemos os textos
mais clínicos. Eles estão imbuídos de “um sentimento de estranheza” que dá a
As Grandes controvérsias e o après-coup117
impressão de que é o inconsciente de Freud que fala com o do leitor, abrindo portas
que esclarecem o enigma do inconsciente. Rolland (2005) mostra como esses escritos
deveriam estar estabelecidos antes de Freud passar ao texto, ainda mais estranho,
“Além do princípio do prazer” e ao modelo estrutural da mente.
A fantasia inconsciente
O après-coup está relacionado com a interação entre memória e fantasia. Nas
formulações de Freud, as fantasias constantemente remodelam, retrospectivamente,
as memórias. O recalque estabelece a ruptura entre consciente e inconsciente, de
modo que, na metapsicologia freudiana, é retrospectivamente que se pode falar
de fantasias inconscientes. A partir dessa perspectiva, a fantasia, como o tempo,
é determinada de várias maneiras e não podemos, a meu ver, considerar como
“central” uma ou outra camada da obra de Freud – nesse ponto discordo de muitos
autores britânicos e americanos, e concordo com os psicanalistas franceses. O que dá
profundidade à teoria freudiana da mente é na verdade a fluidez, a dinâmica entre
os diferentes conceitos. Basta ler os textos clínicos, como “O homem dos ratos”, “O
homem dos lobos”, “O pequeno Hans” ou aquele sobre Leonardo da Vinci para
entender que só podemos ter acesso às fantasias inconscientes pelos seus derivados,
retrospectivamente, sob o olhar de après-coup. No entanto, como disse anteriormente,
as fantasias primárias – Urphantasien – estão presentes desde o início. Em todas
essas fantasias inconscientes Freud parece estar interessado na questão de como a
sexualidade acontece para os seres humanos (cf. Laplanche e Pontalis, 1967).
Spillius, em um artigo que resume a sua opinião sobre o contraste entre os
conceitos de Freud e Klein sobre fantasia inconsciente, publicado no International
Journal, observou que Klein “acreditava que era possível deduzir as fantasias das
crianças a partir de sua análise…” (2001, p. 364). A ideia de um isomorfismo entre
o passado e o presente está aqui implicado. Essa ideia ultrapassa a descontinuidade
introduzida pelo complexo de Édipo e a castração, estruturalmente inseridos entre
as duas noções de tempo. Do ponto de vista freudiano, o conceito de après-coup é
necessário no processo de estruturação da mente e da fantasia inconsciente.
O conceito de après-coup sempre envolve diferenças fundamentais a respeito
da maneira através da qual enxergamos a constituição da mente. Nas formulações
de Freud, o aparelho psíquico não está “pronto” no nascimento, mas constitui-se
posteriormente, durante a formação dos traços de memória, fundamentado nas
experiências de prazer e dor, e com a diferenciação do id, ego e superego. Para Freud,
o inconsciente só é acessível por meio de seus derivados, nas suas relações com o
sistema Pcs-Cs (Freud, 1915a, 1915b). O recalque, no que diz respeito ao après-coup,
118
Rosine Jozef Perelberg
estrutura a mente e encontra-se no início da vida de fantasia. Laplanche e Pontalis
enfatizam que o conceito de nachträglichkeit significa que
não é a experiência em geral que altera o après-coup, mas eletivamente
o que, no momento em que foi vivido, não pôde integrar-se totalmente
em um contexto significativo. O modelo de uma tal vivência é o evento
traumático. (1967, p. 34)
O conceito de après-coup está ligado a uma teoria da mente que inclui
múltiplas temporalidades – movimentos progressivos e regressivos que ocorrem
concomitantemente e se determinam reciprocamente –, o desenvolvimento, a
regressão, o recalque, a fixação, a compulsão à repetição, o retorno do recalcado, a
atemporalidade do inconsciente e o après-coup – como um heptágono em movimento,
penso eu. Essas diferentes dimensões do tempo constituem uma estrutura com uma
dominância (Althusser, 1968), e essa dominância reside no après-coup.
As Grandes controvérsias
Parte II
Questões de tempo, vida e morte, de começo, eram discutidas na época das
Grandes controvérsias. Freud morreu na Inglaterra, longe de seu país natal, como um
judeu que fugiu da perseguição nazista, salvo pela generosidade e preocupação de seus
amigos. A segunda guerra mundial pairava sobre as discussões e os participantes, às
vezes, tinham que se refugiar no porão do Instituto em fncao das bombas que caiam
sobre Londres. Aconteceu até de tomar-se uma decisão que permitia àqueles que
tinham uma família partir, como se não fosse claro que a sobrevivência física das
pessoas, às vezes, poderia ter precedência sobre a das ideias.
As Grandes controvérsias tiveram como pano de fundo Londres durante os
bombardeios. Não há realmente nenhuma surpresa que a temporalidade esteve no
centro dessas discussões e que nós, ao que parece, tentamos separar o presente do
passado e do futuro, quando este era de dimensões trágicas consideráveis. O trauma,
a repetição, o desprazer levam-nos a “Além do princípio do prazer”.
Estudos anteriores das Grandes controvérsias centraram-se em discussões
em torno de divergências sobre a natureza da temporalidade e da fantasia (King
e Steiner, 1996; Hayman, 1994). Na minha análise dos debates que aconteceram
durante as Grandes controvérsias, eu gostaria de considerar, mais particularmente, as
principais diferenças nelas expressas a respeito da temporalidade. Ao fazer isso, vou
As Grandes controvérsias e o après-coup119
me concentrar em analisar os conceitos de regressão, de complexo de Édipo e fantasia
inconsciente em relação à sexualidade. Embora a noção de après-coup (deferred
action) não seja mencionada nenhuma vez durante as discussões, vou sugerir que ela
é útil para destacar as profundas diferenças entre as ideias expressas naquela época
sobre considerações psicanalíticas importantes – diferenças essenciais, creio eu, que
existem até hoje.
Meu ponto de vista é que um exame mais detalhado dos debates incidiu
particularmente sobre a questão da temporalidade e da metapsicologia mostrando
que as críticas mais decisivas foram feitas pelo “grupo intermediário” e pelas posições
expressas por Glover, Ella Sharpe, Brierley e Sylvia Payne, mas também por Hoffer
e Friedlander.
Os textos das Grandes controvérsias
O primeiro texto apresentado por Susan Isaac discute a natureza da fantasia
inconsciente e apresenta a ideia de que as fantasias inconscientes são “o conteúdo
original dos processos mentais inconscientes e ‘o corolário mental, a representação
psíquica do instinto’” (Isaacs, 1948). Essas ideias são consistentes com as das
fantasias originárias de Freud, embora as duas formulações sejam diferentes, tanto
em termos de conteúdo quanto de estrutura. Para Freud, as fantasias originárias
são a castração, a sedução e cena primária. Para Klein, as fantasias inconscientes
resultam, particularmente, do instinto de morte. Os primeiros objetos internos têm
uma natureza rude e primitiva, derivada da inveja constitucional.
Após a leitura das cinco discussões que se seguem ao texto, percebi que o
conceito de regressão tornou-se um conceito-chave em torno do qual as questões
relacionadas à temporalidade foram debatidas. Uma noite inteira foi dedicada somente
à discussão do texto de Susan Isaacs e Paula Heimann, que fala especificamente de
“regressão”. Hayman (1994) parece pensar que isso reflete que todos estão de acordo
sobre este conceito. Prefiro pensar que este é um conceito-chave em torno do qual
concentraram-se as diferenças essenciais sobre a questão da temporalidade e que o
conceito de regressão foi tratado durante todas as noites de as Grandes controvérsias.
120
Rosine Jozef Perelberg
A regressão
O movimento para frente e o para trás
Em seu primeiro comentário, nos primeiros dez debates, centrado na fantasia
inconsciente, Jones comparou fantasia e satisfação alucinatória do desejo. Duas
ideias centrais são expressas em relação ao seu entendimento de regressão.
Primeiro, ele acha que a regressão fornece o acesso às expressões iniciais
(early) de fantasias. Aqui, early significa “cedo”. André Green observou que “o termo
é intraduzível em francês, uma vez que nem ‘precoce’ nem ‘primitivo’ dão conta do
que deveríamos a cada vez designar por ‘ocorrendo muito cedo na vida’”. “Melanie
Klein argumenta que o que está relacionado com o passado antigo é, necessariamente,
o que é mais importante e mais fundamental para a psique.”
Então, de acordo com Jones, há uma continuidade entre as manifestações
ulteriores em relação às anteriores – o que se vincula à noção de continuidade
genética, em grande parte promovida pelo grupo de Klein na época das Grandes
controvérsias.
Esses dois pontos foram o foco de pelo menos 10 discussões, questionados
por muitos participantes como Brierley, Payne, Hoffer e Friedlander. A ideia de
que manifestações ulteriores possam reativar outras mais antigas está presente, e,
portanto, a noção de um duplo movimento, um para frente e outro para trás. Essa
ideia de um movimento bidirecional temporal equivale ao après-coup?
Thomä e Cheshire, de fato, apontavam para os dois sentidos que o conceito
nachträglichkeit implica.
A reativação de predisposições, ou desses padrões e clichés tal como Freud
os definiu (1912b, 1918b), pode estimular associações a – e memórias de – situações
semelhantes no passado.
Strachey tem traduzido nachträglichkeit, geralmente, por deferred action.
Muitos autores têm considerado essa tradução insatisfatória porque, para Freud, a
ideia de efeito retardado do trauma precoce é frequentemente associada àquela de
reconstrução retrospectiva da significação psicológica desse trauma.
Thomä e Cheshire acrescentam a seguinte nota:
A diferença essencial entre os verbos nachtragen e to defer consiste na expressão de relações opostas quanto ao tempo: a primeira expressa a ideia de olhar
para trás (nach = depois, então depois do quê?), enquanto a segunda é olhar
para a frente (adiar… até quando?).
O verbo nachtragen possui, entretanto, um sentido figurado significativo, o de
“guardar rancor”. (1991, p. 421)
As Grandes controvérsias e o après-coup121
Enquanto a tradução preferida de Strachey favorece os componentes da
micro-teoria do movimento para a frente, Lacan concentra-se, ao contrário, sobre
os aspectos orientados para trás, adotando o uso de rétro-action (retroação) e termos
similares em francês (Lacan, 1966, p. 839, 1977, p. 48).
Será que podemos identificar essas ideias – o movimento para trás e o
para frente, a polissemia, a ausência da determinação prévia da significação, a
reestruturação retrospectiva de representações anteriores – em função de seu vínculo
com a sexualidade nos comentários Jones, quando de sua primeira intervenção na
controvérsia?
O funcionamento inconsciente permanente do que é mais precoce pode reforçar o que é mais tardio, enquanto que, inversamente, um evento emocional de
uma idade mais avançada pode, pela regressão, reviver e provocar um reinvestimento de uma atitude mais precoce. (King & Steiner, 1996, p. 302)
Jones enfatiza o duplo movimento, regressivo e progressivo. As fantasias tardias
podem reviver as mais precoces por meio do processo de regressão. Por outro lado,
as fantasias mais precoces podem reforçar as mais tardias. Nós não sabemos ainda
o que ele realmente entende por “reforçar”. Jones segue abordando uma dimensão
importante relacionada às direções e precisa algumas questões. Inicialmente enfatiza
a importância dos impulsos precoces e sugere que eles são de “maior intensidade” do
que os mais tardios; em seguida, deixa a entender que “alguma coisa” atrai a regressão.
Finalmente, ele faz a suposição de que o que é encontrado em adultos pode também,
retrospectivamente, ser encontrado mais precocemente. O que será anexado ao
conceito de continuidade genética – uma ideia que muitos autores, como Isaacs e
Jones, colocaram regularmente à frente ao longo das Grandes controvérsias. Uma
dimensão é completamente omitida nesse comentário: é aquela do novo significado
que pode ser dado a eventos de reestruturação precoce à luz de acontecimentos mais
tardios e, de maneira essencial, o complexo de Édipo. A noção de que algo está à
espera de encontrar sentido no futuro, que esclarece o evento passado – um aspecto
crucial do après-coup no sentido em que ele foi tratado anteriormente neste texto –
está ausente. Isso aparece claramente na afirmação de Jones que continua da seguinte
forma:
A presença dessas fantasias em indivíduos mais velhos levou-me, há muito
tempo, a concluir sua existência real em crianças pequenas, e essa inferência
foi amplamente confirmada, em minha opinião, na análise feita pela Sra. Klein
assim como por outros dados de observações sobre os quais a Sra. Isaacs muitas vezes chamou nossa atenção. (King & Steiner, 1996, p. 324)
122
Rosine Jozef Perelberg
Em seus comentários, Friedlander destaca uma outra dimensão, sugerindo
que pelo mecanismo de regressão, as fantasias tardias assumem aspectos de fantasias
infantis, de modo que é a uma mudança retrospectiva de fantasias mais precoces
que se tem acesso. Assim, as fantasias orais expressas posteriormente podem não ser
resultado da fase oral em si, mas terem adquirido sua oralidade através da regressão.
Pode-se sugerir que este é um componente do après-coup.
A seguir, Friedlander enfatiza em seus comentários os conceitos de estágios
de desenvolvimento, de fixação e interrupção desenvolvimental. No parágrafo
seguinte, ela considera, creio eu, o movimento da libido para trás e acrescenta que,
no pensamento de Klein, o processo de desenvolvimento é considerado de uma
forma mais estática e que o conceito de regressão não tem lugar nessa teoria. Toda a
libido permanece fixada sobre essas fantasias precoces ao longo da vida, sem passar
pelas fases de desenvolvimento biológico descritas por Freud.
M. Brierley, em seu discurso, cunhou o termo, muito interessante, de
sofisticação retrospectiva, o que parece aproximar-se do conceito de après-coup:
Pessoalmente, penso que uma parte da precocidade atribuída à criança pela
Sra. Klein é o simples fato de que um adulto não pode tornar qualquer conteúdo da experiência infantil inteligível para outros adultos, sem que a experiência
tenha um grau de falsificação ou sofisticação retrospectiva”. (King & Steiner,
1996, p. 430)
Glover acredita que a regressão da satisfação oral alucinatória ativa os traços
de memória de experiências reais na extremidade do aparelho sensorial. Parecelhe, além disso, que muitos dos conceitos freudianos foram excluídos: a progressão
biológica de uma série instintual, a formação precoce de imagos de objetos, os
pontos de fixação, a regressão, a possibilidade de uma retirada permanente dos
investimentos de sistemas de fixação pré-edipianos e, por fim, mas igualmente
importante, o alcanço teórico e clínico do complexo de Édipo.
Anna Freud, que se interessa mais especificamente pela teoria da regressão em
questão, parece não identificar nas primeiras discussões as diferenças significativas
implicadas na metapsicologia, pois ela destaca que as diferenças dizem respeito
apenas ao primeiro ano de vida. No entanto, ela observa mais tarde que as discussões
indicaram diferenças para toda a teoria do inconsciente, e mostra que a teoria
kleiniana dá prioridade aos estágios precoces de desenvolvimento e negligencia a
importância dos estágios tardios.
Uma tentativa de esclarecer a questão da temporalidade na psicanálise está
presente durante a maior parte das discussões. Os debates parecem, às vezes, estar
presos na questão de saber se a prioridade é dos eventos precoces ou dos tardios. A
As Grandes controvérsias e o après-coup123
manifestação de um fantasia inconsciente é o produto de um evento precoce (como
os kleinianos sublinharam) ou de um evento tardio que reveste aspectos precoces por
meio da regressão (como pensam os freudianos e o “grupo intermediário”)? Minha
ideia é que o conceito de après-coup resolve a dicotomia entre eventos precoces e
eventos tardios e​​ a questão de quais são os mais importantes, porque mostra como,
na metapsicologia freudiana, os acontecimentos posteriores dão um novo sentido
aos acontecimentos passados que emergem, em seguida, com uma nova significação.
Para Freud, essa visão está essencialmente relacionada ao complexo de Édipo. Volto
agora para o debate sobre este conceito na discussão de ambos os textos.
O complexo de Édipo
As ideias relacionadas ao complexo de Édipo constituíram um aspecto central
das discussões. A diferenciação entre os pontos de vista expressos nos debates não
é de uma dicotomia entre as posições dos kleinianos contra as dos freudianos, um
grupo se situando no meio. Novamente, algumas questões cruciais relativas ao
complexo de Édipo, sua função estrutural e sua temporalidade, foram levantadas
por aqueles que, posteriormente, fizeram parte do grupo intermediário, assim como
por alguns (Anna) freudianos em desacordo com os pontos de vista dos kleinianos.
Se, por um lado, não abordo nada de novo, por outro, continuo a ser
surpreendida pela forma como as diferenças entre, digamos, a concepção kleiniana
do complexo de Édipo e a de Freud tendem a ser confundidas, ainda hoje, na
Sociedade Britânica de Psicanálise. Como Kohon sugeriu:
O complexo de Édipo não só foi tornado mais precoce (por exemplo, por
Melanie Klein e seus seguidores), mas foi também transformado em algo radicalmente diferente: ele deixou de ser modelo da sexualidade e da significação
para o sujeito. (1999, p. 8)
No modelo freudiano, uma reorganização ocorre com a situação edipiana que
desempenha um papel organizador não apenas das diferenças sexuais, mas também
entre as gerações.
Na primeira controvérsia, Sylvia Payne interroga-se a respeito do conceito de
fantasia inconsciente tal como Susan Isaacs o apresenta, simultaneamente em termos
de conteúdo e de temporalidade das fantasias. “Penso que a fantasia, no sentido usual,
não ocorre antes que haja uma experiência psíquica, envolvendo o recebimento de
um estímulo e uma resposta psicofísica”.
124
Rosine Jozef Perelberg
Ela continua, salientando a importância do complexo de Édipo no pensamento
de Freud. Embora Ella Sharpe concorde, por um lado, que não há continuidade entre
fantasias precoces e fantasias tardias (marcando a sua adesão à noção de continuidade
genética), por outro critica a nova definição de fantasia inconsciente proposta por
Isaacs porque não permite uma clara distinção que nos parece importante: aquela
entre phantasias infantis e phantasias edipianas clássicas. Ela enumera as diferenças: o
complexo de Édipo clássico demanda o desenvolvimento do ego e o reconhecimento
da realidade da frustração, o recalque, a utilização de substitutos simbólicos e o
superego que é inseparável do complexo de Édipo de Freud, que ela distingue do que
ela chama de “id ideal” do estado primitivo.
Isaacs acredita que Sharpe faz uma distinção muito grande entre complexo
de Édipo precoce e complexo de Édipo tardio e está mais preocupada em enfatizar a
continuidade genética entre eles. Para Payne, a continuidade genética não impede o
uso de termos diferentes para descrever os estados precoces e os tardios. “Não se fala
de um feto como de um homem”, disse ela.
Barbara Louw também enfatiza a reorganização que ocorre com o complexo
de Édipo e a afirmação me parece ser mais clara sobre essa questão ao longo das
controvérsias:
Mme. Isaacs interpreta a teoria de Freud sobre a fantasia como algo em transformação, que depende de novas situações psíquicas à medida que aparecem.
Por exemplo, a fantasia da mãe introjetada (boa ou má) certamente deve ser
modificada (e talvez completamente alterada) com o estabelecimento do conflito
edípico. (King & Steiner, 1996, p. 361)
Em seu texto e em suas afirmações, Paula Heimann aponta para o “precoce” e
o “pré-genital”, que tomam lugar do edípico:
O significado das fobias de animais foi estudado por Melanie Klein em A psicanálise de crianças (p. 171 e segs.). Na sua opinião … “O medo de ser devorado
pelo superego, mais primitivo do que o medo da castração, mostraria que a
fobia é, na verdade, uma modificação da ansiedade própria aos estados mais
precoces do desenvolvimento.” (Klein 1932, 178 e segs.) (pp. 623-624)
Willi Hoffer parece fazer os comentários que melhor esclarecem a questão
do complexo de Édipo reorganizar retrospectivamente o aparelho mental. Além
disso, ele chama a atenção para as diferentes ênfases que trazem os pontos de vista
freudiano e kleiniano. Ele diz que
As Grandes controvérsias e o après-coup125
de acordo com Freud, as neuroses são doenças relacionadas à função sexual;
segundo a teoria de Klein, neuroses podem ser caracterizadas como doenças
específicas da função destrutiva. (King e Steiner, 1991, p. 723)
Hoffer destaca as principais características do complexo de Édipo freudiano.
Aborda inicialmente a chegada à fase fálica, o que implica uma importante distinção
entre o pênis como um órgão e o pênis como zona erógena. Em seguida, vem a
capacidade de escolher um objeto e, finalmente, o complexo de castração.
Hoffer conclui sua importante declaração com a seguinte observação:
É, portanto, impossível decidir se uma fase pré-genital irá revelar-se patogênica ou não antes da fase fálica demonstrar sua estabilidade ou instabilidade.
(King & Steiner, 1996, p. 647)
Afirma que só podemos retrospectivamente decidir se um evento precoce
pode ser patogênico ou não. É o evento tardio que transforma o mais precoce e lhe dá
sentido. Não é esse o conceito de après-coup? O foco direcionado em seguida sobre o
papel da sexualidade parece completar o componente essencial nesse conceito.
Para Hoffer, Klein propôs uma nova teoria da neurose:
Um segundo aspecto de divergência, de igual importância, consiste no papel
patogênico da pulsão sexual em relação ao papel patogênico da pulsão de destruição. Como demonstrado no texto sobre a “Regressão”, a importância sexual de uma ação não provoca um conflito seguido de um desenvolvimento
neurótico; na teoria kleiniana esse desenvolvimento é sempre atribuído à soma
de tendências destrutivas às tendências libidinais. De acordo com Freud, as
neuroses são doenças relacionadas à função sexual; segundo a teoria de Klein,
neuroses podem ser classificadas como doenças específicas da função destrutiva. … Mas esse ponto de vista tem uma das mais importantes consequências
para as considerações teóricas. Para mencionar apenas um problema: deveríamos entender que o incesto é proibido e que os desejos incestuosos são recalcados pelo elemento destrutivo pré-genital que eles contêm, e não devido aos
desejos proibidos de possessão da mãe que colocam o menino em conflito com
o pai (complexo de Édipo)? (King & Steiner, 1996, p. 648)
Hoffer sublinhou, em seguida, a dominante em cada modelo. Em uma delas, a
sexualidade é o tema dominante, na outra, é a ansiedade.
No caso de Emma, ​​Freud já queria enfatizar a centralidade da sexualidade no
processo de elaboração da significação. Para ele, é impossível separar a questão da
temporalidade da sexualidade infantil, de suas origens e transformações.
126
Rosine Jozef Perelberg
Exemplos clínicos
A seguir irei mostrar como o conceito dinâmico de après-coup está inscrito na
compreensão de minha prática clínica.
Francis
Francis, uma pequena mulher morena de vinte anos, escultora renomada,
procurou-me há alguns anos, quando queria começar uma análise. Ela caminhava
com passos leves, como se estivesse flutuando acima do solo, bonita e elegante. Ela já
havia feito análise em sua terra natal e sentia que a análise a tinha ajudado. Francis é
casada e tem duas filhas.
Em recentes sessões, relatou sonhos de celebridades que enfatizaram tanto sua
idealização de mim como sua identificação narcísica comigo.
Ela tinha lido um capítulo de um dos meus livros publicados recentemente
e achou meu estilo claro e fácil de entender. Teve a mesma impressão no decorrer
das sessões quando eu falava de uma forma que era “orgânica” e que ela achava que
parecia ser uma parte de mim, ao contrário do que sentiu com seu analista anterior
que ela achava muito “cerebral”.
Na sessão da qual falarei agora, Francis havia mencionado sua admiração por
mim, de como eu a intimidava porque escrevia e ensinava. Falou, também, sobre seus
encontros com colegas de trabalho que ela admira muito. Disse que sofria por sentirse estúpida, sem ter nada para dar e depois contou-me sobre seu fim de semana em
Salzburgo, onde ela tinha visto estátuas de Mozart, havia tantas estátuas dele como
uma celebridade absoluta.
Eu disse: Tornar seus colegas e eu celebridades faz você se sentir desprovida,
sem nada.
Houve uma pausa e, em seguida, Francis falou de um quadro que ela tinha
visto em uma exposição naquela manhã. Era o retrato de uma mulher e uma menina
de oito anos, de um erotismo chocante. A mulher estava inclinada sobre a menina,
beijando-a na boca. A menina estava com a cabeça jogada para trás, em posição de
abandono total, mas ao mesmo tempo dava a impressão de participar ativamente
daquele beijo. Ela estava de batom e com os olhos maquiados. Aquela maquiagem
parecia ser a marca do beijo da mulher sobre ela. Era como se ela havia se tornado
aquela mulher, ela exclamou. Um quadro completamente erótico.
Ela parou por aí e um silêncio vibrante invadiu a sessão.
Disse, então, que lembrou de seu relacionamento com a mãe. Nunca tinha
pensado dessa forma. Lembrou-se da paixão que sentia por sua mãe. No entanto,
durante uma discussão com a mesma, ela lhe disse: “Você vai me beijar até a morte”.
As Grandes controvérsias e o après-coup127
(Pensei que havia ali uma passagem da idealização de mim, que a deixava
desprovida, a este outro estado de abandono erótico, a repetição em todas as sessões
dessa experiência de ser “beijada até a morte”, abandonar-se ao beijo que era sua
fantasia do que acontece entre analista e paciente no decorrer da sessão.)
Eu digo: Quando você se entrega a mim nas suas sessões, você não se sente
apenas desprovida, mas também “beijada até a morte”.
Embora eu tivesse refletido sobre isso, havia algo de surpreendente no que
eu tinha acabado de dizer, permanecemos em silêncio por algum tempo. Houve,
no decorrer da sessão, uma corrente que fluía entre diferentes pontos no tempo:
do presente da sessão, à imagem do quadro, à memória de uma experiência de
uma menina na relação com sua mãe (o beijo), à um momento da adolescência que
iluminava retrospectivamente sua experiência de menina – os dois momentos do
passado iluminando o presente da sessão, dando-lhe uma significação adicional.
Uma possibilidade foi expressa de religar o que se passava na sessão ao passado e de
retornar ao presente.
Quatro dimensões do tempo estão presentes:
1. A entrega à analista no presente;
2. A imagem erótica da pintura mostrando uma mulher e uma menina;
3. A memória da paixão que sentia por sua mãe;
4. A memória da discussão com sua mãe quando era adolescente e ela
lhe disse: “você vai me beijar até a morte.”
No aqui e agora, tanto o passado como o presente são interpretados e
compreendidos après-coup, na experiência de um “tempo despedaçado”.
Patrick
Algumas indicações do contexto
Patrick tem quase 30 anos, é o segundo de três filhos, e a caçula era uma menina,
Bárbara. O pai deixou a mãe quando o paciente era ainda criança e nunca reapareceu
ate recentemente quando os dois irmãos fizeram contato com ele. Nos últimos dois
anos, e desde que começou a sua análise, Patrick viu seu pai pela primeira vez desde
a infância. A mãe tinha educado seus filhos, trabalhou em diversos empregos, e
especialmente na cantina da escola. A família vivia em um apartamento pequeno, os
meninos dividiam um quarto e a menina dormia no quarto da mãe. Meu paciente
recorda-se de ser muito próximo de sua mãe.
Bom aluno, teve sucesso na escola e uma educação universitária. Quando me
procurou, ele era professor universitário.
128
Rosine Jozef Perelberg
A análise
Patrick comentou com um colega que estava ansioso para começar uma análise.
Na sala de consulta comigo, eu o senti um pouco relutante e até mesmo com medo
de se envolver em uma análise. Ele já havia ido a dois analistas, mas não se sentiu
capaz para envolver-se com um ou outro. Durante nosso primeiro encontro ele me
contou sobre o doutorado que havia começado e como ele adormecia na biblioteca,
não conseguindo tirar proveito de nada dos textos que lia. Este tema foi importante
durante os primeiros meses do nosso trabalho, isto é, sua maneira de retirar-se para
a passividade ou de dormir quando as coisas ficavam difíceis ou quando ele não
conseguia entender alguma coisa. Compreendi, também, dois outros processos em
ação nele: sua erotização das relações e seu desejo, ao mesmo tempo que seu medo
de adotar uma posição passiva.
Essas duas observações levaram-me à primeira consulta quando perguntei se
ele já tinha tido um relacionamento homossexual: ele negou muito rapidamente.
Fiquei preocupada de ter feito essa pergunta e ainda mais preocupada quando soube
o que tinha acontecido no período entre a consulta e o início da análise. No entanto,
precisei de mais dois anos para entender melhor o significado dessa questão.
Patrick me ligou para dizer que tinha decidido começar uma análise comigo.
Ele teve que esperar dois meses, e nesse período teve uma experiência homossexual.
Por muito tempo fiquei preocupada que ele tivesse interpretado minha pergunta
como uma “sugestão”. Precisou de muito tempo na análise para que pudesse me
dizer que ele já havia tido outras experiências homossexuais anteriormente.
O momento de que eu quero falar agora ocorreu após dois anos de análise.
Patrick começou um relacionamento com uma mulher. Este foi o primeiro
relacionamento que ele teve depois de muito tempo e eu sei como esse período é
difícil para ele. Esse novo relacionamento começou vários meses antes de passarmos
de quatro para cinco sessões semanais. Desde o início de sua análise, ele pediu cinco
sessões semanais, mas eu não estava disponível anteriormente.
Sexta-feira
(Primeira semana de cinco sessões após um mês de interrupção)
Patrick chega e se deita no sofá. Depois de alguns minutos, ele disse que teve
um sonho na noite anterior:
P – Parecia um sonho bom. Era composto de partes diferentes, mas
interligadas pelo fato de acontecerem na mesma casa. Partes da casa
estavam decoradas com antiguidades. Menciona uma planta que
consegue resistir a uma negligência considerável e ainda assim estar
bem. Partes da casa são bem decoradas, outras estão ruínas.
As Grandes controvérsias e o après-coup129
Estou em um grupo. Estamos escondidos em baixo e todos estão com
sede. Vamos buscar água. Há um leão perto da casa e nos escondemos
dele. Eu bebo água, um pouco suja, mas não importa. Ando, em seguida,
por outras partes da casa. Sempre estou me escondendo. Passo por um
quarto que é de Peril (seu irmão, mas a ligação com o meu nome está
presente). Mas há no final desse quarto uma passagem para outra parte
da casa. Mas não posso ser encontrado lá, preciso encontrar outro
caminho porque não posso atravessar o quarto de Peril. Estou, então,
com uma mulher…
Gostei do sonho, da casa, mesmo que eu quisesse evitar a detenção.
Me senti seguro, de uma forma esquisita, excitado, eu estava cheio de
curiosidade. Tudo ali me agradava, tecidos, móveis, tapetes, toda a
atmosfera da casa. Era um pouco degradado e abandonado, mas ainda…
Quando eu vinha hoje para cá, eu não sabia ao certo o horário. Eu sabia,
acho que tem a ver com a quinta sessão, ao efeito que isso me faz.
(Silêncio)
Vir aqui cinco vezes por semana é um privilégio. Sei, ao mesmo tempo,
que não é totalmente assim. A casa é ao mesmo tempo mobiliada e
arruinada.
A – Um contraste entre, por um lado, a sua experiência de uma casa
mobiliada, as cinco sessões semanais, e, por outro, o seu sentimento de
abandono durante a interrupção, a sensação de que você não poderia
estar no quarto de Peril (alusão a meu sobrenome. Significa também
perigo). Isso faz você pensar que você tem que se esconder do leão em
você ou, talvez também em mim…
(Silêncio)
P – Eu acho que o sonho também fala da casa e de ir lá com a Ellen [uma
casa que ele comprou na França]. Quero cortinas vermelhas no meu
quarto. Como as suas. Ellen também tem cortinas vermelhas em seu
quarto. Tem também uma colcha vermelha. Minha mãe tinha cortinas
vermelhas que ela mesma fez. Eram ricas, tinham algo de belo. Lindas,
pesadas, como as suas. Elas fechavam o mundo lá fora…
130
Rosine Jozef Perelberg
Parte do sonho também era como eu. O mundo inteiro estava lá dentro,
partes agradáveis, e partes não tão agradáveis. Eu era o leão, ou a mulher
que assistia as pessoas no meu mundo, como você faz.
Ontem à noite nós fomos nadar. Nós conversamos, Ellen falou. Nós
conversamos sobre você e sobre o terapeuta dela. O terapeuta de Ellen
comentou que ela está com alguém que está em psicanálise. O que é o
oposto dela. Tenho o livro do Bollas e lhe disse para ler um capítulo onde
ele fala sobre as diferentes terapias. Ellen falou de mim com diversas
pessoas do trabalho e todos disseram que não tinham certeza de que
a psicanálise funcionava. Ela então me perguntou por quanto tempo
duraria, e, em seguida, anunciou que não se sentirá ameaçada por você.
Além disso, alguém disse a ela que você é muito atraente. Tudo isso foi
dito em boas condições, estávamos deitados na cama. Ela me perguntou
se eu sabia o que eu quero.
A – Talvez o leão no sonho expresse tudo o que parece ameaçador e
perigoso neste momento. A sedução luxuriante das cortinas vermelhas.
P – Sabíamos que o leão não era uma ameaça, mas ainda era um leão.
Seus melhores dias já haviam passado. Nós queríamos cuidar dele. Darlhe água… Isso me lembra de quando eu observava minha mãe quando
ela estava doente… Se você não se colocar no caminho do leão, ele não
irá machucá-lo. Isso é exagerado, um leão em uma casa.
(Uma longa pausa)
A seguir, fala, devagar e hesitante:
P – Criança, na cama, é difícil dizer isso. Minha mãe estava em
outro quarto com minha irmã e eu dividia o quarto com meu irmão.
Naquela primeira noite, quando acordei, Peril estava bem perto, nos
esfregávamos um contra o outro. Foi tão confuso. Em seguida fizemos
tudo, essa atividade sexual. Isto continuou durante muitos anos. Era
muito confuso com minha mãe e minha irmã no quarto ao lado.
A – Talvez você pensasse que elas também faziam.
(Silêncio)
As Grandes controvérsias e o après-coup131
P – Eu acho que você está certa. Talvez eu tenha pensado isso. Talvez
todos nós pensávamos isso…
A – As cortinas vermelhas excluindo o mundo, sua mãe e irmã no
quarto ao lado, você e seu irmão em seu quarto.
(Silêncio)
A – Isso me lembra de sua experiência sexual com P, pouco antes de
iniciar sua análise, pensando sobre esta cena.
(Silêncio)
P – É extraordinário, não é, como as coisas se repetem. No sonho, eu
estava invisível, assistia a tudo o que estava acontecendo.
É hora de terminar.
Na sessão seguinte, chega muito animado e diz:
P – Eu estava muito animado ontem de ver as conexões entre essa
primeira sessão, o que aconteceu com o Peter, e tudo mais. Hoje de
manhã eu escrevi meu sonho: duas mulheres, pescadores… não podem.
Nos quartos da casa onde eu cresci, minha mãe e minha irmã, eu e
meu irmão… Meu medo de ser completamente esvaziado aqui desde
o início, o que nós falamos no outro dia. Agora tudo se repete com a
quinta sessão…
Pode-se, nos relatos da sessão acima, distinguir pelo menos, as seguintes
dimensões:
1. Um sonho é relatado em uma sessão.
2. A analista começa a interpretar o sonho à luz do aqui e agora, isto é, a
ruptura das férias e a mudança para cinco sessões semanais.
3. O paciente aumenta o campo de suas associações para sua mãe, a
casa de sua mãe, em seguida, retorna para análise. Disse, então, que
sua namorada se sente ameaçada por mim. As cortinas vermelhas
exuberantes são uma condensação da mãe, da namorada e de mim.
Uma interpretação da analista que aponta essas ligações permite ao
paciente continuar as associações com sua mãe.
132
Rosine Jozef Perelberg
4. O paciente, então, introduz a relação sexual com seu irmão, uma
nova informação na análise. A analista liga isso retrospectivamente ao
perigo da sedução das cortinas exuberantes. Os irmãos se envolvem
em uma atividade sexual entre eles, pensando na mãe e na irmã no
quarto ao lado.
5. A analista, em seguida, liga esta cena – no outro quarto – à experiência
homossexual, há dois anos, durante o período em que o paciente
estava esperando para começar a sua análise, imaginando o que estava
acontecendo/aconteceria nesta sala.
6. O próprio paciente continua com uma interpretação da repetição: o
presente e o passado da análise (o aumento de cinco sessões semanais)
e a fase da infância.
A cena entre os irmãos é agora entendida retrospectivamente, como uma
representação do que o paciente pensava acontecer no “outro quarto” – uma cena
primitiva homossexual entre mãe e filha. Isso representou tanto um desejo de
participar da cena como um desejo de se afastar. Eu havia apreendido esse conflito
desde a primeira consulta, sem a profundidade de significado que o processo analítico
agora permitiu acessar – um exemplo que aborda a questão de Le Guen: “como algo
que ainda não existe pode causar um evento que o fará existir?” (1982, p. 532)
Aqui podemos identificar quatro dimensões temporais:
1. o presente da análise
2. o passado da análise, após a primeira consulta
3. a mãe (atemporal)
4. a relação homossexual entre os irmãos durante a infância do paciente.
Retrospectivamente, esses eventos são vividos, agora, como trauma e entendidos de outra forma.
Ambos os exemplos incluem uma cena de um trauma infantil retrospectivamente compreendida em termos do que está acontecendo no aqui e agora da situação transferencial. Na verdade, é em relação à transferência e à interpretação transferencial que podemos descrever e construir o après-coup.
Conclusões
Com o decorrer do tempo, o conceito de après-coup adquiriu diferentes
significados na literatura psicanalítica. Na realidade, foi expandido de forma
minuciosa e descritiva e, finalmente, identificado como o processo que consiste em
As Grandes controvérsias e o après-coup133
pensar retrospectivamente os seus próprios pensamentos e o seu próprio trabalho
(ver, por exemplo, Pontalis, 1977), ou as dimensões retrospectivas e progressivas do
tempo das sessões. Sandler (1983) sugeriu que os conceitos psicanalíticos podem ser
elásticos e podem ser esticados. Para ele, esse tipo de elasticidade desempenha um
importante papel no desenvolvimento da teoria psicanalítica, mas continua a ser o
enigma de como é possível que significações tão díspares sejam amplamente aceitas,
como se essa disparidade não existisse.
Em um recente artigo sobre o conceito de après-coup, Dana Breen mostra, com
relevância, como a interpretação do “aqui e agora” da escola britânica de psicanálise
nunca é um “presente puro”. Ela observou que ambos os movimentos temporais,
progressivo e regressivo, estão fundamentalmente juntos, “sendo um condição
necessária do outro” (Breen, 2003). Ignês Sodré observou muitas semelhanças entre
o conceito de après-coup e o da “interpretação mutacional” (1997). Penso que essas
duas autoras usam o conceito em um sentido descritivo, não no sentido dinâmico
proposto aqui.
Concordo com a visão de que o conceito de après-coup está além da questão
de saber se falamos sobre o passado ou o presente, pois indica claramente que se fala
dos dois ao mesmo tempo em um processo recíproco de reinterpretação: o presente
permite reinterpretar o passado, como o passado deixa sementes que irão florescer
no presente, sem que se trate aqui de predeterminação, como discutido nesta
contribuição. No entanto, também observei como o conceito dinâmico de après-coup
está profundamente enraizado na metapsicologia freudiana.3 Um dos inconvenientes
de tal extensão deste conceito é que alguns aspectos fundamentais da metapsicologia
de Freud desapareceram dos textos mencionados acima: as ligações entre trauma,
castração, repetição e sexualidade infantil. Vemos, aqui, ecos de algumas questõeschave que foram discutidas durante as Grandes controvérsias. Na época, conceitos
como complexo de Édipo e fantasias inconscientes, que hoje têm um significado
particular na terminologia freudiana, foram desenvolvidos para finalmente dizer
algo completamente diferente. Penso que um processo semelhante ocorre agora
para o conceito de après-coup, que se expandiu a ponto de ter muitos significados
diferentes, perdendo alguns dos significados que o conectam à metapsicologia
freudiana. Propus neste trabalho o conceito de après-coup dinâmico que, a meu ver,
está no centro da metapsicologia freudiana.
Minha apresentação tem três partes principais. Na primeira, apresentei meu
entendimento de uma concepção dinâmica de après-coup em Freud. Sugeri que
esta é uma das dimensões essenciais de tempo dentre pelo menos outras sete (a
intemporalidade do inconsciente, a compulsão à repetição, o retorno do recalcado,
3 Entre alguns dos autores que, na Grã-Bretanha, usaram o conceito em um sentido dinâmico, como
defini aqui, chamo a atenção para G. Kohon (1986 , 1999).
134
Rosine Jozef Perelberg
a fixação, o desenvolvimento, a estruturação e a regressão) e que tem ainda o papel
de um conceito dominante, conforme Althusser propõe à respeito do papel do
econômico no obra de Marx. Em outras palavras, ela dá sentido a todo resto.
Utilizei, então, esse conceito para apontar diferenças cruciais nas Grandes
controvérsias de 1942 na Sociedade Britânica. Ao resumir a complexidade das
opiniões expressas ao longo desses debates sobre a questão da temporalidade, surge
um apoio geral da ideia de continuidade genética. Algumas diferenças importantes
também foram observadas.
Notei que o conceito de après-coup pode ter ajudado a resolver a dicotomia
entre fantasias precoces e fantasias tardias já que ele indica a maneira como, na
metapsicologia freudiana, eventos tardios podem dar um novo significado aos
anteriores e, em seguida, emergir com um novo sentido. A descontinuidade
fundamental entre duas diferentes temporalidades é o cerne da noção de aprèscoup em Freud – uma descontinuidade que carrega a centralidade da castração e do
complexo de Édipo, estruturalmente inserida entre as duas noções de tempo.
Em ambos os exemplos clínicos as cenas de sedução infantil traumáticas estão,
retrospectivamente, incluídas em função do que aconteceu em dois momentos da
situação transferencial. No primeiro exemplo, uma pintura em uma exposição evoca
o passado que é compreendido à luz do presente, que também reinterpreta o passado.
No segundo exemplo, uma representação antes do início da análise é incluída,
retrospectivamente, no decorrer da análise de um sonho ocorrido após o período de
férias e na transição de quatro para cinco sessões semanais. Na verdade, é na relação
da transferência e na interpretação da transferência que podemos descrever o aprèscoup. A significação é dada posteriormente. O acting-out pode, portanto, se inserir
no contexto de antecipação do sentido. Todo o processo se desenvolve no setting
analítico – que reúne a transferência, o processo, a interpretação, a contratransferência
– no qual acontece o après-coup (Donnet, 1995, 2005). No entanto, o que define o
conceito de après-coup é também a primazia da sexualidade, a passivação erótica na
transferência, que evoca a cena sexual traumática na infância. No modelo freudiano,
assim como na forma como os exemplos clínicos são entendidos, a sexualidade e as
fantasias sexuais estão ao centro do processo de reelaboração de sentido.
As Grandes controvérsias e o après-coup135
Referências
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Tradução de Mireille Bellelis Rossi4
Revisão técnica de Cristian Holovko5
Rosine Jozef Perelberg
35 Hodford Road
London NW11 8NL
UK
© Cedido pela autora para publicação na ALTER – Revista de Estudos Psicanalíticos
4 Publicitária e produtora da revista Alter.
5 Psicólogo clínico, formado em Psicologia pela puc-sp, Master pela Paris VII Denis-Diderot.
LEITURAS
ALTER – Revista de Estudos Psicanalíticos, v. 30 (2) 139-148, 2012139
O luto nosso de cada dia1
Camila Flaborea2
Se tivéssemos que escolher um único traço para marcar a diferença entre
as análises atuais e o que imaginamos que poderiam ser outrora, é provável
que concordaríamos em situá-la em torno dos problemas do luto.
André Green
Pretendo aqui desenvolver um texto sobre a problemática do luto baseado no
filme A Partida (Japão, 2008, direção de Yojiro Takita). Aqui, a teoria psicanalítica
deve estar no subtexto, no latente, e espero que se possam ouvir ecos de Freud em
“Luto e melancolia” (1917/2006a), e em “A transitoriedade” (1916[1915]/2006b).
Em seguida, apresento sucintamente o enredo do filme fazendo recortes na
trama na tentativa de encontrar fios que conduzam nosso pensamento por meio do
campo que pretendo tratar aqui: o luto e a recomposição – ou ainda a perda e o rearranjo.
A Partida, o filme
O enredo:
Daigo Kobayashi, um violoncelista desempregado devido à dissolução de sua
orquestra, resolve voltar para o interior do Japão, sua cidade natal. Daigo vende
o cello, muda-se com a esposa Mika e ele começa a procurar emprego. Depara-se
com um anúncio no jornal: AJUDAMOS A PARTIR, Agência NK. Não é necessária
experiência. Bons ganhos.
Animados, imediatamente o casal imagina tratar-se de uma agência de turismo e Daigo parte para a entrevista. Chegando lá, descobre tratar-se de uma agência
funerária, mais especificamente contratada para acondicionar mortos, cabendo aos
funcionários limpeza, vestimenta, maquiagem e por fim o acondicionamento no caixão.
1 Agradeço a revisão atenta e carinhosa de Elisa Maria de Ulhoa Cintra do presente artigo.
2 Psicanalista e mestre em Psicologia Clínica (puc-sp).
140
Camila Flaborea
Um pouco receoso, mas seduzido pelos possíveis ganhos, Daigo aceita o emprego, mas não conta à esposa que não se trata de turismo.
Seguem-se momentos divertidos do filme: o primeiro trabalho de Daigo é ser
modelo para o vídeo de divulgação da agência, fazendo o papel de cadáver, com puro
asco e constrangimento. E em seguida acompanha o chefe nos cuidados a uma senhora falecida há duas semanas, já em decomposição. Todo o nojo de Daigo diante
da carne exposta e manipulada, já putrefando é apresentado naqueles instantes, onde
na verdade rimos, guiados pelo roteiro e pela direção, para não chorar. O homem
que é “pó e ao pó retornará”, puro flesh and blood e todo o incômodo que isso nos
traz.
A partir daí, a coisa muda de figura: logo em seguida, sempre levado pelo patrão, homem já experiente no ofício, começa a aprender seu trabalho, que pouco a
pouco vai lhe fascinando.
Começam a ir cuidar de mortos que estão cercados pelos familiares quando
as relações estão à flor da pele. Sem julgamentos ou críticas diante dos conflitos
familiares, fazem o que foram fazer: com absoluto respeito e até mesmo carinho,
limpam, vestem e maquiam os entes queridos das famílias que os contratam. Não são
mais corpos sem nome, sem história, sem vínculos. Aos poucos, vamos percebendo a
personalização do que antes era somente carne e volta a ser membro de uma família.
Mika finalmente descobre qual é o emprego do marido, diz estar enojada por
ele passar os dias tocando em mortos e pede a ele que largue seu trabalho. Ele não
cede e ela o abandona. Percebemos aí a importância que o trabalho vem ganhando
para Daigo.
Algum tempo depois, Mika volta para casa anunciando que está grávida e
mais uma vez pede ao marido que largue o emprego.
Nesse momento, Daigo recebe uma ligação de trabalho: deve ir cuidar do corpo de uma velha conhecida deles, uma senhora da cidade onde crescera e com quem
convivia desde muito pequeno, a dona da casa de banhos. Mika o acompanha e assiste ao marido trabalhar. Com sua sensibilidade, vai vendo além de seu preconceito.
Alguns dias depois, chega à casa dos Kobayashi um telegrama anunciando que
o pai de Daigo havia falecido.
Depois de alguma relutância, resolve ir retirar o corpo numa aldeia de pescadores onde o homem havia vivido por todos esses anos, completamente sozinho.
O luto nosso de cada dia
O artigo
Saí do cinema tão tocada pelo filme que resolvi imediatamente escrever sobre a clínica psicanalítica apoiando-me nas metáforas e imagens propostas por ele.
Escrever sobre o “luto nosso de cada dia”.
Houve a necessidade de fazer recortes na trama, e isso significa que alguns
personagens e episódios ficarão de fora.
Esses recortes que apresento não são lineares. São antes recortes em espiral, na
medida em que cada um deles nos trará uma ampliação de pensamento ao abranger
uma área cada vez maior da vida dos personagens e da trama da história.
Não pretendo nem desejo dar explicações psicanalíticas ao enredo, reduzir
esta obra à visão psicanalítica ou reduzir a própria psicanálise para que caiba no
filme; ao contrário, quero embarcar na viagem proposta pelo filme para pensar a
clínica e consequentemente seu ofício cotidiano, suas possibilidades e seus limites.
O leitor há de perceber que levanto aqui algumas perguntas que não me proponho a responder. Mas perguntas sem respostas têm um lugar nesse filme, em cada
luto e na prática clínica diária da psicanálise. Por que afinal o pai de Daigo o abandonou? Por que sua mãe conservou todos os seus objetos intactos, por que o velho
Kobayashi viveu sozinho até morrer? São algumas das questões que ficam suspensas
no filme. O fato é que mesmo antes de enfrentarmos qualquer grande rompimento,
nos deparamos cotidianamente com o fato de que há todo um universo psíquico do
outro do qual estamos excluídos. Aceitar isso talvez seja um antídoto à melancolia.
Recortes na trama
O primeiro recorte que farei permeia o filme inteiro: o violoncelista.
Em uma das primeiras cenas do filme, a orquestra onde Daigo trabalhava realiza sua última apresentação: com a Nona de Beethoven encerra-se a vida do grupo.
A casa estava praticamente vazia. Uma morte que talvez já se anunciasse há algum
tempo? Certamente não para Daigo que fica paralisado com esse acontecimento. Na
cena, ele está com os olhos esbugalhados e, em seguida, descobrimos que completamente endividado pela compra do instrumento que ele acreditava – no plano do
sonho e do desejo – poder mudar sua vida.
Ele desiste da carreira de músico, vende seu violoncelo e volta para sua cidade
natal.
Seu grande cello, o que mudaria sua vida, ao ser vendido, traz alívio e uma
sensação de que talvez aquele nunca tivesse sido de fato seu sonho, seu talento ou
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142
Camila Flaborea
sua vocação. Agora Daigo inicia sua busca pelo que é de fato próprio, dele mesmo.
Começa abrindo mão de seu cello profissional e voltando para o lugar de sua origem.
Ao chegar à sua casa de infância, reencontra seu primeiro instrumento, seu
violoncelo infantil e junto dele, uma pedra que foi dada a ele por seu pai. Uma pedra
grande e enrugada. Nestes dois objetos encontram-se depositados muitos significados simbólicos e enigmas dessa relação que serão desdobrados ao longo do filme.
Aos poucos, vai se descortinando uma história onde seu pai queria que ele tocasse, talvez até mesmo o obrigasse a tocar. Pai esse que fugiu com uma garçonete – a
família possuía um café – quando Daigo tinha seis anos.
Durante todo o filme, o pai é uma figura embaçada (literalmente, com o foco
distorcido pela câmera), sem rosto. O som do cello é sua presença mais palpável.
Eram dele, e foram conservados intactos, os muitos discos de viloncelistas famosos
que servem de decoração na casa de Daigo e Mika e foram herdados com o café da
família.
“Foi um pai desprezível” diz Daigo.
Mas o som do cello, que permeia o filme todo, é doce e profundo, fazendo-nos
pensar numa ambiguidade de sentimentos; fazendo-nos pensar que através da música pudesse conservar seu pai consigo e ao mesmo tempo pelas palavras desprezá-lo, atacá-lo. Na música e na dedicação que ela exige havia um segredo guardado: o
amor pelo pai. Minha hipótese é de que esse amor é muito mais difícil de ser olhado,
muito mais ameaçador do que o ódio por um pai que abandona a casa e a família.
Voltaremos a isso mais tarde, mas penso ser fundamental que guardemos esse pensamento como um curso de raciocínio. Mas voltemos ao violoncelista, nosso primeiro
recorte.
O primeiro luto que o filme nos traz é o do músico profissional: o que tocava
bem, mas talvez não bem o suficiente; o que sonhava, mas que talvez carregasse um
sonho que não era seu. Esse músico volta à sua casa da infância e ao seu cello da
infância, onde tudo começou. De quem era esse sonho? De quem vinha esse som?
Que casa é essa, herdada dos pais e onde não se precisa pagar aluguel? Seria a casa
da infância a própria infância? Seria a casa que obrigatoriamente temos que visitar
e abandonar para podermos construir e habitar outra casa – a nossa própria vida?
O artista passa então a trabalhar com a morte, ou melhor, com os mortos – e
também com os que ficam, os que veem seus entes partirem.
Através dos cuidados de Daigo e de seu patrão os rituais eram cumpridos.
“Convido a cada um de vocês a limparem seu rosto e depois se despedirem dela.”,
dizia aos familiares da senhora dona da casa de banhos, recém falecida.
Gostaria nesse momento de fazer uma pausa para pensarmos um instante no
ofício, no fazer psicanalítico.
O luto nosso de cada dia
Não seriam essas questões próprias também de um processo analítico? Ora,
não são também, os psicanalistas, possibilitadores ou catalisadores de lutos? Também
não “ajudam a partir”?
É preciso primeiro não ter medo de voltar à primeira casa, é preciso não
ter medo de tocar os mortos. É preciso, com respeito, tocá-los, limpá-los, ouvir o
que têm a dizer sobre eles os que ficaram. Reinseri-los: de corpos inertes a entes
familiares, participantes de uma trama simbólica dentro de uma narrativa que atravessa as gerações.
O ritual feito por Daigo consistia em limpar, vestir, maquiar e acondicionar
o morto no caixão. Daigo usava no corpo um batom preferido, uma peça de roupa
cotidiana ou especial… qualquer objeto que identificasse aquele ser morto com a
vida que ele teve.
Assim, em cada família havia um reconhecimento do morto: depois de pronto, ele se tornava novamente familiar, um membro da história de cada um.
A reação retratada nas cenas é que dessa maneira torna-se mais fácil ou até
mesmo possível deixá-los ir e seguir em frente ou, dizendo de outra maneira, partir
também.
Na tentativa diária da clínica o psicanalista vai ajudando mortos a partir para
que vivos possam partir também, carregando debaixo do braço suas histórias tornadas suas; com suas alegrias, suas perdas, sua solidão e desamparo inalienáveis.
E vai também ajudando os que ficam a conviver com o fato de que quem não está
mais presente em nossas vidas por qualquer tipo de separação, levou com ele áreas
às quais nunca teremos acesso. Podemos apenas construir histórias feitas a partir de
nossos pontos de vista e que muito nos ajudarão a tecer essa nossa narrativa, trama
da qual fazemos parte.
Talvez ao dar uma pedra ao filho, uma pedra grande e enrugada, o velho
Kobayashi estivesse tentando comunicar esses aspectos de sua vida: a solidão, os
conflitos e o contorno que define e também limita. Há coisas que gostaríamos de
dividir, compartilhar, mas não podemos. As rugas da pedra do pai talvez estejam
dizendo de um conflito entre viver uma paixão e estar com a família. Conflito esse
que é impossível de dividir.
O filho dá ao pai uma pedra pequena, lisa, branquinha, própria de seus seis
anos e é essa mesma pedra que Daigo encontra na mão do pai no momento em que
ele morre.
Em uma das famílias que o contrata, Daigo presencia uma briga: um dos
membros acusa o outro pela morte da moça que estava sendo preparada. O acusador
pergunta: “o que você vai fazer com sua culpa? Vai expiá-la fazendo um trabalho
como o desse homem?”
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Camila Flaborea
E o que dizer então da escolha profissional do psicanalista? Certamente os lutos que os analistas ajudam a realizar se desdobram a partir dos lutos realizados por
eles próprios, elaborados tantas vezes em suas próprias análises. Sem isso, como não
cair numa psicanálise sem empatia, asséptica?
E nos questionamos finalmente o que motiva a escolha da profissão de Daigo.
A tentativa de tentar lidar com a perda do pai? De dar um lugar ao pai morto e
reinseri-lo na família? Ou talvez se trate de culpa, como aponta o senhor no velório, diante de tanto ódio despertado por esse abandono sofrido ainda tão pequeno,
por essa rejeição, por terem sido trocados por uma garçonete, ele e sua mãe. Seria o
trabalho de Daigo uma tentativa constante de reparação? Tentativa de reparar o pai
diante de seu ódio? E tentativa de reparar a si próprio, sua história e sua capacidade
de cuidar, de criar beleza a partir da morte?
Há um aspecto que julgo ser fundamental na figura de Daigo: a dificuldade de
acessar o amor ao pai. Daigo fora abandonado por ele. Como abandonar-se ao amor
desse pai? O amor pelo pai aumenta a falta que ele sente, o amor pelo pai aumenta
a culpa por odiá-lo e o medo de destruí-lo. Penso que o luto de Daigo pode acontecer no momento em que ele pode acessar esse amor e integrar seus sentimentos tão
ambíguos.
Um segundo recorte pode ser feito aqui: Mika, mulher de Daigo. Dona de uma
meiguice ímpar no olhar e encantada pelo marido.
Mika acompanha Daigo em sua volta ao interior depois da dissolução da orquestra em que ele trabalhava; cuida dele, da casa, porém sem ter acesso ao interior
de seu marido – “É assim que ele é”, diz a dona da casa de banhos que o conhece
desde pequenino. Seus pensamentos, angústias e até a real natureza de seu emprego
são escondidos por ele, não só da esposa, mas de todos.
“Por que você não me contou?”, Mika pergunta algumas vezes ao marido,
diante de questões importantes que afetariam a ambos. E ele responde: “Porque você
seria contra.”
Dentro dessa distância, há uma jovem que tem que se despedir de um músico
e que se vê casada com um agente funerário. Mika tem asco, o abandona diante da
recusa de Daigo de mudar de emprego. Diante de sua resistência, Mika diz: “Sempre
o segui com um sorriso, mesmo quando estava triste.” Daigo se mantém firme e ela
volta para a casa dos pais.
O fato é que seu marido não é mais o mesmo. O cello (de sua infância) ainda
é tocado de vez em quando, mas as coisas mudaram.
De início, ela é preconceituosa: quem toca em mortos lhe dá nojo, mesmo
sem saber exatamente do que se trata. Na verdade, é uma profissão marginalizada na
cultura japonesa, apesar dos bons ganhos. Sua esposa não é a única a ter essa postura.
O luto nosso de cada dia
Mika volta a procurar Daigo, grávida, ainda insistindo para que ele abandone
a profissão. Será preciso esperar um pouco até que eles possam se reconciliar. Isso
só acontece quando ela vê o marido trabalhando, a maneira como ele lida com os
rituais e o sentido que eles têm. Isso é propiciado pelo falecimento da dona da casa
de banhos. Daigo é chamado pela família da senhora e Mika vai com ele por tratar-se
de alguém que também era de suas relações. Ao ver o marido trabalhar, preparando
a senhora para o acondicionamento em seu caixão a admiração de Mika por Daigo se
restabelece. Essa é a base amorosa que permite a reconciliação do casal.
No entanto, se Mika não tivesse capacidade de abrir mão do antigo marido,
não haveria espaço para o novo Daigo e não teriam podido estar juntos. O novo casal
só veio porque o velho foi embora.
Mas isso não foi rápido nem fácil. Aquele “novo homem” será o pai de seu
filho? Ela não quer, quer o marido de volta, o marido que ela sempre teve. Mas é
impossível. Mika leva um bom tempo para reconhecê-lo novamente como marido e
isso vem no momento em que reconhece novamente seu valor – que até então estava
atrelado ao cellista profissional.
De quantos lutos, pergunto-me, são feitas as relações duradouras? De quantos reencontros falamos quando estamos diante de duplas formadas há longa data.
Não só marido e mulher, mas também amigos, irmãos, mães, pais, filhos, analistas e
analisandos?
Essa pergunta nos remete ao terceiro recorte que desejo fazer no enredo e não
por acaso o deixei para o final. Envolve os outros dois e os amplia: trata-se de Daigo
e seu pai.
Já sabemos que foi o pai que iniciou Daigo no cello. Que ele os abandonou
por uma garçonete quando Daigo tinha apenas seis anos. E que durante todo o filme
Daigo faz referência ao péssimo pai que teve.
Quando, no início do filme, Daigo vende o cello profissional e diz ter sentido
alívio por se desfazer de um sonho que talvez não fosse o seu, anuncia-se a despedida
de algo maior que aquela orquestra.
Depois resolve não ser mais músico profissional e começa a trabalhar na agência funerária: tocar os mortos, limpá-los, embelezá-los, acondicioná-los nos caixões
com a aparência que tinham em vida. Tarefa essa realizada com todo respeito e até
carinho.
Ali já se pode pensar que Daigo resolveu entrar em contato com seu próprio
luto. Talvez se tratasse de abandonar uma manutenção de seu pai consigo (pelo sonho de ser músico) e partir para um movimento de deixá-lo ir e, consequentemente, deixar-se ir para além dele. Mas para realizar tal tarefa, bem sabemos, é preciso
muita intimidade com o morto. No caso dele, um morto que não estava de corpo
presente, mas que acredito se fazia representar por cada um dos corpos cuidados
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Camila Flaborea
por Kobayashi filho. Era o que ele era. Não havia escapatória. Seu pai, sua origem,
sua casa, sua história. Não se pode se livrar de um pai. Amá-lo e/ou odiá-lo são as
alternativas.
Havia também a identificação de Daigo com os parentes que ficaram. Tristes,
revoltados, abandonados e sempre inconformados. Dores que eram aplacadas ao verem seus mortos sendo cuidados e conservados como em vida, com suas aparências
e pertences mais próximos: um batom, um lenço, não importava, qualquer coisa
que os tornassem eles mesmos, aqueles que foram em vida e continuariam a ser nas
memórias de cada um.
Assim, Daigo e seu patrão, através dos cuidados com os corpos inertes, cuidavam dos vivos. Ajudavam a partir quem morria para ajudar a partir quem ficava.
Cada cuidado com um refletia no outro. Cada limpeza no corpo inerte limpava uma ferida no coração que ainda batia. O olhar atento, o cuidado e a valorização
do ritual eram partes integrantes do trabalho de luto da família e dos agentes funerários, através dos cadáveres ali postos.
Um dia, Daigo recebe um comunicado: seu pai falecera. Estava vivendo numa
cidade próxima e morrera sozinho, do jeito que havia vivido. Não havia ninguém
para cuidar de seu corpo agora morto.
Daigo resiste. Não quer assumir essa tarefa. Não quer esse pai. Mika insiste e
espera que ele perceba a importância de seu ato. Como fugir de quem se é? Ela parece perceber isso antes de Daigo e estar junto dele é a ajuda possível nesse momento.
Finalmente, ele e a esposa vão ao encontro do cadáver do pai.
Diante do corpo, e sempre sustentado por Mika, Daigo retira o lençol que
cobre seu rosto e diz que não o reconhece. Em sua lembrança, seu pai tem o rosto
embaçado e aquele ser imóvel não lhe diz nada.
Estar junto dos analisandos e dar suporte a seus encontros muitas vezes é o
único trabalho requerido ao analista, a quem cabe entender quando essa é a justa
medida de sua presença.
Chegam os agentes funerários e de maneira muito atrapalhada e um tanto
bruta começam a manipular o corpo. Daigo se irrita-uma irritação do filho ou do
profissional? Nesse momento, penso que um não existe sem o outro.
O cello (sonho do pai) foi substituído pelo ofício de ajudar a partir e, em consequência, ajudar a seguir em frente.
Daigo se propõe a acondicionar o pai. Fico com a impressão de que todos os
outros cadáveres eram um ensaio para este. Em todos os outros, um pouco deste.
Daigo começa a manipular o pai e encontra em uma de suas mãos enrijecidas
a pedra dada por ele ao pai quando menino. Maneira pela qual se comunicavam:
eram pai e filho. Sinal talvez de seu último pensamento, talvez ainda uma última
O luto nosso de cada dia
tentativa de comunicação, numa região da alma onde não se pode contar com as
palavras. Essa ligação preservada opera uma transformação:
Daigo limpa e barbeia seu pai e olhando seu corpo inerte, com ele já sob seus
cuidados, de repente o reconhece. Pelo reconhecimento de uma ligação que foi preservada, penso que seu amor e seu ódio puderam ser integrados e o luto pode ser
iniciado.
Em uma cena onde o pai tem o rosto embaçado pelo tempo e pelo ressentimento, o foco vai se instalando e Daigo cai em prantos sob o olhar de Mika, podendo
finalmente reconhecer e chorar a perda do pai. Podendo, apesar da raiva, para além
da raiva, entrar em contato com a dor de quem ama e está arriscado a perder; a tristeza de ser deixado pelo pai amado, pelo pai querido, pelo pai herói do menino de
seis anos.
É ele, o pai, quem agora precisava ser cuidado. Era ele o frágil. Daigo percebe
a passagem do tempo: Não era mais o menino apesar desse garoto ainda pulsar em
suas lembranças, era já um homem que está para se tornar pai olhando para outro
homem que foi seu pai. Houve uma humanização, um mergulho no rio do tempo
que voltou a passar para ambos.
Mas poder chorar pela perda do amor, pela raiva sentida, pela impotência
insuperável, só foi possível com todo o trajeto feito até aqui: inicialmente dedicar-se
a ser quem o pai queria que ele fosse (o cello), depois ter coragem de renunciar a isto
e voltar-se para os mortos; para a reinserção dos mortos dentro do campo familiar
através da transformação que ele operava em cada corpo, do resgate que ele operava
em cada corpo. Ajudar a partir cada alma – se é que existe mesmo um depois para
quem se vai – e iniciar a construção de um depois para cada familiar.
Tocar o pai odiado, descobri-lo amado, sozinho e frágil. Fonte para sempre
de perguntas que não terão respostas e conformar-se com isso. Abrir mão dessas
respostas que morrem com ele. Poder restaurar suas lembranças mais leves e carinhosas, não como substitutas, mas somando-as à falta que o pai lhe fez e faz.
Com o velho Kobayashi já pronto para ser posto no caixão, Mika lembra ao
marido de por a pedra com ele. Daigo pega a pedra e indica a Mika que ela será do
filho que eles esperam.
E assim o pai é reinserido na história daquela família. É possível seguir adiante sem melancolia. Há algo de bom nesse pai abandonador que foi restaurado em
Daigo e pode ser repassado ao filho. Há algo de amoroso onde se pode abandonar-se.
Haverá uma história de gerações que se comunicam pelas pedras onde esse bebê será
inserido.
Para que o novo surja é preciso que haja espaço. Para abrir espaço é preciso
que lutos sejam feitos. Do pai ideal para Daigo, do marido ideal para Mika. E, para
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Camila Flaborea
acolherem o filho real é preciso que renunciem ao filho ideal e aos pais ideais que
gostariam de ser.
Outros muitos lutos virão para a família Kobayashi, assim como para cada um
de nós. E provavelmente só poderemos acompanhar os lutos de nossos analisandos
até onde tenha ido nossa capacidade de lidar com nossos próprios lutos. Ou, falando
por outro ponto de vista, assim com o Daigo, quantos lutos não estamos ajudando a
atravessar para que isso nos ajude a fazermos nossas próprias travessias?
Fazer um luto não é esquecer. Trata-se, ao contrário, de apropriar-se da história, mas não se fixar nela.
Trata-se de dar sentido à partida, acrescentando-a à história vivida, como
mais uma camada de tinta que se põe no quadro, e que aumenta a perspectiva e a
complexidade da figura. É colar-se a si mesmo como um mosaico que ganha um
pedaço a mais.
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Rio de Janeiro: Imago. (Artigo original publicado em 1917).
Freud, S. (2006b). A transitoriedade. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas
completas de Sigmund Freud. (Vol. 14, pp. 317-319). Rio de Janeiro: Imago. (Artigo original
publicado em 1916[1915]).
Camila Flaborea
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RESENHAS
ALTER – Revista de Estudos Psicanalíticos, v. 30 (2) 151-154, 2012151
A questão infinita
Autor: Christopher Bollas
Editora: Artmed, 2012
Resenhado por: Cláudia Aparecida Carneiro1
A questão infinita é uma exploração minuciosa do princípio fundamental da
psicanálise – existe pensamento inconsciente – e de como o analista e o analisando
se expressam inconscientemente por meio da associação livre.
Proponho um rápido passeio para introduzir a proposta do autor: imagine-se,
leitor, numa viagem de trem, sentado junto à janela, a olhar a paisagem que muda
continuamente. As imagens suscitam impressões, emoções. Um vilarejo evoca uma
cena da infância, interrompida pela súbita entrada do trem num túnel e a emergência
de pensamentos perturbadores. Sem entender o que o aterrorizou, a saída do túnel é
tranquilizadora e a saudade de um tempo incerto o inquieta. Você se lembra de uma
conversa ocorrida na véspera e deseja reparar um mal-entendido.
A viagem de trem foi usada por Freud como modelo de sua teoria da associação
livre. A cada paisagem (imagem), criamos linhas de pensamento que se ramificam
em diferentes direções e uma pequena parte do que pensamos inconscientemente é
captada pela consciência. Nesse livro, Christopher Bollas retoma os postulados de
Freud sobre o inconsciente e a importância técnica da associação livre para defender
que o método freudiano estabeleceu os trilhos por onde esses trens de pensamento
livre, ativos em nossa mente, poderiam viajar, tentando encontrar expressão.
Com base no método da livre associação (e atenção uniformemente suspensa)
e estudos aprofundados da clínica psicanalítica, Bollas sustenta sua ideia central: na
posição de escuta, o analista deve adotar uma atitude semelhante à do analisando e
deixar-se levar pela corrente de seus próprios pensamentos inconscientes. Ao facilitar a expressão do pensamento inconsciente, a dupla analista-analisando poderá
obter uma quantidade suficiente de informações que colocará o analista em posição
de ajudar seu paciente a descobrir os padrões de pensamento ou comportamento
que causam sofrimento mental.
O processo psicanalítico e a associação livre vêm sendo tratados por
Christopher Bollas numa série de publicações, a qual inclui The mystery of things
(O mistérios das coisas), de 1999, e The evocative object world (O mundo do objeto
evocativo), de 2008, cuja leitura é recomendada para acompanhar A questão infinita.
Neste mais recente trabalho, ao resgatar a compreensão original de Freud sobre o
1
Membro associado da Sociedade de Psicanálise de Brasília.
152Resenhas
pensamento inconsciente, o autor criticamente observa que a psicanálise concedeu
um privilégio desnecessário ao inconsciente reprimido, em detrimento do descritivo, acessível pela livre expressão das cadeias associativas na sessão psicanalítica.
Bollas restaura a importância do conceito freudiano de inconsciente não reprimido em articulação com conceitos próprios, como o conhecido não pensado, o
objeto evocativo e a criatividade do inconsciente. Mas a ênfase desse trabalho está na
clínica. A partir dos aspectos teóricos abordados nos seis primeiros capítulos, dedica
a segunda metade do livro à apresentação de três casos clínicos e faz uma análise
detalhada e criteriosa do diálogo das pacientes “Arlene”, “Caroline” e “Annie” com
seus analistas, ao longo de seis sessões comentadas.
Frase após frase, intercaladas por silêncios, movimentos das pacientes, intervenções dos analistas, Bollas desfia meticulosamente o material das sessões e vai tecendo diversas linhas de pensamento para depois articulá-las numa discussão rica
de detalhes sobre o trabalho inconsciente da dupla analítica. Mas para acompanhar
as sessões comentadas e tirar proveito desse minucioso trabalho que Bollas realiza,
é necessário assimilar sua proposta teórica, muito bem encadeada nos capítulos iniciais, sobre como os pensamentos inconscientes se expressam e como o analista pode
“ouvi-los” e compreender, em retrospectiva, sua lógica sequencial. O modo coloquial
e agradável com que Bollas fala ao leitor torna fácil esta tarefa.
Inicia apontando a importância de se distinguir a teoria da repressão da teoria
da sequência de Freud. Como fato clínico, a teoria da repressão concentra-se no retorno do reprimido e tornou-se sinônimo da ideia de conflito freudiano. Por razões
que Bollas argumenta mais detalhadamente no livro, os psicanalistas ignoraram o
chamado inconsciente não reprimido, abandonando a teoria mais radical de Freud,
de que há uma lógica sequencial, inerente ao pensamento inconsciente, na linha de
ideias aparentemente desconectadas. Propõe o autor: “Se aprendermos a ouvir essa
sequência, descobriremos um discurso inconsciente mais rico e mais complexo do
que o encontrado no significante único e ocasional que carrega uma determinada
promessa fonêmica” (p. 17).
O capítulo 1, intitulado “Este mundo sem fim”, Bollas discorre sobre as descobertas de Freud em “A interpretação dos sonhos” (1900/1987b), especialmente que
os pensamentos oníricos se ramificam em todas as direções e não podem, pela sua
natureza, ter conclusões definitivas. Ressalta que Freud optou pelo inconsciente dinâmico – com suas dimensões sexuais e agressivas conflituosas – e desviou a atenção
das implicações complexas do mundo que descobrira. Admitia que nunca poderia
contar a história do inconsciente.
No capítulo 2, “Uma ligação especialmente intrínseca”, o autor prossegue com
o livro dos sonhos de Freud para descrever o inconsciente atemporal e sua lógica sequencial, mais reveladora do que o momento embaraçoso anunciado pelo ato
Resenhas153
falho. Pois a voz do inconsciente se revela a partir da reunião de muitas linhas de
pensamento numa lógica serial em que emergem o desejo, a ansiedade, a memória e
o conflito do sujeito.
Os três capítulos seguintes tratam mais profundamente do trabalho da associação livre e da forma de escuta do analista, apresentados com detalhes técnicos,
metáforas e recorrências às lições de Freud. O capítulo 3, “Tecendo na fábrica de
pensamento”, mostra como a escuta do analista pode costurar as linhas invisíveis
de pensamentos que surgem na sessão, em suas diferentes formas de representação,
e criam uma tapeçaria de significados. O próximo capítulo, “A escuta”, especifica o
papel desempenhado pelo inconsciente receptor. Em estado mental receptivo, o analista poderá, com o tempo, decodificar as associações livres do analisando. Operando
em um modo de repressão, numa escuta seletiva, o analista seria incapaz de receber
as mensagens inconscientes do analisando dessa forma.
Bollas reporta ao ensaio de Freud “Dois artigos de enciclopédia” (1923/1987a),
para ele a narrativa mais lúcida sobre como a psicanálise funciona. Nesse ensaio
Freud sugere ao analista um estado mental de atenção uniformemente suspensa, abstendo-se da memória e da previsão, apenas abrindo caminho à escuta inconsciente.
Comenta Bollas:
Compare essa postura com a visão de que o analista sempre deve observar a
transferência, ou acompanhar os atos falhos do sujeito, ou seguir a ópera da
projeção ou identificação projetiva. Essa seletividade pode ser compreendida
como uma defesa contra a complexidade de uma sessão, ao passo que o método inovador de escuta de Freud respeita essa complexidade e incentiva o analista a encontrar o analisando em uma área intermediária, onde compartilham
o mesmo estado mental. (p. 33)
Finalmente, no capítulo 6, “Registrando o inconsciente”, o autor apresenta sua
tipologia da sequência inconsciente, constituída de categorias diferentes (linguística,
corporal, sônica, relacional, e assim por diante) e subcategorias denominadas ordens. A cadeia de pensamentos verbais que surge da fala do paciente é apenas uma
das muitas formas de sequência. Cada qual tem sua estrutura lógica: na categoria do
relacional, estariam as ordens da transferência e contratransferência. A categoria visual poderia incluir as ordens imaginária e dramática; na categoria sonora, as ordens
da altura, ritmo, cadência e modulação, ou seja, o modo como os sons do paciente
mobilizam o analista.
Como numa partitura sinfônica e suas várias pautas, o movimento sequencial
simultâneo das diversas “linhas de pensamento” em categorias distintas forma um
tipo de harmonização do pensamento. Este pode ser captado, porque, afirma Bollas,
154Resenhas
“o inconsciente do analista conhece as diferentes categorias de pensamento e sabe
como escutar padrões de expressão” (p. 39). Portanto, o conselho de Freud de “seguir o fluxo do inconsciente do paciente com seu próprio inconsciente” não é apenas
sensato, é vital.
Nesse ponto, o leitor estará preparado, enfim, para passar à leitura das sessões
das três pacientes com os comentários de Bollas. Ele sugere que antes o leitor veja
as sessões sem os comentários, encontradas no apêndice do livro. Que leia e releia
seguindo o conselho de Freud, sem tentar descobrir o que as analisandas querem
dizer com o que dizem. O passo seguinte é um encontro do leitor com o produto de
pensamentos inconscientes das pacientes, de seus analistas e do autor desse livro.
Nos capítulos 7 a 9, após um preâmbulo sobre cada analisanda, as sessões de
“Arlene”, “Caroline” e “Annie” são dispostas em uma coluna, e ao lado, em outra
coluna, Bollas comenta as falas, movimentos, silêncios, buscando seguir a lógica sequencial das sessões. Ao final de cada sessão, faz uma discussão sobre as perguntas
implícitas que a paciente apresenta, a partir das cadeias associativas reveladoras de
seu inconsciente. O capítulo 10 se concentra em observações sobre o trabalho inconsciente da dupla e a importância de o analista persistir no questionamento que
beneficia o processo analítico, em oposição à interpretação-resposta apressada que
o interrompe.
Ao finalizar, Bollas recorre a uma investigação de diálogos contidos em “Édipo
Rei” e Hamlet para reforçar o argumento dessa obra: mais do que obter respostas, a
força do questionamento leva a mente a pensar sobre um conhecimento impensado,
e a força desse conhecimento inspira a curiosidade intrapsíquica. Esta é, nas palavras
do autor, uma questão infinita.
Referências
Bollas, C. (1999). The Mystery of Things. New York, NY, London: Routledge.
Bollas, C. (2008). The evocative object world. London: Routledge.
Freud, S. (1987a). Dois artigos de enciclopédia. In S. Freud, Edição Standard Brasileira das obras
psicológicas completas de Sigmund Freud. (Vol. 18). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original
publicado em 1923)
Freud, S. (1987b). A interpretação dos sonhos. In S. Freud, Edição Standard Brasileira das obras
psicológicas completas de Sigmund Freud. (Vols. 4 e 5). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original
publicado em 1900)
Cláudia Aparecida Carneiro
SHIS QI 09 Bloco E-II sala 309
Ed. Centro Clínico do Lago – Lago Sul
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ALTER – Revista de Estudos Psicanalíticos, v. 30 (2) 155-156, 2012155
Balint em sete lições
Autor: Luís Claudio Figueiredo e cols.
Editora: Escuta, São Paulo, 2012
Resenhado por: Maria Teresa Lopes1
Balint em sete lições é um livro de Luís Cláudio Figueiredo e tem como colaboradoras Gina Tamburino e Marina Ribeiro. Esse livro nos levará a conhecer conceitos de Michael Balint pouco conhecido entre nós.
Os textos são traduzidos diretamente e comentados pelo autor. Alguns desses
textos não foram traduzidos para o português o que torna a obra inédita. O livro é
dividido em “lições” que vão descrevendo, passo a passo, o pensamento do autor que
vem sendo estudado. Em cento e sessenta e nove páginas o leitor achará um Balint
livre e criativo, que desde 1930 já descrevia os pacientes que hoje ocupam nossos
consultórios.
“O objetivo deste livro não é o de fazer uma introdução genérica às teses de
cada autor, mas um contato denso com o seu estilo, sua criatividade, sua forma específica e particular de produção de ideias e teses”. E assim ele também deve ser lido, de
forma densa porém criativa. Ao entrar em contato com essa obra o leitor depara-se
com alguns pacientes que chegam ao seu consultório, com discursos muito parecidos com o que já em 1930 Balint descrevia.
De forma bastante didática e contundente, o autor vai dando corpo aos conceitos elaborados por Balint, que se preocupava, tal qual a Escola Húngara, também
conhecida como Escola de Budapeste, com o amor materno, as relações primitivas
entre recém-nascidos e seus ambientes e suas regressões.
Em cada uma das lições apresentadas o leitor entrará em contato com os
pensamentos críticos de Balint, que não têm “adesões e aderências”, é um pensador livre, que transita por Freud e Ferenczi, com interlocuções com Ana Freud e
Melanie Klein, sem, no entanto, se deixar levar pelas influências políticas e constrói
seus próprios conceitos que, na época, não foram muito reconhecidos, mas hoje, depois de muitos anos, podemos considerar seus textos como contemporâneos. Balint
um psicanalista que em 1930 já falava na mudança de perfil da “clientela” analítica,
assumindo novas feições. E hoje confirmamos sua observação. Através dos textos vamos entrando em contato com nossos pacientes borderline, com a chamada clínica
do vazio, com pacientes que não se encontram, que têm um discurso vazio e muitas
vezes sem lugar. Com sujeitos completamente des-investidos, aos quais precisamos
ajudar a se reinventar. Sujeitos com “uma espécie de inapetência vital”. Ao mesmo
1 Psicanalista pela SBPRJ. Co-Coordenadora do Projeto Travessia da sbprj, desenvolvido em parceria com a ong Roda Viva na Chácara do Céu, Borel -Tijuca, Rio de janeiro.
156Resenhas
tempo em que observa essas mudanças nos pretensos pacientes, ele também discute
questões da técnica e o que irá suscitar na dupla. Desde 1949 Balint já percebia o
campo analítico como “algo” de muitas mazelas, principalmente no que diz respeito ao analista. Lembrando-nos, também, que nessa época aconteciam na Sociedade
Britânica as controvérsias entre anafreudianos e kleinianos.
É interessante pensarmos o quanto Balint expandia o conhecimento psicanálitico, legitimando o que hoje fazemos quando levamos esse conhecimento para as
comunidades. Naquela época já fazia a interface com a medicina e o serviço social.
Esse livro, embora pequeno, é um grande livro. A sua leitura é densa, porém
completamente contagiante e instigante. O autor nos leva realmente a ter uma boa
conversa com ele e com Balint.
Penso que os psicólogos e, principalmente os psicanalistas, têm muito a ganhar com a sua leitura. Não só pelo grandioso caminho que nos abre, mas também
porque nos leva a uma reflexão sobre a clínica que queremos e a que fazemos.
Luís Claudio Figueiredo, carioca de nascença e Paulista de consequência, professor da cadeira de Psicologia Clínica da usp, da puc-sp, sensível à escuta psicanalítica e com um conhecimento aprofundado de vários referênciais teóricos, os quais
maneja e distribui aos seus alunos, e leitores, entre outros, que o venham a escutar.
Dedica-se atualmente a compreensão da clínica contemporânea com trabalhos riquíssimos que muito nos ajudam a refletir sobre o fazer psicanalítico na tão dita
contemporaneidade. Autor de vários livros, dos quais vou citar dois que a meu ver
são elementares na leitura psicanalítica, além do resenhado, que são: Psicanálise –
elementos para uma clínica contemporânea (Editora Escuta, 2003) e As diversas faces
do cuidar – novos ensaios de psicanálise contemporânea (Editora Escuta, 2009). Este
último contempla a questão dos trabalhos da psicanálise e interfaces com o social, o
que aproxima muito com o que Balint desenvolvia em épocas remotas.
© ALTER – Revista de Estudos Psicanalíticos
Orientação aos colaboradores
1.0 Linha Editorial
Alter – Revista de Estudos Psicanalíticos é uma publicação da Sociedade de Psicanálise
de Brasília (SPB), que é filiada à International Psychoanalytical Association (IPA),
à Federación Psicoanalítica de America Latina (FEPAL) e à Federação Brasileira de
Psicanálise (FEBRAPSI).
1.1 Dados Históricos
Idealizada por Virginia Leone Bicudo, pioneira da Psicanálise na capital do Brasil, Alter
foi editada, pela primeira vez, em 1970, propondo estabelecer elos entre a experiência da
Universidade de Brasília e outras instituições interessadas em estudos psicodinâmicos.
À época, a revista teve como subtítulo Jornal de Estudos Psicodinâmicos, posteriormente
alterado para Jornal de Estudos Psicanalíticos, mantido até o último número publicado
em 2006. Em 2007-8, Alter passou a denominar-se Revista de Estudos Psicanalíticos.
1.2 Objetivos
Divulgar a produção psicanalítica, incentivando a reflexão e a discussão das questões
específicas da área, bem como as interfaces da mesma com as outras áreas do
conhecimento.
1.3 Do material destinado à publicação em Alter
Os trabalhos encaminhados para publicação em Alter deverão ser inéditos. Excetuamse aqueles publicados em anais de congressos, simpósios, reuniões científicas, mesasredondas ou boletins. Outras exceções poderão ser aceitas, após exame e autorização do
corpo editorial.
1.4 Aspectos éticos
1.4.1 O artigo com relato clínico deverá ser objeto de toda atenção do autor para que
normas do sigilo profissional sejam rigorosamente respeitadas, especialmente no
que se refere à proteção da identidade de pacientes mencionados no texto.
1.4.2O artigo não poderá conter, ou mesmo insinuar, argumentos considerados
ofensivos a terceiros.
1.4.3O conjunto dos conceitos, critérios e condutas adotados no artigo é de total
responsabilidade do autor.
2.0 Encaminhamento dos trabalhos
2.1 Preparação dos originais
Alter – Revista de Estudos Psicanalíticos adota a APA (American Psychological Association)
para as regras bibliográficas e uniformização de artigos. Os originais deverão ser digitados
utilizando-se o editor de textos Word e a fonte Times New Roman, corpo 12, espaço
duplo entre linhas (incluindo tabelas e referências). A extensão do trabalho não deverá
ultrapassar 40.000 (quarenta mil) caracteres, incluindo os espaços. As resenhas deverão
ser apresentadas com a extensão máxima de 10.000 (dez mil) caracteres, incluindo os
espaços.
Os trabalhos a serem submetidos ao conselho editorial da Alter deverão ser encaminhados
como anexo de mensagem eletrônica à [email protected] solicitando sua publicação.
Para outros esclarecimentos, os interessados deverão dirigir-se à Secretaria da SPB:
Tel: 61 3248-2309
Figuras, tabelas e fotos devem constar de arquivo separado, em formato tiff.
3.0 Avaliação dos trabalhos
3.1 O corpo editorial da Alter é constituído por membros da Sociedade de Psicanálise de
Brasília e tem como corpo de consultores psicanalistas membros de outras sociedades
componentes da IPA, bem como psicanalistas de reconhecida competência.
3.2 Os manuscritos recebidos pelo corpo editorial, para fins de publicação, serão
inicialmente submetidos à avaliação de sua forma, em concordância com as normas
gerais de publicação. Em seguida, serão submetidos a dois membros do corpo de
consultores para uma avaliação cega. Os autores dos manuscritos, também, não terão
conhecimento da identidade dos consultores.
Os autores receberão os pareceres com eventuais sugestões de modificações
para as devidas providências. Em caso da não implementação das modificações
eventualmente sugeridas, os autores deverão enviar a justificativa. No caso de dois
pareceres contrários, caberá ao corpo editorial a decisão final acerca da publicação,
ou não, do manuscrito enviado.
4.0 Normas gerais
4.1 O texto encaminhado para avaliação deverá apresentar uma folha de rosto contendo:
• Título do trabalho, resumo e palavras-chave em português, inglês e espanhol.
• Nome completo do(s) autor(es).
• Filiação institucional e/ou titulação acadêmica.
• Endereço completo.
• Informações sobre a origem do texto (apresentação em eventos científicos,
derivação de trabalhos acadêmicos etc).
4.2 A folha de rosto será destacada e mantida em sigilo pelo editor para preservar a
identificação do autor.
4.3 O texto principal também deverá ser acompanhado de resumos (no máximo 150
palavras) em português, inglês e espanhol e de palavras-chave nas mesmas línguas
(no máximo 7 palavras).
assinaturas
Pedidos de assinatura e números avulsos:
• Assinatura individual
(compreendendo 2 exemplares, excluindo números especiais e monografias):
À vista: R$ 60,00
Exemplar avulso: R$ 35,00
Exemplares de anos anteriores: consultar a secretaria da SPB
• Assinatura para o exterior (porte mínimo): US$ 40
• Números avulsos para o exterior: U$ 20
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